TEXTOS DE L. BOFF, Teólogo e Filósofo

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Edição 174, janeiro 2022
'EU SÓ SOU EU ATRAVÉS DE VOCÊ':UBUNTU: UMA SAÍDA DA BARBÁRIE

A pandemia mostrou uma abissal desigualdade mundial e uma falta cruel de solidariedade para com aqueles que não podem fazer o distanciamento social e deixar de trabalhar senão não têm o que comer. Para sermos concretos: não abandonamos ainda o mundo da barbárie e se já a havíamos deixado, retornamos a ele. O nosso mundo não pode ser chamado de civilizado porque um ser humano não reconhece e acolhe outro ser humano,independente do dinheiro que carrega no bolso ou tem depositado no banco ou de sua visão de mundo e de sua inscrição religiosa. A civilização surge quando os seres humanos se entendem iguais e decidem conviver pacificamente. Se isso é assim, estamos ainda na antessala da civilização e navegamos em plena barbárie. Esse cenário é dominante no mundo de hoje, agravado ainda mais pela intrusão do Covid-19.Ele ganhou sua mais perversa expressão pela cultura do capital,competitiva,pouco solidária, individualista, materialista e sem nenhuma compaixão para com a natureza.

Neste contexto vexaminoso duas alternativas nos podem salvar: a solidariedade e o internacionalismo.

A solidariedade pertence à essência do humano, pois se não tivesse havido um mínimo de solidariedade e de compaixão, ninguém de nós estaria aqui falando destas coisas. Foi necessário que nossas mães nos tivessem solidariamente acolhido, nos abraçado, alimentado e amado para podermos existir. Sabemos pela bioantropologia que foi a solidariedade de nossas ancestrais antropoides que se tornaram humanos e, com isso, civilizados, quando começaram a trazer a comida ao grupo, repartirem-na solidariamente entre si e exercerem a comensalidade. Esta ação continua ainda hoje, quando muitos grupos, especialmente os Sem Terra, se mostraram solidários distribuindo dezenas de toneladas de agro alimentos e muitas centenas de marmitas para saciar a fome de milhares nas ruas e periferias de nossas cidades.

O internacionalismo acompanha a solidariedade.Ele parece óbvio: se o problema é internacional,deveria haver também uma solução internacionalmente consertada. Mas quem cuida do internacional? Cada país cuida de sei mesmo como se não houvesse nada para além de suas fronteiras. Ocorre que atualmente inauguramos a fase nova da história da Terra e da Humanidade: a fase planetária, a da única Casa Comum. Os vírus não respeitam as fronteiras nacionais. O Covid-19 atacou a Terra inteira e ameaça a todos os países sem exceção. As soberanias mostraram-se obsoletas. Que seria dos velhinhos da Itália, gravemente infectados pelo Covid-19, se não fosse a solidariedade de Angela Merkel da Alemanha que salvou a grande maioria deles? Mas isso foi uma exceção para mostrar que é pela superação do nacionalismo envelhecido em nome do internacionalismo solidário que poderá ser encontrado um caminho de saída para a nossa barbárie.

É nesta perspectiva que consideramos inspiradora uma categoria fundamental, vinda da África. Muito mais pobre que nós, ela é mais rica em solidariedade. Esta vem expressa pela palavra Ubuntu, que significa: eu só sou eu através de você. O outro, portanto, é essencial para que eu exista enquanto humano e civilizado. Inspirado pelo Ubuntu, o recém-falecido arcebispo anglicano Desmond Tutu encontrou, para a África do Sul, uma chave para a reconciliação entre brancos e negros, na Comissão da Verdade e da Reconciliação.

Como ilustração como o Ubuntu está enraizado na culturas africanas, consideremos este pequeno testemunho: um viajante europeu e branco se extasiou com o fato de que, sendo mais pobres que a maioria, os africanos eram menos desiguais. Quis saber o porquê. Idealizou um teste. Viu um grupo de jovens jogando futebol num campo cercado de árvores. Comprou um bela cesta de diversos e coloridos frutos e a colocou no alto de um pequeno morro. Chamou os jovens e lhes disse: “Lá no alto há uma cesta cheia de saborosos frutos. Vamos fazer uma aposta: vocês se coloquem todos em fila e quando der o sinal, comecem correr. Quem chegar primeiro lá no alto, ganhou a cesta de frutos e poderá comer sozinho quanto quiser”.

Deu o sinal de partida. Coisa curiosa: todos se deram as mãos e juntos correram para o alto, onde estava a cesta. Começaram a saborear solidariamente os frutos.

O europeu, estupefacto, perguntou: por que fizeram isso? Não era o primeiro a chegar e poder comer sozinho os frutos? Todos gritaram unanimemente: Ubuntu! Ubuntu! E um jovem, um pouco mais idoso, lhe explicou:“Como um de nós poderia ficar feliz sozinho se todos os demais ficariam tristes?” E acrescentou:

“Meu senhor, a palavra Ubuntu significa isso para nós: “Eu só posso ser eu por meio do outro”. “Sem o outro eu não sou nada e ficaria sempre sozinho. Sou quem sou porque sou através dos outros. Por isso que repartimos tudo entre nós, colaboramos uns com os outros e assim ninguém fica de fora e triste. Assim fizemos com a sua proposta. Comemos todos juntos. Todos ganhamos a corrida e juntos desfrutamos dos bons frutos que nos trouxe. Entendeu agora?

Este pequeno relato é o contrário da cultura capitalista. Esta imagina que alguém é tanto mais feliz quanto mais pode acumular individualmente e usufruir sozinho. Por causa desta atitude reina a barbárie, há tanto egoísmo, falta de generosidade e ausência de colaboração entre as pessoas. A alegria (falsa) é de poucos ao lado da tristeza (verdadeira) de muitos. Para viver bem, em nossa cultura, muitos têm que viver mal.

Entretanto, por todas as partes na humanidade, estão fermentando grupos e movimentos que ensaiam viver essa nova civilização da solidariedade entre os humanos e também para com a natureza. Cremos que começou a construção da Arca de Noé. Ela nos poderá salvar se o Universo e o Criador nos concederem o tempo necessário. Fora da solidariedade e o do sentido internacionalista pereceremos em nossa barbárie.

DE QUANTA TERRA PRECISA UM HOMEM?

Numa roda, cercado de rústicos peões de sua fazenda Yasnaya Polyana, Léon Tolstói (1828-1910) o grande escritor russo, contou-lhes a seguinte estória que eu me permito resumir para exemplificar como funciona a cabeça de um capitalista.

“Havia um camponês pobre mas muito desejoso de possuir mais a mais terra para cultivar e ficar rico. Pensou: “Vou fazer um pacto com o diabo. Este vai me dar sorte”, disse ele à mulher, que torceu o nariz e advertiu-o: “Meu marido, cuidado com o diabo, nunca sai coisa boa fazendo um pacto com ele; essa sua vontade de ficar rico, vai ainda pô-lo a perder”.

Mas, por insistência do marido, resolveu acompanhá-lo.Com tal que partiram, levando poucos pertences.

Souberam que longe daí havia um grupo de ciganos que vendiam terras baratas. Para aquelas paragens rumou o casal. Chegando l, eis que o diabo já estava de pé, todo apessoado, dando ares de um influente mercador de terras. O camponês e sua mulher cumprimentaram educadamente os ciganos. Quando iam expressar seu desejo de adquirir terras deles, o diabo, sem cerimônias, logo se antecipou e disse:

“Bom senhor, vejo que veio de longe e é tomado por um grande desejo de fazer fortuna. Tenho uma excelente proposta para você, melhor do que aquela dos ciganos. Faço-lhe a seguinte proposta: você deixa uma quantia razoável de dinheiro numa bolsa aqui onde estou de pé. Se você percorrer um território durante o tempo de um dia, do nascer ao pôr do sol, e estiver de volta antes de o sol se pôr, toda a terra percorrida será sua. Caso contrário perderá as terras percorridas e o dinheiro da bolsa”.

Os olhos do camponês, ávido por riqueza, brilharam de emoção e disse:

“Acho uma excelente proposta. Tenho pernas fortes e aceito. Amanhã bem cedo, ao nascer do sol, ponho-me a correr e todo o território que minhas pernas puderem alcançar, será meu”.

O diabo, sempre malicioso, sorriu todo faceiro.

De facto, bem cedo, mal o sol rompeu a fímbria do horizonte, o camponês, tomado de cobiça, se pôs a correr. Correu e correu muito. Pulou cercas, atravessou riachos e, não contente, sequer parou para descansar. Via diante de si uma ridente planície verde e logo pensou: “aqui vou plantar trigo em abundância”. Olhando à esquerda, se descortinava um vale muito plano e pensou: “aqui posso fazer toda uma plantação de linho para dar e vender”.

Subiu, ofegante, uma pequena colina e eis, que lá em baixo se abria um campo de terra virgem. Logo pensou: “quero também aquela terra. Aí vou criar gado e ovelhas e vou encher as burras com muito dinheiro.

E assim percorreu muitos quilômetros, não satisfeito com o que tinha conquistado, pois os lugares que via, eram atraentes e alimentavam ainda mais seu desejo incontido de também possui-los.

De repente olhou para o céu e se deu conta de que o sol estava se pondo atrás da montanha. Disse de si para consigo mesmo:

“Não há tempo a perder. Tenho que voltar correndo, senão perco todos os terrenos percorridos e, por cima ainda, o dinheiro. “Um dia de dor, uma vida de amor”, pensou como dizia seu avô.

Pôs-se a correr com uma velocidade espantosa para suas pernas cansadas. Mas tinha que correr sem reparar os limites dos músculos retesados. Sempre olhava a posição do sol, já perto do horizonte, enorme e vermelho como sangue. Mas não se havia ainda posto totalmente. Mesmo cansadíssimo, corria mais e mais e já nem sentia as pernas. Pesaroso pensou: “talvez abarquei demais terras e posso perder tudo. Mas vamos em frente”.

Vendo, porém, ao longe o diabo, solenemente, de pé e ao seu lado a sacola de dinheiro, recobrou mais o ânimo, certo de que iria chegar antes do pôr do sol. Reuniu todas as energias que tinha e fez um derradeiro esforço. Pulou uma cerca, atravessou um riacho e corria, quase voando. Não muito longe da chegada, atirou-se para frente, quase perdendo o equilíbrio. Refeito, deu ainda alguns passos longos.

Foi então que, extenuado e já sem nenhuma força, se estatelou no chão. E morreu. A boca sangrava e todo o corpo estava coberto de arranhões e de suor.

O diabo, maldosamente, apenas sorriu e tomou para si a bolsa de dinheiro. Indiferente ao destino do morto, deu-se ainda ao trabalho de fazer uma cova com o tamanho do camponês e ajeitou-o lá dentro. Eram apenas sete palmos de terra, a parte menor que lhe cabia de todos os terrenos andados. Não precisava de mais do que isso. A mulher, petrificada, assistia a tudo, chorando copiosamente”.

Esse conto nos faz lembrar o poeta pernambucano João Cabral de Melo Neto (1920-1999) que nos deixou a comovente obra Morte e Vida Severina (1995). No funeral do lavrador diz: “Esta cova em que estás, com palmos medida, é a conta menor que tiraste em vida; é a parte que te cabe deste latifúndio”.

A mulher do camponês estava certa em sua advertência: “Cuidado com o diabo, pois, te estimula a ter mais e mais e, por fim, acaba contigo e toma todo o teu dinheiro”. É a lógica do capital. Nele vivemos e sofremos. Avançando sobre as florestas ele nos trouxe o Covid-19. Como nos livraremos dele?

DESENCANTO FACE AO FUTURO E O ESPERANÇAR

Estamos em pleno 2021, ano que não acabou porque o Covid-19 anulou a contagem do tempo por continuar sua obra letal. O 2022 não pôde ainda ser inaugurado. O facto é que o vírus colocou de joelhos todos os poderes,especialmente, os militaristas, pois seu arsenal de morte fez-se totalmente ineficaz.

No entanto, o gênio do capitalismo, a propósito da pandemia, fez com que a classe capitalista transnacioalizada se reestruturasse mediante o Great Reset (a Grande Reinicialização), expandindo a recente economia digital mediante a integração dos gigantes: Microsolft, Facebook, Apple, Amazon, Google, Zoom e outros com o complexo militar-industrial-segurança. Tal evento representa a formação de um poder imenso, nunca havido antes. Notemos que se trata de um poder econômico de natureza capitalista e que, portanto, realiza seu propósito essencial, o de de maximização dos lucros de forma ilimitada, explorando, sem consideração, os seres humanos e a natureza.

A consequência desta radicalização do capitalismo confirma o que um sociólogo da universidade da Califórnia em Santa Bárbara, William I.Robinson, num artigo recente, bem observou (ALAI 20/12/2021):”À medida em que o mundo vai lse ivrando da pandemia, haverá mais desigualdade, conflitos, militarismo e autoritarismo e nesta mesma medida aumentarão as convulsões sociais e os conflitos civis; os grupos dominantes se empenharão por expandir o estado policial global para conter os descontentes em massa, vindos de baixo”. Com efeito, utilizar-se-á a inteligência artificial com seus bilhões e bilhões de algoritmos para controlar cada pessoa e a sociedade inteira. Esse brutal poder levará a humanidade para onde?

Sabendo da lógica inexorável do sistema capitalista, Max Weber, um dos que melhor criticamente a analisou, um pouco antes de morrer asseverou:”O que nos aguarda não é o florescimento do outono, nos aguarda uma noite polar, gélida, sombria e árdua (Le Savant et le Politique, Paris 1990, p. 194). Ele cunhou a expressão forte que atinge o coração do capitalismo: ele é uma”jaula de ferro”(Stahlartes Gehäuse) que não consegue romper e, por isso, nos pode levar a uma grande catástrofe (cf.a pertinente análise de M.Löwy, La jaula de hierro: Max Weber y el marxismo weberiana, México 2017). Essa opinião é compartida por grandes nomes como Thomas Man, Oswald Spengler,Ferdinand Tönnies, Eric Hobsbown, entre outros.Vários modelos de sociedade-mundo estão sendo discutidos para o pós-pandemia. Os mais importantes além do Great Reset dos bilhardários, são: o capitalismo verde, o ecosocialismo, o bien vivir e convivir dos andinos, a biocivilização, de vários grupos e do Papa Francisco entre outros. Não cabe aqui detalhar tais projetos,coisa que fiz no livro Cvid-19:A Mãe Terra contra-ataca a Humanidade ( Vozes 2020). Apenas diria: ou mudamos de paradigma de produção, de consumo, de convivência e,especialmente, de relação para com a natureza, com respeito e cuidado ,sentindo-nos parte dela e não sobre ela como donos e senhores, ou então realizar-se-á o prognóstico de Max Weber: poderemos de 2030 até no máximo 2050, conhecer um armagedon ecológico-social extremamente danoso para a vida e para a Terra.

Neste sentido, meu sentimento do mundo me diz que quem irá destruir a ordem do capital, com sua economia, política e cultura, não seria nenhum moimento ou escola de pensamento crítico. Seria a própria Terra, planeta limitado que não suporta mais um projeto de crescimento ilimitado. A visível mudança climática, objeto de discussão e de tomada de decisão (praticamente nenhuma) das últimas COPs da ONU, o esgotamento crescente dos bens e serviços naturais, fundamentais para a vida (The Earth Overshoot) e a ameaça de rompimento das principais das nove barreiras do desenvolvimento que não podem ser rompidas a preço do colapso da civilização, são alguns indicadores de uma iminente tragédia.

Um número significativo de especialistas em clima afirmam que chegamos tarde demais. Com o já acumulado de gases de efeito estufa não poderemos conter a catástrofe, apenas, com ciência e tecnologia, minorar seus efeitos desastrosos. Mas a grande crise irreversível virá. Por isso se fizeram céticos e até tecnofatalistas.

Seremos pessimistas resignados ou, no sentido de Nietzche, adeptos da “resignação heróica”? Estimo, como dizia um pré-socrático: devemos esperar o inesperado, pois, se não o esperarmos, quando ele vier, não o perceberemos. O inesperado pode ocorrer, dentro da perspectiva quântica: o sofrimento atual por causa da crise sistêmica não será em vão; ele está acumulando energias benfazejas que, ao atingir certo nível de complexidade e de acumulação, darão um salto para uma outra ordem mais alta com um novo horizonte de esperança para a vida e para o planeta vivo, Gaia, a Mãe Terra. Paulo Freire cunhou a expressão esperançar: não ficar esperando que um dia a situação irá melhorar mas criar as condições para que a esperança não seja vã, senão que, com nosso empenho, a façamos efetiva.

Creio que esse salto, com a nossa participação, poderá ocorrer e estaria dentro das possibilidades da história do universo e da Terra: do atual caos destrutivo, podemos passar para um caos generativo de um novo modo de ser e de habitar o planeta Terra.

É nisso que creio e espero, reforçado pela palavra da Revelação que afirma: “Deus criou todas as coisas por amor porque é o apaixonado amante da vida”(Sabedoria 11,26).Ele não permitirá que terminemos assim tragicamente. Ainda viveremos sob a luz benevolente do sol.

Edição 173, dezembro 2021

PASSOS PARA DERROTAR O FASCISMO E A POLÍTICA DO ÓDIO

Forças políticas, inimigas da vida, se aliaram ao Coronavírus e estão favorecendo a dizimação de mais de 600 mil vidas. Seu objetivo consiste em nos conduzir aos tempos pré-modernos, desmantelando nossa cultura e nossa ciência, suprimindo direitos trabalhistas e previdenciários, difundindo mentiras, ódio covarde aos pobres, aos indígenas, aos quilombolas, aos afrodescendentes, aos homo-afetivos e aos LGBTI.

Ideologicamente tais forças são ultraconservadoras com cariz nitidamente fascista. Galgaram o mais alto poder da república. O representante-mor destas forças quer, por todos os meios, mesmo ao arrepio da lei, se reeleger. Como parlamentar magnificou torturadores e defendeu ditaduras. Como chefe de estado foi leniente com as grandes queimadas da floresta amazônica, com os madeireiros e com a intrusão das mineradoras e do garimpo, inclusive em terras indígenas. Cometeu crimes contra a humanidade por seu negacionismo em relação aos imunizantes do Covid-19 e se mostrou insensível e sem nenhuma empatia face ao sofrimento das milhares de famílias enlutadas e aos milhões de desempregados e famintos.

Infelizmente constatamos a fragilidade, até a omissão de nossas instituições oficiais ou jurídicas e a baixa intensidade de nossa democracia que media pela justiça social e pelo respeito aos direitos se parece antes uma imensa farsa oficial. Nada ou pouco se fez para afastar esta figura sinistra, autoritária e fascistoide. Não lhes é permitido assistirem, impassíveis, ao esfacelamento populacional, cultural, político e espiritual de nosso país.

Face a esta tragédia histórica, precisamos, pela via eleitoral, frear a pulsão de morte, presente no poder executivo e em seus auxiliares. Impõe-se infligir uma derrota eleitoral fragorosa a este que se mostrou insano, indigno, malévolo e incapaz de governar o povo brasileiro. Ele merece ser, legalmente, varrido da cena política e pagar por seus crimes, para que, em fim, possamos viver com um mínimo de desenvolvimento justo e sustentável, com paz social, com franca alegria e com felicidade coletiva.

Para concretizar esta diligência política e ética, nos limites da Constituição e da ordem democrática de direito, importa, ao meu ver, percorrer os seguintes passos:

Primeiro, garantir, se possível, já no primeiro turno, a vitória para presidente, de alguém com carisma, com confiança das grandes maiorias e com capacidade de nos tirar do poço escuro no qual fomos lançados. Ele já mostrou anteriormente que é capaz de realizar esta redenção. Não carece revelar seu nome pois já despontou, vitorioso, nas pesquisas eleitorais.

Segundo, não basta eleger um presidente com tais características. É fundamental garantir-lhe uma bancada parlamentar numerosa para que o presidencialismo de coalizão não comprometa os ideais e propósitos, presentes nas origens e resgatáveis, como a opção por políticas sociais que atendam às grandes maiorias empobrecidas e oprimidas, com transparência, com a ética da solidariedade a partir dos mais vulneráveis e com e soberania ativa e altiva. Fazer alianças com partidos afinados com propósitos sociais e populares. Igualmente é importante garantir a eleição de governadores e, a seu tempo, de prefeitos e de vereadores que nas regiões e na base deem sustentação ao governo central com sentido de justiça social e de cuidado da vida do povo e da natureza.

Terceiro, – o mais importante – reforçar e, onde for preciso, retomar o trabalho de base, organizando comitês populares de toda ordem, para que participem e se articulem com os organizações já existentes como da saúde, da educação, da igualdade de gênero e de outros, criando consciência cidadã. Não basta garantir a inserção no sistema vigente, perverso e antipopular, mas criar consciência mudancista, apontando para um outro tipo de sociedade com democracia participativa, social e ecológica.

Esse trabalho de base é imperativo se quisermos criar as condições para uma transformação que vem de baixo e criar movimentos progressistas e libertários que traduzem os sonhos em práticas viáveis e quotidianas. É nesse nível, rés-do-chão, que começa a se ensaiar o novo e se alimenta a energia necessária para continuar a refundação de um novo Brasil, contra o prolongamento da dependência histórica, contra o vira-lata, presente nas elites do atraso e contra o oligopólio dos meios de comunicação, braço ideológico da classe dominante, herdeira da Casa grande.

Estamos convencidos de que este sofrido caos destrutivo irá passar e será transformado em promissor caos generativo de uma nova ordem, mais alta, mais justa, fraterna e cuidadora de toda vida:em fim, de um Brasil no qual teremos alegria de viver e conviver com justiça, onde será mais fácil a amorosidade e a jovialidade que caracterizam o melhor de nós mesmos.

OS DIREITOS DA NATUREZA E DA TERRA

Com a intrusão do Cvid-19 e o aumento dos eventos extremos, a natureza e a Terra entraram no radar das preocupações humanas. O fato é que nos encontramos dentro da sexta extinção em massa, agravada pelo antropoceno e pelo necroceno dos últimos decênios. Por isso, impõe-se outro tipo de relação para com a natureza e para com a Terra, nossa Casa Comum para que mantenham sua biocapacidade.

Isso só ocorrerá, se refizermos o contrato natural com a Terra e se considerarmos que todos os seres vivos, portadores do mesmo código genético de base (os mesmos 20 aminoácidos e as 4 bases fosfatadas), formam a grande comunidade de vida como o entende a Carta da Terra. Esta afirma taxativamente que todos eles têm valor intrínseco, independente do uso que fizermos deles, e por isso merecem respeito e são sujeitos de dignidade e de direitos. Repetidamente em sua encíclica ecológica Laudato Si enfatiza o Papa Francisco que “cada criatura possui um valor e um significado próprio”(n.76).

Todo contrato é feito a partir da reciprocidade, da troca e do reconhecimento de direitos de cada uma das partes. Da Terra recebemos tudo: a vida e os meios de vida. Em retribuição temos um dever de gratidão, de retribuição e de cuidado. Mas nós, há muito, rompemos esse contrato natural. Temos submetido a Mãe Terra a uma verdadeira guerra, no afã de arrancar-lhe, sem qualquer outra consideração, tudo o que achávamos útil para o nosso uso e desfrute.

Se não restabelecermos esse laço de mutualidade duradoura, ela pode, eventualmente, a não nos querer mais sobre a sua face terrestre. Por isso que a sustentabilidade aqui é essencial, por constituir a base de um refazimento real do contrato natural.

O Presidente da Bolívia, o indígena aymara Evo Morales Ayma em seu pronunciamento na ONU no dia 22 de abril de 2009, ao se discutir se o dia 22 de abril continuaria a ser o Dia da Terra ou se deveria ser o Dia da Mãe Terrra elencou ele alguns destes direitos::

“Direito à vida e a existir;

Direito a ser respeitada;

Direito à regeneração da sua bio-capacidade e continuação dos seu ciclos e processos vitais livre das alterações humanas;

Direito a manter a sua identidade e integridade como seres diferenciados, autorregulados e interrelacionados;

Direito à agua como fonte de vida;

Direito ao ar limpo;

Direito à saúde integral;

Direito de estar livre da contaminação, poluição e resíduos tóxicos ou radioativos;

Direito a não ser alterada geneticamente e modificada na sua estrutura, ameaçando assim a sua integridade ou funcionamento vital e saudável;

Direito a uma plena e pronta restauração depois de violações aos direitos reconhecidos nesta Declaração e causados pelas atividades humanas”.

Sua proposta foi acolhida unanimemente pela Assembleia dos Povos. Nos dias 19-23 de abril de 2009 celebrou-se em Cochabamba, convocada por Evo Morales, a Cúpula dos Povos sobre as Mudanças Climáticas e os Direitos da Mãe Terra. Dai surgiu a Carta dos Direitos da Mãe Terra com os itens afirmados por ele na ONU na qual eu mesmo estava presente com o encargo de na Assembleia fundar teoricamene tais direitos.

Esta visão permite renovar o contrato natural para com a Terra que, articulado com o contrato social entre os cidadãos, acabará por reforçar a sustentabilidade planetária e garantir os direitos da natureza e da Terra.

Hoje sabemos, pela nova cosmologia, que todos os seres possuem não apenas massa e energia. São portadores também de informação que resulta das permanentes interações entre si que vai crescendo até irromper como autoconsciência. Tal fato implica níveis de subjetividade e de história. Aqui reside a base científica que justifica a ampliação da personalidade jurídica à Terra viva.

A partir dos anos 70 do século passado como hipótese e a partir de 2002 como teoria científica acolheu-se a visão de que a Terra é um Super Ente vivo que se comporta, sistemicamente, articulando os fatores físico-químicos e ecológicos de tal forma que sempre continua viva e produtora de vida.

Ao afirmar ser um Super Ente vivo, cabe a ela a dignidade e o respeito que toda vida merece. Cresce mais e mais a clara consciência de que tudo o que existe merece existir e tudo o que vive merece viver. E a nós cabe acolher sua existência, defendê-la e garantir-lhe as condições de continuar a evoluir.

Ademais ninguém duvida de que o ser humano é sujeito de direitos inalienáveis e de que goza de subjetividade e de história. Ora, este ser humano, como sustentam muitos cosmólogos e antropólogos, é a própria Terra que num momento avançado de sua complexidade começou a sentir, a pensar,a amar e a cuidar. Esses direitos humanos, pelo fato de nós sermos Terra, devem ser atribuídos também à Terra. Os modernos a chamaram de Gaia, os antigos de Grande Mãe e os andinos de Pacha Mama.

Esta subjetividade possui história, quer dizer, encontra-se dentro do imenso processo cosmogênico fazendo que a Terra viva através dos seres humanos se veja a si mesma, contemple o universo e represente o estágio mais avançado do cosmos até agora conhecido.

Michel Serres, filósofo francês das ciências, afirmou com propriedade: ”A Declaração dos Direitos do Homem teve o mérito de dizer ‘todos os homens têm direitos’ mas o defeito de pensar ‘só os homens têm direito”.

Custou muita luta o reconhecimento pleno dos direitos das mulheres, dos indígenas,dos negros, dos homoafetivos e de outros, como agora está exigindo muito esforço o reconhecimento dos direitos da natureza e da Mãe Terra, formada pelo conjunto de todos os ecossistemas.

Por causa de sua mútua imbricação,Terra e Humanidade possuem o mesmo destino. Cabe a nós,sua porção consciente e seus cuidadores, fazer que este destino comum seja bem sucedido à condição de respeitarmos a dignidade e os direitos da Mãe Terra.

OS DIREITOS DA NATUREZA E DA TERRA

Com a intrusão do Cvid-19 e o aumento dos eventos extremos, a natureza e a Terra entraram no radar das preocupações humanas. O fato é que nos encontramos dentro da sexta extinção em massa, agravada pelo antropoceno e pelo necroceno dos últimos decênios. Por isso, impõe-se outro tipo de relação para com a natureza e para com a Terra, nossa Casa Comum para que mantenham sua biocapacidade.

Isso só ocorrerá, se refizermos o contrato natural com a Terra e se considerarmos que todos os seres vivos, portadores do mesmo código genético de base (os mesmos 20 aminoácidos e as 4 bases fosfatadas), formam a grande comunidade de vida como o entende a Carta da Terra. Esta afirma taxativamente que todos eles têm valor intrínseco, independente do uso que fizermos deles, e por isso merecem respeito e são sujeitos de dignidade e de direitos. Repetidamente em sua encíclica ecológica Laudato Si enfatiza o Papa Francisco que “cada criatura possui um valor e um significado próprio”(n.76).

Todo contrato é feito a partir da reciprocidade, da troca e do reconhecimento de direitos de cada uma das partes. Da Terra recebemos tudo: a vida e os meios de vida. Em retribuição temos um dever de gratidão, de retribuição e de cuidado. Mas nós, há muito, rompemos esse contrato natural. Temos submetido a Mãe Terra a uma verdadeira guerra, no afã de arrancar-lhe, sem qualquer outra consideração, tudo o que achávamos útil para o nosso uso e desfrute.

Se não restabelecermos esse laço de mutualidade duradoura, ela pode, eventualmente, a não nos querer mais sobre a sua face terrestre. Por isso que a sustentabilidade aqui é essencial, por constituir a base de um refazimento real do contrato natural.

O Presidente da Bolívia, o indígena aymara Evo Morales Ayma em seu pronunciamento na ONU no dia 22 de abril de 2009, ao se discutir se o dia 22 de abril continuaria a ser o Dia da Terra ou se deveria ser o Dia da Mãe Terrra elencou ele alguns destes direitos::

“Direito à vida e a existir;

Direito a ser respeitada;

Direito à regeneração da sua bio-capacidade e continuação dos seu ciclos e processos vitais livre das alterações humanas;

Direito a manter a sua identidade e integridade como seres diferenciados, autorregulados e interrelacionados;

Direito à agua como fonte de vida;

Direito ao ar limpo;

Direito à saúde integral;

Direito de estar livre da contaminação, poluição e resíduos tóxicos ou radioativos;

Direito a não ser alterada geneticamente e modificada na sua estrutura, ameaçando assim a sua integridade ou funcionamento vital e saudável;

Direito a uma plena e pronta restauração depois de violações aos direitos reconhecidos nesta Declaração e causados pelas atividades humanas”.

Sua proposta foi acolhida unanimemente pela Assembleia dos Povos. Nos dias 19-23 de abril de 2009 celebrou-se em Cochabamba, convocada por Evo Morales, a Cúpula dos Povos sobre as Mudanças Climáticas e os Direitos da Mãe Terra. Dai surgiu a Carta dos Direitos da Mãe Terra com os itens afirmados por ele na ONU na qual eu mesmo estava presente com o encargo de na Assembleia fundar teoricamene tais direitos.

Esta visão permite renovar o contrato natural para com a Terra que, articulado com o contrato social entre os cidadãos, acabará por reforçar a sustentabilidade planetária e garantir os direitos da natureza e da Terra.

Hoje sabemos, pela nova cosmologia, que todos os seres possuem não apenas massa e energia. São portadores também de informação que resulta das permanentes interações entre si que vai crescendo até irromper como autoconsciência. Tal fato implica níveis de subjetividade e de história. Aqui reside a base científica que justifica a ampliação da personalidade jurídica à Terra viva.

A partir dos anos 70 do século passado como hipótese e a partir de 2002 como teoria científica acolheu-se a visão de que a Terra é um Super Ente vivo que se comporta, sistemicamente, articulando os fatores físico-químicos e ecológicos de tal forma que sempre continua viva e produtora de vida.

Ao afirmar ser um Super Ente vivo, cabe a ela a dignidade e o respeito que toda vida merece. Cresce mais e mais a clara consciência de que tudo o que existe merece existir e tudo o que vive merece viver. E a nós cabe acolher sua existência, defendê-la e garantir-lhe as condições de continuar a evoluir.

Ademais ninguém duvida de que o ser humano é sujeito de direitos inalienáveis e de que goza de subjetividade e de história. Ora, este ser humano, como sustentam muitos cosmólogos e antropólogos, é a própria Terra que num momento avançado de sua complexidade começou a sentir, a pensar,a amar e a cuidar. Esses direitos humanos, pelo fato de nós sermos Terra, devem ser atribuídos também à Terra. Os modernos a chamaram de Gaia, os antigos de Grande Mãe e os andinos de Pacha Mama.

Esta subjetividade possui história, quer dizer, encontra-se dentro do imenso processo cosmogênico fazendo que a Terra viva através dos seres humanos se veja a si mesma, contemple o universo e represente o estágio mais avançado do cosmos até agora conhecido.

Michel Serres, filósofo francês das ciências, afirmou com propriedade: ”A Declaração dos Direitos do Homem teve o mérito de dizer ‘todos os homens têm direitos’ mas o defeito de pensar ‘só os homens têm direito”.

Custou muita luta o reconhecimento pleno dos direitos das mulheres, dos indígenas,dos negros, dos homoafetivos e de outros, como agora está exigindo muito esforço o reconhecimento dos direitos da natureza e da Mãe Terra, formada pelo conjunto de todos os ecossistemas.

Por causa de sua mútua imbricação,Terra e Humanidade possuem o mesmo destino. Cabe a nós, sua porção consciente e seus cuidadores, fazer que este destino comum seja bem sucedido à condição de respeitarmos a dignidade e os direitos da Mãe Terra.

O FUTURO DEPENDE DE NÓS AGORA

A COP26 em Glasgow decepcionou no ponto central: no consenso sobre a mitigação do aquecimento global pois acolheu ainda o uso do carvão, embora gradativamente a ser abolido, como fonte energética. Mas teve o mérito, nunca havido nas sessões anteriores das 25 COPs. Desta vez, sem exceção, se admitiu a existência antropogênica dos distúrbios climáticos. Os eventos extremos, a intrusão do metano,devido ao degelo do permafrost e das calotas polares, 20 vezes mais danoso que o CO2, a erosão crescente da biodiversidade, a gama de vírus como o Covid-19, a Sobrecarga da Terra (Earth Overhoot) que nos atemoriza a cada ano, pois o atual consumo demanda mais de uma Terra e meia (1,75) o que impede sua biocapacidade e a ultrapassagem de algumas das Nove Barreiras Planetárias (9 Planetarian Bounderies) que podem pôr em risco nosso ensaio civilizatório, dobraram os negacionistas que preferiam anteriormente defender suas fortunas e capitais do que a vida do planeta e nosso futuro comum.

Tais eventos fizeram surgir cenários apocalípticos e um verdadeiro terror metafísico, no sentido de temermos por nossa sobrevivência nesse planeta. Muitas são as advertências dessa eventualidade por parte de renomados cientistas e principalmente do Papa Francisco que na última encíclica, paradigmática, Fratelli tutti (2020) taxativamente asseverou:”estamos no mesmo barco; ou nos salvamos todos ou ninguém se salva”(n.34).

Há uma calorosa disputa mundial sobre como seguirá a história no pós-pandemia. Vários modelos estão na pauta. Estimo que os mais radicais devem ser descartados,por serem demasiadamente cruéis e anti-vida humana como o Great Reset, a “Grande Reinicialização” de um capitalismo despótico, sugerido pelo príncipe parasita Charles e assumida pelo 0,1% dos bilhardários mundiais. Também o tentador “Capitalismo verde” que visa a cobrir de verde todo o planeta mas nunca coloca a questão da desigualdade social que penaliza e ceifa milhões de vidas humanas. Aceitáveis e, de certo modo, promissores, são o eco-socialismo e o bien vivir y convivir dos andinos. Ambos seriam viáveis no pressuposto de uma governança global e pluralista, dispondo-se a encontrar soluções globais para problemas globais como o da pandemia e de uma ordem planetária mínima que incluísse a todos na única Casa Comum, também a natureza.

Creio que o Papa Francisco na Fratelli tutti apresentou alguns dos valores fundamentais a partir dos quais se poderia projetar um paradigma que garanta o futuro da espécie e de nossa civilização: uma biocivilização centrada numa fraternidade sem fronteiras e numa amizade social universal.

Claramente se deu conta de que três pressupostos se fazem necessários: o primeiro, superar o paradigma vigente já alguns séculos, o do ser humano como dominus (dono e senhor) que não se sente parte da natureza mas que a domina com o instrumento da tecnociência. O segundo, assumir uma alternativa ao dominus que seria o frater: o ser humano,homem e mulher, irmãos e irmãs uns dos outros e de todos os seres da natureza por termos todos uma origem comum, o húmus da Terra, por sermos portadores do mesmo código genético de base e por sentirmo-nos parte da natureza. O terceiro, ativar o “princípio esperança”, mais profundo que a virtude da esperança, aquele impulso interior que não conhece tempo nem espaço e que sempre está presente no ser humano levando-o à indignação contra os desacertos sociais e a coragem para transformá-los mediante a projeção de novos mundos, de utopias viáveis e de uma autosuperação de si mesmo.

Os valores não serão tomados das grandes narrativas já ensaiadas, a do iluminismo,do capitalismo e do socialismo que resultaram na crise sistêmica atual,portanto, que não realizaram seus propósitos. Vai beber do próprio poço, na natureza essencial do ser humano.

Ai descobre que somos essencialmente seres de relação ilimitada,cuja melhor expressão reside na amorosidade; seres de solidariedade que nos primórdios da hominização nos permitiu dar o salto da animalidade à humanidade; seres de cooperação pois somente juntos podemos construir nosso habitat que se dá na convivência, na sociedade e nas civilizações, numa palavra, no bem-comum geral; seres de cuidado,pois esse define a natureza humana, de todos os seres vivos e que emerge também como uma constante cosmológica: tudo existe porque todos os fatores sutilmente se combinaram para irrompesse a vida, e como sub-capítulo da vida, a vida humana e o próprio universo que sem o devido cuidado de todos os elementos, não permitiria que estivéssemos aqui escrevendo sobre estas coisas; seres espirituais, capazes de colocar as questões mais radicais sobre o porquê de nossa existência, absolutamente gratuita, qual o nosso lugar no conjunto dos seres, a que destino somos chamados e pelo fato de intuirmos que, por detrás de tudo o que existe e vive. subjaz uma Energia poderosa e amorosa (o Vácuo quântico,a Energia de fundo do universo ou o Abismo gerador de tudo o que existe?) com a qual podemos nos relacionar com veneração e com o silêncio reverente.

A partir destes valores poder-se-á forjar um outro mundo possível e agora necessário. Logicamente a travessia de um paradigma a outro não se fará de um dia para outro e não sem grandes dificuldades, oposições e crises. Mas não temos outra alternativa. Como escreveu Eric Hobsbawn em seu “A era dos extremos”(1995) em sua última página:”Não sabemos para onde estamos indo. Se a humanidade quer ter um futuro significativo não pode ser pelo prolongamento do passado e do presente. Se tentarmos construir o terceiro milênio nesta base vamos fracassar. E o preço do fracasso, ou seja,a alternativa para a mudança da sociedade é a escuridão”(p.562).

Isso vale especialmente para aqueles que almejam a volta à antiga normalidade, perversa para a vida da natureza e para a vida humana. Temos que mudar ou então, como disse o Secretário da ONU, António Guterrez, ao abrir os trabalhos da COP26: “Se não agirmos já agora estaremos cavando a nossa própria sepultura”.

O futuro é hoje como proclamavam os cem mil da COP26 paralela em Glasgow. Se não começamos a nos orientar pelos valores acima referidos, estaremos pavimentando o caminho para um desastre ecológico-social de proporções nunca dantes havido. Mas creio e espero, espero e creio que a pulsão de vida, mais forte que a pulsão de morte, nos levará às mudanças necessárias. Viveremos e ainda brilharemos.

Edição 172,novembro 2021

CHEGA DE DESGRAÇA: O EX-JUIZ MORO CANDIDATO

Como se não bastasse o horror da pandemia do Covid-19 que vitimou mais de 600 mil pessoas e a crise generalizada em todos os níveis de nosso país, temos que assistir agora ao lançamento da candidatura à presidência nada menos do que do ex-juiz Sérgio Moro, declarado parcial pelo STF.

Ele representa a estirpe direitista do Capitão que trouxe a maior desgraça e vergonha ao nosso país, por sua criminosa incompetência no trato da pandemia, por lhe faltar qualquer indício de um projeto nacional, por estabelecer a mentira como política de Estado, por absoluta incapacidade de governar e por claros sinais de desvio comportamental . Ele mente tão perfeitamente que parece verdade, a mentira da qual é ciente.

A vitória do Capitão é fruto de uma imensa e bem tramada fraude, suscitando o antipetismo, colocando a corrupção endémica no país, como se fosse coisa exclusiva do PT, quando sabemos ser a do mercado (sonegação fiscal das empresas), dezenas de vezes maior que a política, defendendo alguns valores de nossa cultura tradicionalista, ligada a um tipo de família moralista e de uma compreensão distorcida da questão de gênero, alimentando preconceitos contra os indígenas, os afrodescendentes, os quilombolas, os pobres, os homoafetivos, os LGBTI e divulgando milhões de fake news, caluniando com perversa difamação o candidato Fernando Haddad. Informações seguras constataram que cerca de 80% das pessoas que receberam tais falsas notícias acreditaram nelas.

Por trás do triunfo desta extrema-direita, atuaram forças do Império, particularmente, da CIA e da Secretaria de Estado dos USA como o revelaram vários analistas da área internacional. Ai atuaram também as classes dos endinheirados, notórios corruptos por sonegar anualmente bilhões em impostos, parte do Ministério Público, as operações da Lava-Jato, eivadas de intenção política, ao arrepio do direito e da necessária isenção, parte do STF e com expressiva força o oligopólio mediático e a imprensa empresarial conservadora que sempre apoiou os golpes e se sente mal com a democracia.

A consequência é o atual o descalabro sanitário, político, jurídico e institucional. É falacioso dizer que as instituições funcionam. Funcionam seletivamente para alguns. A maioria delas foi e está contaminada por motivações políticas conservadoras e pela vontade de afastar Lula e o PT da cena política por representarem os reclamos das grandes maiorias exploradas e empobrecidas, historicamente sempre postas à margem.

A justiça foi vergonhosamente parcial especialmente o foi pelo justiceiro ex-juiz federal de primeira instância, agora candidato, que tudo fez para pôr Lula na prisão,mesmo sem materialidade criminosa para tanto. Ele sempre se moveu, não pelo senso do direito, mas pelo law fare (distorção do direito para condenar o acusado), pelo impulso de rancor e por convicção subjetiva. Diz-se que estudou em Harvard. Fez apenas quatro semanas lá, no fundo para encobrir o treinamento recebido nos órgãos de segurança dos USA no uso da law fare.

Conseguiu impedir que Lula fosse candidato à presidência já que contava com a maioria das intenções de voto e até lhe sequestraram o direito de votar. Agora Moro se apresenta como candidato à presidência, arrebatando do Capitão a bandeira do combate à corrupção quando ele primou por atos corruptos e por conchavos com as grandes empreiteiras para fazerem delações forçadas que incriminassem a Lula e a membros do PT.

A vitória fraudulenta do Capitão (principalmente por causa dos milhões de fake news) legitimou uma cultura da violência. Ela já existia no país em níveis insuportáveis (os mais de 30 a 40 mil assassinatos anuais). Mas agora ela se sente legitimada pelo discurso de ódio que o candidato e agora presidente continua a alimentar. Tal realidade sinistra, trouxe como consequência, um forte desamparo e um sofrido vazio de esperança.

Este cenário adverso ao direito e a tudo o que é justo e reto, afetou nossas mentes e corações de forma profunda. Vivemos num regime militarizado e de exceção, num tempo de pós-democracia (R.R. Casara). Agora importa resgatar o caráter político-transformador da esperança e da resiliência, as únicas que nos poderão sustentar no quadro de uma crise sem precedentes em nossa história.

Temos que dar a volta por cima, não considerar a atual situação como uma tragédia sem remédio, mas como uma crise fundamental que nos obriga a resistir, a aprender desta escabrosa situação e a sair mais maduros, experimentados e seguros, também da pandemia, para definir um novo caminho mais justo, democrático e popular.

Urge ativar o princípio esperança que é aquele impulso interior que nos leva a nos mover sempre e a projetar sonhos e projetos viáveis. São eles que nos permitem tirar sábias lições das dificuldades e dos eventuais fracassos e nos tornar mais fortes na resistência e na luta. Lembremos do conselho de Dom Quixote:”não devemos aceitar a derrota sem antes de dar todas as batalhas”. Daremos e venceremos.

Importa evitar, dentro da democracia, a continuidade do atual e do pior projeto para o país, urdido de ódio, perseguição, negacionismo da ciência e da gravidade letal do Covid-19. É operado atualmente pelo Capitão e seus apaniguados e, supomos, prolongado pelo ex-juiz, candidato à presidência, cujas características, parece, se confundir com aquelas do Inominável. Desta vez não nos é permitido errar.

IGREJA: CARISMA E PODER: 40 ANOS

O Centro de Estudos Bíblicos (CEBI) do Sergipe organizou entre 25-28 de outubro uma série de palestras sobre o livro Igreja: carisma e poder que celebra 40 anos de sua publicação em 1981. O CEBI é uma articulação nacional de grupos populares e ecumênicos que estudam a Bíblia de forma aprofundada, como inspiração de práticas inovadoras para dentro da Igreja e também libertárias na sociedade. O propósito era mostrar a atualidade dos temas nele tratados que articulam a Igreja com a sociedade e os modelos de Igreja vigentes.

Foi este livro que foi ajuizado em 1984 pela Congregação da Doutrina da Fé levando seu autor, no caso eu, a um verdadeiro processo judicial. Culminou em 1985 com uma “notificação” e não um decreto condenatório, proibindo a reedição do livro e a imposição ao autor de um tempo de “silêncio obsequioso”. Não se faz nenhuma condenação doutrinária, apenas se diz como conclusão:”Esta Congregação sente-se na obrigação de declarar que as opções aqui analisadas de Frei Leonardo Boff são de tal natureza que põe em perigo a sã doutrina da da fé, que esta Congregação tem o dever de promover e tutelar”

Observa-se que não se trata de doutrinas (campo dos dogmas) mas de “opções”(campo da moral) que podem significar um “perigo”. Evitado este perigo, não há porquê não seguir adiante nas opções que eram e continuam sendo: a centralidade do pobres e de sua libertação, o poder como serviço e não como centralização e a constituição legítima de comunidades eclesiais de base, como uma reinvenção da Igreja nos meios populares (eclesiogénese).

Lendo-se todo o texto do Card. Joseph Ratzinger expondo os tais “perigos” nota-se um equívoco de leitura. Leu-se não Igreja:carisma e poder, mas Igreja: carisma ou poder. Esta alternativa não se encontra em nenhuma página do livro. Afirma-se a legitimidade de um poder na Igreja junto com o carisma.

Seguramente o ponto central que a Congregação viu como “perigo” foi o confronto entre um modelo de Igreja, sociedade hierarquizada de poder sagrado e outro modelo de Igreja, comunidade fraterna de iguais com funções diferentes. O primeiro modelo dominante é o da Igreja-grande-instituição composta de clérigos, portadores do poder sagrado e de leigos sem poder de decisão nenhum. Aqui surgem as desigualdades, especialmente fechando as portas ao ministério sacerdotal às mulheres e impondo a lei do celibato obrigatório a todo o corpo clerical. O outro modelo é o da Igreja-rede-de-comunidades, todos sujeito de poder sagrado, exercido em funções(carismas) diferentes.

Ambos os modelos se reportam ao passado da Igreja, o primeiro especialmente ao evangelho de São Mateus que confere grande importância a Pedro (Mt 16,18;18,16) que originará a centralização, chamada de “cefalização” (tudo se concentra na cabeça); o segundo às cartas de São Paulo que referem uma Igreja, comunidade de irmãos e irmãs, dotada de muitos carismas (funções e serviços), especialmente, em suas Cartas aos Coríntios, aos Romanos e aos Efésios. Para São Paulo o carisma pertence à quotidianidade e significa simplesmente funções ou serviços, todos animados pelo Espírito Santo e pelo Cristo ressuscitado, cabeça na Igreja e no cosmos,implicando uma descentralização do poder, presente em todos e todas.

O facto histórico é, resumidamente, o seguinte: até o século IV a Igreja, fundamentalmente, era uma comunidade fraternal. Do momento em que o cristianismo foi declarado pelo imperador Constantino (325) “religião lícita”, por Teodósio (391) “religião obrigatória” para todos, proibindo o paganismo até culminar com o imperador Justiniano (529) transformando os preceitos cristãos em leis civis, gestou-se, então, a Igreja-grande-instituição. De religião perseguida, passou a religião perseguidora dos pagãos. Sendo “religião obrigatória”, todos tiveram que assumir a fé cristã, criando uma Igreja de massa, não por conversão mas por obrigatoriedade sob medo e ameaça de morte.

Com a decadência do império romano, o bispo de Roma Leão Magno (440-461) assume o poder e o título de Papa (abreviação de pater patrum, pai dos pais), até então reservado aos imperadores. Assume-se junto o estilo imperial, os palácios, o báculo, a estola, o manto (mozeta) símbolo do poder monárquico, a púrpura e outros símbolos imperiais e pagãos que perduram até os dias de hoje.

A Igreja-grande-instituição não passou pela prova do poder. Nela se realizou o que afirma Thomas Hobbes no Levitã (1615): ”Assinalo, como tendência geral de todos os homens, um perpétuo e irrequieto desejo de poder e de mais poder que cessa apenas com a morte; a razão disso reside no facto de que não se pode garantir o poder senão buscando mais poder ainda”(cap.X). Começa a acumulação do poder dos Papas até chegar com o Papa Gregório VII com o seu Dictatus Papae (a ditadura do Papa) a proclamar o Papa com senhor absoluto sobre Igreja e sobre os imperadores ou reis. Já não bastava ser sucessor de Pedro. O Papa Inocêncio III (+1216) se anunciou como vigário de Cristo e, por fim, Inocêncio IV(+1254) se arvorou representante de Deus. Hoje ainda se atribui ao Papa, consoante do direito canônico, um poder que, parece, pertencer somente a Deus. O Papa é portador de um poder sagrado”supremo, ordinário, pleno, imediato e universal”(cânon 331). A isso, desde 1869, se acrescentou a infalibilidade em assuntos de fé e moral. Mais não se poderia ir.

A consequência é o surgimento de uma Igreja-sociedade piramidal, monárquica, rígida e rigorosa, que em termos doutrinários, de seus inquiridos, foi a minha experiência, nada esquece, nada perdoa e tudo cobra. Nesse modelo de Igreja se verifica o que o psicanalista C.G.Jung afirmava: ”Onde prevalece o poder não há mais lugar para a ternura nem para o amor”.

Os únicos Papas que romperam com esta tradição, ciosa de seu poder sagrado e monárquico, foi o bom Papa João XXIII e explicitamente o Papa Francisco que, em suas primeiras palavras, disse governar a Igreja na caridade e não no poder sagrado. Por isso cobra dos pastores uma “revolução da ternura”.

Face a esse modelo, hoje em profunda crise estrutural, surgiu o outro modelo da igreja, rede-de-comunidades fraternais. Ela sempre existiu na história da Igreja, particularmente, nas ordens e congregações religiosas, mas nunca conseguiu ser hegemônica. Mas ganhou densidade na vasta rede de comunidades eclesiais de base, atualmente, espalhadas em todo o universo cristão e ecumênico. Nelas o poder é serviço real, cotidiano e por todos participado na medida em que cada um tem o seu lugar na comunidade. São muitos serviços e funções (carismas), quem prega, quem ensina,quem organiza a liturgia, quem visita os enfermos, quem trabalha com os jovens, todos em pé de igualdade, consoante São Paulo (1Cor 7,7;12,29).Há uma função (carisma) singular que é o de criar a unidade e a coesão na comunidade fazendo com que todos os serviços (carismas) confluam para o bem comum: é o serviço da presidência da comunidade. Como tal, preside também a eucaristia, não como função exclusiva, mas simultânea com as demais. Sua função não é concentrar mas coordenar.

Este modelo traduz melhor a mensagem e o exemplo do Jesus histórico que não quis nenhum poder e que estabeleceu todo o poder como serviço e não como dominação (Mt 23,11). Esse modelo apresenta-se como uma outra forma de organizar a herança de Jesus, de gestar uma Igreja mais conforme com o seu sonho, de todos irmãos e irmãs (Mt 23,8).

Este modelo comunional se apresenta mais adequado à verdadeira evangelização que significa encarnar a mensagem cristã nas mais diferentes culturas e assimilando seus modos de ser. A igreja emergiria como um imenso tapete colorido, feita uma teia imensa de comunidades cristãs, diferentes em seus corpos, mas todas unidas no mesmo testemunho da vida nova trazida por Jesus morto e ressuscitado. Caminharia junto com o processo de mundialização que lentamente constrói a Casa Comum, o mundo necessário, dentro do qual estão os vários mundos culturais (asiático, africano, latino, indígena etc). Aí estará a Igreja-grande-instituição que seguramente persistirá mas sem a hegemonia atual e principalmente a rede imensa de comunidades cristãs diversas e unidas no mesmo testemunho do Ressuscitado e de seu Espírito, junto com outras igrejas e caminhos espirituais a serviço de uns e de outros e da única Casa Comum que temos, a Mãe Terra

N:D.

Se mudanças houve, desde a publicação deste Livro, estas não foram no modelo de igreja que continua aí piramidal, por mais 'piruetas' que o papa jesuíta Francisco promova e protagonize, para mundo ver. Essas mudanças acontecem é no próprio L. Boff que se tem deixado encandear pelo holofote que é este papa da Roma imperial, curiosamente, com o seu imediato antecessor ainda vivo como 'papa emérito' e a viver no Estado do Vaticano. E com exigências que terão de ser cumpridas, entre as quais, a garantia de um funeral com honras papais. É o Poder no seu pleno que o holofote Francisco, jesuíta, não deixa L. Boff, meu amigo, ver e por isso não se cansa de lhe tecer loas. Com dor o escrevo.

DESTRUINDO O FUTURO DE NOSSOS JOVENS?

A parte mais decisiva da COP26 em Glasgow referente a diminuição dos gases de efeito estufa, causadores do aquecimento global, terminou melancolicamente. O Acordo de Paris de 2015 comprometendo as potências economicamente mais fortes para alcançar a meta de mitigação do aquecimento para em 2030 não chegar a 1,5 graus C não surtiram efeito. Agora em Glasgow se tentou o mesmo propósito.O maior emissor, a China, com 27% e outro grande emissor, a Índia, recusaram metas e apenas afirmaram que até 2030 iriam mitigar o aquecimento. As mudanças não se fazem da noite para o dia, mas num processo duro e consequente. Olhando o passado, podemos com relativa certeza afirmar que até 2030 vamos chegar a 1,5 graus C. A própria ONU com seus consultores especializados advertiu que com a entrada do metano, 80 vezes mais danoso que o CO2,e a seguir os planos atuais vamos chegar a 2,7 graus Celsius.

Isso representa a tribulação da desolação: aumentarão sensivelmente os eventos extremos com tufões, secas severas, inundações por todas as partes, especialmente nas cidades costeiras, erosão da biodiversidade, aumento desesperador da pobreza, da miséria com milhões de emigrados climáticos,desestabilizando muitos países especialmente no Oriente Médio e África.Não bastou o alerta feito por António Guterrez, Secretário Geral da ONU por ocasião da abertura dos trabalhos da COP26 de que esta é a “última oportunidade” de mudanças radicais caso não quisermos “cavar a nossa própria sepultura”. Aqui ressoam as palavras do Papa Francisco da Fratelli tutti: “estamos no mesmo barco ou nos salvamos todos juntos ou ninguém se salva”(n.30.34.)

Ficou claro para os analistas mais sérios: o problema não é o clima mas o sistema capitalista que produz as perturbações do clima. Os vários projetos para o tempo pós-pandemia como o Great Reset (a grande reinicialização), o Capitalismo Verde, O futuro que nos espera e a Responsabilidade social corporativa das empresas representam os interesses dos países opulentos e não os gerais da humanidade. As soluções são intra-sistêmicas, sem jamais questionarem a verdadeira causa das atuais ameaças. Pelo contrário, radicalizam o sistema de acumulação imperante com a cultura consumista que gerou. Sua preocupação ecológica é superficial e são negacionistas das ameaças que pesam sobre o sistema-vida e o sistema-Gaia, super ente vivo.E assim vamos gaiamente ao encontro de uma tragédia ecologico-social de proporções inimagináveis. Cabe ainda enfatizar que o avanço sobre as florestas e o aumento da urbanização mundial, associado ao aumento da temperatura, poderão liberar – esta é a advertência dos maiores epidemiologistas – uma gama incalculável de vírus mais perigosos que o Covid-19. Que não seja o next big one,(o próximo grande) já advertido, contra o qual nenhuma vacina seria eficaz e poderia levar grande parte da humanidade. Et tunc erit finis.

Neste contexto, queremos nos referir ao Quinto Tribunal Internacional dos Direitos da Natureza. À base de minuciosa investigação científica e jurídica, elaborou dois vereditos, um sobre a violação dos direitos da natureza e outro sobre a Amazônia. Restrinjo-me à Amazônia, por ser a mais dolorosamente afetada. Já o título é significativo:”a Amazônia, uma entidade viva ameaçada”. O detalhado relatório, sustentado pelos mais seguros dados científicos e jurídicos, acrescido pelos testemunhos vivos dos representantes dos 9 países amazônicos, seja de indígenas e de outros habitantes da área, feitos no dia 4 de novembro presencialmente ou virtualmente (o meu caso, do corpo de jurados) são de meter medo.

No veredito, de forma contundente, se afirma “a Amazônia como sujeito de direitos”. Estes são sistematicamente violados. Faz-se a denúncia de que na Amazônia “está em curso um ecocídio, tal é a magnitude das cifras de desmatamento, perda da biodiversidade, contaminação e o secamento das fontes de água, desertificação entre outros que afetam gravemente a capacidade de restauração natral dos ecossitema da vida e vulnera o drieito de existir da natureza..É um crime de lesa natureza e de lesa humanidade e não prescreve”.

A exposição do especialista em estudos amazônicos Antônio Nobre deixou claro que na Amazônia brasileira (67% do total) estamos próximos ao ponto de inflexão. Um pouco mais, os danos serão irreversíveis e caminharemos para uma espécie de savanização. Tal fato desestabiliza os climas do país, dos países vizinhos e do próprio sistema mundial. Só incorporando a sabedoria dos povos originários que naturalmente cuidam da floresta, pois, se sentem parte dela, assumindo uma bioeconomia adequada àquela ecossistema e o extrativismo, respeitador da floresta, à la Chico Mendes, poderemos sustar o processo de degradação. No longo e minucioso relatório se constata que na vasta região amazônica, está ocorrendo um ecocídio, um etnocídio e um genocídio. A situação é desastrosa.

Voltando à COP26, verifica-se por parte dos “decisions makers”, dos governantes das diversas nações, uma falta clamorosa de consciência das ameaças que pesam sobre a Terra viva e sobre a humanidade. Nunca, em nenhum momento, os países que mais representam risco, reconheceram que o sistema sócio-econômico-político, promovido por eles, numa palavra, o capitalismo como modo de produção e o neoliberalismo como sua expressão política é o principal causador do eventual Armagedom ecológico.

Não podemos ficar reféns da bolha capitalista. Urge rompe-la. Como? O Papa Francisco nos aponta uma direção:”Não se pode sair dessa crise sem evoluir para as periferias”. De cima só vem mais do mesmo ou pior. Das periferias, de baixo, a partir dos inúmeros movimentos sociais populares e nos experimentos alternativos, trabalhando o território com outro tipo de economia solidária, preservando os commons, com uma democracia cotidiana e participativa, com outros valores humano-espirituais (amorosidade, solidariedade, cuidado, compaixão etc) se está gestando uma nova forma de habitar a Casa Comum.

Sem essa viragem necessária, estamos destruindo o futuro de nossos jovens e até o futuro de nossa civilização. Temos pouco tempo e parca sabedoria. Mas com o sofrimento atual, a amorisação pela Mãe Terra e o resgate da inteligência cordial, cada vez mais emergentes, poderemos forjar um futuro de esperança. Que assim o queira Deus.

AS AMEAÇAS SOBRE A TERRA PRESENTES NA COP26 EM GLASGOW?

Em Glasgow, nesse final de 2021, com a COP26 se discute como reduzir os níveis de gases de efeito estufa para não chegarmos em 2030 a 1,5 graus Celsius e então a um caminho sem retorno. A maioria está cética, pois os grandes emissores não cumpriram o Acordo de Paris. Reduzirem apenas até 7% e o Brasil, ao contrário, cresceu em 9% sua emissão. Dada a engrenagem do processo produtivo mundial de viés capitalista que tende a não assumir nenhum limite em seus ganhos, provavelmente não alcançaremos esta meta. Nossos filhos e netos herdarão uma Terra devastada e poderão nos amaldiçoar por não termos feito a lição de casa. A situação dramática da Terra está ausente nos debates. Não se fala da relação destrutiva para com a natureza. Vejamos rapidamente, no curso da história, como chegamos ao drama atual.

A interação com a natureza

Nossos ancestrais que se perdem na penumbra dos tempos imemoriais, entretinham uma interação não destrutiva: tomavam o que a natureza fartamente lhes oferecia. Esse tempo durou milênios, começando na África, onde surgiu o ser humano, pela primeira vez há alguns milhões de anos. Por isso, somos todos, de alguma forma, africanos.

A intervenção na natureza

Há mais de dois milhões de anos, irrompeu, no processo da antrogênese (a gênese do ser humano na evolução) o homem hábil (homo habilis). Aqui ocorreu uma primeira virada. Inicia-se aquilo que culminou de forma extrema nos nossos dias. O homem hábil inventou instrumentos com os quais operava uma intervenção na natureza: um pau pontiagudo, uma pedra afiada e outros recursos semelhantes. Com eles podia ferir e matar um animal ou podia cortar plantas. Essa intervenção se desenvolveu muito mais intensamente com a introdução da agricultura e da irrigação, ocorrida volta de 10-12 mil atrás na era chamada do neolítico. Desviavam-se águas dos rios, melhoravam colheitas, criavam animais e aves para serem abatidos.

É o tempo em que os humanos deixaram de ser nômades e se fizeram sedentários, com vilas e cidades, geralmente, junto aos rios como ao Nilo no Egito, ao Tigre e ao Eufrates no Oriente Médio, ao Indo a o Tanges na Índia e ao redor do imenso lago interno, o Amazonas que há milhares de anos, desaguava no Pacífico.

A agressão à natureza

Da intervenção passamos à agressão da natureza, na era industrial a partir do século XVIII. Surgiram as fábricas com a produção em massa. Forjou-se todo tipo de instrumentos técnicos que permitiam extrair enormes riquezas da natureza. Partia-se da premissa de que o ser humano é “senhor e dono” da natureza, não se sentindo mais como hóspede e parte dela. A ideia-força era a vontade de poder, entendida como capacidade de dominar tudo: outras pessoas, classes sociais, povos, continentes, a natureza, a matéria, a vida e a própria Terra como um todo. Foram produzidas armas de destruição em massa, químicas, biológicas e nucleares.

O inglês Francis Bacon, tido como o fundador do método científico moderno, chegou a escrever: “Deve-se torturar a natureza como o torturador tortura a sua vítima, até ela entregar todos os seus segredos”. Os conhecimentos científicos foram logo transformados em técnicas de extração de bens naturais, cada vez mais aperfeiçoadas, para realizar o propósito de acumulação ilimitada. Aqui a agressão ganho estatuto oficial. Foi e continua sendo aplicada até os dias atuais.

A destruição da natureza

Nos últimos tempos de modo especial, depois da segunda guerra mundial (1939-1945) a sistemática agressão ganhou dimensões de verdadeira destruição de ecossistemas, da biodiversidade, dos bens e serviços escassos da natureza, até da Mãe Terra agredida em todas as suas frentes.

Segundo notáveis cientistas, inauguramos uma nova era geológica, chamada de antropoceno, na qual o ser humano emerge como a maior ameaça à natureza e ao equilíbrio da Terra, particularmente de seus climas. Chegou-se ao ponto de nosso processo industrialista e o estilo consumista de vida dizimar anualmente cerca de 100 mil organismos vivos. Mais de um milhão deles estão sob grave ameaça de desaparecimento.

A partir desta verdadeira tragédia biológica começou-se a falar de necroceno, quer dizer, a morte (necro) em massa de vidas da natureza e de vidas humanas por miséria, fome de milhões e milhões e agora pelo Covid-19 planetário.

A erosão da Matriz Relacional

Perdeu-se a perspectiva do Todo. Ocorreu uma verdadeira fragmentação e atomização da realidade e dos respectivos saberes. Sabe-se cada vez mais sobre cada vez menos. Tal fato possui suas vantagens mas também seus limites. A realidade não é fragmentada. Por isso os saberes também não podem ser fragmentados. Falamos da aliança entre todos os saberes, também dos populares (Prigogine).

Deixou-se de considerar as relações de interdependência que todas coisas guardam entre si. Numa palavra: erodiu-se a matriz relacional de todos com todos, que envolvem o próprio universo. Nada existe fora da relação. Numa poética formulação do Papa Francisco em sua encíclica Laudato si: sobre o cuidado da Casa Comum (2015) se afirma:

O Sol e a Lua, o cedro e a florzinha, a águia e o pardal, o espetáculo de sua diversidades significa que nenhuma criatura se basta a si mesma; elas são interdependentes uma das outras para se completarem mutuamente no serviço uma das outras! (n.86)

Se realmente todos estamos entrelaçados, então devemos concluir que o modo de produção capitalista, individualista, depredador da natureza, visando o maior lucro possível sem se dar conta das relações existentes entre todas as coisas, emitindo gases de efeito estufa, está na contramão da lógica da natureza e do próprio universo.

A Terra nos criou um lugar amigável para viver mas nós não estamos nos mostrando amigáveis para com ela. Ao contrário, movemos-lhe uma guerra, sem chance de ganhá-la, a ponto de ela não aguentar mais e começar a reagir numa espécie de contra-ataque. Este é o significado maior da intrusão de toda uma gama de vírus, especialmente do Covid-19. De cuidadores da natureza nos fizemos em seu Satã ameaçador.

Ou mudamos ou podemos correr o risco de desaparecer

Até o advento da modernidade o ser humano percebia-se ligado ao Todo. Agora a Mãe Terra foi transformada “num banheiro” e “estamos cavando nossa sepultura” disse o Secretário Geral da ONU António Guterres ao abrir os trabalhos na COP26 no dia 31/10/2021, ou num baú cheio de recursos a serem explorados. Nessa compreensão que acabou por se impor, as coisas e os seres humanos estão desconectados entre si, cada qual seguindo um curso próprio.

A ausência do sentimento de pertença a um Todo maior, o descaso pelas teias de relações que ligam todos os seres, tornou-nos desenraizados e mergulhados numa profunda solidão, coisa que o impedia uma visão integradora do mundo, que existia anteriormente.

Por que fizemos esta inversão de rumo? Não será uma única causa, mas um complexo delas. A mais importante e danosa foi termos abandonado a referida Matriz Relacional, vale dizer, a percepção da teia de relações que entrelaçam todos os seres. Ela nos conferia a sensação de sermos parte de um Todo maior, de que estávamos inseridos na natureza como parte dela, como irmãos e irmãs, como afirma a Fratelli tutti do Papa Francisco e não simplesmente seus usuários e com interesses meramente utilitaristas. Perdemos a capacidade de admiração pela grandeur da criação, de reverência face ao céu estrelado, de respeito por todo tipo de vida e da capacidade de chorar pelo sofrimento da maioria da humanidade.

Se não fizermos esta virada de “senhores e donos” (dominus) da natureza para “irmãos e irmãs (frater) entre todos, da humanidade e da natureza, não serão eventuais acordos alcançados na COP26 de diminuição de gases de efeito estufa que irão nos salvar. A questão é a mudança de paradigma. Ou mudamos ou corremos o risco de desaparecer da face da Terra.

Edição 171, outubro 2021

O GRANDE PLAYER EXCLUIDO NA COP26

Do dia 31 de outubro a 12 de novembro ocorrerá a vigésima sexta edição da COP (Conferência das Partes) da ONU na cidade de Glasgow na Escócia.O grande tema que será tratado pelos 191 países participantes é como controlar o aquecimento global, efeito da emissão de gases de efeito estufa. Segundo o recente relatório do IPCC (Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas) o cenário mundial se apresenta, mais do nunca antes, sombrio. Temos apenas uma década para reduzir ao menos pela metade as emissões de CO2.Caso contrário atingiremos um aquecimento de 1,5 graus Celsius.Com esta temperatura ocorreria uma grave devastação da natureza, pois a maioria dos seres vivos não se adaptaria e poderia desaparecer; atingiria também dramaticamente a humanidade, com milhões de emigrados climáticos, pois suas regiões se tornaram demasiadamente quentes para viver e produzir; além do mais, poderia haver a intrusão de vasta gama de vírus que sacrificariam seguramente um número inimaginável de vidas humanas, muito maior que o atual Covid-19.

Em razão do que já foi acumulado na atmosfera, pois o CO2 permanece lá por 100 a 120 anos, as mudanças que fizermos agora não mudarão o curso crescente de eventos extremos causados por esta acumulação; ao contrário, tendem a se agravar como vimos pela inundação de águas do mar da cidade de Nova York. Nem a geoenharia, proposta pela ciência, deteria o nível das mudanças climáticas. Razão pela qual muitos estudiosos do clima sustentam que chegamos atrasados demais e não há como voltar atrás. Esta constatação faz com que inúmeros cientistas se tornassem céticos e tecnofatalistas. No entanto, afirmam que se não podemos mais mudar o curso do crescente aquecimento podemos, pelos menos, utilizar a ciência e a tecnologia disponíveis para minimizar seus efeitos desastrosos. O clima atual comparado com o que vier, nos parecerá ameno.

O relatório do IPCC é contundente ao afirmar que esta situação é consequência, absolutamente segura, das atividades humanas danosas para com a natureza (desmatamento, utilização excessiva de energia fóssil, erosão da biodiversidade. crescente desertificação e mau trato dos solos etc). É imperioso reconhecer que estes transtornos climáticos tem pouco a ver com a grande maioria da humanidade empobrecida e vítima do sistema imperante. Este produz, infelizmente, uma dupla injustiça: uma ecológica ao devastar inteiros ecossistemas e outra social fazendo aumentar a pobreza e a miséria a nível mundial. Os verdadeiros causadores são as megacorporações industrialistas e extrativistas mundializadas que não respeitam os limites da natureza e que partem da falsa a premissa de um crescimento/desenvolvimento ilimitado porque os recursos naturais também seriam ilimitados. A encíclica Laudato Sí do Papa Francisco declara como mentira esta pressuposição (n.106).

Que esperar da COP26 em Glasgow? São muitos a colocar em dúvida se haverá consenso suficiente para manter o Acordo de Paris, com o compromisso de redução de emissão de CO2 e outros gases de efeito estufa até chegar por volta de 2050 a zerá-la. Sabemos, no entanto, a partir das COPs anteriores, que a agenda é controlada pelos agentes das megacorporações, particularmente,do petróleo e da alimentação entre outras. Elas tendem a manter o status quo que as beneficia e se opõem a transformações de fundo que as obrigaria a também mudar seu modo de produção e diminuir seus ganhos em função do bem geral planetário. Assim que criam obstáculos ao consenso e freiam medidas mais drásticas face à evidente deterioração do equilíbrio climático da Terra.

Obviando um longo arrazoado, diria simplesmente o que a Carta da Terra (2003) e as duas encíclicas ecológicas do Papa Francisco, a Laudato Si:sobre o cuidado da Casa Comum (2015) e a Fratelli tutti (2020) afirmam com toda a seriedade: temos que operar uma “profunda conversão ecológica” pois ”estamos no mesmo barco; ou nos salvamos todos ou ninguém se salva”(Carta de Terra,preâmbulo e final:Fratelli n.30.34). Ocorre que o tema: como está nossa relação para com a natureza, de rapinagem ou de cuidado? De preservação de sua biocapacidade ou exaustão dos seus bens e serviços necessários à nossa vida e à sobrevivência? Como não é posto não é também considerado e respondido.

A Terra e a natureza constituem, no entanto, o Grande Player. De sua preservação, dependem todos os demais projetos dos pleyers e o futuro de nossa civilização. A análise da situação degradada da Terra, inegável e desenfreada, nunca é considerada nas diversas COPs. A centralidade é ocupada pela economia política vigente, o player dominante, o verdadeiro causador dos desequilíbrios climáticos. Este nunca é colocado em questão.

O verdadeiro player salvador é a natureza, a Terra-Gaia, mas são totalmente ausentes em todas as COPs e será, pressupomos, também em Glasgow. Na perspectiva da Fratelli tutti: ou passamos do paradigma do dominus, o ser humano desligado da natureza e se entendendo seu dono e dominador para o paradigma do frater, do ser humano sentindo-se parte da natureza e irmão e irmã com os humanos e com todos os demais seres da natureza ou então vamos ao encontro do pior. Esta é a quaestio stantis et cadentis, vale dizer, a questão fundamental, sem a qual todas as demais questões se invalidam.

Desta vez, o futuro está em nossas mãos. Como afirma no seu final a Carta da Terra:”como nunca antes na história, o destino comum nos conclama a buscar um novo começo” Em seu sentido mais profundo, esta é a lição que o Covid-19 nos quer passar. Voltaremos ao antes, aterrador para a maioria da humanidade,ou teremos coragem para um “um novo começo”, contrário ao Great Rezet ( a grande reinicialização) dos bilionários? Almejamos um verdadeiro “novo começo” benéfico para toda a comunidade de vida especialmente para a Casa Comum e para nós, seus habitantes, a natureza incluída. É a condição de nossa continuidade sobre este pequeno e esplendoroso planeta Terra.

O GRANDE ENGODO: O CAPITALISMO VERDE

Os grandes mega capitais estão reunindo centenas de economistas e politólogos para preparar o mundo na pós-pandemia. Saíram já vários documentos.O principal talvez seja o publicado pelo conservador The Economist (principais acionistas as famílias Rothschild e Agnelli),sob o título:”O futuro que nos espera”. Se lemos os 20 pontos elencados ficamos estarrecidos: apresentam um projeto onde só eles entram, deixando fora o resto da humanidade que será controlada,seja cada indivíduo seja a inteira sociedade, pela inteligência artificial cuja função é desarmar e liquidar qualquer reação em contrário. A expressão introduzida pelo parasita príncipe Charles,na última reunião em Davos é esta:”o grande reinício”(the Great Reset). Logicamente, se trata da retomada nova do sistema capitalista que protege as fortunas de um punhado biliardários. O resto que se dane.

Como afirmou a escritora britânica Helga Zepp-La Rouche (cf.Alainet 29/9/21): “Em definitiva, se trata de uma expressão altaneira, petulante e racista da elite global, a mesma que para manter seus privilégios mata de fome diariamente 20 mil pessoas, decreta guerra de extermínio e pode irresponsavelmente destruir o planeta”. Vejam em que mãos está o nosso destino.

Pregam o capitalismo verde, mero ocultamento da depredação que ele faz da natureza. O capitalismo verde destas megacorporações que controlam grande parte da riqueza do mundo, não representa nenhuma solução. Para ele ecologia significa plantar árvores nos jardins das empresas, chamar a atenção de usar menos plásticos e poluir menos o ar.Nunca colocam em questão seu modo de produção, depredador da natureza, a verdadeira causa do desarranjo climático da Terra e da intrusão do Coviod-19 e especialmente a abissal desigualdade social e mundial.

Outro grande grupo de megacorporações emitiu um documento sobre “a responsabilidade social corporativa das empresas”. Robert Reich, ex-secretário do trabalho do governo norte-americano desmascarou este propósito enganador:”eles estão em um negócio de fazer a maior quantidade de dinheiro possível e não de resolver os problemas sociais; procuram apenas o bem-estar de ‘todos os nossos acionistas”(cf.Carta Maior 30/9/21).

Em outras palavras: o desenho da grande banca, das multinacionais e da sociedade planetária pensada pela elite global é configurado segundo as suas conveniências, nunca para salvaguardar a vida na Terra, inserir os pobres, mas garantir suas fortunas e o modo de produção devastador que as produz. Os pobres, as grandes maiorias da humanidade. estão totalmente fora de seu radar.Serão contidos pela inteligência artificial que impedirá que levantem a cabeça.

Se prosperar estes propósitos está sendo pavimentado o caminho que nos levará ao desastre planetário, como tem advertido o Papa Francisco nas duas encíclicas ecológicas:”ou mudamos de rumo e ai todos se salvam ou então ninguém se salva”(cf.Fratelli tutti, n.34).

Estes que detém a decisão dos rumos da humanidade,não aprenderam nada do Covid-19 e dos crescentes distúrbios climáticos. Eles confirmam o que dizia o grande teórico de um marxismo humanista italiano, Antonio Gramsci:”A história ensina,mas ela não tem alunos”. Estes não frequentaram a história. Apenas (des)aprendem da razão instrumental-analítica que hoje em dia se tornou irracional e suicidária.

Embriagados por sua ignorância e ganância ilimitada (greed is good), seremos levados como inocentes cordeiros rumo ao matadouro. Não por vontade do Criador nem por um desvio do processo cosmogênico, mas por sua irresponsabilidade e pela falta de consciência dos erros cometidos que não querem corrigir. E assim, hilariamente e ainda gozando a vida, nos obrigarão, talvez, a sofrer o destino vivido há 65 milhões de anos pelos dinossauros.

O AMOR PERTENCE AO DNA DO SER HUMANO

Assistimos, estarrecidos, em nosso país e também em grande parte do mundo uma onda de ódio, de desprezo, de exclusão e de violência simbólica e física que suscita a questão: que inscrição possui este dado sinistro dentro da vida humana? Como veremos logo a seguir,os pesquisadores sobre o segredo da vida humana nos garantem que, por natureza e não simplesmente por um projeto pessoal ou social, está inscrito em nosso DNA o amor, a cooperação, a solidariedade e a compaixão. Os que vivem e alimentam o ódio são inimigos de si mesmos e da própria vida. Por isso nada de efetivo produzem, senão desgraças, exclusões, crimes e morte. É o que lastimavelmente estamos assistindo.

Nesta questão, o primeiro nome a ser referido é sem dúvida, James D.Watson com seu famoso livro “DNA: o segredo da vida”(2005). Junto com seu colega Francis Crick cientificamente sustentam que o amor está presente na essência do DNA. Ambos em 1953 decodificaram o código genético, a estrutura da molécula de DNA, a dupla hélice que contém o programa de toda vida, desde a célula primigênia surgida há 3,8 bilhões de anos até chegar a nós, seres humanos.

Todos somos constituídos pelo mesmo código genético de base, o que nos faz a todos parentes uns dos outros. Afirma Watson: “contra o orgulho, revelam as sublimes realizações do intelecto humano, que temos apenas duas vezes mais genes que uma reles minhoca, três vezes mais genes que uma mosca de frutas em decomposição e apenas seis vezes mais genes do que o simples fermento de padaria”.A célula do DNA esticada alcança um metro e 85 centímetros;reduzida a sua forma original é de um trilionésimo de centímetro e está presente em cada célula, mesmo na mais superficial da pele de nossa mão. Watson define: ”a vida assim como a conhecemos nada mais é que uma vasta gama de reações químicas coordenadas. O segredo desta coordenação é um complexo e arrebatador conjunto de instruções inscritas quimicamente em nosso DNA.Mas há ainda um longo caminho a percorrer em nossa jornada até o pleno conhecimento de com o DNA atua”(p.424).

Muitos conhecimentos novos enriqueceram a visão de Watson/Crick especialmente pelos dois biólogos chilenos Humberto Maturana e Francisco Varela. O melhor destas pesquisas foi maravilhosamente resumido no livro do ecologista e físico quântico Fritjof Capra em seu livro “A teia da vida”(1997).Ele mostrou didaticamente que para o surgimento da vida se precisam de um padrão de organização (que nos faz distinguir uma cadeira de uma árvore) de uma estrutura que organiza os elementos físico-químicos que permitem o irromper da vida. Mas isso não basta :precisa-se incorporar a auto-criação.Os seres vivos, em sistemas abertos que os faz dialogar com todo o entorno,não são estáticos, estão sempre em processo de auto criação (autopoiesis de Maturana). Não apenas se adaptam às mudanças, mas criam novas junto com os demais seres de tal forma que continuamente co evoluem.

Um contribuição decisiva foi trazida por Humberto Maturana que estudou a base biológica do amor. Ele vê o amor presente desde os inícios do universo. Cada ser se rege por dois processos: primeiro é de necessidade de interconectar-se com todos os demais para garantir mais facilmente sua sobrevivência. O segundo é de pura espontaneidade. Os seres se inter-relacionam por rara gratuidade, criando entre si laços novos e por afinidade, como se enamorassem reciprocamente. É a irrupção do amor no processo cosmogênico.O amor que surge entre dois seres, milhões de anos depois, teve sua origem nessa relação de ancestral amorosidade espontânea.

Tudo isso ocorre como um dado de realidade objetiva. Ao chegar ao ser humano pode se transformar em algo subjetivo, num amor conscientemente assumido e vivido como um projeto de vida.

Toda esta reflexão se destina a deslegitimar e acusar como desumana, contrária ao movimento do universo e à base biológica da vida, a prevalência do ódio, da exclusão, das raivas presentes em nosso pais, animadas por um chefe de estado que excele em ódio,comportamentos desviantes e necrófilos. Fez-se inimigo da vida de seus compatriotas ao aliar-se ao Clovd-19,apresentando-se como um mestre curador através da cloroquina e compostos, como se médico e especialista fosse. Passou por um reles charlatão e, com referência aos indígenas, um genocida.

Termino com o testemunho de Watson no referido livro:

”Embora não seja religioso,vejo elementos profundamente verdadeiros nas palavras sobre o amor de São Paulo na epístola aos Coríntios:”Se falasse todas as linguas…se tivesse o conhecimento de todos os mistérios e de toda a ciência…senão tivesse o amor nada seria. Paulo, no meu entendimento, revelou com clareza a essência de nossa humanidaade. O amor, esse impulso que nos faz ter cuidado com o outro foi que nos permitiu nossa sobrevivência e sucesso no planeta. Tão fundamental é amor à nossa natureza humana que estou certo de que a capacidade de amar está inscrita em nossa DNA. Um Paulo secular (ele Watson) diria que o amor é a maior dávida de nossos genes à humanidade”(p.433-434).

Tais palavras nos levam a responder ao ódio bolsonarista com o amor, à ofensa de seus fãs com amorosidade: Tais atitudes nos d a certeza e garantia de que estes tempos nefastos de ira e de ódio passarão.

O MITO VERDADEIRO E O MITO FALSO (BOLSONARO)

Quando uma massa imbecilizada começou a ovacionar a Jair Bolsonaro como mito houve um estremecimento em todo o universo cultural dos mitos. Todas as culturas possuem e cultuam seus mitos. Chamar de mito a alguém de mente assassina, um ser movido por ódio, exaltação da tortura, covarde desprezo de afrodescendentes, indígenas, quilombolas e LGBTI e que se propõe “destruir tudo o que está aí”, culminando com a dizimação de milhares de compatriotas vitimados pela Covid-19 por sua intencionada omissão sem mostrar qualquer sentimento de empatia é atingir no coração o ancestral sentido do mito.

Há uma infinidade de excelentes estudos sobre o resgate do sentido originário do mito. Cito apenas os mais notáveis: a vasta obra em vários tomos de Karl Kerényi, Bronislav Malinovski (seu clássico Myth in Primitive Psychology de 1926), C.G.Jung e sua escola, particularmente Ginette Paris e James Hillman; ainda Micea Eliade, Joseph Campbell, Georges Dumézil, o brasileiro J. Souza Brandão e entre outros e outras. Com referência às religiões de matriz afro ou surgidas aqui como o Santo Daime e a Umbanda compareceram pesquisadores notáveis como Roger Bastide, A. Carneiro, R. Ribeiro, J. Elbein dos Santos entre outros e outras.

O mesmo pode-se dizer do politeismo dito pagão. O monoteísmo judaico-cristão foi severíssimo contra o politeísmo, em especial, do romano. Logicamente os neocristãos não possuíam o nível de consciência e os instrumentos de interpretação de que hoje dispomos com as contribuições da nova hermenêutica, da psicologia do profundo,do estruturalismo e da nova antropologia. Eles tomaram aquelas divindades, como também no Brasil concernente às entidades das religiões afro (o axé,os orixás etc) como realidades existentes fora de nós. A pesquisa contemporânea vê nelas não entidades externas mas expressões de energias psíquicas internas, poderosas e primordiais, expressas por figuras concretas externas que devem ser adequadamente interpretadas com os critérios referidos. Já observava E. Durkheim; a religião tem mais a ver com energias poderosas do que com doutrinas.

Estas energias são tão profundas e misteriosas que não se deixam captar conceitualmente nem ontem nem hoje. Usam-se então figuras arquetípicas, narrativas plásticas que dão corpo a estas energias que irrompem, se agitam e vivem dentro de cada ser humano. Nesse sentido elas são transculturais e perenes como perene é a condição humana. O exacerbado monoteísmo combatendo o politeísmo, fechou muitas janelas da alma e lançou para o inconsciente energias que teriam colaborado enormemente para a humanização e o enriquecimento do psiquismo humano (evitando o surgimento do machismo e do patriarcalismo que tantos males produzem), caso fossem entendidas em seu sentido originário profundo.

Sirva de exemplo a deusa grega Afrodite: é uma energia arquetípica (das profundezas do inconsciente coletivo) concernente àquilo que subiste em nós: a sexualidade, o enamoramento, a beleza e a sedução e,em seu lado de sombra, a infidelidade e a prostituição. Ou a figura simpática do Preto Velho, sempre sábio e protetor ou o tão incompreendido e difamado Exu, o portador da energia cósmica do Axé que vitaliza todos os seres. São energias vitais que movem a vida humana. Que linguagem adequada encontrar para exprimi-las consoante a sua natureza? O mito e as divindades (Orixás, Oxóssi, Iansã, Xangô ou panteão católico de santos e santas) tentaram expressar plasticamente a vigência destas forças primordiais.

Pelo que sabemos,foram os gregos os primeiros a usar a palavra mito num duplo sentido: como força originária de vida ou como um história inventada. No sentido primeiro e originário, o mito constitui uma realidade arquetípica, uma energia fontal que sustenta o ser humano vivo,criativo e aberto a todo tipo de relação. O mito não é inicialmente uma narrativa, mas uma realidade vivida que enraíza o ser humano no seu chão e com toda a realidade à sua volta e lhe confere sentido de pertença e orientação. Abro um parêntesis para ilustrar o significado originário do mito.

Quando fui lançar na UFRJ meu livro “O Casamento do Céu com a Terra: contos dos povos indígenas do Brasil”(2014) comecei dizendo: “Quero apresentar aqui uma série de mitos indígena”… Nisso me atalhou imediatamente Ailton Krenak, grande liderança nacional indígena:”Esses mitos não são mitos como vocês entendem, coisa obsoleta de indígenas; são verdades vitais que nós vivemos e nos oferecem luz para o nosso caminho. O rio Doce é nosso irmão e as montanhas devoradas pela fúria impiedosa da mineradora Vale são nossas mães e irmãs violentadas”. E arrematou: “vocês têm seus mitos dos quais não têm sequer consciência: o mito da tecnociência, do desenvolvimento ilimitado, do consumismo..; o que eles trouxeram para vocês senão desigualdade, conflitos, ansiedade e acumulação de bens materiais que não satisfazem os anseios da alma?".

Produziu-se um grande silêncio. Foi então que antes de falar dos belíssimos “mitos” vivenciais indígenas, especialmente, aqueles ecológicos que nos ensinam a criar um laço afetivo com a natureza e com os animais, tentei explicar aquilo que estou explanando agora: os mitos são as realidades fundadoras do sentido da vida humana situada na região da qual nos sentimos parte e parcela, aquela vivência que nos liga à Terra e ao Céu e nos oferece uma significação integradora da interdependência de todos com todos com os seres da natureza. Nesta acepção positiva até se fala em teologia no “mito cristão”: tudo aquilo de sagrado e de divino que representa o designio de Deus para o nosso mundo,através de sua auto-comunicação por Jesus e por seu Espírito.

Nossa cultura tecnificada e materialista perdeu esta percepção do sentido originário do mito e se alimenta de falsos mitos, especialmente, projetados pelo marketing comercial e também político. Por isso andamos errantes, solitários e perdidos no meio de um mundo de aparatos e do consumismo sem alimentar o melhor de nós mesmos: a nossa interioridade, nossa capacidade de admirar o despontar de uma flor, de sentir a brisa leve, de se encantar com o nascer e o pôr do sol, de celebrar a alegria de estarmos juntos e dialogarmos sobe nossas vidas, sucessos e dissabores.

Os mesmos gregos que refletiram tão profundamente sobre o mito vivencial também nos advertiram acerca do mito inventado, descolado da vivência da “anima” (a dimensão sensível e simbólica da realidade), construído como uma narrativa falaciosa para atrair as pessoas e deixá-las fascinadas e fanatizadas em função de interesses escusos e de sentimentos indignos.

Tal mito forjado, falso, impiedoso, insensível e odiento é esta triste e lamentável figura que escandaliza a polis, a vida social e degrada a política como forma civilizada e humanizada de convivência entre os cidadãos. E o faz, descaradamente, até no Foro mais alto que é a ONU. Este (des)governa nosso país sem qualquer sentido de dignidade do cargo, usando continuamente mentiras e ataques autoritários à democracia, ao STF e às instituições políticas nacionais. Seu nome sequer merece ser citado para não ofender a linguagem.

Tudo o que representa um falso mito e vem construído sobre o ódio e a mentira, como ele está fazendo, jamais foi e será fundamento de uma convivência humana aceitável. Ele ruirá como um castelo de areia.E grande será sua queda. Isso não é profecia, é lição da história.

Edição 170, setembro 2021

UMA ESPANTOSA REVELAÇÃO, VIVIDA POR POUCOS E RECUSADA POR MUITOS (II)

B.D. Obviamente, estes 2 Textos são da exclusiva responsabilidade do meu amigo e teólogo L. Boff. Não me revejo mininamente neles. O título é até surpreendente, mas o conteúdo é uma confusão teológica de todo o tamanho. Põe ao mesmo nível o Evangelho de Jesus histórico e o Evangelho de S. Paulo, quando eles são antagónicos entre sí. É pena que L. Boff ainda não tenha percebido que Jesus histórico nunca foi cristão, tão pouco é 'o filho de David', sim e exclusivamente 'o filho de Maria'. Cuja, surpreendentemente nunca chegou a ser discípula dele e até é contra ele. Como prova o meu Livro 52, de que fala o Texto Fraternizar, da minha responsabilidade, nesta mesma edição.

A primeira palavra de Jesus quando apareceu publicamente foi: “O Reino tão ansiado foi aproximado e mudem de mente e de coração” (Cf. Mc 1,14). Reino, contrariamente à expectativa dos judeus, não era o restabelecimento da antiga ordem, a libertação política contra a dominação romana que tanto os envergonhava. Reino de Deus, para Jesus, é outra coisa: consiste numa nova relação de amorosidade entre as pessoas, incluindo a todos, até os ingratos e maus (Lc 6,35). O que prevalece agora é essa proximidade de Deus (ele se fez o mais próximo dos próximos) feita de amor e de misericórdia ilimitada.

Nâo há uma condenação eterna, só temporal.

A condenação é invenção das sociedades. Deus não conhece uma condenação eterna, pois sua misericórdia é sem limites.Se houvesse uma condenação eterna, Deus teria perdido. Ele não pode perder nunca nada “daquilo que ele criou com amor, pois, não odeia nenhum ser que pôs na existência senão não o teria criado, porque é o apaixonado amante da vida” (cf. Sab 11,24-26). Deixa as 99 ovelhas resguardadas e vai em busca da tresmalhada até encontrá-la.

Atesta-o o salmo 103, dos mais esperadores textos bíblicos:”Deus não está sempre acusando.Como um pai sente compaixão pelos filhos, assim ele se compadece…porque conhece nossa natureza e se lembra de que somos pó; sua misericórdia é de sempre para sempre”(Sl 103- 6-17).

Esta mensagem inovadora de Jesus – a proximidade incondicional e a misericórdia ilimitada do Deus-Abba – foi e é tão inovadora que foi e é vivida por poucos e é rejeitada pela grande maioria, como ocorreu no tempo em que ele perambulava pelas pedregosas estradas da Palestina.Não se deve esquecer que foram os políticos mas principalmente os religiosos que condenaram e levaram à cruz. Nas palavras do Pe.Júlio Lancellotti somos desafiados a viver o “amor à maneira de Deus”(título de seu livro, Planeta, 2021) começando pela população de rua, pelos discriminados por causa da cor de sua pele ou de sua origem os quilombolas, as mulheres lésbicas, os homoafetivos e os LGBTI, os pobres covardemente odiados pela “elite do atraso”,(a maioria apenas culturalmente cristã mas a séculos luz da Tradição de Jesus),ignorantes da amorosidade e da proximidade do Deus-Abba para com eles também.

A grande tragédia vivida por Jesus foi o fato de que essa proximidade de Deus amoroso, não foi acolhida:“veio para o que era seu, e os seus não receberam”(Jo 1,11). Por isso o crucificaram, porque não houve correspondência. Essa recusa se prolonga pelos séculos até aos dias de hoje, talvez com mais ferocidade ainda, pois o ódio e a discriminação campeiam pelo vasto mundo.

Não importa. Embora se sentisse Filho do Deus-Abba identidcando-se com Ele “não fez caso dessa situação de Filho bem amado; por solidariedade apresentou-se como simples homem na condição de servo, aceitando o mais vergonhoso castigo, morrer na cruz que significava morrer na maldição divina (cf. Flp 2,6-8).

A grande recusa da proximidade de Deus

Por causa do amor que lhe ardia dentro, Jesus assumiu sobre si, solidariamente, esse tipo de morte amaldiçoada e todas as dores do mundo; todo tipo de maledicência contra ele, suportou a traição dos apóstolos, Judas e Pedro, a sorte daqueles que já não creem ou se sentem abandonados por Deus e até recebeu séria ameaça de morte que depois se efetivou. Como tantos no mundo, ele também foi tomado de angústia e de pavor, a ponto de “o suor tornou-se grossas gotas de sangue”(Lc 22,41) como no Jardim do Getsêmani. Na cruz quase no limite do desespero do qual muitos são também tomados e ele o quis em comunhão com todos eles, sentir também, gritou:”Meu Deus, por que me abandonaste”(Mc 15,34)? A proximidade de Deus estava em Jesus mas recolhida, para que ele pudesse participar do inferno humano da morte de Deus, sofrida por não poucas pessoas. Todos estes, não estarão jamais sozinhos. O credo cristão reza que “ele desceu aos infernos”, significa: sentiu estar absolutamente só, sem que ninguém o pudesse acompanhar. Mas o Deus-Abba estava também lá como ausente. Desde este momento ninguém estará sozinho no inferno da absoluta solidão humana.Jesus esteve e estará com todos eles.

A ressurreição de Jesus que representa uma verdadeira insurreição contra a religião da Lei e a justiça do tempo, comparece como um clarão que vai mostrar, em total plenitude, esta proximidade de Deus que nunca se ausentou. Ela estava totalmente lá, sofrendo com os que sofrem. Os negadores e os ateus tem a liberdade de serem o que são, de não acolherem ou sequer saberem desta proximidade de Deus, mas isso não muda nada para Deus-Abba que nunca os abandona porque não deixam de serem seus filhos e filhas, sobre os quais repete:”Vocês são meus filhos e filhas bem amados com vocês me regozijo”.

Mas cabe ponderar: se não puderem enxergar uma estrela no céu límpido, a culpa não é da estrela, mas de seus olhos. Pelo fato do amor ilimitado e da misericórdia sem fronteiras são também eles abraçados por Deus-Abba embora se neguem de abraçá-lo. Mesmo não vista, a estrela estará brilhando.

O verdadeiro e real cristianismo é viver esta Tradição de Jesus. A maioria das igrejas cristãs, não excluída a romano-católica, se organizam redor do poder sagrado que cria desigualdades, firmada sobre um grosso livro doutrinário chamado de Catecismo, vinculadas a certa ordem moral, à uma vida piedosa, à recepção dos sacramentos, à participação nas festas litúrgicas.Tudo isso não é sem importância. Mas difícil e raramente se propõem a viver o amor incondicional e ensaiar amar à moda de Deus e à moda de Jesus, privilegiando aqueles que ele privilegiou, os últimos, os que não são, nem contam. Onde impera o poder, não viceja o amor nem floresce a ternura e a proximidade do Deus-Abba e de sua misericórdia, sempre presentes.

Não há como negar que, historicamente, grande parte da Igreja romano-católica estava mais perto dos palácios do que da gruta de Belém, mais considerando o madeiro da cruz do que aquele que lá está crucificado por solidariedade com todos, com os perdidos e caídos nas estradas.

A grande inversão: a conversão do pai e não do filho pródigo

Como tudo seria diferente neste mundo se esta inaudita revolução tivesse prosperado em nosso mundo. Não haveria o que estamos assistindo em nosso país e, em geral, em tantas partes, a prevalência do ódio, da discriminação, da violência contra os que não podem se defender e especialmente hoje contra a natureza que nos garante as bases que sustentam a vida e a Mãe Terra

Por esta razão, Jesus, mesmo ressuscitado, continua se deixando crucificar com todos os crucificados da história sob as mais diversas modalidades.

A parábola do filho pródigo revela como é a Tradição de Jesus. O fato novo e surpreendente não é a conversão do filho que volta arrependido para a casa do pai. Mas a conversão do pai que,cheio de misericórdia e amor, abraça, beija e organiza uma festa para filho, esbanjador da herança.O único criticado é o filho bom, seguidor da Lei. Tudo nele era perfeito, Para Jesus, não bastava, porém, ser bom. Faltava-lhe o principal: a misericórdia e o sentimento da proximidade do Deus-Abba até em seu irmão perdido pelo mundo.

O futuro da revolução espantosa de Jesus

Experimentamos tudo na já longa história humana, mas ainda não experimentamos coletivamente amar à moda de Jesus e do Deus-Abba. No entanto, muitos homens e mulheres o entenderam e viveram: estes são os verdadeiros portadores do legado de Jesus, os testemunhos da proximidade de Deus, especialmente àqueles referidos pelo evangelho de São Mateus:”eu era forasteiro e me hospedaste, estava nu e me vestiste, estava com fome e me destes que comer, esta na cadeia e me visitaste”(Mt 25,34-30). Nisso se revela a Tradição de Jesus que se sentia tão unido ao Deus-Abba a ponto de dizer: “Quem me viu, viu o Pai”(Jo 14,9). E diz a todos estes:”Todas as vezes que fizestes a um destes meus irmãozinhos e irmãzinhas menores, foi a mim que o fizestes (Mt 23,40).

Chegaremos um dia ver acolhida a proximidade de Deus, indistintamente da situação moral, política e ideológica das pessoas (pensemos nos torturadores das ditaduras militares) mesmo que o recusem explicitamente e abusam de seu nome (como o nosso chefe de Estado, inimigo da vida)? Ganhará centralidade esta verdadeira revolução transformadora do mundo?

Francisco de Assis e Francisco de Roma, junto com um exército de pessoas,muitas delas anônimas, ousaram esta aventura, acreditaram e acreditam que por aí passa a libertação dos seres humanos e a salvaguarda da vida e da Mãe Terra ameaçadas. A gravidade da situação atual nos coloca esta disjuntiva:”ou nos salvamos todos ou ninguém se salva” como o Papa Francisco o diz enfaticamente na Fratelli tutti (n.32). A Mãe Terra se encontra em permanente dores de parto até que nasça, naquele dia que só Deus sabe quando, o ser novo, homem e mulher,juntos com a natureza, habitarão a única Casa Comum. Então como profetizou um filósofo alemão do princípio esperança, que “o verdadeiro Gênesis não se encontra no começo mas no fim”. Só então “Deus viu tudo quanto havia feito e achou que estava muito bom”(Gen 1,31).

Ou faremos esta conversão ao sonho do Nazareno que nos trouxe a novidade da proximidade de Deus(o mais próximo dos próximos) que sempre está em nossa busca,mesmo nas sombras do vale da morte, ou então devemos temer por nosso futuro. Ao invés de sermos os cuidadores do ser, fizemo-nos sua ameaça mortal. Mas aquele que está no meio de nós e jamais retira sua proximidade, tem o poder de, das ruínas, forjar um novo céu e uma nova Terra. Então tudo isso terá passado.As lágrimas serão enxugadas e todos serão consolados por Deus-Abba. Começará a verdadeira história de Deus-Abba com seus filhos e filhas bem amados pela eternidade afora.

UMA ESPANTOSA REVELAÇÃO, VIVIDA POR POUCOS E RECUSADA POR MUITOS (I)

Nas religiões, os seres humanos buscam a Deus. Na Tradição de Jesus é Deus que busca os seres humanos. Na primeira, o fazem pela oração oral, pela meditação silenciosa, pela observância dos preceitos religiosos e éticos, pela participação das festas e dos ritos e pela memória das tradições. Quanto mais reta e fiel for a pessoa, mais meritoriamente chega a Deus.

Na Tradição de Jesus ocorre o contrário: É Deus que busca o ser humano, especialmente aquele que se sente perdido, que não leva uma vida virtuosa e que julga ter sido abandonado por Deus. Logicamente, nesta Tradição também se reza e se conservam as tradições religiosas, se vive eticamente e se frequentam os cultos e as festas. Englobando tudo: observa-se a Lei. Mas não é aqui que reside a novidade. E não é por esses meios que acolhemos a singularidade trazida por Jesus.

A experiência originária de Jesus: a proximidade de Deus

Num obscuro vilarejo,Nazaré, tão insignificante que nunca ocorre nas Escrituras do Antigo Testamento, vive um homem desconhecido cujo nome nunca constou na crónica profana da época, seja de Jerusalém, seja de Roma. Ele pertence ao grupo dos chamados “os pobres de Javè” que são os humildes e invisíveis mas cuja característica consiste em viver uma profunda fé no Deus dos pais, Abraão, Isaac e Jacob e uma inabalável confiança em Deus de que vai realizar o que os profetas anunciaram:a justiça para os pobres, a proteção das viúvas e a elevação dos humilhados e ofendidos. Esse homem é Jesus de Nazaré.

De profissão é um artesão-carpinteiro como seu pai José. Até a idade adulta viveu na família a espiritualidade dos pobres de Javé. Era conhecido no vilarejo como “o filho de José, de quem conhecemos o pai e a mãe”(Jo 6,42) ou simplesmente “o carpinteiro, filho de Maria” (Mt 5,3) ou “o filho de José”(Lc 4,22).

Mas ele mostrava uma singularidade que deixou perplexos os pais. Não chamava a Deus como se costumava, mas de uma forma bem própria: de Abba o diminutivo infantil de “meu querido paizinho”. Isso ficou claro quando aos 12 anos participou, com os pais, da romaria anual a Jerusalém e por lá ficou perdido. Encontrado, sob a angústia dos pais,diz:”Não sabíeis que eu devia ficar no casa do meu Pai (Lc 2,50)? Perplexos, seus pais não entenderam esta linguagem inaudita (Lc 2,5). Maria, no entanto, guardava-o em seu coração (Lc 2,51). E tudo morreu aí. Não se sabe nada de sua vida oculta, profissional e familiar. Apenas o evangelista Lucas observa tardiamente pelos anos 80 dC:”Jesus progredia em idade, em sabedoria e graça diante de Deus e dos homens”(Lc 2,52).

Abstraindo os evangelhos da infância de Mateus e de Lucas, carregados de significação teológica posterior, todos os evangelistas começam suas narrativas pelo batismo de Jesus por João Batista. Foi então, testemunham os relatos, que ocorreu uma grande transformação na vida do ignoto Nazareno. Quando ele ouviu a fama de João Batista, vindo do deserto, que batizava junto ao rio Jordão, não por curiosidade mas por seu espírito profundamente piedoso, se uniu à multidão e foi também ver João e o que estava acontecendo por lá. Multidões acorriam de toda a Palestina, pois o Batista pregava a iminente vinda do Reino (a nova ordem querida por Deus) e cobrava do povo penitências em vista desta irrupção. Provavelmente Jesus tenha conversado com ele e com seus discípulos.

Mas chegou o momento em que junto com a multidão e não sozinho como mostram as gravuras, Jesus entrou na água. A um sinal do Batista, ele mergulhou na água e assim se deixou batizar, como faziam todos. Mas eis que ocorreu nele algo especialíssimo. Depois de batizado, enquanto rezava, diz o texto de Lucas (3,21), sentiu um tremendo frémito interior. Foi invadido por uma onda de ternura tão avassaladora que comoveu todo seu interior:”Tu és meu filho amado, em ti pus meu agrado”(Mc 1,10-11). Lucas é mais explícito e diz o que Jesus ouviu:“Tu és meu Filho amado, eu hoje te gerei”(Lc 3,21-22).

A linguagem bíblica expressa a experiência interior usando expressões pictóricas e simbólicas: o céu se abriu e se viu o Espírito descer sobre ele em forma corpórea de pomba. Trata-se de uma encenação plástica para expressar uma radical e originalíssima experiência espiritual, vivida por Jesus, impossível de ser expressa por palavras.

A partir daí ocorreu uma verdadeira revolução em sua vida: sente-se filho amado pelo Deus-Paizinho querido. É invadido por uma paixão de amor divino que transtornou sua vida. Experimentou uma absoluta e direta proximidade de Deus. Não é mais ele que busca Deus. É Deus que o buscou e o assumiu como seu filho querido.

A espantosa revolução: a proximidade amorosa do Deus-Abba

Como em todas as coisas tudo conhece um processo. Com Jesus não foi diferente. Foi lentamente se dando conta da proximidade de Deus, consoante a idade, até irromper em plena consciência ao se batizar no rio Jordão na idade de 30 anos. Uma coisa é ser objetivamente o Filho bem amado de Deus e outro é subjetivamente dar-se conta desse fato. No batismo no rio Jordão, ocorreu esse salto da consciência por ocasião dessa visitação concretíssima do Deus-Abba.

Aqui se encontra a grande singularidade relatada pelos evangelistas: testemunhar a proximidade de Deus, do Deus que busca intimidade com o ser humano, com Jesus de Nazaré. Essa proximidade é com todos os seres humanos, independentemente de sua condição moral e situação de vida. Trata-se do transbordamento gratuito do amor de Deus para com todos os seus filhos e filhas.

Com isso se inaugura um novo caminho, diverso daquele da observância da Lei e das distinções que se fazem entre bons e maus, justos e injustos. Estas coisas têm lá sua razão de ser na convivência humana. Mas não é por ai que Deus vê e julga os seres humanos. Seu olhar e sua lógica é totalmente outra como se revelou em Jesus,membro grupo dos pobres de Javé. Nele irrompe um amor divino ilimitado a começar por aquele que nunca falam,que não frequentaram algum escola de teologia, no máximo, a escolinha bíblica junto à sinagoga. O Nazareno veio deste meio. Não pertence ao mundo dos letrados, dos juristas, da casta sacerdotal e de algum status social. É um anónimo,mais afeito ao trabalho das mãos do que ao uso da palavra.

De repente tudo mudou: inundado pela proximidade amorosa de Deus põe-se a pregar com tal entusiasmo e sabedoria a ponto de os ouvintes comentarem: “Donde lhe vem tal sabedoria? Não é ele o filho do carpinteiro (Mc 6,23,Mt 13, 54-55)? Seus privilegiados são os pobres, sempre covardemente desprezados, come com os pecadores, aproxima-se dos cobradores de impostos,odiados pelo povo pois são aliados das forças de ocupação romana (Mc 2,216). Chamam-no até de comilão e beberão porque aceita o convite de comer na casa de pecadores (Mt 11,19). Rompe os tabus religiosos da época ao conversar com um mulher samaritana, ao defender outra mulher pega em adultério e deixar que seus pés sejam ungidos com raro perfume, beijados e com os cabelos enxugando as lágrimas de Maria Madalena,tida de má fama.

Frequentando gente de má fama Jesus lhes mostra a proximidade de Deus

Por que faz isso? Porque quer levar a todos, especialmente a estes socialmente desqualificados, os hanseniano, os paralíticos, os cegos mas também os pecadores públicos, os desesperados, a novidade de que Deus se aproximou de todos eles. Jesus, transbordando de amor do Deus-Abba vai a seus irmãos e irmãs e lhes anuncia essa novidade da proximinada incondicional de Deus que se fez para todos o “paizinho amoroso”. O decisivo não é a Lei e as tradições cuidadosamente observadas mas aceitar aquilo que Deus-Abba disse a Jesus e que agora o repete para eles, pouco importa o que fazem na vida, como é sua condição religiosa e moral. Apenas lhes diz: “vós sois meus filhos e filhas amados em vós encontro meu regozijo”. Isso soa primeiramente como um espanto e depois como uma inaudita alegria e libertação. Dizem: eis a boa nova, eis o evangelho. Esta surpreendente pro-posta precisava e precisa de uma res-posta. Exige mudar a mente e o coração. E mudou? Eis a questão (segue).

O PADRE JÚLIO LANCELLOTTI: O GANDHI DO BRASIL

O padre Júlio Lancellotti acaba de publicar um livro Amar à maneira de Deus (Planeta 2021). Existe imensa literatura sobre o amor e grande parte dela eu mesmo li. Mas entre todos que conheço, este do padre Lancellotti comparece como um dos mais impressionantes e verdadeiros. Não se trata de discorrer sobre o amor. Mas vive-lo concretamente e dar testemunho dele. E esse testemunho é convincente.

O grande naturalista francês Jacob Monod legou-nos uma frase que nos deixa perplexos:”Os seres humanos experimentaram tudo, menos o amor”. Mas entenderemos esta afirmação surpreendente se lermos o que o padre Lancellotti escreveu, bem na esteira do que o Papa Francisco também afirmou como um sonho na sua encíclica Fratelli tutti, “um mundo de uma fraternidade universal e de um amor social:” O amor social é o centro.

Diz-nos o padre Lancellotti:”Numa sociedade como a nossa, onde está o amor? Existe amor na cidade de São Paulo? Talvez fiquemos em dúvida. Falando de modo individual é claro que há. Mas devemos ver se a estrutura, se a forma de organizar a sociedade manifesta o amor. Alguém de fora, olhando para São Paulo poderia dizer, que nesta cidade, todos se amam? As favelas, o povo abandonado pelas ruas, os presídios, a violência, o desemprego mostram amor em São Paulo”(p.100)?

O amor do qual aqui se trata é o amor social. Ele está praticamente ausente no mundo todo, o que a pandemia mostrou claramente na forma absolutamente desigual como foram distribuídas as vacinas, como, por exemplo, a África com apenas 4%. É esse amor social que nunca foi experimentado, pelo menos, nas sociedades que conhecemos, particularmente, as modernas. O padre Lancellotti nos tira a ilusão do amor como romance. Em suas palavras:”O amor é engajamento transformador; amor é uma palavra provocativa porque é um verbo de ação; é transformar, enfrentar mesmo com vulnerabilidade; não é cala; amar é se manifestar e defender; issso é terrivelmente transformador”(p.91).

Ele define de que lado está:”eu não trabalho com os moradores de rua. Eu convivo com eles. E essa convivência tem uma senha:o olhar”(p.108). O olhar para eles como a um irmão LGBTI ou irmã, lésbica ou trans; cumprimentá-los, perdi-lhes o nome e tocar a sua pele para que se sintam da mesma humanidade que a nossa.

Explicitamente declara:”Meu lugar de fala tem como base os jovens infratores, as mulheres e os homens presos, a população de rua e a questão geral da fome, da miséria e da violência”(p.77). Fundou a Casa Vida para crianças com HIV mesmo contra o protesto de toda a vizinhança, liderada por uma médica.

O título do livro marca o sentido de seu amor por todos estes desprezados pela sociedade: Amar à moda de Deus. Como é amar à moda de Deus? É aqui que o padre Lancellotti revela aquilo que é a essência da mensagem de Jesus: Deus ama a todos indistintamente. pouco importa sua condição moral,sexual e racial Ama até os ingratos e maus, como assevera São Lucas em seu evangelho (6,35); ama os últimos, os invisíveis, os pecadores, aqueles que sentem longe de Deus e perdidos: a mulher samaritana, a estrangeira, a adúltera. Todos e todos são os destinatários do amor gratuito de Deus. Por isso Jesus que encarnava esse amor de Deus, de seu Pai (Abba, paizinho querido) comia com os pecadores e andava com pessoas de má companhia. É para assegurar-lhes: não importa o que são, se obedecem ou não às leis, se são piedosos ou não, se não a boa gente ou não: Deus está no meio de nós e busca a nossa intimidade.

Todas as religiões buscam a Deus. A religião hebraico-cristã afirma que Deus busca o ser humano: mesmo o mais distante e fora dos quadros sociais e morais. Essa é a grande novidade trazida por Jesus:a proximidade amorosa de Deus. Ele tentou dize-la e mostrá-la a todo mundo. O verdadeiro drama consistiu e consiste em que a grande maioria não acolheu ou não acolhe a amorosidade de Deus. Pelo fato de não aceitá-la Jesus foi perseguido, caluniado e finalmente condenado à morte de cruz. Mas nunca deixou de amar, mesmo na cruz, o ladrão ao lado.

O padre Lancellotti comprendeu esse tipo de amor à moda de Deus e de Jesus, amor único e o vive com aqueles que nunca recebem amor da ninguém. E sofre o mesmo destino de Jesus: a perseguição, a calúnia e as ameaças sérias de morte. Só pelo fato de amar aqueles que são covardemente espezinhados e excluídos, os empobrecidos, “os irmãos e as irmãs”menores de Jesus (Mt 25,40).

Respeitadas as diferenças de lugar e de situações, podemos dizer que o padre Júlio Lancellotti é o Mahama Gandhi do Brasil. Bem dizia este:”Entrei na política por amor à vida dos fracos; morei com os pobres, recebi párias como hóspedes, lutei para que tivessem direitos políticos iguais aos nossos, desafiei reis, esqueci-me das vezes que estive preso”. Algo parecido pode dizer o padre Lancellotti. Fez e faz tudo porque “ama à maneira de Deus” que é a forma mais humana de amar, pois inclui a todos e “não manda ninguém embora”(Jo 6,37).

'AINDA QUE DEVESSE PASSAR PELO VALE DA SOMBRA DE MORTE'

Nestes tempos sombrios sob a ação perigosa do Covid-19 um manto de temor e de angústia se estende sobre nossas vidas. Vivemos cansados existencialmente, pelas pessoas queridas que perdemos, pelas ameaças de sermos contaminados e ainda mais por não entrevermos quando tudo isso vai acabar. O que virá depois?

Um israelita piedoso passou pela mesa angústia e nos deixou retratada a sua situação no famoso salmo 23:”O Senhor é meu pastor e nada me falta”. Nele há um verso que vem a calhar exatamente para a nossa situação:”Ainda que devesse passar pelo vale da morte, nada temerei porque tu vais comigo”.

Morte biblicamente, deve ser entendida não apenas como o fim da vida, mas existencialmente como a experiência de crises profundas como grave risco de vida, perseguição feroz de inimigos, humilhação, exclusão e solidão devastadora. Fala-se então, de descer aos infernos da condição humana.

Quando se reza no credo cristão que Jesus desceu aos infernos se quer expressar que ele conheceu a solidão extrema e o absoluto abandono, até por parte de seu Pai (cf. Mc 15,34). Ele passou, efetivamente, pelo vale da sombra de morte, pelo inferno da condição humana. É consolador, então, ouvir a palavra do Bom Pastor:”não temas eu estou contigo”.

Nosso grande romancista João Guimarães Rosa em Grande Sertão:Veredas bem observou: “viver é perigoso”. Sentimo-nos expulsos do jardim do Eden. Estamos sempre buscando construir um paraíso possível. Vivemos fazendo travessias arriscadas. Ameaças nos espreitam por todos os lados. E nesse momento com o vírus, como nunca antes.

Por mais que nos esforcemos e as sociedades para isso se organizem, nunca podemos controlar todos os fatores de risco. O Covid-19 nos mostrou a imprevisibilidade e a nossa vulnerabilidade Por isso, é dramática e, por vezes trágica, a travessia humana. No termo, quando se trata de assegurar nossa vida, somos forçados a nos confiar, além da medicina e da técnica, a um Maior que pode levar-nos”a pastagens verdejantes e à fontes tranquilas”, ao Deus-Bom-Pastor. Essa entrega supera a desesperança.

Alarguemos um pouco o horizonte: grande dramaticidade pesa sobre o futuro da vida e da biosfera. Milhares de espécies estão desaparecendo por causa da cobiça e da incúria humana. O aquecimento crescente do Planeta unido à escassez de água potável pode nos confrontar com uma crise dramática de alimentação. Milhões poderão se deslocar em busca da sobrevivência ameaçando o já frágil equilíbrio político e social das nações.

Aqui cabe invocar de novo o Pastor do universo, Aquele que tem poder sobre o curso dos tempos e dos climas para que crie situações oportunas e suscite o sentido da solidariedade e da responsabilidade nos povos e nos chefes de Estado.

Hoje o que destrói nossa alegria de viver é o medo. É consequência de um tipo de sociedade que se construiu nos últimos séculos assentada sobre a competição e não sobre a cooperação, sobre a vontade acumulação de bens materiais, o consumismo e sobre o uso da violência como forma de resolver os problemas pessoais e sociais.

O que invalida o medo e suas sequelas é o cuidado de uns para com os outros, especialmente agora, para não sermos contaminado pelo virus nem contaminar os outros. O cuidado é fundamental para entendermos a vida e as relações entre todos os seres. Sem cuidado a vida não nasce nem se reproduz. Cuidar de alguém é mais que administrar seus interesses, é envolver-se afetivamente com ele, importar-se pelo seu bem-estar, é sentir-se corresponsável pelo seu destino. Por isso, tudo o que amamos também cuidamos e tudo o que cuidamos também amamos.

O cuidado é também o antecipador prévio dos comportamentos para que seus efeitos sejam bons e fortaleçam a convivência.

Uma sociedade que se rege pelo cuidado, pela Casa Comum, a Terra, cuidado com os eco-sistemas que garantem as condições da biosfera e de nossa vida, cuidado com a segurança alimentar de cada um dos seres humanos, cuidado com água doce, o bem mais ecasso da natureza, cuidado com a saúde das pessoas, especialmente das mais desprovidas, cuidado, com relações sociais mais participativas, equitativas, justas e pacíficas, cuidado com o ambiente espiritual da cultura para que todos possam viver com sentido, vivenciar e acolher, sem maiores dramas, as limitações, o envelhecimento e a travessia da morte, essa sociedade de cuidado gozará de paz e concórdia, necessárias para a convivialidade humana.

É confortador, no meio de nossas tribulações atuais, ameaçados pelo Covid-19, ouvir Aquele que nos sussurra:”Não temas, eu estou contigo”(Salmo 23) e através de Isaías nos assegura:”não olhes apreensivo, pois eu sou teu Deus, eu te fortaleço sim, eu te ajudo, sim, eu te sustento na palma de minha mão”(Is 41,10).

Desta forma, nossa vida pessoal ganha certa leveza e conserva, mesmo no meio de riscos e ameaças, serena jovialidade ao sentirmos que jamais estamos sós. Deus caminha em nosso próprio caminhar como o Bom Pastor que cuida para que “nada nos falte”.

Edição 169, junho 2021

O ATUAL GOVERNO LEVOU MORTE AOS INDÍGENAS

É notório o desprezo que o atual presidente dedica aos indígenas. Considera-os sub-gente e claramente declarou no dia 1.de dezembro de 2018:”nosso projeto para o índio é fazê-lo igual a nós”. E avançou mais:”não vai ter um centímetro demarcado para reserva indígena ou quilombola”.

O mais perverso foi não aprovar a PEC que devia lhes levar água potável,os insumos básicos contra a Covid-19. É um propósito de morte. Há dias, neste mês de junho, numa manifestação pacífica de várias etnias foram recebidos em Brasília com repressão,balas de borracha e gás lacrimogênio. Há um total abandono deles a ponto de que 163 povos de diferentes etnias foram contaminados, sendo que ocorreram 1.070 mortes.

Diz-nos um conhecedor da história da Amazônia Evaristo Miranda, cujo titulo é uma revelação “Quando o Amazonas corria para o Pacífico, (Vozes 2007):”uma coisa é certa: a mais antiga e permanente presença humana no Brasil, está na Amazônia. Há cerca de 400 gerações diversos grupos humanos ocuparam, disputaram, exploraram e transformaram os territórios amazônicos e seus recursos alimentares (op.cit.p.47). Desenvolveram um grande manejo da floresta respeitando sua singularidade, mas ao mesmo tempo modificando seu habitat para estimular aqueles vegetais úteis para o uso humano.O indígena e a floresta evoluíram juntos numa profunda reciprocidade.

Disse bem o antropólogo Viveiros de Castro:”A Amazônia que vemos hoje é a que resultou de séculos de intervenção social, assim como as sociedades qua ali vivem são resultado de séculos de convivência com a Amazônia”(em Tempo e Presença 1992,p.26).

Releva ainda notar que no interior da floresta com suas centenas de etnias formou-se a partir de 1.100 antes das chegadas dos invasores portugueses um espaço imenso (quase um império) da tribo tupi-guarani. Ela ocupou territórios que iam desde os contraforte andinos, formadores do rio Amazonas até as bacias do Paraguai e do Paraná e alguns chegando até os pampas gaúchos e ao nordeste brasileiro.“Desta forma”afirma Miranda,”praticamente todo o Brasil florestal, foi conquistada por povos tupi-guarani (op.cit.92-93).

No Brasil pré-cabralino havia cerca de 1.400 tribos, 60% delas na parte amazônica. Falavam línguas de 40 troncos subdivididos em 94 famílias diferentes, o que levou a antropóloga Berta Ribeiro a afirmar”que em nenhuma parte da Terra, encontrou-se uma variedade linguística semelhante observada à América da Sul tropical”(Amazônia urgente, 1990 p.75). Hoje, infelizmente, dada à dizimação dos indígenas perpetrada no decorrer de a história e recentemente pelos garimpeiros, mineradores, extrativistas (a maioria ilegais), restaram somente 274 línguas. Isto significa: perderam-se mais de mil línguas (85%) e com elas conhecimentos ancestrais, visões de mundo e comunicações singulares. Foi um empobrecimento irreparável para o patrimônio cultural da humanidade.

Entre as muitas tragédias que levaram ao desaparecimento de etnias inteiras, cabe lembrar uma que poucos conhecem.Dom João VI que alguns admiram, em carta régia de 13 de maio de 1808, mandou fazer uma guerra oficial aos índios Krenak do Vale do Rio Doce, em Minas e no Espírito Santo. Aos comandantes militares ordenou “uma guerra ofensiva que não terá fim senão quando tiverdes a felicidade de vos assenhorear de suas habitações e de fazê-los sentir a superioridade das minhas armas..até a total redução de uma semelhante e atroz raça antropófagas”(L.Boff,O casamento do céu com a terra,2014,p.140).

Por que lembramos isso tudo? É para dar-nos conta destas ações exterminadoras que continuam ainda hoje, resistir, criticar e combater as criminosas políticas do atual governo genocida de indígenas e do próprio povo brasileiro, deixando morrer mais de 5008 mil pessoas.

O principais responsáveis e seus cúmplices dificilmente escaparão de terem que enfrentar o Tribunal Internacional de Crimes contra a Humanidade em Haia. O clamor não é só brasileiro mas internacional. Para tais crimes não há limite de tempo. De onde estiverem e em qualquer tempo não escaparão da severidade dos ju, zelosos, como já mostraram, da dignidade sagrada dos seres humanos.

Estes povos originários são nossos mestres e doutores no que se refere à relação com a natureza da qual se sentem parte e os grandes cuidadores. Agora que com a Covid-19 andamos perplexos e perdidos sem saber como seguir adiante, devemos consultá-los. Como diz uma liderança indígena,sobrevivente da guerra criminosa de Dom João VI, Ailton Krenak, eles nos ajudarão a afastar ou protelar o fim do mundo.

Se seguirmos a rota de destruição nosso habitat, a Casa Comum, explorando-a ilimitadamente e sem qualquer escrúpulo, esse destino poderá ser a tragédia da espécie humana. Mas temos esperança que fez os indígenas sobreviverem até os dias de hoje.Também nós esperamos sobreviver, transformados pelas lições que a Mãe Terra no vem dando.

O PRINCÍPIO COMPAIXÃO E O COVID-19

Através do Covdi-19 a Mãe Terra está movendo um contra-ataque à humanidade como reação ao avassalador ataque que vem sofrendo já há séculos.Ele simplesmente está se defendendo. O Covid-19 é igualmente um sinal e uma advertência que nos envia: não podemos fazer-lhe uma guerra como temos feito até agora, pois está destruindo as bases biológicas que a sustenta e sustenta também todas as demais formas de vida, especialmente, a humana. Temos que mudar, caso contrário nos poderá enviar vírus ainda mais letais, quem sabe, até um indefensável contra o qual nada poderíamos. Então estaríamos como espécie seriamente ameaçados. Não é sem razão que o Covid-19 atingiu apenas os seres humanos, como aviso e lição. Já levou milhões à morte, deixando uma via-sacra de sofrimentos a outros milhões e uma ameaça letal que pode atingir a todos os demais.

Os números frios escondem um mar de padecimentos por vidas perdidas, por amores destroçados e por projetos destruídos. Não há lenços suficientes para enxugar as lágrimas dos familiares queridos ou dos amigos mortos, dos quais não puderam dizer um último adeus,nem sequer celebrar-lhes o luto e acompanhá-los à sepultura.

Como se não bastasse o sofrimento produzido para grande parte da humanidade pelo sistema capitalista e neoliberal imperante, ferozmente competitivo e nada cooperativo. Ele permiitu que 1% dos mais ricos possuísse pessoalmente 45% de toda a riqueza global enquanto os 50% mais pobres ficasse com menos de 1%, segundo relatório recente do Crédit Suisse. Ouçamos aquele que mais entende de capitalismo no século XXI, o francês Thomas Piketty referindo-se ao caso brasileiro. Aqui, afirma, verifica-se a maior concentração de renda do mundo; os milionários brasileiros, entre o 1% dos mais ricos, ficam à frente do milionários do petróleo do Oriente Médio. Não admira os milhões de marginalizados e excluídos que esta nefasta desigualdade produz.

Novamente os números frios não podem esconder a fome, a miséria, a alta mortandade de crianças e devastação da natureza, especialmente na Amazônia e em outros biomas, implicada nesse processo de pilhagem de riquezas naturais.

Mas nesse momento, pela intrusão do coronavírus, a humanidade está crucificada e mal sabemos como baixá-la da cruz. É então que devemos ativar em todos nós uma das mais sagradas virtudes do ser humano: a compaixão. Ela é atestada em todos os povos e culturas: a capacidade de colocar-se no lugar do outro, compartilhar de sua dor e assim aliviá-la.

O maior teólogo cristão, Tomás de Aquino, assinala na sua Suma Teológica que a compaixão é a mais elevada de todas as virtudes, pois não somente abre a pessoa para a outra pessoa senão que a abre para a mais fraca e necessitada de ajuda. Neste sentido, concluía, é uma característica essencial de Deus.

Referimo-nos ao princípio compaixão e não simplesmente à compaixão. O princípio, em sentido mais profundo (filosófico) significa uma disposição originária e essencial, geradora de uma atitude permanente que se traduz em atos mas nunca se esgota neles. Sempre está aberta a novos atos. Em outras palavras, o princípio tem a ver com algo pertencente à natureza humana. Porque é assim podia dizer o economista e filósofo inglês Adam Smith (1723-1790) em seu livro sobre a Teoria dos Sentimentos Éticos: até a pessoa mais brutal e anticomunitária não está imune à força da compaixão.

A reflexão moderna nos ajudou a resgatar o princípio compaixão. Foi ficando cada vez mais claro para o pensamento crítico que o ser humano não se estrutura somente sobre a razão intelectual-analítica, necessária para darmos conta da complexidade de nosso mundo. Vigora em nós, algo mais profundo e ancestral, surgido há mais de 200 milhões de anos quando irromperam na evolução os mamíferos: a razão sensível e cordial.Ela significa a capacidade de sentir, de afetar e ser afetado, de ter empatia, sensibilidade e amor.

Somos seres racionais mas essencialmente sensíveis. Na verdade, construimos o mundo a partir de laços afetivos. Tais laços fazem com que as pessoas e as situações sejam preciosas e portadoras de valor. Não apenas habitamos o mundo pelo trabalho senão pela empatia, o cuidado e a amorosidade. Este é o lugar da compaixão.

Quem trabalhou melhor que nós ocidentais foi o budismo. A compaixão (Karuná) se articula em dois movimentos distintos e complementares: o desapego total e o cuidado essência. Desapego significa deixar o outro ser, não enquadrá-lo, respeitar sua vida e destino. Cuidado por ele, implica nunca deixá-lo só em seu sofrimento, envolver-se afetivamente com ele para que possa viver melhor carregando mais levemente sua dor.

O terrível do sofrimento não é tanto o sofrimento em si, mas a solidão no sofrimento. A compaixão consiste em não deixar o outro só. É estar junto com ele, sentir seus padecimentos e angústias, dizer-lhe palavras de consolo e dar-lhe um abraço carregdo de afeto.

Hoje os que sofrem, choram e se desalentam com o destino trágico da vida, precisam desta compaixão e desta profunda sensibilidade humanitária que nasce da razão sensível e cordial. As palavras ditas que parecem corriqueiras ganham outro sonido, reboam dentro do coração e trazem serenidade e suscitam um pequeno raio de esperança de que tudo vai passar. A partida foi trágica mas a chega em Deus é bem-aventurada.

A tradição judaico-cristã testemunha a grandeza da compaixão. Em hebraico é “rahamim” que significa “ter entranhas”, sentir o outro com profundo sentimento. Mais que sentir é identificar-se com o outro.O Deus de Jesus e Jesus mesmo mostram-se especialmente misericordiosos como se revela nas parábolas do bom samaritano (Lc 10,30-37) e do filho pródigo(Lc 15,11-32).Curiosamente, neste parábola, a virada se dá não no filho pródigo que volta mas no pai que se volta para o filho pródigo.

Mais no que nunca antes, face a devastação feita pelo Covid-19 em toda a população,sem exceção, faz-se urgente viver a compaixão com os sofredores como o nosso lado mais humano, sensível e solidário.

SEM ESPIRITUALIDADE NÃO SALVAREMOS A VIDA NA TERRA

Em momentos de grandes crises, de desastres naturais e agora com a epidemia do Coronavírus, os seres humanos deixam vir à tona aquilo que está na sua essência como humanos: a solidariedade, a cooperação, o cuidado de uns para com os outros e para o seu entorno e a espiritualidade.

Ouvimos da boca de Michail Gorbachev no encontros para a elaboração da Carta da Terra, exatamente dele considerado ateu por ser comunista e chefe de Estado: ou vamos desenvolver uma espiritualidade com novos valores,centrados na vida e na cooperação ou não haverá solução para a vida na Terra.

Esta pandemia significa uma conclamação para esta espiritualidade salvadora.Como diz a Carta da Terra:”Como nunca antes na história, o destino comum nos conclama a um novo começo…Isso requer uma mudança na mente e no coração; requer um novo sentindo de interdependência global e de responsabilidade universal…só assim se chega a um modo sustentável de vida”(Conclusão)

Vivemos uma emergência ecológica planetária. Acertadamente nos alertou a Laudato Sì do Papa Francisco:”As previsões catastróficas já não se podem olhar com desprezo e ironia. O ritmo do consumo, desperdício e alteração do ambiente superou de tal maneira as possibilidades do planeta, que o estilo insustentável de vida atual só pode desembocar em catástrofes”(n.161).

Esta advertências reforçam a urgência de uma espiritualidade da Terra. Ela demanda um novo paradigma, apresentado pelo Papa Francisco em sua última encíclica Fratelli tutti (2020): devemos deixar de nos imaginar os donos (dominus) da natureza para sermos de fato irmãos e irmãs (frater, soror). Se não fizermos essa travessia vale esta advertência:”Ou nos salvamos todos ou ninguém se salva”(n. 32).

Em função dessa missão comum se estabeleceu uma colaboração e uma articulação entre duas famílias religiosas com suas tradições espirituais, amigáveis para com a criação, à vida, aos mais destituídos: os franciscanos com o Serviço Inter-franciscano de Justiça, Paz e Ecologia da Conferência da Família Franciscana do Brasil e os jesuítas com o Observatório Luciano Mendes de Almeida, a Rede de Justiça socio-ambiental dos Jesuítas e o Movimento Católico Global pelo Clima, somando-se ainda como parceiros a MAGIS, A FAJE.

As espiritualidades e os valores de cada uma destas duas tradições nos poderão inspirar novas formas de cuidar da herança sagrada que a evolução e Deus nos entregaram, a Terra, a Magna Mater dos antigos, a Pachamama dos andinos e a Gaia dos modernos.

Em sua encíclica de ecologia integral Laudato Si o Papa Francisco apresenta São Francisco “como o exemplo por execelência pelo cuidado pelo que é frágil, vivido com alegria e autenticidade. É o padroeiro de todos os que estudam e trabalham no campo da ecologia, amado também por muitos que não são cristãos”(n.10). Diz mais ainda:”Coração universal, para ele qualquer criatura era uma irmã, unida a ele por laços de carinho; por isso sentia-se chamado a cuidar de tudo o que existe…até das ervas silvestres que deviam ter o seu lugar no horto” de cada convento dos frades(n.11.12).

Para Santo Inácio de Loyola, grande devoto de São Francisco, e para este ser pobre significava mais que um exercício acético, mas um despojamento de tudo para estar mais próximo dos outros e construir com eles fraternidade. Ser pobre para ser mais irmão e irmã.

Para os primeiros companheiros de Santo Inácio a vida em pobreza, individual e comunitária, sempre acompanhou o cuidado com os pobres, parte essencial do carisma jesuítico. E São Francisco vivia estas três paixões: ao Cristo crucificado, aos pobres mais pobres e à natureza. Chamava a todas as criaturas, até ao feroz lobo de Gubbio com o doce nome de irmãos e de irmãs.

Ambos vislumbravam Deus em todas as coisas. Como o expressou belamente Santo Inácio:“Encontrar Deus em todas as coisas e ver que todas as coisas vem do alto”. E dizia mais, bem na linha do espírito de São Francisco:” Não é o muito saber que sacia e satisfaz a alma, mas o sentir e saborear internamente as coisas”. Só pode saborear internamente todas as coisas se as ama verdadeiramente e e sente unido a elas. Em São Francisco abundam afirmações semelhantes.

Tais modos de vida e de relacionamento são fundamentais se quisermos reinventar uma forma amigável, reverente e cuidadosa para com a Terra e a natureza. Dai nascerá uma civilização biocentrada. Como afirma a Fratelli tutti, fundada numa “política da ternura e da gentileza”, “no amor universal e na fraternidade sem fronteiras”, na interdependência entre todos, na solidariedade, na cooperação e no cuidado para com tudo o que existe e vive, especialmente com os mais desprotegidos.

O Covid-19 é um sinal que a Mãe Terra nos envia para assumirmos nossa missão que o Criador e o universo nos confiaram: de “proteger e cuidar do Jardim do Éden”, isto é, da Mãe Terra (Gn 2,15). Se juntos, estas duas Ordens, dos franciscanos e dos jesuítas, associados a outros, se propuserem realizar este sagrado propósito, darão um sinal de que nem tudo do Paraíso terrenal se perdeu. Ele começa a crescer dentro de nós e se expande para fora de nós, fazendo, de verdade, da Mãe Terra, a verdadeira e única Casa Comum na qual podemos viver juntos na fraternidade, na amorosidade, na justiça, na paz e na alegre celebração da vida. São sonhos? Sim, são os Grandes Sonhos, necessários, que antecipam a realidade futura.

N.E.

È pena que o meu amigo L. Boff viva encandeado com o holofote chamado papa Francisco, filho dos holofotes Santo Inácio de Loyola e S. Francisco de Assis, o canonizado, não o rejeitado até pelos primeiros companheiros que não foram capazes de o ser na sua máxima pobreza. Chega a parecer que para L. Boff estes holofotes são mais importantes para a Humanidade do que a Luz do mundo, chamada Jesus histórico, o filho de Maria. Não canonizado, mas crucificado. Choro.

O REENCONTRO ENTRE A ÁGUIA E O CONDOR

O planeta Terra devido à sistemática agressão nos últimos séculos está num franco e perigoso declínio. A intrusão do Covid-19 afetando diretamente todo o planeta e exclusivamente a espécie humana é um entre os sevros sinais de que a Terra viva nos está enviando: nosso modo de vida é demasiadamente destrutivo levando à morte a milhões de seres humanos e a seres da natureza. Temos que mudar nosso modo produzir,de consumir e de morar na única Casa Comum, caso contrário podemos conhecer um armagedon ecológico-social.

Curiosamente, na contramão desse processo que alguns o veem como a inauguração de uma nova era geológica – o antropoceno e o necroceno – quer dizer, a sistemática destruição de vidas perpetradas pelo próprio ser humano, irrompem os povos originários, portadores de uma nova consciência e de uma vitalidade, reprimida por séculos. Estão se refazendo biologicamente e surgindo como sujeitos históricos. Sua maneira de se relacionar amigavelmente com a natureza e a Mãe Terra fazem-se nossos mestres e doutores. Sentem-se tão unidos a estas realidades que defendendo-as estão se defendendo a si próprios.

Foi grande o equívoco dos invasores europeus de chamá-los de “indios” como se fossem habitantes de uma região da Índia que todos buscavam. Eles, na verdade, se chamavam por vários nomes:Tawantinsuyo, Anauhuac, Pindorama entre outros. Prevaleceu o nome de Abya Yala dada pelo povo Kuna do norte da Colômbia e do Panamá que significava “terra madura, terra viva, terra que floresce”.

Eram povos com seus nomes como taínos, tikunas, zapotecas, astecas, maias, olmecas, toltecas, mexicas, aimaras,incas quíchuas tapajós, tupis, guaranis, mapuches e centenas de outros. A adoção de nome comum Abya Yala faz parte da construção de uma identidade comum, na diversidade de suas culturas e expressão das articulações que os unem num imenso movimento que vai do norte o sul do continente americano. Em 2007 criaram a Cúpula dos Povos de Abya Yala.

Mas sobre eles pesa uma vasta sombra que foi o extermínio infligido pelos invasores europeus. Ocorreu um dos maiores genocídios da história. Foram mortos por guerras de extermínio ou por doenças trazidas pelos brancos contra as quais não possuíam imunidade, por trabalhos forçados e mestiçagem forçada, cerca de 70 milhões de representantes destes povos.

Os dados mais seguros foram levantados pela socióloga e educadora Moema Viezzer e pelo sociólogo e historiador canadense radicado no Brasil Marcelo Grondin. O livro, impressionnte, com prefácio de Ailton Krenak leva como título Abya Yala: genocídio, resistência e sobrevivência dos povos originários das Américas (Editora Bambual, Rio de Janeiro 2021). Recolhem os dados do genocídio das duas Américas.

Demos um pequeno resumo:

No Caribe em 1492 quando chegaram os colonizadores, havia quatro milhoes de indígenas. Anos após não havia mais nenhum. Todos foram mortos especialmente no Haiti.

No México em 1500 havia 25 milhões de indígenas (Astecas, toltecas e outros) depois de 70 anos restaram apenas dois milhões.

Nos Andes existiam em 1532 15 milhões de indígenas, em poucos anos restou apenas um milhão.

Na América Central em 1492 na Guatemala, Honduras, Belize, Nicarágua, El Salvador, Costa rica e Panamá havia entre 5,6-13 milhões de indígenas, dos quais 90% foram mortos.

Na Argentina, no Chile, na Colômbia e no Paraguai morreram em média, em alguns países mais em outros menos, cerca cerca de um milhão de indígenas.

Nas Antilhas menores como nas Bahamas, Barbados.Curaçao,Granada, Guadalupe, Trinidad- Tobago e Ilhas Virgens conheceram o mesmo extermínio quase total.

No Brasil quando os portugueses aportaram nestas terras, havia cerca de 6 milhões de povos originários de dezenas de etnias com suas línguas. O desencontro violento os reduziu a menos de um milhão. Hoje, infelizmente, devido ao descuido por parte das autoridades, esse processo de morte continua, vítimas do coronavírus. Um sábio da nação yanomami, o pajé Davi Kopenawa Yanomamy relata no livro A Queda do Céu o que os xamãs de seu povo estão entrevendo:a corrida da humanidade está rumando na direção de seu fim.

Nos Estados Unidos da América viviam em 1607 cerca de 18 milhões de povos originários e tempos depois sobreviveram apenas dois milhões.

No Canadá havia em 1492 dois milhões de habitantes originários e em 1933 se contavam apenas 120 mil.

O livro não narra apenas a incomensurável tragédia, mas especialmente as resistências e modernamente as várias cúpulas organizadas entre esses povos originários, do sul e do norte das Américas. Com isso se reforçarem mutuamente, resgatam a sabedoria ancestral dos xamãs, as tradições e as memórias.

Uma lenda-profecia expressa o reencontro desses povos: aquela entre a Águia, representando a América do Norte e o Condor a América do Sul. Ambos foram gerados pelo Sol e pela Lua. Viviam felizes voando juntos. Mas o destino os separou. A Águia dominou os espaços e quase levou ao extermínio o Condor.

No entanto, quis esse mesmo destino que a partir da década de 1990, ao se iniciarem as grandes cúpulas entre os distintos povos originários, do sul e do norte, o Condor e a Águia se reencontraram e começaram a voar juntos. Do amor de ambos, nasceu o Quetzal da América Central, uma das mais belas aves da natureza, ave da cosmovisão maia que expressa a união do coração com a mente, da arte com a ciência, do masculino com o feminino. É o começo do novo tempo, da grande reconciliação dos seres humanos entre si, como irmãos e irmãs, cuidadores na natureza, unidos por um mesmo coração pulsante e habitando na mesma e generosa Pachamama, a Mãe Terra.

Quem sabe, no meio das tribulações do tempo presente em que nossa cultura encontrou seus limites intransponíveis e se sente urgida a mudar de rumo, esta profecia possa ser a antecipação de um fim bom para todos nós. Ainda voaremos juntos, a Águia do Norte com o Condor do Sul sob a luz benfazeja do Sol que nos mostrará o melhor caminho.

Edição 168, maio 2021

NO MEIO DA PANDEMIA: A URGÊNCIA DO ESPÍRITO DE VIDA

Em plena pandemia com milhares de mortos cada dia, celebramos a festa de Pentecostes, do Espírito doador de vida e curador. Sua atuação junto a todos os que estão na linha de frente no combate ao Covid-19 é urgente para mantê-los vivos, protegidos e com o ânimo heroico de continuarem em sua missão de salvar vidas, pondo as suas próprias em risco. O hino litúrgico da festa de hoje fala que ele é o “consolador ótimo e o doce refrigério”.Mais do que nunca deve se mostrar com estes dons a todos os que trabalham nos hospitais.

Reflitamos um pouco sobre a natureza do Espírito Santo e sua relevância para a vida e para o dramático momento atual.

Em primeiro lugar importa dizer que o Espírito foi o primeiro a chegar a este mundo e ainda está chegando. Veio e armou sua tenda sobre Maria de Nazaré. Quer dizer, fixou nela sua morada permanente (Lc 1,35) e elevou o feminino à altura do Divino.

Desta sua presença, se originou a santa humanidade do Filho de Deus. O Verbo armou sua tenda (Jo 1,14) no homem Jesus gerado por Maria. Num momento da história, ela, a simples mulher de Nazaré, é o templo de Deus vivo: nela habitam duas divinas Pessoas: o Espírito que a faz “bendita entre todas as mulheres” (Lc 1,42) e o Filho de Deus, crescendo dentro dela, de quem é verdadeiramente mãe.

Depois, o Espírito desceu sobre Jesus na ocasião do batismo por João Batista e o inflamou para a sua missão libertadora. Desceu sobre a primeira comunidade reunida em Jerusalém, na festa de Pentecostes que agora celebramos, fazendo nascer a Igreja. Continuou descendo, independentemente, se as pessoas eram cristãs e batizadas ou não como ocorreu com o oficial romano Cornélio, ainda pagão (At 11,45). E em toda a história sempre veio antes dos missionários, fazendo com que no coração dos povos vigorasse o amor, se cultivasse a justiça e se vivesse a compaixão.Esses valores mostram a ação do Espírito Santo. Uma vez entrado na história, nunca mais a deixou. Toma o que é de Jesus, passa-o adiante mas também “anuncia coisas novas que hão de vir”(Jo 16,13).

É pelo Espírito que irrompem os profetas, cantam os poetas, criam os artistas, e pessoas praticam o bem, o justo e o verdadeiro. Do Espírito se moldam os santos e santas, especialmente aqueles que entregam a própria vida para a vida dos outros, como agora os que trabalham,quase à exaustão, nos hospitais do Brasil e do mundo.

É também pelo Espírito que velhas e crepusculares instituições, de repente, se renovam e prestam o serviço necessário para as comunidades como o Papa Francisco está fazendo e também outras igrejas cristãs.

O mundo está grávido do Espírito mesmo quando o espírito da iniquidade persevera na sua obra, hostil à vida e a tudo o que é sagrado e divino. Isso está ocorrendo em nosso país com um governante mais amigo da morte do que da vida.

Quem se sente mais penalizado nesse momento, sem casa adequada para morar, sem saber o que vai comer no dia seguinte, sem trabalho e sem nenhuma segurança contra os ataques do vírus letal é o pobre. Hoje são milhões. Os pobres gritam. E Deus é o Deus do grito, quer dizer, aquele que escuta o grito do oprimido. Deixa sua transcendência e desce para escutá-los e libertá-los, como no caso do cativeiro no Egito (cf. Ex 4,3). É o Espírito que nos faz gritar Abba, Paizinho querido (Rm 8,15; Gal 4,6). Por isso o Espírito é o pai e o padrinho dos pobres (pater pauperum) como a Igreja canta hoje nesta festa.

Seguramente não o faz miraculosamente, mas lhe confere ânimo e resistência, vontade de luta e de conquista. Não deixa que seus braços se abaixem. Ele enviou a luz aos corações dos pobres para descobrirem as iniciativas certas, persistirem e de fato chegaram vivos até hoje; se os indígenas não puderam ser totalmente exterminados e agora, por incúria das autoridades brasileiros estão sob grave risco, se os afrodescendentes não puderam sucumbir ao peso da escravidão, foi porque dentro deles havia uma energia de resistência e de libertação, aquilo que o hino chama de dons e luz dos corações: o Espírito Santo, pouco importa o nome que dermos.

Aos desesperados Ele se mostra como um consolador sem igual. Não os assiste a partir de fora. Foi morar dentro deles com hóspede para auxiliá-los e aconselhá-los, pois esta é sua missão. Nos grandes apertos e crises, Ele se anuncia como uma referência de paz, de calma: um refrigério. Pois assim diz o hino de Pentecostes que estou citando literalmente.

Ele surge como o grande consolador. Quantas vezes,nestes tempos sombrios de epidemia as agruras da vida nos fazem encher os olhos de lágrimas. Quando perdemos um ente querido, sem poder se despedir dele e fazer o luto necessário, ou vivemos profundas frustrações, afetivas ou profissionais como desempregados/as parece que caímos num abismo. É nestes momentos em que devemos suplicar: “Vem Espírito, sede nosso conforto; enxugue nossas lágrimas e alivie nossos soluços.

O Espírito Santo veio uma vez e continua vindo permanentemente. Mas em momentos dramáticos como os nossos, sob o Covid-19 precisamos clamar:”Vem Espírito Santo e renova a face da Terra, salve o nosso país, livre-nos dos que não cuidam da vida”.

Se o Espírito não vier, seremos condenados a ver a paisagem descrita pelo profeta Ezequiel (c.37): a Terra coberta de cadáveres e ossos por todos os lados. Isso jamais queremos de jeito nenhum. Mas quando ele vem, os cadáveres se revestem de vida e o deserto se faz um vergel. Os pobres receberão sua justiça, os enfermos ganharão saúde e os pecadores que somos todos nós, receberemos o perdão e a graça. Oxalá isso aconteça logo.

Essa é a nossa fé e mais ainda, a nossa imorredoura esperança, unida a um profunda solidariedade com todas as vítimas do Covid-19 de nosso país e do mundo.

O PERDÃO: A GRANDEZA E A DIGNIDADE DAS VÍTIMAS DE EXTREMA VIOLÊNCIA

Por iniciativa do bispo Dom Vicente Ferreira, pastor da região da tragédia de Brumadino-MG e do professor e psicanalista René Dentz, foi organizado um livro que recolhe excelentes estudos sobre o perdão:”Horizontes de Perdão” (Editora Ideias & Letras 2020,pp.180). Sua singularidade reside no fato de terem sido escolhidos exemplos de perdão de diferentes países com suas culturas e tradições próprias.

O livro “Horizontes de Perdão” tem como foco pensar o perdão a partir do sofrimento concreto e terrível, suportado por vítimas humanas inocentes ou por todo um povo vitimado durante séculos. Aqui reside sua grande força e também o seu poder de convencimento.

Um exemplo, descrito e analisado pelo bispo Dom Vicente Ferreira e de René Dentz, também organizador desta obra, vem do Brasil, das tragédias criminosas do rompimento de duas barragens da mineradora Vale, em Mariana-MG no dia 05 de maio de 2015, matando 19 pessoas e destruindo a bacia do Rio Doce, com 55 milhões de metros cúbicos de rejeitos de minério e Brumadinho-MG, no dia 25 de janeiro de 2019, com a ruptura da barragem da mesma mineradora Vale, vitimando 272 pessoas, soterradas sob 12,7 milhões de metros cúbicos de lama e detritos.

O livro abre com um minucioso estudo do bispo Dom Vicente Ferreira, pastor, poeta, músico e profeta: “Brumadinho: o perdão a partir das vítimas de crimes socioambientais”. Precede-o uma pertinente análise de conjuntura global, sob a hegemonia do capital, uma máquina de fazer vítimas no mundo inteiro. A mineradora Vale representa a lógica do capital que prefere o lucro à vida, aceitando o risco de dizimar centenas pessoas e de danificar profundamente a natureza.Mesmo consciente dos danos perpetrados, reluta em compensar com justiça e equidade as famílias e pessoas afetas.

Dom Vicente procura entender o processo vitimatório da globalização do capital com as categorias do sociólogo português, Boaventura de Souza Santos e a compreensão da violência com a psicanálise de Sigmund Freud que face à nossa capacidade de superar a violência se mostra, de certa forma, cético e resignado.

Dom Vicente supera esta resignação com a contribuição da mensagem cristã bem no espírito da Fratelli tutti do Papa Francisco. Esta testemunha o sacrifício da vítima inocente, do Crucificado que rompeu o círculo da vingança e do ressentimento com o perdão a seus algozes. Esta visão foi bem desenvolvida pelo pensador René Girard referido no estudo. Este pensador francês emerge como um dos que melhor estudou a dinâmica da violência que se origina pelo desejo mimético excludente (alguém quer só para si um objeto excluindo a terceiros), mas que a proposta cristã mostrou que este desejo mimético pode ser transformado em includente (desejamos juntos e compartilhamos o mesmo objeto) pelo perdão incondicional.

Mas esse perdão coloca a exigência de justiça a ser praticada por aqueles que provocaram o desastre criminoso, no caso os responsáveis da mineradora Vale. Essa luta, o bispo a leva com determinação e ternura, com canto, poesia e oração junto com a comunidade dos sofredores que ele incansavelmente, com uma generosa equipe, acompanha. Cabe citar novamente o que diz a Fratelli tutti:.”Não se trata de propor um perdão renunciando aos próprios direitos perante um poderoso corrupto… Quem sofre injustiça tem de defender vigorosamente os seus direitos e os da sua família, precisamente porque deve guardar a dignidade que lhes foi dada, uma dignidade que Deus ama”(n.241)

Para entender melhor a dinâmica da violência e do perdão, alguns autores foram seminais: o filósofo francês Paul Ricoeur com seu livro “La mémoire, l’histoire, l’oubli” (Paris, Seuil 2000) e Franz Fanon, “Os condenados da Terra” (Rio de Janeiro, Civilização Brasileira 1968).

A reconciliação e o perdão não terminam em si mesmos. Novamente a Fratelli tutti é inspiradora: “Como ensinaram os bispos da África do Sul, a verdadeira reconciliação alcança-se de maneira proativa, «formando uma nova sociedade baseada no serviço aos outros, e não no desejo de dominar; uma sociedade baseada na partilha do que se possui com os outros, e não na luta egoísta de cada um pela maior riqueza possível; uma sociedade na qual o valor de estar juntos como seres humanos é, em última análise, mais importante do que qualquer grupo menor, seja ele a família, a nação, a etnia ou a cultura» (n.213). E os bispos da Coreia do Sul destacaram que uma verdadeira paz «só se pode alcançar quando lutamos pela justiça através do diálogo, buscando a reconciliação e o desenvolvimento mútuo”(n.229)

Releva enfatizar: cada povo e cada grupo encontraram caminhos próprios para chegar ao perdão. Assim, por exemplo, para os afrodescendentes brasileiros é imprescindível para um perdão real que os brancos que os vitimizaram pela escravidão, reconheçam a desumanidade que cometerem, reforcem a identidade africana e os restaurem na sua dignidade ofendida. Bem se disse: “o perdão é mais que uma justa justiça, antes é da ordem da doação- doação aos outros”.

No Congo Brazzaville, país marcado por sangrentas guerras civis, o conceito chave foi “palaver”, recorrente nos países do sul do Saara. “Palaver” implica buscar a verdade pelo diálogo, pela liberdade de todos falarem, independemente de seu lugar social e de gênero, até se elaborar um consenso em função da paz social; todos se perdoam mutuamente, sem penalizar ninguém mas todos se propõem corrigir os erros. O texto mostra como esse pacto pela ganância do poder de grupos e pela vasta corrupção que assola o país, não conseguiu prevalecer e ter sua sustentabilidade garantida. Mas velu a tentativa.

Na Africa do Sul, o conceito-chave no processo de reconciliação e de perdão, conduzido pelo arcebispo anglicano Desmod Tutu, foi a categoria “Ubuntu”. Ela fundamentalmente expressa essa profunda verdade antropológica: “eu só sou eu através de você”. Todos se sentem interligados. A estratégia era: o vitimador confessa seu crime com toda sinceridade; a vítima escuta atentamente e narra a sua dor; restaura-se a justiça reparadora e restaurativa, eventualmente aceita-se uma punição curativa, exceto para os crimes mais hediondos de lesa-humanidade que são encaminhados ao tribunal competente.

Outra contribuição trabalha estudos avançados de mereologia (como as partes se relacionam com outras partes, como elas se situam no todo e como dentro dele se movem). Os dois autores articulam os dados numa certa harmonia, base para o perdão, assim definido por eles:

“A superação do afeto negativo e do julgamento em relação ao ofensor, não negando a nós mesmos o direito a tal afeto e julgamento, mas se esforçar em ver o ofensor com compaixão, benevolência e amor”.

O pressuposto antropológico é que por mais criminoso que alguém seja, nunca é só criminoso, jamais deixa de ser humano com muitas outras virtualidades também positivas. Da mesma forma, por mais que a população trazida violentamente de Africa para ser escrava no Brasil, nunca os senhores de escravos conseguiram matar-lhes a liberdade. Eles resistiram e procuraram sempre conservar sua identidade cultural e religiosa. O quilombolismo é disso uma prova ainda hoje visível nas centenas de quilombos existentes, onde se vive uma vida mais comunitária, igualitária, na linha do “Ubuntu”.

Entretanto, enquanto não se parar de dar um dowload do ressentimento e do espírito de vendetta, nunca se rasgará o caminho para um verdadeiro perdão. Não se trata de esquecimento, mas de não deixar de ser refém de um interminável ciclo de amargura e de mágoa.

Nesse ponto do perdão generoso, o cristianismo mostrou seu capital humanístico. Como o texto de Dom Vicente o mostra e especialmente o da Colôambia que assim o expressa: perdoar o imperdoável não é só uma amostra como o expírito humano pode revelar a sua transcendência, a sua capacidade de estar para além de qualquer situação por mais desumana que se apresente, mas é acima de tudo o dom da graça divina. Perdoamos porque fomos perdoados por Deus e por Cristo cuja misericórdia não sofre nenhuma limitação.

A justiça é irrenunciável. Mas não é ela que escreve a última página da história humana. Excelentemente respondeu um filósofo Roger Icar a Wiesenthal, aquele que buscava no mundo todo criminosos nazistas: “O perdão sem justiça revela fraqueza, mas uma justiça sem perdão representa uma força desumana”.

Estes textos revelam a excelência das reflexões sobre o perdão, dos melhores publicados nos últimos tempos. A parte desumana no ser humano, pode pelo perdão e pela reconciliação ser resgatada e transformada. Essa é a grande lição que esta notável obra “Horizontes de Perdão” nos quer transmitir, tão bem organizada pelo bispo-pastor Dom Vicente de Brumadinho e pelo erudito psicanalista Renê Dentz.

A TERNURA DA MAGNA MATER

Ontem foi o dia das mães. Por problemas técnicos não pude fazer uma mensagem à minha mãe Regina que há muitos anos partiu para a Casa que Deus Pai-e-Mãe de ternura preparou para ela e para cada um de nós. Porque a Ele pertencemos, ao “soberano amante da vida”(Sab 11,26).

Certa vez, em plena floresta amazônica no Acre, percebi a Magna Mater tão viva que cheguei a sentir o cheiro típico de sua pele, cheiro que nunca esquecemos porque é incomparável, um aroma, misto de suor e de ternura, cheiro de mãe.

Havia feito junto com Chico Mendes uma penetração na selva por 22 dias ininterruptos, passando de colocação em colocação de seringas, visitando e discutindo com os seringueiros como organizar os “empates”, a forma de como enfrentar o desmatamento feroz feito pelos “paulistas” (todos os que vinham de fora eram chamados de “paulistas”).

De repente meus olhos se encheram de lágrimas. Chico Mendes ao me perceber com as mãos ao rosto, me perguntou o que havia acontecido. Eu singelamente lhe disse:

“Estou sentindo aqui, viva, minha mãe, falecida há mais de 40 anos e tenho muita saudade dela”. E ele retrucou:

“É isso mesmo, meu irmão. A floresta é nossa mãe que tudo nos dá e também nos traz presente tudo o que mais amamos. Como mãe, a floresta lhe trouxe presente a sua querida mãe. É sempre assim. Pode chorar porque uma mãe chamou a outra mãe. Ambas estão vivas e marcaram um encontro com você aqui e agora”.

Nunca mais esqueci aquele momento tão doce e aquelas palavras tão verdadeiras. Agora entendo melhor o que os antigos diziam: a Terra é a Grande Mãe, a Magna Mater dos romanos, a Pachamama dos andinos, a Tonantzin da Nicarágua e a Gaia dos modernos. Ela é mãe de verdade e não metaforicamente. Não apenas nos dá tudo o que precisamos para viver; ela nos confere também o sentido sagrado da vida, a reverência face à sua majestade e o encantamento por sua indescritível beleza.

Hoje ela se mostra doente, porque há dezenas de anos, não temos sabido amá-la e respeitá-la como devíamos. Para que voltássemos a senti-la como mãe generosa, ela nos mandou um sinal e nos quis dar uma lição. Enviou-nos um vírus invisível, o coronavírus, parte de seu corpo que atingiu a todos e a Terra inteira. Não quer nos castigar, mas nos pedir para parar tudo, recolhermo-nos em nossas casas ou apartamentos e descobrir onde erramos e pensar como resgatar nosso amor e cuidado para com ela. E só então, renovados, retomar um outro caminho, mais amigável e respeitoso para com ela e para com todos os demais seres da natureza,nossos irmão e irmãs. Desta forma renovamos o pacto natural que sempre existiu entre ela e todos nós,pacto que nós unilateralmente rompemos mas que ela o manteve sempre ativo.

Depois desta experiência, escrevemos comovidos edistribuímos entre os familiares e amigosas seguintes palavras:

“Seus dias foram de muito trabalho

Mas repletos da graça de Deus.

Suas mãos eram duras e calosas

Mas seu espírito desperto e fino.

Seu rosto coberto de rugas

Mas seus olhos cheios de vida.

Ela foi mãe generosa

De 6 filhas e de 5 filhos, dados ao mundo e a Deus.

Passou pela terra gerando e fazendo o bem.

Agora na glória com seu esposo e nosso pai Mansueto

É para todos nós muito mais REGINA

E infinitamente mais Mãe.”

(Os filhos e filhas agradecidos da família Fontana Boff).

Aqui vai a saudade e o carinho de um filho já no tramontar da existência, na alegria de um interminável encontro futuro no seio da Trindade Santa.

Assim o queira Deus.

O DOLOROSO PARTO DA MÃE TERRA: UMA BIOCIVILIZAÇÃO

A Cúpula das Mudanças Climáticas convocado pelo presidente Joe Biden, exprime um grito de alarme. Se não detivermos o aquecimento até o limite de 1,5 graus, conheceremos perigoso extermínio da biodiversidade e milhões de migrantes climáticos que, não podendo se adaptar às mudanças e por perderem seus meios de subsistência, sentem-se constrangidos a abandonar suas pátrias queridas e romper os limites de outros países, causando graves problemas sociopolíticos.

O CO2 permanece na atmosfera por cerca de 120 anos. Tarde acordamos por sua toxidade sobre os sistemas vivos e sobre o nosso futuro. Nos últimos anos ocorreu algo amedrontador: o degelo rápido do permafrost aquela parte congelada que vai do Canadá e atravessa toda a Sibéria. Acresce ainda o degelo célere das calotas polares e da Groelândia. Este fenômeno agrava o aquecimento global porque o metano é 25 vezes mais nocivos que o CO2. Cada cabeça de bovino, por ruminação e flatulência, emite por dia entre 80-100 kg de metano lançado na atmosfera. Imagine-se o que significa tal quantidade com todos os rebanhos do mundo. Só no Brasil o número de bovinos é maior do que a nossa população.

Por mais que fizermos, devido à acumulação de gazes de efeito estufa na atmosfera, não teremos como evitar efeitos extremos. Eles virão: tufões, estiagens prolongadas, verões extremamente quentes e nevascas excessivas, erosão da biodiversidade e perda da fertilidade dos solos e outros. O que podemos e devemos é prepararmo-nos para a sua irrupção e destarte minorar os efeitos desastrosos.

Ninguém na Cúpula do Clima teve coragem de apontar as causas primordiais de nosso aquecimento global: o nosso modo de produção capitalista em cujo DNA está o crescimento ilimitado que demanda a extração ilimitada de recursos naturais a ponto de debilitar fortemente a sustentabilidade do planeta. Uma Terra finita não tolera um projeto infinito. Aqui está a causa, entre outras menores, do aquecimento global. Todos sabem que aqui reside a questão originante. Por que ninguém a denuncia? Porque ela é diretamente anti-sistêmica, porque fere o coração do paradigma moderno tecno-científico do desenvolvimento/crescimento ilimitado, com o qual os Estados e as empresas estão comprometidos. Seriam obrigados a mudar o que seria contra sua lógica. Mas não o fazem pois o lucro prevalece sobre a vida. Somente o presidente argentino Alberto Fernández teve a coragem de denunciar:”A poluição é o caminho para o suicídio”. Sua afirmação se afina com a declaração há poucos anos da Academia Norte-americana de Ciências que fez uma declaração mais ou menos nestes termos: Se não cuidarmos, o aquecimento pode dar ‘um salto abrupto’ (expressão empregada) até atingir, em pouco tempo, cerca de 4 graus Celsius; com esse calor, afirma-se, dificilmente as espécies de adaptarão e milhões desaparecerão, inclusive milhões e milhões de serem humanos.

Praticamente todos lamentam que os “decisions makers” políticos e empresariais mostram grave insuficiência consciente dos riscos que pesam sobre nossa Casa Comum. Não é descartado que algo ocorra semelhante ao que ocorreu com o Covid-19. Não obstante a advertência dos especialistas em vírus de que estaríamos na iminência da intrusão de um grave vírus, muito poucos se preparam para essa eventualidade. Por isso é imprevisível um salto para um novo nível de consciência coletiva que nos permita inaugurarmos uma nova normalidade diferente da anterior perversa para a humanidade e para a natureza. Questionamos: tiramos as lições enviadas pelo contra-ataque da Mãe Terra à humanidade através do Covid-19? A considerar o descuido generalizado parece que permanecemos na ilusão da volta à antiga e iníqua normalidade.

O discurso de nosso Presidente na Cúpula na Casa Branca foi de mera conveniência. Deu clara demonstração ser um lídimo representante da pós-verdade, pois realizou o dito da ancestral sabedoria chinesa: de um político não repare a boca que fala mas as mãos que operam. A boca contradisse totalmente o que as mãos fazem. A boca proferiu promessas, praticamente irrealizável e as mãos, através de seu ministro antiambiental, pratica sistemática devastação das florestas e a desmontagem dos organismos de preservação dos ecossistemas.

Como o “Inominável” é aliado do Covid-19 assim o ministro do Meio Ambiente é aliado dos madeireiros que ilegal e criminosamente comparecem como os principais responsáveis pelos 357,61 km2 de floresta abatida, a pior dos últimos anos. As mãos negam o que a boca diz.

Apesar de todos os pesares, cremos e esperamos que a humanidade vai aprender com o sofrimento e oxalá com amor: ou mudaremos ou nas palavras de Sigmunt Bauman, proferidas uma semana antes de morrer, vamos engrossar o cortejo dos que rumam na direção de sua própria sepultura.

A história humana e natural nunca é linear; conhece rupturas e da saltos para cima. Ela nos está convidando a nos reinventar. Não bastam meras melhorias e colocar esparadrapos sobre as chagas do corpo ferido da Mãe Terra. Somos forçados a um novo começo. Ele, consoante a Carta da Terra e a encíclica do Papa Francisco, cujos destinatários é toda a humanidade,”sobre o cuidado da Casa Comum”(Laudato Si e a Fratelli tutti):”estamos no mesmo barco: ou nos salvamos todos ou ninguém se salva”(n.35;54;137). A Terra passou por 15 grandes dizimações mas a vida sempre sempre sobreviveu. Não será agora que irá se autodestruir. Entrevemos um aprendizado difícil de toda a humanidade, porque não temos outra alternativa senão essa: ou viver ou perecer. O próprio Freud, embora cético,, ansiava o triunfo da pulsão de vida sobre a pulsão de morte. A vida é chamada a mais vida e até à vida eterna.

Nessa esperança esperante acabo de publicar um livro, mais otimista que pessimista, mas de um realismo viável, que visa a garantir um horizonte promissor: O doloroso parto da Mãe Terra: uma sociedade de fraternidade sem fronteiras e de amizade social. É uma utopia? sim, mas necessária, para podermos caminhar. Releva lembrar que o utópico pertence ao real, feito não apenas de dados sempre feitos, mas também por potencialidades ocultas que esperam irromper e ser feitas para permitir um nova pegada no chão da história. Não vale pisar em pegadas feitas por outros. Temos que criar as nossas próprias pegadas. Música nova, ouvidos novos. Crises novas, respostas novas. Ainda temos futuro, fortalecidos por Aquele que se anunciou “ser o apaixonado amante da vida”(Sabedoria 11,26). Ele nos ajudará a fazer uma travessia dolorosa mas verdadeira e feliz. Assim cremos e assim esperamos.

Edição 167, abril 2021

COMER OU SALVAGUARDAR O MUNDO?

“Comer o mundo” ou “salvaguardar o mundo” representam uma metáfora,frequente na boca de lideranças indígenas, questionando o paradigma de nossa civilização, cuja violência os fez quase desaparecer. Agora ele foi posto em xeque pelo Covid-19. O vírus caiu como um raio sobre o paradigma do “comer o mundo”, vale dizer, explorar ilimitadamente tudo que existe na natureza na perspectiva de um crescimento/enriquecimento sem fim. O vírus destruiu os mantras que o sustentam: centralidade do lucro, alcançado pela concorrência o mais feroz possível, acumulado privadamente, à custa da superexploração dos recursos naturais. A obedecer estes mantras, estaríamos seguramente em maus lençóis. O que nos está salvando é o ocultado e feito invisível no paradigma do “comer o mundo”: a vida, a solidariedade, a interdependência entre todos e o cuidado da natureza e de uns para com os outros. É o paradigma imperioso do “salvaguardar o mundo”.

Este paradigma do “comer o mundo” tem alta ancestralidade. Vem de Atenas do século V aC quando irrompeu o espírito crítico, abandonando os mitos, que permitiu perceber a dinâmica intrínseca do espírito que é a ruptura de todos os limites e a busca do infinito.Tal propósito foi pensado pelos grandes filósofos, pelos artistas, aparecendo também nas tragédias de Sófocles,Ésquilo e e Eurípides e praticado pelos políticos. Não é mais “medén ágan”do templo de Delfos: “nada em excesso” mas agora é a expansão espacial ilimitada (criação de colônicas e de um império) e a expansão temporal abrir-se ao futuro sem fim (perspectiva ilimitada para a frente).

Tal projeto de “comer o mundo” ganhou corpo na própria Grécia pela criação do império de Alexandre,o Grande (356-323) que com a idade de apenas 23 anos fundou um império que se expandia do Adriático até o rio Indo na Índia.

O “comer o mundo”se aprofundou no vasto império romano, se reforçou na idade moderna colonial e industrial e culminou no mundo contemporâneo com a globalização da tecno-ciência ocidental, expandida para todos os rincões do planeta. É o império do ilimitado, traduzida no propósito (ilusório) do capitalismo/neoliberalismo do crescimento sem limites em direção ao futuro. Basta dar como exemplo desta busca do crescimento ilimitado, o fato de que na última geração se queimou mais recursos energéticos do que todas as gerações anteriores da humanidade. Não há lugar que não tenha sido explorado, visando a acumulação de bens.

Mas eis que irrompeu um limite intransponível: a Terra limitada como planeta, pequena, superpovoada, com bens e serviços limitados não suporta um projeto ilimitado.Tudo tem limites. No dia 22 de setembro de 2020 as ciências da Terra e da vida identificaram a Sobrecarga da Terra (The Earth Overhoot). Quer dizer, o limite dos bens e serviços naturais renováveis, básicos para a sustentação da vida. Eles se esgotaram. O consumismo, ao não aceitar limites, leva a fazer violência, arrancando da Mãe Terra aquilo que ela já não pode mais dar. Estamos consumindo o equivalente a uma Terra e meia. As consequências desta extorsão se mostram na reação da Mãe Terra exausta: o aumento do aquecimento global, a erosão da biodiversidade (cerca de cem mil espécies eliminadas por ano e um milhão sob risco), a perda da fertilidade dos solos e a desertificação crescente entre outros eventos extremos.

A ultrapassagem de algumas das nove fronteiras planetárias (mudanças climáticas, extinção de espécies, acidificação dos oceanos e outras) podem provocar um efeito sistêmico, derrubando todas as nove e assim induzir a um colapso da nossa civilização. A intrusão do Covid-19 pôs de joelhos todas as potências militaristas,tornando inúteis e ridículas as armas de destruição em massa. A gama de vírus preanunciados, caso não mudarmos a nossa relação destruidora da natureza, poderá sacrificar vários milhões de pessoas e afinar a biosfera, essencial para todas as formas de vida.

Presentemente a humanidade está sendo tomada pelo terror metafísico face aos limites intransponíveis e à possibilidade do fim da espécie. È ilusório o pretendido Great Reset do sistema do capital. A Terra o fará fracassar.

É neste contexto dramático que emerge o outro paradigma do “salvaguardar o mundo”. Ele é suscitado particularmente por lideranças indígenas como Ailton Krenak, Davi Kopenawa Yanomani, Sônia Guajajara, Renata Mchado Tupinambá, Cristine Takuá, Raoni Metuktire entre outros. Para todos eles vigora uma profunda comunhão com a natureza da qual se sentem parte. Não precisam pensar a Terra como a Grande Mãe,Pachamam e Tonantzin porque a sentem assim. Naturalmente salvaguardam o mundo porque é uma extensão de seu próprio corpo.

A ecologia do profundo e integral como vem exposta na Carta da Terra (2000), nas encíclicas do Papa Francisco Laudato SI: como cuidar da Casa comum (2015) e Fratelli tutti (2020) e no programa Justiça, Paz e Preservação do Criado do Conselho Mundial de Igrejas, entre noutros grupos, assmiram o “salvaguardar o mundo”. O propósito comum é garantir a condições físico-químico-ecológicas que sustentam e perpetuam a vida em todas as suas formas,especialmente, a humana. Já estamos dentro da sexta extinção em massa e pelo antropoceno a aprofundamos.Se não lermos emocionalmente, com o coração, os dados da ciência sobre as ameaças que pesam sobre nossa sobrevivência, dificilmente nos engajaremos para “salvaguardar o mundo”.

Severamente alertou o Papa Francisco na Fraterlli tutti: ”ou nos salvamos todos juntos ou ninguém se salva”(n.32). É uma advertência quase desesperada se não quisermos “engrossar o cortejo dos que rumam na direção de sua sepultura” (S.Bauman). Damos o salto da fé e cremos no que se diz no Livro da Sabedoiia:”Deus é o apaixonado amante da vida”(11,26). Se assim é, Ele não permitirá que desapareceramos tão miseravelmente da face da Terra. Assim cremos e esperamos.

'A GRANDE RETOMADA DO CAPITALISMO' (GREAT RESET)

Está havendo em todo mundo um grande debate sobre que mundo virá na pós-pandemia. São muitas as projeções,algumas otimistas, no pressuposto de que a humanidade tenha aprendido a lição do Covid-19: desenvolver uma relação amigável para com a natureza; as sociedades deverão superar as profundas desigualdades atuais, na linha da encíclica do Papa Francisco na Fratelli tutti; todos se sintam irmãos e irmãs, também com os seres da natureza, e não seus donos e senhores, caso contrário ninguém se salvará (Ft n.32).

O que entretanto causa grave preocupação é a assim chamada “A Grande Reinicialização”(Great Reset),em nosso dialeto,“A Grande Retomada” da ordem capitalista mundial. Essa expressão foi sugerida pelo príncipe Charles juntamente com o Coordenador do Forum Econômico Mundial, Klaus Schwab. Esta ordem é urdida por aqueles que o relatório da OXFAM “Tempo de Cuidar”, (ONG inglesa que mede os níveis de riqueza e de pobreza no mundo), aponta, os poucos miliardários. Segundo aquela fonte, em 2019 havia cerca de 2.153 indivíduos que detinham mais riqueza que 4,6 bilhões de pessoas. O 1% deste grupo detém mais que o dobro da riqueza de 6.9 bilhões de pessoas. Com a pandemia ficaram ainda mais ricos. Só estes dados revelam uma economia gravemente doente e nada saudável, um vírus letal para milhões e milhões.

Este grupo de miliardários, como aparece claramente nas sugestões do Forum Econômico Mundial de 21-24 de janeiro de 2020 (o próximo será em agosto de 2021 em Singapura) projeta uma Nova Ordem Mundial. Klaus Schwab, o fundador e coordenador do FEM, junto com o economista Terry Malleret diz em seu livro Covid-19 the Grat Reset:”A pandemia representa uma rara janela de oportunidade para refletir, reimaginar e resetar o mundo”.

Se bem reparamos, temos a ver com uma proposta corporativista, um capitalismo dos grupos de interesse (Stakeholder Capitalism) que não contempla as grandes maiorias da humanidade. Elas estão fora de seu radar. Serão participantes somente os que se encontram dentro da bolha da ordem do capital. As sete temáticas são até auspiciosas: como salvar o planeta,economias mais justas, tecnologias para o bem entre outras. Entretanto quando se elencam os riscos globais, citam-se a guerra acidental, levante anárquico, exploração das mentes, controle neuroquímico e armas nucleares de pequeno porte e outros.

Aparentam até sensibilidade social como estabelecer a sonhada “renda mínima universal”, garantir a assistência médica global, assegurar um futuro resiliente, igualitário e sustentável e buscar um novo contrato social mundial. Mas, por outro lado, tomados de medo das reações pelo mundo afora contra um novo despotismo cibernético imposto por eles, sugerem o Score Social uma estratégia centralizada de policiamento comportamental dos indivíduos e de todas as sociedades através do uso intensivo da inteligência artificial. Seria o capitalismo de vigilância.

São belas palavras, mas apenas palavras. Não se fala nunca de mudar o paradigma devastador dos bens e serviços da natureza, esse que provou a intrusão de uma gama de vírus e agora o letal Covid-19; não se questiona o DNA do capital que sempre quer crescer e lucrar por todos os meios possíveis. Não refere a Sobrecarga da Terra (The Earth Overshoot), vale dizer, o esgotamento dos “recursos” naturais para a nossa subsistência. Da mesma forma, não tomam consciência das nove fronteiras planetárias (Nine Planet Bounderies) que de forma nenhuma podem ser ultrapassadas ao risco de colapsar nossa civilização.

Coisa perigosíssima: a Grande Retomada não exclui a guerra como meio econômico, geoestratégico e de enfrentamento violento, sabendo-se que uma guerra hoje em dia pode pôr fim à espécie humana, especialmente se for a partir da Ucrânia, o ponto hoje mais sensível de enfrentamento com a Rússia. Esta pode destruir a Europa em poucos minutos. O Forum apenas visa a limar os dentes do leão mas não tirar-lhe a voracidade. No máximo chega a um capitalismo verde,onde o verde disfarça a dinâmica acumuladora e excludente do sistema do capital que fica intocável.

Somos da opinião de que essa Grande Reinicialização (Great Reset) não vai prosperar pelo simples facto de que a Terra-Gaia chegou aos limites de sua sustentabilidade; não aguenta mais a rapinagem da ordem do capital em benefício de uns poucos jogando bilhões na miséria e na fome. Como epidemiologistas já aventaram: se não mudarmos nosso tipo de relação devastadora para com a natureza, esta nos enviará vírus ainda mais letais que poderão dizimar grande parte da humanidade.

Tudo poderia ser diferente. Por exemplo, a Diretora Executiva da Oxfam, Katia Maria, afirmou: “Se a população 1% mais rica do mundo pagasse uma taxa extra de 0,5% sobre a riqueza, nos próximos 10 anos, seria possível criar 117 milhões de empregos em educação, saúde e de cuidado para idosos”. A solução deve vir debaixo, como assevera com frequência o Papa Francisco:da articulação de todos os movimentos sociais mundiais, daqueles que estão no Forum Social Mundial, fazendo coro com os humanistas e também economistas que reafirmam a tese básica da Economia de Francisco e Clara do atual Pontífice: uma economia fundada na solidariedade, na cooperação, na ecologia, na circulação, na reutilização, em fim, uma economia humana para os humanos. Se não caminhamos nesta direção, vale a advertência de Sigmunt Bauman: “engrossaremos o cortejo dos que rumam na direção de sua própria sepultura”.

INDIGNAÇÃO, FATALISMO, FÉ, ESPERANÇA E APRENDIZADO: COVID-19

O intrusão do Covid-19 trouxe grandes questionamentos para a existência humana. Para frear sua propagação se impuseram várias medidas restritivas que provocaram impaciência, indignação,desesperança e fatalismo. Mas também criaram a oportunidade de fé, de esperança e sobretudo de reflexão sobre o sentido de nossa presença neste planeta e de um aprendizado para a vida que deve seguir melhor, mais terna e fraterna.

O vírus invisível desmascarou a arrogância do ser humano moderno que se julgava um pequeno deus, capaz de, com a tecnociência, dominar as forças da natureza e submetê-las ao aeu serviço. O Covid-19 demonstrou que somente nos assenhoreamos da natureza se obedecermos a ela. Não somos donos mas parte da natureza junto e não em cima dos demais seres abraçados como irmãos e irmãs.

O Covid-19 nos revelou como seres expostos à imprevisilidade e à vulnerabilidade, quer dizer, não dominamos as condições que garantem ou ameaçam nossa vida. Quem, afora alguns epidemiologistas, como um dos maiores, David Qammen, previu a chegada ameaçadora do vírus? São poucos países que tem um SUS (Sistema Único de Saúde) como nós no Brasil. Não o tinham os USA, a Itália, a Espanha, o México entre otros. Ademais somos seres que não possuem nenhum órgão especializado (Mangelwesen de Arnold Gehlen) que assegure a nossa existência nem possuímos um habitat próprio, como cada espécie da natureza possui. Precisamos construir pela interação com a natureza e pelo trabalho o nosso habitat, vale dizer, um lugar hospitaleiro no qual podemos viver com sem maiores ameaças e em paz.

O vírus ataca as pessoas, ricas e pobres, as classes, as religiões e todas as nações do planeta. As armas de destruição em massa sobre as quais se funda o poder dos impérios atuais em busca de hegemonia mundial e até de dominação sobre outros povos, se tornaram ineficazes e até ridículas. O que nos está salvando não são os mantras da cultura do capital (o lucro, a concorrência, o individualismo, o assalto aos bens e serviços da natureza, o domínio do mercado sobre a sociedade) mas os valores quase ausentes nesse sistema capitalista e neoliberal: a centralidade da vida, a interdependência entre todos, a solidariedade, a generosidade, o cuidado de uns para com os outros e para com os bens naturais escassos, as relações sociais mais amigáveis contra a voracidade insaciável do mercado, um estado social que cuida das demandas básicas de seus cidadãos.Eis um aprendizado que estamos fazendo e que deve ser internalizado e fundar um novo paradigma de comportamento, para que não se traduza apenas por alguns atos mas se torne uma atitude permanente, pois é essa que transforma.

A indignação e a impaciência são compreensíveis, pois somos seres sociais. Não poder conviver, abraçar e beijar nossos entes queridos e amigos é penoso e entristecedor. Assumimos as renúncias como o cuidado para conosco mesmos e como solidariedade para com os demais para não contaminá-los ou nós mesmos não sermos contaminados. A indignação importa que se transforme em empatia para os que sofrem, seja nos hospitais, seja com as famílias que perderam seus entes queridos.

O fatalismo significa aceitar um fato como inevitável face ao qual nada podemos fazer. Essa é uma visão negacionista que nos leva à inércia e ao tédio. Esquece que o ser humano foi criado criador; possui dentro de si energias escondidas que são mais fortes que a dureza dos acontecimentos. Podemos resistir a eles, evitá-los e, mesmo acontecidos, sempre é possível tirar lições deles e assim superá-los. Nada é fatal nesse mundo. Somente o é a morte. Mas a morte não precisa significar o fim de nossa peregrinação mas o momento de transfiguração, o exercício da suprema liberdade ao não permitir que a vida nos seja tirada, mas entregá-la a um Maior e despedir-se des te mundo, agradecidos pelo fato de termos existido. É inspiradora a última palavra de Santa Clara, a companheira de São Francisco de Assis:”Senhor, te agradeço por me teres criado”. Inclinou a cabeça ao lado e expirou e assim caiu nos braços de Deus-Pai-e-Mãe de bondade que a esperavam.

Face à avassaladora pandemia urge suscitar a fé e alimentar a esperança. Fé, em seu sentido bíblico, significa mais que acolher verdades e aderir a doutrinas. É antes de tudo uma confiança em Alguém que acompanha nossos passos, conhece todos os nossos altos e baixos, que sabe do pó do qual somos feitos e tem piedade de nós. Por isso, como diz de forma consoladora, o salmo 103:”Ele não está sempre acusando nem guarda rancor para sempre; como um pai sente compaixão por seus filhos, assim o Senhor tem compaixão por aqueles que a Ele se confiam porque conhece nossa natureza e se lembra de que somos pó”(v.9-14). Ter fé significa que a vida, por mais penosa que seja, tem sentido e vale a pena assumi-la e amá-la. Hoje a assumimos em sua fragilidade e confiamos que esse Alguém pode se compadecer de nós e nos salvar do vírus letal.

A esperança nos faz compreender que o invisível é parte do visível. A realidade empírica e dada não é toda a realidade. Ela esconde algo invisível que pertence à nossa condição humana: as incontáveis possibilidades e virtualidades escondidas dentro de nós. Podemos desentranhá-las inventar uma solução nova aos nossos problemas. É a esperança que nos permite sonhar e pensar em mundos ainda não vividos e ensaiados mas que somos desafiados a moldá-los. Enquanto houver esperança, jamais existirão becos sem saída. Pela esperança nos convencemos a nós mesmos de que o Covid-19 não representará o “Next Big One”, o grande vírus terminal, contra o qual nenhuma vacina seria eficaz e que poderia liquidar grande parte da biosfera e levar milhões da humanidade a um desfecho trágico.

Ainda temos futuro. Nascidos no coração das grandes estrelas vermelhas, há bilhões de anos, seguiremos irradiando. Alimenta nossa esperança uma das últimas frases da Laudato Si: como cuidar da Casa Comum do Papa Francisco:”Caminhemos cantando; que as nossas lutas e a nossa preocupação por este planeta não nos tirem a alegria da esperança”(n.244).

Edição 166, março 2021

DURANTE O ISOLAMENTO SOCIAL: O QUE LER E COMO LER

Durante o isolamento social forçado para o bem da própria pessoa e dos outros face ao ataque do coronavírus somos instados a nos recolher em nossas casas ou habitações.

A convivência física com os próximos nos faz conhecer as diferenças, o modo próprio de cada um de ser, de pensar e de ler o mundo. Não é fácil. A primeira coisa que descobrimos é aquilo que Caetano Velloso, com fina percepção, formulou:“de perto ninguém é normal”,frase que correu o mundo. De fato, junto com a normalidade caminha sempre junto certa anormalidade. Damo-nos conta da luz e da sombra, do sim-bólico (que une) e do dia-bólico (que separa) que habitam em cada um de nós. Não como defeito de criação mas como a nossa condição humana real. Essa polaridade está em tudo: no universo (caos e cosmos),na vida (saúde e doença),na natureza (nascimento e morte), na sociedade (individualismo e solidarismo). O desafio é como articular estas polaridades de forma que a dimensão de luz e do normal não permita a dominação de sombra e do anormal, o que nos tiraria a felicidade e a convivência pacífica.

Há muitas formas de ocupar-se durante este tempo para todos bem penoso. Uma delas é a leitura de livros espirituais ou religiosos que podem abrir-nos novos sentidos especialmente face às inquietações e interrogações que a intrusão do Covid-19 trouxe à humanidade e a cada pessoa.É um contra-ataque da natureza à toda a humanidade: que sinal é este e que ele nos quer dizer? Fontes espirituais ou religiosas escritas há milhares de anos, podem, quiçá, nos trazer alguma luz, não só para a atual conjuntura dramática, mas para a própria vida.

Sugiro aqui começar a ler a Bíblia judaico-cristã, do Primeiro Testamento (do Antigo Testamento) e do Segundo (Novo Testamento), textos escritos ao longo de 3-4 mil anos. Neles se encontra de tudo, por isso, conforme a situação existencial na qual se vive, escolhem-se as partes mais adequadas.

Cabe recordar que cada um lê os textos com os olhos que tem, daí que ler é sempre interpretar. Interpretamos a partir do ponto de vista pessoal, pois cada ponto de vista é a vista de um ponto.Ademais a cabeça pensa a partir de onde os pés pisam. Se meus pés pisam numa favela e eu leio a partir do ponto de vista da favela, já seleciono os textos que mais dizem respeito a esta situação. Não significa negar os outros textos, mas dar vida aos textos a partir dos con-textos em que vivemos e a pre-texto de tal e tal situação. Ou pode-se ler a partir de quem mora no centro da cidade com todos os serviços funcionando e lhe dando segurança. Esse lugar social permite outro tipo de leitura. Em todos os casos, os velhos textos do passado nos revelam novidades. De modo geral, podemos dizer: há tantas leituras quantos são os lugares sociais. Camponeses expulsos da terra lerão os textos bíblicos de modo diferente e até contrário do latifundiário que os expulsou. Assim poderíamos multiplicar os exemplos. Conclusão: não devemos fecharmo-nos em nossa própria leitura o que seria exclusivismo e até fundamentalismo, mas abrir-nos a outras leituras que relativizam e enriquecem a nossa.

Nunca se deve pôr o livro diante dos olhos, escondendo a realidade nua e crua. É o equívoco dos fundamentalistas que apenas veem o livro e suas frases tomadas em si mesmas. Não é para isso que foi escrito. Foi escrito para iluminar a realidade. É inspirado porque nos inspira a compreender mais e viver melhor. Por isso deve ser posto atrás da cabeça para iluminar a realidade com todas as suas contradições.

O primeiro livro que Deus nos deu é o livro da criação. Nele está toda a sabedoria que precisamos para o bem viver. Infelizmente perdemos a capacidade de ler este livro. Vemos a criação, não como valor em si mesma, mas utilitariamente apenas como um baú de recursos a serem explorados a nosso bel-prazer, sem preocupação com as outras pessoas e com os danos que fazemos à natureza, não lhe dando tempo para se regenerar. Por compaixão divina foi-nos dado o outro livro, a Bíblia, que nos oferece as chaves de leitura para o primeiro livro, o da criação. Esse é o sentido profundo para ler a Bíblia: para entender melhor o mundo, a nossa vida pessoal, o sentido de nossas tribulações,a necessidade da esperança e, acima de tudo, a vivência concreta do amor, da solidariedade, do cuidado e da compaixão. Não quer ser nem pode ser um livro de ciência. É um livro de sabedoria de vida que responde às perenes buscas humanas.

Cada um escolhe os livros da Bíblia que lhe parecer melhor. Eu recomendo do Primeiro Testamento: todos os livros sapienciais (Jó,os Salmos especialmente, os números 23 e 103; Provérbios, Eclesiastes, Eclesiástico, Cântico dos cânticos, livro de alto erotismo e que nunca fala de Deus, nem precisava, pois Deus é amor; Lamentações).

Do Segundo Testamento aconselho começar pelos Atos dos Apóstolos, verdadeira saga que narra como São Paulo e companheiros andaram mais de mil km pelo império romano para anunciar os valores pregados e vividos por Jesus (o amor incondicional, a abertura a Deus como bom e misericordioso,o cuidado para com os pobres e sofredores e a capacidade de perdão e a certeza de nossa ressurreição mais que apenas a imortalidade da alma); depois a Primeira Carta aos Coríntios, na qual se veem os grandes valores éticos a serem assumidos; dos evangelhos começar pelo de São Marcos, mais enxuto e mais próximo do Jesus histórico; o evangelho de São Lucas no qual Jesus mostra sua imensa compaixão pelos pobres e as advertências aos poderosos e endinheirados; o evangelho de São João, cheio de espiritualidade; a Epístola de Tiago na qual se prega uma moral bem concreta e atual.

Aconselho a Bíblia da Vozes pelas excelentes introduções e comentários (vendas@vozes.com.br). Deixem-se tomar pelas palavras bíblicas que, junto com outros livros sagrados de outros caminhos espirituais, nos propiciam um encontro com a Palavra que nos ilumina o caminho nas noites sombrias da vida como nos tempos atuais.

N.E.

Esquece o meu Amigo L. Boff que a Bíblia é mandada escrever pelo Poder davídico e tem a mãozinha dos Sacerdotes, Poder sacerdotal. O deus de que falam os Livros dela é o Poder, de sua natureza assassino e ladrão. Fazia bem ao meu Amigo L.Boff ler o meu Livro, Á BÍBLIA OU JESUS?, Seda Publicações /Gugol.pt, abril 2017. De bom grado lho oferecerei, se ele me fizer chegar o seu endereço postal correcto.

DESAFIOS PARA EDUCAÇÃO FACE ÀS MUDANÇAS NA VIDA E NA HUMANIDADE

A intrusão do coronavírus desde 2019, afetando pela primeira vez todo o planeta e cada uma das pessoas, não nossos animais domésticos como gatos e cachorros, tem um significado que é importante decifrar. Nada na natureza e em Gaia, nossa Mãe Terra, é sem propósito.

Que lição devemos aprender com esta pandemia? Para isso, não basta falar em ciência, tecnologia e todos os outros insumos. Mas devemos nos perguntar qual é o contexto do vírus? Ele não pode ser considerado isoladamente. É preciso identificar as condições que permitiram sua irrupção e sua devastação da espécie humana.

O Antropoceno e o Necroceno como contexto do Covid-19

O contexto da irrupção do Covid-19 reside no Antropoceno e no Necroceno. Em outras palavras, o motivo é a agressão sistemática que os seres humanos exercem contra a natureza e a Mãe Terra. Como muitos cientistas afirmaram: inauguramos uma nova era geológica: o Antropoceno. Ou seja, a grande ameaça à vida e até mesmo à vitalidade da Terra não se deve a um meteoro rasante que caiu no planeta, mas a nós, seres humanos.

Como não possuímos nenhum órgão especializado que garanta nossa subsistência – somos um ser biologicamente deficiente (Mangelwesen do antropólogo Arnold Gehlen) e também pelo fato não termos um habitat específico, temos que trabalhar a natureza e assim criar nosso oikos (casa,habitat) de modo a assegurar nossa existência e subsistência.

Nesse processo que criar nosso habitat,trabalhando a natureza, identificamos várias etapas.Nas primeiras fases da antropogênese, há milhões de anos, o ser humano teve uma relação para com a natureza de interação harmoniosa, respeitando seus ritmos. Mais tarde no neolítico, há cerca de 10-12 mil anos, passou a uma relação de intervenção, com a gestão da água, com a irrigação e as culturas agrícolas e de animais, já rompendo a sinergia com a dinâmica da natureza; Depois, na era industrial, passou-se à agressão direta, explorando a natureza sem considerar suas possibilidades e limites, com a falsa premissa de que os recursos naturais são infinitos que permitiriam um desenvolvimento igualmente infinito. No entanto, uma Terra com bens e serviços finitos não suporta um projeto infinito. Apesar disso, continuamos a desconsiderar tais limites, querendo extrair da Terra o que ela já não pode mais nos dar (a Sobrecarga da Terra, o Overshoot).Esse processo de superexploração nos levou à fase atual de destruição da natureza. Não é mais o Antropoceno, mas o Necroceno, ou seja, a devastação massiva de formas de vida.

Estes são os dados aterrorizantes fornecidos por Edward Wilson, um dos maiores biólogos atuais: a cada ano, cerca de 100 mil espécies de seres vivos desaparecem, após milhões e milhões de anos de presença no planeta. Um milhão de outras espécies também correm grande risco de desaparecerem.

Aqui reside a causa da intrusão do coronavírus: a relação agressiva e danosa do ser humano com seu meio vital, destruindo as bases físicas, químicas, ecológicas que sustentam a vida. Por isso é válida a afirmação da Laudato Si do Papa Francisco: “Nunca maltratamos e prejudicamos a nossa casa comum como nos últimos dois séculos” (n.53). E continua: “As previsões catastróficas não podem mais ser vistas com desprezo e ironia … ultrapassamos as possibilidades do planeta, de tal forma que o atual estilo de vida insustentável só pode terminar em catástrofe”(n.161). Na outra encíclica Fratelli tutti que é um aprofundamento do Laudato Si, ele enfaticamente afirma “Estamos no mesmo barco: ou não salvamos todos ou ninguém salva”(n.32). Por isso, cobra “uma conversão ecológica radical” (n.5).

Na mesma direção vai a Carta da Terra de 2003, um dos documentos mais importantes nascidos de baixo, a partir de uma consulta a milhares de pessoas de todas as partes do mundo e de todas as classes sociais e assumida pela UNESCO como uma contribuição para uma nova educação, que afirma em seu primeiro parágrafo: “Estamos diante de um momento crítico na história da Terra, numa época em que a humanidade deve escolher seu futuro… Nossa escolha é: ou formamos uma aliança global para cuidar da Terra e uns dos outros, ou arriscamos nossa destruição e a destruição da diversidade da vida”.

Para encerrar esse cenário ameaçador convém citar a última frase de um dos maiores historiadores do século XX, o inglês Eric Hobsbawn, em seu conhecido livro-síntese “A era dos extremos” (1994). «O futuro não pode ser a continuação do passado … O nosso mundo está em perigo de explosão e implosão … Não sabemos para onde vamos. No entanto, uma coisa é certa: se a humanidade deseja um futuro que valha a pena, não pode se basear no prolongamento do passado ou do presente. Se tentarmos construir o terceiro milênio nesta base, falharemos. E o preço do fracasso, isto é, da alternativa à mudança da sociedade, é a escuridão »(p.562). Em outra parte do livro, ele fala sobre nossa autodestruição.

O que nos está salvando diante da intrusão do Covid-19

Como se há de interpretar o Covid-19 neste contexto dramático? Ele representa um sinal enviado pela Mãe Terra para nos dizer:”vocês não podem mais continuar com essa agressão e com esse espírito de destruição contra mim, caso contrário lhes enviarei severos e danosos sinais”. O Covid-19 é um contra-ataque da Terra contra o tipo de civilização humana que criamos, que implica uma perigosa devastação do sistema da vida e do sistema da Terra. Caso não mudarmos, poderemos ir ao encontro do pior ou de um caminho sem retorno.

Por outro lado, ficou claro: o que nos está salvando não são os mantras do sistema vigente: o lucro ilimitado, a competição desenfreada,o individualismo generalizado, a exploração feroz dos bens e serviços da natureza, o Estado mínimo e o mercado acima da sociedade.

O que nos está salvando são os valores ausentes ou vividos apenas privadamente na cultura do capital: a vida em sua centralidade, a solidariedade, a interdependência de todos com todos, o cuidado uns dos outros e da natureza, um Estado suficientemente apetrechado para atender às demandas humanas e da sociedade dos humanos e não das mercadorias. Todos esses valores são aqueles que não fazem humanos enquanto humanos. Na encíclica recente Fratelli tutti esses valores são universalizados com alternativa ao paradigma vigente.

A partir deste quadro dramático coloca-se claramente a questão: Como deve ser nossa educação diante desses desafios, radicalizados pela presença letal do coronavírus? Podemos continuar como antes? O pior que nos pode acontecer é voltar à situação anterior, com uma dupla e perversa injustiça: uma ecológica com a devastação dos ecossistemas e com as ameaças que pesam sobre o nosso futuro, e outra social por um pequeno grupo que controla quase toda a riqueza e os fluxos financeiros fazendo com que grande parte da humanidade viva na pobreza até na miséria, morrendo antes do tempo. A consequência lógica é que temos que mudar se quisermos sobreviver. Ou então, dar razão a Sigmunt Bauman que nos advertiu pouco antes de sua morte: “ou damo-nos as mãos e todos colaboramos ou então vamos aumentar o cortejo daqueles que caminham na direção de seu própria sepultura”.

A nova situação da humanidade desafia a educação

Se isso for verdade, significa que nossa educação deve assumir também mudanças e novas diretrizes, princípios e valores para estar à altura dos desafios do momento presente. A Carta da Terra diz bem: “Como nunca antes na história, o destino comum nos conclama a buscar um novo começo” (Conclusão). Repare-se: não se fala simplesmente em melhorar, mas em buscar um novo começo. “Isso requer” – continua a Carta da Terra, na mesma linha da Laudato Si e Fratelli tutti ”mudanças na mente e no coração; requer um novo sentido de interdependência global e responsabilidade universal … só assim chegaremos a um modo de vida sustentável (note-se não se diz um desenvolvimento sustentável, mas um modo de vida sustentável) a nível local, nacional, níveis regional e global ”.

O que significa mudar de mente? É ver a Terra, não como um baú de recursos para nosso uso e desfrute, mas como um super-organismo vivo que organiza sistemicamente todos os fatores para se manter vivo e produzir permanentemente vida a toda a comunidade da vida. É a Mãe Terra, conforme foi decidido pela ONU em importante sessão de 22 de abril de 2009: este dia já não é mais o Dia da Terra, mas o Dia da Mãe Terra, uma mãe que devemos tratar com amor, carinho e com cuidado.

O que significa mudar seu coração? Significa, como bem diz Laudato Si: “escutar ao mesmo tempo o grito da Terra e o grito dos pobres” (n.49). Não basta a razão instrumental-analítica,fria e calculista; é preciso sentir no coração a realidade circundante; é preciso “ter ternura, compaixão e preocupação pelos seres humanos” (n.91) e por todos os seres, “como o sol, a lua, o cedro e a florzinha, a águia e o pardal e outros seres”(n.86).

O que significa ter um novo senso de interdependência global? A Laudato Si esclarece belamente:” Tudo está relacionado e todos os seres humanos estão juntos como irmãos e irmãs em uma peregrinação maravilhosa que une também com ternura afeição o irmão sol, a irmã lua, o irmão rio e a mãe terra (n.92). A afirmação básica da física quântica é: tudo é relação; nada existe fora do relação porque todos estão relacionados uns com os outros em todos os momentos e circunstâncias. O universo não é feito pelo conjunto dos corpos celestes, mas pelo tecido das relações que eles mantêm entre si.

O que significa nutrir uma responsabilidade universal? Para a Laudato Si significa “a consciência amorosa de não estar desligado das outras criaturas, de formar com os outros seres do universo uma preciosa comunhão universal … é sentir que precisamos uns dos outros, que temos uma responsabilidade pelos outros e pelo mundo ”(nº 229). Terra e humanidade têm o mesmo destino comum que pode ser bem-aventurado ou trágico, dependendo das práticas dos seres humanos.

Tudo isso tem a ver com o tipo de educação que deve ser desenvolvida, enriquecida e reinventada para ajudar a criar um mundo necessário e não só possível, no qual coexistam os diversos mundos culturais, com seus valores, tradições e caminhos espirituais, na mesma e a única Casa Comum, a natureza incluída.

Jacques Delors, anos atrás, então secretário geral da UNESCO propôs alguns marcos para a educação no século 21. Ele dizia que “é preciso aprender a conhecer, aprender a pensar, aprender a fazer, aprender a ser e aprender a conviver”. Tudo isso é irrenunciável. Mas temos que ir mais longe em face dos desafios que nos são apresentados pela realidade global profundamente mudada.

Como dizia a filósofa Hannah Arendt:”podemos nos informar ao longo e toda vida sem nunca nos educar”, ou seja, não basta acumular informações. Hoje praticamente tudo se encontra no Google. Temos que nos educar com esssas informações para sermos mais humanos, mais sensíveis, mais fraternos e cuidadosos para com todas as coisas e garantir um futuro bom para todos, para a nossa civilização, para a vida e, portanto, para a Mãe Terra.

Marcos para uma educação adequada para o tempo atual

Alguns pontos são importantes e decisivos para uma educação adequada à situação da humanidade e da Terra. Não é o lugar aqui para aprofundá-los, mas para colocá-los como um desafio à reflexão.

O primeiro é o resgate da razão cordial ou sensível. Somos seres fundamentalmente de sensibilidade mais do que de racionalidade. É por isso que devemos desenvolver, como diz LaudatoSsi, “uma paixão pelo cuidado do mundo, uma mística que nos encoraje, que dê ânimo e sentido à ação pessoal e comunitária” (n. 216).Ajudam-nos as reflexões que estão sendo feitas atualmente sobre o resgate desta dimensão cordial que enriquecerá a inteligência racional (cf.o meu Os direitos do coração, Paulus 2015).

Em segundo lugar, sentir-se parte viva e consciente da natureza, criando laços de amor, afeto, comunhão e cuidado com cada ser da natureza: não queimar nada, não derrubar florestas, não poluir o ar e os solos, permitir a regeneração da natureza dando-lhe descanso e cuidado. Nisso os povos originários são nossos mestres, pois sentem-se parte da natureza e a tratam com reverência e sumo cuidado.

Em terceiro lugar, aprender a conviver com a diversidade. Através da mídia global, entramos em contato com inumeráveis culturas e valores humanos diferentes que vão além dos nossos da cultura ocidental. Então: não permitir que as diferenças se transformem em desigualdades, mas entender que podemos ser humanos de maneiras diferentes e aceitá-las, como válidas e não apenas tolerá-las. Assim, podemos aprender uns dos outros e construir uma verdadeira fraternidade sem fronteiras. Como se canta entre nós: “a alma não tem fronteira, nenhuma vida é estrangeira”.

Em quarto lugar é incorporar uma ética do cuidado necessário. O cuidado pertence à essência da vida e principalmente do ser humano. Sem cuidado, não sobrevivemos (veja-se o meu Saber cuidar, Vozes 1999 e O cuidado necessário, 2013) Tudo o que amamos, nós também cuidamos e tudo o que cuidamos, também amamos. O cuidado deve ser incorporado não como um ato, mas como uma atitude fundamental em todas as áreas da vida, cuidando de si, do outro, do nosso espírito, do tipo de sociedade que queremos, cuidando dos ecossistemas, cuidando da Mãe Terra.

Finalmente, desenvolver uma dimensão espiritual da vida. Vivemos dentro de uma cultura que cultiva excessivamente os valores materiais para o consumo humano. Pouco desenvolvemos o que é especificamente humano: a nossa dimensão espiritual, feita de valores intangíveis mas que são essenciais como o amor incondicional, a solidariedade, a compaixão, a capacidade de perdão e reconciliação, a abertura ao sagrado da natureza, a Deus que está continuamente criando e sustentando tudo. O ser humano pode abrir-se a esta dimensão e acolher de forma consciente o Ser que faz ser todos os seres. O resultado é que nos tornamos mais humanos, mais sensíveis, mais solidários, mais comprometidos com a salvaguarda da vida e da justiça especialmente dos mais empobrecidos e feitos injustamente invisíveis, sentindo-nos filhos e filhas da Mãe Terra e irmãos e irmãs de todos os outros humanos. Igualmente de todos os seres da criação.

Tudo começa com a educação. Sua tarefa essencial é construir a identidade do ser humano e hoje reinventá-la para poder enfrentar os desafios colocados pelas mudanças na própria Terra e na humanidade globalizada. Como disse o grande educador Paulo Freire: “A educação não muda o mundo. A educação muda as pessoas que vão mudar o mundo ”.

Este é o desafio de toda educação: transformar as pessoas e o mundo a salvar. Para isso temos que cultivar a esperança profundamente descrita na Fratelli tutti: “uma realidade enraizada no profundo do ser humano, independentemente das circunstâncias concretas e dos condicionamentos históricos em que vive” que nos permite sonhar com outros mundos e formas sociais (n.55).

São inspiradoras as palavras finais do Papa Francisco na Laudato Si: “Irmãos e irmãs, caminhemos cantando; que nossas lutas e nossa preocupação com este planeta não tirem a alegria da esperança ”(n. 244).

Esta foi um palestra ministrada em espanhol via internet aos Irmãos Maristas de Compostela da Espanha e de Portugal no dia 16/03/2021 tendo como referência a ecologia integral da encíclica Laudato Si do Papa Francisco.

CARTA ABERTA À HUMANIDADE

Este texto, elaborado por várias mãos e cabeças, é fruto do desamparo. A pandemia está matando nosso povo. Não sabemos a quem recorrer, pois aqueles que poderiam fazer algo não o fazem, por misteriosos desígnios que suspeitamos quais sejam. A dizimação do nosso povo equivale a 6 guerras do Paraguai, na qual morreram 50 mil soldados brasileiros. Não podemos assistir sem indignação e sem fazer nada face à essa guerra interna, cujo inimigo está dentro de nosso país e ocupando o mais alto cargo da nação. Mas existe a humanidade que ainda tem “humanidade”em nome da qual recorremos. Nosso temor reside em que o instinto de morte de nosso presidente queira a partir do Brasil afetar toda a humanidade e mais diretamente nossos vizinhos com o vírus amazónico altamente perigoso. Já invadiu todo o país e chegou já aos USA. Trata-se de salvar vidas e a própria humanidade sob risco de não conseguir se regenerar. totalmente. É a razão ética e humanitária que nos moveu a publicar esta manifesto, traduzido em várias línguas. Pedimos que o subscrevam para criar as condições políticas para encontrar alguém que preza a vida, não exalta a violência nem é indiferente face à morte de milhares de nossos compatriotas. Não há mais lenços para enxugar tantas lágrimas, nem mais a possibilidade de um último adeus. Repetindo um bispo franciscano escocês do século XIII contra a demasiada extorsão dos impostos: não aceitamos, nos recusamos e nos rebelamos contra essa situação inimiga da vida.

https://forms.gle/H8Y8pQMe3WhYjQrZA


LIÇÃO DO COVID-19: ADOECEMOS A TERRA E A TERRA NOS ADOECE

Isaac Asimov, cientista russo, famoso por seus livros de divulgação científica, a pedido da revista New York Times, (do dia 9 de outubro de 1982) por ocasião da celebração dos 25 anos do lançamento do Sputinik que inaugurou a era espacial, escreveu um artigo sobre o legado deste quarto de século espacial.

O primeiro legado, disse ele, é a percepção de que, na perspectiva das naves espaciais, a Terra e a humanidade formam uma única entidade, vale dizer, um único ser, complexo, diverso, contraditório e dotado de grande dinamismo.

O segundo legado é a irrupção da consciência planetária: construir a Terra e não simplesmente as nações é o grande projeto e desafio humano.. Terra e Humanidade possuem um destino comum. O que se passa num, se passa também no outro. Adoece a Terra, adoece juntamente o ser humano; adoece o ser humano, adoece também a Terra. Estamos unidos pelo bem e pelo mal.

No atual momento, a Terra inteira e cada pessoa estamos sendo atacados pelo Covid-19, especialmente o Brasil, vítima de um chefe de estado insano que não se preocupa com a vida de seu povo. Todos, de uma forma ou de outra, nos sentimos doentes física, psíquica e espiritualmente.

Por que chegamos a isso? A razão reside no Covid-19. É errôneo vê-lo isoladamente sem seu contexto. O contexto está na forma como organizamos já há três séculos nossa sociedade: na pilhagem ilimitada dos bens e serviços da Terra para proveito e enriquecimento humano. Este propósito levou a ocupar 83% do planeta, desflorestando, poluindo o ar, a água e os solos. Nas palavras do pensador francês Michel Serres, movemos uma guerra total contra Gaia, atacando-a em todas as frentes sem nenhuma chance de vencê-la. A consequência foi a destruição dos habitats das milhares de espécies de vírus. Para sobreviver saltaram para outros animais e destes para nós.

O Covid-19 representa um contra-ataque da Terra contra a sistemática agressão montada contra ela. A Terra adoeceu e repassou sua doença a nós mediante uma gama de vírus como o zika, a chicungunya, o ebola, a gripe aviária e outros. Como formamos uma complexa unidade com a Terra, adoecemos junto com ela. E nós doentes, acabamos também por adoecê-la O coronavírus representa esta simbiose sinistra e letal.

De modo geral devemos entender que a reação da Terra à nossa violência se mostra pela febre (aquecimento global), que não é uma doença, mas aponta para uma doença: o alto nível de contaminação de gases de efeito estufa que ela não consegue digerir e sua incapacidade de continuar nos oferecer seus bens e serviços naturais. A partir de 22 de setembro de 2019 ocorreu a Sobrecarga da Terra, vale dizer, as reservas de bens e serviços naturais, necessários ao sistema-vida, chegaram ao fundo do poço. Entramos no vermelho e no xeque especial.

Para termos o necessário e, pior, para mantermos o consumo suntuário e o desperdício dos países ricos, devemos arrancar à força seus “recursos” para atender as demanda dos consumistas. Até quando a Terra aguentará?

Sabemos que há nove fronteiras planetárias que não podem ser rompidas sem ameaçar a vida e nosso projeto civilizatório. Quatro delas já foram rompidas A consequência é termos menos água, menos nutrientes, menos safras mais desertificação, maior erosão da biodiversidade e os demais itens indispensáveis para a vida. Portanto, nosso tipo de relação é anti-vida e é a causa principal da doença da Terra que, por sua vez, nos torna também doentes.

Por esta razão, quase todos nós, especialmente por causa do isolamento social e das medidas higiênicas, nos sentimos prostrados, desvitalizados, irritadiços, numa palavra, tomados por um pesadelo que não sabemos quando vai acabar. Os milhares de mortos de entes queridos, sem poder acompanhá-los e prestar-lhes a última despedida por um luto imprescindível nos acabrunham e põem em cheque o sentido da vida e o futuro de nossa convivência nesse planeta.

Por outro lado, a muito custo, estamos aprendendo que o que nos está salvando não são os mantras do capitalismo e do neoliberalismo: o lucro, a concorrência, o individualismo, a ilimitada exploração da natureza, a exigência de um Estado mínimo e a centralidade do mercado. Se tivéssemos seguido estes “valores” seríamos quase todos vitimados. O que nos está salvando é o valor central da vida, a solidariedade, a interdependência de todos com todos, o cuidado da natureza, um Estado bem apetrechado para atender as demandas sociais, especialmente dos mais carentes, a coesão da sociedade acima do mercado.

Damo-nos conta de que cuidando melhor de tudo, recuperando a vitalidade dos ecossistemas, melhorando nossos alimentos, orgânicos, despoluindo o ar, preservando as águas e as florestas nos sentimos mais saudáveis e com isso fazemos a Terra também mais saudável e revitalizada.

O que o Covid-19 nos veio mostrar de uma forma brutal que esse equilíbrio Terra e Humanidade foi rompido. Tornamo-nos demasiadamente vorazes, arrancando da Terra o que ela já não nos pode mais dar. Não respeitamos os limites de um planeta pequeno e com bens e serviços limitados. Antes, nossa cultura criou um projeto irracional de crescimento ilimitado como se os bens e serviços da Terra também fossem ilimitados. Essa é a ilusão que perdura em quase todas as mentes dos empresários e dos chefes de Estado.

O Covid-19 nos faz recuperar nossa verdadeira humanidade, embora por natureza ambigua. Ela é feita de amor, de solidariedade, de empatia, de colaboração e da dimensão humano-espiritual que dá o devido valor aos bens materiais sem absolutizá-los, mas dá muito mais mais valor aos bens intangíveis como os acima citados. Os materiais os deixamos para trás, os humano-espirituais os levamos para além da morte, pois constituem nossa identidade definitiva.

Quanto mais nossas relações para com a natureza forem amigáveis e entre nós cooperativas, mais a Terra se vitaliza. A Terra revitalizada nos faz também saudáveis. Curamo-nos juntos e juntos celebramos a nossa convivência terrenal.

Edição 165, fevereiro 2021

HOJE CONTA MAIS O BANQUEIRO QUE O BOM PADRE JÚLIO LANCELLOTTI

A cultura dominante, hoje mundializada, se estrutura ao redor da vontade de poder que se traduz por vontade de dominação da natureza, do outro, dos povos e dos mercados. Essa lógica cria continuamente tensões, conflitos e guerras. E provocou a intrusão do Covid-19 que encontrou num presidente”um Trump dos grotões” que a considerou uma “gripezinha” e assim se dispensou de cuidar do povo, assistindo sem qualquer empatia à morte de mais de 240 mil vítimas, para escândalo nacional e internacional.

Dos 3.400 anos de história da humanidade, que podemos datar, diz-nos o historiador Georg Weber, 3.166 foram de guerra. Os restantes 234 não foram certamente de paz mas de preparação para outra guerra.

Praticamente em todos os países as festas nacionais, seus heróis e os monumentos das praças são ligados a feitos de guerra. Os meios de comunicação levam ao paroxismo a magnificação de todo tipo de violência, bem simbolizado no programa noturno de uma das televisões sob o título “Tela Quente”. E para vexame geral nosso presidente defende a tortura dos tempos da ditadura militar e exalta torturadores sanguinários.

Nos vários países, o militar, o banqueiro e o especulador valem mais do que o poeta, o filósofo e o santo. Conta mais o rico empresário da Fiesp do que o pobre homem de Deus, que cuida da população de rua e, só por isso, sempre ameaçado de morte: o padre Júlio Lancellotti. Nos processos de socialização formal e informal, a cultura da violência não cria mediações para uma cultura da paz, do diálogo e da fraternidade universal.

Esta situação faz suscitar sempre de novo a pergunta que, de forma dramática, Albert Einstein colocou a Sigmund Freud nos idos de 1932: é possível superar ou controlar a violência? Freud, realisticamente, responde: “É impossível aos homens controlar diretamente o instinto de morte (thánatos). Pode,entretanto, percorrer vias indiretas. Tudo o que faz surguir laços emotivos entre os seres humanos age contra a guerra. Tudo o que civiliza, trabalha contra a guerra”. Mas conclui com uma forma resignada: “esfaimados pensamos no moinho que tão lentamente mói que poderemos morrer de fome antes de receber a farinha”( Obras completas III:3, 215).

Sem detalhar a questão, diríamos que por detrás da violência funcionam fortes estruturas que rompem os possíveis laços de fraternidade. Se não as controlarmos, se torna verdade o que Thomas Hobbes sustenta em seu Levitã (1561): o ser humano é lobo para o outro ser humano.

A primeira estrutura é o caos sempre presente no processo cosmogênico e antropogênico. Somos todos filhos e filhas do caos primordial, daquela imensa explosão silenciosa, o big bang que ocorreu há 13,7 bilhões de anos. A expansão e a evolução do universo constituem uma forma de criar ordem (cosmos) neste caos e não permitir que seja só caótico mas que seja também generativo. Ele gera novos corpos celestes, galáxias, estrelas e buracos negros. Mesmo assim o caos e o cosmos (novas ordens) sempre acompanham evolução do universo. Ele atua também no ser humano, fazendo que seja simultaneamente amoroso e violento, luz e sombra.

Essa estrutura de caos produziu cerca de cinco grandes dizimações em massa de seres vivos, ocorridas há milhões de anos. Na última, há cerca de 67 milhões de anos, pereceram todos os dinossauros. Possivelmente a própria inteligência também nos foi dada para limitar a ação destrutiva do caos e potencializarmos sua ação generativa de novas ordens.

Em segundo lugar, somos herdeiros da cultura patriarcal que instaurou,há mais de dez séculos, a dominação do homem sobre a mulher e criou as instituições assentadas sobre o uso legítimo da violência pelo Estado, mas presente no exército, na guerra, nas classes, no projeto da tecno-ciência posto a serviço dos processos de produção que implicam uma sistemática depredação da natureza e uma desumana injustiça social.

Em terceiro lugar, essa cultura patriarcal usou da repressão, do medo, do terror e da guerra como forma de resolução dos conflitos. Sobre esta vasta base se formou a cultura do capital, explorando a força do trabalho humano e devastando a natureza. Seu objetivo é o lucro e não a vida, sua lógica é a competição e não a cooperação,o individualismo e não a interdependência entre todos. Sua dinâmica excludente origina desigualdades, injustiças, violências que ceifam milhares e até milhões de vidas humanas. A intrusão do Covid-19 impôs a todos uma pausa nessa voracidade pois tudo teve que parar, a produção e a circulação dos seres humanos, sujeitos ao confinamento social. Limou os dentes do lobo mas não lhe tirou a ferocidade. Os especuladores acumulassem fortunas fantásticas agravando a desigualdade social.

Todas estas forças se articulam estruturalmente para consolidar a cultura da dominação e da violência, atitudes contrárias a qualquer tipo de fraternidade. Elas nos desumanizam a todos, fazendo-nos no dizer da encíclica do Papa Francisco Fratelli tutti, não mais irmãos e irmãs mas apenas sócios ao redor de interesses pessoais ou corporativos (cf.n.12;101). Não basta sermos a favor da paz. Temos que ser contra a guerra e no Brasil denunciar a ausência de um projeto oficial para deter o Covid-19, tornando o seu principal responsável, o chefe da nação “um gendarme da burguesia”, que não cuida das vidas de seu povo e não mostra empatia para com as famílias e pessoas que perderam entes queridos, como se tivesse feito uma lobotomia.

À essa cultura da violência há que se opor a cultura da paz. Ao mundo dos sócios temos que fazer valer o mundo dos irmãos e das irmãs. Esta é proposta inovadora,um verdadeiro novo paradigma civilizacional do Papa Francisco na encíclica Fratelli tutti: um modo de habitar a Casa Comum, como frater irmão e irmã, na qual vigora uma fraternidade sem fronteiras entre os humanos e também com os demais seres da natureza da qual é parte, em contraposição ao paradigma da modernidade assentado sobre o dominus, o ser humano como senhor e dono da natureza e não parte dela.

Tal proposta é imperativa, porque as forças de destruição já por séculos romperam o contrato natural com a Terra e a natureza e estão ameaçando, por todas as partes, quebrar o contrato social mínimo pela ascensão da direita e da extrema direita que não respeita as leis e a Constituição criando um Estado pós-democrático e sem lei (R.R. Casara). É imperativa esta proposta papal porque o potencial destrutivo, em termos de armas de destruição em massa já montado, mais o aquecimento global podem ameaçar toda a biosfera e impossibilitar a continuidade do projeto humano. Ou limitamos a violência e fazemos prevalecer o projeto da fraternidade universal, do amor social e da paz perene, como o proclama de forma entre angustiada e esperançada o atual Pontífice, ou conheceremos, no limite, um caminho sem retorno.A decisão cabe à nossa geração.

SOB BOLSONARO: A DEMOCRACIA COMO FARÇA E AS INSTITUIÇÕES COMO DISFARCE

É facto confessado pelo ex-chefe supremo das FFAA, gal.Villas Boâs que o Alto Comando em 2018 deu um golpe na democracia brasileira,ferindo o inciso XILV do artigo 5º da Constituição que diz, tal fato:”constitui crime inafiançável e imprescritível a ação de grupos armados, civis ou militares, contra a ordem constitucional e o Estado Democrático”. O sentido era, pressionando o STF para manter-se distante, utilizar o juiz Sérgio Moro (exímio na aplicação do law fare) para alijar Lula do pleito presidencial, condenando-o por qualquer crime que fosse, no caso, “por crime indeterminado”e pô-lo na prisão onde ficou por mais de 500 dias. Desta forma abrir-se-ia o caminho para eleição ex-capitão compulsoriamente reformado por mau comportamento, Jair Bolsonaro. O que de facto ocorreu.

Conhecemos a bíblica “desolação da tribulação” que sobreveio ao nosso país com o presidente eleito. Ocupou militarmente o Estado com 11 mil militares em distintas funções de comando ou de administração. Não soube guardar a dignidade que o mais alto cargo da nação exige e entregou-se às difamações, às mentiras diretas, aos fake news, ao uso vergonhoso de palavrões com soberano desprezo da imprensa. Mente assassina, preferiu incentivar a compra de mais armas por civis do que elaborar um plano de enfrentamento do Covid-19 que já fez mais de 220 mil vítimas e nos aproximando de 10 milhões de infectados. Na avaliação mundial, o Brasil ficou em último lugar nas políticas sanitárias contra o Covid-19 e na aplicação da vacinação à população.

A nossa democracia que historicamente sempre foi de baixa intensidade, agora, sob Bolsonaro e comparsas, foi estralhaçada nem chegando a ser de baixíssima intensidade. Ela virou uma farça e suas principais instituições um disfarce de legalidade, por mais que se diga que “as instituições funcionam”. Cabe perguntar a quem? Não à política sanitária mínima, não à justiça necessária aos milhões de desempregados, aos indígenas e quilombolas, não ao cuidado da natureza em devastação, não à defesa contra ameaças diretas ao STF, nem contra um propósito declarado de golpe militar. Sob o disfarce da legalidade se blindam notórios corruptos, concede-se facilmente habeas corpus a políticos indiciados por ilegalidades e até crimes e permanecem impunes os centenas de feminicídios e discriminações e até assassinatos dos membros do LGBTI.

Vou me permitir usar as palavras de dois sociólogos porque encontrei neles as melhores expressões para qualificar o que sinto e penso acerca de nossa presumida democracia: Thiago Antônio de Oliveia Sá, sociólogo e professor universitário (cf.O sequestro das instituições brasileiras, em Carta Maior de 14/02/2021) e de Pedro Demo, colega de estudos no Brasil e na Alemanha, professor na Universidade de Brasília,uma das inteligências mais brilhantes que conheço com vasta obra de pesquisa científica. Delas sirvo-me apenas de tópicos significativos do livro Introdução à Sociologia: Compexidade,Interdisciplinaridade e Desigualdade Social, Editora Atlas, São Paulo 2002 pp, 329-333) onda diretamente aborda o tema da democracia no Brasil.

Começo com Oliveira Sá no referido artigo em Carta Maior: “O público é um anexo do privado. A perícia cede lugar à malícia. A corrosão institucional se visualiza facilmente: obscurantistas e mal educados como ministros da Educação; um ecocida que passa sua boiada sobre o meio ambiente; uma ruralista à frente da agricultura nos envenena com seus mais de 500 agrotóxicos legalizados; uma evangélica fundamentalista cuida das mulheres e demais minorias com seu machismo e sua obsessão com a sexualidade alheia. Não nos esqueçamos do primeiro ministro da Saúde, lobista dos planos privados, a estender sua mão visível sobre o SUS. Um emissário do mercado financeiro dirige o ministério da economia. Um maluco, pária orgulhoso e antiglobalista (seja lá o que isso for), faz do Brasil vexame internacional nas relações exteriores. Um racista à frente da Fundação Palmares. Polícia federal convertida em guarda-costas particular da presidência e de seus filhos. A Procuradoria Geral da República a livrar a cara do empreendedor das rachadinhas. Um militar na Saúde dispensa maiores explicações…. juízes que têm lado, vejam-se os novos vazamentos das tramóias nada republicanas de Moro, Dallagnol e seus comparsas. Absurdo, mas não surpreendente: a velha conversão das instâncias judiciais em arma de grupos dominantes. Para perseguição de adversários, para inviabilizar suas candidaturas em favor de outros”.

Não perde em contundência Pedro Demo. O que escreveu em 2002 vale muito mais para 2021:”Nossa democracia é encenação nacional de hipocrisia refinada, repleta de leis “bonitas”, mas feita sempre, em última instância, pela elite dominante para que sirva a ela do começo até o fim. Nossa democracia espelha, cruamente, a ‘luta pelo poder’ no sentido mais maquiavélico da luta por privilégios. Político sem privilégios é figura espúria em nosso cenário – desde logo é gente que se caracteriza por ganhar bem, trabalhar pouco (comentário meu: vide o ex-deputado Jair Bolsonaor por sucessivos mandatos), fazer negociatas, empregar parentes e apaniguados, enriquecer-se à custa dos cofres públicos, entrar no mercado por cima. Mas há exceções que confirmam a regra…A própria Constituição de 1988 não abriga propriamente projeto nacional coletivo, afinado sob a batuta da justiça e da equalização de oportunidades, mas proposta corporativista retalhada por meio da pressão particularizada: os magistrados fizeram o seu capítulo, bem como a polícia, as universidades, o legislativo, o judiciário, o Executivo e a iniciativa privada…É a tão decantada por Ulysses Guimarães de “Constituição Cidadã”, mas que detém concepção corporativista extrema, muito distante dos interesses das maiorias…Fazem-se muitas propostas mas sem qualquer ligação com embasamento financeiro e institucional…No final fizemos outra vez imitação barata do welfare state.Mas há coisas boas como a lei de responsabilidade fiscal para evitar que se gaste o que não se arrecada…O Legislativo longe de defender ideias,propostas, equidade, defende verbas, fatias de poder, privilégios exclusivos. É o lugar principal da negociata, do cá e o da lá…Não é pois difícil de mostrar que nossa democracia é apenas formal, farsante, que convive solenemente com a miséria das grandes maiorias. Se ligássemos democracia com justiça social, nossa democracia seria sua própria negação. Não se nota na classe política dominante em geral qualquer gesto dirigido a superar mazelas históricas plantadas em privilégios absurdos para poucos…Nossa pobre política lancinante se traduz na miséria de nossa democracia. Por isso é tão importante manter a ignorância política das massas”(333).

A realidade política sob Bolsonaro é muito pior do que a desenhada acima. Visa reconduzir o país à fase pré-iluminista, da universalização do saber, dos direitos e da democracia na direção regressiva a tempos obscuros do pior da Idade Média tardia, não da Idade Média áurea com suas imensas catedrais,com a criação de universidades, com suas sumas teológicas, com seus sábios, místicos e santos. Tudo o que foi criado nos governos Lula-Dilma que tivesse sabor popular ou inserção dos empobrecidos na sociedade foi literalmente desmontado de forma criminosa pois implicou sofrimento aos que já sempre sofreram historicamente.

Causa-nos espanto que aquelas autoridades judiciais e políticas que poderiam mover ações juridicamente fundadas contra a irresponsabilidade e crimes sociais do presidente não se movam, seja por se sentirem cúmplices, seja por ausência de espírito patriótico e mesmo faltos de sentido de justiça social. Como vivem a quilômetros luz do drama do povo e veem seus direitos adquiridos e privilégios garantidos não os move a nobre compaixão para usar os instrumentos jurídicos de que dispõem para livrar a nação daquele que a está destruindo e segue mais aferrado ainda nesse mesmo intento perverso.

Razão tem o Papa Francisco ao falar várias vezes aos movimentos sociais mundiais, aqueles que querem outro mundo porque este lhes é um inferno ou um purgatório:”não esperem nada de cima, pois vem sempre mais do mesmo ou pior. Comecem por vocês mesmos, vale dizer, as multidões devem ocupar ruas e praças e votar para correr aqueles que lhes sequestraram as oportunidades de serem gente, de sentirem-se sujeitos um mínimo de dignidade e de alegria de viver. Esperamos isso aconteça. Só depois que se sentirem ameaçados, os dominantes aderem. Se não cuidarmos se apropriam da energia emergente para seus próprios fins privados. Mas o que deve ser tem força: o afastamento o mais rápido possível de quem conduz uma política necrófila contra o seu próprio povo.

Diante da obscuridade do horizonte e, a muito custo, matendo a esperança contra a esperança, faço minhas as palavras do Mestre, também tomado de profundo pesar: tristis est anima mea usque ad mortem”

OS NEGACIONISTAS AMEAÇAM A VIDA NA TERRA

A intrusão dos Covd-19 revelou a quantidade de negacionistas que existem no mundo. A começar com o primeiro ministro inglês Boris Johnson que zombava do Covid-19. Foi acometido e quase morreu. Donald Trump, afeito a fake news e a verdades paralelas (eufemismo para mentiras) tratou o vírus como algo passageiro. Atrasou-se no tratamento da pandemia. Acometido,mudou de opinião mas não lhe deu centralidade a ponto de os USA ser o país que mais vítimas conta. O presidente brasileiro, súcubo de Trump, é o campeão absoluto entre os negacionistas. Considerou a pandemia uma “gripezinha”, acabou sendo acometido e curou-se ninguém sabe como. Como o processo da antropogênese o dotou de pouquíssimas luzes, continua negacionista de outra forma: prescreve o cloroquina, como se médico fosse, afirmada pela ciência sem eficácia contra vírus, duvida ou nega a eficácia das vacinas, favorece o distanciamento social, ridiculariza o uso das máscaras. E o mais grave, não elaborou nenhum projeto nacional de enfrentamento do Covid-19. Por isso o Brasil ocupa o último lugar no mundo entre os países que pior combatem o Covid-19. Entre nós já fez cerca de 2018 mil vítimas fatais e quase dez milhões foram afetados. Como forma de desprezo da classe médica, colocou como Ministro da Saúde,um general que nada entende de medicina e não elaborou nenhum plano estratégico de vacinação. Nosso negacionista se transformou num assassino de seu povo e, possivelmente, pelos crimes de responsabilidade e crimes comuns seja afastado e terá, ele e seus cúmplices, muito provavelmente, que enfrentar um tribunal de crimes contra a humanidade.

Mas não há somente este tipo de negacionistas. Negacionistas são todos aqueles que não aceitam o facto de que não estamos indo ao encontro do aquecimento global mas estamos já bem dentro dele com todos os eventos extremos que causa Muitíssimos não possuem consciência das graves ameaças que pesam sobre o planeta Terra: encostamos já nos seus limites insuportáveis a ponto de que ele precisa de um ano e meio para repor o que lhe tiramos violentamente num ano em função de nosso consumismo ilimitado e a voracidade de acumulação de riqueza material. Conhecemos já a Sobrecarga da Terra atingida em fins de setembro de 2020. É crescente a erosão das nove fronteiras planetárias que sustentam a vida no planeta. Rompidas, podem, num efeito cascata, levar a nossa civilização a um colapso.

Grandes nomes da ciência da vida e da Terra lamentam que a maioria dos chefes de Estado não possui consciência ecológica suficiente. Não introduzem as mudanças necessárias, por serem anti-sistémicas e por prejudicarem a lógica antinatural da acumulação ilimitada.

Atinadamente afirmou o Papa Francisco em sua encíclica de ecologia integral Laudato Si, sobre o cuidado da Casa Comum:”As previsões catastróficas já não se podem olhar com desprezo e ironia… pois nosso estilo de vida insustentável só pode acabar em catástrofe”(n.161). Na recente Fratelli tutti adverte com grande severidade: “estamos todos no mesmo barco; ou nos salvamos todos ou ninguém se salva”(n.32). Fica comprovado assim que a grande ameaça à vida não vem de algum meteoro rasante mas do próprio ser humano que, segundo inúmeros cientistas, inauguramos uma nova era geológica, depois do holoceno, a do antropoceno e até do necroceno, vale dizer, a destruição em massa de seres vivos.

Um outro grande e fundacional documento, assumido pelo ONU, a Carta da Terra, assevera em sua abertura:”Estamos diante de um momento crítico da história da Terra, numa época em que a humanidade deve escolher o seu futuro….a nossa escolha é essa: ou formarmos uma aliança global para cuidar da Terra e uns dos outros, ou arriscaremos a nossa destruição e a destruição da diversidade da vida”(Preâmbulo).

É neste contexto dramático que aventamos a famosa parábola do filósofo e teólogo dinamarquês Sören Kiergegaard (1813-1855),um dos precursores do existencialismo moderno e um dos mais severos críticos idealismo de Hegel, Schelling e de outros.

Eis sua narrativa: Estava ocorrendo um incêndio nas cortinas do fundo do teatro. O diretor enviou então o palhaço (clown), que já estava pronto para entrar em cena, a fim de alertar a toda a plateia acerca risco que todos corriam. Suplicava que acorressem para apagar as chamas. Como se tratava de um palhaço, todos imaginavam que era apenas um truque para fazer rir as pessoas. E estas riam que riam. Quanto mais o palhaço conclamava a todos, mais eles riam. Pôs-se sério e começou a esbravejar: “O fogo acaba de queimar as cortinas e se não acorrerem, vai queimar todo o teatro e vocês junto”. Todos acharam tudo isso muito engraçado, pois diziam que o clown estava cumprindo esplendidamente seu papel.

O facto é que o fogo consumiu todo o teatro, com todas as pessoas dentro. Termina Kiergegaard: “Assim, suponho eu, é a forma pela qual o mundo vai acabar no meio da hilariedade geral dos gozadores e galhofeiros que pensam que tudo, enfim, não passa de mera brincadeira”.

Assim pensavam as pessoas no tempo de Noé e sucumbiram com o dilúvio. Quantos são hoje entre nós e no mundo inteiro que consideram as ameaças letais uma invenção dos comunistas ou um artifício dos globalistas para dominarem o mundo?. Vale a última advertência de Sygmunt Bauman uma semana antes de morrer em 2017: “ou nos unimos todos para salvar a Terra e a vida ou engrossaremos o cortejo daqueles que rumam na direção de sua própria sepultura”.

A intrusão do Covid-19 e o isolamento social forçado são oportunidades que a vida nos deu para pensarmos sobre a nossa responsabilidade coletiva e sobre que tipo de Casa Comum queremos construir e habitar, a natureza incluída. Desta vez não haverá uma Arca de Noé: ou nos salvamos todos ou todos conheceremos o caminho já percorrido pelos dinossauros.

Edição 164, janeiro 2021

É POSSÍVEL A FRATERNIDADE HUMANA UNIVERSAL E COM TODAS AS CRIATURAS?

Há um ano, em fevereiro de 2019 o Papa Francisco, ao visitar os Emirados Árabes assinou em Abu Dahbi importante documento com o Grão Imã Al Azhar Amad Al-Tayyeb “Sobre a fraternidade humana em prol da paz e da convivência comum”. Em sequência a ONU estabeleceu o dia 4 de fevereiro o Dia da Fraternidade Humana.

Todos são esforços generosos que visam senão a eliminar, pelos menos a minimizar as profundas divisões que imperam na humanidade. Almejar uma fraternidade universal parece um sonho distante mas sempre desejado.

O grande obstáculo à fraternidade: a vontade de poder

O eixo estruturador das sociedades mundiais e de nosso tipo de civilização, já o refletimos anteriormente é a vontade de poder como dominação.

Não há declarações sobre a unidade da espécie humana e da fraternidade universal bem como a mais conhecida Declaração Universal dos Direitos Humanos de 1948 da ONU, enriquecida com os direitos da natureza e da Terra que conseguem impor limites à voracidade do poder

Bem o entendeu Thomas Hobbes em seu Levitã (1615):” Assinalo, como tendência geral de todos os homens, um perpétuo e irrequieto desejo de poder e de mais poder que cessa apenas com a morte; a razão disso reside no fato de que não se pode garantir o poder senão buscando mais poder ainda”. Jesus foi vítima desse poder e foi judicialmente assassinado na cruz. Nossa cultura moderna se assenhoriou da morte, pois com a máquina de extermínio total já criada, pode eliminar a vida sobre a Terra e a si mesmo. Como controlar o demônio do poder que nos habita? Onde encontrar o remédio?

A renúncia a todo o poder pela radical humildade

Aqui São Francisco nos abriu um caminho: a radical humildade e a pura simplicidade. A radical humildade implica pôr-se junto ao húmus, à terra, onde todos se encontram e se fazem irmãos e irmãs porque todos vieram do mesmo húmus. O caminho para isso consiste em descer do pedestal onde nos colocamos como senhores e donos da natureza e operar um radical despojamento de qualquer título de superioridade. Consiste em fazer-se realmente pobre, no sentido de tirar tudo o que se interpõe entre o eu e o outro. Ai se escondem os interesses. Estes não podem prevalecer, pois são entraves para o encontro com o outro, olho a olho, rosto a rosto, de mãos vazias para o abraço fraterno entre irmãos e irmãs, por diferentes que sejam.

A pobreza não representa nenhum ascetismo. É o modo que nos faz descobrir a fraternidade, juntos sobre o mesmo húmus, sobre a irmã e mãe Terra Quanto mais pobre mais irmão do Sol, da Lua,do do pobre,do animal, da água, da nuvem e das estrelas.

Francisco palmilhou humildemente esta senda. Não negou as obscuras origens de nossa existência, do húmus (de onde vem homo em latim) e desta forma se confraternizou com todos os seres, chamando-os com o doce nome de irmãos e irmãs, até o feroz lobo de Gubbio.

Um outro tipo de presença no mundo

Temos a ver com uma nova presença no mundo e na sociedade, não como quem se imagina coroa da criação estando em cima de todos, mas como quem está ao pé e junto com os demais seres. Por esta fraternidade universal, o mais humilde encontra sua dignidade e sua alegria de ser por sentir-se acolhido e respeitado e por ter seu lugar garantido no conjunto dos seres.

Leclerc obstinadamente coloca sempre de novo a pergunta como quem não está totalmente convencido:“Será que a fraternidade é possível entre os seres humanos?Ele mesmo responde:

”Somente se o ser humano se colocar a si mesmo com grande humildade, entre as criaturas, dentro de uma unidade de criação (que inclui o ser humano e a natureza como um todo) e respeitando todas as formas de vida, inclusive as mais humildes, ele poderá esperar um dia formar uma verdadeira fraternidade com todos os seus semelhantes. A fraternidade humana passa por esta fraternidade cósmica”(p.93).

A fraternidade vem acompanhada pela simplicidade Esta não é nenhuma atitude piegas ou carola. Trata-se de um modo de ser, afastando tudo o que é supérfluo, todo tipo de coisas que vamos acumulando, fazendo-nos reféns delas, criando desigualdades e barreiras contra os outros e negando-se a conviver solidariamente com eles e a contentar-se com o suficiente, compartilhando-o com os outros.

Esse percurso não foi fácil para Francisco. Sentia-se responsável pelo caminho da radical pobreza e fraternidade. Ao crescer o número de seguidores, aos milhares, impunha-se uma organização mínima. Havia belos exemplos do passado. Francisco tinha verdadeira ojeriza a isso. Chega a dizer:”não me falem das regras de Santo Agostinho, de São Bento ou de São Bernardo; Deus quis que eu fosse um novo louco nesse mundo (novellus pazzus)”. É a clara afirmação da singularidade de seu modo de vida e de seu estar no mundo e na Igreja, como um simples leigo,que toma absolutamente a sério o evangelho, no meio e junto dos pobres e invisíveis e não como um clérigo da poderosa Igreja feudal.

A grande tentação de São Francisco

Entretanto, num dado momento de sua vida, entra numa profunda crise, pois via que seu caminho evangélico de radical pobreza e fraternidade estava sendo-lhe arrebatado. Amargurado, se retira numa ermida e no bosque, por dois longos anos, acompanhado pelo seu íntimo amigo Frei Leão “a ovelhinha de Deus”. É a grande tentação que as biografias pouco relevância lhe conferem, mas essencial para se entender a proposta de vida de Francisco.

Por fim, despoja-se deste instinto de posse espiritual. Aceita um caminho que não é o seu, mas que era inevitável. Onde dormiriam os frades? Como se sustentariam? Prefere salvar a fraternidade que seu ideal próprio. Acolhe jovialmente a férrea lógica da necessidade. Já não pretende mais nada. Despojou-se totalmente até de seus desejos mais íntimos a ponto que seu biógrafo São Boaventura o chamar de vir desideriorum (homem de desejos).

Agora, totalmente despojado em seu espírito, deixa-se conduzir por Deus. O Espírito será o senhor de seu destino. Ele mesmo não se propõe mais nada. Está à mercê daquilo que a vida lhe pedir, vendo-a como vontade de Deus. Sente nisso a maior liberdade de espírito possível que se expressa por uma alegria permanente a ponto de o chamarem “o irmão sempre alegre”. Ele não ocupa mais o centro. O centro é a vida conduzida por Deus. E isso basta.

Volta ao meio dos confrades e recupera a jovialidade e a plena alegria de viver. Mas seguindo o chamado do Espírito, como nos inícios, volta a conviver com os leprosos, que chama de “meus cristos” em profunda comunhão fraterna. Jamais abandona a profunda comunhão com a irmã e Mãe Terra. Ao morrer, pede que o coloquem nu sobre a Terra para a ultima carícia e a total comunhão com ela.

A unidade da criação: todos irmãos e irmãs,os humanos e a natureza

Francisco buscou incansavelmente a unidade da criação mediante a fraternidade universal, unidade que inclui seres humanos e seres da natureza. Tudo começa com a fraternidade com todas as criaturas, amando-as e respeitando-as. Se não cultivarmos esta fraternidade com elas, vã será a fraternidade humana que passa a ser meramente retórica e continuamente violada.

Curiosamente, o renomado antropólogo Claude Lévy Strauss que muitos anos lecionou e pesquisou no Brasil e aprendeu a amá-lo (veja seu livro “Saudade do Brasil”) confrontado com a crise aterradora de nossa cultura sugere o mesmo remédio de São Francisco:” o ponto de partida deve ser uma humildade principal: respeitar todas as formas de vida…preocupar-se do homem sem preocupar-se com as outras formas de vida é, quer queiramos ou não, levar a humanidade a oprimir-se a si mesma, abrir-lhe o caminho da auto-opressão e da auto-exploração”(Le Monde 21-22 de janeiro de 1999). Face às ameaças planetárias também afirmou:”A Terra surgiu sem o ser humano e poderá continuar sem o ser humano”.

Voltemos ao nosso momento histórico: o confinamento social nos criou as condições involuntárias para colocarmos esta questão fundamental: O que é essencial: a vida ou o lucro? O cuidado da natureza ou sua ilimitada exploração? Finalmente que Terra queremos? Que Casa Comum desejamos habitar? Somente nós seres humanos ou junto com todos os demais irmãos e irmãs da grande comunidade de vida, realizando a unidade da criação?

O Papa durante a pandemia tomou-se o tempo para refletir sobre esta momentosa questão. Expressou-a em termos graves, quase desesperadores na Fratelli tutti embora, como homem de fé, mantevesse e reafirmasse sempre a esperança.

O sobrevivente do campo de extermínio nazista, Eloi Leclerc, a recolocou de forma existencial e permanentemente angustiada mas com acenos de esperança, dentro de frequentes sobressaltos causados pela memória inapagável dos horrores sofridos nos campos de extermínio nazista.

Se não pode ser um estado, a fraternidade pode ser um novo tipo de presença no mundo

Francisco viveu em termos pessoais a fraternidade universal. Mas em termos globais fracassou. Teve que compor-se com a ordem e com o poder. E o fez sem amargura, reconhecendo e acolhendo sua inevitabilidade. É a tensão permanente entre o carisma e o poder. O poder é um componente da essência do ser humano social. O poder, não é uma coisa (o estado, o presidente, a polícia) mas uma relação entre pessoas e coisas. Ao mesmo tempo assume a forma de uma instância de direção social. Contudo, devemos qualificar a relação e a direção. Ambos estão a serviço do bem de todos ou a de grupos que então se revela como como exclusão e dominação? Para evitar esse modo (o demônio que o habita), prevalente na modernidade, deve ser sempre colocado sob controle, ser pensado e vivido a partir do carisma. Este representa um limite ao poder para garantir seu caráter de serviço à vida e ao bem de todos e evitar a tentação da dominação e até do despotismo. O carisma é sempre criativo e coloca em xeque o poder instituído.

Respondendo à questão se é possível uma fraternidade universal, diria: dentro do mundo em que vivemos sob o império do poder-dominação sobre pessoas, nações e sobre a natureza, ele vem sempre inviabilizado e até negado. Por aquí no hay camino.

No entanto, se ele não pode ser vivido como um estado permanente, ele pode se realizar como como um espírito, como uma nova presença e como um modo ser que tenta impegnar todas as relações mesmo dentro da atual ordem que é uma desordem. Mas isso somente é possível à condição de cada pessoa ser humilde, de colocar-se junto ao outro e ao pé da natureza, superar as desigualdades e ver em cada um, um irmão e uma irmã, colocados sobre o mesmo húmus terrenal onde estão nossas origens comuns e sobre o qual convivemos.

O Tempo de São Francisco e o nosso tempo

Francisco de Assis, no quadro conturbado de seu tempo, no tramontar do feudalismo e no alvorecer das comunas, mostrou a possibilidade real de, ao menos a nível pessoal, criar uma fraternidade sem limites. Mas seu impulso o levava para mais longe: criar uma fraternidade global ao unir os dois mundos de então: o mundo muçulmano do sultão egípcio Al Malik al-Kâmil com quem nutriu grande amizade com o mundo cristão sob o pontificado do Papa Inocêncio III, o mais poderoso da história da Igreja. Desta forma realizaria seu sonho maior: uma fraternidade realmente universal, na unidade da criação, confraternizando o ser humano com outros seres humanos, mesmo de religiões distintas mas unidos com todos os demais seres da criação.

Esse espírito, no contexto das forças destrutivas do antropoceno e do necroceno reinantes, se confonta com uma situação, totalmente diversa daquela vivida por Francisco de Assis. Nela não se questionava se a Terra e a natureza tinham futuro ou não. Pressupunha-se que tudo estava garantido. O mesmo ocorreu na grande crise economico-financeira de 1929 e mesmo na de 2008. Ninguém colocava em questão os limites da Terra e de seus bens e serviços não renovaveis. Era um pressuposto dado como evidente pois, para todos, ela comparecia qual baú cheio de recursos ilimitado, base para um crescimento também ilimitado. Na Laudato Si o Papa chama este concepção de mentira.

Hoje não é mais assim. Tudo se desvaneceu, pois sabemos que nos podemos destruir e abalar as bases físicas, químicas e ecológicas que sustentam a vida.

O espírito de fraternidade como exigência para a continuidade de nossa vida no planeta

Não estamos face a uma opção, que podemos assumir ou não. Mas face à uma exigência da continuidade de nossa vida nesse planeta. Encontramo-nos numa situação ameaçadora para a nossa espécie e a nossa civilização.

O Covid-19 que afetou a inteira humanidade cabe ser interpretado como um sinal da Mãe Terra de que não podemos continuar com a dominação e devastação de tudo o que existe e vive. Ou fazemos, como adverte o Papa Francisco de Roma à luz do espírito e do um novo de ser no mundo de Francisco de Assis, “uma radical conversão ecológica”(N.5) ou pomos em risco o nosso futuro como espécie:“As previsões catastróficas já não se podem olhar com desprezo e ironia..Nosso estilo de vida e o nosso consumismo insustentáveis só podem desembocar em catástrofes”(Laudat Si n.161). Na Frateli tutti é mais contundete:”Estamos no mesmo barco, ninguém se salva sozinho, só é possível salvar-nos juntos”(n.32). Trata-se de uma derradeira cartada para a humanidade.

O surgimento das condições para uma fraternidade universal

Mas eis que surge uma nova alternativa possível, pois a história não é retilínea. Ela conhece rupturas e saltos. Assim estaríamos face a um salto no estado de consciência da humanidade. Pode chegar a um momento em que ela se torna plenamente consciente de que pode se auto-destuir seja por uma fenomenal crise ecológica, social e sanitária (atacada por vírus letais) seja por uma guerra nuclear. Entenderá que é preferível viver fraternalmente na mesma Casa Comum do que entregar-se a um suicído coletivo. Será obrigada a convencer-se de que a solução mais sensata e sábia consiste em cuidar da única Casa Comum, a Terra, vivendo dentro dela, todos, como irmãos e irmãs, a natureza incluida. Seguramente a humanidade não está condenada a se autodestruir, nem pela vontade de poder-dominação nem pelo aparato bélico, capaz de eliminar toda vida. Ela é chamada a desenvolver as incontáveis potencialidades que estão nela,como um momento avanaçado da cosmogênese.

Será, então, um dado da consciência coletiva aquilo que as encíclica Laudato Si e Fratelli tutti repetem de ponta a ponta: todos estamos relacionados uns com os outros, todos somos interdependentes e só sobreviveremos juntos. Tudo será relacinal, também as empresas, gerando um quilíbrio geral assentado sobre o amor social, o sentido de pertença fraterna, o altruismo, a solidariedade e o cuidado comum de todas as coisas comuns (água, alimentção, moradia, segurança, liberdade e cultura etc).

Todos se sentirão cidadãos do mundo e membros ativos de suas comunidades. Haverá um governo planetário plural (de homens e mulheres, representantes de todos os países e culturas) que buscará soluções globais para problemas globais. Vigorará uma hiperdemocracia terrenal. A grande missão coletiva é construir a Terra, como já no deserto de Gobi, na China, nos idos de 1933, anunciava Pierre Teilhard de Chardin. Assistiremos ao surgimento lento e sustentável da noosfera vale dizer, das mentes e corações sintonizados dentro do único planeta Terra. Este é o nosso ato de fé.

Agora serão dadas as condições do sonho de Francisco de Assis e de Francisco de Roma: uma real fraternidade humana, de um verdadeiro amor social junto com os demais irmãos e irmãs da natureza.

Cabe a nós como pessoas e como coletividade pensar e repensar com a maior seriedade, colocar e recolocar esta questão: Dentro da situação mudada de Terra e da humanidade e das ameaças qe pesam sobre elas não representa puro sonho e utopia inviável buscar um espírito da fraternidade universal entre os humanos e com todos os seres da natureza e realizá-lo coletivamente. Esta será a grande saída que nos poderá salvar. O Papa Francisco crê e espera que este é o caminho. Pode ser tortuoso,conhecer obstáculos e fazer desvios, mas segue pelo rumo certo.

Somos urgidos a responder, pois o tempo do relógio corre contra nós. Ou acolhemos a proposta da figura mais inspiradora do Ocidente, o humilde Francisco de Assis, como o chama Tomás Kempis, autor da Imitação de Cristo e retomada na Fratelli tutti pelo Francisco de Roma e repensada por Leclerc e Lévy Strauss ou poderemos trilhar um caminho já percorrido pelos dinossauros há 67 milhões de anos. Mas cremos não ser este o destino da humanidade.

Só nos resta palmilhar este caminho da fraternidade universal e do amor social porque então poderemos continuar, sob a luz bemfazeja do sol, sobre esse pequeno planeta, azul e branco, a Terra, nosso querido lar e Casa Comum. Dixi et salvavi aninam meam.

POR FIM, DESCOBRIMOS O PLANETA TERRA

Um dos efeitos positivos da intrusão co Covid-19 foi a descoberta do planeta Terra por toda a humanidade. Demo-nos forçosamente conta de que vigora uma íntima conexão entre a vida humana, a natureza e o planeta Terra. O vírus não caiu do céu. Ele veio como contra-ataque da Terra, tida como super-sistema vivo que sempre se cria, autocria e se organiza para manter-se vivo e produzir todo tipo de vida existente neste planeta. Particularmente o quintilhões de quintilhão de micro-organismos que existem nos solos e mesmo em nosso própro corpo, verdadeira galáxia (Antônio Nobre) habitada por um número incalculável de vírus, bactéras, fungos e outros micro-organismos.

O contexto do vírus, quase nunca citado pelos analistas das redes de comunicação, é o sistema capitalista anti-natereza e antivida. Ele fez com que o vírus perdesse seu habitat e avançasse sobre nós. Esse sistema de produção e de consumo impiedosamente assalta a natureza, depreda seus bens e serviços e destrói o equilíbrio da Terra.

Esta nos responde com o aquecimento global, erosão da biodiversidade, a escassez de água potável e outros eventos extremos. Todos de alguma forma participamos deste ecocídio, mas os atores principais – é forçoso dizê-lo e denunciá-lo – são o sistema do capital e a cultura do consumo desbragado, especialmente os milionários com seu consumo suntuoso. Portanto, tiremos a culpa de cima da humanidade pobre que minimamente colabora e de forma como vitima do referido sistema.

O ser humano, sempre curioso por saber mais e mais, fez descobertas sem número: de novas terras como as Américas, de povos, culturas, todo tipo de aparatos desde o arado até o robot, o sub-mundo da matéria, os átomos, toquarks e o campo Higgs, o íntimo da vida, o código genético. E não param as descobertas.

Mas quem descobriu a Terra? Foi preciso que enviássemos astronautas para fora da Terra ou ir até à Lua para de lá ver a Terra de fora da Terra e finalmente, maravilhados, descobrir a Terra, nossa Casa Comum. Frank White escreveu um livro The Overview Effect (tenho um livro autografado por ele de 5/29/1989) no qual recolhe os testemunhos dos astronautas emocionados até às lágrimas.

O astronauta Russel Scheickhart nos revela:” Vista a partir de fora, a Terra parece tão pequena e frágil, uma pequenina mancha preciosa que você pode cobrir com seu polegar.Tudo o que significa alguma coisa para você, toda a história, arte, o nascimento e a morte, o amor, a alegria e as lágrimas, tudo está naquele ponto azul e branco que você pode cobrir com seu polegar. E a partir daquela perspectiva você entende que tudo mudou… que a relação não é mais a mesma como fora antes”(White,p.200).

Eugene Cernan confessou:”Eu fui o último homem a pisar na Lua em dezembro de 1972. Da superfície lunar olhava com um tremor reverencial para a Terra, num transfundo muito escuro. O que eu via era demasiadamente belo para ser apreendido, demasiadamente ordenado e cheio de propósito para ser um mero acidente cósmico. A gente se sentira interiormente obrigado a louvar a Deus. Deus deve existir por ter criado aquilo que eu tinha o privilégio de contemplar. Espontaneamente surgem a veneração e a ação de graças. É para isso que existe o universo”(White p. 205).

De forma acertada comenta Joseph P. Allen:”Discutiu-se muito os prós e contras das viagens à Lua. Não ouvi ninguém argumentar que devíamos ir à Lua para podermos ver de lá a Terra de fora da Terra. Depois de tudo, esta deve ter sido seguramente a verdadeira razão de termos ido à Lua (White, p. 233).

Efetivamente esta é a razão secreta e inconsciente das viagens siderais: descobri a Terra, o terceiro planeta de um sol de quinta categoria, dentro de nossa galáxia. O sistema solar no qual está a nossa Terra dista 27 mil anos-luz do centro da galáxia, a Via Láctea, na face interna do braço espiral de Orion. Esse sistema com a Terra ao redor é um quase nada e nós une quantité négligeable, perto do zero. E contudo é daqui que a Terra através de nós contempla o inteiro universo, do qual é parte. É através de nossa inteligência que pertence ao próprio universo que ele se pensa a si mesmo. O que conta em nós não é a quantidade mas a qualidade, única, capaz de pensar, amar o universo e venerar Aquele que permanentemente o sustenta.

Não apenas descobrimos a Terra. Descobrimos que somos Terra, Aquela porção da Terra que pensa, ama e cuida. Por isso ser humano (homo em latim) vem de húmus, terra fértil ou Adão que procede de Adamah, terra fecunda.

A partir de agora nunca sairá de nossa consciência de que temos descoberto, em fim, a Terra, nosso lar cósmico e que somos a parte consciente, inteligente e amorosa dela. Porque somos portadores destas qualidades, nossa missão é cuidar dela como Casa Comum e de todos os demais seres, que nela habitam e que têm a mesma origem que nós, portanto, são nossos parentes.

Se assim é, por que a temos maltratado, superexplorado e estamos destruindo as bases que sustentam nossa vida? Se há uma lição que a Mãe Terra através do Covid-19 nos quer transmitir é seguramente esta:

“Mudem vossa relação para com a natureza e para comigo se quiserdes que eu continue a vos oferecer tudo o que precisais para viver na sobriedade compartida, na fraternidade e sororidade universais e no cuidado amoroso para com todos vossos irmãos e irmãs da grande comunidade de vida, também meus filhos e filhas bem-amados. Em tempos muito antigos eu vos propus “a vida e a morte, a bênção e a maldição. Escolhei vida para que vivais com toda a vossa descendência. Essa promessa eu sempre manterei”(Deut 30,28).

Escolhamos a vida. É o apelo da Mãe Terra. É o desígnio do Criador.

Edição 163, dezembro 2020

O NATAL DE JESUS E O NOSSO NATAL SOB O COVID-19

O Natal do ano 2020 seja talvez o mais próximo do verdadeiro Natal de Jesus sob o imperador romano César Augusto. Este imperador ordenara um recenseamento de todo o império. A intenção não era apenas como entre nós, de levantar quantos habitantes havia. Era isso, mas o propósito era cobrar de cada habitante um imposto, cuja soma com aquele de todas as províncias se destinava a manter a pira de fogo permanentemente acesa e sustentar os sacrifícios de animais ao imperador que se apresentava e assim era venerado como deus.Tal imposição a todos do Império provocou revoltas entre os judeus.

Esse facto, mais tarde, foi usado pelos fariseus como uma armadilha a Jesus: devia pagar ou não o imposto a César? Não se tratava do imposto comum, mas aquele que cada pessoa do império devia pagar para alimentar os sacrifícios ao imperador-deus.

Para os judeus significava um escândalo pois adoravam um único Deus, Javé, como poderiam pagar um imposto para venerar um falso deus,o imperador de Roma? Jesus logo entendeu a cilada. Se aceitasse pagar o imposto seria cúmplice da adoração a um deus humano e falso, o imperador. Se o negasse se indisporia com as autoridades imperiais negando-se a pagar o tributo em homenagem ao imperador-deus.

Jesus deu uma resposta sábia: “Dai a César o que é de César, e a Deus o que é de Deus”. E outras palavras, dai a César, um homem mortal e falso deus o que é de César: o imposto para os sacrifícios e a Deus, o único verdadeiro, o que é de Deus: a adoração.Não se trata da separação entre a Igreja e o Estado como comumente se interpreta. A questão é outra: qual é o verdadeiro Deus, aquele falso de Roma ou aquele verdadeiro de Jerusalém? Jesus, no fundo, responde: só há um Deus verdadeiro e dêem a ele o que lhe cabe, a adoração. Dai a Cesar,o falso deus, o que é de César: a moeda do imposto. Não misturem deus com Deus.

Mas votemos ao tema: o Natal de 2020, como nunca na história, se assemelha ao Natal de Jesus. A família de José e de Maria grávida são filhos da pobreza como a maioria de nosso povo. As hospedarias estavam cheias, como aqui os hospitais estão cheios de contaminados pelo vírus. Como pobres, Jesus e Maria, talvez nem pudessem pagar as despesas como, entre nós, quem não é atendido pelo SUS não tem como bancar os custos de um hospital particular. Maria estava na iminência de dar à luz. Sobrou ao casal, refugiar-se numa estrebaria de animais. Semelhantemente como fazem tantos pobres que não têm onde dormir e o fazem sob as marquises ou, num canto qualquer da cidade. Jesus nasceu fora da comunidade humana, entre animais, como tantos de nossos irmãos e irmãs menores nascem nas periferias das cidades, fora dos hospitais e em suas pobres casas.

Logo depois de seu nascimento, o Menino já foi ameaçado de morte. Um genocida, o rei Herodes, mandou matar a todos os meninos abaixo de dois anos.Quantas crianças, no nosso contexto, são mortas pelos novos Herodes vestidos de policiais que matam crianças sentadas na porta da casa? O choro das mãe são eco do choro de Raquel, num dos textos mais comovedores de todas as Escrituras:”Na Baixada (em Ramá) se ouviu uma voz, muito choro e gemido: a mãe chora os filhos mortos e não quer ser consolada porque ela os perdeu para sempre (cf.Mt 2,18).

De temor de ser descoberto e morto, José tomou Maria e o menino Jesus atravessam o deserto e se refugiram no Egito. Quantos hoje sob ameaça de morte pelas guerras e pela fome, tentam entrar na Europa e nos USA. Muitos morrem afogados, a maioria é rejeitada, como na catolicíssima Polônia e vem discriminda; até crianças são arrancadas dos pais e engaioladas como pequenos animais. Quem lhes enxugará as lágrimas? Quem lhes mata a saudade dos pais queridos? Nossa cultura se mostra cruel contra os inocente e contra os imigrantes forçados.

Depois que morreu o genocida Herodes, José tomou Maria e o Menino e foram esconder-se num lugarejo tão insignificante, Nazaré, que sequer consta na Bíblia. Lá o Menino “crescia e se fortalecia cheio de sabedoria“(Lc 2,40). Aprendeu a profissão do pai José, um fac-totum, construtor de telhados e coisas da casa, um carpinteiro. Era também um camponês que trabalhava o campo e aprendia a observar a natureza. Ficou lá escondido até completar 30 anos, foi quando sentiu o impulso de sair de casa e começar a pregação de uma revolução absoluta:”O tempo da espera expirou. A grande reviravolta está chegando (Reino). Mudem de vida e acreditem nessa boa notícia”(cf.Mc 1,14): uma transformação total de todas as relações entre os humanos e na própria natureza.

Conhecemos seu fim trágico. Passou pelo mundo fazendo o bem (Mc 7,37;Atos 10,39), curando uns, devolvendo os olhos a cegos, matando a fome de multidões e sempre se compadecendo do povo pobre e sem rumo na vida. Os religisos articulados com os políticos o prenderam, torturaram e o assassinaram pela crucificação.

Saiamos destas “sombras densas” como diz o Papa Fraancisco na Fratelli tutti. Voltemos o olhar desanuviado para o Natal de Jesus. Ele nos mostra a forma como Deus quis entrar na nossa história: anônimo e escondido. A presença de Jesus não apareceu na crônica nem de Jerusalém e muito menos de Roma. Devemos aceitar esta forma escolhida por Deus. Realizou-se a lógica inversa da nossa: “toda criança quer ser homem; todo homem quer ser grande; todo grande quer ser rei. Só Deu quis ser criança”. E assim aconteceu.

Aqui ecoam os belos versos do poeta português Fernando Pessoa:

“Ele é a Eterna Criança, o Deus que faltava.

Ele é o humano que é natural,

Ele é o divino que sorri e que brinca.

É a criança tão humana que é divina”.

Tais pensamentos me trazem à memória uma pessoa de excepcional qualidade espiritual. Foi ateu,marxista, da Legião Estrangeira. De repente sentiu uma comoção profunda e se converteu. Escolheu o caminho de Jesus, no meio dos pobres. Fez-se Irmãozinho de Jesus. Chegou a uma profunda intimidade com Deus, chamando-o sempre de “o Amigo”. Vivia a fé no código da encarnação e dizia: “Se Deus se fez gente em Jesus, gente como nós, então fazia xixi, choramingava pedindo o peito, fazia biquinho por causa da fralda molhada”. No começo teria gostado mais de Maria e mais grandinho mais de José, coisa que os psicólogos explicam no processo da realização humana.

Foi crescendo como nossas crianças, observava as formingas, jogava pedras nos burros e,maroto, levantava o vestidinho das meninas para vê-las furiosas, como imaginou irreverentemene Fernando Pessoa em seu belo poema sobre o Jesus menino.

Esse homem, amigo do Amigo, “imaginava Maria ninando Jesus, fazê-lo dormir porque de tanto brincar lá fora, ficava muito excitado e lhe custava fechar os olhos; lavava no tanque as fraldinhas; cozinhava o mingau para o Menino e comidas mais fortes para o trabalhador o bom José”.

Esse homem espiritual italiano que viveu, muitas vezes ameaçado de morte, em tantos países da América Latina e vários no Brasil, Arturo Paoli, se alegrava interiormente com tais matutações, porque as sentia e vivia na forma de comoção do coração, de pura espiritualidade. E chorava com frequência de alegria interior. Era amigo do Papa que o mandou buscar de carro na cidadezinha uns 70 km de Roma para passarem toda um tarde e falarem da libertação dos pobres e da misericórdia divina. Morreu com 103 anos como um sábio e santo.

Não esqueçamos a mensagem maior do Natal: Deus está entre nós, assumindo a nossa condition humaine,alegre e triste. É uma criança que nos vai julgar e não um juiz severo. E esta criança só quer brincar conosco e nunca nos rejeitar. Finalmente, o sentido mais profundo do Natal é esse: a nossa humanidade, um dia assumida pelo Verbo da vida, pertence a Deus. E Deus, por piores que sejamos, sabe que viemos do pó e nos tem uma misericórdia infinita. Ele nunca pode perder, nem deixará que um filho seu ou filha sua se perderão. Assim, apesar do Covid-19 podemos viver uma discreta alegria na celebração familiar. Que o Natal nos dê um pouco de felicidade e nos mantenha na esperança do triundo da vida sobre o Covid-19.

N.E.

Perdoemos ao teólogo L. Boff, meu Amigo, esta mistura de realidade histórica e mitos. Está tão formatado pelo cristianismo de S. Paulo e do Credo de Niceia-Constantinopla, que já não tem conversão possível à Fé e à Teologia de Jesus histórico, o filho de Maria. Perdoemos, mas não nos deixemos levar por esta sua mistura de mito e história.

O QUOTIDIANO, A FANTASIA E O CARISMA

Nós viemos do útero comum donde vieram todas as coisas, da Energia de Fundo, daquele oceano sem margens, do big bang, do bóson Higgs que originou o top-quark, o tijolinho material mais primordial do edifício cósmico, passando por todas as fases da evolução até chegarmos ao computador atual e à inteligência artificial. E somos filhos e filhas da Terra. Melhor, somos a Terra que anda e dança, que freme de emoção e pensa, que quer e ama, que se extasia e adora o Ser que faz ser todos os seres.

Todas estas coisas primeiro estiveram no universo, se condensaram em nossa galáxia, ganharam forma em nosso sistema solar e irromperam concretas na nossa Terra, grande mãe, geradora de vida.

O princípio cosmogênico, vale dizer, aquelas energias diretoras que comandam, cheias de propósito, todo o processo evolucionário, obedecem a seguinte dinâmica tão bem estuda por Ilya Prigogine e Edgar Morin: ordem, desordem, relação, nova ordem, nova desordem, novamente relação e assim sempre de novo.

Mediante essa lógica, criam-se sempre mais complexidades e diferenciações; na mesma proporção vão se criando interioridade e subjetividade em todos os seres até alcançar a sua expressão lúcida e consciente na mente humana. Só pode estar em nós o que antes estava no universo, mesmo em gestação.

Simultaneamente e também na mesma proporção vai se gestando a teia de relações, de trocas e de interdepências de todos com todos (tese básica da física quântica de Bohr/Heisenberg) que funciona como um ritornello nas encíclicas do Papa Francisco Laudato si (2015) e Fratelli tutti (2020), Tudo está relacionado com tudo em todos os momentos e em todas as situações. Diferenciação/interioridade/relação: eis a trindade cósmica que preside o funcionamento do universo. O normal do universo não é a permanência mas a mudança.

Como fruto da teia de relações, reciprocidades e simbioses existentes em tudo, na Terra e em nós mesmos, emerge uma nova ordem que, por sua vez, vai seguir a mesma trajetória de desordem, relação e nova ordem. Enquanto estivermos vivos estamos sempre numa situação de não-equilíbrio em busca contínua de adaptações que geram um novo equilíbrio. Quanto mais próximos estivermos do equilíbrio total mais próximos estamos da morte. A morte é a fixação do equilíbrio e o fim do processo cosmogênico. Ou a sua passagem para um outro nível que demanda um novo tipo de reflexão.

Como se manifesta esta estrutura concretamente em nossa vida? Primeiramente no quotidiano e no prosaico. Cada qual os vive à sua maneira, que começa com a toilette pessoal, como se veste, como toma o seu café, como dá uma olhada no jornal ou escuta as primeiras notícias pela tv ou pelo rádio, como busca sua felicidade e como enfrenta a labuta da vida pelo trabalho.

O quotidiano é rotineiro, cinzento e com raras novidades. A maioria da humanidade vive restrita ao quotidiano com o anonimato que ele envolve. Alguns são conhecidos pela primeira vez quando morrem, pois o anúncio pode aparecer no jornal, se aparecer. É o percurso normal das pessoas.

Mas os seres humanos são também habitados pela imaginação,chamada por alguns de “a louca da casa”. Ela rompe as barreiras do quotidiano, permite o poético e dá saltos. A imaginação é, por essência, inventiva; é o reino das probabilidades e possibilidades, de si infinitas. Imaginamos nova vida, nova casa, novo trabalho, novos prazeres, novos relacionamentos, novo amor.

É da sabedoria de cada um articular o quotidiano com o imaginário e construir certo equilíbrio na vida. Se alguém se entrega só ao imaginário, pode estar fazendo uma viagem, voa como uma águia pelas nuvens esquecido da Terra e, no limite, pode acabar numa clínica psiquiátrica.

Pode também se sepultar na rotina do quotidiano e do prosaico e ficar como uma galinha, ciscando ou com voo rasteiro. Então se mostra pesado, desinteressante e aborrecido.

Quando alguém, entretanto, sabe abrir-se ao dinamismo do imaginário e às chances escondidas no quotidiano, vivificando-o com um toque do imaginário, sua vida se faz uma construção contínua e se torna uma jornada interessante. O efeito se faz logo notar: começa, sem se dar conta, a irradiar uma rara energia interior. Dele sai uma misteriosa força que se comunica aos outros.

A esta força chamamos de carisma. Ela significa a energia cósmica que tudo vitaliza e rejuvenesce, força que faz atrair as pessoas e fascinar os espíritos.

Quem são os carismáticos? Todos. A ninguém é negada a força cosmogênica que movimenta, na palavra de Dante, o céu e todas as estrelas. Por isso a vida de cada um é chamada para brilhar e não permanecer apagado. Cada é desafiado a despertar o carisma escondido nele.

Mas há carismáticos e carismáticos. Há alguns nos quais esta força de irradiação implode e explode. É como uma luz na noite escura. Pode ser fraca mas basta para mostrar o caminho.

Pode-se fazer desfilar todos os bispos e cardeais diante dos fiéis reunidos num salão. Pode haver figuras notáveis em vários campos da vida. Mas o olhar de todos se fixa sobre Dom Helder Câmara. Porque ele é carismático. A figura é minúscula. Parece o servo sofredor sem beleza e ornamento. Mas dele sai uma força de ternura unida ao vigor que se impõe a todos.

Muitos podem falar. E há bons oradores que atraem a atenção. Mas deixem Dom Helder falar. A voz começa baixinha. De repente é tomado por uma força maior que ele. Há tanta energia e tanto convencimento que as pessoas ficam boquiabertas. Ele, de pequeno, frágil e fraco comparece como um gigante.

Algo semelhante ocorre com Lula. Deixem-no subir ao palanque, diante das multidões. Começa baixinho, assume um tom narrativo, vai buscando a trilha melhor para a comunicação. E lentamente adquire força, as conexões surpreendentes irrompem, a argumentação ganha seu travejamento certo, o volume de voz se alça, os olhos se incendeiam, os gestos ondulam a fala, num momento o corpo inteiro é comunicação e comunhão com a multidão que de barulhenta passa a silenciosa e num momento culminante, irromper em gritos e aplausos de aprovação.

É o carisma fazendo seu advento no político Luiz Inácio Lula da Silva, o retirante nordestino, o líder sindical, o fundador do Partido dos Trabalhadores, o presidente que inseriu milhões na sociedade e fez com que muitos que estiveram sempre alijados há 500 anos, sentirem o gosto de serem considerados gente. As oligarquias jamais admitiram, nem ontem nem hoje, que alguém do andar de baixo se alce ao andar de cima. De tudo fizeram até, com razões ridículas, o lançarem na prisão por mais de 500 dias. O carisma lhe deu forças para tudo suportar e sair maior do que entrou. Não se apaga uma estrela que um dia surgiu.

Não sem razão Max Weber, o grande estudioso do carisma, chamou-o de estado nascente. O carisma está sempre em estado de nascimento e suscita energia nas pessoas que o cercam. A função do carismático é de ser parteiro do carisma presente nas pessoas. Sua missão não é dominá-las com seu brilho, nem seduzi-las para que o sigam cegamente. Mas despertá-las da letargia do quotidiano e descobrir a força criadora da fantasia. E, despertas, perceberem que o quotidiano em sua platitude guarda segredos, novidades, energias ocultas que sempre podem despertar e conferir um renovado sentido e brilho à vida, à nossa curta passagem por esse planeta.

Somos tudo isso, seres complexos e contraditórios, históricos e utópicos, prosaicos e poéticos, enfim, rima expressão da Energia Criadora (Bergson) que em nós se faz consciente a ponto de identificar até Aquele Ser que subjaz a todas as coisas e que sustenta o inteiro universo e a nós mesmos.

MARADONA, UMA METÁFORA DA CONDIÇÃO HUMANA

Que é o ser humano? Por mais que todas as ciências tentem definir o ser humano, este continua sendo sempre uma questão aberta. Santo Agostinho (354-430) que durante a vida inteira se preocupava desesperadamente por encontrar uma resposta sobre que é o ser humano, terminou dizendo apenas:”factus sum quaestio magna”: “tornei-me para mim mesmo uma grande questão”. E se calou.

Às vezes não são as ciências nem as religiões que nos fornecem a melhor imagem (ao invés de uma definição), mas os literatos. A melhor fórmula para mim encontrei-a em Antoine de Saint Exupéry, o autor do Pequeno Príncipe, em seu romance A Cidadela. Aí ele entende o ser humano como “um noeud de relations” “um nó de relações voltado em todas as direções” Vai além da sexta tese de Marx sobre Feuerbach ao definir “essência humana é o conjunto de suas relações sociais”. Essa visão é redutivista. O ser humano é o conjunto de suas relações totais e em todas as direções e não só sociais. Faz sentido também ainda dizer que ele “é um projeto infinito sempre em busca de seu objeto adequado,nunca encontrável no âmbito em que vive”, o que o leva a transcender este mundo.

À parte desta busca sem fim, cabe seguramente dizer que ele é um ser complexo e a conjunção de duas dimensões que sempre ocorrem nele conjuntamente: o positivo e o negativo, o luminoso e obscuro, o inteligente (sapiens) e o demente (demens), a pulsão de vida (eros) e a pulsão de morte (thánatos), o utópico e o histórico, a realização e a frustração, a derrota e a vitória, a gentileza e a boçalidade, a cordialidade a rudeza, o poético e o prosaico, o dia-bolico (que divide) e o sim-bólico (que une), o equilíbrio e o excesso, o caos e o cosmos Esta dualidade não é um defeito de criação. É a condição humana real. Esta mesma estrutura se encontra no cosmos (ordem e desordem) e em cada ser vivo e inerte (autônomo e integrado).Temos a ver com uma constante universal.

Desafio para cada ser humano não é negar uma das partes, o que seria impossível e ela voltaria furiosa, mas como integrar esta dualidade, encontrar um justo equilíbrio dinâmico, sempre por fazer, de forma que possa construir sua identidade, seu projeto de vida e buscar a felicidade possível aos filhos e filhas de Adão e de Eva.

Ocorre, entretanto, que existe o trágico na vida humana, tão plasticamente representado pelos teatros gregos. O excesso,o demencial e o dia-bólico (o que cinde) pode tomar conta da pessoa, inundar-lhe consciência e faze-la escrava da dimensão do obscuro.

O arquétipo do herói/heroína nos pode ajudar a entender esse drama. Não o herói/heroína convencional das sagas de guerra e das novelas. Mas no sentido da moderna psicanálise. Cada pessoa pode ser herói/heroína na forma como trabalha esta dualidade, consegue integrá-la e realizar seu processo de individuação.Há vários tipos de heróis/heroínas: o resistente,o peregrino,o lutador, o mártir e outros.

Escrevo tudo isso a propósito da figura do genial jogador argentino de futebol Diego Maradona. Vê-lo em campo era um espetáculo por si só. Driblava com uma inteligência sumamente criativa; um sentido único de oportunidade. Pequeno, 1,65 de altura, robusto e com uma velocidade inacreditável.Toda comparação é odiosa, pois cada um é um e irrepetível. Mas Maradona excele sobre qualquer jogador ainda em atividade. Será uma referência mundial imarcessível.

Mas eis que irrompeu a tragédia: foi tomado pela dependência química da qual nunca se libertou totalmente. Era tão humano que não escondia sua dependência.“Sabe que jogador eu teria sido se não tivesse usado drogas?” se perguntava com humor. “Tenho 53 anos, mas é como se tivesse 78. Minha vida não foi normal, digamos. 53 anos? Eu vivi 80.” Morreu aos 60 anos. Ele foi um herói resistente (del aguante) tragado pelo lado do obscuro e do excesso.

Vale recordar: jogava com os pés agilíssimos e com a cabeça que marcava gols notáveis. Mas sua cabeça também pensava e definia em que lado se colocava no espectro social: do lado dos oprimidos, simbolizados por Fidel Castro e por Lula. E o anunciava publicamente.

O povo argentino, tão sofrido por problemas internos políticos, o elevou ao mais alto ponto da exaltação a ponto de penetrar no espaço do Numinoso e chama-lo de “deus”. Faltavam-lhe palavras para admirar o seu “Pibe” “o divino infante”. Há que se entender corretamente tal exaltação que ocorre sempre quando o entusiasmo supera todos os limites e encontra nas palavras do Numinoso sua melhor expressão.

Uno-me ao encantamento de sua arte e solidarizo-me a tantos do povo argentino em lágrimas, que com Maradona ganhavam a força de superar dificuldades e manter a alegria de viver. Uniu em si o humano e o inhumano, como nos recorda Nietzsche, pois ambos, o humano e o excessivamente humano, pertencem ao humano: luminoso e obscuro, heroico mesmo vencido.

Edição 162, novembro 2020

A VIDA COMO CENTRO: A BIOCIVILIZAÇÃO NA PÓS–PANDEMIA

Na compreensão dos grandes cosmólogos que estudam o processo da cosmogênese e da biogênese, a culminância desse processo não se realiza no ser humano. A grande emergência é a vida em sua imensa diversidade e àquilo que lhe pertence essencialmente que é o cuidado. Sem o cuidado necessário nenhuma forma de vida subsistirá (cf. Boff, L.,O cuidado necessário, Vozes, Petrópolis 2012).

É imperioso enfatizar: a culminância do processo cosmogênico não se dá no antropocentrismo, como se o ser humano fosse o centro de tudo e os demais seres só ganhariam significado quando ordenados a ele e ao seu uso e desfrute. O maior evento da evolução é a irrupção da vida em todas as suas formas, também na forma humana consciente e livre.

O conhecido cosmólogo da Califórnia Brian Swimme junto com o antropólogo das culturas e teólogo Thomas Berry afirma em seu livro The Universe Story (1999): “Somos incapazes de nos libertar da convicção de que, como humanos, nós somos a glória e a coroa da comunidade terrestre e perceber que somos, isso sim, o componente mais destrutivo e perigoso dessa comunidade”. Esta constatação aponta para a atual crise ecológica generalizada afectando o inteiro planeta, a Terra.

Biólogos (Maturana, Wilson, de Duve, Capra, Prigogine) descrevem as condições dentro das quais a vida surgiu, a partir de um alto grau de complexidade e quando esta complexidade se encontrava fora de seu equilíbrio, em situação de caos. Mas o caos não é apenas caótico. É também generativo. Esconde dentro de si novas ordens em gestação e várias outras complexidades, entre elas a vida humana.

Os cientistas evitam definir o que seja a vida. Constatam que representa a emergência mais surpreendente e misteriosa de todo o processo cosmogênico. Tentar definir a vida, reconhecia Max Plank, é tentar definir a nós mesmos, realidade que, em último termo, não sabemos definitivamente o que e quem somos.

O que podemos afirmar seguramente é que a vida humana é um sub-capítulo do capítulo da vida. Vale enfatizar: a centralidade cabe à vida. A ela se ordena a infra-estrutura físico-química e ecológica da evolução que permitiu a imensa diversidade de vidas e dentro delas, a vida humana, consciente, falante e cuidante.

De mais a mais, somente 5% da vida é visível, os restantes 95% é invisível, compondo o universo dos micro-organismos (bactérias, fungos e virus) que operam no solo e no subsolo, garantindo as condições de emergência e manutenção da fertilidade e vitalidade da Mãe Terra.

Tenta-se entender a vida como auto-organização da matéria em altíssimo grau de interação com o universo, com a teia incomensurável de relações de todos com todos e com tudo o mais que está emergindo em todas as partes do universo.

Cosmólogos e biólogos sustentam: a vida comparece como a suprema expressão da “Fonte Originária de todo o ser” ou “Daquele Ser que faz ser todos os seres”, o que para a teologia representa a metáfora, talvez a mais adequada, para Deus. Deus é tudo isso e mundo mais. É Mistério em sua essência e também é mistério para nós. A vida não vem de fora mas emerge do bojo do processo cosmogênico ao atingir um altíssimo grau de complexidade.

O prêmo Nobel de biologia, Christian de Duve, chega a afirmar que em qualquer lugar do universo quando ocorre tal nível de complexidade, a vida emerge como imperativo cósmico (Poiera vital: a vida como imperativo cósmico,Rio de Janeiro 1997). Nesse sentido o universo estaria repleto de vida não somente na Terra.

A vida mostra uma unidade sagrada na diversidade de suas manifestações pois todos os seres vivos carregam o mesmo código genético de base que são os 20 aminoácidos e as quatro bases nitrogenadas, o que nos torna a todos parentes e irmãos e irmãs uns dos outros como o afirma a Carta da Terra e a Laudato Si do Papa Francisco. Cada ser possui um valor em si mesmo.

Cuidar da vida, fazer expandir a vida, entrar em comunhão e sinergia com toda a cadeia de vida, celebrar a vida e acolher, agradecidos, a Fonte originária de toda a vida: eis a missão singular e específica e o sentido do viver dos seres humanos sobre a Terra. Não é o chimpanzé, nosso primata mais próximo, nem o cavalo ou o colibri que cumprem esta missão consciente, mas é o ser humano. Isso não o faz o centro de tudo. Ele é a expressão da vida, dotada de consciência, capaz de captar o todo, sem deixar de sentir-se parte dele. Ele continua a ser Terra (Laudato Si,n.2), não fora e acima dos outros mas no meio dos outros e junto com os outros como irmão e irmã dentro da grande comunidade de vida. Assim prefere chamar o “meio ambiente” a Carta da Terra.

Esta, a Terra, vem entendida como Gaia, super-organismo vivo que sistemicamente organiza todos os elementos e fatores para continuar e se reproduzir como viva e gerar a imensa diversidade de vidas. Nós humanos emergimos como a porção de Gaia que no momento mais avançado de sua evolução/complexificação começou a sentir, a pensar, a amar, a falar e a venerar. Então irrompeu no processo evolucionário quando 99,99% estava tudo pronto, o ser humano, homem e mulher. Em outras palavras, a Terra não precisou do ser humano para gestar a imensa biodiversidade. Ao contrário foi ela que o gerou como expressão maior de si mesma.

A centralidade da vida implica uma biocivilização que, por sua vez, comporta concretamente assegurar os meios de vida para todos os organismos vivos e, no caso dos seres humano: alimentação, saúde, trabalho, moradia, segurança, educação e lazer. Se estandartisássemos para toda a humanidade os avanços da tecnociência já alcançados, teríamos os meios para todos gozarem dos serviços com qualidade que hoje somente setores privilegiados e opulentos têm acesso.

Na modernidade, o saber foi entendido como poder (Francis Bacon) a serviço da dominação de todos os demais seres, inclusive dos humanos e da acumulação de bens materiais de indivíduos ou de grupos com a exclusão de seus semelhantes, gestando assim um mundo de desigualdades, injusto e desumano.

Postulamos um poder a serviço da vida e das mudanças necessárias e exigidas pela vida. Por que não fazer uma moratória de investigação e de invenção em favor da democratização do saber e das invenções já acumuladas pela civilização para beneficiar a todos os seres humanos, começando pelos milhões e milhões destituídos da humanidade? São muitos que sugerem esta medida, a ser assumida por todos e, entre nós, proposta pelo economista-ecologista Ladislau Dowbor da PUC0-SP. Enquanto isso não ocorrer, viveremos tempos de grande barbárie e de sacrificação do sistema-vida, seja na natureza seja na sociedade humana mundial.

Este constitui o grande desafio para o século XXI, construir uma civilização cujo centro seja a vida. A economia e a política a serviço da vida em toda a sua diversidade. Ou optamos por esta via ou podemos nos autodestruir, pois construímos já os meios para isso ou podemos também começar, finalmente, a criar uma sociedade verdadeiramente justa e fraternal junto com toda a comunidade de vida, conscientes de nosso lugar no meio dos demais seres e da missão singular de cuidar e de guardar a herança sagrada recebida do universo ou de Deus.

ADENDA

O ano cósmico, o universo, a Terra e o ser humano

Tentemos imaginar que os 13.7 bilhões de anos, idade do universo, sejam um único ano (apud Carl Sagan). Veremos como ao longo dos meses desse ano imaginário foram surgindo todos os seres até os últimos segundos do último minuto do último dia do ano.Qual é o lugar que nós ocupamos?

A primeiro de janeiro ocorreu a Grande Explosão.

A primeiro de março, surgiram as estrelas vermelhas

A 8 de maio, a Via Láctea

A 9 setembro, o Sol

A 1 de outubro, a Terra

A 29 de outubro, a vida

A 21 de dezembro, os peixes

A 28 de dezembro às 8.00 horas, os mamíferos

A 28 de dezembro às 18,00 horas, os pássaros

A 31dezembro às 17.00 horas, nasceram os antepassados pre-humanos

A 31 de dezembro às 22.00 horas entra em cena o ser humano primitivo, antropoide.

A 31dezembro às 23 horas, 58 m e 10 s, surgiu o homem sapiens-sapiens.

A 31 de dezembro às 23.00 horas, 59 minutos e 56 segundos, nasceu Jesus Nazaré

A 31 de dezembro às 23.00 horas 59 minutos e 59segundos, Cabral chegou ao Brasil

A 31 de dezembro às 23 horas, 59 m e 59,54 s, dá-se a Independência do Brasil.

A 31 de dezembro às 23 minutos e 59.59 segundos, nascemos nós hoje.

Somos quase nada. Mas por ínfimos que sejamos, é através de nós, de nossos olhos, ouvidos, inteligência, que a Terra contempla a grandeza do universo, seus irmãos e irmãs cósmicos. Para isso todos os elementos durante todo o processo da evolução se articularam de tal forma que a vida pudesse surgir e nós pudéssemos estar aqui e falar disso tudo. Se tivesse havido alguma pequena modificação, as estrelas ou não se teriam formado ou, formadas, não teriam explodido e assim não teria havido o Sol, a Terra nem os 20 aminoácidos e as quatro bases nitrogenadas e nós não estaríamos aqui escrevendo sobre estas coisas.

Por esta razão testemunha o conhecido físico da Grã-Bretanha Freeman Dyson:” Quanto mais examino o universo e estudo os detalhes de sua arquitetura, tanto mais evidências encontro de que o universo, de alguma maneira, devia ter sabido que estávamos a caminho” (1979).

A COVID-19 QUESTIONA O SENTIDO DA VIDA

A intrusão da Covid-19 atingindo todo o planeta e dizimando mais de um milhão de vidas sem poderem ser veladas e receberem o último carinho de seus familiares, além de infectar outras milhões de pessoas, suscitou a perturbadora pergunta: qual o sentido da vida? Por que esse sofrimento todo? O que a natureza nos quer dizer com esse vírus invisível que colocou de joelhos todas as potências militaristas tornando ineficazes suas armas de destruição em massa? O Covid-19 caiu como um meteoro rasante sobre o sistema do capital e o neoliberalismo. Seus mantras foram destroçados. Adiantou alguma coisa o lema de Wall Street: “greed is good”=a cobiça é boa? Ninguém come computadores,nem se alimenta dos algoritmos da inteligência artificial.

Qual eram os dogmas da fé capitalista e neoliberal? O essencial é o lucro, no menor tempo possível, a concorrência feroz, a acumulação individual ou corporativa, o saque cruel dos recursos da natureza, deixando as externalidades por conta do estado, a indiferença face à taxa de iniquidade social e ambiental, a postulação de um Estado mínimo para escapar das leis limitantes e poder acumular mais desimpedidamente.

Se tivéssemos seguido estes mantras,o extermínio de vidas humanas seria incalculável. Sem políticas públicas as pessoas seriam tragadas por um destino atroz.

O que nos tem salvado? Aqueles valores e atitudes ausentes no sistema do capital e neoliberal: a percepção de que não somos “deuses” mas totalmente vulneráveis e mortais, expostos à imprevisibilidade. O que conta não é o lucro mas a vida; não é a concorrência mas a solidariedade; não é individualismo mas a cooperação entre todos; não é o assalto aos bens e serviços da natureza mas o seu cuidado e proteção; não é um estado mínimo, mas o estado suficientemente apetrechado para atender as demandas urgentes da população. Dito diretamente: o que vale mais a vida ou o lucro? A natureza ou a sua expoliação desenfreada?

Responder a estas perguntas impostergáveis é interrogar-se sobre o sentido ou o absurdo de nossa vida, pessoal e coletiva. O isolamento social é uma espécie de retiro existencial que a situação nos impôs. Cria-se a oportunidade de colocar estas questões inadiáveis. Nada é fortuito nesse mundo. Tudo guarda uma lição ou um sentido secreto que cabe desvendar, por mais perplexa que seja a realidade. O que não podemos é permitir que esse sofrimento coletivo seja em vão. Ele funciona como um crisol que purifica o ouro, que acrisola nossa mente, e põe em xeque certos hábitos a serem revistos e novos a serem incorporados especialmente com referência à nossa relação para com a natureza e o tipo de sociedade que queremos, menos perversa e mais solidária.

Todos falam da medicina, da técnica e dos insumos e principalmente da busca ansiosa de uma vacina contra o Covid-19. Poucos são os que falam da natureza. Precisamos considerar o contexto da irrupção do coronavírus. Ele não é isolado. Veio da natureza que por séculos foi saqueada irresponsavelmente pelo processo industrialista do capitalismo e também do socialismo, no falso pressuposto de que a Terra teria recursos infinitos. Desmatamos impiedosamente e assim destruímos os habitats dos milhares de vírus que vivem nos animais e até nas plantas. Perdendo sua “morada natural” buscam em nós um lugar de sobrevivência. Desta forma temos conhecido uma vasta gama de vírus como o zica, o chikungunya,o ebola, a série derivados do SARS como o Covid-19 entre outros.

Temos a ver com um contra-ataque da natureza ou da Mãe Terra contra a humanidade, que querem nos transmitir uma severa admoestação:”parem com a agressão impiedosa, destruindo as bases físico-químicas-ecológicas que sustentam a vossa vida; caso contrário poderemos lhes mandar vírus muito mais letais que poderão dizimar bilhões de vocês, da espécie humana, e afetar gravemente a biosfera,aquela fina capa um pouco maior que um fio da navalha que garante a continuidade da vida”.

Predominarão estas advertências vitais ou o afã de acumular e garantir os interesses materiais? Teremos suficiente sabedoria para responder à alternativa que Aquele Ser que faz ser todos os seres:“proponho-vos a vida e a morte, a bênção e a maldição; escolhe a vida para que vivas com tua descendência”(Deut 30,19)?

Portadores de uma fé num `Deus, apaixonado amante da vida”(Sab 11,26) apostamos ainda num sentido da história e da vida. Elas escreverão a última página da saga humana, construída com tanto esforço neste planeta.

Isso porém não nos deve desviar o olhar sobre o que está ocorrendo no cenário mundial e especificamente no brasileiro onde um chefe de estado, negacionista, não tem como projeto cuidar de seu povo e de nossa luxuriante natureza. Com desprezo e ironia assiste qual Nero que assistia Roma sendo queimada e ele tocando cítara.

A despeito disso tudo, nossa esperança não morre. Como afirma a Fratelli tutti do Papa Francisco: “A esperança nos fala de uma realidade enraizada no profundo do ser humano, independentemente das circunstâncias concretas e dos condicionamentos históricos em que vive”(n.55). Aqui ressoa o princípio esperança, que é mais que uma virtude, mas um princípio, motor interior, que projeta sonhos e visões novas, tão bem formulado pelo filósofo alemão Ernst Bloch em seu O Princípio Esperança. Esta esperança nos resgatará um sentido de viver neste pequeno e amado planeta Terra.

Apesar de sermos seres contraditórios, feitos simultaneamente de luz e de sombras, cremos que a luz triunfará. Atestam-nos tantos bioantropólogos e neurocientistas: somos por essência seres de bondade e de cooperação. Vigora uma bondade fundamental na vida.

O homem comum que compõe a grande maioria, se levanta, perde precioso tempo de vida nos ônibus, vai ao trabalho, não raro penoso e mal remunerado, luta pela família, se preocupa com a educação de seus filhos, sonha com um país melhor. Surpreendentemente, é capaz de gestos generosos, auxiliando um vizinho mais pobre do que ele e, em casos extremos, arrisca a vida, para salvar uma inocente menina ameaçada de estupro. Nele está agindo o princípio esperança.

Nesse contexto não me furto de citar os sentimentos de um de nossos maiores escritores modernos Erico Veríssimo. Em seu famoso “Olhai os lírios do campo”:

“Se naquele instante caísse na terra um habitante de Marte, havia de ficar embasbacado ao verificar que num dia tão maravilhosamente belo e macio, de sol tão dourado, os homens em sua maioria estavam metidos em escritórios, oficinas, fábricas … E se perguntasse a qualquer um deles: ‘Homem, por que trabalhas com tanta fúria durante todas as horas de sol?’ – ouviria esta resposta singular: ‘Para ganhar a vida’. E no entanto a vida ali estava a se oferecer toda, numa gratuidade milagrosa. Os homens viviam tão ofuscados por desejos ambiciosos que nem sequer davam por ela. Nem com todas as conquistas da inteligência tinham descoberto um meio de trabalhar menos e viver mais. Agitavam-se na terra e não se conheciam uns aos outros, não se amavam como deviam. A competição os transformava em inimigos. E havia muitos séculos, tinham crucificado um profeta que se esforçara por lhes mostrar que eles eram irmãos, apenas e sempre irmãos.(Olhai os Lírios do Campo,Civilização Brasileira, Rio de Janeiro 1973. p. 292).

A intrusão do Codiv-19 revelou estas virtudes, presentes nos humanos mas de modo especial nos pobres e nas periferias, porque lá se refugiaram, pois nas cidades impera a cultura do capital, com seu individualismo e falta de sensibilidade face à dor e ao sofrimento das grandes maiorias da população.

O que se esconde atrás destes gestos qotidianos de solidariedade? Esconde-se o princípio esperança e a confiança de que, apesar de tudo, vale a pena viver porque a vida, na sua profundidade, é boa e foi feita para ser levada com coragem que produz autoestima e sentido de valor.

Há aqui uma sacralidade que não vem sob o signo religioso mas sob a perspectiva do ético, do viver corretamente e do fazer o que deve ser feito.

O renomado sociólogo austríaco-norte-americano Peter Berger, já falecido, escreveu um brilhante livro, relativizando a tese de Max Weber sobre a total secularização da vida moderna com o título:”Um rumor de anjos: a sociedade moderna e a redescoberta do sobrenatural (Vozes 1973/2013). Aí descreve inúmeros sinais (chama de “rumor de anjos”) que mostram o sagrado da vida e o sentido secreto que ela sempre guarda, a despeito de todo caos e dos contrassensos históricos.

Aduzo, na esteira de Peter Berger, apenas um exemplo banal, entendido por todas as mães que acalentam suas crianças à noite. Uma delas acorda sobressaltada. Teve um pesadelo, percebe a escuridão, sente-se só e é tomada pelo medo. Grita pela mãe. Esta se levanta, toma a criancinha no colo e no gesto primordial da magna mater cerca-a de carinho e de beijos,fala-lhe coisas doces e sussurra:”Filhinha, não tenha medo; sua mãe está aqui. Está tudo bem e está tudo em ordem, querida”. A criança deixa de soluçar. Reconquista a confiança e um pouco mais e mais um pouco, adormece, serenada e reconciliada com a escuridão.

Esta cena tão comum, esconde algo radical que se manifesta na pergunta: será que a mãe não está enganando a criança? O mundo não está em ordem, nem tudo está bem. E contudo, estamos certos: a mãe não está enganando sua filhinha. Seu gesto e palavras revelam que, não obstante a desordem reinante, impera uma ordem profunda e secreta.

Assim cremos que os tempos de Covid-19, tão dramáticos, hão de passar. Esperamos e como esperamos que, por debaixo deles e dentro deles, vai se fortalecendo uma ordem abscôndita que, quando tudo passar, irá irromper.

Assim a sociedade e a inteira humanidade poderão caminhar rumo a um sentido maior, cujo desenho final nos escapa. Mas intuímos desde sempre, que ele existe e será bom. A ele caberá escrever a última página com um happy end. Como escreveu o filósofo do Princípio Esperança, Ernst Bloch, verificaremos que o verdadeiro génesis não estava no começo das coisas mas no seu fim. Só então será verdade: “Deus viu tudo quanto havia feito e achou que estava muito bom” (Gén 1,31).

EM TEMPOS DE COVID:
O CUIDADO NECESSÁRIO E IRMANDADE AFECTUOSA

Nos dias atuais, especialmente durante o isolamento social, devido a presença perigosa do coronavírus, a humanidade despertou de seu sono profundo: começou ouvir os gritos da Terra e os gritos dos pobres e a necessidade do cuidado de uns para com os outros e também da natureza e da Mãe Terra. De repente, demo-nos conta de que o vírus não veio do ar. Não pode ser pensado isoladamente, mas dentro de seu contexto; veio da naturea. Ele é uma resposta da Mãe Terra contra o antropoceno e o necroceno, vale dizer, contra a sistemática dizimação de vidas, devida à agressão do processo industrialista, numa palavra, do capitalismo mundialmente globalizado. Ele avançou sobre a natureza, desflorestando milhares de hectares, na Amazônia, no Congo e em outros lugares onde se encontram as florestas úmidas. Com isso destruiu o habitat dos centenas e centenas de vírus que se encontram nos animais e até nas árvores. Saltaram em outros animais e destes a nós.

Em consequência de nossa voracidade incontrolada, cada ano desaparecem cerca de cem mil espécies de seres vivos, depois de milhões de anos de vida sobre a Terra e ainda, segundo dados recentes, há um milhão de espécies vivas sob risco de desaparecimento.

A ideia-força da cultura moderna era e continua sendo o poder como dominação da natureza, dos outros povos, de todas as riquezas naturais, da vida e até dos confins da matéria; esta dominação ocasionou atualmente as ameaças que pesam sobre o nosso destino. Essa ideia-força tem que ser superada. Bem dizia Albert Einstein: “a idéia que criou a crise não pode ser a mesma que nos vai tirar da crise; temos que mudar”.

A alternativa será esta: ao invés do poder-dominação deve-se colocar a fraternidade e o cuidado necessário. Estas são as nova ideia-força. Como irmãos e irmãs, somos todos interdependentes e devemos nos amar e cuidar. O cuidado implica numa relação afetuosa para com as pessoas e para com a natureza; é amigo da vida, protege e confere paz a todos que estão à sua volta.

Se o poder-dominação significava o punho cerrado para submeter, agora oferecemos a mão estendida para se entrelaçar com outras mãos, para cuidar e para afetuosamente abraçar. Essa mão cuidadosa traduz um gesto não agressivo para com tudo o que existe e vive.

Portanto, é urgente criar a cultura da fraternidade sem fronteiras e do cuidado necessário que a tudo enlaça. Cuidar de todas as coisas, desde o nosso corpo, da nossa psiqué, do nosso espírito, dos outros e mais comezinhamente do lixo de nossas casas, das águas, das floresta, dos solos, dos animais, de uns e de outros, começando pelos mais vulneráveis.

Sabemos que tudo o que amamos, cuidamos, e tudo o que cuidamos também amamos. O cuidado sana as feridas passadas e impede as futuras.

É neste contexto urgente que ganha sentido um dos mais belos mitos da cultura latina, o mito do cuidado.

“Certo dia, ao caminhar na margem de um rio, Cuidado viu um pedaço de barro . Foi o primeiro a ter a ideia de tomar um pouco dele e moldá-lo na forma de um ser humano. Enquanto contemplava, contente consigo mesmo, com o que havia feito, apareceu Júpiter, o deus supremo dos gregos e dos romanos.

Cuidado pediu-lhe que soprasse espírito na figura que acabara de moldar. O que Júpiter acedeu de bom grado.

Quando, porém, Cuidado quis dar um nome à criatura que havia projetado, Júpiter o proibiu. Disse que essa prerrogativa de impor um nome era missão dele. Mas cuidado insistia que ele tinha esse direito por ter, por primeiro pensado e moldado a criatura em forma de um ser humano.

Enquanto Júpiter e o Cuidado discutiam acaloradamente, de súbito, irrompeu a deusa Terra. Quis também ela conferir um nome à criatura, pois, argumentava, que ela fora feita de barro, material do corpo, da Terra. Originou-se então uma discussão generalizada sem qualquer consenso.

De comum acordo, pediram, ao antigo Saturno, também chamado de Cronos, fundador da idade de ouro e da agricultura, que funcionasse como árbitro. Ele apareceu na cena. Tomou a seguinte decisão que pareceu a todos justa:

“Você, Júpiter, deu-lhe o espírito; receberá, pois, de volta este espírito quando essa criatura morrer”.

“Você, Terra, deu-lhe o corpo; receberá, portanto, também de volta o seu corpo quando essa criatura morrer”.

Mas como, você, Cuidado foi quem, por primeiro, moldou essa criatura, ela ficará sob o seu cuidado enquanto ela viver”.

“E uma vez que entre vocês há consenso acerca do nome, decido eu: esta criatura será chamada Homem (ser humano), isto é, feita de húmus, que significa terra fértil”.

Vejamos a singularidade deste mito. O cuidado é anterior a qualquer outra coisa. É anterior ao espírito e anterior à Terra. Em outras palavras, a concepção do ser humano como composto de espírito e corpo não é originária. O mito é claro ao afirmar que “foi o cuidado o primeiro a moldar o barro na forma de um ser humano”.

O cuidado comparece como o conjunto de fatores sem os quais não existiria o ser humano. O cuidado constitui aquela força originante da qual jorra e se alimenta o ser humano. Sem o cuidado, o ser humano continuaria a ser apenas um boneco de barro ou um espírito desencarnado e sem raiz em nossa realidade terrestre.

O Cuidado, ao moldar o ser humano, empenhou amor, dedicação, devoção, sentimento e coração. Tais qualidades passaram à figura que ele projetou, isto é, a nós, seres humanos. Estas dimensões entraram em nossa constituição, como um ser amoroso, sensível, afetuoso, dedicado, cordial, fraternal e carregado de sentimento. Isso faz o ser humano emergir verdadeiramente como humano.

Cuidado recebeu de Saturno a missão de cuidar do ser humano ao longo de toda a sua vida. Caso contrario, sem o cuidado, não subsistiria nem viveria.

Efetivamente, todos nós somos filhos e filhas do infinito cuidado de nossas mães. Se elas não nos tivessem acolhido com carinho e cuidado, não saberíamos como deixar o berço e buscar nosso alimento. Em pouco tempo teríamos morrido, pois não contamos com nenhum órgão especializado que garanta nossa sobrevivência.

O cuidado, portanto, pertence à essência do ser humano. Mas não só. Ele é a essência de todos os seres, especialmente dos seres vivos. Se não os cuidarmos, eles definham e lentamente adoecem e por fim morrem.

O mesmo vale para a Mãe Terra e para tudo o que nela existe. Como disse bem o Papa Francisco em sua encíclica que leva como sub-título”Cuidando da Casa Comum”: “devemos alimentar uma paixão pelo cuidado do mundo”.

O cuidado é também uma constante cosmológica. Bem dizem os cosmólogos e astrofísicos: se as quatro forças que tudo sustentam (a gravitacional, a eletromagnética, a nuclear fraca e a forte) não se tivessem articulado com extremo cuidado, a expansão ficaria demasiadamente rarefeita e não haveria densidade para originar o universo, a nossa Terra e a nós mesmos. Ou então seria demasiada densa e tudo explodiria em cadeia e nada existiria do que existe. E esse cuidado preside o curso das galáxias, das estrelas e de todos os corpos celestes, a Lua, a Terra e nós mesmos.

Se vivermos a cultura e a ética do cuidado, associado ao espírito de irmandade entre todos, também com os seres da natureza, teremos colocado os fundamentos sobre os quais se construirá um novo modo de nos relacionar e de viver na Casa Comum, a Terra. O cuidado é a grande medicina que nos pode salvar e a irmandade geral nos permitirá a sempre desejada comensalidade e o amor e a feto entre todos.

Então continuaremos a brilhar e a nos desenvolver sobre esse pequeno e belo planeta.

Esta consideração sobre o cuidado concerne a todos os que cuidam da vida em sua diversidade e do planeta, especialmente agora, sob pandemia do Covid-19, o corpo médico, os enfermeiros e enfermeiras e outros que trabalham nos hospitais, pois, o cuidado essencial cura as feridas passadas, impede as futuras e garante o nosso futuro de nossa civilização de irmãos e de irmãs, juntos na mesma Casa Comum.

Edição 161, Outubro 2020

A DIMENSÃO POLÍTICA DA FÉ HOJE

Em função das próximas eleições municipais, faz-se mister uma reflexão sobre a relevância da fé cristã face à política, seja social, seja partidária.

A fé não é um ato ao lado de outros. Mas é uma atitude que engloba todos os atos, toda a pessoa, o sentimento, a inteligência, a vontade e as opções de vida. E uma experiência originária de encontro com o Mistério que chamamos Deus vivo e com Jesus ressuscitado. Esse encontro muda a vida e a forma de ver todas as coisas. Pela atitude de fé vemos que tudo está ligado e religado a Deus, como Aquele Pai/Mãe que tudo criou, tudo acompanha e tudo atrái para que todos possam viver com espírito fraterno, com cuidado de uns para com outros e da natureza; Esse amor social constitui a mensagem central da nova encíclica do Papa Francisco Fratelli tutti. A fé não é só boa para a eternidade mas também para este mundo.

Neste sentido, a fé engloba também a política com P maiúsculo (política social) e com p minúsculo (política partidária). Sempre se pode perguntar: em que medida a política, seja social, seja partidária, é instrumento para a realização dos bens do Reino como o amor social, a fraternidade sem fronteiras, a justiça pessoal e social, a solidariedade e a tolerância; em que medida a política cria as condições para as pessoas abrirem-se à cooperação e não se entre-devorarem pela competição mas à comunhão uns com os outros e com Deus. Essa é chamada pela recente encíclica do Papa Francisco Fratelli tutti “a Política Melhor” que inclui o coração e até a ternura e a gentileza como de forma surpreendente vem dito lá.

A fé como uma bicicleta

A fé não fica apenas como experiência pessoal de encontro com Deus e com Cristo no Espírito. Ela se traduz concretamente na vida. Ela é como uma bicicleta, possui duas rodas mediante as quais se torna concreta: a roda da religião e a roda da política.

A roda da religião se realiza pela meditação, pela oração, pelas celebrações, pela leitura da Bíblia, também a popular, pelas romarias, pelos sacramentos, numa palavra, pelo culto.

Muitos reduzem a religião somente a essa roda. Especialmente as redes de tv católicas. Essas são, geralmente, de um cristianismo meramente devocional, de missas, santos, rosários e de ética familiar. Quase nunca se fala de justiça social, do drama dos milhões de desempregados, do grito dos oprimidos e do grito da Terra. Neste campo precisa-se de um compromisso, de assumir um lado, para escapar do cinismo face à realidade com tantas iniquidades. Por esse tipo de cristianismo fica difícil entender por que Jesus foi preso, torturado, julgado e condenado à morte de cruz. Esse tipo de cristianismo é cômodo. Jesus teria morrido de velho e cercado de seguidores.

Mais grave é o tipo de fé proclamada pelas igrejas neopentecostais com suas televisões e programas multitudinários. Aí não se escuta nunca a mensagem do Reino de amor, de justiça, de fraternidade e de perdão. Nunca se ouve a palavra fundamental do Jesus histórico:”Felizes os pobres porque vosso é o Reino de Deus…ai de vós ricos, porque já tendes a vossa consolação”(Lc 6,20.24). Em seu lugar volta-se a um tipo de leitura do Antigo Testamento (raramente a tradição profética) onde se ressaltam os bens materiais. Pregam não o evangelho do Reino, mas o evangelho da Prosperidade material. Logicamente, a maioria é pobre e precisa de uma infraestrutura material básica. É a fome real que martiriza milhões de fiéis. Mas “não só de pão vive o homem” disse o Mestre. O ser humano tem no fundo outro tipo de fome: fome de reconhecimento negado às mulheres, aos mais humildes, aos negros, aos homo-afetivos, aos LGBT, fome de beleza, de transcendência, ínsita na natureza humana, por fim, fome de um Deus vivo que é de ternura e de amor aos mais invisíveis. Tudo isso, essência da mensagem do Jesus histórico, não se ouve nas palavra dos pastores. Estes, a maioria deles, são lobos em pele de ovelha, pois exploram em proveito próprio a fé singela dos mais humildes. E o pior são politicamente conservadores e até reacionários, agem como se partidos fossem, normalmente, apoiando políticos de conduta duvidosa, interferem, como é o caso atual no Brasil, na agenda do governo, apontando nomes para os altos cargos. Não respeitam a Constituição que prescreve a laicidade do estado. O atual presidente, outrora católico, por conveniência se aproveita destas igrejas neopentecostais como base de apoio de seu governo de viés reacionário, autoritário e fascistoide.

Ao lado deles, há um grupo de católicos saudosistas do passado, conservadores que se opõem até ao Papa, ao Sínodo Pan-Amazônico, usando de verdadeiras mentiras, fake news e outros ataques por seus youtubers. Podem ser católicos conservadores, mas nunca cristãos na herança de Jesus, pois nessa herança não cabe o ódio, a mentira e a calúnia que eles propagam.

A fé possui uma segunda roda, da política; é o seu lado prático. A fé se expressa pela prática da justiça, da solidariedade, da denúncia das opressões, pelo protesto e pela prática da solidariedade sem fronteiras, do amor social e da fraternidade universal,como enfatiza o Papa na Fratelli tutti (n.6). Como se vê, política aqui é sinónimo de ética. Temos que aprender a nos equilibrar em cima das duas rodas para poder andar corretamente.

Entre aqueles que vivem uma ética de solidariedade, de respeito e de busca da verdade, estão muitos que se confessam ateus. Admiram a figura de Jesus por sua profunda humanidade e coragem ao denunciar as mazelas sociais de seu tempo e, por isso, de sofrer perseguições e ser crucificado. Bem enfatiza o Papa Francisco: prefiro estes ateus éticos do que cristãos indiferentes ao sofrimento humano e às clamorosas injustiças mundiais. Quem busca a justiça e a verdade está na direção do caminho que termina em Deus, pois sua verdadeira realidade é de amor e de verdade. Mais valem tais valores que as muitas orações se nelas não está presente a justiça, a verdade e o amor. Quem é surdo diante dos padecimentos humanos, não tem nada a dizer a Deus e suas orações não são ouvidas por Ele.

Para as Escrituras judaico-cristãs a roda da política (ética) emerge mais importante que a roda da religião institucional (culto, cf. Mt 7,21-22; 9,13; 12,7; 21,28-31; Gl 5,6; Tg 2,14 e os profetas do AT). Sem a ética, a fé é vazia e inoperante. São as práticas e não as prédicas que contam para Deus. Não adianta dizer “Senhor, Senhor”e com isso organizar toda uma celebração e uma aeróbica religiosa; mais importante é fazer a vontade do Pai que é amor, misericórdia, justiça e perdão, coisas todas práticas, portanto, eticas (cf. Mt 7,21).

Por ética em política se entende a dimensão de responsabilidade, a vontade de construir relações de participação e não de exclusão em todos os âmbitos da vida social. É ser transparente e abominar a corrupção. Hoje os problemas, como a fome, o desemprego, a deterioração geral das condições de vida e a exclusão de grandes maiorias, são de natureza social e política, portanto, ética. Então a fé deve mostrar sua força de mobilização e de transformação (Fratelli tutti n.166)

Política social (P) e política partidária(p)

Como acenamos acima, há dois tipos de política: uma escrita com P maiúsculo e outra com p minúscula: a Política social (P) e a política partidária (p).

Política social (P): é tudo o que diz respeito ao bem comum da sociedade; ou então é a participação das pessoas na vida social. Assim por exemplo a organização da saúde, da rede escolar, dos transportes, a abertura e a manutenção de ruas, de água e esgoto etc tem a ver com política social, bem como lutar para conseguir um posto de saúde no bairro, se unir para trazer a linha de ônibus até no alto do morro: tudo isso é Política social. Definindo de forma breve podemos dizer: política social ou Política com P maiúsculo significa a busca comum do bem comum.

Política partidária (p): significa a luta pelo poder de estado, para conquistar o governo municipal, estadual e federal. Os partidos políticos existem em função de se chegar ao poder de estado, seja para mudá-lo (processo libertário), seja para exercê-lo assim como se encontra constituído (governar o status quo existente). O partido,como a palavra já o diz, é parte e parcela da sociedade não toda sociedade. Cada partido tem por trás interesses de grupos ou de classes que elaboram um projeto, visando toda a sociedade. Se chegarem ao poder de estado (governo) vão comandar as políticas públicas conforme o seu programa e sua visão particular dos problemas.

Com referência à política partidária, é importante a pessoa de fé considerar os seguintes pontos: 1, qual é o programa do partido? 2, como o povo entra neste programa? se foi discutido nas bases; se atende aos reclamos reais e urgentes do povo; se prevê a participação popular, mediante seus movimentos e organismos; se estes foram ouvidos na sua concepção, implementação e controle. 3, quem são os candidatos que representam o programa? Que biografia têm, se sempre mantiveram uma ligação orgânica com as bases,se são verdadeiramente aliados e representantes das causas da justiça e da transformação social com mais justiça e direitos ou se querem manter as relações sociais assim como são, com as contradições e até iniquidades que encerram.

Nos dias atuais, face à ascensão do pensamento conservador e facistóide no Brasil e outros países do mundo, faz-se necessária a participação de cristãos conscientes e engajados para recuperar a democracia que está sob risco de demolição, os direitos pessoais e sociais e também os direitos da natureza, devastada pela cobiça do capital brasileiro e mundial, responsáveis, entre outros, pelas grandes queimadas da Amazônia e do Pantanal.

Bastam estes simples critérios para se perceber o perfil do partido e dos candidatos, de direita (se querem manter inalterada a relação de forças que favorece os que estão no poder),de esquerda (se visam mudanças substanciais para superar estruturas perversas que marginalizam as grandes maiorias) ou de centro (os partidos que se equilibram entre a esquerda e a direita, procurando sempre vantagens para si e para os grupos que representam).

Para os cristãos, impõe-se analisar até que ponto tais programas se afinam com o projeto de Jesus e dos apóstolos, como ajudam na libertação dos oprimidos e marginalizados e em que sentido abrem espaço à participação de todos. Mas releva enfatizar: a decisão partidária é assunto de cada consciência e um cristão sabe que direção tomar.

Dada a conjuntura de exclusão social devido à lógica do neoliberalismo, da financeirização da economia e do mercado, a fé aponta para uma política partidária que deve revelar uma dimensão popular e libertária, de baixo para cima e de dentro para fora como o Papa Francisco tem proclamado aos movimentos sociais populares e na encíclica Fratelli tutti (n.141-151). Essa política pretende outro tipo de democracia: não apenas a democracia representativa/delegatícia mas uma democracia participativa pela qual o povo com suas organizações ajuda a discutir, a decidir e a encaminhar as questões sociais.

Por fim, releva inaugurar uma democracia socio-ecológica que incorpore como cidadãos com direitos a serem respeitados: a Terra, os ecossistemas e os seres da criação com os quais mantemos relações de interdependência. Somos todos “tutti fratelli” segundo as duas encíclicas do Papa Francisco, “Laudato Sì: sobre o cuidado da Casa Comum” e a recente de 2020 Fratelli tutti.

A política partidária, tem a ver com o poder que para ser forte quer sempre mais poder. Nisso há um risco, o risco do totalitarismo da política, de politizar todas as questões, de ver somente a dimensão política da vida. Contra isso devemos dizer que tudo é político, mas a política não é tudo. A vida humana, pessoal e social, comparece com outras dimensões, como a afetiva, a estética,a lúdica e a religiosa.

Conclusão: a memória perigosa de Jesus

Os cristãos podem e devem participar da política em todos os níveis, em P maiúsculo e em p minúsculo. Sua atuação se inspira no sonho de Jesus que implica um impulso de transformação das relações sociais e ecológicas, corajosamente apresentadas na encíclica Fratelli tutti. Nunca, entretanto, deve esquecer que somos herdeiros da memória perigosa e libertária de Jesus. Por causa de seu compromisso com o projeto do Reino de amor, justiça, de intimidade filial com o Pai e especificamente, de sua compaixão pelos humilhados e ofendidos, foi levado à morte na cruz. Se ressuscitou foi para, em nome do Deus da vida, animar a insurreição contra uma política social e partidária que penaliza os mais pobres, elimina os profetas, persegue os pregadores de uma justiça maior e reforçar a todos que querem uma sociedade nova com uma relação de fraternidade e de cuidado para com a natureza, para com todos os seres, amados como irmãos e irmãs e para com o Deus de ternura e de bondade.

N.E.

Este Texto, todo tecido de teologia cristã e papal imperial, só confirma o que eu reiteradamente digo dos teólogos cristãos. No caso deste Texto, L. Boff chega a confundir a 'memória perigosa' de Jesus histórico com o Cristo davídico que, como canta a liturgia do cristianismo papal imperial, vence, governa e impera. E, nessa qualidade, mata Jesus histórico e acaba com a sua 'memória perigosa'.

O COVID-19: UM CONTRA-ATAQUE DA TERRA À HUMANIDADE

Acaba de ser lançado pela Editora Vozes de Petrópolis o meu livro; ”O Covid-19: um contra-ataque da Terra contra a Humanidade”. Trata-se de uma reflexão sobre o significado da irrupção do coronavírus e quais lições devemos tirar dele. Em primeiro lugar procuro contextualizar o Covid-19. Ele não pode ser visto isoladamente nem ser abordado apenas pela medicina, pela técnica, pelo conjunto dos insumos e pela busca desenfreada de uma vacina eficaz.

Ele não irrompeu aleatoriamente. Ele só pode ser adequadamente entendido a partir da sistemática exploração e devastação que as sociedades humanas levaram a efeito nos últimos três séculos contra a natureza e a Mãe Terra. Esta é, segundo um dado científico contemporâneo, é um Super Ente vivo que, de forma sistêmica, organiza todos os elementos e fatores, químicos, físicos, informacionais e energéticos, numa palavra, ecológicos para continuar viva, auto-reproduzir-se como viva e gerar a diversidade de vidas sobre seu solo.

Ora, esse processo natural foi profundamente afetado com a intrusão dos sistemas produtivos de exploração e de produção, visando mais e mais vantagens materiais para os seres humanas. Especialmente ganhou forma, hoje mundializada, pelo modo de produção capitalista. Este trata a Terra de forma meramente utilitarista, sem nenhum respeito a seu valor intrínseco, apenas como uma espécie de baú cheio de recursos (bens e serviços, bondades na linguagem do andinos) à disposição do ser humano. Essa intrusão foi tão violenta e crescente que encostamos nos limites da Mãe Terra.

Como todo organismo vivo que ela é, sente os golpes e começa a se defender. Envia-nos sinais que devem ser interpretados: o aquecimento global, a erosão da biodiversidade, a escassez de água potável, a desertificação crescente. E já há anos enviou-nos uma gama de vírus, como a zika, o ebola, a chicungunha, os vários tipos do vírus SARS. O Coronavírus é uma derivação do SARS. Pela primeira vez na história, este vírus afetou todo o planeta. E no planeta apenas os seres humanos, não nossos cães e gatos e outros animais domésticos ou da natureza. O Covid-19 está dizimando duramente vidas humanas, passando já de um milhão e no Brasil mais de 140 mil vítimas.

Atrás destes números se esconde uma via-sacra de sofrimento de milhões de pessoas, maridos, esposas, filhos, filhas, parentes, amigos e conhecidos. Somos atualmente uma humanidade crucificada. E devemos baixá-la da cruz e ressuscitá-la.

O livro mostra que se tivéssemos seguido os mantras do sistema dominante, o industrialista devastador: o lucro, a competição, o individualismo, a primazia do mercado, a diminuição do Estado e a completa falta de cuidado das vidas humanas e da natureza, estaríamos agora sob um grande risco acerca de nosso futuro comum. O que nos está salvando são os valores e princípios ausentes no sistema de produção e de cultura que criou: a centralidade da vida em vez do lucro, a solidariedade em vez da competição, a interdependência de todos em vez do individualismo, o cuidado de uns e de outros, da natureza e da Mãe Terra em vez da exploração, o Estado adequadamente abastecido para atender demandas humanas e emergências e não o mercado puro e simples com sua ferocidade.

O livro aborda estas questões e procura enfatizar o significado do confinamento social e da distância de conglomerações. Seria uma espécie de retiro existencial para perguntarmo-nos: afinal o que conta, a vida ou o lucro, a economia ou a salvaguarda da biodiversidade? Nas resposta a estas questões se oculta a exigência de uma mudança de rumo, a inauguração de uma outro paradigma, vale dizer, de um outro modo de habitar a Casa Comum, amigo da vida, cheio de respeito, de solidariedade e de cuidado.

O pior que nos poderia acontecer, seria voltar ao que era antes e reproduzir a taxa de altíssima iniquidade social e ecológica, exatamente esta que ocasionou um contra-ataque da Mãe Terra contra a humanidade. Ou mudamos ou vamos encontro do pior e eventualmente de vírus ainda mais letais que dizimariam profundamente a espécie humana.

O livro será continuado por outro: “As dores do parto da Mãe Terra: as perspectivas de um outro tipo de humanidade” a sair pelo final do ano.

Não anunciamos otimismo mas esperança, aquele motor interno a cada pessoa e aos processos sociais e vitais que nos dá coragem para enfrentrar crises e emergências planetárias e encontrar saídas salvadoras.

Animam-nos as palavras da Revelação que nos dizem: “Deus criou todas as coisas com amor…pois Ele é o apaixonado amante da vida”(Sabedoria 11,26). Um Deus assim apaixonado não permitirá que nossa vida humana, já assumida pelo Verbo e pelo Espírito Santo, tenham um fim trágico. Vamos dar um salto para cima e vamos levar avante o nosso penoso e criativo processo civilizatório e vamos ainda brilhar.

N.E.

Pois é, meu caro amigo e irmão, L.Boff. Mas a mesma Revelação - no teu modo de escrever-dizer - também diz, 'Crescei, multiplicai-vos e DOMINAI a Terra. Não 'manda' CUIDAR da Terra. Manda 'DOMINAR' a Terra. De resto, sabes bem que o sopro do Poder é macho, transforma os seres humanos que o servem e ao Dinheiro, em filhos dele, todos especializados em roubar, matar e destruir. Quando tens a audácia de passar do mítico 'Cristo da fé' a Jesus histórico, cujo sopro é feminino - Ruah - o único que é perito na Arte de Cuidar? Ainda estás a tempo.

Edição 160, Setembro 2020

OU MUDAMOS OU MORREMOS

Hoje vivemos uma crise dos fundamentos de nossa convivência pessoal, nacional e mundial. Se olharmos a Terra como um todo, percebemos que quase nada funciona a contento. A Terra está doente e muito doente. E como somos, enquanto humanos também Terra (homem vem de humus=terra fértil), nos sentimos todos, de certa forma, doentes. A percepção que temos é de que não podemos continuar nesse caminho, pois nos levará a um abismo. Fomos tão insensatos nas últimas gerações que construimos o princípio de auto-destruição. Não é fantasia holywoodiana. Temos condições de destruir várias vezes a biosfera e impossibilitar o projeto planetário humano. Desta vez não haverá uma arca de Noé que salve a alguns e deixa perecer os demais. O destino da Terra e da humanidade coincidem: ou nos salvamos juntos ou sucumbimos juntos.

Agora viramos todos filósofos, pois, nos perguntamos entre estarrecidos e perplexos: como chegamos a isso? Como vamos sair desse impasse global? Que colaboração posso dar como pessoa individual?

Em primeiro lugar, há de se entender o eixo estruturador de nossas sociedades hoje mundializadas, principal responsável por esse curso perigoso. É o tipo de economia que inventamos. A economia é fundamental, pois, ela é responsável pela produção e reprodução de nossa vida. O tipo de economia vigente se monta sobre a troca competitiva. Tudo na sociedade e na economia se concentra na troca. A troca aqui é qualificada, é competitiva. Só o mais forte triunfa. Os outros ou se agregam como sócios subalternos ou desaparecem. O resultado desta lógica da competição de todos com todos é duplo: de um lado uma acumulação fantástica de benefícios em poucos grupos e de outro, uma exclusão fantástica da maioria das pessoas, dos grupos e das nações.

Atualmente, o grande crime da humanidade é o da exclusão social. Por todas as partes reina fome crônica, aumento das doenças antes erradicadas, depredação dos recursos limitados da natureza e um ambiente geral de violência, de opressão e de guerra.

Mas reconheçamos: por séculos essa troca competitiva abrigava a todos, bem ou mal, sob seu teto. Sua lógica agilizou todas as forças produtivas e criou mil facilidades para a existência humana. Mas hoje, as virtualidades deste tipo de economia estão se esgotando. A grande maioria dos países e das pessoas não cabem mais sob seu teto. São excluidos ou sócios menores e subalternos, como é o caso do Brasil. Agora esse tipo de economia da troca competitiva se mostra altamente destrutiva, onde quer que ela penetre e se imponha. Ela nos pode levar ao destino dos dinossauros.

Ou mudamos ou morremos, essa é a alternativa. Onde buscar o princípio articulador de uma outra sociabilidade, de um novo sonho para frente? Em momentos de crise total precisamos consultar a fonte originária de tudo, a natureza. Que ela nos ensina? Ela nos ensina, foi o que a ciência já há um século identificou, que a lei básica do universo, não é a competição que divide e exclui, mas a cooperação que soma e inclui. Todas as energias, todos os elementos, todos os seres vivos, desde as bactérias e virus até os seres mais complexos, somos inter-retro-relacionados e, por isso, interdependentes. Uma teia de conexões nos envolve por todos os lados, fazendo-nos seres cooperativos e solidários. Quer queiramos ou não, pois essa é a lei do universo. Por causa desta teia chegamos até aqui e poderemos ter futuro.

Aqui se encontra a saida para umo novo sonho civilizatório e para um futuro para as nossas sociedades: fazermos desta lei da natureza, conscientemente, um projeto pessoal e coletivo, sermos seres cooperativos. Ao invés de troca competitiva onde só um ganha devemos fortalecer a troca complementar e cooperativa, onde todos ganham. Importa assumir, com absoluta seriedade, o princípio do prêmio de economia John Nesh, cuja mente brilhante foi celebrada por um não menos brilhante filme: o princípio ganha-ganha, onde todos saem beneficiados sem haver perdedores.

Para conviver humanamente inventamos a economia, a política, a cultura, a ética e a religião. Mas nos últimos séculos o fizemos sob a inspiração da competição que gera o individualismo. Esse tempo acabou. Agora temos que inaugurar a inspiração da cooperação que gera a comunidade e a participação de todos em tudo o que interessa a todos.

Tais teses e pensamentos se encontram detalhados nesse brilhante livro de Maurício Abdalla, O princípio da cooperação. Em busca de uma nova racionalidade.

Se não fizermos essa conversão, preparemo-nos para o pior. Urge começar com as revoluções moleculares. Comecemos por nós mesmos, sendo seres cooperativos, solidários, com-passivos, simplesmente humanos. Com isso definimos a direção certa. Nela há esperança e vida para nós e para a Terra.

O COVID-19 NOS OBRIGA A PENSAR: O QUE É O ESSENCIAL?

Como afirmou o renomado filósofo alemão Jürgen Habermas, numa entrevista acerca do Covid-19:”Nunca soubemos tanto de nossa ignorância como agora”. A ciência é indispensável para sobrevivermos e dar conta da complexidade das sociedades modernas. Mas ela não pode ser arrogante e pretender, como certos cientifistas postulam, que ela poderia resolver todos os problemas. Mas na verdade, o que não sabemos é infinitamente maior do que sabemos.Todo saber é finito e perfectível. Isso está se comprovar agora por ocasião da busca desenfreada por uma vacina eficaz contra o Covid-19. Não sabemos quando estará disponível, nem quando desaparacerá a epidemia.

Tal facto tem como efeito o ocaso de um horizonte de vida e de esperança e causa aquilo que tão bem em seu twitter escreveu a juíza e escritora (“A vida não é justa”) Andréa Pachá: “A pandemia fez muitos estragos. Alguns físicos, concretos e definitivos. Outros sutis, mas devastadores. Subtraiu a vontade de rir, de brincar, de fazer planos, mesmo aqueles só utópicos e idealizados, que jamais se realizariam, mas que alimentavam a alma”. Constamos que há profundo abatimento coletivo, melancolia, depressão e até raiva contra uma epidemia contra a qual muito pouco conhecemos e pouco podemos fazer. Todos sentimo-nos rodeados pelo fantasma da contaminação, da intubação e da morte.

O facto é que vivemos não sob uma emergência extraordinária como o tsunami no Japão afetando as usinas nucleares, uma das quais, continua emitindo radioatividade, afetando as costas da India, da Tailândia, da Indonésia até as costas da Califórnia ou as grandes queimadas da Amazônia,do Pantanal e das florestas da Califórnia. Com o Covid-19 estamos diante de uma emergência extrema, afetando todo o planeta, consequência de uma profunda erosão ecológica causada pela voracidade das grandes empresas que buscam exclusivamente o lucro material com a derrubada das florestas, o extrativismo, a expansão de monoculturas como da soja ou da criação de gado e a excessiva urbanização do mundo inteiro.

Essa intrusão do ser humano sobre a natureza, sem qualquer sentido de respeito ao seu valor intrínseco, tida como mero meio de produção e não como algo vivo do qual nós somos parte e não donos e senhores, negando-nos a respeitar seus limites de suportabilidade, tem produzido a destruição dos habitats dos milhares de vírus em animais e em plantas que então transbordam para outros animais e para o ser humano.

Temos que incorporar novos conceitos: a zoonose (doença que vem do mundo animal,aves, porcos, vacas, morcegos) e a transferência zoonótica: uma afecção animal transmissível ao ser humano. A partir de agora entrarão no nosso vocabulário não só científico.

Adverte-nos um dos maiores especialistas em vírus David Quammen (Montana nos USA) em seu video “Spillover: the next human pandemic” ( 2015):”é inevitável que volte a haver uma grande pandemia. Pode matar dezenas de milhares, centenas de milhares, ou milhões de pessoas, consoante as circunstâncias e a forma como reagirmos, mas há de aparecer qualquer coisa dessas. Será com certeza um agente zoonótico. Terá origem em animais não humanos. Será certamente um vírus”. Observemos a gravidade desta advertência de um notável cientista.

Face à esse emergência extrema, acrescida com parca mobilidade nacional e internacional, o isolamento social, o distanciamento entre as pessoas e o uso da máscara nos propiciam colocar as questões mais fundamentais de nossas vidas: afinal, o que conta em última instância? O que é definitivamente essencial? Quais as razões que nos levaram a tal situação de emergência extrema? Que devemos e podemos fazer depois que passar a pandemia, se passar? Estas questões são inadiáveis.

Então descobrimos que não há valor maior que a vida, a nossa vida e de toda comunidade de vida. Ela surgiu há 3,8 bilhões de anos e a humana há cerca de 8-10 milhões de anos. Ela passou por várias devastações mas sempre se manteve viva. E junto com a vida, os meios de vida sem os quais ela não se sustenta: a água, o solo, a atmosfera,a biosfera,os climas, o trabalho e a natureza que nos oferece tudo o que precisamos para viver e sobreviver. E a comunidade humana que nos acolhe e nos oferece as bases da ordem social e espiritual que nos mantém coesos como humanos. De nada vale a acumulação de bens materiais, a apropriação individual, a pura e simples competição. O que nos salva como seres vivos e sociais é a solidariedade, a cooperação, a generosidade e o cuidado de uns para com os outros e para com o ambiente.

Estes são os valores humano-espirituais, contrários àqueles da cultura do capital material sobre a qual o Covid-19 representou uma espécie de raio que a reduziu em cacos. Não podemos voltar a ela para não provocar a Mãe Terra e a natureza que, caso não mudarmos nossa relação de respeito e de cuidado, nos enviarão outros vírus, talvez ainda mais letais ou até o derradeiro (The Big One) que dizimaria a espécie humana.

Esse tempo de recolhimento forçado é tempo de reflexão e de conversão ecológica, tempo de decidir que tipo de Casa Comum queremos para o futuro. Temos que crescer em solidariedade e em amor a tudo que é criado,especialmente aos humanos, nossos irmãos e irmãs. Seremos o “o homo solidarius”, o princípio de uma nova era, da biocivilização, na qual a vida em sua diversidade terá centralidade e tudo o mais a serviço dela. A vida vale por si mesma. Juntos na Casa Comum gozaremos da alegre celebração da vida.

O COVID-19: NÃO ADIANTA SÓ LIMAR OS DENTES DO LOBO

Com referência ao Covid-19 tudo se concentrou no vírus e tudo o que lhe pertence, até a vacina buscada desenfreadamente.Tudo isso possui o seu valor e tem que ser feito, mas não com uma visão reducionista como está prevalecendo. Considera-se o vírus em si, isolado, fora de qualquer contexto. Isso não existe nem ciência nem no novo paradigma, cuja afirmação axial é afirmar que tudo está relacionado com tudo e nada existe fora da relação, nem o coronavírus. São pouquíssimos analistas e epidemiólogos que se referem à natureza. E no entanto usando as palavras do físico quântico e um dos mais respeitados ecólogos do mundo Fritjof Capra:

”A pandemia é a resposta biológica do planeta: o coronavírus deve ser visto como uma resposta biológica de Gaia, nosso planeta vivo, à emergência social e ecológica que a humanidade criou para si própria. A pandemia emergiu de um desequilíbrio ecológico e tem consequências dramáticas por conta de desigualdades sociais e econômicas; a justiça social se torna uma questão de vida ou morte durante uma pandemia como a da Covid-19; ela só pode ser superada por meio de ações coletivas e cooperativas”(FSP 12/8/2020).

Vamos dizê-lo diretamente com nossas palavras: o Covid-19 é consequência de um tipo de sociedade que criamos nos últimos séculos e que ganhou hegemonia mundial sob o nome do sistema de produção capitalista com sua versão política, o neoliberalismo e a cultura do capital. A obsessão deste sistema (na China se diz, erroneamente, de socialismo de modo chinês, mas na realidade trata-se de um capitalismo feroz e ditatorial de Estado) é colocar o lucro acima de tudo, acima da vida, acima da natureza, acima de qualquer outra consideração. Seu ideal é um crescimento ilimitado de bens materiais no pressuposto de que existem bens e serviços também ilimitados da Terra. O Papa em sua encíclica “sobre o cuidado da Casa Comum” chama esta pressuposição de ” mentira” (n.106). Um planeta finito não suporta um projeto de crescimento infinito.

Para alcançar este objetivo falso e mentiroso este sistema avança sobre a natureza, desfloresta, contamina solos e ares, devasta inteiros ecossistemas para expandir o agronegócio, extrair riquezas naturais, dispor de mais proteínas animais, mais grãos como a soja e o milho e assim aumentar o lucro pessoal ou corporativo.

Essa agressão sistemática recebeu uma represália da Terra-Gaia: o surgimento do aquecimento global, os eventos extremos e principalmente uma gama diversificada de vírus mortais. Estes vírus estavam tranquilos na natureza, num animal ou nas árvores. A guerra movida contra a natureza destruiu o habitat deles. Para sobreviver, estes vírus passaram a outros animais ou diretamente aos seres humanos.

Eles estão pondo de joelhos o sistema de acumulação infinita e especialmente a máquina de morte que criou com armas químicas, biológicas e nucleares que não prestam para nada no ataque contra o vírus. Esse é mínimo, quase invisível, do tamanho de 125 nanomilímetros.

Resumo da ópera: o vírus vem da natureza (é discutível se vem do morcego, do mamífero pangolim ou do rato bambu, pouco importa, todos eles são seres da natureza). Esse é o verdadeiro contexto do Covid-19: o sistema de produção capitalista mundial e chinês, do qual poucos falam, muito menos as redes sociais e televisivas que acompanham 24 horas por dia o desenrolar da tragédia humanitária de dizima milhares de vida.

Se conseguirmos uma vacina que anule seus efeitos malignos e elimine o Covid-19, estamos seguros de termos eliminado o vírus maior: o sistema, produtor da devastação da natureza e em consequência a liberação de mais vírus? Esta é uma questão central, para não voltarmos simplesmente ao que era antes, horrível para a grande maioria das pessoas e para o equilíbrio da Terra.

Estamos a ponto de ultrapassar as nove fronteiras planetárias, sem as quais a vida não se perpetua no planeta. Quatro delas foram ultrapassadas: o abuso do solo, as mudanças climáticas, a destruição da biodiversidade e a alteração do nitrogênio. Ultrapassando a outras (solidificação dos oceanos, mudança no uso da água, degradação da camada de ozônio, aquecimento global e a poluição química), o sistema-vida entrará em colapso e com ele nossa civilização.

Acresce um dado que deve ser tomado em alta conta: no dia 22 de agosto de 2020 ocorreu a Sobrecarga da Terra (Earth Shoot Day). Isto significa: a dispensa da Terra onde estão guardados todos os insumos renováveis para a reprodução da vida, se esvaziou. Teremos menos solos férteis, menos safras, menos climas adequados, menos água, menos nutrientes, menos ar puro,mais solos com fertilizantes etc. Devido à cultura capitalista de consumo sem limite, já consumimos um planeta inteiro e um pouco mais da metade de outro que não existe (1,6). A Terra entrou no cheque especial e todos os sinais fecharam em vermelho. Pelo fato de não queremos diminuir o consumo (para muitos, suntuoso) mas fazê-lo crescer ainda mais (consumismo), arrancamos à força aquilo que Terra já não tem. A consequência é que mais gente vai se enriquecer com as carências, grande parte da população vai passar fome, não terá acesso aos mínimos da vida. A Terra anão fica indiferente; sente o golpe e se autodefende, nos enviando tufões, tempestades, tsunamis e suas armas: a gama de vírus letais.

O Covid-19 é a resposta da Terra viva e um sinal que ela nos está dando; por isso, desta vez, atacou o planeta inteiro e não apenas partes dele como antes com o ébola, o SARS e outros. Temos que ler o Covid-19 com um dos derradeiros sinais que a Mãe Terra nos está enviando. Ela nos conclama:

“Ou vocês decidem deixar de me superexplorar violentamente ou posso lhes enviar mais vírus, até aquele que os vossos biólogos mais temem o “Big One”, aquele terrível e inatacável por nenhuma vacina ou outro meio; dizimará vocês como espécie humana; considero tal gesto que me faz sofrer muito, como justo castigo que merecem por terem por séculos, ininterruptamente, movido uma guerra contra a vida da natureza e nunca terem amado e cuidado de mim, sua Mãe que sempre lhes deu em abundância tudo o que precisavam para viver; não adianta vocês amolarem os dentes do lobo que é o sistema devastador que criaram; ele não perde com isso a sua ferocidade que é de sua natureza e continuará sua obra de morte, aquilo que vocês mesmos chamaram de antropoceno e de necroceno; vocês têm que fazer, como disse meu enviado e profeta Papa Francisco, “uma radical conversão ecológica”: tomar de mim o que precisam e não mais, fazer que todos tenham o suficiente e decente para viver com um mínimo de dignidade e dar-me tempo para me autorregenerar e poder continuar como Mãe a alimentar a vocês e sobrar ainda para seus descendentes; para isso vocês têm que reduzir o consumo, reusar o que já usaram e reciclar o que já não lhes serve, pois pode ser útil para outra coisa e principalmente reflorestar todo o planeta, pois são as minhas amadas filhs, as árvores que sequestram o carbono que vocês lançaram na atmosfera e pela fotosíntese lhes produz o oxigênio para respirar, mantém sempre a água no solo, um bem vital, comum e insusubstituível e não uma mercadoria, e estabelecerem entre vocês relações de cooperação e não de concorrência, de empatia e não de insensibilidade e superarem as profundas desigualdades sociais que criaram no afã de acumularem em poucas pessoas e deixarem seus irmãos e irmãs passando fome e todo tipo de necessidade até morrerem antes do tempo; assim eu e vocês teremos renovado o contrato natural que vocês romperam, um contrato de mútua relação de cuidado e de colaboraçao e poderemos juntos fazer uma trajetória feliz, sob a luz benfazeja do grande filho, o Sol; criem juizo e sabedoria, porque sem isso irão engrossar o cortejo rumo à sepultura que vocês mesmo cavaram para vocês; lembrem-se de que não existe apenas o capital natural e material que vocês exploraram até quase ao seu esgotamento; existe principalmente o capital humano-espiritual, feito de amor incondicional, de solidariedade, de compaixão e de abertura de uns para com os outros, sem discriminação e abertura a todas as coisas até ao Infinito de mil nomes, Deus que criou tudo com amor,que não odeia nenhum ser que criou e é o apaixonado amante da vida; abram-se a Ele para serem mais humanos, sensíveis, cuidadores da natureza e de mim mesma e saborearem um sentido maior para suas vidas; fazendo isso, teremos um destino comum bem-aventurado e um mundo aberto para um futuro melhor.”

Ou escutamos estas advertâncias da Mãe Terra e da natureza da qual somos parte e criamos as bases de uma civilização centrada não no lucro mas na vida – uma biocivilização – e uma ECOnomia que se alinha à ECOlogia ou então preparemo-nos para o pior.

Dizem por aí que o ser humano aprende da história que não aprende nada da história mas aprende tudo do sofrimento. Todos estamos sofrendo sob o isolamento social e o distanciamento de grupos. Que esse sofrimento não seja em vão. Não seja o sofrimento de um moribundo, mas o sofrimento de um parto de uma Terra, amada e cuidada como Mãe boa e generosa e que é de fato a única Casa Comum que temos, na qual todos podem e devem caber, a natureza incluída.

O BISPO POETA PEDRO CASALDÁLIGA E A TRADIÇÃO DA MÍSTICA POÉTICA ESPANHOLA

O bispo Pedro Casaldáliga (não gostava do título de Dom) foi transfigurado no dia 8 de agosto de 2020 com 92 anos de idade. Catalão, veio ao Brasil e foi sagrado bispo em 1971 para a Prelazia São Felix do Araguaia-MT. Foi pastor exemplar, profeta corajoso, poeta de grande altura e místico dos olhos abertos. Notabilizou-se por ficar decididamente do lado dos indígenas e peões expulsos de suas terras pelo avanço do latifúndio. Sua Carta Pastoral de 1971 "Uma Igreja da Amazônia em Conflito com o Latifúndio e a Marginalização Social" provocou várias ameaças de morte e de expulsão do país pela ditadura militar.

Aqui atenho-me apenas a alguns tópicos de sua poesia e de sua mística que se alinham à grande tradição espanhola de poetas místicos como São João da Cruz e como Santa Tereza d’Avila. Alguns estão em espanhol, outros em português.

Viveu a pobreza evangélica em grau extremo: “Não ter nada/não levar nada/não poder nada/e de passagem, não matar nada/não calar nada./Somente o Evangelho como faca afiada/e o pranto e o riso no olhar/E a mão estendida e apertada/e a vida, a cavalo, dada./E este sol e estes rios e esta terra comprada/como testemunhas da ressurreição já estalada./E mais nada”.

Corajoso, diz ao enfrentar os opressores: “Onde tu dizes lei, eu digo Deus./Onde tu dizes paz, justiça, amor/eu digo Deus./Onde tu dizes Deus/eu digo liberdade, justiça, amor". Estes valores são os verdadeiros nomes de Deus. Ameaçado de morte, escreve uma Cantiga à morte:

“Ronda a morte rondeira/a morte rondeira ronda/já o disse Jesus antes de Lorca. Que me rondarás, morena,/vestida de medo e sombra. Que te rodarei,morena,/vestido de espera e glória. Tu me rondas em silêncio/eu te rondo na canção.Tu me rondas de aguilhão eu te rondo de laurel./Que me rondarás/que te rondarei.Tu para matar/eu para nascer. Que te rondarei/que me rondarás.Tu com guerra e morte/eu com guerra e Paz. Que me rondarás em mim;ou nos pobres de meu Povo/ou nas fomes dos vivos/ou nas contas dos mortos. Me rondarás bala/me rondarás noite/me rondarás asa/me rondarás carro. Me rondarás ponte/me rondarás rio/sequestro, acidente/ tortura, martírio,/temida.Chamada/ vendida/comprada/mentida/sentida/calada/cantada. Que me rondarás/que te rondarei que me rondaremos/todos/eu/e Ele/ Se com Ele morremos/com Ele viveremos/Com Ele morro vivo/por /Ele vivo morto/Tu nos rondarás/mas nós te pegaremos”.

Mas nada teme: Leva tranquilo suas visitas aos pobres. “E chegarei de noite/com o feliz espanto/de ver/por fim/que andei/dia após dia; /sobre a própria palma de Tua Mão”. Um poema que nos remete a São João da Cruz do Cântico Espiritual, um dos mais belos da língua espanhola. “Por aqui ya no hay camino”./Hasta donde no lo habrá?/Si no tenemos su vino/la chicha no servirá”?

“Legarán a ver el dia/quanto con nosostros van?/Como haremos compañia/si no tenemos ni pan?”

Por donde iréis hasta el cielo/si por la tierra no vais?/Para quién vais al Carmelo/Si subis y no bajáis”?

“Sanará viejas feridas/las alcuzas de la ley?/Son banderas o son vidas/las batallas de este Rey”?

“Es le curia o es la calle;/donde grana la misión?/Si dejáis que el Viento calle/ que oiréis en la oración?”

“Si no oís la voz del Viento/qué palabra llevaréis?/Que daréis por sacramento/si no os dais en lo que teneis”?

“Si cedéis ante el imperio/la Esperanza y la Verdad/Quién proclamará el misterio/de la entera Libertad”?

“Si el Señor es Pan y Vino/y el Camino por do vais/Si al andar se hace camino/qué camino esperáis?”

Vivia num “palácio” de madeira de terceira qualidade, totalmente desnudado. Era tão identificado com os indígenas e os peões assassinados, que quis ser enterrado no “Cemitério do Sertão” onde eles, anónimos, jazem: “Para descansar/ quero só esta cruz de pau/como chuva e sol;/estes sete palmos e a Ressurreição”.

E assim imaginou o Grande Encontro com o Amado que serviu nos condenados da terra:

“Ao final do caminho me dirá/

E tu, viveste? Amaste?

E eu, sem dizer nada,

Abrirei o coração cheio de nomes”

O clamor de sua profecia, a total entrega de Pastor aos mais oprimidos, a poesia que nutre nossa beleza e sua mística de olhos abertos e das mãos operosas, permanecerão como um legado perene às comunidades cristãs, ao nosso país índio e caboclo que ele tanto amou e à humanidade inteira.

Edição 159, Junho 2020

A TRANSIÇÃO ECOLÓGICA PARA UMA SOCIEDADE BIOCENTRADA

O ataque do coronavírus contra toda a humanidade nos obrigou a nos concentrar no vírus, no hospital, no paciente, no poder da ciência e da técnica e na corrida desenfreada por uma vacina eficaz e no confinamento e distanciamento social. Tudo isso é indispensável. Mas para apreendermos o significado do coronavírus, precisamos enquadrá-lo em seu devido contexto e não vê-lo isoladamente. Ele expressa a lógica do capitalismo global que, há séculos, conduz uma guerra sistemática contra a natureza e contra a Terra.

O capitalismo neoliberal gravemente ferido

O capitalismo se caracteriza pela exacerbada exploração da força de trabalho, pela utilização dos saberes produzidos pela tecnociência, pela pilhagem dos bens e serviços da natureza, pela colonização e ocupação de todos os territórios acessíveis. Por fim, pela mercantilização de todas as coisas. De uma economia de mercado passamos para uma sociedade de mercado.

Nela, as coisas inalienáveis se transformaram em mercadoria. Karl Marx em sua Miséria da Filosofia de 1874 profetizou: “Tudo o que os homens considerável inalienável, coisas trocadas e dadas mas jamais vendidas….tudo se tornou venal como a virtude, o amor, a opinião, a ciência e a consciência… tudo foi levado ao mercado e ganhou seu preço”. A isso ele denominou o “tempo da corrupção geral e da venalidade universal” (ed.Vozes 2019, p.54-55).É o que estamos vivendo desde o fim da segunda guerra mundial.

O capitalismo quebrou todos os laços com natureza, a transformou num baú de recursos, tidos ilusoriamente ilimitados, em função de um crescimento também tido ilusoriamente ilimitado. Ocorre que um planeta já velho e limitado não suporta um crescimento ilimitado.

Politicamente o neoliberalismo confere centralidade ao lucro, ao mercado, ao Estado mínimo, às privatizações de bens públicos e uma exacerbação da concorrência e do individualismo, a ponto de Reagan e Thatcher dizerem que a sociedade não existe, apenas indivíduos.

A Terra viva, Gaia, um superorganismo que articula todos fatores para continuar viva e produzir e reproduzir sempre todo tipo de vida, começou a reagir e contra-atacar: pelo aquecimento global, pela erosão da biodiversidade, pela desertificação crescente, pelos eventos extremos e pelo envio de suas armas letais que são os vírus e bactérias (gripe suína, aviária, H1N1, zika, chikungunya, SARS, ebola e outros) e agora o covid-19, invisível e letal. Colocou a todos de joelhos, especialmente as potências militaristas cujas armas de destruição em massa (que poderiam destruir toda a vida, várias vezes) se mostraram totalmente supérfluas e ridículas. Agora passamos do capitalismo do desastre para o capitalismo do caos, como diz a crítica do sistema capitalista Naomi Klein.

Uma coisa ficou clara a propósito do covid-19: caiu um meteoro rasante em cima do capitalismo neoliberal desmantelando seu ideário: o lucro, a acumulação privada, a concorrência, o individualismo, o consumismo, o estado mínimo e a privatização da coisa pública e dos commons. Ele foi gravemente ferido. O facto é que produziu demasiada iniquidade humana, social e ecológica, a ponto de pôr em risco o futuro do sistema-vida e do sistema-Terra.

Ele colocou inequivocamente a disjuntiva: vale mais o lucro ou a vida? O que vem antes: salvar a economia ou salvar vidas humanas? Pelo ideário do capitalismo, a disjuntiva seria salvar a economia em primeiro lugar e em seguida vidas humanas. Mas releva reconhecer que é o que nos está salvando é aquilo que inexiste nele: a solidariedade, a cooperação, a interdependência entre todos, a generosidade e o cuidado mútuo pela vida de uns e de outros.

Alternativas para o pós-coronavírus

O grande desafio colocado a todos, a grande interrogação especialmente, aos donos dos grandes conglomerados multinacionais é: Como continuar? Voltar ao que era antes? Recuperar o tempo e o lucros perdidos?

Muitos dizem: voltar simplesmente ao que era antes, seria um suicídio. Pois a Terra poderia novamente contra-atacar com vírus mais violentos e mortais. Cientistas já advertiram que poderemos, dentro de pouco, sofrer com um ataque ainda mais feroz, caso não tenhamos aprendido a lição de cuidar da natureza e de desenvolver uma relação amigável para com a Mãe Terra.

Elenco aqui algumas alternativas, pois os senhores do capital e das finanças estão numa furiosa articulação entre eles para salvaguardar seus interesses, fortunas e poder de pressão política.

A primeira, seria a volta ao sistema capitalista neoliberal extremamente radical. Seria 0,1% da humanidade, bilhardários, que utilizariam a inteligência artificial com capacidade de controlar cada pessoa do planeta, desde sua vida íntima, privada e pública. Seria um despotismo de outra ordem, cibernético, sob a égide do total controle/dominação da vida das populações. Este não aprendeu nada do covid-19, nem incorporou o fator ecológico. Pela pressão geral, talvez assuma uma responsabilidade socio-ecológica para não perder lucros e clientes. Mas seguramente haverá grande resistência e até rebeliões provocadas pela fome e pelo desespero.

A segunda, seria o capitalismo verde que tirou as lições do coronavírus e incorporou o fator ecológico: reflorestar o devastado e conservar ao máximo a natureza. Mas não mudaria o modo de produção e a busca do lucro. O capitalismo verde não discute a desigualdade social perversa e faria de tudo da natureza, ocasião de ganho. Exemplo: não apenas ganhar com o mel das abelhas, mas também sobre sua capacidade de polinizar outras flores. A relação para com a natureza e a Terra continuaria utilitarista e não lhe reconheceria direitos,como declarou a ONU e seu valor intrínseco, independente do ser humano.

A terceira, seria o comunismo de terceira geração que nada teria com as anteriores, colocando os bens e serviços do planeta sob a administração plural e global para redistribui-los equitativamene a todos. Poderia ser possível, mas supõe uma nova consciência ecológica, além de dar centralidade à vida em todas as suas formas. Seria ainda antropocêntrico. É pouco representado, pelos filósofo Zizek e Badiou além da carga negativa das experiências anteriores e mal sucedidas.

A quarta, seria o eco-socialismo com maiores possibilidades. Supõe um contrato social mundial com um centro plural de governo para resolver os problemas globais da humanidade. Os bens e serviços naturais seriam equitativamente distribuídos a todos, num consumo decente e sóbrio que incluiria também toda a comunidade de vida. Ela também precisa de meios de vida e de reprodução como água, climas e nutrientes. Esta alternativa estaria dentro das possibilidades humanas, desde que superasse o sociocentrismo e incorporasse os dados da nova cosmologia e biologia, que consideram a Terra como momento do grande processo cosmogênico, biogênico e antropogênico.

A quinta, seria o bem viver e conviver ensaiada por séculos pelos andinos. Ela é profundamente ecológica, pois considera todos os seres como portadores de direitos. O eixo articulador é a harmonia que começa com a família, com a comunidade, com a natureza, com o inteiro universo, com os ancestrais e com a Divindade. Esta alternativa possui alto grau de utopia. Talvez, quando a humanidade se descobrir como espécie, habitando numa única Casa Comum, teria condições de realizar o bem-viver e o bem conviver.

Conclusão desta parte: ficou evidente que o centro de tudo é a vida, a saúde e os meios de vida e não o lucro e o desenvolvimento (in)sustentável. Vai se exigir mais Estado com mais segurança sanitária para todos, um Estado que satisfaça as demandas coletivas e promova um desenvolvimento que obedeça aos ritmos e aos limites da natureza. Não será a austeridade que vai resolver os problemas sociais que têm beneficiado aos já ricos, e penalizado os mais pobres. A solução se deriva da justiça social e distributiva, onde todos participam do ônus e do bônus da ordem social.

Como o problema do coronavírus foi global, torna-se necessário um contrato social global para implementar soluções globais. Tal transformação demandará uma descolonização de visões de mudno e de conceitos, como a voracidade pelo lucro e o consumismo, que foram inculcados pela cultura do capital. O pós-coronavírus nos obrigará conferir centralidade à natureza e à Terra. Ou salvamos a natureza e a Terra ou engrossaremos o cortejo dos que rumam para o abismo.

Como buscar uma transição ecológica, exigida pela ação mortífera do covid-19? Por onde começar?

Não podemos subestimar o poder do “gênio” do capitalismo neoliberal: ele é capaz de incorporar os dados novos, transformá-los em seu benefício privado e para isso usar todos os meios modernos da robotização, da inteligência artificial com seus bilhões de algoritmos e eventualmente as guerras híbridas. Sem piedade podem conviver, indiferentes, aos milhões e milhões de esfaimados e lançados na miséria.

Por outra parte os que buscam uma transição paradigmática, dentro do qual eu mesmo me situo, devem propor outra forma de habitar a Casa Comum, com uma convivência respeitosa para com a natureza e um cuidado com todos os ecossistemas. Devem gerar na base social outro nível de consciência e novos sujeitos sociais, portadores desta alternativa. Para isso, cabe enfatizar, devemos passar por um processo de descolonização de visões de mundo e de ideias inculcadas pela cultura do capital. Devemos ser anti-sistema e alternativos.

Pressupostos para uma transição bem sucedida

Primeiro, a vulnerabilidade da condição humana, exposta a ser atacada por enfermidades, bactérias e vírus, dos ecossistemas e a alimentação humana. Fundamentalmente dois outros fatores estão na origem da invasão de micro-organismos letais: a excessiva urbanização humana que avançou sobre os espaços da natureza, destruindo os habitats naturais dos vírus e bactérias: saltaram para outros animais ou para o corpo humano. 83% da humanidade vive em cidades. O outro factor, a desflorestação sistemática devida à voracidade do capital que busca riqueza com a monocultura da soja, da cana, do girasool ou com a mineração e a produção de proteínas animais (gado), devastando florestas e desequilibrando o regime de umidade e de chuvas de vastas regiões como é o caso da Amazônia.

Segundo, a interdependência entre todos os seres, especialmente entre os seres humanos. Somos, por natureza, um nó de relação, voltado para todas as direções. A bioantropologia e a psicologia evolutiva deixaram claro que é da essência específica do ser humano a cooperação e a relação de todos com todos. Não existe o gene egoísta, formulado por Dawkins no fins dos anos 60 do século passado sem nenhuma base empírica. Todos os genes se interligam entre si e dentro das células. Todos os seres estão inter-retro-relacionados e ninguém está fora da relação. Nesse sentido o individualismo, valor supremo da cultura do capital, é anti-natural e não possui nenhuma base biológica.

Terceiro, a solidariedade como opção consciente. A solidariedade está na base de nossa humanidade. Os bio-antropólogos nos revelaram que este dado é essencial ao ser humano. Quando nossos ancestrais buscavam seus alimentos, não os comiam sozinhos. Levavam-nos ao grupo e serviam a todos começando com os mais novos, depois com os mais idosos e por fim a todos. Daí surgiu a comensalidade e o sentido de cooperação e solidariedade. Foi a solidariedade que nos permitiu o salto da animalidade para a humanidade. O que valeu ontem, vale também para hoje.

A sociedade vive e subsiste porque seus cidadãos comparecem como seres cooperativos e solidários, superando conflito de interesses para ter uma convivência minimamente humana e pacífica e juntos construir o bem comum. Esta solidariedade não vigora apenas entre os humanos. É uma constante cosmológica: todos os seres convivem, estão envolvidos em redes de de relações de reciprocidade e de solidariedade de forma que todos se entre-ajudam para viver e co-evoluir. Também o mais fraco, com a colaboração dos outros, subsiste e tem o seu lugar no conjunto dos seres e co-evolui.

O sistema do capital não conhece a solidariedade, apenas a competição que produz tensões, rivalidades e verdadeiras destruições de outros concorrentes em função de uma maior acumulação e, se possível, estabelecer o monopólio de um produto ou de uma fórmula científica.

Hoje o maior problema da humanidade não é nem o econômico, nem o político nem o cultural, nem o religioso. É a falta de solidariedade para com outros seres humanos que estão ao nosso lado. No capitalismo ele é visto como um eventual consumidor, não como uma pessoa humana com suas preocupações, suas alegrias e padecimentos.

Foi a solidariedade que nos está salvando face ao ataque do coronavírus, a começar pelos operadores da saúde que generosamente arriscam suas vidas para salvar vidas. Assistimos atitudes de solidariedade em toda a sociedade mas especialmente nas periferias onde as pessoas não têm condições de fazerem o isolamento social e não possuem reservas de alimentação. Muitas famílias que recebiam as cestas básicas, as repartiam entre outros mais necessitados.

Referência especial merece o MST (Movimento dos Sem Terra) que forneceu toneladas alimentação orgânica para os mais vulneráveis. Não dão o que lhes sobra, mas o que têm. Outras ONGs organizaram ações de solidariedade para atenderem aos mais carentes. Mesmo as grande empresas mostraram solidariedade, doando alguns milhões que lhes sobraram para enfrentar o covid-19.

Não basta que a solidariedade seja um gesto pontual. Ele deve ser uma atitude básica, porque é um dado de nossa natureza. Temos que fazer uma opção consciente para sermos solidários a partir dos últimos e invisíveis, para aqueles que não contam para o sistema imperante e são considerados prescindíveis e zeros econômicos. Só assim ela deixa de ser eletiva e engloba a todos, pois todos somos co-iguais e nos unem laços objetivos de fraternidade.

Quarto, o cuidado essencial para com tudo o que vive e existe, especialmente entre os seres humanos. Pertence à essência do humano, o cuidado sem o qual nenhum ser vivo subsistiria. Nós estamos vivos porque tivemos o infinito cuidado de nossas mães. Deixados no berço, não saberíamos como buscar nosso alimento e dentro de pouco tempo morreríamos.

Ademais cuidado é além disso uma constante cosmológica como o mostraram Stephan Hawking e Brian Swimme entre outros: as quatro forças que sustentam o universo (a gravitacional, a eletromagnética, a nuclear franca e forte) agem sinergeticamente com extremo cuidado sem o qual não estaríamos aqui refletindo sobre estas coisas.

O cuidado representa uma relação amiga da vida, protetora de todos os seres pois os vê como um valor em si mesmo, independente do uso humano. Foi a falta de cuidado para com a natureza, devastando-a, que os vírus perderam seu habitat, conservado em milhares de anos e passaram a outro animal ou ao ser humano para poder sobreviver devorando nossas células. O ecofeminismo trouxe uma expressiva contribuição à preservação da vida e da natureza com a ética do cuidado, desenvolvida por elas, pois o cuidado é de todos os humanos, mas ganha especial densidade nas mulheres

A transição para a uma civilização biocentrada

Toda crise faz pensar e projetar novas janelas de possibilidades. O coronavírus nos deu esta lição: a Terra, a natureza, a vida, em toda sua diversidade, a interdependência, a cooperação e a solidariedade devem possuir a centralidade na nova civilização, se não quisermos ser mais atacados por vírus letais.

Parto da seguinte interpretação: não só nós agredimos por séculos a natureza e a Mãe Terra. Agora é a Terra ferida e a natureza devastada que estão nos contra-atacando e fazendo sua represália. São entes vivos e como vivos sentem e reagem às agressões.

A multiplicação de sinais que a Terra nos enviou, a começar pelo aquecimento global, a erosão da biodiversidade na ordem de 70-100 mil espécies por ano (estamos dentro da sexta extinção em massa na era do antropoceno e do necroceno) e outros eventos extremos, devem ser tomados absolutamente a sério e interpretados. Ou nós mudamos nossa relação para com a Terra e a natureza, num sentido de sinergia, de cuidado e de respeito ou a Terra pode não nos mais querer sobre sua superfície. Desta vez não há uma arca de Noé que salva alguns e deixa perecer os outros. Ou nos salvamos todos ou engrossaremos o cortejo daqueles que rumam para a sua própria sepultura.

Quase todas as análises do covid-19 focaram a técnica, a medicina, a vacina salvadora, o isolamento social, o distanciamento e o uso de máscaras para nos proteger e não contaminar os outros. Raramente se falou de natureza, pois, o vírus veio da natureza. Por que ele passou da natureza a nós? Já o tentamos explicar anteriormente.

A transição de uma sociedade capitalista de superprodução bens materiais para uma sociedade de sustentação de toda a vida com valores humano-espirituais como a solidariedade, a compaixão, a interdependência, a justa medida, o respeito e o cuidado e, não em último lugar, o o amor, não se fará de um dia para o outro.

Será um processo difícil que exige, nas palavras do Papa Francisco na encíclica “sobre o Cuidado da Casa Comum” uma “radical conversão ecológica”. Vale dizer, devemos introduzir relações de cuidado, de proteção e de cooperação. Um desenvolvimento feito com a naturezas e não contra a natureza.

O sistema imperante pode conhecer uma longa agonia. Mas não terá futuro. Há uma grande acumulação de crítica e de práticas humanas que sempre resistiram à exploração capitalista. Segundo minha opinião, quem o vencerá definitivamente nem seremos só nós, mas a própria Terra, negando-lhe as condições de sua reprodução pelos limites dos bens e serviços da Terra superpovoada.

O novo paradigma cosmológico e biológico

Para uma sociedade pós-Covid-19 impõe-se a assunção das contribuições do novo paradigma cosmológico que já possui um século de existência. Lamentavelmente até agora não conseguiu conquistar a consciência coletiva nem a inteligência acadêmica, muito menos a cabeça dos “decisons makers” políticos parte de que tudo se originou a partir do big bang, ocorrido há 13,7 bihões de anos. De sua explosão surgiram as grandes estrelas vermelhas e com a explosão destas, as galáxias, as estrelas, os planetas, a Terra e e nós mesmos. Somos todos feitos do pó cósmico.

A Terra que já tem 4,3 bilhões de anos e a vida cerca de 3,8 bilhões de anos são vivos. A Terra, isso é um dado de ciência já aceito pela comunidade científica, não só possui viva sobre ela mas é viva e produz toda sorte de vidas. O ser humano que surgiu já há uns 10 milhões de anos há 100 mil anos como sapiens sapiens é a porção da Terra que num momento de alta complexidade começou a sentir, a pensar, a amar e a cuidar. Por isso homem vem de húmus, terra boa.

Inicialmente possuía uma relação de convivência com a natureza, depois passou de intervenção mediante a agricultura de irrigação e nos últimos séculos de agressão sistemática mediante a tecnociência. Essa agressão foi levada a todas as frentes a ponto de colocar em risco o equilíbrio da Terra e até uma ameaça de auto-destruição da espécie humana com armas nucleares, químicas e biológicas.

Essa relação de agressão subjaz à atual crise sanitária. Levada avante, a agressão poderá nos trazer crises mais agudas até aquilo que os biólogos temem The Next Big One: aquele próximo e grande vírus, inatacável e fatal que poderá levar a espécie humana a desaparecer da face da Terra.

Para obviar este possível armagedom ecológico, urge renovar o contrato natural violado com a Terra viva: ela nos dá tudo o que precisamos e garante a sustentabilidade dos ecossistemas. Nos, contratualmente, teríamos que lhe devolver cuidado, respeito a seus ciclos e lhe damos tempo para regenerar o que lhe tiramos. Este contrato natural foi rompido por aquele estrato da humanidade (e sabemos quem é) que explora os bens e serviços, desfloresta, contamina as águas e os mares.

É decisivo renovar o contrato natural e articulá-lo com o contrato social: uma sociedade que se sente parte da Terra e da natureza, que assume coletivamente a preservação de toda vida, mantém em pé suas florestas que garante a água necessária para todo tipo de vida e regenera o que foi degradado e fortalece o que já é preservado.

A importância da região: o bioregionalismo

A ONU reconheceu a Terra como Mãe Terra e a natureza como titulares de direitos. Isso implica que a democracia deverá incorporar como novos cidadãos, as florestas, as montanhas, os rios, as paisagens. A democracia seria socio-ecológica. A vida será o farol orientador e a política e a economia estarão a serviço, não da acumulação e do mercado mas da vida. O consumo, para que seja universalizado, será sóbrio, frugal e solidário. Destarte, a sociedade seria suficiente e decentemente abastecida. O acento não se dará à planetização econômico-financeira que seguirá o seu curso, mas à região. A ponta mais avançada da reflexão ecológica atualmente se realiza em torno do bio-regionalismo.

Tomar a região, não como vem definida arbitrariamente pela administração geográfica mas com a configuração que a natureza fez, com seus rios, montanhas, floresta, planícies, fauna e flora e especialmente com os habitantes que aí moram. Na bio-região poder-se-á verdadeiramente criar um desevolvimento sustentável que não seja meramente retórico. As empresas serão preferentemente médias e pequenas, dar-se-á preferência à agroecologia, evitar-se-ão os transportes para regiões distantes, a cultura será o cimento de coesão: as festas, as tradições, a memória das pessoas notáveis, a presença das igrejas ou das religiões, os vários tipos de escolas e outros meios modernos de difusão de conhecimento e de encontros entre as pessoas. A Terra será como um mosaico feito de distintas peças cm cores diferentes: são as distintas regiões e os ecossistemas, diversos e singulares, mas todos compondo um só mosaico, a Terra.

A transição se fará por processos que vão crescendo e se articulando a nível nacional, regional e mundial, fazendo crescer a consciência de nossa responsabilidade coletiva de salvarmos a Casa Comum e tudo o que a ela pertence.

A acumulação de nova consciência permitirá um salto para um outro nível em que seremos amigos da vida, abraçaremos cada ser pois todos possuímos o mesmo código genético de base, desde a bactéria originária, passando pelas grandes florestas, os dinossauros, os cavalos, os beija-flores e nós mesmo. Somos construídos por 20 aminoácidos e por 4 bases nitrogenadas ou fosfatadas. Quer dizer, somos todos parentes uns dos outros numa real fraternidade terrenal. Será a civilização “da felicidade possível” e da “alegre celebração da vida”.

Brasil, nosso sonho bom: a sua refundação

O Brasil, por suas riquezas ecológicas, geográficas e populacionais, tem todas as condições de começar a colocar os fundamentos de uma civilização biocentrada.Até hoje vivemos na dependências de outros centros hegemônicos. Está madurando, especialmente nas bases, a ideia da refundação de um outro Brasil.

Três pilares podem dar corpo a esse sonho, por mim exposto com mais detalhe no livro: Brasil: concluir a refundação ou prolongar a dependência”(Vozes 2019). Sem entrar em detalhes direi:

A natureza, das mais ricas do planeta em biodiversidade, em florestas úmidas e em água. Podemos ser a mesa posta para as fomes e sedes do mundo inteiro.

A cultura que configura a relação do ser humano com a natureza e com outros seres humanos, diversa, rica em criatividade nas artes, na música, na arquitetura,nas danças e em certos ramos da ciência, não obstante o racismo visceral e as ameaças às culturas originárias e outras exclusões sociais, reforçadas pela atual política de ultra-direita e de viés fascitóide.

O povo brasileiro ainda em fazimento, plasmado por gentes que vieram de 60 países diferentes. A cultura multiétnica e multireligiosa, a cultura relacional, o senso lúdico, a hospitalidade, a alegria de viver e sua criatividade são características entre outras de nosso povo.

O Brasil é a maior nação neolatina do mundo e temos tudo para ser a maior civilização dos trópicos. Para essa utopia viável, temos que retrabalhar no consciente e no inconsciente coletivo, as sombras que nos pesam fortemente: do etnocídio indígena, da colonização, da escravidão e da dominação das oligarquias, herdeiras da Casa Grande e de um governo atual anti-Brasil, anti-vida e anti-povo com traços claros de despotismo que pretende conduzir o país a fases superadas pela humanidade, ao ante iluminismo, ao mundo do atraso, avesso ao saber e aos valores civilizatórios que são já bens comuns das sociedades mundiais.

Para terminar, tomo como referência a proposta do Papa Francisco, quiçá o maior líder ético-político da humanidade. Na reunião com dezenas de movimentos sociais populares em 2015 ao visitar a Bolívia. Na cidade de Santa Cruz de la Sierra disse:

Vocês têm que garantir os três Ts :Terra para morar nela e trabalhar. Teto para morar porque não são animais que vivem ao relento. Trabalho com o qual vocês se autorealizam e conquistam tudo o que precisam.

Em seguida continuou: “Não esperem nada de cima. Pois vem sempre mais do mesmo e geralmente ainda pior. Sejam vocês mesmos os protagonistas de um novo tipo de mundo, de uma nova democracia participativa e popular, com uma economia solidária, com uma agroecologia com produtos sãos e livres de transgênicos. Sejam os poetas da nova sociedade. Lutem para que a ciência sirva à vida e não ao mercado. Empenhem-se pela justiça social sem a qual não há paz. Por fim, cuidem da Mãe Terra sem a qual nenhum projeto será possível.

Aqui estamos diante de um programa mínimo para um novo tipo de sociedade e de humanidade. O futuro nos assinala que não iremos ao encontro do capitalismo neoliberal, embora teime em se impôr. Ele não deu certo: acumulou demasiada riqueza em poucas mãos à custa do sacrifício de milhões e milhões vivendo em condições sub-humanas e junto a isso devastou a maioria dos ecossistemas e colocou a Terra numa emergência ecológica.

A travessia para uma sociedade ecologicamente sustentada com uma cultura, uma política e economia compatíveis é a grande utopia viável da humanidade e dos grupos progressistas do Brasil.

Cremos e esperamos que esse sonho não seja uma fantasmagoria, mas uma realidade possível que se adequa à lógica do universo, feito não pela soma de seus corpos celestes, mas pelo conjunto das redes de suas relações dentro das quais nós também estamos envolvidos. Para citar Paulo Freire, diria: precisamos construir uma eco-sociedade na qual não seja tão difícil o amor. O Brasil, libertado de suas sombras históricas, pode ser um embrião da nova sociedade, una, diversa dentro da única Casa Comum, a Mãe Terra.

MEDITAÇÃO DA LUZ: O CAMINHO DA SIMPLICIDADE

A grande maioria está atendendo às recomendações oficiais de recolhimento social, impedindo desta forma a disseminação do covid-19.

Podem-se fazer muitas coisas nesse recolhimento forçado: uma revisão de vida; que lições tirar para o futuro; como mudar para melhor; ver um filme, etc.

Mas oferece-se também a oportunidade de fazer algum exercício de meditação. Não somente para as pessoas religiosas mas também para aquelas que, sem ligação à alguma religião, cultivam valores como o amor, a cooperação, a empatia e a compaixão.

Ofereço aqui um método que eu chamo “Meditação da Luz: o caminho da simplicidade”. Ele tem uma alta ancestralidade no Oriente e no Ocidente. Tem a ver com o espírito e todo o corpo humano mas em particular com o cérebro, a sede de nossa consciência e inteligência.

Não é o lugar aqui para discutirmos as três sobreposições do cérebro: o reptiliano que diz respeito ao nossos movimento instintivos; o límbico, aos sentimentos, e o neo-cortical, ao raciocínio, à lógica e à linguagem.

O cérebro humano e seus dois hemisférios

Tratemos, sucintamente, do cérebro que possui uma forma de concha com dois hemisférios:

O esquerdo que responde pela análise, pelo discurso lógico, pelos conceitos, pelos números e pelas conexões causais.

O direito responde pela síntese, pela criatividade, pela intuição, pelo lado simbólico das coisas e dos fatos e pela percepção de uma totalidade.

No meio está o corpo caloso que separa e ao mesmo tempo une os dois hemisférios.

Outro ponto importante do cérebro é o lobo frontal, sede da mente humana. Há muitas teorias sobre a relação entre cérebro e mente. Vários neurocientistas sustentam que a mente é o nome que damos à realidades intangíveis, elaboradas no cérebro, tais como a vida afetiva, o amor, a honestidade, a arte, a fé, a religião, a reverência e a experiência do numinoso e do sagrado.

A mente espiritual e o Ponto Deus no cérebro

Outro ponto a ser referido é a mente espiritual. A antropologia cultural se deu conta de que em todas as culturas surgem sempre duas constantes: a lei moral na consciência e a percepção de uma Realidade que transcende o mundo espaçotemporal e que concerne ao universo e ao sentido da vida. Repousam em alguma estrutura neuronal, mas não são neurônios. São de outra natureza até agora inexplicável. Vários neurocientistas a chamaram de mente mística (mystical mind). Prefiro uma expressão mais modesta: mente espiritual.

Aprofundando a mente espiritual outros neurocientistas e neurolinguistas chegaram a identificar o que chamaram o ponto Deus no cérebro. Constataram que sempre que o ser humano se interroga existencialmente sobre o sentido do Todo, do universo, de sua vida e pensa seriamente sobre uma Ultima Realidade, produz-se uma descomunal aceleração dos neurônios do lobo frontal. Aponta para um órgão interior de qualidade especial. Disseram que assim como temos órgãos externos, os olhos, os ouvidos, o tato temos também um órgão interno, uma vantagem de nossa evolução humana. Deram-lhe o nome de o ponto Deus no cérebro. Mediante esse órgão-ponto captamos Aquela Realidade que tudo unifica e sustenta, desde o universo estrelado, a nossa Terra e a nós mesmos: a Fonte que faz ser tudo o que é. Cada cultura dá-lhe um nome: o Grande Espírito dos indígenas, Alá, Shiva, Tao, Javé, Olorum dos nagô e nós simplesmente de Deus (que em sânscrito significa o Gerador da luz, donde vem também a palavra dia).

A natureza misteriosa da luz

Antes de nos focarmos na Meditação da Luz, cabe uma palavra sobre a natureza da luz. Ela é tida até hoje como um fenômeno tão singular para a ciência, como a física quântica e a astrofísica que preferiu-se dizer: a entendemos melhor se a consideramos uma partícula material (que pode ser barrada por uma placa de chumbo) e simultaneamente uma onda energética que percorre o universo à velocidade de 300 mil km por segundo. Biólogos chegaram a discernir que todos os organismos vivos emitem luz, os biofótons, invisíveis a nós mas captáveis por aparelhos sofisticados. A sede desta bioluz estaria nas células de nosso DNA. Portanto, somos seres de luz Ademais a luz é um dos maiores símbolos humanos e o nome que se dá à Divindade ou a Deus como Luz infinita e eterna.

Meditação da luz: caminho oriental e ocidental

Vamos finalmente ao tema: Como é essa meditação da luz? Fundamentalmente tanto o Oriente quanto o Ocidente comungam da mesma intuição: do Infinito nos vem um raio sagrado de Luz que incide em nossa cabeça (corpo caloso), penetra todo o nosso ser (os chacras), ativa os biofótons, sana nossas feridas, nos enleva e nos transforma também em seres de luz.

Conhecido é o método budista em três passos: diante de uma vela acesa, se concentra e diz: eu estou na luz; a luz está em mim; eu sou luz. Essa luz se expande do corpo para tudo o que está ao redor, para Terra, para as galáxias mais distantes. Permite uma experiência de não dualidade: tudo é um e eu estou no Todo.

O caminho ocidental se parece com o oriental. Era praticado pelos primeiros cristãos em Alexandria no Egito que professavam ser Deus luz, Jesus, luz do mundo e o Espírito Santo, a “Lux Beatissima”

Sigam comigo os seguintes passos: colocar-se num lugar cômodo, como ao pé da cama, ao levantar ou ao deitar ou num canto mas recolhido. Concentrar-se para abrir o corpo caloso e invocar o raio da Luz Beatíssima que provém do infinito do céu.

Esse raio de Luz sagrada, incidindo, já permite a união dos dois hemisférios do cérebro, produzindo grande equilíbrio entre razão e sentimento. Em seguida, deixe que essa Luz divina comece lentamente a penetrar todo o seu corpo: o cérebro, as vias respiratórias, os pulmões, o coração, o aparelho digestivo, os órgãos genitais, as pernas e os pés. Pare-a especialmente nas partes que estão doentes e produzem dor. Já que a Luz desceu, faça-a voltar, penetrando novamente todo o seu ser e seus órgãos.

Benefícios da meditação da luz

Antes de mais nada, começa a sentir que essa Luz divina potencia suas energias, lhe traz leveza a todo o seu ser corporal e espiritual. Dê-se um pouco de tempo, para curtir essa Energia divina que o energiza totalmente. Por fim, agradeça ao Espírito de Luz que é o Espírito Santo. Lentamente seu corpo caloso se fecha e vc sai mais espiritualizado, mais humanizado e com mais coragem para enfrentar o peso da vida.

Você pode fazer esse exercício mentalmente no ônibus, ao parar no semáforo, na fábrica, no escritório ou em qualquer tempinho que tenha no dia.

Todos os que se acostumaram a fazer esse tipo de meditação – via da simplicidade – testemunham como ficam mais resistentes na saúde, ganham mais clareza nas questões complicadas e as ideias fixas e os preconceitos os tornam mais superáveis, enfim você se torna um ser melhor e sua luz irradia sobre outros. Tente fazer essa meditação simples e verá seu valor corporal e espiritual.

Edição 158, Maio 2020

UMA LEITURA DE CEGO DA ENCÍCLICA ECOLÓGICA LAUDATO SI

Um cego capta com as mãos ou com seu bastão as coisas mais relevantes que encontra pela frente. Pois assim tentaremos fazer uma leitura de cego acerca da encíclica ecológica do Papa Francisco, Laudato Si: sobre o cuidado da Casa Comum, cujos 5 anos (24/05/2015) acabamos de celebrar. Quais são seus pontos relevantes?

Antes de tudo, não se trata de uma encíclica verde que se restringe ao ambiente, predominante nos debates atuais. Propõe uma ecologia integral que abarca o ambiental, o social, o político, o cultural, o cotidiano e o espiritual.

Quer ser uma resposta à generalizada crise ecológica mundial porque “nunca maltratamos e ferimos a nossa Casa Comum, como nos últimos dois séculos”(n.53); fizemos da Casa Comum “um imenso depósito de lixo (n.21). Mais ainda:”As previsões catastróficas já não se podem olhar com desprezo e ironia… nosso estilo de vida insustentável só pode desembocar em catástrofes”(n.161). A exigência é de “uma conversão ecológica global”(n.5;216)) que implica “novos estilos de vida”(repete 35 vezes) e “converter o modelo de desenvolvimento global”(n.194).

Chegamos a esta emergência crítica por causa de nosso exacerbado antropocentrismo, pelo qual o ser humano”se constitui um dominador absoluto”(n.117) sobre a natureza, desgarrado dela, esquecendo que “tudo está interligado e por isso ele “não pode se declarar autônomo da realidade”(n.117;120). Utilizou a tecnociência como instrumento para forjar “um crescimento infinito…o que supõe a mentira da disponibilidade infinita dos bens do planeta que leva a espremê-lo até ao limite para além dele”(n.106).

Na parte teórica, a encíclica incorpora um dado da nova cosmologia e da física quântica: que tudo no universo é relação. Como num ritornello insiste que “todos somos interdependentes, tudo está interligado e tudo está relacionado com tudo “(cf. nn.16, 86,117,120) o que confere grande coerência ao texto.

Outra categoria que constitui um verdadeiro paradigma é o do cuidado. Este, na verdade, é o verdadeiro título da encíclica. O cuidado, por ser da essência da vida e do ser humano, segundo a fábula romana de Higino, tão bem explorada por Martin Heidegger em Ser e Tempo é recorrente em todo o texto da encíclica. Vê em São Francisco “o exemplo por excelência do cuidado”(n.10).“Coração universal…para ele qualquer criatura era uma irmã unida a ele por laços de carinho, sentindo-se chamado a cuidar de tudo o que existe”(n.11).

É interessante observar que o Papa Francisco une a inteligência intelectual, apoiado nos dados da ciência, à inteligência sensível ou cordial. Devemos ler com emoção os números e relacionarmo-nos com a natureza “com admiração e encanto (n.11)…prestar atenção à beleza e amá-la pois nos ajuda a sair do pragmatismo utilitarista”(n.215). Importa “ouvir tanto o grito da Terra quanto o grito dos pobres”(n.49).

Consideremos este texto, carregado de inteligência. emocional:”Tudo está relacionado e todos nós, seres humanos, caminhamos juntos, como irmãos e irmãs, numa peregrinação maravilhosa, entrelaçados pelo amor que Deus tem a cada uma de suas criaturas e que nos une também com terna afeição ao irmão Sol, à irmã Lua, ao irmão rio, e à Mãe Terra”(n.92). Importa “incentivar uma cultura do cuidado que permeie toda a sociedade”(n.231), pois assim “podemos falar de uma fraternidade universal”(228).

Por fim, é essencial à ecologia integral a espiritualidade. Não se trata de derivá-la de ideias, mas “das motivações que dão origem “a uma espiritualidade para alimentar a paixão pelo cuidado do mundo…Não é possível empenhar-se em coisas grandes, apenas com doutrinas sem uma mística que nos anima, sem uma moção interior que impele, motiva, encoraja e dá sentido à ação pessoal e comunitária”(n.216). Novamente evoca aqui a espiritualidade cósmica de São Francisco (n.218).

Concluindo, releva enfatizar que com esta encíclica, ampla e detalhada, o Papa Francisco se coloca, como notáveis ecologistas o reconheceram, na vanguarda da discussão ecológica mundial. Em muitas entrevistas, referiu-se aos riscos que corre nossa Casa Comum. Mas sua mensagem é de esperança:”caminhemos cantando, que as nossas lutas e a nossa preocupação por este planeta, não nos tirem a alegria da esperança”(n.244).

COVID-19: OU COOPERAMOS OU NÃO TEREMOS FUTURO NENHUM

Uma pergunta sempre esteve presente nas buscas humana: qual é a nossa essência específica? A história conhece inumeráveis respostas. Mas a mais contundente, convergência de várias ciências contemporâneas como a nova biologia evolucionária, a genética, as neurociências, a psicologia evolutiva, a cosmologia, a ecologia, a femenologia e outras é essa: a cooperação.

Michael Tomasello, considerado genial na área da psicologia do desenvolvimento de crianças de 1-3 anos, sem intervenção invasiva, reuniu num volume as melhores pesquisas na área sob o título :”Por que nós cooperamos” (Warum wir kooperieren, Berlim, Suhrkamp 2010). Em seu ensaio de abertura afirma que a essência do humano está no “altruismo” e na “cooperação”. “No altruismo um se sacrifica pelo outro. Na cooperação muitos se unem em vista de um bem comum” (p.14).

Uma das maiores especialistas em psicologia e evolução da Universidade de Stanford, Carol S. Dweck, afirma: “mais que a grandeza excepcional de nosso cérebro e de nossa imensa capacidade de pensar, a nossa natureza essencial é esta: a aptidão de sermos seres de cooperação e de relação (Por que cooperamos, op.cit 95).

Outra, da mesma ciência, famosa por suas pesquisas empíricas, Elizabeth S. Spelke, de Harvard, assevera: nossa marca, por natureza, diferencial de qualquer outra espécie superior como a dos primatas (dos quais somos um bifurcação) é “a nossa intencionalidade compartida” que propicia todas as formas de cooperação, de comunicação e de participação de tarefas e de objetivos comuns”(op.cit. 112). Ela caminha junto com a linguagem que é, essencialmente, social e cooperativa, traço específico dos humanos, como o entenderam os biólogos chilenos H.Maturana e F. Varela.

Outro, este neurobiólogo do conhecido Instituto Max Plank, Joachim Bauer, em seu livro “O gen cooperativo”(Das kooperative Gen, Hoffman und Campe,Hamburgo 2008) e especialmente no livro “Princípio humanidade: por que nós, por natureza, cooperamos”(2006) sustenta a mesma tese: o ser humano é essencialmente um ser de cooperação. Refuta com veemência o zoólogo inglês Richard Dawkins, autor do livro muito difundido: “O gene egoísta”(1976/2004). Afirma “que sua tese não possui nenhuma base empírica; ao contrário, representa o correlato do capitalismo dominante que assim parece legitimá-lo” (Op.cit.153). Critica também a superficialidade de outro livro “Deus, uma ilusão”(2007).

No entanto, diz Bauer, é cientificamente verificado, que “os genes não são autônomos e de modo algum ‘egoístas’mas se agregam com outros nas células da totalidade do organismo”(O gene cooperativo,184). Afirma mais ainda:”Todos os sistemas vivos se caracterizam pela permanente cooperação e comunicação molecular para dentro e para fora”(Op.cit.183).

É notório pela bio-antropologia que a espécie humana deixou para trás os primatas e virou ser humano, quando começou,de forma cooperativa, a recoletar e a comer o que recolhia.

Uma das teses axiais da física quântica (W.Heisenberg) e da cosmogênese (B.Swimme) consiste em afirmar a cooperação e a relação de todos com todos. Tudo é relacionado e nada existe fora da relação. Todos cooperam uns com os outros para coevoluirem. Talvez a formulação mais bela foi encontrada pelo Papa Francisco em sua encíclica Laudato Sì: sobre o cuidado da Casa Comum: “Tudo está relacionado, e todos nós, seres humanos, caminhamos juntos como irmãos e irmãs, numa peregrinação maravilhosa…que nos une também, com terna afeição, ao irmão sol, à irmã lua, ao irmão rio e à mãe Terra”(n.92).

Um brasileiro, professor de filosofia da ciência na UFES em Vitória, Maurício Abdala, escreveu um convincente livro sobre “O princípio cooperação” na linha das reflexões acima referidas,especialmenet baseado na biologia.

Por que dizemos tudo isso? Para mostrar quão anti-natural e perverso é o sistema imperante do capital com seu individualismo e sua competição sem nenhuma cooperação.É ele que está conduzindo a humanidade a um impasse fatal. Por essa lógica, o coronavírus nos teria contaminado e exterminado a todos. Foi a cooperação e a solidariedade de todos com todos que nos estão salvando.

De aqui por diante devemos decidir: Ou obedecemos à nossa natureza essencial, a cooperação, no nível pessoal, local, regional, nacional e mundial, mudando a forma de habitar a Casa Comum ou comecemos a nos preparar para o pior, num caminho sem retorno.

Se não ouvirmos esta lição que o covid-19 nos está dando e voltarmos, com mais fúria ainda, ao que era antes, para recuperar o atraso, podemos estar na contagem regressiva de uma catástrofe ainda mais letal. Quem nos garante que não poderá ser o temido NBO (Next Big One), aquele próximo e derradeiro vírus avassalador e inatacável que porá fim à nossa espécie? Grandes nomes da ciência como Jacquard, de Duve, Rees, Lovelock e Chomsky entre outros nos advertem sobre esta emergência trágica.

Lembro apenas as derradeiras palavras do velho Martin Heidegger em sua última entrevista ao Der Spiegel a ser publicada 15 anos após a sua morte, referindo-se à lógica suicida de nosso projeto tecnico-científico: “Nur noch ein Gott kann uns retten” = “Somente um Deus nos poderá salvar”.

É o que espero e creio, pois, Deus se revelou como “o apaixonado amante da vida”(Sabedoria 11,24).

PÓS-COVID-19: QUE VISÃO DE MUNDO E QUE VALORES DESENVOLVER?

Causa séria preocupação o ataque sistêmico que a natureza mediante um pequeníssimo e invisível vírus está movendo contra a humanidade, levando milhares à morte. Entretanto, fundamental é também a nossa reação frente à pandemia. Que lição ela nos passa? Que visão de mundo e que espécie de valores ela nos leva a desenvolver? Seguramente devemos aprender tudo o que devíamos ter aprendido e não aprendemos. Devíamos ter aprendido que somos parte dela e não os seus “senhores e donos” (Descartes). Vigora uma conexão umbilical entre ser humano e natureza. Viemos do mesmo pó cósmico como todos os demais seres e somos o elo consciente da corrente da vida.

A erosão da imagem do “pequeno deus na terra”

O mito dos modernos de que nós somos “o pequeno deus” na Terra e que podemos dispor dela ao nosso bel-prazer pois ela é inerte e sem propósito foi desfeito. Um dos pais do método científico moderno Francis Bacon dizia que devemos tratar a natureza como os esbirros da inquisição tratam suas vítimas, torturando-as até que ela entreguem todos os seus segredos .

Pela tecnociência levamos este método até o extremo alcançando o coração da matéria e da vida. Isso se implementou com um furor inaudito ao ponto de termos destruído a sustentabilidade da natureza e assim do planeta e da vida. Desta forma, rompemos o pacto natural que existe com a Terra viva: ela nos dá tudo o que precisamos para viver e em contrapartida nós devíamos cuidá-la, preservar seus bens e serviços e dar-lhe descanso para repor tudo o que lhe tiramos para a nossa vida e progresso. Nada disso fizemos.

Por não termos observado o preceito bíblico de “guardar e cuidar do Jardim do Éden(da Terra: Gn 2,15) e ameaçado as bases ecológicas que sustentam toda vida, ela nos contra-atacou com uma arma poderosa,o coronavírus 19. Para enfrentá-lo retornamos ao método da Idade Média que superou suas pandemias mediante o isolamento social rigoroso. Para fazer o povo, amedrontado, sair à rua, na prefeitura de Munique (Marienpltatz) se construiu um engenhoso relógio com dançarinos e cucos para todos acorrerem para apreciá-lo o que é feito até os dias atuais.

A pandemia que é mais que uma crise mas uma exigência de mudança de visão de mundo e de incorporação de novos valores nos coloca esta questão: queremos verdadeiramente evitar que a natureza nos envie vírus ainda mais letais que até podem dizimar a espécie humana? Esta seria uma entre as dez que desaparecem definitivamente a cada dia. Queremos correr esse risco?

A inconsciência generalizada do fator ecológico

Já em 1962 a bióloga e escritora norte-americana Rachel Carson, autora de “Primavera Silenciosa”(Silient Spring) advertiu:” É pouco provável que as gerações futuras tolerem nossa falta de preocupação prudente pela integridade do mundo natural que sustenta toda a vida…A questão consiste em saber se alguma civilização pode levar adiante uma guerra sem tréguas contra a vida, sem se destruir a si mesma e sem perder o direito de ser chamada de civilização”.

Parece uma profecia da situação que estamos vivendo a nível planetário. Temos a impressão de que a maioria da humanidade e mesmo os líderes políticos não demonstram uma consciência suficiente dos perigos que estamos correndo com o aquecimento global, com a demasiada proximidade de nossas cidades e principalmente do agronegócio massivo da natureza virgem e das florestas sendo desmatadas. Festa forma destruímos os habitats dos milhões de vírus e bactérias que acabam se transferindo para os seres humanos.

É imperioso que abandonemos o velho paradigma da vontade de poder e de dominação sobre tudo (o punho cerrado) na direção de um paradigma do cuidado de tudo o que existe e vive (a mão estendida) e da corresponsabilidade coletiva. Escreveu Eric Hobsbown na última frase de seu livro A era dos extremos (1995):

”Uma coisa é clara. Se a humanidade quer ter um futuro reconhecível, não pode ser pelo prolongamento do passado ou do presente. Se tentarmos construir o terceiro milênio nesta base, vamos fracassar. O preço do fracasso, ou seja, a alternativa para a mudança da sociedade é a escuridão” (p.506).

Isto significa que não podemos voltar simplesmente à situação anterior ao coronavírus.Nem pensar numa volta ao passado pré-iluminismo como quer o atual governo brasileiro e outros de extrema-direita.

O pós-pandemia: o novo ou a radicalização do antes?

Não são poucos os analistas que prognosticam que o pós-pandemia poderá significar uma radicalização extrema da situação anterior, uma volta ao sistema do capital e ao neoliberalismo, procurando dominar o mundo com o uso da vigilância digital (big data) sobre cada pessoa do planeta, coisa aliás que já está em curso na China e nos USA. Aí entraríamos na era das trevas, com o risco, aventado por Raquel Carson da nossa autodestruição. Daí a exigência de uma radical conversão ecológica, cuja centralidade deverá ser ocupada pela Terra, pela vida e pela civilização humana: uma biocivilização. Caso quisermos sobreviver.

Sigmund Freud respondendo a uma carta de Albert Einstein de 1932 que perguntava se era possível superar a violência e a guerra, deixava aberta a questão. Respondeu ponderando que não podia afirmar qual instinto iria prevalecer: se o instinto de morte (thánatos) ou se o instinto de vida (éros). Eles estão sempre se tensionando sem termos a certeza de quem no final triunfará. Termina resignado:”Esfaimados pensamos no moinho que tão lentamente mói que poderemos morrer de fome antes de receber a farinha”.

Há uma opinião nada otimista de um dos maiores intelectuais norte-americanos e crítico severo do sistema imperialista, Noham Chomsky. Diz ele:” «O coronavírus é algo sério o suficiente, mas vale lembrar que há algo muito mais terrível se aproximando, estamos correndo para o desastre, algo muito pior que qualquer coisa que já aconteceu na história da humanidade e Trump e seus lacaios estão à frente disso, na corrida para o abismo. Há duas ameaças imensas que estamos encarando. Uma é a crescente ameaça de guerra nuclear, exacerbada pela tensão dos regimes militares e a outra, é claro, pelo aquecimento global. Ambas podem ser resolvidas, mas não há muito tempo e o coronavírus é terrível e pode ter péssimas consequências, mas será superado, enquanto as outras não serão. Se nós não resolvermos isso, estaremos condenados”.

Chomsky tem asseverado que o presidente Trump é suficientemente insano para deflagar uma guerra nuclear, sem se importar com o que pode acontecer para toda a humanidade.

Não obstante esta visão dramática do prestigiado linguista e pensador, nossa esperança é que se a humanidade for posta sob grave risco de realmente se autodestruir, o instinto de vida irá prevalecer. Mas à condição de termos construído uma forma diferente de habitar a Casa Comum sobre outras bases que não sejam nem do passado nem do presente.

Reinventar a humanidade e remodelar a Terra

O coronavírus nos obrigará a nos reinventar como humanidade e remodelar de forma sustentável e includente a única Casa Comum que temos. Se prevalecer o que dominava antes, ainda exacerbado ao extremo, aí sim poderemos nos preparar para o pior. Entretanto, cabe recordar que o sistema-vida passou por várias grandes dizimações (estamos dentro da sexta) mas sempre sobreviveu.

Ela pareceria – me permito uma metáfora singular – uma “praga” que ninguém até hoje conseguiu exterminar. Porque é uma “praga”bendita, ligada ao mistério do cosmogênese e daquela Energia de Fundo, misteriosa e amorosa que preside a todos os processos cósmicos e também os nossos.

De todos os modos, o coronavírus nos mostrou de que não somos “pequenos deuses” que pretendem poder tudo; somos frágeis e limitados; que a acumulação de bens materiais não salva a vida; que a globalização financeira sozinha, nos moldes competitivos do capitalismo, impede de criar, como propõem os chineses “uma comunidade de destino comum para toda a humanidade”; que temos que criar um centro global e plural para gestionar os problemas globais; que a cooperação e a solidariedade de todos com todos e não o individualismo, constituem os valores centrais de uma geosociedade; que se deve reconhecer e respeitar os limites do sistema-Terra que não tolera um projeto de crescimento ilimitado; que devemos cuidar da natureza, como cuidamos de nós mesmos, pois somos parte dela e é ela que nos fornece todos os bens e serviços necessários para a vida; que devemos buscar uma economia circular que realiza os famosos três erres (R): reduzir, reutilizar e reciclar tudo que entrou no processo produtivo; que a economia seja de subsistência digna e universal e não da acumulação de alguns à custa de todos os outros e da natureza; que este tipo de economia da subsistência diminui as necessidades para dar lugar à sobriedade e assim reduzir enormemente as desigualdades sociais; que a nova ordem econômica não se regeria pelo lucro mas por uma racionalidade econômica com sentido social e ecológico;que seria altamente racional e humanitário criar uma renda universal mínima; que a assistência a saúde é um direito humano universal (One World-One Health); que não podemos dispensar, antes favorecer, a ciência e a técnica feitas com consciência e destinadas a servir à vida e não ao mercado; que é importante garantir um Estado regulador do mercado, impulsionador do desenvolvimento necessário e apetrechado para atender demandas coletivas, seja sanitárias seja de calamidades naturais; que devemos incentivar o capital humano-espiritual, sempre ilimitado, fundado no amor, na solidariedade, na busca da justa medida, na fraternidade, na compaixão, no encantamento do mundo e na busca incansável da paz.

Estas são algumas lições, entre outras, que o coronavírus nos permite tirar. Citando a Carta da Terra, um dos documentos oficiais (UNESCO) mais inspiradores para a transformação do nosso modo de ser no planeta Terra,”são necessárias mudanças fundamentais nos nossos valores, instituições e modos de vida…Nossos desafios ambientais, econômicos, políticos,sociais e espirituais estão interligados e juntos podemos forjar soluções includentes”(Preâmbulo c).

Que visão de mundo e que valores incorporar?

Saber e tomar conhecimento dos dados da realidade não é ainda fazer. O que nos move a agir? Que visão de mundo e que valores devemos incorporar? Orienta-nos um importante texto da parte conclusiva da Carta da Terra,de cuja redação também participei.

”Como nunca antes na história, o destino comum nos conclama a buscar um novo começo. Isto requer uma mudança na mente e no coração; demanda um novo sentido de interdependência global e de responsabilidade universal. Devemos desenvolver e aplicar com imaginação a visão de um modo de vida sustentável aos níveis local, nacional, regional e global”(O caminho adiante)

Observemos: não se trata de apenas melhorar o caminho andado. Esse nos levará às crises cíclicas que já conhecemos e eventualmente ao desastre. Mas se trata de “buscar um novo começo”. Vale dizer, somos desafiados a remontar a “Terra, nosso lar, que está viva com uma comunidade de vida única”(CT, Preâmbulo a). Enganoso seria cobrir as feridas da Terra com band-aids, pensando assim curá-la. Temos que revitalizá-la e refaze-la para ser a Casa Comum.

“Isto requer uma mudança de mente”. A mudança de mente significa um novo olhar sobre a Terra assim como a nova cosmologia e biologia a apresentam. Ela é um momento do processo evolucionário que já possui 13,7 bilhões e anos e a Terra, 4,3 bilhões de anos. Depois do big bang, todos os elementos físico-químicos se forjaram ao longo de uns três bilhões de anos no coração das grandes estrelas vermelhas. Ao explodirem, jogarem para todas as direções estes elementos que formaram as galáxia, as estrela como o Sol, os planetas e a Terra.

Ela é viva com uma vida que irrompeu há 3,8 bilhões de anos, um super-organismo sistêmico que se auto-organiza e continuamente se auto-cria. Num momento avançado de sua complexidade, cerca de 8-10 milhões de anos atrás, uma porção dela começou a sentir, pensar, amar e venerar. Surgiu o ser humano, homem e mulher. Ele é Terra consciente e inteligente, por isso se chama homo, feito de húmus.

Esta visão muda a nossa concepção da Terra. A ONU em 22 de abril de 2009 oficialmente a reconheceu como Mãe Terra, pois tudo gera e nos dá. Por isso a Carta da Terra afirma:”Respeitar a Terra e a vida em toda a sua diversidade e cuidar da comunidade de vida com compreensão, compaixão e amor”(CT 1 e 2). Terra como solo podemos comprar e vender, cavar e fazer tantas coisas. Mãe, no entanto, nós não compramos nem vendemos; nós a amamos e veneramos. Tais atitudes devem ser transferidas para a Terra, nossa Mãe. Essa é a nova mente que importa incorporar.

“Requer uma mudança no coração”. O coração é a dimensão do sentimento profundo, da sensibilidade, do amor, da compaixão e dos valores que orientam nossa vida. Especialmente no coração reside o cuidado que é uma forma amigável e afetuosa de se relacionar com a natureza e os seus seres. Temos a ver com a razão sensível ou cordial, com o cérebro límbico, que emergiu há 220 milhões de anos quando irromperam na evolução os mamíferos. Todos eles, como o ser humano, têm sentimentos, amor e cuidado para com sua cria. Esse é o pathos, a capacidade de afetar e ser afetado, a dimensão mais profunda do ser humano.

A razão (o logos), a mente da qual nos referimos anteriormente, surgiu há apenas 8-10 milhões de anos com o cérebro neocortical e na forma avançada como homo sapiens (o homem atual) há cerca de cem mil anos. Ele, na modernidade, foi desenvolvido de forma exponencial, dominando nossas sociedades e criando a tecnociência, os grandes instrumentos de dominação e de transformação da face da Terra, inclusive criando uma máquina de morte com armas nucleares e outras que podem pôr fim à vida humana e da natureza.

O excesso da razão, o racionalismo, criou uma espécie de lobotomia: o ser humano tem dificuldade de sentir o outro e o seu sofrimento. Precisamos completar a inteligência racional, necessária para dar conta das necessidades de sobrevivência da nossa vida mas há que completá-la com a inteligência emocional e sensível para sermos mais completos e assumirmos com paixão a defesa da Terra e da vida.

Valem-nos as palavras do Papa Francisco em sua encíclica de ecologia integral “Sobre o cuidado da Casa Comum”: “Devemos alimentar uma paixão pelo cuidado do mundo. Não é possível empenhar-se em coisas grandes apenas com doutrinas, sem uma mística que nos anima, sem uma moção interior que impele, motiva, encoraja e dá sentido à ação pessoal e comunitária”(n.216) E acrescenta:”Implica ainda a consciência amorosa de não estarmos separados das outras criaturas, mas de formarmos com os outros seres do universo uma esplêndida comunhão universal”(n.220).

Portanto, é o coração que nos leva a ouvir simultaneamente o grito da Terra e o grito do pobre e nos leva a socorrê-los, mudando a forma como nos relacionamos com eles, como produzimos e como consumimos, com esse ideal formulado pelo primeiro ministro chinês XI Jinping: “criar uma sociedade moderadamente abastecida” ou como nós dizemos: uma sociedade com um consumo sóbrio e solidário.

Segue ainda o texto da Carta da Terra: “Requer-se um novo sentido de interdependência global”. A relação de todos com todos e por isso a interdependência global representa uma constante cosmológica. Tudo no universo é relação. Nada e ninguém estão fora da realação. O cosmos é constituído pelo conjunto das redes de relação mais do que do número inumerável dos corpos celestes. É também um axioma da física quântica segundo o qual todos os seres são inter-retro-relacionados. Nós mesmos, seres humanos, somos um rizoma (bulbo com raízes) de relações voltado para todas as relações. Isso implica entender que todos os problemas ecológicos, econômicos, políticos e espirituais têm a ver uns com os outros. Tocando num tocamos na rede toda das relações. A ação que fizermos afeta toda a rede de ações.

Esta compreensão holística supera a atomização dos saberes e fragmentação das atividades humanas. Só salvaremos a vida se nos alinharmos à esta lógica universal que é lógica da natureza com sua esplêndida diversidade. Todos os seres se entre-ajudam, até os mais débeis, pois também estes possuem um valor em si mesmo e comunicam alguma mensagem do universo.

Segue o texto da Carta Terra:” requer-se uma responsabilidade universal”. Responsabilidade significa dar-se conta das consequências de nossas ações, se são benéficas ou maléficas para o conjunto dos seres. Hans Jonas escreveu um livro clássico sobre o “Princípio Responsabilidade”. Ele inclui o princípio de prevenção e o de precaução. Na prevenção podemos calcular os efeitos quando interviermos na natureza. O princípio de precaução não nos permite medir as consequência e por isso não devemos arriscar com certas ações e intervenções porque podem produzir efeitos altamente danosos para a vida.

A responsabilidade deve ser universal, de todos. Não é assim que um grupo ou uma empresa assumam sua responsabilidade socioecológica, protegem o ar e garante a pureza das águas, enquanto outras não cuidam destes efeitos danosos e os consideram simplesmente como exterioridades (coisas que não entram na contabilidade dos negócios). Ou todos assumem uma atitude responsável, por isso universal, e assim praticamos comportamentos ecologicamente benéficos ou então seguiremos acumulando problemas para a vida e o futuro de nossa existência.

Mais ainda diz a Carta da Terra: “desenvolver e aplicar com invenção a visão (de um modo sustentável de vida). Nada de grande neste mundo sem fez sem a invenção do imaginário que projeta novos mundos e novos modos de ser. É aqui o lugar das utopias viáveis. Toda utopia alarga o horizonte e nos torna inventivos. O próprio ser humano emerge como um ser utópico, pois é um projeto infinito e um ser habitado pelo desejo, cuja natureza, segundo os antigos e Freud, é ilimitado. A utopia nos leva de horizonte a horizonte, fazendo-nos sempre caminhar na feliz expressão de Eduardo Galeano.

Para superar o modo costumeiro de habitar a Casa Comum, sem sequer tê-la descoberto (isso ocorreu somente a partir das viagens espaciais), explorando seus ecossistemas, descuidando das florestas, das águas, do ar puro e da fertilidade dos solos e de relações justas e fraternas nas sociedades, precisamos da invenção que nasce de uma utopia ou de um sonho. Toda utopia é, por natureza, irrealizável. Mas existem as utopias viáveis, aquelas que podemos juntos trazer para a realidade. Assim que precisamos sonhar com o planeta como “A Terra da Boa Esperança”(Ignace Sachs) antes de pôr as mãos no seu fazimento. Essa utopia é realizável pela humanidade, quando despertar de seu sono de um mundo de mão a mão e abri-se ao grande sonho possível de outro mundo possível e necessário.

Mais ainda afirma a Carta da Terra:”uma visão de um modo sustentável de vida. Estamos acostumados à expressão que está em todos os documentos oficiais e na boca da ecologia dominante “desenvolvimento sustentável”. Todas as análises sérias têm mostrado que o nosso modo de produzir, distribuir e consumir é insustentável. Vale dizer não consegue manter o equilíbrio entre o que tiramos da natureza e que lhe deixamos para sempre poder se reproduzir e co-evoluir. Nossa voracidade tornou o planeta insustentável, pois se os países ricos quisessem universalizar seu bem-estar à toda a humanidade, precisaríamos, pelo menos, de três Terras iguais a esta, o que é absolutamente impossível.

O atual desenvolvimento que significa crescimento econômico medido pelo Produto Interno Bruto (PIB) revela espantosas desigualdades a ponto de a grande ONG Oxfam no seu informe de 2019 nos revelar que 1% da humanidade possui a metade da riqueza do mundo e que 20% controla 95% desta riqueza (do 1%) enquanto os restantes 80% têm que contentar-se com apenas 5% da riqueza. Tais dados revelam a completa insustentabilidade do mundo em que vivemos.

A Carta da Terra não se rege pela economia mas pela vida. Dai o grande desafio consiste em criar um modo sustentavel de vida e todos os âmbitos, pessoal, familiar, social, nacional e internacional. Para isso se impõem a necessidade de “um novo começo” e não apenas de melhorias, mantendo o sistema desigual.

Por fim, este modo sustentável de vida deve realizar-se no nível local, nacional, regional e global. Evidentemente se trata de um projeto global que deverá se realizado com prazos, na medida em que cresce a consciência ecológica e nos dermos conta de nossa responsabilidade pelo futuro comum Terra e humanidade. Hoje o ponto mais avançado na busca da sustentabilidade se realiza no nível local e regional. Fala-se então do bioregionalismo como a forma realmente viável de concretizar a sustentabilidade. Tomando-se a região como referência, não segundo as divisões arbitrárias ainda persistentes, mas aquelas que a própria natureza fez com os rios, as montanhas, as florestas e outras que configuram um ecossistema regional. Dentro deste quadro pode realizar-se uma autêntica sustentabilidade, incluindo os bens naturais, a cultura e tradições locais, as personalidades que marcaram aquela história, com o favorecimento de pequenas empresas e uma agricultura orgânica, com a participação maior possível, num espírito democrático. Desta forma se propiciará um “bem viver e conviver”(o ideal ecológico andino) suficiente, decente e sustentável com a diminuição das desigualdades.

Esta visão formulada pela Carta da Terra é grandiosa e factível. O que mais precisamos é de boa-vontade, a única virtude que para Kant não possui nenhum defeito e limitação, pois se tiver, deixará de ser boa. Essa boa-vontade impulsionaria as comunidades e, no limite, a inteira humanidade a realmente realizar “um novo começo”.

Virtudes para um outro mundo possível

Esse modo sustentável de vida se traduz por práticas virtuosas que tornam real o modo sustentável de viver. São muitas as virtudes para um outro mundo possível. Serei breve, pois sobre isso publiquei três volumes com esse mesmo título “Virtudes para um outro mundo possível”(Vozes 2005-2006). Enumero 10 sem detalhar-lhes o conteúdo, o que nos levaria longe.

A primeira é o cuidado essencial. Chamo de essencial pois segundo uma tradição filosófica que nos vem dos romanos, atravessou os séculos e ganhou sua forma maior entre vários autores especialmente no núcleo central de Ser e Tempo de Heidegger. Ai se vê o cuidado como da essência do ser humano. Ele é a pré-condição para o conjunto de fatores que permitem a emergência da vida. Sem o cuidado a vida jamais irromperia e subsistiria. Alguns cosmólogos como Brian Swimme e Stephan Hawking viram no cuidado como a dinâmica mesma do universo. Se as quatro energias fundamentais não tivessem o sutil cuidado de atuarem sinergeticamente, não teríamos o mundo que temos. Todo ser vivo depende do cuidado. Se nós não tivéssemos o infinito cuidado de nossas mães, não saberíamos como deixar o berço e buscar o nosso alimento, dado que somos seres biologicamente carentes, sem nenhum órgão especializado. Precisamos do cuidado de outros. Tudo o que amamos também cuidamos, tudo o que cuidamos também amamos. Face à natureza significa uma relação amigável, não agressiva e respeitosa de seus limites.

A segunda virtude é o sentimento de pertença à natureza, à Terra e ao universo. Somos partes de um grande Todo que nos desborda por todos os lados; somos a parte consciente e inteligente da natureza, somos aquela porção da Terra que sente, pensa, ama e venera. Esse sentimento de pertença nos enche de respeito, de encantamento e de acolhimento.

A terceira virtude é a solidariedade e a cooperação. Somos seres sociais que não apenas vivem mas convivem com outros. Sabemos pela bioantropologia que foi a solidariedade e a cooperação de nossos ancestrais antropoides que ao buscar o alimento e traze-lo para o consumo coletivo, lhes permitiu deixar para trás a animalidade e inaugurar o mundo humano. Hoje, no caso do caronavírus, o que nos está salvando é a solidariedade e a cooperação de todos com todos. Esta solidariedade deve começar pelos últimos e invisíveis sem o que, ela deixa de ser inclusiva de todos.

A quarta virtude é a responsabilidade coletiva. Já temos exposto o seu sentido acima. É o momento da consciência em que cada um e uma inteira sociedade se dão conta dos efeitos bons ou ruins de suas decisões e atos. Seria absolutamente irresponsável o desmatamento desenfreado da Amazônia pois desequilibraria o regime de chuvas de vastas regiões e eliminaria a biodiversidade indispensável para o futuro da vida. Nem precisamos nos referir a uma guerra nuclear cuja letalidade eliminaria toda a vida especialmente a humana .

A quinta virtude é a hospitalidade como dever e como direito. O primeiro a apresentar a hospitalidade como dever e como direito foi Immanuel Kant no seu famoso texto “Em vista da paz perpétua”(1795). Entendia que a Terra é de todos, pois, Deus não deu título de propriedade de algum pedaço dela a ninguém. Ela pertence a todos os habitantes que podem andar por todas as partes. Ao encontrarem alguém o dever de todos é oferecer a hospitalidade, como sinal de pertença comum à Terra e todos têm o direito de serem acolhidos, sem qualquer distinção. Para ele, junto com o respeito dos direitos humanos constituiriam as pilastras para uma república mundial (Weltrepublik). Esse tema é atualíssimo dado o número de refugiados e as muitas discriminações por vários títulos. Talvez seja uma das virtudes mais urgentes no processo de planetização embora uma das menos vividas.

A sexta virtude é a convivência de todos com todos. A convivência é um dado primário, pois todos viemos da convivência que nossos pais tiveram. Nós somos seres de relação que é o mesmo que dizer, não vivemos simplesmente mas de forma diuturna convivemos. Participamos da vida dos outros, de suas alegrias e angústias. Especialmente custa a muitos a conviver com os diferentes, seja de etnia, de religião, de partido político. O importante é estar aberto à troca. O diferente sempre nos traz algo novo que nos enriquece ou desafia. O que jamais podemos fazer é transformar a diferença numa desigualdade. Podemos ser humanos de muitas formas diferentes, na forma brasileira, italiana, japonesa, yanomami. Mas cada forma é humana e possui a sua dignidade. Hoje pelos meios de comunicação cibernéticos abrimos janelas para todos os povos e culturas. Saber conviver com essa diferença abre novos horizontes e entramos numa espécie de comunhão com todos. Esta convivência implica também a natureza, conviver com com as paisagens, com as florestas, com os pássaros e animais. Não apenas olhar para o céu estrelado, mas entrar em comunhão com as estrelas, pois delas viemos e formamos um grande Todo. Por fim, formamos uma comunidade de destino comum junto com a totalidade da criação.

A sétima virtude é o respeito incondicional. Cada ser, por menos que seja, possui valor em si mesmo, independentemente do uso humano. Quem desenvolveu o tema em profundidade foi Albert Schweitzer, grande médico suiço que foi ao Gabão na África para atender a hanseniamos. Para ele o respeito é a base mais importante da ética, pois comporta acolhida, solidariedade e amor. Devemos começar com o respeito a nós mesmos, ao manter atitudes e modos dignos que suscitam o respeito dos outros. Importa respeitar todos os seres da criação, pois valem por eles mesmos; existem ou vivem e merecem existir ou viver. Mais que tudo, vale o respeito diante de cada pessoa humana, pois é portadora de dignidade, de sacralidade e de direitos inalienáveis, pouco importa sua procedência. Respeito supremo devemos ao Sagrado e a Deus, o mistério íntimo de todas as coisas. Só diante dele podemos cair de joelhos e reverenciar, pois só a Ele cabe esta atitude.

A oitava virtude é justiça social e igualdade fundamental de todos. A justiça é mais que dar a cada um o que é seu ; entre os humanos, a justiça é o amor o respeito mínimo que devemos devotar aos outros. A justiça social é garantir os mínimos a todas as pessoas, não criar privilégios e respeitar seus direitos em pé de igualdade, pois todos somos humanos e merecemos ser tratados humanamente. Desigualdade social significa injustiça social e, teologicamente, uma ofensa ao Criador e a seus filhos e filhas. Talvez ela seja a maior perversidade hoje existente que deixa milhões na miséria e condenados a morrer antes do tempo. Neste tempo de coronavírus se mostrou a violência da desigualdade social e da injustiça. Enquanto uns podem viver sua quarentena em casas ou apartamentos adequados, a grande maioria pobre é exposta à contaminação e, não raro, à morte.

A nova virtude é a busca incansável da paz. A paz é um dos bens mais ansiados, pois vivemos, por causa do tipo de sociedade que construimos, em permanente concorrência, apelos ao consumo e à exaltação da produtividade. A paz não existe em si, pois, ela é consequência de valores que devem ser vividos anteriormente e que têm como resultado a paz. Uma das mais pertinentes compreensões da paz nos vem da Carta da Terra, na qual se diz: “a paz é a plenitude que resulta de relações corretas consigo mesmo, com outras pessoas, com outras culturas, com outras vidas, com a Terra e com o Todo maior do qual somos parte”(n.16 f). Como se depreende, a paz é consequência de relações adequadas e é o fruto da justiça social. Sem estas relações e a justiça só conheceremos tréguas mas nunca uma paz permanente.

A décima virtude é o cultivo do sentido espiritual da vida. O ser humano possui uma exterioridade corporal com a qual nos relacionamos com o mundo e as pessoas; temos uma interioridade psíquica onde se aninham,na estrutura de desejo, nossas paixões, os grandes sonhos e nossos anjos e demônios que devemos controlar estes últimos e cultivar amorosamente os primeiros. Só assim gozaremos de um equilíbrio necessário para a vida.

Mas possuímos também a profundidade, aquela dimensão onde habitam as grandes interrogações da vida: quem somos, de onde viemos, para onde vamos, o que podemos esperar depois desta vida terrena? Qual é a Energia Suprema que sustenta o firmamento e conserva nossa Casa Comum ao redor do Sol e a mantém sempre viva para nos permitir viver? É a dimensão espiritual do ser humano feita de valores intangíveis como o amor incondicional, a confiança na vida, a coragem de enfrentar as agruras inevitáveis. Damo-nos conta de que o mundo está repleto de sentidos, que as coisas são mais que coisas, pois são mensagens e possuem um outro lado invisível. Intuímos que há uma Presença misteriosa que perpassa todas as coisas. As tradições religiosas e espirituais chamaram a esta Presença de mil nomes, sem contudo poder decifrá-la totalmente. É o mistério do mundo que remete ao Mistério Abissal que faz ser tudo aquilo que é. Cultivar este espaço nos humaniza, nos torna mais humildes e nos enraíza numa realidade transcendente, adequada ao nosso desejo infinito.

Conclusão: ser simplesmente humanos

A conclusão que tiramos destas longas reflexões a propósito do coronavírus 19 é: devemos ser simplesmente humanos, vulneráveis, humildes, ligados uns aos outros, parte da natureza e a porção consciente e espiritual da Terra com a missão de cuidar da herança sagrada que recebemos, a Mãe Terra, para nós e para as futuras gerações.

Inspiradoras são as últimas frases da Carta da Terra:”Que o nosso tempo seja lembrado pelo despertar de uma nova reverência face à vida, pelo compromisso firme de alcançar a sustentabilidade mediante a intensificação da luta pela justiça e pela paz, na alegre celebração da vida”

VOLTAR À “NORMALIDADE” É AUTO-CONDENAR-SE

Quando passar a pandemia do coronavírus não nos é permitido voltar à “normalidade” anterior. Seria, em primeiro lugar,um desprezo pelos milhares que morreram sufocados pelo vírus e uma falta de solidariedade para com os parentes e amigos. Em segundo lugar, seria uma demonstração de que não aprendemos nada daquilo que é ou foi mais que uma crise, mas um chamado urgente para mudarmos a nossa forma de habitar a única Casa Comum. Temos a ver com um apelo da própria Terra viva, esse super-organismo que se auto-regula do qual somos sua porção inteligente e consciente.

O atual sistema põe em risco as bases da vida

Voltar à conformação anterior do mundo, hegemonizado pelo capitalismo neoliberal, incapaz de resolver suas contradições internas e cujo DNA é sua voracidade por um crescimento ilimitado à custa da super-exploração da natureza e da indiferença face à pobreza e à miséria da grande maioria da humanidade produzida por ele, é esquecer que tal conformação está abalando os fundamentos ecológicos que sustentam toda a vida no planeta. Voltar à “normalidade”anterior é prolongar uma situação que poderá significar a nossa própria auto-destruição.

Se não fizermos uma “conversão ecológica radical”, nas palavras do Papa Francisco, a Terra viva poderá reagir e contra-atacar com vírus ainda mais violentos, capazes de fazer desaparecer a espécie humana. Essa não é uma opinião meramente pessoal, mas de muitos biólogos, cosmólogos e ecologistas que sistematicamente acompanham a crescente degradação dos sistema-vida e do sistema-Terra. Dez anos atrás (2010), como fruto de minhas pesquisas em cosmologia e novo paradigma ecológico, escrevi o livro:Cuidar da Terra-proteger a vida: como evitar o fim do mundo”(Record). Os prognósticos que avançava, se viram plenamente confirmados pela atual situação.

O projeto capitalista e neoliberal foi refutado

Uma lição que eruimos da pandemia é esta: se tivéssemos seguido o ideário do capitalismo neoliberal, – competição, acumulação privada, individualismo, primazia do mercado sobre a vida e a minimilização do Estado – a maioria da humanidade estaria perdida. O que nos tem salvado foi a cooperação, a interdependência de todos com todos, a solidariedade e um Estado suficientemente apetrechado para ofeecer a chance universal de tratamento do coranovírus, no caso do Brasil, o SUS (Sistema Único de Saúde).

Fizemos algumas descobertas: precisamos de um contrato social mundial, pois somos ainda reféns do ultrapassado soberanismo de cada país. Problemas globais exigem uma solução global, concertada entre todos os países. Vimos o desastre na Comunidade Europeia, na qual cada país tinha seu plano, sem considerar a cooperação necessária de outros países. Foi uma devastação generalizada na Itália,na Espanha e ultimamente nos USA onde a medicina é toda privatizada.

Outra descoberta foi a urgência de um centro plural de governança global para garantir à toda a comunidade de vida (não só a humana mas de todos os seres vivos) o suficiente e decente para viver. Os bens e serviços naturais são escassos e muitos não renováveis. Com eles devemos atender as demandas básicas do sistema-vida, pensando ainda nas futuras gerações. Aqui é o lugar de se criar uma renda universal mínima para todos, pregação persistente do valoroso e digno político Eduardo Suplicy.

Uma comunidade de destino compartilhado

Os chineses viram com clareza esta exigência ao impulsionar “uma comunidade de destino compartilhado para toda a humanidade”,texto incorporado no renovado artigo 35 da Constituição Chinesa. Desta vez, ou nos salvamos todos ou todos engrossaremos o cortejo dos que rumam em direção da sepultura coletiva. Por isso temos que mudar urgentemente o nosso modo de nos relacionar com a natureza e com a Terra, não como senhores ( domini) montados sobre ela, delapidando-a mas como partes conscientes e responsáveis, colocando-nos junto e ao pé dela, como irmãos (fratres) cuidadores de toda a vida.

Ao famoso TINA (There Is No Alternative), “não há outra alternativa” da cultura do capital, devemos contrapor outra TINA (There Is a New Alternative) “há uma nova alternativa”. Se na primeira alternativa a centralidade era ocupada pelo lucro, pelo mercado e pela dominação da natureza e dos outros (imperialismo), nesta segunda será a vida em sua vasta diversidade, também humana com suas muitas culturas e tradições que organizará a nova forma de habitar a Casa Comum. Isso é possível e está dentro das possibilidades humanas: temos ciência e tecnologia, temos uma acumulação fantástica de riqueza monetária, mas falta à grande maioria da humanidade e, pior, dos chefes de Estado a consciência desta necessidade e a vontade política de implementá-la. Talvez, face a um risco real de nosso desaparecimento como espécie, porque atingimos os limites insuportáveis da Terra, o instinto de sobrevivência nos fará sociáveis, fraternos e todos colaboradores e solidários uns para com os outros. O tempo da competição passou. Agora é o tempo da cooperação.

A inauguração de uma civilização biocentrada
Creio que iremos inaugurar uma civilização biocentrada, cuidadosa, amiga da vida e como dizem alguns, “a Terra da boa esperança”. O “bien vivir e convivir” dos andinos terá condições de realizar-se: a harmonia de todos com todos, na família, na sociedade, com os demais seres da natureza, com as águas, com montanhas e até com as estrelas do firmamento.

Como bem disse o Nobel de economia Joseph Stiglitz: “teremos uma ciência não a serviço do mercado, mas o mercado à serviço da ciência”e eu acrescentaria, e a ciência à serviço da vida.

Não sairemos da pandemia do coronavírus como entramos. Seguramente far-se-ão mudanças significativas, quem sabe, até estruturais. Acertadamente disse a liderança indígena muito conhecida, Ailton Krenak, da etnia krenak, do vale do Rio Doce:”Não sei se vamos sair dessa experiência da mesma maneira que entramos. É como um tranco para olharmos o que realmente importa; o futuro é aqui e agora, podemos não estar vivos amanhã; tomara que não voltemos à normalidade”(O Globo,01/05/2020, B 6).

Logicamente, não podemos imaginar que as transformações se farão de um dia para o outro. É compreensível que as fábricas e as cadeias produtivas vão querer retomar a lógica anterior. Mas não serão mais aceitáveis. Deverão submeter-se a um processo de reconversão no qual todo o aparato produtivo industrial e agroindustrial deverá incorporar como elemento essencial o fator ecológico. Não basta a responsabilidade social das empresas. Impor-se-á uma responsabilidade sócio-ecológica.

Buscar-se-ão energias alternativas às fósseis, menos impactantes sobre os ecossistemas. Cuidar-se-á mais da atmosfera, das águas e das florestas. A salvaguarda da biodiversidade será fundamental para o futuro da vida e da alimentação humana e de toda a comunidade de vida.

Que tipo de Terra queremos para o futuro?

Seguramente haverá uma grande discussão de ideias sobre que futuro queremos e que tipo de Terra na qual queremos habitar. Qual será a conformação mais adequada à atual fase da Terra e da própria humanidade, a fase da planetização e da percepção cada vez mais clara de que não temos outra Casa Comum para habitar senão esta. E que temos um destino comum, feliz ou trágico. Para que seja feliz, importa cuidar dela para que todos possam caber dentro, a natureza incluída.

Há o risco real de uma polarização de modelos binários: por um lado movimentos de integração de cooperação geral e por outro, a reafirmação das soberanias nacionais com seu protecionismo. Por um lado o capitalismo “natural” e verde e por outro o comunismo reinventado e de terceira geração como prognosticam Alain Badiou e Slavoy Zizek.

Outros temem um processo de radical brutalização por parte dos “donos do poder econômico e militar” para garantir seus privilégios e seus capitais. Seria um despotismo de forma diferente pois contaria com os meios cibernéticos e a inteligência artificial com seus complexos algoritmos, um sistema de vigilância sobre todas as pessoas do planeta. A vida social e as liberdades estariam permanentemente ameaçadas. A todo poder sempre emerge um anti-poder. Surgeriram grandes confrontos e conflitos por causa da exclusão e da miséria de milhões que, apesar da vigilância, não se contentarão com as migalhas que caírem das mesas dos ricos epulões.

Não são poucos que propõem uma glocalização vale dizer, o acento será colocado no local, na região com suas especificidades geológicas, físicas, ecológicas e culturais mas aberta ao global que a todos envolve. Nesse bioregionalismo poder-se-ia realizar de fato um real desenvolvimento sustentável, aproveitando os bens e serviços locais. Praticamente tudo se realizará na região, com empresas menores, com uma produção agroecológica, sem precisar de longos transportes que consomem energias e poluem. A cultura, as artes e as tradições serão reanimadas como parte importante da vida social. A governança será participativa, diminuindo as desigualdades e tornando menor a pobreza, sempre possível, nas sociedades complexas. É a tese que o cosmólogo Mark Hathaway e eu defendemos em nosso livro comum O Tao da Libertação (2010) que teve boa acolhida no meio científico e entre os ecologistas a ponto de Fritjob Capra ter se oferecido a fazer um instigante prefácio.

Outros veem a possibilidade de um ecosocialismo planetário, capaz de realizar aquilo que o capitalismo, por sua essência competitivo e excludente se mostra incapaz de fazer: um contrato social mundial, igualitário e inclusivo, respeitador da natureza no qual o nós (o comunitário e societário) e não o eu (individualismo) será o eixo estruturador das sociedades e da comunidade mundial. Ele encontrou no franco-brasileiro Michael Löwy o seu mais brilhante formulador. Teremos em fim como reafirma a Carta da Terra bem como a encíclica do Papa Francisco “sobre o cuidado da Casa Comum” um modo realmente sustentável de vida e não apenas um desenvolvimento sustentável.

Em fim, passaremos de uma sociedade industrialista/consumista para uma sociedade de sustentação de toda a vida com um consumo sóbrio e solidário; de um cultura de acumulação de bens materiais para uma cultura humanístico-espiritual na qual os bens intangíveis como a solidariedade, a justiça social, a cooperação, os laços afetivos e não em último lugar a amorosidade e a logique du coeur estarão em seus fundamentos.

Não sabemos qual tendência predominará. O ser humano é complexo e indecifrável, é movido por benevolência mas também por boçalidade. É completo mas não está ainda totalmente pronto. Irá aprender, por erros e acertos, que a melhor conformação para a convivência humana junto com todos os demais seres da Mãe Terra deve se orientar pela lógica do próprio universo: este está estruturado, como nos dizem notáveis cosmólogos e físicos quânticos, por redes complexas de inter-retro-relações. Tudo é relação. Na existe fora a da relação. Todos se entre-ajudam para continuar existindo e podendo co-evoluir. O próprio ser humano é um rizoma (bulbo de raízes) de relações em todas as direções.

Se me é permitido dizer em termos teológicos: é a imagem e semelhança da Divindade que emerge como a íntima relação de três Infinitos, cada um singular (as singularidades não se somam) de Pai, Filho e Espírito Santo que eternamente existem um para o outro, com o outro, no outro e através do outro, constituindo um Deus-comunhão de amor, de bondade e de infinita beleza.

Tempos de crise como o nosso, de passagem de um tipo de mundo para outro, são também tempos de grande sonhos e utopias. São elas que nos movem na direção do futuro, incorporando o passado, mas fazendo a própria pegada no chão da vida. É fácil pisar na pegada deixada por outros. Mas ela não nos leva mais a nenhum caminho esperançador. Devemos fazer a nossa própria pegada, marcada pela inarredável esperança da vitória da vida, pois o caminho se faz caminhando e sonhando. Então caminhemos.

O QUE PODERÁ VIR DEPOIS DO CORONAVÍRUS?

Muitos já sentenciaram: depois do coronavírus não é mais possível levar avante o projeto do capitalismo como modo de produção nem do neoliberalismo como sua expressão política.O capitalismo é somente bom para os ricos; para os demais é um purgatório ou um inferno e para a natureza, uma guerra sem tréguas. O que nos está salvando não é a concorrência – seu motor principal – mas a cooperação, nem o individualismo – sua expressão cultural – mas a interdependência de todos com todos.

Mas vamos ao ponto central: descobrimos que a vida é o valor supremo, não a acumulação de bens materiais. O aparato bélico montado, capaz de destruir por várias vezes, a vida na Terra se mostrou ridículo face a um inimigo microscópico invisível, que ameaça a humanidade inteira. Seria o Next Big One (NBO) do qual temem os biólogos, “o próximo Grande Vírus”, destruidor do futuro da vida? Não cremos. Esperamos que a Terra tenha ainda compaixão de nós e nos dê apenas uma espécie de ultimato.

Já que o vírus ameaçador provém da natureza, o isolamento social nos oferece a oportunidade de nos questionarmos: qual foi e como deve ser nossa relação face à natureza e, em termos mais gerais, face à Terra como Casa Comum? Não são suficientes a medicina e a técnica, por mais necessárias. Sua função é atacar o vírus até exterminá-lo. Mas se continuarmos a agredir a Terra viva,”nosso lar com uma comunidade de vida única”como diz a Carta da Terra (Preâmbulo) ela contra-atacará de novo com pandemias mais letais, até uma que nos exterminará.

Ocorre que a maioria da humanidade e dos chefes de Estado não têm consciência de que estamos dentro da sexta extinção em massa. Até hoje não nos sentíamos parte da natureza e nós humanos a sua porção consciente; nossa relação não é para com um ser vivo, Gaia, que possui valor em si mesmo e deve ser respeitado mas de mero uso em função de nossa comodidade e enriquecimento. Exploramos a Terra violentamente a ponto de 60% dos solos terem sido erodidos, na mesma proporção as floresta úmidas e causamos uma espantosa devastação de espécies, entre 70-100 mil por ano. É a vigência do antropoceno e do necroceno. A continuar nesta rota vamos ao encontro de nosso próprio desaparecimento.

Não temos outra alternativa senão, fazermos nas palavras da encíclica papal “sobre o cuidado da Casa Comum” uma “radical conversão ecológica”. Nesse sentido o coronavírus é mais que uma crise como outras, mas a exigência de uma relação amigável e cuidadosa para com natureza. Como implementá-la num mundo montado sobre a exploração de todos os ecossistemas? Não há projetos prontos. Todos estão em busca. O pior que nos pode acontecer, seria, passada a pandemia, voltarmos ao que era antes: as fábricas produzindo a todo vapor mesmo com certo cuidado ecológico. Sabemos que grandes corporações estão se articulando para recuperar o tempo e os ganhos perdidos.

Mas há que conceder que esta conversão não poderá ser repentina, mas processual. Quando o Presidente francês Maccron disse que “a lição da pandemia era de que existem bens e serviço que devem ser colocados fora do mercado” provocou a corrida de dezenas de grandes organizações ecológicas, tipo Oxfam, Attac e outras pedindo que os 750 bilhões de Euros do Banco Central Europeu destinados a sanar as perdas das empresas fossem direcionados à reconversão social e ecológica do aparelho produtivo em vista de mais cuidado para com a natureza, mais justiça e igualdade sociais. Logicamente isso só se fará ampliando o debate, envolvendo todo tipo de grupos, desde a participação popular ao saber científico, até surgir uma convicção e uma responsabilidade coletivas.

De uma coisa devemos ter plena consciência: ao crescer o aquecimento global e ao aumentar a população mundial devastando habitats naturais e assim aproximando os seres humanos aos animais, estes transmitirão mais vírus que encontrarão em nós novos hospedeiros para os quais não estamos imunes. Daí surgirão as pandemias devastadoras.

O ponto essencial e irrenunciável é a nova concepção da Terra, não mais como um mercado de negócios colocando-nos como senhores (dominus), fora e acima dela mas como um super Ente vivo, um sistema autoregulador e autocriativo, do qual somos a parte consciente e responsável, junto com os demais seres como irmãos (frater). A passagem do dominus (dono) a frater (irmão) exigirá uma nova mente e um novo coração, isto é, ver de modo diferente a Terra e sentir com o coração a nossa pertença a ela e ao Grande Todo. Junto a isso o sentido de inter-retro-relacionamento de todos com todos e uma responsabilidade coletiva face ao futuro comum. Só assim chegaremos, como prognostica a Carta da Terra, a “um modo sustentável de vida”e a uma garantia de futuro da vida e da Mãe Terra.

A atual fase de confinamento social pode significar uma espécie de retiro reflexivo e humanístico para pensarmos sobre tais coisas e a nossa responsabilidade face a elas. O tempo é curto e urgente e não podemos chegar tarde demais.

Edição 157, Abril 2020

CUIDAR DO PRÓPRIO CORPO E DOS CORPOS DOS OUTROS EM TEMPO DO CORONAVÍRUS

Nesses tempos dramáticos sob o ataque do coronavírus sobre nossas vidas, sobre nossos corpos, nada mais oportuno que fazer uma reflexão mais aprofundada sobre o que é o nosso corpo e como devemos, agora mais do antes, cuidar dele e dos corpos dos outros.

Para isso, importa, enriquecermos nossa compreensão de corpo, porque aquela herdada dos gregos e ainda vigente na cultura dominante, entende o corpo como uma parte do ser humano ao lado da outra que é a alma. Comprende-se comumente o ser humano como um composto de corpo e alma. Ao morrer, o corpo é devolvido à Terra enquanto a alma é translada para a eternidade, feliz ou infeliz conforme a qualidade de vida que tenha vivido. Tentemos enriquecer nossa compreensão de corpo à luz da nova antropologia.

A unidade complexa corpo-espírito

Tanto a antropologia bíblica quanto a antropologia contemporânea (e há muita afinidade entre elas) nos apresentam uma concepção de corpo mais complexa e holística. Segundo ela, o corpo não é algo que temos mas algo que somos. Falamos então de homem-corpo, todo inteiro mergulhado no mundo e relacionado em todas as direções.

O ser humano apresenta-se primeiramente como corpo. Corpo vivo e não um cadáver, uma realidade bio-psico-energético-cultural, dotada de um sistema perceptivo, cognitivo, afetivo, valorativo, informacional e espiritual.

Ele é feito dos materiais cósmicos que se formaram desde o início do processo da cosmogênese há 13,7 bilhões de anos, da biogênese, há 3,8 bilhões de anos e da antropogênese há 7-8 milhões de anos, portador de 400 trilhões de células, continuamente renovadas por um sistema genético que se formou ao largo de 3,8 bilhões de anos(é a idade da vida), habitado por um quatrilhão de micróbios (Collins, A linguagem da vida, p.200), munido de três níveis do único cérebro com 50 a 100 bilhões de neurônios. O mais ancestral é o reptiliano, surgido há 250 milhões de anos, responde por nossas reações instintivas, como o abrir e fechar os olhos, as batidas do coração e outras, ao redor do qual se formou o cérebro límbico, há 125 milhões de anos, que explica nossa afetividade, o amor e cuidado e, por fim, completado pelo cérebro neo-cortical que irrompeu há cerca de 5-8 milhões de anos, com o qual organizamos conceptualmente o mundo e nos abrimos à totalidade do real.

A corporalidade é uma dimensão da sujeito humano concreto. Isto quer dizer: na realidade, nunca encontramos um espírito puro mas sempre em todo o lugar um espírito encarnado. Pertence ao espírito sua corporalidade e com isso sua permanente relação com todas as coisas. Como homem-corpo emergimos qual nó de relações universais, a partir de nosso estar-no-mundo-com-os-outros.

Este estar-no-mundo-com-os-outros não é uma dimensão geográfica, nem acidental mas essencial. Quer dizer, em cada momento e em sua totalidade o ser humano é corporal e simultaneamente em sua totalidade é espiritual. Somos um corpo espiritualizado como somos também um espírito corporizado. Esta unidade complexa do ser humano não pode ser nunca olvidada.

Desta forma os atos espirituais mais sublimes ou os voos mais altos da criação artística ou da mística vem marcados pela corporalidade. Como os mais comezinhos atos corporais como comer, lavar-se, dirigir um carro, vem penetrados de espírito.. O corpo é o espírito se realizando dentro da matéria. E o espírito é a transfiguração da matéria.

Neste sentido, podemos dizer que o espírito é visível. Quando olhamos, por exemplo, um rosto não vemos apenas os olhos, a boca, o nariz e o jogo dos músculos. Surpreedemos também alegria ou angústia, resignação ou confiança, brilho ou abatimento. O que se vê, pois, é um corpo vivificado e penetrado de espírito. De forma semelhante, o espírito não se esconde atrás do corpo. Na expressão facial, no olhar, no falar, no modo de estar presente e mesmo no silêncio se revela toda a profunidade do espírito.

As forças de autoafirmação e de integração

Por outro lado, importa entender que, biologicamente, somos seres carentes. Não somos dotados de nenhum órgão especializado que nos garantisse a sobrevivência ou nos defendesse dos riscos, como ocorre com os animais. Um patinho nasce e já sai nadando. O ser humano, não, ele precisa aprender. Alguns biólogos chegam a dizer que somos “um animal doente” um “faux pas”, uma “passagem” (Übergang) para outra coisa mais alta ou complexa, por isso nunca somos fixados, somos inteiros mas ainda não completos, sempre por fazer.

Tal verificação tem como consequência que precisamos continuamente garantir a nossa existência, mediante o trabalho e a inteligente intervenção na natureza. Deste esforço, nasce a cultura que organiza de forma mais estável as condições infra-estruturais e também humano-espirituais para vivermos humanamente melhor e mais cômodos.

Acresce ainda outro dado, presente também em todos os seres do universo, mas que no nível humano ganha especial relevância, especialmente com referência ao cuidado. Vigoram duas forças em cada ser e em nós. A primeira é a força da auto-afirmação, a segunda a força da integração. Elas atuam sempre juntas num equilíbrio difícil e sempre dinâmico.

Pela força da auto-afirmação cada ser, no caso, o ser humano, se centra em si mesmo e seu instinto é conservar-se, defendendo-se contra todo tipo de ameaça contra sua integridade e sua vida. Defende-se ao ser ameaçado de morte. Ninguém aceita simplesmente morrer. Luta para continuar a viver, a desenvolver-se e a se expandir. Essa força explica a persistência e a subsistência de cada indivíduo.

Precisamos neste ponto superar totalmente o darwinismo social segundo o qual somente os mais bem dotados triunfam e permanecem. Essa é uma meia verdade que está na contramão do processo evolucionário. A lei básica da universo é a relação de todos com todos e a cooperação entre todos para que possam existir e continuar a evoluir. Este processo não privilegia só os mais bem dotados. Se assim fora, os dinossauros estariam ainda entre nós. O sentido da evolução é permitir que todos os seres, também os mais vulneráveis, expressem dimensões da realidade e virtualidades latentes dentro do universo em evolução. Repetimos: esse é o valor da interdependência de todos com todos e da solidariedade cósmica. Todos se entre-ajudam para coexistir e co-evoluir. Os fracos também merecem viver e tem algo a nos dizer. Observem que num pequeno buraco do asfalto nasce uma plantinha. É um milagre da vida e nos dá uma mensagem da força da vida.

Pela força da integração o indivíduo se descobre integrado numa rede de relações, sem as quais, sozinho como indivíduo não viveria nem sobreviveria. Todos os seres são interconectados e vivem uns pelos outros, com os outros e para os outros. O indivíduo se integra, pois, naturalmente, num todo maior, na família, na comunidade e na sociedade. Mesmo que o indivíduo morra, o todo garante que a espécie continue, permitindo que outros representantes venham nos suceder.

Sabedoria humana é reconhecer que chega certo momento na vida no qual a pessoa deve se despedir, agradecida, para deixar o lugar, até fisicamente, a outros que virão.

O universo, os reinos, as espécies e também os seres humanos se equilibram entre estas duas forças, a da auto-afirmação do indivíduo e a da integração num todo maior. Mas esse processo não é linear e sereno. Ele é tenso e dinâmico. O equilíbrio das forças nunca é um dado, mas um feito a ser alcançado a todo o momento.

É aqui que entra o cuidado. Se não cuidarmos pode prevalecer ou a auto-afirmação do indivíduo à custa de uma insuficiente integração no todo e então predomina o eu, o individualismo, o autoritarismo e a violência ou pode prevalecer a integração, o nós a preço do enfraquecimento e até anulação do eu, do indivíduo e então ganha a partida o coletivismo e o achatamento das individualidades. O cuidado aqui se traduz na justa medida e na autocontenção para não privilegiar nenhuma destas forças.

Efetivamente, na história social humana, surgiram sistemas que ora privilegiam o eu, o indivíduo, seu desempenho e a propriedade privada como é o caso do sistema capitalista ou ora prevalece o nós, o coletivo e a propriedade social como é o caso do socialismo real. A exacerbação de uma destas forças em detrimento da outra leva a desequilíbrios, a devastações e a tragédias. O cuidado desaparece para dar lugar à vontade de poder e até da brutalidade.

Para equilibrar estas duas forças se projetou a democracia que procura incluir e articular e eu com o nós, onde cada indivíduo pode participar e com outros criar o nós social. Dessa convivência do eu com o nós nem sempre fácil, nasce a busca do bem comum. Democracia é participação de todos, na família, na comunidade, nas organizações e na forma de organizar o Estado. É um valor universal a ser sempre vivido e alimentado.

Qual é o desafio que se dirige ao ser humano? É o cuidado de buscar o equilíbrio construido conscientemente e fazer desta busca um um propósito e uma atitude de base. Portador de consciência e de liberdade, o ser humano possui esta missão que o distingue dos demais seres. Só ele pode ser um ser ético, um ser que cuida se responsabiliza por si (eu) e pelo destino dos outros (nós). Ele pode ser hostil à vida, oprimir e devastar. Pode ser também o anjo bom, guardador e protetor de todo o criado. Depende de seu empenho em cuidar ou deixar que forças obscuras e incontroláveis assumam o curso da vida.

Por causa da liberdade, ele não está submetido à fatalidade do dinamismo das coisas. Ele pode intervir e salvar o mais fraco, impedir que uma espécie desapareça ou criar condições que diminuam o sofrimento, como é o caso no momento atual.

No lugar da lei do mais bem dotado e forte, propõe-se a lei do cuidado do menos dotado e mais fraco. Só o ser humano pode fazer isso. Por isso ele foi constituído como guardião dos seres, o jardineiro que cuida e guarda o Jardim do Éden (Terra). Ele emerge como o cuidador das criaturas que mais precisam de condições de vida e de inserção no todo. Desta forma assegura um futuro para o maior número de pessoas e de representantes de outras espécies. Esse é o desafio para o nosso país e para toda a Terra assolada pelo Covid-19.

Os desafios do cuidado pelo próprio corpo

Depois desta longa introdução surge a pergunta: como cuidar de nosso próprio corpo? Esse ponto é fundamental neste momento em que devemos acolher o isolamento social para nos proteger do coronavírus.

Antes de mais nada, impõe-se um esforço de manter nossa integridade e unidade complexa. Devemos assumir nosso enraizamento no mundo, com suas relações de família, de trabalho, de profissão e de empenho pela sobrevivência. E fazê-lo com inteireza, sabendo que somos a parte consciente e inteligente do todo, capaz de valorizar cada iniciativa, desde aquela que diz respeito à higiene do corpo, até o trabalho mais sofisticado da inteligência.

Nesse momento é dever proteger-se com a máscara quando saímos de casa e lavar continuamente as mãos com sabão ou com álcoo-gel. O homem-corpo é essa unidade complexa e exige todos estes cuidados, especialmente nesse momento dramático de nossa vida.

Faz-se mister de opor-se conscientemente aos dualismos que a cultura persiste em manter, por um lado o “corpo”, desvinculado do espírito e por outro do “espírito” desmaterializado de seu corpo. O marketing explora esta dualidade, apresentando o corpo não como a totalidade do humano, mas sua parcialização, seus rostos, seus seios, seus músculos, suas mãos, seus pés, enfim, suas partes.

Principais vítimas desta retaliação são as mulheres, embora não sejam as únicas, pois a visão machista se refugiou no mundo mediatico da propaganda usando partes da mulher: o rosto, seus olhos, seus seios, seu sexo e outras partes, continuando perversamente a fazer da mulher um “objeto de cama e mesa”. Devemos nos opor a esta deformação cultural.

Importa também recusar o mero “culto do corpo” pelo sem número de academias e outras formas de trabalho sobre a dimensão física como se o homem-corpo fosse uma máquina destituída de espírito, buscando performances musculares que não conhecem limites. Com isso não queremos desmerecer os benefícios que representam as academias. Afirmando positivamente isso, cabe enfatizar a alimentação equilibrada e sadia, as vantagens inegáveis dos exercícios de ginástica, as massagens que revigoram o corpo e fazem fluir as energias vitais, particularmente, as ginásticas orientais, entre elas a capacidade de o yoga de fortalecer a harmonia corpo-mente.

O vestuário merece uma consideração especial. Ele não possui apenas uma função utilitária ao nos proteger das intempéries e de encobrir o que na nossa cultura (diferente da dos indígenas) são as partes sexuais. Ele pertence ao cuidado do corpo, pois o vestuário representa uma linguagem, uma forma de revelar-se no cenário da vida. É importante cuidar que o vestuário seja expressão de um modo de ser e mostre o perfil humano e estético da pessoa.

Constitui uma demonstração de anemia de espírito as belezas construidas por mil meios para ser aquilo que a vida não quis que as pessoas fossem. Há uma beleza própria de cada idade, um charme que nasce do trabalho que a vida e o espírito fizeram na expressão “corporal” do ser humano. Não há fotoshops que substituam a beleza rude de um rosto de um trabalhador, talhado pela dureza da vida, pelos traços faciais moldados pelo sofrimento e pela luta. Elas ganham uma expressão de grande força e energia. Falam da vida real e não artificial e construida. As fotos trabalhadas dos ícones da beleza convencional são todos parecidos, e mal disfarçam a artificialidade da figura construída pelo marketing.

Todos estes artificialismos de nossa cultura mais ligada ao mercado que às necessidades reais da vida, levam a não cultivar o cuidado próprio de cada fase da vida, com sua beleza e irradiação singular mas também com as marcas de uma vida vivida que deixou estampada no rosto e no corpo as lutas, os sofrimentos, as superações. Tais marcas são condecorações e criam uma beleza iniqualável e uma irradiação específica, ao invés de engessar-se num tipo de perfil de um passado já vivido.

Positivamente cuidamos do corpo regressando para onde, por séculos. nos havíamos exilado: para a natureza e para uma relação benigna para com o todo da Terra. Isso significa estabelecer uma relação de biofilia, de amor e de sensibilização para com os animais, as flores, rosas e plantas, os climas, as águas, com as paisagens, com a Terra. Quando a Terra vem mostrada a partir do espaço exterior com essas belas imagens do globo terrestre transmitidas pelos grandes telescópios ou pelas naves espaciais irrompe em nós um sentido de reverência, de respeito e de amor pela nossa Casa Comum, a nossa Grande Mãe de cujo útero todos viemos. Sentimo-nos humildes quando contemplamos a Terra como um pálido ponto azul, a última foto dela tirada antes de deixar o sistema solar e penetrar no infinito do espaço sideral.

Talvez o desafio maior para o homem-corpo consiste em lograr um equilíbrio entre a autoafirmação, sem cair na arrogância e no rebaixamento dos outros, e entre a integração no todo maior, da família, da comunidade, do grupo de trabalho e da sociedade, sem deixar-se massificar e cair no adesismo acrítico.

A busca deste equilíbrio não se resolve uma vez por todas, mas deve ser assumido diuturnamente, pois, ele nos é cobrado a cada momento. E cada situação, por mais estranha que possa parecer, é suficientemente boa para encontrarmos o balanço adequado entre as duas forças que nos podem dilacerar ou nos podem unificar e dar leveza à nossa existência.

O cuidado em nossa inserção no estar-no-mundo-com-outros envolve nossa dieta: o que comemos e bebemos. Fazer do comer mais que um processo de nutrição mas um rito de comunhão com os frutos da generosidade da Terra. Assim cada refeição é uma celebração da vida. Saber escolher os produtos, os produzidos organicamente ou os menos quimicalizados. Aqui entra o cuidado como amorosidade para consigo mesmo que se traduz numa vida saudável e como precaução contra eventuais enfermidades que nos podem advir pelo ar contaminado, pelas águas maltratadas, pela geral intoxicação do ambiente.

O homem-corpo deve deixar transparecer essa harmonia interior e exterior, como membro da grande comunidade terrenal e biótica.

O cuidado pelo corpo dos outros, dos pobres, da Terra

A maioria dos corpos humanos são enfermos, emagrecidos e deformados por demasiadas carências. Há uma humanidade-corpo faminta, sedenta, desesperada no espírito pelo excesso de trabalho explorado e pela humilhação de serem tratados como carvão a ser consumido no processo produitivo, na expressão do antropólogo Darcy Ribeiro.

Cuidado para com os corpos dos empobrecidos e condenados da Terra é não negá-los e desprezá-los como ocorre na nossa tradição escravagista. Mas considerá-los como co-iguais com os mesma dignidade e direitos. Socialmente é lutar por políticas públicas, como foram feitas pelos projetos sociais da “Fome Zero”, “Luz para Todos”, “Minha Casa, minha Vida” com a agricultura ecológica e familiar e outros, como as cozinhas comunitárias, como as UPAS e outras iniciativas que organizam a solidariedade social para que todos possam ver realizado seu direito à comensalidade, a poder comer o suficiente e decente de cada dia.

Permito-me dar um exemplo:No nosso Centro de Defesa dos Direitos Humanos de Petrópolis, desenvolvemos um projeto “Pão e Beleza”, dando à população de rua uma boa refeição diária (cerca de 300 pessoas: o momento do Pão) e em seguida o momento da Beleza que é a conquista de sua dignidade, a começar pelo nome (pois a maioria tem apelidos), fazendo círculos de discussão sobre seus próprios problemas, acompanhá-los quando doentes à assistência médica ou psicológica e ver como reintegrá-los na sociedade com algum trabalho. A perspectiva continua sendo cuidar do ser humano integral, corpo-espirito, através do Pão necessário e do Espírito cultivado.

Importante em termos de uma pedagogia libertadora é contribuir para que as próprios carentes, como sujeitos, se organizem e com sua pressão garantam as bases que sustentam a vida. Mas não apenas saciar a fome de Pão, sempre necessária e saciável, mas também sua fome de Beleza, insaciável, de reconhecimento, de respeito, de comunhão, de Transcendência, sempre aberta a um desenvolvimento ilimitado.

Cuidar do corpo social é uma missão política que exige uma crítica severa contra um sistema de relações que trata as pessoas como coisas e lhes negam o acesso aos commons aos bens comuns que todos os seres humanos têm direito, como o alimento, a água, um pedaço de chão, o tratamento do esgoto e do lixo, a saúde, a moradia, a cultura e a segurança.

Na verdade, aqui se imporia uma verdadeira revolução humanitária. Mas não basta querê-la. Precisam-se das condições histórico-sociais que a viabilizem e a tornem vitoriosa. É a utopia mínima a ser realizada até por um mínimo senso ético.

Hoje mais que em outras épocas, urge cuidar do corpo da Mãe Terra, marcado por chagas que não se fecham. Há devastações inimagináveis no reino animal, vegetal nos solos subsolos e nos mares. Já externei a opinião de que possivelmente o coronavírus seja uma reação da Mãe Terra, um contra-ataque à sistemática violência que continuamente sofre.

Ou cuidamos do corpo da Mãe Terra ou corremos o risco de não haver mais lugar para nós ou ela não nos querer mais sobre seu solo. Cuidar do corpo da Terra é cuidar dos dejetos, da limpeza geral das ruas, praças, das águas do ar, dos transportes, interessar-se por tudo o que diz respeito sobre seu estado do planeta, acompanhando pelos meios de comunicação como está sendo tratado, agredido ou curado.

Por fim, seja-nos permitido recordar a mensagem cristã que, pela encarnação do Filho de Deus, santificou a matéria e também a eternizou. A ressurreição do homem das dores, chagado e crucificado vem confirmar que o fim dos caminhos de Deus não é um “espírito” sem a matéria, mas o homem-corpo transfigurado, que realizou todas as potencialidades nele escondidas e elevado ao mais alto grau de sua evolução humana e divina.

É o supremo cuidado que Deus mostrou para com o homem-corpo, ressuscitando-o como homem novo, “o novíssimo Adão”como o chama São Paulo e enfim, assumindo-o para dentro de sua própria realidade infinita e eterna

O CORONAVÍRUS RESGATA A NOSSA VERDADEIRA HUMANIDADE

A pandemia do coronavírus obriga-nos a todos a pensar: o que conta, verdadeiramente, a vida ou os bens materiais? O individualismo de cada um para si, de costas para os outros, ou a solidariedade de uns para com os outros? Podemos continuar explorando, sem outra consideração, os bens e serviços naturais para vivermos cada vez melhor ou cuidar da natureza, da vitalidade da Mãe Terra e do bem-viver que é a harmonia entre todos e com os seres da natureza? Adiantou alguma coisa os países belicosos acumularem cada vez mais armas de destruição em massa, a ponto de destruir toda a biosfera e estraçalhar a Terra, se tem que agora se render a um vírus invisível que pode tornar ridículo todo esse aparato de morte? Podemos continuar com nosso estilo de vida consumista, depredador da natureza, ameaçador do equilíbrio da Terra, produzindo ilimitada riqueza em poucas mãos dentro de um oceano de pobres e miseráveis? Faz ainda sentido cada país afirmar a sua soberania, opondo-se à dos outros, quando todos estamos dentro do mesmo Titanic que pode afundar? Por que não descobrimos ainda a única Casa Comum, a Mãe Terra e o nosso dever coletivo de cuidar dela para que todos possam caber dentro, a natureza incluída?


São perguntas que não podem ser evitadas. Ninguém tem a resposta. Uma coisa, entretanto é certa, atribuída a Einstein: “a visão de mundo que criou a crise não pode ser a mesma que nos vai tirar da crise”. Temos que, forçosamente, mudar. O pior seria se tudo voltasse como antes, com a mesma lógica consumista e especulativa, talvez, com mais fúria ainda. Aí sim, por não termos aprendido nada, a Terra nos enviaria um outro vírus, talvez aquele que pode pôr um fim ao fracassado projeto humano.


Mas podemos olhar a guerra que o coronavírus está movendo em todo o planeta, sob um outro ângulo e este positivo. O vírus faz-nos descobrir qual é a nossa mais profunda e autêntica natureza humana.


Em primeiro lugar, somos seres de relação. Somos, como tenho repetido inúmeras vezes, um nó de relações totais voltadas em todas as direções. Portanto, ninguém é uma ilha.Lançamos pontes para todos os lados.



















Edição 157

O CORONAVÍRUS RESGATA A NOSSA VERDADEIRA HUMANIDADE

A pandemia do coronavírus obriga-nos a todos a pensar: o que conta, verdadeiramente, a vida ou os bens materiais? O individualismo de cada um para si, de costas para os outros, ou a solidariedade de uns para com os outros? Podemos continuar explorando, sem outra consideração, os bens e serviços naturais para vivermos cada vez melhor ou cuidar da natureza, da vitalidade da Mãe Terra e do bem-viver que é a harmonia entre todos e com os seres da natureza? Adiantou alguma coisa os países belicosos acumularem cada vez mais armas de destruição em massa, a ponto de destruir toda a biosfera e estraçalhar a Terra, se tem que agora se render a um vírus invisível que pode tornar ridículo todo esse aparato de morte? Podemos continuar com nosso estilo de vida consumista, depredador da natureza, ameaçador do equilíbrio da Terra, produzindo ilimitada riqueza em poucas mãos dentro de um oceano de pobres e miseráveis? Faz ainda sentido cada país afirmar a sua soberania, opondo-se à dos outros, quando todos estamos dentro do mesmo Titanic que pode afundar? Por que não descobrimos ainda a única Casa Comum, a Mãe Terra e o nosso dever coletivo de cuidar dela para que todos possam caber dentro, a natureza incluída?

São perguntas que não podem ser evitadas. Ninguém tem a resposta. Uma coisa, entretanto é certa, atribuída a Einstein: “a visão de mundo que criou a crise não pode ser a mesma que nos vai tirar da crise”. Temos que, forçosamente, mudar. O pior seria se tudo voltasse como antes, com a mesma lógica consumista e especulativa, talvez, com mais fúria ainda. Aí sim, por não termos aprendido nada, a Terra nos enviaria um outro vírus, talvez aquele que pode pôr um fim ao fracassado projeto humano.

Mas podemos olhar a guerra que o coronavírus está movendo em todo o planeta, sob um outro ângulo e este positivo. O vírus faz-nos descobrir qual é a nossa mais profunda e autêntica natureza humana.

Em primeiro lugar, somos seres de relação. Somos, como tenho repetido inúmeras vezes, um nó de relações totais voltadas em todas as direções. Portanto, ninguém é uma ilha.Lançamos pontes para todos os lados.

Em segundo lugar, como consequência, todos dependemos uns dos outros. A compreensão africana “Ubuntu” bem o expressa:”eu só sou eu através de você”. Portanto, todo individualismo, alma da cultura do capital, é falso e anti-humano. O coronavírus o comprova. A saúde de um depende da saúde do outro. Esta mútua dependência assumida conscientemente, se chama solidariedade. Foi a solidariedade que outrora, nos fez deixar o mundo dos antropoides e nos permitiu sermos humanos, convivendo e nos auto-ajudando. Assistimos nestas semanas gestos comoventes de verdadeira solidariedade, muitos ajudando a outros, fracos a fracos.

Em terceiro lugar, somos seres essencialmente de cuidado. Sem o cuidado, desde a nossa concepção e durante toda a vida, ninguém subsistiria. Precisamos cuidar de tudo: de nós mesmos, caso contrário podemos adoecer e morrer, dos outros que me podem salvar ou eu os posso salvar, da natureza senão ela se volta contra nós com vírus deletérios, com estiagens desastrosas, com enchentes devastadoras, com eventos climáticos extremos, cuidado para com a Mãe Terra para que continue a dar-nos tudo aquilo que precisamos para viver e que ainda nos queira sobre seu solo, já que, durante séculos, a agredimos de forma impiedosa. Especialmente agora sob o ataque do coronavírus todos devemos cuidar-nos, cuidar dos outros mais vulneráveis, recolher-nos em casa, manter o distanciamento social e cuidar da infra-estrutura sanitária sem a qual assistiremos a uma catástrofe humanitária de proporções bíblicas.

Em quarto lugar, descobrimos que devemos ser todos corresponsáveis, vale dizer, ser conscientes das consequências benéficas ou maléficas de nossos actos. A vida e a morte estão em nossas mãos, vidas humanas, vida social, econômica e cultural. Não basta a responsabilidade do Estado ou de alguns, mas deve ser de todos, pois todos são afectados e todos podem afectar.Todos devem aceitar o confinamento.

Por fim, descobrimos a força do mundo espiritual que constitui o nosso Profundo, lá onde se elaboram os grandes sonhos, se colocam as questões derradeiras sobre o sentido de nossa vida e onde sentimos que deve existir uma Energia amorosa e poderosa que tudo perpassa, sustenta o céu estrelado e nossa própria vida sobre qual não temos todo o controle. Podemos abrir-nos a ela, acolhê-la e, como numa aposta, confiar que Ela nos segura na palma de sua mão e que, apesar de todas as contradições, garante um fim bom para todo o universo, para nossa história sapiente e demente e para cada um de nós. Se cultivarmos esse mundo espiritual, sentimo-nos mais fortes, mais cuidadores, mais amorosos, em fim, mais humanos.

Sobre estes valores nos é concedido sonhar e construir outro tipo de mundo, biocentrado, no qual a economia,com outra racionalidade, sustenta uma sociedade globalmente integrada, fortalecida mais por alianças afetivas do que por pactos jurídicos. Será a sociedade do cuidado, da gentileza e da alegria de viver.

Edição 156, Março 2020

O CORONAVÍRUS, A AUTO-DEFESA DA PRÓPRIA TERRA

A pandemia do coronavírus nos revela que o modo como habitamos a Casa Comum é nocivo à sua natureza. A lição que nos transmite soa: é imperioso reformatar nossa forma de viver sobre ela, enquanto planeta vivo. Ela nos está alertando que assim como estamos nos comportando não podemos continuar. Caso contrário a própria Terra irá se livrar de nós, seres excessivamente agressivos e maléficos ao sistema-vida.

Nesse momento, face ao fato de estarmos no meio da primeira guerra global, é importante conscientizar nossa relação para com ela e a responsabilidade que temos pelo destino comum Terra viva-Humanidade.

Acompanhem-me neste raciocínio: o universo existe já há 13,7 bilhões de anos. A Terra há 4,4 bilhões. A vida há 3,8 bilhões. O ser humano há 7-8 milhões. Nós, o homo sapiens/demens atual há 100 mil anos. Todos somos formados com os mesmos elementos físico-químicos (cerca de 100) que se formaram, como numa fornalha, no interior das grandes estrelas vermelhas, por 2-3 bilhões de anos (portanto há 10-12 bilhões de anos): o universo, a Terra e nós mesmos.

A vida, provavelmente, irrompeu a partir de uma bactéria originária, mãe de todos os viventes. Acompanhou-a um número inimaginável de micro-organismos. Diz-nos Edward O.Wilson, talvez o maior biólogo vivo: só num grama de terra vivem cerca de 10 bilhões de bactérias de até 6 mil espécies diferentes (A criação: como salvar a vida na Terra, 2008, p. 26). Imaginemos a quantidade incontável desses micro-organismos, em toda a Terra, sendo que somente 5% da é visível e 95%, invisível: o reino das bactérias, fungos e vírus.

Acompanhem-me ainda: hoje é tido como um dado científico, depois de 2002, quando James Lovelock e sua equipe demonstraram perante uma comunidade científica de milhares de cientistas na Holanda, que a Terra não só possui vida sobre ela. Ela mesma é viva. Emerge como um Ente vivo, não no sentido de um organismo ou um animal, senão de um sistema que regula os elementos físico-químicos e ecológicos, como fazem os demais organismos vivos, de tal forma que se mantém vivo e continua a produzir uma miríade de formas de vida. Chamaram-na de Gaia.

Outro dado que muda nossa percepção da realidade. Na perspectiva dos astronautas seja da Lua seja das naves espaciais, assim testemunharam muitos deles, não vigora uma distinção entre Terra e Humanidade. Ambos formam uma única e complexa entidade. Conseguiu-se fazer uma foto da Terra, antes de ela penetrar no espaço sideral, fora do sistema solar: aí ela aparece, no dizer do cosmólogo Carl Sagan, apenas como ”um pálido ponto azul”. Pois, nós estamos dentro deste pálido ponto azul, como aquela porção dela, que num momento de alta complexidade, começou a sentir, a pensar, a amar e a perceber-se parte de um Todo maior. Portanto, nós, homens e mulheres, somos Terra, somos húmus (terra fértil), o Adam bíblico (terra arável) inteligente e amante.

Ocorre que nós, esquecendo que somos uma porção da própria Terra, começamos a saquear suas riquezas no solo, no subsolo, no ar, no mar e em todas as partes. Buscava-se realizar um projeto ousado de acumular o mais possível bens materiais para o desfrute humano, na verdade, para a sub-porção poderosa e já rica da humanidade. Em função desse propósito se criou a ciência e a técnica. Atacando a Terra, atacamos a nós mesmos que somos Terra. Levou-se tão longe a cobiça deste grupo pequeno de gente, que ela atualmente se sente exaurida a ponto de terem sido tocados seus limites intransponíveis. É o que chamamos tecnicamente de a Sobrecarga da Terra (the Earth overshoot). Tiramos dela mais do que pode dar. Ela não consegue repor o que lhe subtraímos. Então dá sinais de que adoeceu, perdeu seu equilíbrio dinâmico, aquecendo-se de forma crescente, formando tufões e tsunamis, nevascas nunca dantes vistas, estiagens prolongadas e inundações aterradoras. Mais ainda: liberou micro-organismos como o sars, o ebola, o dengue, a chikungunya e agora o coronavírus. São formas das mais primitivas de vida, quase no nível de nanopartículas, só detectáveis sob potentes microscópios eletrônicos. E podem dizimar o ser mais complexo que ela produziu e que é parte de si mesma, o ser humano, homem e mulher, pouco importa seu nível social.

Até agora o coronavírus não pôde ser destruído, apenas impedido de se propagar. Mas está ai produzindo uma desestabilização geral na sociedade, na economia, na política, na saúde, nos costumes, na escala de valores estabelecidos.

De repente, acordamos, assustados e perplexos: esta porção da Terra que somos nós pode desaparecer. Em outras palavras, a própria Terra se defende contra a parte rebelada e doentia dela mesma. Pode sentir-se obrigada a fazer uma ablação, como fazemos de uma perna necrosada. Só que desta vez, é toda esta porção tida por inteligente e amante, que a Terra não quer mais que lhe pertença e acabe eliminando-a.

E assim será o fim desta espécie de vida que, com sua singularidade, é uma entre milhões de outras existentes, também partes da Terra. Esta continuará girando ao redor do sol, empobrecida, até que ela faça surgir um outro ser que também é expressão dela, capaz de sensibilidade, de inteligência e de amor. Novamente se irá percorrer um longo caminho de moldagem da Casa Comum, com outras formas de convivência, esperamos, melhores que aquela que nós moldamos.

Seremos capazes de captar o sinal que o coronavírus nos está passando ou continuaremos com o mesmo propósito letal, ferindo a Terra e nos auto-ferindo para acumular irracionalmente bens materiais?

O CORONAVÍRUS: O PERFEITO DESASTRE PARA O CAPITALISMO

A atual pandemia do coronavírus representa uma oportunidade única para repensarmos o nosso modo de habitar a Casa Comum, a forma como produzimos, consumimos e nos relacionamos com a natureza. Chegou a hora de questionar as virtudes da ordem do capital: a acumulação ilimitada, a competição, o individualismo, a indiferença face à miséria de milhões, a redução do Estado e a exaltação do lema de Wallstreet: ”greed is good”(a cobiça é boa). Tudo isso agora é posto em xeque. Ele tem dias contados.

O que agora nos poderá salvar não são as empresas privadas mas o Estado com suas políticas sanitárias gerais, sempre atacado pelo sistema do mercado “livre” e serão as virtudes do novo paradigma, defendidas por muitos e por mim, do cuidado, da solidariedade social, da corresponsabilidade e da compaixão.

O primeiro a ver a urgência desta mudança foi o presidente francês, neoliberal e vindo do mundo das finanças E. Macron. Falou claro:“Caros compatriotas, precisamos amanhã tirar lições do momento que atravessamos, questionar o modelo de desenvolvimento que nosso mundo escolheu há décadas e que mostra suas falhas à luz do dia, questionar as fraquezas de nossas democracias. O que revela esta pandemia é que a saúde gratuita sem condições de renda, de história pessoal ou profissão, e nosso Estado-de Bem-Estar Social não são custos ou encargos mas bens preciosos, vantagens indispensáveis quando o destino bate à porta. O que esta pandemia revela é que existem bens e serviços que devem ficar fora das leis do mercado”.

Aqui se mostra a plena consciência de que uma economia só de mercado, que tudo mercantiliza e sua expressão política o neoliberalismo são maléficas para a sociedade e para o futuro da vida.

Mais contundente ainda foi a jornalista Naomi Klein,uma das mais perspicazes críticas do sistema-mundo e que serviu de título ao meu artigo:”O coronavírus é o perfeito desastre pra o capitalismo do desastre”. Essa pandemia produziu o colapso do mercado de valores (bolsas), o coração deste sistema especulativo, individualista e antivida como o chama o Papa Francisco. Este sistema viola a lei mais universal do cosmos,da natureza e do ser humano: a interdependência de todos com todos; que não existe nenhum ser, muito menos nós humanos, como uma ilha desconectada de tudo o mais. Mais ainda: não reconhece que somos parte da natureza e que a Terra não nos pertence para explorá-la ao nosso bel-prazer,mas que nós pertencemos à Terra. Na visão dos melhores cosmólogos e dos astronautas que veem a unidade Terra e Humanidade, somos aquela porção da Terra que sente, pensa,ama,cuida e venera. Superexplorando a natureza e a Terra como se está fazendo no mundo inteiro, estamos nos prejudicano a nós mesmos e nos expondo às reações e até aos castigos que ela nos impõe. É mãe generosa, mas pode mostrar-se rebelada e enviar-nos um vírus devastador.

Sustento a tese de que esta pandemia não pode ser combatida apenas por meios econômicos e sanitários sempre indispensáveis. Ela demanda outra relação para com a natureza e a Terra. Se após passar a crise e não fizermos as mudanças necessárias, na próxima vez, poderá ser a última, pois nos fazemos os inimigos figadais da Terra. Ela pode não nos querer mais aqui.

O relatório do prof.Neil Ferguson do Imperial College of London declarou:” esse é o vírus mais perigoso desde a gripe H1N1 de 1918.Se não houver uma resposta imediata, haveria nos USA 2,2 milhões de mortos e 510 mil no Reino Unido”.Bastou esta declaração para que Trump e Johnson mudassem imediatamente de posição.Tardiamente se empenharam com fortunas para proteger o povo. Enquanto que no Brasil o Presidente não se importa,a trata como uma “histeria” e no dizer de um jornalista alemão da Deutsche Welle:”Ele age de forma criminosa. O Brasil é liderado por um psicopata, e o país faria bem em removê-lo o mais rápido possível. Razões para isso haveria muitas”. É o que o Parlamento e o STF federal, por amor ao povo, deveria sem delongas fazer.

Não basta a hiperinformação e os apelos por toda a mídia. Ela não nos move a mudar de comportamento exigido. Temos que despertar a razão sensível e cordial. Superar a indiferença e sentir, com o coração, a dor dos outros. Ninguém está imune do vírus. Ricos e pobres temos que ser solidários uns para com os outros, cuidarmo-nos pessoalmente e cuidar dos outros e assumir uma responsabilidade coletiva.Não há um porto de salvação. Ou nos sentimos humanos, co-iguais na mesma Casa Comum ou nos afundaremos todos.

As mulheres,como nunca antes na história, têm uma missão especial: elas sabem da vida e do cuidado necessário. Elas podem nos ajudar a despertar nossa sensibilidade para com os outros e para conosco mesmo.Elas junto com operadores da saúde(corpo médico e de enfermagem) merecem nosso apoio irrestrito. Cuidar de que nos cuida para minimizar os males desse terrível assalto à vida humana.

O DIA INTERNACIONAL DA MULHER NOS DESAFIA A PENSAR

O Dia Internacional da Mulher que no fundo cada dia é o dia da mulher, nos oferece a ocasião de pensar o desafio que o movimento feminista mundial nos lança. Esse movimento mais que outros fez duas revoluções: colocou em questão o machismo e o patriarcalismo. O machismo como a dominação do homem sobre a vida da mulher que já dura séculos. A luta das mulheres nos despertaram para a questão de gênero que envolve relações de poder. Esse não pode ser só do homem. Deve ser partilhado entre o homem e a mulher. Evitar a divisão sexual de trabalho e priorizar lógica de partilha e da coparticipação em todo o projeto de vida a dois. Daí surge uma relação mais justa e harmoniosa.

Em segundo lugar, o movimento feminista fez talvez a mais consistente crítica à cultura patriarcal que organizou toda a sociedade e as várias instâncias da vida e também da religião. O homem assumiu o poder através do qual submete os demais, chefia o Estado, cria a burocracia, organiza o exército e faz guerras. Quase todos os heróis e a maioria das divindades são masculinas. Ele ocupa a vida pública e relega à mulher à vida privada e familiar. O patriarcado, pela crítica feminista, foi teoricamente desmantelado, embora na prática, tente sempre de novo a dominar a mulher. Um refúgio especial do patriarcado é a mídia e o marketing que usam a mulher, não só no seu todo mas as partes dela, os seios, as pernas, as partes íntimas. É uma forma de transformar a mulher em objeto e uso.

A grande contribuição do feminismo foi ter mostrado que todas ou quase todos as culturas hoje existentes são patriarcais. Tem como consequência a manutenção da desigualdade na relação homem-mulher em todos os âmbitos. Seja nos USA, na Alemanha e seja no Brasil uma mulher pode fazer o mesmo trabalho, mesmo o mais competente, pelo fato de ser mulher, ganha pelos menos 20-30% a menos que o homem que executa a mesma função. Não basta a consciência da superação teórica do patriarcado, mas a demolição de seus hábitos mantidos nas instituições e comportamentos sociais.

Mas nem sempre foi assim. O ser humano existe já há 7-8 milhões de anos. Na primeira fase que durou milhões de anos as relações homem-mulher eram de harmonia e de equilíbrio com a natureza. Contrariamente do que crê o pensamento patriarcal, a verdadeira convivência humana não foi regida pela violência de uns sobre outros mas pela solidariedade e pela cooperação. A violência é recente no processo da antropogênese. Ela começou com o homo faber há dois milhões de anos que na busca dos alimentos especialmente da caça começou a usar o instrumento e a força. Ai o masculino passa a ser o gênero predominante. Ela ganhou hegemonia ao surgirem há 8 mil anos a agricultura, as vilas, as cidades e os impérios. As relações homem-mulher passam a ser de desigualdade: ele ocupa toda a vida pública, governa sozinho e relega a mulher à função de procriadora e cuidadora do lar.

As mudanças sempre buscadas, culminaram no século XX com a segunda revolução industrial quando a mulher entra no domínio público porque o sistema competitivo faz mais máquinas que machos. Já no final do século XX e hoje as mulheres são a maioria na humanidade e praticamente 50% da força de trabalho mundial. Com isso se cerra, de certa forma, o ciclo patriarcal e se inicia um novo paradigma de valorização das diferenças e a busca da igualdade ainda a ser alcançada.

As mulheres trazem para o sistema produtivo e para o Estado algo radicalmente novo. Não será só competitivo e autoritário. A mulher traz o que viveu no domínio privado: os valores da solidariedade, da partilha e do cuidado. Milenarmente foi educada para o altruísmo. Se um bebê não tiver à sua disposição alguém altruísta que o cuidasse, não duraria uns dias sequer. Desta forma, a entrada da mulher no domínio público masculino é condição essencial de humanização e mais cooperação no mundo do trabalho e, o que é fundamental, ajuda a reverter o processo de destruição da natureza e da espécie humana.

Isso ficou claro na consciência coletiva no Relatório da ONU para o Fundo para a População (FNUAP) que sustenta: “a raça humana vem saqueando a Terra de forma insustentável e dar às mulheres maior poder de decisão sobre o seu futuro pode salvar o planeta de sua destruição”. Veja que aqui não se fala de “poder de participação”que elas sempre tiveram, mas de “poder de decisão”.

São elas que entendem de vida, pois a geram. Serão elas as principais protagonistas na decisão de uma biocivilização acentada no cuidado, na solidariedade e na lógica do coração, sem as quais a vida não viceja. Elas junto com os homens que desentranharam a sua dimensão de “anima”(cuidado, gentileza e amorosidade) que se articula com a dimensão de “animus” (razão, organização,direção) presentes, em proporções próprias em cada pessoa, poderão dar um rumo novo à nossa existência neste planeta e nos afastar do caminho sem retorno, caminho de perdição.

'QUERIDA AMAZÔNIA':UMA INCULTURAÇÃO TRUNCADA

A Exortação Apostólica “Querida Amazônia” do Papa Francisco é um hino à magnitude e à beleza desse imenso bioma que recobre nove países da América Latina. Como poucos se deu conta da importância da Amazônia para o futuro do equilíbrio ecológico do planeta e da sobrevivência do sistema-vida.

Dividiu sua exposição na qual cita nossos autores e poetas em quatro sonhos: o social, o cultural, o ecológico e o eclesial. Comparto totalmene com quatro sonhos e meio. A segunda metade do quarto sonho parece, para não poucos, antes um pesadelo. E explico por que.

O estilo antes profético, ético, ecológico e poético se extingue-se. Parece que outra mão escreveu o texto e, seguramente sob pressão, conseguiu agregá-lo ao quarto sonho, transformando-o num pesadelo. Aqui não fala o pastor mas o doutor, não o profeta que denuncia o sistema mundial anti-vida mas a autoridade doutrinária que fixa uma lição teológica.

Qual é o propósito de toda a Exortação Apostólica? A inculturação da fé cristã na universo dos indígenas de tal forma que surja uma Igreja de rosto amazônico. Tal diligência implica prestigiar a sabedoria ancestral, os valores, os costumes e o modo de ser indígena. De uma Igreja-espelho da europeia, implantada pela colonização, deveria emergir uma Igreja-fonte, com raízes na nossa realidade, especialmente inculturada nos povos originários da Amazônia.

O Papa Francisco foi quem mais estimulou os participantes do Sínodo Panamazônico para que tivessem coragem de enfrentar este desafio. Essa inculturação para ser real comportava obviamente sacerdotes casados, os “viri probati”. Os indígenas nem se imaginam um indígena célibe. O padre deveria ser alguém casado. Essa era uma petição das comunidades amazônicas, apoiadas pela maioria de seus bispos e aprovada majoritariamente pelo Sínodo Panamazônico. Grande foi a decepção quando se viu que este tipo de sacerdotes casados foi rejeitado pelo quarto sonho. A inculturação não deveria ser completa?

A argumentação para negar o sacerdócio casado se funda numa eclesiologia tradicionalista e superada pelo Concílio Vaticano II. Este dava centralidade, primeiro, ao Povo de Deus e depois a hierarquia a seu serviço. A missão do ministro ordenado não é o de concentrar o poder sagrado, mas o de coordenar todos os serviços, dar coesão e presidir a comunidade. Pelo fato de presidir a comunidade, preside também a celebração eucarística.

Agora se determina a lição doutrinária da Exortação:”O caráter exclusivo recebido pelo sacramento da Ordem, deixa só o sacerdote habilitado a presidir a Eucaristia; esta é sua função específica, principal e não delegável”(n.87). Cabe lembrar que aqui se pensa unicamente no sacerdote celibatário. Esta é a doutrina tradicionalista que faz do sacerdote uma espécie de mago solitário.

Eis que surgem dois problemas: os fiéis, segundo o mandato de Jesus (Jn 6,35; Lc 22,19;1Cor 11,25) têm o direito divino de participar de seu corpo e sangue eucarísticos. Não se pode negar a Eucaristia aos indígenas por não lhes permitir um sacerdote casado. Um direito humano não pode se sobrepor a um direito divino.

O segundo problema: um sacerdote pode celebrar sozinho a Eucaristia mas a comunidade não pode celebrar sozinha a mesma Eucaristia. Sem o sacerdote celibatário não há Eucaristia.

Aqui importa resgatar a ideia antiga e moderna: não se pode imaginar uma ordenação em absoluto, sem uma conexão com a comunidade. O canon 6 do mais importante dos Concílios, o de Calcedônia (451), considerou inválida toda ordenação absoluta.

Durante os primeiros mil anos de cristianismo valia a seguinte norma: quem preside a comunidade, preside também a Eucaristia. Podia ser um bispo, um presbítero, um profeta e até um leigo.

Somente no milênio seguinte, por razões políticas de disputa entre os Papas e os Imperadores, se firmou a doutrina chamada de “cefalização” segundo a qual todo o poder está na “cabeça”, no Papa e a quem ele o delegar. Só o padre ordenado pode presidir a Eucaristia. O poder sagrado ficou desligado da comunidade. Surgiu um sacerdócio absoluto e celibatário contra o que prescrevia o canon 6 do Concílio de Calcedônia.

Ora, tal doutrina, foi tida pelo maior estudioso da Igreja, J. Y.Cngar, como danosa até os dias de hoje. Ela separa os padres celibatários da comunidade. Mas foi, na verdade, superada atualmente, graças à concepção do Vaticano II que religa a Igreja ao Povo de Deus e o sacerdote à comunidade.

Mas o que propriamente está em questão para ser ordenado é a lei do celibato, imposta historicamente só na Igreja Católica Romana. Ela não existe nas demais 24 Igrejas também católicas (ortodoxa, armena etc), sem serem por isso menos católicas.

Resumo da ópera: a assim chamada total inculturação da igreja nas culturas indígenas ficou truncada, por causa de uma lei humana, ocidental e sexista (celibato). Assim se frustrou o sonho de uma Igreja realmente de rosto indígena e amazônico pela imposição de uma norma ocidental, romana e excludente.

A ordenação de indígenas casados virá, pois quando uma ideia se firmou nas consciências, ela vai se realizar.

Edição 155, Fevereiro 2020

COMO MATAR A SAUDADE DE DEUS

“Saudade” é intraduzível em outros idiomas. Por isso não é coisa que se define mas que se vive e se sofre. Descrevendo-a: é uma melancolia terna num misto de uma dor suave por um bem que foi vivido e que não volta mais, mas que docemente, retorna à memória: é o primeiro beijo da pessoa amada, é um olhar profundo de uma mulher que, numa plataforma de trem, encontrou no outro homem também um olhar penetrante revelando um amor imediato; o trem partiu e ela nunca mais foi encontrada; mas aquele olhar mútuo que foi ao fundo da alma, nunca mais pôde ser esquecido. Saudade é a experiência de, numa máxima concentração, ser tomado totalmente pelo Ser de Deus a ponto de não sentir mais o próprio corpo. Essa saudade é dolorosa quando não se consegue mais renová-la. Só deixou uma saudade infinita de suprema bem-aventurança. A saudade não deixa o passado ficar passado. Embora ausente,o torna presente, ficando apenas invisível.

Em nosso peregrinar pela vida, tudo o que de belo, realizador, impactante e profundo nos tocou, deixa um rastro de saudade. Uma criança cancerígena bem disse: saudade é o amor que fica quando tudo já passou.

A sociedade moderna tardia e letrada saturou a muitos, nem a todos, de bens materiais, os encheu de promessas vãs de felicidade e até lhes forjou um falso evangelho da prosperidade para o qual dão tempo, entusiasmo e os suados dinheiros como nas igrejas neopentecostais fundamentalistas, explorados por pastores que são verdadeiros lobos em pele de ovelhas. O mercado conscientemente os mantém ocupados por mil ofertas de consumo, de viagens, de experiências novas que os dificultam de encontrar-se consigo mesmo. Vive-se ut si Deus non daretur “como se Deus não existisse” ou tivesse sido borrado do horizonte da existência.

Mas nem tudo é manipulável no ser humano; há nele mistérios, cantos impenetráveis que guardam memórias e arquétipos ancestrais. Daí pode surgir uma saudade toda particular, a saudade de Deus, do Self que habita o profundo. Por séculos, conferia coesão à sociedade e oferecia um chão à existência humana.

Por razões muito complexas que não cabe aqui analisar, irrompeu o homem novo da modernidade. Ele dispensou Deus. Apresentou-se como um deus minor in terra,como “um deus menor na terra”. Sua experiência fundadora se definiu pela vontade potência, pelo poder exercido como dominação sobre os outros, sobre a mulher, sobre os povos, sobre a natureza, sobre a vida até sobre o espaço exterior. Assumiu tantas tarefas na nova conformação do mundo que, de repente, se deu conta de não poder mais realiza-las. O pequeno deus criou “o complexo Deus”. Já não tem mais forças, sente-se frágil, impotente, temeroso de si mesmo, pois criou uma máquina de morte que pode dar cabo a si mesmo por múltiplas formas diferentes. Fez guerras que só no século vinte, mataram 200 milhões de pessoas. Devastou a natureza que agora se volta contra ele com tufões, aquecimento global, aumento dos oceanos, escassez de bens e serviços sem os quais a vida não se sustenta.

Ai surge o que estava escondido naquele canto recôndito de sua interioridade: a “saudade de Deus”. O nome “Deus” não importa, mas o que Ele representa: aquela Energia poderosa e amorosa que tudo sustenta e que, por isso, deve ser viva e inteligente, aquele Valor Inquestionável, vivo e irradiante, que orienta os comportamentos humanos e controla as forças do Negativo. O mantra da cultura ilustrada é enganoso: “Anunciamos a morte de Deus porque nós o matamos”. E o matamos para ocupar o seu lugar e sermos nós o Super-homem que se fez “o pequeno deus” que vive para além do bem e do mal. Ele tudo decide. Por mais de dois séculos tentou realizar esse propósito e fracassou. Sucumbiu ao próprio peso das tarefas que se impôs. Agora anda errante, solitário, buscando em que se agarrar. Vive a ilusão, já referida por um místico: O inimigo do Sol subiu num terraço, fechou os olhos e gritou para todos: já não há mais sol; o Sol morreu porque eu o matei”. Ignorante, não vê mais o sol não por culpa do sol mas de seus olhos fechados. O Sol estará sempre lá a iluminar, pois essa é sua natureza. Talvez entrou num eclipse. E isso exacerba ainda mais a saudade de Deus de que Ele finalmente irrompa a nuvem da arrogância humana e venha humildemente ser acolhido por nós.

Essa saudade de Deus não existe na imensa maioria de todos os povos que não passaram pela circuncisão da modernidade. Jamais lhes passou pela cabeça a absurda arrogância de matar Deus. Muito menos pretenderam ser “o pequeno deus” dominador de tudo e de todos. “Matam a saudade de Deus” sentindo-o nos seus trabalhos quotidianos, no convívio amoroso com a família, na luta pesada para garantir dia após dia os meios de subsistência. Eles nem precisam crer em Deus, pois sabem dele, o sentem e o vivem na pele no corpo, no espírito, no sofrimento e na discreta alegria de viver.

Estes são os guardiães da sagrada memória do Deus de mil nomes (Tao, Shiva, Olorum, Javé, Alá, Deus). Eles são os profetas e mestres para os filhos da modernidade tardia, capazes de lhes molhar as raízes para que reverdeçam e superem a triste solidão que os devora. Basta que os encontrem e os escutem. Então também eles “matarão a saudade de Deus”. Como temos saudade desse Deus, humano, vivo e verdadeiro.

ÉTICA E ESPIRITUALIDADE FACE AOS DESASTRES ECOLÓGICOS ATUAIS

As grandes chuvas com inundações desastrosas que afetaram muitas cidades do Brasil e paralelamente os incêndios fenomenais na Austrália, seguidos imediatamente de inesperadas inundações, constituem sinais inequívocos da Terra de que nela algumas mudanças importantes estão ocorrendo. É praticamente consenso de que estas mudanças para pior se devem à ação irresponsável dos seres humanos (a era do antropoceno) em sua relação para com a natureza e para com a totalidade do planeta Terra.

Os vários grupos de cientistas que sistematicamente acompanham o estado da Terra atestam que, de ano para ano, os principais itens que sustentam a vida (água, solos, ar puro, fertilidade, climas e outros) estão se deteriorando dia a dia. Quando isso vai parar? O dia da Sobrecarga da Terra (the Earth Overshoot Day) foi atingido no dia 29 de julho de 2019. Isto significa: até esta data foram consumidos todos os recursos naturais disponíveis. Agora a Terra entrou no vermelho e no cheque especial. Chegaremos até dezembro? Se teimarmos em manter o consumo atual, temos que aplicar violência contra a Terra forçando-a a dar o que já não tem ou não pode repor. Sua reação a esta violência se expressa pelo aquecimento global, pelas enchentes, pelas grandes nevascas, pela perda da biodiversidade, pela desertificação, pelo aumento do dióxido de carbono e do metano e pelo crescimento da violência social já que Terra e Humanidade constituem uma única entidade relacional.

Ou mudamos nossa relação para com a Terra viva e para com a natureza ou segundo S. Bauman, “engrossaremos o cortejo daqueles que rumam na direção de sua própria sepultura”. Desta vez não dispomos de uma Arca de Noé salvadora.

Não temos outra alternativa senão mudarmos. Quem acredita no messianismo salvador da ciência é um iludido: a ciência pode muito mas não tudo: ela detém os ventos, segura as chuvas, limita o aumento dos oceanos? Não basta diminuir a dose e continuar com o mesmo veneno ou apenas limar os dentes do lobo. A mudança demanda atender a alguns dos seguintes marcos fundamentais.

Primeiro: uma visão espiritual do mundo. Isso não tem a ver com a religiosidade, mas com uma nova sensibilidade e um novo espírito de renúncia à uma relação violenta e meramente utilitarista da natureza. Há que se reconhecer que ela tem um valor em si mesmo, somos parte dela e que há de ser cuidada e respeitada como algo sagrado. Nisso consiste a nova sensibilidade e espiritualidade.

Segundo: resgatar o coração, o afeto, a empatia e a compaixão. Esta dimensão foi descurada em nome da objetividade da tecno-ciência. Mas nela se aninha o amor, a sensibilidade para com os outros, a ética dos valores e a dimensão espiritual. Porque não se dá lugar ao afeto e ao coração não há porquê respeitar a natureza e escutar as mensagens que ela nos está enviando com as enchentes e o aquecimento global. A tecnociência operou uma espécie de lobotomia nos seres humanos que já não sentem seus clamores. Imaginam ser a Terra um simples baú de recursos infinitos a serviço de um projeto de um enriquecimento infinito. Temos que mudar de paradigma: de uma sociedade industrialista que exaure a natureza para uma sociedade de conservação e cuidado de toda a vida.

Terceiro: tomar a sério o princípio de cuidado e de precaução. Ou cuidamos do que restou da natureza e regeneramos o que temos devastado, como o MST que se propôs neste ano plantar um milhão de árvores nas áreas depredadas pelo agronegócio, ou então nosso tipo de sociedade terá dias contados. A precaução exige que não se coloquem atos nem se usem elementos cujas consequências não podemos controlar. Ademais, a filosofia antiga e moderna já viu que o cuidado é a pré-condição para que surja qualquer ser. É também o norteador antecipado de toda ação. Se a vida, também a nossa, não for cuidada, adoece e morre. A prevenção e o cuidado são decisivos no campo da nanotecnologia e da inteligência artificial autônoma. Esta, sem sabermos, pode tomar decisões e penetrar em arsenais nucleares e pôr fim à nossa civilização.

Quarto: o respeito a todo ser. Cada ser tem valor intrínseco e tem seu lugar no conjunto dos seres. Mesmo o menor deles revela algo do mistério do mundo e do Criador. O respeito impõe limites à voracidade de nosso sistema depredador e consumista. Quem melhor formulou uma ética do respeito foi o médico e pensador Albert Schweitzer (+1965). Ensinava: ética é a responsabilidade e o respeito ilimitado por tudo o que existe e vive. Esse respeito pelo outro nos obriga à tolerância, urgente no mundo e entre nós, sob o governo de extrema-direita que nutre desprezo aos negros, indígenas, quilombolas, LGBT e às mulheres.

Quinto: atitude de solidariedade e de cooperação. Esta é a lei básica do universo e dos processos orgânicos. Todas as energias e todos os seres cooperam uns com os outros para que se mantenha o equilíbrio dinâmico, se garanta a diversidade e todos possam co-evoluir. O propósito da evolução não é conceder a vitória ao mais adaptável mas permitir que cada ser, mesmo o mais frágil, possa expressar virtualidades que emergem daquela Energia de Fundo que tudo sustenta, da qual tudo saiu e para qual tudo volta. Hoje, devido à degradação geral das relações humanas e naturais devemos, como projeto de vida, ser conscientemente solidários e cooperativos. Caso contrário, não salvaremos a vida nem garantiremos um futuro promissor para a Humanidade. O sistema econômico e o mercado não se fundam na cooperação mas na competição, a mais desenfreada. Por isso criam tantas desigualdade a ponto de 1% da humanidade possuir o equivalente aos 99% restantes.

Sexto: fundamental é a responsabilidade coletiva. Ser responsável é dar-se conta das consequências de nossos atos. Hoje. construímos o princípio da auto-destruição. O ditame categórico é então: aja de forma tão responsável que as consequências de tua ação não sejam destrutivas para a vida e seu futuro e não ativem a auto-destruição.

Sétimo: colocar todos os esforços na consecução de uma biocivilização centrada na vida e na Terra. O tempo das nações já passou. Agora é o tempo da construção e da salvaguarda do destino comum Terra e Humanidade. Sua realização não se fará sem pormos em ação os marcos acima elencados.

QUANDO A SEXUALIDADE ERA CELEBRADA NA IGREJA

É ideia comum de que a moral católica no tocante à sexualidade é rigorista e até preconceituosa. Isso se deve, em grande parte, à influência de Santo Agostinho que interpretava a transmissão do pecado original que macula toda a existência humana, através da relação sexual. Todos os que nascem dessa relação são portadores desse pecado. Por causa desta interpretação que se tornou doutrina dominante, se estabeleceu uma relação negativa e até preconceituosa entre sexo e pecado.

Entretanto, nem sempre foi assim. Dentro da mesma Igreja, há tradições e doutrinas que veem no prazer e na sexualidade uma manifestação da criação boa de Deus, uma centelha do Divino e uma participação na natureza mesma de Deus. Esta linha se liga à tradição bíblica que vê com naturalidade e até com regozijo o amor entre um homem e uma mulher. Com forte carga erótica, o livro do Cântico dos Cânticos celebra o jogo do amor, a beleza dos corpos dos amantes, dos seios, dos lábios e dos beijos. Curiosamente neste livro bíblico nunca aparece o nome de Deus. Mesmo sem nomear Deus, este livro foi recolhido no Cânon dos livros tidos como inspirados. Nem precisava referir-se a Deus, pois São João nos revela que a verdadeira natureza de Deus é amor (1 Jo 4,16). Então Deus estava aí.

A base teológica para esta visão positiva radica na fé na encarnação do Filho de Deus. Ele assumiu tudo o que é humano, portanto, também a sexualidade, a libido e o imaginário ligado a ela e o amor. Daí dizer-se que não existe mais nada de profano em si. Tudo foi tocado e transfigurado pela realidade divina, feita humana. Pela encarnação, a sexualidade faz parte do Filho de Deus. A sexualidade aqui não deve ser reduzida à genitalidade, mas significa todo o envolvimento afetivo e as trocas amorosas, com as características próprias do feminino e respectivamente do masculino.

Tal assunção trouxe à sexualidade humana uma dimensão sagrada. Depois da encarnação de Deus, ela não pode mais constituir um tabu, um pesadelo ou um fator que transmite a desgraça do pecado original. É uma dimensão privilegiada na qual o ser humano experimenta a força vulcânica do desejo, a ternura, o amor e o prazer. Tudo isso pode fundar uma experiência prazerosa de Deus. O próprio Deus se revela nas vidas dos seres humanos diferentes e desejantes. Deste encontro nasce o maior fruto da cosmogênese que é a vida humana .

Para ilustrar esta tradição, cabe referir aqui uma manifestação que perdurou na Igreja romano-católica por mais de mil anos, conhecida pelo nome de “risus paschalis”, o “riso pascal”. Ela significava a simbolização do prazer genital-sexual no espaço sagrado, na celebração da maior festa cristã, a da Páscoa.

Trata-se do seguinte facto, estudado com grande erudição por uma teóloga italiana Maria Caterina Jacobelli (Il risus paschalis e il fondamento teologico del piacere sessuale, Brescia 2004): Para ressaltar a explosão de alegria da Páscoa em contraposição à tristeza da Quaresma, o sacerdote na missa da manhã de Páscoa devia suscitar o riso no povo. E fazia-o por todos os meios, mas sobretudo recorrendo à simbólica sexual. Contava piadas picantes, usava expressões eróticas e encenava gestos que insinuavam relações sexuais. E o povo ria que ria. Traduzia destarte o caráter inocente e decente do riso pascal.

Esse costume é atestado por fontes históricas já em 852 em Reims na França e se estendeu por todo o Norte da Europa, pela Itália e pela Espanha, até 1911 perto de Frankfurt na Alemanha. O celebrante assumia a cultura dos fiéis em sua forma popularesca e para nós, que perdemos a naturalidade do sexo, parece-nos até obscena. O próprio teólogo Joseph Ratzinger, depois Papa, em um de seus escritos se refere, embora criticamente, ao risus pascalis para expressar a vida nova inaugurada pela Ressurreição. Afirmava ainda que somente a partir da crença na Ressurreição voltou verdadeiramente o sorriso na humanidade e não apenas o riso. O sorriso desanuviado e livre, manifestado no “riso pascal” sexual expressaria a alegria que a ressurreição trouxe ao mundo.

Podemos discutir o método pouco adequado para suscitar tal riso. Mas ele revela na Igreja uma outra postura, positiva e não condenatoria da sexualidade. Aventar tais fatos não significa querer escandalizar os fiéis ou questionar a doutrina da Igreja. Mas ela nos obriga a relativizar a rigidez oficial face à sexualidade, acentuada de modo especial nos últimos Papas mas superada no documento do Papa Francisco Amoris laetitia cujo título diz tudo: “a alegria do amor”. No fundo se trata de devolver sentido e alegria à vida humana, chamada à mais vida e não só à renúncia e ao sacrifício. E por que não expressá-la na linguagem da sexualidade criada e querida por Deus?

Há que se reconhecer que esta visão mais natural predomina na vida concreta dos cristãos. Estes obedecem mais à lógica dos reclamos profundos da existência humana sexuada e perpassada pelo desejo do que às doutrinas frias da moral e da ética cristãs de cariz rigorista. A alegria da vida que triunfa definitivamente pela ressurreição, encontrou no risus pascalis uma expressão da sexualidade redimida, inocente, prazerosa e sagrada. Por que não gaiamente recordá-la?

AO REDOR DA PANELA: MUTIRÃO DE TEOLOGIA POPULAR DE LIBERTAÇÃO

A teologia da libertação não é uma disciplina a mais ao lado da história dos dogmas, da liturgia, da moral e do direito canônico etc. É um modo diferente de cumprir o ofício da teologia: no meio do povo principalmente dos mais pobres e invisíveis. Por isso sua marca registrada é a opção pelos pobres contra a pobreza e a favor da libertação.

Alguns fazem teologia para os pobres, coisa que a Igreja nunca deixou de praticar. Outros fazem teologia com os pobres, convivendo com eles e tentando pensar a mensagem cristã a partir de sua cultura. Outros vão mais longe e fazem uma teologia como os pobres, fazendo-se pobres, morando em favelas e ouvindo suas histórias e descobrir na escuta das palavras deles a presença escondida de Deus.

Assim surgiu no Brasil com o recordado teólogo José Comblin, na Paraíba, a teologia da enxada elaborada junto com os camponeses depois do trabalho diário. Clodovis Boff criou a teologia pé no chão no Acre da qual surgiram centenas de lideranças populares e políticas na Amazônia.

Recentemente está sendo articulada na América Latina, animada pelo grupo Ameríndia (articulação de cristãos ligados à libertação) uma teologia da libertação popular em mutirão com pessoas dos meios pobres e periféricos. Usa-se a metáfora da panela borbulhante na qual se prepara saboroso guisado. Segue o seguinte roteiro:

O que cozinhar? As narrativas dolorosas e amorosas dos humildes da Terra que trocam em mutirão suas experiências de vida e as reflexões que daí surgem e que encaminhamentos fazer.

Com que cozinhar? Com os condimentos, ervas e sabores próprios de cada região. Cozinham-se com as narrativas singulares dos indígenas, das mulheres, dos negros, dos camponeses. Cada grupo narra suas tragédias e suas vitórias, suas dores e suas alegrias. Dizem: “há crises mas nós estamos cheios de esperança; há silêncio e nós cantamos histórias; há fome de pão e de sentido mas cozinhamos nosso guisado na panela borbulhante e comemos alegremente todos juntos.

Quem são os cozinheiros? São os próprios membros das comunidades populares pobres. Colocam-se em roda e em mutirão cada qual dá seu testemunho, conta sua vida, mostra as chagas das torturas dos militares repressivos. Ai aparece toda a tragédia vivida pelas grandes maiorias pobres e marginalizadas desde o tempo da Colônia. Nunca foram escutados. Agora um escuta o outro e rompem o silêncio secular. São cozinheiros exímios.

A partir de onde se cozinha? A partir dos invisíveis, daqueles que as políticas sociais para os pobres não os alcança. Vivem um profundo desamparo social. Escutar seus lamentos mas também suas alegrias com o mínimo. No mutirão se perguntam: como Deus se revela na nossa pobreza? como Ele é apesar disso bom e amoroso, pois nos faz viver e nos dá os filhos e as filhas, nossa grande alegria.

Aqui cabe lembrar a Guamán Poma de Ayala, um inca da nobreza e educado na Espanha. Anos depois, regressa e percorre todo o antigo império inca peruano para “buscar os Cristos” escondidos e crucificados pelos colonizadores de ontem e de hoje. Esse tipo de teologia narrativa criou até um termo novo: senti-pensar coletivamente: sentir e pensar as antigas tradições mas também a realidade atual, da qual, juntos, querem se libertar.

Os quatro c: Na gestação desta teologia narrativa ao redor da panela com o guisado devem estar sempre presentes os quatro c: o canto: é por ele que o pobres melhor se expressam; o corpo: sentir o outro inteiro, sua pele, seu odor, sua voz, suas expressões de amizade e de carinho; conto: escutar e mais uma vez escutar as narrativas de cada um; a maioria são contos dolorosos; por isso o livro que mais citam é o de Jó. Apesar de perder tudo e estar coberto de chagas e reclamar muito junto a Deus, Jó nunca deixou de confiar nele e no final confessar:”eu sei dele não por ouvir dizer mas porque meus olhos o viram”.

Câmara: as narrativas são gravadas ou filmadas em video para conservar a voz e a imagem dos participantes. O teólogo que se inseriu totalmente neles conseguiu esses instrumentos “modernos”para produzir um meio mais eficaz e persuasivo da luta, da resistência e da vida dos pobres e dos humilhados da Terra. Tudo sempre é devolvidas a eles.

Um jovem teólogo leigo argentino, Francisco J. Bosch, largou tudo e se misturou com os últimos do Continente. Durante quatro anos percorreu oito países animando mutirões (mingas) de teologia popular de libertação junto aos pobres. Ele mesmo, poeta, cantor, desenhista e animador teológico, recolheu esta experiência num livro comovedor a sair, com o título “Bendita Mescla”. É pura e genuína teologia popular de libertação, feita pelos próprios pobres e oprimidos e recolhida por ele.

Edição 154, Janeiro 2020

POR QUE HUMANOS ESCRAVIZAM OUTROS HUMANOS ONTEM E HOJE?

A existência e a persistência da escravidão ou de condições análogas à escravidão constitui um desafio humanístico, filosófico, ético e teológico até os dias de hoje. Por que humanos escravizam outros humanos, seus co-iguais?

A mais antiga codificação de leis, o Código de Hamurábi, escrito por volta de 1772 aC no Irão já se efere à classe dos escravos. E assim ao longo de toda a história até os dias atuais. A Walk free Foundation que se ocupa com a escravidão, no nível mundial, calcula que haja hoje cerca de 40,3 milhões de pessoas em regime de escravidão por tráfico de pessoas, por dívida, por trabalhos ou casamentos forçados etc. A Índia lidera o ranking com 7,99 milhões de escravizados. Os dados do Brasil de 2018 apontavam 369 mil em condições análogas à escravidão ou escravizados.

As cabeças mais brilhantes do Ocidente viram-na como natural ou até possuíam escravos. Assim Aristóteles, David Hume, Immanuel Kant, Friedrich Hegel. O próprio formulador da Declaração de Independência dos Estados Unidos, Thomas Jefferson na qual se afirmava que todos os seres humanos nascem livres e com direitos iguais possuía escravos, bem como o nosso Tiradentes que possuía pelos menos 6 deles. O famoso Padre Antônio Vieira num engenho pregava aos escravos:”Sois imitadores do Cristo crucificado porque padeceis em um modo muito semelhante ao que o mesmo Senhor padeceu na sua cruz e em toda a sua paixão”,chegando a chamá-los por isso de “bem-aventurados”. Uma piedosa e ao mesmo tempo cruel justificativa.

Resumindo: Afirma o grande especialista em escravidão o jamaicano Orlando Petterson, professor em Harvard:”A escravidão existiu desde o início da história da humanidade, até o século XX (XXI), nas sociedades mais primitivas e também nas mais avançadas”(cf.L.Gomes, Escravidão,p.65). Que razões que levaram à escravidão?

Nenhuma explicação até hoje se revelou convincente. Mas podemos tatear razões embora todas precárias. A primeira teria sido o patriarcado. O homem-macho, há 10-12 mil anos, se impôs a todos, à mulher, aos filhos, à natureza. Sobrepô-se ao outro, fazendo-o seu servo e escravo. A escravidão seria filha do patriarcado ainda vigente nos dias atuais.

A segunda razão, de natureza filosófica, sustenta que o ser humano é um ser decadente. Não num sentido ético mas ontológico. Quer dizer, sua natureza é assim que nunca consegue ser o que deveria ou desejaria ser. Nele há uma amarra interna que lhe impede de dar o salto necessário: controlar e integrar seus impulsos que não são em si maus, mas naturais: a cólera, o uso da força, o poder como capacidade de dominação. Ele decai no sentido de dar vazão a estes impulsos e destarte tornar-se inumano. Donde lhe vem essa incapacidade? A contradição entre o desejo infinito e a realidade finita? Bem que poderia conviver jovialmente com o infinito, acolhendo seu ser finito. Mas não o fez e não o faz. A chaga continua a sangrar e a fazer sangrar.

Tenho para mim que a sabedoria judaico-cristã, de alta ancestralidade, traz alguma luz. Fala de pecado original. O termo não é bíblico, pois aí se usa “pecado do mundo” ou “o ser humano é inclinado ao mal desde a sua juventude”. Pecado original é um termo criado por Santo Agostinho (354-430) em sua intensa troca de cartas com São Jerônimo e em polêmica com o teólogo Pelágio.

Pecado original, segundo ele, não possui uma conotação temporal, “desde as origens”. Mas original concerne ao núcleo originário, primeiro e essencial do ser humano. No seu interior mais profundo vigora uma ruptura: com a natureza, não respeitando seus ritmos, com o outro, odiando-o e com o Definitivamente Importante. Ele se considera o mais o mais importante, pelo fato de ser dotado de razão. Por ela imagina que pode dar conta de si mesmo, como se ele mesmo se tivesse dado a existência e não Alguém que o fez vir este mundo. Pecado original é essa hybris e arrogância. Significa magnificar seu eu a ponto de excluir os outros e o Grande Outro que o criou.

A consequência primeira é a instauração da ditadura da razão. Ela pretende explicar tudo e por ela dominar tudo. Vão propósito. O ser humano não é só razão. É principalmente coração, sensibilidade e amor. Bem antes da razão, o logos, em termos da antropogênese, veio o sentimento, o pathos. Esta dimensão foi recalcada e até negada. Com isso deixou de sentir o outro, de colocar-se no lugar dele, alegrar-se e sofrer com ele. Objetivou-o, vale dizer, o fez um objeto de uso e abuso. Surgiu a dominação do outro. Começou a escravização de um humano sobre outro humano.

Não sentir os outros como nossos semelhantes e não ter empatia para com eles é o “nosso pecado original”, origem da escravidão de ontem e de hoje. Sem abraçar o outro como co-igual e não ouvir o grito da Terra, não haverá futuro para o nosso tipo de mundo e de civilização. Outro deverá vir com seres todos livres e humanos.

A HISTÓRIA FOI ESCRITA PELA MÃO BRANCA

Uma das realidades mais perversas da história humana foi o milenar estatuto da escravidão. Aí se mostra o que também podemos ser: não só sapiens, portadores de amor, empatia, respeito e devoção, mas também demens, odientos, agressivos, cruéis e sem piedade. Este nosso lado sombrio parece dominar a cena social de nosso tempo e também de nosso país.

A história da escravidão se perde na obscuridade dos tempos milenares. Há uma inteira literatura sobre a escravidão, no Brasil, popularizada pelo jornalista-historiador Laurentino Gomes em três volumes (só o primeiro já veio a lume, 2019). Fontes de pessoas escravizadas são quase inexistentes, pois elas eram mantidas analfabetas. No Brasil, um dos países mais escravocratas da história, as fontes foram queimadas a mando do ingênuo “gênio”Ruy Barbosa, no afã de borrar as fontes de nossa vergonhosa nacional. Daí, que nossa história foi escrita pela mão branca, com a tinta do sangue de pessoas escravizadas.

A palavra escravo deriva de slavus em latim, nome genérico para designar os habitantes da Eslávia, região dos Bálcãs, sul da Rússia e às margens do Mar Negro, grande fornecedora de pessoas feitas escravas para todo o Mediterrâneo. Eram brancos, louros com olhos azuis. Só os otomanos de Istambul importaram entre 1450-1700 cerca de 2,5 milhões dessas pessoas brancas escravizadas.

No nosso tempo, as Américas foram as grandes importadores de pessoas de África que foram escravizadas. Entre 1500-1867 o número é espantoso: 12.521,337 fizeram a travessia transatlântica, das quais, 1.818,680 morreram a caminho e foram jogados ao mar. O Brasil foi campeão do escravagismo. Só ele importou, a partir de 1538, cerca de 4,9 mihões de africanos que foram escravizados. Das 36 mil viagens transatlânticas, 14.910 destinavam-se aos portos brasileiros.

Estas pessoas escravizadas eram tratadas como mercadorias, chamadas “peças”. A primeira coisa que o comprador fazia para “traze-las bem domesticadas e disciplinadas” era castigá-las, “haja açoites, haja correntes e grilhões”. Os historiadores da classe dominante criaram a legenda que aqui a escravidão foi branda, quando foi crudelíssima.

Basta um exemplo: o holandês, Dierick Ruiters que em 1618 passou pelo Rio relata: “um negro faminto furtou dois pães de açucar. O senhor, sabendo disso, mandou amarrá-lo de bruços a uma tábua e ordenou que um negro o surrasse com chicote de couro; seu corpo ficou da cabeça aos pés, uma chaga aberta e os lugares poupados pelo chicote foram lacerados à faca; terminado o castigo, um outro negro derramou sobre suas feridas um pote contendo vinagre e sal…tive que presenciar –relata o holandês – a transformação de um homem em carne de de boi salgada; e como se isso não bastasse, derramaram sobre suas feridas piche derretido; deixaram-no toda uma noite, de joelhos, preso pelo pescoço a um bloco, como um mísero animal”(Gomes, Escravidão,p.304). Sob tais castigos. a espectativa de vida de uma pessoa escravizada em 1872 era de 18,3 anos.

O jesuíta André João Antonil dizia:”para o escravo são necessários três Ps, a saber: pau, pão e pano”. Pau para bater, Pão para não deixá-lo morrer de fome e Pano para esconder-lhe as vergonhas.

Seria longo enumerar as estações desta via-sacra de horrores pela qual passaram estas pessoas escravizadas; elas são mais numerosas do que aquelas do Filho do homem quando foi torturado e levado ao madeiro da cruz, mesmo passando entre nós “fazendo o bem e curando os oprimidos” (Atos dos Apóstolos,10,39).

É sempre atual o grito lancinante de Castro Alves em “Vozes d’Africa”: “Ó Deus, onde estás que não respondes? Em que mundo, em qu’estrela tu t’escondes/ Embuçando nos céus? Há dois mil anos te mandei meu grito/ Que embalde, desde então, corre o infinito… /Onde estás, Senhor Deus?”

Misteriosamente Deus se calou como se calou no campo de extermínio nazista de Auschwitz-Birkenau que fez o Papa Bento XVI se perguntar:” Onde estava Deus naqueles dias? Por que Ele silenciou? Como pôde permitir tanto mal?”

E a pensar que foram cristãos os principais escravocratas. A fé não os ajudou a ver nessas pessoas “imagens e semelhanças de Deus”, mais ainda, “filhos e filhas de Deus”, nossos irmãos e irmãs. Como foi possível a crueldade nos porões de tortura dos vários ditadores militares da Argentina, do Chile, doUruguai, de El Salvador e do Brasil que se diziam cristãos e católicos?

Quando a contradição é grande demais que vai além de qualquer racionalidade, simplesmente calamos. É o mysterium iniquitatis, o mistério da iniquidade que até hoje nenhum filósofo, teólogo ou pensador encontrou-lhe uma resposta. Cristo na cruz também gritou e sentiu a “a morte”de Deus. Mesmo assim vale a aposta de que todas as trevas juntas não conseguem apagar uma luzinha que brilha na noite. É a nossa esperança contra toda a esperança.

BALANÇO DE 2019, O IMPÉRIO DA IMPOSTURA

Afora os grandes empresários que aplaudem calorosamente o ministro Paulo Guedes porque ganham com a crise, o balanço de 2019 na perspectiva das vítimas dos ajustes fiscais, dos que perderam direitos na reforma da previdência e dos resistentes é repudiável.

Instalou-se aqui o império da impostura. Um presidente que deveria dar exemplo ao povo de virtudes que todo governante deve ter, realizou atos acintosos que na linguagem religiosa, bem entendida por ele, são verdadeiros pecados mortais. Pela moral cristã mais tradicional é pecado mortal caluniar certas ONGs, bem o ator Leonardo di Caprio culpando-os de incentivar os incêndios da Amazônia ou difamando o reconhecido educador Paulo Freire e o cientista Ricardo Galvão ou mentir contumazmente mediante fake news e alimentar ódio e rancor contra homoafetivos, LGBTI, indígenas, quilombolas, mulheres e nordestinos. A lentidão no julgamento do massacre de Brumadinho-MG e de Mariana-MG está mostrando a insensibilidade das autoridades. Algo parecido ocorreu com o derrame ignoto(?) de petróleo em 300 praias de 100 municípios do Nordeste.

Não cabe a ninguém julgar sua intenção subjetiva. Isso é coisa para Deus. Mas cabe fazer um juízo sobre fatos e atos, portanto, realidades objetivas e concretas para as quais cabe um juízo ético e teológico. Tal atitude imoral foi entendida por muitos como carta branca para desmatar mais, assassinar lideranças indígenas e a polícia tornar-se mais violenta e até assassina.

Estamos vivendo sob o império da impostura no campo nacional e no internacional. Um psicanalista francês, Roland Gori escreveu um instigante livro “La fabrique des imposteurs”(Paris 2013). Para ele o impostor é aquele que prefere os meios aos fins, que nega as verdades científicas, que distorce a realidade solar, que não se rege por valores porque é apenas um oportunista, que afirma algo e logo depois o nega conforme suas conveniências, que pratica a arte de iludir as pessoas ao invés de emancipá-las pelo pensamento critico, que despreza o cuidado pelo meio ambiente, que passa por cima das leis, que culpabiliza os pobres e que não demonstra amor nem piedade.

O que transcrevi aqui está referido no livro “La fabrique des imposteurs” e representa um retrato da atmosfera de impostura reinante nas mais altas instâncias políticas do Brasil.

As medidas contra a educação, a saúde, a ciência, ao meio ambiente e aos direitos humanos concretiza a mais rude impostura contra tudo o que se construiu de positivo nos últimos decênios. Somos conduzidos a um estágio regressivo, anterior ao iluminismo, numa mentalidade fundamentalista com viés fascistóide.

Talvez o ato para nós mais humilhante foi o gesto de vassalagem explícita do atual governante ao presidente dos USA, oferecendo-lhe o que podia sem receber nada em troca. Risível e ridículo foi quando, numa recepção de chefes de estado lhe diz a Trump “I love you” e recebeu apenas 17 segundos de atenção.

A impostura grassa veemente, em primeiro lugar, nos USA onde o presidente Trump, segundo repete Paul Krugman, Nobel de economia, constitui um perigo para a humanidade. Mente a mais não poder e se justifica ao dizer que são “verdades alternativas”. Igual impostura ocorre nos países ultra neoliberais onde o povo se rebela como no Chile, no Equador,na Colômbia, culminando com um golpe de estado contra a população indígena e seu representante na Bolívia, lançando o povo na fome e no desespero.

Perigosa impostura ocorreu na COP25 em Madrid que contra todas as evidências e dados científicos predominaram os negacionistas do aquecimento global, o Brasil incluído. Contra eles o relatório final recolhe a advertência da ONU:”Se nada fizermos, no final do século, a temperatura pode aumentar de 4-5 graus”. Com estes níveis, a vida que conhecemos não subsistirá. Será um verdadeiro Armagedom ecológico. Nossa espécie correrá perigo.

Não obstante esta atmosfera tenebrosa cabe celebrar a libertação de Lula, vítima da aplicação da law fare, instrumento de perseguição política com o objetivo de prendê-lo. O que ocorreu.

Termino com as palavras severas do prêmio Nobel de medicina de 1974, Christian de Duve:”A perspectiva não é apenas preocupante: é aterrorizante. Se não conseguirmos conter o crescimento demográfico (poderia dizer o aquecimento global) racionalmente, a seleção natural fará isso por nós irracionalmente, às custas de privações sem precedentes e de danos irreparáveis ao meio ambiente. Tal é a lição que quatro bilhões de anos nos oferece a história da vida na Terra”(Poeira vital 1997,369).

Bem o enfatizava o Papa Francisco em sua encíclica ecológica:”as previsões catastróficas não se podem olhar com desprezo e ironia”(n,161). A impostura nos faz surdos a estes clamores. Por causa disso, o destino humano dificilmente escapará de uma tragédia.

Edição 153, Dezembro 2019

O NATAL DOS HERODES DE HOJE

O Natal sempre possui o seu idílio. Não pode haver tristeza quando nasce a vida, especialmente quando vem ao mundo o puer aeternus, o Divino Infante, Jesus. Há anjos que cantam, a estrela de Belém que brilha, os pastores que velam à noite o seu rebanho. Mas lá estão principalmente Maria, o bom José e o Menino deitado numa manjedoura, “porque não havia lugar para eles na hospedaria”. E eis que apareceram também vindo do Oriente, uns sábios, chamados magos, que abriram seus cofres e ofereceram ouro, incenso e mirra, símbolos misteriosos.

Mas havia também um rei mau, Herodes, crudelíssimo a ponto de dizimar toda sua família. Ouviu que nascera na cidade de Davi, Belém, um menino que seria o Salvador. Temendo perder o trono, mandou matar em Belém e arredores, todos os meninos de dois anos para baixo.

Os textos sagrados conservam um lamento dos mais pungentes de todo o Novo Testamento:”Em Ramá se ouviu uma voz, muito choro e muito gemido. É Raquel que chora os filhos e não quer ser consolada porque os perdeu”(Evangelista Mateus 2,18).

O Natal deste ano nos traz à mente os atuais Herodes que estão dizimando nossas crianças e jovens. Entre 2007-2019, 57 crianças e jovens até 14 anos foram mortos no Brasil por balas perdidas, em ações policiais. Só neste ano de 2019 no Rio de Janeiro, 6 crianças e 19 adolescentes perderam a vida em ações policiais, informa a Plataforma Fogo Cruzado. Houve na região metropolitana do Rio 6.058 tiroteios com arma de fogo, com 2.301 pessoas baleadas das quais 1.213 foram mortas e 1.088 gravemente feridas.. O caso mais clamoroso foi da criança de 8 anos Aghata Félix morta por disparo de fuzil pelas costas dentro de uma kombi quando ia para casa com sua mãe.

Seus nomes merecem ser referidos. Embora com poucos anos a mais, tiveram o mesmo destino dos mortos por Herodes: Jenifer Gomes,11 anos; Kauan Peixoto 12 anos; Kauã Rozário 11 anos; Kauê dos Santos 12 anos; Agatha Félix 8 anos; Ketellen Gomes 5 anos.

O governador do Rio de Janeiro com sua polícia feroz vem sendo acusado de crime contra a humanidade pois manda atacar as comunidades com helicópteros e drones, aterrorizando a população. O prefeito Marcelo Crivella confessou que nas 436 escolas instaladas nas comunidades, devido às ações policiais, as crianças perderam 7000 horas de aula.

Junto com a mãe de Aghtata Félix, Vanessa Francisco Sales que carregava no enterro a boneca da Mônica que sua filhinha tanto gostava, fazem-se ouvir as mesmas vozes que a Raquel bíblica: As mães do Morro do Alemão, do Jacarezinho, da Chatuba de Mesquita, da Vila Moretti de Bangu, do Complexo do Chapadão, de Duque de Caxias, da Vila Cruzeiro no Complexo da Penha, de Maricá. Escutemos seus lamentos:

“Ouvem-se muitas vozes, muito choro e muitos gemidos. As mães choram seus queridos, mortos por balas perdidas; não querem consolar-se porque perderam suas crianças para sempre. Pedem uma resposta que não lhes vem de nenhuma instância. Entre lágrimas e muitas lamentações suplicam: parem de matar nossas crianças. Parem, pelo amor de Deus. Queremos elas vivas. Queremos justiça”.

Este é o contexto do Natal de 2019, agravado por uma política oficial que usa os meios perversos da mentira, do fake news, de muita raiva e de ódio visceral. Jesus nasceu pobre e pobre viveu a vida inteira. E surge um presidente que tem frequentemente Jesus em seus lábios e não em seu coração porque difunde ofensas a homoafetivos, a negros, a indígenas e a quilombolas e a mulheres.

Diz abertamente que não gosta de pobres, quer dizer, não gosta daqueles que Jesus disse: “bem-aventurados os pobres” e e que os chamou “meus irmãos e irmãs menores” e que no ocaso da vida serão nossos juízes (Mt 25,40). Não gostar dos pobres significa que não quer governar para as maiorias dos brasileiros que são pobres e até miseráveis, para os quais deveria primeiramente governar e cuidá-los.

Apesar disso tudo, há que se celebrar o Natal. Faz escuro mas festejamos a humanidade e a jovialidade de nosso Deus. Ele se fez criança indefesa. Que felicidade em saber que seremos julgados por uma criança que apenas quer brincar, receber e dar carinho e amor.

Que o Natal nos conceda um pouco daquela luz que vem da Estrela que encheu de alegria os pastores dos campos de Belém e que orientou o sábios-magos para a gruta. “Sua luz ilumina cada pessoa que vem a este mundo”(Jo 1,9), você e eu, todos, não só os batizados.

SÓCRATES MORRERIA DE TRISTEZA

Vivemos tempos dos pós: pós-moderno, pós-capitalista, pós-neoliberal, pós-comunismo, pós socialismo, pós-democracia, pós-religioso, pós-cristão, pós-humano e recentemente pós-verdade. Praticamente tudo tem o seu pós. Tal facto denota apenas que não encontramos ainda o nome que define o nosso tempo, vivendo reféns do velho. Contudo, assomam, aqui e acolá, sinais de que algum nome adequado está por vir. Em outras palavras, não sabemos ainda como definir a identidade de nosso tempo.

Assim ocorre com a expressão pós-verdade. Ela foi cunhada por um dramaturgo servo-norte-americano, Steve Tesich num artigo da revista The Nation de 1992 e retomada por ele depois ao referir-se ironicamente ao escândalo da Guerra do Golfo. O presidente Bush Filho, reunindo todo o Gabinete, pediu licença para retirar-se por alguns minutos. Fundamentalista, ia consultar o bom Senhor. Diz, “de joelho pedi ao Bom Senhor luzes para a decisão que iria tomar; ficou-me claro que devíamos ir à guerra contra Saddam Hussein”. As informações mais seguras afirmavam que não havia armas de destruição em massa. Era uma pós-verdade. Mas graças ao “Bom Senhor”, contra todas as evidências reafirmou: “Vamos à guerra”. E bárbaros, foram e destruíram uma das civilizações mais antigas.

O dicionário Oxford de 2016 a escolheu como a palavra do ano. Assim a define:”O que é relativo a circunstância na qual os fatos objetivos são menos influentes na opinião pública do que as emoções e crenças pessoais”. Não importa a verdade; só a minha conta. O jornalista britânico Matthew D’Ancona dedicou-lhe todo um livro com o título “Pós-verdade: a nova guerra contra os fatos em tempos de fake news (Faro Editorial 2018). Ai mostra como se dá a predominância da crença e convicção pessoal sobre o fato bruto da realidade.

É doloroso verificar que toda a tradição filosófica do Ocidente e do Oriente que significou um esforço exaustivo na busca da verdade das coisas, sendo agora invalidada por um inaudito movimento histórico que afirma ser a verdade da realidade e da dureza dos fatos algo irrelevante. O que conta serão minhas crenças e convicções: só serão acolhidos aqueles fatos e aquelas versões que se coadunam à estas minhas crenças e convicções, sejam elas verdadeiras ou falsas. Elas representarão para mim a verdade. Isso funcionou largamente na campanha presidencial do Donald Trump e de Jair Bolsonaro.

Se Sócrates que dialogava incansavelmente com seus interlocutores sobre a verdade da justiça, da beleza e do amor, constatasse a predominância da pós-verdade, seguramente não precisaria ser obrigado a tomar a sicuta. Morreria de tristeza.

A pós-verdade denota a profundidade da crise de nossa civilização. Representa a covardia do espírito que não consegue ver e conviver com aquilo que é. Tem que deformá-lo e acomodá-lo ao gosto subjetivo das pessoas e dos grupos geralmente políticos.

Aqui valem as palavras do poeta espanhol, António Machado, fugido da perseguição de Franco:”A tua verdade. Não. A verdade. A tua guarde-a para ti. Busquemos juntos a verdade”. Agora vergonhosamente não se precisa mais buscar juntos a verdade. Educados como individualistas pela cultura do capital, cada um assume como verdade a que lhe serve. Poucos se enfrentam com a verdade “verdadeira” e se deixam medir por ela. Mas a realidade resiste e se impõe e nos dá duras lições.

Bem observava Iya Prigogine, prêmio Nobel em termodinâmica em seu livro o Fim das Certezas (1996): vivemos o tempo das possibilidades mais do que das certezas, o que não impede de buscar a verdade das leis da natureza. Zygmunt Bauman preferia falar “das realidades líquidas” como uma das características de nosso tempo. Dizia-o antes como ironia pois assim se sacrificava a verdade das coisas (da vida, do amor etc). Seria o império do evey thing goes: do vale tudo. E sabemos que nem tudo vale, como estuprar uma criança.

A pós-verdade não se identifica com as fake news: estas são mentiras e calúnias difundidas aos milhões pelas mídias digitais contra pessoas ou partidos. Tiveram um papel decisivo na vitória de Bolsonaro bem como na de Trump. Aqui vale o descaramento, a falta de caráter e o total descompromisso com os fatos. Na pós-verdade predomina a seleção daquilo, verdadeiro ou falso, que se adequa à minha visão das coisas. O defeito é a falta de crítica e de discernimento para buscar o que de fato é verdadeiro ou falso.

Não creio que estamos diante de uma era da “pós-verdade”. O que é perverso não tem sustentação própria para fundar uma história. A palavra decisiva cabe sempre à verdade cuja luz nunca se apaga.

ECOLOGIA E TEOLOGIA DA LIBERTAÇÃO

A ecologia integral e a Teologia da Libertação possuem algo em comum: ambas partem de um grito. A ecologia do grito da Terra, dos seres vivos, dos ecossistemas agredidos pelo tipo de crescimento material ilimitado que não respeita os recursos limitados da Terra.

A Teologia da libertação nasceu ao escutar o grito dos pobres econômicos, das classes exploradas, das culturas humilhadas, dos negros discriminados, das mulheres oprimidas pela cultura patriarcal, dos LGBT e portadores de necessidades especiais. Todos gritam por libertação. Desta escuta nasceram as várias tendências da Teologia da libertação: a feminista, a indígena, a negra, a histórica entre outras. Em todas elas é sempre o respectivo oprimido, o sujeito e protagonista principal de sua correspondente libertação.

Importa lembrar que já nos anos 80 do século passado, ficou claro que a mesma lógica que explora os oprimidos e as classes empobrecidas, explora também a natureza e a Terra. A marca registrada da Teologia da Libertação é a opção pelo pobres, contra a pobreza e em favor de sua libertação. Dentro da categoria pobre deve ser incluído o Grande Pobre que é a Terra, pois, no dizer do Papa Francisco em sua encíclica ecológica“nunca maltratamos e ferimos a Mãe Terra como nos últimos dois séculos”(n.53). Portanto, não foi por fatores extrínsecos que a Teologia da Libertação incorporou o discurso ecológico, mas derivando-o de sua própria lógica interna que confere centralidade ao pobre e ao oprimido.

Ficou também muito claro que é o modo de produção capitalista o produtor do grito da Terra e do grito do pobre. Se queremos a libertação de ambos, precisamos superar historicamente este sistema. Aqui trata-se de contrapor um outro modo de habitar a Casa Comum que seja amigável à Terra e libertador.

O paradigma do mundo moderno, o poder como dominação sobre tudo e sobre todos, ganhou sua máxima expressão na cultura do capital, gerador de desigualdades, i.é. uma injustiça social e outra ecológica. É individualista, competitivo e excludente.

Devemos, então, contrapor-lhe um outro paradigma. Este será o cuidado. Mais que uma virtude, o cuidado comparece como um novo paradigma de relação para com a natureza e a Terra: não agressivo, amigo da vida e respeitador dos demais seres. Se o paradigma dominante é do punho fechado para submeter, o do cuidado é a mão estendida para se entrelaçar com outras mãos e proteger a natureza e a Terra.

Segundo o antigo mito do cuidado que ganhou sua melhor elaboração filosófica em Martin Heidegger em Ser e Tempo (& 41-43) o cuidado pertence à essência do ser humano. Segundo o mito, o cuidado vem primeiro, pois significa o pressuposto que deve existir para que algum ser possa irromper na existência. Sem o cuidado nenhum ser emerge e se mantém na existência. Definha e morre.

Hoje mais do que nunca precisamos cultivar o paradigma do cuidado, pois tudo, de certa forma, está des-cuidado. É o cuidado que dá origem a uma cultura da solidariedade contra a competição, da partilha contra o individualismo, da autolimitação, contra os excessos do poder, do consumo sóbrio, contra o consumismo e o desperdício.

Somente a incorporação do cuidado, como paradigma e como cultura nos pode, segundo a encíclica papal “Sobre o cuidado da Casa Comum” “alimentar uma paixão pelo cuidado do mundo… uma mística que nos anima, encoraja e dá sentido à ação pessoal e comunitária”(n. 216).

Para realizar esta diligência a Eco-teologia da Libertação teve que dialogar e aprender com os novos saberes das ciências da Terra e da vida. Especialmente é chamada a contribuir com os valores do respeito, da veneração e do cuidado, próprios da fé, valores fundamentais para uma ecologia integral. Finalmente uma Eco-teologia da Libertação testemunha, contra todas as ameaças, a esperança de que “Deus, o soberano amante da vida”(Sab 11,26) não permitirá que nossa humanidade, um dia assumida pelo Verbo da vida, venha desaparecer da face da Terra.

Edição 152, Novembro 2019

PARA ALÉM DAS NAÇÕES, CONSTRUIR A TERRA

Um anúncio-propaganda de um dos canais de televisão mostra um grupo multi-étnico cantando: “Minha pátria é a Terra”. Aqui se revela um outro estado de consciência que deixou para trás a ideia convencional de pátria e de nação. Com efeito, vivemos ainda sob o signo das nações, cada qual se auto-afirmando, fechando ou abrindo suas fronteiras e lutando por sua identidade. Essa fase, ainda vigente, pertence a outra época da história e da consciência. A globalização não é apenas um fenômeno econômico. Representa um dado político, cultural, ético e espiritual: um novo passo na história do planeta Terra e da Humanidade.

Há alguns milhares de anos a espécie humana saiu de África de onde surgimos no processo evolutivo (somos todos africanos) e conquistou todo o espaço terrestre constituindo vilas, cidades e civilizções. Fernão de Magalhães fez em três anos (1519-1522) a circum-navegação da Terra e comprovou empiricamente que ela é efetivamente redonda (não plana como uma obtusa visão ainda sustenta). Depois da expansão, chegou o tempo da concentração, do retorno do grande exílio. Todos os povos estão se encontrando num único lugar: no planeta Terra. Descobrimo-nos, para além das nacionalidades e das diferentes etnias, que formamos uma única espécie, a humana, ao lado de outras espécies da grande comunidade de vida.

À custa estamos ainda aprendendo a conviver acolhendo as diferenças sem deixar que se transformem em desigualdades. Respeitando a riqueza acumulada pelas nações e etnias, que revelam os vários modos de sermos humanos, somos confrontados com um desafio novo, nunca antes havido: a construção da Terra como Casa Comum. Cresce a consciência de que Terra e Humanidade possuem um destino comum. Xi Jin Ping, chefe de Estado da China, o formulou bem: temos o dever de construir a “Comunidade de Destino compartido para a Humanidade”.

O êxito desta construção nos trará um mundo de paz, um dos bens mais ansiados por todos. Viver em paz, oh que felicidade! Essa paz é que nos falta nos dias atuais. Ao contráro, vivemos em guerras regionais letais e uma guerra total movida contra Gaia, a Terra viva, nossa Mãe Terra atacada em todas as frentes, a ponto de ela mostrar sua indignação através do aquecimento global e da exaustão de seus bens e serviços, sem os quais a vida corre risco.

Nesse contexto vale revisitar um clássico do pensamento ocidental, um filósofo, Immanuel Kant (+1804), um dos primeiros a pensar uma República Mundial (Welrepublik), embora nunca tenha saído de sua pequena cidade de Königsberg na Alemanha. Ela só se consolida se conseguir instaurar uma “paz perene”. Seu texto famoso de 1795 se chama exatamente “Para uma paz perene”(Zum ewigen Frieden).

A paz perene se sustenta, segundo ele, sobre duas pilastras: a cidadania universal e o respeito aos direitos humanos.

Esta cidadania se exerce primeiramente pela “hospitalidade geral”. Precisamente ela porque, diz ele, todos os humanos têm o direito de estar nela e visitar seus lugares e os povos que a habitam. A Terra pertence comunitariamente a todos.

Face aos pragmáticos da política, geralmente pouco sensíveis ao sentido ético nas relações sociais, enfatiza:”A cidadania mundial não é uma visão de fantasia mas uma necessidade imposta pela paz duradoura”. Se queremos uma paz perene e não apenas uma trégua ou uma pacificação momentânea, devemos viver a hospitalidade e respeitar os direitos.

Outro pilar são os direitos universais. Estes, numa bela expressão de Kant são “a menina-dos-olhos de Deus” ou “o mais sagrado que Deus colocou na terra”. O respeito deles faz nascer uma comunidade de paz e de segurança que põe um fim definitivo “ao infame beligerar”.

O império do direito e a difusão da cidadania planetária expressa pela hospitalidade devem criar uma cultura dos direitos, gerando de fato a “comunidade dos povos”. Esta comunidade dos povos, enfatiza Kant, pode crescer tanto em sua consciência, que a violação de um direito num lugar é sentida em todos os lugares, coisa que mais tarde repetirá por sua conta Ernesto Che Guevara.

Esta visão ético-política de Kant fundou um paradigma inédito de globalização e de paz. A paz resulta da vigência do direito e da cooperação juridicamente ordenada e institucionalizada entre todos os Estados e povos.

Diferente é a visão de outro teórico do Estado e da globalização, Thomas Hobbes (+1679). Para ele, a paz é um conceito negativo, significa a ausência da guerra e o equilíbrio da intimidação entre os estados e povos. Esta visão funda o paradigma da paz e da globalização fundado do poder do mais forte que se impõe aos demais. Ele predominou por séculos e hoje voltou poderosamente pelo bizarro presidente dos USA, Trump que ainda sonha com um só mundo e um só império, o norte-americano.

Os EUA decidiram combater o terrorismo com o terrorismo de Estado. É a volta ameaçadora do Estado-Leviatã, inimigo figadal de qualquer estratégia de paz. Nesta lógica não ha futuro para a paz nem para a humanidade.

Hoje somos confrontados com este cenário: se forem ativados os arsenais de armas nucleares pela insanidade de um governante ou pela Inteligência Artificial Autônoma, poderá ser o fim de nossa espécie. Et tunc erat finis [E então é o fim]. Teremos tempo e sabedoria suficientes para mudar a lógica do sistema implantado há séculos que ama mais a acumulação de bens materiais do que a vida? Isso dependerá de nós.

DEPOIS DO ASCENSO DA EXTREMA DIREITA O QUE VIRÁ?

Façamos algumas constatações: consolidou-se a aldeia global; ocupamos praticamente todo o espaço terrestre e exploramos o capital natural até os confins da matéria e da vida com a automação, robotização e inteligência artificial. Verificamos um ascenso atemorizador da extrema direita, bem expressa pelo ultra neoliberalismo radical e pelo fundamentalismo político e religioso. Estamos imersos numa angustiante crise civilizatória que ganha corpo nas várias crises (climática, alimentaria, energética, econômico-financeira, ética e espiritual). Inauguramos, segundo alguns, uma nova era geológica, o antropoceno, na qual o ser humano comparece como o Satã da Terra. Em contraposição, está surgindo uma outra era geológica, o ecoceno na qual a vida e não o crescimento ilimitado possui centralidade.

A pergunta que se coloca agora é: o que virá após o conservadorismo atroz da direita? Será mais do mesmo? Mas isso é muito muito perigoso, pois podemos ir ao encontro de um armargedom ecológico-social pondo em risco o futuro comum da Terra e da Humanidade. Tal tragédia pode ocorrer a qualquer momento se a Inteligência Artificial Autônoma, por algoritmos ensandecidos, deslanchar uma guerra letal, sem que os seres humanos se deem conta e possam previamente impedi-la.

Estamos sem saída, rumando para um destino sem retorno? No limite, quando nos dermos conta de que poderemos desaparecer aí temos que mudar: quem sabe, a saída possível será passar do capital material para o capital humano-espiritual. Aquele tem limites e se exaure. Este último é infinito e inexaurível. Não há limites para aquilo que são seus os conteúdos: a solidariedade, a cooperação, o amor, a compaixão, o cuidado, o espírito humanitário, valores em si infinitos, pois sua realização pode crescer sem cessar. O espiritual foi parcamente vivenciado por nós. Mas o medo de desaparecer e dada a acumulação imensa de energias positivas, ele pode irromper como a grande alternativa que nos poderá salvar.

A centralidade do capital espiritual reside na vida em toda a sua diversidade, na conectitividade de todos com todos e, por isso, as relações são inclusivas, no amor incondicional, na compaixão, no cuidado de nossa Casa Comum e na abertura à Transcendência.

Não significa que tenhamos que dispensar a razão instrumental e sua expressão na tecnociência. Sem elas não atenderíamos as complexas demandas humanas. Mas elas não teriam a exclusiva centralidade nem seriam mais destrutiva. Nestas, a razão instrumental-analítica constituía seu motor, no capital espiritual, a razão cordial e sensível. A partir dela organizar-se-iam a vida social e a produção. Na razão cordial se hospeda o mundo dos valores; dela se alimentam a vida espiritual a ética e os grandes sonhos e produz as obras do espírito, acima referidas.

Imaginemos o seguinte cenário: se no tempo do desaparecimento dos dinossauros, há cerca de 67 milhões de anos, houvesse um observador hipotético que se perguntasse: o que virá depois deles? Provavelmente diria: o aparecimento de espécies de dinos ainda maiores e mais vorazes. Ele estaria enganado. Sequer imaginaria que de um pequeno mamífero,nosso ancestral, vivendo na copa das árvores mais altas, alimentando-se de flores e de brotos e tremendo de medo de ser devorado por algum dinossauro mais alto, iria irromper, milhões de anos depois, algo absolutamente impensado: um ser de consciência e de inteligência – o ser humano – totalmente diferente dos dinossauros. Não foi mais do mesmo. Foi um salto qualitativo novo.

Semelhantemente cremos que agora poderá surgir um novo estado de consciência, imbuído do inexaurível capital espiritual. Agora é o mundo do ser mais que do ter, da cooperação mais do que da competição, do bem-viver-e-conviver mais do que do viver bem.

O próximo passo, então, seria descobrir o que está oculto em nós: o capital espiritual. Sob sua regência, poderemos começar a organizar a sociedade, a produção e o cotidiano. Então a economia estaria a serviço da vida e a vida penetrada pelos valores 
da auto-realização, da amorização e da alegria de viver.

Mas isso não ocorre automaticamente. Podemos acolher o capital espiritual ou também recusá-lo. Mas mesmo recusado, ele se oferece como uma possibilidade sempre presente a ser abrigada. O espiritual não se identifica com nenhuma religião. Ele é algo anterior, antropológico, que emerge das virtualidades de nossa profundidade arquetípica.Mas a religião pode alimentá-lo e fortalecê-lo, pois se originou dele.

Estimo que a atual crise nos abra a possibilidade de dar um centro axial ao capital espiritual. Dizem por aí que Buda, Jesus, Francisco de Assis, Gandhi, irmã Dulce e tantos outros mestres, o teriam antecipado historicamente.

Eles são os alimentadores de nosso princípio-esperança, de sairmos da crise global que nos assola. Seremos mais humanos, integrando nossas sombras, reconciliados conosco mesmos, com a Mãe Terra e com a Última Realidade.

Então seremos mais plenamente nós mesmos, entrelaçados por redes de relações ternas e fraternas com todos os seres e entre todos nós, co-iguais.

LULA E BOLSONARO: O CONFRONTO DE DOIS PROJETOS

A liberação do ex-presidente Lula da prisão em tempos do presidente Bolsonaro suscitou um confronto dramático entre dois projetos de Brasil. Mais que opostos, eles são antagônicos. Sem forçar os termos, parece a atualização da visão do mundo dos gnósticos que liam a história como luta entre o bem e o mal ou segundo “A Cidade de Deus” de Santo Agostinho, entre o amor e o ódio.

Efetivamente o projeto de Bolsonaro se funda na difusão de ódio aos homoafetivos, aos LGBTI, aos negros e aos pobres em geral e na exaltação de ditaduras ao ponto de magnificar notórios torturadores. Lula afirma que nele não há ódio mas amor que o levou e leva a implementar políticas sociais de inclusão de milhões de marginalizados garantindo-lhes os mínimos vitais.

Há que se reconhecer que este cenário projeta uma visão pouco dialética, cindindo a história entre a sombra e a luz Mas infelizmente assim é, embora rejeite este tipo de dualismo.

Tudo isso acontece num contexto de ascenso mundial do conservadorismo, do fundamentalismo político e religioso e da exacerbação da lógica do capital que se expressa num neoliberalismo ultra radical, feito opção axial do governo Bolsonaro. Observemos que este radicalismo neoliberal formulado pela escola de Viena e de Chicago, donde vem Paulo Guedes, sustenta que “não há direitos fora das leis do mercado e que a pobreza não é um problema ético mas uma incompetência técnica, pois os pobres são indivíduos que, por culpa própria, perderam a competição com os outros”. Desse pressuposto teórico, se deriva que não há porquê ocupar-se com políticas para os pobres. É um governo de ricos para ricos.

Contraditoriamente, Lula afirma a centralidade da justiça social a partir das grandes maiorias vitimadas pela ordem capitalista. Propõe uma democracia social e participativa com a inclusão dessas maiorias. Quis realizar este projeto com um presidencialismo de coalizão de partidos, o que considero seu grande equívoco, ao invés de apoiar-se nos movimentos sociais, donde veio, como o fez com sucesso o presidente da Bolívia, deposto por um golpe classista e racista, Evo Morales Ayma.

No Brasil, o racismo e a intolerância que sempre estavam aí mas recolhidos no armário irromperam explicitamente. Eles se ocultavam sob o nome de “cordialidade do brasileiro”. Mas como bem observou Sérgio Buarque de Hollanda (em Raizes do Brasil) esta cordialidade pode significar tanto lhaneza e amor, quanto violência e ódio, posto que ambos se albergam no coração, por isso “cordial”.

Surfando nesta onda nacional e internacional se elegeu Jair Bolsonaro e se condenou e prendeu o ex-presidente Lula, mediante a lawfare, pelo corpo judiciário que levava avante a Lava Jato.

Jair Bolsonaro, mesmo depois de eleito, utiliza-se com frequência dos fake news, da mentira direta e governa com os filhos de forma autoritária e por vezes boçal.

Lula comparece como um reconhecido carismático que fala ao coração das massas desesperançadas, propondo uma democracia social, o Estado de direito e a urgência de resgatar o que foi desmantelado.

Tudo depende em que estilo se dará este confronto. Bolsonaro evita o confronto direto, pois sabe de suas poucas luzes. Confiou-o aos ministros da Justiça, Sérgio Moro e o da Fazenda, Paulo Guedes, melhor apetrechados.

O que Lula, ao meu ver, precisa evitar é o confronto no mesmo patamar de Bolsonaro. Importa por à luz o que Bolsonaro oculta e não pode usar: a crueza dos fatos, a tragédia que assola as grandes maiorias humilhadas e ofendidas. Não cabe um discurso de resposta a Bolsonaro pois ele mesmo é autodestrutivo. Mas de forma positiva falar ao coração das massas destituídas, denunciando objetivamente as maldades perpetradas por medidas excludentes, contrárias aos direitos e à própria vida.

Para resumir um longo arrazoado: inteligente seria assumir a atitude do melhor homem que o Ocidente gerou: o pobre e humilde Francisco de Assis. Realisticamente sabia que a realidade é contraditória, composta do dia-bólico (o que divide) e do sim-bólico (o que une). Não recalca o lado escuro de nossa realidade. Mas fortalece de tal forma o lado luminoso para que ele inunde a mente e o coração. Proclama: “onde houver ódio, que eu leve o amor/onde houver discórdia, que eu leve a união/ onde onde houver desespero que eu leve a esperança/ onde houver trevas, eu leve a luz.”

Esta opção supõe a convicção de que nenhum governo pode perdurar assentado no ódio, na mentira e no desprezo dos humildes da Terra. A verdade, a reta intenção e o amor desinteressado pronunciarão a palavra final. Não Caim mas Abel, não Judas mas Jesus, não Brilhante Ustra mas Vladimir Herzog.

A SALVAGUARDA DA UNIDADE DA FAMÍLIA HUMANA

Há o risco real de que a família humana seja bifurcada, entre aqueles que se beneficiam dos avanços tecnológicos, da biotecnologia e nanotecnologia e dispõem de todos os meios possíveis de vida e de bem-estar, cerca de 1,6 bilhões de pessoas, podendo prolongar a vida até aos 120 anos que corresponde à idade possível das células. E a outra humanidade, os restantes mais de 5,4 bilhões, barbarizados, entregues à sua sorte, podendo viver, se tanto, até os 60-70 anos com as tecnologias convencionais num quadro perverso de pobreza, miséria e exclusão.

Esse fosso deriva do horror econômico que tomou a cena histórica sob a dominação do capital globalizado especialmente do especulativo sob a regência cruel do neoliberalismo radical. Considerando-se triunfante face ao socialismo real cuja derrocada se deu no final dos anos 80, exacerbou seus princípios como a competição,o individualismo, a privatização e a difamação de todo tipo de política e satanização do Estado, reduzido ao mínimo. Cerca de 200 megacorporações, cujo poder econômico equivale a 182 países, conduzem junto com os organismos da ordem capitalista como o FMI, o Banco Mundial e a Organização Mundial do Comércio a economia mundial sob o princípio da competição sem qualquer sentido de cooperação e de respeito ecológico da natureza. Tudo é feito mercadoria, do sexo à religião, numa volúpia de acumulação desenfreada de riquezas e serviços à custa da devastação da natureza e da precarização ilimitada dos postos de trabalho.

O risco consiste em que os muito ricos criem um mundo só para si, que rebaixem os direitos humanos a uma necessidade humana que deve ser atendida pelos mecanismos do mercado (portanto só tem direitos quem paga e não quem é simplesmente pessoa humana), que façam dos diferentes desiguais e dos desiguais dissemelhantes, aos quais se nega praticamente a pertença à espécie humana. São outra coisa, óleo gasto,zeros econômicos.

No Ocidente que hegemoniza o processo de globalização, a ideia de igualdade politicamente nunca triunfou. Ela ficou limitada ao discurso religioso-cristão, de conteúdo idialístico. Esse déficit de uma cultura igualitária impediria a bifurcação da família humana. Pode triunfar uma idade das trevas mundial que se abateria sobre toda a humanidade. Seria a volta da barbárie.

O desafio a ser enfrentado é fazer tudo para manter a unidade da família humana, habitando a mesma Casa Comum. Todos são Terra, filhos e filhas da Terra, para os cristãos, criados à imagem e semelhança do Criador, feitos irmãos e irmãs de Cristo e templos do Espírito. Todos têm direito de serem incluídos nesta Casa Comum e de participarem de seus dons.

Para dar corpo a este desafio precisamos de uma outra ética humanitária que implica resgatar os valores ligados à solidariedade, à empatia e à compaixão. Importa recordar que foi a solidariedade/cooperação que permitiu a nossos ancestrais, há alguns milhões de anos, darem o salto da animalidade à humanidade. Ao saírem para coletar alimentos, não os comiam individualmente como o fazem os animais. Antes, reuniam os frutos e a caça e os levavam para o grupo de co-iguais e os repartiam solidariamente entre todos. Deste gesto primordial nasceu a socialidade, a linguagem e a singularidade humana. Será hoje ainda a solidariedade irrestrita, a partir de baixo, a compaixão que se sensibiliza diante do sofrimento do outro e da Mãe Terra, que garantirão o caráter humano de nossa identidade e de nossas práticas. Foi o que vergonhosamente faltou aos grandes credores internacionais que face à tragédia do tsunami do sudeste da Ásia não perdoaram os 26 bilhões de dívidas daqueles países flagelados, Apenas protelaram por um ano, o seu pagamento.

Sem o gesto do bom samaritano que se verga sobre os caídos da estrada ou a vontade de infinita compaixão do bodhisatwa que renuncia penetrar no nirvana por amor à pessoa que sofre, ao animal quebrantado ou à árvore mirrada, dificilmente faremos frente à desumanidade cotidiana que está se naturalizando a nível brasileiro e mundial.

Na perspectiva dos astronautas, daqueles que tiveram o privilégio de ver a Terra de fora da Terra, Terra e Humanidade formam uma só entidade, complexa mas una. Ambas estão agora ameaçadas. Ambas possuem um mesmo destino comum e comparecem juntas diante do futuro. Sua salvaguarda constitui o conteúdo maior de um ancestral sonho: todos sentados à mesa, numa imensa comensalidade, desfrutando dos frutos da boa e generosa Mãe Terra.

Se o cristianismo e os demais caminhos espirituais não ajudarem a realizar esse sonho e não levarem as pessoas a concretizá-lo, não teremos cumprido a missão que o Criador nos reservou no conjunto dos seres, que é a de sermos o anjo bom e não o Satã da Terra. Nem teremos escutado e seguido Aquele que disse: “Vim trazer vida e vida em abundância”(Jo 10,10).

Importa conscientizarmo-nos de nossa responsabilidade, sabendo que nenhuma preocupação é mais fundamental do que cuidar da única Casa Comum que temos e de alcançar que toda a família humana, superando as contradições sempre existentes, possa viver unida dentro dela com um mínimo de cuidado, de solidariedade, de irmandade, de compaixão e de reverência que produzem a discreta felicidade pelo curto tempo que nos é concedido passar por esse pequeno, belo e radiante Planeta.

Uma utopia? Sim, mas necessária se quisermos sobreviver.

A VANTAGEM DA IMPERFEIÇÃO

Em tempos em risco de nossa liberdade, é importante pensarmos em sua importância. Nascemos completos mas imperfeitos. Não possuímos nenhum órgão especializado, como a maioria dos animais. Para sobreviver, temos que trabalhar e intervir na natureza. Os mitos esclarecem esta asituação.

Os indígenas guaicuru, do Mato Grosso do Sul, perguntaram-se o porquê da imperfeição e do alto significado da liberdade. Demoraram longo tempo para chegar a uma resposta. A explicação veio pelo seguinte mito, portador de verdade.

O Grande Espírito criou todos os seres. Colocou grande cuidado na criação dos humanos. Cada grupo recebeu uma habilidade especial para sobreviver sem maiores dificuldades. A alguns deu a arte de cultivar a mandioca e o algodão. Assim podiam se alimentar e se vestir. A outros deu a habilidade de fazer canoas leves e o timbó. Desta forma podiam se locomover rapidamente e pescar.

Assim fez com todo os grupos humanos na medida em que se distribuíam pelo mundo. Mas com os Guaicuru não aconteceu assim. Quando quiseram sair para as vastas terras, o Grande Espírito não lhe conferiu nenhuma habilidade. Esperaram, suplicando, por muito tempo e nada lhes foi comunicado. Mesmo assim resolveram partir. Sentiram logo muita dificuldade em sobreviver. Resolveram procurar intermediários do Grande Espírito para receber também uma habilidade.

Primeiro, dirigiram-se ao vento, sempre soprando e rápido: “Tio vento, tu que sopras pelas campinas, sacodes as matas e passas por cima das montanhas, venha-nos socorrer”. Mas o vento que sacudiu as folhas, sequer ouviu o pedido dos guaicuru. Em seguida, se voltaram para o relâmpago que estremece toda a terra. “Tio relâmpago, você que é parecido com o Grande Espírito, ajude-nos”. Mas o relâmpago passou tão rápido que sequer escutou o pedido deles.

Assim os guaicuru suplicaram às árvores mais altas, aos cumes das montanhas, às águas correntes dos rios, sempre suplicando:”Meus irmãos, intercedam por nós junto ao Grande Espírito para não morrermos de fome,” Mas nada acontecia.

Meio desesperados vagavam por várias paragens. Até que pararam debaixo do ninho de um gavião-real.

Este ouvindo seus lamentos resolveu intervir e disse:”Vocês, guaicuru, estão todos errados e são uns grandes bobos”. “Como assim? responderam juntos. “O Grande Espírito se esqueceu de nós. Você que é feliz, recebeu o dom de um olhar penetrante e perceber um ratinho no boca da toca e caçá-lo”.

“Vocês não entenderam nada da lição do Grande Espírito”retrucou o gavião-real. “A habilidade que ele lhes deu está acima de todas as outras. Ele vos deu a liberdade. Com ela vocês podem fazer o que desejarem fazer.”

Os guaicuru ficaram perplexos e cheios de curiosidade. Pediram ao gavião-real que lhes explicasse melhor esta curiosa habilidade. Ele, cheio de garbo, lhes falou: “Vocês podem caçar, pescar, construir malocas, fazer belas flechas, pintar os corpos, os potes, viajar para outros lugares e até decidirem o que vocês querem de bom para vocês e para a própria natureza”.

Os guaicuru se encheram de alegria e diziam uns aos outros:“que bobos nós fomos, pois nunca discutimos juntos a vantagem de sermos imperfeitos. O Grande Espírito nunca se esqueceu de nós. Deu-nos a melhor habilidade, de não estarmos presos a nada, mas de podermos inventar coisas novas, sabendo das vantagens de nossa imperfeição.

O cacique guaicuru perguntou ao gavião-real: “Posso experimentar a liberdade?” “Pode”. O cacique tomou uma flecha e derrubou do alto de uma jaqueira uma grande fruta de jaca. E todos se deliciaram.

Desde aquele momento, os guaicuru, exerceram a liberdade. Tornaram-se grandes cavaleiros e nunca puderam ser submetidos por nenhum outro povo. A liberdade lhes inspiravam novas formas de se defender e garantir a melhor habilidade dada pelo Grande Espírito.

Os mitos nos inspiram grandes lições, especialmente nos dias atuais quando forças poderosas, nacionais e internacionais, nos querem submeter, limitar e até tirar nossa liberdade. Devemos ser como os guaicuru: saber defender o maior dom que temos, a liberdade. Devemos resistir, nos indignar e nos rebelar. Só assim fazemos o nosso próprio caminho como nação soberana e altiva. E jamais aceitaremos que nos imponham o medo nem que nos roubem a liberdade.


Edição 151, outubro 2019

COMO O SÍNODO PANAMAZÓNICO PODE SURPREENDER-NOS

N.E. Também o meu amigo teólogo não pára de me surpreender, ao querer a quadratura do círculo, concretamente, querer que o mítico Cristo que está na génese do cristianismo seja igual a Jesus histórico, o de antes do cristianismo. Quando só um cego que não queira ver é que não vê que entre os dois há abismo intransponível. E e pena. Assim, até as coisas que escreve acabam sempre envenenadas. Reforçam o cristianismo, que haviam de desmascarar-denunciar.

Entre os dias 6-27 de outubro acontecerá em Roma o Sínodo Panamazônico. Já em 1974 o Papa Paulo VI instituiu a figura do Sínodo, primeiro dos Bispos, com representantes de todos os continentes mas também os Sínodos regionais como o Sínodo dos Bispos holandeses em 1980 e o Sínodo dos bispos alemães que está ocorrendo em 2019 e outros.

O sínodo, cujo significado etimológico significa “fazer um caminho juntos” representa uma ocasião para as Igrejas locais ou regionais tomarem o pulso do caminhar de suas igrejas, analisando os problemas, identificando os desafios e buscando juntos caminhos de implementação e atualização do evangelho.

Especial relevância é o Sínodo Panamazônico, pois revela um duplo grau de consciência no próprio tema básico: “Novos caminhos para a Igreja e para a Ecologia integral”.Trata-se de definir um outro tipo de presença da Igreja nas Américas e especificamente nesta vasta região amazônica que recobre 9 países numa extensão de mais de 8 milhões de kilómetros quadrados. O outro grau de consciência desponta na importância que a Amazônia possui para o equilíbrio da Terra e para o futuro da vida e da humanidade.

A Igreja romano-católica na América Latina e na Amazônia era uma Igreja-espelho da Igreja-mãe da Europa. Depois de cinco séculos era se transformou numa Igreja-fonte, com um rosto afro-índio-europeu. Na homilia de abertura do Sínodo, no dia 4 de outubro, o Papa Francisco disse claramente:” Quantas vezes o dom de Deus foi, não oferecido, mas imposto! Quantas vezes houve colonização em vez de evangelização! Deus nos preserve da ganância dos novos colonialismos”. Numa outra ocasião em Puerto Maldonado no Peru, fez um pedido de perdão, nunca feito por nenhum Papa antes:”Peço humildemente perdão, não apenas pelas ofensas da própria Igreja mas pelos crimes contra os povos originários durante a conquista da América”.

No Instrumento de Trabalho, em preparação ao Sínodo, se pede que sejam ordenados “viri probati”, quer dizer, homens casados, comprovamente honrados, especialmente indígenas, para serem ordenados sacerdotes. O bispo emérito do Xingu, a maior diocese do mundo, Dom Erwin Kräutler, sugeriu ao Papa que ao invés de dizer “viri probati”(homens) se diga “personae probatae (pessoas comprovadas),o que inclui as mulheres. Diz ele: elas nas comunidades fazem tudo o que o padre faz, menos consagrar o pão e o vinho. Por que não conceder-lhes também esta missão? Maria, deu à luz Jesus, o Filho de Deus. Suas irmãs, as mulheres, por que não podem representá-lo? Ademais o texto diz que se dará às mulheres uma missão especial. Bem poderia ser, como é feito em todas as demais igrejas cristãs, que mulheres se tornem, a seu jeito, também sacerdotes.

Esse Papa é inovador e corajoso. Dizem os melhores teólogos que não há nenhum dogma e nenhuma doutrina que impeçam às mulheres de representar o Cristo. Teologicamente não é o padre que consagra. É Cristo quem consagra. O padre apenas lhe dá visibilidade. Só o patriarcalismo ainda reinante impede de ordenar mulheres.

A questão mais aguda e importante é a salvaguarda do bioma amazônico. Essa vasta região foi objeto de pesquisa de grande cientistas já há dois séculos. Dizia Euclides da Cunha em seus ensaios amazônicos:”A inteligência humana não suportaria o peso da realidade portentosa da Amazônia; terá que crescer com ela, adaptando-se-lhe, para dominá-la (Vozes 1976,p.15). Ela é o grande filtro do mundo que sequestra o dióxido de carbono, mitiga o aquecimento global e nos entrega oxigênio. Nela a biodiversidade é tanta que “em poucos hectares da floresta amazônica existe um número de espécies de plantas e de insetos maior que toda a flora e fauna da Europa”nos diz o grande especialista E.Salati.

Mas seu significado maior reside na imensidão das águas, seja dos rios volantes (umidade das árvores, mil litros por copas de 20 metros) seja da superfície do rio, seja do imenso aquífero Alter do Chão. Sem a preservação da floresta em pé, o Amazonas pode se transformar num deserto como o Saara que há 15 mil anos era uma espécie de Amazônia,com o rio Nilo desaguando no Atlântico. Cinquenta billhões de toneladas de dióxido de carbono seriam lançadas ao céu, caso a Amazônia fosse desflorestada, tornando impossível a vida no sul do Continente.

O papa se referiu à situação da Amazônia ao analisar a situação atual do mundo,”a Terra é cada vez mais interconectada e habitada por povos que fazem parte de uma comunidade global; por exemplo, o problema dos incêndios na Amazônia, não é apenas daquela região. É um problema mundial, assim como o fenômeno migratório”.

Mais e mais cresce a consciência de que o bioma amazônico é um Bem Comum da Terra e da Humanidade. O apelo à soberania de cada país, se move ainda no velho paradigma que dividia o planeta em partes. Agora se trata de reunir as partes e construir a Casa Comum para nós e para toda a comunidade de vida. O Brasil não é dono da Amazônia (63%), é apenas seu administrador, agora sob o novo governo, de forma altamente irresponsável. Faz pouco caso dos incêndios e em função dos minérios, do petróleo, de hidrelétricas e de outras riquezas, incentiva grandes projetos que ameaçam os povos originários – aqueles que sabem cuidar e preservar a floresta – e o equilíbrio ecológico de toda a Casa Comum.

Corre um projeto subscrito por dezenas de caciques, bispos, autoridades, cientistas e outros a ser apresentado no Sínodo que é de declarar a “Amazônia, santuário intangível da Casa Comum”!

Como a UNESCO já tombou vários biomas em vários países, por que não fazê-lo da Amazônia, na qual se joga, em parte, o futuro da vitalidade da Terra e de nossa civilização?

A AMAZÔNIA: BEM COMUM DA TERRA E DA HUMANIDADE

Os recentes incêndios da Amazônia brasileira e boliviana,mais as discussões dos G7 em Biaritz em setembro trouxeram à baila a importância do bioma amazônico para o equilíbrio e, eventualmente, para o futuro da vida.Quem melhor viu a questão em seu aspecto global foi Emmanue Macron da França.

Os descaso com que o presidente do Brasil tratou a questão ambiental, negando os dados científicos mais sérios e as ameaças às reservas indígenas, acrescido ainda o desmonte feito pelo ministro do Meio Ambiente dos principais organismos de proteção da floresta e das terras indígenas e da vigilância do avanço descontrolado do agronegócio sobre a mata virgem, mostraram a gravidade da situação. Diante de madereirios o Presidente,de forma ignorante das consequências ecológicas e numa restrita concepção de soberania como se estívéssemos ainda a alguns séculos passados, dizia a madeireiros que o que conta não são plantas em pé, mas em seu lugar a extração de misérias. E eles aplaudiam ávidos dos lvros e indiferentes às vidas sacrificadas da biodiversidade e dos povos da floresta.

Note-se no entanto, que segundo notáveis especialistas internacionais, a Amazônia é a segunda área mais vulnerável do planeta em relação à mudança climática provocada pelos seres humanos.

O próprio Papa Francisco advertiu “que o futuro da humanidade e da Terra está vinculado ao futuro da Amazônia; pela primeira vez, se manifesta com tanta claridade que desafios, conflitos e oportunidades emergentes em um território, são a expressão dramática do momento que atravessa a sobrevivência do planeta Terra e a convivência de toda a humanidade”.

São palavras graves, menosprezadas pelas grandes corporações depredadoras, porque se dariam conta de que deveriam trocar de modo de produção, de consumo e de descarte. Mas preferem o lucro que a salvaguarda da vida humana e terrenal.

Não sem razão, o Papa Francisco convocou O Sínodo Panamazônico para agora em outubro do corrente ano cujo tema é:”Amazônia:novos caminhos para a Igreja e para uma ecologia integral”. Trata-se de uma aplicação de sua encíclica “sobre o cuidado da Casa Comum” para evitar uma catástrofe socio-ecológica mundial. Não se trata de uma ecologia ambiental e verde mas de uma ecologia integral, que envolve o ambiente, a sociedade, a política, a economia, o quotidiano e a dimensão espiritual.

Além disso quer favorecer uma eclesiogênese, o nascimento de uma Igreja nascida do encontro do evangelho com as cuturas originárias. Que elas façam o que os cristãos nos inícios fizeram que foi dialogar com as culturas gregas, latina e germânica e mais tarde com a moderna e criar sua síntese que resultou no atual cristianismo. Os indígenas são convidados a seguir o mesmo caminho, de onde nasce uma Igreja de rosto indígenas, com suas liturgias próprias e, provavemente, com homes casados e ordenados sacerdotes.

Consideremos alguns dados gerais sobre o bioma amazônico: cobre uma extensão de 8.129.057 Km2 com nove países: Brasil (67%), Peru (13%), Bolívia (11%), Colômbia (6%), Equador (2%), Venezuela(1%), Suriname,Guiana e Guiana francesa (0,15). Vivem aí 37.731.569 habitantes, sendo que 2,8 milhões são indígenas de 390 povos distintos falando 240 idiomas, da rica matriz de 49 ramos linguísticos, um fenômeno inigualável na história da linguística mundial.

Existem três rios amazônicos: o visível, da superfície, o aéreo, os chamados “rios volantes”(cada copa de árvore com 20 metros de extensão produz 1000 litros de humidade que vão trazer chuvas para o cerrado, para o sul, até o norte da Argentina); o terceiro invisível é o rio “rez do chão”(não confundir com o lugarejo turístico Rez do Chão), um rio subterrâneo que corre debaixo do atual Amazonas.

Todo o bioma amazônico constitui um Bem Comum da Terra e da Humanidade. Na visão dos astronautas isso é evidente: da Lua ou de suas naves espaciais, Terra e Humanidade formam uma única entidade. O ser humano é aquela porção da Terra que começou a sentir, pensar, amar e cuidar. Somos Terra, como enfatiza o Papa e a própria Bíblia. A própria Terra é viva, Gaia, que origina todas as formas de vida.

Agora, na fase planetária, todos nos encontramos numa mesma e única Casa Comum. O tempo das nações está passando; agora é o tempo da Terra, administrada por um corpo multipolar e orgânica para atender aos problemas da única Casa Comum e de seus habitantes. Será, como já previa Immanel Kant no seu último livro “A Paz Perpétua” de 1789, a República Mundial (Welrepublick) sob a égide da hospitalidade universal e da vigência dos direitos humanos, o mais sagrado que o Criador nos concedeu. Temos que nos organizar para garantir os meios que sustentarão a nossa vida e a da natureza. Ninguém é dono da Terra. Ela é o nosso maior Bem Comum. Todos têm direito de estar nela. Como a Amazônia é parte da Terra, ninguém pode considerar só seu o que é um Bem de todos e para todos.

O Brasil, no máximo, possui a administração da parte brasileira (67%) e o faz de forma irresponsável. Daí a preocupação geral.

Atualmente o bioma amazônico é objeto da cobiça mundial por causa de suas riquezas. Usa-se muita violência. Há na Amazônia brasileira,a partir dos meados dos anos 1980 mais de 12 mártires o último a religiosa norte-americana Doroty Stang, indígenas, leigos e religiosos; no Equador 6, no Peru 2 e na Colômbia inumeráveis.

Os G 7 reunidos em Biaritz, se deram conta da importância do bioma amazônico para o equilíbrio dos climas e da própria Terra. Suponho que a veem convencionalmente ainda como um baú de recursos para seus projetos econômicos. Suspeito que não incorporaram a visão da nova ecologia que entende a Terra como um super-organismo vivo e nós parte dele e não seus senhores. Mas muitos conhecem estas discussões no âmbito da eclogia, da cosmologia e das demais ciências da vida e da Terra.

Caso a Amazônia fosse totalmente abatida, todo o sul do Brasil até o norte da Argentina e do Uruguai se transformariam lentamente numa savana e até em alguns lugares num deserto. Daí a vital importância desse bioma multinacional.

A irresponsabilidade de Bolsonaro é de tal monta que juristas mundiais cogitam acusá-lo de ecocídio, crime reconhecido pela ONU em 2006 e levá-lo ao tribunal dos crimes contra a humanidade. Derrubar a floresta é afetar o regime das águas. A água é um bem natural, vital, comum e insubstituível. Sem água não há vida. Bolsonaro se faria com suas políticas atrasadas de mineração e de extrativismo de riquezas, abundantes nesse bioma.

Termino com palavras de um indígena ianomâmi Miguel Xapuri Ianomâmi:

“Vocês têm Deus, nós temos Omama. Ela criou a vida, criou os ianomâmis, permite tudo o que acontece. Nós nos comunicamos com ela permanentemente”. Quem do mundo secularalizado falaria de coração desta forma?

Edição 150, Setembro 2019

A DESTRUIÇÃO DAS “INDIAS BRASILEIRAS”

N.E. Leiam o texto e concluirão que Bolsonaro, à beira destes missionários e conquistadores cristãos católicos romanos, chega a ser (quase) exemplar!!! E não é que, depois de todo este horror e terror, ainda vem agora o Sínodo sobre a Amazónia, não na Amazónia, mas na Roma imperial do papa Francisco?! Pode mascarar-se de 'boas maneiras', mas é de novo a Cruz, a Espada (= ideologia-teologia do cristianismo) e a Bíblia. E, no topo dos topos, o papa, o chefe de Estado do Vaticano. que pode julgar e condenar todos os outros chefes de Estado do mundo, não pode ser julgado por nenhum!!!

Em função do Sínodo panamazônico de outubro, comvém relembrar o que foi a destruição das Indias Brasileiras, no linguajar de Bartolomé de las Casas com referência à América Central.

O primeiro encontro a 21 de abril de 1500, narrado idilicamente pelo cronista Pero Vaz de Caminha, logo se transformou num profundo desencontro. Por culpa da voracidade dos colonizadores, não ocorreu uma reciprocidade entre o português e o índio, mas um confronto, desigual e violento, com desastrosas consequências para o futuro de todas as nações indígenas.

Como no resto da América Latina, negou-se-lhes a eles a condição de seres humanos. Ainda em 1704 a Câmara de Aguiras, no Ceará, escrevia em carta ao rei de Portugal que “missões com esses bárbaros são excusadas, porque de humano só tem a forma, e quem disser outra coisa é engano conhecido”. Foi preciso que o Papa Paulo III, com uma bula Sublimis Deus de 9 de julho de 1537, interviesse e proclamasse a eminente dignidade dos indígenas como verdadeiros seres humanos, livres e donos de suas terras.

Pelas doenças dos brancos contra as quais eles não tinham imunidade – a gripe, a catapora, o sarampo, a malária, e a sífilis – pela cruz, pela espada, pelo esbulho de suas terras, impossibilitando a caça e as plantações, pela escravização, por guerras declaradas oficialmente como por Dom João VI em 13 de maio de 1808 contra os Krenak no Vale do Rio Doce. Modernamente, ao se abrirem as grandes estradas e hidrelétricas na Amazônia usaram-se contra eles desfolhantes químicos, ataques com helicópteros e voos rasantes de aviões até por bactérias intencionalmente introduzida. Pela sistemática humilhação e negação de sua identidade, os cinco milhões foram reduzidos ao número atual de 930.00 mil. Vigorou, na relação aos indígenas, o propósito político de sua erradicação, seja pela aculturação forçada, seja micegenização espontânea e planejada, seja pela pura e simples exterminação, como fez o Governador Geral do Brasil, Mendes Sá com os Tupiniquim de Ihéus:”os corpos foram colocados ao longo da praia, alinhados, na extensão de uma légua”.

Citemos apenas um exemplo paradigmático que representa a lógica da “destruição das Indias brasileiras”. No começo do século quando os padres dominicanos iniciaram uma missão às margens do rio Araguaia, havia 6-8 mil Kaiapó em conflito com os seringueiros da região. Em 1918 foram reduzidos a 500. Em 1927 a 27. Em 1958 a um único sobrevivente. Em 1962 eram dados como extintos em toda aquela região.

Com a dizimação de mais de mil povos, em 500 anos de história brasileira, desapareceu para sempre uma herança humana construída em milhares de anos de trabalho cultural, de dialogação com a natureza, de invenção de línguas e de construção de uma visão do mundo, amiga da vida e respeitosa da natureza. Sem eles todos ficamos mais pobres.

O sonho de um índio Terena, recolhido por um bom conhecedor da alma brasileira e indígena, mostra o impacto desta devastação demográfica sobre as pessoas e os povos: “Fui até o velho cemitério guarani na Reserva e lá vi uma grande cruz. Uns homens brancos chegaram e me pregaram na cruz de cabeça para baixo. Eles foram embora e eu fiquei lá pregado e desesperado. Acordei com muito medo” (Roberto Gambini, O espelho índio, Rio de Janeiro 1980. p. 9).

Esse medo, pela continuada agressão do homem branco e bárbaro (arrogantemente se auto-denomina civilizado), se transformou, nos povos indígenas, em pavor de que sejam exterminados para sempre da face da Terra.

Graças às organizações indígenas, às novas legislações proteccionistas do estado, ao apoio da sociedade civil, das Igrejas e da pressão internacional, os povos indígenas estão se fortalecendo e, mais, estão crescendo numericamente. Suas organizações revelam o alto nível de consciência e de articulação que eles atingiram. Sentem-se cidadãos adultos que querem participar dos destinos da comunidade nacional, sem renunciar à sua identidade e colaborando junto com outros sujeitos históricos com sua riqueza cultural, ética e espiritual.

Por isso, é extremamente ofensiva à sua dignidade, a forma como o estado brasileiro, especialmente sob o governo de Bolsonaro, os trata e maltrata com suas políticas indigenistas como se fossem primitivos e infantis. Na verdade, eles guardam uma integralidade que nós ocidentais perdemos, reféns de um paradigma civilizacional que divide, atomiza e contrapõe para mais dominar. Eles são guardiães da unidade sagrada e complexa do ser humano, mergulhado com outros na natureza da qual somos parte e parcela. Eles conservam a consciência bem-aventurada de nossa pertença ao Todo e da aliança imorredoura entre o céu e a terra, origem de todas as coisas.

Quanto em outubro de 1999 estive encontrando os indígenas noruegueses – os samis ou esquimós – em Umeo, eles me fizeram uma primeira pergunta, prévia à conversação:

– Os índios brasileiros conservam ou não o casamento entre o céu e a terra?

Eu, entendi logo a questão e respondi resolutamente:

– Lógico, eles mantém este casamento. Pois do casamento entre o céu e a terra nascem todas as coisas.Eles, felizes, responderam:

– Então, são ainda, verdadeiramente, índios como nós. Eles não são como os nossos irmãos de Estecolmo que esqueceram o céu e só ficaram só com a terra. Por isso se sentem infelizes e muitos se suicidam. Se mantivermos unidos céu e terra, espírito e matéria, o Grande Espírito e o espírito humano então salvaremos a humanidade e a nossa Grande Mãe Terra.

Essa, seguramente, é a grande missão dos povos originários e o seu maior desafio: ajudar-nos a salvar a Terra, nossa Mãe, que a todos gera e sustenta e sem a qual nada neste mundo é possível.

Precisamos ouvir sua mensagem e incorporarmo-nos em seu compromisso, para fazermo-nos também nós, como eles, testemunhos da beleza, da riqueza e da vitalidade da Mãe Terra.

A FALTA QUE HOJE NOS FAZ: O AMOR UNIVERSAL E INCONDICIONAL

Dedicado à pensadora e mestre-astróloga Martha Pires Ferreira

Vivemos atualmente tempos sombrios de muito ódio e falta de refinamento. Precisamos resgatar o mais importante e que verdadeiramente nos humaniza: o simples amor. Estimo que devemos sempre retomar o tema do amor universal e sem précondições.

Sobre ele se disseram as coisas mais elevadas até o de designar o nome próprio de Deus. Para superar o discurso, convencional, convém incorporar a contribuição que nos vem das várias ciências da Terra, da biologia e dos estudos sobre o processo cosmogênico. Mais e mais fica claro que o amor é um dado objetivo da realidade global e cósmica, um evento bem-aventurado do próprio ser das coisas, nas quais nós estamos incluídos.

Dois movimentos, entre outros, presidem o processo cosmogênico: a necessidade e a espontaneidade.

Por necessidade de sobrevivência todos os seres são interdepententes e se ajudam uns aos outros. A sinergia e a cooperação de todos com todos, mais que a seleção natural, constituem as forças mais fundamentais do universo, especialmente, entre os seres orgânicos. A solidariedade é mais que um imperativo ético. É a dinâmica objetiva do próprio cosmos e que explica por que e como chegamos até aqui.

Junto com essa força da necessidade comparece também a espontaneidade.

Os seres se relacionam e interagem espontanemente, por pura gratuidade e alegria de conviver. Tal relação não responde a uma necessidade. Ela se instaura por um impulso de criar laços novos, pela afinidade que emerge espontaneamente e que produz o deleite. É o universo da novidade, da irrupção de uma virtualidade latente que faz surgir algo maravilhoso e que torna o universo um sistema aberto. É o advento do amor.

Ele se dá entre todos os seres, desde os primeiros topquarks que se relacionaram para além da necessidade de criarem campos de força que lhes garantissem a sobrevivência e o enriquecimento na troca de informações. Muitos se relacionaram por se sentirem espontaneamente atraídos por outros e comporem um mundo não necessário, gratuito, mas possível e real.

Desta forma, a força do amor atravessa todos os estágios da evolução e enlaça todos os seres dando-lhes irradiação e beleza.. Não há razão que os leve a se comporem em elos de espontaneidade e liberdade. Fazem-no por puro prazer e por alegria de conviver. Cosmólogos há que afirmam ser o universo todo colorido e, portanto, extremamente belo.

O amor cósmico realiza o que a mística sempre intuiu: “a rosa não tem por quê. Ela floresce por florescer. Ela não cuida dela mesma nem se preocupa se a admiram ou não”. Assim o amor, como a flor, ama por amar e floresce como fruto de uma relação livre, como entre os enamorados.

Pelo fato de sermos humanos e autoconscientes, podemos fazer do amor um projeto pessoal e civilizatório: vive-lo conscientemente, criar condições para que a amorização aconteça entre os seres humanos e com todos os demais seres da natureza. Podemos nos enamorar de uma estrela distante e fazer uma história de afeto com ela.Os poetas sabem disso.

O amor é urgente no Brasil e no mundo. Milhares de refugiados são excluídos e nordestinos, ofendidos. Mais que perguntar quem destila raiva e intolerância é perguntar por que as praticam. Seguramente porque faltou o amor como relação que abriga os seres humanos na bela experiência de cada um se abrir e acolher jovialmente o outro e de se respeitarem mutuamente.

Digamo-lo com todas as palavras: o sistema mundial imperante não ama as pessoas. Ele ama o dinheiro e os bens materiais; ele ama a força de trabalho do operário, seus músculos, seu saber, sua produção e sua capacidade de consumir. Mas ele não ama gratuitamente as pessoas como pessoas, portadoras de dignidade e de valor.

Pregar o amor e dizer: “amemo-nos uns aos outros como nós mesmos nos amamos”, significa uma revolução. É ser anti-cultura dominante e contra o ódio imperante.

Há de se fazer do amor aquilo que o grande florentino, Dante Alignieri, escreveu no final de cada cântico da Divina Comédia: “o amor que move o céu e todas as estrelas”; e eu acrescentaria, amor que move nossas vidas, amor que é o nome sacrossanto do Ser que faz ser tudo o que é.

O PROJETO NEOLIBERAL É ANTI-VIDA E INIMIGO DA NATUREZA

Aproveito as reflexões de um de nossos melhores filósofos, da Universidade Federal do Ceará, Manfredo de Oliveira, especializado na relação entre economia, sociedade e ética. Sua obra sobre o tema é vasta. Aqui resumimos um estudo mais longo sobre o projeto implementado no mundo e agora no Brasil: o neoliberalismo ultra radical. Escreve ele:

“Este projeto fundamentalmente consiste na implementação radical do que se denomina “Liberalismo Econômico”. Esta corrente de teoria econômica é conhecida como a Escola de Chicago que tem, contudo, seus fundamentos filosóficos nas teses da assim chamada Escola Austríaca, cujo principal expoente é Ludwig von Mises. Eis as teses básicas: o direito de propriedade é o único direito universal, fundamental e absoluto que começa com o direito absoluto do próprio corpo e inclui todos os bens que se possa adquirir. Deste direito se derivam o direito absoluto de não agressão à propriedade e o direito de defender a propriedade”.

“O Estado é visto como o grande usurpador da propriedade e a única instituição eticamente aceitável na esfera da atividade econômica é o “Mercado Livre”. Todos no mercado livre têm os mesmos direitos. Cada indivíduo é o único responsável por seus objetivos. Suas regras constituem um mecanismo semelhante às leis da natureza: elas são algo objetivo que o ser humano não tem condições de modificar. Devemos estudar a ação humana como um físico estuda as leis da natureza”.

“Assim como não podemos julgar boa ou má a lei da gravidade, do mesmo modo não podemos julgar as leis do mercado. Não tem sentido aqui levantar questões éticas que pertencem a outro nível. A única questão aqui é sua eficiência técnica. O mercado é compreendido como um mecanismo auto-organizador e enquanto tal sua avaliação tem como critério a eficiência e não a valoração ética”.

“Não há direitos fora das leis do mercado. Portanto, a desigualdade e a exclusão nada têm a ver com injustiça social. Assim, a pobreza não é um problema ético, mas uma incompetência técnica. O maior erro dos opositores do capitalismo é a acusação de injustiça social baseada na ideia de que a “natureza” concedeu a todas as pessoas certos direitos só pelo facto de terem nascido”. Por esta razão, no que toca à distribuição da riqueza…”não tem sentido referir-se a um suposto princípio natural ou divino de justiça”(Cf. MISES L. von, The Anti-Capitalist Mentality, Auburn, 2008, p. 80, 81).”

“O imposto é uma forma de confisco da propriedade. Portanto, nem saúde, nem educação, nem previdência, nem segurança pública, nem justiça se legitimam enquanto financiados pelo Estado. Os pobres são indivíduos que por culpa própria perderam a competição com outros. Assim, o mérito emerge como único critério de ascensão social.”

“Esse projeto de sociedade é chamado, frequentes vezes, pelo Papa Francisco de “anti-vida”, “assassino dos pobres e da natureza”. Ele visa se opor ao Estado de Bem Estar Social (no Brasil, Estado democrático de Direito). Este orienta-se pelos seguintes elementos na linha de J.M.Keynes: 1) Intervenção do Estado nos mecanismos de mercado; 2) Política de pleno emprego (melhoria dos rendimentos dos cidadãos); 3) Institucionalização do sistema de proteção; 4) Institucionalização de ajudas para os que não conseguem estar no mercado de trabalho”.

“O resultado deste processo foi o aumento da capacidade de consumo das classes menos favorecidas”.

“O objetivo fundamental agora,no novo modelo de sociedade neoliberal, é maximizar o lucro do capital, o que faz com que os direitos sociais tendam a desaparecer e que aumentem as riquezas para os mais ricos, junto com a desregulação dos mercados de trabalho. Daí a cruzada global contra a intervenção estatal e os direitos sociais e econômicos criados pelas políticas do Estado Social, pois constituem um obstáculo à operação das leis de concorrência e por isto são políticas irracionais e populistas. Desta forma, os defensores do “mercado totalmente livre” se contrapõem às políticas sociais, consideradas ineficientes e perturbadoras do processo produtivo”.

“O caminho agora é confiar plenamente no mercado enquanto sistema auto-organizador que, uma vez libertado de regulações e intervenções indevidas, soluciona por si os problemas econômicos e sociais”.

“Neste contexto se mostra que agora o eixo básico do projeto de civilização é a subordinação da qualidade de vida dos seres humanos à acumulação do capital”.

“Importa, entretanto, reconhecer que os resultados deste processo ameaçam a vida humana e toda vida no planeta. A exploração ilimitada da natureza se mostra nas catástrofes socioambientais. Cientistas,dos mais notáveis, alertam-nos para o facto de que o modelo econômico vigente pode encaminhar a humanidade a um colapso ecológico-social”

Se Bolsonaro e Guedes assumirem este projeto ultra neoliberal farão surgir um país com milhões de pobres e até párias, com poucos ricos e um punhado de multi-milionários, um país não só pobre mas também injusto.

O LEGADO DE CHICO MENDES PARA O SÍNODO PANAMAZÔNICO

Chico Mendes é um lídimo filho da floresta, identificado com ela. Cedo se deu conta de que o atual desenvovlvimento prescinde da natureza e que se faz contra ela, pois, a vê antes como um estorvo que como um aliado. Foi um dos poucos que entendeu a sustentabilidade como equilíbrio dinâmico e autoregulador da Terra, graças a cadeia de interdependências entre todos os seres, especialmente, dos vivos que vivem de recursos permanentemente reciclados e, por isso, indefinidamente sustentáveis. A Amazônia é o exemplo maior desta sustentabilidade natural.

Nós que o conhecemos e com quem privamos de amizade, sabemos de sua profunda identificação com a floresta amazônica, com sua imensa biodiversidade, com os seringais, com os animais, com o mais leve sinal de vida da mata. Tinha o espírito de um São Francisco moderno.

Dividia seu tempo entre a cidade e a selva. Mas quando estava na cidade ouvia fortemente o chamado da selva, em seu corpo e em sua alma. Percebia-se parte dela e não sobre ela. Por isso, regressava de tempos em tempos ao seu seringal e à comunhão com a natureza. Aí sentia-se em seu habitat, em sua verdadeira casa.

Mas sua consciência socioecológica o fazia deixar, por algum tempo, a floresta para organizar os seringueiros, fundar células sindicais e participar das lutas de resistência: os famosos “empates”, estratégia pela qual os seringueiros junto com suas crianças, velhos e outros aliados se postavam pacificamente diante das máquinas dos desmatadores, impedindo-lhes de derrubar as árvores.

Face às queimadas como as atuais da Amazônia que em 2019, foram de 74,155, focos atingindo 18.627 km2, Chico Mendes sugeriu em nome do movimento dos povos da floresta a criação de reservas extrativistas, aceitas pelo Governo Federal em 1987. Bem dizia: “nós seringueiros, entendemos que a Amazônia não pode se transformar num santuário intocável. Por outro lado, entendemos também que há uma necessidade urgente de desenvolvimento, mas sem desmatar e com isto ameaçar a vida dos povos do planeta”.

Afirmou:“no início defendia os seringueiros, depois compreendi que devia defender a natureza e por fim, percebi que devia defender a Humanidade. Por isso propomos uma alternativa de preservação da floresta que fosse ao mesmo tempo econômica. Então pensamos na criação da reserva extrativista” (cf. Grzybowski, C.,(org.) O testamento do Homem da Floresta: Chico Mendes por ele mesmo, FASE, Rio de Janeiro 1989 p.24).

Ele mesmo explica como funciona:”Nas reservas extrativistas nós vamos comercializar e industrializar os produtos que a floresta generosamente nos concede. A universidade precisa acompanhar a reserva extrativista. Ela é a única saída para a Amazônia não desaparecer. E mais : essa reserva não terá proprietários. Ela vai ser um bem comum da comunidade. Teremos o uso-fruto não a propriedade” (cf. Jornal do Brasil 24/12/1988).“Destarte se encontraria uma alternativa ao extrativismo selvagem que somente traz vantagens aos especuladores. Uma árvore de mogno, cortada no Acre, custa de 1-5 dólares; vendida no mercado europeu custa cerca de 3-5 mil dólares”.

Na véspera do Natal de 1988 foi vítima da sanha dos inimigos da natureza e da humanidade. Foi assassinado com 5 balas. Deixou a vida amazônica para entrar na história universal e no inconsciente coletivo dos que amam nosso planeta e sua biodiversidade.

Chico Mendes virou um arquétipo que anima a luta pela preservação da floresta amazônica e dos povos da floresta, hoje assumida por milhões de pessoas. Entendemos a indignação de muitos membros do G 7, liderados por E.Macron, presidente da França, contra a devastação irracional promovida pelo Presidente Bolsonaro. Comete um crime contra Humanidade e mereceria ser julgado por esse crime. A Amazônia é um Bem Comum da Humanidade.

Os megaprojetos amazônicos (brasileiros e estrangeiros) refutam o tipo de desenvolvimento depredador do capitalismo. Ele produz apenas crescimento, apropriado por alguns à custa da floresta e da miséria de seus povos. É contra a vida e inimigo da Terra. Ele é fruto de uma racionalidade demente.

Tais projetos faraônicos.sem as devidas informações tomam decisões em escritórios gélidos, longe da paisagem que encanta, cegos aos rostos suplicantes dos sertanejos e indiferentes aos olhos ingênuos dos índios, sem qualquer vínculo com a empatia e com o sentido de respeito da selva e de solidariedade humana.

Diferente é o Instrumento de trabalho para o Sínodo Panamazônico, onde a voz mais presente e ouvida é dos povos da floresta. Eles sabem protegê-la. Oferecem as melhores sugestões, unindo a salvaguarda da floresta e a extração e produção de seus bens naturais.

Esse “desenvolvimento” é feito para o povo e com o povo. Ele deslegitima a ideia dominante, especialmente do agronegócio de que as florestas deviam ser erradicadas. Caso contrário não se entraria na modernidade.

Os estudos mostraram que não é preciso destruir a floresta amazônica para tirar riquezas dela. A extração dos frutos das palmeiras (açai, buriti, bacaba, pupunha etc), da castanha-do-pará, da seringa, dos óleos e corantes vegetais, das substâncias alcaloides para a farmacologia, das substâncias de valor herbicida e fungicida rendem mais do que todo o desmatamento que sob o governo de Bolsonaro cresceu mais de 230%.

Só os 10% das terras roxas (terras dos índios) já identificadas de excelente fertilidade podem tornar-se áreas de maior produção agrícola mundial. A exploração de minério e de madeira podem caminhar juntos com um reflorestamento permanente que garanta a mancha verde das áreas afetadas (cf. Moran, E., A economia humana das populações na Amazônia, Vozes, Petrópolis 1990, 293 e 404-405 ; Schubart, H., Ecologia e utilização das Florestas, em Salati, E., Amazônia, desenvolvimento, integração, ecologia, op.cit. 101-143).

A Amazônia é o lugar de ensaio de uma alternativa possível, em consonância com o ritmo daquela natureza luxuriante, respeitando e valorizando a sabedoria dos povos originários.

Chico Mendes será para o Sínodo Panamazônico a realizar-se em outubro de 2019 em Roma, um exemplo paradigmático e uma fonte de inspiração.

Edição 149, Junho 2019

QUANDO UM COORDENADOR NÃO ORDENADO PODE CELEBRAR A CEIA DO SENHOR

N.D. O que me surpreende é que ainda haja teólogos e da craveira do meu amigo L. Boff que percam tempo com estas coisas. A chamada 'missa' ou 'eucaristia' é coisa de S. Paulo, não de Jesus. E os clérigos são uma invenção da igreja imperial. Só uma igreja imperial como a dos papas é que decretou como dogmas de fé barbaridades teológicas destas. De Jesus histórico vêm as Comensalidades. Sempre que dois ou três vivem reunidos em seu Nome. Não em redor de altares, mas de mesas compartilhadas. Sejam mulheres ou homens. Ordenados ou não. De resto, o sacramento da Ordem é coisa da igreja imperial. Tal como a chamada hierarquia. Abramos os olhos! E avancemos de acordo com a nossa consciência. Sem esperar pela 'autorização' do papa.

No dia 18/06/19, pensando no Sínodo Panamazônico de outubro, escrevemos sobre a vontade do Papa Francisco de ordenar casados ao sacerdócio, especialmente, indígenas, para os lugares distantes na Amazônia. Será um sacerdote do jeito indígena, seguramente, diverso do tradicional.

Ocorre que nos lugares sem a assistência de sacerdotes, coordenadores de comunidades eclesiais de base já estavam presidindo celebrações da Ceia do Senhor. Não são ordenados mas ninguém dirá que Cristo não está aí presente na Palavra, na comunidade e em sua celebração. A questão náo é apenas intra-eclesial católica, é também ecumênica. As Igrejas que saíram da Reforma celebram em suas comunidades a Ceia do Senhor por pastores não ordenados. Qual é o valor destas celebrações? Estará realmente Cristo aí presente sob as espécies do pão e do vinho?

Tentaremos responder, em ambos os casos, positivamente, fundados numa vasta documentação histórico-teológica que não pode ser aqui aduzida mas encontrável no livro Eclesiogênse: a reinvenção da Igreja,Editora Record 2008,p165-188.

A afirmação básica, definida pelo Concílio Vaticano II é: ”A celebração do Sacrifício Eucarístico é o centro e o cume de toda a vida da comunidade cristã”(Christus Dominus,n.30). Os fiéis desejam a eucaristia. Pode ser negada a eles pelo fato de não haver um ministro ordenado em seu meio? Os coordenadores das comunidades fazem tudo o que um ordenado faz, por que ele não podem também consagrar? O normal seria que fossem ordenados. Mas não o são porque não são celibatários.

A pesquisa rigorosa sobre o tema concluiu haver duas fases: no primeiro milênio do Cristianismo a lei básica era:”quem preside a comunidade, preside também a eucaristia: podia ser um bispo, um presbítero,um profeta, um doutor, um confessor e um simples coordenador”. Seria impensável uma comunidade ficar sem a eucaristia pela falta de um bispo ou de um sacerdote. Entrava o coordenador da comunidade, como ocorre nas nossas comunidades. O nexo era o coordenador da comunidade e a celebração da eucaristia.

No segundo milênio houve uma reviravolta. As disputas entre o Imperium e o Sacerdotium deslocaram o tema da comunidade em favor do tema do poder sagrado. Os Papas reivindicaram o poder sagrado acima do poder imperial. Este poder sagrado vem mediante o sacramento da Ordem. O nexo agora é quem detém o poder sagrado e quem não o detém. Só quem é ordenado tem o poder de consagrar. O leigo ficou excluído mesmo sendo coordenador. Agora há a ordem laical e a sacerdotal.

Com referência às celebrações eucarísticas das Igrejas cristãs não romano-católicas parte-se do fato de que nelas se celebra a Ceia do Senhor pelos ministros aceites pelas respectivas comunidades. A validade desta celebração não advém do sacramento da Ordem, via imposição das mãos feita pelo bispo, sobre o fiel leigo que passa, então, a ser sacerdote com poder de consagrar. Para os evangélicos, o poder de celebrar se deriva da fé e da fidelidade à doutrina apostólica acerca da presença do Senhor na celebração da sagrada Ceia. O mesmo poderíamos dizer das celebrações nas comunidades eclesiais de base: a fé apostólica na real presença de Cristo no pão e no vinho abençoados pelo coordenador ou por um grupo de coordenadores, conferiria o poder de consagrar. Cristo estaria ai presente.

Outro pólo de compreensão se funda no valor do batismo tomado em sua integralidade. É doutrina comum que o batismo é a porta de entrada de todos os sacramentos e conteria seminalmente todos os demais. Pelo batismo todos os fiéis participam do único sacerdócio realmente válido que é o de Cristo. O sacramento da Ordem não é o sacramento do bispo ou do padre. É o sacramento da Igreja, como comunidade dos fiéis. Se alguém é ordenado no sacramento da Ordem é para o serviço da comunidade, de sua coordenação e animação espiritual. Não existe um frente-a-frente: por um lado o fiel, sacerdote comum, sem poder sacramental nenhum e por outro o sacerdote ordenado com todos os poderes. O que existe é uma comunidade toda ela sacerdotal e profética que especifica as funções, sem uma diminuir a outra, uma de consagrar e coordenar. a outra de interpretar os textos sagrados, de se responsabilizar pelos cânticos, de visitar enfermos etc.

Ademais é doutrina comum que depois do sacerdócio de Cristo, não pode haver nenhum outro sacerdócio a título próprio. Por isso é Cristo quem consagra. O sacerdote não consagra. Ele tem o poder de representar, tornar visível para a comunidade o Cristo invisível. Ele não substitui Cristo.

Numa comunidade bem organizada, há o sacerdote ou o pastor com esta função. Mas quando faltarem e sem culpa da comunidade, o coordenador pode assumir esta função de representação de Cristo. Essa situação hoje em dia é bastante frequente, daí a importância de se reconhecer a validade das celebrações dos pastores e dos coordenadores leigos.

BOA NOTÍCIA, HAVERÁ CASADOS PADRES

No dia 17 de junto de 2019 o Vaticano emitiu um documento que recomendava ao Sínodo Pan-amazônico a realizar-se em outubro em Roma, que se considere a ordenação sacerdotal a homens casados, mais idosos e respeitados, especialmente indígenas, para as regiões mais afastadas da Amazônia. O Papa não quer uma Igreja que visita mas uma Igreja que permanece. Essa reivindicação é antiga e foi proposta pela CNBB ao Papa João Paulo II, nos anos 80 de século passado. Ele a interpretou como uma espécie de provocação; por causa disso sempre manteve relativa distância da CNBB.

Fontes eclesiásticas sérias fornecem os seguintes dados: na Igreja entre 1964-2004 70 mil sacerdotes deixaram o ministério. No Brasil sobre 18 mil padres, 7 mil fizeram o mesmo. As CEBs e os ministérios laicais visam a suprir a carência de padres. Por que não acolher os padres já casados e permitir-lhes assumir seu ministério ou então ordenar casados?

Seguramente, no Sínodo Pan-amazônico esta sugestão será acatada. Refere-se também que haverá “um ministério oficial para as mulheres” que não sabemos qual será. Em fim, teremos casados padres, antigo desiderato de muitas Igrejas.

Desde o início do cristianismo a questão do celibato foi polêmica. Desenharam-se duas tendências: uma que permitia padres casados e outra que preferia padres celibatários. Para todos era claro que o celibato não é nenhum dogma de fé. Mas uma disciplina eclesiástica, particular da Igreja ocidental. Todas as demais Igrejas católicas (ortodoxa, siríaca, melquita, etíope etc) e as cristãs não conhecem essa disciplina. Enquanto disciplina, pode ser abolida dependendo, ultimamente, da decisão do Papa.

Jesus se refere a três tipo de celibatários, chamados de eunucos ou castrados (eunoûxoi em grego ). Do último diz:”há castrados que assim se fizeram a si mesmos, por amor do Reino dos céus; quem puder entender que entenda”(Evangelho de Mateus 19,12). Reconhece que “nem todos são capazes de entender isso mas somente aqueles a quem foi dado”(Mt 19,11). Curiosamente na Primeira Epístola a Timóteo, se fala que “o epíscopo seja marido de uma só mulher…deve saber governar bem a sua casa e educar os filhos na obediência e castidade (1 Timóteo 3, 2-4).

Resumindo uma longa e sinuosa história do celibato constata-se que ele inicialmente não existia como lei e se existia era pouco observado. Assim que o Papa Adriano II (867-872) bem como Sérgio III (904-911) eram casados. Entre o século 10. ao século 13. dizem os historiadores, era comum que o sacerdote convivesse com uma companheira. No Brasil colônia era também muito frequente. Outrora, os párocos do campo geravam filhos e os preparavam para serem subdiáconos, diáconos e padres, pois não havia instituições que os preparassem.

Menção à parte merece a não observância do celibato por parte de alguns Papas. Houve uma época de grande decadência moral, chamada de “a era pornocrática” entre 900-1110. Bento IX (1033-104), sagrado Papa com 12 anos, já “cheio de vícios”. O Papa João XII (955-964) sagrado com 18 anos vivia em orgias e em adultérios. Famosos ficaram os Papas da Renascença como Paulo III, Alexandre VI, com vários filhos e Leâo X que com pompa casava os filhos dentro do Vaticano (Ver Daniel Rops, A história da Igreja de Cristo, Porto 1960). Finalmente celebrou-se o Concílio de Trento (1545 e 1563) que impõs como obrigatória a lei do celibato para todos os que ascedessem à ordem presbiteral. E assim permanece até os dias de hoje. Foram criados seminários, onde, desde pequenos, os candidatos são preparados para o sacerdócio, numa perspectiva apologética de enfrentamento da Reforma Protestante e mais tarde, das heresias e dos “erros modernos”.

Somos a favor que haja, como em todas as demais Igrejas, padres casados e padres celibatários, Não como a imposição de uma lei e pré-condição para o ministério, mas por opção. O celibato é um carisma, um dom do Espírito para quem puder vivê-lo sem demasiados sacrifícios. Jesus bem entendeu: é uma “castração”com o vazio que isso representa em afetividade e intimidade homem e mulher. Mas essa renúncia é assumida por amor ao Reino de Deus, a serviço dos outros, especialmente dos mais pobres. Portanto, esta carência é compensada por uma superabundância de amor. Para isso precisa-se de um encontro íntimo com Cristo, cultivo da espiritualidade, da oração e do auto-controle. Realisticamente observa o Mestre:”nem todos são capazes de entender isso” (Mt 19,11). Há os que o entendem. Vivem jovialmente seu celibato opcional, sem se endurecerem, guardando a jovialidade e a ternura essencial, tão solicitada pelo Papa Francisco.

Agora poderemos, finalmente, nos alegrar, por termos também homens casados, bem integrados familiarmente, que poderão ser padres, acompanhando a vida religiosa dos fiéis. Será um ganho para eles e para as comunidades católicas.

SEMANA DO MEIO AMBIENTE:

GARANTIR O FUTURO DA VIDA E DA TERRA

No mundo inteiro e também entre nós se celebra com eventos e discussões ecológicas a Semana do Meio Ambiente. Logicamente, não nos satisfaz o meio-ambiente, pois queremos o ambiente inteiro.

O Papa em sua encíclica “Sobre cuidar da Casa Comum”(2015) superou este reducionismo e propôs uma ecologia integral que recobre o ambiental, o social, o político, o mental, o cotidiano e o espiritual. Como disseram grandes expoentes do discurso ecológico: com este documento dirigido à humanidade e não apenas aos cristãos, o Papa Francisco se coloca na ponta da discussão ecológica mundial. Em sua detalhada exposição, segue o ritual metodológico da Igreja de Libertação e sua teologia: o ver, o julgar, o agir e o celebrar.

Fundamenta suas afirmações (ver) com os dados mais seguros das ciências da Terra e da vida; submete a uma rigorosa análise crítica (julgar) ao que ele chama de “paradigma tecnocrático”(n.101), produtivista, mecanicista, racionalista, consumista e individualista cujo “estilo de vida só pode desembocar em catástrofes”(n.161); o julgar implica uma leitura teológica onde o ser humano emerge como cuidador e guardador da Casa Comum (todo o capítulo II). Coloca com fio condutor a tese básica da cosmologia, da física quântica e da ecologia o fato de que “tudo está relacionado e, todos nós, seres humanos, caminhamos juntos como irmãos e irmãs numa peregrinação maravilhosa…que nos une também com terna afeição ao irmão Sol, à irmã Lua, ao irmão rio e à Mãe Terra”(n.92). Parte para práticas alternativas (agir) demandando com urgência uma “radical conversão ecológica”(n.5) no nosso modo de produzir, de consumir “alegrando-nos com pouco”(n.222) “com sobriedade consciente”(n.223), “na convicção de que quanto menos, tanto mais”(n.222); enfatiza a importância de “uma paixão pelo cuidado do mundo”, “uma verdadeira mística que nos anima”(celebrar) para assumirmos nossas responsabilidades face ao futuro da vida.

Atualmente se trava uma batalha acirrada entre duas visões com respeito à Terra e à natureza que afetam nossa compreensão e nossas práticas. Elas se fazem presentes em quase todos os debates.

A predominante que constitui o núcleo do paradigma da modernidade, vê a natureza como algo que nos foi destinado, cujos bens e serviços (o sistema prefere “recursos”, os andinos “bondades da natureza”) estão disponíveis para nosso uso e bem estar. O ser humano está numa posição adâmica de quem se considera “mestre e senhor”(Descartes) da natureza, fora e acima dela. Considera a Terra, uma realidade sem propósito (res extensa), uma espécie de baú cheio de bens e serviços infinitos que sustentam um projeto de desenvolvimento/crescimento também infinito. Desta atitude de “dominus” (dono) surgiu o mundo técnico-científico que tantos benefícios nos trouxe. Mas ao mesmo tempo criou uma máquina de morte que, com armas químicas, biológicas e nucleares, nos pode destruir a todos e pôr em risco a biosfera.

A outra visão, contemporânea, que possui mais um século de vigência mas que nunca conseguiu fazer-se hegemônica, entende que somos parte da natureza e que a Terra é viva. Ela se comporta como um super-organismo vivo, auto-regulado, combinando os fatores físico-químicos e ecológicos de forma tão sutil e articulada que sempre mantém e reproduz a vida. O ser humano é parte da natureza e aquela porção da Terra que num elevadíssimo processo de complexidade começou a sentir, pensar, amar e a venerar. Nossa missão é cuidar deste grande “Ethos”(em grego significa casa) que é a Casa Comum. Somos o “frater”(irmão) de todos. Devemos produzir para atender as demandas humanas mas em consonância com os ritmos de cada ecossistema, cuidando sempre que os bens e serviços possam ser usados com uma sobriedade compartida, visando as futuras gerações.

Numa mesa redonda com representantes de vários saberes, discutia-se formas de proteção da natureza. Havia um cacique pataxó do Sul da Bahia que falou por último e disse: “não entendo o discurso de vocês, todos querem proteger a natureza; eu sou a natureza e me protejo”. Aqui está a nuance: todos falavam sobre a natureza como quem está de fora, ninguém sentindo-se parte dela. O indígena sentia-se natureza. Protegê-la é proteger a si mesmo que é natureza.

Esse debate está ainda em curso. O futuro aponta para a segunda visão, a de olhar a Terra como Gaia, Pachamama, Grande Mãe e Casa Comum. Lentamente vamos tomando consciência de que somos natureza e defendê-la significa defender a nós mesmos e a nossa própria vida. Caso contrário, a primeira visão, a Terra e natureza como baú de “recursos infinitos”, nos poderá levar a um caminho sem retorno.

CARÁTER SUICIDÁRIO DO ATUAL GOVERNO?

As práticas políticas do atual governo estão destruindo as possibilidades de uma governação que traga alguma melhoria para o povo e aos mais destituídos. Não possui projeto de nação nenhum e mostra comportamentos indignos do cargo que ocupa.

Quando todas as portas se fecham e um governo não vê mais nenhuma saída para sua sobrevida, a alternativa é o suicídio. Este pode ser físico ou político. Com Vargas, foi físico: deu um tiro no coração. Com Jânio Quadro, foi político sob o pretexto de insuportável coação de forças ocultas. Com Collor, foi também político, renunciando antes da conclusão do impeachment. Com Bolsonaro pode ocorrer algo semelhante, por reconhecer o Brasil como ingovernável e por causa da fortíssima pressão das corporações. Não o evitarão as manifestações do dia 26/5 nem o estranho pacto entre os três poderes, no qual o ministro Toffoli jamais deveria estar.

Bolsonaro escolheu o pior caminho: o confronto com o Congresso, com o Centrão, com o STF, com a imprensa e com parte do exército. Tal estratégia debilita toda sua política. A saída seria abandonar a cena e cuidar de salvar a si mesmo e os seus familiares do alcance da justiça.

Efetivamente, o governo Bolsonaro desmantelou as quatro pilastras básicas que sustentam uma sociedade para que minimamente funcione.

A primeira, já herdada de seu antecessor, acusado em vários processos, Michel Temer: a destruição e precarização completa das leis trabalhistas. Uma nação vive do trabalho das grandes maiorias operárias que garantem a vida e a continuidade de uma nação. Concedeu tantos privilégios aos patrões que os operários foram conduzidos a uma situação similar aos inícios do capitalismo selvagem da Inglaterra, sem direitos garantidos e o desmantelamento da estrutura sindical.

A segunda foi o desmonte da salvaguarda dos direitos fundamentais, penalizado especialmente minorias como LGBT, indígenas e quilombolas As instituições que as implementavam foram em muito esvaziadas.

A terceira é o ataque direto à educação, às escolas, às universidades, à ciência e a suas instituições técnico-científicas. Tentou-se implantar uma “escola sem partido” para dar lugar à ideologia do partido do governo de viés conservador, ultradireitista, intolerante e fundamentalista. Sob a questionável alegação de contingenciamento mas, na verdade, uma espécie de punição às críticas por parte da inteligência nacional e acadêmica, fizeram-se cortes substanciais à toda a rede de ensino superior e aos centros de pesquisa científica e tecnológica. Junto a isso se distorceu totalmente a preocupação pelo meio ambiente, para privilegiar o agronegócio, descuidando da preservação da Amazônia e negando o aquecimento global por razões meramente ideológicas e até de supina ignorância.

A quarta foi a desidratação do SUS, um dos maiores programas mundiais de saúde pública, com o propósito de privatizar grande parte do sistema de saúde. Os cortes atingiram as farmácias populares e os medicamentos gratuitos para várias doenças como diabetes, HIV e outras.

À frente dos ministérios foram colocadas pessoas sem a menor qualificação para o cargo, algumas bizarras, como a dos direitos humanos e da mulher ou incompetentes como o da educação, do meio ambiente e o das relações exteriores.

A sensação que se tem, é o propósito de conduzir o país aos moldes pré-modernos, congelar o parque industrial, um dos mais avançados dos países em desenvolvimento, privatizar o mais possível tudo e tudo, a ponto de o ministro da Fazenda, despudoradamente dizer a investidores em Dallas que até o palácio do Planalto poderia ser privatizado e o BB fusionado com Bank of América. Por fim, submeteu-se à recolonização do país, condenado a ser mero exportador de commodities; compôs-se como sócio agregado ao projeto de hegemonia mundial pretendido pelos EEUU. O presidente visitou aquele país e lá cumpriu um rito de explícita vassalagem.

A consequência é a condenação do país à irrelevância. A seguir a política de cortes, poderemos ter uma grande parte da população reduzida à condição de párias. Sabemos que o Brasil é decisivo para o futuro ecológico-social da vida e do planeta.

Um povo ignorante por lhe negarem um ensino de qualidade e doente por não cuidarem de sua saúde, jamais conhecerá um desenvolvimento sustentado e dar uma contribuição importante à humanidade.

Bolsonaro faria bem ao país e ao mundo se renunciasse à presidência, para a qual confessou não ter vocação. Ideal seria se tivesse a generosidade mínima e um pouco de amor ao povo, para fazê-lo por si mesmo, antes de ser obrigado a isso pelo total solapamento do solo que o sustenta.

Edição 148, Maio 2019

HÁ ALGO DE GROSSEIRO E DE OBSCENO

Se há algo a lamentar profundamente hoje em dia nas redes sociais de nosso país é o império da grosseria e da obscenidade.

Essa metáfora já foi usada por outros: parece que as portas e as janelas do inferno se abriram de par em par. Daí saíram os demônios das ofensas pessoais, das injúrias, dos fake news, das mentiras, das calúnias e de toda sorte de palavras de baixíssimo calão. Nem precisaria Freud ter chamado a atenção ao fato de que há pessoas com fixação anal, usando palavras escatológicas e metáforas ligadas a perversões sexuais, pois as encontramos frequentemente nos twitters, nos facebooks, nos youtubes e em outros canais.

A grosseria demonstra a falta de educação, de civilidade, de cortesia e de polidez no trato para com as pessoas. A grosseria transforma a pessoa em vulgar. O linguajar vulgar usa expressões que ferem a sensibilidade dos outros ao seu redor. A vulgaridade contumaz deixa as pessoas inseguras, pois, nunca sabem quais gestos, palavrões ou metáforas de mau gosto podem sair de gente grosseira. O grosseiro casa o mau gosto com o desrespeito.

Especialmente, embora não exclusivamente, é o homem mais vulgar em sua linguagem. A mulher, não exclusivamente, pode ser vulgar no modo de se expor. Não se trata apenas no modo de se vestir, tornando-a explicitamente sensual e sedutora, mas no comportamento inadequado de se portar. Se a isso ainda se somam palavras obscenas e grosseiras faz-se mais vulgar e grotesca.

Especialmente grave é quando os portadores de poder como um presidente, um juiz da corte suprema, um ministro de Estado ou senador entre outros, esquecem o caráter simbólico de seu cargo e usam expressões vulgares e até obscenas. Espera-se que expressem privada e publicamente os valores que representam para todos. Quando falta esta coerência, a sociedade e os cidadãos se sentem traídos e até enganados. Aqueles que usam excessivamente expressões indignas de sua alta função são os menos indicadas para exercê-las.

Infelizmente é o que verificamos quase diariamente no linguajar daquele que ocupa o cargo mais alto da nação. Seu linguajar, não raro, é tosco, ofensivo, quando não escatológico e quase sempre burlesco.

Se é grave alguém ser grosseiro, mais grave ainda é o ser obsceno. Pois, este, o obsceno, rompe o limite natural daquilo que implica respeito e o sentido bom da vergonha. Já Aristóteles em sua Ética anotava que nos damos conta da falta de ética quando se perdeu o sentido da vergonha. Sem ela, tudo é possível, pois, não haverá nada que imponha algum limite. Até a Shoah, o extermínio em massa de judeus pelo nazismo, se tornou terrível realidade.

Nem tudo vale neste mundo. Houve Alguém que foi sentenciado à morte na cruz por testemunhar que nem tudo vale e que é digno entregar a própria vida por aquilo que deve ser incondicionalmente intocável e respeitável: a reverência ao Sagrado e a sacralidade do pobre e do que injustamente sofre.

Houve no Ocidente uma figura que se transformou em arquétipo da cortesia e da finura de espírito, daquilo que Pascal chamava de “esprit de finesse” contraposto ao “esprit de géométrie”; aquele, cheio de cuidado e de delicadeza e este outro, marcado pela frieza do cálculo e pela vontade de poder.

Um franciscano francês, Eloi Leclerc, sobrevivente do campo nazista de extermínio de Dachau e Birkenau, traduziu assim a cortesia de Francisco de Assis: “ter um coração leve” sem nenhum espírito de violência e de vingança, o reverso o de ter um coração pesado como o nosso, cheio de grosserias e de obscenidades. Aí ele faz o Poverello de Assis dizer:

“Ter um coração leve é escutar o pássaro cantando no jardim. Não o perturbes. Faze-te o mais silencioso possível. Escuta-o. Seu canto é o canto de seu Criador.”

“Rosas desabrocham no jardim. Deixa que possam florir. Não estendas a mão para colhê-las. Elas são o sorriso do Criador”.

“E se encontrares um miserável, alguém que está sofrendo desesperado, cala-te, escuta-o. Enche teus olhos com a presença dele, com a vida dele até que ele possa descobrir em teu olhar que tu és seu irmão. Então tu o fizeste existir.Tu foste Deus para teu irmão” (O Sol nasce em Assis, Vozes 2000 p.127).

Releva dizer: somos seres duplos, grosseiros e obscenos, mas também podemos e devemos ser gentis e corteses. Destes precisamos muitos, nos dias atuais, em nosso país. Para isso importa educar o coração (sim, dar valor à educação) para que seja leve e totalmente distante de toda a grosseria e de toda a obscenidade, tão vigentes entre nós.

A SAIDA DA CRISE ESTÁ NO ALINHAMENTO AOS EUA?

O atual processo de globalização revela, a meu ver, duas tendências básicas: a globalização monopolar hegemonizada pelos EUA, respaldados pelas grandes corporações econômico-financeiras. É marcada por uma homogeneização de tudo. Dito numa linguagem pedestre, seria uma hamburguerização do mundo: o mesmo hambúrguer com a mesma formula, consumido nos USA, na Rússia, no Japão, na China e no Brasil.

A outra tendência é multipolar que prevê vários pólos de poder, com distintos centros decisórios mas todos dentro da mesma Casa Comum, una, complexa, doente e ameaçada de ruína. A China hegemoniza esta tendência.

Predomina a monopolar. O “America first” de Trump significa: “só a América”. Só ela, dizem, tem interesses globais e se arroga o direito de intervir lá onde esses interesses são ameaçados ou podem ser expandidos seja por guerras diretas ou delegadas, como Trump pretendia com o Brasil, face à crise na Venezuela, atropelando acordos e diretrizes internacionais se for necessário.

A estratégia dos EUA radicalizada depois do atentado às Torres Gêmeas, é garantir a hegemonia mundial, em primeiro lugar, pelos meios de destruição em massa (podem matar todo mundo) e depois pela economia capitalista e pela ideologia (Holywood desempenha grande função nisso) que é uma forma de guerra branda (guerra híbrida) mas efetiva por conquistar mentes e corações pela via simbólica e pelo imaginário, sob a pretensa bandeira da democracia e dos direitos humanos.

Mas o grande meio de imposição é pela economia de cariz capitalista neoliberal. Este tem que prevalecer em todo mundo (a China deixou-se tomar por ele para se fortalecer economicamente). Isso é feito pelas grandes corporações globalizadas e por seus aliados nacionais. Essa é grande arma, pois a outra, a bélica, funciona como dissuasão e um espantalho pois pode destruir a todos, inclusive quem a usa.

Quem ganhar a corrida da inovação tecnológica, especialmente, militar mas também econômica, detém a hegemonia mundial.

Que tem a ver tudo isso com a atual situação política e econômica do Brasil? Tem tudo a ver. Com o presidente Jair Bolsonaro, se fez uma opção clara pelo alinhamento irrestrito e sem contrapartida às estratégias de hegemonia mundial dos EUA.

Nos altos escalões militares e nas elites endinheiradas se faz o seguinte argumento: não temos chance nenhuma de ser uma grande nação, embora tenhamos todas as condições objetivas para isso. Chegamos atrasados e não participamos do pequeno grupo que decide os caminhos do mundo. Fomos colônias e nos é imposta uma recolonização para abastecer de commodities naturais os países avançados. É forçoso se incorporar ao mais forte, no caso, aos EUA, com sócios agregados com as vantagens econômicas concedidas ao seleto grupo transnacionaliizado que dá sustentação a esta opção.

As grandes maiorias pobres não contam. São zeros econômicos. Pouco produzem e consomem quase nada. Da dependência passam à precindência.

Qual a mudança que ocorreu no Brasil nos últimos anos? A alta cúpula do exército, os generais que têm tropa (estes são os que contam) teriam abraçado esta tese. Teriam deixado em segundo plano o projeto de nação autônoma. A segurança da qual são responsáveis seria garantida agora pelos EUA com seu sofiscado aparato militar e pelas mais de 800 bases militares espalhadas pelo mundo afora. Esta adesão implica também incorporar a economia de viés liberal (entre nós ultraliberal) e a democracia representativa, mesmo de baixa intensidade.

Com Bolsonaro. o Brasil foi ocupado pelos militares. O ex-capitão, eleito presidente, é a cabeça de ponta deste projeto, implantado pesadamente no Brasil. Para esta diligência faz-se necessário debilitar tudo aquilo que nos faz país-nação soberana: a indústria deve entrar num ritmo lento e ser substituída pelas importações, as instituições com sinais democráticos e nacionalistas, mantidas mas torná-las ineficientes, as universidades, desmontadas para dar lugar às privadas e associadas às grandes empresas, pois estas precisam de quadros formados nelas para poderem funcionar. O Estado será reduzido e as privatizações como o pré-sal ganham livre curso.

As pequenas brigas internas entre o astrólogo da Virgínia e os militares são irrelevantes. Ambos têm o mesmo projeto básico de adesão aos EUA e ao neoliberalismo mas com uma diferença. Os olavistas são toscos, rudes, verbalmente destemperados e até chulos. Os militares comparecem com ares de educação e de civilidade querendo inspirar confiança. Mas possuem o mesmo projeto de base que os outros. Resignados, admitem que no contexto da nova guerra fria entre EUA e China temos que optar: ou pelos EUA ou seremos engolidos pela China. Destarte perder-se-ia todo o impulso histórico de construção de uma nação soberana,uma verdadeira potência pacífica nos trópicos.

Estimo que existem, entre outras, duas vias principais a serem consideradas de enfrentamento a este equivocado dilema:

A via ecológica: todos estamos dentro do antropoceno, a nova era geológica na qual o ser humano está desestabilizando celeremente todo o sistema-vida e o sistema-Terra. Advertem-nos, porém, sábios e cientistas que se não mudarmos poderemos conhecer um desastre ecológico e social, capaz de destruir grande parte da biosfera e de nossa civilização. Assim o próprio sistema capitalista e sua cultura perderão suas bases de sustentação: a exploração dos seres humanos e a exploração ilimitada da natureza. Os sobreviventes teriam que pensar num plano Marshall global para resgatar o que restou da civilização e restaurar a vitalidade da Mãe Terra.

A via política: uma massiva manifestação popular, um tsunami de gente nas ruas, protestando e rejeitando esse modelo antipovo e antivida. Os generais se sentiriam acuados pelas acusações de falta de patriotismo e de traidores provocando uma divisão interna entre os que apoiam as ruas e os que ainda resistem. Os políticos lentamente adeririam pois não veriam outra alternativa. Desta forma seria possível surgir um movimento alternativo e contrário à ordem vigente.

Podemos imaginar muita violência em ambos os lados. Não seria descartada uma eventual intervenção norte-americana, já que seus interesses são globais, especialmente visando a Amazônia. Resta saber se a Rússia e especialmente a China tolerarão esta intervenção. O pior que nos poderia acontecer, seria uma espécie de Síria em nosso território. O cenário é sombrio mas não impossível pois é sabido que há falcões nos órgãos de segurança norte-americanos que não descartam essa possibilidade.

A nós cabe, de imediato, reforçar a via política com os riscos que implica. Teríamos, entretanto, perdido a oportunidade de ser uma grande nação que conta na decisão do futuro da Terra e da humanidade. Mais importante, porém, é apresentar uma alternativa viável de um outro tipo de Brasil, soberano, com democracia participativa, justo, aberto ao mundo e, dada a nossa incomensurável riqueza ecológica, disposto a ser a mesa posta para as fomes e sedes do mundo inteiro.

ECOLOGIA EM FRAGMENTOS: AS PARTES NO TODO

1. A irracionalidade de nosso estilo de viver

O modelo de sociedade e o sentido de vida que os seres humanos projetaram para si, pelo menos nos últimos 400 anos, estão em crise.

Este modelo nos fazia acreditar que o importante é acumular grande número de meios de vida, de riqueza material, de bens e serviços a fim de poder desfrutar a curta passagem por este planeta.

Para realizar este propósito nos ajudam a ciência que conhece os mecanismos da natureza e a técnica que faz intervenções nela para benefício humano. E procurou-se fazer isso com a máxima velocidade possível.

Portanto, busca-se o máximo de benefício com o mínimo de investimento e no tempo mais breve possível.

O ser humano, nesta prática cultural, se entende como um ser sobre as coisas, dispondo delas a seu bel prazer, jamais como alguém que está junto com as coisas, convivendo com elas como membro de uma comunidade maior, planetária e cósmica.

O efeito final e triste, somente agora visível de forma inegável é este, expresso na frase atribuída a Gandhi: “a Terra é suficiente para todos, mas não para os consumistas”.

Nosso modelo civilizatório é tão absurdo que se os benefícios acumulados pelos países ricos fossem generalizados aos demais países, precisaríamos outras quatro Terras iguais a essa que temos.

O que mostra a irracionalidade que este modo de viver implica. Por isso pede o Papa Francisco em sua encíclica “sobre o cuidado da Casa Comum”: uma radical conversão ecológica e um consumo sóbrio e solidário.

2. A natureza é mestra

Em momentos de crise civilizacional, como a nossa, é imperioso consultar a fonte originária de tudo: a natureza, a grande mestra. Que ela nos ensina?

Ela nos ensina que a lei básica da natureza, do universo e da vida não é a competição que divide e exclui, mas a cooperação que soma e inclui.

Todas as energias, todos os elementos, todos os seres vivos, desde as bactérias e os vírus até os seres mais complexos, somos todos inter-retro-relacionados e, por isso, interdependentes. Um coopera com o outro para viver.

Uma teia de conexões nos envolve por todos os lados, fazendo-nos seres cooperativos e solidários. Quer queiramos ou não, essa é a lei da natureza e do universo. Por causa desta teia de interdependências chegamos até aqui.

É essa soma de energias e de conexões que nos ajuda a sair das crises e a fundar novo ensaio civilizatório. Mas nos perguntamos: somos suficientemente sábios para enfrentar situações críticas e responder aos novos desafios?

3. Tudo está relacionado com tudo

A realidade que nos cerca e da qual somos parte, não deve ser pensada como uma máquina mas como um organismo vivo, não como constituída de partes estanques, mas como sistemas abertos, formando redes de relações.

Vigoram duas tendências básicas em cada ser e no inteiro universo: uma a de se auto-afirmar individualmente e outra a de se integrar num todo maior. Se não se auto-afirma corre o risco de desaparecer. Se não se integra num todo maior, corta a fonte de energia, se enfraquece e pode também desaparecer. Importa equilibrar estas duas tendências. Caso contrário caímos no individualismo mais feroz – a auto-afirmação – ou no coletivismo mais homogeneizador – a integração no todo.

Por isso temos sempre de ir e vir das partes para o todo, dos objetos para as redes, das estruturas para os processos, das posições para as relações.

A natureza é, pois, sempre co-criativa, co-participativa, ligada e re-ligada a tudo e a todos e principalmente à Fonte Originária de onde se originam todos os seres.

4.Desde o começo está presente o fim

O fim já está presente no começo. Quando os primeiros elementos materiais depois do big bang começaram a se constituir e a vibrar juntos aí já se anunciava um fim: o surgimento do universo uno e diverso, ordenado e caótico, o aparecimento da vida e o irromper da consciência.

Tudo se moveu e se interconectou para dar início à gestação de um céu futuro que começou já aqui em baixo, como uma sementinha, foi crescendo, crescendo até acabar de nascer na consumação dos tempos. Esse céu, desde o começo, é o próprio universo e a humanidade chegados à sua plenitude e consumação.

Não há céu sem Terra, nem Terra sem céu.

Se assim é, então, ao invés de falarmos em fim do mundo, deveríamos falar em um futuro do mundo, da Terra e da Humanidade que então serão o céu de todos e de tudo.

AMOR EM TEMPOS DE IRA E DE ÓDIO

Vivemos no Brasil bolsonariano e no mundo afora tempos de ira e de ódio, fruto do fundamentalismo e da intolerância como se viu em Siri Lanka onde centenas de cristãos foram assassinados no momento em que celebravam a vitória do amor sobre morte na festa de ressurreição.

Este cenário macabro nos faz renovar a esperança de que, apesar de tudo, o amor é mais forte do que a morte.

A palavra amor foi banalizada. É amor daqui é amor daí, amor em todos os anúncios que apelam mais para os bolsos do que para os corações. Temos que resgatar a sacralidade do amor. Não dispomos de um nome melhor ou maior para imaginar a Última Realidade, Deus, senão dizendo que ela é amor.

Precisamos inovar nosso discurso sobre o amor para que sua natureza e amplitude resplandeça e nos acalente. Para isso, importa incorporar as contribuições que nos vêm das várias ciências da Terra (Fritjof Capra), especialmente da biologia (Humberto Maturana) e dos estudos sobre o processo cosmogênico (Brian Swimme). Mais e mais fica claro que o amor é um dado objetivo da realidade global, um evento feliz da própria natureza da qual somos parte.

Dois movimentos, entre outros, presidem o processo cosmogênico e biogênico: a necessidade e a espontaneidade. A necessidade está em função da sobrevivência de cada ser; por isso um ajuda o outro, numa rede de relações includentes. A sinergia e a cooperação de todos com todos constituem as forças mais fundamentais do universo, especialmente, entre os seres orgânicos. É a dinâmica objetiva do próprio cosmos.

Junto com essa força de necessidade comparece também a espontaneidade. Seres se relacionam e interagem por pura gratuidade e alegria de conviver. Tal relação não responde a uma necessidade. Ela se instaura para criar laços novos, em razão de certa afinidade que emerge espontaneamente e que produz o deleite. É o universo do surpreendente, do fascínio, de algo imponderável. É o advento do amor.

Esse amor se dá desde os primeiríssimos elementos basilares, os quarks, que se relacionaram para além da necessidade, espontaneamente, atraídos uns pelos outros. Surge um mundo gratuito, não necessário mas possível, espontâneo e real.

Desta forma, irrompe a força do amor que perpassa todos os estágios da evolução e enlaça todos os seres dando-lhes estremecimento e beleza. Não há razão que os leve a se comporem em laços de espontaneidade e de liberdade. Fazem-no por puro prazer e por alegria de estarem juntos.

Trata-se do amor cósmico que realiza o que a mística sempre intuiu: vigência da pura gratuidade. Diz o místico Angelus Silesius: “A rosa não tem por quê. Ela floresce por florescer. Ela não cuida se a admiram ou não. Era floresce por florescer”.

Não dizemos que o sentido profundo da vida é simplesmente viver? Assim o amor floresce em nós como fruto de uma relação livre entre seres livres e com com todos os demais seres.

Mas como humanos e autoconscientes, podemos fazer do amor que pertence à natureza das coisas, um projeto pessoal e civilizatório: vive-lo conscientemente, criarmos as condições para que a amorização aconteça entre os seres inertes e vivos. Podemos nos enamorar de uma estrela distante e fazer uma história de afeto com ela.

O amor é urgente nos dias atuais onde a força do negativo, do anti-amor, parece prevalecer. Mais que perguntar quem pratica atos de terror é perguntar por que foram praticados? Seguramente o terror surgiu porque faltou o amor como relação que enlaça os seres humanos na bem-aventurada experiência de se abrir e acolher jovialmente um ao outro.

Digamo-lo com todas as palavras: o sistema mundial imperante não ama as pessoas. Ele ama bens materiais, ama a força de trabalho do operário, seus músculos, seu saber, sua produção artística e sua capacidade de consumo. Mas não ama gratuitamente as pessoas como pessoas.

Pregar o amor e gritar: “amemo-nos uns aos outros como nós mesmos nos amamos” é ser revolucionário. É ser absolutamente anti-cultura dominante.

Façamos do amor aquilo que o grande florentino, Dante Alignieri, testemunhava: “o amor que move o céu e todas as estrelas” e nós acrescentamos: o amor que move nossas vidas, amor que é o nome sacrossanto da Fonte Originária de todo o Ser, Deus.

Edição 147, Abril 2019

SÃO JORGE, OS POBRES MATAM TODOS DIAS UM DRAGÃO

Tempos atrás escrevi dois estudos sobre São Jorge, um histórico e outro interpretativo. A situação atual da maioria do povo empobrecido e humilhado tem que matar um dragão cada dia para poder sobreviver. Vale invocar a força e a coragem de São Jorge.Por isso atualizo o escrito anteriormente publicado e válido especialmente para o atual momento.

A história de São Jorge e o combate feroz com o dragão são dados de grande significação. Vamos tentar interpretar sua figura, o dragão e a sua luta. Veremos que tem a ver com a existência de cada ser humano, especialmente dos que precisam lutar muito para viver. Primeiramente, o dragão é dragão, portanto, uma serpente. Mas é apresentada alada, com enorme boca que emite fogo e fumaça e um cheiro mortífero. É um dragão simbólico.

No Ocidente representa o mal e o mundo ameaçador das sombras. No Oriente é positivo, símbolo nacional da China, senhor das águas e da fertilidade (long). Entre os aztecas era a serpente alada (Quezalcoatl), símbolo positivo de sua cultura. Para nós ocidentais o dragão é sempre terrível e representa a ameaça à vida ou as dificuldades duras da sobrevivência. Os pobres dizem: “tenho que matar um dragão por dia tal é a luta pela sobrevivência”.

Mas o dragão, como o mostrou a tradição psicanalítica de C. G. Jung com Erich Neumann, James Hillmann. Etienne Perrot e outros, representa um dos arquétipos (elementos estruturais do inconsciente coletivo ou imagens primordiais que ordenam a psique) mais ancestrais e transculturais da humanidade.

Junto com o dragão sempre vem o cavaleiro heroico que com ele se confronta numa luta feroz. Que significam essas duas figuras? À luz de categorias de C. G. Jung e discípulos, especialmente de Erich Neumann que estudou especificamente este arquétipo (A história da origem da consciência, Cultrix 1990) e da psicoterapia existencial-humanística de Kirk J. Schneider (O eu paradoxal, Vozes 1993) procuremos entender o que está em jogo nesse confronto. Ele ensina e nos desafia.

O caminho da evolução leva a humanidade do inconsciente ao consciente, da fusão cósmica com o Todo (Uroboros) para a emergência da autonomia do ego. Essa passagem é dramática, nunca totalmente realizada; por isso, o ego deve continuamente retomá-la caso queira gozar de liberdade e se impor na vida.

Mas importa reconhecer que o dragão amedrontador e o cavaleiro heroico são duas dimensões do mesmo ser humano, de cada um de nós. O dragão em nós é o nosso universo ancestral, obscuro, nossas sombras de onde imergimos para a luz da razão e da independência do ego. Por isso que em algumas iconografias, especialmente uma da Catalunha (é seu patrono) o dragão aparece envolvendo todo o corpo do cavaleiro São Jorge. Numa gravura de Rogério Fernandes o dragão aparece envolvendo o corpo do Santo, que o segura pelo braço e tendo o rosto, nada ameaçador na altura do de São Jorge. É um dragão humanizado formando uma unidade entre o ser humano e São Jorge. Noutras (no Google há 25 páginas de gravuras de São Jorge com o dragão) o dragão aparece como um animal domesticado sobre o qual São Jorge de pé o conduz, sereno, não com a lança mas com um bastão.

A atividade do herói, no caso de São Jorge, na sua luta com o dragão mostra a força do ego, da consciência, corajoso, iluminado e que se firma e conquista autonomia, mas sempre em tensão com a dimensão escura do dragão. Eles convivem mas o dragão não consegue dominar o ego.

Diz o psicanalista Neumann:”A atividade da consciência é heroica quando o ego assume e realiza por si mesmo a luta arquetípica com o dragão do inconsciente, levando-a a uma síntese bem sucedida”(Op.cit. p.244), A pessoa que fez esta travessia não renega o dragão, mas o mantem domesticado e integrado como seu lado de sombra.

Por esta razão, em muitas narrativas, São Jorge não mata o dragão. Apenas o domestica e o reinsere no seu lugar, deixando de ser ameaçador. Ai surge a síntese feliz dos opostos; o eu paradoxal encontrou seu equilíbrio pois alcançou a harmonização do ego com o dragão, do consciente com o inconsciente, da luz com a sombra, da razão com a paixão, do racional com o simbólico, da ciência com a arte e com a religião.

A confrontação com as oposições e a busca da síntese constitui a característica de personalidades amadurecidas, que integraram a dimensão de sombra e de luz. Assim o vemos em Buda, Francisco de Assis, Jesus, em Gandhi, em Luther King e no Papa Francisco.

Os cariocas tem grande veneração por São Jorge tão forte quanto a de São Sebastião, patrono oficial da cidade. Mas este é um guerreiro, cheio de flechas, portanto “vencido”.Por isso há um movimento para fazê-lo o segundo patrono do Rio de Janeiro. O povo sente necessidades de um santo guerreiro corajoso “vencedor” das adversidades. São Jorge representa o santo ideal. Numa famosa novela “Salve Jorge” ele é o herói que salva as mulheres traficadas contra o dragão do tráfico internacional de mulheres.

Por certo, aqueles que veneram São Jorge diante do dragão não saibam nada disso. Não importa. Seu inconsciente sabe; ele ativa e realiza neles sua obra: a vontade de lutar, de se afirmar como egos autónomos que enfrentam e integram as dificuldades (os dragões) dentro de um projeto positivo de vida (São Jorge, herói vitorioso). E saem fortalecidos para a luta da vida.

A RESSURREIÇÃO DE UM TORTURADO E CRUCIFICADO: JESUS DE NAZARÉ

N.E. Infelizmente, este Texto do meu amigo e irmão L. Boff é retintamente cristão, por isso, anti-Jesus Nazaré, o filho de Maria. Publica-se, porque se trata de um colaborador gratuito do JF, desde o n.º 1. Mas cumpre-me, como Editor e Director, deixar aqui o alerta. Porque todo o cristianismo mata. E a prova é que até Jesus Nazaré ele matou e continua a matar, ao retirá-lo da História, como este Texto também faz, na peugada de S. Paulo, não de Jesus, o filho de Maria, que S. Paulo nem sequer conheceu!

A páscoa da ressurreição deste ano celebra-se no contexto de um país onde quase toda a população está sendo sufocada por um governo de extrema-direita que tem um projeto político-social radicalmente ultra-neoliberal. Ele se mostra sem piedade e sem coração pois desmonta os avanços e os direitos de milhões de trabalhadores e de pessoas de outras categoriais sociais. Coloca à venda bens naturais pertencentes à soberania do país. Aceita a recolonização do Brasil no intuito indisfarçável de repassar a nossa riqueza para as mãos de pequenos e poderosos grupos nacionais e internacionais. Não há qualquer sentido de solidariedade e de empatia para com os mais pobres e com aqueles que vivem ameaçados de violência e até de morte pelo facto de serem negros e negras, de habitarem em favelas, indígenas, quilombolas ou de outra condição sexual.

Andando por este país e um pouco pelo mundo, ouço, de muitas partes, gemidos de sofrimento e de indignação. Então, parece-me ouvir as palavras sagradas:”Eu vi a opressão de meu povo, ouvi os gritos de aflição diante dos opressores e tomei conhecimento de seus sofrimentos. Desci pra libertá-los e fazê-los sair desse país para uma terra boa e espaçosa” (Ex 3,7-8).

Deus deixa sua transcendência (“Deus acima de todos?”), desce e se coloca no meio dos oprimidos para ajudá-los a fazer a passagem (pessach=páscoa) da opressão para a libertação.

Vale enfatizar o facto de que há algo de assustador e de perverso em curso: um chefe de estado exalta torturadores, elogia ditadores sanguinários e considera um mero acidente o fuzilamento com 80 tiros, por militares, de um negro, pai de família. E ainda propõe o perdão pelos que promoveram o holocausto de seis milhões de judeus. Como falar de ressurreição num contexto de alguém que prega uma perene “sexta-feira santa” de violência? Ele tem continuamente o nome de Deus e de Jesus em seus lábios e esquece que somos herdeiros de um prisioneiro político, caluniado, perseguido, torturado e crucificado: Jesus de Nazaré. O que faz e diz é um escárnio, agravado pelo apoio de pastores de igrejas neo-pentecostais, cuja mensagem pouco ou nada tem a ver com o evangelho de Jesus.

Apesar desta infâmia, queremos celebrar a páscoa da ressureição que é a festa da vida e da floração como a do semi-árido nordestino. Após algumas chuvas, tudo ressuscita e reverdesse.

Os judeus, escravizados no Egito fizeram a experiência de uma travessia, de um êxodo da servidão para a liberdade em direção de “uma terra boa e vasta onde corre leite e mel”(símbolos de justiça e de paz: Ex 3,8). A “Pessach” judaica (Páscoa) celebra a libertação de todo um povo e não apenas de indivíduos.

A Páscoa cristã se agrega à Pessach judaica, prolongando-a. Celebra a libertação da inteira humanidade pela entrega de Jesus, aceitando a injusta condenação à morte de cruz, imposta, não pelo Pai de bondade, mas como consequência de sua prática libertadora face aos desvalidos de seu tempo e por apresentar uma outra visão de Deus-Pai, bom e misericordioso e não mais um Deus castigador com normas e leis severas, facto inaceitável pela ortodoxia da época. Ele morreu em solidariedade para com todos os humanos, abrindo-lhes o acesso ao Deus de amor e de misericórdia.

A Páscoa cristã celebra a ressurreição de um torturado e crucificado. Ele fez a passagem e o êxodo da morte para a vida. Não voltou para a vida que tinha antes, limitada e mortal como a nossa. Mas nele irrompeu um outro tipo de vida não mais submetida à morte e que representa a realização de todas as potencialidades presentes nela (e em nós). Aquele ser que vinha nascendo lentamente dentro do processo da cosmogénese e da antropogênese, alcançou por sua ressurreição tal plenitude que, enfim, acabou de nascer. Como disse Pierre Teilhard de Chardin, ele, plenamente realizado, explodiu e implodiu para dentro de Deus. São Paulo entre perplexo e encantado o chama de “novissimus Adam” (1 Cor 15,45), o novo Adão, a nova humanidade. Se o Messias ressuscitou, toda a sua comunidade, que somos todos nós, até cosmos do qual somos parte, participamos desse evento bem-aventurado. Ele é o “primeiro entre muitos irmãos e irmãs ( Rom 8, 29). Nós seguiremos a ele.

Apesar da “sexta-feira santa” do ódio e da exaltação da violência, a ressurreição nos infunde a esperança de que faremos a passagem (páscoa) desta situação sinistra para o resgate de nosso país, onde não haverá mais ninguém que ousará favorecer a cultura da violência nem exaltará a tortura, nem se mostrará insensível ao holocausto de milhões de pessoas. Aleluia. Feliz Páscoa a todos.

A NORDESTINAÇÃO DA VIOLÊNCIA NO BRASIL?

É por todos conhecida a violência ocorrida em Natal-RN em 2018 e principalmente no Ceará em 2019 onde pelo menos 50 dos 184 municípios foram vítimas de grande violência nas cidades e também dentro das unidades prisionais. Fortaleza é a sétima cidade mais violenta do mundo, com o maior índice de homicídios de adolescentes do país.

A violência no Brasil, é estrutural, consequência da nefasta injustiça social (neutramente dita desiguldade) que perdura já há séculos, herança permanente da colonização, da escravidão e do domínio pelas classes oligárquicas sobre o Estado e a sociedade. Mas ganhou um caráter exponencial no Ceará. Fortaleza se tornou um lugar privilegiado para o mega-negócio da droga e de crimes associados a ela. Muitos voos internacionais saem de lá e facilitam o envio da droga para o exterior.

Em razão da maior facilidade nos negócios, se deslocaram para o Ceará as principais facções do crime organizado do Sul, como o CV (Comando Vermelho), o PCC (Primeiro Comando da Capital), agregando-se ao GDE (Guardiões do Estado).

Sob a coordenação do Conselho Estadual de Defesa dos Direitos Humanos (CEDH) do governo do Estado, 17 entidades, como a Universidade Federal do Ceará, a Defensoria Pública do Estado, a Pastoral Carcerária, entre outras, elaboraram um minucioso “Relatório de Sistematização de Denúncias de Violações de Direitos no Sistema Penitenciário do Ceará, janeiro e fevererio de 2019”.

O relatório, em função da objetividade, documenta toda a violência praticada nas muitas cidades cearences, como o incêndio de ónibus, ataques a agências bancárias, a escolas, a prédios públicos, fábricas, estações de eletricidade e até de um viaduto entre outros tantos atentados violentos.

Qual a razão deste recrudescimento da violência? Constatava-se o colapso do sistema prisional do Ceará, pela superlotação, pela insalubridade, pela violação dos direitos humanos e outras insuficiências graves. Tal situação provocou revoltas dos presos com repressão dos agentes do Estado e mortes.

Para controlar a situação foi convocado um gestor, Luís Mauro Albuquerque, feito Secretário de Administração Penitenciária que se celebrizou por “pacificar” o Rio Grande do Norte com a adoção de procedimentos, rotinas e práticas que configuram tratamento desumano e degradante e mesmo torturas nas unidades prisionais. Chegou a sustentar publicamente que os “agentes penitenciários devem lesionar dolosamente os dedos de presos…para não terem mais força para pegar uma faca e empurrar num agente ou jogarem uma pedra”. Ele impôs essa doutrina e os procedimentos que a incrementam. Tal decisão provocou a revolta das facções criminosas. Elas fizeram ad hoc um pacto para juntas, esquecendo por um tempo as diferenças, atacarem o Estado.

Por aí se entende a violência de seus comparsas fora da prisão, atuando nas cidades contra bens públicos, numa verdadeira guerra contra o Estado.

A resposta do Estado veio mediante a aplicação da doutrina e dos procedimentos de Mauro Albuquerque. O relatório do Conselho de Defesa dos Direitos Humanos do Estado relata, por testemunhos das vítimas em suas audiências como funcionavam “os procedimentos”: retirada de todas as tomadas elétricas, dos colchões, obrigando os detentos dormirem no chão, realização desses “procedimentos” durante todo o dia e até à noite, detentos sendo obrigados a ficar longos períodos sentados com as mãos na cabeça, até desnudados, expostos diante de agentes mulheres e lesionamento dos dedos e outras torturas.

Como forma de desmantelar as facções, o Estado decidiu deslocar os detentos das várias prisões, sem aviso às famílias, sem poderem levar nada, nem sequer medicamentos, para unidades prisionais superlotadas de Fortaleza. Os parentes se desesperaram sem saber onde estavam seus familiares e sem poder visitá-los.

Seria longo resumir o relatório referido, com suas 15 recomendações. Fique claro: o Estado deve retomar o controle das unidades prisionais mas não de modo criminoso, violando os direitos humanos. O método de Mauro Albuquerque implica tal violação e está sendo levado, ao que parece, a outros estados. Aqui se comprova a tese do sociólogo Jessé Souza: “não basta marginalizar e punir, deve-se humilhar e ferir a dignidade”. O que se fez e se está fazendo com os milhões de excluídos do pacto social, sem políticas públicas para eles e relegados à sua condição sub-humana.

Devemos estar atentos e rejeitar a “doutrina e o procedimento” de Mauro Albuquerque. Essa estratégia poderia ser generalizada como política oficial e feita rotina em todas a prisões do país. Então teríamos a legitimação oficial da violência já existente contra a pessoa humana que, mesmo detida, jamais perde a sua irrenunciável dignidade. Assumiríamos a barbárie como política oficial. Significaria uma total regressão civilizatória. Não nos é lícito, nos dias de hoje, chegar a esta decadência.

COMEMORAR 1964?

Os 55 anos do golpe militar, pela violência que implicou, agora devidamente tirada a limpo pela Comissão Nacional da Verdade, não pode deixar nenhum cidadão consciente na indiferência. Importa assinalar claramente que o assalto ao poder foi um crime contra a Constituição e uma usurpação da soberania popular, fonte do direito num Estado democrático.

O primeiro Ato Institucional de 9/4/1964 alijou este princípio da soberania popular ao declarar que “a revolução vitoriosa como Poder Constituinte se legitima por si mesma”. Nenhum poder se legitima por si mesmo; só o fazem ditadores que pisoteiam qualquer direito. O golpe militar configurou uma ocupação violenta de todos os aparelhos de Estado para, a partir deles, montar uma ordem regida por atos institucionais, pela repressão e pelo Estado de terror.

Bastava a suspeita de alguém ser subversivo para ser tratado como tal. Mesmo detidos e sequestrados por engano como inocentes camponeses, para logo serem seviciados e torturados. Muitos não resistiram e sua morte equivale a um assassinato. Não devemos deixar passar ao largo, os esquecidos dos esquecidos que foram os 246 camponeses mortos ou desaparecidos entre 1964-1979. E agora está sendo descoberta a eliminação de muitos indígenas, tidos como empecilho ao crescimento econômico. Sobre alguns deles foram lançadas até bombas de napalm.

O que os militares cometeram foi um crime lesa-pátria. Alegam que se tratava de um estado de guerra, um lado querendo impor o comunismo e o outro defendendo a ordem democrática. Esta alegação não se sustenta. O comunismo nunca representou entre nós uma ameaça real pois qualquer manifestação neste sentido era brutalmente reprimida, não sem o apoio da CIA dos EUA.

Na histeria coletiva do tempo da guerra-fria, todos os que queriam reformas na perspectiva dos historicamente condenados e ofendidos – as grandes maiorias operárias e camponesas – eram logo taxados de comunistas e de marxistas, como ocorre atualmente no atual regime no qual as palavras “comunista” e “cultura marxista” são usados como termos de acusão e vitupério, como se estivéssemos ainda no tempo da guerra-=fria de 30 anso atrás.

Bispos como o insuspeito Dom Helder Câmara, sacerdotes trabalhando nas favelas, religiosas nos fundões de nosso país, leigos e leigas, defensores dos ideais democráticos e dos direitos humanos, intelectuais notáveis foram submetidos a rigorosa vigilância Contra eles não cabia apenas a vigilância. Muitos sofreram a perseguição, a prisão, o interrogatório aviltante, o pau-de-arara feroz, os afogamentos desesperadores. Os alegados “suicídios” camuflavam apenas o puro e simples assassinato.

Em nome do combate ao perigo comunista, se assumiu a prática comunista-estalinista da brutalização dos detidos. Em alguns casos se incorporou o método nazista de incinerar cadáveres como admitiu o ex-agente do Dops de São Paulo, Cláudio Guerra.

Causa espanto e constitui até um problema filosófico a falta de remorsos que o coronel reformado Paulo Magalhães há tempos, manifestou à Comissão Nacional da Verdade de ter atuado na Casa da Morte de Petrópolis, de ter torturado, assassinado, mutilado cadáveres e ter ocultado o corpo do deputado Rubens Paiva.

Rudof Höss, comandante do campo de extermínio nazista em Auschwitz que segundo seus próprios cálculos em sua autobiografia (Kommandant in Auschwitz,1961) mandou para as câmaras de gás cerca de um milhão de judeus, também não mostrava nenhum arrependimento. Divertia-se atirando ao leu sobre os prisioneiros e chorava com uma criança ao chegar em casa ao saber que seu passarinho preferido havia morrido. É o mistério da iniquidade.

O Estado ditatorial militar, por mais obras que tenha realizado ( “o milagre econômico” foi apropriado apenas por 10% da população, pelos mais ricos, no quadro de um espantoso arrocho salarial), fez regredir política e culturalmente o Brasil. Expulsou ou obrigou ao exílio nossas mais brilhantes inteligências e nossos artistas mais criativos. Afogou lideranças políticas e ensejou o surgimento de súcubos que, oportunistas e destituídos de ética e de brasilidade, se venderam ao poder ditatorial em troca benesses que vão de estações de rádio a canais de televisão e de outros benefícios sociais. E muitos deles estão ai, politicamente ativos e ocupando até altos cargos da administração do Estado “democrático”.

Os que deram o golpe de Estado deveriam ser responsabilizados moralmente por esse crime coletivo contra o povo brasileiro, como vários juristas já o tem pedido. Os militares se imaginam que foram eles os principais protagonistas desta façanha nada gloriosa como ainda pensa o atual presidente Jair Bolsonaro. Na sua indigência analítica, mal suspeitam que foram, de fato, usados por forças muito maiores que as deles. Disse-o acertadamente Tarso Genro, ex-governador do Rio Grande do Sul, numa entrevista ao Boletim Carta Maior (30/3/2014): “O poder não foi apropriado diretamente pelos militares para eles próprios. Foi um projeto político dos setores mais conservadores e reacionários (burguesia nacional e os latifundiários) que tiveram nas forças armadas um apoio e um protagonismo muito grande”.

René Armand Dreifuss escreveu em 1980 sua tese de doutorado na Universidade de Glasgow com o título: 1964: A conquista do Estado, ação política, poder e golpe de classe (Vozes 1981). Trata-se de um livro com 814 páginas das quais 326 são cópias de documentos originais. Por estes documentos fica demonstrado: o que houve no Brasil não foi um golpe militar, mas um golpe de classe com uso da força militar.

A partir dos anos 60 do século passado, se formou o complexo IPES/IBAD/GLC. Explico: o Instituto de Pesquisas e Estudos Sociais (IPES), o Instituto Brasileiro de Ação Democrática (IBAD) e o Grupo de Levantamento de Conjuntura (GLC). Compunham uma rede nacional que disseminava ideias golpistas, composta por grandes empresários multinacionais, nacionais, alguns generais, banqueiros, órgãos de imprensa, jornalistas, intelectuais, a maioria listados no livro de Dreifuss. O que os unificava, diz o autor “eram suas relações econômicas multinacionais e associadas, o seu posicionamento anticomunista e a sua ambição de readequar e reformular o Estado”(p.163) para que fosse funcional a seus interesses corporativos. O inspirador deste grupo foi o maquiavélico General Golbery de Couto e Silva que já em “em 1962 preparava um trabalho estratégico sobre o assalto ao poder”(p.186).

A conspiração pois estava em marcha, há bastante tempo. Aproveitando-se da confusão política criada ao redor da renúncia do Presidente Jânio Quadros e da obstinada oposição ao Presidente João Goulart, que propunha reformas de base e principalmente a reforma agrária, e por isso, tido como o portador do projeto comunista, este grupo viu a ocasião apropriada para realizar seu projeto. Chamou os militares para darem o golpe e tomarem de assalto o Estado. Foi, portanto, um golpe da classe dominante, nacional e multinacional, usando o poder militar.

Conclui Dreifuss: “O ocorrido em 31 de março de 1964 não foi um mero golpe militar; foi um movimento civil-militar; o complexo IPES/IBAD e oficiais da ESG (Escola Superior de Guerra) organizaram a tomada do poder do aparelho de Estado”(p. 397).

Especificamente afirma: ”A história do bloco de poder multinacional e associados começou a 1º de abril de 1964, quando os novos interesses realmente tornaram-se interesses do Estado, readequando o regime e o sistema político e reformulando a economia a serviço de seus objetivos”(p.489). Todo o aparato de controle e repressão era acionado em nome da Segurança Nacional que, na verdade, significava a Segurança do Capital.

O grande golpe de misericórdia ao regime ditatorial foi a publicação, patrocinada pelo Cardeal de São Pulo, Dom Paulo Evaristo Arns, do livro Brasil Nunca mais (1984) Foram utilizados materiais de 770 processos militares completos com um volume de mais de um milhão de páginas. Ai, em fontes do próprio sistema, apareciam as barbaridades cometidas nos porões da ditadura.

Os militares inteligentes e nacionalistas que existem hoje em dia, deveriam dar-se conta de como foram usados por aquelas elites oligárquicas e antipopulares que não buscavam realizar os interesses gerais do Brasil mas sim, alimentar sua voracidade particular de acumulação, sob a proteção do regime autoritário dos militares.

A Comissão Nacional da Verdade prestou um serviço esclarecedor ao país ao trazer à luz toda esta trama. Ela simplesmente está cumprindo sua missão de ser Comissão da Verdade. Não apenas da verdade de fatos individualizados de violência aos direitos humanos, mas da verdade do fato maior da dominação de uma classe poderosa, (anti)nacional, associada à multinacional, para, sob a égide do poder discricionário dos militares, tranquilamente, realizar seus objetivos corporativos e excludentes. Isso nos custou 21 anos de humilhação, de privação da liberdade, perpetrou assassinatos e desaparecimentos e impôs um oneroso padecimento coletivo. Esta classe está aí ativa, atuou fortemente no impeachment da Presidenta Dilma Rousseff e foi um esteio fundamental na vitória de Jair Bolsonaro.

Por fim, cabe ouvir as palavras da advogada Rosa Cardoso, advogada e defensora da prisioneira política Dilma Rousseff e hoje integrante da Comissão Nacional da Verdade numa entrevista ao Boletim Carta Maior de 20/02/2014: ”Primeiro quero dizer que até hoje as Forças Armadas devem um pedido de perdão à sociedade brasileira, com o que estariam assumindo uma posição civilizada e democrática, que é, afinal de contas, o que se espera dos militares no século 21. Lamentavelmente, até agora, não recebemos nenhum sinal, nenhuma mensagem, que nos indique que haja algum desejo, por parte dos militares, de pedir desculpas e de fazer uma autocrítica política sobre seu comportamento”.

Esta dívida eles a têm para com todo o povo brasileiro. E deverão um dia saldá-la. Assistimos, envergonhados, no dia 31 de março de 2019, usando os serviços oficiais do Estado, a exibição de um video, ordenado pelo atual Presidente Bolsonaro, exaltando o golpe de 1964. Antes havia baixado ordem que nos quarteis se celebrasse esse fato, tido pelos historiadores, como hediondo, o golpe de 1964.

O dia primeiro de abril de 2019, 55 anos do golpe civil-militar, é um dia de pranto e de luto pelas vítimas da repressão mas também dia de ânimo porque a truculência não pode sufocar o sentimento de dignidade nem abater os ideais democráticos que se firmam mais e mais em nossa consciência nacional.

Infelizmente ascendeu à Presidência em 2019 o ex-capitão Jair Bolsonaro. Ele desavergonhadamente exalta a memória do terrível torturador Ustra, nos USA dedica tempo para visitar a CIA, agência de informação que tantos golpes orquestrou nos anos 60 e posteriores, na América Latina, no Chile, para espanto de toda sociedade chilena e do próprio presidente Piñera saúda o ditador Pinochet e em Israel de Netanhiau apoia o expansionismo israelense contra a população palestina. Esta figura atropela a Constituição, usa as mídias digitais para difundir falsas notícias, para suscitar ódio na sociedade, desrespeitando abertamente as leis. Como asseverou um corajoso magistrado do Rio de Janeiro Rubens R .R. Casara, vivemos num “Estado pós-democrático” e num “Estado sem lei” (títulos de dois livros seus, de 2018 e 2019).

Estamos na iminência de uma nova tomada do poder de Estado por forças militares, dada a degradação da política oficial, inerte, inoperante e totalmente confusa. Talvez nem quereriam assumir um Estado falido, mas as circunstâncias dramáticas da desorganização social, da entrega de bens comuns sociais que fundam a soberania, a grupos estrangeiros, da violência disseminada em toda a sociedade, se sintam forçados a isso.

Ninguém sabe para onde estamos indo. Parece que estamos num voo cego e sem rumo. Mas a nossa crença é que o Brasil é maior que sua atual crise. Tiraremos duras lições dela mas sairemos mais maduros, democráticos e amantes desta porção ridente e maravilhosa do planeta Terra que é o Brasil.

* Dedico este texto ao meu colega de seminário Arno Preis, cheio de fome de justiça e de liberdade, assassinado em Paraiso do Norte- GO no dia 15/2/1972

Edição 146, Março 2019

A BLASFÉMIA DE BOLSONARO

Não queria ter escrito este artigo. Mas a aguda crise política atual e o abuso que se faz do nome de Deus provocam a função pública da teologia. Como qualquer outro saber, ela possui também a sua responsabilidade social. Há momentos em que o teólogo deve descer de sua cátedra e dizer uma palavra no campo do político. Isso implica denunciar abusos e anunciar os bons usos, por mais que esta atitude possa ser incompreendida por alguns grupos ou tida como partidista, o que não é.

Sinto-me, humildemente, na tradição daqueles bispos proféticos como Dom Helder Câmara, dos Cardeais Dom Paulo Evaristo Arns (lembremos o livro que ajudou a derrocar a ditadura “Brasil Nunca Mais”) e de Dom Aloysio Lorscheider, do bispo Dom Waldir Calheiros e de outros que, nos tempos sombrios da ditadura militar de 1964, tiveram a coragem de erguer a sua voz em defesa dos direitos humanos, contra os desaparecimentos e as torturas feitas pelos agentes do Estado.

Vivemos atualmente num país dilacerado por ódios viscerais, por acusações de uns contra os outros, com palavras de baixíssimo calão e por notícias falsas (fake news), produzidas até pela autoridade máxima do país, o atual presidente. Com isso ele mostra a falta de compostura em seu alto cargo e das consequências desastrosas de suas intervenções, além dos despropósitos que profere aqui e no exterior.

Seu lema de campanha era e continua sendo “Deus acima de todos e o Brasil acima de tudo”. Precisamos denunciar a utilização que faz do nome de Deus. O segundo mandamento divino é claro de “não usar o santo nome de Deus em vão”. Só que aqui o uso do nome de Deus não é apenas um abuso mas representa uma verdadeira blasfêmia. Por que?

Porque não há como combinar Deus com ódio, com elogio à tortura e a torturadores e com as ameaças a seus opositores como fazem Bolsonaro e seus filhos. Nos textos sagrados judaico-cristãos, Deus revela sua natureza como “amor” e como “misericórdia”. O “bolsonarismo” conduz uma política como confrontação com os opositores, sem diálogo com o Congresso, política entendida como um conflito, de viés fascista. Isso não tem nada a ver com o Deus-amor e o Deus-misericórdia. Consequentemente propaga e legitima, a partir de cima, uma verdadeira cultura da violência, permitindo que cada cidadão possa possuir até quatro armas. A arma não é um brinquedo para o jardim a infância mas um instrumento para matar ou se defender mutilando ou matando o outro.

Ele se diz religioso, mas é de uma religiosidade rancorosa; ele comparece despojado de sacralidade e com um perturbador vazio espiritual, sem qualquer sentido de compromisso com a vida da natureza e com a vida humana, especialmente daqueles que menos vida têm. Com propriedade afirma a miúdo o Papa Francisco: prefere um ateu de boa vontade e ético que um cristão hipócrita que não ama seu próximo, nem tem empatia por ele, nem cultiva valores humanos.

Cito um texto de um dos maiores teólogos do século passado, no fim da vida, feito Cardeal, o jesuíta francês Henri De Lubac: “Se eu falto ao amor ou se falto à justiça, afasto-me infalivelmente de Vós, meu Deus, e meu culto não é mais que idolatria. Para crer em Vós devo crer no amor e na justiça. Vale mil vezes mais crer nessas coisas que pronunciar o Vosso nome. Fora delas é impossível que eu Vos encontre. Aqueles que tomam por guia – o amor e a justiça – estão sobre o caminho que os conduz a Vós”(Sur les chemins de Dieu, Aubier 1956, p.125)

Bolsonaro, seu clã e seguidores (nem todos) não se pautam pelo amor nem prezam a justiça. Por isso estão longe do “milieu divin”(T.de Chardin) e seu caminho não conduz a Deus. Por mais que pastores neo-pentecostais veem nele um enviado de Deus, não muda em nada a atitude do presidente, ao contrário agrava ainda mais a ofensa ao santo nome de Deus especialmente ao postar na internet um youtub pornográfico contra o carnaval.

Que Deus é esse que o leva a tirar direitos dos pobres, a privilegiar as classes abastadas, a humilhar os idosos, a rebaixar as mulheres e a menosprezar os camponeses, sem perspectiva de uma aposentadoria ainda em vida?

O projeto da Previdência cria profundas desigualdades sociais, ainda com a desfaçatez de dizer que está criando igualdade. Desigualdade é um conceito analítico neutro. Eticamente significa injustiça social. Teologicamente, pecado social que nega o desígnio de Deus de todos numa grande comensalidade fraternal.

O economista francês Thomas Pikitty, famoso por seu livro O Capital no século XXI (Intrínseca 2014), escreveu também um inteiro livro sobre A economia da desigualdade (Intriseca 2015). O simples facto, segundo ele, de que cerca de 1% de multibilhardários controlarem grande parte das rendas dos povos e no Brasil, segundo o especialista no ramo, Márcio Pochmann, os seis maiores bilionários terem a mesma riqueza que 100 milhões de brasileiros mais pobres (JB 25/9/2017), dão mostras de nossa injustiça social.

Nossa esperança é de que o Brasil é maior que a irracionalidade reinante e que sairemos melhores da atual crise.

PARTE DO BRASIL SERIA COMPOSTA DE 'BURROS TRÁGICOS'

Num dos seus escritos perguntava F. Nietzsche:”Pode um burro ser trágico? Pode na medida em que sucumbe ao peso de uma carga que não pode carregar, nem pode livrar-se dela”.

Há uma boa parte de nossa população que seria de “burros trágicos” num duplo sentido da palavra: Num primeiro sentido, “burro trágico”é aquele que facilmente se deixa enganar por candidatos que suscitam falsas promessas, com slogans apelativos meramente propagandísticos, como “Deus acima de tudo e o Brasil acima de todos”(lema nazista-“Deutschland über alles“), “fora PT”, “combate à corrupção”, “resgate dos valores tradicionais” “escola sem partido” contra ”a ideologia de género“ “combate ao comunismo”, “contra “a cultura marxista”. Estas duas últimas bandeiras são de uma “burrice trágica”e palmar, num tempo que nem mais existe comunismo e que ninguém sabe o que significa exatamente “cultura marxista”.

Estes que gritam estas consignas e que se proclamam “gente de bem”, são os mesmos que mentem descaradamente a começar pelo atual capitão-Presidente, por sua “famiglia”, por aqueles que disseminam conscientemente fake news, ódios, raivas fenomenais, injúrias de todo tipo, palavrões que nem seus familiares poderiam ouvir e que mandam para o inferno, com complacência, para Cuba, Coreia do Norte ou para Venezuela os que pensam diferente.

Curiosamente ninguém os manda para China, onde de facto vigora o comunismo-maoismo porque sabem que lá o comunismo funciona pois produziu a maior economia do mundo e que pode enfrentar militarmente a maior potência nuclear, os USA.

Esse primeiro tipo de “burro trágico” seria fruto da ignorância, da falta de informação e da maldade contra quem pensa diferente.

Existe um segundo tipo de “burros trágicos”: aqueles que seriam consequência de uma estratégia política de criação de “burros trágicos”, voluntariamente mantidos analfabetos, para melhor manipulá-los e terem sua base eleitoral cativa. Fazem-nos crédulos e seguidores de um “mito” inventado e inflado sem qualquer conteúdo digno de “um mito”.

Essa classe, dos endinheirados, criadora de “burros trágicos”, nem toda, graças a Deus, tem pavor de alguém que saiu de condição da “burrice trágica” e chegou à cidadania, desenvolver espírito critico e reclamar seus direitos.

O atual governo somente ganhou a maioria de votos porque grande parte dos eleitores foram mentidos na condição de “burrice trágica”. Foi negada a eles a verdadeira intenção escondida: de implantar um ultra-liberalismo à la antiga, de diminuir o salário mínimo, de cortar direitos sociais, para muitos, da bolsa-família, de modificar a legislação trabalhista para favorecer as empresas, de liquidar a farmácia popular, de diminuir os vários acessos dos pobres ao ensino superior e, acima de tudo, da profunda modificação do regime das aposentadorias. Se tivessem revelado esta intenção jamais teriam ganho a eleição. Por isso, ela resulta espúria, mesmo feita no rito democrático. Escandalosamente, assim como se fez com o Crucificado, tomaram as vestes nacionais e sortearam-nas entre si.

Não há como não reconhecer que alguns ministros seriam de uma “burrice trágica” e supina como a Ministra da Família, da Mulher e dos Direitos Humanos, o Ministro da Educação que sequer domina nossa língua, pois é um imigrado colombiano, o ministro do Meio Ambiente que não conhecia a figura e a relevância de Chico Mendes e o Ministro das Relações Exteriores, no qual a “burrice trágica” alcançaria sua quintessência.

Por que chegamos a este ponto tão baixo em nossa história? Celso Furtado morreu carregando esta interrogação:”por que o Brasil, sendo um país tão rico, seja tão atrasado e tenha tantos pobres?” Ele mesmo respondeu em seu livro que vale revisitar:”Brasil: a construção interrompida”(Paz e Terra 1992):

”Falta-nos a experiência de provas cruciais, como as que conheceram outros povos cuja sobrevivência chegou a estar ameaçada. E nos falta também um verdadeiro conhecimento de nossas possibilidades e, principalmente, de nossas debilidades. Mas não ignoramos que o tempo histórico se acelera, e que a contagem desse tempo se faz contra nós. Trata-se de saber se temos um futuro como nação que conta na construção do devenir humano. Ou se prevalecerão as forças que se empenham em interromper o nosso processo histórico de formação de um Estado-nação”(p. 35). As forças atuais, sob o governo do atual capitão-presidente, em continuidade de todo um passado, se empenham em interromper esse processo na forma de uma “burrice trágica” no sentido de Nietzsche.

Ou talvez, pensando positivamente, está se armando, sob o atual governo, a “nossa crise crucial” que nos permitirá o salto para um outro tipo de Brasil, com outros valores e com menos processos de propositado “emburrecimento” de grande parte de nosso povo. Então poderemos construir uma nação que nos orgulha e que contribui para a fase nova da humanidade, aquela da Casa Comum, na qual toda a natureza viva e inerte e especialmente os seres humanos estão incluídos, amantes da vida e cuidadores de tudo o que herdamos do processo da evolução, ou no dialeto cristão, do propósito amoroso e poderoso de nosso Criador e Pai.

POR QUE A IGREJA RECUSA DISCUTIR A SEXUALIDADE E A LEI DO CELIBATO?

É inegável a coragem do Papa Francisco ao enfrentar abertamente a questão da pedofilia dentro da Igreja. Fez entregar à justiça civil os pedófilos desde padres, religiosos até Cardeais para serem julgados e punidos. No Encontro em Roma, em fins de fevereiro de 2019, para a Proteção dos Menores, o Papa impôs 8 determinações entre as quais a “pedofilia zero” e “a proteção das crianças abusadas”

O Papa aponta a chaga principal: “o flagelo do clericalismo que é o terreno fértil para todas estas abominações”. Clericalismo aqui significa a centralização de todo o poder sagrado no clero, com a exclusão de outros, que se julga acima de qualquer suspeita e crítica. Ocorre que gente do clero usa esse poder que, de si, deveria irradiar confiança e reverência, para abusar sexualmente de menores.

Entretanto, a meu ver, o atual Papa e todos os anteriores, não levaram a questão até ao fundo, por razões que abaixo tento esclarecer: a sexualidade e a lei do celibato.

Quanto à sexualidade importa reconhecer que a Igreja-grande-insituição-piramidal alimentou historicamente uma atitude de desconfiança e até negativa face à sexualidade. É refém de uma visão errónea, advinda da tradição platónica e agostiniana. Santo Agostinho via a atividade sexual como o caminho pelo qual entra o pecado original. Por ele, de nascença, cada ser humano se faz portador de uma mancha, de um pecado, sem culpa pessoal, em solidariedade com o pecado dos primeiros pais.

Quanto menos sexo procriatiavo, menos “massa damnata” (massa condenada). A mulher, por ser geradora, introduz no mundo o mal originário. Negava-se a ela a plena humanidade. Era chamada “mas” que em latim significa “homem não completo”. Todo anti-feminismo e machismo na Igreja romano-católica, encontram aqui seu pressuposto teórico discutível em termos filosóficos e teológicos.

Daí o alto valor atribuído ao celibato, porque, não havendo relação sexual-genital com uma mulher, não nascerão filhos e filhas. Assim não se transmitiria o pecado original e a humanidade ficaria destarte mais purificada. Os criminosos abusos sexuais de menores praticados por celibatários,mostram que o celibato, por si só, não significa necessariamente uma purificação da humanidade.

Em todas as análises e condenações feitas sobre a pedofilia não se discutiu ainda o problema subjacente: a sexualidade. O ser humano não tem sexo. Ele é todo inteiro sexuado no corpo e na alma. O sexo é tão essencial que por ele passa a continuidade da vida.

Temos a ver com uma realidade misteriosa e extremamente complexa. A reflexão oficial até hoje não se confrontou positivamente com aqueles que detidamente pesquisaram a sexualidade como Freud, Jung, Adler, Fromm, Winnicott, Lacan, Rollo May,Simone de Bouvoir, Ana Freud, Rose Marie Muraro, Janette Paris entre tantos e tantas. Teria muito que aprender destas contribuições, sem renunciar às eventuais críticas. De modo geral podemos dizer que a Igreja oficial e mesmo a própria teologia não elaboraram uma leitura e um ideal, digamos até, uma utopia para a sexualidade humana. O que houve sim,foi muito moralismo que trouxe e ainda traz angústia e sofrimento para os cristãos que querem orientar suas vidas pelo caminho cristão. O documento do Papa Francisco Amoris Laeticia (A legria do amor) delineia alguns pontos luminosos nesta linha. Mas devemos ir mais longe e mais fundo.

O pensador francês Paul Ricoeur que muito refletiu filosoficamente sobre a teoria psicanalítica de Freud escreveu: “A sexualidade, em seu fundo, permanece, talvez, impermeável à reflexão e inacessível ao domínio humano; talvez essa opacidade faz com que ela não possa ser reabsorvida numa ética nem numa técnica” (Revista Paz e Terra n. 5 de 1979 p. 36). Ela vive entre a lei do dia onde vigoram os comportamentos estatuídos e a lei da noite onde funcionam as pulsões livres. Só uma ética do respeito face ao outro sexo e um auto-controle permanente sobre essa energia vulcânica, podem transformá-la em expressão de troca afetiva e de amor a dois e não numa obsessão e numa perversão.

Sabemos como é insuficiente a educação para a integração da sexualidade na formação dos padres nos seminários. Ela é feita longe do contacto normal com as mulheres, o que produz certa atrofia na construção da identidade. Por que Deus criou a humanidade, enquanto homem e mulher (Gn1,27)? Não primeiramente para gerarem filhos. Mas para não ficarem sós e serem um vis-a-vis uma ao outro e companheiros na diferença (Gn 2,18).

As ciências da psiqué nos deixaram claro que o homem só amadurece sob o olhar da mulher e a mulher sob o olhar do homem. Homem e mulher são em si completos, em cada um há a porção masculina e feminina, embora em proporções diferentes. mas, por sua natureza, são recíprocos e se enriquecem mutuamente na diferença.

O sexo genético-celular mostra que a diferença entre homem e mulher em termos de cromossomos, se reduz a apenas um cromossomo. A mulher possui dois crosmosomos XX e o homem um cromosomo X e outro Y. Donde se depreende que o sexo-base é o feminino (XX), sendo o masculino (XY) uma diferenciação dele. Não há pois um sexo absoluto, mas apenas um dominante. Em cada ser humano, homem e mulher, existe “um segundo sexo“. Na integração do “animus” e da “anima”, explico, das dimensões do feminino e do masculino presentes em cada pessoa, se gesta a maturidade humana e sexual.

Neste processo, o celibato não é excluido. Pode ser uma opção pessoal legítima. Mas na Igreja ele é imposto como pré-condição para ser padre ou religioso. Por outro lado, o celibato não pode nascer de uma carência de amor, mas de uma superabundância de amor a Deus, transbordando aos outros, em especial, aos mais carentes de afeto.

Por que a Igreja romano-católica não abole a lei do celibato? Porque seria contraditório à sua estrutura de base. Ela é, socialmente, (teologicamente demanderia outro tipo de reflexão) uma instituição total, autoritária, patriarcal, machista e fortemente hierarquizada. Uma Igreja que se estrutura ao redor do poder sagrado realiza o que C. G. Jung denunciava: “onde predomina o poder aí não há amor nem ternura”. É o que ocorre com o machismo e a rigidez, não em todos, mas em significativa parte dos padres e bispos que presidem as comunidades cristãs.

Não obstante as limitações assinaladas, importa assinalar que são muitos, diria até, grande parte, que vivem o celibato exemplarmente, e espiritualizam com as renúncias que ele exige (Jesus fala até em “castração” em função do Reino de Deus) e irradiam integridade, jovialidade e mostram que o celibato pode ser um caminho possível de realização de sua própria humanidade.

Para corrigir os desvios de celibatários, o Papa Francisco não se cansa de pregar “a ternura e o encontro afetuoso” com os outros, alimentado por uma viva intimidade com Deus em oração e meditação cotidianas. Entretanto, assim como há séculos se configura enquanto lei imposta aos sacerdotes, o celibato se faz funcional à Igreja clerical, só e solitária.

Ao perdurar este tipo de Igreja, não esperemos por enquanto a abolição da lei do celibato. Ele é útil para ela mas muito menos para os fiéis.

E como fica a utopia de Jesus de uma comunidade fraternal e igualitária? Se vivida, mudaria tudo na Igreja e também, em parte, da humanidade, animada pelo sonho bom e extremamente humanitário do Mestre de Nazaré.

CARNAVAL: CELEBRAR A ALEGRIA DE VIVER, APESAR DOS PESARES

O Brasil está vivendo uma das fases mais tristes e até macabras de sua história. Foi desmascarada a lógica da corrupção, presente em toda a nossa história, como parte de um Estado patrimonialista (colonialista, escravagista, elitista e antipopular) e sequestrado durante séculos pelas oligarquias do ser, do ter, do saber, do dominar e do manipular a opinião pública. Por todo esse tempo, grassou a corrupção e não apenas, como se atribuiu, nos últimos anos, quase que exclusivamente ao PT (é verdade, que suas cúpulas foram contaminadas), feito bode expiatório como forma de ocultar a corrupção dos privilegiados de sempre.

Surgiu um novo “Collor”(“caça aos marajás”), o “mito”, Jair Bolsonaro, (“exterminar a corrupção” e ” o comunismo”). Foram suficientes um pouco mais de dois meses de mandato para se identificar a corrupção também em suas próprias hostes, até em sua família. Muitos acreditaram ingenuamente na profusão de fake news e slogans de viés nazista: “Brasil acima de tudo”(“Deutchland über alles, lema de Hitler) e “Deus acima de todos”. Qual Deus? Aquele dos neopentecostais que promove a prosperidade material mas é surdo à nefasta injustiça social e que dá muito dinheiro a seus pastores, verdadeiros lobos a tosquiar as ovelhas? Não é o Deus do Jesus pobre e amigos dos pobres, de quem falava Fernando Pessoa “que não entendia nada de contabilidade e que não consta que tinha uma biblioteca”. Era pobre mesmo que perambulava por todos os lugares anunciando “uma grande alegria para todo o povo” como relatam os evangelhos.

Dentro deste quadro sinistro se festeja o carnaval. Não poderia deixar de ser, pois é um dos pontos altos da vida de milhões de brasileiros. A festa faz esquecer as decepções e dá espaço às muitas raivas afogadas na garganta (como milhares em São Paulo, gritando indecentemente ‘B.vá tomar no c`). A festa, por um momento, suspende o terrível cotidiano e o tempo tedioso dos relógios. É como se, por um lapso de tempo, participássemos da eternidade, pois na festa se suspende o tempo dos relógios.

Pertence à festa o excesso, a ruptura das normas convencionais e das formalidades sociais. Lógico, tudo o que é sadio pode ficar doentio, como o caráter orgiástico de algumas expressões carnavalescas. Mas não é esta a característica própria do carnaval.

A festa é um fenômeno da riqueza. Aqui riqueza não significa possuir dinheiro. A riqueza da festa é a riqueza da razão cordial, da alegria, de mostrar um sonho de fraternidade ilimitada, gente da favela com gente da cidade organizada, todos fantasiados: crianças, jovens, adultos, homens e mulheres e idosos dançando, cantando, comendo e bebendo juntos. A festa é a exaltação de que podemos ser alegres e felizes, apesar dos pesares.

Se bem refletirmos, a alegria do carnaval é uma expressão de amor que é mais que empatia. Quem não ama nada ou ninguém, não pode se alegrar, mesmo que angustiadamente suspire pelo amor. Um teólogo da Igreja Ortodoxa, do século V da era cristã, São João Crisóstomo (de quem o Card. Dom Paulo Evaristo Arns era um grande entusiasta e leitor) escreveu bem:”ubi caritas gaudet, ibi est festivitas”; “onde o amor se alegra, ai se encontra a festividade”.

Agora uma pitada de reflexão: o tema da festa comparece como um fenômeno que tem desafiado grandes nomes do pensamento como R. Caillois, J. Pieper, H. Cox, J. Motmann e o próprio F. Nietzsche. É que a festa revela o que há ainda de inocente e mítico em nós no meio da maturidade e da predominância da fria razão instrumental-analítica que rege nossas sociedades.

A festa reconcilia todas as coisas e nos devolve a saudade do paraíso das delícias, que nunca se perdeu totalmente. Platão sentenciava com razão:”os deuses fizeram as festas para que os homens pudessem respirar um pouco”. A festa não é só um dia que os homens fizeram mas também “um dia que o Senhor fez” como diz o Salmo 117,24. Efetivamente, se a vida é uma caminhada onerosa, precisamos, às vezes, de parar para respirar e, renovados, seguir adiante com alegria e coragem no coração.

Donde brota a alegria da festa? Foi Nietzsche quem encontrou sua melhor formulação: ”para alegrar-se de alguma coisa, precisa-se dizer a todas as coisas: “sejam benvindas”. Portanto, para podermos festejar de verdade precisamos afirmar positividade de todas coisas. Continua Nietzsche:”Se pudermos dizer sim a um único momento então teremos dito sim não só a nós mesmos mas à totalidade da existência” ”(Der Wille zur Macht, livro IV: Zucht und Züchtigung n.102).

Esse sim subjaz às nossas decisões cotidianas,ao nosso trabalho, à preocupação pela família, ao emprego ameaçado agora pelas novas leis regressivas do atual governo, ao tipo de aposentadoria que nos é apresentada, prejudicando os idosos e os camponeses, à convivência com amigos e colegas. A festa é o tempo forte no qual o sentido secreto da vida é vivido mesmo inconscientemente. Da festa saímos mais fortes para enfrentar as exigências da vida, para a maioria, sempre lutada e levada na marra.

Temos boas razões para festejar nesse carnaval de 2019 para, por um momento,deixar de lembrar as agruras políticas e sociais que nos angustiam. Tiremos da cabeça, o atual governo ainda sem rumo e com ministros que nos envergonham e com políticos que representam mais os grupos que os elegeram que os reais interesses do povo. Apesar disso tudo, a alegria há de predominar. É ela que nos faz resistir e esperar contra toda a esperança. Dias melhores virão

Edição 145, Fevereiro 2019

O LUTO PARECE NÃO TER FIM

O Brasil parece tomado por um luto que nunca termina. As pessoas andam acabrunhadas por causa do desemprego e pelas reformas conservadoras que o novo governo pretende introduzir, tirando direitos dos trabalhadores e atacando diretamente várias políticas sociais que beneficiavam os mais destituídos. Estudantes universitários que viviam com bolsas do governo tiveram que interromper seus estudos. Reformas na educação nos remetem à fase anterior ao Iluminismo, em alguns pontos, à Idade Média. Uma sombra escura pesa sobre o rosto de milhões de compatriotas.

Parece que cada dia acontece algo sinistro. Sem dúvida o grande luto nacional foi o criminoso desastre de Bromadinho-MG que, com o rompimento da barragem da mineradora Vale, foram dizimadas centenas de vidas em meio a um tsunami de resíduos de metais pesados, lama e água, poluindo o rio por dezenas de quilômetros. Luto foi a morte do conhecido jornalista Ricardo Boechat com a queda de um helicóptero. Luto foi a morte da grande artista, cantora e diretora Bibi Ferreira. E outros que caberiam ser citados.

Abordamos o tema do luto há pouco tempo atrás. Mas a situação é assim grave que nos convida dar-lhe um cuidado especial. Ao invés de utilizar a abundante literatura atual existente sobre o tema, permito-me relatar uma experiência pessoal que aclara melhor a necessidade de cuidar do luto.

Em 1981 perdi uma irmã com a qual tinha especial afinidade. Era a última das irmãs de 11 irmãos. Como professora, por volta das 10 horas, diante dos alunos, deu um imenso brado e caiu morta. Misteriosamente, aos 33 anos, rompera-se-lhe a aorta por uma doença rara.

Todos da família vindos de várias partes do pais, ficamos desorientados pelo choque fatal. Choramos copiosas lágrimas. Passamos dois dias vendo fotos e recordando, pesarosos, fatos engraçados da vida da irmãzinha querida.

Eles puderam cuidar do luto e da perda. Eu tive que partir logo após para o Chile, onde tinha palestras para franciscanos de todo o Cone Sul. Fui com o coração partido. Cada palestra era um exercício de autosuperação. Do Chile emendei para a Itália onde devia falar para religiosas de toda uma congregação.

A perda da irmã querida me atormentava como algo absurdo e insuportável. Comecei a desmaiar duas a três vezes ao dia sem uma razão física manifesta. Tive que ser levado ao médico. Contei-lhe o drama que estava passando. Ele logo intuiu e disse:

“Você não enterrou ainda sua irmã nem guardou o luto necessário; enquanto não a sepultar e cuidar de seu luto, você não melhorará; algo de você morreu com ela e precisa ser ressuscitado”.

Cancelei todos os demais programas. No silêncio e na oração cuidei do luto. Restaurado, num restaurante, enquanto lembrávamos da irmã querida, meu irmão também teólogo, Clodovis, e eu escrevemos num guardanapo de papel esta pequena reflexão.

“Foram trinta e três anos, como os anos da idade de Jesus.

Anos de muito trabalho e sofrimento,

Mas também de muito fruto.

Ela carregava a dor dos outros

Em seu próprio coração, como resgate.

Era límpida como a fonte da montanha,

Amável e terna como a flor do campo.

Teceu, ponto por ponto e no silêncio,

Um brocado precioso.

Deixou dois pequenos, robustos e belos.

E um marido, cheio de orgulho dela.

Feliz você, Cláudia, pois o Senhor voltando.

Te encontrou de pé, no trabalho

Lâmpada acesa.

Foi então que caíste em seu regaço,

Para o abraço infinito da paz”.

Entre seus papéis encontramos a frase:”Há sempre um sentido de Deus em todos os eventos humanos: importa descobri-lo”. Integramos o luto mas ficou uma ferida que nunca se fecha. Até hoje estamos procurando o sentido daquela frase misteriosa. Um dia se revelará.

NO BRASIL ABRIRAM-SE JANELAS DO INFERNO

Há uma constatação inegável no Brasil: em muitos sectores se nota a irrupção do ódio, da ofensa, dos palavrões de todo tipo, da distorção, do preconceito e de milhares e milhares de fake news que, em grande parte, deram a vitória ao atual presidente. Há ainda youtubers que falseiam a realidade, misturando palavrões com zombarias e reles moralismo, sujeitos a um processo judicial.

Comunista e socialista viraram palavras de acusação. Sequer se define o seu real significado, como se estivéssemos ainda na Guerra Fria de há trinta anos. Quantos, inclusive um dos ministros de parcas luzes, enviam seus críticos para Cuba, Coreia do Norte ou Venezuela. A maioria sequer leu alguma página da Teologia da Libertação, tida por marxista. Ignora seu propósito básico: a opção pelos pobres e por sua libertação, isto é, em favor da maioria da humanidade que é pobre.

Enfim, respiramos ares tóxicos. Muitos mostram completa falta de educação e degradação das mentes. Na campanha eleitoral esta raiva enrustida saiu do armário. Foi reforçada a violência pre-existente, dando legitimação a uma verdadeira cultura da violência contra indígenas, quilombolas, negros e negras, especialmente os LGBTI e opositores.

Precisamos compreender o porquê deste despropósito tresloucado. Iluminam-nos dois intérpretes do Brasil, aqui pertinentes: Paulo Prado, Retrato do Brasil: ensaio sobre a tristeza brasileira (1928) e Sérgio Buarque de Holanda, Raízes do Brasil (1936) no seu capítulo V. “O homem cordial”.

Ambos têm algo em comum, no dizer de Ronaldo Vainfas, pois “tentam decifrar o caráter brasileiro a partir de suas emoções”(Intérpretes do Brasil, vol.II, 2002 p.16). Mas em sentido contrário. Paulo Prado é profundamente pessimista caracterizando o brasileiro pela luxúria, a cobiça e a tristeza. Buarque de Holanda faz diferenciações quanto à cordialidade.

”A contribuição brasileira para a civilização será de cordialidade- daremos ao mundo o “homem cordial’. A lhaneza no trato, a hospitalidade, a generosidade, virtudes tão gabadas por estrangeiros que nos visitam, representam, com efeito, um traço definido do caráter brasileiro”(p.106). Mas logo observa:”Seria engano supor que estas virtudes possam significar “boas maneiras, civilidade”(107). E continua:”A inimizade bem pode ser tão cordial como a amizade, visto que uma e outra nascem do coração”(107 nota 157). Sabemos que do coração emergem tanto o amor quanto o ódio. A tradição psicanalítica nos confirma que aí impera o reino dos sentimentos. Estimo que definiríamos melhor o caráter do brasileiro se sustentássemos que o seu design básico não é a razão mas o sentimento. Este é contraditório: pode se expressar como amor e também como ódio virulento.

Pois esse lado dual da “cordialidade”, melhor dito. “do sentimento” ambiguo do brasileiro ganhou hoje asas e ocupou mentes e corações. Dominou a “falta de boas meneiras e de civilidade”. Basta abrir os sites, os twitters, facebooks e youtubes para constatar que janelas do inferno se abriram de par em par. Daí saíram demônios, separando pessoas, ofendendo figuras tão beneméritas como Dráuzio Varela e como a mundialmente apreciada de Paulo Freire. A palavra de um incivilizado ocupa o mesmo espaço como aquela do Papa Francisco ou do Dalai Lama.

Mas este é apenas o lado de sombra do sentimento brasileiro, Há o lado de luz, enfatizado acima por Buarque de Holanda e também por Cassiano Ricardo. Temos que resgatá-lo para que não tenhamos que viver numa sociedade de bárbaros na qual ninguém mais consegue conviver humana e civilizadamente.

Não há por que se desesperar. A condição do próprio universo é feita de ordem e desordem (caos e cosmos), as culturas possuem seu lado sim-bólico e dia-bólico e cada pessoa humana é habitada pela pulsão de vida (éros) e pela pulsão de morte (thánatos). Tal fato não é um defeito da criação. É a condição natural das coisas. As religiões, as éticas e as civilizações nasceram para conferir hegemonia à luz sobre as sombras a fim de impedir que nos devorássemos uns aos outros. Terminava o pessimista Paulo Prado:”a confiança no futuro não pode ser pior do que o passado”(p.98). Concordamos.

Inspira-nos um verso de Agostinho Neto, líder da libertação de Angola:“Não basta que seja pura e justa a nossa causa. É preciso que a pureza e a justiça existam dentro de nós”(Poemas de Angola, 1976, 50).

O QUE SOBRA DEPOIS DE NÃO SOBRAR NADA?

Muitos em nosso país vivemos uma situação de luto. O luto se impõe quando sofremos perdas: os muitos mortos e centenas de desaparecidos do rompimento da barragem da Vale que destruiu criminosamente a cidade de Brumadinho. A perda da pessoa amada, do emprego que garantia a família, a emigração forçada por causa de ameaças de morte. Maior é o luto quando atinge bens fundamentais de um país: a perda da democracia, dos direitos trabalhistas garantidos há muitos anos, a diminuição das aposentadorias dos idosos, os cortes das políticas públicas para pobres e miseráveis, a privatização dos commons, bens fundamentais para a soberania do país.

Mas o grande luto é termos que aceitar um presidente que reforçou a cultura do ódio, de seu desconhecimento das questões nacionais, que nos envergonhou em Davos, onde os donos do dinheiro no mundo se reúnem para garantir seus interesses. Seu discurso que poderia ser de 45 minutos, durou escassos seis, pois era tudo do pouco que tinha a dizer. Desmarcou as entrevistas para ocultar sua ignorância e as acusações graves que pesam sobre um membro de sua família.

Representa grande desafio para todos trabalhar as perdas e alimentar a resiliência que significa, saber dar a volta por cima e aprender da situação de luto.

Vários são os passos a serem dados nesse percurso.

O primeiro passo é a indignação que se expressa na surpresa: é criminoso o rompimento da barragem da Vale. O país merecia um tal governo? Descobrimos que a vida comporta tragédias que fazem sofrer especialmente os pobres. E não raro nos culpamos por não as termos cuidado nem percebido antes.

O segundo passo é a recusa sofrida: como foi possível chegarmos a este ponto com a Vale? De eleger um presidente com pouquíssimas luzes e com algumas características próprias do fascismo? Onde nós erramos? Inicialmente tendemos recusar o fato. Mas ele está ai, rude e tosco.

O terceiro passo é a depressão psicológica associada à recessão económica. Atingimos o fundo do poço. A economia é para o mercado que lucra com a crise enquanto joga milhões na pobreza. Somos tomados por um vazio existencial e desinteresse das coisas da vida. Quem consolará os familiares dos vitimados de Brumadinho? Quem lhes reforçará a esperança de que as promessas de reconstrução vão ser cumpridas?

O quarto passo é o auto-fortalecimento. Operamos uma espécie de negociação com a frustração e a depressão. Essas coisas sinistras pertencem à vida com suas contradições. Não podemos afundar nem perder nossos projetos e sonhos. Precisamos reerguer as casas de Brumadinho. A Vale, empresa privada que pensa mais nos lucros que nas pessoas, tem que tirar duras lições para evitar novos crimes ambientais. O luto deve gerar pressões por parte do povo e novas iniciativas. Podemos sair mais fortalecidos do luto.

O quinto passo é a aceitação dolorosa do fato incontornável. O luto deve passar da frente dos olhos para trás da cabeça, apesar das imagens inapagáveis do crime. Ninguém sai do luto como entrou. Amadurece à duras penas e experimenta que, no caso do novo governo brasileiro de direita, nem toda perda é total: ela traz sempre um ganho social e político.

Todo luto configura uma travessia paciente. Parece que nossas estrelas-guia se apagaram. Mas o céu continua a iluminar nossas noites escuras. As nuvens podem encobrir o Cristo Redentor do Corcovado, mas ele continua lá. Mesmo sem vê-lo, cremos em sua presença. Bolsonaro também passará. O Cristo, não. Enxugará as lágrimas dos familiares que sofrem.

Com referência ao nossa situação política, há que se reconhecer que nossa árvore foi mutilada: cortaram a copa, arrancaram as folhas, destruíram as flores e os frutos, cerraram seu tronco e arrancaram as raízes. O que sobrou depois de não sobrar nada? Sobrou o essencial que o luto induzido não consegue destruir: sobrou a semente. Nela, em potencial, estão as raízes, o tronco, as folhas, as flores, os frutos e a copa viçosa.

Tudo pode recomeçar. Recomeçaremos, mais seguros porque mais experimentados, mais experimentados porque mais sofridos, mais sofridos porque mais dispostos para um novo sonho. O luto passará. Será então o tempo de refazermos um Brasil mais cordial, solidário, justo e hospitaleiro.

Edição 144, Janeiro 2019

A DISCRIMINAÇÃO DOS AFRODESCENTES CONTINUA

Uma consequência da campanha eleitoral de 2018, anti-democrática e marcada por um sem número de fake news (falsas notícias), foi o fortalecimento do já existente racismo contra indígenas, quilombolas e particularmente contra negros e negras. Segundo o ultimo censo, 55,4% se declaram pardos ou negros. Quer dizer, depois de Kênia somos a maior nação negra do mundo. A maioria tem em seu sangue a herança africana. Aliás todos, brancos, negros e amarelos e outros somos africanos. Pois foi em África que irrompeu o processo da antropogênese há milhões de anos.

Como nossa história foi escrita pela mão branca, muitos historiadores tentaram suavizar a escravidão. O fato é que a escravidão desumanizou a todos, senhores e escravos. Ambos viveram a escravidão numa permanente síndrome de medo, de revoltas, de envenenamentos, de assassinatos de patrões, de filhos, de assaltos a suas mulheres. Os senhores para contê-los e aplicar a violência contra os negros, tiveram de reprimir seu sentido de humanidade e de compaixão. Por isso, até hoje as classes dominantes, herdeiras da ordem escravagista, são habitadas por preconceitos de que os negros, os mulatos devem ser tratados com violência e dureza. São consideramos preguiçosos quando, na verdade, foram eles que construiram nossas igrejas e edifícios coloniais.

Os escravos eram quase sempre muito mais numerosos que os brancos. Em Salvador e na capitania de Sergipe, por volta de 1824, eram 666 mil escravos e 192 mil brancos livres (Clovis Moura, Sociologia do negro 1988, p. 232). Em 1818, no Brasil todo, 50,6% da população era de negros escravos (Beozzo, Igreja e escravidão, 1980, p. 259). E atualmente como referimos acima, são 55,4% da população.

A escravidão desumanizou muito mais os negros. Darcy Ribeiro, em seu extraordinário O povo brasileiro (1995) resume bem a condição escrava:

“Sem amor de ninguém, sem família, sem sexo que não fosse a masturbação, sem nenhuma identificação possível com ninguém – seu capataz podia ser um negro, seus companheiros de infortúnio, inimigos -, maltrapilho e sujo, feio e fedido, perebento e enfermo, sem qualquer gozo ou orgulho do corpo, vivia a sua rotina. Esta era sofrer todo dia o castigo diário das chicotadas soltas, para trabalhar atento e tenso. Semanalmente, vinha um castigo preventivo, pedagógico, para não pensar em fuga, e, quando chamava atenção, recaía sobre ele um castigo exemplar, na forma de mutilações de dedos, do furo dos seios, de queimaduras com tição, de ter todos os dentes quebrados criteriosamente, ou dos açoites no pelourinho, sob trezentas chicotadas de uma vez, para matar, ou cinqüenta chicotadas diárias, para sobreviver. Se fugia e era apanhado, podia ser marcado com ferro, ser queimado vivo, em dias de agonia, na boca da fornalha, ou, de uma vez só, jogado nela para arder como um graveto oleoso” (p. 119-120).

Por causa desse tipo de violência, os escravos internalizaram dentro de si o opressor. Para sobreviver, tiveram de assumir a religião, os costumes e a língua de seus opressores. Desenvolveram a estratéga do ¨jeitinho” para nunca dizerem não e ao mesmo tempo poderem alcançar um objetivo que de outra forma jamais alcançariam.

Mas já há muito tempo surgiu forte a consciência da negritude com a determinação de resgatar a sua identidade, suas religiões e sua forma de estar no mundo. Trata-se da constituição do sujeito da libertação dos negros e negras contra sua inserção forçada na iniqua história da barbárie branca.

A história contada pela mão negra não é apenas uma história contra o branco; é uma história própria, que não se confunde com a história de seus opressores e escravocratas, embora esteja ligada dialeticamente a ela. Ela está fazendo seu curso livre.

A abolição dos escravos em 1888 não significou a abolição da mentalidade escravocrata, presente na cultura dominante que continua mantendo centenas de trabalhadores com uma relação análoga ao dos escravos. Em janeiro de 2019, havia 204 empreendedores cometendo esse crime. Basta ler a recente obra distribuída em 2019 “Estudos sobre as formas contemporâneas de trabalho escravo”(Maud) com a colaboração de quarenta e quatro pesquisadores, cobrindo grande parte da area nacional, organizada pelo conhecido especialista junto com outras, Ricardo Rezende Figueira. A impressão final é estarrecedora. Como ainda hoje persiste a pérfida desumanidade de seres humanos escravizando outros seres humanos?

O MISTERIOSO DESTINO DE CADA UM

Cada um de nós tem a idade do universo que é de 13,7 bilhões de anos. Todos estávamos virtualmente juntos naquele pontozinho, menor que a cabeça de um alfinete, mas repleto de energia e de materia. Ocorreu a grande explosão e gerou as enormes estrelas vermelhas dentro das quais se formaram todos os elementos físico-químicos que compõem todos os seres do universo e também o nosso. Somos filhos e filhas das estrelas e do pó cósmico. Somos também a porção da Terra viva que chegou a sentir, a pensar, a amar e a venerar. Por nós a Terra e o universo sentem que formam um grande Todo. E nós podemos desenvolver a consciência desse pertencimento.

Qual é o nosso lugar dentro desse Todo? Mais imediatamente, dentro do processo de evolução? Dentro da Mãe Terra? Dentro da história humana? Não nos é dado saber ainda. Talvez será a grande revelação quando fizermos a passagem alquímica deste para o outro lado da vida. Ai, espero, tudo fica claro e nos surpreenderemos porque todos somos umbilicalmente inter-relacionados, formando a imensa cadeia dos seres e a teia da vida. Cairemos, assim creio, nos braços de Deus-Pai–e-Mãe de infinita misericórdia para quem precisa dela por causa de suas maldades e um abraço amoroso eterno para os que se orientaram pelo bem e pelo amor. Depois de passarem pela clínica de Deus-misericórdia, os outros também virão.

Eu de criança de poucos meses estava condenado a morrer. Conta minha mãe e as tias sempre o repetiam, que eu tinha “o macaquinho”, expressão popular para anemia profunda. Tudo que ingeria, vomitava. Todos diziam em dialeto vêneto: ”poareto, va morir”: “pobrezinho, vai morrer”.

Minha mãe, desesperada e escondida de meu pai que não acreditava em benzimentos, foi à benzedeira, à velha Campanhola. Ela fez as suas rezas e lhe disse: “dê um banho com essas ervas; depois de fazer o pão no forno, espere até ficar morno e coloque seu filhinho lá dentro”. Foi o que fez minha mãe Regina. Sobre a pá de retirar o pão cozido, me colocou lá dentro. Deixou-me, aí por um bom tempo.

Eis que ocorreu uma transformação. Ao me retirar do forno, comecei a chorar, diziam, e a procurar logo o seio para sugar o leite materno. Depois, minha mãe, mastigava em sua boca as comidinhas mais fortes e me dava. Comecei a comer e a me fortalecer. Sobrevivi. Estou aqui oficialmente velho com 80 anos. Há aí algum destino? Só o Supremo o sabe.

Passei por vários riscos que poderiam ter custado minha vida: um avião DC-10 em chamas rumo a Nova York; um acidente de carro contra um cavalo morto na pista que me quebrou todo; um enorme prego que caiu na minha frente, quando estudava em Munique e poderia ter-me matado se tivesse caído sobre a minha cabeça; Nos Alpes, a queda num vale profundo coberto de neve e camponeses bávaros, me vendo com o hábito escuro, me afundando cada vez mais, me retiraram com uma corda. E outros.

Norberto Bobbio me concedeu o doutor honoris causa em política pela Universidade de Turim. Entendeu que a teologia da libertação dera uma contribuição importante ao afirmar a força histórica dos pobres. É insuficiente o assistencialismo clássico ou a mera solidariedade mantendo os pobres sempre dependentes. Eles podem ser sujeitos de sua libertação, quando conscientizados e organizados. Superamos o para os pobres, insistimos no caminhar com os pobres, sendo eles os protagonistas e quem puder e tiver esse carisma, viver como os pobres como tantos fizeram, como Dom Pedro Casaldáliga.

Lembro-me que comecei meu discurso de agradecimento ao título, concedido por essa notável figura que é Norberto Bobbio: “venho da pedra lascada, do fundo da história, quando mal e mal tínhamos meios para a sobrevivência. Meus avós italianos e minha família, desbravaram uma região desabitada e coberta de pinheirais, Concórdia nos confins de Santa Catarina. Eles tiveram que lutar para sobreviver. Muitos morreram por falta de médicos. Depois fui subindo na escala da evolução: os 11 irmãos estudaram, fizeram a universidade, eu pude me formar na Alemanha. Agora estou aqui nessa famosa universidade”.

A pedido de Bobbio, fiz um resumo dos propósitos da Teologia da Libertação que tem como eixo central, a opção pelos pobres contra a pobreza e a favor da justiça social. Dei muitos cursos por esse mundo afora, escrevi bastante, enxuguei lágrimas e mantive forte esperança de militantes que se frustravam com os rumos de nosso país.

Qual é o meu destino? Não sei. Tomei como lema que era do meu pai que o vivia:”quem não vive para servir, não serve para viver”. A Deus a última palavra.

FACE AO NOVO GOVERNO QUE NOS SOCORRA SÃO JORGE

Face ao novo Governo de ultradireita, furioso e perseguidor, atingindo já direitos fundamentais dos cidadãos, especialmente os salários e os de outra condição sexual, precisamos unir nossas forças de resistência e de crítica, por um imperativo ético, de salvaguarda da democracia e dos commons que pertencem ao povo brasileiro. Além desse esforço cívico, precisamos da ajuda do santo preferido dos cariocas que é São Jorge. Sua história lendária nos pode dar ânimo e fortaleza.

Um dragão terrível ameaçava uma pequena cidade no Norte da África. Exigia vidas humanas escolhidas por sorteio. Certo dia, a sorte caiu sobre a filha do rei. Vestida de noiva foi ao encontro da morte. Eis senão quando, irrompe São Jorge com seu cavalo branco e sua longa lança. Fere o dragão e o domina. Amarra a boca com o cinto da princesa e o conduz manso como um cordeiro até o centro da cidade.

Precisamos interpretar esta lenda pois pode melhorar nossa consciência sobre o que somos realmente. Sigo aqui as reflexões da psicologia analítica de C. G. Jung especialmente de seu discípulo preferido Erik Neumann (cf. A história da origem da consciência, Cultrix 1990). Segundo ele, o dragão amedrontador e o cavaleiro heroico são duas dimensões do mesmo ser humano. O dragão em nós é o nosso inconsciente, a nossa ancestralidade obscura, nossas sombras. nossas raivas e ódios. Deste transfundo irromperam para a luz a consciência, a independência do ego e nossa capacidade de amar e conviver humanamente, representados por São Jorge. Por isso que em algumas iconografias, especialmente uma da Catalunha (é seu patrono), o dragão aparece envolvendo todo o corpo do cavaleiro São Jorge, bem como aquela do brasileiro Rogério Fernandes.

Somos esta contradição viva: temos a porção São Jorge e a porção dragão dentro de nós. O desafio da vida que sempre nos acompanha e nunca tem um fim definitivo é São Jorge manter subjudado o dragão. Não se trata de matá-lo mas de domesticá-lo e tirar-lhe a ferocidade.

O povo sente necessidade de um santo guerreiro e vencedor, como se mostrou na novela”Salve Jorge” cujo script foi feito por uma grande devota do santo, Malga di Paulo. São Jorge salva as mulheres prostituídas contra o dragão do tráfico internacional de mulheres.

O que assistimos ultimamente no Brasil e especialmente durante a campanha eleitoral e agora, infelizmente, no atual governo é a irrupção do dragão. Aqui ele foi solto e se expressou por todo tipo de violência verbal e até física contra homo-afetivos, indígenas, opositores e mulheres. Como já escrevemos neste lugar, é a emergência da dimensão perversa de nossa “cordialidade” que, segundo Sérgio Buarque de Holanda, pode se manifestar mediante o ódio e a inimizade, posto que ela vem também do coração, donde se origina a cordialidade. Ela estava e está sempre presente dentro de nós. Mas criou-se uma condição psico-social-política que pôde sair da escuridão e se manifestar destrutivamente.

Diante do dragão que ganhou visibilidade que vamos fazer? Precisamos acordar o São Jorge que está em nós. Ele sempre venceu o dragão. Vamos usar as armas que eles não podem usar. Às discriminações respondemos com a inclusão de todos indistintamente. Ao ódio disseminado contra opositores, responderemos com amorosidade e compaixão. À criação de bodes expiatórios, responderemos com a defesa dos inocentemente marginalizados e injustamente condenados. Às mentiras e às visões fantasiosas que nos querem levar à Idade Média, responderemos com a força dos fatos e fazer valer o sentido da contemporaneidade.

Importa vencer o mal com o bem. Não revidar com os métodos e ideologias esdrúxulas que apresentam, com a pretensão de não ter ideologia. O que na verdade mais têm os membros do partido e vários ministros é uma bizarra ideologia de fazer sorrir de tão rasa, velhista e ridícula.

Nesse afã, fazemos nossa a oração popular : ”Andarei vestido e armado com as armas de São Jorge para que meus inimigos, tendo pés não me alcancem, tendo mãos, não me peguem e tendo olhos não me enxerguem…E meus inimigos fiquem humildes e submissos a Vós. Amém”.

Um balanço de 2018

ENTRE A PERVERSA CORDIALIDADE BRASILEIRA E O CAOS DESTRUTIVO

Dizem notáveis cosmólogos que tudo começou com um imenso caos, o big bang. Matéria e antimatéria se chocaram. Sobrou ínfima porção de matéria que deu origem ao atual universo. O caos foi generativo. Este ano conhecemos também grande caos em todas as instâncias. Irrompeu o lado perverso da cordialidade brasileira. Segundo Sergio Buarque de Holanda (Raizes do Brasil, 5.capitulo) “a inimizade bem pode ser tão cordial como a amizade, visto que uma e outra nascem do coração”(p.107).

Nas eleições de 2018, o lado perverso da cordialidade ocupou a cena: muito ódio, difamações, milhões de fake news, até a facada no candidato Bolsonaro que acabou se elegendo presidente do país. Esse caos foi só destrutivo não mostrou ainda ser generativo. E deve ser para não entrarmos num beco sem saída.

Nunca em nossa histórica republicana tivemos um presidente de extrema-direita, homofóbico, misógeno, inimigo declarado de homoafetivos, quilombolas, ameaçador das reservas indígenas, promotor da venda generalizada de armas, tendo como símbolo de campanha os dedos em forma de arma.

Descendente de italianos Sem Terra, chegados ao Brasil no final do século XIX, pretende criminalizar o Movimento dos Sem Terra e dos Sem Teto como terroristas. Os temas sensíveis da corrupção, do anti-PT, do resgate dos valores tradicionais da família (mas Bolsonaro mesmo está já no terceiro casamento) e da luta contra o aborto, foram temas que turbinaram sua campanha. Algumas igrejas neo-pentecostais foram aliados fundamentais, máquinas de falsas notícias.

O eleito mostra-se ignorante dos principais problemas nacionais e mundiais. Tem uma leitura de caserna, fixada ainda nos tempos da ditadura militar a ponto de declarar herói um famoso torturador Brilhante Ustra. Escolheu ministros na contra-mão da história, negacionistas do aquecimento global, com ideias bizarras como são os das Relações Exteriores , o da Educação e o do Meio Ambiente. Alinhou-se subalternamente à política do presidente Trump, conflitando com aliados históricos.

Diz introduzir uma nova política que de novo não possui nada. Como diz um jovem filosofo que bem articula filosofia com política, Raphael Alvarenga:”A novidade consiste na combinação monstruosa de necropolítica, lawfare, fundamentalismo religioso e ultraliberalismo econômico”.

O neoliberalismo econômico geral no mundo, ganhou aqui uma forma ainda mais radical, pondo nossos “commons”à venda no mercado internacional como o petróleo e a privatização de outros bens públicos.

O pacto social criado pela Constituição de 1988 foi rompido, primeiro, com o discutível impeachment da presidenta Dilma Rousseff e depois com a mudança das leis trabalhistas, com a negação da universal presunção de inocência, com as arbitrariedades da PF, do MPF e não em ultimo lugar, com o comportamento confuso e pouco digno do STF, ora muito leniente, ora excessivmente severo, ora submetido ao controle militar pela presença de um general, assessor do Presidente da Casa.

Vivemos de fato num Estado de exceção, pós democrático e sem lei, como o denunciou em dois livros, com esse título, o juiz de direito do Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro, Rubens R.R. Casara. Boaventura de Souza Santos, conhecido sociólogo português, afirma mais peremptoriamente:”O sistema jurídico e judicial criado para garantir a ordem jurisdicional é, nesse momento, um fator jurídico de desordem; é uma perversão perigosa….O STF é uma guerra social e institucional”.

O propósito dos que chegaram ao poder com seus aliados é destruir o PT e seu líder Lula, preso político e refém, borrar da memória popular as políticas sociais que beneficiaram milhões de pobres e permitiram a milhares de destituídos, o acesso à universidade.

Corrupção houve no PT bem como em quase todos os partidos. Um juíz de primeira instância, Sérgio Moro, perseguidor, foi treinado nos USA para aplicar a lawfare (distorcer a lei para condenar o acusado). Foi de uma parcialidade palmar, denunciada pelos juristas nacionais e internacionais mais sérios.

Mas não sejamos ingênuos: a sonegação fiscal anual de mais de 500 bilhões de reais, sete vezes maior que a corrupção política, revela o Sindicato Nacional dos Procuradores da Fazenda Nacional. Só com sua cobrança dispensar-se-ia a Reforma da Previdência. Mas a oligarquia brasileira,atrasada e anti-povo esconde o fato e a imprensa, cúmplice se cala.

Que podemos esperar? É uma incógnita. Por amor ao país e aos condenados da Terra, as grandes maiorias enganadas e iludidas, desejamos que o atual caos seja generativo e a cordialidade signifique benquerença para que a sociedade já muito injusta não seja tão malvada.

Edição 143, Dezembro 2018

80 ANOS DE VIDA, COM A MENTE VOLTADA PARA A ETERNIDADE

Primeiramente agradeço a Deus por ter chegado até aqui e por ter sobrevivido. De pequeno, com alguns meses, estava destinado a morrer. Naqueles interiores profundos de Santa Catarina, Concórdia, não havia ainda médicos. Todos, desolados, diziam: “coitadinho, vai morrer”. Minha mãe, desesperada, depois de fazer o pão familiar num forno de pedra, deixou que ficasse morno e sobre uma pá de madeira me colocou por bons minutos lá dentro. A partir deste experimento derradeiro, melhorei e estou aqui como sobrevivente.

Achei que nunca passaria da idade de meu pai, que morreu de um enfarte fulminante aos 54 anos. Sobrevivi. Escrevi um balanço aos 50. Depois achava não passaria da idade de minha mãe, que também morreu de enfarte com 64 anos. Sobrevivi. Fiz mais um balanço aos 60. Então, estava seguro de que não chegaria aos 70. Sobrevivi. Tive que escrever outro balanço aos 70. Por fim, pensei, convicto, de todas as maneiras, não chegarei aos 80. Sobrevivi. E tenho que escrever outro balanço. Como saí desmoralizado nas minhas previsões, não penso mais em nada. Quando chegar a hora que só Ele sabe, irei alegremente ao encontro do Senhor.

Relendo os vários balanços, surpreendentemente e sem intenção prévia, vejo que há constantes que perpassam todas as memórias. Tentarei fazer uma leitura de cego que apenas capta o que é relevante. Sempre fui movido por alguma paixão mais forte que me levava a falar e a escrever.

A primeira paixão foi pela Igreja renovada pelo Concílio Vaticano II. Escrevi minha tese doutoral em Munique: A Igreja como sacramento; Igreja: carisma e poder (que me levou ao silêncio obsequioso) e Eclesiogênese: as CEBs reinventam a Igreja.

A segunda paixão foi pelo Jesus histórico, sua gesta que o levou à cruz. Escrevi Jesus Cristo Libertador; Nossa ressurreição na morte; O evangelho do Cristo cósmico; Via Sacra da justiça.

A terceira paixão foi por São Francisco de Assis, o primeiro depois do Último (Jesus). Escrevi Francisco de Assis: ternura e vigor; São Francisco: saudades do Paraíso; Comentário à sua oração pela paz.

A quarta paixão foi pelos pobres e oprimidos. Nasceu a teologia da libertação e escrevi Teologia do cativeiro e da libertação; O caminhar da Igreja com os oprimidos; junto com meu irmão Frei Clodovis escrevemos Como fazer teologia da libertação.

A quinta paixão foi pela Mãe Terra superexplorada. Escrevi A opção Terra: a solução para a Terra não cai do céu; O Tao da libertação: uma ecologia da transformação junto com Mark Hathaway; Como cuidar da Casa Comum.

A sexta paixão foi pela condição humana sapiente e demente. Escrevi O destino do homem e do mundo; A Águia e a galinha: metáfora da condição humana; Despertar da águia: o dia-bólico e o sim-bólico na construção da realidade; Saber cuidar; O cuidado necessário; Feminino – Masculino junto com Rose-Marie Muraro; O Ser humano como projeto infinito.

A sétima paixão foi pela vida do Espírito: Traduzi o principal da obra do místico Mestre Eckhart; retraduzi de forma atualizadora a Imitação de Cristo de 1441 acrescentando-lhe uma parte nova; O seguimento de Cristo; Experimentar Deus hoje; A SS. Trindade é a melhor comunidade; O Espírito Santo: fogo interior, doador de vida e pai dos pobres; Espiritualidade: um caminho de transformação.

Publiquei cerca de cem livros. É trabalhoso, com apenas 25 sílabas, compor as palavras e depois com as palavras formular as frases e por fim com frases conceber o conteúdo pensado de um livro. Quando me perguntam: “o que faz na vida”? Respondo: “sou trabalhador como qualquer outro como um marceneiro ou um eletricista. Apenas que meus instrumentos são muito sutis: apenas 25 sílabas.

“E o que você pretende com tantas letras”? Respondo: “apenas pensar, em sintonia, as preocupações maiores dos seres humanos à luz de Deus; suscitar neles a confiança nas potencialidades escondidas em si para encontrarem soluções; procurar chegar ao coração das pessoas para que tenham compaixão pelo injusto sofrimento do mundo e da natureza, para que nunca desistam de sempre melhorar a realidade, começando por melhorar a si próprios. Independente de sua condição moral, devam sentir-se sempre na palma da mão de Deus-Pai-e-Mãe de infinita bondade e misericórdia.

“Valeu a pena tantos sacrifícios para escrever”? Respondo com o poeta Fernando Pessoa: “Tudo vale a pena se a alma não é pequena”. Esforcei-me para que não fosse pequena. Deixo a Deus a última palavra. Agora no tramontar da vida, penso nos dias passados e tenho a mente voltada para a eternidade.

NÃO FOI BOLSONARO QUE GANHOU. FOI O PT QUE PERDEU E O BRASIL

Vivemos no Brasil nos últimos dois anos dois grandes golpes: o primeiro, o impeachment e a deposição de Dilma Rousseff e neste ano de 2018 a ascensão da extrema-direita com a eleição de Jair Bolosonário a presidente do Brasil..

1. Vivemos tempos sombrios e incerto

Vivemos tempos sombrios e incertos. Internacionalmente somos motivo de vergonha e de escárnio. Não sabemos sequer que futuro nos espera. A estrutura de governo que até agora se montou, particularmente no Ministério das Relações Exteriores e no da Educação nos desenham um quadro perturbador. No lugar da partidização dos cargos do Estado está ocorrendo uma militarização de seus principais postos.

Os militares não precisaram dar um golpe. O ex-capitão Bolsonaro os chamou para dentro do Governo. Como estamos sem horizonte, ficamos perplexos e muitos tomados de desesperança.

2. Resgate da utopia e das utopias minimalistas

Num contexto assim, antes de falar de esperança, temos que resgatar a dimensão da utopia. A utopia não se opõe à realidade, antes pertence a ela, porque esta não é feita apenas por aquilo que é feito e dado, o que está aí palpável. Mas por aquilo que ainda pode ser feito e dado, portanto por aquilo que é potencial e viável não é ainda visível.

A utopia nasce deste transfundo de potencialidades presentes na história, em cada povo e em cada pessoa. O renomado filósofo alemão Ernst Bloch introduziu a expressão principio-esperança. Ele é mais que a virtude da esperança; emerge como uma fonte geradora de sonhos e de ações. O princípio esperança representa o inesgotável potencial da existência humana e da história que permite dizer não a qualquer realidade concreta, às limitações de nossa condição humana, aos modelos políticos e às barreiras que cerceiam o viver, o saber, o querer e o amar. E dizer sim a formas novas ou alternativas de organização social ou de plasmação de qualquer projeto. O não é fruto de um sim prévio e anterior.

Hoje podemos afirmar que as grandes utopias, as utopias maximalistas, do iluminismo (dar cultura letrada a todos), do socialismo (fazer que o nós prevaleça sobre o eu) e também do capitalismo (o eu prevalecer sobre o nós) entraram numa profunda crise. Nunca realizaram o que prometiam: nem todos participam da cultura letrada, a maioria não assistiu a distribuição equitativa e justa dos bens e a riqueza foi somente de pequenos grupos e não das maiorias. Mais ainda: todas estas utopias degradaram a Casa Comum pela super-exploração, e produziram um mar de pobreza, de injustiça social e de sofrimento evitável no lugar de benefícios para todos.

Somos obrigados a nos volver paras utopias minimalistas, aqueles que, não podendo mudar o mundo, podem, no entanto, melhorá-lo.

As utopias minimalistas são aquelas que foram implementadas pelos governos Lula-Dilma e seus aliados com base popular que agora pelo governo de ultra-direita seguramente serão desmontadas.

A nível das grandes maiorias são verdadeiras utopias mínimas viáveis: receber um salário que atenda as necessidades da família, ter acesso à saúde, mandar os filhos à escola, conseguir um transporte coletivo que não tire tanto tempo de vida, contar com serviços sanitários básicos, dispor de lugares de lazer e de cultura e com uma aposentadoria suficiente para enfrentar os achaques da velhice.

A consecução destas utopias minimalistas cria a base para utopias mais altas: aspirar que a nação supere relações de ódio e de exclusão,que os povos se abracem na fraternidade, que não se guerreiem, se unam todos para preservar este pequeno e belo planeta Terra, sem o qual nenhuma outra utopia seria possível.

3. Resgatar a força política da esperança

A vitória de Bolsonaro é fruto de uma imensa e bem tramada fraude: suscitando o anti-petismo, colocando a corrupção endêmica no país, como se fosse coisa só do PT, defendendo alguns valores de nossa cultura tradicionalista e atrasada, ligada a um tipo de família moralista e de uma compreensão distorcida da questão de gênero, alimentando preconceitos contra os indígenas, os quilombolas, os homoafetivos, os LGBTI e divulgando milhões milhões de fake news, caluniando e difamando o candidato Fernando Haddad. Informações seguras constataram que cerca de 80% das pessoas que receberam tais falsas notícias acreditaram nelas.

Por trás do triunfo da extrema-direita atuaram forças do Império, particularmente, da CIA como o mostraram váios analistas da área inernacional, as classes dos endinheirados, herdeiros da Casa Grande, no sentido de preservar seus privilégios, parte do Ministério Público, do grupo ligado ao Lava-Jato, parte do STF e com expressiva força a imprensa empresarial conservadora que sempre apoiou os golpes e se sente mal com a democracia.

A consequência é o descalabro político, jurídico e institucional. É falacioso dizer que as instituições funcionam. Funcionam seletivamente para alguns. Todas elas estão contaminadas pela corrupção e pela vontade de afastar Lula e o PT da cena política. A justiça foi vergonhosamente parcial especialmente o foi pelo justiceiro juiz federal de primeira instância Sérgio Moro que tudo fez para pôr Lula na prisão,mesmo sem materialidade criminosa para tanto. Ele sempre se moveu não pelo senso do direito, mas pelo law fare (distorção do direito para condenar o acusado) e pelo impulso de raiva e por convicção subjetiva. Diz-se que estudou em Harvard. Fez apenas quatro semanas lá, no fundo para encobrir o treinamento que recebeu nos órgãos de segurança dos USA no uso da law fare.

Conseguiu impedir que Lula fosse candidato à presidência já que contava com a maioria das intenções de voto e até lhe sequestraram o direito de votar. A vitória fraudulenta de Bolsonaro (por causa dos milhões de fake news) legitimou uma cultura da violência. Ela já existia no país em níveis insuportâveis (mais de 62 mil assassinatos anuais). Mas agora ela se sente legitimada pelo discurso de ódio que o candadidato e agora presidente Bolsonaro soube alimentar durante a campanha. Tal realidade sinistra, trouxe como consequência um forte desamparo e um sofrido vazio de esperança.

Este cenário adverso ao direito e a tudo o que é justo e reto, afetou nossas mentes e corações de forma profunda. Vivemos num regime de exceção, num tempo de pós-democracia ( juiz no Rio, Rubens Casara). Agora importa resgatar o caráter político-transformador da esperança e da resiliência, as únicas que nos poderão sustentar no quadro de uma crise sem precedentes em nossa história. Temos que dar a volta por cima, não considerar a atual situação como uma tragédia sem remédio, mas como uma crise fundamental que nos obriga a resistir, a aprender das contradições e a sair mais maduros, experimentados e seguros para rasgar um novo caminho mais justo, democrático, popular e includente para o Brasil.

Referimo-nos ao princípio esperança já citado anteriormene, que é aquele impulso que nos habita a sempre nos mover, projetar sonhos e utopias e dos fracassos nos permitir tirar sábias lições e nos tornar mais fortes na resiliência, na resistência e na luta.

4. As duas formosas irmãs da esperança

A Santo Agostinho (353-450 da era cristã), talvez o maior gênio cristão e africano de Hipona, hoje Argélia, grande formulador de frases, nos vem esta sentença: “a esperança tem duas belas e queridas filhas: a indignação e a coragem; a indignação para recusar as coisas como estão aí; e a coragem, para mudá-las”.

Nesta fase de nossa história, devemos evocar, em primeiro lugar, a filha-indignação contra o que o futuro governo de Bolsonaro está e ainda irá perpetrar criminosamente contra o povo, contra os indígenas, contra os negros, contra os quilombolas, contra a população do campo, contra as mulheres, contra os sem-teto, e os sem-terra (MST) criminalizando-os como terroristas, os trabalhadores e contra os idosos, tirando-lhes direitos e rebaixando milhões que da pobreza estão passando para a miséria.

Nem escapa a autonomia nacional, pois o governo ofendendo nossa soberania, está permitindo vender terras nacionais a estrangeiros e mostrando um humilhante alinhamento à estratégia direitista e militarista do governo norteamericano de Trump.

Se o governo ofende o povo, este tem direito de evocar a filha-indignação e de não lhe dar paz. Deve denunciar, resistir e pressionar o mais que puder para mudar dos rumos da política.

A filha-coragem se mostra na vontade de mudanças, não obstante os enfrentamentos que poderão ser calorosos. É ela que nos manterá animados, nos sustentará na luta e poderá nos levar a mudanças substantivas. É imperioso voltar às bases populares, de onde nasceu o PT, criar escolas de formação política, passar de beneficiarios de projetos governamentais de inclusão a cidadãos ativos que se organizam, elaboram pressões, saem às ruas e apresentam projetos alternativos aos oficiais que deem centralidade aos mais pobres e vulneráveis e se decidam por um outro tipo de democracia participativa e ecológica.

Lembremo-nos do conselho de Dom Quixote:”no hay que aceptar las derrotas sin antes dar todas las batallas”: “Não devemos aceitar as derrotas sem antes dar todas as batalhas”.

Há um dado que devemos sempre tomar em conta: é evocar o primeiro artigo da constituição que reza: ”todo o poder emana do povo”. Governantes, deputados e senadores são apenas delegados do povo. Quando estes atraiçoam e não representam mais os interesses gerais mas os do mercado voraz, e de grandes grupos corporativos nacionais e internacionais que só conhecem a competição e desconhecem ao que é mais humano em nos que é a colaboração e solidariedade, o povo tem direito de reclamar por um empeachment e buscar formas legais de afastá-lo de poder.

As duas belas filhas da esperança poderão fazer sua a frase do escritor argelino-francês Albert Camus, autor do famoso romance A Peste: ”Em meio ao inverno, aprendi que bem dentro de mim, morava um verão invencível”.

O povo brasileiro, em seu momento, assim esperamos, fará sentir dentro de si este verão invencível, fruto de uma rebelde esperança. Será o resgate da democracia contra a impostura do governo Bolsonaro e de seus seguidores e um pilar para refundação de nosso país sobre outros valores e sobre bases mais humanitárias e participativas.

A esperança não é apenas um princípio, quer dizer, um dado da essência humana. Ela é também uma virtude cristã, junto com a fé e o amor. A esperança, de certa forma, está na base da vida. Podemos perder a fé e contuamos a viver. Podemos perder o amor de nossa vida e nos ralizarmos num outro. Mas quando perdemos a esperança, estamos a um passo do suicídio porque a vida perdeu sentido e o futuro não possui mais nenhum horizonte com uma luz orientadora. Dominam as trevas.

5. A esperança no Novo Testamento

Curiosamente, os Evangelhos nunca falam de esperança. Logicamente, havia no povo eleito, a esperança pela vinda do Messias libertador. Ela ocorre uma vez na espístola de São João (1 Jo, 3,3), 4 vezes na epístola aos Hebreus e 3 vezes na primeira epístola de São Pedro. Mas é uma virtude muito presente nos Atos dos Apóstolos (7 vezes) e frequetemente nas cartas de São Paulo. Bem escreve na Epístola aos Romanos que Abraão teve “uma esperança contra toda esperança, de ser pai de muitas nações”(4,18). Numa outra passagem diz que “a esperança nunca engana pois o amor está em nossos corações”(5,5).

Cristo nos salvou. Mas peregrinamos no mundo longe de Deus. Por isso afirma São Paulo: “é na esperança que somos salvos”(Rom 8,24). Aos Efésios fala que num certo tempo “vivíamos sem esperança e sem Deus”(2,12) e agora pelo sangue de Cristo pertencemos ao Messias.

Embora não se use frequentemente a palavra esperança, a realidade da esperança para os cristãos foi, é e será Jesus Cristo vivo, morto e ressuscitado. Por ele Deus mostrou que a promessa de salvação e de libertação da criação e da humanidade nunca desvaneceu. Nele, pela ressurreição, estamos seguros de que a esprança jamais nos defraudará e que por ela se antecipou o fim bom da criação, do destino humano e do universo.

Devemos somar as energias da esperança, daquela que está sempre presente em nosso ser com aquela que é uma virtude cristã. Ambas se dão as mãos. Elas nos enriquecem com as energias para suportar as aflições do tempo presente mas muito mais nos dão a coragem para enfretá-las e inaugurar um novo caminho.

Talvez nunca em nossa história temos precisado tanto das duas formas de esperança como agora, pois os tempos são maus e somos governados por forças poderosas do ódio, da exclusão, da falsidade, da violência e da mentira.

Que o Espírito que é esperança dos pobres não nos deixe desanimar mas nos acompanhe com sua Energia divina para sermos fiéis ao sonho de Jesus. Ele veio para nos ensinar a viver os bens do Reino: do amor, da justiça,da compaixão com os pobres, do perdão e da total confiança no poder de Deus, “apaixonado amante da vida”(Sb 11,2 6).

(Palestra dada no dia 2 de dezembro de 2018 em Belo Horizonte a um numeroso grupo de políticos que assumem a fé cristã como fonte de ética e de inspiração para os ideais democráticos, grupo este organizado pelo ex-deputado Durval Angelo de Andrade e atualmente membro do Tribunal de Contas do Governo de Minas Gerais)

N.E. O meu amigo L. Boff meteu-se a traduzir e publicar o livro mais cristão, depois das Cartas de S. Paulo, IMITAÇÃO DE CRISTO. Chama-lhe o seu 'Canto do Cisne'. Embora fale em “seguimento de Jesus”, é de Cristo que se trata. E da resignação a ter perante o sofrimento e a dor. Quando para Jesus, o de antes do cristianismo, o que urge é combater a dor e o sofrimento, bem como as suas causas históricas. Apesar de todo o seu percurso na trincheira, insiste em ver no papa Francisco o modelo de papa, como se algum agente histórico do Papado, intrinsecamente mau, pudesse ser bom. Esquece que o que é bom para o Papado é mau para os povos da Terra. Leiam esta breve entrevista ao diário italiano La Repubblica e confirmem

A IGREJA É DOS MÍSTICOS, NÃO DO PODER

O seu “canto do cisne”: assim é considerada, por ele mesmo, a tradução que Leonardo Boff, ex-frei franciscano e ex-presbítero brasileiro, renomado expoente da teologia da libertação, fez da “Imitação de Cristo”, de Tomás de Kempis. A um dos textos mais meditados depois do Evangelho e retraduzido a partir da edição da Tipografia Poliglota Vaticana, Boff acrescenta, “no ocaso da vida”, um quinto livro sobre o seguimento de Jesus. Entrevista de Paolo Rodari, em La Repubblica. Tradução de Moisés Sbardelotto /IHU. Eis.

Freud, Jung e Heidegger leram Tomás de Kempis refletindo sobre o tema do esvaziamento de si contra todo apego ao próprio eu. Há a necessidade disso hoje?

É um tema central e representa a atitude de Jesus que, ‘mesmo sendo de natureza divina’, despojou a si mesmo para ser igual a nós. Essa renúncia ao apego ao próprio eu é a primeira virtude do budismo e também do caminho espiritual cristão. E é o tema central do maior dos místicos do Ocidente, Mestre Eckhart, com o seu Abgeschiedenheit, a prática do desapego. Psicólogos como Freud e filósofos como Heidegger compreenderam essa necessidade de Tomás de Kempis. O desapego é o primeiro passo para o verdadeiro processo de individuação e de identidade pessoal. É isso que nos assegura o maior dom depois do amor, que é a liberdade interior.

O senhor escreve que seguir Jesus significa assumir a sua causa, correr os seus riscos e, eventualmente, aceitar o seu próprio destino trágico. O que isso significa?

É uma realidade testemunhada pela Igreja da libertação da América Latina sob os regimes militares em vários países. É esse tipo de Igreja que leva a sério a opção pelos pobres, que produziu e produz ainda hoje muitos mártires, entre leigos e leigas, padres e bispos, como Oscar Romero em El Salvador e Angelelli na Argentina.

A Igreja, em algumas de suas partes, parece ligada a uma visão imperialista/constantiniana, imersa na história e dedicada à conquista do poder. E Francisco, às vezes, aparece como um meteoro em um mundo que se esforça para manter o seu ritmo. O que o senhor acha?

Eu acho sinceramente que a Igreja-instituição, isto é, a Igreja como sociedade hierárquica, não se sente parte do povo de Deus como pedia o Concílio Vaticano II, mas fora e acima dele. Organizando-se não ao redor do conceito mais antigo de communio, de comunhão entre todos, mas ao redor do poder sagrado (sacra potestas), excludente porque concentrado apenas em algumas mãos. Esse tipo de Igreja caiu nas três tentações enfrentadas e superadas por Jesus: a do poder religioso de reformar o mundo a partir do templo; a tentação do poder profético de transformar as pedras em pão; e a tentação do poder político, dominar sobre todos os povos. Continuam atuais as palavras pronunciadas pelo católico Lord Acton em relação aos poderosos papas do Renascimento: “O poder tende a corromper, e o poder absoluto corrompe de modo absoluto”. E ainda mais pertinente é o que afirmava Hobbes a respeito do poder, que, dizia, se sustenta apenas sobre o “desejo incessante de ter cada vez mais poder”. Todas palavras que se concretizaram na história da Igreja, através de uma concentração enorme de poder unicamente nas mãos do clero, com a exclusão em particular das mulheres. Foi necessário um papa proveniente do fim do mundo, que escolheu o nome de Francisco, arquétipo da pobreza e da renúncia a todo poder, para mostrar como a hierarquia da Igreja deve se orientar com base no serviço (hierodulia), e não no poder sagrado (hierarquia).

O senhor sofreu um certo ostracismo de Roma?

Eu não guardei nenhum rancor pela punição que me foi infligida pelo silentium obsequiosum. Eu sabia que a teologia do poder sagrado operante na cabeça dos responsáveis do ex-Santo Ofício tornaria inevitável a minha condenação. Eu me sentia na verdade e tinha o apoio da Conferência dos Bispos do Brasil. Por isso, aceitei tranquilamente a imposição do “silêncio obsequioso”, depois suspenso por João Paulo II.

O Papa Bergoglio recebe várias críticas de setores conservadores da Igreja. Por quê?

Acho que os conservadores estavam acostumados a um papa faraó, com títulos e símbolos do poder herdados dos imperadores pagãos. Depois, de repente, chega um papa fora do quadro tradicional, que se despoja de todo esse aparato profano que afasta os fiéis e favorece a vaidade clerical. Eles não aceitam um papa que não provenha do seu velho e moribundo cristianismo. Francisco traz a atmosfera nova de Igrejas que não são mais o espelho das europeias, mas sim Igrejas-fontes, com a sua teologia, a sua pastoral dirigida especialmente aos mais pobres, a sua liturgia, o seu modo de louvar a Deus.

O senhor ainda se sente um filho da Igreja?

Sempre me senti dentro da Igreja Católica. No ocaso da vida – vou completar 80 anos em dezembro 14 – não me preocupo com o passado, mas volto os meus olhos à eternidade. Unir o meu nome, o de um theologus peregrinus, ao do genial Tomás de Kempis é para mim a maior honra. “Valeu a pena?”, perguntava-se Fernando Pessoa, o maior poeta português. Eu faço minha a sua mesma resposta: “Tudo vale a pena se a alma não é pequena”. Posso dizer que, com a graça de Deus, tentei fazer com que a minha alma não fosse pequena.

Edição 142 Novembro 2018

DIA DA CONSCIÊNCIA NEGRA:
LAMENTO DE CATIVEIRO E DE LIBERTAÇÃO

N.E. O Texto é belo, mas fundado na Bíblia e no cristianismo. O Autor insiste em identificar o Cristou ou messias do cristianismo com Jesus, o filho de Maria, o de antes do cristianismo. Nada que estes dois mil anos de cristianismo não tenham igualmente feito. Para mal da Humanidade. Porque só o Humano Jesus Nazaré é universalizável. Não o mítico Cristo nem a Bíblia judeo-cristã. Fica, pois, o indispensável alerta. Inclusive, para o meu querido amigo L. Boff

A Paixão de Cristo continua pelos séculos afora no corpo dos crucificados. Jesus agonizará até o fim do mundo, enquanto houver um único de seus irmãos e irmãs que esteja ainda pendendo de alguma cruz, à semelhança dos bodhisatwas budistas (os iluminados) que param no umbral do Nirvana para retornarem ao mundo da dor –samsara – em solidariedade com quem sofre, pessoas, animais e plantas. Nesta convinção, a Igreja Católica, na liturgia da Sexta-feira Santa, coloca na boca do Cristo estas palavras pungentes:

”Que te fiz, meu povo eleito? Dize em que te contristei! Que mais podia ter feito, em que foi que te faltei? Eu te fiz sair do Egito, com maná de alimentei. Preparei-te bela terrra, tu, a cruz para o teu rei”.

Celebrando a abolição da escravatura a 13 de maio de 1888, nos damos conta de que ela não foi completada ainda. A paixão de Cristo continua na paixão do povo negro. Falta a segunda abolição, da miséria e da fome. Ouvem-se ainda os ecos dos lamentos de cativeiro e de libertação, vindos das senzalas, hoje das favelas ao redor de nossas cidades. A população negra ainda nos fala em forma de lamento:

“Meu irmão branco, minha irmã branca, meu povo: que te fiz eu e em que te contristei? Responde-me!

Eu te inspirei a música carregada de banzo e o ritmo contagiante. Eu te ensinei como usar o bumbo, a cuica e o atabaque. Fui eu que te dei o rock e a ginga do samba. E tu tomaste do que era meu, fizeste nome e renome, acumulaste dinheiro com tuas composições e nada me devolveste.

Eu desci os morros, te mostrei um mundo de sonhos, de uma fraternidade sem barreiras. Eu criei mil fantasias multicores e te preparei a maior festa do mundo: dancei o carnaval para ti. E tu te alegraste e me aplaudiste de pé. Mas logo, logo, me esqueceste, reenviando-me ao morro, à favela, à realidade nua e crua do desemprego, da fome e da opressão.

Meu irmão branco, minha irmã branca, meu povo: que te fiz eu e em que te contristei? Responde-me!

Eu te dei em herança o prato do dia-a-dia, o feijão e o arroz. Dos restos que recebia, fiz a jeijoada, o vatapá, o efó e o acarajé: a cozinha típica do Brasil. E tu me deixas passar fome. E permites que minhas crianças morram famintas ou que seus cérebros sejam irremediavelmente afetados, infantilizando-as para sempre.

Eu fui arrancado violentamente de minha pátria africana. Conheci o navio-fantasma dos negreiros. Fui feito coisa, peça, escravo. Fui a mãe-preta para teus fihos. Cultivei os campos, plantei o fumo e a cana. Fiz todos os trabalhos. Fui eu que construi a belas igrejas que todos admiram e os palácios que os donos de escravos habitavam. E tu me chamas de preguiçoso e me prendes por vadiagem. Por causa da cor da minha pele me discriminas e me tratas ainda como se continuasse escravo.

Meu irmão branco, minha irmã branca, meu povo:que te fiz eu e em que te contristei? Responde-me!

Eu soube resistir, consegui fugir e fundar quilombos: sociedades fraternais, sem escravos, de gente pobre mas livre, negros, mestiços e brancos. Eu transmiti apesar do açoite em minhas costas, a cordialidade e a doçura à alma brasileira. E tu enviaste o capitão do moto para me caçar como bicho, arrasaste meus quilombos e ainda hoje impedes que a abolição da miséria que escraviza, seja para sempre verdade cotidiana e efetiva.

Eu te mostrei o que significa ser templo vivo de Deus. E, por isso, como sentir Deus no corpo cheio de axé e celebrá-lo no ritmo, na dança e nas comidas. E tu reprimiste minhas religiões chamando-as de ritos afro-brasileiros ou de simples folclore. Invadiste meus terreiros, jogando sal e destruindo nossos altares. Não raro, fizeste da macumba caso de polícia. A maioria dos jovens assassinados nas periferias, na idade entre 18 e 24 anos são negros, pelo fato de serem negros ou suspeitos de estarem a serviço das máfias da droga. A maioria deles são simples trabalhadores.

Meu irmão branco, minha irmã branca, meu povo:que te fiz eu e em que te contristei? Responde-me!

Quando com muito esforço e sacrifício consegui ascender um pouco na vida, ganhando um salário suado, comprando minha casinha, educando meus filhos, cantando o meu samba, torcendo pelo meu time de estimação e podendo tomar no fim de semana uma cervejinha com os amigos, tu dizes que sou um negro de alma branca diminuindo assim o valor de nossa alma de negros dignos e trabalhadores. E nos concursos em igual condição quase sempre tu decides em favor de um branco.

E quando se pensaram políticas que reparassem a perversidade histórica, permitindo-me o que sempre me negaste, estudar e me formar nas universidades e nas escolas técnicas assim melhorar minha vida e de minha família, a maioria dos teus grita: é contra a constituição, é uma discriminação, é uma injustiça social.

Meu irmão branco, minha irmã branca, meu povo: Que te fiz eu e em que te contristei? Responde-me!”

Meus irmãos e irmãs negros, nesse dia 20 de novembro, dia de Zumbi e da consciência negra quero homenagear todos vocês que conseguiram sobreviver porque a alegria, a música e da dança está dentro de vocês, apesar de toda a via-sacra de sofrimentos que injustamente lhes são impostos.

Com muito axé e amorosidade

Leonardo Boff branco, mas negro por opção.

A LEGITIMAÇÃO DA CULTURA DA VIOLÊNCIA PELA PREGAÇÃO DE BOLSONARO

A campanha eleitoral de Jair Bolsonaro para a presidência de República se caracterizou pela pregação de muito ódio, exaltação da violência a ponto de ter como herói um dos mais perversos torturadores, Brilhante Ustra e admirar a figura de Hitler. Fez ameaças aos opositores que não teriam outra alternativa senão a prisão ou o exílio. Pregou ódio a homoafetivos, aos negros e negras e aos indígenas. O Movimento dos Sem Terra e dos Sem Teto seriam considerados terroristas e como tal tratados. Os quilombolas nem serviriam para reprodução. Foram ofensas sobre ofensas a vários grupos de pessoas e minorias políticas. Talvez a maior desumanidade mostrou quando disse às mães chorosas que procuravam corpos e ossos de seus entes queridos desaparecidos pela repressão por parte dos órgãos de controle e repressão da ditadura militar: “quem procura ossos são os cães”, Bolsonaro disse.

Este foi o discurso da campanha. Outro está sendo o discurso como presidente eleito, dentro de um certo rito oficial. Mesmo assim continua com as distorções e com uma linguagem tosca fora da civilidade democrática. Tudo culminou com a saída de 8.500 médicos cubanos que atendiam as populações mais afastadas de nosso país. Era um protesto do governo cubano face às acusações de Bolsonaro à Cuba, pois é um obsessivo anti-comunista.

A atmosfera tóxica criada pela campanha eleitoral acabou por gestar uma cultura da violência nos seus seguidores, exaltando-o como “mito”. Vários do LGBT especialmente os homoafetivos, negros e indígenas sofreram já violência. Houve até mortes gratuitas aos gritos de “Viva Bolsonaro”.

Que quer sinalisar este fenômeno de violência? Bolsonaro mediante metáforas ponderosas como contra a corrução, o anti-Petismo, o comunismo, o tema da segurança pública e o da família e o lema fundamental “Brasil acima de tudo”(tomado do nazismo “Deutschland über alles”) e Deus acima de todos”, conseguiu desentranhar a dimensão perversa presente na “cordialidade do brasileiro”

Esta expressão “cordialidade do brasileiro”criada pelo escritor Ribeiro Couto e consagrada por Sérgio Buarque de Holanda (cf.V.capítulo de Raizes do Brasil de 1936) é bem explicada por ele e pode significar, por um lado, bondade e polidez e, por outro, também rancor e ódio. Ambas as dimensões provém do mesmo coração donde se deviva “cordialidade”. Sérgio Buarque exemplifica: “a inimizade bem pode ser cordial como a amizade, visto que uma e outra nascem do coração”(p.107). Bolsonaro e seus mais próximos seguidores habilmente souberam tirar à tona este outro lado sombrio de nossa cordialidade. Recalcou o lado luminoso e deixou que o lado maligno inundasse a consciência de milhares de pessoas.

Esse lado nefasto estava escondido e reprimido na alma do brasileiro. Sempre houve ódio e maldade face aos antigos escravos negros cujos descententes são 55,4% de nossa população atual. Isso o mostrou brilhantemente Jessé Souza no seu livro já famoso “A elite do atraso: da escravidão ao Lava-Jato”(2018). Mas era de parte dos representantes antigos e atuais da Casa Grande. A maioria da imprensa empresarial e conservadora e particularmente as mídias sociais da internet universalizaram essa compreensão negativa.

Aconselho ao leitor/a que volte a reler meu artigo de 5/11/18:”A dimensão perversa da ‘cordialidade’ brasileira”. Ai, com mais recursos teóricos, procuro fazer entender esse lado sombrio de nossa tradição cultural.

Qual é o dado específico da atual hostilidade, o lado negativo de nossa cordialidade? É o fato de que ele, que sempre existia, agora se sente legitimado pela mais alta instância política do país, por Jair Bolsonaro. Ele despertou esse lado dia-bólico e reprimiu o lado sim-bólico em muitos de nosso povo que lhe deram a vitória eleitoral.

Não adianta o futuro presidente condenar os eventuais atos de violência, pois se desmoralizaria totalmente caso os tolerasse. Mas convenhamos: foi ele que criou as condições psico-sociais para que ela irrompesse. Ele está na origem e, historicamente, deve ser responsabilizado, por ter despertado esse ódio e violência. Ela prossegue nas midias sociais, nos twitters, blogs e facebooks.

Nenhuma sociedade se sustenta sobre essa dimensão desumana de nossa humanidade. Para conter esse impulso negativo que está em todos nós, existem a civilização, as religiões, os preceitos éticos, os contratos sociais, a constituição, as leis e o auto-controle. Existem também os órgãos que zelam pela ordem e pela contenção de formas criminosas de cordialidade.

Urgentemente precisamos de pessoas-sínteses, capazes de apaziguar os demônios e fazer prevalecer os anjos bons que nos protejam e nos apontem os caminhos da convivência pacífica. Não será Bolsonaro, a pessoa indicada. Mas as sombras existem porque há luz. E é esta que deve triunfar e fazer ditosa a nossa convivência nesse belo e imenso país.

Edição 140 Setembro 2018

MANIFESTO EM FAVOR DA DEMOCRACIA

Vivemos momentos dramáticos de nossa história pátria onde a democracia, mesmo de baixa ntensidade, se encontra profundamente ameaçada por um candidato que representa idéias fascistas, ditadoriais até de exaltação da tortura: Jair Bolsonaro. Não podemos regredir aos tempos sombrios dos anos da ditadura militar. O mundo atual não tolera mais este tipo de extremismo aterrador para os mais pobres e minorias e para a população em geral. Publicamos aqui um manifesto com milhares de assinaturas, supra-partidário, em favor da democracia e contra qualquer tipo de violência vinda do Estado, caso o referido candidato vier vencer o segundo turno. Recusamo-nos aceitar que o Brasil venha a ser considerado pela comunidade internacional como um pais politicamente pária. LBoff

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O Fórum 21: Ideias para o Avanço Social lançou manifesto que pede a união do campo democrático, no segundo turno das eleições presidenciais, pela revogação das medidas do governo Temer e a retomada do desenvolvimento e da soberania nacional. Coletivo de esquerda, de caráter suprapartidário. O manifesto já tinha mais de 5 mil assinaturas no final da manhã de terça (25), entre as quais as de personalidades como o compositor Chico Buarque, o ex-ministro Celso Amorim, os professores Ladislau Dowbor, Eduardo Fagnani e Fábio Konder Comparato, o teólogo Leonardo Boff, a filósofa Marilena Chaui e o diplomata Samuel Pinheiro Guimarães. Leia a íntegra do texto.

Pela vitória da resistência. Contra o Golpe. Eleições livres para um Brasil livre

O Brasil vive hoje um momento dramático, certamente o mais dramático desde o final da ditadura militar. Há quatro anos, inconformadas com a derrota eleitoral, as forças conservadoras de nossa sociedade utilizaram todos os recursos para anular esse resultado e provocar a paralisia do governo até levá-lo a um impeachment. Rapidamente começaram a mostrar seu verdadeiro objetivo: o governo de ocupação impôs grandes derrotas ao povo. Atropelou direitos civis e democráticos, aboliu direitos sociais, abortou o desenvolvimento econômico e solapou a soberania nacional.

Chegada a hora do julgamento popular, o que eles têm a mostrar é uma economia paralisada, com desemprego, inseguranças de todo tipo e o sentimento generalizado de ameaça a qualquer futuro promissor para o país. De resto, não se trata apenas do Brasil. Há sinais muito claros de estímulo externo a soluções de força em toda a América Latina, a começar pela Venezuela.

As forças conservadoras não têm o que oferecer aos cidadãos, conquistando apoio pelo voto. Agora, diante do derretimento das candidaturas “moderadas” da coligação golpista, esses interesses jogam todas as suas cartas em apoio ao que há de mais abjeto e perigoso no campo da política: uma candidatura não apenas conservadora, mas uma porta de entrada para um regime de terror, de ditadura com cores fascistas. Não apenas o capitão candidato, mas vários militares na ativa e na reserva têm indicado a preparação da opinião pública para uma saída fardada à crise política.

Nesta eleição existem muitos candidatos, mas apenas dois lados. O lado do golpe e o lado da resistência, que hoje abriga três candidaturas diferentes, mas uma trincheira em comum.

Coletivo de esquerda, de caráter suprapartidário, o Fórum 21 reitera o compromisso de empenhar-se pela unidade do campo democrático, seja qual for o candidato que o representará no segundo turno. Ainda que a maioria de seus integrantes tenha desde logo apoiado a chapa encabeçada por Fernando Haddad e Manuela D’Ávila. O que está em jogo, no momento, é mais do que uma presidência, é a própria sobrevivência de qualquer ambiente democrático.

Essa trincheira de unidade das forças de resistência precisa ter como objetivo grandes bandeiras de reconstrução do país:

– Revogação de todas as medidas antipovo do governo Temer. Chega de políticas de austeridade e desemprego para os debaixo e regalias para os de cima,

– Enfrentar o desmonte do Estado que tem devastado as políticas de educação e saúde, levando insegurança para os trabalhadores e suas famílias.

– Enfrentar a promoção do desenvolvimento e a redução das desigualdades, com a democratização da propriedade da terra, o acesso à moradia, à saúde, à educação e à segurança, em todas as suas dimensões.

– Retomar a soberania nacional sobre nossos recursos e nossos direitos. O petróleo é nosso, o Brasil é nosso. Chega de privatizar e desnacionalizar o patrimônio público.

– Colocar o Brasil de novo no cenário internacional, deixando a atitude de colônia submissa a que foi conduzida pela política externa vende-pátria do governo de ocupação.

Sob pena de serem engolidas pelo cerco conservador, as diferentes correntes progressistas estão quase condenadas a fomentar a organização de movimentos de base, nos locais de trabalho, nas escolas, movimentos sociais, comunidades. Não apenas para conquistar a presidência, mas para garantir um congresso responsável que apoie esse projeto. Não apenas para o combate eleitoral, mas para dar sustentação a mudanças políticas que o novo governo popular precisará implementar para desmontar o retrocesso já operado pelas forças do golpe. Um novo governo, que enfrente o estrago produzido pelo golpe e as ameaças já existentes de nova intervenção, precisa se apoiar na mobilização e no protagonismo popular. O Brasil tem que ser governado pelo voto e pela vontade do povo, não de ditadores, usem a farda dos generais, a toga dos juízes ou o monopólio da comunicação.

25 de Setembro de 2018

UM PROBLEMA NUNCA RESOLVIDO: O SOFRIMENTO DOS INOCENTES

N.D. Perante situações de sofrimento humano, Jesus nunca se pergunta, De quem é a culpa? Tão pouco busca explicações para elas. Perante situações de sofrimento, Jesus actua de imediato contra elas e sobretudo contra as causas históricas, todas da nossa responsabilidade colectiva, que as provocam. E as situações de sofrimento desaparecem. O mais trágico é que por trás das situações de sofrimento dos inocentes está sempre uma determinada concepção de Deus que as justifica. Precisamente, a concepção de Deus, presente em todos os livros sagrados. Com destaque para a Bíblia judeo-cristã e o Alcorão. Ou seja: a concepção de Deus de todas as religiões, particularmente, as do Livro. É pena que nem o meu amigo L.Boff veja. É cristão. Deveria ser de Jesus.

Acompanhando a crescente violência no Brasil e verdadeiros massacres de indígenas e de pobres nas periferias e mais ainda, viajando, recentemente pela América Central fiquei impressionado em El Salvador, Guatemala, Nicaragua e outros países da região com os relatos de mssacres havidos no tempo das ditaduras militares,massacres de vilas inteiras, de catequistas ou de camponeses que tinham a Bíblia em casa. O que houve entre nós, na Argentina e no Chile durante o tempo assassino sob a égide das forças militares é também de estarrecer.

Atualmente, dada a crise econômico-financeira há milhões passando fome, crianças famélicas definhando e gente na rua pedindo centavos para comer qualquer coisa. Mas o que mais dói é o sofrimento dos inocentes. Também dos milhões de pobres e miseráveis que sofrem as consequências de políticas econônomicas e financeiras sobre as quais não têm nenhuma influência. Mas são vítimas inocentes, cujo grito de dor sobe ao céu. Dizem as Escrituras do Primeiro e do Segundo Testamento que Deus escuta seus gritos. Um dos profetas chega a dizer que as blasfêmias que proferem por causa da dor, Deus as escuta como súplicas.

Nesse momento há um manto de dor que cobre todo nosso país, com alguma esperança de que as eleições nos tragam líderes cujas políticas sociais façam o povo sofrer menos ou não mais sofrer e até de voltar a sorrir. Bem haja!

Mas o sofrimento dos inocentes é um eterno problema para a filosofia e principalmente para a teologia.Sejamos sinceros: até hoje não identificamos nenhuma resposta satisfatória por mais que grandes nomes, desde Agostinho, Tomás de Aquino, Leibnitz até Gustavo Gutiérrez entre nós, tentassem elaborar uma teodicéia, quer dizer, um esforço de não ligar Deus ao sofrimento humano. A culpa estaria apenas do nosso lado. Mas em vão, pois o sofrimento continua e a pergunta permanece irrespondível.

Talvez o primeiro a formular a questão, sempre repetida pelos grandes pensadores como Russel, Toynbee e outros, foi formulada por Epicuro (341-270 a.C) e recolhida por Lactâncio.um cristão e conselheiro de Constantino (240-320 a.C) em seu tratado sobre A ira de Deus.A questão se põe assim: Ou Deus quer eliminar o mal mas não pode, deixa de ser onipotente e já não é Deus. Ou Deus pode suprimir o mal e não o quer, então não é bom e deixa de ser Deus e se transforma num demônio. Em ambos os casos fica a pergunta: de onde vem o mal?

O judeo-cristianismo responde que vem do pecado humano (original ou não) e somos os produtores de Auschwizt e de Ayachucho e os grandes massacres dos colonizadores ibéricos no nosso Continente. Mas a resposta não convence. Se Deus previu o pecado e não criou condições para evitá-lo é sinal que não é bom. Porém se fez todo o possível para evitar o pecado e não o conseguiu então é prova de que não é onipotente. Em ambos os casos não seria Deus.

E asim caimos na mesma questão de Epicuro.As teólogas eco-feministas criticam essa formulação entre impotência e falta de bondade como patriarcal e machista, pois tais atributos de onipotência e bondade seriam atributos masculinos. O feminino sente e pensa diferente, bem na linha dos profetas e de Jesus. Estes criticavam uma religião sacrificial em nome da misericórdia:”quero misericórdia e não sacrifícios” soa na boca deles. A mulher está ligada à vida, à misericórdia para com quem sofre e sabe melhor identificar-se com as vítimas.

Argumenta-se então: Deus é tão bom e onipotente que pode renunciar a tais prerrogativas (deixa de ser o “Deus” das religiões convencionais) e se faz ele mesmo um sofredor, vai para o exílio com o povo, é perseguido e por fim é crucificado em seu Filho Jesus. Comentava D.Bonhöffer, o teólogo que participou do atentado contra Hitler e foi enforcado:”Só um Deus sofredor nos pode ajudar”. Talvez por aqui nos venha alguma luz bruxoleante. Quem sabe entendamos alguma coisa do mal, quando o combatemos pelo caminho do bem.

Se não temos resposta para o mal apenas sabemos agora que nunca estamos sós no sofrimento.Deus sofre junto. O terrível do sofrimento é a solidão, a mão que se nega de se pôr no ombro, a palavra consoladora que falta. Ai o sofrimento é completo.

Não há resposta para o sofrimento dos inocentes nem para o mal. Se houvesse. o sofrimento e o mal desapareciam. Eles continuam aí fazendo sua obra perversa. Quem nos salvará? São Paulo, confiante, responde:”é só na esperança que seremos salvos”.

Mas como tarda a se realizar esta esperança!

SÓ UM NORDESTINO RESISTIU AO FOGO NO MUSEU NACIONAL

Roberto Malvezzi (Gogó) é sempre surpreendente. Trabalha no sertão junto ao rio São Francisco como assessor de movimentos sociais. Fez filosofia, teologia e é leigo, um excelente analista de nossa realidade na ótica das vítimas. Em El Salvador, San Salvador, nos inícios de setembro de 2018 fez diante de 600 participantes do III.Congresso de Teologia Continental, uma das mais brilhantes palestras: como conviver com o semi-árido, como as mais de um milhão de cisternas de captação de água têm salvo a vida dos nordestinos daquela região. Aqui vai um pequeno relato simbólico do que seja o Brasil em seu naufrágio mas também em sua capacidade de resistência. Vamos ser como o meteorito de 5 toneladas que resistiu ao fogo, como resistirá o povo brasileiro ao assalto que as oligarquias e os endinheirados continuam fazendo contra os milhões de irmãos e irmãs nossos, pobres e expoliados de direitos. Eis.

Quem vem ao sertão da Bahia, região de Canudos, vai encontrar Bendegó. Ali caiu um meteorito de ferro maciço. Em Bendegó, num espaço muito pequeno está o meteorito que caiu do céu, vindo do espaço, como um ET. Pesando mais de 5 toneladas, foi encontrado ainda no século XVIII.

Entretanto, em Bendegó está apenas uma réplica do verdadeiro meteorito, esse levado para o Rio de Janeiro, ao Museu Nacional, A réplica do meteorito está num pequeno museu em Monte Santo, na esquina da matriz, onde começa a via-sacra construída por Conselheiro, subindo o Monte Santo por uns 2 km. Antigamente tudo era Monte Santo na região, inclusive como sede do Exército que atacou Canudos. Canudos era fazenda de Monte Santo. Bendengó era também território de Monte Santo, mas hoje, pelos desmembramentos, está em território de Uauá.

No incêndio que torrou o Museu nem Luzia, nossa matriarca, resistiu. Mas o meteorito de Bendegó escapou ileso.

Esse país está sendo torrado por um golpe de Estado. Rompeu não somente com nossos direitos básicos, mas com todas as regras civilizadas de convivência de um povo.

É bom lembrar que 360 deputados, 60 senadores, 11 juízes do Supremo Tribunal Federal, um juiz de primeira instância, com seus compadres de um tribunal superior, o empresariado nacional e internacional, banqueiros e uma velha mídia, todos secundados por generais, estabeleceram essa aberração que é o Brasil contemporâneo.

Entretanto, um Nordestino resistiu. Quiseram torra-lo de todas as formas, mas os incendiários viraram cinzas e ele continua cada vez mais forte, como se fosse de ferro, imune ao fogo, como se fosse um ET.

E ele não se chama Bendegó.

RESGATAR A DEMOCRACIA MÍNIMA CONTRA O “ESTADO PÓS-DEMOCRÁTICO”

A democracia em nosso país e em geral no mundo está em perigosa erosão. O Juiz de Direito no Rio de Janeiro e Prof. universitário Rubens Casara, foi um dos primeiros a denunciar o surgimento de um “Estado pós-democrático” vale dizer, um “Estado”(que se assim ainda podemos chamar) que rompe com o pacto social configurado na constituição e pelas leis e se rege pelo autoritarismo, pelo arbítrio e pela violência em relacão para com a sociedade, especialmente para com os mais vulneráveis. No Brasil isso está lentamente acontecendo. Um STF sem grandeza e alheio à gravidade do que está ocorrendo, deixa tudo passar, até a violação do sagrado preceito da presunção da inocência até a comprovação da materialidade do crime (caso Lula).

A luta agora é reconquistar a democracia, mesmo a de baixa intensidade, para evitar a dissolução do laço social que nos permite minimamente conviver. Caso contrário, entraremos no caos e na barbárie como se nota em alguns lugares no Brasil de grande violência.

Não deixaremos de reclamar, como o fazem os movimentos sociais de base, uma democracria participativa e popular ou uma democracia comunitária que os andinos nos estão ensinando com o seu ideal do “bem-viver e do bem-conviver”, inaugurando pela primeira vez no mundo o constitucionalismo ecológico, ao inserer na Lei Maior os direitos da natureza e da Mãe Terra (Pacha-Mama). Com isso antecipam o que será seguramente o novo pacto natural articulado com o social da futura sociedade mundial se não a destruirmos antes.

Recordaremos sempre as lições do grande jurista e filósofo Norberto Bobbio com sua democracia como valor universal a ser vivido na família, na ocmunidade, na escola, nos sindicatos,nos partidos e no Estado. Morreu com uma profunda frustração face à violência do terrorismo, até do Estado, nos USA.

Não podemos perder o sonho do grande amigo do Brasil Boaventura de Souza Santos com sua Democracia sem fim. Ela é sem fim porque é um projeto aberto que sempre pode ser enriquecido quanto maior for a participação humana e a responsabilização que os cidadãos vão assumindo na construção do bem comum e do bem viver e conviver e redefinirem suas relações para com a natureza na forma de sinergia, de cooperação e de cuidado.

Ademais, a democracia, como sistema aberto faz com que poderemos estar caminhando rumo a uma superdemocracia planetária nas palavras do grande assessor de Mitterand, Jacques Attali (cf. Uma breve historia do futuro, 2008) Essa forma de democracia será a alternativa salvadora face a um superconflito que, deixado em livre curso, poderá pòr em risco a permanência da espécie humana.. Esta superdemocracia resultará de uma consciência planetária coletiva que se dá conta da unidade da espécie humana, morando numa única Casa Comum, no planeta Terra, pequeno, com bens e serviço naturais escassos, superconsumista e superpovoado e ameaçado pelas mudanças climáticas que estão afetando a biosfera, a biodiversiade e a nós próprios.

A Carta da Terra utiliiza duas expressões que assinalam o novo paradigma de civilização: alcançar “um modo de vida sustentável“(n.14) e “a subsistência sustentável de todos os seres”. Aqui emerge um design ecológico, quer dizer, uma outra forma de organizar a relação com a natureza, o fluxo das energias e as formas de produção e de consumo que atendam as necessidades humanas, que nos permitem ser mais com menos e que favoreçam a regeneração da vitalidade da Terra.

Por fim, eu por minha parte, fruto dos estudos em cosmologia e ecologia, tenho proposto uma democracia sócio-ecológica que representaria o ponto mais avançado da integração do ser humano com a natureza. Ela se inscreveria dentro do novo paradigma cosmológico que vê a unidade do processo cosmogênico dentro do qual se situa também a natureza e a sociedade e cada pessoa individualmente.

Será uma civilização biocentrada que devolverá o equilíbrio perdido à Mãe Terra e garantirá o futuro de nossa civilização. Todos e a natureza inteira seremos cidadãos, habitando cuidadosa e jovialmente a Casa Comum.

CRISE POLÍTICA E DESESPERANÇA GERAL

Um dos efeitos perversos de nossa crise nacional é sem dúvida a desesperança que está contaminando a maioria das pessoas. Ela se manifesta pela angústia de não ver nenhum horizonte do qual se possa vislumbrar um solução salvadora. Emerge a sociedade do consaço e da perda da alegria de viver.

São as consequências da ausência de sentido, de que tudo vai continuar na mesma lógica, feita de corrupção, falsificação das notícias (fakenews) e daí da realidade, maledicência generalizada, a dominação dos poderosos sobre as massas entregues à sua própria sorte.

Tal desolação alcança também a percepção do futuro de nosso mundo e da humanidade, pouco importa o que possa ocorrer. Bem observou o Papa Francisco em sua encíclica “sobre o cuidado da Casa Comum”: ”As previsões catastróficas já não se podem olhar com desprezo e ironia. Para as próximas gerações poderíamos deixar demasiadas ruínas, desertos e lixo. O estilo de vida atual, por ser insustentável, só pode desembocar em catástrofes”(n.161). Mas quem pensa nisso a não ser quem acompanha o discurso ecológico mundial?

Portanto, além das múltiplas crises sob as quais sofremos, temos ainda esta sombria de natureza ecológica.

Neste contexto voltam os pensamentos de coloração niilista como o do Nobel em biologia Jacques Monod:”É supérfluo buscar um sentido objetivo da existência. Ele simplesmente não existe. Os deuses estão mortos e o homem está só no mundo” ( O acaso e a necessidade, Vozes 1979, p.108). Ou o famoso C. Levy-Straus que tanto amava o Brasil deixou escrito no seu admirável ”Tristes trópicos” (1955):”O mundo começou sem o homem e terminará sem ele. As instituições e os costumes que eu teria passado a vida inteira a inventariar e a compreender, são uma eflorescência passageira de uma criação em relação com a qual elas não têm sentido, senão, talvez, aquele que permite à humanidade a desempenhar o seu papel”(p.477).

Mas será que o ser humano não é o inverso de um relógio? Este funciona em si mesmo e anda conforme seu mecanismos internos. O ser humano não é um relógio. Ela anda bem quando estiver em sintonia permanente com o Todo que o envolve por todos lados e está para além dele mesmo. Portanto, temos que deixar de lado todo antropocentrismo e assumirmos uma leitura mais holística do sentido da vida.

Diferentemente pensava o físico britânico Freeman Dyson (*1923):”quanto mais examino o universo e os detalhes de sua arquitetura, mais acho evidências de que o universo sabia que um dia, lá na frente, nós seres humanos, iríamos surgir”(Disturbing the Universe, 1979, p. 250). Quase com as mesmas palavras o diz talvez o maior cosmólogo atual, Brian Swimme (The Universe Story,1996 p.84).

As tradições espirituais e religiosas são um hino ao sentido da vida e do mundo. Por isso observava o grande estudioso das utopias Ernst Bloch em seus dois grossos volumes O princípio esperança: “Onde há religião aí há sempre esperança”.

A questão do sentido é inadiável. Cito aqui o mais critico dos filósofos Immanuel Kant:”Que o espírito humano abandone definitivamente as interrogações metafísicas (do sentido do ser e da existência) é tão inverosímil quanto esperar que nós para não respirar um ar poluído, deixássemos, uma vez por todas, de respirar”(Prolegomena zu einer jede künftigen Metaphysik, A 192, vol.3 p.243).

Porque o Cristo do Corcovado se escondeu atrás das nuvens, não significa que tenha deixado de existir. Ele está lá no alto da montanha estendendo seus braços e abençoando a nossa sofrida população.

No Brasil de hoje devemos recuperar a esperança de que o legado final da presente crise será a configuração de um outro tipo de Estado, de política, de partidos, de justiça e do próprio destino do país.

Termino com o profeta Jeremias que viveu no tempo do cativeiro babilônico sob o rei Ciro. Os habitantes da Babilônia zombavam dos judeus porque já não cantavam suas canções e, desanimados, dependuravam seus instrumentos nos galhos dos cicómoros. Perguntaram a Jeremias:”Você tem esperança”? Ao que ele respondeu: “eu tenho esperança de que o rei Ciro com todo o seu poder não poderá impedir o nascimento do sol”. E eu acrescentaria não poderá impedir o amor e as crianças que daí nascerem e renovarem a espécie humana.

Semelhante esperança alimentamos nós de que aqueles que provocaram esta crise, rasgaram a Constituição e não seguiram os ditames da justiça não prevalecerão. Sairemos mais purificados, mais fortes e com um sentido maior do destino a que nosso país está chamado em benefício para todos, a começar para os mais pobres e para a inteira humanidade

Edição 139 Junho 2018

O PESO KÁRMICO DA HISTÓRIA DO BRASIL

A amplitude da crise brasileira é de tal gravidade que nos faltam categorias para elucidá-la. Tentando ir além das clássicas abordagens da sociologia crítica ou da história, tenho-me valido da capacidade elucidativa das categorias psicanalíticas da “sombra”e da “luz” generalizadas como constantes antropológicas, pessoais e coletivas. Ensaiei uma compreensão possível que nos vêm da teoria do caos, capítulo importante da nova cosmologia, pois deste caos, em situação de altíssima complexidade e jogo de relações, irrompeu a vida que conhecemos, inclusive a nossa. Esta mostrou-se capaz de identificar aquela Energia Poderosa e Amorosa que tudo sustenta, o Princípio Gerador de todos os Seres e abrir-se a Ele em veneração e respeito.

Pergunto-me que outra categoria estaria no repositório da sabedoria humana que nos poderia trazer alguma luz nas trevas nas quais estamos todos mergulhados. Foi então que me lembrei de um diálogo instigante entre o grande historiador inglês Arnold Toynbee e Daisaku Ikeda, eminente filósofo japonês (cf. Elige la vida, Emecé. B.Aires 2005) que durou vários dias em Londres. Ambos creem na realidade do karma, seja pessoal, seja coletivo. Prescindindo das várias interpretações dadas a ele, me parecia ter encontrado aqui aqui uma categoria da mais alta ancestralidade, manejada pelo budismo, hinduismo, jainismo e também pelo espiritismo para explicar fenómenos pessoais e coletivos.

O karma é um termo sânscrito originalmente significando força e movimento, concentrado na palavra “ação” que provocava sua correspondente “re-ação”. Este aspecto coletivo pareceu-me importante, por que, não conheço (posso estar equivocado) no ocidente nenhuma categoria conceptual que dê conta de um sentido de devir histórico de toda uma comunidade e de suas instituições nas suas dimensões positivas e negativas. Talvez, devido ao arraigado individualismo, típico do Ocidente, não tenhamos tido as condições de projetarmos um conceito suficientemente abrangente.

Cada pessoa é marcada pelas ações que praticou em vida. Essa ação não se restringe à pessoa mas conota todo o ambiente. Trata-se de uma espécie de conta-corrente ética cujo saldo está em constante mutação consoante as ações boas ou más que são feitas, vale dizer, os “débitos e os créditos”. Mesmo depois da morte, a pessoa, na crença budista, carrega esta conta por mais renascimentos possa ter, até zerar a conta negativa.

Toynbee dá-lhe outra versão que me parece esclarecedora e nos ajuda entender um pouco nossa história. A história é feita de redes relacionais dentro das quais está inserida cada pessoa, ligada com as que a precederam e com as presentes. Há um funcionamento kármico na história de um povo e de suas instituições consoante os níveis de bondade e justiça ou de maldade e injustiça que produziram ao largo do tempo. Este seria uma espécie de campo mórfico que permaneceria impregnando tudo.

Não se requer a hipótese dos muitos renascimentos porque a rede de vínculos garante a continuidade do destino de um povo (p.384). As realidades kármicas impregnam as instituições, as paisagens, configuram as pessoas e marcam o estilo singular de um povo. Esta força kármica atua na história, marcando os fatos benéficos ou maléficos. C.G.Jung em sua psicologia arquetípica notara, de alguma forma, tal fato.

Apliquemos esta lei kármica à nossa situação. Não será difícil reconhecer que somos portadores de um pesadíssimo karma, em grande escala, derivado do genocídio indígena, da super-exploração da força do trabalho escravo, das injustiças perpetradas contra grande parte da população, negra e mestiça, jogada na periferia, com famílias destruídas e corroídas pela fome e pelas doenças. A via-sacra de sofrimento desses nossos irmãos e irmãs tem mais estações do que aquela do Filho do Homem quando viveu e padeceu entre nós. Escusado é citar outras maldades.

Tanto Toynbee quanto Ikeda concordam nisso:”a sociedade moderna (nós incluídos) só pode ser curada de sua carga kármica, através de uma revolução espiritual no coração e na mente(p.159), na linha da justiça compensatória e de políticas sanadoras com instituições justas. Sem esta justiça mínima a carga kármica não se desfará. Mas ela sozinha não é suficiente. Faz-se mister o amor, a solidariedade a compaixão e uma profunda humanidade pra com as vítimas. O amor será o motor mais eficaz porque ele, no fundo “é a última realidade”(p.387). Uma sociedade incapaz de efetivamente amar e de ser menos malvada, jamais desconstruirá uma história tão marcada pelo karma. Eis o desafio que a atual crise nos suscita.

Não apregoaram outra coisa os mestres da humanidade, como Jesus, São Francisco, Dalai Lama, Gandhi, Luther King Jr e o Papa Francisco? Só o karma do bem redime a realidade da força kármica do mal.

E se o Brasil não fizer essa reversão kármica permanecerá de crise em crise, destruindo seu próprio futuro.

A CRISE BRASILEIRA À LUZ DA TEORIA DO CAOS

Já há muitos anos, cientistas vindos das ciências da vida e do universo começam a trabalhar com a categoria do caos. Inicialmente também Einstein participava-se da visão de que o universo era estático e regulado por leis determinísticas. Mas sempre escapavam alguns elementos que não se enquadravam neste esquema. Para harmonizar a teoria, Einstein criou o “princípio cosmológico” do qual mais tarde se arrependeria muito porque não explicava nada mas mantinha a teoria standard do universo linerar inalterada. Com o advento da nova cosmologia mudou completamente de ideia e começou a entender o mundo em processo ininterrupto de mutação e autocriação.

Tudo começou com a observação de fenómenos aleatórios como a formação das nuvens e particularmente o que se veio chamar de efeito borboleta (pequenas modificações iniciais, como farfalhar das asas de uma borboleta no Brasil, podem provocar uma tempestade em Nova York) e a constatação da crescente complexidade que está na raiz da emergência de formas de vida cada vez mais altas(cf.J.Gleick Caos: criação de uma nova ciência,1989).

O sentido é este: por detrás do caos presente se escondem dimensões de ordem. E vice-versa, por detrás da ordem se escondem dimensões de caos. Ilya Progrine (1917-2003), prémio Nobel de Química em 1977, estudou particularmente as condições que permitem a emergência da vida. Segundo este grande cientista, sempre que existir um sistema aberto, sempre que houver uma situação de caos, (longe do equiíbrio) e vigorar uma não-linearidade é a conectividade entre as partes que gera uma nova ordem vital (cf. Order out of Chaos,1984).

Esse processe conhece bifurcações e flutuações. Por isso a ordem nunca é dada a priori. Ela depende de vários fatores que a levam a uma direção ou à outra.

Fizemos toda esta reflexão sumaríssima (exigiria muitas páginas) para nos ajudar a entender melhor a crise brasileira. Inegavelmente vivemos numa situação de completo caos. Ninguém pode dizer para onde vamos. Há várias bifurcações. Caberá aos atores sociais determinar uma bifurcação que não represente a continuidade do passado que criou o caos. Sabemos que há oculto dentro dele uma ordem mais alta e melhor. Quem vai desentranhá-la e fazer superar o caos?

Aqui se trata, no meu modo de ler a crise, de liquidar o perverso legado da Casa Grande traduzida pelo rentismo e pelos poucos miliardários que controlam grande parte de nossas finanças. Esses são o maior obstáculo para superação da crise. Antes, eles ganham com ela. Não oferecem nenhum subsídio para superá-la. E possuem aliados fortes a começar pelo atual ocupante da Presidência e parte do Judiciário, pouco sensível à cruel injustiça social e à superação histórica dela.

Precisamos constituir uma frente ampla de forças progressistas e inimigas da neocolonização do país para desentranhar a nova ordem,abscôndita no caos atual mas que quer nascer. Temos que fazer esse parto mesmo que doloroso. Caso contrario, continuaremos reféns e vítimas daqueles que sempre pensaram corporativamente só em si, de costas e, como agora, contra o povo.

O caos nunca é só caótico. É gerador de nova ordem. O universo se originou de um tremendo caos inicial (big bang). A evolução se fez e se faz para colocar ordem neste caos. Devemos imitar o universo e construir uma nova ordem que seja includente de todos, a partir dos últimos.

90 ANOS DO FUNDADOR DA TEOLOGIA DA LIBERTAÇÃO:GUSTAVO GUTIÉRREZ

No dia 6 de junho em Lima foi celebrado em Lima no Peru, o 90 anos de Gustavo Gutiérrez, o primeiro a dar forma sistemática à Teologia da Libertação em 1971.É um descendente de indígenas, até aos 17 anos ficou em carrinho de rodas por causa de poliomelite, depois foi operado, possui uma perna bem mais curta que a outra. Vive com um pé no meios dos mais pobres e outro pé na reflexão teológica. Faz juz a uma homenagem que vem do mundo inteiro. Amigo de muitos anos, temos trabalhado juntos muitas vezes. Talvez o melhor dele seja a sua profunda espiritualidade de onde nasce seu engajamento para com aqueles que morrem antes do tempo e sua fecunda teologia. Aqui vai minha pequena homenagem, na língua materna dele:

Querido amigo y compañero en las tribulaciones y en las alegrías, Gustavo Gutiérrez.

Al llegar a tus 90 años, quiero antes de más nada, agradecer a Dios que nos ha dado tu existência y tu sevicio a los pobres, a la Iglesia y aún a la Humanidad. Juntos, el Espíritu nos ha permitido articular el discurso pertinente de la teología con el universo de los pobres y excluídos de nuestro Continente. De este encuentro nació una espiritualidad de los ojos abertos y de las manos operosas. Hemos podido participar de los dos mundos: del conociento teológico más lúcido y de la sabedoria de los humildes de la Tierra, en los cuales hemos encontrado y seguimos encontrando el Cristo crucificado que quiere resuscitar. Fuiste tú el primero a inaugurar este kairós del pensamento teológico y de la práctica que vienen bajo el nombre Teología de la Liberación.

Lo que escribiste son joyas del espíritu que honran a la inteligência de la fe y que magnifican la eminente dignidad de los hijos y hajas de la pobreza.

Por ti la humanidad puede orgullarse por que encontró un hijo suyo que amó la vida desde las victimas y se puso al servcio l de los que menos vida tienen.

Sé, que en esta altura de la vida, tu recuerdas los dias passados pero tienes los ojos volcados hacia la eternidad.

Recibe, querido y entrañable amigo, de tu amigo y compañero en las tribulaciones y mucho más en las alegrias, nuestro abrazo fraterno y los mejores votos por tu cumpleaños,por tus 90 años de vida, con nuestras plegárias delante del Señor. Lo hago en nombre de tantos amigos y amigas tuyos y mios de Brasil que siempre te hemos acompañado y aprendido tanto de ti.

Leonardo Boff, teologus peregrinus.

Petrópolis 31 de mayo, fiesta de Corpus Christi.

Lucia Helena Issa*

Carta aberta a Leonardo Boff

*Jornalista, escritora e ativista pela paz. Foi colaboradora da Folha de S.Paulo em Roma. Autora do livro “Quando amanhece na Sicília”. Pós- graduada em Linguagem, Simbologia e Semiótica pela Universidade de Roma e embaixadora da Paz por uma organização internacional. Atualmente, vive entre o Rio de Janeiro e o Oriente Médio.

Uma tristeza imensa me impulsiona a fazer a única coisa que consigo fazer em momentos de dor e em todos os outros.

A imagem permanece tatuada em mim. A imagem de um homem na casa dos 80 anos, cabelos brancos, uma barba longa e branca em um lindo contraste com o vermelho da camisa, sentado diante de um cárcere brasileiro, à espera de um sim que jamais chegou. Á espera de uma permissão formal e burocrática, ou quem sabe apenas de uma atitude humana para que ele pudesse apenas exercer sua humanidade. Para que pudesse abraçar um irmão.

Hoje vivo no Rio e sou uma escritora e jornalista que tem procurado dar voz às refugiadas e que acaba de voltar de um campo de refugiados na fronteira da Síria. Mas quem lhe escreve nesse momento, professor, não é a escritora, mas a menina que um dia fui e ainda sou.

Uma menina que, aos 14 anos de idade e muitas incertezas, leu um livro de Leonardo Boff. Uma menina que, nascida em uma classe social muito privilegiada, sentia não pertencer a sua classe e nem a nenhuma outra, sentia uma imensa culpa por ter vindo ao mundo com todas as chances e oportunidades em um país tão injusto e socialmente desigual como o nosso.

A culpa e a dúvida de que sua formação cristã, herdada de seus pais, pudesse levar a menina a fazer a diferença na vida de pessoas mais pobres a acompanharam por muitos anos.

Foi apenas com a sua obra que a menina que hoje lhe escreve, aprendeu que ela poderia, sim, sendo cristã, , dar voz às mulheres refugiadas, às mulheres agredidas cotidianamente e às crianças que estão sendo dizimadas por guerras promovidas por petróleo e não por democracia.

A menina que lhe escreve aprendeu com você que é possível acreditar numa teologia mais humana, mais próxima da vida cotidiana, uma teologia que seja filha da esperança e não do medo ou de um Deus responsável apenas por me punir.

A menina que lhe escreve aprendeu que pode lutar pela paz, pelo diálogo entre cristãos e muçulmanos, pelo respeito a todos os grupos religiosos, e pode fazer isso usando o próprio legado de Jesus, a escuta atenta, o cuidado com o outro, o amor pelas diferenças e a luta contra a hipocrisia dos vendilhões do templo, dos gurus que sequestraram o cristianismo em nome de interesses financeiros e poder.

A menina que lhe escreve aprendeu com você, professor, que era possível conciliar minha fé e minha razão questionadora, que por um momento acreditei serem antagônicas. A menina que lhe escreve aprendeu que é possível, usar a ciência, a antropologia e o saber social para denunciar os mecanismos de opressão que ameaçam a vida dos mais pobres, e também para tirar algumas pessoas de nosso convívio de sua imensa indiferença ética e moral em relação aos mais pobres do Brasil.

A menina que lhe escreve aprendeu com você que. apesar do discurso elitista de alguns padres que povoaram minha infância, a indiferença ou ódio aos pobres jamais foi e jamais será parte do legado de Jesus.

A menina que lhe escreve aprendeu com você a conhecer um Deus amoroso, que se manifesta nas lutas cotidianas, num campo de refugiados ou nas areias da Praia do Recreio e um Cristo cujo rosto eu vejo refletido em meu irmão todos os dias.

A menina que lhe escreve aprendeu com você que a verdadeira ética cristã, que deve nortear a minha luta, é uma ética libertadora e inclusiva, que se importa com a dimensão do humano e com o futuro do planeta, com os fabricantes de armas , com milhões de refugiados, e não uma ética cristã alheia aos problemas do mundo.

A menina que lhe escreve aprendeu com você que a hospitalidade ao outro é vital, é cristã e é necessária em tempos de guerras e crises migratórias. A hospitalidade é um dever de todos e um imperativo ético.

A menina que lhe escreve aprendeu com você que o reconhecimento do outro, o ouvir o outro, o cuidar solidário, a compaixão ( palavra que, em latim, significa sofrer com) são atitudes essenciais para que eu me defina como cristã, o resto é apenas hipocrisia ou uma forma de exercício de dominação social que nada a tem em comum com o cristianismo.

A menina que lhe escreve aprendeu com você que lutar pelo diálogo entre diferentes grupos religiosos e pela paz, como ela tem feito, jamais seria fácil pois a violência está em nosso país de várias formas. Além da violência interior de cada um, vivemos imersos em um meio social violento, na violência patriarcal, a violência que culpa a mulher pelo estupro sofrido, que pergunta a uma mulher com que roupa ela estava quando foi violentada, na violência policial que mata milhares de jovens negros por ano, na violência bélica que transforma crianças refugiadas muçulmanas em alvos de um genocídio sem fim e na violência de um capitalismo cada vez mais selvagem e mais predador, que parece ter perdido a chance de se transformar em um capitalismo mais humano.

A menina que lhe escreve aprendeu que a espiritualidade é mais importante do que a religião em si. A espiritualidade surge em mim quando sou capaz ver Deus nos pequenos milagres do cotidiano , no amor do outro, na minha filha e nas crianças refugiadas.

A menina que lhe escreve aprendeu com você que a ressurreição acontece todos os dias em nós e que existe um vínculo imenso entre a paixão de Cristo e o sofrimento humano, mas que o sofrimento de Cristo não tem como função legitimar as injustiças ou a opressão, mas pode ter a função de denunciar os mecanismos geradores de sofrimento e nos convidar a lutar.

A menina que lhe escreve, professor, gostaria de lhe contar que esteve em muitos lugares desse mundo em guerra, e descobriu que é nos lugares mais feios que vivem as pessoas mais bonitas.

A menina que lhe escreve gostaria de poder lhe abraçar e lhe dizer que , mesmo depois dos crepúsculos mais longos e das noites mais escuras, o amanhecer costuma voltar e trazer consigo a cor púrpura mais intensa.

Tenho muita esperança de que em breve você e o grande Nobel da Paz Pérez Esquivel irão poder abraçar um amigo. E tenho imensa gratidão, professor, por tudo o que aprendi com você.

Edição 138 Maio 2018

A crise brasileira e a dimensão de sombra

A crise brasileira generalizada, afetando todos os setores, pode ser interpretada por diferentes chaves de leitura. Até agora prevaleceram as interpretações sociológicas, políticas e históricas. Pretendo apresentar uma derivada das categorias de C.G.Jung com sua psicologia analítica pois é esclarecedora.

Avanço já a hipótese de que o atual cenário não representa uma tragédia, por mais perversas que continuam sendo as consequências para as maiorias pobres e para o futuro do país com o estabelecimento do teto de gastos (PEC 55). É mais que o congelamento de gastos, significa a impossibilidade de se criar um Estado Social e com isso jogar no lixo o bem comum que inclui a todos.

A tragédia, como mostram as as tragédias gregas, terminam sempre mal. Creio que não é o caso do Brasil. Estimo que estamos no centro de uma incomensurável crise dos fundamentos de nossa sociedade. A crise acrisola, purifica e permite um salto de qualidade rumo a um patamar mais alto de nosso devir histórico. Sairemos da crise melhores e com nossa identidade mais integrada.

Cada pessoa e também os povos revelam em sua história, entre outras, duas dimensões: a de sombra e a de luz. Outros falam de demens (demente) e sapiens (sapiente) ou da força do positivo e a força do negativo, da ordem do dia e da ordem da noite ou do thanatos (morte) e de eros (vida) ou do reprimido e do conscientizado. Todas estas dimensões sempre vêm juntas e coexistem em cada um.

A atual crise fez aparecer as sombras e o reprimido por séculos em nossa sociedade. Como observava Jung o “reconhecimento da sombra é indispensável para qualquer tipo de autorealização e, por isso, em geral, se confronta com considerável resistência”(Aion &14). A sombra é um arquétipo coletivo (imagem orientadora do insconsciente coletivo) de nossas nódoas e chagas e fatos repugnantes que procuramos ocultar porque nos causam vergonha e até despertam culpa. É o lado “sombrio da força vital”que atinge pessoas e inteiras nações, observa o psicólogo de Zurique.(&19).

Assim existem nódoas e chagas que constituem o nosso recalcado e a nossa sombra como o genocídio indígena em todo tempo de nossa história até hoje; a colonização que fez o Brasil não uma nação mas uma grande empresa internacionalizada de exportação e que, na verdade, continua até os dias atuais. Nunca pudemos criar um projeto próprio e autônomo porque sempre aceitamos ser dependentes ou fomos refreados. Quando começou a se formar, como nos últimos governos progressitas, logo foi atacado, caluniado e barrado por mais um golpe das classes endinheiradas, descendentes da Casa Grande, golpe sempre ocultado e reprimido como o de 1964 e a de 2016.

A escravidão é a nossa maior sombra pois durante séculos tratamos milhões de humanos trazidos à força de Àfrica como “peças”, compradas e vendidas. Uma vez libertos, nunca receberam qualquer compensção, nem terra, nem instrumentos de trabalho,nem casa; eles estão nas favelas das nossas cidades. Negros e mestiços constituem a maioria do povo. Como mostrou bem Jessé Souza, o desprezo e ódio jogado contra o escravo foi transferido aos seus descententes de hoje.

O povo em geral segundo Darcy Ribeiro e José Honório Rodrigo, são os que nos deram o melhor de nossa cultura, a língua e as artes mas, como Capistrano de Abreu bem sublinhava foi “capado e recapado, sangrado e ressangrado”, considerado um jeca-tatu, um ignorante e por isso colocado à margem de onde nunca deveria sair.

Paulo Prado em seu Retrato do Brasil :ensaio sobre a tristeza brasileira,1928) de forma exagerada mas, em parte, verdadeira, anota esta situação obscura de nossa história e conclui:”Vivemos tristes numa terra radiosa”(em Intérpretes do Brasil,vol.2 p.85). Isso me faz lembrar a frase de Celso Furtado que levou ao túmulo sem resposta: “Porque há tantos pobres num país tão rico?” Hoje sabemos: o porquê: fomos sempre dominados por elites que jamais tiveram um projeto Brasil para todos apenas para si e sua riqueza. Como é possível que 6 milhardários tenham mais riqueza que 100 milhões de brasileiros?

A atual crise fez irromper a nossa sombra. Descobrimos que somos racistas, preconceituosos, de uma injustiça social de clamar aos céus e que ainda não nos foi possível refundar um outro Brasil sobre outras bases, princípios e valores. Daí a difusão da raiva e da violência. Ela não vem das maiorias pobres. Vêm difundidas pelas elites dominantes, apoiadas por meios de comunicação que conformam o imaginário dos brasileiros com suas novelas e a desinformação. Para Jung “a totalidade que queremos não é uma perfeição, mas sim um ser completo”(Ab-reação,análise dos sonhos e transferência & 452) que integra e não recalca, a sombra numa dimensão maior de luz. É o que desejamos como saída da atual crise: não reprimir a sombra mas incluí-la, conscientizada, no nosso devir superando os antagonismos e as exclusões, para vivemos juntos no mesmo Brasil que Darcy Ribeiro costumava dizer ser:”a mais bela e ridente provincia da Terra”.

Texto de Marcelo Barros que L. Boff faz seu e divulga

Um monge visita Lula na prisão: a indignação profética de quem ama

Desde que a justiça liberou visitas religiosas, eu Dom Marcelo Barros, beneditino, fui o segundo a ter a graça de visitar o presidente Lula em sua prisão. (Quem abriu a fila foi Leonardo Boff na segunda-feira passada).

Eram exatamente 16 horas quando cheguei na dependência da Polícia Federal, onde o presidente está aprisionado. Encontrei-o sentado na mesa, devorando livros, entre os quais vários de espiritualidade, levados por Leonardo. Cumprimentou-me. Entreguei as muitas cartas e mensagens que levei, algumas com fotografias. (Mensagem do Seminário do Fé e Política, de um núcleo do Congresso do Povo na periferia do Recife, da ASA (Articulação do Semi-árido de Pernambuco) e de muitos amigos e amigas que mandaram mensagens. Ele olhou uma a uma com atenção e curiosidade. E depois concluiu:

– De saúde, estou bem, sereno e firme no que é meu projeto de vida que é servir ao povo brasileiro como atualmente tenho consciência de que eu posso e devo. Você veio me trazer um apoio espiritual. E o que eu preciso é como lidar cada dia com uma indignação imensa contra os bandidos responsáveis por essa armação política da qual sou vítima, ao mesmo tempo sem dar lugar ao ódio.

Respondi que, nos tempos do Nazismo, Etty Hillesum, jovem judia, condenada à morte, esperava a hora da execução em um campo de concentração. E, naquela situação, ela escreveu em seu diário: “Eles podem roubar tudo de nós, menos nossa humanidade. Nunca poderemos permitir que eles façam de nós cópias de si mesmos, prisioneiros do ódio e da intolerância”.

Vi que ele me escutava com atenção e acolhida. E ele começou a me contar a história de sua infância. Contou como, depois de se separar do marido, dona Lindu saiu do sertão de Pernambuco em um pau de arara com todos os filhos, dos quais ele (Lula) com cinco anos e uma menina com dois. Lembrou que quando era menino, por um tempo, ajudava o tio em uma venda. E queria provar um chiclete americano que tinha aparecido naqueles anos. Assim como na feira, queria experimentar uma maçã argentina que nunca havia provado. No entanto, nunca provou nem uma coisa nem outra para não envergonhar a mãe. E aí ele prosseguia com lágrimas nos olhos: Agora esses moleques vêm me chamar de ladrão. Eu passei oito anos na presidência. Nunca me permiti ir com Marisa a um restaurante de luxo, nunca fiz visitas de diplomacia na casa de ninguém… Fiquei ali trabalhando sem parar quase noite e dia… E agora, os caras me tratam dessa maneira…

Eu também estava emocionado. O que pude responder foi:

– O senhor sabe que as pessoas conscientes, o povo organizado em movimentos sociais no Brasil inteiro acreditam na sua inocência e sofrem com a injustiça que lhe fizeram. Na Bíblia, há uma figura que se chama o Servo Sofredor de Deus que se torna instrumento de libertação de todos a partir do seu sofrimento pessoal. Penso que o senhor encarna hoje, no Brasil essa missão.

Comecei a falar da situação da região onde ele nasceu e lhe dei a notícia de que a ASA (Articulação do Semi-árido) e outros organismos sociais estão planejando um grande evento para o dia 13 de junho em Caetés, a cidadezinha natal dele. Chamar-se-á “ Caravana do Semi-árido pela Vida e pela Democracia” (contra a Fome – atualmente de novo presente na região – e por Lula livre). A partir daquela manifestação, três ônibus sairão em uma caravana de Caetés a Curitiba para ir conversando com a população por cada dia por onde passará até chegar em Curitiba e fazer uma festa de São João Nordestino em frente à Polícia Federal.

Ele riu, se interessou e me pediu que gravasse um pen-drive com músicas de cantores de Pernambuco, dos quais ele gosta. Música de qualidade e que não estão no circuito comercial. Vergonha. Nunca tinha ouvido falar de nenhum e nem onde encontrar. Ele me disse que me mandaria os nomes pelo advogado e eu prometi que gravaria. Eu tinha levado a ele um CD do Zé Vicente (Nativo) e ele me pareceu gostar, embora não tenha como escutá-lo naquela cela sem direito a nenhum computador, nem gravador, nem nada de som. Mas, vi que ele guardou com carinho.

Distenção feita, ele quis me mostrar uma fotografia na parede na qual ele juntou os netos. Explicou quem é cada um/uma e a sua bisneta de dois anos (como parece com dona Marisa, meu Deus!). Começou a falar mais da família e especialmente lembrou um irmão que está com câncer. Isso o fez lembrar que quando Dona Lindu faleceu, ele estava na prisão e o Coronel Tuma permitiu que ele saísse da prisão e com dois guardas fosse ao sepultamento da mãe. No cemitério, havia uma pequena multidão de companheiros que não queriam deixar que ele voltasse preso. Ele teve de sair do carro da polícia e falar com eles pedindo para que deixassem que ele cumprisse o que tinha sido acertado. E assim voltou à prisão.

A hora da visita se passou rápido. Perguntei que recado ele queria mandar para a Vigília do Acampamento e para as pessoas às quais estou ligado. Ele respondeu:

– Diga que estou sereno, embora indignado com a injustiça sofrida. Mas, se eu desistir da campanha, de certa forma estou reconhecendo que tenho culpa. Nunca farei isso. Vou até o fim. Creio que na realidade atual brasileira, tenho condições de ajudar o Brasil a voltar a ser um país mais justo e a lutar para que, juntos, construamos um mundo no qual todos tenham direitos iguais.

Para concluir a visita, propus ler um texto do evangelho e ele aceitou. Li o evangelho do próximo domingo – festa de Pentecostes e apliquei a ele – os discípulos que estão em uma sala fechada, Jesus que se deixa ver, mesmo para além das paredes que fechavam a sala. E deu aos seus a paz, a alegria e a capacidade de perdoar no sentido de discernir o julgamento de Deus sobre o mundo. E soprando sobre eles lhes deu a vida nova do Espírito. Segurei em suas mãos e disse: Creio profundamente que isso se renova hoje com você. Vi que ele estava emocionado. Eu também fiquei. Abri o pequeno estojo e lhe mostrei a hóstia consagrada que lhe tinha trazido da eucaristia celebrada na véspera. Oramos juntos e de mãos dadas o Pai Nosso. Eu tinha trazido duas hóstias. Eu lhe dei a comunhão e ele me deu também para ser verdadeiramente comunhão. Em um instante, eram vocês todos/as que estavam ali naquele momento celebrativo e eu disse a ele: “Como uma alma só, uma espécie de espírito coletivo, muita gente – muitos companheiros e companheiras estão aqui connosco e estão em comunhão e essa comunhão eucarística representa isso. Eu lhe dei a bênção e pedi a bênção dele para todos vocês. Foi isso.

Quando o policial que me foi buscar me levou para fora e a porta se fechou atrás de mim, me deu a sensação profunda de algo diferente. Senti como se eu tivesse saído de um espaço de liberdade espiritual e tivesse entrando na cela engradeada do mundo que queremos transformar. Que o Espírito de Deus que a celebração desses dias invoca sobre nós e sobre o mundo nos mergulhe no amor e nos dê a liberdade interior para irmos além de todas essas grades que aprisionam o mundo.

Dom Marcelo Barros é beneditino, biblista, especialista em espiritualidade e assessor de Dom Hélder Câmara em questões de ecumenismo e diálogo entre as religiões afro-brasileiras e de movimentos sociais e conferencista muito requisitado no Brasil e no exterior, escritor de fecunda produção teológica, ecuménica e espiritual.

Encontro com Lula: Espiritualidade e Política

Faz um desafio ao juiz Sérgio Moro: “apresente-me uma única prova sequer, de que sou dono do triplex de Guarujá. Se apresentar renunciarei à candidatura à presidência”. Recomendou-me que passasse esse recado à imprensa e aos que estão no acampamento: “Sou candidatíssimo. Quero levar avante o resgate dos pobres e fazer das política sociais em prol deles, políticas de Estado e que os custos que são investimentos entrem no orçamento da União. Irei radicalizar estas políticas para os pobres, junto com os pobres e dignificar nosso país”

No dia 7 de maio cumpriam-se 30 dias de prisão do ex-presidente Lula. Foi-lhe concedida pela primeira vez receber a visita de amigos. Tive a honra de ser o primeiro a encontrá-lo pela amizade de mais de 30 anos e pela comunhão de causa: a libertação dos empobrecidos e para reforçar a dimensão espiritual da vida. Cumpri o preceito evangélico:”estava preso e me visitaste”.

Encontrei-o como o conhecemos fora da prisão: rosto, cabelo e barba, apenas levemente mais magro. Os que queriam vê-lo acabrunhado e deprimido devem se decepcionar. Está cheio de ânimo e de esperança. A cela é um amplo quarto, muito limpo, com armários embutidos, banheiro e chuveiro numa área fechada. A impressão é boa embora viva numa solitária, pois, à exceção dos advogados e dos filhos, só pode falar com o guarda de origem ucraína, gentil e atento, que se tornou um admirador de Lula. Traz-lhe as marmitas, ora mais quentes ora mais frias e café, sempre que solicita. Lula não aceita nenhum alimento que os filhos lhe trazem, porque quer se alimentar como os demais presos, sem nenhum privilégio. Tem seu tempo de tomar sol. Mas ultimamente, enquanto o faz, aparecem drones sobre o espaço. Por precaução Lula logo vai embora, pois não se sabe qual seja o propósito destes drones, fotografá-lo ou, quem sabe, algo mais sinistro.

O importante foi a conversação de natureza espiritual na qual se misturavam observações políticas. Lula é um homem religioso, mas da religiosidade popular para a qual Deus é uma evidência existencial. Encontrei-o lendo um livro meu, “O Senhor é meu pastor” (Ed. Vozes), um comentário do famoso salmo 23 o mais lido dos salmos e também por outras religiões. Sentia-se fortificado e confirmado, pois a Bíblia geralmente critica os pastores políticos e exalta aqueles que cuidam dos pobres, dos órfãos e das viúvas. Lula se sente nesta linha, com suas políticas sociais que beneficiaram a tantos milhões. Não aceita a crítica de populista, dizendo: eu sou povo e vim do povo e oriento o mais que posso a política para ele.

Na cabeceira da cama há um crucifixo. Aproveita o tempo de reclusão estrita para refletir, meditar, rever tantas coisas de sua vida e aprofundar as convicções fundamentais que dão sentido a sua ação política, aquilo que sua mãe Lindu (que a sente como um anjo protetor e inspirador) sempre lhe repetia: sempre ser honesto e lutar e mais uma vez lutar. Vê nisso o sentido de sua vida pessoal e política: lutar para que haja vida digna para todos e não só para alguns à custa dos outros. A grandeza de um político se mede pela grandeza de sua causa, disse enfaticamente. E a causa tem que ser produzir vida para todos a começar pelos que menos vida têm. Em função disso não aceita derrotas definitivas. Nem quer cair de pé. O que não quer é cair. Mas manter-se fiel a seu propósito de base e fazer da política o grande instrumento para ordenar a vida em justiça e paz para todos, particularmente aos que vivem no inferno da fome e da miséria.

Esse sonho possui grandeza ética e espiritual inegável. É à luz destas convicções que se mantém tranquilo, pois diz e repete: vive desta verdade interior que possui força própria e vai se revelar um dia. “Só quero”, comentava, “que não seja depois de minha morte, mas ainda em meu tempo de vida”. Indigna-se profundamente por causa das mentiras que divulgam contra ele e sobre elas montaram o processo do triplex. Pergunta-se, como podem as pessoas mentir conscientemente e continuar a dormir em paz? Faz um desafio ao juiz Sérgio Moro: “apresente-me uma única prova sequer, de que sou dono do triplex de Guarujá. Se apresentar renunciarei à candidatura à presidência”. Recomendou-me que passasse esse recado à imprensa e aos que estão no acampamento: “Sou candidatíssimo. Quero levar avante o resgate dos pobres e fazer das política sociais em prol deles, políticas de Estado e que os custos que são investimentos entrem no orçamento da União. Irei radicalizar estas políticas para os pobres, junto com os pobres e dignificar nosso país”.

A meditação o fez entender que esta prisão possui um significado que transcende a ele, a mim e às disputas políticas. Deve ser o mesmo preço que Gandhi e Mandela pagaram com prisões e perseguições para alcançarem o que alcançaram. “Assim creio e espero”, dizia, “que é o que estou passando agora”.

Eu que entrei para anima-lo, saí animado. Espero que outros também se animem e gritem o “Lula livre” contra uma Justiça que não se mostra justa.

Cidadania e projeto de refundação do Brasil

A cidadania possui várias dimensões: é político-participativa, é económica-produtiva, é popular-includente, é con-cidadania, é ecológica, e por fim é terrenal.

No contexto atual de um regime de exceção que não respeita mas antes fere a cidadania de todo um povo, precisamos aprofundar este tema.

A cidadania é um processo inacabado e sempre aberto a novas aquisições de consciência dos direitos, de participação política e de solidariedade, como fundamento de uma sociedade humanizada. Só cidadãos ativos podem fundar uma sociedade democrática, como sistema aberto (democracia sem fim no dizer de Boaventura de Souza Santos) que se sente imperfeita mas ao mesmo tempo sempre perfectível. Por isso, o diálogo, a participação, a vivência da correção ética e a busca da transparência constituem suas virtudes maiores.

A cidadania se realiza dentro de uma sociedade concreta que elabora para si projetos, muitas vezes, conflitantes entre si, de construção de sua soberania e dos caminhos de inserção no processo maior de planetização. Todos eles querem dar uma resposta à pergunta: que Brasil, depois de mais 500 anos, finalmente, queremos? Ocorre que o atual golpe interferiu tanto na Constituição colocando limites aos gastos sociais que acaba por impossibilitar a criação de um Estado Social Democrático nacional. É um projeto contra a nação livre, contra o povo e seu futuro.

Fundamentalmente e simplificando uma realidade muito complexa, podemos dizer: há atualmente dois projetos antagónicos disputando a hegemonia: o projeto dos endinheirados, antigos e novos, articulados com as corporações transnacionais (e hoje sabemos apoiados pelo Pentágono) querem um Brasil menor do que realmente é, um Brasil de no máximo 120 milhões, pois assim, acreditam eles, daria para administrá-lo, em seu benefício, sem maiores preocupações. Os restantes milhões que se lasquem pois sempre tiveram que se acostumar a viver na necessidade e a sobreviver como podem. Bastam políticas pobres para acalmar os pobres.

O outro projeto quer construir um Brasil para todos, pujante, autónomo, ativo, altivo e soberano face às pressões das potências militaristas, técnica e economicamente poderosas que visam a estabelecer um império do tamanho do planeta e viver da rapinagem das riquezas dos outros países. Estes se associam com as elites nacionais que aceitam ser sócios menores e agregados ao projeto-mundo, a troco de vantagens que podem auferir economicamente. Querem recolonizar a América Latina particularmente o Brasil para serem apenas exportadores de commodities e desnacionalizando nossa infra-estrutura insdustrial (energia electrica, petroleo,terras nacionais etc).

Os dois golpes que conhecemos na fase republicana, o de 1964 e do 2016, foram tramados e dados em função da voracidade dos endinheirados, contra o povo e recusando construir um projeto de nação soberana que teria muito que contribuir nesta fase planetária da Humanidade. Eles não têm um projeto de Brasil, somente um projeto para si, para a sua acumulação absurdamente alta.

A correlação de forças é profundamente desigual e corre em função das elites opulentas que segundo Jessé Souza compram as demais elites. Elas conseguiram dar um golpe em Dilma Rousseff e tanto fizeram que com um processo judicial completamente viciado colocar na prisão o ex-presidente Lula que goza, de longe, das preferências eleitorais do povo.

Estas elites do atraso não têm nada a oferecer para os milhões de brasileiros que estão à margem do desenvolvimento humano, senão mais empobrecimento e discriminação.

Mas estas elites que nem esse título merecem, pois são apenas ricos sem nunca chegarem a ser elites (Belluzo), não são portadoras de esperança e, por isso, são condenadas a viver sob permanente ameaça e com medo de que, uma dia, esta situação possa se reverter e perderem sua situação de riqueza e de privilégios.

Eis a nossa esperança: de que o futuro acabe pertencendo aos humilhados e ofendidos de nossa história que, um dia – e ele chegará – herdarão as bondades que a Mãe Terra reservou para eles e para todos.

É utópico, mas representa o sonho de todas as culturas que, um dia, todos, alegres, se sentarão juntos à mesa, na grande comensalidade dos libertos, gozando dos frutos da generosidade da Mãe Terra. Então, olhando para trás compreenderão que valeu a resistência, a indignação contra os malfeitos e a coragem de mudar.

Só então começará uma nova história, da qual os resistentes e lutadores foram os principais protagonistas, daquilo que, no caso de nosso país, poderá ser a verdadeira refundação do Brasil.

Edição 137 Abril 2018

O pior do golpe: impossibilitar o Estado Social brasileiro

Os factos recentes: a proibição do Prêmio Nobel da Paz Adolfo Perez Esquivel (1980) e de outros notáveis da política, de visitar o ex-Presidente Lula, um prisioneiro político e amigo de todos os que queriam vê-lo, é a prova mais cabal de que vivemos sob um regime de exceção jurídico-mediático. As togas comandam. A juiza Catarina Lebbos, braço direito do juiz Sérgio Moro, revela traços de crueldade e desumanidade ao proibir um médico de examinar o estado de saúde do ex-presidente. Não estou seguro mas desconfio de que tal ato seja até criminoso, passível de punição.

A gravidade maior de nossa crise é a estratégia dos endinheirados (0.05% da população), associados como sempre a conglomerados económico-financeiras e até estrangeiros, inclusive com os nossos media monopolistas conservadores, de quebrar o pacto social construído sob a hegemonia das forças democráticas, progressistas e de esquerda, consignado pela Constituição de 1988.

Pelo consenso que ela propiciou entre os vários grupos, até antagónicos, se gestaram as bases para a criação de um Estado Social brasileiro. Seria um primeiro passo para atacarmos nossa chaga maior que é a perversa desigualdade social e a inclusão de milhões de brasileiros e brasileiras na cidadania.

A condução era feita por alguém que as elites do atraso jamais aceitaram mas que tiveram que se vergar ao veredito das urnas, um operário, vindo da pobreza nordestina, Luis Inácio Lula da Silva. Por suas políticas sociais fizera com que os do andar de baixo pudessem subir um degrau na escada social.

Quando se deram conta de que poderia surgir uma nova hegemonia de caráter progressista e popular, estas classes, como sempre antes na história, segundo nossos melhores historiadores como José Honório Rodrigues, tramaram um golpe de classe. Tratava-se de assegurar a natureza de sua acumulação e de seu poder sobre o Estado.

Mudaram os tempos, mudaram também as estratégias. Devia ser não por um golpe não militar, mas parlamentar. Marcelo Odebrecht, presidente de uma das maiores empresas brasileiras, em sua delação premiada, confessou que repassara dez milhões de reais para comprar 140 deputados a fim de que garantissem o impeachment de Dilma Rousseff.

Um congresso, dos mais medíocres da história republicana, com ladrões uns, acusados de corrupção outros ou denunciados por crimes, até por assassinato, deixou-se venalmente comprar. Deram um golpe parlamentar, jurídico e mediático depondo por um impeachment questionável a Presidenta legitimamene eleita Dilma Rousseff. O objetivo não era fundamentalmente ela, mas atingir o ex-Presidente Lula e o partido do PT.

O combate à corrupção, doença endémica da política brasileira, nem por isso desculpável, serviu de pretexto para atacar, processor e literalmente perseguir a Lula, mediante o expediente da lawfare (interpretar canhestramente a lei para prejudicar o acusado). Tanto fizeram que conseguiram colocá-lo na prisão, mediante um processo, segundo os mais renomados juristas nacionais e estrangeiros, viciado e vazio de provas materiais consistentes.

Mas qual é o sentido maior deste golpe? É manter a natureza da acumulação de um grupo de rapinagagem que controla grande parte de nossa riqueza e que a repassem a seus bolsos.

Talvez a consequência mais desastrosa, analisada finamente pelo cientista social Luiz Gonzaga de Souza Lima numa palestra no dia 22 de novembro de 2017 na Fiocruz do Rio de Janeiro, está contida na Emenda Constitucional (PEC 55). Por ela não se trata apenas de estabelecer um teto nas despesas. Ela algema o país. “A PEC, diz Souza Lima, “é a proibição da construção do Estado Social em nosso país. É vetado constitucionalmente construir o Estado Social, é mais que um congelamento de gastos”.

As classes do atraso optaram pelo passado, aceitando a recolonização do Brasil, alinhando-o aos interesses do império do Capital hegemonizado pelos USA. Não por uma eleição mas por um golpe dissolveram o pacto construído pela Constituição de 1988. Diz mais Souza Lima, “estamos diante de um golpe contra o Governo que o povo brasileiro elegeu. Estamos diante de uma inflexão histórica de uma importância imensa: proibir constitucionalmente fazer investimentos sociais, especialmente na educação e na saúde”.

Isso é um caso único no mundo de hoje. Como poderá um povo doente e ignorante dar um salto rumo a um desenvolvimento, adequado a uma população de mais de cem milhões de pessoas?

Estas elites egoistas ao máximo, nunca tiveram um projeto para o Brasil. Somente para si e em função de uma absurda acumulação. Atualmente se assenta sobre uma direita fascista, autoritária, violenta, racista e desprezadora do povo, chamado de ralé desprezível. Para nossa vergonha, apoiada, em parte pelo corpo jurídico e pela mão pesada da polícia militar, capaz de reprimir e matar, especialmente negros e pobres.

A luta é para recuperar a democracia minima. Mas mais que tudo fazer valer a Constituição de 1988, rasgada pelos golpistas, mas que abria espaço para a convivência pacífica e para o desenvolvimento humano.

Estive preso e impediram-me de te visitar

Há uma cena de grande dramaticidade no evangelho se São Mateus quando se trata do Juizo Final”, quer dizer, quando se revela o destino último de cada ser humano. O Juiz Supremo não perguntará a que Igreja ou religião alguém pertenceu, se aceitou os seus dogmas, quantas vezes frequentou os ritos sagrados.

Esse Juiz se voltará aos bons e dirá: ”Vinde, benditos de meu Pai, tomai posse do reino preparado para vós desde a criação do mundo; porque tive fome e de me destes de comer, tive sede e me destes de beber, fui peregrino e me acolhestes, estive nu e me vestistes, doente e me visitastes, estava preso e viestes me ver… todas as vezes que fizestes a um destes meus irmãos e irmãs menores, foi a mim que o fizestes…e quando deixastes de fazer a um desses pequeninos, foi a mim que não o fizestes(Evangelho de S.Mateus,25, 35-45).”

Neste momento supremo, são as práticas e não as prédicas para com os sofedores deste mundo que contarão. Se os tivermos atendido, ouviremos aquelas palavras benditas.

Esta experiência foi vivida pelo Prêmio Nobel da Paz de 1980, o argentino Adolfo Perez Esquivel (1931) arquiteto e renomado escultor, grande ativista dos direitos humanos e da cultura da paz, além de ser profundamente religioso e por mim. Ele solicitara às autoridades judiciais brasileiras a permissão de visitar no cárcere o ex-Presidente Lula, amigo de muitos anos.

Da Argentina Esquivel me telefonou e no twitter foi resumida a conversação numa espécie de yotube. Iríamos juntos, pois eu havia recebido também o assim chamado Nobel Alternativo da Paz em 2001(Award The Right Livelihood) do Parlamento sueco. Mas lhe adiantei que minha visita era para cumprir o preceito evagélico o de “visitar quem está encarcerado” além de abraçar o amigo de mais de 30 anos. Queria reforçar-lhe a traquilidade da alma que sempre manteve. Confessou-me pouco antes de ser preso: minha alma está serena porque ela não me acusa de nada e me sinto portador da verdade que possui uma força própria e que no seu devido tempo se manifestará.

Chegamos em Curitiba Esquivel e eu, em horários diferentes, no dia 18 de abril. Fomos diretamente ao grande auditório da Universidade Federal do Paraná repleta de gente, para um debate sobre democracia, direitos humanos e a crise brasileira que culminou com a prisão de Lula. Lá estavam autoridades universitárias, o ex-ministro das relações exteriores Celso Amorim, representantes da Argentina, do Chile, do Paraguay, da Suécia e de outros países. Alternadamente cantaram-se belíssimas músicas latino-americanas especialmente com a voz sonora da atriz e cantora Letícia Sabatella. Afrodescentes daçaram e cantaram com suas roupas belamente coloridas.

Fizeram-se vários pronunciamentos. O desalento geral, como por um passe de mágica, deu lugar a uma aura de benquerença e de esperança de que o golpe parlamentar, judídico e mediatico não poderia desenhar nenhum futuro para o Brasil. Antes, encerar-se-ia um ciclo de dominação das elites do atraso para abrir caminho para uma democracia que vem de baixo, participativa e sustentável.

Já antes da sessão foi-nos comunicado que a juíza Catarina Moura Lebbos, braço direito do juiz Sérgio Moro, havia proibido a visita que queríamos fazer ao ex-presidente Lula.

Essa juíza não deu-se conta do alto significado de que é portador um Prêmio Nobel da Paz. Ele tem o privilégio de correr o mundo, visitar prisões e lugares de conflito no sentido de promover o diálogo e a paz. Agarramo-nos ao documento da ONU de 2015 que se convencionou chamar de “Regras de Mandela” que trata de Prevenção ao Crime e a Justiça Criminal. Aí se aborda também a parte da visita aos encarcerados. O Brasil foi um dos mais ativos na formulação destas Regras de Mandela, embora não as observe em seu território.

Mas de nada nos valeu. A juiza Lebbos simplesmente negou, No dia seguinte, dia 19 de abril, chegamos ao acampamento, onde centenas de pessoas fazem vigília junto ao Departamento da Justiça Federal, onde Lula está preso. Gritam-lhe “Bom dia, Lula”, “Lula livre” e outras palavras de ânimo e esperança que ele em seu cárcere pode escutar perfeitamente.

Policiais estavam por todo os lados. Tentamos falar com o chefe para podermos ter uma audiênicia com o Superindente da Polícia Federal.

Sempre vinha a resposta: não pode, são ordens de cima. Após muito insistir, com chamadas de telefone indo e vindo, Perez Esquivel conseguiu uma audiência com o Superintendente. Explicou-lhe os motivos da visita, humanitária e fraterna a um velho e querido amigo. Por mais que Perez Esquivel argumentasse e fizesse valer seu título de Prêmio Nobel da Paz, mundialmente reconhecido e respeitado, ouvia sempre o mesmo ritornello: Não pode. São ordens de cima.

E assim, cabisbaixos, retornamos para o meio do povo. Eu pessoalmente insistia que minha visita era meramente espiritual. Iria levar-lhe dois livros ”O Senhor é meu pastor e nada me falta”,um comentário minucioso que realmente alimenta a confiança. O outro de nosso melhor exegeta Carlos Mesters “A missão do povo que sofre” descrevendo o desamparo do povo hebreu no exílio babilônico, como era consolado pelos profetas Isaias e Jeremias e como a partir daí se fortaleceu o sentido de seu sofrimento e sua esperança.

No Departamento da Polícia Federal tudo era proibido. Sequer um bilhete era permitido para ser enviado ao ex-Presidente Lula.

No meio do povo, falaram vários representantes dos grupos, especialmente um casal da Suécia que sustenta a candidatura de Lula ao Prêmio Nobel da Paz. Falei eu e Perez Esquivel, reforçando a esperança que finalmente é aquela energia ponderosa que sustenta os que lutam pela justiça e por um outro tipo de democracia. Ele anunciou que lançara a campanha mundial para Lula como candidato ao Prêmio Nobel da Paz. Há já milhares de subscrições em todo o mundo. Lula preenche todos os requisitos para isso, especialmente as políticas sociais que tiraram milhões da fome e da miséria e seu empenho pela justiça social, base da paz.

Muitas foram as entrevistas aos meios de comunicação nacionais e internacionais. Algumas fotos do evento começaram girar pelo mundo e vinha a solidariedade de muitos países e grupos.

Aí nos demos conta de que efetivamente vivemos sob um regime de exceção na forma de um golpe brando que sequestra a liberdade e nega direitos humanos fundamentais.

A pequenês de espírito de nossos juizes da Lava Jato e a negação de um direito assegurado a um Prêmio Nobel da Paz de visitar um seu amigo encarcerado, no espírito de pura humanidade e de calorosa solidariedade envergonha nosso país, Apenas comprova que efetivamente estamos sob a lógica negadora de democracia num regime de exceção.

Mas o Brasil é maior que sua crise. Purificados, sairemos melhores e orgulhosos de nossa resistência, de nossa indignação e da coragem de resgatar a partir das ruas e pelas eleições um Estado de direito.

Não esqueceremos jamais as palavras sagradas:”Eu estava preso e tu me impediste de visitá-lo”.

Lula, o carismático lider servidor

Nenhuma sociedade reforça sua identidade senão através de grandes símbolos que lhe conferem foco e que lhe apontam uma direção. Estes símbolos se encontram nos monumentos referenciais como o Cristo do Corcovado, ou numa inteira cidade como Brasíia ou as imagens dos profetas de Aleijadinho, nas estátuas que enfeitam as praças e outras. Os nomes das ruas reavivam a memória de escritores, de poetas, de artistas e de figuras que permanecem na consciência coletiva. No mundo político não se pode negar a predominância de Getúlio Vargas, um dos maiores líderes políticos de nossa história, que deu outro rumo ao Brasil e o introduziu no mundo moderno, beneficiando particularmente a classe trabalhadora.

Nesta linha se situa a figura de Luiz Inácio Lula da Silva. Ninguém pode negar-lhe o carisma de que é possuído, reconhecido nacional e internacionalmente. O decisivo de sua figura carismática é que provem das classes abandonadas pelas elites que sempre ocuparam o Estado e elaboraram políticas que os beneficiavam, de costas para o povo. Nunca tiveram um projeto para o Brasil, apenas para si mesmas.

De repente, irrompe Lula no cenário político com a força de um carisma excepcional, representando as vítimas da tragédia brasileira, marcada por uma desigualdade-injustiça social das maiores do mundo. Mesmo tendo que aceitar a lógica do mercado capitalista, perversa porque excludente e por isso, anti-democrática por natureza, conseguiu abrir brechas que beneficiaram milhões de brasileiros começando com o programa da Fome Zero e completada por várias outras políticas sociais.

Os que o criticam de populismo e de assistencialismo não sabem o que é a fome que Gandhi afirmava ser ela “um insulto; ela avilta, desumaniza e destrói o corpo e o espírito; é a forma mais assassina que existe”. Sempre que se faz algo em benefício dos mais necessitados, logo surge a crítica das elites endinheiradas e de seus aliados, de populismo e de assistencialismo quando não de uso político dos pobres. Esquecem o que é elementar numa sociedade minimamente civilizada: a primeira tarefa do Estado é garantir e cuidar da vida de seu povo, e não deixá-lo na exclusão e na miséria que vitimam suas crianças e os fazem morrer antes do tempo. A onda de ódio e de difamação que grassa atualmente no país nasce do espírito dos herdeiros da Casa Grande: o desprezo que dedicavam aos escravos o repassaram aos pobres, aos negros, especialmente às mulheres negras e outras pobres.

Lula com seus projetos de inclusão não apenas saciou a fome e atendeu a outras necessidades de quase 40 milhões de pessoas, senão que lhes devolveu o mais importante que é a dignidade e a consciência de que são cidadãos e filhos e filhas de Deus.

O verdadeiro lider serve a uma causa além de si mesmo. Lula, filho da pobreza nordestina, se propôs como Presidente que nenhum braseileiro precisasse passar fome. Quantas vezes o ouvi pessoalmente dizer que todo o sentido de sua vida e de sua política é dar centralidade aos pobres e arrancá-los do inferno da miséria. Outra vez, vindo de carro com ele de São Bernardo, passando por um lugar ermo fez parar o carro para me confessar: “muitas vezes, saindo da fábrica, sentei aqui nesse capim e chorava porque não tinha nada para levar para meus irmãos que em casa que passavam fome”. Como Chefe de Estado quis criar as condições para que ninguém precisasse chorar por causa da fome.

Lula foi e é um lider servidor desta causa. O líder carismático servidor fala para o profundo das pessoas. Dai nasce o entusiasmo e atração que todo lider suscita. Quantas vezes, nas minhas andanças pelas comunidades da periferia ouvi esta frase:”Lula foi o único que pensou em nós pobres e fez coisas boas para nós”. Dele se podem apontar limitações que pertencem à humana condição, até equívocos políticos, mas jamais se poderá dizer que abandonou o propósito básico de sua vida e de sua ação política. Sinal disso é o facto de que passava os Natais com os mendigos, cuidados pelo Padre Júlio Lancelotti, debaixo da ponte em São Paulo. Encontrava seus irmãos e irmãs de destino, mostrando-lhe solidariedade e companhia.

A sanha dos que querem o Brasil dos privilégios para poucos, conseguiram aprisioná-lo. Mas o sonho de um Brasil rico porque não tem miseráveis jamais pode ser aprisionado. Lula com seu sonho é imorredouro e se faz, como se diz na tradição judaica, “um justo entre as nações”.

Esses poucos exemplos aduzidos mostram como se pode ser líder político servidor do povo e suscitar em seus seguidores o mesmo espírito de serviço solidário e construtivo.

Tal atitude aponta para um outro tipo de Brasil que queremos e merecemos, animado por representantes que fazem da política, no dizer de Gandhi, “um gesto amoroso para com povo e um cuidado por tudo aquilo que é comum”. Lula se inscreve nesta honrosa tradição.

Edição 136 Março 2018

Com o Papa Francisco termina a Igreja só ocidental e começa a Igreja universal

Passaram-se já cinco anos do papado de Francisco, bispo de Roma e Papa da Igreja universal. Muitos fizeram balanços minuciosos e brilhantes sobre essa nova primavera que irrompeu na Igreja. De minha parte enfatizo apenas alguns pontos que interessam à nossa realidade.

O primeiro deles é a revolução feita na figura do papado, vivida em pessoa por ele mesmo. Não é mais o Papa imperial com todos os símbolos, herdados dos imperadores romanos. Ele se apresenta como simples pessoa como quem vem do povo. Sua primeira palavra de saudação foi dizer aos fiéis”buona sera”: boa noite. Em seguida, anunciou-se como bispo de Roma, chamado a dirigir no amor a Igreja que está no mundo inteiro . Antes de ele mesmo dar a benção oficial, pediu que o povo o abençoasse. E foi morar não num palácio – o que teria feito chorar Francisco de Assis – mas numa casa de hóspedes. E come junto com eles.

O segundo ponto importante é anunciar o evangelho como alegria, como superabundância de sentido de viver e menos como doutrinas dos catecismos. Não se trata de levar Cristo ao mundo secularizado. Mas descobrir sua presença nele pela sede de espiritualidade que se nota em todas as partes.

O terceiro ponto é colocar no centro de sua atividade três pólos: o encontro com o Cristo vivo, o amor apaixonado pelos pobres e o cuidado da Mãe Terra. O centro é Cristo e não o Papa. O encontro vivo com Cristo tem o primado sobre a doutrina.

Em vez da lei anuncia incansavelmente a misericórdia e a revolução da ternura, como o disse, falando aos bispos brasileiros em sua viagem ao nosso país.

O amor aos pobres foi expresso na sua primeira intervenção oficial:”como gostaria que a Igreja fosse a Igreja dos pobres”. Foi ao encontro do refugiados que chegavam à ilha de Lampeduza no sul da Itália. Ai disse palavras duras contra certo tipo de civilização moderna que perdeu o sentido da solidariedade e não sabe mais chorar sobre o sofrimento de seus semelhantes.

Suscitou o alarme ecológico com sua encíclica Laudato Si:sobre o cuidado da Casa Comum (2015), dirigida a toda a humanidade. Mostra clara consciência dos riscos que o sistema-vida e o sistema-Terra correm. Por isso expande o discurso ecológico para além do ambientalismo. Diz enfaticamente que devemos fazer uma revolução ecológica global(n.5). A ecologia é integral e não apenas verde, pois involucra a sociedade, a política, a cultura, a educação, a vida quotidiana e a espiritualidade. Une o grito dos pobres com o grito da Terra(n. 49). Convida-nos a sentir como nossa a dor da natureza, pois todos somos interligados e envolvidos numa teia de relações. Convoca-nos a “alimentar uma paixão pelo cuidado do mundo….uma mística que nos anima, nos impele, motiva e encoraja e dá sentido à ação pessoal e comunitária”(n. 216).

O quarto ponto significativo foi apresentar a Igreja não um castelo fechado e cercado de inimigos, mas um hospital de campanha que a todos acolhe sem reparar sua extração de classe, de cor ou de religião. É uma Igreja em permanente saida para os outros especialmente para as periferias existenciais que grassam no mundo inteiro. Ela deve servir de alento, infundir esperança e mostrar um Cristo que veio para nos ensinar a viver como irmãos e irmãs, no amor, na igualdade, na justiça, abertos ao Pai que tem características de Mãe de misericórdia e de bondade.

Por fim, mostra clara consciência de que o evangelho se opõe às potências desse mundo que acumulam absurdamente, deixando na miséria grande parte da humanidade. Vivemos sob um sistema que coloca o dinheiro no centro e que é assassino dos pobres e um depredador dos bens e serviço da natureza. Contra esses tem as mais duras palavras.

Dialoga com todas as tradições religiosas e espirituais. No lava-pés da Quinta-Feira Santa estava uma menina muçulmana. Quer as Igrejas, com suas diferenças, unidas no serviço ao mundo especialmente aos mais desamparados. É o verdadeiro ecumenismo de missão.

Com esse Papa que “vem do fim do mundo” se encerra uma Igreja só ocidental e começa uma Igreja universal, adequada à fase planetária da humanidade, chamada a encarnar-se nas várias culturas e construir ai um novo rosto a partir da riqueza inesgotável do evangelho.

N.E.

A questão é que nem o meu amigo L. Boff consegue ver sob a encenação papal é que o “universal” a que se refere este seu texto é o do Poder da Cúria Romana que só descansa quando instalar a sua ideologia-teologia nas mentes de todos os povos das nações. É a ambição do judaísmo, era a ambição do império romano, é ambição do cristianismo paulino e da Cúria romana, o inimigo de Jesus Nazaré e do seu Projecto político maiêutico.

O elogio da mulher no seu dia

Hoje celebramos o dia da mulher num contexto de grande consciencialização a nível mundial sobre as violências que sofrem as mulheres pelos homens, maridos, namorados e parentes, inclusive crianças inocentes. O tráfico de mulheres no mundo ascende a um bilhão de dólares.

A cultura patriarcal não foi superada ainda. Pelo facto de a mulher ser mulher, pode ter a mesma competência que os homens, ganha cerca de 20% a menos em quase todos os países do mundo. E a saber, como tenho escrito neste espaço, que no começo de tudo está não o masculino (o mito de Adão) mas o feminino, gerador de todos os humanos, desde as águas primordiais dos oceanos e depois geneticamente.

Não há como reparar esta discriminação senão fazendo uma verdadeira revolução de hábitos. Elas, as mulheres, a estão fazendo. Nós podemos ser forças auxiliares, mudando nós mesmos, apoiando-as em tudo e sendo parceiros e companheiros delas em todas as tarefas da vida. Há uma diferença de género. Mas a diferença é para a reciprocidade e a mutualidade de tal modo que nos relacionando, em formas paritária, todos nos faremos mais completos e humanos.

As mulheres são mais da metade da humanidade. E são também as mães e irmãs da outra metade que são os homens. Como não tratá-las com carinho e cuidado que merecem? Foram elas que nos puseram neste mundo. Estamos sempre em seus corações e de lá nunca sairemos.

Há muitos textos comovedores que exaltam a figura da mulher. Mas há um de grande beleza e verdade que nos vem da África, de uma nobre abissínia, recolhido como prefácio ao livro Introdução à essência da mitologia (1941), escrito por dois grandes mestres na área, Charles Kerény e C. G. Jung. Assim fala uma mulher em nome de todas as mulheres.

“Como pode saber um homem o que é uma mulher? A vida da mulher é inteiramente diferente daquela dos homens. Deus a fez assim. O homem fica o mesmo, do tempo de sua circuncisão até o seu declínio. Ele é o mesmo antes e depois de ter encontrado, pela primeira vez, uma mulher. O dia, porém, em que a mulher conheceu seu primeiro amor, sua vida se divide em duas partes. Neste dia ela se torna outra. Antes do primeiro amor, o homem é igual ao que era antes. A mulher, a partir do dia de seu primeiro amor, é outra. E assim permanecerá por toda a vida toda”.

“O homem passa uma noite com uma mulher e depois vai embora. Sua vida e seu corpo são sempre os mesmos. A mulher, porém, concebe. Como mãe, ela é diferente da mulher que não é mãe. Pois, ela carrega em seu corpo, por nove meses, as consequências de uma noite. Algo cresce dentro dela, que jamais desaparecerá. Pois ela é mulher e mãe. E permanecerá mulher e mãe, mesmo quando a criança ou todas as crianças tiverem morrido. Pois ela carregou a criança em seu coração. Mesmo depois que ela nasceu, continua a carregá-la em seu coração. E de seu coração não jamais sairá. Mesmo que a criança não viva mais”.

“Tudo isso o homem não conhece. Ele não sabe nada disso. Ele não conhece a diferença entre o “antes do amor” e o “depois do amor”, entre antes da maternidade e depois da maternidade. Ele não pode conhecer. Só uma mulher pode saber e falar sobre isso. É por isso que nós, mulheres e mães, nunca nos deixaremos persuadir pelo machismo de nossos maridos. A mulher pode somente uma coisa: ela pode cuidar dela mesma; ela pode se conservar decentemente; ela deve ser o que a sua natureza é; ela deve ser sempre menina e mãe. Antes de cada amor é menina. Depois de cada amor é mulher e mãe. Nisso poderás saber se ela é uma boa mulher e mãe ou não”.

Sem dúvida, trata-se se uma visão sublimada da mulher e da mãe. Pois nelas há também sombras que acompanham sempre a condição humana, também feminina.

Mas no dia de hoje, dia da mulher, queremos esquecer as sombras para apenas focalizarmos o momento de luz que toda mulher representa. Por 
isso que hoje devemos saudar as mulheres e 
abraçá-las para dar e receber toda a energia (axé) 
que elas carregam.

Busquemos um equilíbrio entre os géneros. Diferentes mas juntos. Que nunca mais se prolongue a guerra dos sexos, que, infelizmente, ainda perdura.

No princípio era o feminino: o processo da sexogénese

O presente texto quer ser uma pequena contribuição ao debate sobre o feminino tão distorcido pela cultura patriarcal dominante. De saída já afirmamos: o feminino veio primeiro. Vejamos como surgiu no processo da sexogénese.

A vida já existe na terra, há 3,8 bilhões de anos. O antepassado comum de todos os viventes foi provavelmente uma bactéria unicellular sem núcleo que se multiplicava espantosamente por divisão interna. Isso durou cerca de um bilhão de anos.

Há dois bilhões de anos, surgiu uma célula com membrana e dois núcleos, dentro dos quais se encontravam os cromossomas. Nela se identifica a origem do sexo. Quando ocorria a troca de núcleos entre duas células binucleadas, gerava-se um único núcleo com os cromossomas em pares. Antes, as células se subdividiam, agora se dá a troca entre duas diferentes com seus núcleos. A célula se reproduz sexualmente a partir do encontro com outra célula. Revela-se assim a simbiose – composição de diferentes elementos – que junto com a seleção natural representa a força mais importante da evolução. Tal fato tem consequências filosóficas: a vida é tecida mais de trocas, de cooperação e simbiose do que da luta competitiva pela sobrevivência.

Nos dois primeiros bilhões de anos, nos oceanos de onde irrompeu a vida, não existiam órgãos sexuais específicos. Existia uma existência feminina generalizada que no grande útero dos oceanos, lagos e rios, gerava vidas. Nesse sentido podemos dizer que o princípio feminino é primeiro e originário.

Só quando os seres vivos deixaram o mar, lentamente foi surgindo o pénis, algo masculino, que tocando a célula fêmea passava a ela parte de seu DNA, onde estão os genes.

Com o aparecimento dos vertebrados há 370 milhões de anos com os répteis, estes criaram o ovo amniótico cheio de nutrientes e consolidaram a vida em terra firme. Com o aparecimento dos mamíferos há cerca de 125 milhões de anos já surgiu uma sexualidade definida de macho e fêmea. Aí emerge o cuidado, o amor e a proteção da cria. Há 70 milhões de anos apareceu o nosso ancestral mamífero que vivia na copa das árvores, nutrindo-se de brotos e de flores. Com o desaparecimento dos dinossauros há 67 milhões de anos, puderam ganhar o chão e se desenvolver chegando aos dias de hoje.

O sexo genético-celular humano apresenta o seguinte quadro: a mulher se caracteriza por 22 pares de cromossomas somáticos mais dois cromossomas X (XX). O do homem possui também 22 pares, mas com apenas um cromossoma X e outro Y (XY). Daí se depreende que o sexo-base é feminino (XX) sendo que o masculino (XY) representa uma derivação dele por um único cromossoma (Y). Portanto, não há um sexo absoluto, apenas um dominante. Em cada um de nós, homens e mulheres, existe “um segundo sexo”.

Com referência ao sexo genital-gonodal importa reter que nas primeiras semanas, o embrião apresenta-se andrógino, vale dizer, possui ambas as possibilidades sexuais, femininina ou masculina. A partir da oitava semana, se um cromosomo masculino Y penetrar no óvulo feminino, mediante o hormônio androgênio a definição sexual será masculina. Se nada ocorrer, prevalece a base comum, feminina. Em termos do sexo genital-gonodal podemos dizer: o caminho feminino é primordial. A partir do feminino se dá a diferenciação, o que desautoriza o fantasioso “princípio de Adão”. A rota do masculino é uma modificação da matriz feminina, por causa da secreção do androgénio pelos testículos.

Existe ainda o sexo hormonal. Todas as glândulas sexuais no homem e na mulher são comandadas pela hipófise, sexualmente neutra e pelo hipotálamo que é sexuado. Estas glândulas secregam no homem e na mulher os dois hormónios: o andogénio (masculino) e o estrogenio (feminino). São responsáveis pelas características secundárias da sexualidade. A predominância de um ou de outro hormónio, produzirá uma configuração e um comportamento com características femininas ou masculinas. Se no homem houver uma impregnação maior do estrogenio, terá alguns traços femininios; o mesmo se dá com a mulher com referência ao androgénio.

Por fim, importa dizer que a sexualidade possui uma dimensão ontológica. O ser humano não possui sexo. Ele é sexuado em todas as suas imensões, corporais, mentais e espirituais. Até a emergência da sexualidade o mundo é dos mesmos e dos idênticos. Com a sexualidade emerge a diferenciação pela troca entre diferentes. São diferentes para poderem se inter-relacionar e estabelecer laços de convivência. É o que ocorre com a sexualidade humana: cada um, além da força instintiva que sente em si, sente também a necessidade de canalizar e sublimar tal força. Quer amar e ser amado, não por imposição mas por liberdade. A sexualidade desabrocha no amor, a força mais ponderosa “que move o céu e as estrelas”(Dante) e também nossos corações. É a suprema realização que o ser humano pode almejar. Mas retenhamos: o feminine vem primeiro e é básico.

As mulheres na vida de Jesus e a companheira Míriam de Magdala

Jesus é judeu e não cristão, mas rompeu com o anti-feminismo de sua tradição religiosa. Considerando-se sua gesta e palavras percebe-se que se mostrava sensível a tudo o que pertence à esfera do feminino em contraposição aos valores do masculino cultural, centrado na submissão da mulher. Nele se encontram, com frescor originário, sensibilidade, capacidade de amar e perdoar, ternura para com as crianças, para com os pobres e compaixão para com os sofredores deste mundo, abertura indiscriminada a todos, especialmente a Deus, chamando-o de Paizinho querido (Abba). Vive cercado de discípulos homens e mulheres. Desde o início de sua peregrinação de pregador, elas o seguiam (Lc 8,1-3; 23,49;24,6-10; cf. E.Schlüsser-Fiorenza, Discipulado de iguais, Vozes 1995).

Em razão da utopia que prega – o Reino de Deus - que é uma libertação de todo tipo de opressão, quebra vários tabus que pesavam sobre as mulheres. Mantem uma profunda amizade com Marta e Maria (Lc 10,38). Contra o ethos do tempo, conversa publicamente e a sós com uma herege samaritana, causando perplexidade aos discípulos (Jo 7,53-8,10). Deixa-se tocar e ungir os pés por uma conhecida prostituta, Madalena (Lc 7,36-50). São várias as mulheres que foram beneficiadas com seu cuidado como a sogra de Pedro (Lc 4,38-39), a mãe do jovem de Naim, ressuscitado por Jesus (Lc 7,11-17), igualmente a filhinha morta de Jairo, oficial romano (Mt 9,l8-29), a mulher corcundinha (Lc 13,10-17), a pagã siro-fenícia, cuja filha, psiquicamente doente, foi libertada (Mc 7,26) e a mulher que sofria há doze anos de um fluxo de sangue (Mt 9,20-22). Todas elas foram curadas.

Em suas parábolas ocorrem muitas mulheres, especialmente, pobres como a que extraviou a moeda (Lc l15,8-10), a viúva que depositou dois trocados no cofre do templo e era tudo o que tinha (Mc 12,41-44), a outra viúva, corajosa, que enfrentou o juiz (Lc 18,1-8). Nunca são apresentadas como discriminadas mas com toda sua dignidade, à altura dos homens. A crítica que faz da prática social do divórcio, pelos motivos mais fúteis e a defesa do laço indissolúvel do amor (Mc 10,1-10), tem seu sentido ético de salvaguarda da dignidade da mulher.

Se admiramos a sensibilidade feminina de Jesus (a dimensão da anima), seu profundo sentido espiritual da vida, a ponto de ver sua ação providente em cada detalhe da vida como nos lírios do campo, então devemos também supor que ele aprofundou esta dimensão a partir de seu contato com as mulheres com a quais conviveu. Jesus aprendeu, não só ensinou. As mulheres com sua anima completaram o seu masculino, o animus.

Resumindo, a mensagem e a prática de Jesus significam uma ruptura com a situação imperante e a introdução de um novo tipo de relação, fundado não na ordem patriarcal da subordinação, mas no amor como mútua doação que inclui a igualdade entre o homem e a mulher. A mulher irrompe como pessoa, filha de Deus, destinatária do sonho de Jesus e convidada a ser, junto com os homens, também discípulas e membros de um novo tipo de humanidade.

Um dado da pesquisa recente vem confirmar esta constatação. Dois textos, chamados evangelhos apócrifos, o Evangelho de Maria (edição da Vozes 1998) e o Evangelho de Felipe (Vozes 2006) mostram uma relação extremamente afetiva de Jesus. Como homem ele viveu profundamente esta dimensão.

Aí se diz que ele entretinha uma relação especial com Míriam de Mágdala, chamada de “companheira”(koinónos). No Evangelho de Maria, Pedro confessa: “Irmã, nós sabemos que o Mestre te amou diferentemente das outras mulheres”(op.cit. p. 111) e Levi reconhece que “o Mestre a amou mais que a nós”. Ela vem apresentada como a sua principal interlocutora, comunicando-lhe ensinamentos subtraídos aos discípulos. Das 46 perguntas que os discípulos colocam a Jesus, depois de sua ressurreição, 39 são feitas por Míriam de Mágdala (cf. Tradução e comentário de J.Y.Leloup, Vozes 2006, pp.25-46).

O Evangelho de Felipe diz ainda: “Eram três que acompanhavam sempre o Mestre, Maria sua mãe, e Míriam de Mágdala que é conhecida como sua companheira porque Míriam é para Ele uma irmã, uma mãe e uma esposa (koinónos: Evangelho de Felipe, Vozes 2006,p.71). Mais adiante particulariza afirmando: “O Senhor amava Maria mais que todos os demais discípulos e a beijava com frequência na boca. Os discípulos, ao verem que a amava, perguntavam-lhe: por que amas a ela mais que a todos nós? O Redentor lhes respondeu dizendo: o que? eu não devo amar a ela tanto quanto a vocês” (Evangelho de Felipe, op.cit. p. 89)?

Embora tais relatos possam ser interpretados no sentido espiritual dos gnósticos, pois essa é sua matriz, não devemos, dizem reconhecidos exegetas (cf.A. Piñero, El otro Jesús: la vida de Jesús en los apócrifos, Cordoba 1993 p.113) excluir um fundo histórico verdadeiro, a saber, uma relação concreta e carnal de Jesus com Míriam de Mágdala, base para o sentido espiritual. Por que não? Há algo mais sagrado que o amor efetivo entre um homem (o Filho do Homem, Jesus) e uma mulher?

Um dito antigo da teologia afirma ”tudo aquilo que não é assumido por Jesus Cristo não é redimido”. Se a sexualidade não tivesse sido assumida por Jesus, não teria sido redimida. A dimensão sexuada de Jesus não tira nada de sua dimensão divina. Antes, a torna concreta e histórica. E seu lado profundamente humano.

Edição 135 Fevº 2018

Como o patriarcado desmantelou o matriarcado

É difícil rastrear os passos que possibilitaram a liquidação do matriarcado e o triunfo do patriarcado, há 10-12 mil anos. Mas foram deixados rastos dessa luta de gênero. A forma como foi relido o pecado de Adão e Eva nos revela o trabalho de desmonte do matriarcado pelo patriarcado. Essa releitura foi apresentada por duas conhecidas teólogas feministas, Riane Eisler (Sex Myth and Poilitics of the Body: New Paths to Power and Love, Harper San Francisco 1955) e Françoise Gange (Les dieux menteurs, Paris, Editions Indigo-Côtes Femmes,1997).

Segundo estas duas autoras se realizou a uma espécie de processo de culpabilização das mulheres no esforço de consolidar o domínio patriarcal.

Os ritos e símbolos sagrados do matriarcado são diabolizados e retroprojetados às origens na forma de um relato primordial, com a intenção de apagar totalmente os traços do relato feminino anterior.

O atual relato do pecado das origens, acontecido no paraíso terrenal, coloca em xeque quatro símbolos fundamentais da religião das grandes deusas-mães.

O primeiro símbolo a ser atacado foi a própria mulher (Gn 3,16) que na cultura matriarcal representava o sexo sagrado, gerador de vida. Como tal ela simbolizava a Grande-Mãe, a Suprema Divindade.

Em segundo lugar, se desconstrói o símbolo da serpente, considerado o atributo principal da Deusa-Mãe. Ela representava a sabedoria divina que se renovava sempre como a pele da serpente.

Em terceiro lugar, desfigurou-se a árvore da vida, sempre tida como um dos símbolos principais da vida. Ligando o céu com a terra, a árvore continuamente renova a vida, como fruto melhor da divindade e do universo. O Gênesis 3,6 diz explicitamente que “a árvore era boa para se comer, uma alegria para os olhos e desejável para se agir com sabedoria”.

Em quarto lugar, destruí-se a relação homem-mulher que originariamente constituía o coração da experiência do sagrado. A sexualidade era sagrada pois possibilitava o acesso ao êxtase e ao saber místico.

Ora, o que fez o atual relato do pecado das origens? Inverteu totalmente o sentido profundo e verdadeiro desses símbolos. Dessacralizou-os, diabolizou-os e os transformou de bênção em maldição.

A mulher será eternamente maldita, feita um ser inferior. O texto bíblico diz explicitamente que “o homem a dominará”(Gen 3,16). O poder da mulher de dar a vida foi transformado numa maldição:”multiplicarei o sofrimento da gravidez”(Gn 3,16). Como se depreende, a inversão foi total e de grande perversidade.

A serpente é maldita (Gn 3,14) e feita símbolo do demônio tentador. O símbolo principal da mulher foi transformado em seu inimigo fidagal:”porei inimizade entre ti e a mulher...tu lhe ferirás o calcanhar”Gn 3,15)

A árvore da vida e da sabedoria vem sob o signo do interdito( Gn 3,3,). Antes, na cultura matriarcal, comer da árvore da vida era se imbuir de sabedoria. Agora comer dela significa um perigo mortal (Gn 3,3), anunciado por Deus mesmo. O cristianismo posterior substituirá a árvore da vida pelo lenho morto da cruz, símbolo do sofrimento redentor de Cristo.

O amor sagrado entre o homem e a mulher vem distorcido:”entre dores darás à luz os filhos; a paixão arrastar-te-á para o marido e ele te dominará”(Gn 3,16). A partir de então se tornou impossível uma leitura positiva da sexualidade, do corpo e da feminilidade.

Aqui se operou um desconstrução total do relato anterior, feminino e sacral. Apresentou-se outro relato das origens que vai determinar todas as significações posteriores. Todos somos, bem ou mal, reféns do relato adâmico, antifeminista e culpabilizador.

O trabalho das teólogas pretende ser libertador: mostrar o caráter construído do atual relato dominante, centrado sobre a dominação, o pecado e a morte; e propor uma alternativa mais originária e positiva na qual aparece uma relação nova com a vida, com o poder, com o sagrado e com a sexualidade.

Essa interpretação não visa repristinar uma situação passada, mas, ao resgatar o matriarcado, cuja existência é cientificamente assegurada, encontrar um ponto de equilíbrio maior entre os valores masculinos e femininos para os dias atuais.

Estamos assistindo a uma mudança de paradigma nas relações masculino/feminino. Esta mudança deve ser consolidada com um pensamento profundo e integrador que possibilite uma felicidade pessoal e coletiva maior do que aquela debilmente alcançada sob o regime patriarcal. Mas isso só se consegue desconstruindo relatos que destroem a harmonia masculino/feminino e construindo novos símbolos que inspirem práticas civilizatórias e humanizadoras para os dois sexos. É o que as feministas, antropólogas, filósofas e teólogas e outras estão fazendo com expressiva criatividade.E há teólogos que se somaram a elas.

As Escrituras patriarcais falam do feminino

N.E. É espantoso que se possa escrever um texto como este e não se conclua o óbvio: Que o deus da Bíblia não é o Deus de Jesus, crucificado, precisamente para se cumprir a vontade do deus todo-poderoso da Bíblia, o mesmo do Credo de Niceia-Constantinopla e do Papado. Perante semelhante aberração bíblica-cristã, o meu amigo L. Boff mais do que ninguém devia atrever-se a concluir que entre o deus todo-poderoso e macho da Bíblia e o Deus todo-Fragilidade e Ruah (feminino) de Jesus, há um abismo intransponível. Pelo que escolher entre um e outro é preciso.

Fundamentalmente importa reconhecer que a tradição espiritual judaico-cristã vem expressa predominantemente no código patriarcal. O Deus do Primeiro Testamento (AT) é vivido como o Deus dos Pais, Abraão, Isaac e Jacó, e não como o Deus de Sara, de Rebeca e de Miriam. No Segundo Testamento (NT), Deus é Pai de um Filho único que se encarnou na virgem Maria, sobre a qual o Espírito Santo estabeleceu uma morada definitiva, coisa que a teologia nunca deu especial atenção, porque significa a assunção de Maria pelo Espírito Santo e desta forma colocando-a do lado do Diivino. Por isso se professa que é Mãe de Deus.

A Igreja que se derivou da herança de Jesus é dirigida exclusivamente por homens que detém todos os meios de produção simbólica. A mulher foi considerada, por séculos, como não-persona jurídica e até hoje é excluída sistematicamente de todas as decisões do poder religioso. A mulher pode ser mãe de um sacerdote, de um bispo e até de um Papa, mas jamais poderá aceder a funções sacerdotais. O homem, na figura de Jesus de Nazaré, foi divinizado, enquanto, a mulher é mantida, segundo a teologia comum, como simples criatura, embora no caso de Maria, seja feita Mãe de Deus.

Apesar de toda esta concentração masculina e patriarcal, há um texto do Gênesis, verdadeiramente, revolucionário, pois afirma a igualdade dos sexos e sua origem divina. Trata-se do relato sacerdotal (Priesterkodex escrito por volta do século VI-V a.C.). Aí o autor afirma de forma contundente: “Deus criou a humanidade (adam em hebraico que significa os filhos e filhas da Terra, derivado de adamah: terra fértil) à sua imagem e semelhança e criou-os homem e mulher”(Gn 1,27).

Como se depreende, aqui se afirma a igualdade fundamental dos sexos. Ambos lançam sua origem em Deus mesmo. Este só pode ser conhecido pela via da mulher e pela via do homem. Qualquer redução deste equilíbrio, distorce nosso acesso a Deus e desnatura nosso conhecimento do ser humano, homem e mulher.

No Segundo Testamento (NT) encontramos em São Paulo a formulação da igual dignidade dos sexos: “não há homem nem mulher, pois todos são um em Cristo Jesus”(Gl 3,28). Num outro lugar, diz claramente: “em Cristo não há mulher sem homem nem homem sem mulher; como é verdade que a mulher procede do homem, é também verdade que o homem procede da mulher e tudo vem de Deus”(1Cor 11,12).

Além disso, a mulher não deixou de aparecer ativamente nos textos fundadores. Nem poderia ser diferente, pois sendo o feminino estrutural, ele sempre emerge de uma forma ou de outra. Assim na história de Israel surgiram mulheres politicamente ativas como Miriam, Ester, Judite, Débora ou as anti-heroínas como Dalila e Jezabel. Ana, Sara e Rute serão sempre lembradas honrosamente pelo povo. Inigualável é o idílio, numa linguagem altamente erótica, que cerca o amor entre o homem e a mulher no livro do Cântico dos Cânticos.

A partir do século terceiro a. C. a teologia judaica elaborou uma reflexão sobre a graciosidade da criação e da eleição do povo na figura feminina da divina Sofia (Sabedoria; cf. todo o livro da Sabedoria e os primeiros dez capítulos do livro dos Provérbios). Bem o expressou a conhecida teóloga feminista E. S. Fiorenza, “a divina Sofia é o Deus de Israel na figura da deusa”(As origens cristãs a partir da mulher, São Paulo 1992 p. 167).

Mas o que penetrou no imaginário coletivo da humanidade, de forma devastadora, é o relato anti-feminista da criação de Eva (Gn 1,l8-25) e da queda original (Gn 3,1-19: literariamente o texto é tardio, (por volta do ano 1000 ou 900 a.C). Segundo este relato, a mulher é formada da costela de Adão que, ao vê-la, exclama: “eis os ossos de meus ossos, a carne de minha carne; chamar-se-á varoa (ishá) porque foi tirada do varão (ish); por isso o varão deixará pai e mãe para se unir à sua varoa: e os dois serão uma só carne”(Gn 2,23-25).

O sentido originário visava mostrar a unidade homem/mulher (ish-ishá) e fundamentar a monogamia. Entretanto, esta compreensão que em si deveria evitar a discriminação da mulher, acabou por reforçá-la. A anterioridade de Adão e a formação a partir de sua costela foi interpretada como superioridade masculina.

O relato da queda é mais contundentemente anti-feminista: “Viu, pois, a mulher que o fruto daquela árvore era bom para comer..tomou do fruto e o comeu; deu-o também a seu marido e comeu; imediatamente se lhes abriram os olhos e se deram conta de que estavam nus”(Gn 3,6-7). O relato quer etiologicamente mostrar que o mal está do lado da humanidade e não do lado de Deus. Mas articula essa ideia de tal forma que trai o anti-feminismo da cultura vigente naquele tempo.

No fundo interpretará a mulher como sexo fraco, por isso ela caiu e seduziu o homem. Daí a razão de sua submissão histórica, agora teologicamente (ideologicamente) justificada: “estarás sob o poder de teu marido e ele te dominará”(Gn 3,16). Eva será para a cultura patriarcal a grande sedutora e a fonte do mal. No próximo artigo veremos como essa narrativa masculinista distorceu uma anterior, feminista, para reforçar a supremacia do homem..

Jesus inaugura outro tipo de relação para com a mulher, o que veremos também proximamente.

O feminino veio primeiro

O presente texto quer ser uma pequena contribuição ao debate sobre o feminino tão distorcido pela cultura patriarcal dominante. De saída já afirmamos: o feminino veio primeiro. Vejamos como surgiu no processo da sexogênese. Várias são as etapas.

A vida já existe na terra, há 3,8 bilhões de anos. O antepassado comum de todos os viventes foi provavelmente um bactéria unicelular sem núcleo que se multiplicava espantosamente por divisão interna. Isso durou cerca de um bilhão de anos.

Há dois bilhões de anos, surgiu uma célula com membrana e dois núcleos, dentro dos quais se encontravam os cromossomos. Nela se identifica a origem do sexo. Quando ocorria a troca de núcleos entre duas células binucleadas, gerava-se um único núcleo com os cromossomos em pares. Antes, as células se subdividiam, agora se dá a troca entre duas diferentes com seus núcleos. A célula se reproduz sexualmente a partir do encontro com outra célula. Revela-se assim a simbiose – composição de diferentes elementos – que junto com a seleção natural representa a força mais importante da evolução. Tal fato tem consequências filosóficas: a vida é tecida mais de trocas, de cooperação e simbiose do que da luta competitiva pela sobrevivência.

Nos dois primeiros bilhões de anos, nos oceanos de onde irrompeu a vida, não existiam órgãos sexuais específicos. Existia uma existência feminina generalizada que no grande útero dos oceanos, lagos e rios, gerava vidas. Nesse sentido podemos dizer que o princípio feminino é primeiro e originário.

Só quando os seres vivos deixaram o mar, lentamente foi surgindo o pênis, algo masculino, que tocando a célula passava a ela parte de seu DNA, onde estão os genes.

Com o aparecimento dos vertebrados há 370 milhões de anos com os répteis, estes criaram o ovo amniótico cheio de nutrientes e consolidaram a vida em terra firme. Com o aparecimento dos maníferos há cerca de 125 milhões de anos já surgiu uma sexualidade definida de macho e fêmea. Aí emerge o cuidado, o amor e a proteção da cria. Há 70 milhões de anos apareceu o nosso ancestral mamífero que vivia na copa das árvores, nutrindo-se de brotos e de flores. Com o desaparecimento dos dinossauros há 67 milhões de anos, puderam ganhar o chão e se desenvolver chegando aos dias de hoje.

Há ainda o sexo genético-celular humano que apresenta o seguinte quadro: a mulher se caracteriza por 22 pares de cromossomos somáticos mais dois cromossomos X (XX). O do homem possui também 22 pares, mas com apenas um cromossomo X e outro Y (XY). Daí se depreende que o sexo-base é feminino (XX) sendo que o masculino (XY) representa uma derivação dele por um único cromossomo (Y). Portanto, não há um sexo absoluto, apenas um dominante. Em cada um de nós, homens e mulheres, existe “um segundo sexo”.

Ainda com referência ao sexo genital-gonadal importa reter que nas primeiras semanas, o embrião apresenta-se andrógino, vale dizer, possui ambas as possibilidades sexuais, feminina ou masculina. A partir da oitava semana, se um cromossomo masculino Y penetrar no óvulo feminino, mediante o hormônio androgênio a definição sexual será masculina. Se nada ocorrer, prevalece a base comum, feminina. Em termos do sexo genital-gonadal podemos dizer: o caminho feminino é primordial. A partir do feminino se dá a diferenciação, o que desautoriza o fantasioso “princípio de Adão”. A rota do masculino é uma modificação da matriz feminina, por causa da secreção do androgênio pelos testículos.

Por fim existe ainda o sexo hormonal. Todas as glândulas sexuais no homem e na mulher são comandadas pela hipófise, sexualmente neutra e pelo hipotálamo que é sexuado. Estas glândulas secretam no homem e na mulher os dois hormônios: o androgênio (masculino) e o estrogênio (feminino). São responsáveis pelas características secundárias da sexualidade. A predominância de um ou de outro hormônio, produzirá uma configuração e um comportamento com características femininas ou masculinas. Se no homem houver uma impregnação maior do estrogênio, terá alguns traços femininos; o mesmo se dá com a mulher com referência ao androgênio.

Importa ainda dizer que a sexualidade possui uma dimensão ontológica. O ser humano não possui sexo. Ele é sexuado em todas as suas dimensões, corporais, mentais e espirituais. Até a emergência da sexualidade o mundo é dos mesmos e dos idênticos. Com assexualidade emerge a diferenciação pela troca entre diferentes. São diferentes para poderem se inter-relacionar e estabelecer laços de convivência. É o que ocorre com a sexualidade humana: cada um, além da força instintiva que sente em si, sente também a necessidade de canalizar e sublimar tal força. Quer amar e ser amado, não por imposição mas por liberdade. A sexualidade desabrocha no amor, a força mais ponderosa “que move o céu e as estrelas” (Dante) e também nossos corações. É a suprema realização que o ser humano pode almejar. Mas retenhamos: o feminino vem primeiro e é básico.

Deus: Pai maternal / Mãe paternal

N.E. O problema é que, quando dizemos Deus, sempre o fazemos a partir de nós. Quando só a partir do outro na condição histórica de não-outro, somos positivamente afectados, ao ponto de mudamos de ser. É por aqui que navega a Fé de Jesus. As religiões do Livro – judaísmo-cristianismo-islamismo – também partem do outro, mas sempre na condição histórica de omnipotente, omnisciente, omnipresente. Por isso, o fabricador dos Não-Outros. Jesus, o filho de Maria, até evita dizer Deus. Prefere dizer os outros na condição de Não-Outros. A Omnifragilidade, portanto. Conclusão: o Deus de Jesus É, nos antípodas do Deus das religiões do Livro, todas fabricadoras dos Não-Outros. Os Ninguém!

Existencialmente falando, Deus é o nome que simboliza aquela terníssima Realidade e aquele Sentido amoroso, capaz de preencher a incompletude do ser humano. Deus só tem sentido se irromper do nosso radical desejo que para Aristóteles e Freud é infinito.

Essa Suprema Realidade (o Reale realissimum dos pensadores medievais) foi expressa no contexto da cultura do patriarcado: Deus comparece como masculino. Em consequência, todas as grandes religiões históricas se estruturaram ao redor no código patriarcal. Por isso, tais linguagens precisam ser hoje despatriarcalizadas se quisermos ter uma experiência totalizante do Sagrado. Nisso as mulheres podem ser nossas mestras e doutoras.

Fomos todos ajudados pela descoberta da existência, antes posta em dúvida, de uma fase matriarcal da humanidade, ocorrida há cerca de 20 mil anos. As divindades eram todas femininas. Isto significou uma virada na reflexão teológica. Hoje só fazemos justiça à nossa experiência do Divino se a traduzirmos em termos masculinos e simultaneamente femininos. Deus emerge numa linguagem inclusiva como Pai maternal e como Mãe paternal. Como Deus-Ele e de Deus-Ela no dizer de muitas feministas.

Obviamente “Deus” ultrapassa as determinações sexuais, no entanto, vigoram valores positivos presentes nesta forma de nomear Deus. Masculino (animus) e feminino (anima) são princípios estruturanstes de nossa identidade.

Todas as palavras do dicionário não conseguem definir Deus, pois Ele ultrapassa a todas. Vive na dimensão do inefável. Diante dele mais vale calar do que falar; cabe viver uma atitude de respeito e de devoção.

Estimo, no entanto, que não podemos renunciar à palavra “Deus”em razão do rico significado semântico de sua origem sânscrita (di) e do grego (theós): a luminosidade que se irradia em nossa vida (o significado de di em sânscrito) ou a solicitude para com todos os seres, queimando com sua bondade toda malícia qual fogo purificador (o sentido originário do theós grego).

As mulheres se impuseram a si mesmas a tarefa: como pensar o Divino, a revelação, a salvação, a graça, o pecado, partir da experiência das mulheres mesmas, vale dizer, a partir do feminino. No contexto da teologia da libertação, a questão é: como pensar Deus a partir da mulher pobre, negra e oprimida ?

Nesse campo houve contribuições notáveis. Antes de mais nada, as mulheres mostraram quão patriarcal e masculinista é o discurso dito normal e oficial que penetrou na catequese, nos discursos oficiais até na teologia erudita. Raramente os teólogos-homens conscientizaram seu lugar social-sexual-patriarcal.

A teologia ainda dominante constitui uma elaboração que os homens, como homens, fazem do Divino. Normalmente a teologia masculina é racional e busca o sistema. Ela é pouco espiritual, em distinção da teologia feminina que é mais narrativa, marcada pela inteligência cordial e pela espiritualidade.

A partir da experiência do feminino, o discurso teológico ficou mais existencial, inclusivo e integrador do quotidiano. Uma coisa é dizer Deus-Pai. Nessa palavra ressoam ancestrais arquétipos ligados à ordem, ao poder, à justiça e a um plano divino. Outra coisa é dizer Deus-Mãe. Nessa invocação emergem experiências originárias e desejos arcaicos de aconchego, de útero acolhedor, de misericórdia e de amor incondicional.

Onde a religião do Pai introduz o inferno, a religião da Mãe faz prevalecer a misericórdia e o perdão.

Por fim, cabe perguntar: em que medida o feminino/masculino são caminhos da humanidade para Deus? E em que medida o feminino/masculino são caminhos de Deus para a humanidade? Só temos um acesso integral a Deus mediante o feminino e o masculino, pois “são à sua imagem e semelhança”.

Já C. G. Jung e Paul Ricoeur observaram que o masculino e feminino ultrapassam o âmbito da razão. Entram na dimensão do Profundo, incognoscível, vale dizer, do mistério. Há, portanto, certa afinidade entre a realidade Deus e a realidade feminino/masculino, porque ambos são mistério,embora Deus é sempre maior (sempre maior).

Se o feminino/masculino representam perfeições, então se ancoram em Deus. Se assim é, o feminino/masculino adquirem dimensões divinas.

A teologia levanta ainda uma questão radical: a que são chamados, no plano último de Deus, o feminino e masculino? Esta questão é irrenunciável.

Numa formulação extremamente abstrata e generalista, mas verdadeira, podemos dizer: todas as religiões, por caminhos, os mais diversos, prometem uma plenitude e uma eternização da existência humana, masculino/feminina. Serão Deus por participação, no dizer do místico São João da Cruz. Será uma fusão com a Suprema Realidade que é amor e jogo de relações recíprocas. O Cristianismo se soma a esta compreensão bem aventurada chamando-a o Reino da Trindade.

Edição 134 Janº 2018

Que pensar das novas formas de coabitação?

Ao lado das famílias-matrimônio que se constituem no marco jurídico-social e sacramental, mais e mais surgem as famílias-parceria (coabitação e uniões-livres) que se formam consensualmente fora do marco tradicional e perduram enquanto houver a parceria, dando origem à família consensual não conjugal.

Crescem no mundo todo as uniões entre homoafetivos (homens e mulheres) que lutam pela constituição de um quadro jurídico que lhes garanta estabilidade e reconhecimento social, o que vem feito também no Brasil.

Não é lícito emitir um juízo ético sobre estas formas de coabitação sem antes entender o fenômeno. Concretamente: como conceituar a família face às várias formas como ela está se estruturando nos dias atuais?

Um especialista brasileiro, Marco Antônio Fetter, o primeiro entre nós a criar a Universidade da Família, em Porto Alegre, com todos os graus acadêmicos, assim define: ”a família é um conjunto de pessoas com objetivos comuns e com laços e vínculos afetivos fortes, cada uma delas com papel definido, onde naturalmente aparecem os papéis de pai, de mãe, de filhos e de irmãos”(Correio Riograndense, 29/10/2003,11).

Transformação maior, entretanto, ocorreu na família com a introdução de preservativos e de anticoncepcionais, hoje incorporados à cultura como algo normal e ajudando a evitar a AIDS e outras doenças sexualmente transmissíveis. Ademais, com os preservativos e a pílula, a sexualidade ficou separada da procriação e do amor estável.

Mais e mais a sexualidade bem como o matrimônio são vistos como chance de realização pessoal, incluindo ou não a procriação. A sexualidade conjugal ganha mais intimidade e espontaneidade, pois, pelos meios contraceptivos e pelo planejamento familiar fica liberada do imprevisto de uma gravidez não desejada. Os filhos/filhas são queridos e decididos de comum acordo.

A ênfase na sexualidade como realização pessoal propiciou o surgimento de formas de coabitação que não são estritamente matrimoniais.Expressão disso são as uniões consensuais e livres sem outro compromisso que a mútua realização dos parceiros ou a coabitação de homoafetivos.

Tais práticas, por novas que sejam, devem incluir também uma perspectiva ética e espirit