TEXTOS DE IVONE GEBARA,

Escritora, Filósofa, Teóloga

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Edição 119, Junho 2016

Ordenação
de mulheres?
Para qual Igreja
e com qual teologia?
Minha reflexão embora se abra a um
contexto internacional da Igreja Católica Romana situa-se mais
particularmente no contexto latino-americano até certo ponto menos
envolvido na temática da ordenação de mulheres. Nunca fomos
assíduas lutadoras nessa reivindicação. Entretanto, nessas últimas
semanas em meio ao conturbado contexto político nacional, uma
quantidade significativa de textos sobre o assunto tem sido divulgada
pelas redes sociais, sobretudo católicas.
Da mesma forma, em diferentes sites
nacionais a reflexão sobre a ordenação de mulheres e a possível
constituição de uma comissão de estudo no Vaticano para o
diaconato feminino tem ocupado espaço significativo. Até uma
paróquia da zona leste da cidade de São Paulo organiza para breve
um debate sobre o tema. Muitos textos divulgados contam histórias de
mulheres que segundo a oficialidade da Igreja Católica foram
ilegitimamente ordenadas e, por isso, excomungadas. Calcula-se que
mais de duzentas mulheres estejam hoje nessa situação e entre elas
há também algumas poucas bispas, ordenadas sigilosamente por bispos
refratários às ordens vaticanas. A questão da ordenação das
mulheres sai de novo das catacumbas e começa a ver a luz do dia,
apesar de envolta em mil e uma dificuldades provenientes de posições
de grupos os mais diversos e divergentes.
Uma questão crítica
Reconheço que a efetivação da
ordenação de mulheres seria um passo que, segundo algumas pessoas,
poderia sanar em parte uma situação de desigualdade pública na
sociedade e especialmente na Igreja Católica Romana. Entretanto, é
preciso deixar claro que para muitas adeptas e adeptos da ordenação
de mulheres trata-se apenas da afirmação de um “direito” de
ambos os sexos de representarem Jesus Cristo diante da comunidade e
não necessariamente de uma reivindicação feminista. Em outros
termos, trata-se de pensar apenas na integração das mulheres ao
sacerdócio oficial guardando-se a mesma forma de pensar e viver a
Igreja. Critica-se a autoridade católica por não abrir espaços às
mulheres quando o que elas pedem é estar a serviço da Igreja em
diferentes tipos de trabalho e especialmente no ministério ordenado.
Quero apenas abrir algumas pistas de
reflexão frente a essa questão de complexa solução no momento.
A meu ver o problema crítico situa-se
justamente na consideração do direito das mulheres muitas vezes
tomado de forma bastante simplista. O que significa um direito quando
a instituição na qual se quer ter direitos é uma das que nega ou
que não apóia muitos direitos às mulheres? O que significa ter
direito numa instituição cuja ideologia teológica segue
valorizando e incentivando o poder masculino em detrimento de uma
visão mais participativa e diversificada de serviços, carismas e
poderes? O que significa ter direito à ordenação de mulheres
quando há uma visão do sacerdócio eminentemente masculina,
anacrônica e com uma secular simbologia teológica masculina? O que
significa esse direito quando outros direitos são frontalmente
desrespeitados? Será que a admissão ao sacerdócio ordenado traria
respostas a essas espinhosas questões?
A teologia sacerdotal vigente
A partir da teologia sacerdotal vigente
os padres são revestidos de poderes não apenas simbólicos, mas
poderes políticos e sociais que lhes permitem orientar vidas e até
manipulá-las ou dominá-las.
Usam muitas vezes dos textos bíblicos
como lhes convém e justificam suas escolhas como se fossem emanações
evangélicas. Sem dúvida as exceções sempre existem e não quero
esquecê-las. Mas, o mais comum é os padres concentrarem uma
autoridade sobre as pessoas e especialmente sobre as mulheres
mantendo e justificando de muitas formas as hierarquias que dominam a
terra. Essa concentração exagerada de poder impede a ascensão e
organização de ministérios ou serviços múltiplos a partir e em
favor das comunidades cristãs. Além disso, o modelo de sacerdote
que se apresenta é o sacerdócio de Jesus numa interpretação
judaizante que me parece cada vez mais distante das ações e
inspirações que descobrimos nos Evangelhos. Em vez de renunciarem
ao poder que os coloca em evidencia e ao lado de seus pares seculares
fortaleceram as alianças entre poder político, econômico e
religioso ao longo dos séculos. Impõem decisões e muitos atuam de
forma desrespeitosa, sobretudo quando o assunto refere-se à
sexualidade feminina.
Reconheço o papel social e cultural de
sacerdotes, pajés, mães e pais de santo, imãs nas diferentes
religiões e sua evolução na história contemporânea. Estes atores
e atoras sociais não são apenas os únicos “guardiães” da
tradição religiosa a que pertencem, mas líderes que deveriam ter o
coração colado às necessidades de suas comunidades. Dessa forma a
participação dos membros nos serviços e na construção de
significados atualizados seria uma responsabilidade comum. Isto
requer um constante diálogo e uma divisão de saberes e poderes para
responder aos sempre novos desafios do contexto em que se vive. Nesse
sentido não pleiteio a extinção do papel de pessoas mais
preparadas ou líderes éticos em relação aos conteúdos e
tradições religiosas, mas estas pessoas só deveriam ter sua
autoridade legitimada na medida em que estiverem em conexão com as
questões vividas pela comunidade.
Reforma política da Igreja Católica
Nessa perspectiva não penso que as
mulheres devam fortalecer um modelo de sacerdócio hierárquico
masculino e nem aceitar a ordenação a partir de uma teologia também
hierárquica no seu conteúdo e de simbologia fundamentalmente
masculina. No processo histórico atual não se fala de “reforma
política na Igreja Católica” o que seria a meu ver útil e
necessário. É como se a política e a organização atual da Igreja
proviessem diretamente de Deus, segundo a vontade de Jesus e se
apresentassem de forma imutável nos diferentes séculos da história
e nas diferentes culturas onde o cristianismo se implantou. Falar em
“reforma política da Igreja Católica” implica igualmente falar
de uma reforma das teologias que sustentam essas políticas de
caráter masculino patriarcal centralizador. E a reforma dessa
teologia vai revelar quase o óbvio, ou seja, a existência não só
de muitas teologias e interpretações, mas entre a vida ordinária
cotidiana e as teologias que sustentam a organização da Igreja nos
seus diferentes níveis. Em termos concretos estou querendo dizer que
uma coisa é a vida de cada dia e outra coisa é a teoria política
teológica de uma organização religiosa com suas leis e princípios
e, sobretudo com a diversidade de pessoas que dela participam. A
pretensa uniformidade dos dogmas, a legalidade das leis canônicas
escritas, apesar de sua utilidade, vão de encontro ao pluralismo das
situações e crenças presentes nas diferentes culturas e momentos
da História. A Igreja hierárquica nem sempre as respeitou, mas
muitas vezes as combateu como negações da verdadeira doutrina
revelada por Deus. É nesse contexto que também se pode falar das
teologias feministas e de sua crítica ao centralismo religioso e ao
corte eminentemente masculino de sua simbologia religiosa. Têm
denunciado com insistência os abusos do poder religioso, sobretudo
em relação à posse indevida da decisão sobre nossos corpos. Têm
reinterpretado de forma rica e contextualizada a Bíblia e as
teologias de forma a responder aos desafios atuais de nosso mundo.
Estas teologias são quase
absolutamente rejeitadas ou ignoradas pelos mantenedores da tradição
masculina, pois fogem do roteiro estabelecido por esta tradição.
Teologia feminista
Suspeito que boa parte do movimento em
favor da ordenação das mulheres não trabalha na linha crítica
assumida por muitas teologias feministas. Buscam apenas a igualdade
de gênero nos ministérios sem fazer perguntas às bases de
sustentação teológica e política da Igreja na atualidade.
Em geral, apenas visualizam o direito
das mulheres a exercer ministérios na Igreja Católica pré-definida,
na Igreja “universal” já constituída do ponto de vista de sua
organização hierárquica. É como se apenas ao se tornarem
presentes nas fileiras sacerdotais, as mulheres pudessem por sua
presença modificar algo do panorama real, visual e formal de sua
representação até agora unicamente masculina. Não ignoro a
importância do visual, das quotas de representatividade, mas apenas
isto não modifica por dentro nossas convicções. É preciso ter
claro quais os comportamentos sociais, políticos e eclesiais que
devem acompanhar a ordenação das mulheres. Que novas políticas a
Igreja vai assumir, que orientações se vai propor quando novos
“sujeitos”, os femininos, passarem a fazer parte de seus quadros
de direção e da liderança das comunidades nos diferentes níveis.
Estas são exigências que nós mulheres devemos fazer para não
assumir algo como se fosse um favor dos homens de Igreja ou um ato
magnânimo de concessão a nós simples mulheres.
Opino dessa forma porque conheço
algumas das sacerdotisas, pastoras e candidatas ao sacerdócio
feminino e minha impressão embora limitada e discutível, carrega a
percepção de que não conseguirão uma mudança qualitativa e
significativa na estrutura atual da Igreja Católica. Muitas apenas
pedem o sacerdócio, mas não expõem e nem exigem as condições de
seu lado para essa efetivação.
Trabalham como se a Igreja que deve
reconhecê-las fosse, sobretudo o episcopado e o papado, instituições
ministeriais masculinas. São estas que devem conceder-lhes a
autorização para servirem a comunidade. Elas, sem perceber, se
tornam ou se consideram menos Igreja identificando-a a hierarquia que
a governa. Algumas dessas mulheres sacerdotisas têm trabalhos de
ponta junto a populações marginalizadas e discretamente
reorganizadas por elas. Algumas têm até doutorados em teologia e
estudaram em universidades de renome internacional. E, no entanto,
essa capacitação não é reconhecida pelos prelados. Posso entender
a emoção e o desejo de muitas mulheres de se verem no altar, de
sentirem que presidem uma celebração eucarística publicamente e
que têm certo poder na comunidade. Posso até avaliar a emoção que
algumas narraram de poder levantar a hóstia e dizer “este é o
corpo de Cristo” como um sonho de infância esperando ser
realizado. Ou ainda a emoção de sentirem-se chamadas de ‘pastoras’,
‘madres’ (?), presbiteras ou diáconas numa paróquia. Não as
condeno, mas acredito que poderíamos ir mais longe e exigir bem mais
num diálogo que deveria ser entre iguais e não entre superiores e
inferiores.
Afetos e poderes absolutos e
domésticos
Nessa problemática da ordenação das
mulheres há um dado igualmente importante que nem sempre é
considerado. Trata-se do fato de o Cristianismo na sua forma católica
romana ser uma religião organizada a partir de fortes emoções
culturais onde o circuito dos afetos revela uma espécie de divisão
social de poderes que reproduz a sociedade na qual vivemos. A figura
masculina de Deus Pai, Filho e Espírito Santo reveste-se de poder
sócio-emocional absoluto enquanto que as figuras femininas como
Maria e as muitas santas revestem-se de poder absoluto doméstico,
cuidador, acolhedor, protetor e sanador. A representação sacerdotal
masculina aparece também emocionalmente ligada ao poder político
absoluto masculino, embora muitas vezes, o poder efetivo e decisivo
no imediato seja o feminino. Sabemos bem que a ordenação masculina
obedece a uma dogmática hierárquica masculina que no fundo começa
pela imagem de Deus Pai entregando poder a seu Filho único que envia
o Espírito perpetuado e simbolizado pelos sacerdotes masculinos.
Estaríamos nós mulheres, com o
advento do feminismo, do pensamento crítico e da teologia feminista
plural, dispostas a manter essa anacrônica hierarquia masculina?
Estaríamos dispostas a manter a diferença entre sexo masculino e
sexo feminino como desnível de capacidades que se expressa também
no desnível salarial no serviço às comunidades? Estaríamos
querendo manter a divisão social dos afetos e poderes de forma
mecânica e naturalizada? Um pequeno exemplo chama nossa atenção.
Hoje em muitas dioceses há uma discrepância salarial entre os
padres e as freiras e leigos por serviços semelhantes... A
discrepância salarial para além das necessidades de cada um reflete
mais uma vez a manutenção do privilégio das hierarquias masculinas
no interior da Igreja. A revolução de significados em curso nos
tempos de hoje não estaria indicando a necessidade de sair das
afirmações dogmáticas do passado e abrir novas possibilidades para
repensar a herança cristã para nossos dias? A expansão da luta
plural pelos direitos humanos não tocaria igualmente direitos mais
amplos na Igreja na diversidade de suas comunidades, organizações e
ministérios?
A naturalização
Outro aspecto importante nessa
problemática refere-se ao perigo de naturalizarmos os comportamentos
masculinos e femininos acreditando que todos os pertencentes a um ou
outro gênero e até mesmo os transgêneros, se comportariam da mesma
maneira. A naturalização significa tornar certos comportamentos
como pré-dados pela natureza ou por Deus e afirmar, por exemplo, que
a vocação sacerdotal das mulheres é o cuidado diário e não a
lida nas políticas públicas em favor do bem comum. Era isso que se
acreditava, por exemplo, em muitos países no tempo da luta
sufragista das mulheres. Não se pode mais acreditar que existem
tarefas ou trabalhos especificamente masculinos e outros
especificamente femininos como se tivéssemos identidades laborais
pré-definidas e comportamentos já pré-atribuídos a essas
identidades. De certa forma essas atitudes assemelham-se as de Jean
Jacques Rousseau e séculos depois ao do positivista Augusto Comte
que queriam educar as mulheres em função dos homens e da família e
buscavam preservá-las da política e dos vícios da vida social para
o benefício da sociedade, dos maridos e da educação dos filhos.
Além disso, consideravam as mulheres moralmente melhores do que os
homens a até vítimas ilibadas reservando a elas um lugar que nada
mais era do que uma reprodução talvez melhorada da naturalização
dos comportamentos sociais de gênero. Assistimos hoje a reflexões e
atitudes semelhantes embora com matizes e justificações diferentes.
Estas precisam ser desconstruídas para que nosso rosto humano
misturado apareça na sua complexidade e ambigüidade.
A história
Nesse contexto de “pedido” de
ordenação das mulheres não podemos nos esquecer também das
perseguições que prelados e funcionários da Igreja Católica
Romana exerceram e exercem em relação às mulheres. Acusadas de
bruxas ou de usurpadoras do poder de pensar que deveria ser apenas
masculino foram condenadas à morte ou perseguidas e castigadas
durante sua vida. De Ipazia de Alexandria (assassinada por ordem de
futuro São Cirilo de Alexandria), a Marguerite Porette ( condenada à
fogueira), a Joana D’Arc (condenada à fogueira) e Juana Inés de
la Cruz (condenada e proibida de escrever e ensinar) e, sem falar das
muitas contemporâneas, as figuras femininas massacradas por ousarem
penetrar nos átrios do saber teológico foram milhares. Será que
podemos esquecer estas histórias e também esquecer que nos séculos
XX e XXI as teologias feministas repensaram boa parte da tradição
cristã, mas que esse pensamento é minimamente conhecido além de
freqüentemente recusado pelos donos do poder e saber religioso? A
recusa a pensar de outro jeito é com freqüência característica
das hierarquias religiosas e políticas... Podemos acaso esquecer que
alguns eminentes personagens de nossa história atual até propõem a
‘ingenuamente’ a necessidade de uma ‘teologia da mulher’ ou
de uma ‘teologia feminina’ ignorando completamente o percurso já
feito durante séculos de história e particularmente da história
desses últimos 40 anos? E mais não aceitam sequer que se fale de
feminismo no interior da Igreja...
Continuam usando um conceito de
igualdade abstrata, igualdade diante de Deus, sem confrontar-se com a
real situação de violência e exploração vivida pelas mulheres. É
simplesmente lamentável...
Podemos acaso esquecer que ainda hoje
há interrogatórios, cartas de advertência, admoestações a
congregações religiosas femininas, a teólogas e filósofas que
acolhem o dom de pensar a vida como parte do serviço ao Movimento de
Jesus? Tudo se articula com tudo. Uma reivindicação não é um
pedido isolado de um conjunto. A ordenação das mulheres se inscreve
nesse complexo contexto de idéias e crenças clericais que governam
mentes e corações e mantém estruturas organizacionais anacrônicas.
Não pode haver um direito isolado da conjuntura em que ele deva ser
afirmado e vivido.
Situação ideal?
Muitas pessoas poderão alegar que
busco uma situação ideal para o exercício público do sacerdócio
ordenado feminino. De forma alguma. Sinto-me apenas chamada a ajudar
a refletir sobre velhas e novas questões em que algumas soluções
que parecem justas e igualitárias escondem os sinistros meandros do
fortalecimento de um poder hierárquico e patriarcal no qual
continuamos a viver, a nos alimentar e alimentar outras vidas. Antes
mesmo de aprovar esse sacerdócio como direito das mulheres, o que
não penso que o governo atual da Igreja Católica fará, teremos que
refletir sobre as condições do direito que pleiteamos e os limites
do modelo de sacerdócio vigente. Ao mesmo tempo em que este modelo
ainda presta alguns serviços à comunidade cristã, também a isenta
de muitas responsabilidades frente à construção de sentidos e à
organização plural da vida cristã. Por isso sou contra a ordenação
das mulheres como concessão, no estilo atual, pois esse é
igualmente limitativo e pernicioso para os homens e mulheres.
Tenho consciência, embora bem
limitada, da história das mulheres na Igreja Católica Romana e do
enorme percurso de lutas que nós percorremos no Cristianismo. Desde
a participação próxima e íntima no Movimento de Jesus até os
dias de hoje temos sustentado e vivido a fé, a esperança e a
caridade, sabendo desde as nossas entranhas que a caridade continua a
ser a maior delas. É nela e a partir dela que a reprodução de
modelos sacerdotais tradicionais na configuração atual do mundo
corre o risco de manter e até ampliar poderes autoritários que
desde muito tempo deveriam ter sido revistos e transformados à luz
do reconhecimento da outra/o como meu semelhante e meu diferente.
Tudo isso é apenas um convite ao pensamento...
Sobre o ódio

"Reconhecimento
de nossa necessidade uns dos outros não como superior e inferior,
mas simplesmente como cidadãos do mesmo planeta terra que necessitam
da ajuda mútua para sobreviver. Reconhecer que somos ‘terrícolas’
que competimos uns com os outros", escreve Ivone Gebara,
filósofa, religiosa e teóloga.
Ando muito preocupada com a questão do
ódio social que observamos em nossos comportamentos. Pode parecer
uma preocupação exagerada em torno de uma palavra pouco simpática,
mas que sintetiza múltiplas emoções, sentimentos e comportamentos
agressivos de variados tipos que estamos presenciando nos dias de
hoje. Sem dúvida ela é parte integrante dos muitos paradoxos e
contradições do tabuleiro da vida humana.
Preocupo-me especialmente com a
juventude e as crianças em processo de educação inicial. Penso em
nossa responsabilidade de adultos de conviver bem com elas e de
ajudá-las a viver no mundo que lhes estamos deixando como herança.
Elas já experimentam em suas relações tantas agressões mútuas
aprendidas provavelmente de nós mesmos, de nossos preconceitos e
egoísmos tão presentes no mundo que as rodeia.
Hoje fala-se, por exemplo, do
‘bulling’, forma de agressão infanto-juvenil aos colegas que não
se adequam às normas sociais de beleza, de vestimenta, de peso, de
sexualidade, de família, de religião e outras. O ‘bulling’
sempre existiu como comportamento social, embora não usássemos a
palavra em inglês hoje em moda.
Crianças e jovens começam por
“destruir” o corpo que não querem ser, o “defeito” que não
querem ter, o “sotaque” que não gostam, o “estrangeiro” com
quem não querem conviver. Desde a mais tenra idade foram
socializadas para ter essas reações. E esses comportamentos tendem
a acentuar-se nas diversas formas sociais de exclusão.
Destrói-se o outro que não quero ser
porque temo reconhecer inconscientemente que posso sê-lo.
Aparentemente me satisfaço acreditando que ao eliminar o outro,
elimino parte do problema.
Destrói-se o outro pela palavra “mal
dita”, pelo ocultamento de seu corpo não permitindo que ele
apareça junto dos outros, isolando-o do espaço comum para que sua
presença nem seja lembrada. Despossuímos os outros de suas
identidades e histórias tornando-os objeto de chacota e agressão.
Nessa breve reflexão quero citar o
cineasta e filósofo belga Luc Dardenne que tem uma interessante
reflexão sobre o ódio. “O ódio é uma paixão que destrói seu
objeto e seu sujeito. Por quê? Porque, na destruição de seu
objeto, ela visa a destruição da relação, da separação,
portanto do outro como objeto e também do outro como sujeito, como
um eu separado. Como toda paixão o ódio busca a continuidade, a
massividade. Desejar destruir o outro, odiá-lo é o mesmo movimento
de desejar me destruir, me odiar a mim mesmo que não estou mais numa
bolha, mas nasci no mundo.
Já que é uma paixão que busca
continuidade e crescimento por que, nesse momento difícil de nossa
história nacional, falar de ódio e não falar do amor tão
necessário às relações humanas? É porque o ódio é uma forma de
doença do amor e essa doença volta hoje coletivamente como uma
epidemia ameaçadora capaz de destruir vidas. E é uma doença para
além das classes sociais e nas classes sociais, é para além das
etnias e nas etnias, é para além da política e na política, é
para além dos sexos e nos sexos, é para além das religiões e nas
religiões. Então é urgente reconhecê-la e conhecê-la um pouco
mais para saber lidar com sua presença em cada um de nós e nos
outros.
O ódio aos outros e a mim...
Ao odiar os outros, no mesmo acto
estamos também nos odiando, fazendo com que essa paixão
avassaladora tome conta de nosso corpo e de nossas emoções de forma
massiva. Tornamo-nos escravos dela, obedientes aos seus cegos
impulsos. Destruímos e nos destruímos tomados por velhos rancores e
por muitas odiosas vinganças. Embora não possamos evitá-la
completamente, saber que dentro de nós existe um nefasto vulcão que
pode lançar suas lavas destruidoras a qualquer instante é algo
muito importante.
Muitas vezes pensamos que essa paixão
que toma nossas entranhas poderia ser controlada através de muitos
artifícios começando pela repressão policial aos excessos ou pela
fuga através do álcool ou de outras drogas. Também pensamos que as
religiões, apelando para Deus e o diabo, poderiam controlar o
desvario de nossas emoções. Mas é preciso ir mais longe. É
preciso captar sua força em nós, pensar com um pouco de lucidez
sobre ela, conversar com ela como parte de mim.
Esta é sem dúvida uma breve reflexão
entre outras tantas. Quero apenas retomar a questão do ódio como um
contagioso fenômeno individual e social com traços e desdobramentos
próprios ao nosso tempo.
No atual contexto político nacional,
internacional e também para além deles, cada um de nós de certa
forma se descobre odiando o outro/a. E descobrimos, não sem espanto,
como o ódio faz parte das fibras de nosso ser tanto quanto o nosso
desejo de sermos amados e cuidados. Tudo em nós é misturado...
Creio que não há que temer o
reconhecimento do ódio em nós em diferentes intensidades e formas.
O ódio mora em nós... Não podemos querer apenas preservar um
idealismo romântico do amor como se essa força que acreditamos ser
positiva fosse isenta do seu negativo ou fosse isenta do ódio ou de
qualquer outra forma de mal. Até os “mais puros” odeiam e odeiam
o ódio e a possibilidade de cair na tentação da impureza mesmo não
sabendo exatamente o que é a pureza e a impureza.
Compreender o ódio...
Não seria hoje uma necessidade urgente
enfrentar a tarefa de compreender algo do ódio que habita em nós?
Compreender para avançar em qualidade de humanidade... Compreender
para não cair na ilusão de que o ódio pertence aos outros...
Compreender para não levantarmos o dedo acusatório aos outros sem
que o dirijamos também a nós. Compreender para não nos alienarmos
de nossas paixões na diversidade e na mistura de nossa vida.
Enfrentar-nos a essa paixão primitiva
sem querer negá-la ou encobri-la é acolher-nos de certa forma na
beleza e no paradoxo de nossa nudez interior. É esta nudez que traz
a tona um ódio quase constitutivo, nos ajuda, na medida em que é
compreendido, a sair das ilusões que construímos sobre nós mesmos.
Quem de nós para disfarçar o ódio diz apenas “não tenho ódio
de ninguém”, “só não gosto de fulano, beltrano, sicrano”? Ou
ainda, “respeito sua posição, mas não é a minha”... Ou, “sem
nenhum preconceito, mas não acho isso natural...” O que se esconde
atrás dessas afirmações?
Gradações e matizes de ódio
incluindo o ódio supremo de tirar a vida daquele ou daquela que me
destrói por sua presença convivem em nós. Por quê? São muitas as
razões e as sem razões.
Entretanto, intuo, na linha de Luc
Dardenne que tomados pelo medo de morrer, de não continuarmos no
palco da história queremos destruir o que possa nos negar a
existência individual soberana ou o que possa descobrir nossa
fragilidade, nossa fraqueza ou mesmo anunciar nosso desaparecimento.
O grito do “odeio” parece mais intenso ou talvez mais barulhento
do que a intimidade do amor ou sua aparente fragilidade.
Por isso preservamos nossa destruição
e nossa trivialidade a todo custo odiando aqueles e aquelas que
ameaçam nossa existência. Não nos esqueçamos que já no
desdobramento do mito adâmico Caim cheio de inveja odeia seu irmão
Abel e o mata. O fratricídio está nas nossas origens... É a marca
que levamos em nós como uma entranhada tentação a eliminar o
outro/a.
“Odeio aquela mulher que ‘roubou’
meu marido”. “Odeio Narciso que roubou meus votos nas eleições”.
“Odeio meu irmão que tomou meu lugar na empresa de meu pai”.
“Odeio minha vizinha que montou uma barraca de pastéis igual a
minha”. “Odeio o médico que foi incompetente no seu
diagnóstico”. “Odeio a mim mesma porque não fui o que sonhei
ser”.
Se pudesse poria fogo na barraca de
pastéis, mataria a ladra, destruiria meu irmão, acabaria com a vida
de meu opositor, tiraria a licença profissional do médico, passaria
a limpo toda a minha vida... E, há mais, bem mais coisas nessa linha
de eliminação do outro do circuito de minha vida. Paixões
vingativas, ódios destruidores pequenos e grandes nos assolam cada
dia e nos assolam desde as palavras, desde o volume alto de nossa voz
até a efetivação de outras formas de eliminação dos outros. Mas
são essas pequenas manifestações de ódio mais ou menos cotidianas
que vão fazendo crescer em nós a vontade de destruir quem não é
como eu. Solução fácil para resolução de conflitos! Os que não
são como eu, tanto na vida familiar, na vida política, nas
religiões, nas ideologias valem menos a meus olhos... Quem não é
como eu sou é meu inimigo! Quem me impede de viver o prazer que
julgo ser minha felicidade é meu inimigo. Quem me nega o pão é meu
inimigo. Quem acumula para si o pão de todos é inimigo. Quem não
vive a mesma orientação sexual, é anormal e até inimigo. Expulsão
da diferença. Ignorância da sociabilidade e interdependência vital
dos seres humanos. Idolatria do eu... Destruição do eu e do tu...
E, paradoxalmente condição de reconstrução do eu, do nós.
O mais trágico no ódio é que criamos
instrumentos e máquinas para alimentá-lo. A velha “indústria da
guerra”, a indústria das armas cuja finalidade é matar e ao mesmo
tempo fazer viver a economia mundial e através dela tantas famílias
confirma essa afirmação. Contradição, paradoxo, loucura humana
que nos mata e nos mantém vivos! Não é de hoje, mas é também de
hoje...
O ódio é de certa forma a idolatria
do eu, o medo da morte daquilo que imagino que é a razão de meu
viver, a simples contrariedade à minha vontade ou ao sonho
imaginado. O ódio é o medo de
perder a exclusividade, a
particularidade, a especificidade a partir da existência do outro.
Ódio como fechamento na bolha do útero materno como se não
quiséssemos a inevitável saída para a experiência da vida plural
num mundo plural.
O ódio e a cultura popular
O ódio destrói a realidade relativa e
provisória de meu ser fazendo-me acreditar na onipotência e
imortalidade de minha vida sem o outro. E, ao odiar o outro estou
mais uma vez odiando a mim mesma que sou o diferente do outro, que
não sou sem o outro. Sem perceber podemos criar relações de ódio
múltiplo e diversificado como base das relações sociais.
Muitas atitudes chamadas de ‘bem
educadas’ revelam nossos preconceitos de classe e de cor. Muitas
músicas do funk nacional dos últimos anos revelam a seriedade das
denúncias contra as diferentes formas de opressão social, mas ao
mesmo tempo revelam o fio de ódio presente no tecido da arte
musical. É como se os injustiçados e odiados pelos que lhes negam
direitos de vida retribuíssem com ódio artístico sua relação
odiosa. Que explodam os que não são de meu clã. Olho por olho,
dente por dente dos dois ou dos três lados embora as
responsabilidades e oportunidades sejam diferentes.
Mais alguns exemplos podem talvez
ajudar a entender a complexidade dos diferentes matizes do ódio como
também os diferentes matizes do amor.
Fecharam as torneiras de água para os
pobres da periferia... Ódio vivido pelos pobres aos quais foi negada
ou reduzida a água para sobreviver. Ódio dos ricos porque não
tiveram a água renovada da piscina aquecida dos filhos. Ódio dos
órgãos públicos que não cumpriram com sua responsabilidade
social. Como sair desse ódio mortal coletivo e diversificado que
invade a todos nós? Ou como torná-lo paixão menos destrutiva e
avassaladora? Ou seria o ódio necessário para a prática da
justiça? Seria ele o começo da consciência social?
No último domingo na câmara federal
dos deputados do Brasil se ouvia o nome de Deus misturado ao ódio
pelo atual governo da república. Nem Deus, mistério infinito foi
isentado da acusação de ódio e da vivência do mesmo em relação
às ações humanas. “Primeiro agradeço a Deus” por tomar essa
decisão histórica diziam alguns, e, em seguida despejavam sua raiva
ou seu ódio em forma de palavras acusatórias. Por que nos
comportamos assim? Por que necessitamos de um plano acima da história
para justificar nossas posturas políticas e sociais? Por que usamos
de uma autoridade intangível com a qual não podemos debater em
iguais condições para justificar ou legitimar nossas posições?
A capacidade que temos de fazer de
nosso semelhante um inimigo, um ser humano sem humanidade, um ser
cujo sofrimento não me interessa, um ser ao qual nego qualquer
possibilidade de relação ou de aproximação comigo é aterradora.
E essa capacidade é elevada à potência superior na medida em que
determina a partir de nós mesmos a vontade de Deus sobre a história
humana. Essa vontade superior imaginariamente legitima a minha. E no
mesmo ato releva minha fraqueza e falta de convicção pessoal na
afirmação dos frágeis caminhos escolhidos. Sem dúvida há uma
questão cultural religiosa em tudo isso, mas através dela se
mostram também os complexos meandros do coração humano.
Embora eu possa parecer bastante
teórica ou até mesmo idealista não vejo outro caminho para
encontrar o equilíbrio de nossas paixões as mais vis a não ser o
da proximidade e do reconhecimento uns dos outros. É da proximidade
conosco mesmo que nasce a compreensão de nossa complexa humanidade.
É da proximidade reconhecida como necessidade para a convivência
social que nasce o contrato, a negociação, o encontro entre as
pessoas como caminhos que apaziguam nosso desejo de morte ao outro,
como caminhos que equilibram a expansão indevida de nosso eu a
limites inimagináveis.
Aprender a proximidade...
A proximidade do outro, da outra é um
aprendizado desde a mais tenra idade, aprendizado que nos previne da
tirania de uns contra os outros, da guerra que podemos declarar
àqueles que pensam e vivem de forma diferente. A proximidade do
outro deveria me conduzir desde a mais tenra idade a ser educada para
um mundo onde todos e todas possam caber e nesse mesmo ato me previne
do consumismo exagerado, consumismo não só de coisas, mas do outro
que deve se submeter à minha vontade soberana.
Reconhecimento de nossa necessidade uns
dos outros não como superior e inferior, mas simplesmente como
cidadãos do mesmo planeta terra que necessitam da ajuda mútua para
sobreviver. Reconhecer que somos ‘terrícolas’ que competimos uns
com os outros, que nos odiamos, mas também nos amamos, é apenas a
retomada de antigas sabedorias que nos convidavam a desenvolver a
proximidade e a simpatia uns pelos outros, como condição de
sobrevivência. A recusa da dominação do ódio, trabalho árduo
sobre si mesmo, não é o esquecimento das muitas histórias de ódio,
mas é uma ponte que nos conduz ao reconhecimento do direito de vida
do próximo, a uma convivência com menos obsessões e agressões.
Sair de nosso cinismo, de nossa
crueldade pessoal e de nossa auto-suficiência para simplesmente
reconhecer que cada um de nós é a criança necessitada de cuidado e
carinho, o velho trôpego caído na rua, o homem adulto que chora e
sofre em seu cotidiano. Este é um caminho a ser retomado como
convicção comum para o nosso tempo. Não é para chegarmos ao céu
que o reconhecimento recíproco se faz necessário, mas é para
apagar os incêndios que nosso egoísmo acendeu, incêndio do coração
humano que é mais grave do que o fogo nas florestas e a crise
econômica e política na qual vivemos. Não há receita de como
fazer isso valer em mim e nos meus próximos.
Mas, tenho certeza que cada um e cada
uma de nós tem dentro de si alguma luz capaz de iluminar sua mente e
seu coração para descobrir sendas, atalhos, veredas de luz. Luz que
pode abrir pequenos espaços para sairmos do reinado do ódio e das
rivalidades no meio de nós. E esta descoberta, mais uma vez, não é
espontânea, nem mágica. É um trabalho educativo individual e
coletivo sobre si e sobre os outros até que descubramos afinal o
veio de água fresca capaz de apaziguar nossa sede de amor e de
justiça. E quando o veio desaparecer enterrado por nossos ódios e
tribulações é preciso procurá-lo de novo como uma infinda tarefa
humana.
Antes de nos reconhecermos como sendo
de um partido, de uma nação, de uma religião, de uma ideologia,
com uma identidade sexual precisa reconheçamo-nos na nossa diferença
e diversidade como imagem e semelhança uns dos outros.
O ódio sou eu, o amor sou eu, o outro
sou eu, o hoje e o amanhã sou eu... E nós todos somos da terra e a
terra da Via Láctea e ela do inominável mistério infinito...
É fácil terminar um texto sobre o
ódio com uma conclusão mais ou menos poética que pode até parecer
uma nova ilusão. Mas, de facto é uma ilusão necessária ou
simplesmente uma aposta ou uma singela utopia de que amanhã tudo
poderá ser melhor, que meus filhos e filhas poderão viver melhor,
que os que hoje buscam terra poderão enfim habitá-la com dignidade.
Ilusão necessária aos seres humanos, ilusão que longe de nos cegar
aos outros nos convida a reconhecê-los, a socorrê-los em suas
necessidades e em seus sonhos de amor.

 

De Joana D’ Arc a Helder Câmara

 

A imprensa nacional e internacional tem divulgado neste ano o início do processo de beatificação de D. Helder Câmara como uma boa notícia para muitos. Do Recife para o mundo as notícias são divulgadas quase em tempo real. Missa solene marca o início do processo de beatificação, processo esse aprovado rapidamente pelo Vaticano até para espanto de muitos.

 

Embora saibamos da existência de um bom grupo que condenava as ações de Dom Helder como bispo e continua ainda a condená-lo como candidato a beato e talvez santo, creio que a maioria das opiniões vai na linha de uma entusiasta aprovação de seu nome. Estão convencidos que a Igreja Católica liderada pelo Papa Francisco está num extraordinário momento de reconhecimento de profetas contemporâneos e marca essa atitude elevando-os aos altares. Faz assim justiça ao símbolo que representam na luta pelos direitos humanos e o cuidado evangélico dos pobres. Tenho muitos amigos e amigas que são parte desse grupo de entusiastas e isso me coloca até numa posição delicada diante deles pelo facto de abrir brechas ao entusiasmo pensando de outra maneira. Mas assim mesmo creio que é importante refletir um pouco mais sobre as conseqüências da beatificação. Proponho este breve texto para abrir um diálogo com os leitores e leitoras, como quem conheceu D. Helder e trabalhou por muitos anos na Arquidiocese de Olinda e Recife. Pensar faz bem, mesmo quando abala algumas certezas que imaginávamos tranquilas.

 

Um dia destes, de repente caiu-me sob os olhos um texto do escritor português Eça de Queiroz sobre Joana D’Arc que viveu no século XV. O texto provocou espanto por sua atualidade visto que tinha sido escrito há mais de um século. Reproduzo apenas algumas frases.

 

"Meus amigos aconteceu uma desgraça a Joana D’Arc. A donzela de Orleães, a boa e forte Lorena, salvadora do Reino de França, foi beatificada pela Igreja de Roma. (...) "Com sua entrada no céu ela está perdendo o prestígio que tinha na terra, e sua santidade irremediavelmente estragou sua popularidade”. (...) "sua ação no mundo era de guerreira que assalta as muralhas, ergue um pendão, desbarata hostes...”

 

(...) "o clero, esse não tinha senão interesses em que se estabelecesse um pesado silêncio sobre aquela santa que ele queimara, por um desses enganos tão freqüentes nos cleros constituídos, desde o pavoroso engano do Gólgota”.

 

(...) "A Igreja apagou juridicamente a fogueira que trinta anos antes acendera”.

 

Depois de ler o espirituoso texto de Eça de Queiroz narrando aspectos da vida de Joana D’Arc e de sua recuperação pela Igreja Católica não pude deixar de aproximá-la em imaginação de Dom Helder. Um temor se apoderou de mim e uma imensa pena de constatar o quanto nossa memória é curta e limitada em relação à história recente vivida. Não aprendemos com a vida, nem da História. Seguimos repetindo os mesmos comportamentos quase sem crítica, como se fossem acontecimentos desligados de nosso passado. Joana D’Arc de ontem me aproximou do hoje que estamos vivendo em relação à beatificação de Dom Helder Câmara. Helder Câmara arcebispo de Olinda e Recife silenciado pela ditadura, perseguido e acusado de cúmplice do comunismo, cujo nome era proibido nos jornais será beatificado! Lembrei-me que o chamavam ainda em vida de ‘rebelde’, de ‘bispo vermelho’, de ‘radical e revolucionário’. Lembrei-me de seus discursos sobre a justiça como novo nome da paz, de sua indicação para Prémio Nobel da Paz por duas vezes.

 

Irromperam igualmente em minha memória cenas de aclamação popular nas periferias do Recife... Ele caminhando nos becos e na lama até descalço, e as crianças gritando Don Edis, Don Edis, pois não sabiam dizer Helder. Lembrei-me também de Padre Henrique seu íntimo colaborador, responsável pela Pastoral da Juventude, arrastado pelas ruas do Recife e covardemente assassinado... Pensei em tantos outros conhecidos e conhecidas presos e perseguidos por sua postura política e sua ligação com Dom Helder.

 

Fiquei me perguntando por que em vez de beatificação o Vaticano não incentivasse o estudo de sua vida e seus textos? E os seminários e institutos de teologia, sobretudo do nordeste do Brasil, não fariam de suas obras textos teológicos obrigatórios? Por que os Institutos de Pastoral não o tomariam como referência capital para a compreensão dos rumos da Igreja Católica no Brasil e na América latina no século XX? Por que os historiadores não tomariam sua vida e ação como marcantes na história recente do Brasil?

 

Mas, isso não interessa assim como não interessava ao clero do tempo de Joana D’Arc que ela fosse reconhecida como aquela que expulsou o "inimigo da França”, a poderosa Inglaterra. Apropriaram-se de sua história e fizeram-na uma milagreira enviada de Deus e venerada pela Igreja. Santa nos altares, os fiéis não mais saberiam de sua história real, mas apenas acenderiam velas e fariam oferendas para obter favores. Não mais seria representada como camponesa ou como guerreira, não alertaria mais o povo contra as alienações políticas e a submissão aos poderes desse mundo, não daria mais força às mulheres para que se abrissem a horizontes mais amplos. Subida ou elevada aos altares, vestida de branco e com flores na cabeça teria a marca da submissão aos poderes dominantes da religião. Evitaria conflitos e, sobretudo permaneceria sob controlo eclesiástico. Ela santa, renderia dinheiro aos cofres das igrejas e a seus aliados. Venderia santinhos, estatuetas, missas, água benta em garrafas com sua imagem estampada. Incentivaria até os albergues que recebem peregrinos vindos de longe. Foi mais ou menos isso que aconteceu.

 

Temo que aconteça o mesmo ou algo parecido com nosso querido Dom Helder Câmara. Para beatificá-lo os hierarcas exigirão um milagre, provavelmente a cura de alguma doença... Mas, não será a doença social que Dom Helder combateu; não será a vitória sobre a mentira e a corrupção; não será o estancamento da fome no mundo como ele tanto desejou. Não estou criticando as necessidades, queixumes e lamentos de tantos sofredores e sofredoras e nem sou contra as pequenas curas e os milagres dos quais necessitamos, muito embora seja crítica de certos procedimentos institucionais. Estes procedimentos, inclusive certas formas de incentivo e cultivo da religiosidade extirpam a audácia da busca da liberdade, matam a vontade da união em favor de muitos, ‘viciam o cidadão’, como cantava Luis Gonzaga ao lembrar a vida sofrida do cidadão nordestino.

 

Por tudo isso, não quero que reduzam Dom Helder a uma estátua de gesso ou a um santinho diante do qual os fiéis se ajoelham para pedir coisas ou curas. Isto significaria colocá-lo numa espécie de camisa de força da santidade estabelecida. Parece-me quase aviltante para quem viveu de forma diferente e falou para o povo de forma diferente inspirado pela força de seu espírito criativo e pela capacidade extraordinária de entender os conflitos do mundo. Não mandava acender velas, mas pedir forças e lucidez para a organização popular. Não mandava fazer promessas, mas lutar para que o bem comum seja respeitado. Incentivava a ‘palavra’ livre, a quebra do silencio diante da exploração e da humilhação humana de muitos tipos. Ele que um dia até poetizou sobre um sonho no qual o Papa enlouquecido distribuía todo o dinheiro do Vaticano aos pobres e que jogando sua tiara no rio Tibre despedia embaixadores credenciados de seus postos internacionais para que o Evangelho de Jesus vivesse... Ele que denunciava os calabouços políticos e visitava os prisioneiros e suas famílias... Ele que não hesitava em declarar prostitutas e pobres como os primeiros no Reino de Deus, vê-se agora quase aprisionado em ritos e fumaça de odores de incenso. E o pior, aprisionado agora pelos seus pares, por suas leis de santidade ou de beatitude...

 

Suspeito que nessa forma de ‘beatificação’ pouco a pouco o roubarão do povo, de sua história e o entregarão ao rentável culto perfeitamente controlável pelas autoridades financeiras do mundo. Farão dele um distribuidor de graças, uma espécie de representante da ‘empresa divina’ e sua força ainda tão presente parará de incomodar. Misturarão água ao vinho bom que ele nos oferecia e ficará sem seu particular sabor, sem sua personalidade própria, sem seu carisma e força.

 

Não! Por favor, deixem Dom Helder no meio do povo e para o povo. Lembrem-no nas capelinhas e nos movimentos de evangelização que ainda subsistem. Lembrem-se de sua contribuição na sociologia, na política, na ecologia, na teologia, na poesia. Deixem-no ser leitura de ateus, muçulmanos, judeus, budistas... Deixem-no amigo dos terreiros de candomblé e das velhas mães de santo... Deixem-no ser apenas ‘irmão dos pobres’.

 

Não permitamos que o povo acredite que o reconhecimento oficial da santidade é sinal de acolhida e de propagação dos reais valores que sustentaram a vida de nosso Dom. Ao contrário é artifício para esquecermos sua memória evangélica, sua profecia, seu atrevimento em denunciar o roubo, a corrupção e a miséria como formas de produção da violência no mundo. Vão fechar os olhos do povo, vão iludi-lo mais uma vez com algo que aparentemente e talvez enganosamente seja bom.

 

Esse mecanismo canónico de reconhecimento da santidade é obsoleto. Além de arrancar do povo a responsabilidade coletiva por sua história, entrega aos céus e a seus ‘gordos’ representantes o poder de construir santuários e casas de milagres. Despolitizam o povo e o remetem a forças mágicas para além da história como únicas capazes de estancar os muitos males que os assolam. Intuo que os hierarcas gostam muito de ver a multidão de fiéis aglomerar-se nas igrejas e nas procissões... De fazer crer que o povo precisa de religiosidade dependente e de ajuda celeste controlada. Têm prazer e emoção de ver muita gente ajoelhar-se diante de uma estátua, atraída talvez pela nova história que será contada, uma história em que a estátua sorridente chamada de beato Helder Câmara é reduzida a um ‘fazedor de milagres’. Tudo isto parece reforçar o enfraquecido poder do clero, dá-lhes reconhecimento popular, força social e política. Não seriam eles ‘ídolos de pés de barro’, aqueles que se colocam sobre pedestais com vestes douradas para serem vistos como dirigentes do povo?

 

Não deixemos o povo acreditar que afinal bispos, cardeais e clero, agora adquirindo enorme lucidez e verdade, de repente reconhecem as posições de Dom Helder como pautadas no Evangelho. As coisas são bem mais misturadas e complexas do que imaginamos. Eles, membros de uma corporação ‘sagrada’, que no passado recente o condenaram e o chamaram de comunista, que nunca quiseram entregar-lhe o chapéu cardinalício, nem colaborar para que recebesse o Nobel da paz... Eles que interferiram em sua Arquidiocese, desmantelaram sua pastoral, seu Instituto de Teologia e expulsaram muitos colaboradores/as... Eles que o repreenderam por sua condenação ao capitalismo que arrancava da maioria a dignidade de viver... Eles, agora querem vê-lo nos altares, talvez até mudando a sua história quotidiana. Depois de morto o glorificam, depois de morto contam suas virtudes, pois, depois de morto ele não faz mais medo...

 

Muitos dirão ‘não são mais os mesmos’. Agora são outros tempos, outras circunstâncias e outras pessoas. Agora é o povo que deseja isso. Agora temos um Papa que ama os pobres, as ruas e a libertação. Agora enfim, o valor de Dom Helder é reconhecido. Embora possa entender a diferença dos tempos e das pessoas creio que isso não anula o direito e a responsabilidade de refletir sobre beatificações, canonizações e suas conseqüências sociais. Não nos esqueçamos, os hábitos e processos devocionais, sua utilização e os artifícios do poder religioso não mudam rapidamente na história humana. Nossas fraquezas usam dos mesmos vícios do passado embora lhe dêem roupagem diferente. Por isso temo pelo povo e pela memória de Dom Helder.

 

Enquanto ainda é tempo, façamos uma pausa salutar para refletir, pesar nossos actos e interferir nas decisões de uma Igreja que ainda é chamada ‘Povo de Deus’.

Maio 2015. Adital / JF

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Edição 98, Maio 2014

 

SERÁ QUE AINDA PRECISAMOS DE CANONIZAÇÕES?!

 

Será que ainda precisamos de canonizações? Não seriam elas algo contra a afirmação da liberdade como prerrogativa dos seres humanos? Será que necessitamos cerimónias tão pomposas, com a presença de chefes de estado, embaixadores, reis e príncipes para, na aparência, corroborar tais acções do papa?

 

A multidão de fiéis na Praça de São Pedro foi impressionante no último vinte e sete de Abril. A força do catolicismo reapareceu de novo publicamente em todo seu vigor, particularmente no seu poder de propor aos fiéis vivos sua adesão a alguns mortos como símbolos de um cristianismo/catolicismo bem vivido. João XXIII e João Paulo II foram elevados ao altar e agora são "sujeitos” de veneração do povo católico de todo mundo. Muitas dúvidas e críticas assim como adesões e elogios circularam pelos meios de comunicação social em relação aos nomes indicados. Não há como chegar a um consenso de opiniões dada a pluralidade do "Povo de Deus”. A hierarquia clerical responsável pelas decisões é que julgou as indicações e tomou a decisão final executada pelo papa em missa solene. Não sei se os hierarcas se lembraram das devoções dos mais pobres pouco afeitos a venerar papas, muitas vezes identificados a reis e senhores poderosos. As devoções dos pobres são mais ligadas a Virgem Maria, a Jesus e aos santos mais tradicionais como São Francisco, São José, Santo Expedito que acreditam ser mais capazes de entender seu quotidiano sofrido.

 

As questões que levanto fogem até certo ponto dessa polémica entre nomes indicados e querem abrir-se a outra problemática. Podemos imitar os santos, os mártires, os heróis, os grandes líderes? Como se faria isso? Seriam eles, depois de mortos, proprietários de qualidades superiores e isentos dos limites de sua própria história? Não estaríamos nós alienando nossa responsabilidade histórica e pessoal de reconhecer que cada um de nós tem que viver sua história e suas opções? Não estaríamos deixando de lado as acções de mulheres e homens na construção de nossa história atual para seguir modelos que embora tenham tido o seu valor não poderão ser imitados? O que imitar neles? E como fazê-lo de facto? As perguntas são existenciais e não abstractas, visto que vão exigir comportamentos pessoais em nossa história atual.

 

Na proposta de imitação como propõem alguns grupos da Igreja Católica certamente não entram considerações mais críticas em relação aos escolhidos para a santidade. Por que não chamar a atenção também dos erros cometidos no passado que não deveriam ser repetidos? Perceberíamos talvez com mais clareza a mistura e a contradição presentes no ser humano e em suas acções. Mas, provavelmente esse procedimento crítico e realista macularia a figura do santo ou do herói e fugiria do esquema de perfeição dualista presente na Igreja. Fugiria igualmente da oposição firmemente mantida pela maioria entre céu e terra, entre Deus e os homens, entre o bem e o mal, entre anjos e demónios. De facto admite-se nos ambientes de Igreja que o santo ou o herói não tenham sido perfeitos, mas não se fala em directo do que poderia ter sido evitado ou do que pode parecer criticável em vista do bem comum situado e datado. Os escolhidos para a santidade institucional aparecem como protótipos do bem, da coragem, da justiça de forma que suas fraquezas e covardias não aparecem. Mais uma vez o "homem ideal” ou idealizado assim como "a mulher idealizada” segundo alguns parâmetros estabelecidos torna-se modelo para os fiéis. Esse modelo foge do ordinário da vida e é capaz de acentuar sacrifícios inúteis e neuroses de muitos tipos nos fiéis. Conhecemos, além disso, a vida de santos/as que se infligiram torturas e sacrifícios corporais que já não há como imitar.

 

Intuo que muitas vezes estamos pouco conscientes do significado alienante das imitações. Ao imitar alguém deixo de mostrar meus dons pessoais, deixo de lado minha maneira própria de ser, deixo de reconhecer minha capacidade pessoal e, de certa forma me diminuo buscando na pessoa alheia minha realização pessoal. A imitação proposta no catolicismo não é a arte do teatro em que o actor ou a actriz interpretam um romântico apaixonado ou um carrasco ditador e depois voltam a ser actores à espera de novos papéis. A imitação que a Igreja propõe é uma espécie de conformidade a um ideal de vida considerado mais perfeito que outro e por isso digno de ser imitado. Sem dúvida muitos fiéis sabem que certas vivências pessoais e escolhas não podem ser imitadas. Nesse caso, exaltam-se as virtudes que presumidamente o santo/a teria vivido e essas virtudes passam a ser proclamadas porque fortalecem as convicções da instituição religiosa. É interessante notar que a virtude da obediência a um modelo de ser humano que a Igreja considera mais próximo da vontade divina parece ser uma constante nos modelos de santidade. Os santos são, salvo excepções, submissos à Igreja hierárquica e se não foram em vida passam a ser depois de mortos. A vida do santo/a é reinterpretada de forma a servir aos interesses e aos valores defendidos pela instituição.

 

Outra questão é a de saber que critérios seguir para elevar aos altares e decretar que a vida dessa pessoa é digna de imitação. O que motiva algumas pessoas a quererem tornar santo ou santa a uma outra pessoa? Pensariam elas que isso promoveria e acrescentaria valor e glória aos fiéis defuntos? Que razões tem o papado para acolher e decretar sua santidade? Como podem os juízes de uma causa de beatificação ou de santificação julgar que aquele indivíduo foi agradável a Deus? De que Deus se está falando? Que modelo de Deus está em jogo? Que implicações políticas e económicas têm essas acções que de repente introduzem uma auréola na cabeça de um "morto” e mandam imprimir santinhos para serem vendidos ou distribuídos aos fiéis? Tudo isso sem falar dos extraordinários milagres muitas vezes exigidos como forma de provar a santidade de alguém.

 

Por que não falar que as pessoas e nelas se incluem certamente os que já saíram fisicamente dessa história nos inspiram, nos ajudam a carregar nossos fardos, nos ensinam conforme nossas necessidades. A inspiração parece um fenómeno que indica maior liberdade do que a imitação. Mas, as canonizações não vão por esse caminho. Têm a ver com Canon, com leis que se estabelecem para os fiéis mesmo que se diga que cada um é livre de acolher ou não a vida deste ou daquele santo como seu modelo.

 

Tenho consciência de ter mais perguntas do que respostas e nas perguntas manifesto minha inquietação em relação aos rumos que está a tomar o papa Francisco em relação ao lugar das devoções na vida dos católicos. Embora reconheça a qualidade de sua pessoa, de seus discursos e acções em relação aos pobres desse mundo inquieta-me a contradição de sua teologia. E essa contradição, a meu ver, diminui a força de sua palavra, sobretudo quando falamos de justiça nas relações humanas.

 

Às vezes tem-se a impressão de que o papa é cativo de um esquema religioso estabelecido e consagrado pelo Vaticano. Por mais que ele tente quebrar as hierarquias e os formalismos com gestos mais simples, em situações como as canonizações, ele rende-se a esses procedimentos e torna-se publicamente conivente com eles.

 

Será que ainda precisamos de canonizações? Não seriam elas algo contra a afirmação da liberdade como prerrogativa dos seres humanos? Não reforçariam as hierarquias tão presentes em nosso mundo, hierarquias que excluem que privilegiam e que marcam diferenças sociais e às vezes até ontológicas entre as pessoas?

 

Será que necessitamos cerimónias tão pomposas, com a presença de chefes de estado, embaixadores, reis e príncipes para, na aparência, corroborar tais acções do papa? Sem dúvida muitas pessoas julgam tudo isso, um reconhecimento do poder da Igreja e, sobretudo o reconhecimento das virtudes e qualidades dos candidatos a santos e santas. Vive-se ainda na necessidade da adoração de pessoas tanto a nível político, artístico e religioso. Não se trata aqui de negar aos diferentes grupos o direito de constituir um fã clube religioso, mas sim de ajudá-las a desenvolver uma reflexão que as torne mais libertas e responsáveis pelos destinos do mundo e por sua vida pessoal.

 

Mais uma vez somos convidados/as a pensar, a tentar compreender melhor o que nos acontece e o que nos é proposto. A fé não pode ser o esquecimento de nossos valores historicamente situados, ela não pode se reduzir a uma adesão ao projecto do outro por melhor que ela/ele seja. A fé não é algo banal, mas vital. A fé não é escuridão e obediência cega, mas acolhida da vida na sua diversidade de aspectos, acolhida da originalidade de minha pessoa, de meu caminho, de suas luzes e sombras. Mas tudo isso, não nos esqueçamos, habita na diversidade da vida, irredutível a um modelo único, a uma forma única, a uma linguagem única.

 

Creio que é preciso pensar mesmo sabendo que os pensamentos de muitos não influenciam a massa e nem as hierarquias. Não podemos abrir mão da dignidade e da grande aventura de poder pensar e repensar a vida, de senti-la desde lugares e formas diferentes e de assumir a parte que nos cabe em nosso pedaço de chão. Tal postura tem consequências em nossas vidas, em nossas crenças e na relação que mantemos com pessoas e instituições. A vida não nos pede que conformemos nossa própria vida à de outros, mas que deixemos florescer a originalidade que nos constitui regada pela contribuição e inspiração de muitos/as.