TEXTOS DE FREI BETTO

Teólogo e Escritor

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Edição 158, Maio 2020

FAKE NEWS E O REBANHO HUMANO

O filósofo alemão Emmanuel Kant não anda muito em moda. Sobretudo por ter adotado, em suas obras, uma linguagem hermética. Porém, em um de seus brilhantes textos – O que é o Iluminismo? – sublinha um fenômeno que, na cultura televisual que hoje impera, se torna cada vez mais generalizado: as pessoas renunciam a pensar por si mesmas. Preferem se colocar sob proteção dos “oráculos da verdade” multiplicados pelas redes digitais.

Esses supostos guardiões da verdade velam, bondosamente, para não nos permitir incorrer em equívocos. Graças a seus alertas sabemos que a Covid-19 não passa de uma “gripezinha”; os médicos cubanos são submetidos a trabalho escravo; o Estado que recolhe dinheiro da população não pode gastar com a população...

São eles que nos tornam palatáveis os bombardeios dos EUA no Iraque e no Afeganistão, dizimando aldeias com crianças e mulheres, e nos fazem encarar com horror a pretensão de o Irã fazer uso pacífico da energia nuclear, enquanto seu vizinho, Israel, ostenta a bomba atômica.

São eles que nos induzem a repudiar o Movimento dos Sem-Terra (MST) em sua luta por reforma agrária, enquanto o latifúndio, em nome do agronegócio, invade a Amazônia, desmata a floresta e utiliza mão de obra escrava.

É isso que, na opinião de Kant, faz do público Hausvieh, “animal doméstico”, arrebanhamento, de modo que todos aceitem, resignadamente, permanecer confinados no curral, acreditando que correriam riscos se caminharem sozinhos.

Kant aponta uma lista de oráculos da verdade: o mau governante, o militar, o professor, o sacerdote etc. Todos clamam “Não pensem!” “Obedeçam!” “Paguem!” “Creiam!” O filósofo francês Dany-Robert Dufour sugere incluir o publicitário que, hoje, ordena ao rebanho de consumidores: “Não pensem! Gastem!”

Tocqueville, em seu Da democracia na América (1840), opina que o tipo de despotismo que as nações democráticas deveriam temer é exatamente sua redução a “um rebanho de animais tímidos e industriosos”, livres da “preocupação de pensar”.

O velho Marx, que anda em moda por ter previsto as crises cíclicas do capitalismo, assinalou que elas decorreriam da superprodução, o que de fato ocorreu em 1929. Mas não foi o que vimos em 2008, cujos reflexos perduram. A crise não derivou da maximização da exploração do trabalhador, e sim da maximização da exploração dos consumidores. “Consumo, logo existo”, eis o princípio da lógica pós-moderna.

Para transformar o mundo em um grande mercado, as técnicas do marketing contaram com a valiosa contribuição de Edward Bernays, duplo sobrinho estadunidense de Freud. Anna, irmã do criador da psicanálise e mãe de Bernays, era casada com o irmão de Martha, mulher de Freud. Os livros deste foram publicados pelo sobrinho nos EUA. Já em 1923, em Crystallizing Public Opinion, Bernays argumenta que governos e anunciantes são capazes de “arregimentar a mente (do público) como os militares o fazem com o corpo”.

Como gado, o consumidor busca sua segurança na identificação com o rebanho, capaz de homogeneizar seu comportamento, criando padrões universais de hábitos de consumo através de uma propaganda libidinal que nele imprime a sensação de ter o desejo correspondido pela mercadoria adquirida. E quanto mais cedo se inicia esse adestramento ao consumismo, tanto maior a maximização do lucro. O ideal é cada criança com um televisor no próprio quarto.

Para se atingir esse objetivo é preciso incrementar uma cultura do egoísmo como regra de vida. Não é por acaso que quase todas as peças publicitárias se baseiam na exacerbação de um dos sete pecados capitais. Todos eles, sem exceção, tidos como virtudes nessa sociedade neoliberal corroída pelo afã consumista.

A inveja é estimulada no anúncio da família que possui um carro melhor que o do vizinho. A avareza é o mote das propagandas de bancos. A cobiça inspira todas as peças publicitárias, do último modelo de telefone celular ao tênis de grife. O orgulho é sinal de sucesso dos executivos assegurados por planos de saúde eterna. A preguiça fica por conta da parafernália elétrico-eletrônica que prepara a sua refeição sem que você tenha que sequer descascar uma batata. A luxúria é marca registrada dos jovens esbeltos e das garotas esculturais que desfrutam vida saudável e feliz ao consumirem bebidas, cigarros, roupas e cosméticos. Enfim, a gula envenena a alimentação infantil na forma de chocolates, refrigerantes e biscoitos, induzindo a crer que sabores são prenúncios de amores.

Na sociedade neoliberal, a liberdade se restringe à variedade de escolhas consumistas; a democracia, em votar em quem dispõe de recursos milionários para bancar a campanha eleitoral; a virtude, em pensar primeiro em si mesmo e encarar o semelhante como concorrente. Esta a pós-verdade proclamada pelos oráculos do sistema.

Ocorre que a evolução da natureza e da humanidade é feita também de fenômenos imprevisíveis, como a Covid-19. Os robôs e os algoritmos podem disparar fake news para tentar nos convencer de que a pandemia não é tão ameaçadora como afirmam os cientistas. Mas o coronavírus ignora mentiras e verdades. Anseia apenas por penetrar uma célula humana e, em menos de vinte e quatro horas, replicar-se em 100 mil cópias. Sua obsessão é perpetuar sua espécie em detrimento da nossa.

INFODEMIA

O vocábulo que dá título a este artigo foi cunhado pela Organização Mundial da Saúde (OMS). Refere-se às fake news sobre a pandemia. E não apenas às mentiras, como também ao que se silencia, como é o caso da ação solidária de Cuba, bloqueada há 60 anos pelos sucessivos governos dos EUA.

Médicos cubanos foram os primeiros estrangeiros a socorrerem os chineses tão logo se iniciou a epidemia. Agora já são mais de 60 países atendidos por eles, entre os quais Itália e França. São as Brigadas Internacionais de Médicos Especializados em Situações de Desastres e Graves Epidemias, criadas na década de 1960.

Cuba é uma potência médica. Conta, hoje, com 100 mil médicos, o que equivale a 9 médicos por cada 1 mil habitantes. É a taxa mais alta do mundo. Na Alemanha, Suíça e Espanha, o índice é de 4/1.000, e na França, Israel e EUA, de 3/1.000. Atualmente, Cuba atende 66 países (El País, Madrid, 22/3/20), onde se encontram 30 mil médicos e enfermeiros das brigadas internacionais.

Ao criá-las, Fidel declarou: “Um dia haverão de reconhecer que o nosso país jamais promoveu ataques preventivos ou de surpresa contra qualquer país do mundo, e que, ao contrário, nosso país foi capaz de enviar médicos solidários às mais distantes regiões do mundo. Médicos, e não bombas; médicos, e não armas inteligentes” (discurso em Buenos Aires, maio de 2003. Granma, Havana, 17/4/2020).

Enquanto a grande mídia mundial mantém silêncio quanto a Cuba, nas redes digitais há uma feroz disputa entre quem consegue impor sua narrativa à opinião pública. É a infodemia ou as infomentiras. Nossos computadores estão infectados das mais estapafúrdias versões sobre a Covid-19. Desde que o vírus é uma arma da guerra bacteriológica criada pela China, a supostos medicamentos miraculosos capazes de evitar a enfermidade ou curar em um passe de mágica. Na Inglaterra, chegaram a pôr a culpa nas antenas de telefonia 5G, que tornariam mais letal o vírus. No Irão se noticiou que o metanol evitava e curava a infecção. Resultado, 44 pessoas mortas e centenas hospitalizadas por ingerir este álcool metílico. Em Duque de Caxias (RJ), a estudante Kamylle Ribeiro, 17, morreu no Hospital Moacyr do Carmo após internação de duas semanas e tratamento a base de cloroquina.

Nada, porém, supera a infodemia cujo principal porta-voz é o presidente do Brasil, este estranho ser indiferente à tortura (“só leio Brilhante Ustra”), indiferente ao genocídio (“deviam ter matado 30 mil”), indiferente ao massacre de presos em mãos do Estado (“pergunte às vítimas o que eles fizeram”), e agora indiferente aos milhares de brasileiros mortos pela Covid-19 e a dor de seus familiares (“E daí?”).

Notícias falsas se espalham mais rapidamente que as verdadeiras. São elaboradas por profissionais com edições caprichadas, vozes de locutores e músicas adequadas. E disparadas por algoritmos em robôs. Tudo para suscitar credibilidade. Dois factores favorecem a disseminação das infodemias: a cumplicidade entre os usuários da mesma rede digital, o que supõe relação de confiança, e a incessante repetição das mensagens. Se tão variados emissores fazem chegar a mesma informação, o destinatário tende a lhe dar crédito.

Desde 2016, as principais corporações de redes digitais modificaram o sistema de hierarquização das mensagens. Agora, a comunicação entre indivíduos tem precedência sobre mensagens emitidas por veículos de mídia ou organizações como a OMS.

Mineiro desconfiado como sou, sempre que duvido recorro à Agência Lupa. Basta digitar estas duas palavras e a informação é confirmada ou desmentida com segurança.

JESUS E AS MULHERES

Em uma cultura tão machista quanto a nossa, convém ressaltar as mulheres presentes na vida de Jesus e os desafios de sua postura para nós, hoje.

O evangelista Mateus aponta, na árvore genealógica de Jesus, cinco mulheres: Tamar, Raab, Rute e Maria; e, de modo implícito, a mãe de Salomão, "que foi mulher de Urias". Não é bem uma ascendência da qual um de nós haveria de se orgulhar.

Viúva, Tamar se disfarçou de prostituta para seduzir o sogro e gerar um filho do mesmo sangue de seu falecido marido. Raab era prostituta em Jericó, onde favoreceu a tomada da cidade pelos israelitas. Rute, bisavó de Davi, era moabita, ou seja, pagã aos olhos dos hebreus. A "que foi mulher de Urias", Betsabeia, foi seduzida por Davi enquanto o marido dela guerreava. E Maria era a mãe de Jesus, que também não escapou das suspeitas alheias, pois apareceu grávida antes mesmo de se casar com José.

Como se nota, Deus entra na história humana pela porta dos fundos.

Em sua atividade pública, Jesus se fez acompanhar pelos Doze e por algumas mulheres: Maria Madalena; Joana, mulher de Cuza, o procurador de Herodes; Susana e várias outras. Portanto, o grupo de discípulos de Jesus não era propriamente machista. Além disso, Jesus frequentava, em Betânia, a casa de suas amigas Marta e Maria, irmãs de Lázaro.

Os evangelhos registram vários encontros de Jesus com mulheres. O mais intrigante deles é o seu diálogo com a samaritana à beira do poço de Jacó. Jesus sabia que ela já havia tido seis maridos. Nem por isso fez-lhe um sermão sobre a fidelidade matrimonial ou as penas reservadas no inferno a quem se entrega à rotatividade conjugal. Jesus viu mais fundo. Percebeu que a samaritana buscava, sedenta, o amor em espírito e verdade. Por isso, concedeu-lhe a graça de ser a primeira pessoa a quem se revelou como Messias. Só Deus, que é amor, seria capaz de saciar aquele coração peregrino.

O primeiro milagre de Jesus foi para atender ao pedido de uma mulher, Maria, sua mãe, preocupada com a falta de vinho numa festa de casamento em Caná. Como diria Aldir Blanc, "o show tem que continuar".

Jesus curou várias mulheres, como a aleijada da sinagoga; a filha de Jairo; a que, há doze anos, sofria de hemorragia; a filha da cananeia que deu testemunho de profunda fé etc. Jesus curou também a sogra de Pedro.

Portanto, Pedro, escolhido por Jesus para ser o primeiro papa, era casado, o que tira a força do argumento de quem defende, por razões bíblicas, o celibato obrigatório e o impedimento de acesso de mulheres ao sacerdócio e ao episcopado. E nem se pode alegar que, ao seguir Jesus, Pedro teria abandonado para sempre sua mulher, uma vez que a cura da sogra denuncia o retorno dele e de Jesus à casa da família, em Cafarnaum.

Certa ocasião, Jesus tinha ido comer em casa de um fariseu. Entrou uma mulher "da cidade, uma pecadora", ajoelhou-se a seus pés e, chorando, começou a beijá-los, ungi-los com perfume e enxugá-los com os cabelos. O anfitrião, escandalizado, ficou em dúvida quanto a Jesus. Este, porém, o desmascarou, ao sublinhar que, ao contrário dele, "ela demonstrou muito amor".

A primeira testemunha da ressurreição de Jesus foi uma mulher, Maria Madalena.

O modo de Jesus tratar as mulheres nem sempre coincide com o da Igreja Católica, onde elas são impedidas de acesso ao sacerdócio. Desconfio de que certos clérigos têm, da mulher, uma visão pornográfica. O mais preocupante, porém, é ainda a Igreja considerar, no casamento, a procriação como objetivo superior à comunhão de amor. As pessoas não se unem para ter filhos, mas por amor. Fosse o contrário, deveria ser considerado nulo o matrimônio de um casal estéril.

O que se pode esperar de filhos cujos pais não se amam? Não devemos nos aproximar de Deus para evitar as penas do inferno ou obter a salvação. Mas por amor, sobretudo aos nossos semelhantes - imagens vivas de Deus. Não há experiência humana tão feliz e plena quanto a do místico que vive em estado de paixão pela Trindade.

Não há um só caso nos evangelhos em que Jesus tenha repudiado uma mulher, como fez com Herodes Antipas, ou proferido maldições sobre elas, como fez com os escribas e fariseus. Com elas, mostrava-se misericordioso, acolhedor, afetuoso e exaltava-lhes a fé e o amor.

É chegada a hora de a Igreja assumir o seu lado feminino e abrir todos os seus ministérios às mulheres. Afinal, metade da humanidade é mulher. E, a outra metade, filha de mulher.

JESUS E O PODER

Jesus trata a questão do poder em Lucas 22, versículo 24. Entre os discípulos discutiu-se quem seria o mais importante.

Como a questão é atual! Nos apegamos a qualquer funçãozinha, a ponto de nos despersonalizar! Há quem assuma uma função de poder - político, síndico de prédio, gerente do banco, diretor de ONG - e apenas por ocupá-la se despersonaliza. Passa a considerar a função que o reveste mais importante que a própria individualidade. E morre de medo de perder o cargo.

Disse Jesus aos discípulos: “Os reis das nações têm poder sobre elas, e os que sobre elas exercem autoridade são chamados ‘benfeitores’. Entre vocês não deverá ser assim; pelo contrário, o maior seja como o mais novo, e quem governa, como aquele que serve.” Eis o desafio da ética do poder: fazê-lo serviço. Sentir-se no poder como o menor, como quem serve.

Em João 13, versículo 4, Jesus lava os pés dos discípulos. Chegou a vez de Pedro: “Senhor, vai lavar os meus pés?”. Jesus respondeu: “Agora você não sabe o que faço, ficará sabendo mais tarde”. Pedro reagiu: “Não permito que lave os meus pés”. Jesus retrucou: “Se eu não lavar, você não terá parte comigo!”. Simão acedeu: “Então, Senhor, pode lavar, não somente os pés, mas também as mãos e a cabeça”.

Jesus se colocou no lugar do servo, daquele que se abaixa e não se envergonha de servir ao próximo.

Segundo Mateus 16, versículo 13, em Cesárea de Filipe, Jesus perguntou aos discípulos: “O que diz o povo sobre o Filho do Homem?” Quem detém poder – na escola, empresa ou igreja - tem coragem de perguntar aos parceiros: “O que falam de mim?” Possivelmente não; imagina que as pessoas falam dela o que gostaria de ouvir. E morre de medo de saber de fato o que comentam.

Jesus quis saber a opinião das bases sobre ele. Os discípulos responderam: “Alguns dizem que é João Batista; outros, Elias; outros ainda, Jeremias ou algum profeta”. E Jesus replicou: “E para vocês, quem sou?”

Quem de nós é capaz de perguntar às pessoas com quem convivemos e trabalhamos: “O que pensam de mim? O que acham do meu desempenho?” É muito difícil aceitar críticas. Em geral, ao deter parcela de poder, ficamos arrogantes, prepotentes, e humilhamos os subalternos.

Na parábola do Bom Samaritano, capítulo 10 de Lucas, o doutor da lei – portanto, um teólogo - perguntou: “Mestre, o que fazer para alcançar a vida eterna?” Nos quatro evangelhos nunca esta pergunta sai da boca de um pobre. Toda vez que se pergunta a Jesus “o que fazer para ganhar a vida eterna”, com certeza é alguém que já ganhou a vida terrena e quer saber como investir na poupança celestial... É a pergunta de Nicodemos, do homem rico e de Zaqueu.

Nunca um pobre pergunta a Jesus “como ganhar a vida eterna”. A pergunta dele é outra: “Senhor, o que fazer para ter vida nesta vida? Minha mão está seca e preciso trabalhar; meu olho está cego e anseio por enxergar; minha filha está doente e desejo vê-la curada; meu irmão está morto e quero-o vivo”. Os pobres pedem vida nesta vida. Aos primeiros, os abastados, Jesus responde com ironia e irritação. Aos pobres, com compaixão e misericórdia.

O doutor da lei perguntou a Jesus: “Quem é o meu próximo?” Então a conversa mudou de figura. Jesus não raciocinava em categorias abstratas. O próximo, para ele, era um ser datado, localizado: “Um homem descia de Jerusalém para Jericó, e caiu nas mãos dos assaltantes, que lhe arrancaram tudo e o espancaram. Depois foram embora e o deixaram quase morto.” Era tempo de festa em Jerusalém. Quem vendia produtos em Jerusalém descia para Jericó com o bolso cheio de moedas. Possivelmente, os ladrões ficaram irritados porque aquele homem quase não tinha dinheiro. Então deram-lhe uma surra.

Jesus não fez nenhuma crítica aos assaltantes, mas observou que um sacerdote, que descia pelo mesmo caminho, viu o homem caído e seguiu em frente. Depois, desceu um levita; também passou indiferente. Ora, podemos supor que o sacerdote e o levita não acudiram por má vontade. Tinham que participar da missa das 6 em Jericó e, para não se atrasar, deixaram de socorrer o homem… Mas, na missa, incluíram a vítima caída na beira da estrada nas Orações dos Fiéis…

Jesus só levou em conta a ética do samaritano. Este não conhecia o homem, não tinha nada a ver com ele, mas diante de um oprimido, um caído, um explorado, mudou o rumo do seu caminho para socorrê-lo.

Ética é isso! Não é fazer o bem apenas a quem encontro em meu caminho. É ser capaz de mudar o rumo na direção dos mais necessitados. Conversão não é questão de sentimento, e sim de sentido - quem caminha pela indiferença tome agora o rumo da solidariedade.

Esta a atitude que o Evangelho exige: fazer do poder, qualquer forma de poder, serviço, de modo a trazer vida para todos, e vida em plenitude (João 10, 10).

Estamos trazendo mais vida, ajudamos a reduzir a desigualdade social e os desequilíbrios ambientais? Não basta eleger, precisamos nos convencer de que temos o poder. Os políticos são nossos empregados, pagamos os salários deles e, por isso, temos o dever e o direito de exigir que prestem contas.

Governo é que nem feijão, só funciona na panela de pressão! Há que fazer os políticos governarem para o povo. Isso significa reforçar o empoderamento popular, fortalecer os movimentos sociais, criar uma nova institucionalidade política, na qual o exercício da democracia seja substancialmente ético. Como afirma Levinas, a política deve ser sempre controlada e criticada a partir da ética. E esta deve ter como paradigma os direitos dos pobres.

EUROPA, DO SONHO AO PESADELO

A pandemia da Covid-19 produziu um estrago monumental neste mundo no qual 1% dos ricos possui mais que os 99% restantes (La Vanguardia, Barcelona, 20/1/2020). As Bolsas despencaram. Como denunciou Naomi Klein, este “é um modelo econômico ensopado de sangue. Agora as pessoas começam a se dar conta. Porque ligam a TV e veem comentaristas e políticos da Fox News dizendo que talvez fosse melhor sacrificar os avós para permitir a subida do preço das ações na Bolsa... As pessoas se perguntam ‘que tipo de sistema é este?’”

O barril de petróleo chegou a custar 37 dólares. Isso favorece os países importadores, como China, Japão, Alemanha e França. Mas prejudica os exportadores com alta densidade populacional, como Brasil, Rússia, México, Venezuela e Nigéria. E um petróleo tão barato tende a retardar a substituição da energia fóssil por energias alternativas, como a solar e a eólica.

Como afirmou Kissinger, “a atual crise econômica é de uma complexidade inédita. A contradição desatada pela Covid-19, por sua acelerada velocidade e amplitude global, difere de tudo que conhecemos na história” (The Wall Street Journal, Nova York, 3/4/2020).

Caíram também os preços de outras matérias-primas além do petróleo, como cobre, níquel, algodão e cacau. Para a economia dos países exportadores do sul do mundo, que abrigam 2/3 da população mundial, é uma conjuntura devastadora.

As três principais fontes de renda dos países periféricos desabaram devido à redução das exportações; do turismo; e da captação de dinheiro remetido por seus emigrantes, agora ameaçados de desemprego nos países ricos em que se encontram. Acresce-se a isso a fuga dos investidores estrangeiros. Estima-se que desde o fim de fevereiro cerca de 60 bilhões de dólares deixaram esses países. Até meados de maio o real já tinha perdido 20% de seu valor frente ao dólar. O que significa o Brasil pagar bem mais caro por suas importações, como é o caso dos respiradores.

Estima-se que o PIB dos países periféricos pode cair até 10% neste ano. Mais do que na crise de 1929. Pressionados pela opinião pública, muitos governos praticam uma espécie de “keynesianismo de guerra”, como renda provisória aos desempregados e aos mais pobres, bônus, crédito a empresas etc. Rompem tetos de gastos e lançam mão de suas reservas cambiais para tentar evitar o colapso do sistema econômico.

Esses países debilitados haverão de enfrentar fortes crises sociais ao término da pandemia, com greves e mobilizações. O fluxo migratório rumo às nações metropolitanas deve aumentar. É sabido que os emigrantes não serão bem recebidos, como já acontece nos EUA, onde Trump suspendeu a emissão do green card por 60 dias. A xenofobia fomentada pelos grupos de direita estará exacerbada.

Qual o custo total da pandemia? Ainda é cedo para o balanço. Mas será muito alto. Os Estados irão recolher menos impostos, devido à desaceleração de atividades comerciais e econômicas. Na zona do euro se prevê para este ano déficit de 1,5 bilhão de euros.

E a União Europeia, sobreviverá à pandemia? O Reino Unido, que já se desligou dela, vai aliviar o seu déficit imprimindo libra. Mas países como Itália, França e Espanha, que se encontram muito endividados, não podem fazer o mesmo. E vão necessitar de liquidez. É possível que passem a questionar o futuro do bloco. Porque, durante semanas, Alemanha, Áustria, Finlândia, Holanda e outros países não permitiram que aqueles três países obtivessem créditos sem condições, os coronabônus.

O sucateamento dos sistemas de saúde da Itália, França e Espanha, que apresentam maior número de mortos pelo vírus, depois dos EUA e da Rússia, se deve às adoção de políticas de “austericídio”, como o corte nos orçamentos dos serviços de saúde e a ânsia de privatizá-los.

O sonho europeu se transforma, hoje, em pesadelo. Qual será o futuro dessa Europa incapaz de solidariedade com seus parceiros mais frágeis e cada vez mais ameaçada por extremistas de direita?

As vozes sensatas opinam que essa crônica do pesadelo anunciado poderia ser amenizada se os países credores perdoassem as dívidas dos devedores. Estes têm a pagar, até o final de 2021, cerca de 2,7 bilhões de dólares de juros da dívida (El País, 11/4/2020). Uma moratória seria um alívio. Talvez ela venha de forma unilateral em alguns países.

O papa Francisco, em sua Mensagem de Páscoa, apelou: “considerando as circunstâncias, seria preciso enfrentar, por parte de todos os países, as grandes necessidades do momento, reduzindo ou mesmo perdoando as dívidas que pesam nos orçamentos das nações mais pobres.” Quem haverá de ouvi-lo?

FUTURO SOMBRIO DA AMÉRICA LATINA

Até domingo, 3 de Maio, a Covid-19 já tinha infectado 251.577 pessoas na América Latina e matado 13.445, pouco mais de 6 mil no Brasil, onde o governo Bolsonaro desdenha a pandemia. Tudo indica, porém, que as cifras devem ser maiores, dada a possibilidade de subnotificação e a dificuldade de aplicar testes a toda a população.

Nosso Continente tem, hoje, 613 milhões de habitantes. E abriga a mais acentuada desigualdade social do mundo. Segundo a Organização Internacional do Trabalho (OIT), 53% de nossa população sobrevivem de trabalhos informais. Como nossos sistemas de saúde são precários, os efeitos econômicos e sanitários da pandemia tendem a ser maiores.

A Cepal (Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe) prevê um retrocesso de 5,3% do PIB regional em 2020. Maior índice histórico, superando o ano de 1930, quando a depressão de 1929 fez com que recuasse 5%. Assim, haverá aumento da crise social. Quase 29 milhões de latino-americanos serão empurrados para a pobreza. E 16 milhões, para a extrema pobreza. A taxa de desemprego chegará a 11,5%, afetando 37,7 milhões de pessoas, crescimento de 3,4 pontos percentuais em relação a 2019.

No ano passado, vários países foram sacudidos por manifestações populares contra medidas econômicas neoliberais e fraudes ou golpes eleitorais, como ocorreu no Equador, Peru, Colômbia, Bolívia, Nicarágua, Haiti e Chile. Cessada a pandemia, é possível que os protestos retornem com mais força.

No Brasil, o presidente Bolsonaro, ao encarar com descaso os efeitos da Covid-19, conseguiu que, às crises sanitária e econômica, se somasse a política, cujo desfecho é imprevisível.

Merece destaque o papel de Cuba nessa conjuntura pandêmica. Como ressalta Ignacio Ramonet, do Le Monde Diplomatique, Cuba é uma potência médica. Conta, hoje, com 100 mil médicos, o que equivale a 9 médicos por cada 1 mil habitantes. É a taxa mais alta do mundo. Na Alemanha, Suíça e Espanha, o índice é de 4/1.000 e, na França, Israel e EUA, de 3/1.000. Atualmente, Cuba atende 66 países (El País, Madrid, 22/3/20), onde se encontram 30 mil médicos e enfermeiros das brigadas internacionais.

Ao criá-las, Fidel declarou: “Um dia haverão de reconhecer que o nosso país jamais promoveu ataques preventivos ou de surpresa contra qualquer país do mundo, e que, ao contrário, nosso país foi capaz de enviar médicos solidários às mais distantes regiões do mundo. Médicos, e não bombas; médicos, e não armas inteligentes” (discurso feito em Buenos Aires, maio de 2003. Granma, Havana, 17/4/2020).

COMUNGAR

Eucaristia significa "ação de graças". É o sacramento central da vida cristã. Entre os fiéis, não se costuma dizer: "Fiz a primeira eucaristia". O habitual é: "Fiz a primeira comunhão". Quem vai à missa diz: "Vou comungar". Quase nunca fala: "Vou receber a eucaristia".

Comunhão - eis uma palavra abençoada. Expressa bem o que a eucaristia significa. Comunhão vem da mesma raiz que a palavra comunicar. Se comungo as mesmas ideias de uma pessoa é porque sinto profunda afinidade. Ela diz o que penso e exprime o que sinto. Na eucaristia comungamos: (1) com Jesus; (2) com os nossos semelhantes; (3) com a natureza; e (4) com a Criação divina.

Jesus instituiu a eucaristia em vários momentos de sua vida. O mais significativo deles foi a Última Ceia, quando tomou o pão, repartiu entre seus discípulos e disse: "Tomai e comei, pois isto é o meu corpo". A partir daquele momento, todas as vezes que uma comunidade cristã reparte entre si o pão e o vinho, abençoados pelo sacerdote, é o corpo e o sangue de Jesus que está compartindo. A palavra "companheiro" significa "compartir o pão". Na eucaristia, compartimos mais do que o pão; é a própria vida de Jesus que nos é ofertada em alimento para a vida terna, deste lado, e eterna, do outro.

Ao receber a hóstia consagrada - pão sem fermento - os cristãos comungam a presença viva de Jesus eucarístico. Nossa vida recebe a vida dele que nos revigora e fortalece. Tornamo-nos um com ele ("…que todos sejam um" (João 17,21).

Ao instituir a eucaristia na Última Ceia, Jesus concluiu: "Fazei isto em minha memória". Fazer o quê? A missa? A consagração? Sim, mas não apenas isso. Fazer memória é sinônimo de comemorar, rememorar juntos. Ao comemorar os 500 anos da invasão portuguesa, o Brasil deveria ter feito memória do que, de fato, ocorreu: genocídio indígena, tráfico de escravos, exclusão dos sem-terra etc.

Fazer algo em memória de Jesus não é, portanto, apenas recordar o que ele fez há dois mil anos. É reviver em nossas vidas o que ele viveu, assumindo os valores evangélicos, dispostos a dar o nosso sangue e a nossa carne para que outros tenham vida. Quem não se dispõe a dar a vida por aqueles que estão privados de acesso a ela, não deveria se sentir no direito de aproximar-se da mesa eucarística. Só há comunhão com Jesus se houver compromisso de justiça com os mais pobres, "pois quem não ama seu irmão, a quem vê, não poderá amar a Deus, a quem não vê" (I João 4,20).

A vida é o dom maior de Deus. "Vim para que todos tenham vida e vida em plenitude" (João 10,10). Não foi em vão que Jesus quis perpetuar-se entre nós naquilo que há de mais essencial à manutenção da vida humana: a comida e a bebida, o pão e o vinho. O pão é o mais elementar e universal de todos os alimentos. O vinho era bebida de festa e liturgia no tempo de Jesus. De certo modo, o pão simboliza a vida cotidiana e, o vinho, aqueles momentos de profunda felicidade que nos faz sentir que vale a pena estar vivos.

No entanto, há milhões de pessoas que, ainda hoje, não têm acesso à comida e à bebida. O maior escândalo deste início de século e de milênio é a existência de pelo menos 862 milhões de famintos entre os 7 bilhões de habitantes da Terra. Só no Brasil, 58 milhões estão excluídos dos bens essenciais à vida. E milhões trabalham de sol a sol para assegurar o pão de cada dia. Em toda a América Latina morrem de fome, a cada ano, cerca de 1 milhão de crianças com menos de 5 anos de idade.

A fome mata mais que a Aids. No entanto, a Aids mobliza campanhas milionárias e pesquisas científicas caríssimas. Por que não há o mesmo empenho no combate à fome? Por uma simples razão: a Aids não faz distinção de classe social, contamina pobres e ricos. A fome, porém, só afeta os pobres.

Não se pode comungar com Jesus sem comungar com os que foram criados à imagem e semelhança de Deus. Fazer memória de Jesus é fazer com que o pão (símbolo de todos os bens que trazem vida) seja repartido entre todos. Hoje, o pão é injustamente distribuído entre a população mundial. Basta dizer que 80% dos bens industriais produzidos no mundo são absorvidos por apenas 20% de sua população. Ou seja, se toda a riqueza da terra fosse um bolo dividido em 100 fatias, 1 bilhão e 600 milhões de pessoas ficariam com 80 fatias. E as 20 fatias restantes teriam de ser repartidas para matar a fome de 4 bilhões e 400 milhões. Basta dizer que apenas 4 homens, todos dos EUA, possuem uma fortuna pessoal superior à riqueza somada de 42 nações subdesenvolvidas, que abrigam cerca de 600 milhões de pessoas!

Em pelo menos três episódios evangélicos Jesus deixou claro que, comungar com ele, é comungar com o próximo, sobretudo com os mais pobres:

a) No "Pai Nosso" ensinou-nos uma oração com dois refrões: "Pai Nosso" e "pão nosso". Não posso chamar Deus de "Pai" e de "nosso" se quero que o pão (os bens da vida) seja só meu. Portanto, quem acumula riquezas, arrancando o pão da boca do pobre, não deveria sentir-se no direito de se aproximar da eucaristia;

b) No seu encontro com o homem rico (Marcos 10, 17);

c) No capítulo 25, 31-44 de Mateus, quando sujeita a salvação ao serviço libertador aos excluídos, com quem se identifica;

d) Na multiplicação dos pães (Marcos 6,30-44).

PANDEMIA & PANACEIA

A Covid-19 nos obriga a adotar antigos hábitos que, em tempos normais, nem sempre são cuidadosamente observados, como lavar as mãos. O brasileiro gosta de tomar banho, mas não tinha o costume de lavar as mãos com frequência. Nos restaurantes a quilo, quantas pessoas, vindas do trabalho, passavam antes pela pia?

Agora, tiramos do baú artefatos triviais que nos protegem da infecção: o sabão, inventado pelos fenícios há 2.600 anos; a máquina de costura para confeccionar máscaras, inventada pelo inglês Thomas Saint, em 1790; o isolamento social, adotado na Europa desde o século V frente à disseminação da peste.

As crises exacerbam o que temos de altruísmo e egoísmo. De um lado, se amplia a ampla rede de solidariedade para socorrer os mais pobres. Poucos se perguntam por que existe pobreza. E muitos que contribuem para gerá-la, indiferentes à desigualdade social, agora destinam recursos a eles. Fico na dúvida se por compaixão ou para evitar que, a partir deles, o vírus não se propague e perdure.

De outro lado, governos, como o dos EUA, praticam descaradamente a pirataria ao se apropriar de respiradores, máscaras e equipamentos de proteção individual. O mais grave é empresas exportadoras aceitarem o leilão dos produtos vendidos a países que chegam a pagar o triplo do preço, prejudicando os demais.

No início de abril, 600 respiradores, no valor de R$ 42 milhões, foram retidos no aeroporto de Miami e impedidos de chegar à Bahia. A França denunciou os EUA pelo mesmo motivo. A Itália acusou a República Tcheca de roubar-lhe um carregamento de máscaras vindas da China no avião que fez escala em Praga. Empresas asiáticas comunicaram a governos africanos e latino-americanos que não mais lhes venderiam material sanitário porque os EUA e a União Europeia pagavam por eles valores mais altos.

Outra face sombria despertada pela pandemia são as novas formas de discriminação ao suposto infectado. A suspeita de que a moradora de um prédio, na capital paulista, teria contraído o vírus foi o suficiente para ela encontrar, preso ao para-brisa de seu carro, estacionado na garagem, um bilhete anônimo exigindo que mudasse de domicílio. Também são encarados com ojeriza idosos que vivem sozinhos e precisam ir à rua para comprar alimentos e medicamentos. Agora, qualquer tosse ou espirro soa como fatal...

Nos EUA, Dan Patrick, vice-governador do Texas, chegou a declarar que “os avós deveriam se sacrificar e aceitar morrer para salvar a economia” (El Mundo, Madri, 24/3/20). Rick Santelli, comentarista do canal CNBC, dos EUA, propôs, como darwinismo sanitário, inocular o vírus em toda população. Isso viria a acelerar o seu curso inevitável, mas traria estabilidade aos mercados (El Salto, Madri, 11/4/20). Na Holanda, Frits Rosendaal, epidemiologista-chefe da Universidade de Leiden, declarou que “não devemos admitir nas UTI pessoas muito velhas ou demasiadamente vulneráveis”.

Em tese, a Covid-19 não faz distinção de classe, idade, etnia ou ideologia. De fato, sociedades como a brasileira, na qual mais de 50% da população não dispõem de saneamento básico, os pobres são as primeiras potenciais vítimas. Em um país como o nosso, em que 1% da população detém ¼ da riqueza nacional, não é de se estranhar a grita pelo fim imediato do isolamento social. Porque, enquanto os empregados se arriscariam, os patrões ficariam bem protegidos em suas redomas de luxo.

Onde o serviço de saúde se transformou em mercadoria, como aqui, os segmentos sociais empobrecidos ficam mais expostos à infecção. Como exigir cuidados de quem não tem água corrente em casa ou não pode se isolar em um barraco de favela onde a família se amontoa?

Agora, muitos se convencem de que a salvação está na intervenção do Estado e não no liberalismo do mercado. Como afirma Noam Chomsky, “esta crise é o enésimo exemplo do fracasso do mercado. E exemplo também da realidade da ameaça de uma catástrofe ambiental. O assalto neoliberal deixou os hospitais desprovidos de recursos. Os leitos de hospitais foram suprimidos em nome da “eficiência econômica”... O governo estadunidense e as multinacionais farmacêuticas sabiam, há anos, que havia grande probabilidade de que se produzisse uma pandemia. Mas se preparar para isso não convinha aos negócios e, por isso, nada se fez” (Il Manifesto, Roma, 18 março 2020).

O filósofo Edgar Morin constata que “afinal, o sacrifício dos mais vulneráveis – idosos e enfermos – é funcional na lógica da seleção natural. Como ocorre no mundo do mercado, o que não suporta a competição é fadado a morrer. Criar uma sociedade autenticamente humana significa opor-se a todo custo a esse darwinismo social” (France 24, Paris, 15 abril 2020).

A pandemia veio mostrar que o capitalismo, com a sua lógica de livre mercado e Estado mínimo, é uma panaceia para os males do mundo. Precisamos, o quanto antes, evoluir para uma sociedade pós-capitalista na qual os direitos coletivos estejam acima dos privilégios da acumulação de capital privado. 

FAZ ESCURO E EU SÓ REZO?

Estamos em plena crise da racionalidade moderna. O Muro de Berlim ruiu, o determinismo histórico cedeu lugar ao princípio da indeterminação, a física geométrica de Newton foi suplantada pelo alucinado baile das partículas subatômicas de Plank e Heisenberg. As utopias volatilizaram-se, os paradigmas entraram em parafuso e a esperança exige, hoje, a lanterna de Diógenes. Neva em nossos corações e mentes.

Vitória da economia de mercado? Pirro talvez acreditasse nas propriedades nutritivas de um hambúrguer McDonald's. O fracasso do capitalismo implantado, há pelo menos um século, na África e na América Latina, é notório. O único país de nosso Continente que logrou assegurar condições mínimas de vida a sua população foi Cuba. Graças ao socialismo.

E as estatísticas da FAO sobre a fome do mundo só não são mais gritantes porque 1 bilhão e 300 milhões de chineses comem ao menos duas vezes ao dia.

Na falta de horizontes, o céu é o limite. Na Bienal do Livro, os mais vendidos são os infantis e os esotéricos. Se Freud não explica, Jung entra em cena. No bazar das crendices, vale tudo, do tarô às religiões indígenas, do pentecostalismo à astrologia, do I Ching aos gurus indianos. Mais do que fazer a cabeça, abalada por tantas incertezas, agora as pessoas querem fazer a alma. A matemática de Descartes cede lugar às energias cósmicas.

Há um duplo aspecto nessa onda de misticismo. De um lado, a idolatria do capital com sua ofensiva ideológica fundada no dogma nipo-americano do "fim da história". Já que não se pode mudar o mundo, o negócio é ganhar dinheiro e, se possível, mudar a si mesmo. Limitada a transa do corpo pelo risco da Aids, o jeito é soltar o espírito. Nessa, o divã dança. Muitos não querem nem saber as causas de seus bloqueios psíquicos. Chega de razão! Terapia é mergulhar no mistério, seja pela via dos aditivos químicos, como drogas, seja pela via dos modismos religiosos e esotéricos que cauterizam o buraco que trazemos no centro do peito e antecipam hoje o destino de amanhã.

O outro aspecto é altamente positivo, pois todo esse fenômeno revela a insuficiência da racionalidade moderna, confirmando a tese de meu confrade, Santo Tomás de Aquino, de que "a razão é a imperfeição da inteligência". E recoloca, na ordem do dia, a questão da subjetividade. Deus, agora, é in. Pena que as Igrejas históricas estejam tão estruturadas em seus modelos seculares, sem muitas condições de acompanhar os que mergulham rumo ao transcendente.

Ao contrário das tendências esotéricas, em geral voltadas para o próprio umbigo, o cristianismo faz do outro uma referência divina. E proclama o amor como experiência de Deus. Nessa linha, a esperança ressurge, não em torno de teorias mecânicas ou positivistas, mas centrada no concreto: como celebrar a vitória do neoliberalismo se o Leste europeu entra em processo acelerado de latinoamericanização?

Deus sim, mas servido e contemplado lá onde Jesus se identifica ao reconhecer "tive fome e me destes de comer" (Mateus 25, 35 ): nos meninos e meninas de rua, nos desempregados, nos aposentados, nos enfermos (de Codiv-19), nos oprimidos. O amor como desafio místico e político. E a oração como estímulo da ação.

Se lograrmos, na arqueologia das palavras, descer do patamar das abstrações e implodir as catedrais academicistas, talvez cheguemos ao pobre como referência fundamental. Então, descobriremos que a saída espiritual deve ter uma base ética e, portanto, uma ressonância política. Homens e mulheres novos como filhos do casamento de Santa Teresa de Ávila com Ernesto Che Guevara.

A porta da razão é o coração e a chave do coração a religião como expressão litúrgica da ousadia de se amar, de amar o próximo e de amar tudo que concorre para a soberania da vida, como plenitude de fé e de festa.

COVID-19 MANDOU AVISOS PRÉVIOS

Governantes como Trump e Bolsonaro tentam justificar o estrago que a pandemia causa em seus países com a alegação de que foram surpreendidos. Ainda assim, subestimam os riscos ao declarar que se trata de uma “gripezinha”...

Em maio de 2008, o National Intelligence Council, órgão de previsão geopolítica da CIA, enviou à Casa Branca informe no qual dizia que se previa, para antes de 2015, “o surgimento de uma nova enfermidade respiratória, altamente transmissível e virulenta, para a qual não existem contramedidas adequadas, e que poderá se converter em pandemia global”.

O informe acrescentava que “se surgir uma enfermidade pandêmica, provavelmente ocorrerá em uma área caracterizada por alta densidade populacional e estreita associação entre humanos e animais, como muitas áreas do sul da China e do sudeste da Ásia”. E os autores opinavam que as autoridades talvez demorassem a agir: “Poderiam passar semanas antes de obter resultados de laboratório precisos que confirmem a existência de uma nova enfermidade com potencial pandêmico. (...) Apesar dos limites impostos às viagens internacionais, os viajantes com leves sintomas ou pessoas assintomáticas poderiam transmitir a enfermidade a outros continentes. Ondas de novos casos ocorreriam em poucos meses. A ausência de uma vacina eficaz e a falta universal de imunidade converteria as populações em vulneráveis à infecção. No pior cenário, dezenas a centenas de milhares de estadunidenses, dentro dos Estados Unidos, adoeceriam, e as mortes, em escala mundial, seriam calculadas em milhões”.

Em janeiro de 2017, o Pentágono alertou Trump sobre “a ameaça mais provável e significativa para os cidadãos estadunidenses de uma nova enfermidade respiratória”. E, nesse caso, “todos os países industrializados, incluído os Estados Unidos, careceriam de respiradores, medicamentos, leitos hospitalares, equipamentos de proteção e máscaras para enfrentar uma possível pandemia” (Ken Klippenstein, Military Knew Years Ago That a Coronavirus Was Coming , The Nation, New York, 1 abril 2020). Trump não deu ouvidos.

Se as autoridades mundiais tivessem prestado atenção aos alertas da OMS (Organização Mundial da Saúde) não estaríamos frente a essa calamidade. Em setembro de 2019, pouco antes de o novo coronavírus aparecer em Wuhan, a OMS advertiu: “enfrentamos a real ameaça de uma pandemia fulminante, sumamente mortífera, provocada por um patógeno respiratório que poderá matar de 50 a 80 milhões de pessoas, e liquidar quase 5% da economia mundial. Uma pandemia dessa dimensão seria uma catástrofe e desencadearia caos, instabilidade e insegurança generalizadas. O mundo não está preparado”.

O presidente Obama, em dezembro de 2014, insistiu que se deveria investir em infraestruturas sanitárias para enfrentar a possível chegada de uma nova epidemia: “Pode ser que chegue um momento em que tenhamos que enfrentar uma enfermidade mortal. E para poder lidar com ela, necessitamos infraestruturas, não apenas aqui nos Estados Unidos, mas também em todo o mundo, para conseguir detectá-la e isolá-la rapidamente” (2 de dezembro de 2014, durante visita ao National Institute of Health (NIH), em Bethesda, Maryland).

Bill Gates, em 2015, também advertiu: “Pode ser que surja um vírus com o qual as pessoas se sintam aparentemente bem, mesmo infectadas, para viajar de avião ou ir ao supermercado... Isso faria com que o vírus se difundisse pelo mundo inteiro de modo muito rápido... O Banco Mundial calcula que uma epidemia planetária desse tipo custaria pelo menos três bilhões de dólares, com milhões de mortos” (BBC News Mundo, Londres, 23/3/ 2020).

David Quammen, escritor de divulgação científica e autor de Contágio – infecções animais e a próxima pandemia humana, viajou pelo mundo para pesquisar vírus zoonóticos, que passam dos animais aos humanos. Segundo ele, houve “falta de preparação dos governos e dos sistemas públicos de saúde para enfrentar um vírus como este. (...) A ciência sabia que ia ocorrer. Os governos sabiam que podia ocorrer, mas não se preocuparam em se preparar. Os alertas diziam: pode ocorrer no próximo ano, em três anos, ou em oito. Os políticos diziam a si mesmos: não gastarei dinheiro por algo que pode não ocorrer durante meu mandato. É por isso que não se gastou dinheiro em mais leitos hospitalares, em unidades de terapia intensiva, em respiradores, máscaras e luvas. Não havia vontade política, como não há para combater as mudanças climáticas” (El País, 19/4/2020).

Como afirma Ignacio Ramonet, do Le Monde Diplomatique, a Covid-19 foi mais previsível que o assassinato de John Kennedy e a queda das Torres Gêmeas. A tragédia poderia ter sido evitada, mas a lógica dos governos, deturpada pela teoria do Estado mínimo e redução de investimentos na área social, impediu que medidas eficazes fossem tomadas. Agora, a humanidade chora sobre o leite derramado. Até que surja uma vacina e o destino nos prive de mais um coronavírus.

JESUS ERA UM CÍNICO?

O título desta recensão pode parecer provocativo. No entanto, John Dominic Crossan responde afirmativamente em seu alentado “O Jesus Histórico - a vida de um camponês judeu no Mediterrâneo”. Mas não se espantem os leitores. As palavras, como os textos, têm a sua arqueologia semântica. A rigor, não somos todos filhos da mãe? Um pesquisador do século XXX que encontrasse esta expressão em filmes do século XX, talvez inferisse tratar-se de contenda entre irmãos. Do mesmo modo, ao concluir que "o Jesus histórico era um camponês judeu cínico" (p. 460), o autor não imprime ao adjetivo qualificativo o significado corrente na linguagem de hoje.

No teatro grego, hipócrita era o ator que repetia frases sem participar da ação cênica. Na boca de Jesus, um modo de (des)qualificar os fariseus que pregavam o que não viviam. Assim, cínicos eram os discípulos de Diógenes de Sínope (400-320 a.C.) que buscavam a felicidade através de radical liberdade. Segundo Farrand Sayre, em The Greek Cynics (Baltimore, 1948), os cínicos esforçavam-se por libertar-se dos desejos, do medo, das autoridades religiosas e públicas, das preocupações com a opinião alheia, do confinamento a uma localidade e da preocupação de sustentar mulher e filhos.

Isso não significa que Jesus fosse discípulo de Diógenes, a quem Aristóteles chamava de "cachorro", por fazer tudo em público. Mas, em sua ousada liberdade, o filho de Maria teria se caracterizado por um comportamento que destoava dos códigos sociais, morais e religiosos predominantes na Palestina do século I.

"Onde está Jesus?" tem sido, ao longo dos séculos, um jogo mais atrativo que "Onde está Wally?". Qual perfil seria mais adequado ao jovem galileu? De revolucionário (Brandon), libertador (Boff), mago (Morton Smith), carismático (Venes), rabino (Chilton), proto-fariseu (Fox), profeta escatológico (Sanders), fundador de uma Igreja (Ratzinger) ou de Jesus rei, abade, cordeiro ou juiz que marca a espiritualidade de tantos cristãos? O fato é que o inconsciente coletivo do Ocidente e da Europa oriental gira em torno desta figura enigmática, originária de Nazaré, uma aldeia obscura, líder de um grupo dissidente do judaísmo, pregador ambulante e, segundo fontes judaicas e romanas, assassinado na cruz em Jerusalém por volta do ano 30 de nossa era.

É provável que Jesus fosse relegado ao anonimato que encobre milhares de crucificados palestinenses da mesma época - até hoje, o esqueleto de apenas um foi encontrado, em 1968 - se seus discípulos não tivessem testemunhado um evento singular: ele ressuscitou, comprovando sua origem divina.

O impacto da ressurreição dilatou a comunidade apostólica em Igreja e, três séculos depois, minou os alicerces do Império Romano. O Cristo da fé sobrepujou, na consciência dos fiéis, o Jesus histórico. Nas igrejas era comum se atribuir caráter histórico aos relatos canônicos de Mateus, Lucas, Marcos e João, redigidos, segundo o magistério eclesiástico, sob inspiração divina.

Quem era e como era o homem Jesus de Nazaré? Milhares de livros foram escritos desde que, em 1863, Ernest Renan esboçou uma resposta em seu clássico “A vida de Jesus”. No Brasil, a melhor obra é “Jesus Cristo, Libertador”, de Leonardo Boff (Vozes). Renan, entretanto, não foi o primeiro a buscar a face humana do Ressuscitado. Nem cabe aos quatro evangelistas este mérito. Os textos canônicos, que hoje constam de nossas Bíblias, foram compilados a uma distância de mais de 40 anos da morte de Jesus.

Crossan, em detalhada e erudita pesquisa, cujo método articula antropologia, história e linguística, demonstra que os quatro evangelhos, tais como aceitos hoje pelas Igrejas cristãs, são como cidades modernas edificadas sobre ruínas de antigas construções. Dos inúmeros evangelhos escritos nos séculos I e II, restam fragmentos de pelo menos uma dúzia deles. Na arqueologia dos textos, a versão atual de Marcos (70 d.C.) inclui narrativas como Ressurreição de um morto, A família do ressuscitado e a versão original conhecida como Evangelho secreto de Marcos. Por sua vez, Marcos serviu de base ao texto de Mateus (90 d.C.), que incorpora relatos do Evangelho das sentenças Q (50 d.C.) e do Evangelho da cruz (50 d.C.) - fontes também utilizadas nas versões canônicas de Lucas (90 d.C.) e de João (início do séc. II). Este último incorpora, entre os capítulos 2 e 14, o Evangelho dos sinais.

Como bom scholar, Crossnan faz um exaustivo estudo do contexto mediterrâneo do século I e defende a tese de que Jesus rechaçou qualquer mediação entre Deus e os homens, como o Templo de Jerusalém. Para evitar que se formasse em torno dele um movimento institucionalizado, preferiu a pregação itinerante, recusando a proposta de Pedro de fixar-se em Cafarnaum. Apontou, como já presente entre nós, o Reino futuro aguardado por seus contemporâneos, e revelou um Deus que ama os excluídos, perdoa os pecadores e exige justiça dos poderosos. A essência de sua proposta estaria numa sociedade igualitária, simbolizada pela partilha de bens essenciais como o pão, o peixe e o vinho. Jesus "não buscava uma revolução política, mas uma revolução social que afetaria as profundezas mais perigosas da imaginação. Não se dava nenhuma importância às distinções entre gentio e judeu, homem e mulher, escravo e homem livre, ricos e pobres. Essas distinções mal chegavam a ser atacadas na teoria: elas simplesmente eram ignoradas na prática" (p. 12).

Sempre haverá "uma dialética entre uma leitura histórica de Jesus e uma leitura teológica de Cristo" (461), reconhece o autor. Assim como a física jamais verá um elétron ou um trio de quarks, mas é capaz de identificá-los por suas sequelas nos aceleradores atômicos, jamais saberemos exatamente como era o homem de Nazaré. Contudo, o que sabemos e cremos, ainda que não corresponda à realidade dos fatos, representa um radical questionamento à nossa maneira de viver e de encarar a existência. Ao instaurar, por suas palavras e atos, a ontológica sacralidade de todo ser humano, Jesus detonou uma revolução cultural que derruba todas as barreiras étnicas, raciais, sexuais e sociais. E abriu-nos a possibilidade imediata de experimentar Deus, amorosamente, em nossos corações. Como diria Gilberto Gil, deu-nos régua e compasso. Resta-nos fazer o traçado.

VIETNÃ, NENHUMA MORTE POR COVID-19

O Vietnã é, hoje, exemplo para o mundo de como enfrentar a pandemia. Com quase 96 milhões de habitantes e ocupando área pouco maior que a de Goiás, até 30 de abril não registara uma única morte por Covid-19 entre os 270 infectados, dos quais 220 já tiveram alta hospitalar.

O isolamento social findou a 22 de abril, embora sejam mantidas medidas restritivas para bares, clubes, spas, teatros, centros esportivos etc. Estão proibidas reuniões com mais de 20 pessoas, e restaurantes e lanchonetes devem obedecer às diretrizes das autoridades locais.

O país, que faz fronteira com a China, já havia adquirido experiência de como lidar com outras modalidades de coronavírus, como a SARS (2002) e a MERS (2012).

As cidades foram divididas em “alto risco”, “em risco” e “baixo risco”. Todos os cidadãos são obrigados ao uso de máscara e higiene rigorosa. Logo no início da pandemia, o Vietnã importou 200 mil kits de teste rápido da Coreia do Sul.

O governo ordenou que o Ministério da Saúde supervisionasse e detectasse precocemente casos infectados, monitorasse fronteiras, aeroportos e portos, principalmente de passageiros vindos de áreas afetadas.

Cessou a emissão de vistos para turistas em 30 de janeiro. Os serviços de trem entre Vietnã e China foram suspensos, exceto para trens de carga. No interior do país, passageiros de transporte público devem preencher formulários de declaração de saúde. Isso inclui ônibus de longo percurso, trens, barcos turísticos e voos domésticos.

Em 1º de abril, foram adotadas regras estritas de distanciamento social por 15 dias. As medidas incluíram isolamento e proibição de sair de casa, exceto para adquirir alimentos e medicamentos, desde que mantida distância de dois metros entre uma pessoa e outra.

O país parou de exportar arroz a partir de 24 de março, para garantir a segurança alimentar da população. E lançou um aplicativo móvel que permite que todos os vietnamitas declarem seu estado de saúde.

Os kits de teste fabricados pelo Vietnã foram aprovados pelos padrões europeus e receberam permissão para serem vendidos no Espaço Econômico Europeu, incluindo o Reino Unido. Embora seja um país pobre, doou US$ 100 mil em máscaras e equipamentos médicos ao Japão e, aos EUA, 200 mil máscaras e 450 mil roupas de proteção para profissionais de saúde. E cinco países europeus receberam 550 mil máscaras em apoio contra a pandemia.

Para não onerar a população, o governo cortou em 10%, por três meses, as contas de energia elétrica para empresas e residências. Máscaras e desinfetantes para as mãos foram adicionados a uma lista de produtos essenciais do programa de estabilização de preços, reduzidos de 5 a 10% em seu valor de mercado. Foi aprovado um plano para adiar a cobrança de US $ 7,6 bilhões em impostos e aluguel de terras para ajudar as empresas.

O Ministério das Finanças isentou de impostos, até o fim da pandemia, uma lista de suprimentos médicos, incluindo máscaras, desinfetantes para as mãos, filtros e equipamentos de proteção individual.

Agora, o governo estuda um pacote de emergência de US$ 2,73 bilhões para as pessoas e empresas afetadas pela Covid-19. E o primeiro-ministro propôs que o pacote de estímulo fiscal para revitalizar a economia passe de US$ 1,27 bilhão para US$ 6,36 bilhões.

O Centro de Controle e Prevenção de Doenças dos EUA (CDC) decidiu, em 27 de fevereiro, remover o Vietnã da lista de destinos vulneráveis ​​à transmissão comunitária do Covid-19, citando ações abrangentes do país contra a epidemia. Uma delegação do CDC viajou, em março, para o Vietnã, a fim de aprimorar a cooperação médica com os EUA. E decidiu abrir um escritório regional do CDC no país asiático.

O Brasil não parece disposto a aprender a lição do Vietnã. Mas não resta dúvida de que aprenderá com a atual pandemia, ainda que ao trágico preço de inúmeras mortes. E, com certeza, frente ao próximo vírus agirá com menos descaso e mais seriedade.

REALIDADE QUE PARECE FICÇÃO

Seria espantosa uma versão atual de 1984, de George Orwell, em que toda a população mundial fosse proibida de sair de casa, enviar os filhos à escola, ter contato com os entes queridos que não vivem sob o mesmo teto. Um governo ditatorial que fechasse todas as fronteiras do país, controlasse cada cidadão pelo celular e soubesse exatamente qual a porcentagem de pessoas que ontem foram à rua. E cuja polícia multasse ou prendesse quem fosse encontrado fora de casa sem justificativa aceitável. No entanto, tudo isso a Covid-19 tornou realidade.

Como declarou Yuval Noah Harari, “os governos que pouparam gastos nos últimos anos, reduzindo os serviços de saúde, agora gastam muito mais por causa da epidemia“ (El País 22/03/20).

Agora se calam os que ardorosamente defendiam as privatizações e as políticas de austeridade. E palavras outrora estigmatizadas voltam a aparecer no noticiário econômico: nacionalizar, repatriar, reindustrializar. Até a palavra solidariedade soa na boca dos arautos do sistema.

As perspectivas de futuro não são animadoras. Dos 195 países do mundo, 170 terão crescimento negativo em 2020. Mais 250 milhões de pessoas devem se somar às atuais 820 milhões que passam fome. Cenário mais drástico do que em 1929. Empresários e empregados se perguntam de que haverão de morrer, de infecção ou falência.

Em meio aos prognósticos negativos, a natureza agradece. O ar está mais limpo, há menos lixo nas cidades, a vegetação se revigora. E a Pax Coronavirica faz as armas se calarem na Líbia, na Síria, no Iêmen e no Afeganistão. Nem o Conselho de Segurança da ONU teria tanta autoridade para suspender guerras.

Ainda sabemos pouco sobre o Covid-19. Muitas perguntas permanecem sem respostas. Por que os idosos estão mais ameaçados que os jovens? Por que atinge mais homens que mulheres? Os assintomáticos podem vir a contrair o vírus e disseminá-lo? Os curados podem ser de novo infectados?

Existem sete tipos de coronavírus. Quatro causam gripes comuns. Os três mais recentes produzem sintomas letais, como a SARS (síndrome respiratória aguda grave), surgida em 2002; a MERS (síndrome respiratória do Oriente Médio), de 2012; e, agora, a Covid-19.

O que os cientistas se perguntam é por que o vírus atual se dissemina tão rápido e supera todas as previsões das autoridades sanitárias do mundo. Por que a SARS e a MERS não se espalharam em escala planetária como agora?

Os vírus são enigmáticos. Não estão vivos nem mortos. Não estão vivos porque são incapazes de se reproduzir por si mesmos. Não estão mortos porque penetram em nossas células e se replicam. Ao ingressar na primeira célula, cada coronavírus gera até 100 mil cópias de si mesmo em 24 horas, segundo o Centro Nacional de Biotecnologia da Espanha. Os vírus procuram sempre um modo de burlar o nosso sistema imunológico.

O que é peculiar na Covid-19 é a sua propagação silenciosa, sem levantar suspeitas. Nos primeiros dias a pessoa infectada não demonstra nenhum sintoma de enfermidade. E pode nem ter sintomas e, ao mesmo tempo, repassar o vírus a outras pessoas.

As utopias são matéria de ficção. Em meio à pandemia, soam opiniões de que a humanidade sairá melhor dessa crise, cujas lições são muito duras. Haverá mais cooperação, menos gastos bélicos e mais com proteção social, melhor infraestrutura sanitária e, quem sabe, uma renda mínima universal para cada pessoa. Tomara que a ficção se torne realidade.

ANTÍGONA & ANTARES

Todo dia vemos no noticiário o solo esburacado de cemitérios, as covas em série qual macabra dentadura de Tânatos à espera de devorar os mortos. A pandemia cria situações inusitadas, entre elas a de mortes sem funerais. Como é possível ficarmos alheios a um rito de passagem tão ancestral, exclusivamente humano? Na natureza, nenhum outro ser chora os seus mortos e os reverencia no sepultamento. Todos os povos ritualizam a despedida de seus mortos. Os rituais têm valor simbólico, expressam em liturgias o que não conseguimos dizer em palavras.

Agora, o vírus nos rouba tudo isso que traduz nossos laços de parentesco e amizade: visitar o enfermo, consolá-lo e animá-lo, preparar o corpo para o funeral, promover o velório, cumprir os rituais de enterro ou cremação, ver o caixão descer ao túmulo, orar em conjunto pelo falecido, e manifestar condolências e abraçar os mais afetados pela perda.

Banalizada por força da pandemia, a morte descartável agride a nossa dignidade humana. São tétricas as cenas de corpos coletados por caminhões frigoríficos e coveiros vestidos como astronautas. Nem cães e gatos domésticos merecem igual tratamento.

Cinco séculos antes de Cristo, Sófocles tratou do tema em sua célebre peça de teatro, Antígona. Creonte, rei de Tebas, proibiu que Antígona sepultasse seu irmão Polinices. O governante queria que o corpo permanecesse exposto à voracidade de aves e cães. O horror visava a inibir os pretendentes ao trono, como mais tarde fariam os romanos com suas vítimas crucificadas no tempo de Jesus.

Antígona, levada à prisão, pôs fim à vida antes de saber que o sábio Tirésias convencera Creonte a libertá-la e permitir o sepultamento do corpo de Polinices. Tal como, cinco séculos depois, José de Arimateia convenceria Pilatos a consentir que ele desse túmulo ao corpo de Jesus descido da cruz.

Ao escárnio de ver seu irmão insepulto, Antígona preferiu morrer. Agora, ao nos obrigar a tratar os mortos como mero refugo, a pandemia mata em nós um dos mais fortes atributos da condição humana. A ponto de os povos indígenas insistirem em jamais abandonar a terra na qual sepultaram seus antepassados.

As imagens são lúgubres: corpos previamente encaixotados atirados em covas sem identificação, enquanto os entes queridos do falecido miram à distância, impedidos de se aproximar para o adeus definitivo, imobilizados pela força necrófila de Hades, o deus do reino dos mortos.

Na guerra, morre-se distante da família e muitos corpos são enterrados em locais ignorados. Porém, ao menos, em tempos de paz, as vítimas merecem um mausoléu do soldado desconhecido. Haverá um monumento em memória das vítimas da Covid-19? Ou serão relegadas ao esquecimento, transformadas em frios números nas estatísticas oficiais, como mortos desaparecidos? No Dia de Finados, onde depositar as flores em memória do ente querido falecido?

Sabemos que o nosso recuo diante das vítimas da pandemia não é por menosprezá-los, e sim para salvar vidas, a nossa e as dos demais. Preservamos um princípio ético maior. Deixamos de fazer um bem, o ritual fúnebre, para preservar um bem maior, a vida.

Em seu admirável romance, Incidente em Antares, Érico Veríssimo relata a greve dos coveiros que induziu os mortos, cujos corpos foram abandonados em frente ao cemitério, a saírem de seus caixões. Do coreto da praça principal, com a população em volta, eles desnudam os moradores ao denunciar corrupções, abusos e crimes.

Tomara que as vítimas da COVID-19 abram os nossos olhos diante de falácias como privatização dos serviços de saúde, trabalho escravo de médicos cubanos, planos privados de saúde que, na propaganda, oferecem atendimento exemplar. Insepulta é também a atual política de saúde do Brasil. Até quando suportaremos um governo indiferente ao risco de genocídio causado pela pandemia? 

Edição 157, Abril 2020

COVID-19 DESMORALIZA ESTADO MÍNIMO

Tivesse o Brasil governo, já teria tomado providências urgentes para minorar os efeitos da pandemia sobre os mais pobres e vulneráveis. Não apenas com ajudas emergenciais, como os R$ 600 por três meses, mas ampliando o investimento em políticas públicas. Mas onde obter recursos?, perguntaria Guedes, que só pensa em encher as burras do Tesouro e não em impedir que o país mergulhe em profunda crise social.

Ora, basta seguir o exemplo de nações escandinavas, como promover a reforma tributária e taxar grandes fortunas, como heranças, dividendos, renda e patrimônio. Quem ganha mais deveria pagar mais impostos. Mas para isso são necessários dois fatores que faltam ao (des)governo atual: vontade política e mudança de rumo na política econômica.

Na América Latina, a região mais desigual do mundo, as elites resistem à tributação progressiva e ao aumento de impostos para fortalecer a rede pública de proteção social.

O Covid-19 derrete todos os dogmas do capitalismo neoliberal. Ainda que Guedes, como um náufrago à sua boia, se agarre às anacrônicas teorias da Escola de Chicago, o fato é que, agora, os principais países capitalistas preferem resgatar os princípios keynesianos, como são os casos de EUA, Canadá, Reino Unido, Alemanha, França, Suécia e Austrália.

Isso significa mais Estado e menos conversa fiada de Estado mínimo e privatizações. Diante da letalidade do vírus, cabe ao poder público investir em políticas de proteção social e assegurar o fôlego dos sistemas produtivo e financeiro.

Enquanto as nações metropolitanas impõem à periferia, como o Brasil, ajustes fiscais, tetos de gastos, desregulamentação financeira, flexibilização das relações trabalhistas, e outras medidas genocidas que tornam os ricos mais ricos e os pobres mais pobres, os donos do mundo agem, agora, exatamente na direção oposta. Aliás, como fizeram na crise de 2008, quando injetaram grandes recursos para impedir o efeito cascata da falência do banco Lehman Brothers.

Enquanto aqui Bolsonaro chegou a emitir Medida Provisória propondo aos empresários suspender, por quatro meses, contratos de trabalho, Trump, seu ídolo, acionou a Lei de Produção de Defesa, que permite ao Estado intervir nas indústrias para assegurar a fabricação de material para o sistema sanitário.

O Congresso dos EUA liberou US$ 2 trilhões (em 2019, o PIB do Brasil equivaleu a US$ 1,80 trilhão) para a proteção social e o FED, Banco Central daquele país, decidiu conceder empréstimos, a juros baixíssimos, a pequenas e médias empresas, estudantes, financiamento imobiliário, dívida de cartões de crédito e compra de veículos. Até compra de celular por cartão de crédito será financiado. O BC passou a comprar títulos do Tesouro usamericano das mãos de particulares para irrigar o mercado.

Entre tantos mortos pela pandemia, o capitalismo decidiu ressuscitar um que nos deixou há mais tempo: John Maynard Keynes (1883-1946). Ele alertou que, frente a uma crise aguda, nenhuma medida monetária faria efeito. O Estado necessariamente teria de intervir com decisões efetivas para reaquecer a economia.

No Reino Unido, o governo liberou o equivalente a R$ 2,5 trilhões para evitar a falência de empresas, garantir 80% do salário de quem ganha até R$ 14,8 mil por mês, e suspendeu a cobrança de impostos sobre o valor agregado (IVA) do comércio e dos trabalhadores. Os autônomos tiveram alongados os prazos para pagar impostos. Os empresários, isentos por enquanto de pagar impostos, recebem créditos para ter dinheiro em caixa e pagar seus funcionários.

Todos os principais países capitalistas adotaram medidas para impedir a falência das empresas e o desemprego, multiplicando os benefícios sociais. Aqui, os bancos privados alardeiam suas doações para combater a pandemia e, ao mesmo tempo, elevam as taxas de juros de quem precisa de empréstimos. Algumas taxas chegam a 70% ao ano!

Como salvar o Brasil da acelerada desindustrialização, do sucateamento do setor produtivo e do aumento do desemprego? Os varejistas calculam que 600 mil trabalhadores serão demitidos caso as lojas não sejam reabertas até fim de abril. O varejo emprega 23,5% dos trabalhadores (9,1 milhões de pessoas) com carteira assinada. As pequenas empresas são responsáveis por mais de 80% de empregos formais e informais no Brasil.

Na vida se colhe o que se planta. A drástica redução do orçamento da Saúde em nome do ajuste fiscal provocou o sucateamento do SUS. Segundo a Fiocruz, o Brasil perdeu 34,5 mil leitos entre 2009 e 2020. Os leitos de internação caíram de 460,92 mil para 426,38 mil entre a crise do H1N1 e a atual. E a rede privada aumentou em 14 mil o número de leitos. Por isso as famílias de classes média e alta migraram para os planos privados e a medicina de grupos, o que faz aprofundar a seletividade e a exclusão na sociedade brasileira.

Grandes empresários apoiadores do atual governo insistem em que se suspenda o isolamento horizontal para fazer a economia girar. E propõem, como medida preventiva, aplicar o teste do Covid-19 a toda a população, como ocorreu na Coreia do Sul. Ora, como fazer o mesmo no Brasil se não há testes nem para quem está obviamente enfermo? E como deter o avanço da pandemia se é preciso esperar semanas pelo resultado?

Como evitar a aglomeração de 13,6 milhões de pessoas que moram em favelas? Segundo o Data Favela, 72% dos moradores não têm dinheiro guardado para enfrentar a crise. Talvez a culpa seja deles, como alertou o ministro Guedes: “O brasileiro não sabe poupar”... Como deter a disseminação do vírus se onde vivem os mais pobres não há infraestrutura, como saneamento básico, esgoto tratado, coleta de lixo e água potável?

É preciso que, o quanto antes, a sociedade pressione o governo para revogar a Emenda Constitucional número 95/2016, a do teto de gastos, que impede políticas sanitárias, humanitárias e econômicas para salvar os 60 milhões de brasileiros que sobrevivem abaixo da linha da pobreza.

A FACE SOCIAL DA AMÉRICA LATINA E DO BRASIL

Hoje, dos 7,7 bilhões de habitantes do planeta, 569 milhões vivem na América Latina. Segundo a Oxfam, a pandemia deve aumentar o número de pobres em nosso Continente, de 162 milhões para 216 milhões, mais 54 milhões de pessoas com renda diária inferior a US$ 5,5. Na extrema pobreza sobrevivem, atualmente, 67,5 milhões. Número que poderá chegar a 90,8 milhões.

A pandemia com certeza afetará o comércio internacional, em especial a navegação mercante. O declínio da produção na China já afeta diretamente Brasil, México, Chile e Peru. Como evitar aglomerações em um navio que passa dias em alto mar? As infecções em cruzeiros marítimos foram comuns. Portanto, é possível que o transporte de alimentos de um país a outro sofra considerável redução, seja porque o exportador haverá de segurar sua safra para a população local, seja porque o importador verá diminuir o fluxo de envio de cargas e, se conseguir comprar, terá de pagar preços exorbitantes. Em resumo, isso significa aumento da fome no mundo.

Segundo a Oxfam, a pandemia poderá jogar mais de 500 milhões de pessoas na pobreza, caso os governos não criem com urgência sistemas de renda mínima e de proteção social. O número de pessoas que poderão passar a ter renda diária inferior a US$ 5,5 aumentaria dos atuais 3,38 bilhões para 3,9 bilhões, ou seja, mais 547 milhões.

Em 2019, enquanto a economia global cresceu em média 2,5%, o PIB da América Latina oscilou 0,1%, ficou estagnado. A Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe (Cepal) prevê que a queda em 2020 será de 1,8%.

Dados do Banco Mundial, divulgados nos primeiros dias de abril, revelam que, no Brasil, o total de pessoas em extrema pobreza (que sobrevivem com menos de US$ 1,90 por dia) saltou de 9,250 milhões em 2017 para 9,300 milhões em 2018. A renda mensal dessas famílias não ultrapassava, em 2019, R$ 150.

O aumento da miséria no Brasil se deve à combinação entre baixa escolaridade e poucas oportunidades de empregos. A taxa de desemprego entre os extremamente pobres é de 24%. Ou seja, uma em cada quatro pessoas desse grupo que buscam trabalho não consegue se empregar. Hoje, mais de 12 milhões de brasileiros estão desocupados.

Isso aumenta a taxa de desalento desse grupo. É o que demonstra a fila de espera de 1 milhão de pessoas para ingressar no Bolsa Família, que hoje atende 14 milhões de famílias, cerca de 60 milhões de pessoas. O que comprova o fracasso das políticas públicas para superar a crise da economia que afeta o Brasil nos últimos anos.

Entre 2014 e 2018, a população que sobrevivia em condição de miséria no Brasil aumentou 67%. Entre 15 países do Continente, só houve piora nesse indicador na Argentina, Equador e Honduras, além do Brasil. Já em países como Uruguai, Peru e Colômbia, a extrema pobreza foi reduzida. No México, o número de pessoas sobrevivendo na miséria recuou de 4,6 milhões (2014) para 2,2 milhões (2018).

Em 2017, 19 milhões de brasileiros tinham renda individual de US$ 3,20 (R$ 253 por mês, na cotação da época). Em 2018, esse contingente subiu para 19,2 milhões. Já na faixa dos que tinham renda diária de US$ 5,50 (R$ 434 mensais) houve recuo: de 42,3 milhões de pessoas em 2017, passou para 41,7 milhões em 2018.

Isso demonstra que, como sempre acontece, a crise afetou principalmente os mais pobres. Entre os extremamente pobres, 40% vivem na zona rural, e apenas 1/3 dessas famílias tem alguma renda do trabalho, segundo o Banco Mundial.

Já a classe média deu sinais de recuperação. As famílias que vivem com menos de US$ 5,50 por dia moram, em geral, em cidades e 80% têm emprego. A maioria é autônoma e sem carteira assinada, enquanto 25% trabalham no setor formal e contam com benefícios, como salário família e abono salarial.

O Brasil viveu profunda recessão entre 2014 e 2016. A partir daí teve início uma tímida recuperação. Com a pandemia, esse quadro tende a cessar e se agravar, aumentando a pobreza e a miséria.

A população pobre, que depende mais da renda informal, será a mais prejudicada pelo isolamento social imposto pela pandemia. A menos que as medidas anunciadas pelo governo, como a ampliação do Bolsa Família e a renda básica de R$ 600 aos mais pobres, realmente funcionem.

A crise deve aprofundar também a desigualdade de renda. Segundo o Banco Mundial, em 2018 aumentou a distância entre ricos e pobres. Os que detêm 20% da renda do país recuperaram suas perdas. Se não forem adotados mecanismos de proteção social, como a renda mínima, a situação tende a se agravar.

A esperança é que a pandemia, que não faz distinção de classe, ensine que o Estado tem, sim, papel preponderante para assegurar aos mais pobres e vulneráveis uma ampla e eficiente rede de proteção social. Menos ajuste fiscal e mais justiça social.


E DEPOIS DA PANDEMIA?

Como será o “dia seguinte” dessa pandemia? O que mudará em nossos países e em nossas vidas? Ainda é cedo para previsões. Alguns sinais, porém, já indicam que, ao contrário do que diz a canção, não viveremos como os nossos pais.

Por que a China conseguiu deter a epidemia em tempo relativamente curto, se considerarmos que, numa população que ultrapassa 1 bilhão de pessoas, não é fácil exercer tão eficiente controle? E é justamente esta palavra – controle – o indício de que, agora, a ficção de George Orwell, no romance “1984”, chegou à realidade.

As nossas frágeis instituições democráticas estão ameaçadas. A China logrou conter o coronavírus porque, por meio de celulares, manteve cada cidadão sob vigilância. Inclusive capaz de mapear onde o usuário do celular, portador da infecção, esteve nas últimas duas semanas. O mundo tende, agora, a se transformar em uma gigantesca casa do Big Brother, na qual todos sabem o que todos fazem, em especial aqueles que detêm o controle dos algoritmos.

A exigência de ficar em casa demonstra ser possível manter a sociedade em funcionamento sem obrigar milhares de pessoas a se deslocarem diariamente de casa para o local de trabalho. Isso traria muitas vantagens para o capitalismo: não precisar manter tantos prédios com escritórios e outros espaços laborais, nem funcionários para cuidar de limpeza, refeições, manutenção, energia, mobiliário etc.

Muitos serão como empregadas domésticas antes da lei de 2015 que assegura direitos a elas: sem carteira assinada, leis trabalhistas, vínculos sindicais e queixas pelos corredores. Todos dormindo no serviço, sem hora para entrar e sair, obrigados a comprar o próprio alimento, sem direito a descanso no fim de semana e obrigados a fazer do espaço doméstico um local de trabalho, o que certamente afetará as relações familiares. Seremos todos prestadores de serviço, uberizados pela atomização das relações de trabalho.

Outra possibilidade de esgarçamento democrático é as autoridades, por mero capricho autoritário, decidirem nos impor, com frequência, o toque de recolher. O “fica em casa” passa a ser rotineiro, e nossa mobilidade controlada pela polícia. E as fronteiras de nossos países podem ser periodicamente fechadas, o que nos faria experimentar o que significa viver na Coreia do Norte.

Contudo, há malas que vêm de trem, como se diz em Minas. A pandemia desmoralizou o discurso neoliberal de eficiência do livre mercado. Como em crises anteriores, mais uma vez se recorreu ao papel interventor do Estado. Os países que privatizaram o sistema de saúde, como os EUA, enfrentam mais dificuldade para conter o vírus que os países que dispõem de sistema público de atenção aos enfermos. Talvez isso suscite cautela frente às propostas de privatização, e até mesmo incentive reestatizações.

Factor positivo é, em meio à crise, estreitar laços de solidariedade, partilhar bens, cuidar dos vulneráveis, resgatar antigas brincadeiras para entreter as crianças e, sobretudo, descobrir que podemos ser felizes curtindo o âmbito familiar e sem muitas atividades fora de casa.

A palavra crise deriva do verbo acrisolar, que significa aperfeiçoar. Porque ela nos ensina muitas lições. Se em poucos dias foi possível transformar estádios, como o Pacaembu em São Paulo, e pavilhões, como o Riocentro no Rio, em hospitais dotados de instalações de primeira linha, por que não é possível adotar medidas semelhantes para reduzir o déficit habitacional no Brasil?

Há, porém, quem nada aprende com a crise, como aqueles que, na contramão da ética e dos mais universais princípios religiosos, consideram ser mais importante salvar o lucro dos bancos e das empresas que vidas. Padecem de uma miopia que os impede de ver que o coronavírus não faz distinção de classe. Portanto, se equivocam ao supor que a epidemia matará apenas idosos (aliviando as contas da Previdência Social), portadores de outras doenças (diminuindo a fila do SUS), moradores de ruas (higienizando as cidades) e favelados (reduzindo os gastos com a área social).

Essa perversa ideologia é, ela sim, um caso grave de saúde política e que exige medidas urgentes de profilaxia.

CUBA, SOBERANIA ALIMENTAR E EDUCAÇÃO NUTRICIONAL

Na tarde de terça, 10 de março, participei em Havana, no Palácio da Revolução, da reunião do Conselho de Ministros, presidida por Miguel Díaz-Canel, presidente da República, e Manuel Marrero, primeiro-ministro. Ao lado deles se sentaram Marcelo Resende, oficial diplomático representante da FAO naquele país, e eu, assessor do organismo da ONU.

Apresentamos aos ministros o Plano de Soberania Alimentar e Educação Nutricional, conhecido como Plano SAN, a ser implementado na ilha do Caribe. Elaborado durante um ano por representantes de 22 ministérios, coordenados pelos da Agricultura e do Comércio Exterior, é a primeira vez na história do país que uma proposta de política pública resulta de tão amplo esforço interministerial com assessoria da FAO.

A doutora Elizabeth Peña, diretora do Ministério da Agricultura, discorreu sobre o Plano SAN, tarefa complementada por Marcelo Resende e por mim. No dia seguinte à apresentação, o Fundo Verde para o Clima (ONU) aprovou um recurso inicial do valor de US$ 38 milhões.

São prioridades do plano: diminuir a dependência das importações e substituir pela produção nacional; fortalecer a alimentação na rede pública de consumo social, priorizando a merenda escolar e o atendimento aos setores vulneráveis, como crianças e idosos; assegurar a qualidade dos alimentos e evitar os desperdícios na cadeia alimentar, da produção ao consumo; aprimorar os projetos de investimentos para os setores produtivos.

Cuba enfrenta múltiplas dificuldades para alcançar a sua soberania alimentar. Embora não haja fome no país, já que a Revolução garante cesta básica a cada família, são importados 60% dos alimentos que consome, a um custo anual de US$ 2 bilhões. O bloqueio imposto à ilha pelo governo dos EUA dificulta a importação de tecnologia aplicada à zona rural, já que nenhuma empresa do mundo, sob risco de sanção, vende a Cuba equipamentos que contenham mais de 10% de componentes made in USA.

Outro fator que afeta a produção agropecuária é o que chamo de “paradoxo cubano”: o facto de os filhos de camponeses terem acesso à universidade reduz a mão-de-obra rural. Isso não seria problema se o país tivesse acesso às tecnologias de cultivos.

O Plano SAN busca potencializar o cultivo de alimentos, como mandioca e milho, para promover a substituição de produtos, como o trigo, importado a um custo anual de US$ 400 milhões. Visa ainda a mudar hábitos nutricionais que, hoje, aumentam no país os índices de diabetes (Cuba é o paraíso do açúcar!) e doenças cardiovasculares.

A maioria das famílias cubanas ferve água para beber, um considerável consumo de gás importado, o que pode ser significativamente reduzido com a introdução do filtro de barro.

Toda a rede escolar e os meios de comunicação serão mobilizados para promover a educação nutricional e, sobretudo, evitar que os cubanos acolham o Plano SAN como meros beneficiários. O êxito do plano dependerá do protagonismo da população, por meio da atuação de organizações de massa, como os Conselhos Populares, já presentes em cada município.

DEZ DICAS PARA ENFRENTAR A RECLUSÃO

Estive recluso sob a ditadura militar. Nos quatro anos de prisão trancaram-me em celas solitárias nos DOPS de Porto Alegre e da capital paulista, e também, no estado de São Paulo, no quartel-general da PM, no Batalhão da ROTA, na Penitenciária do Estado, no Carandiru e na Penitenciária de Presidente Venceslau.

Partilho, portanto, 10 dicas para suportar melhor esse período de reclusão forcada pela pandemia:

1. Mantenha corpo e cabeça juntos. Estar com o corpo confinado em casa e a mente focada lá fora pode causar depressão.

2. Crie rotina. Não fique de pijama o dia todo, como se estivesse doente. Imponha-se uma agenda de atividades: exercícios físicos, em especial aeróbicos (para estimular o aparelho respiratório), leitura, arrumação de armários, limpeza de cômodos, cozinhar, pesquisar na internet etc.

3. Não fique o dia todo diante da TV ou do computador. Diversifique suas ocupações. Não banque o passageiro que permanece o dia todo na estação sem a menor ideia do horário do trem.

4. Use o telefone para falar com parentes e amigos, em especial com os mais velhos, os vulneráveis e os que vivem só. Entretê-los fará bem a eles e a você.

5. Dedique-se a um trabalho manual: consertar equipamentos, montar quebra-cabeças, costurar, cozinhar etc.

6. Ocupe-se com jogos. Se está em companhia de outras pessoas, estabeleçam um período do dia para jogar xadrez, damas, baralho etc.

7. Escreva um diário da quarentena. Ainda que sem nenhuma intenção de que outros leiam, faça-o para si mesmo. Colocar no papel ou no computador ideias e sentimentos é profundamente terapêutico.

8. Se há crianças ou outros adultos em casa, divida com eles as tarefas domésticas. Estabeleça um programa de atividades, e momentos de convívio e momentos de cada um ficar na sua.

9. Medite. Ainda que você não seja religioso, aprenda a meditar, pois isso esvazia a mente, retém a imaginação, evita ansiedade e alivia tensões. Dedique ao menos 30 minutos do dia à meditação.

10. Não se convença de que a pandemia cessará logo ou durará tantos meses. Aja como se o período de reclusão fosse durar muito tempo. Na prisão, nada pior do que advogado que garante ao cliente que ele recuperará a liberdade dentro de dois ou três meses. Isso desencadeia uma expectativa desgastante. Assim, prepare-se para uma longa viagem dentro da própria casa.

Edição 156, Março 2020

PANDEMIA E ESPIRITUALIDADE

A vida é cheia de imprevistos. No âmbito pessoal, fracasso, perda de amizades, doença, morte. No global, eventos que nenhum analista ou futurólogo prevê, como as quedas do Muro de Berlim e das Torres Gêmeas, de Nova York. Também ninguém suspeitou de que, em pleno século XXI, com todos os recursos da ciência, a humanidade seria ameaçada por uma pandemia.

Quem poderia imaginar que viria da China, na forma de enfermidade contagiosa, a causa da mais profunda crise do capitalismo desde 2008? Segundo o Morgan Stanley Composite Index, em poucas semanas o mercado financeiro viu as ações das Bolsas de Valores do mundo perderem 15.5 trilhões de dólares! Mais de 8 vezes o PIB do Brasil em 2019!

Será que algum desses especuladores e megainvestidores afetados pelo bolso (a parte mais sensível do corpo humano) ficou pobre? E, no entanto, antes da pandemia quase todos se negavam a contribuir para medidas de combate à fome e ao aquecimento global.

Isso me faz lembrar o cerco de Jerusalém pelos romanos, no ano 70. Chegou um momento em que o rico oferecia um pote de ouro em troca de um pedaço de pão...

O coronavírus nos obriga a nova espiritualidade e atitude diante da realidade. Não faz distinção de classe, como a gastroenterite, que mata milhares de crianças desnutridas, nem de orientação sexual, como a aids, que atingia majoritariamente homossexuais. Agora somos todos vulneráveis, embora variem as faixas etárias e situações de risco.

Estamos todos obrigados ao retiro compulsório. Voltar-se para dentro de casa e de si mesmo. Desapegar-se. Esse abandono das atividades rotineiras e das agendas programadas pode nos revoltar ou humanizar. Revoltados ficarão os apegados a certos hábitos que, por ora, estão proibidos, como ir ao cinema, ao teatro, ao clube. Para idosos, não ter contato com os netos e manter-se o mais possível dentro de casa.

Viagens aéreas foram reduzidas; fronteiras nacionais, fechadas; roteiros turísticos, cancelados. Não nos resta alternativa senão ficar quietos onde estamos. Huit-clos, entre quatro paredes. Pode ser que descubramos, como Sartre, por que os outros são o inferno. E pode ser que resgatemos o convívio familiar, o diálogo com os parentes, o cuidado da casa (tudo deve ser higienizado).

É hora de aprender a trabalhar e estudar sem nos deslocar do espaço doméstico. Agora, temos mais tempo para ver filmes na TV, navegar na internet, ler bons livros, pesquisar, meditar e orar.

O vírus iguala todos. Mas não nivela caráteres. O casal burguês que nunca se deu ao trabalho de entrar na cozinha ou limpar a casa, agora se vê forçado a arregaçar as mangas ou correr o risco de ter o vírus trazido por um dos empregados. O relapso não segue instruções das autoridades sanitárias, e o egoísta compra na farmácia todo o estoque de álcool gel e máscaras.

Conheço uma jovem que, no prédio em que mora, se ofereceu aos moradores vulneráveis para ir às compras por eles, sem nada cobrar. Outra espalhou seu número de telefone para os idosos isolados terem com quem conversar. Um casal de advogados vai de carro todas as manhãs buscar a cozinheira na periferia, e levá-la de volta à tarde, para evitar que use transporte coletivo. Três famílias vizinhas a um hospital decidiram preparar lanches para enfermeiros e médicos que dobram a carga horária. Na Itália, vizinhos chegam à janela no fim da tarde e cantam em coro. Igrejas, mesquitas, sinagogas, abrem suas portas a quem vive na rua e necessita de cuidados higiênicos. Enfim, são inúmeros os exemplos de generosidade e solidariedade nesse período em que estamos todos potencialmente ameaçados.

Esses gestos têm sua fonte na espiritualidade, ainda que sem caráter religioso. Espiritualidade é a capacidade de se abrir amorosamente ao outro, à natureza e a Deus. E o que ela melhor nos ensina é o desapego, o segredo da felicidade. Rico não é quem tem tudo, dizia Buda, e sim quem precisa de pouco.

ANTONIO CANDIDO MILITANTE

Sabemos todos que Antonio Candido (1918-2017) se destaca entre os mais qualificados críticos literários da história do Brasil e merece figurar entre os mais eminentes sociólogos. Porém, sua longa trajetória de vida foi marcada também pela militância política. Este carioca de temperamento e hábitos mineiros, fala ponderada e gestos comedidos, gentleman da intelectualidade, fino no físico e no trato, se sobressai como exemplo de coerência de princípios éticos, humanitários.

Antonio Candido iniciou sua militância política na década de 1940, quando se filiou ao Partido Socialista Brasileiro e editou o jornal clandestino “Resistência”, de oposição à ditadura de Getúlio Vargas. Em fevereiro de 1980, participou da fundação do PT (Partido dos Trabalhadores), ao lado de intelectuais como Sérgio Buarque de Holanda e Paulo Freire.

Fomos amigos. Tivemos poucas, mas memoráveis conversas, em especial à mesa de nossa amiga comum, Adélia Bezerra de Meneses. Ele e eu, amigos de Lula, estávamos ligados ao PT. A diferença é que minha vinculação sempre foi a de simpatizante. Ao contrário dele, nunca me filiei a partidos políticos. Antonio Candido aderiu, como filiado e militante, à proposta de Lula por considerá-la oposta à “vanguarda iluminada”, como se expressou em crítica ao dogmatismo stalinista.

Socialista convicto, declarou aos 93 anos de idade: "O socialismo é uma doutrina totalmente triunfante no mundo. E não é paradoxo. O que é o socialismo? É o irmão-gêmeo do capitalismo, nasceram juntos, na revolução industrial. É indescritível o que era a indústria no começo. Os operários ingleses dormiam debaixo da máquina e eram acordados de madrugada com o chicote do contramestre. Isso era a indústria. Aí começou a aparecer o socialismo. Chamo de socialismo todas as tendências que dizem que o homem tem que caminhar para a igualdade, ele é o criador de riquezas e não pode ser explorado. Comunismo, socialismo democrático, anarquismo, solidarismo, cristianismo social, cooperativismo… tudo isso. Esse pessoal começou a lutar para o operário não ser mais chicoteado; depois, para não trabalhar mais que doze horas; depois, para não trabalhar mais que dez, oito; para a mulher grávida não ter que trabalhar; para os trabalhadores terem férias; para ter escola para as crianças. Coisas que hoje são banais. Conversando com um antigo aluno meu, que é um rapaz rico, industrial, ele disse: ‘O senhor não pode negar que o capitalismo tem uma face humana.’ O capitalismo não tem face humana nenhuma. O capitalismo é baseado na mais-valia e no exército de reserva, como Marx definiu. É preciso ter sempre miseráveis para tirar o excesso que o capital precisa. E a mais-valia não tem limite. Marx diz em A Ideologia Alemã: as necessidades humanas são cumulativas e irreversíveis. Quando você anda descalço, você anda descalço. Quando você descobre a sandália, não quer mais andar descalço. Quando descobre o sapato, não quer mais a sandália. Quando descobre a meia, quer sapato com meia, e por aí não tem mais fim. E o capitalismo está baseado nisso. O que se pensa que é face humana do capitalismo é o que o socialismo arrancou dele com suor, lágrimas e sangue. Hoje é normal o operário trabalhar oito horas, ter férias… tudo é conquista do socialismo.(Entrevista a Joana Tavares, O socialismo é uma doutrina triunfante”. Brasil de Fato, 08/08/2011).

Para Antonio Candido - crítico ao socialismo real -, à democracia econômica ali existente, a partilha de bens e a garantia universal de direitos básicos a toda a população, como alimentação, saúde e educação, faltava a contrapartida da democracia política, da efetiva participação popular de condução do processo social. Sem se opor, ele mantinha a devida distância de Lenin e Trotsky, e a convicção de que é preferível correr o risco de errar com a classe trabalhadora do que ter a pretensão de acertar sem ela.

Antonio Candido era homem de base, aliado ao MST (Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra), malgrado seu porte refinado, mas um refinamento antiburguês, de quem não abre a guarda a meros interesses mercantilistas. Senhor de suas emoções, sabia escutar quem se lhe opunha ideologicamente sem jamais perder a fleuma. Não se deixava levar por essa ansiedade de querer catequizar o adversário e convencê-lo de seu equívoco. No calor do debate, preservava-se em altivo e respeitoso silêncio. Indagado, expressava seu ponto de vista com firme moderação. Sabia ser etimologicamente humilde (húmus, terra), pés no chão e altura própria, nem menor nem maior.

Em 2002, Antonio Candido teve a gentileza de redigir a apresentação de meu livro sobre Lula, destinado à campanha presidencial daquele ano. No texto, ressalta Lula como “o líder operário que contribuiu decisivamente para imprimir novo rumo à vida política brasileira, ao consagrar a entrada do trabalhador na linha de frente das decisões nacionais, quebrando a tendência de manipulá-lo segundo fórmulas ideológicas pré-fabricadas ou de acordo com os interesses das classes dominantes.”

“O leitor poderá verificar como Lula está no centro desse grande movimento histórico, que mudará a fisionomia e a estrutura da sociedade brasileira. De fato, ele encarna de maneira exemplar as aspirações de sua classe, desde o momento em que deu alma nova ao movimento sindical, esforçando-se para situá-lo na vanguarda da luta pela democracia. Ao fazer isso, firmou-se cada vez mais como homem representativo, como porta-voz, não como um desses dirigentes revestidos de autoritarismo mágico, que tentam impor a própria personalidade. A mola dos seus atos são os interesses legítimos da classe trabalhadora, que contém mais do que qualquer outra os germes da transformação pela qual a sociedade deve passar, a fim de pôr termo à situação insuportável de miséria e iniquidade que caracteriza o Brasil de hoje. Por isso, do movimento sindical por ele dirigido saiu logicamente o Partido dos Trabalhadores, que se impõe a cada dia pela capacidade de abrir os trilhos do futuro, em marcha pelo socialismo.” (Lula, um operário na Presidência, São Paulo, Casa Amarela, 2002).

Antonio Candido era ateu convicto, porém desprovido de qualquer proselitismo. Entre seus melhores amigos figuravam meu confrade, o dominicano frei Benevenuto de Santa Cruz, meu professor de ética e diretor da Livraria e Editora Duas Cidades, tão frequentada por Antonio Candido. Contou-me que frei Benevenuto fazia parte de sua família, e quando foram juntos a Porto Alegre, nos anos 50, nos restaurantes todos miravam espantados aquele homem de hábito branco, pois não havia frade dominicano no Sul do país. Benevenuto está enterrado no túmulo da família de Antonio Candido.

Manteve também profundo vínculo com o cardeal Dom Paulo Evaristo Arns, arcebispo de São Paulo e figura de destaque na oposição à ditadura militar. Por isso, não relutou ao ser convidado para integrar a Comissão de Justiça e Paz da Arquidiocese de São Paulo.

Na segunda-feira, 12 de setembro de 2011, em companhia de Antonio Carlos Ribeiro Fester, apanhei Antonio Candido à porta do prédio onde morava, na Alameda Joaquim Eugênio de Lima, em São Paulo. Aos 93 anos, desceu lépido as escadas. Fomos visitar Dom Paulo Evaristo Arns em seu retiro, em Taboão da Serra. No percurso, Antonio Candido comentou ter lido meu romance histórico Minas do Ouro (Rio, Rocco, 2011). Elogiou capítulos e criticou o anacronismo de alguns nomes próprios.

No dia seguinte, ele faria conferência no IEB (Instituto de Estudos Brasileiros) sobre Sérgio Buarque de Holanda. Queixou-se ter sido convidado para “uma mesa”, e agora se dava conta de que não tinha parceiro, seria o único a falar... Lembrei que a mim também acontecia de anunciarem meu nome em palestras e eventos para os quais nem havia sido convidado...

Recordou ter participado da festa dos 60 anos de Sergio Buarque de Holanda. E eu, dos 70, na casa de Chico Buarque, no Rio, quando Sérgio cantou a famosa marchinha de carnaval Sassaricando, em latim. Antonio Candido, senhor de uma memória prodigiosa, recitou a letra no carro... Lembrou ainda da música que os filhos de Sérgio fizeram para os seus 60 anos – “não é um velho coroca/ é um rapaz bem capaz” – e cantou a letra completa. Recitou ainda todo o primeiro verso do Primeiro Canto, de Camões, miniespectáculo desfrutado apenas por dois espectadores, Fester e eu.

Contou que nascera no Rio e, aos oito meses de idade, a família se mudara para Santa Rita de Cássia, em Minas, na época distrito do município de Passos, onde seu pai se estabeleceu como médico. Mas a sua cidade do coração, observou, era Poços de Caldas, que também encantava sua mãe. A família morou ali até 1992, quando a casa foi vendida.

Dom Paulo Evaristo Arns nos recebeu falante. Completara 90 anos a 14 de setembro de 2011.

Como explicar o perene frescor do pensamento de Antonio Candido? Não tende a militância petrificar a visão? E o exercício do magistério, sobretudo catedrático, não fomenta certa arrogância, suscitando aquele tom de quem, do alto da torre, julga ver melhor do que os outros?

Minha opinião é que o espírito tão democrático de Antonio Candido, sua sincera entrega à alteridade, se deveu ao seu trato com a literatura de ficção. A ficção é a realidade em forma de sonhos. Como ensinou Aristóteles, ela não precisa ser verdadeira, e sim verossímil. E quando se transita no mundo da arte, no qual se situa a literatura de ficção, corre-se menos risco de se deixar contaminar por dogmas, ortofonias, ideias petrificadas. Porque o artista é, por excelência, abridor de janelas, demolidor de paredes, alargador de caminhos, amante de horizontes infindos. Para ele não basta o agora. Ele busca também o além. E na literatura seu único limite é o da impossibilidade da palavra. E para ele palavra não se resume a vocábulo. Nisto o artista concorda com o evangelista João, é preciso que o verbo se faça carne. E em Antonio Candido todo o seu discurso resultava da coerência ética de sua prática.

ESPIRITUALIDADE NO MUNDO DESIGUAL

Ao tratar de espiritualidade, convém percorrer a via que vai do mais íntimo ao mais genérico – como a sociedade se organiza para assegurar vida à população. Tanto a subjetividade quanto a política são dois polos desta mesma equação chamada vida. Esta brota na sexualidade e se viabiliza, como possibilidade, nas estruturas sociais, produtivas, comerciais, ou seja, nos atos políticos.

Certa tradição atrelou a espiritualidade à moralidade e, assim, confundiu e dificultou as coisas. Por exemplo, a ideia de que um Deus distante, que habita o cume da montanha. Devemos escalá-la, levando às costas as pedras das virtudes morais. No meio da subida, pecamos, a pedra rola, e nos obriga ao eterno recomeço, como no mito de Sísifo.

Deus não está “lá em cima”. O príncipe de Florença perguntou a Galileu se ele havia visto Deus através de seu telescópio. Diante da resposta negativa, retrucou: “Como devo acreditar em seu invento se não vê Aquele que habita os céus?” Galileu respondeu: “Se Deus não se encontra em cada um de nós, ele não se encontra em lugar nenhum”.

Na espiritualidade evangélica não há montanhas a escalar, nem atestado de boa moral para se aproximar de Deus. Há Deus, que é Pai/Mãe amoroso, e nos ama incondicionalmente, não importa o que façamos, desde que abramos o coração a seu amor, como comprova a parábola do filho pródigo (Lucas 15, 11-32) e o encontro de Jesus com a samaritana (João 4, 1-42).

Há lei para tudo, menos para o amor, li na traseira de um caminhão na Via Dutra. O árabe que obriga a filha a casar com o vizinho é capaz de impor a sua vontade, mas não que ela ame o marido. A liberdade é a condição do amor. Em nossa liberdade podemos acolher ou não o amor de Deus. Ele, porém, sempre nos ama, pois amar é da essência mesma de seu ser.

Na parábola do filho pródigo, o moço comportado, que ficou em casa trabalhando com o pai, não teve festa. O outro, que saiu de casa e dilapidou a herança com farras, foi recebido com festa sem ter que se desculpar. Bastou o pai vê-lo retornar para preparar a festa de acolhida. “Deus amou primeiro”, diz João (1 João 4, 10). A iniciativa do amor é de Deus.

O eixo da espiritualidade de Jesus era a experiência do amor de Deus e o compromisso com os oprimidos. Em um mundo como o nosso, regido pela globocolonização ou, como prefere o professor Milton Santos, globototalitarismo neoliberal, que promove o desemprego e a exclusão social de bilhões de pessoas, a espiritualidade cristã deve manter-se atenta ao episódio do encontro de Jesus com o homem rico (Marcos 10, 17-22). Este indaga o que fazer para ganhar a vida eterna. Jesus responde: “Você conhece os mandamentos” e recita-os. Curioso que Jesus só cita os mandamentos que dizem respeito ao próximo, e nenhum que diz respeito a Deus. O homem confirma que, desde pequeno, cumpre todos.

Marcos então sublinha que “Jesus o amou” para, em seguida, recomendar ao homem: “Vai, vende os teus bens, distribui aos pobres e, depois, vem e me segue”. Diz o Evangelho que “o homem foi embora triste e aborrecido porque era muito rico”.

O curioso é que, tendo-o amado, Jesus foi exigente com ele. Eis o conceito de amor de Jesus: quem ama é verdadeiro com o outro, ainda que a verdade doa. Quem não é verdadeiro consigo mesmo e com o outro, não ama. Amar é fazer bem ao outro, ainda que ele receba isso como um mal, como o opressor indignado por lhe privarem dos meios de oprimir. Jesus, ao amar, levava as pessoas a encontrarem a verdade, mesmo que isso criasse nelas antipatia por ele, como foi o caso dos fariseus.

Ao homem rico, Jesus demonstrou que não se pode acercar-se de Deus sem assumir a luta por justiça. A exigência, que tanto frustrou a expectativa do abastado, era simples: dê o seu bem maior, a vida, à causa de libertação dos pobres. De fato, em uma sociedade desigual como a nossa, tudo que fazemos favorece um dos polos, o da opressão ou o dos oprimidos. Nossa balança pende para o lado escolhido por Jesus?

CUBA RESISTE

Estive três vezes em Cuba neste início do ano, a serviço da FAO. O país está seriamente afetado pelo bloqueio usamericano, agravado pela política agressiva de Trump. Faltam gás de cozinha e combustível para veículos. Os navios mercantes são ameaçados de sanções caso aportem em Cuba para descarregar seus containers. Todos os voos dos EUA à ilha estão suspensos por ordem da Casa Branca, exceto os que pousam em Havana. Apesar de tudo, Cuba resiste. A população tem consciência de que o governo tudo faz para contornar as dificuldades, e que a culpa das carências é do bloqueio, que já dura 59 anos.

Em janeiro, participei do Cuba Sabe, evento internacional gastronômico que reuniu chefs e produtores de alimentos, com destaque para as culinárias cubana e italiana. Em início de fevereiro estive do seminário promovido pelo ministério da Agricultura daquele país e a FAO sobre soberania alimentar e educação nutricional. Hoje, Cuba importa 60% dos alimentos que consome, a um custo de US$ 2 bilhões/ano.

Participei ainda da Feira do Livro, dedicada este ano à literatura vietnamita, que funcionou a todo vapor. E do 12º Congresso Internacional de Educação Superior, que reuniu, em Havana, representantes de 45 países para debaterem a Agenda 2030 dos Objetivos do Desenvolvimento Sustentável.

Hoje, para obter divisas, Cuba depende da remessa de dinheiro feita por cubanos que vivem fora do país (cerca de US$ 1 bilhão/ano); dos contratos obtidos com o envio de médicos e professores a mais de 100 países; do turismo, que chegou a quase 5 milhões de visitantes/ano na época de Obama, e agora sofre redução (o que se reflete na produção de bens e serviços); e da exportação de produtos como vacinas, charutos e rum.

Em dezembro de 2019, Diaz-Canel, presidente do país, resumiu o garrote que tenta estrangular Cuba: “No 61º aniversário da Revolução, atiraram em nós para matar e, no entanto, estamos vivos.”

Os EUA nunca se conformaram de não ter pleno domínio sobre a ilha, como acontece a Porto Rico. Por isso, violam o direito internacional com declarado intuito genocida, como disse, em de abril de 1960, Lester D. Mallory, do Departamento de Estado: “A maioria da população apoia Castro. O único modo previsível de tirar-lhe apoio interno é através do desencanto e da insatisfação provenientes do mal-estar econômico e das dificuldades materiais. Há que empregar rapidamente todos os meios possíveis para debilitar a vida econômica de Cuba, de modo a provocar fome, desespero e a queda do governo.”

Os prejuízos causados pelo bloqueio, nos últimos 60 anos, somam US$ 138,843 bilhões. De abril de 2018 a março de 2019, houve perdas de US$ 4 bilhões, uma média de US$ 12 milhões/dia. Só em 2019, a Casa Branca adotou, contra a ilha, 85 medidas agressivas.

Ao deixar de receber por suas exportações, Cuba perdeu US$ 2,340 bilhões em um ano. Produtos de alta qualidade e reconhecida eficácia, como charutos e Heberprot-P (para regenerar a pele de diabéticos e evitar a amputação da parte afetada) estão proibidos de entrarem no mercado dos EUA. E este país impede que os demais exportem para Cuba qualquer produto que contenha 10% ou mais de componentes de origem estadunidense, como matérias-primas, tecnologia, software etc Isso se reflete em setores básicos como alimentação, medicamentos e transporte.

O bloqueio financeiro impede Cuba de obter financiamento externo para adquirir insumos e matérias-primas. Um cubano que padece de descompasso cardíaco grave não pode dispor de equipamento de apoio ventricular, o que lhe permitiria prolongar a vida até o transplante. Os EUA também dificultam o acesso à internet ao encarecer a conexão e condicionar o acesso a plataformas e tecnologias.

Na ONU, dos 193 países membros, 190 repudiaram o bloqueio em 2019, exceto EUA, Israel e, agora, Brasil. No entanto, quem haverá de punir Tio Sam? Mas ele aprendeu, ao ser derrotado pelos vietnamitas, que é possível derrubar governos, jamais um povo unido e decidido como os cubanos.

ERNESTO CARDENAL (1925-2020)

POETA, MÍSTICO, REVOLUCIONÁRIO

Em 1987, Afonso Borges promoveu, como primeira atividade do Projeto Sempre Um Papo, de Belo Horizonte, o lançamento do meu romance O dia de Ângelo, no restaurante La Taberna, em Belo Horizonte. Contei a Afonso que, ano seguinte, Ernesto Cardenal iria a Minas. Afonso o convidou para proferir conferência no Cabaré Mineiro, restaurante que, de cabaré, só tinha o nome, e passara a receber o Sempre Um Papo. Cardenal, ex-monge trapista, reagiu: “Mas num cabaré?...”

Encontrei Cardenal, pela primeira vez, em 1978, em sua trincheira de guerrilheiro Sandinista: os fundos de uma das seis livrarias que circundavam a Universidade Nacional da Costa Rica. Já o admirava por sua obra. Seu En Cuba, relato de viagem à ilha em 1970, havia passado de cela em cela em meus tempos de cárcere em São Paulo, entre 1969 e 1973.

Filho de uma das famílias mais ricas da Nicarágua, Cardenal preferiu não seguir o caminho de seu irmão Fernando, que ingressou na Ordem dos jesuítas. Em 1957, o jovem poeta tornou-se monge trapista nos EUA. Durante dois anos, teve como mestre de noviço o místico e escritor Thomas Merton. Ao deixar a vida monástica, estudou teologia em Medellín e, em 1965, foi ordenado presbítero em Manágua. Identificado com a Teologia da Libertação, passou a viver na paradisíaca Ilha de Solentiname, no lago ao sul da Nicarágua, onde partilhava a vida comunitária de pescadores e camponeses.

Ernesto nada tinha da figura estereotipada de um revolucionário. Baixa estatura, ombros largos e um jeito tímido de se aproximar das pessoas, olhos vivos por trás das lentes brancas acima do sorriso suave, dir-se-ia tratar-se de um monge ingênuo e despreocupado não fosse a boina azul, semelhante à do Che, derramando cachos prateados sobre as orelhas e a nuca. Sua jaqueta verde, sobre a bata branca, assemelhava-se à dos oficiais cubanos.

Sua função na Frente Sandinista era viajar pelo mundo a fim de denunciar os crimes de Somoza e obter apoio político. Perguntei-lhe como conciliava a contemplação com a atividade revolucionária. “Não se opõem. Pode-se trabalhar pela revolução sendo contemplativo. No sentido tradicional, há uma dicotomia entre ação e contemplação. Porém, vivo a contemplação na ação.” E frisou: “A única mensagem do Evangelho é a revolução, que ele chama de Reino de Deus, exigência de superação de todas as marcas de pecado, injustiça e opressão, até que só o amor seja possível.”

Indaguei-lhe sobre o caráter de sua obra poética. “Em um poema que dediquei a Dom Pedro Casaldáliga, digo que escrevo pela mesma razão dos profetas bíblicos, que faziam da poesia uma forma de denúncia de injustiças e anúncio de um novo tempo.”

Em fevereiro de 1979, voltamos a nos encontrar em Puebla, no México, durante a Conferência Episcopal Latino-Americana. Ele convenceu bispos de todo o continente a assinarem uma carta contra a ditadura somozista.

A 19 de julho de 1980, participei como convidado oficial das comemorações do primeiro aniversário da Revolução Sandinista. Ali reencontrei Cardenal, nomeado ministro da Cultura. Cinco anos depois ele participaria, em Havana, da solenidade na qual lancei Fidel e a Religião, ao lado de Fidel, Gabriel García Márquez e Chico Buarque.

Durante a década de 1980, assessorei o movimento sandinista, que reunia cristãos e comunistas ateus nas questões de educação popular e na relação marxismo e cristianismo. Foi, então, que Cardenal me propôs organizarmos um movimento de jovens denominado MIRE (Mística e Revolução). A ideia nunca prosperou, exceto no Brasil, onde o movimento teve sua fase expressiva no início da década de 2000 e ainda hoje mantém núcleos em algumas regiões do país, principalmente no Nordeste. A proposta é vincular a espiritualidade mística, cultivada pela meditação, ao compromisso de transformação da sociedade.

Em sua visita à Nicarágua, em 1983, o papa João Paulo II se recusou a estender à mão a Cardenal, ministro da Cultura, que integrava o cortejo oficial para recepcioná-lo. E, em público, o repreendeu, humilhou e, 1985, suspendeu-o de suas funções sacerdotais. O papa Francisco o reabilitou em 2019.

Em 1994, Cardenal rompeu com a Frente Sandinista, por considerar que o governo de Daniel Ortega já não mantinha coerência com os princípios revolucionários nem atendia os anseios populares

A última vez que nos vimos foi em La Paz, em 2008, quando intelectuais e artistas latino-americanos se reuniram para manifestar apoio ao governo de Evo Morales.

Cardenal era um poeta consagrado internacionalmente, merecedor de vários prêmios literários importantes. Um de seus versos mais famosos é este epigrama dedicado a Cláudia, que reproduzo em tradução livre: “Ao perder eu a ti, tu e eu perdemos: / eu, porque tu eras a quem eu mais amava / e tu, porque eu era quem te amava mais. / Porém, de nós dois, tu perdeste mais que eu: / porque poderei amar a outras como amei a ti, / mas a ti não te amarão como eu te amava.”

Seu poema, Cântico Cósmico, publicado em 1990, se estende por 600 páginas! É um primor de descrição da evolução do Universo e de toda a magnitude estética da Criação, o que levou o escritor Sérgio Ramirez a qualificar a obra de Cardenal de “poesia científica”.

A obra se inicia com estes versos: “No princípio não havia nada / nem espaço, nem tempo. / O Universo inteiro concentrado no espaço do núcleo de um átomo / e, antes, ainda menor, muito menor que um próton, / e, todavia, menor ainda / um infinitamente denso ponto matemático. / E ocorreu o Big Bang. / A Grande Explosão.

E assim termina seu mais extenso poema: “E o que vemos quando olhamos o céu noturno? / De noite vemos apenas a expansão do Universo. / Galáxias e galáxias, e além mais galáxias e quasares. / E por detrás do espaço não veríamos nem galáxias nem quasares, mas um Universo no qual nada ainda se havia condensado, / um muro escuro, / antes do instante em que o Universo se tornou transparente. / E antes ainda, o que afinal veríamos? / Quando não havia nada. / No princípio...”

Edição155, Fevereiro 2020

CHEIRO DE GOLPE NO AR

O ministro Augusto Heleno, do Gabinete de Segurança Institucional (GSI), sugeriu, em 19 de fevereiro, que o povo deve ir às ruas “contra a chantagem do Congresso”. Bastou este aceno autoritário para os aliados do presidente convocarem manifestação para o domingo, 15 de março.

Ora, quando uma autoridade do Poder Executivo convoca uma manifestação contrária a outro Poder da República, no caso o Legislativo, isso é gravíssimo e sinaliza conspiração golpista ou, sem rodeios, o fechamento do Congresso. Tomara que o Poder Judiciário, representado pelo STF, proíba tal manifestação, pois caso contrário correrá o risco de assinar o fechamento de suas portas.

O protesto a favor do governo será na mesma data em que, há cinco anos, ocorreu a maior das manifestações pelo impeachment da presidente Dilma Rousseff.

Foi com uma escalada de manifestações prévias, como a Marcha com Deus e a Família pela Liberdade, que os militares prepararam o golpe de 1964 que derrubou João Goulart, presidente constitucional e democraticamente eleito.

O sonho de todo político com vocação para caudilho ou ditador, avesso ao regime democrático, é governar pela supressão de todas as vias institucionais entre ele e o povo. Uma via direta, sem intermediação dos poderes Legislativo e Judiciário, hoje facilitada pelas redes digitais.

Autoconvencido de que só ele sabe discernir o que convém ou não à nação, o autocrata despreza o sistema partidário, trata os políticos como seus serviçais, e se relaciona com a Constituição como o terrorista islâmico com o Alcorão. Ele ouve, mas não escuta; fala, mas não dialoga; age, mas não reflete. Seu pendor absolutista é, hoje, facilitado pelas redes digitais, por meio das quais faz chegar à população sua vontade e determinações.

Frente a um povo despolitizado, desprovido de consciência crítica, o déspota emite suas opiniões como se fossem leis. Seus adeptos, movidos pelo senso de “servidão voluntária”, na expressão da La Boétie, o erigem à condição de “mito”, aquele que se torna paradigma, referência acima de qualquer suspeita ou juízo.

O caudilho sabe que, sem apoio popular, seu futuro político corre o risco de virar mero sonho. Para evitá-lo, recorre ao recurso de armar mãos e espíritos. Liberar o porte e a posse de armas, e plantar no coração e na mente de seus adeptos o ódio mortal a seus inimigos, reais ou imaginários. Essa segunda medida se efetiva pela descontextualização política, como se a conjuntura, os princípios constitucionais e o consenso entre os seus pares poucos importassem.

Dotado da uma intuição impetuosa e de agressividade incontida, o autocrata fragmenta seu discurso, adota um vocabulário chulo, desdenha a coerência, troca o atacado pelo varejo, a floresta pelas árvores, e cria um deus à sua imagem e semelhança. Ele não tem outra proposta ou programa que não seja se perpetuar no poder e transformar sua vontade em lei. Por isso suas medidas provisórias têm o peso de definitivas.

Onde andam os partidos de oposição, as centrais sindicais, os movimentos populares? Se o desemprego afeta mais de 11 milhões de pessoas; a economia retrocede; a saúde e a educação estão sucateadas; e 165 milhões de brasileiros sobrevivem com renda mensal inferior a dois salários mínimos; qual a razão de tamanha inércia daqueles que deveriam manifestar a sua indignação diante deste governo?

Convém ter em mente o poema de Eduardo Alves da Costa, equivocadamente atribuído a Maiakóvski: “Na primeira noite eles se aproximam e roubam uma flor do nosso jardim./ E não dizemos nada./ Na segunda noite, já não se escondem: pisam as flores, matam nosso cão, e não dizemos nada./ Até que um dia, o mais frágil deles entra sozinho em nossa casa, rouba-nos a luz e, conhecendo nosso medo, arranca-nos a voz da garganta./ E já não podemos dizer nada”.

A REVANCHE DE DEUS

A religião, no século XX, se libertou de seu caráter heteronômico, a que o fiel recebe da autoridade religiosa e a ela se submete, para adquirir caráter autônomo, como escolha pessoal e convicção íntima. A sociedade se laicizou. O poder já não é exercido em nome de Deus, se dessacralizou. Deixou de ser atribuído ao sobrenatural para emanar da vontade soberana do povo. Eis o advento da democracia.

No entanto, agora assistimos a um retrocesso. Desde a queda do Muro de Berlim, a religião ganha espaço, não propriamente como experiência espiritual, mas como ideologia política. Há uma ressacralização da política. Quando um presidente anuncia que nomeará para o STF um juiz "terrivelmente evangélico”, eis um dos sintomas da revanche de Deus.

Max Scheller dizia que “o homem possui um Deus ou um ídolo”. A ciência é algo moderno. Teve inicio no século VI a.C., na Grécia, no confronto com o pensamento considerado mítico ou mágico. A ideia de um Cosmo isento de interferência sobrenatural surgiu na Escola de Mileto, com Anaximandro e Anaxímenes. Criaram-se as condições para o advento da demonstração matemática e de um novo modo de pensar (Tales).

Porém, a humanidade teve de aguardar séculos para adotar a prática da experimentação, o que ocorreu com Galileu. A ciência moderna nasceu no inicio do século XVII, quando a Europa conheceu profunda revolução cultural e moral, na qual se destacaram Copérnico, Kepler, Galileu, Descartes e Newton. Eles destronaram a cosmologia grega. O Cosmo fechado e perfeito cedeu lugar ao Universo infinito situado no espaço-tempo desprovido de limites e significado.

A Igreja ficou abalada ao ver a ciência questionar suas opiniões a respeito da origem do mundo e do movimento dos planetas. Derruba-se a associação entre verdade e autoridade. O espírito crítico ocupa o lugar do autoritarismo servil.

O poeta John Donne (1611), na época em que a ciência ainda era chamada de filosofia natural, refletiu o espírito da época: “A nova filosofia torna tudo incerto. Tudo está em pedaços, desaparece toda coerência. Não há mais relações justas, nada mais se harmoniza.” E Pascal exclamou: “A imensidão desses espaços infinitos me apavora.”

Instaura-se o conflito entre ciência e religião. Espinoza expressa a ruptura ao declarar que o objeto da filosofia é unicamente a verdade, enquanto o da fé é a obediência e a piedade.

As monarquias cederam lugar à república. A politica, não mais tributária da religião, deve emergir da própria sociedade, sem derivar de um poder sagrado. A felicidade deixou de ser uma quimera pós-morte para se tornar algo a ser alcançado nesta vida.

Agora, em pleno século XXI, a roda gira ao contrário. Frente ao niilismo e ao relativismo levanta-se o fundamentalismo. Incapaz de dialogar com a ciência, a religião se reapropria do poder para ressacralizá-lo e tornar a palavra da autoridade sinônimo de verdade. Ainda que a autoridade declare, sem nenhum pudor, que a Terra é plana e que “índio está se tornando humano como nós”, declarou Bolsonaro em 24 de janeiro deste ano. Raciocínio que constitui base das políticas eugênicas de extermínio.

Essa pós-verdade é uma severa ameaça à democracia e aos direitos humanos. Porque prescinde da ciência, reveste-se de caráter religioso e não se envergonha de sua ignorância. Não fala à razão, fala à emoção. Faz os ingênuos acreditarem que as autoridades são oráculos divinos. E que os males da sociedade jamais serão solucionados pela força da lei, e sim pela lei da força. Toda a retórica “democrática” do poder é mero jogo de cena para abrir caminho ao mais inescrupuloso autoritarismo, arraigadamente disposto a se perpetuar no poder.

Essa a lógica predominante nos escribas, fariseus e saduceus do tempo de Jesus. Ele, sim, foi a revanche de Deus perante o Templo, que se havia transformado em “covil de ladrões” (Mateus 21, 13).

A FANTASIA SE FAZ REALIDADE

O Carnaval é uma festa litúrgica, momento de transgressão da racionalidade e de efusão do espírito. Sua essência é imprimir realidade à fantasia, por mais paradoxal que pareça. No Carnaval o folião se desafoga, livra-se dos anjos e demônios que o habitam, migra para as múltiplas representações de sua personalidade condicionada, no resto do ano, pelos padrões culturais hegemônicos.

Nessa festa o folião exibe o seu avesso e desmascara convenções sociais, quebra preconceitos e ridiculariza a empáfia dos que detêm o poder. É a ocasião de extravasar sentimentos e emoções reprimidos, trazer à tona a intimidade contida, inclusive se entrelaçar com estranhos que se tornam próximos pelo simples fato de endossarem o cordão, o bloco, a escola de samba.

O ser humano não suporta ficar confinado na esfera da necessidade e cuidar apenas da administração da vida como fenômeno biológico: o trabalho em busca de salário; o aluguel; a mensalidade da escola dos filhos; as contas de luz e gás... É preciso emergir eventualmente para a esfera da gratuidade, na qual predominam o lúdico, o festivo, o litúrgico, território no qual a imaginação ou a fantasia assume supremacia sobre a razão e a moral se impõe sobre o moralismo.

O que se busca no Carnaval? O espelho invertido, trafegar na contramão e deixar Momo se refestelar na alegria. Fazer com que os monstros que protagonizam dias e meses do ano permaneçam calados, recolhidos à sua insana tristeza. Aflorar o júbilo dessa gente sofrida e devolver-lhe a autoestima. Ainda que dure apenas três ou quatro dias, sejam dados vivas e aplausos à faxineira travestida de rainha; ao encanador, de sultão; ao gari, de oráculo divino.

Festa com gosto de infinitude, tenha o Carnaval um ritmo tão alucinado que faça todos rodopiarem no carrossel da alegria embriagadora. Soem cuícas, tamborins e pandeiros, e exorcizem, de todos os foliões, essa letargia que o medo infunde naqueles que não acreditam que o presente se fará ausência no futuro promissor. Abram alas às alvíssaras!

Vamos, neste Carnaval, arrancar as roupagens convencionais que nos impelem a ser o que não somos. Desfilar despidos de qualquer sinecura, sem os adornos que, ao longo do ano, nos inserem no bloco dos cínicos. Animados pelo samba-enredo, avancemos rumo à alucinação dos loucos repletos de razão, à subversão poética da palavra desassossegada, à lógica que supera os efeitos e ousa encarar as causas até elevá-las ao cume dos carros alegóricos.

Não tergiversar nem fazer coro com os que insistem em acobertar o passado. No sambódromo, o ritmo da bateria haverá de ressuscitar todas as crianças assassinadas pelos monoglotas do discurso bélico: Ketellen, Ágatha, Kauê, Kauã, Kauan e Jenifer.

A comissão de frente ostentará imensa faixa com o verbo AMAR, para que todos os foliões desaprendam a conjugar o verbo armar, pois um simples erre é capaz de desencadear, como pandemia, sementes amargas de rancor, raiva e ruindade.

Vamos celebrar, neste Carnaval, a união de espíritos, a tolerância de convicções, o diálogo das religiões, e exaltar o direito à diferença, execrando os que insistem em desenterrar torturadores e nazistas para convidá-los à dança macabra da necrofilia ao som de tiros.

Venha um Carnaval que celebre o Brasil e os brasileiros, essa gente sofrida que, o ano todo, percorre a espinhosa passarela da vida sonegada de direitos, condenada à pobretarização, à educação sucateada, à saúde enferma, ao saneamento restrito e ao emprego loteria.

Desfilem todos ébrios de utopia e entranhados da convicção de que fantasias podem se fazer realidade, e a imaginação, poder. E ousem romper o cordão que teima em contê-los imolados na sacrílega noção de que o sofrimento merece ser naturalizado.

A vida nos foi dada para desfilar soberba na cadência da letra efe – bastam-nos, como brasileiros, fé, futebol, feijão, farinha e o fogo inapagável dos direitos de cidadania. O suficiente para nos assegurar festa e fartura.

PAPA PROPÕE NOVA ECONOMIA

De 26 a 28 de março, Assis, a cidade italiana de São Francisco, receberá mais de 2 mil economistas e empreendedores de 115 países, todos com menos de 35 anos, para participar do encontro “A economia de Francisco”, evento convocado pelo papa. O Brasil se fará representar por 30 participantes.

A agenda prevê debates sobre trabalho e cuidado; gestão e dom; finança e humanidade; agricultura e justiça; energia e pobreza; lucro e vocação; políticas para a felicidade; desigualdade social; negócios e paz; economia e mulher; empresas em transição; vida e estilos de vida; e economia solidária.

“Não há razão para haver tanta miséria. Precisamos construir novos caminhos”, declarou Francisco ao convocar o evento. Ele propõe uma economia “que faz viver e não mata, inclui e não exclui, humaniza e não desumaniza, cuida da Criação e não a depreda.” E afirma a necessidade de “corrigir os modelos de crescimento incapazes de garantir o respeito ao meio ambiente, o acolhimento da vida, o cuidado da família, a equidade social, a dignidade dos trabalhadores e os direitos das futuras gerações.”

Para assessorar o encontro, o papa convidou Jeffrey Sachs, Joseph Stiglitz, Amartya Sen, Vandana Shiva, Muhammad Yunus e Kate Raworth.

Os temas da desigualdade social e da devastação ambiental ocuparão o centro das atenções. Segundo o economista Ladislau Dowbor, no atual estágio do capitalismo “não há nenhuma razão para haver miséria no planeta. Se dividirmos os 85 trilhões de dólares que temos de PIB mundial pela população, isso equivale a 15 mil reais por mês, por família de quatro pessoas. Isso é amplamente suficiente para todos viverem de maneira digna e confortável.”

Hoje, segundo a FAO, 851 milhões de pessoas passam fome. A população mundial é de 7,6 bilhões de pessoas, e o planeta produz alimentos suficientes para 11 bilhões de bocas. Portanto, não há falta de recursos, há falta de justiça. Como não há falta de dinheiro, e sim de partilha. Os paraísos fiscais, verdadeiras cavernas de Ali Babás, guardam 20 trilhões de dólares, 200 vezes mais do que os US$ 100 bilhões que a Conferência de Paris estabeleceu para tentar deter a desastre ambiental.

No neoliberalismo, o capitalismo adquiriu nova face. Deslocou-se da produção para a especulação. As fabulosas fortunas estocadas nos bancos favorecem prioritariamente os especuladores, e não os produtores. Em suas obras, Piketty demonstra que produzir gera empregos e resulta no crescimento de bens e serviços na ordem de 2% a 2,5% ao ano. Porém, quem aplica no mercado financeiro obtém um rendimento de 7% a 9% ao ano.

O agravante é que o capital improdutivo quase não paga imposto. E a desigualdade de renda tende a crescer, pois, hoje, 1% da população mundial detém em mãos mais riqueza que os 99% restantes. A soma das riquezas de apenas 26 famílias supera a soma da riqueza de 3,8 bilhões de pessoas, metade da população mundial. E, no Brasil, apenas seis famílias acumulam mais riqueza do que 105 milhões de brasileiros – quase metade de nossa população – que se encontram na base da pirâmide social.

Segundo a revista Forbes, 206 bilionários brasileiros aumentaram suas fortunas em 230 bilhões de reais em 2019, enquanto a economia ficou praticamente estagnada. Enquanto isso, aos mais pobres cabem os R$ 30 bilhões do programa Bolsa Família.

Portanto, como assinala Dowbor, não é o Bolsa Família e a aposentadoria dos velhinhos que prejudicam a economia, e sim a acumulação de riquezas em mãos de grandes grupos privados que não produzem, são meros especuladores financeiros. Essas famílias tinham uma fortuna, em 2012, de R$ 346 bilhões. Em 2019, subiu para 1 trilhão e 206 bilhões de reais. Como em nosso país lucros e dividendos são isentos de tributação, esses bilionários não pagam impostos.

O objetivo do papa Francisco é que vigore no mundo uma economia socialmente justa, economicamente viável, ambientalmente sustentável e eticamente responsável. 

ARTE DE NUTRIR A VIDA

Sou filho da mãe. A minha, Maria Stella Libanio Christo, era mestra na arte de cozinhar. Autora de livros de culinária, pesquisou três séculos de receitas para publicar “Fogão de lenha – 300 anos de cozinha mineira”.

Ela nunca sofisticou o cardápio. Preferia o trivial: bolinho de feijão, canjiquinha com costelinha de porco, feijão tropeiro, inhame com melado, espera-marido. Assim como certas linhagens familiares se estabelecem pela audição, como na família Caymmi, no meu lado materno predomina o paladar. A mesa, ainda hoje, é o centro vital de minha família.

Minha avó materna, Maria, pilotava admiravelmente seu fogão de lenha, acolitada pela doce Bertula, cozinheira que fazia parte da família. Especialista em roscas-de-rainha e balas delícias, vovó preparava a massa das roscas em grandes tabuleiros negros, trançadas como em ninho de serpentes e, após assadas, a superfície se cobria de um brilho castanho, açucarado, como se envernizadas. Não se partia com a faca; arrancavam-se pedaços com as mãos, seguindo o contorno das tranças.

As balas delícias, brancas como neve, eram enroladas e cortadas à tesoura sobre a grande mesa de madeira da copa. Açucaradas, desmanchavam na boca. As receitas se transmitiam de mãe para filha em engordurados cadernos preenchidos com letras bordadas a mão.

Ter sido educado à mesa faz com que o paladar seja o mais apurado de meus cinco sentidos. Nunca fui de comer muito. O peso jamais me incomodou. Nem exijo comidas refinadas. Habituado à vida conventual, espartana, só em casa de amigos ou restaurantes faço da mesa uma liturgia de prazer. Ou quando cozinho.

Há tempos viajei à Suécia com um grupo de líderes sindicais. Submetidos à culinária escandinava, me confessaram sonharem com um bom bife. Os anfitriões nos levaram a um dos melhores restaurantes de Estocolmo, onde nos serviram filé mignon. O pior de toda a minha vida. A carne, dura, parecia ter passado imediatamente do freezer ao prato, após breve aquecimento. Porém, a vontade era tanta que não rejeitamos a gororoba. É melhor um bife no bucho que dois bois no pasto.

O ser humano é o único animal que manipula, tempera e cozinha o seu alimento. Comer é um ato cultural, litúrgico. Assim como falamos distintos idiomas, comemos pratos que outros povos abominam só de ouvir falar. Segundo o antropólogo Marvin Harris, no Camboja comem-se coleópteros, como besouros e joaninhas, baratas d’água, tarântulas, lagartixas e morcegos. No Vietnam, cobras e cães. Na Nova Guiné, vermes do saguzeiro, duros por fora e cremosos por dentro. Na China, miolo de macaco. No México, os escamoles são feitos com ovos de formigas. Vale lembrar o que dizia Montaigne, “cada qual denomina barbárie aquilo que não faz parte de seus costumes”.

Hoje o mundo produz mais alimentos do que consome e, no entanto, a fome atinge 820 milhões pessoas, que dispõem de menos de 1.500 calorias/dia, segundo a ONU (2019). Para uma vida saudável, o ser humano necessita ingerir 2 mil calorias/dia. No Ocidente, a média é de 2.900. Um terço da população mundial consome cerca de 2 mil. E um bilhão de pessoas têm peso acima do normal.

A ingestão de alimentos suscita, hoje, acalorados debates. Há argumentos para consumir ou não todo tipo de comida. Os vegetarianos se dividem em ovolactovegetarianos. (não consomem nenhum tipo de carne, frango, peixe ou frutos do mar), mas consomem laticínios e ovos; os lactovegetarianos; os vegetarianos estritos; e os veganos (que não consomem nada de origem animal).

Isso não isenta de riscos os ortoréxicos, obcecados por alimentos saudáveis, pois verduras contêm pesticidas; peixes, mercúrio e plásticos; açúcar causa diabetes; manteiga aumenta o colesterol etc. Ou seja, morre-se também pela boca. E no sistema econômico prevalente em nossa sociedade, os alimentos têm valor de troca, e não de uso, e o lucro reluz acima da saúde humana.

AGORICIDADE

A pós-modernidade, com suas novas tecnologias, contrai o tempo histórico e esgarça os espaços sociais, agora atomizados em tribos e grupos. Ao destronar as grandes narrativas, a globocolonização nos comprime na agoricidade – a plenitude do agora. O antes e o depois já não importam.

Desde a queda do Muro de Berlim, o sistema nos colocou viseiras que não nos deixam alternativa senão mirar o presente infindo. Impedem-nos de olhar para trás, como faz o anjo de Walter Benjamin, e contemplar, indignados, a assombrosa quantidade de vítimas da opressão e das tiranias.

Estamos condenados a memoricídio – a morte da memória. Sem ela não há história e, muito menos, historicidade. Nem identidade e, portanto, vínculo atávico a gênero, classe ou nação. As viseiras também nos impedem de olhar para os lados e reconhecer a outricidade, a presença do outro e, assim, estender as mãos e praticar a solidariedade.

Tempos nefastos e obscuros! Só nos é facultado mirar o presente, aqui e agora, sem possibilidade de vislumbrar o horizonte de expectativas. As utopias se volatilizaram. O futuro se contemporanizou na agoricidade, sem portas e janelas abertas à esperança. O tempo histórico retorna à condição de tempo cíclico. Como no relógio: os ponteiros se movem, os segundos, minutos e horas se sucedem, porém permanecem prisioneiros de um círculo hermético. Todas as marcações se repetem.

Assim, fechados em nossas bolhas virtuais, somos impregnados pelos sentimentos (pensar? Nem pensar!) de que as guerras são inevitáveis, a desigualdade social é mera entropia do progresso, e a miséria é a amarga recompensa de quem não soube aproveitar as múltiplas oportunidades que a vida oferece.

A pluralidade de ideias, o contraditório, a diversidade de opiniões, são falácias que retardam o progresso. Por que se preocupar em ter opinião própria se há quem se ocupa em pensar por mim? Mormente porque esse alguém tem o poder de ordenar o caos, uniformizar as ideias, hegemonizar as opiniões e erradicar toda discordância que semeiam os joios da confusão e do pensamento crítico.

Admita: você já não tem livre arbítrio, ainda que julgue que sim, pois a sua liberdade está, agora, submetida a algoritmização. São os algoritmos que, ao captar e sistematizar sua base de dados na internet, fazem suas escolhas, determinam suas preferências, decidem suas opções.

Você pode rir quando eles afirmam que a Terra é plana; a humanidade descende diretamente de Adão e Eva; as vacinas são nocivas; e a cultura é o caldo no qual se aquecem os embriões do marxismo, do globalismo e do ambientalismo.

Quem se importa com o seu sorriso irônico? A verdade, órfã do tempo, agora é filha do poder. O clamor indignado da ciência diante de tais assertivas é recebido com desdém. O poder tem sempre razão. E o seu único projeto de futuro é perpetuar o presente.

Agora é proibido sonhar. Ou melhor, podemos sonhar, desde que abdiquemos do desejo de que o sonho se torne realidade. Se alguém insiste, estará cercado por muitos que já se atolaram no pântano viscoso da agoricidade. E esses sempre insistem que o passado passou, inútil perscrutá-lo, e o futuro é apenas uma quimera, pois “não há nada de novo debaixo do sol”, como diz o texto bíblico, e nem haverá.

Urge caminharmos da virtualidade à realidade. Estender o fio que une essas duas pontas, de modo que não sejamos imobilizados dentro das bolhas virtuais que nos confinam no reino da distopia. Sem consciência histórica nossa identidade se iguala à da mônada, e sem nos assumir como gênero, classe e nação, nossa existência se resume a mero fenômeno biológico, sem a transcendência de uma vida capaz de emergir no processo histórico como fenômeno biográfico.

Edição 154, Janeiro 2020

NÃO BASTA CLAMAR “ELE NÃO”

Não guardo a menor saudade do ano que passou. Ano de diatribes governamentais, mentiras oficiais, renúncia à soberania nacional. Carrego, contudo, muitas perguntas. Como explicar a inércia de um povo vilipendiado a cada dia em seus direitos? Onde e quando nos roubaram a voz e a vez? Por que a nossa indignação não se traduz em protesto coletivo?

Há uma profunda ferida na triste alma do Brasil. Perdemos o senso de humor (alguém conhece uma piada nova?), e ainda que uma sátira ouse romper as trevas, ela é recebida com coquetéis Molotov e o silêncio cúmplice das autoridades.

Por que esse grito parado no ar? Parece que tudo está em suspenso: a democracia, os direitos humanos, a liberdade. Eis o teatro macabro no qual cotidianamente se desenrola a tragédia cujos atores e atrizes riem de si mesmos, enquanto a plateia, atônita, não sabe como estancar o sangue das vítimas de tantos sacrifícios ou repartiro pão para aplacar o sofrimento dos famintos.

As ruas de meu país se tornaram intransitáveis. Os carros se assemelham a feras ensandecidas, convencidas de que a estridência de suas buzinas tem o poder de abrir caminho a ferro e fogo. Nas calçadas, reduzidas a sarjetas, corpos maltrapilhos, abatidos por álcool e drogas, retratam a ontológica injustiça do sistema que nos engloba.

Ocorre que a maioria, encurvada pela desesperança, enxerga árvores sem perceber a floresta. A ideia de sistema soa demasiadamente abstrata. É dor sem causa, borboleta sem lagarta, luz sem sol. E o que ressoa aos ouvidos é a narrativa do poder, à qual se agarra como o ébrio à sua garrafa. O espectro do desemprego pobretariza multidões que aceitam menores salários e menos direitos, e neutraliza os que se uberizam ou mendigam uma ocupação.

Os que percebem que os primeiros ratos mortos são prenúncios de peste permanecem exilados em suas bolhas solipsistas, onde privatizam a indignação e o protesto. Adianta? Duvido, porque adulteraram a linguagem e baniram a verdade de seu lar, filha das núpcias indeléveis entre a inteligência e o real. Agora ela vaga pelos buracos negros da insensatez, enquanto muitos tentam se proteger enclausurados no dialeto de sua tribo virtual, sem que a tribo vizinha consiga decifrar ferocidades semânticas. Na cidade de surdos, uivam nas janelas sem que ninguém dê importância. Você fala em flores, eles entendem feras; fala em amar, eles entendem armar; fala em cultura, eles entendem censura.

Não nos resta outra saída senão deixar de ser prisioneiros virtuais, romper a bolha e dar as mãos a todos que estão dispostos a avançar sobre ruas para repletar avenidas. E não basta clamar “Ele não”. Aos protestos devem se sobrepor propostas. Eis o único modo de evitar que os fantasmas do medo se reencarnem na figura anômala do terror.

Navegar é preciso! Mas na direção contrária à de Ulisses. E deixar que a tripulação fique de ouvidos e olhos abertos para descobrir que as sereias não passam de monstros necrófilos cujos urros pretendem nos ensurdecer e cegar para não descobrirmos que a rota traçada por eles nos conduzem às profundezas do Hades.

Na segunda metade da década de 1970, assentei-me em uma favela capixaba. Fui ao norte do estado visitar o que restava da antiga Vila de Itaúnas. Nos vinte anos anteriores a ação predatória da cobiça antiambientalista havia destruído a vegetação que detinha o avanço da areia da praia sobre a vila. Todas as manhãs, as mulheres varriam a areia acumulada no vão das portas, soprada pela força do vento. No dia seguinte, mais areia e o trabalho insano de tentar contê-la. Até que as dunas cobriram por completo a vila. Restou apenas o cume da torre da igreja.

Como ingênuos habitantes de Itaúnas, temos varrido a soleira da porta sem ainda nos convencer de que somente ações mais determinantes serão capazes de conter o dilúvio.

VENENOS CONTRA OS DIREITOS HUMANOS

Os fatores ideológicos que criam, hoje, os piores venenos à prática dos direitos humanos são o preconceito e a discriminação.

Somos todos filhos da loteria biológica. Qualquer um de nós poderia ter nascido no Afeganistão, onde a população civil é bombardeada por drones made in USA; na África, onde somalis morrem de fome; no Haiti, onde predomina a miséria. Somos um sopro divino nessa breve vida que temos. Tudo tem começo, meio e fim. Todos haveremos de morrer. E, no entanto, alimentamos preconceito, discriminação, ressentimento...

Ao sair de quatro anos de prisão, muitos perguntavam se eu nutria ódio aos torturadores. Respondia que no início sim, mas logo me curei, ao descobrir, não por virtude, mas por comodismo, que o ódio destrói apenas quem odeia. O ódio é um veneno que se toma esperando que o outro morra. Graças à meditação, consegui harmonia interior.

O grande problema é que o sistema consumista e hedonista se impregna em nossa alma. Quando vejo certos programas e vídeos, penso que o movimento feminista ainda terá que lutar muito, porque exibem o escracho total da mulher. Enquanto crianças e jovens conceberem a mulher como subalterna ao homem, não haverá delegacia suficiente para coibir a violência doméstica. Como querer que o meu filho respeite a mulher se na publicidade ela faz papel de objeto, mera isca erótica para fomentar o consumismo? Isso só terá fim quando mudar essa cultura.

Faço parte do conselho do Instituto Alana (institutoalana.org.br) que defende uma reivindicação importante: proibir, como acontece em vários países capitalistas ricos (mas não se fala disso no Brasil), que qualquer criança trabalhe em publicidade ou que haja publicidade voltada ao público infantil. Muitas guloseimas adoecem nossas crianças por conterem substâncias quimicamente letais. Não é de se espantar quando ocorrem diversos tipos de câncer, obesidade precoce, distúrbios glandulares.

Cada vez que visito uma escola, faço duas perguntas: como é a aula de educação nutricional? Normalmente, há certo espanto, porque inexiste. As crianças comem na merenda a mesma porcariada que o camelô vende na calçada. Daí tantas crianças com excesso de peso, não só por ingerir muito açúcar e gordura saturada, mas também pela falta de brincar na rua e fazer exercícios. Cresce o sedentarismo. A geração da cadeira fica sentada diante do celular, da internet e da TV.

Em seguida, pergunto como é a aula de educação sexual. Os professores esclarecem, mas rebato: não, isso que vocês descrevem é aula de higiene corporal para evitar doenças sexualmente transmissíveis. Em nenhum momento usaram duas palavrinhas chaves para uma boa aula de educação sexual - amor e afeto.

Hoje, a nova geração transa antes de perguntar o nome do outro. Um rapaz que se gabava de “ficar” com tantas moças, contou à família na mesa de almoço: “Vocês podem não gostar, mas comunico que vou ser pai.” Um dos irmãos ironizou: “E tem mais ou menos ideia de quem é a mãe?” Essa é uma geração que ainda não chegou à margem socrática da ética. Por isso não levanta do assento para dar lugar aos idosos no transporte público.

A minha geração, que tinha 20 anos na década de 1960, tinha princípios éticos baseados na noção de pecado. A religiosidade nos incutia ética. Isso acabou. Hoje, quem conhece um jovem de 15 anos preocupado com pecado? Pode haver uma exceção. Mas não chegamos ainda à proposta de Sócrates, para quem a ética tem de estar baseada na razão, e não em oráculos divinos.

A ética deveria ser disciplina transversal em todas as escolas. É espantoso constatar que há escolas de medicina nas quais ela não figura como matéria prioritária. Muitos julgam que corrupção se resume a embolsar dinheiro público. Ignoram que ter como meta o enriquecimento pessoal de costas para os direitos e as necessidades da coletividade é tão grave quanto roubar. É reforçar as bases de uma sociedade fundada na competitividade, e não na solidariedade.

ROMPER A BOLHA

Não guardo a menor saudade do ano que passou. Ano de diatribes governamentais, mentiras oficiais, renúncia à soberania nacional. Carrego, contudo, muitas perguntas. Como explicar a inércia de um povo vilipendiado a cada dia em seus direitos? Onde e quando nos roubaram a voz e a vez? Por que a nossa indignação não se traduz em protesto coletivo?

Há uma profunda ferida na triste alma do Brasil. Perdemos o senso de humor (alguém conhece uma piada nova?), e ainda que uma sátira ouse romper as trevas, ela é recebida com coquetéis Molotov e o silêncio cúmplice das autoridades.

Por que esse grito parado no ar? Parece que tudo está em suspenso: a democracia, os direitos humanos, a liberdade. Eis o teatro macabro no qual cotidianamente se desenrola a tragédia cujos atores e atrizes riem de si mesmos, enquanto a plateia, atônita, não sabe como estancar o sangue das vítimas de tantos sacrifícios ou repartiro pão para aplacar o sofrimento dos famintos.

As ruas de meu país se tornaram intransitáveis. Os carros se assemelham a feras ensandecidas, convencidas de que a estridência de suas buzinas tem o poder de abrir caminho a ferro e fogo. Nas calçadas, reduzidas a sarjetas, corpos maltrapilhos, abatidos por álcool e drogas, retratam a ontológica injustiça do sistema que nos engloba.

Ocorre que a maioria, encurvada pela desesperança, enxerga árvores sem perceber a floresta. A ideia de sistema soa demasiadamente abstrata. É dor sem causa, borboleta sem lagarta, luz sem sol. E o que ressoa aos ouvidos é a narrativa do poder, à qual se agarra como o ébrio à sua garrafa. O espectro do desemprego pobretariza multidões que aceitam menores salários e menos direitos, e neutraliza os que se uberizam ou mendigam uma ocupação.

Os que percebem que os primeiros ratos mortos são prenúncios de peste permanecem exilados em suas bolhas solipsistas, onde privatizam a indignação e o protesto. Adianta? Duvido, porque adulteraram a linguagem e baniram a verdade de seu lar, filha das núpcias indeléveis entre a inteligência e o real. Agora ela vaga pelos buracos negros da insensatez, enquanto muitos tentam se proteger enclausurados no dialeto de sua tribo virtual, sem que a tribo vizinha consiga decifrar ferocidades semânticas. Na cidade de surdos, uivam nas janelas sem que ninguém dê importância. Você fala em flores, eles entendem feras; fala em amar, eles entendem armar; fala em cultura, eles entendem censura.

Não nos resta outra saída senão deixar de ser prisioneiros virtuais, romper a bolha e dar as mãos a todos que estão dispostos a avançar sobre ruas para repletar avenidas. E não basta clamar “Ele não”. Aos protestos devem se sobrepor propostas. Eis o único modo de evitar que os fantasmas do medo se reencarnem na figura anômala do terror.

Navegar é preciso! Mas na direção contrária à de Ulisses. E deixar que a tripulação fique de ouvidos e olhos abertos para descobrir que as sereias não passam de monstros necrófilos cujos urros pretendem nos ensurdecer e cegar para não descobrirmos que a rota traçada por eles nos conduzem às profundezas do Hades.

Na segunda metade da década de 1970, assentei-me em uma favela capixaba. Fui ao norte do estado visitar o que restava da antiga Vila de Itaúnas. Nos vinte anos anteriores a ação predatória da cobiça antiambientalista havia destruído a vegetação que detinha o avanço da areia da praia sobre a vila. Todas as manhãs, as mulheres varriam a areia acumulada no vão das portas, soprada pela força do vento. No dia seguinte, mais areia e o trabalho insano de tentar contê-la. Até que as dunas cobriram por completo a vila. Restou apenas o cume da torre da igreja.

Como ingênuos habitantes de Itaúnas, temos varrido a soleira da porta sem ainda nos convencer de que somente ações mais determinantes serão capazes de conter o dilúvio. 

BANHEIROS PÚBLICOS

As pessoas costumam lavar as mãos após usarem o banheiro, ou pelo menos é recomendável que o façam por uma questão de higiene para ter uma boa saúde. Mas é importante um alerta. Há três tipos de recursos para secá-las: papéis, toalhas rolantes e secadores elétricos. Os papéis são os mais higiênicos, embora alguns sejam tão finos e frágeis que se desmancham nas mãos do usuário, obrigando-o o retirar um volume maior, o que onera o fornecedor. As toalhas rolantes são recomendáveis quando ainda se tem acesso a partes que ainda não foram usadas. O problema reside nos secadores a vapor.

Pesquisa da Universidade de Connecticut (EUA), publicada na revista “Applied and Environmental Microbiology” (2018), comprovou que os secadores disseminam bactérias nocivas. Após usar o banheiro, a pessoa dá descarga com o vaso destampado. Quando o secador é ligado, a máquina suga e aquece o ar do recinto cheio de bactérias fecais e as expele de volta nas mãos do usuário.

Na pesquisa foram usadas placas para coletar o ar expelido por secadores de mão de banheiros da universidade. As placas expostas ao secador por 30 segundos tiveram uma média de 18 a 60 colônias de bactérias, o que comprova que esses equipamentos representam um risco potencial à saúde. Em vez de limpar as mãos, os secadores a jato de ar sujam ainda mais.

Idêntica investigação se fez na Universidade de Leeds (Reino Unido), no Hospital Saint-Antoine de Paris e na Universidade de Udine (Itália). Constatou-se que os secadores automáticos são verdadeiros canhões de bactérias. Até porque há quem não lave as mãos adequadamente e, ao colocá-las sob o jato de ar quente, ajudam a disseminar as bactérias residuais. Na comparação entre o secador de jato de ar e o de toalha rolante se constatou, em Udine, 100 vezes mais bactérias no secador; em Paris, 33 vezes; em Leeds, 22.

A virulenta estirpe bacteriana Staphylococcus aureus, resistente à meticilina (antibiótico), era três vezes mais predominante nos banheiros de hospitais no Reino Unido durante os períodos em que foram utilizados os secadores de ar. Bactérias resistentes à penicilina e a outros antibióticos - e, portanto, difíceis de tratar - foram encontradas com mais frequência também. As enfermidades são consequência da falta de higiene adequada.

É bom lembrar que, segundo a Lei 3884/2002, é livre e gratuito o acesso de pessoas maiores de 60 anos e portadores de deficiência física ou mental a banheiro públicos, como em rodoviárias e aeroportos. E é no mínimo falta de ética e profundo desrespeito ao ser humano uma loja impedir que idosos e portadores de deficiências tenham acesso às instalações sanitárias. Projetos de lei permitindo o acesso livre e gratuito a sanitários de estabelecimentos comerciais dormem nas gavetas do Congresso Nacional. 

MAIS DOS RICOS, MENOS DOS POBRES

O Planalto anuncia a reforma tributária. No Brasil, entre várias distorções, destaca-se o fato de o governo tributar pesadamente o consumo e a produção, quando deveria arrecadar mais da renda. Vigora hoje o imposto regressivo - quem é mais pobre e ganha menos paga, proporcionalmente, mais impostos que os mais ricos.

A tributação deveria ser progressiva – cobrar mais impostos sobre renda e patrimônio, e isentar quem ganha até R$ 4 mil. Assim, os 206 bilionários brasileiros contribuiriam mais para financiar os serviços públicos. Na tributação regressiva recolhem-se mais recursos nos impostos sobre consumo de bens (sabão, arroz, liquidificador etc.) e serviços (luz, água, lanchonete etc.). Os impostos embutidos em bens e serviços são pagos por toda a população, sem distinção de poder aquisitivo. A faxineira e o banqueiro pagam o mesmo por um quilo de batatas. Ocorre que o imposto embutido no preço da batata é proporcionalmente maior em relação à renda do pobre. Ora, como os mais pobres consomem parcela maior de sua renda, assim acabam contribuindo relativamente mais para saciar a voracidade do Leão.

Por que o Brasil, ao contrário de países desenvolvidos, adota o imposto regressivo? Além de o governo estar sob o poder dos ricos, a tributação sobre produtos e serviços é mais fácil de ser arrecadada. Se houvesse imposto progressivo, isto é, tributação sobre a renda de pessoas físicas, a arrecadação seria bem maior. E a redução dos impostos sobre bens e serviços viria barateá-los e aquecer o mercado, inclusive aumentar a geração de empregos. Essa tributação indireta, via produtos e serviços, favorece as desonerações fiscais, que sempre beneficiam os mais ricos, como a indústria automobilística.

Como sugere o economista Rodrigo de Losso, é preciso corrigir a base de cálculo sobre a qual se aplicam a alíquotas do imposto de renda. Como os salários são corrigidos anualmente, tendo em conta a inflação do ano anterior, a atual correção pela inflação faz com que pessoas que estavam isentas passem a pagar imposto, o que aumenta a arrecadação, pois quando os salários são corrigidos isso não significa que os trabalhadores passaram a ganhar mais em termos reais.

Também os dividendos (a parte do lucro da empresa repartida entre os acionistas) recebidos por pessoas físicas deveriam ser tributados, o que poderia aumentar a arrecadação em até R$ 60 bilhões. Apenas dois países não cobram este tributo: Brasil e Estônia. Hoje, as isenções de dividendos beneficiam 2,1 milhões de pessoas, dentre elas as 20,9 mil mais ricas do Brasil (0,01% da população), que pagam de imposto 1,56% de sua renda total, uma vez que boa parcela dessa renda vem de dividendos e é isenta de imposto.

Ao tributar dividendos, as empresas seriam estimuladas a reparti-los menos com seus acionistas, e a fazer mais investimentos e gerar mais empregos. Em suma, a reforma tributária precisa reduzir os impostos indiretos e aumentar o imposto de renda de pessoas jurídicas.

Segundo o economista Róber Iturriet Avila, o Brasil já teve uma tributação mais progressiva. Porém, desde a ditadura as alíquotas máximas de imposto de renda, que no passado chegaram a 65%, foram reduzidas até o patamar atual de 27,5%. Na Alemanha a alíquota chega a 45%; e na Suécia, 56,7%.

Atualmente, 51,3% dos impostos recolhidos nas três esferas de governo (federal, estadual e municipal) têm origem no consumo de bens e serviços; 25% na folha de salário; 18,1% na renda; 3,9% na propriedade; e 1,7% em demais impostos. Na Dinamarca e nos EUA, por exemplo, metade da arrecadação vem de impostos sobre a renda e lucros. No Peru, Chile e Colômbia tais tributos representam, respectivamente, 39,9%, 35,8% e 33,5% da arrecadação.

No Brasil, os impostos sobre patrimônio compõem apenas 3,9% da carga tributária. No Reino Unido, 12,3%; na Colômbia, 10,6%; e na Argentina, 9,2%. Os tributos que nosso país, quinto maior do mundo em extensão, recolhe sobre áreas rurais representam apenas 0,06% da arrecadação. Nos EUA e Canadá, 5%; no Chile, 4,5%; no Uruguai, 6%.

A tributação sobre heranças é também muito baixa no Brasil. Representa apenas 0,2% da arrecadação, e a alíquota varia por estado, mas a média é de 4%. No Reino Unido é de 40%; nos EUA, 29%; no Chile, 13%.

Até 2030 estima-se que a população brasileira será 10% maior que hoje. Como os gastos públicos estarão congelados e tendem a aumentar os gastos previdenciários, devido o envelhecimento da população, os demais serviços públicos, como saúde e educação, terão que ser reduzidos necessariamente.

O Brasil está entre os países com maiores desigualdades do mundo, por tributar proporcionalmente mais os pobres e menos os ricos. Como os dados comprovam que a elite brasileira paga menos impostos que a classe média e a população de baixa renda, é preciso que haja muita pressão para que ocorram mudanças em nosso sistema tributário e ele se torne progressivo.

ENTRAR NO ANO NOVO

Inicia-se mais um ano. Hora de relembrar, examinar, avaliar. E fazer propósitos para os próximos doze meses: comer menos, fazer exercícios, ser mais generoso, esbanjar elogios, votar nas eleições municipais em quem realmente se dedique a assegurar qualidade de vida à população... Dentro do coração latejam anseios de vida e mundo melhores. Como alcançá-los?

Quem sou eu para dar conselhos! Conheço o tamanho de minhas falhas, a dimensão de meus erros. Nem por isso deixo de partilhar com os leitores meia dúzia de opiniões que, se carecem de fundamento, ao menos aquecem o debate.

Saudade. Vocábulo português sem similar em muitos idiomas. De que temos saudades? Do amor perdido? Da infância feliz? Do parente falecido? Sim, mas sobretudo de nós mesmos.

Talvez o fim e o início do ano sejam os momentos em que mais aflora a disposição de fazer exame de consciência. Saudade de estar exilado do que realmente sou. Tem saudade de si quem anda exilado do que realmente é. Corre-se o risco de ter como epitáfio o verso de Fernando Pessoa: “Fui o que não sou”. Não quero ser o que não sou. Mas admito a pertinência das palavras do apóstolo Paulo: “Faço o que não aprovo; pois o que aprovo não faço” (Carta aos Romanos 7,15)

É hora de pagar o nosso resgate. Livrar-nos da condição de refém insatisfeito de nossos próprios vícios e incoerências. Resgatar-se é empreender árdua jornada rumo à própria interioridade. Não apenas como fez De Maistre dentro do próprio quarto. Mas ir aonde reside a verdadeira identidade – ao mais profundo de si.

Como fazê-lo? O processo psicanalítico é, nesse caso, de grande valia. Entretanto, implica recursos nem sempre ao alcance de todos. Faço, pois, singela proposta: meditar. Eis um caminho viável a todos. Bastam disposição e tempo. Vontade e método.

Lido há anos com grupos de oração. Com eles aprendo lições importantes concernentes à meditação. Não existe um único método. São tantos quantos os meditantes. Cada pessoa deve descobrir e desenvolver o método que lhe convém: sentado ou andando, de olhos fechados ou entreabertos, ao acordar ou no fim da tarde, em silêncio ou ao som de uma suave melodia, concentrado no mantra ou na respiração etc.

Um detalhe é importante: reservar tempo à meditação, assim como se faz à refeição, ao sono e ao banho. Sem criar na agenda espaço específico para isso, fica difícil.

É preciso ter disposição. Saber “perder tempo”. Livrar-se da ideia utilitarista de que “tempo é dinheiro”. Mergulhar, por um momento, no saudável espaço da ociosidade espiritual. Disposição significa disciplina. Não se medita sem se dar tempo.

Aos iniciantes recomenda-se marcar no relógio um tempo mínimo de meditação. Sugiro 20 minutos. Enquanto o despertador não soar, não mude a postura escolhida para meditar. Aos poucos, aumenta-se o tempo, na mesma proporção que se consegue esvaziar a mente e centrar a atenção no plexo solar, embebendo-o da presença inefável de Deus. Ou do Vazio.

O que fazer para melhorar o mundo? Há pequenos gestos, como observar normas de lixo seletivo, economizar água e energia, plantar árvores e defender a preservação do meio ambiente. Há gestos mais amplos, como associar-se a um esforço comunitário, seja em igreja, sindicato, clube, ONG ou iniciativa voltada à responsabilidade social. Vínculos de solidariedade se estreitam através de trabalhos voluntários, lutas partidárias, pressões sobre o poder público ou denúncias de abusos de empresas, como anúncios lesivos às crianças ou produtos com altas doses de substâncias prejudiciais à saúde, como embutidos, transgênicos e placas de amianto.

O mundo é o que dele fazemos. E nele interferimos por participação ou omissão. Não existe neutralidade. Isso vale para a nossa saúde pessoal e coletiva. A indiferença não faz a diferença.

FELIZ ANO NOVO

Feliz ano novo aos que se habituam à ousada prática da tolerância e se desdobram em atitudes altruístas que transtornam quem vive enclausurado em efêmeras bolhas de mediocridade.

Feliz ano novo a quem afoga o coração no ódio e recorta a língua em tesouras afiadas para ultrajar o próximo. Possa ele descobrir que o direito à diversidade, inerente à natureza, induz à prudência de não traduzir a diferença por divergência.

Feliz ano novo aos que, todas as manhãs, movidos pela ânsia de se impor, enchem seus copos de fel e despejam no ralo a doçura do mel. Possam se dar conta de que inoculam em seus espíritos a seiva ácida de imponente solidão.

Feliz ano novo a quem vive em simbiose com a natureza, trata-a como mãe e filha, consciente de que ela, assim como evoluiu ao longo de bilhões de séculos sem o fator humano, pode prosseguir seu caminho sem a nossa incômoda presença.

Feliz ano novo a quem vive atordoado pela própria mente, carrega o coração inquieto, e se alimenta de migalhas atiradas pelas redes digitais. Tenha coragem de, por vezes, calar o celular, abraçar a sutil exuberância do silêncio, e dessedentar-se nas águas transparentes do mistério.

Feliz ano novo aos que escutam o clamor das pedras e veneram a imponência das montanhas, prestam atenção ao rumor das águas e à sinuosidade do voo dos pássaros, sem jamais se entregar a desvario da razão exacerbada.

Feliz ano novo a quem não se deixa atemorizar pelas trovoadas que anunciam tempestades e guarda a fé de que lagartas são prenúncios de borboletas. Lembre-se sempre que os pés de Cronos nunca cessam de caminhar, e ninguém, mesmo o senhor da mentira, tem o poder de nos roubar o futuro.

Feliz ano novo aos que miram as árvores e não percebem a floresta, e insistem em exaltar a quadratura do círculo. Abram os olhos e descubram que dormir com o inimigo é trocar o calor da cama pela gélida escuridão da tumba.

Feliz ano novo aos que se embriagam de pólvora e idolatram a Pátria A(r)mada Brasil! Inebriem-se de poesia e, desarmados, migrem para o território no qual todos se chamam de irmãos e irmãs, em esfuziante fraternura.

Feliz ano novo a quem cultiva monstros em seus jardins ressecados e atropela o próximo com desrazões ensandecidas. Tenha a ventura de ser derrubado de suas pretensas certezas forradas de arrogância e blefe.

Feliz ano novo aos que exorcizam os demônios do autoritarismo e queimam em fogueiras de indignação os fantasmas de golpes. Tenham forças para se unirem; consciência para se mobilizarem; decisão para repletar nossas ruas com a bandeira de mais democracia e menos desigualdade.

Feliz ano novo aos que tramam nas sombras sabotar a soberania popular; iludir os incautos com falsas promessas; arrancar direitos como se fossem ervas daninhas que impedem o crescimento do capital. Possam se mirar no espelho do semblante dos pobres e se indagar se vale a pena esculpir pérfidas autobiografias.

Feliz ano novo a quem se empenha em realmente fazer novo o ano que se inicia e desabrochar a felicidade nas pessoas que o cercam. E aos que circunavegam em torno do próprio umbigo e prosseguirão, ano afora, conduzidos pelas marés de infelicidade.

E feliz ano novo a todos os meus leitores e leitoras. Deus os inebrie de graças.

Edição 153, Dezembro 2019

ORAR, ARAR

Há muitos modos de orar. Sedutora incompletude, orar é sempre insatisfação, algo além do mais íntimo de mim mesmo. Um gosto de sal arde por baixo da língua. Um gosto de Sol aquece o peito e deixa saudade, profunda saudade daquele ser que não sou. E, no entanto, somente sou sendo Aquele que não sou e se fez humano, e se torna em meu espírito o ser que sou e devo ser.

Orar é arar, sulcar o mais profundo de meus sentimentos e pensamentos, deixar que as sombras se esvaneçam para dar lugar à luz.

A oração é prenúncio e caminho de plenitude. Todos os orantes são ciganos em busca do Inacessível. Deus se encontra onde menos se espera. Vaga mundo. Está lá no mais ínfimo e no mais pleno. Aqui e agora.

Orar é tornar-se presente. Saudade é sempre ausência. Futuro, busca do que não se possui. Espera do que se sonha. Presente é ser o que se é sendo o que não se é, e sim o que se é naquele que É.

Jamais deve o orante projetar que transpira ou aspira santidade. Nem almejar galgar os píncaros das virtudes. Basta acolher o Transcendente como a terra se deixa fecundar pelas sementes.

Deus dorme à soleira da porta, como cão que vigia e aguarda. Fiel, jamais abandona a casa que o abriga.

A oração não pode ser medida pela extensão das palavras. Nem pela beleza litúrgica. Tampouco pela harmonia dos cânticos ou ausência de conflitos. Porém, quando comunitária, deve ser alegre e festiva.

Já no século IV recomendava-se que os coros infantis fossem acompanhados por instrumentos musicais, danças e guizos. Aos olhos da comunidade, coros dançantes evocavam bailados angélicos. No século III, Clemente de Alexandria descrevia, em sua Carta aos Gentios, uma cerimônia de iniciação cristã na qual havia tochas, cantos e danças de roda, "juntamente com os anjos". Eusébio de Cesareia (+ 339) narra como os cristãos comemoraram a vitória de Constantino dançando diante de Deus: "Com danças e hinos nas cidades e no campo, eles davam a honra primeiro ao Deus do Universo... e depois ao piedoso imperador".

Hoje, temos vergonha do corpo e dos movimentos do corpo. A racionalidade moderna transformou-nos em anjos barrocos: enormes cabeças sobre corpos disformes. Louvamos a Deus com discursos articulados. No entanto, na relação de amor entre um homem e uma mulher as palavras contam menos do que os gestos. Por que já não sabemos ser alegres na relação amorosa com Deus? Como os sisudos monges de Umberto Eco, em O Nome da Rosa, consideramos o riso um atributo demoníaco? Segundo Dante, no inferno não há esperança nem riso; no purgatório não há riso, mas resta a esperança; e no céu, a esperança já não é necessária, tudo é riso.

Felizmente, há quem ouse quebrar os limites cartesianos que nos prendem à confinada área de uma liturgia ortofônica, repetitiva, recitativa (por isso os protestantes não usam o verbo rezar, derivado de recitar, e sim orar) para alçar voo ao amplo espaço da gratuidade amorosa.

Ao deixar a prisão política, em fins de 1973, as monjas beneditinas de Belo Horizonte acolheram-me com um espetáculo de dança animado por uma noviça que viera do balé da Bahia. Elas entendiam de liturgia.

Oração é ação, inalação, respiração, conspiração, sublimação, encarnação, conversão, revolução e, sobretudo, paixão.

Oro não somente quando medito, peço, falo ou usufruo do silêncio que acarinha meu espírito. Oro não apenas no silêncio que me absorve, como vigília permanente, sono desperto, morte gestando vida. Oro, sobretudo, quando o Espírito vem em socorro de minha fraqueza, como escreveu São Paulo. “Pois não sabemos o que pedir nem como pedir; é o próprio Espírito que intercede em nosso favor, com gemidos inefáveis” (Romanos 8, 26).

A FACE INJUSTA DO BRASIL

Desde a ditadura militar (1964-1985), nunca houve tantos retrocessos nos direitos humanos no Brasil como agora, sob Bolsonaro. Somos governados por autoridades que insistem na impunidade das forças repressivas, o que representa sinal verde para a eliminação sumária de suspeitos ou mesmo de cidadãos insuspeitos, como os nove jovens assassinados pela PM de São Paulo na favela de Paraisópolis, na madrugada de 1º de dezembro. Apenas no Rio, neste ano de 2019, seis crianças foram mortas por “balas perdidas”.

Terras demarcadas são invadidas por mineradoras, madeireiras e empresas agropecuárias. Indígenas são assassinados, entre eles o líder Paulo Paulino Guajajara, no Maranhão, a 1º de novembro, por defender a reserva de seu povo da ação de madeireiros ilegais. Os casos de feminicídio se multiplicam; uma mulher é violentada a cada 4 minutos no país.

O presidente da Fundação Palmares, Sérgio Camargo, cuja nomeação está sendo contestada pela Justiça, cospe na memoria de Zumbi, herói quilombola, ao declarar que no Brasil não existe racismo, e que “a escravidão foi benéfica para seus descendentes”... No Paraná, o jornalista Aluízio Palmar é processado por denunciar torturas no quartel do 1º Batalhão de Fronteira, em Foz do Iguaçu. O país tem mais de 12 milhões de desempregados e o salário mínimo a vigorar em 2020 foi reduzido duas vezes pelo governo.

À beira de fazendas e estradas brasileiras, 80 mil famílias se encontram acampadas. O ex-presidente Lula é condenado sem provas. A mídia crítica ao governo é sabotada mediante o cancelamento de anúncios oficiais, e sofrem ameaças as empresas privadas que nela fazem publicidade de seus produtos. Alunos são incentivados a delatar professores que não rezam pela cartilha do Planalto. O mercado de armas e munições é estimulado pelo governo, que jamais condenou as milícias paramilitares que, ao arrepio da lei, disputam territórios com o narcotráfico.

Além dos direitos humanos, são violados também os direitos da natureza. A floresta amazônica é incendiada criminosamente para abrir espaço ao gado e à soja, enquanto Bolsonaro declara que as queimadas são “um problema cultural”. A Justiça atua com morosidade e leniência na punição dos responsáveis pelas tragédias resultantes do rompimento das barragens de Mariana (MG), em 2015, e Brumadinho (MG), em 2019, que ceifaram 382 vidas. O óleo derramado no litoral brasileiro não é saneado com a urgência e o rigor que a situação exige.

Segundo Marcelo Neri, da FGV, em dez anos o Brasil tirou 30 milhões de pessoas da pobreza. Porém, entre 2015 e 2017, 6,3 milhões de pessoas voltaram à miséria. Nos últimos três anos, a pobreza aumentou 33%. Segundo o IBGE, 58,4 milhões de pessoas vivem hoje abaixo da linha de pobreza, com renda mensal inferior a R$ 406. A lista de excluídos só aumenta: entre 2016 e 2017 subiu de 25,7% para 26,5 o que significa a exclusão de quase 2 milhões de pessoas. Segundo estes dados, 55 milhões de brasileiros passam por privações, dos quais 40% no Nordeste. Enquanto isso, a renda per capita dos ricos subiu 3%, e a dos pobres desceu 20%. Doenças já erradicadas retornaram e a mortalidade infantil avança sobre as famílias mais pobres.

Somos uma nação rica, muito rica. Mas sumamente injusta. O PIB brasileiro é de R$ 6,3 trilhões, suficiente para garantir R$ 30 mil per capita/ano para cada um dos 210 
milhões de habitantes. Ou R$ 10 mil por mês para cada família de 4 pessoas.

Direitos humanos não é “coisa de bandido” como alardeiam os que jamais pensam nos direitos dos pobres. É um dos mais elevados marcos jurídico e moral de nosso avanço civilizatório. Embora sejam violados sistematicamente por quem se proclama democrata e cristão, são irrevogáveis. Resta, agora, a ONU convocar os países a elaborar e assinar a Declaração Universal dos Direitos da Natureza, nossa “casa comum”, na expressão do papa Francisco.

LABIRINTOS

O rei de Creta encomendou a Dédalos um labirinto – palácio de intrincados percursos, onde as pessoas se perdiam, exceto Teseu, graças ao fio de Ariadne, que o conduziu à saída.

Poucos dias antes de morrer, a 10 de dezembro de 1830, Bolívar reagiu quando o médico recomendou-lhe se confessar: “Que significa isto? Estou assim tão doente que vens me falar de testamentos e confissões? Como poderei safar-me deste labirinto?”

No labirinto se entra e, depois, tudo é surpresa: curvas, bifurcações, retorno ao mesmo ponto, encruzilhadas, ocultamento de saídas, caos aparente, linhas distorcidas, vias que conduzem a lugar nenhum e obrigam a refazer o caminho.

Gabriel García Márquez, em “O labirinto”, tenta decifrar o que Bolívar quis dizer ao citar esta metáfora. Jorge Luís Borges se dedicou a imaginar labirintos perfeitos, lineares, retangulares e circulares, espaciais e temporais. Imaginou um labirinto de labirintos que abarcaria o passado e o futuro, e até mesmo as estrelas.

Octavio Paz, em “O labirinto da solidão”, descreve os espanhóis perdidos no labirinto de nostalgia e introspecção. De fato, a tela “Las meninas”, de Velásquez, de 1656, é o espelho do espelho do espelho...

Miró pintava labirintos para intrigar e entreter. Buñuel tinha visão labiríntica do mundo. Cervantes perdeu-se nos corredores da razão e da loucura, das luzes e das trevas, entre Erasmo e Maquiavel. Dom Quixote somos todos que nos recusamos a distinguir sonho e realidade, ilusão e fato, quimera e concretude, utopia e história. La Mancha, com seus moinhos de vento, é a nossa pátria espiritual.

Nossos heróis são figuras míticas impregnadas de dubiedade. Manipulados pelo poder, esvaziados de sua rebeldia, figuram polidamente em livros didáticos ou congelados em estátuas públicas como o avesso do que foram. Assim, os revoltosos mineiros são chamados de “inconfidentes”, que significa delatores, indignos de confiança. E os bandeirantes, hoje consagrados em monumentos, vias e rodovias, não estão longe da versão barroca do esquadrão da morte rural. Que o digam os povos indígenas.

Nós, brasileiros, nos movemos em dois fantásticos labirintos: o primeiro, a burocracia estatal e seus infindáveis papéis, solicitações e requerimentos, taxas e filas. O direito concedido como favor, e o burocrata travestido de sultão, dotado de poderes mágicos.

O segundo, o carnaval, festa em que nos escondemos atrás de máscaras, e vestimos a fantasia do que não somos. Ali nossa identidade se desintegra e se reconstitui naquele outro que se esconde nos recônditos de nossa alma – ela também labiríntica, andrógina, complexa e cordial.

O carnaval é o grande ritual no qual ofertamos a Momo, no altar da alegria e no panteão dos carros alegóricos, a nossa rebeldia travestida em festa para gáudio dos senhores do poder que, de cima de seus camarotes de luxo, estampam cervejas em suas camisetas e estouram champanhas. Felizes porque o ritual sublima o confronto direto, o povão lá em baixo disfarçado de reis e rainhas, enquanto lá em cima eles, de fato, reinam; o povão de casaca e cartola, enquanto eles mandam; o povão ridicularizando o poder, e eles, inebriados.

Além de deter o controle sobre as almas, desfrutam dionisiacamente da beleza dos corpos desnudos, no espaço em que o sangue se transmuta em suor, e a sensibilidade atinge o ápice como expressão fortuita de uma liberdade negada fora do confinamento orgiástico, prisão de todas as nossas pulsões libertárias. Ali são virtualmente rompidas as fronteiras de raça e sexo, classe e poder.

Os espelhos movediços do labirinto refletem a dádiva de Momo em poucos dias. Depois, sem fantasia, a realidade coloca cada um no devido lugar. E que ninguém tente ultrapassar os limites. Nem ouse estender o fio de Ariadne para encontrar a saída do labirinto.

PLANETA SATURADO

Segundo o doutor em demografia José Eustáquio Diniz Alves, da Escola Nacional de Ciências Estatísticas (IHU, 31/10/19; EcoDebate, 30/10/19), a humanidade já esgotou a biocapacidade da Terra. Em 1961, o mundo tinha superávit ambiental de 2,6 bilhões de hectares globais (gha). Devido ao crescimento demoeconômico, o superávit se transformou em déficit a partir da década de 1970. Em 2016, a pegada ecológica total, de 20,6 bilhões de gha, superou a biocapacidade total de 12,2 bilhões de gha. Portanto, o déficit ecológico é de 8,4 bilhões de gha. A Terra está sobrecarregada em 70%.

É equivoco pensar que a devastação ambiental resulta apenas do consumo das nações ricas. A sustentabilidade ecológica depende também da questão demográfica, agravada, sobretudo, pelas mais pobres. Segundo a Global Footprint Network, a população de alta renda era de 1,13 bilhão de habitantes em 2016, com pegada ecológica per capita de 6 gha (a pegada ecológica dos EUA é de cerca de 8 gha). É um índice elevado, porém menor do que os 8,4 bilhões do déficit global existente em 2016.

Alves assinala que, mesmo que todo o consumo dos ricos fosse zerado, o restante da população mundial (sem os ricos) continuaria com déficit ambiental de cerca de 1,6 bilhão de gha. Ou seja, se as pessoas de alta renda do mundo fossem “eliminadas num passe de mágica”, ainda assim o restante da população mundial teria uma pegada ecológica total de 13,8 bilhões de gha, para uma biocapacidade global de 12,2 bilhões de gha. O planeta, sem os ricos, continuaria tendo déficit ambiental de 13% (gasto de 1,13 planeta).

Ele propõe imaginarmos um mundo com o mesmo nível de consumo. E que, graças aos avanços tecnológicos e estilo de vida frugal, esse impacto fosse muito baixo: por exemplo, pegada ecológica de apenas 2 gha por habitante (inferior à pegada ecológica de 2,75 gha do mundo, em 2016).

Considerando que a biocapacidade total da Terra é de 12,2 bilhões de gha, haveria sustentabilidade ambiental neste cenário de pegada ecológica média de somente 2 gha? Sim, haveria superávit ambiental se a população fosse inferior a 6,1 bilhões de habitantes. Mas uma população de quase 8 bilhões de habitantes, como a que se aproxima, viveria em déficit ambiental. Mesmo que a pegada ecológica per capita mundial ficasse em 1,75 gha (como em Papua Nova Guiné, em 2016) só haveria superávit ambiental com uma população inferior a 7 bilhões de habitantes.

Portanto, a solução é reduzir o volume de empreendimentos voltados ao lucro para possibilitar a restauração da vida natural. E superar a dualidade: reduzir o consumo ou o crescimento da população? É preciso reduzir os dois, sem, no entanto, adotar políticas que resultem em extermínio dos pobres!

Segundo Theodore P. Lianos (2018), o ponto de equilíbrio ambiental estaria em uma população global de cerca de 3 bilhões de habitantes. H. Daly (Ecologies of Scale, New Left Review 109, 2018) sugere que a população deve ficar estável em nível compatível com o equilíbrio ecológico, ou seja, 3 bilhões de pessoas. Isso pode ser alcançado se cada família for estimulada a ter menos de dois filhos. O que se obtém elevando o nível de educação da população em geral.

Do ponto de vista climático, o mundo tem prazo até 2030 para reduzir pela metade as emissões de CO2, e zerar as emissões líquidas até 2050, pois o “orçamento carbono” vai se esgotar.

O decrescimento populacional é necessário para evitar o colapso ambiental e minorar os danos de uma grave crise ecológica. Porém, não é suficiente. É preciso também reduzir o consumo e mudar o estilo de vida.

Em suma, não basta culpabilizar os ricos e vitimizar os pobres. O esforço para evitar o colapso ambiental terá que ser de todos, mesmo que haja responsabilidades diferenciadas.

NOSSA AMÉRICA LATINA

A América Latina, com 638 milhões de habitantes, é hoje a região de maior desigualdade no mundo. Após uma década de redução da pobreza e da desigualdade, os índices voltam a preocupar, devido à sonegação fiscal e ao corte de programas sociais. Como as economias nacionais retrocederam, hoje 20% da população são considerados vulneráveis. E 122 milhões de pessoas que deixaram a pobreza, mas não conseguiram se incluir na classe média, podem perder o pouco que obtiveram.

Em 2002, 44,5% dos latino-americanos viviam na pobreza, dos quais 11,2% na miséria. Hoje, entre a pobreza e a miséria vivem 30% da população do Continente, ou seja, 210 milhões de pessoas.

Nenhum outro continente foi tão oprimido quanto o americano. Na Ásia predominam olhos puxados. Na África, a população negra. Aqui escasseia quem possua traços indígenas. Já no primeiro século da colonização continental calcula-se que 70 milhões de índios foram massacrados pelos colonizadores europeus.

Desde 2014 há forte queda da participação latino-americana no comércio mundial, e redução relativa do preço dos principais produtos sul-americanos. Alguns países puxam o aumento da desigualdade na região: de longe, a Venezuela, pela recessão econômica sem precedentes, e também Brasil e Argentina.

Graças a governos progressistas instalados no Continente a partir de 1998, desde 2003 mais de 72 milhões de latino-americanos deixaram a pobreza, segundo dados da Oxfam. Isso ocorreu devido ao aumento do salário mínimo e dos gastos públicos em políticas sociais, e o aprimoramento da educação fundamental.

Esse reempobrecimento da população decorre não apenas de factores econômicos, como o fim do boom das commodities, mas também de redução das políticas sociais, em especial nos países afetados por golpes parlamentares, como Honduras, Paraguai e Brasil, e que nos últimos anos foram governados por presidentes neoliberais, como Argentina e Chile.

Em matéria de educação, o Brasil ainda não atingiu o patamar médio dos países latino-americanos. Aqui os alunos do ensino médio permanecem na escola cerca de quatro horas por dia. A média continental é de seis horas.

A América Latina não encontrou ainda seu modelo de desenvolvimento sustentável. Todos os países continuam na dependência de suas exportações, ou seja, sujeitos aos interesses das nações metropolitanas e às oscilações do mercado.

O Continente não terá futuro enquanto não alcançar justiça fiscal, ou seja, o imposto progressivo (quem ganha mais, paga mais), a redução da corrupção e o aumento dos gastos em políticas sociais.

No Brasil, o retrocesso nos índices sociais aumenta com a aprovação das reformas trabalhista e previdenciária, que cortaram substancialmente direitos conquistados nas últimas sete décadas. Levantamento do Instituto de Estudos Socioeconômicos (Inesc), com base em dados do Portal do Orçamento do Senado, publicado em julho, demonstra que os cortes de verbas promovidos por Bolsonaro nos seis primeiros meses de governo pouparam setores historicamente privilegiados como Legislativo e Judiciário, e se concentraram em áreas relacionadas com a garantia de direitos humanos. Habitação, educação, defesa e direitos da cidadania foram as áreas mais atingidas pela política de cortes de recursos que, de janeiro a junho deste ano, já somam R$ 31 bilhões. Isso significa menos emprego, menos moradia, menos saúde e educação, menos pão na mesa do brasileiro.

Edição 152, Novembro 2019

ESCOLA COMPARTIDA

Eis aqui um exemplo de Escola Compartida, democrática, oposta à proposta de Escola sem Partido.

Confirmada a vitória de Bolsonaro em 29 de outubro de 2018, estudantes de Porto Alegre, alunos de uma escola pública (Aplicação) e três particulares (Marista Rosário, Bom Conselho e Santa Inês) promoveram manifestações contrárias ao eleito. Exibiram faixas com as cores LGBT+ e bradaram: “Seremos resistência!”

No Marista, outro grupo revidou vestido de verde e amarelo, empunhando a bandeira do Brasil e gritando “Mito” e “Fora PT”.

Pais bolsonaristas protestaram junto à direção das escolas e exigiram a expulsão dos manifestantes insatisfeitos com o resultado da eleição. O Marista esclareceu que a manifestação “foi espontânea e voluntária” e defendeu a liberdade de expressão: “Salientamos a importância de diálogo para a discussão sobre a promoção e a defesa dos direitos, fortalecendo a nossa missão de formar cidadãos comprometidos com a promoção da vida e da cultura de paz.”

O Aplicação emitiu comunicado “em defesa da liberdade de expressão, e considera o ambiente escolar e universitário como um lugar plural, de discussão e pensamento crítico.” Os outros dois colégios se posicionaram na mesma linha, ressaltando a isenção partidária.

O protesto dos jovens fez surgir, na capital gaúcha, a Associação Mães & Pais pela Democracia, suprapartidária, que acaba de lançar o livro “Educação com amor e liberdade – ensaios sobre maternidade, paternidade e política” (Tomo Editorial), organizado por Aline Kerber, socióloga especialista em segurança pública.

Os depoimentos reunidos são impactantes pelo modo como mães e pais, todos profissionais liberais com graduação universitária, declaram que anseiam ver seus filhos, quando adultos, livres de preconceitos e atitudes discriminatórias. Descrevem o que significa ser pai e mãe nessa conjuntura na qual ainda vigoram o racismo, o trabalho infantil, a perseguição ideológica e as tentativas de impor nas escolas o pensamento único contrário aos direitos humanos.

O movimento Mães e Pais pela Democracia reage contra os pais que, à porta das escolas e pelas redes digitais, defendem o medo, a educação acrítica, e até mesmo absurda, quando abraçam a hipótese de que “a Terra é plana”, e consideram a educação escolar mera mercadoria pela qual pagam e, portanto, se sentem no direito de tratar os professores como seus empregados.

Sublinha Diana Corso no prefácio, “como todos os ideais, a capacidade de ser democráticos se demonstra na prática: nossos filhos não se pautam pelo que dizemos, eles se formam a partir do que observam que realmente fazemos.”

Na Escola Compartida ou Compartilhada, pais, professores, alunos e funcionários se empenham na formação, não apenas de profissionais qualificados para o mercado de trabalho, mas, sobretudo, de cidadãos dotados de consciência crítica e responsabilidade social.

O Brasil precisa exorcizar, urgentemente, sua herança escravagista, que faz o patrão se julgar dono do funcionário; o doutor se considerar melhor que o analfabeto; o político mirar os eleitores como mera massa de manobra. Não há ninguém mais culto do que outro. Existem culturas distintas e socialmente complementares. O juiz é mais culto do que a cozinheira analfabeta? Faça-se a pergunta: quem pode prescindir da cultura do outro? É um engodo confundir escolaridade com cultura. Grandes atrocidades foram cometidas por pós-doutorados, como as bombas atômicas de Hiroshima e Nagasaki.

Sem base ética e liberdade de expressão, a educação se torna mero adestramento para fomentar, na expressão de La Boétie, a “servidão voluntária”, o que será agravado com essa nova medida do governo Bolsonaro de criar um canal para receber denúncias contra professores. Eis o Ministério da Deseducação.

LIBERDADE E JUSTIÇA SOCIAL

Na década de 1980, visitei com frequência países socialistas. As viagens decorreram de convites dos governos daqueles países, interessados no diálogo entre Estado e Igreja. Acreditavam que a Teologia da Libertação poderia contribuir nesse sentido.

Do que observei concluí que socialismo e capitalismo não lograram vencer a dicotomia entre justiça e liberdade. Ao socializar o acesso a bens materiais básicos e direitos elementares (alimentação, saúde, educação, trabalho, moradia e lazer), o socialismo implantara um sistema mais justo que o capitalismo.

Ainda que incapaz de evitar a desigualdade social e, portanto, estruturas injustas, o capitalismo instaurou, aparentemente, liberdades – de expressão, reunião, locomoção, crença etc. – que não se viam nos países socialistas.

Residiria o ideal um sistema capaz de reunir a justiça social predominante no socialismo com a liberdade individual vigente no capitalismo? Ora, a dicotomia é inerente ao capitalismo. A liberdade que nele predomina não condiz com os princípios de justiça. Seus pressupostos paradigmáticos – competitividade, livre iniciativa, hegemonia do mercado – são antagônicos aos princípios socialistas (e evangélicos) de solidariedade, partilha, defesa dos direitos dos pobres e da soberania da vida sobre os interesses do capital.

No capitalismo, a apropriação individual, familiar e/ou corporativa da riqueza é direito protegido por lei. E a aritmética ensina que, quando um se apropria em demasia, muitos são desapropriados. A opulência de poucos decorre da carência de muitos. A história da riqueza no capitalismo é uma sequência de guerras, saques, roubos, invasões, anexações, especulações etc.

Hoje, a riqueza da maioria das nações desenvolvidas decorre da pobreza dos países ditos emergentes. Ainda agora os parâmetros que regem a OMC são claramente favoráveis às nações metropolitanas e desfavoráveis aos países exportadores de matérias-primas e mão-de-obra barata.

Um país capitalista que agisse segundo os princípios da justiça social cometeria suicídio sistêmico; deixaria de ser capitalista. Nos anos 1980, fui questionado, ao proferir palestra em Uppsala, por que o Brasil, com tanta fartura, não conseguia erradicar a miséria, como fizera a Suécia. Perguntei-lhes: “Quantas empresas brasileiras estão instaladas na Suécia?” Fez-se prolongado silêncio. Naquela época, nenhuma empresa brasileira operava naquele país. Em seguida, indaguei: “Sabem quantas empresas suecas estão presentes no Brasil?” Todos sabiam que havia marcas suecas em quase toda a América Latina, como Volvo, Scania, Ericsson e a SKF, mas não precisamente quantas no Brasil. “Vinte e seis”, esclareci. (Hoje são mais de 100). Como falar em justiça quando um dos pratos da balança comercial é obviamente favorável ao país exportador em detrimento do importador?

Se a injustiça social é inerente ao capitalismo, poderia alguém objetar: mas não é verdade que neste sistema o que falta em justiça sobra em liberdade? Nos países capitalistas não predominam o pluripartidarismo, a democracia, o sufrágio universal, e cidadãos não manifestam com liberdade suas críticas, crenças e opiniões? Não podem viajar livremente e até mesmo escolher viver em outro país, sem precisar imitar os refugiados mediterrâneos?

De fato, nos países capitalistas a liberdade existe apenas para a minoria que dispõe de recursos. Para os demais, vigora a liberdade virtual. Como falar de liberdade de expressão de uma faxineira? É uma liberdade virtual, pois ela não dispõe de meios para exercitá-la.

Por que os votos dessa gente jamais produzem mudanças estruturais? No capitalismo, devido à abundância de ofertas e à indução publicitária ao consumo supérfluo, qualquer pessoa que disponha de renda é livre para escolher, nas gôndolas dos supermercados, entre diferentes marcas de sabonetes ou sucos. Tente-se, porém, escolher um governo disposto a reduzir os privilégios dos ricos e ampliar os direitos dos mais pobres! Tente-se alterar o sacrossanto “direito” de propriedade (baseado na sonegação desse direito à maioria). E por que Europa e EUA fecham suas fronteiras aos imigrantes dos países pobres? Onde a liberdade de locomoção?

Sem os pressupostos da justiça social, não se pode assegurar liberdade para todos.

GOLPE NA BOLÍVIA

O inaceitável aconteceu: Evo Morales derrubado por um golpe militar. Há décadas não ocorria golpe militar na América Latina.

Horas antes de ser deposto, Evo havia aceitado convocar novas eleições presidenciais. Porém, os militares preferiram rasgar a Constituição e trocar os votos pelas armas.

Estamos de volta ao passado, quando golpes militares derrubaram presidentes democraticamente eleitos – Guatemala e Paraguai (1954); Brasil (1964); Peru (1968); Uruguai e Chile (1973); Argentina (1976); República Dominicana (1965); El Salvador (1979); e Bolívia (1980).

Golpes parlamentares ocorreram recentemente em nosso Continente, como os que derrubaram os presidentes Zelaya em Honduras (2009), Lugo no Paraguai, e Dilma no Brasil (ambos em 2016).

Toda essa conjuntura comprova a fragilidade das instituições democráticas na América Latina. Nem os governos progressistas lograram fortalecer o arcabouço democrático e, em especial, o empoderamento popular, base da democracia, pela valorização dos movimentos sociais.

As recentes manifestações no Equador e no Chile demonstram que a maioria dos governos latino-americanos está mais atenta a se sujeitar aos ditames neoliberais do FMI e do Banco Mundial do que os preceitos constitucionais. Governa-se para fazer o PIB crescer, e não para aprimorar a qualidade de vida da população e, sobretudo, reduzir a desigualdade social. Os privilégios da elite empresarial e financeira são considerados mais importantes que os direitos humanos.

O deputado federal Eduardo Bolsonaro declarou em vídeo, em julho passado, que bastariam um cabo e um soldado para fechar o Supremo Tribunal Federal. E, em data recente, evocou a reedição do AI-5 como saída para a crise brasileira. Seu pai, o presidente Bolsonaro, admitiu de público, em setembro de 2018: “Não aceito resultado das eleições diferente da minha eleição”.

Nosso sistema judiciário omitiu-se diante de um candidato que, sem meias palavras, manifestou-se favorável à tortura, ao fuzilamento de opositores da ditadura, à homofobia e ao preconceito a negros, indígenas e nordestinos.

A inércia da sociedade civil pode servir de caldo de cultura às sementes autoritárias disseminadas pelo país e fecundadas pelo desmonte da cultura, os impasses da economia e o agravamento da miséria (segundo o IBGE, 13,5 milhões de brasileiros sobrevivem com renda diária inferior a R$ 8, e 52,5 milhões com renda mensal inferior a R$ 420).

O Brasil não merece jogar no lixo da história a sofrida e heroica luta daqueles que, ao longo de 21 anos (1964-1985), resistiram à ditadura, até que ela fosse banida de nossa história pelo advento da redemocratização, em 1985, e a aprovação da Constituição Cidadã, em 1988.

CORRER POR FORA

Tudo muda. E a sociedade, agora, muda em surpreendente velocidade. Outrora, as instituições tinham molduras definidas, como Estado, religião, escola e família. Isso imprimia ao cidadão sensação de solidez. O complexo institucional parecia tão bem entrelaçado que qualquer tentativa de “correr por fora” ressoava como imprevisível aventura ou desrespeito aos pilares da democracia.

Desde os tempos tribais as instituições são arcabouços coletivos ou comunitários que asseguram os parâmetros que regem a nossa convivência social. E o poder consistia em ter em mãos as rédeas institucionais e a capacidade de determinar os rumos do ordenamento jurídico e da política econômica.

Esse edifício implodiu nesse mundo unilateral hegemonizado pelo neoliberalismo. Temos agora chefes de Estado que atropelam ditames constitucionais e se comunicam com a nação, não por pronunciamentos revestidos de solenidade protocolar, mas por redes digitais, como Instagram, Twitter ou Facebook. É o caso do presidente do Brasil. Enquanto a opinião pública manifesta sua indignação diante do não esclarecimento dos assassinatos de Marielle Franco e Anderson Gomes, da escalada do desemprego, do sucateamento da assistência à saúde e dos cortes na educação, o presidente adota um discurso raivoso contra os direitos indígenas, a preservação ambiental, e profere uma anacrônica diatribe anticomunista. Quixote às avessas, o mandatário se mostra indiferente aos problemas reais da nação e abre fogo contra os moinhos de vento do “globalismo” e do “climatismo”.

Isso se repete na desinstitucionalização de outros territórios, como a mídia. Hoje, cada usuário de rede digital tem as suas próprias fontes de informação e o seu público receptor de notícias, ainda que sejam predominantemente fake news. O fato não importa, importa a versão do fato. E não se divulga para informar, e sim para desmerecer, com ofensas e ameaças, qualquer opinião contrária.

Isso impacta, pois a psicologia ensina que guardamos no peito muito mais as ofensas recebidas do que os elogios. A emoção se sobrepõe à razão. Não queremos convencer, queremos vencer. A verdade é o que afirmo, o resto é ideologia.

Esse esgarçamento das instituições é progressivo. Como se em um jogo de futebol cada jogador perdesse a noção de time e buscasse se apropriar da bola como se a vitória dependesse tão-somente de seu desempenho. Por que passar a bola ao parceiro se o mérito é de quem faz o gol? Cada um quer fazer o seu gol. A noção de cooperação se esvai. As regras do jogo democrático são burladas. A realidade é vista como um vasto videogame no qual o desafio é exterminar os adversários e vencer a guerra. Trata-se de uma conjuntura apocalíptica. Todos esses avatares estão convencidos de que travam a batalha final e haverão de se perpetuar no poder.

Como reagir a tal conjuntura? Como atuar dentro dos parâmetros democráticos se há quem, no poder, não nutre o menor respeito por eles? Aqui reside o perigo.

Se os descontentes com essa emergência autocrática, que corrói a democracia por dentro, decidirem agir com as mesmas armas, será o caos. Implodidas as regras da democracia, restam a anarquia e a Lei de Talião. Como, aliás, já transparece, de forma virtual, nas redes digitais.

Daí a importância de denunciar esse jogo desregrado e reforçar as instituições democráticas, aprimorá-las, de modo a serem, efetivamente, redes de proteção da cidadania e de ampliação da democracia. Fora disso, a tempestade se fará dilúvio.

ESQUERDA, O RESGATE DO SONHO

Pertenço à geração que teve o privilégio de fazer 20 anos nos anos 60: Revolução Cubana, Che, Beatles, Rei da Vela, manifestações estudantis, Alegria, Alegria, Gláuber Rocha, McLuhan, revista Realidade, Marcuse, Maio de 68, João XXIII, naves espaciais etc.

Era a geração dos sonhos. "Sonhar é acordar-se para dentro", lembra Mário Quintana. Estávamos permanentemente despertos. Nossas quimeras não eram acalentadas por drogas, mas por utopias.

Segundo a teoria psicanalítica, todo sonho é projeção de um desejo. Nossa geração desejava ardentemente mudar o mundo, instaurar a justiça social, derrubar a velha ordem.

O sonho quebrou-se ao tocar a realidade. A ditadura militar (1964-1985) encarou como subversivos nossos protestos e conteve, com cassetetes e tiros, nossas passeatas. Nossos congressos estudantis terminaram em prisões e, escorraçados para a clandestinidade, não nos restou alternativa senão o exílio ou a resistência. Em nossas utopias os carrascos abriram feridas, e dependuraram nossos ideais no pau-de-arara. O que era canto virou dor; o que era encanto, cadáver. A roda-viva se encheu de medo e o nosso cálice de “vinho tinto de sangue”.

Nossos paradigmas ruíram sob os escombros do Muro de Berlim. Não era o socialismo das massas nem os proletários no poder. Era o socialismo do Estado, pai e patrão, atolado no paradoxo de agigantar-se em nome do fim iminente da luta de classes. O economicismo, a falta de uma teoria do Estado e de uma sociedade civil forte e mobilizada, levaram o rio das fantasias coletivas a transbordar sobre as pontes férreas dos engenheiros do sistema. O socialismo real saciava a fome de pão, não o apetite de beleza. Partilhava bens materiais e privatizava o sonho. Todo sonho estranho à ortodoxia era visto como diversionista, ameaçador.

Astuto, o capitalismo socializa a beleza para camuflar a cruel privatização do pão. Aqui, todos são livres para falar; não para comer. Livres para transitar; não para comprar passagens. Livres para votar; não para interferir no poder. O Muro de Berlim ruiu e, ainda hoje, a poeira levantada embaça os nossos olhos.

Solteira de paradigmas, a esquerda é uma donzela perplexa que, terminada a festa, não consegue encontrar o caminho de casa. Há muitos pretendentes dispostos a acompanhá-la, mas ela teme ser conduzida ao leito de quem quer estuprá-la. Ansiosa, envereda-se pelo labirinto do eleitorarismo e se perde no jogo de espelhos que exarcebam o narcisismo de quem se maquia no reflexo das urnas. Deixa-se arrastar pela rotatividade eleitoral, onde ideais e programas são atropelados pela caça a votos e cargos. E, quanto mais se aproxima das estruturas de poder, mais se distancia dos movimentos populares.

É bem verdade que, ao assumir a administração pública, investe em programas sociais, aprimora o acesso à saúde, à educação, moradia e cesta básica. Contudo, desprovida de andaimes, não faz dessa massa um novo edifício teórico, alternativo à globocolonização neoliberal que execra a cidadania e exalta o consumismo, repudia os direitos sociais e idolatra o mercado.

A maré sobe – Equador, Chile, Argentina - mas, na praia, pescadores acostumados a selecionar os peixes têm os olhos cegos pelo reflexo do Sol. A história cessou?

Fora da esquerda, não há saída para a miséria que assola o planeta (1,3 bilhão de pessoas). A lógica do capitalismo é incompatível com a justiça social. O sistema requer acumulação; a justiça, partilha. E não há futuro para a esquerda sem ética, utopia, vínculos com os pobres e coragem de dar a vida pelo sonho.

Hoje, o socialismo já não é apenas questão ideológica ou política. É também aritmética: sem partilhar os bens da Terra e os frutos do trabalho humano, os quase 8 bilhões de passageiros dessa nave espacial chamada Terra estarão condenados, em sua maioria, à morte precoce, sem o direito de desfrutar o que a vida requer de mais essencial para ser feliz: pão, paz e prazer.

Resta, agora, a esquerda acordar para o sonho.


DEMOCRACIA E VALORES EVANGÉLICOS

N.E. Mas como podem os Opressores (= poderosos) libertar os Oprimidos, se são eles que os fabricam? Admitir e ensinar que todo o Poder vem de Deus, é paulinismo puro, o mesmo que está na base do cristianismo imperial, o papa, Poder monárquico absoluto e infalível, em matérias estruturantes, das quais decorrem todas as outras.

No tempo de Jesus, a questão da democracia já estava posta, porém apenas em uma região distante da Palestina: a Grécia. Dominada pelo Império Romano, a Palestina era governada por homens nomeados ou consentidos por Roma – o rei Herodes, os governadores Pôncio Pilatos, Herodes Antipas, Arquelau e Felipe, e o sumo sacerdote Caifás.

O que aparece de novo em Jesus é a velha questão à qual ele dá um enfoque radicalmente diferente de seus contemporâneos: o poder, já objeto de reflexão dos filósofos gregos desde Sócrates. Ao tema, Platão dedicou o livro “República” e Aristóteles a obra “Política”.

No Primeiro Testamento, o poder é mais do que dádiva divina. É a maneira de participar do poder de Javé. É através de seus profetas que Javé escolhe e legitima os poderosos. Todavia, nenhum deles, ao contrário do que ocorria no Egito e em Roma, era divinizado pelo fato de ocupar o poder. Ainda que escolhido por Deus, o poderoso permanecia falível e vulnerável ao pecado, como foram os casos de Davi e Salomão. Não se autodivinizava como os faraós egípcios e os césares romanos.

Até na Grécia, Alexandre Magno, em desespero por manter centrada em si a unidade de suas conquistas, tratou de autodivinizar-se, exigindo que seus soldados o adorassem.

Jesus imprimiu outra ótica ao poder. Para ele, não se trata de função de mando, e sim de serviço. É o que afirma em Lucas 22, 24-27: "Os reis das nações as dominam e os que as tiranizam são chamados Benfeitores. Quanto a vós, não deverá ser assim; pelo contrário, o maior dentre vós torne-se como o mais jovem, e o que governa como aquele que serve. (…) Eu, porém, estou no meio de vós como aquele que serve!" Jesus deu o exemplo ao afirmar que “o Filho do Homem não veio para ser servido, mas para servir" (Mc 10, 41-45) e ajoelhou-se para lavar os pés dos discípulos.

O que levou Jesus a inverter a ótica do poder foi a pergunta: a quem deve servir o poder em uma sociedade desigual e injusta? À libertação dos pobres, respondeu ele, à cura dos doentes, ao acolhimento dos excluídos. Este o serviço por excelência dos poderosos: libertar o oprimido, e fazer com que ele também tenha poder.

O poder é uma prerrogativa divina para o serviço do próximo e da coletividade. Tomado em si, perverte. A pessoa tende a trocar a sua identidade pessoal pela identidade funcional. O cargo que ocupa passa a ter mais importância do que a sua individualidade. Por isso, muitos se apegam ao poder, pois torna o desejável possível. Imanta o poderoso de modo a atrair veneração e inveja, submissão e aplausos.

Para que o poderoso não se deixe embriagar pelo cargo que ocupa, Jesus propõe que ele ouse submeter-se à critica de seus subalternos. Quem de nós é capaz disso? Qual o pároco que indaga de seus paroquianos o que pensam dele? Qual o dirigente de movimento popular que solicita de seus dirigidos avaliação de seu desempenho no cargo? Qual político pede a seus eleitores que o critiquem? No entanto, Jesus não temeu indagar dos discípulos o que pensavam a respeito dele e, como se não bastasse, perguntou também o que o povo pensava dele (Mt 16, 13-20).

A questão do poder é o coração da democracia. Esta significa, etimologicamente, governo do povo, para o povo. No entanto, ainda permanece, na maioria dos países, no estágio meramente representativo. Para se tornar participativa, a democracia deverá ser expressão do fortalecimento dos movimentos populares. Um poder – o do Estado ou da classe dominante – só admite limites e evita abusos na medida em que se defronta com outro poder: o do povo organizado. Essa a condição para que a democracia baseie a liberdade individual e os direitos humanos na justiça social e na equidade econômica. É falsa a democracia que concede a todos liberdade virtual e exclui a maioria de bens econômicos essenciais, como o acesso à alimentação, à saúde, à educação, à moradia, ao trabalho, à cultura e ao lazer.

BALANÇO DO SÍNODO DA AMAZÔNIA

Terminou o sínodo convocado pelo papa Francisco para debater a presença da Igreja Católica na Amazônia. Além de bispos, foram convocados teólogos, líderes indígenas e assessores de movimentos pastorais e sociais.

Na abertura do evento (6/10), o papa norteou-o em seu discurso: “Deus nos preserve da ganância dos novos colonialismos. O fogo ateado por interesses que destroem, como o que devastou recentemente a Amazônia, não é o do Evangelho. O fogo de Deus alimenta-se com a partilha, não com os lucros”.

O Documento de Trabalho preparatório causou polêmica, dentro e fora da Igreja, pelo conteúdo avançado. Como os povos indígenas não aceitam adultos solteiros, cogitou-se a possibilidade de ordenar sacerdotes indígenas casados, o que provocou forte reação dos setores conservadores. A proposta não obteve aprovação do Sínodo, embora se tenha reforçado o protagonismo indígena na atividade evangelizadora.

Bolsonaro temia que o Sínodo desacreditasse mundialmente seu governo ao denunciar as políticas anti-indigenistas e antiambientalistas adotadas pelo Planalto. Chegou a mobilizar a Abin para tentar neutralizar a pauta vaticana. Ora, não foi preciso o Sínodo denunciar como o Planalto trata os temas amazônicos. As recentes queimadas e os múltiplos discursos de nossas autoridades sobre a questão indígena, inclusive com ofensas ao cacique Raoni, foram suficientes para a opinião pública mundial se dar conta dos descasos do governo.

O papa Francisco não surpreendeu nenhum dos nove governos amazônicos. Sua única encíclica, Laudato Si (Louvado Seja – Sobre o cuidado da casa comum), divulgada em maio de 2015, que trata da questão socioambiental, é de tal contundência que levou Edgar Morin a admitir que não há, na história da ecologia, documento mais ousado do que este, pois todos focam os efeitos da devastação socioambiental, mas Francisco vai além ao denunciar as causas.

As sementes lançadas pelo Sínodo, assim como ocorreu com o Concílio Vaticano II, vão demorar a dar frutos. Mas virão. Ao dar voz, dentro do Vaticano, a indígenas, pescadores, seringueiros e outros representantes do povo amazônico, Francisco abriu um precedente que, sem dúvida, incomodou os conservadores, mas aproximou ainda mais a Igreja de suas raízes evangélicas.

O documento final do Sínodo foi monitorado pela Cúria Romana, cuja tendência era ignorar o conteúdo formulado pelos participantes repartidos em 12 grupos sinodais, e impor suas próprias ideias. Apresentado na terça, 22/10, a assembleia sinodal reagiu descontente diante de um texto que lhe pareceu abstrato, o que levou à suspensão das sessões de quarta e quinta, de modo que as contribuições dos participantes fossem incorporadas ao texto. A primeira versão ignorou o caráter holístico da realidade amazônica, onde tudo e todos estão interconectados, como frisa Francisco em sua encíclica, bem como o ministério pastoral das mulheres e a presença da Igreja na defesa dos povos e do bioma amazônicos.

Porém, os 185 delegados oficiais do Sínodo, quase todos bispos, foram unânimes quanto à devastação ecológica da Amazônia por empresas extrativas (petróleo, minérios e madeira), pecuaristas, monocultura e hidrelétricas.

Os participantes propuseram, para todas as nações, um estilo de vida sustentável, de respeito à Mãe Terra, a exemplo dos povos indígenas. “É indispensável a conversão ecológica para uma vida sóbria. Isso implica mudanças de mentalidade, estilo de vida, modos de produção, práticas de acumulação, de consumo e de desperdício”, propôs o grupo sinodal integrado pelos que falam português. Já os de idioma espanhol acrescentaram que essa conversão deve levar a Igreja a “assumir o seu papel profético e denunciar a violação dos direitos humanos das comunidades indígenas e a destruição do território amazônico.”

Agora, as deliberações do Sínodo pautam a ação da Igreja Católica, não apenas na Amazônia, mas no mundo todo.

Edição 151, outubro 2019

REFLETE-ME EM TEU OLHO

Sim, quero ver a tua vida em detalhes, minuto a minuto, e ouvir as palavras que jorram de tua boca, rir o teu riso e enraivecer-me com o teu rancor, assistir à tua paquera, ao teu namoro, ao teu gesto de carinho, à tua transa, espelhando tua beleza em minha pobreza.

Quero abandonar amizades, trabalhos, livros e lazer e, de olhos pregados em tua magia, absorver a tua arte de movimentar-se no labirinto da quimera, livre de dores e afazeres, mergulhado na fama e na fortuna.

Venerarei o teu ócio na vitrine, exibindo-se sem pudor a milhões de olhos, despido por infinitas imaginações, liberto das grades odiosas dessa existência de penúria, anônima, escrava da rotina atroz de quem jamais aprendeu a voar.

Abrirei em meu monitor a porta da tua casa mágica e, sob o peso de minhas carências, ingressarei virtualmente em tua liberdade, no teu gozo, no teu charme, como quem toca com os olhos os veneráveis ícones que nos fazem transcender da mediocridade cotidiana.

Minha fidelidade ao teu exibicionismo será a chancela que proclamará a tua vida como real e, do lado de cá, buscarei a alforria de minha indigência em tuas loucuras, em teus jogos e em tuas danças. Quero decifrar em ti a minha própria intimidade, rasgar a minha alma em tuas mãos e deixar a minha mente impregnar-se dessa ilusão que faz de mim teu pequeno irmão.

Recobrirei a minha realidade com a tua fantasia e farei de teu espetáculo o brilho de meus olhos vazados, nessa permuta hipnótica de quem busca a complacência com seus próprios limites para tentar encobrir a mesquinhez que me corrói.

Verei em tuas janelas, que se abrem para a minha casa e os meus olhos, a subversão de todos os valores, como se nos cômodos que te abrigam findassem todos os princípios, escorrendo pelo ralo tudo aquilo que em um lar soa como sinônimo de família. Ampliados pela eletrônica, meus olhos contemplarão as tuas intimidades mais ousadas. Sentirei os teus odores e beberei o teu suor, ouvirei tuas queixas e amarguras, acolherei tuas frustrações e vitórias.

Esticarei o meu olhar até os limites proibitivos do escárnio e, quem sabe, verei o teu rancor extirpar toda a agressividade que jaz em meu peito e a tua voracidade explodir em taras que haverão de suprir os meus desejos mais ignóbeis e saciar as minhas pulsões mais abjetas.

Deste lado do monitor, sentirei os teus sentimentos e comungarei as tuas emoções, vendo-te virar pelo avesso nesse zoológico de luxo, exposto à multidão como carne no açougue, a engordar no balcão do voyeurismo a fabulosa soma dos teus patrocinadores em tua ânsia de embolsar um milhão e enterrar o teu passado nessa árida mesquinhez de meu presente.

Em ti livrar-me-ei de todo ideal que não seja fazer da vida um jogo de entretenimentos, a sedução epidérmica como sucedâneo de quem não atinge as profundezas do amor, vendo-te representar a ti mesmo sob os aplausos invejosos de meu olhar sequioso, preso ao teu desempenho huit-clos.

Aprisionarei a tua vida em meu olhar, torna-me-ei teu carecereiro eletrônico, decidindo o teu presente e o teu futuro, absolvendo-te ou condenando-te, juiz supremo que se ignora refém do próprio equívoco.

Inebriado com as tuas loucuras, te elegerei objeto supremo de minha admiração, de minha cupidez, de minha inveja, deixando-me devorar pelo teu sucesso, do qual farei tema de todas as minhas conversas.

À espera de que os corvos venham devorar o meu coração, quero ser consumido e consumado por ti, arrancando de meus olhos todas as escamas, até que eu possa ver também o marido espancar a mulher, o filho estuprar a mãe, o pai assassinar a filha, enfim, o horror, o horror, o horror, pois sei que o show não pode parar e que o seu limite é não ter limites, assim como a ambição de lucros.

MARIGHELLA, 50 ANOS

O líder revolucionário brasileiro Carlos Marighella (1911-1969) foi fuzilado pela ditadura militar há 50 anos, a 4 de novembro de 1969, em São Paulo. As circunstâncias de seu assassinato, cuja culpa o governo brasileiro admitiu, oficialmente, em 1996, estão devidamente esclarecidas em três livros: “Batismo de sangue” (Rocco), de minha autoria, filmado por Helvécio Ratton; a biografia escrita por Emiliano José, “Carlos Marighella: o inimigo número um da ditadura militar” (Casa Amarela); e, em especial, a biografia assinada por Mário Magalhães, “Marighella: o guerrilheiro que incendiou o mundo” (Companhia das Letras).

Falta, agora, o público brasileiro superar as barreiras do clima de censura imposto pelo governo Bolsonaro para ter acesso ao filme de Wagner Moura sobre Marighella, baseado no livro de Magalhães.

Para os que defendem a tortura (exceto neles) e torcem o nariz para os direitos humanos, Marighella foi um terrorista que pretendia fazer do Brasil uma nova Cuba. (Quem dera. Assim toda a nossa população, como em Cuba, teria assegurada os direitos humanos elementares - alimentação, saúde e educação -, sem ônus para o orçamento familiar, e a nação se destacaria por seu alto nível cultural e senso de soberania e independência).

Epítetos demeritórios semelhantes, em vocábulos próprios da época, foram aplicados a Zumbi dos Palmares (decepado), Tiradentes (enforcado), Frei Caneca (fuzilado), Angelim (exilado), Madre Joana Angélica (assassinada), e tantos outros que deram suas vidas para livrar o Brasil de seu complexo de vira-lata perante as nações metropolitanas.

Conheci Marighella em 1967, no convento dominicano de São Paulo, quando se mostrou interessado no apoio dos frades à sua proposta revolucionária e nos presenteou com os seus poemas. Dotado de talento poético, fez em versos uma prova de física quando cursava o ensino médio, em Salvador. Ingressou na faculdade de engenharia, mas não terminou o curso. Dedicou-se a defender os direitos dos mais pobres como militante do Partido Comunista. Eleito deputado federal pela Bahia, em 1946, se viu obrigado a retornar à luta clandestina tão logo o governo Dutra cassou o PCB.

Com o advento da ditadura militar, em 1964, Marighella rompeu com o PCB e fundou a ALN (Ação Libertadora Nacional), organização revolucionária destinada a redemocratizar o Brasil e implantar o socialismo. Não viveu o suficiente para ver o fim da ditadura, em 1985. Mas deu a sua vida para que outros tivessem vida. Seus ideais continuam atuais, embora hoje sejam outros os métodos de luta. Já não se justificam as ações armadas, que interessam apenas aos fabricantes de armas e à extrema-direita. Os espaços democráticos foram duramente reconquistados com a derrubada da ditadura, em 1985, e precisam ser preservados e ampliados à luz da Constituição Cidadã de 1988.

Marighella, com quem tive diversos contatos, era um homem afável, culto, que tratava seus comandados como irmãos e irmãs mais novos. Sabia ouvir críticas e reconsiderar suas posições. Sensato, jamais sugeriu que os frades devessem participar de ações armadas. Nossas tarefas eram todas de apoio, como abrigar militantes feridos ou facilitar a saída clandestina do país daqueles que, identificados, eram arduamente perseguidos.

Como militante da utopia, Marighella é um exemplo a ser seguido por todos aqueles que se encontram, hoje, insatisfeitos com a atual conjuntura brasileira. E não ficam à espera de que as coisas aconteçam, mas assumem a proposta de Geraldo Vandré: “Quem sabe faz a hora, não espera acontecer.”

DULCE, A SANTA BAIANA

Maria Rita de Souza Brito Lopes Pontes, mais conhecida como Irmã Dulce, será canonizada pelo papa Francisco amanhã, 13 de outubro, em Roma. Ela merece, tamanha a sua dedicação aos pobres. É a primeira santa genuinamente brasileira. Madre Paulina, que viveu no sul do Brasil, nasceu na Itália. Os demais santos brasileiros são quase todos homens, muitos nascidos na Europa, como o espanhol Padre Anchieta. Exceções são o paulista Frei Galvão e os 23 mártires potiguares, entre os quais cinco mulheres.

De facto, o Brasil tem multidão de santos. Santo é todo aquele que viveu segundo as bem-aventuranças anunciadas por Jesus (Mateus 5, 1-12, e Lucas 6, 21-49), ainda que não tenha tido fé, como atesta o capítulo 25 do Evangelho de Mateus (31-46).

Temos santos vivos, à beça: mulheres abandonadas por seus maridos e que, na pobreza, criam heroicamente filhos e netos; militantes que lutam por justiça e paz; políticos que, com risco de vida, ousam defender os direitos humanos; ambientalistas que enfrentam ameaças de morte; inúmeras pessoas, de diferentes classes sociais, que fazem de suas vidas um dom para que outros tenham vida. Esses santos anônimos, que não esperam reconhecimento ou recompensa, jamais serão elevados aos altares nem terão devotos.

A baiana Irmã Dulce foi uma mulher exemplar. Nascida na classe média alta, tornou-se freira e dedicou sua vida a cuidar dos mais pobres. Pena que a Igreja não a incentivou a estudar teologia. As religiosas, em sua maioria, são, ainda hoje, relegadas a funções subalternas e papéis secundários dentro da comunidade católica. Embora consagrem suas vidas a serviço do próximo, estão impedidas de acesso ao sacerdócio.

Grave falha da Igreja, sobretudo se considerarmos que a primeira apóstola foi uma mulher, a samaritana do poço de Jacó (João 4, 1-41). E Jesus integrou ao seu grupo várias mulheres, citadas em Lucas 8,1, inclusive Madalena, a primeira testemunha de sua ressurreição. A misoginia clericalista não encontra respaldo na prática de Jesus, que escolheu para liderar sua comunidade apostólica um homem casado, Pedro, conforme atesta o Evangelho de Marcos (1, 30-31).

Espero que a devoção à Irmã Dulce não venha a reforçar o assistencialismo que tanto predominou na Igreja em tempos passados. O sistema econômico injusto produz a desigualdade e a miséria, exclui milhares de famílias do acesso aos serviços de saúde e à educação de qualidade, e os religiosos abrem orfanatos, asilos, hospitais, lactários e casas da mãe solteira para aliviar o sofrimento oriundo da exclusão social.

Felizmente o Concílio Vaticano II e a Teologia da Libertação mudaram esse enfoque ao centrar a evangelização na promoção da justiça e no combate às causas da pobreza. O papa Francisco atua na mesma direção. E inclui, entre as principais vítimas do sistema, a Mãe Natureza. Daí a importância do Sínodo da Amazônia, reunido em Roma desde o dia 6 deste mês até o próximo dia 27.

Nesses tempos de hostilidade generalizada, do presidente que ofende índios, quilombolas e médicos cubanos cuidadores dos mais pobres, ao procurador que se arma no intuito de assassinar um juiz da suprema corte; nesses tempos de redes digitais, equivocadamente chamadas de sociais, transformadas em trincheiras de injúrias e mentiras; nesses tempos de feminicídio, homofobia e racismo; nesses tempos de xenofobia, eleuterofobia (medo à liberdade) e fundamentalismos, vale sublinhar esta frase lapidar da santa Irmã Dulce: “As pessoas que espalham amor não têm tempo nem disposição para jogar pedras.”

EU, DEUS

N.E. Pois é, meu caro amigo Frei Betto. Mas o deus do cristianismo é mesmo assim. Nas suas diferentes máscaras. A pior de todas é a do Papado da Roma imperial. O Brasil de BolsoNero é, neste momento, uma das mais feias do Ocidente. Mas o mal reside mesmo no deus do próprio cristianismo, o da Bíblia-Alcorão. Outro, muito outro, é o Deus de Jesus, o de antes do cristianismo

Abusam de meu nome no Brasil. Estranho que, em um país tão cristão, outrora conhecido como Terra de Santa Cruz, muitos parecem ignorar o Decálogo que entreguei às mãos de Moisés, e cujo segundo mandamento é “Não tomar em vão” meu Santo Nome.

Há políticos que não fazem outra coisa. Evocam-me sem o menor escrúpulo e a qualquer pretexto. Até na ONU, instituição laica e plural, meu Nome foi citado na finalização de um discurso presidencial repleto de falácias e eivado de ódios e discriminações.

Confesso que me sinto incomodado desde que me usaram como jargão na campanha eleitoral: “O Brasil acima de tudo; Deus acima de todos”. Ora, o Brasil não é um disco voador que paira acima de tudo. O Brasil é toda essa gente que ocupa esse extenso e rico território. Essa gente sofrida, desempregada, que é alvo de operações policiais que disparam a esmo, assassinando crianças como Ágatha Félix que, agora, brinca com os anjos no Céu. Esses ricos que, nos últimos sete anos, tiveram 8,5% de aumento na renda, e os pobres que, no mesmo período, perderam 14% da renda.

E Eu, é bom frisar, não estou acima de todos. Estou entre vocês, povo brasileiro, e dentro de tudo: na árvore derrubada pela motosserra na Amazônia; na água do rio envenenado pelo mercúrio dos garimpeiros; no coração dos torcedores que lotam os estádios de futebol; e também no dos policiais emboscados por bandidos.

Nada, neste Universo, prescinde de minha amorosa presença. E, pelo amor de D..., ou melhor, por favor (pois não quero parecer cabotino), não confundam o que digo com panteísmo. Panteísta crê que tudo é deus. Apoiem, sim, os panenteístas, que acreditam, com razão, que Eu me faço presente em tudo que criei.

Devo frisar, porém, que não criei a desigualdade social, a devastação ambiental, a misoginia, a homofobia, o preconceito étnico etc. Todas essas aberrações não resultam de minha divina vontade. São frutos amargos da injustiça humana.

Por favor, não atribuam a mim males e crimes que vocês provocam. Dei-lhes liberdade porque sou, essencialmente, um Ser amoroso. E só há liberdade onde reina o amor. Se tivesse criado todas as pessoas como autômatos programados a fazer sempre o bem, eu me negaria. Isso seria o mundo de um tirano, e não de um Deus cujo único sinônimo é Amor. Como ser amoroso, só poderia tê-los criado com livre arbítrio. Tão livres que podem até me dar as costas ou negar a minha existência. E, ainda assim, jamais deixarei de amá-los. Como bem afirmou o papa João Paulo I, sou mais Mãe do que Pai.

Rogo aos que me são fiéis não admitir que tomem o meu Santo Nome em vão. Denunciem e combatam os que me evocam para extorquir os pobres, aqueles que pregam ser Jesus o caminho, mas insistem em cobrar o pedágio... Rejeitem os que ostentam o meu Nome para ampliar seus negócios, impor suas leis injustas e oprimir o povo. Façam o que fez meu Filho. Não se aliou aos fariseus hipócritas. Não bajulou os abastados, mas despediu-os com as mãos vazias. E deu a sua vida para que “todos tenham vida e vida em abundância”, como registrou João no Evangelho.

Dito isso, retorno à minha comunhão trinitária. E, reitero, estou presente em todas as coisas criadas. Basta que vocês tenham coração para amar, mãos para partilhar, pernas para prosseguir no rumo da esperança, e olhos para ver luz mesmo onde parece reinar trevas.

AMAZÔNIA AMEAÇADA

Nos últimos 50 anos, a Amazônia brasileira perdeu área equivalente aos estados de Minas Gerais e Paraná. A floresta já sofreu desmatamento de 17% de sua extensão. Segundo a ONU, o limite são 20%. Além disso, o equilíbrio ecológico entra em colapso e a floresta fica condenada a se transformar em savana estéril.

Cortar uma árvore de 20 metros de altura com máquinas automotrizes demanda apenas um minuto. Reflorestar, leva anos, e sem resgate da qualidade originária. As florestas primárias absorvem muito mais monóxido de carbono que as secundárias, as replantadas.

Nove países englobam a Amazônia: Brasil, Guiana Francesa, Suriname, Guiana, Venezuela, Colômbia, Equador, Peru e Bolívia. Mas 60% de sua área ficam dentro do Brasil. A Amazônia representa 40% das florestas tropicais do mundo e abriga 15% da biodiversidade do planeta.

O brasileiro não demonstra apreço pela Amazônia. Se possui recursos, prefere conhecer santuários ecológicos do exterior. Nem sequer o Brasil explora a potencialidade turística da região, como faz a Costa Rica, a ponto de o turismo ecológico neste país superar, como fator de aumento do PIB, a exportação de frutas e café. O que nossas escolas ensinam a respeito da história dessa floresta gigantesca e dos povos indígenas que a habitam e conservam?

Trata-se também de uma floresta pluvial, pois gera metade da chuva que assegura a sua conservação. A umidade que sopra do Atlântico na direção dos Andes produz precipitações retidas pelas árvores, que a reciclam, já que a umidade sobe da raiz à copa para, em seguida, cair como chuva. Esse resfriamento alivia o aquecimento global.

Segundo o System of Environmental Economic Accounting (SEEA), órgão da ONU que analisa a relação da economia com o meio ambiente, o desmatamento nos países tropicais gera um prejuízo anual de US$ 5 trilhões, valor superior ao PIB do Japão e vinte vezes o faturamento da Amazon. Em resumo, os gastos com os efeitos da destruição ambiental são muito superiores ao que se exige para preservar a biodiversidade.

A natureza viveu bilhões de anos sem a incômoda presença do ser humano. E pode voltar a fazê-lo em breve. A menos que os responsáveis pelas decisões passem a entender a gravidade da situação. A região abriga cerca de 2,5 milhões de espécies de insetos, e mais de 2 mil aves e mamíferos. Até hoje foram classificadas cientificamente na região pelo menos 40 mil espécies de plantas, 3 mil de peixes, 1.294 aves, 427 mamíferos, 428 anfíbios e 378 répteis. Um de cada cinco pássaros no mundo vive nas florestas tropicais da Amazônia. Os cientistas já descreveram entre 96.660 e 128.843 espécies de invertebrados só no Brasil.

A diversidade de espécies de plantas é a mais rica da Terra, sendo que alguns especialistas estimam que um quilômetro quadrado amazônico pode conter mais de mil tipos de árvores. De acordo com um estudo de 2001, um quarto de quilômetro quadrado de floresta equatoriana suporta mais de 1.100 espécies de árvores. Um quilômetro quadrado de floresta amazônica pode conter cerca de 90.790 toneladas métricas de plantas vivas. Até o momento, cerca de 438 mil espécies de plantas de interesse econômico e social têm sido registradas na região, e muitas mais ainda a serem descobertas ou catalogadas.

O Sínodo da Amazônia, convocado pelo papa Francisco, e que se realizará em Roma de 6 a 27 de outubro, servirá para alertar o mundo quanto à urgência de se pôr fim às queimadas e ao desmatamento da floresta amazônica, bem como fortalecer a defesa dos direitos de seus habitantes, principalmente os povos indígenas.

COLONIALIDADE

Acaso a modernidade teve início em 1492, quando Colombo aportou em nosso continente? Por que qualificar de modernidade a expansão mercantilista das frotas marítimas de Espanha, Portugal, Inglaterra, França e Holanda?

Melhor qualificá-la de colonialidade. As investidas europeias no Oriente, na África e no Novo Mundo se caracterizaram por pilhagem de bens naturais, como ouro, prata e especiarias, e exploração do trabalho escravo de indígenas e negros.

Como assinala Dussel (1979), o mito da modernidade como progresso e luzes contribuiu para a “justificação de uma práxis irracional de violência”. Os povos dominados foram subjugados. A empresa colonial se revestia do manto da religião para legitimar a invasão para “o bem da salvação das almas”.

A cultura passa, então, a ter como eixo o eurocentrismo. Invasão é denominada “descobrimento”; subjugação dos “bárbaros”, processo civilizatório; saque e genocídio, sacrifícios inevitáveis para o avanço do progresso.

O eurocentrismo ainda hoje é estampado em mapas-múndi, cujo centro é ocupado pela Europa. Todos os territórios em volta são considerados periferia, na qual os reinos europeus se sentiram no direito de impor uma economia mercantilista-capitalista; uma sociedade racista; uma cultura excludente e patriarcal.

A colonialidade é “a face oculta da modernidade” (Mignolo 2007). Empreende-se, portanto, um processo acelerado de “naturalização”. Primeiro, da desigualdade entre colonizador e colonizado. Inventa-se o conceito de raça, que carece de base cientifica por não se sustentar na estrutura biológica da espécie humana. Assim, os colonizadores se denominaram “brancos” em contraponto “natural” aos “negros, amarelos e vermelhos”, considerados “de cor”. Mesmo entre os brancos havia a distinção de nobres possuidores de “sangue azul”, que ao evitarem a exposição ao sol ressaltavam-se as veias azuladas sob a pele alva.

As supostas diferenças biológicas, portanto, justificariam a noção de raça e a superioridade dos “civilizados” sobre os “incivilizados”. Ainda hoje vigora na visão de muitos civis e policiais que negro é sempre suspeito, e moradores de favela e bairros da periferia são potencialmente perigosos. A territorialidade delimita e “naturaliza” a desigualdade social, e estabelece os limites entre os “cidadãos de bem” e os que ameaçam a ordem pública...

Quem assimila essa ideologia imposta pelo colonizador ignora, ou prefere ignorar, que o progresso da Europa Ocidental e dos EUA resulta da exploração secular da “periferia” do mundo. Basta pesquisar a história das nações africanas; do Japão e da China (a guerra do ópio); da América Latina e do Caribe. Basta conferir o destino de nossas riquezas naturais e identificar, em nossas cidades, a logomarca das grandes empresas transnacionais que dominam as nossas economias, todas sediadas nos EUA ou na Europa Ocidental.

Como nos acusar de inferioridade cultural? Há nos atuais países metropolitanos algo parecido à Muralha da China e as pirâmides do Egito? Onde foram escritos a Bíblia e o Alcorão? Como os habitantes do Novo Mundo eram incultos se os maias utilizavam o zero muito antes dos europeus e faziam previsões meteorológicas precisas? Cortés, ao invadir o México em 1519, encontrou uma cidade de 500 mil habitantes edificada por cima de um lago pantanoso. E seria incivilidade nossos indígenas usarem o ouro como mero adorno e não fator de cobiça e guerras? Quem inventou o papel, o sismógrafo, a bússola, o álcool e a pólvora? Os chineses.

Portanto, convém rever nossos conceitos de progresso, desenvolvimento e civilização. E nos livrar dessa cultura que nos torna cego ao entorno e nos induz a idolatrar aqueles que ainda hoje nos espoliam e infundem o complexo de vira-latas.

Edição 150, Setembro 2019

SACRALIDADE DO SER HUMANO

Nem todos devem ser políticos profissionais. É preciso vocação e, de preferência, decência também. Mas em qualquer atividade que se exerça, faz-se política, toma-se posição nesse mundo desigual.

Cada um de nós é chamado a se posicionar. Não existe neutralidade. Em tudo que fazemos contribuímos para manter ou transformar a realidade; dominar ou mudar; oprimir ou libertar.

Quando me perguntam por que me envolvo em política, por via pastoral ou de movimentos sociais (nunca me filiei a partido político), respondo: porque sou discípulo de um prisioneiro político. Que eu saiba, Jesus não morreu nem de hepatite na cama, nem de desastre de camelo em uma rua de Jerusalém. Morreu como muitas vítimas da ditadura militar brasileira - preso, torturado, julgado por dois poderes políticos e condenado à pena de morte dos romanos, a cruz.

A pergunta é outra: por que Jesus foi condenado, se era tão espiritual e santo? Que tipo de fé temos hoje, nós cristãos, que não questiona essa desordem estabelecida que produz aberrações como o assassinato da menina Ágatha? Jesus foi condenado por apregoar ser preciso buscar um “outro mundo possível”.

Dentro do reino de César, Jesus anunciava o Reino de Deus! A Igreja deslocou-o para a vida após a morte. Mas, para ele, o Reino de Deus fica no futuro histórico. Tanto que oramos “Venha a nós o vosso Reino”, e não “Leve-nos ao vosso Reino” . Anunciar um outro reino dentro do reino de César era alta subversão.

Jesus não veio fundar uma Igreja ou uma religião. Veio nos trazer as sementes de um novo projeto civilizatório, baseado na justiça e no amor. Basta ler as Bem-aventuranças e O sermão da montanha - um mundo de partilha dos bens da Terra e dos frutos do trabalho humano.

É interessante observar que, nos quatro evangelhos, a expressão Reino de Deus aparece, na boca de Jesus, 122 vezes. E a palavra Igreja apenas duas vezes.

A Igreja é a comunidade dos discípulos de Jesus. E deveria ser, como ele foi, semente do novo projeto civilizatório, isenta de fundamentalismo religioso. É bom lembrar que Jesus curou o servo do centurião, que era pagão, e a mulher cananeia, que não era judia e pertencia a um povo politeísta.

Disse a cada um deles: “A tua fé te salvou”. Um fundamentalista diria: “Primeiro, acredite no que prego. Depois, se torne meu seguidor e, então, lhe farei o bem.”

Em nossa sociedade são merecedores de direitos aqueles que gozam de certo padrão de vida. Para Jesus, ao contrário, a pessoa pode ser cega, coxa, hanseniana, excluída. Ela é templo vivo de Deus! Eis a radical defesa dos direitos humanos.

O simples fato de uma pessoa existir já a torna dotada de ontológica sacralidade. Isso é extremamente radical. O marxismo europeu, por exemplo, graças ao qual a modernidade avançou em termos de inclusão social, nunca defendeu os direitos indígenas, como fez o marxista peruano Mariátegui. Até entendemos a razão, pois foi criado na Europa, onde havia poucos índios. Mas também nunca defendeu o protagonismo dos moradores de rua, chamado lumpemproletariado. Ou seja, eles seriam os beneficiários de um futuro projeto socialista ou comunista, mas não protagonistas. Para Jesus, todos são chamados a serem protagonistas.

Portanto, abraçar os direitos humanos é aceitar que cada pessoa é dotada de radical dignidade. Em linguagem teológica, sacralidade.

À luz dos direitos humanos há que indagar: o que nossos políticos propõem é para aumentar o lucro de uma minoria ou defender os direitos de todos? É para favorecer um pequeno segmento ou para que toda a nação seja beneficiada?

Não sejamos ingênuos. Direitos humanos são incompatíveis com um sistema que defende, como principal direito, a acumulação privada da riqueza.

REENCANTAR O MUNDO

Illya Prigogine e Isabelle Stengers em “A nova aliança” (Brasília, UNB, 1997) acentuam que a ciência, e a física em particular, desencantaram o mundo. O Universo mítico, outrora alvo de contemplação, se tornou um objeto desvendável. O que antes brilhava aos nossos olhos é, agora, esmiuçado por nossa razão e por nossas mãos (e pés, ao pisar na lua).

Comemos a maçã do Paraíso. A árvore do conhecimento foi apoderada por nós que, livres das amarras divinas, violamos o Jardim do Éden. Agora supomos saber o que é o bem e o mal, e não raramente confundimos um com o outro.

O pecado original não foi comer o fruto proibido. Proibido era querer possuir a árvore e se julgar dono de seus frutos. O desvio originário consistiu em apropriar-se do que era comum. Apropriar-se da liberdade para si e ignorar os demais.

Este desencanto, contudo, não esvaziou o mundo de sua aura divina. As religiões e os mitos crescem mundo afora. Afirmam-se como forças políticas. Querem religar o que a ciência desligou. E, muitas vezes, extrapolam suas esferas e negam avanços da ciência, como a voga criacionista nos EUA e a tese, redondamente equivocada, de que a Terra é plana, também em moda no Brasil. Aqui, a homofobia transparece na censura à diversidade de gêneros sexuais, enquanto esdrúxulas concepções regem a nossa política exterior.

O mundo só pode ser reencantado pelo olhar mítico, sem contudo menosprezar a ciência. A análise fria da ciência pode desvendá-lo, jamais explicá-lo. Sabemos que o cérebro humano pesa 1,5kg e possui 86 bilhões de neurônios, cada um deles com 10 mil conexões. Mas por que emerge dessa massa encefálica sentimentos tão controversos quanto a alegria e a raiva, e percepção do eu? O que havia antes da explosão do Big Bang?

Nada mais enfadonho do que procurar respostas para todos os mistérios da natureza. A ciência ensina que não há cor fora de mim. A deslumbrante policromia que vejo ao contemplar o nascer e o pôr do sol é apenas efeito da radiação eletromagnética cujas combinações de comprimentos de onda se transformam em cores dentro de minha cabeça. Ainda assim, prefiro acreditar na magia do arco-íris e quem sabe me atreva a buscar o pote de ouro em seus pés...

As ciências respondem aos porquês. Já as religiões não perguntam por que o dia se alterna entre claridade e escuridão, e sim qual a razão de atravessarmos esse breve período de tempo chamado vida. O mito nada indaga, apenas contempla. E, na dúvida, ele mesmo encontra a resposta. O mito é autoexplicativo, extrapola a razão e confunde as verdades de fé. Por isso todo amor é mítico. E nada reencanta uma vida ou o mundo mais do que o amor.

Pode ser que, no futuro, os algoritmos façam os computadores substituírem prefeitos, governadores e presidentes, com mais eficiência e corrupção zero. Contudo, poderão os computadores amar? Bater papo à mesa de refeição? Orar pela manhã?

Com certeza a resposta é negativa. Mas por que os humanos devem se gabar de sua inteligência se dispomos de tecnologias tão avançadas e, no entanto, para a maioria de nós a vida é, ainda hoje, sofrimento, incerteza e angústia?

FACE AUTORITÁRIA DO NEOLIBERALISMO

       Por paradoxal que pareça, a lei se tornou ferramenta do neoliberalismo para enfraquecer a democracia. O Estado de Direito vem sendo demolido por dentro, de modo a servir apenas aos interesses da elite.

       O tão esperado abalo do neoliberalismo, a partir da crise financeira de 2008, não ocorreu. Ao contrário, ele se fortalece com novas estratégias.

       O neoliberalismo é mais do que imposição de políticas de austeridade, privatização do patrimônio público, ditadura dos mercados financeiros. Ele implica uma racionalidade de abrangência mundial, que vai da economia de mercado à subjetividade das pessoas. Anula a soberania dos países aos submetê-los aos ditames do FMI, do Banco Mundial e da União Europeia. Demarca a linha divisória entre a parcela da humanidade com acesso ao consumo e a imensa multidão excluída até mesmo de direitos elementares, como alimentação, saúde e educação.

       O neoliberalismo já não necessita fazer concessões ao Estado de bem-estar social, pois desapareceu a ameaça comunista. Já não precisa posar de democrata. Agora, a imposição de um único modelo econômico deve se coadunar com a imposição de um único modelo político, o autoritário, de modo a favorecer a acumulação do capital e conter a insatisfação de amplos setores da população sem direito aos bens essenciais à vida digna.

       Os estrategistas do neoliberalismo sabem que suas políticas causam exclusão e sofrimento. Sabem também que é preciso conter a insatisfação dos excluídos, de modo a evitar a explosão que resultaria em caos político ou revolução. Assim, canalizam a miséria e a pobreza para o alívio virtual da religião, tornando-a, de fato, “ópio do povo”, capaz de aplacar a revolta e incutir espírito de sacrifício. Concentram o ressentimento e a descrença na democracia, e  transformam em bodes expiatórios partidos e políticos críticos ao neoliberalismo. Fazem convergir a baixa autoestima e a atual tendência à adoção de pautas identitárias para um amplo sentimento de identidade nacional marcado pela xenofobia.

       Em suma, encobrem as causas dos males sociais, e recobrem seus efeitos com ideologias que, ao tornar opacas as causas, acirram os ânimos diante dos efeitos. Por isso, o neoliberalismo mostra agora a sua face mais autoritária, com a construção de muros que separam nações e etnias; a supremacia do poder executivo sobre o legislativo e o judiciário; a desinformação via redes digitais; o culto à pátria; e a ofensiva descarada contra os direitos humanos.

       Por outro lado, reduz impostos para os mais ricos, precariza as relações de trabalho, suprime políticas sociais, corta investimentos na educação, acelera as privatizações e considera estorvo aos interesses do capital a proteção socioambiental.

       Henry Giroux qualifica de “fascismo neoliberal” essa formação política caracterizada por ortodoxia econômica, militarismo, desprezo por instituições e leis, ódio aos artistas e intelectuais, repulsa ao estrangeiro pobre, desconsideração pelos direitos e pela dignidade das pessoas, e violência para com os adversários.

       As reformas propostas pelo novo neoliberalismo, como, no Brasil, a trabalhista e a previdenciária, tendem a extinguir as redes de proteção social: sindicatos, ONGs, movimentos populares, e instituições corporativas (OAB, ABI, CNBB etc.) de defesa dos princípios democráticos.

       Como reagem os vencidos? Articulam as forças de oposição e se posicionam em favor de democracia? Antes fosse. De fato, os vencidos são como moscas presas no globo da lâmpada, cegos pelos encantos da sociedade de consumo. Não conseguem encontrar a saída e sofrem por estarem ali presos. Reagem ao se abster nas eleições, refugiar-se em suas bolhas digitais, dar apoio a quem vocifera em tom bélico. Toda raiva é a violência introjetada na alma.

       Resta aos críticos saírem de suas redomas acadêmicas para ajudar os vencidos a descobrir que possuem uma força capaz de virar o jogo e instaurar a democracia.

COMO OS POBRES SUSTENTAM OS RICOS

Em menos de 24 horas a França arrecadou 2 bilhões de euros para reconstrução da Catedral de Notre Dame, na qual fiéis, sacerdotes, bispos e cardeais manifestam a fé de que todos os seres humanos são filhos de Deus e merecem viver com dignidade. A mesma França que desde 1957, ou seja, após 62 anos de independência de suas colônias na África, cobra delas 85% de suas reservas nacionais.

São 15 países que pagam um salvo-conduto à França todo ano. Alguns são marcados por destruição, guerras e fome, como Benin, Burkina Faso, Costa do Marfim, Mali, Níger, Senegal, Togo, Camarões, República Centro Africana, Chade, Congo, República da Guiné e Gabão. Destes, seis figuram entre os mais miseráveis do mundo.

Seus governos são obrigados a colocar 60% das suas reservas no Banco da França, e só podem usar 15% ao ano. Caso retirem mais do que isso, devem pagar um ágio de 65% do valor. Ou seja, são penalizados por utilizarem o próprio dinheiro.

Nas ex-colônias africanas, toda descoberta mineral pertence à França. Todo equipamento e treinamento militares têm de ser franceses, o que mostra quem lucra com as guerras locais. Já morreram mais de 350 milhões de inocentes por causas de guerras causadas pela pobreza naqueles países.

Até 2004, o Haiti também tinha de pagar essa mesma taxa à França. Em 1825, quando a independência do Haiti foi reconhecida, o então presidente haitiano, Jean-Pierre Boyer, assinou um acordo com o rei francês Carlos X, pelo qual a importação de produtos da nação caribenha teriam redução de 50% nas tarifas alfandegárias, e o Haiti pagaria à França, em cinco parcelas, uma indenização no valor de 150 milhões de francos, equivalentes hoje a US$ 21 milhões.

Essa quantia seria para compensar os franceses por haverem perdido imóveis, terras e escravos. Caso o governo haitiano não assinasse o tratado, o país continuaria isolado diplomaticamente e ficaria cercado por uma frota de navios de guerra.

Aquele valor equivalia às receitas anuais do governo haitiano multiplicadas por dez. Portanto, o Haiti teve que recorrer a um empréstimo para pagar a primeira parcela. Tomado de um banco francês... Assim começou formalmente o que se conhece como a “dívida da independência”. O banco francês emprestou 30 milhões de francos, valor da primeira parcela, da qual deduziu 6 milhões de francos em comissões bancárias.

Com o restante 24 milhões de francos, o Haiti começou a pagar as indenizações. Ou seja, o dinheiro passou direto dos cofres de um banco francês para os cofres do governo francês. E o Haiti ficou devendo 30 milhões de francos ao banco francês, e mais 6 milhões de francos ao governo da França referentes ao valor que faltou da primeira parcela.

Estabeleceu-se uma espiral absurda de dívidas para pagar uma indenização que continuou alta demais para os cofres do país caribenho, mesmo quando foi reduzida à metade, em 1830. Mais tarde, em 1844, o lado leste da ilha se declararia definitivamente independente do oeste, formando a República Dominicana.

 o Haiti teve que pedir grandes empréstimos a bancos americanos, franceses e alemães, com taxas de juros exorbitantes que comprometiam a maior parte das receitas nacionais.

Finalmente, em 1947, o Haiti terminou de compensar os franceses. Foram 122 anos pagando dívidas desde a independência. E restou ao país a triste realidade de também figurar entre os 20 países mais miseráveis do mundo.

Notre Dame será reerguida, sem dúvida. E ali a glória de Deus será exaltada. Mas, e aqueles que foram criados à Sua imagem e semelhança, a população das ex-colônias?

AMAZÔNIA, O ROSTO ECOLÓGICO DE DEUS

O Sínodo da Amazônia, convocado pelo papa Francisco para outubro, terá lugar em Roma, numa decisão equivocada do Vaticano, pois fora agendado, de início, para ocorrer no coração da selva. Ali se debaterá mais do que a presença da Igreja Católica naquela região interconectada e cada vez mais violenta e desigual.

O bioma amazônico engloba nove países e ocupa mais de 7 milhões de km² habitados por 34 milhões de pessoas, das quais 3 milhões são indígenas, que dominam 340 diferentes idiomas. Ali, cada metro quadrado tem mais diversidade do que qualquer outro lugar do planeta. O bioma possui três tipos de rios: os de superfície; o subterrâneo, conhecido como “alter do chão”; e os “rios voadores”, assim chamados por acumular vapor na atmosfera e distribui-lo em forma de chuva em toda a América do Sul.

A Amazônia exerce forte relevância no ciclo do carbono, ao absorvê-lo em bilhões de árvores e impedir sua liberação na atmosfera em forma de gás. Reduz, assim, o aquecimento da Terra.

As quatro dádivas da região são: povos que sabem viver da selva e na selva, sem ameaçá-la; o ciclo das águas e do carbono; a biodiversidade; e a regulação do clima.

Segundo o papa Francisco, “os povos amazônicos originários nunca estiveram tão ameaçados em seus territórios como agora”. Em sua sabedoria ancestral, eles nos ensinam a se relacionar com a natureza, os demais seres humanos e Deus. No entanto, agora são vítimas de assassinatos, expulsões de suas terras, ação de grileiros e mineradoras, desmatamento, e proibição de se reunir e organizar.

A Igreja tem consciência de que, se agora defende a causa indígena, pela qual há tantos mártires, por outro lado ainda não se libertou da influência do projeto colonizador que vigorou no passado. O Sínodo busca justamente implantar uma Igreja pós-colonial e solidária, com rosto amazônico e indígena. Para a Igreja, a região é muito mais do que um lugar geográfico; é também um lugar teológico, no qual transparece a face de Deus criador.

Não há como manter a floresta de pé sem a sabedoria dos povos que a habitam. O “capitalismo verde” não convém, pois se rege pelas leis do mercado e busca patentear princípios e essências, privatizar a água e promover a pirataria dos saberes populares.

Os povos indígenas guardam ainda uma sintonia holística com o Cosmo. Seus sentidos aguçados estabelecem um diálogo permanente com a natureza. Conhecem cada ruído, prenunciam a chegada da chuva ou da seca, identificam os recursos medicinais das ervas. O índio não é um indivíduo na natureza. Seu corpo, o território no qual habita e a natureza formam uma unidade.

Os indígenas respiram uma cultura que se traduz, de fato, em espiritualidade da reciprocidade. Através de ritos e festas, celebram a exuberância da natureza e exorcizam os espíritos malignos. Sem recorrer à escrita, passam de geração a geração a cultura do cuidado da floresta e do respeito a todos os seres vivos.

Para eles, a terra não é um bem econômico, e sim dom gratuito de Deus no qual descansam seus antepassados, e espaço sagrado com o qual interagem para preservar sua identidade e valores.

Sofrem, no entanto, sérias ameaças de uma equivocada concepção de desenvolvimento e riqueza que lhes cobiçam as terras para implantar projetos extrativos e agropecuários, indiferentes à degradação da natureza e à destruição de suas culturas.

Cinco grandes sintomas da crise planetária se manifestam na Amazônia: 1) mudança climática; 2) envenenamento da água; 3) perda da biodiversidade; 4) degradação da qualidade de vida humana e da natureza; 5) conflitos sociais marcados por violência e assassinatos.

A convocação do Sínodo Panamazônico pelo papa Francisco é uma boa nova para toda a humanidade.

LIVRO DE TRÁGICA ATUALIDADE

Em 1934, a editora Cruzeiro do Sul, do Rio, publicou “Hitler e seus comediantes – o despertar da Alemanha”, de autoria do futuro embaixador José Jobim, então correspondente de O Globonaquele país. Jobim foi “suicidado” pela ditadura militar, no Rio, em 1979, ao ameaçar denunciar as falcatruas na construção da usina de Itaipu, agora de novo em foco.

A Alemanha, destroçada pela Primeira Grande Guerra (1914-1918), viu em Hitler um salvador da pátria. Jobim registra: “Os hitleristas prometeram acender o fogão de todos os alemães. Para isso, necessitavam do apoio das mulheres. E, paradoxalmente, a melhor maneira que encontraram para atraí-las foi insultá-las. Houve já quem dissesse que os três Kas – “Kuche” (cozinha), “Kirche” (igreja) e “Kinder” (filhos) – são todo o programa feminista do nacional-socialismo. As mulheres sabem disso e, entretanto, o apoiam.”

Como explicar esse apoio? “Num país onde há milhões de desempregados, sem nenhuma esperança séria de resolver o problema, a mulher desiludiu-se com a democracia e deu ouvidos ao Fuehrer que lhe prometeu um lar.”

Jobim escreve: “O nazismo não aprecia a inteligência. Despreza-a. É infindável a lista dos aposentados, demitidos, afastados e perseguidos nas letras, ciências e artes. Nas ciências, o caso mais conhecido é o de Einstein, culpado dos crimes de ser judeu e sábio. Suas obras foram queimadas nas fogueiras da Universidade de Berlim.”

“Outros autores foram escolhidos para a fogueira. Os autores das obras pacifistas, das poesias e novelas sociais cujos nomes encarnam o melhor da Alemanha democrática. Foram-se os livros de Thomas Mann e Heinrich Mann, Leonhard Frank, Magnus Hirschfeld, Jacob Wassermann, Stephan Zweig, Bertold Brecht, Alfred Doeblin e Th. Plivier.”

“Quando ouço a palavra cultura, engatilho o meu revólver” – esta frase, repetida à exaustão por Goebbels, na verdade é da peça “Schlageter”, de Hanns Johst, intelectual de esquerda que aderiu a Hitler. Segundo Jobim, “o único escritor nacional-socialista legível”.

A respeito dos jovens escritores alemães, o autor reproduz as palavras de seu amigo Gorkin: “Assistiram ao triunfo do nacional-socialismo em atitude fatalista. ‘Que importa?’, perguntaram-se. Como defender os princípios democráticos se não acreditavam neles? Logo começaram a pagar as consequências de sua indiferença. O nacional-socialismo respondeu ao seu fatalista ‘que importa?’ queimando suas obras nas praças públicas. Arderam no fogo de seus próprios livros os últimos lampejos de liberdade e rebeldia de toda uma geração intelectual.”

“Depurar, transformar, hitlerizar!”, escreve Jobim. “É a preocupação que se manifesta em todos os domínios: educação, moda, patriotismo. O novo ensino superior desprezava, por inútil, o sânscrito. Mas um sábio explicou ao ministro da Educação que o sânscrito era a língua sagrada dos brâmanes, dos arianos da Índia. E pronto! O sânscrito passou a ser gênero de primeira necessidade.”

Jobim salienta em seu livro: “Os leitores dos jornais servidos pela Agência Brasileira estiveram durante muito tempo convencidos de que o Reichstag (parlamento alemão) fora mesmo incendiado pelos comunistas. As crônicas que enviei da Europa narrando os verdadeiros debates das audiências do processo do Reichstag desmoralizaram os despachos da agência hitlerista no Rio. O Globo encontrou, porém, grande dificuldade para publicá-las. A censura alegava, para cortá-las, a necessidade de não perturbar as boas relações de amizade que o Brasil deve manter com a Alemanha. Não podia, eu, entretanto, ser mais sereno. Minhas crônicas diferiam das de qualquer um jornalista a soldo da Legação alemã apenas pela honestidade com que eram escritas.”

Pela sua trágica atualidade, a obra de José Jobim sobre a ascensão do nazismo merece ser republicada no Brasil. Qualquer semelhança com o período atual do nosso país não é mera coincidência. Eis um autor à procura de editora.

Edição 149, Junho 2019

TRÂNSITO PARA A MORTE

As estatísticas indicam que 1,25 milhão de pessoas morrem por ano em acidentes de trânsito em todo o mundo. Isso supera o número de vítimas de guerras, ataques terroristas e homicídios. A maioria dos acidentes ocorre por erros humanos, como embriaguez, uso do celular ao volante, excesso de velocidade etc.

No Brasil, segundo o Observatório Nacional de Segurança Viária, 400 mil pessoas são afetadas anualmente por acidentes de trânsito, ou seja, ficam inválidas ou com sequelas, como deficiências físicas e psíquicas. E o número de mortos chega a 47 mil por ano. Com certeza, este é um índice subestimado. Segundo a Polícia Rodoviária Federal, em nosso país entram na estatística apenas as mortes contabilizadas imediatamente após o acidente. No Canadá, por exemplo, os acidentados são acompanhados por 90 dias.

Nos últimos 10 anos, mais de 1,6 milhão de pessoas ficaram lesadas, no Brasil, por acidente de trânsito. Isso representou para o SUS um custo de R$ 3 bilhões! Segundo o Conselho Nacional de Medicina, a cada hora cerca de 20 pessoas dão entrada em um hospital da rede pública de saúde com ferimentos graves causados por veículos terrestres.

No índice da OMS (Organização Mundial da Saúde), o Brasil figura em 5º lugar entre os países recordistas em mortes no trânsito, superado apenas por Índia, China, EUA e Rússia. A violência no trânsito é a terceira principal causa de mortes no mundo, precedida apenas por doenças cardíacas e câncer.

Apesar dessas cifras tão alarmantes, o presidente Bolsonaro propõe liberar de multa pais que não usarem cadeirinhas para levar bebês no carro; extinguir os exames toxicológicos de caminhoneiros; adotar menos radares nas estradas; dobrar o limite de pontuação na carteira de motoristas infratores; aplicar punição menor para motoqueiros que usarem capacetes sem viseira etc.

O governo parece não se dar conta de que, se aprovadas tais medidas, ele estará enxugando gelo. Pois serão maiores os gastos do SUS com hospitalização e tratamento de acidentados.

O veículo que mais causa mortes nas ruas do Brasil é a motocicleta. Em 2018 foram 884 óbitos na capital paulista. A prefeitura considera a principal causa o aumento dos aplicativos (como iFood, Uber Eats, Loggi e Rappi) de entrega por motoboys, premiados em dinheiro para quem faz mais entregas.

Os exames para a obtenção de carteira para pilotar motos nem sempre são rigorosos, os veículos não passam por revisões periódicas e seus motoqueiros não dispõem de tempo adequado para o descanso. Isso repercute no aumento das despesas com previdência social e favorece a sonegação de impostos, pois nem sempre as leis trabalhistas são respeitadas na relação entre aplicativos e entregadores.

Segundo o presidente do Sindicato dos Mensageiros Motociclistas de São Paulo (Sindimotosp), Gilberto dos Santos, “o principal problema é que essas empresas trazem gente muito nova, sem experiência, sem cursos. E com esses estímulos (prêmio em dinheiro), esse pessoal é colocado para correr.”

Em outubro de 2018, mensagem em SMS atribuída à Uber Eats prometia: “Ganhe 570 reais completando 44 entregas, ou ganhe 80 reais completando 26 entregas.” Na tentativa de alcançar esse índice, muitos motoqueiros se acidentam.

Eles se sentem obrigados a fazer em menos tempo possível o percurso do estacionamento em que se encontram ao restaurante que fornecerá o pedido, e deste ao domicílio da entrega. E, ao acelerar, dividem a atenção entre a rua e o celular que indica os endereços dos destinatários das encomendas.

Embora as motos representem menos de 30% dos veículos automotores do país, consomem mais de 70% das indenizações do DPVAT (Seguro de Danos Pessoais Causados por Veículos Automotores de Via Terrestre).

Flexibilizar o Código de Trânsito Brasileiro é favorecer a letalidade em nossas ruas e estradas, e aumentar os custos do governo com a saúde pública. E já é hora de as escolas introduzirem educação para o trânsito, de modo a evitar que mais motoristas transformem o seu veículo em uma arma.

PERGUNTE À HISTÓRIA

Em conferências na Europa, me perguntaram como se explica eleitores brasileiros preferirem eleger presidente da República um homem notoriamente defensor da tortura, da homofobia, das milícias, do machismo e da ditadura. Como entender que a maioria tenha escolhido um candidato que considera mais importante armar a população do que reduzir a desigualdade social.

Por que os eleitores não preferiram Haddad, Alckmin, Meirelles, Ciro Gomes ou Álvaro Dias?

Minha resposta foi sempre “perguntem à história”. A ela recorro. Como foi possível, após 15 anos de Estado Novo (1930-1945), um regime ditatorial de dura repressão, censura à imprensa e promulgação, em 1937, de uma Constituição fascista, conhecida como “polaca”, Vargas ter sido democraticamente eleito presidente da República nas eleições de 1950?

Como explicar que a nação de Kant, Beethoven, Bach, Goethe e Einstein tenha escolhido um austríaco racista e genocida, Adolf Hitler, para comandá-la? E a Itália de Dante Alighieri, Maquiavel, Da Vinci e Michelangelo, um fascista como Mussolini?

Eleitores nem sempre votam com a razão. Muitos votam com a emoção. Insatisfeitos com o atual estado de coisas, optam pelo extremo oposto na esperança de que, num passe de mágica, tudo venha a melhorar. Muitas vezes, o voto não é propriamente a favor do candidato que amealha a preferência do eleitorado. É contra tudo que ele critica e promete combater, como na eleição de Jânio Quadros a presidente, em 1960. Ao brandir como símbolo de sua campanha a vassoura, prometeu varrer a corrupção e os corruptos do Brasil... Idem Collor, em 1989, ao ostentar o título de “caçador de marajás”.

Há boa dose de irracionalidade naqueles que votam contra isso ou aquilo, movidos pelo ódio e a sede de vingança. Quanto mais demonizam os adversários, mais mitificam o candidato preferido, como se a política prescindisse de instituições democráticas e dependesse apenas da vontade pessoal do eleito. Esses eleitores não votam a favor de um projeto de nação e propostas consistentes, e sim contra aqueles que, na opinião do avatar escolhido, representam o mal.

No Brasil, a redução do tempo de campanha política, as restrições a comícios e propagandas eleitorais fazem com que as candidaturas não favoreçam a educação eleitoral e política. Assim, o clima de revanche tende a suplantar a reflexão cívica, o debate democrático, a avaliação dos candidatos e de suas propostas.

Perguntem à história quem ganha eleições, e ela certamente responderá que não são necessariamente os melhores, mas aqueles capazes de servir de imã às insatisfações e frustrações da população. Em países em crise, e cuja nação carece de consciência histórica, os eleitores não buscam solução, buscam salvação. Já não são um povo, formam uma massa.

“A massa é extraordinariamente influenciável, crédula, acrítica; o improvável não existe para ela. Pensa em imagens que evocam umas às outras associativamente, como no indivíduo em estado de livre devaneio, e que não tem sua coincidência com a realidade medida por instância razoável. Os sentimentos da massa são sempre muito simples e exaltados. Ela não conhece dúvida, nem incerteza. Vai prontamente a extremos; a suspeita exteriorizada se transforma de imediato em certeza indiscutível; um germe de antipatia se torna ódio selvagem.”

“Quem quiser influir sobre ela não necessita medir logicamente os argumentos; deve pintar com imagens mais fortes, exagerar e sempre repetir a mesma fala. Como a massa não tem dúvidas quanto ao que é verdadeiro ou falso, e tem consciência da sua enorme força, ela é, ao mesmo tempo, intolerante e crente na autoridade. Respeita a força, e se deixa influenciar apenas moderadamente pela bondade, para ela uma espécie de fraqueza. O que exige de seus heróis é fortaleza, até mesmo violência. Quer ser dominada e oprimida, quer temer os seus senhores. No fundo, inteiramente conservadora, tem profunda aversão a todos os progressos e inovações, e ilimitada reverência pela tradição” (Freud,Psicologia das massas e análise do eu – 1921).

PÓS-DEMOCRACIA

O banqueiro David Rockefeller declarou à Newsweek International, em fevereiro de 1999: “Nos últimos anos há uma tendência à democracia e à economia de mercado em muitas partes do mundo. Isso reduziu o papel dos governos, algo favorável aos homens de negócios. (...) Mas a outra face da moeda é que alguém tem que tomar o lugar dos governos, e o business me parece a instituição lógica para fazê-lo.”

A queda do Muro de Berlim, em 1989, marca a rejeição ao estatismo. Em 1979, Hayek, guru do neoliberalismo, já advogava “destronar a política” em nome da “espontaneidade” do mercado: “A política assumiu lugar importante demais, tornou-se muito onerosa e prejudicial, absorvendo muita energia mental e recursos materiais.”

É o que vem acontecendo mundo afora. Decepcionados com a política e os políticos, os eleitores são convencidos a escolher empresários, na esperança de que governem o país tão bem quanto o fizeram em seus empreendimentos. Na longa lista de empresários alçados a governantes destaco Berlusconi (1994) na Itália; Piñera (2010 e 2018) no Chile; Macri (2015) na Argentina; Trump (2016) nos EUA; e Macron (2017) na França.

Esses homens nutrem a ambição de gerir o Estado como uma empresa familiar, como prometeu Erdogan ao assumir o governo da Turquia. Nessa ótica, as instituições democráticas são desprestigiadas e encaradas como estorvo ao desempenho do presidente-CEO. Este, convencido de seu carisma, adota uma prática “decisionista”, termo criado pelo jurista nazista Carl Schmitt em seu Teologia política (1922) para expressar o modo de tomar decisões com autoridade e determinação, sem se preocupar com as consequências.

Ocorre, portanto, um processo de enfraquecimento do Estado e fortalecimento das corporações empresariais e da instituição fiadora da liberdade do capital sobre os direitos de cidadania, as Forças Armadas. O Estado, agora uma instituição híbrida, é despolitizado, reduzido à função de mero gestor, o que explica a supressão de Filosofia e Sociologia em universidades públicas. E as corporações assumem o papel de novos sujeitos políticos e seus tentáculos se estendem pelas malhas do Estado, como o comprova a Lava Jato, sobretudo nos casos da Petrobras e da Odebrecht, e as bancadas corporativas no Congresso Nacional.

Fenômeno semelhante ocorreu com a modernidade ao desbancar a reforma gregoriana dos séculos XI e XII, quando o Estado-Igreja cedeu lugar às instituições democráticas, ora ameaçadas pela “privatização” do espaço público e dos direitos civis, como atesta a proposta de capitalização na reforma da Previdência. O dever do Estado se desloca para a defesa dos privilégios da elite empresarial e bancária.

No Estado-Igreja, a ideologia predominante era a teologia. No Estado-empresa, a hegemonia cultural é assegurada pela laicidade das empresas-mecenas, como outrora a Petrobras ou a multiplicidade de institutos culturais do sistema S, dos bancos e de outras corporações, como Google, Amazon, Facebook etc.

O advento do Estado-empresa comprova a “revolução passiva” apontada por Gramsci, reformar para preservar ou, nas palavras de outro italiano, Lampedusa, “mudar para que tudo permaneça como está.”

A corporocracia é a face da pós-democracia. E entre as corporações se incluem as Forças Armadas, supostamente despolitizadas. Daí a incômodo do presidente-avatar e do poder Executivo-empresário com a não submissão dos parlamentares e do Judiciário. Na lógica de qualquer empresa, os que resistem às decisões do comando devem ser sumariamente excluídos. O Brasil das corporações acima de tudo e o deus criado à imagem e semelhança deles acima de 
todos.

Frente a essa ameaça, o desafio é intensificar a repolitização da política e a desprivatização do Estado. Isso só se dará pelo fortalecimento das instituições democráticas e, sobretudo, dos movimentos sociais, de modo a ampliar os mecanismos de protagonismo popular na esfera do poder.

SEXO & AFETO

Na pesquisa da Unesco sobre a sexualidade da juventude brasileira há aspectos positivos, como o repúdio à promiscuidade e busca de conhecimento sobre o tema. Os jovens brasileiros tendem a iniciar a vida sexual mais cedo (entre 11 e 14 anos) e consideram desimportante a virgindade. Mas nem sempre se protegem contra as DST (doenças sexualmente transmissíveis) e a Aids, e tendem a discriminar os homossexuais.

Pesquisa no Ceará indica aumento da gravidez precoce e diminuição dos casos de aborto. As meninas, com certeza induzidas por exemplos televisivos, preferem assumir a "produção independente", ainda que haja riscos de abandono da escola, ingresso na prostituição e mais criança na rua. Na pesquisa da Unesco, 14,7% das entrevistadas admitiram ter engravidado pela primeira vez entre 10 e 14 anos.

O Unicef constata que a educação escolar de uma menina equivale, na América Latina, em termos de efeitos sociais, à educação de cinco meninos. Quanto mais escolaridade da mãe, menor o índice de natalidade e maior o período de vida do filho. São as mães que assumem, sempre mais, a chefia da família, e transmitem valores aos filhos.

Os jovens se queixam de ter poucas fontes de conhecimento sobre a sexualidade. Só nas últimas décadas as escolas começaram a introduzir o tema em salas de aulas, assim mesmo com ênfase na higiene corporal, tendo em vista as DST.

O melhor seria a TV, com o seu poder de irradiação, entrar em detalhes a respeito deste assunto. Mas nem sempre interessa tratar sexo e afeto às claras. O tabu reforça o mistério, que excita a imaginação, alimenta o voyeurismo, atrai milhares de telespectadores à exibição de produtos que imprimem à sexualidade o sabor libidinoso da pornografia. E dá-lhe delegacias de mulheres e, paralelamente, a proliferação de assédios, estupros, feminicídios, e o preconceito aos homossexuais.

Certo dia vi, num hospital público, com uma menina de 13 anos, bastante machucada. Havia sido espancada pela mãe, inconformada por vê-la grávida. E ficou revoltada quando a menina declarou não saber quem é o pai. Havia participado da dança do "trenzinho" em baile funk: rapazes sentados, a braguilha aberta, as garotas sem calcinha pulando de colo em colo…

O que me chocou não foi tanto o ritual orgíaco. Mas a carência, o vazio, a busca desenfreada de afeto reduzida àquela espécie de "roleta russa". Não se trata de imoralidade, e sim de amoralidade, como entre os répteis. Pela vergonha de assumir valores, cultivar o espírito e fazer projetos. Nos escombros da modernidade, tudo é aqui-e-agora. E quando o desemprego, o baixo nível da educação, a violência, a desagregação familiar, nos fecham as cortinas do horizonte da felicidade, o jeito é apelar para o prazer imediato, epidérmico, já que a vida parece se reduzir a um jogo de sobrevivência e a morte pode estar nos espreitando na próxima esquina.

O CARDEAL ELETRICISTA

Eu me encontrava na Itália quando um prédio de Roma, na Via Santa Croce, ocupado por 450 pessoas, entre as quais uma centena de crianças, ficou dias às escuras devido à dívida de 300 mil euros com a empresa fornecedora de energia. Contudo, teve a luz religada graças à habilidade de eletricista do cardeal Konrad Krajewski. Ele simplesmente entrou no poço do edifício, onde fica a central energética, removeu os lacres e a pôs a funcionar.

Perrini, um dos moradores, contou: "O cardeal, que no passado já foi nosso hóspede, porque vem para cuidar de idosos, doentes e crianças que moram aqui, chegou na tarde de sábado, por volta das 17h, a bordo de uma van cheia de presentes para as crianças. Ele sabia que estávamos sem eletricidade há três dias. Assim que chegou, telefonou para a Acea (empresa de energia) e a prefeitura de Roma, pedindo que reativassem a eletricidade às 20h, caso contrário ele próprio faria isso. Por volta das 20h15, o cardeal retornou, nos explicou que entendia de energia elétrica porque, antes de ser padre, na Polônia, havia trabalhado no setor, e novamente chamou as autoridades municipais para manifestar a sua intenção. Depois entrou no poço onde fica a nossa instalação elétrica, fez uma série de procedimentos, como se fala no jargão técnico, e a luz voltou. Eu realmente não sei como ele fez isso, mas fez."

O ministro Salvini, que comanda a política italiana, ficou bravo com a ousadia do cardeal e declarou que ele “agora deve pagar as contas em atraso”.

Krajewski declarou: "Intervi pessoalmente para religar os medidores. Foi um gesto desesperado. Havia mais de 400 pessoas sem eletricidade, com famílias, crianças, sem sequer a possibilidade de manter ligadas as geladeiras."

O cardeal polonês, de 55 anos, é o principal assessor do papa Francisco no cuidado dos pobres. Cedeu o seu apartamento em Roma para abrigar uma família refugiada da Síria e passou a dormir no cômodo que lhe serve de escritório.

À noite ele circula pela capital italiana dirigindo um furgão repleto de alimentos, roupas e cobertores para distribuir às pessoas que dormem ao relento. Foi ele que tomou as providências para construir, por ordem do papa, instalações sanitárias, incluindo chuveiros e barbearia, para uso dos mendigos que fazem ponto em torno do Vaticano, na esperança de receberem algum dinheiro de peregrinos e turistas.

Na conferência que proferi na Universidade Lumsa, no Vaticano, sobre a conjuntura política do Brasil, ao lado de Jessé de Souza, me perguntaram o que achava da atitude do cardeal. Respondi não ver nada de estranho no fato de um cardeal, discípulo de um carpinteiro palestino, ser eletricista. Estranhos são os cardeais que se julgam príncipes, moram em palácios e gastam fortunas com seus trajes eclesiásticos.

A instituição cardinalícia é herança do Império Romano, e não encontra fundamento na comunidade apostólica formada por Jesus. Sempre me pergunto se foi a Igreja que converteu Constantino, no século IV, ou se foi o imperador que converteu a Igreja em uma instituição monárquica que, ao longo da história, muitas vezes trocou seu serviço evangélico pela pompa do poder.

O título de “cardinalis” era dado pelo imperador a generais e prefeitos pretorianos. Os cardeais são os senadores da Igreja e têm por função eleger o papa e assessorá-lo. Até o século XII o papa era eleito pelo clero e fiéis de Roma.

A cor predominante nos trajes cardinalícios é a vermelha, também usada outrora pelos senadores romanos. Na Igreja, significa a disposição de derramar o próprio sangue na defesa dos valores evangélicos. Mas nem todos os cardeais se mostram dispostos a trilhar o caminho de Jesus, como o fez o cardeal Dom Paulo Evaristo Arns, arcebispo de São Paulo que destemidamente assumiu a defesa das vítimas da ditadura, entre os anos de 1969 e 1985. Muitos preferem as pompas imperiais às sandálias dos pescadores. Por isso, se opõem abertamente às reformas do papa Francisco, empenhado em desclericalizar a Igreja e livrá-la da corrupção sexual e financeira.

FUNDAMENTALISMOS

O fundamentalismo sempre existiu nas tradições religiosas. Consiste em interpretar literalmente o texto sagrado, sem contextualizá-lo, e extrair deduções alegóricas e subjetivas como única verdade universalmente válida. Para o fundamentalista, a letra da lei vale mais que o Espírito de Deus. E a doutrina religiosa está acima do amor.

Escolas do sul dos EUA, e também algumas no Brasil, rejeitam os avanços científicos resultantes das pesquisas de Darwin e ensinam que o homem e a mulher foram criados diretamente por Deus. Tal visão fundamentalista nem sequer reconhece que Adão, em hebraico, significa “terra”, e Eva, “vida”. Como os autores do Primeiro Testamento não raciocinavam com categorias abstratas, à semelhança da gente simples do povo, o conceito ganhou plasticidade no “causo” de Adão e Eva.

Todo fundamentalista é um “altruísta”. Está tão convencido de que só ele enxerga a verdade que trata de forçar os demais a aceitar o seu ponto de vista... “para o bem deles”!

Há muitos fundamentalismos em voga, desde o religioso, que confessionaliza a política, ao líder político que se julga revestido de missão divina. Eles geram fanáticos e intolerantes.

Uma das melhores conquistas da modernidade é a separação entre a Igreja e o Estado. Nada de papas coroando reis, como na Idade Média, ou presidentes consagrando a nação ao Imaculado Coração de Maria, como fez Bolsonaro no Planato dia 21 de maio.

Certa vez perguntei a Fidel por que em Cuba o Estado e o Partido eram confessionais. Ele estranhou: “Como confessionais?” “Sim, expliquei, pois são oficialmente ateus. E negar a existência de Deus é tão confessional como afirmá-la.” Mais tarde, o Estado e o Partido Comunista cubanos tornaram-se laicos, assim como todos os estados e partidos modernos.

Reger a vida política a partir de preceitos religiosos é um desrespeito a quem professa outra religião ou nenhuma. Isso não significa que um cristão deva abrir mão de suas convicções e dos valores evangélicos. Mas ele não deve esperar que todos reconheçam a natureza religiosa de sua ética. E nem queira impor a sua fé como paradigma político.

Há que cuidar também para evitar o fundamentalismo laicista, de quem julga que religião é uma questão privada, sem dimensão social e política. Afinal, todos os cristãos são discípulos de um prisioneiro político. E a prática da fé implica em defesa intransigente da vida, especialmente dos vulneráveis e excluídos.

O fundamentalismo laicista, que sempre relegou a religião à esfera da superstição, é danoso por estimular o preconceito e não reconhecer que milhões de pessoas têm em sua fé o paradigma de suas convicções e práticas. Corre-se o risco de repetir o erro dos antigos partidos comunistas, que exigiam dos novos militantes profissão de fé no ateísmo.

Reforçam o fundamentalismo cristão todos os que são indiferentes ao diálogo inter-religioso e consideram a sua Igreja como a única verdadeira intérprete dos mandamentos e da vontade divinos. Por isso, é importante estabelecer os critérios éticos que propiciam a base sobre a qual as diferentes Igrejas e religiões devem dialogar e somar esforços. São eles: a ética da libertação em um mundo dominando por múltiplas opressões; a ética da justiça nessa realidade estruturalmente injusta; a ética da gratuidade nessa cultura mercantilista onde imperam o interesse e o negócio; a ética da compaixão num mundo marcado pela dor de tantas vítimas; a ética da acolhida, já que há tantas exclusões à nossa volta; a ética da solidariedade nessa sociedade fortemente competitiva; a ética da vida frente a tantos sinais de morte que ameaçam a natureza e os pobres.

O fundamentalismo é irmão gêmeo do moralismo. E o moralista é capaz de ver o mosquito no olho alheio, como observou Jesus, sem atinar para a trava no próprio olho. No caso de certos políticos, quem sabe a solução para a paz seja considerar a guerra um atentado ao pudor...

Edição 148, Maio 2019

DA MÍDIA DE CONSENSO À DE CONFLITO

Definha o interesse por notícias impressas ou televisivas. Pesquisas revelam que o público prefere notícias online.

Nos séculos XIX e XX, o modo de pensar da sociedade tendia a ser moldado pelos grandes meios de comunicação: mídia impressa, rádio e TV. Tudo indica que termina aquela era. Trump se elegeu atacando a grande mídia dos EUA. Só a Fox o apoiou. Os principais veículos da mídia britânica se opuseram ao Brexit. Ainda assim a maioria dos eleitores votou a favor dele. Bolsonaro fez campanha presidencial quase ausente da grande mídia. Criticou os principais veículos, e ainda assim se elegeu. O que acontece de novo?

O novo são as redes digitais, as novas tecnologias ao alcance da mão. Elas deslocam a notícia dos grandes veículos para computadores e smartphones. Têm o mérito de democratizar a informação, rompendo a barreira ideológica que evitava opiniões contrárias à orientação editorial do veículo.

Contudo, pulverizam a notícia. O que é manchete na TV não merece destaque na comunicação interpersonalizada na internet. O receptor corre o risco de perder ou não adquirir critérios de valoração das notícias. Pode ser que lhe seja mais importante ficar ciente de que seu colega tem nova namorada do que inteirado do golpe de estado no país vizinho ou da nova lei que regula o trânsito em seu bairro.

Essa informação individualizada, embora mais cômoda, prêt-à-porter, tende a evitar o contraditório. Cada interessado se isola no interior de sua tribo no Whatsapp, no Twitter, no Facebook, no Instagram, no YouTube, no Telegram, nos serviços de mensagens no Google e do Periscope. Não há interação dialógica. Não interessa o que dizem as tribos vizinhas, potenciais inimigas. O que transmitem não merece crédito. A única verdade é a que circula na tribo com a qual o internauta se identifica. Ainda que essa “verdade” seja fake news, mentira deslavada, farsa. Apenas um dialeto faz sentido para o internauta. Desprovido de visão conjuntural, ele se agarra ao que propagam seus parceiros como quem acolhe oráculos divinos.

Querer mudar-lhe o foco é como se alguém tentasse convencer os astecas contemporâneos de Cortés de que o sol haveria de despontar no horizonte ainda que eles não despertassem de madrugada para celebrar os ritos capazes de acendê-lo. Com certeza não ousariam correr o risco de ver o dia inundado de escuridão.

Eis a privatização da notícia. Essa seletividade individualizada faz com que o internauta se encerre com a sua tribo na fortaleza virtual dotada de agressivas armas de defesa e ataque. Se a versão emitida pela tribo inimiga chegar a ele, será imediatamente repelida, deletada ou respondida por uma bateria de impropérios e ofensas. É dever de sua tribo disseminar em larga escala a única verdade admissível, ainda que careça de fundamento, como a teoria do terraplanismo.

Os efeitos dessa atomização das comunicações virtuais são deletérios: perda da visão de conjunto; descrédito dos métodos científicos; indiferença ao conhecimento historicamente acumulado; e, sobretudo, total desprezo por princípios éticos. Qualquer um que se expresse em linguagem que não coincida com a da tribo merece ser atacado, injuriado, difamado e ridicularizado.

O que fazer frente a essa nova situação? Desconectar-se? Ora, isso seria bancar a tartaruga que recolhe a cabeça para dentro do casco e, assim, se julga invisível. A saída deve ser ética. O que implica tolerância e não revidar no mesmo tom. Como sugere Jesus, “não atirar pérolas aos porcos” (Mateus 7,6). Deixar que chafurdem na lama sem, no entanto, ofendê-los.

A vida é muito curta para que o tempo seja gasto em guerras virtuais. Quanto a mim, prefiro ignorar ataques e atuar propositivamente. Sobretudo, não trocar a sociabilidade real pela conflituosidade virtual. E muito menos livros por memes e zapps que nada acrescentam à minha cultura e à minha espiritualidade.

ESCALADA CONTRA A DEMOCRACIA

Não faço parte do time das pitonisas. Prefiro guardar o pessimismo para dias melhores. Contudo, prevejo tempos difíceis para o Brasil, a menos que a nossa indignação se transforme em mobilização. Pelo andar da carruagem, nossa frágil democracia se encontra ameaçada, e nossa liberdade de expressão, amordaçada.

Os sinais não são promissores. Nada indica que a economia brasileira sairá em breve do atoleiro em que se encontra. O número de desempregados passa de 13 milhões. As previsões do PIB 2019 encolhem a cada novo balanço. No início do atual governo acreditava-se que cresceria 2,2%. Agora, se prevê 1,7%. O Brasil retrocede.

Ainda que alguma reforma da Previdência seja aprovada (sem afetar os privilégios do andar de cima, é claro), nada indica vir do exterior investimentos substanciais. Nosso país está desacreditado. Quem se aventura a embarcar em um navio avariado? E há outras opções mundo afora para os investidores. Preferem multiplicar seu capital em economias robustas e confiáveis.

Como se sentir seguro sob um governo que a cada dia se desdiz? Em menos de cinco meses desacreditou as próprias promessas de campanha. O corporativismo e o viés ideológico falam mais alto que a competência. Ministro que se preze deve vestir a farda de recruta e engolir a seco as ordens do comandante. Não se admite o contraditório, o pluralismo, o debate democrático.

Dança-se ao ritmo leninista: um passo à frente, dois atrás. A embaixada brasileira transferida para Jerusalém permanece em Tel Aviv. A soberania do país se dobra à suspensão unilateral de vistos para estadunidenses. A cultura é sufocada pela falta de recursos. As ações da Petrobras e do Banco do Brasil despencam, porque o governo “não intervencionista” veta o aumento do diesel e a publicidade do banco.

A grileiros, desmatadores e invasores de terras indígenas é concedida licença para matar. Aos milicianos se faz vista grossa. Aos corruptos amigos da família, silêncio. O que ao pai, movido a arroubos, não convém manifestar, ao filho é transferida a tarefa, ainda que ofensas ao general eleito vice do capitão.

O desmonte é geral. Conselhos federais são extintos; não há médicos em muitas localidades antes atendidas por cubanos; disciplinas que ensinam a pensar, como filosofia e sociologia, são riscadas dos currículos; milícias são toleradas; índios são recebidos em Brasília, não por autoridades abertas ao diálogo, mas pela Força Nacional, como se um bando de feras evadidas da selva ameaçasse avançar sobre o Planalto.

O clima é de repúdio à democracia. Até quando o STF e o Congresso Nacional serão tolerados? E a liberdade de imprensa? Oitenta tiros do Exército assassinaram dois cidadãos inocentes e o fato é considerado irrelevante.

Pelos corredores do governo disseminam o medo e a insegurança. O ministro da Economia fala em obter R$ 1 trilhão com as reformas, e horas depois o presidente reduz para R$ 800 bilhões. O secretário da Receita Federal acenou com novos impostos e foi desautorizado no dia seguinte de sua entrevista. A lei do silêncio impera. Quem pretende se agarrar à sua boquinha no governo que trate de fechar a própria. O atual governo sabe destruir, mas não sabe construir.

As pesquisas comprovam que a aprovação ao Planalto despenca a cada mês? Ora, puro “fake”, clama o governo. Ele garante que a aprovação, como ótimo, é 98%! Exceto para 2% de gente envenenada pelo marxismo cultural. Gente que não respeita a família, ainda que o acusador tenha tido três. Gente que é a favor dos direitos dos homossexuais e contra a liberação da posse e do porte de armas.

O rei está nu. Mas não convém admitir isso em público. Cada cidadão que cubra seus olhos indignados com as cores vivas dessa policromia ministerial em 22 tons de cinza.

'MARXISMO CULTURAL', O QUE É

A cultura não é neutra. É roupa que veste os factos. Os factos são fatos, e não se pode negá-los, exceto se você ostenta a suprema toga. Pode-se, porém, ressignificá-los.

Ninguém nega que os militares derrubaram o governo democrático de João Goulart, em 1964. É um facto. Contudo, varia a hermenêutica. Para uns, foi golpe; para outros, simples movimento, contrarrevolução ou intervenção salvífica de Nossa Senhora Aparecida, invocada pela Marcha da Família com Deus pela Liberdade, para livrar o Brasil da iminente ameaça comunista.

O “marxismo cultural” dissemina a versão de que se tratou de um golpe cívico-militar, e ainda insulta a imagem de oficiais das Forças Armadas e agentes policiais aos acusá-los de torturadores e assassinos.

Outro facto inquestionável é a existência do planeta Terra, no qual vivemos. No entanto, há quem afirme ser ele redondo, o que teria sido constatado pelo grego Eratóstenes no século III a.C. Contudo, há controvérsias. Para os adeptos do terraplanismo ele é plano, e há uma muralha de gelo nas suas bordas, o que impede o esvaziamento dos oceanos. E acima de nossas cabeças paira o domo com o Sol e a Lua. Porém, a Nasa gasta bilhões de dólares para nutrir a farsa globalista de que a Terra é redonda.

No século XVI, o polaco Nicolau Copérnico concordou que a Terra é redonda, e ainda acrescentou que, integrada a um colar de planetas, ela gira em torno do Sol.

O leitor certamente se pergunta: como o “marxismo cultural” influi nessa questão? Aparentemente trata-se apenas de uma divergência astronômica. Só aparentemente.

O astrônomo polonês anteviu a tese do educador Paulo Freire de que mudança de lugar social tende a modificar o lugar epistêmico. Copérnico se deslocou virtualmente da Terra para o Sol e, dali, proclamou que o nosso planeta desenvolve uma dança sideral em volta do Sol. E, como se sabe, Paulo Freire era um cristão-marxista.

O “marxismo cultural” é capcioso, subtil, subliminar. Não reside apenas nas ideias de um professor ou em livros didáticos. Está na cor vermelha de uma camisa, no cabelo afro de uma aluna, nos trejeitos efeminados de um homossexual, até mesmo na equivocada versão de que o nazismo teria sido um movimento da extrema-direita. O nazismo era, sim, um movimento de esquerda chamado nacional-socialismo. Foi derrotado pelo exército soviético para que Hitler, caso sobrevivesse, não fizesse sombra a Stalin.

Outro efeito político do “marxismo cultural” foi o fascismo. Sabem por que Mussolini tinha o prenome de Benito? Porque seu pai, Alessandro, fervoroso socialista, quis homenagear o revolucionário mexicano Benito Juárez. Mussolini contatou Lenin na Suíça, em 1903. E em 1910 fundou, na Itália, o jornal “Luta de classes”. E dirigiu o jornal do Partido Socialista Italiano, em cuja redação trabalhou com o supremo mentor do “marxismo cultural”, Antonio Gramsci.

Uma das áreas preferidas do marxismo cultural é a das estatísticas. Todos sabem que não há fome no Brasil, pois, como observou a ministra, há suficientes mangas caídas nas ruas. Se não são mangas, são goiabas. No entanto, órgãos do governo, como o IBGE, ou globalistas, como a ONU, insistem em anunciar que 52 milhões de brasileiros vivem na miséria. Ou que há 13,1 milhões de desempregados, quando todos sabem que toda a população trabalha, seja catando o que comer em latas de lixo, seja na árdua tarefa de planear um assalto a banco.

Para integrar o novo governo do Brasil não é necessário competência. Importa estar isento de qualquer influência do “marxismo cultural”. E fazer de conta que não tem ideologia. Essa vigilância quanto a vírus nocivos à nossa cultura deve ser exercida com lupa de caçar piolho em cabeça de pulga.

Só assim teremos um país livre de influência comunista e purificado da subtil inoculação de ideias que contrariam o único poder capaz de nos garantir quando a verdade é mentira, e quando a mentira é verdade.

Edição 147, Abril 2019

O DESFILE DE PEN

O Banco Mundial divulgou, a 4 de abril, relatório no qual destaca que a pobreza triplicou no Brasil entre 2014 e 2017. Hoje, atinge 21% da população, ou seja, 43,5 milhões de pessoas, o que equivale a toda a população do estado de São Paulo. São brasileiros e brasileiras que dispõem de renda diária de R$ 20,9, ou de apenas R$ 627 por mês!

Entre 2003 e 2014, a parcela da população brasileira vivendo com menos de R$ 20,9 por dia (na paridade do poder de compra de 2011) caiu de 41,7% para 17,9%. Essa tendência se reverteu em 2015, quando a pobreza aumentou para 19,4% da população.

Dados do Banco Mundial mostram que a contração da economia brasileira, em 2015 e 2016, freou uma década de redução continuada da pobreza. “As crescentes taxas de pobreza do Brasil têm sido acompanhadas por um salto na taxa de desemprego, que cresceu quase seis pontos percentuais do primeiro trimestre de 2015, e chegou a 13,7% da população no primeiro trimestre de 2017”, aponta o organismo financeiro. Em 2018, com o crescimento econômico de apenas 1,1%, as taxas de pobreza se mantiveram altas.

O Banco Mundial utilizou dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD) 2018, do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), da Relação Anual de Informações Sociais (RAIS) 2017, e do Conselho Nacional de Justiça.

O banco ressalta ainda a importância dos programas sociais “como amortecedores do choque”. No entanto, o atual governo do Brasil caminha na direção contrária. Propõe uma reforma da Previdência que penaliza ainda mais os pobres, em especial os trabalhadores rurais e os que recebem Benefício de Prestação Continuada. E o Ministério da Economia quer que o reajuste anual do salário mínimo seja feito sem ganho real para os trabalhadores.

Hoje, o cálculo de reajuste do salário mínimo leva em conta o resultado do PIB dos dois anos anteriores, mais a inflação do ano anterior medida pelo INPC. Isso garante que o aumento do salário mínimo supere a inflação, reduza a desigualdade social e amplie o consumo das famílias.

Agora o governo propõe que o reajuste seja feito levando em conta apenas a inflação, o que representaria uma economia de R$ 7,6 bilhões para os cofres públicos.

Vale ressaltar que esta é uma conta de náufrago, aquele que, isolado na ilha na qual nada se vende, ocupa seus dias contando dinheiro. O que o governo pretende economizar equivale a recolher água em peneira. Pois reduzir o valor do salário mínimo é contribuir para o aumento de enfermidades, evasão escolar, moradores de rua e criminalidade, além de reduzir a venda de bens e serviços. Isso significa mais gastos do governo com saúde, assistência social, aparelho policial repressivo, prisões e sistema judiciário.

A América Latina e o Caribe tinham renda per capita de US$ 10,7 mil em 1980. Representava 45,3% da renda das economias avançadas naquele ano. Já em 2023 a renda per capita de nosso Continente deve chegar a US$ 15,9 mil, apenas 32,4% da renda das economias avançadas, o que significa aumento de apenas 1,5 vez, bem menor do que os 2,1 vezes dos países ricos.

As manifestações dos “coletes amarelos”, na França, têm o mérito de colocar na pauta do dia a pobreza e a desigualdade que se alastram também pelo chamado Primeiro Mundo. Enquanto a miséria se aprofunda, as Bolsas de Valores batem recordes. Como alertou Simone Weil, “ao fazer do dinheiro o móvel único ou quase de todos os atos, a medida única ou quase de todas as coisas, espalhou-se o veneno da desigualdade em toda parte”.

Em 1971, o economista holandês Jan Pen publicou um tratado sobre a distribuição de renda no Reino Unido, no qual descreveu um desfile de carnaval reunindo as pessoas mais pobres, na abertura, e as mais ricas, no final. Daí o termo “Desfile de Pen”. O Banco Mundial propôs o mesmo para o Brasil, colocando na Sapucaí “o desfile mais estranho da história”.

“Por muito tempo, o público só veria pessoas incrivelmente pequenas (apenas alguns centímetros de altura). Levaria mais de 45 minutos para os participantes alcançarem a mesma altura dos espectadores. Nos minutos finais, gigantes incríveis, mais altos do que montanhas, apareceriam”, descreve o relatório, produzido pelo economista-chefe do Banco Mundial para América Latina e Caribe.

O encerramento seria feito por um número insignificante de foliões, os milionários brasileiros com renda mensal acima de R$ 55 mil (1,2 milhão de pessoas em uma população de 208 milhões), porém com mais destaque do que a multidão que os precedeu (206,8 milhões de pessoas), pois seus corpos teriam 100 mil metros de altura!

LÓGICA DO PODER

Uma observação de Voltaire (1694-1778) ressalta por que tantas pessoas emitem ofensas nas redes digitais e, assim, revelam mais a respeito do próprio caráter do que do perfil de quem é desrespeitado. “Ninguém se envergonha do que faz em conjunto”, escreveu em “Deus e os homens”.

Isso explica a insanidade dos linchamentos virtuais e a violência gerada pelo preconceito, como bem demonstra o filme “Infiltrado na Klan”, de Spike Lee, vencedor do Oscar de melhor roteiro adaptado em 2019.

Muitos de nós jamais ofenderíamos pessoalmente um interlocutor com injúrias e palavrões. No entanto, há quem seja capaz de replicar nas redes digitais ofensas a inúmeras pessoas, sem sequer se dar ao trabalho de apurar se a informação procede.

Ao ser humano é dada a capacidade de discernimento, atributo que lhe permite o exercício da liberdade. Há, contudo, quem prefira abdicar desse direito de optar livremente. Prefere deixar que as decisões sejam tomadas pelo líder, guru ou mentor do grupo social com a qual a pessoa se identifica. Opta pela “servidão voluntária”, na expressão de La Boétie (1530-1563). E todos que não comungam o seu credo são considerados inimigos, hereges ou traidores, e devem ser varridos da face da Terra.

Essa submissão de si à vontade do outro ocorre em partidos políticos, empresas, associações e, sobretudo, em segmentos religiosos. No caso de Igrejas, a dominação ideológica é legitimada pela suposta vontade de Deus ecoada pela voz do pastor ou do padre. Assim, difunde-se uma perigosa teodiceia pela qual tudo se explica pela lógica divina, ainda que a humana não consiga digeri-la.

Se há uma catástrofe como a de Brumadinho, se estou desempregado, se perco um filho atingido por bala “perdida”, não devo protestar ou lamentar. Deus tinha algo em mente para permitir que tais desgraças acontecessem. Assim a teodiceia se transforma em panaceia.

É o recurso da apatia como anestesia da consciência. O exemplo paradigmático é o extermínio das vítimas do nazismo. A ordem genocida não saía da cabeça de um tresloucado, e sim de quem tinha plena (e tranquila) consciência do que fazia, como demonstrou Hannah Arendt.

A ordem inicial se desdobrava em sequência. Um dirigia o caminhão até o alojamento dos presos; outro os encaminhava ao veículo; outro ordenava se despirem e distribuía toalhas e sabão; outro apertava o botão vermelho; e, por fim, um grupo retirava os corpos da câmara de gás sem a menor ideia por que foram mortos. Processo confirmado pela descoberta, em 1980, dos relatos escritos pelo grego Marcel Nadjari e guardados no interior de uma garrafa térmica enterrada no solo de Auschwitz, onde ele, prisioneiro, fazia parte do Sonderkommando, a equipe que retirava os cadáveres das câmaras de gás (cf: https://www.bbc.com/portuguese/internacional-42193700).

Isso se repete hoje em instituições que controlam o mercado financeiro mundial, como o FMI e o Banco Mundial. Ao propor ajustes fiscais, austeridade, teto de gastos a países periféricos, seus oráculos não são movidos por um sentimento de maldade para com povos que verão agravada sua situação de pobreza. Eles seguem a lógica do sistema: esses países tomaram dinheiro emprestado de credores nacionais e internacionais e, agora, precisam honrar suas dívidas. Ainda que isso signifique aumento da mortalidade infantil e do desemprego.

Esta a lógica do poder, que nem sempre leva em conta os direitos dos subalternos. Isso vale para os casos de feminicídio, nos quais o homem agride a mulher; dos neonazistas que odeiam negros e judeus; dos internautas que vociferaram porque a Justiça permitiu que Lula, prisioneiro, comparecesse ao sepultamento do neto.

Como frisou Bachelard (1884-1962), “quanta amargura há no coração de um ser que a doçura corrói.”

CARTA A LULA, PRESO POLÍTICO

São Paulo, 07 de abril de 2019

Querido Lula,

Coincidiu eu estar junto a você nas datas de suas duas prisões. A primeira, em abril de 1980. Desde que se iniciara a greve metalúrgica no ABC paulista, e os líderes sindicais presos um a um, passei a permanecer em sua casa em apoio à família. Fui acordá-lo quando, às primeiras horas da manhã, os policiais da ditadura bateram à sua porta. Estive em sua casa até o dia de seu retorno do cárcere, um mês depois.

Em 2018, há um ano, ao escutar no rádio que a sua prisão fora decretada pelo juiz Sergio Moro, fui ao seu encontro na sede do Sindicato dos Metalúrgicos do ABC, em São Bernardo do Campo (SP), onde você dormia. De novo despertei-o e rezamos juntos.

Desde que você se encontra encarcerado em Curitiba, tive a oportunidade de visitá-lo duas vezes. A última, pouco antes do Natal. Levei a eucaristia e partilhamos o corpo e o sangue do Senhor.

Nas duas ocasiões, constatei o seu espírito forte, aguerrido. Como narrei a amigos, você se mantém a par do noticiário, lê muito, faz exercícios físicos, ouve música, assiste a programas de TV, de preferência, como me disse, na TV Aparecida: “gosto da missa das seis da tarde e dos programas de música sertaneja”.

Falei-lhe de minhas experiências de prisão. Aliás, descrita nos livros que lhe dei, como “Cartas da prisão” (Companhia das Letras) e “Diário de Fernando – nos cárceres da ditadura militar brasileira” (Rocco). O mais importante é evitar a contradição entre o corpo retido na cela e a mente, em sua incontrolável liberdade, aqui fora. Não se deixar possuir pela ânsia de liberdade a qualquer custo. Considerar o cárcere a sua normalidade, ainda que empenhe todo o seu esforço para recuperar a liberdade. E lembrar o que me disse: “Não troco minha dignidade pela liberdade”.

Mil condenações jamais haverão de sombrear o seu protagonismo na história do Brasil e a força de sua liderança popular. Quanto mais tentam esmagá-lo, mais você cresce. Em todo o mundo há mobilizações pró “Lula livre”. Ao proferir conferências no exterior e dedicá-las em sua homenagem, seu nome tem sido efusivamente aplaudido.

A prisão é um eremitério. Lugar de reflexão e aprofundamento. Sei que você tem aproveitado para avaliar acertos e equívocos dos 13 anos de governo do PT. Os acertos são sobejamente conhecidos. Basta comparar os dados sociais e económicos dos governos Temer-Bolsonaro com os períodos Lula-Dilma. Não havia esse clima de animosidade, e até ódio, que hoje divide muitas famílias e separa amigos. Vivia-se com mais civilidade e sem ameaça à democracia. Não se precisava penhorar a democracia na conta dos militares, e eles estavam onde sempre deveriam estar – nos quartéis.

Contudo, o PT não cuidou de promover a alfabetização política de nosso povo; descuidou do trabalho de base; deixou de punir com rigor desvios éticos; e jamais dominou o uso tático das redes digitais. Esse flanco vulnerável permitiu ao adversário centrar baterias no ataque ao partido, o que resultou no golpe de Temer contra Dilma e na eleição de Bolsonaro ao surfar na onda antipetista.

Agora é hora de repensar a estratégia política. Fazer autocrítica, analisar por que não houve consistente reação popular à deposição de Dilma. Nunca fui militante partidário, mas julgo que é hora de o PT se reinventar. Reatar seus vínculos com os mais pobres e excluídos, fortalecer os movimentos sociais e, sobretudo, assumir desempenho propositivo, para que o povo brasileiro vislumbre uma saída democrática ao governo Bolsonaro.

Há que resgatar a esperança e a utopia. Não se manter refém de eleições periódicas, e sinalizar um projeto de Brasil capaz de tirar o nosso país do buraco em que se encontra, e mobilizar amplos setores nacionais frente ao desafio de reduzir drasticamente a desigualdade social.

Nada haverá de calá-lo, Lula. Mesmo quando a morte o surpreender. Faça sempre de sua voz a voz dos que não têm voz nem vez, impedidos de falar e atuar. Você representa milhões de brasileiros e brasileiras que não venderam a alma às mentiras virtuais e às infundadas acusações judiciais.

Como dizia nosso amigo Henfil, ainda que esmaguem uma flor, não haverão de deter a primavera.

Meu abraço fraterno,

Frei Betto

OLIGOPÓLIO DIGITAL

Somos todos dependentes de Google, Apple, Amazon, Microsoft, Facebook e, agora, Netflix. E não há livre escolha, nossos smartphones só podem operar com os sistemas Android e IOS.

Todo o Ocidente é, hoje, colonizado pelas corporações digitais. Elas sabem o que pensamos e de que gostamos. Não por acaso o valor de mercado da Apple e da Amazon já chega a 1 trilhão de dólares cada uma! Quase metade do PIB brasileiro de 2017.

Tal concentração de poder não ocorre em nenhuma outra esfera da atividade humana. E pouco nos importamos com isso, já que os recursos que nos oferecem são úteis e confortáveis.

Segundo o Fórum Económico Mundial, entre os 20 gigantes da economia digital não aparece nenhuma empresa europeia. As cinco maiores são “made in USA”: Apple, Amazon, Alphabet (Google), Microsoft e Facebook. Os sexto e sétimo lugares são ocupados por duas gigantes chinesas, a Alibaba e a Tencent.

Todas essas empresas investem pesadamente em inovação tecnológica e, em especial, em inteligência artificial. Putin declarou, em 2017, que o país que obtiver liderança em inteligência artificial “será o dono do mundo”.

É ali, no Vale do Silício, na Califórnia, que se urde a estratégia capitalista de manipular emoções e eleições, como fez a empresa britânica Cambridge Analytica com dados do Facebook, e os bots russos (contas falsas que atuam automaticamente) nas eleições de Trump e Bolsonaro, e no referendo sobre o Brexit.

Todas essas poderosas empresas nos oferecem cada vez mais entretenimento e menos cultura, mais informação e menos conhecimento. Cultura é o que enriquece a nossa consciência e o nosso espírito. O entretenimento “fala” aos cinco sentidos e, em geral, carece de valores. Nele os “valores” são a exacerbação do individualismo, a competitividade, o consumismo e o hedonismo regados com boa dose de violência.

Quanto mais a hegemonia ideológica é controlada por esse oligopólio digital, e as finanças pelas grandes corporações bancárias e instituições como o FMI, menos democracia há no mundo. Tudo conspira para que aceitemos a proposta do sistema, trocar liberdade por segurança. Na ótica do sistema, basta olhar em volta para constatar que tudo respira violência: o noticiário da TV, novelas e filmes; memes na internet e mensagens no Facebook; a criminalidade nas ruas e a permanente insegurança do cidadão. Então, sugere a mensagem subliminar, entregue-se a quem chuta o pau da barraca da tolerância e das convenções de direitos humanos e você viverá num mundo seguro, onde nada nem ninguém haverá de ameaçá-lo.

Como a base do sistema é o consumismo compulsivo, os oligopólios põem a funcionar seus algoritmos para saber como você se identifica com milhões de pessoas na busca de determinado produto. Se você está gripado e comunica isso a amigos em sua rede digital, e outros respondem que também têm gripe, e as palavras ‘gripe’, ‘resfriado’, ‘tosse’ se multiplicam por milhões na Web, os oligopólios captam essa informação e a repassam a laboratórios e farmácias que, por sua vez, aumentam a propaganda e os preços de medicamentos na região em que foi detectada a epidemia de gripe. O mercado, sim, é capaz de lhe assegurar bem-estar e felicidade.

Quando você abre o Google para fazer uma pesquisa, inúmeros anúncios aparecem, pois são eles que sustentam o poderoso oligopólio. Na busca de, por exemplo, “Como viajar para a Amazónia”, aparecem inúmeras informações e, no fim da página, a sequência numeral indicando que há outras contendo mais dicas. Qual o critério para uma informação figurar na primeira página? Pagar por isso! Em geral a resposta à sua busca virá, na primeira página, na forma de pacotes turísticos e empresas de transportes.

Os gigantes digitais moldam o mundo à imagem e semelhança do que há de mais sagrado para o sistema: o mercado e seus astronómicos lucros apropriados pela selecta seita dos bruxos que transformam informação virtual em dinheiro real.

Edição 146, Março 2019

HARMONIA ENTRE CIÊNCIA E FÉ

O físico brasileiro Marcelo Gleiser, professor da Universidade de Dartmouth (EUA), arrebatou o Prêmio Templeton 2019, considerado o “Nobel” da espiritualidade. A fundação premiadora ressaltou ter ele dado “uma contribuição excepcional para afirmar a dimensão espiritual da vida”.

Em julho de 2010, Gleiser e eu nos trancamos quatro dias no Hotel Santa Teresa, no Rio, para dialogar sobre fé e ciência, mediados por Waldemar Falcão. Do encontro resultou o livro “Conversa sobre a fé a ciência” (Agir/Nova Fronteira), hoje fora de catálogo.

De formação judaica e órfão de mãe ainda criança, Gleiser teve a morte como primeiro desafio para encarar o além. Ainda jovem se interessou pelo taoísmo e o hinduismo, praticou ioga e, graças à leitura de Einstein, para quem nada era mais importante do que “experimentar o mistério”, descobriu que temas outrora reservados às religiões, como origens do Universo e da vida, agora eram abordados pela ciência. Recebeu ainda influência do físico e comunista brasileiro Mario Schenberg, que se declarava “materialista místico”.

Antes de nosso encontro, lemos os livros um do outro. Verificamos haver entre nós mais convergências que divergências. Admirei-me com sua abertura ao transcendente, em especial nas obras “A harmonia do mundo” e “Criação imperfeita”, em um período em que físicos como Stephen Hawking e Richard Dawkins professavam o ateísmo militante.

Gleiser admitiu ter se surpreendido com os conhecimentos de astrofísica e física quântica de um frade após ler meus livros “A obra do artista – uma visão holística do Universo” (José Olympio) e “Sinfonia Universal – a cosmovisão de Teilhard de Chardin” (Vozes).

Entender o mundo é desvendar a mente de Deus. À minha afirmação de que a ciência é o reino da dúvida, Gleiser completou que “ela se alimenta da dúvida para buscar a verdade. Não existem verdades acabadas. O processo da busca é o processo da transcendência.”

A ciência trata do “como” e a teologia do “porquê”. “Não existe incompatibilidade entre espiritualidade e ciência”, disse Gleiser. “Muito pelo contrário, o cientista dedica a vida ao estudo da natureza porque é apaixonado por ela. Essa relação é espiritual.”

Admitiu ver “a busca pelo conhecimento científico como uma grande busca espiritual, que responde a anseios que estão conosco desde tempos ancestrais. Nossa visão do mundo caminha de mãos dadas com os avanços da ciência. Nossa espiritualidade também.”

Agnóstico, o físico teórico concorda que a ideia de Deus não pode ser objeto da ciência, pois, como o amor, não é verificável. Pertence à esfera do mistério, que supera a nossa racionalidade. Talvez, opinou, a ciência jamais venha a obter a Teoria Unificada, capaz de articular todas as forças da natureza, como aspirava Hawking. E Gleiser duvida que, um dia, se possa explicar cientificamente as origens do Big Bang e da vida, e o funcionamento da mente, ainda que o cérebro esteja quase todo mapeado, bem como o mecanismo de suas ondas elétricas.

Gleiser e eu entendemos que não se deve confundir religião e espiritualidade. A primeira é uma instituição, a segunda, uma experiência, assim como na distinção entre família e amor. E ambos consideramos que o esteio da espiritualidade é a meditação. Em um lago próximo à sua casa, em Hanover, praticava o fly fishing, pesca com isca artificial, em que os peixes são devolvidos vivos à água; o objetivo é esvaziar a mente do pescador. “A meta final de qualquer prática de meditação é você se desidentificar de sua mente”, ressaltou.

Premiar Marcelo Gleiser representa significativo libelo contra a intolerância religiosa e a obsessão de pretender divinizar a ciência e desprestigiar a fé. 

A VIDA TEM SENTIDO?

Hélio Pellegrino dizia que eu daria um bom psicanalista. Eu retrucava que a diferença entre nós é que ele marcava hora e eu não; ele cobrava e eu não...

Nós frades, padres e pastores, com frequência somos procurados por pessoas angustiadas em busca de ouvidos atentos e palavras de consolo. Supõem que, pela função que nos reveste, somos todos éticos e capacitados a guardar confidências devido ao rigor do segredo de confissão.

O perigo é quando o religioso se julga capaz de substituir o terapeuta ou se convence de que é, de facto, um guru merecedor de discípulos que o incensam de admiração. Por vezes essa dependência descamba para abusos sexuais. A prostituta entrega o corpo, mas não a alma. E quem entrega a alma torna o corpo vulnerável.

Viktor Frankl (1905-1997), psiquiatra austríaco fundador da logoterapia, tinha por hábito indagar após ouvir o desabafo de seus pacientes: “Por que você não se mata?” Sim, se a vida é tão sofrida e os problemas parecem insolúveis, por que insistir em continuar vivendo?

Havia sempre um “gancho”, uma razão que impedia a pessoa de dar fim à existência: “Não me mato por causa de minha filha”; “Porque tenho fé”; “Porque quero acabar de pagar as prestações do imóvel de minha família” etc.

O que diferia Frankl de Freud é que este considerava a frustração sexual causa de muitas angústias, enquanto o primeiro apontava como causa a vontade intencional, ou seja, a falta de sentido para a existência.

Quantos jovens demonstram, hoje em dia, angústia diante da vida? Fazem terapia, vivem sob medicação, movem-se de uma atividade a outra sem que nenhuma delas os satisfaça. Alguns se refugiam no álcool ou nas drogas, como se a vida fosse um peso insuportável que exige muleta como ponto de apoio. Outros, como os assassinos de Suzano (SP), transformam o ressentimento em violência letal, sacrificando vidas alheias e as próprias.

Não lembro de ter visto tanto desalento juvenil na década de 1960, aos meus 20 anos. Talvez porque a geração dos “anos dourados” fosse viciada em... utopia! Não queríamos mudar apenas o corte de cabelo e os ditames da moda. Queríamos mudar o Brasil e o mundo.

Então, o adjetivo novo definia o otimismo reinante – a bossa nova, o cinema novo, os Novos Baianos etc. Consumir ideias e cultura era mais importante do que adquirir um carro novo.

O neoliberalismo, em doses cavalares de hedonismo e consumismo, consegue agora narcotizar boa parcela da juventude entre 15 e 30 anos. Parcela que ancora seus sonhos em torno de quatro supostos valores: riqueza, beleza, fama e poder. Nem todos querem tudo. As preferências recaem no sonho de ficar rico e preservar uma aparência física sedutora de quem descobriu o elixir da eterna juventude.

Há, contudo, enorme contingente de jovens que, apesar das dificuldades que enfrentam (falta de renda, emprego, estudos qualificados) sentem-se felizes por abraçarem um projeto de vida. Encontraram um sentido pelo qual a vida vale a pena.

Há aqueles cujo sentido é meramente de caráter pessoal, como se tornar um bom profissional ou constituir uma família. Muitos, porém, têm um sentido altruísta, fazem de suas vidas um serviço para que outros tenham vida. É dessa seara que brotaram pessoas como Betinho, Chico Mendes, Marielle Franco, Gandhi, Mandela e Luther King.

Entre os jovens que se engajam em projetos sociais há aqueles que, dotados de ideologia elitista, se empenham em aprimorar os mecanismos institucionais que visam reprimir e combater os efeitos nocivos da desigualdade social (menores infratores, criminalidade etc), sem jamais se perguntarem pelas causas de tais males.

E há aqueles que, sensibilizados pelos efeitos, se mobilizam para atacar as causas. Estes são tidos como inimigos pelo neoliberalismo. Daí a Escola Sem Partido, a militarização da educação, os ataques a todos aqueles que ousam denunciar que o rei está nu.

O facto é que só há perseverança onde há esperança. E mais temem a morte aqueles que menos souberam dar valor à vida.

BRASIL, DECLÍNIO SOCIAL E ECONÓMICO

O IBGE divulgou, na última semana de fevereiro, que o desemprego voltou a crescer no Brasil. Agora são 12,7 milhões de pessoas. Quem se encontra nessa situação, ou já passou por isso, sabe como é terrível estar desempregado. A autoestima se reduz, as incertezas assustam, a insegurança se aprofunda. Como pagar o aluguel, o gás, a luz, o telefone, e as prestações dos eletrodomésticos?

O trabalho é o nosso fator de identidade social. Quando somos apresentados a uma pessoa não basta saber-lhe o nome. Paira a pergunta: e o que faz? A resposta qualifica socialmente o interlocutor.

Segundo levantamento do Instituto de Economia da Fundação Getúlio Vargas, no final de 2018 a desigualdade se agravou devido à dificuldade de os trabalhadores menos qualificados aumentarem seus rendimentos. O governo modificou os critérios de aumento anual do salário mínimo, o que reduziu o poder aquisitivo dessa parcela da população.

Desde 2015 o salário mínimo não tem ganho real, porque o PIB, que mede a riqueza do país, encolheu em 2015 e 2016. E piorou com a reforma trabalhista da gestão Temer, porque o emprego informal, quase sempre desqualificado, passou a pagar salários indignos, muito aquém das necessidades básicas dos empregados.

O Brasil é, hoje, o 9º país mais desigual do mundo, e o 1º da América Latina. Os outros oito países mais desiguais ficam todos na África. Hoje, a renda média da metade mais pobre da população é de R$ 787,69 por mês, inferior ao valor do salário mínimo (R$ 998). Sessenta por cento dos brasileiros sobrevivem com menos de um salário mínimo por mês.

Em 2016, os pobres tinham renda média de R$ 217,63. No ano seguinte, R$ 198,03. Perda de 9%. Já os 10% mais ricos tiveram 2,09% de aumento na renda, que chegou a R$ 9.519,10 por mês. Desses 10%, 12 milhões ganharam até R$ 17,8 mil de renda tributável. E a parcela de 1% mais rico, que abrange 1,2 milhão de brasileiros, teve rendimento médio superior a R$ 55 mil por mês (Oxfam).

Portanto, ainda que o PIB volte a crescer, isso não significa que haverá aumento da renda dos trabalhadores. A desigualdade é agravada pela apropriação abusiva que uma pequena parcela da sociedade faz da riqueza nacional.

O Brasil é um país de jovens. Nessa faixa etária, segundo a ONU (Pnud), o desemprego em nosso país é de 30,5%, o maior percentual da América do Sul. E 1 em cada 4 jovens integra o time dos “nem nem”, ou seja, aqueles que nem trabalham nem estudam.

Ora, não é preciso ter bola de cristal para saber como esses jovens conseguem bancar seus gastos. Ou desfrutam de renda alheia (família, herança etc) ou recorrem a atividades ilícitas (narcotráfico, contrabando, roubos etc).

Os economistas do FMI e do Banco Mundial, que controlam as finanças internacionais, defendem que, para o Brasil crescer, é preciso impor austeridade, promover ajuste fiscal, respeitar o teto de gastos e fazer a reforma da Previdência. Como diz Stiglitz, Prêmio Nobel de Economia (2001), o capitalismo só cresce se contar com produtores e consumidores. Mas hoje o sistema tem como foco principal a financeirização da economia, denunciada por Piketty.

Com um PIB de R$ 6,3 trilhões, o Brasil é um país rico. Daria para toda a nossa população viver muito bem. Somos 208 milhões de habitantes. Dividido o valor do PIB pelo número de habitantes, cada um teria uma renda anual de R$ 30 mil. Ou R$ 10 mil por mês para cada família de 4 pessoas, o que asseguraria a todos uma vida digna.

Portanto, como alerta o economista Ladislau Dowbor, o problema brasileiro não consiste na falta de recursos. Reside na falta de justiça e de distribuição da renda.

SERMÃO DO CARNAVAL

Festejai! Dançai! Diverti ó nobres pecadores! Trazei às ruas vossas fantasias, as que se abrigam nos baús e as que fervilham em vossas mentes! Eis que chega o Carnaval! E, agora, toda carne se fará verbo.

Não fujais à alegria de Momo. A vida é breve, os dias árduos, os sofrimentos frequentes e as dores, muitas. Sobrepairam tempos sombrios de mentiras oficiais, de esperanças minguadas, de direitos castrados. Não percais o ânimo de escalar o apogeu. Entoai alvíssaras do alto dos morros e do cume dos prédios!

Não vos omitais da euforia popular. Nuvens carregadas insistem em cegar o sol e coturnos pesados esmagam o asfalto. Tempestades brotam até do chão, em forma de lama. Portanto, não deixeis de se incorporar aos cordões que volteiam alegres às vossas portas. Lançai serpentinas e confetes por vossas cabeças e inebriai de êxtases os vossos corações.

Integrai-vos todos - crianças, idosos, abastados e desdentados -, aos blocos que colorem de cantos e encantos todos os recantos da cidade. Não permitais que nos roubem o júbilo, a exaltação do espírito, a euforia que se apodera de razão e propaga emoção. Não deis espaço ao desalento, desacreditai a tristeza, impedi que as más notícias soneguem o júbilo do pierrô e da colombina.

Evocai os deuses, os orixás e os espíritos benfazejos para que nos festejos reine a mais irrevogável democracia, na qual as antinomias se fundem, as contradições se volatilizam, o futuro se avizinha quando o ajudante de pedreiro exibe sua majestade encimada pela coroa dourada e a faxineira descida da favela se revela rainha no cortejo triunfal.

Ide todos aos desfiles! Juntai-vos à multidão daqueles que tanto incomodam aos arautos ressentidos do moralismo exacerbado: homossexuais, travestis, indígenas, quilombolas, moradores de rua, comunistas e adeptos do papa Francisco. Proclamai o direito à diferença sem que prevaleça a divergência. Fazei vibrar os dedos das mãos sobre vossas cabeças, qual revoar de abelhas besuntadas de mel, antes que o indicador e o polegar se paralisem em simulacro bélico.

Não oculteis sob a vergonha o que Deus não se envergonhou de ter criado. Reverenciai a sacralidade da nudez, a do corpo e a da alma, para que a transparência predomine sobre a obscuridade. Tende em conta que a indecência não reside no que se expõe à vossa frente, e sim em vossos olhos desviados da inocência. Ousai todos manifestar a soberania da arte, livre de todas as amarras da censura.

Desfilai pelo sambódromo e exibi, na sumptuosidade dos carros alegóricos, a pujança da Amazônia ameaçada pela voracidade do lucro; as alegorias dos casais que se unem por amor, alforriados da ditadura hétero; as utopias libertárias do século XX, que induziram tantos jovens a se viciarem em utopia, livres das sombras necrófilas de supostas filosofias eivadas de ódio; a bateria rítmica que celebra com seus tambores o direito à vida dos rejeitados pelo crivo assassino da desigualdade social.

Vinde todos entoar o samba-enredo da magia carnavalesca nessa quarta-feira de cinzas iniciada desde o primeiro dia do ano. Na festa de Momo são exaltados os humilhados, celebrados os descartados, reverenciados os ofendidos. Limpai vossas gargantas, apurai vossas vozes, cantai a plenos pulmões para que o Carnaval se dissemine por corações e mentes e se prolongue por dias e anos vindouros.

Abri alas para que a felicidade alcance o quanto antes a praça da apoteose. E que todos os olhos se voltem para os céus e contemplem, eufóricos, na passarela do tempo, o rodopiar das cabrochas fantasiadas de planetas em torno do mestre-sala sol em seu brilho esfuziante, a lua de porta-bandeira, e todo o Universo em incessante baile no espaço sideral.

Edição 145, Fevereiro 2019

GOVERNO BOLSONARO E SÍNODO PAN-AMAZÔNICO

O noticiário desta semana informa que os cardeais brasileiros estão sendo espionados pela Abin (Agência Brasileira de Inteligência), que relata ao governo recentes encontros deles com o papa Francisco, no Vaticano, para prepararem o Sínodo (do grego, ‘caminhar juntos’) sobre a Amazônia, a se reunir em outubro, em Roma.

“Estamos preocupados e queremos neutralizar isso aí”, declarou o general Augusto Heleno. Isso faz recordar a famosa pergunta de Stálin na Segunda Grande Guerra: “Quantas divisões possui o Vaticano?”

Segundo o Documento Preparatório do Sínodo, predomina na Amazônia a “cultura do descarte”, somada à mentalidade extrativista, que convertem o planeta em lixão. “A Amazônia, região com rica biodiversidade, é multiétnica, pluricultural e plurirreligiosa, um espelho de toda a humanidade que, em defesa da vida, exige mudanças estruturais e pessoais de todos os seres humanos, dos Estados e da Igreja”. (...) “É de vital importância escutar os povos indígenas e todas as comunidades que vivem na Amazônia, como os primeiros interlocutores deste Sínodo”.

A Igreja denuncia situações de injustiça na região, como o neocolonialismo das indústrias extrativistas, projetos de infraestrutura que destroem a biodiversidade, e imposição de modelos culturais e econômicos estranhos à vida dos povos.

Nos nove países que compõem a Pan-Amazônia (Brasil, Bolívia, Colômbia, Equador, Guiana, Peru, Suriname, Venezuela, incluindo Guiana Francesa como território ultramar), registra-se presença de três milhões de indígenas, no total de 390 povos. Vivem nesse território também entre 110 a 130 “Povos Indígenas em Situação de Isolamento Voluntário”.

A bacia amazônica representa uma das maiores reservas de biodiversidade (30 a 50% da flora e fauna do mundo); de água doce (20% da água doce não congelada de todo o planeta); e possui mais de 1/3 das florestas primárias.

Segundo os bispos, “o crescimento desmedido das atividades agropecuárias, extrativistas e madeireiras da Amazônia, não só danificou a riqueza ecológica da região, de suas florestas e de suas águas, mas também empobreceu sua riqueza social e cultural, forçando um desenvolvimento urbano não integral nem inclusivo da bacia amazônica.”

Lamentavelmente, “ainda hoje existem restos do projeto colonizador que criou manifestações de inferiorização e demonização das culturas indígenas. Tais resquícios debilitam as estruturas sociais indígenas e permitem o desprezo de seus saberes intelectuais e de seus meios de expressão.”

O papa Francisco afirmou em Puerto Maldonado, Peru, em janeiro de 2018: «Provavelmente, nunca os povos originários amazônicos estiveram tão ameaçados nos seus territórios com o estão agora».

O pontífice denunciou esse modelo de desenvolvimento asfixiante, com sua obsessão pelo consumo e seus ídolos de dinheiro e poder. Impõem-se novos colonialismos ideológicos disfarçados pelo mito do progresso que destroem as identidades culturais próprias. Francisco apela à defesa das culturas e à apropriação de sua herança, que é portadora de sabedoria ancestral. Essa herança propõe uma relação harmoniosa entre a natureza e o Criador, e expressa com clareza que «a defesa da terra não tem outra finalidade senão a defesa da vida».

Hoje, o grito da Amazônia ao Criador é semelhante ao grito do Povo de Deus no Egito (cf. Ex3,7). É um grito desde a escravidão e o abandono, que clama por liberdade e escuta de Deus. Grito que pede a presença de Deus, especialmente quando os povos amazônicos, ao defenderem suas terras, têm seu protesto criminalizado, tanto por parte das autoridades como da opinião pública. 

PÓS-MODERNIDADE E COMUNICAÇÃO

Pós-modernidade é sinônimo de explosão comunicativa. Estamos cercados da parafernália eletrônica destrinchada pelas análises de Adorno, Hockeimer, MacLuhan, Walter Benjamin e outros. Ela reduz o mundo a uma aldeia que se intercomunica em tempo real. Porém, enquadrada em uma paisagem cultural hegemônica, que Boaventura de Sousa Santos qualifica de monocultura. A espetacularização da notícia procura naturalizar a imagem midiática, como se o mundo fosse o que vemos na TV ou na Internet.

Tudo isso molda-nos a identidade. Não há como configurá-la de outro modo. Somos vulneráveis à multimídia. E nunca a comunicação foi tão ágil, rápida e fácil, embora cara. Sem sair da cama, podemos saber o que ocorre na Ásia, falar ao telefone com um nepalês, entrar em um site de bate-papo e nos enturmar com um bando de jovens do Brooklin. À audição (rádio) somam-se a visão (foto, cine, TV) e a fala (telefone e Internet). Faltam apenas o cheiro e o contato epidérmico, o toque.

Diante de todo esse cipoal comunicativo levanta-se uma questão: e a intercomunicação pessoal, tão valorizada por Habermas? Quantos pais “acessam” os filhos? Como é a conversa olho no olho? Comunicação que se faz comunhão, interação, e que transmite, não apenas emoção de imagens e sons, mas algo mais profundo – afeto.

Reféns da tecnologia, sem aparatos eletrônicos temos dificuldade de dialogar com o próximo. Nossos avós punham a cadeira na varanda, e até mesmo na calçada, e ficavam horas jogando conversa fora. Hoje, a ansiedade dificulta o diálogo interpessoal. Preferimos a comunicação virtual, mental, mas não a corporal. O corpo se transforma em território do silêncio das palavras, embora se cubra de adornos que “falam”, como a roupa, a esbelteza malhada, os gestos...

Nessa “fala” o corpo simula (faz de conta ser o que não é) e dissimula (esconde o que de fato é). Por isso, a comunicação interpessoal é arriscada, pois tende a desmascarar, trair, revelar contradições. O corpo sou eu e eu não sou tão bom quanto a imagem que projeto de mim mesmo. Como cavaleiro medieval, visto uma armadura que encobre a minha verdadeira identidade, a armadura pós-moderna da parafernália eletrônica. Ela me salva. Permite-me ser conhecido por uma imagem mediatizada pela multimídia ou, no contato pessoal, pelos adornos que me imprimem cheiro de grife.

Nu, sou um fracasso, uma decepção frente à minha baixa autoestima. Ainda mais se acrescento à nudez o que me desnuda por dentro, a fala. Não é por outra razão que os ícones projetados pela mídia – modelos, artistas, atletas, ricos - não falam. São fotografados e expostos excessivamente, mas nada se sabe do que pensam, em que acreditam, que valores abraçam ou que visão de mundo têm. São seres belos, porém silenciados. Se abrirem a boca, o balão desinfla, o encanto desaparece, a carruagem vira abóbora.

Não é fácil o verbo se fazer carne. Graças à multimídia, o verbo se faz caro e raro. É virtualizado para ser esvaziado de significado. Assim, não nos sentimos desafiados. Na imagem, a catástrofe é épica; na minha esquina, trágica. E ao contemplar o épico me iludo de que vivo em uma ilha imune à dor e ao sofrimento. E suporto a reclusão do silêncio temendo que a minha palavra se faça carne, ou seja, revele quem realmente sou - este ser frágil, carente, que ainda não descobriu a diferença entre prazer, alegria e felicidade.

Por isso, costumam ser complicadas as relações familiares e de grupos que compartilham o mesmo espaço virtual, como toda relação confinada em um mesmo espaço. Não se desfila dentro de casa. No cotidiano, a imagem é atropelada pelas emoções. É o que Buñuel desvela no filme “O discreto charme da burguesia”. No espaço doméstico emerge o nosso lado avesso – aquela pessoa que realmente somos, sem maquiagens de bens, funções e adornos.

Para conviver fora de casa, vestimos a armadura. Vamos para a guerra, para o reino da competição e do sucesso a qualquer preço. Não podemos, portanto, mostrar a cara. Protegem-nos a parafernália eletrônica e o diálogo virtual. Somos o que não aparentamos e aparentamos o que não somos. Eis a pós-verdade, o paradoxo que a pós-modernidade nos impõe.

CADÊ A CULTURA POLÍTICA?

Cadê o novo? Cadê a moralidade? Dá vontade de fazer eco a Stanislaw Ponte Preta: “Restaure-se a moralidade ou locupletemo-nos todos!”

De nada adianta o desalento. É entregar o ouro ao bandido. Desopilar o fígado nas redes digitais é acender fósforo para conferir se há gasolina no tanque...

A questão é mais profunda: não conseguimos criar no Brasil uma cultura política. A tradição patrimonialista, o mandonismo, o nepotismo, tudo isso esgarça o tecido de nossas instituições democráticas. A maioria se elege ou ocupa cargos públicos de olho nos proveitos pessoais e corporativos. Poucos têm princípios éticos e objetivos claros de serviço ao bem comum. Bastou aparecer a primeira boquinha de uma viagem à China e lá se foi, alvoroçado, um bando de deputados felizes com a mordomia.

A estrutura do Estado é vista como uma grande vaca, na qual cada um busca a teta mais gorda para a sua boca. O discurso da urgente contenção de gastos é como o sermão do padre que, ao celebrar missa para os alcoólicos anônimos, enchia seu cálice de vinho.

“Façam o que digo e não o que faço”. São sempre os outros que devem apertar o cinto em nome da salvação nacional. Nunca os políticos, os magistrados e os militares. “Nada é o bastante para quem considera pouco o suficiente”, já alertava Epicuro, no século IV a.C. Na apertada balsa que pretende conduzir a nação a um futuro melhor, atirem-se ao mar os sem mandato, os sem toga e os sem farda. Alguém deve pagar a conta. E ela sobra, invariavelmente, para os mais pobres.

Por que, no Brasil, soa como ofensa falar em imposto progressivo? Nessa descultura da boca pra fora, sobejam elogios à Noruega, Dinamarca e Suécia, onde vigora uma cultura política de fortes raízes. Mas aqui ninguém está disposto a ceder um grão de mordomia. O trio (mandato, toga e farda) do privilégio (termo que deriva de ‘lei privada’, que vale para uns e não para todos) não abre mão do auxílio-moradia, do plano de saúde especial, de carros e viagens aéreas pagas pelo contribuinte, férias prolongadas, seguranças etc. Essa gente nunca leu Platão e Aristóteles, Montesquieu e Rousseau, Habermas e Bobbio, e aprecia Gandhi e Mandela apenas como retratos na parede.

E cadê a oposição? Dizem que a esquerda (se é que ainda existe) só se une na cadeia... De fato, o caciquismo impede as forças da oposição de terem uma estratégia e um programa comuns. As críticas à situação são pontuais. E quase sempre emocionais, de pretender desconstruir o adversário, não por argumentos convincentes, e sim pela ridicularização e a galhofa.

Qual a proposta alternativa da oposição à reforma da Previdência? E à retomada do crescimento, combate ao desemprego e melhoria da saúde e da educação? Cadê o trabalho de base, os vínculos orgânicos com as classes populares, a alfabetização política?

Apesar de tudo, não nos resta outra via fora da política. Pode-se odiá-la, repudiá-la ou ficar indiferente a ela. Mas é ela que determina a nossa qualidade de vida, como trabalho, moradia, alimentação e saúde. Quem não gosta de política é governado por quem gosta. E tudo que os maus políticos desejam é que fiquemos alheios à política. Assim, damos carta de alforria aos corruptos, nepotistas e similares.

Mas como criar uma cultura política se a Escola sem Partido pretende proibir o tema nas salas de aula? Nossa incultura política é tão rasteira que, em vez de o Estado cumprir a sua função constitucional de dar segurança à nação, ele libera a posse de armas. E há quem esteja de acordo com o “cada um que se defenda!” E seja o que Deus não quer...

TENHA UM EXCELENTE DIA

Ao viajar pelo Oriente, mantive contatos com monges do Tibete, da Mongólia, do Japão e da China. Eram homens serenos, comedidos, recolhidos e em paz nos seus mantos cor de açafrão. Outro dia, eu observava o movimento do aeroporto de São Paulo: a sala de espera cheia de executivos com telefones celulares, preocupados, ansiosos, geralmente comendo mais do que deviam. Com certeza, já haviam tomado café da manhã em casa, mas como a companhia aérea oferecia um outro café, todos comiam vorazmente. Aquilo me fez refletir: 'Qual dos dois modelos produz felicidade?'

Encontrei Daniela, 10 anos, no elevador, às nove da manhã, e perguntei: 'Não foi à aula?' Ela respondeu: 'Não, tenho aula à tarde'. Comemorei: 'Que bom, então de manhã você pode brincar, dormir até mais tarde'. 'Não', retrucou ela, 'tenho tanta coisa de manhã...' 'Que tanta coisa?', perguntei. 'Aulas de inglês, de balé, de pintura, piscina', e começou a elencar seu programa de garota robotizada. Fiquei pensando: 'Que pena, a Daniela não disse: 'Tenho aula de meditação! Estamos construindo super-homens e super mulheres, totalmente equipados, mas emocionalmente infantilizados.

Uma progressista cidade do interior de São Paulo tinha, em 1960, seis livrarias e uma academia de ginástica; hoje, tem sessenta academias de ginástica e três livrarias! Não tenho nada contra malhar o corpo, mas me preocupo com a desproporção em relação à malhação do espírito. Acho ótimo, vamos todos morrer esbeltos: 'Como estava o defunto?'. 'Olha, uma maravilha, não tinha uma celulite!' Mas como fica a questão da subjetividade? Da espiritualidade? Da ociosidade amorosa?

Hoje, a palavra é virtualidade. Tudo é virtual. Trancado em seu quarto, em Brasília, um homem pode ter uma amiga íntima em Tóquio, sem nenhuma preocupação de conhecer o seu vizinho de prédio ou de quadra! Tudo é virtual. Somos místicos virtuais, religiosos virtuais, cidadãos virtuais. E somos também eticamente virtuais...

A palavra hoje é 'entretenimento'; domingo, então, é o dia nacional da imbecilização coletiva. Imbecil o apresentador, imbecil quem vai lá e se apresenta no palco, imbecil quem perde a tarde diante da tela. Como a publicidade não consegue vender felicidade, passa a ilusão de que felicidade é o resultado da soma de prazeres: 'Se tomar este refrigerante, vestir este tênis, usar esta camisa, comprar este carro,você chega lá!' O problema é que, em geral, não se chega! Quem cede desenvolve de tal maneira o desejo, que acaba precisando de um analista. Ou de remédios. Quem resiste, aumenta a neurose.

O grande desafio é começar a ver o quanto é bom ser livre de todo esse condicionamento globalizante, neoliberal, consumista. Assim, pode-se viver melhor. Aliás, para uma boa saúde mental três requisitos são indispensáveis: amizades, autoestima, ausência de estresse.

Há uma lógica religiosa no consumismo pós-moderno. Na Idade Média, as cidades adquiriam status construindo uma catedral; hoje, no Brasil, constrói-se um shopping-center. É curioso: a maioria dos shoppings-centers tem linhas arquitetônicas de catedrais estilizadas; neles não se pode ir de qualquer maneira, é preciso vestir roupa de missa de domingo. E ali dentro sente-se uma sensação paradisíaca: não há mendigos, crianças de rua, sujeira pelas calçadas...

Entra-se naqueles claustros ao som do gregoriano pós-moderno, aquela musiquinha de esperar dentista. Observam-se os vários nichos, todas aquelas capelas com os veneráveis objetos de consumo, acolitados por belas sacerdotisas. Quem pode comprar à vista, sente-se no reino dos céus. Deve-se passar cheque pré-datado, pagar a crédito, entrar no cheque especial, sente-se no purgatório. Mas se não pode comprar, certamente vai se sentir no inferno... Felizmente, terminam todos na eucaristia pós-moderna, irmanados na mesma mesa, com o mesmo suco e o mesmo hambúrguer do Mc Donald...

Costumo advertir os balconistas que me cercam à porta das lojas: 'Estou apenas fazendo um passeio socrático.' Diante de seus olhares espantados, explico: 'Sócrates, filósofo grego, também gostava de descansar a cabeça percorrendo o centro comercial de Atenas. Quando vendedores como vocês o assediavam, ele respondia:...

"Estou apenas observando quanta coisa existe de que não preciso para ser Feliz"!!!

Tenha Um Dia Excelente

Edição 144, Janeiro 2019

Com cáustico Humor político

A TERRA É PLANA!

Homem de fé que sou, e ainda mais mineiro, sempre desconfiei dessa ciência influenciada pelo marxismo. Se a Terra fosse redonda e girasse em torno do próprio eixo, no mínimo deveríamos sentir tonturas. Esse preconceito contra o geocentrismo de Ptolomeu decorre dos malévolos conceitos paulofreirianos assumidos por Copérnico e Galileu. Eles adotaram o princípio marxista de que o lugar social determina o lugar epistémico, e ao retirar os pés da Terra para fixá-los no Sol, inventaram a teoria do heliocentrismo. Ora, basta erguer os olhos ao céu e constatar que o Sol gira em torno da Terra, caso contrário não haveria dia e noite.

Não há nada de anacronismo quando acuso Copérnico e Galileu de influência marxista. Nosso chanceler, Ernesto Araújo, já demonstrou que as teorias de Marx, tão perniciosas, precedem o próprio Marx, pois, segundo ele, o “marxismo cultural globalista” teve como marco inicial a Revolução Francesa.

Outro absurdo pretensamente científico, que espero seja corrigido pela Escola sem Partidos, é a teoria de que nós, seres humanos, descendemos dos símios. Somos descendentes diretos de Adão e Eva! Está na Bíblia! Decorremos da Criação divina, e não desses macacos que se dependuram com o rabo nos galhos, enquanto descascam bananas com as mãos.

Sim, sei que Adão e Eva tiveram dois filhos homens, Caim e Abel. O facto de estarmos aqui explica-se porque ao menos um deles transou com a mãe. Contudo, na época o incesto ainda não era pecado. No máximo, um mal necessário, como hoje a liberação de armas de fogo para a defesa da vida.

O marxismo é como essas partículas de poeira que flutuam no ar e são vistas apenas quando forte incidência de raio solar atravessa à nossa frente. Toda a nossa cultura, em especial a história e a arte, está contaminada pelo marxismo. Afirmar que Moisés libertou os escravos do Egito é pura ideologia. Não havia escravos às margens do Nilo, havia servos. E o grande feito de Moisés não foi libertar escravos, e sim abrir caminho para os hebreus, em terra seca, entre as águas do Mar Vermelho (que, de facto, era ocre, mas a influência comunista...).

Não existe Estado laico. Há que se definir, ou é de Deus ou é do diabo. É pura ideologia colocar a ciência acima da fé e afirmar que o Estado é laico numa nação cristã.

Já que o super-ministério da Economia já sabe como reduzir o desemprego, e os problemas de saúde podem encontrar cura na igreja da esquina, faz bem o governo em liberar, como primeiro grande gesto da nova gestão, a posse de armas! O Estado precisa conter gastos e a segurança pública é onerosa. Melhor que cada cidadão se defenda como pode!

E se uma criança acessar a arma do pai?, indagam mães preocupadas. Ora, esclarece o ministro, arma é menos perigosa que liquidificador. No entanto, não se cogita descartar esse eletrodoméstico. O que faltou ao ministro explicar é que, como o nome do aparelho alerta, liquidificador, além de triturar tenras mãozinhas, é uma arma indelével, fica a dor...

Ora, chegou a hora de dar um basta nessas ideologias nefastas que confundem a cabeça do povo. O politicamente correto é científica e teologicamente incorreto.

RELAÇÃO FÉ E POLÍTICA

Fé e política têm, em última instância, o mesmo objetivo de criar uma sociedade na qual todos vivam com iguais direitos e oportunidades, e sem antagonismos de classes. Se as duas visam a aprimorar a nossa convivência social, também podem servir para dominar, como a fé dos fariseus ou a política dos opressores.

A fé é um acto pelo qual o ser humano se posiciona diante do mistério de Deus. A política é a ferramenta de construção da sociedade de justiça e liberdade. Orienta-se por algo que não é próprio da fé, como as estratégias de realização do bem comum.

A vivência da fé é necessariamente política. No céu não haverá fé. Vive-se a fé em uma comunidade politicamente situada. Quando a comunidade religiosa afirma que só faz religião, não sabe o que diz ou mente para encobrir com a fé os seus reais interesses políticos. Toda comunidade religiosa aparentemente apolítica só favorece a política dominante, ainda que injusta.

Jesus, em razão da sua fé, morreu assassinado como prisioneiro político. Como Jesus, o cristão deve viver sua fé no compromisso libertador com os mais pobres. Seja qual for o modo de o cristão viver seu compromisso evangélico, ele sempre terá consequências políticas. Pode sacralizar a desigualdade social ou favorecer a sua erradicação.

O Concílio Vaticano II reconheceu a autonomia da política. E ela pode ser bem feita por quem não tem fé. E nem sempre os que têm fé fazem política bem feita. Um ateu pode fazer uma política justa, favorável à maioria da população, assim como há muitos cristãos corruptos que buscam na política proveitos pessoais.

É uma antinomia falar em política “cristã”. A política jamais deve ser confessionalizada. Em princípio, ela representa os anseios de crentes e descrentes. Deve haver uma política justa, democrática, voltada para a maioria. E uma política assim inevitavelmente incorporará os valores da fé, como a libertação dos pobres e a construção da sociedade sem desigualdades.

A fé não tem receitas para resolver administrativamente problemas como dívida pública, reforma da Previdência ou melhoria da saúde. Isso é tarefa da política. A fé mostra o sentido da política: dar vida a todos. O jeito de fazê-lo depende da política. Se esta for injusta, muitos estarão privados das condições mínimas de dignidade e alcance da felicidade.

Fé e política são instâncias diferentes que se completam na prática da vida. A fé exige participação em uma comunidade religiosa para ser cultivada. A política exige participação nas demandas populares e o conhecimento dos problemas sociais para ser consequente.

A política deve se pautar por valores que, em geral, coincidem com os valores das propostas religiosas, como direitos dos excluídos, vida para todos, partilha de bens, poder como serviço, e outros. Sem esses valores, a política vira politicagem, e a corrupção produz a inversão que prioriza o pessoal ou o corporativo em detrimento do social e do coletivo.

Isso não significa que a política deva ser feita em nome da fé. Deve ser feita em nome do amor, da verdade e da justiça. O bem comum é o que importa, e não os interesses de determinado segmento religioso. Jesus não veio ao mundo fundar uma religião. Veio para que “todos tenham vida e vida em abundância” (João 10, 10).

O DIABO NA CORTE

Conta um velho manuscrito carolíngio que, certa feita, decidiu o diabo instalar-se em plena corte de um rei que se julgava verdadeiro messias. Dos súditos se exigia não apenas obediência, mas sobremaneira devoção.

Como sabem todos, etimologicamente diabo é antónimo de símbolo. Se este une e agrega, aquele divide e confunde. E era exatamente este o intuito do diabo, semear na corte a mais intensa confusão.

O rei se tomou de perplexidade e ódio ao ver seus propósitos reduzidos à galhofa. O que ele dizia pela manhã era desmentido à tarde por seus ministros. Se prometia aumentar impostos, logo seus acólitos se apressavam a esclarecer que ele se equivocara. Se um ministro demonstrava a intenção de vender aos barões parte do patrimônio do reino, logo Sua Majestade tratava de contradizê-lo e reafirmar que certos bens estratégicos do reino não poderiam ser alienados.

O diabo, em sua esperteza maléfica, tratou de semear uma das mais eficazes pragas: a confusão semântica. As palavras viram seus significados se esvaziar ou ser trocados, a ponto de uma princesa ousar confessar em público ser uma pessoa “terrivelmente religiosa”. Consultasse ela um dos vernaculistas do reino, saberia que o advérbio deriva de “terrível, que causa ou infunde terror”, conforme aclarou o sábio Michaelis. E o monge carolíngio copista do importante manuscrito fez esta glosa que tanto agradou o diabo: “Uma religiosidade terrível nada tem a ver com o bom Deus”.

A mesma nobre autoridade ousou decretar que, no reino, meninas deveriam trajar rosa e, meninos, azul. O diabo esfregou as mãos de satisfação. Os daltônicos, por temerem incorrer em erro, preferiram sair nus à rua, o que suscitou uma onda de escândalos. Os que haviam nascido menina e, no entanto, se sabiam menino, vestiram-se de rosa, e os meninos que se sabiam meninas trajaram o azul, o que os tornou alvo de severos castigos.

Por injunção do diabo, toda e qualquer pluralidade foi banida do reino, impondo-se a mais estrita dualidade. Quem não era amigo, era inimigo. E para que tal dualidade não sofresse a menor ameaça de ser contaminada pela dialética, baniu-se do reino o Ministério da Cultura. Pensar, antes considerado um estorvo, passou à categoria de crime. Foi extinto ainda, entre outros, o Ministério do Trabalho, já que o diabo incutiu na nobreza ser muito mais lucrativo o trabalho escravo que o assalariado, tão oneroso para as burras de marqueses e condes.

Não satisfeito em provocar tamanha confusão no reino, o diabo decidiu agir na educação dos súbditos. Para o rei, todos os monarcas que o precederam haviam envenenado a educação com a famosa peste do ismo, contaminando de tal modo a visão dos educandos que enxergavam vermelho onde havia verde. Assim, Sua Majestade buscou, entre os 90 mil professores de ensino superior do reino, um capaz de extirpar tão ameaçadora doença. Não encontrou um sequer. Viu-se obrigado a importar do reino vizinho um professor tido como suficientemente capaz para velar por uma educação desprovida de qualquer senso crítico e protagonismo social. A higienização das mentes muito agradou os propósitos do diabo.

Na alfabetização, baniram-se todos os métodos que associavam palavras e ideias, e adotou-se o método fônico, que recorta letras para formar palavras. O jogo de Palavras Cruzadas foi terminantemente proibido por favorecer a semântica em detrimento da sonoridade vocabular.

O ministro encarregado das relações com os reinos vizinhos falava javanês. Ninguém nada entendia, o que não tinha a menor importância, já que o seu interesse era se sentir cercado de admiradores e, de preferência, bajuladores. Sua diplomacia consistia no mais estrito verticalismo, que prioriza a relação com os Céus, em detrimento de todo e qualquer horizontalismo de boa vizinhança com os demais reinos.

Muitos séculos depois de encontrado este manuscrito, descobriu-se outro em um reino do Sul, saído da lavra de um descendente de escravos. Intitulava-se “A igreja do diabo”. O autor se chamava Joaquim Maria Machado de Assis. Mas isso é outra história.

FELIZ ANO NOVO

Feliz Ano Novo a quem alarga o horizonte da utopia e espelha a diversidade de gênero nas cores do arco-íris. E aos que proclamam a soberania do amor como lei irrevogável.

Feliz Ano Novo a quem teme sombras de coturnos e aos que se atrevem a ressoar a voz de quem a exclusão silencia, para que também tenha vez.

Feliz Ano Novo aos que livram a democracia de suas algemas liberais e insistem que ela também floresça lá onde a economia impõe a afronta de poucos terem muito e muitos sobreviverem com quase nada.

Feliz Ano Novo aos artistas que fazem da palavra eco de esperança e desnudam, com suas obras, os figurinos da hipocrisia que encobrem a realidade.

Feliz Ano Novo a quem se recusa a beber a cicuta do ódio à espera de que outros morram. E aos que reverenciam a alteridade como ponte que separa a diferença da divergência.

Feliz Ano Novo aos alpinistas da solidariedade, que escalam confiantes a montanha da indiferença para desfraldar, no topo, a bandeira da ontológica sacralidade de cada ser humano.

Feliz Ano Novo a quem é capaz de enxergar os fenômenos sociais além dos efeitos, e reconhece que entender o capitalismo não requer estudos nem decifrar os índices do mercado. Basta sair à rua e ter cuidado de não pisar nos pedintes estendidos pelas calçadas.

Feliz Ano Novo a quem não divorcia liberdade de justiça e não se refugia em sua ilha de conforto cercada de egoísmo mórbido. E a quem se irmana a todos que lutam para que o pão nosso não seja apenas um verso da oração ensinada por Jesus.

Feliz Ano Novo aos que se despem de toda arrogância para desinvisibilizar aqueles que, na loteria biológica, não mereceram o prêmio de uma vida digna. E a quem desconsidera privilégio ter mais alimentos que apetite, e faz disso uma dívida social.

Feliz Ano Novo a quem cultiva seu jardim de valores éticos e ousa abdicar de todo poder capaz de fomentar opressão, discriminação e sofrimento.

Feliz Ano Novo a quem guarda a memória do passado sombrio e não permite que se apaguem as luzes do alvorecer democrático. E a todos que reforçam os laços das demandas populares e tornam ensurdecedor o grito parado no ar.

Feliz Ano Novo a quem não renuncia ao riso nem se deixa abater pelas diatribes do terror. E a todos que impedem que a noite devore o dia, o sol seja engolido pelos buracos negros, e a liberdade trocada pela segurança.

Feliz Ano Novo aos que ousam apontar que o rei está nu e se empenham em arrancar-lhe a coroa. E a quem anuncia aos quatro ventos que não há súditos, somos todos majestades.

Feliz Ano Novo a quem guarda saudades do velho e se paralisa diante da pedra no caminho. E a todos que descobriram que o contrário do medo não é a coragem, é a fé.

Feliz Ano Novo a todos que se sabem habitantes de um minúsculo planeta situado em uma pequena galáxia do Pluriverso e, por isso, aprenderam a recolher as asas da afetação. E a quem garimpa a própria subjetividade em busca de preciosidades inefáveis.

Feliz Ano Novo a todos que desnaturalizam a desigualdade social e se sentem tocados pelo dor alheia. E a quem se desassossega perante os arautos da fatalidade e se soma aos iconoclastas do mercado.

Feliz Ano Novo a todos que, conscientes de que o humano vem com defeito de fabricação e prazo de validade, se despem da empáfia e contabilizam seus erros como lições no rumo da transparência

Feliz Ano Novo a quem sabe que a fonte da felicidade é fazer os outros felizes. E que um dia abracem esta verdade todos que atropelam os semelhantes com a sua soberba, seus preconceitos e sua voracidade de prazeres. Empanturrados de si mesmos, ignoram que o melhor roteiro turístico é o que nos faz viajar para mergulhar nas aventuras do espírito. No avesso de si, então se encontra o dom do outro. O resto é silêncio.

O CASO JOBIM E O RESGATE DAS VÍTIMAS DA DITADURA

No último 3 de dezembro, a Comissão Especial de Mortos e Desaparecidos Políticos promoveu o I Encontro Nacional de Familiares. Duas importantes notícias foram compartilhadas na ocasião, representando um alento para quem espera, há décadas, por informações e reconhecimento sobre o destino de seus parentes.

A primeira concerne à possibilidade de alterar os atestados de óbitos dos que faleceram em decorrência da ação dos órgãos da ditadura, para que deles conste a real causa da morte. Esta retificação em documento representa reparação moral a que todos os familiares têm direito, bastando que se dirijam à Comissão Especial de Mortos e Desaparecidos Políticos (cemdp.certidao@mdh.gov.br).

O primeiro caso a merecer essa alteração documental foi o do embaixador José Jobim, sequestrado e morto em 1979, após afirmar que denunciaria, em livro, a corrupção que envolveu o processo de construção da usina de Itaipu.

O segundo foi o reconhecimento dos restos mortais de Aluizio Palhano Pedreira Ferreira, presidente do Sindicato dos Bancários do Rio de Janeiro, desaparecido em maio de 1971. Sua ossada era uma das mais de mil encontradas em uma vala comum, no Cemitério de Perus, em São Paulo. Após anos de dedicação de qualificada equipe forense, foi possível a identificação genética.

Este é o segundo caso de identificação desde a descoberta da cova clandestina. Centenas de outras famílias esperam pelo momento em que poderão, enfim, enterrar de forma digna seus familiares. e dar alguma conclusão à longa história de dor e sofrimento.

O trabalho não pode ser conduzido de forma mais rápida devido às limitações impostas pelo orçamento extremamente reduzido da Comissão – em torno de R$ 400 mil em 2018, e deverá se aproximar de R$ 250 mil, em 2019. Não fossem as verbas extras garantidas por emendas parlamentares propostas por deputados dedicados à causa, a Comissão possivelmente estaria paralisada.

Nos próximos anos será fundamental a atuação de parlamentares e a pressão da sociedade civil, para que não se interrompam os trabalhos de identificação e reparação, num esforço coletivo para resgatar e reconstruir uma parte da nossa história que muitos insistem em apagar. É preciso garantir o direito à memória, à verdade e à justiça das vítimas da cruel ditadura militar que governou o Brasil ao longo de 21 anos, de 1964 a 1985.

Edição 143 Dezembro 2018

BRASIL, NAÇÃO MUITO DESIGUAL

Duas pesquisas acabam de nos informar que a situação social do Brasil sofreu considerável piora nos dois últimos anos do governo Temer. A pesquisa extraoficial, feita pela Oxfam Brasil e intitulada “País estagnado, um retrato das desigualdades brasileiras”, foi divulgada em 26/11. A oficial, tornada pública em 5/12, é a Síntese de Indicadores Sociais do IBGE.

A redução da desigualdade estagnou entre 2016 e 2017. Hoje, a renda média da metade mais pobre da população é de R$ 787,69 por mês, inferior ao valor do salário mínimo (R$ 954). Sessenta por cento dos brasileiros sobrevivem com menos de um salário mínimo por mês.

O Brasil recuou cinco anos na questão social. Voltou ao patamar de 2012. A população em situação de extrema pobreza, com renda inferior a R$ 8 por dia, passou de 13,5 milhões de pessoas, em 2016, para 15,2 milhões de pessoas, em 2017. Em um ano foram condenados à miséria 1,7 milhão de brasileiros.

Ampliou-se o número dos que sobrevivem abaixo da linha da pobreza, com renda diária inferior a R$ 22. Em 2016, eram 52,8 milhões de pessoas. Em 2017, 54,8 milhões sobreviviam com menos de US$ 5,50 por dia (R$ 406 por mês), patamar que, segundo o Banco Mundial, designa o nível de pobreza. Três vezes a população do Chile.

Em 2016, os pobres tinham renda média de R$ 217,63. No ano seguinte, R$ 198,03. Perda de 9%. Já os 10% mais ricos tiveram 2,09% de aumento na renda, que chegou a R$ 9.519,10 por mês. Desses 10%, 12 milhões ganharam até R$ 17,8 mil de renda tributável. E a parcela de 1% mais rico, que abrange 1,2 milhão de brasileiros, teve rendimento médio superior a R$ 55 mil por mês.

Para que todo esse contingente populacional deixe a pobreza é preciso investir R$ 10,2 bilhões por mês ou R$ 187 mensais por pessoa! O governo prevê destinar ao Bolsa Família, em 2019, R$ 30 bilhões. Erradicar a extrema pobreza no Brasil significa canalizar à área social quatro Bolsas Famílias.

Para reduzir a desigualdade não bastam medidas conjunturais. São necessárias atitudes estruturantes, como a reforma tributária. Quem ganha mais deve pagar mais impostos. O sistema fiscal precisa ser progressivo, como em muitos países. Não adiantam ajustes fiscais sem políticas sociais. Nem cortar gastos da administração pública sem promover a reforma tributária com novas alíquotas de imposto de renda para os mais ricos. É preciso reduzir a tributação sobre bens e serviços e aumentá-la sobre rendimentos e patrimônios. De que vale salvar as contas do governo e jogar a maior parte da nação no desamparo?

Se em 20 anos o nosso país reduziu pela metade a mortalidade infantil, ampliou de cinco para oito os anos de escolaridade e diminuiu o número de famílias na miséria, isso não resultou apenas da austeridade fiscal. Foi sobretudo fruto de políticas sociais. Porém, nada indica que estamos na direção certa. O Judiciário reajusta seus gordos salários e os royalties do pré-sal destinados à educação são reduzidos pela metade! A renda do 1% de brasileiros mais ricos é 36 vezes superior à media do que ganham os mais pobres. O Brasil é o segundo país que mais concentra renda no topo da pirâmide social. Só perde para o Qatar.

Em 2017, 28% da população eram crianças de 6 a 14 anos fora de escola, pessoas com mais de 14 anos analfabetas e acima de 15 anos sem o ensino fundamental completo. Sem investimento em educação não haverá redução do desemprego.

Fala-se muito que tudo será melhor se for aprovada a reforma da Previdência. Mas afetará os privilégios do funcionalismo público? Estudo do Ministério da Fazenda, divulgado no último dia 5, demonstra que a Previdência paga 12 vezes mais para os ricos do que para os mais pobres. De todos os benefícios previdenciários, apenas 3,3% vão para os mais pobres. O que equivale a R$ 17,8 bilhões. Os mais ricos embolsam 40,6% do bolo, ou seja, R$ 243,1 bilhões – 12 vezes mais.

Enquanto não for dado um basta ao patrimonialismo – a ideia de que o Estado é patrimônio da elite – não haverá erradicação da pobreza e, portanto, redução da violência e da exclusão social.

ESTADO CONFESSIONAL

Tudo indica que teremos pela frente um Estado confessional, disposto a negar o princípio constitucional da laicidade. Algo parecido ao Destino Manifesto defendido pelos ultraconservadores dos EUA e governos que preferem ater-se a Livros Sagrados do que a Constituições.

“O Brasil acima de tudo, Deus acima de todos”. Este brado da Brigada de Paraquedistas do Exército foi o mote de campanha do futuro presidente. Mas, que deus? O que levou a Inquisição a acender fogueiras a supostos hereges? O invocado pelo cardeal Spellman, de Nova York, ao abençoar soldados que foram perder a guerra no Vietnam?

O Deus de Jesus ou dos escribas e fariseus que o levaram à cruz? O da fé de Hitler ou de Luther King, que deu a vida pelo fim da discriminação racial?

Tão logo soube de sua vitória eleitoral, Bolsonaro declarou: “Afinal de contas, a nossa bandeira, o nosso slogan, eu fui buscar naquilo que muitos chamam de caixa de ferramenta para consertar o homem e a mulher, que é a Bíblia Sagrada. Fomos em João, 8:32: “E conhecereis a verdade. E a verdade vos libertará.”

Qual verdade? A pós-verdade? A Bíblia contém, sim, valores e propostas de como homens e mulheres poderiam ser melhores. E todos contrariam o discurso do futuro presidente, pois não admitem preconceitos, ofensas, torturas, e nada que atente contra o que há de mais sagrado para Deus – a vida do ser humano.

“Quem é da verdade escuta a minha voz”, disse Jesus a Pilatos (João 18,37). O governador romano retrucou: “O que é a verdade?” (38). E ficou sem resposta. Não porque Jesus preferisse não responder-lhe. Mas porque Pilatos não tinha ouvidos para ouvir nem olhos para ver que a verdade era a prática libertadora de Jesus. Não valia a pena, na expressão do próprio Nazareno, “atirar pérolas aos porcos” (Mateus 7,6).

No Brasil, o futuro ministro das Relações Exteriores, Ernesto Araújo, professa a fé de que a missão de Trump é resgatar a civilização ocidental, sua fé cristã e as tradições forjadas “pela cruz e pela espada”. Os indígenas que o digam... E faz uma salada semântica ao afirmar que o “globalismo” é “essencialmente um sistema anti-humano e anticristão. A fé em Cristo significa, hoje, lutar contra o globalismo, cujo objetivo último é romper a conexão entre Deus e o homem, tornado o homem escravo e Deus irrelevante. O projeto metapolítico significa, essencialmente, abrir-se para a presença de Deus na política e na história.”

Curioso é constatar que a globalização é uma invenção cristã. Até a era cristã as religiões estavam confinadas a etnias. Não tinham como objetivo angariar adeptos de outras culturas. Foi o Nazareno que enviou os discípulos a anunciá-lo “a todos os povos”, missão da qual o apóstolo Paulo se destacou como pioneiro exemplar.

Fracassaram os profetas do fim da religião e da morte de Deus, como Marx e Freud. Ela está mais viva do que nunca, e em certos países, como nos EUA, é no mínimo politicamente incorreto professar o ateísmo.

A diferença é que, agora, a religião saiu dos trilhos das etnias. Já não depende de um poder centralizado como o Vaticano. O islamismo ultrapassa as fronteiras do mundo árabe e conquista multidões de fiéis na África. As tradições religiosas da Índia atraem adeptos em todo o Ocidente. E o nome de Deus é invocado em vão por democratas e tiranos. As notas de reais estampam “Deus seja louvado”, como nas de dólares consta We God in Trust (“Em Deus nós confiamos”).

Se o Brasil adotar o modelo do Estado Leviatã de Hobbes e retroceder ao século XIX, possivelmente teremos, nas escolas, a volta da concepção criacionista para explicar as origens do Universo e da humanidade, e o descarte sumário de Darwin e do evolucionismo. E, na falta de médicos que atendam às populações mais pobres, bastaria ensinar a suplicar a Deus pela cura de todas as doenças. Os recursos públicos seriam poupados e, caso não ocorra o milagre, com certeza o Céu será o prêmio eterno de consolação aos desvalidos.

COMUNICAÇÃO GLOBAL E INTERPESSOAL

Nunca a comunicação foi tão ágil, rápida e fácil, embora cara. Sem sair da cama, podemos saber o que ocorre na Ásia, falar ao telefone com um nepalês, entrar em um site de bate-papo e nos enturmar com um bando de jovens do Brooklin. À audição (rádio) somam-se a visão (foto, cine, TV) e a fala (telefone e Internet). Faltam apenas o cheiro e o contato epidérmico, o toque.

Diante de todo esse cipoal comunicativo levanta-se uma questão: e a intercomunicação pessoal, tão valorizada por Habermas? Quantos pais “acessam” os filhos? Como é o diálogo olho no olho? Comunicação que se faz comunhão, interação, e que transmite, não a emoção de imagens e sons, mas algo mais profundo – afeto.

Reféns da tecnologia, sem todos esses aparatos temos dificuldade de dialogar com o próximo. Nosso avós punham as cadeiras na varanda, e até mesmo na calçada, e ficavam horas jogando conversa fora. Hoje, a ansiedade dificulta o diálogo interpessoal. Preferimos a comunicação virtual, mental, mas não a corporal. O corpo transforma-se em território do silêncio das palavras, embora se cubra de adornos que “falam”: a roupa, a esbeltez malhada, os gestos...

Nessa “fala” o corpo simula (faz de conta ser o que não é) e dissimula (esconde o que de fato é). Por isso a comunicação interpessoal é arriscada, pois tende a desmascarar, trair, revelar contradições. O corpo sou eu, e eu não sou tão bom quanto a imagem que projeto de mim mesmo. Como os cavaleiros medievais, visto uma armadura que encobre a minha verdadeira identidade, a armadura pós-moderna da parafernália eletrônica. É ela que me salva. Permite-me ser conhecido por uma imagem mediatizada pela multimídia ou, no contato pessoal, pelos adornos que me imprimem um cheiro de grife.

Nu, sou um fracasso, uma decepção frente à minha baixa autoestima. Ainda mais se acrescento à nudez o que me desnuda por dentro: a fala. Por isso os ícones projetados pela mídia – modelos, artistas, atletas, ricos - não falam. São fotografados e expostos excessivamente, mas nada se sabe o que pensam, em que acreditam, que valores abraçam, qual visão de mundo assumem. São seres belos, porém silenciados. Se abrirem a boca, o balão desinfla, o encanto desaparece, a carruagem vira abóbora.

Pós-modernidade é sinônimo de explosão comunicatória. Estamos cercados da parafernália eletrônica destrinchada pelas análises de Adorno, Hockeimer, MacLuhan, Walter Benjamin e outros. Ela reduz o mundo a uma aldeia que se intercomunica em tempo real. E dentro de uma paisagem cultural hegemônica que Boaventura de Sousa Santos qualifica de monocultura: a espetacularização da notícia e naturalização da imagem midiática, como se o mundo fosse o que vemos na TV ou na Internet.

Tudo isso molda a nossa identidade. Não há como configurá-la de outro modo. Estamos cercados pela multimídia: no mesmo celular temos relógio, calculadora, rádio, e-mail, TV, jogos... e até telefone.

Não é fácil o verbo se fazer carne. Graças à multimídia, o verbo se faz caro e raro. É virtualizado para ser esvaziado de significado. Assim, não nos sentimos desafiados. Na imagem, a catástrofe é épica; na minha esquina, trágica. E ao contemplar o épico me iludo de que vivo em uma ilha imune à dor e ao sofrimento. E suporto a reclusão do silêncio temendo que a minha palavra se faça carne, ou seja, revele quem realmente sou: este ser frágil, carente, que ainda não descobriu a diferença entre prazer, alegria e felicidade.

Por isso tendem a ser complicadas as relações familiares, como toda relação que se confina em um mesmo espaço. Não se desfila dentro de casa. No cotidiano, a imagem é atropelada pelas emoções. É o que Buñuel mostrou em “O discreto charme da burguesia”. No espaço doméstico emerge o nosso lado avesso – aquela pessoa que realmente somos, sem maquiagens de bens, funções e adornos.

Para conviver fora de casa vestimos a armadura. Vamos para a guerra, para o reino da competição e do sucesso a qualquer preço. Não podemos, portanto, mostrar a cara. Protegem-nos a parafernália eletrônica e o diálogo virtual. Somos o que não aparentamos e aparentamos o que não somos. Eis o paradoxo que a pós-modernidade nos impõe.

Edição 142 Novembro 2018

CAVALOS DA RAZÃO E DA PAIXÃO

Diziam os gregos antigos que somos como cocheiros de carruagens tentando controlar dois cavalos, o da razão e o da paixão. Cada um puxa para um lado. O cocheiro procura manter o equilíbrio entre eles.

As decisões que envolvem a emoção são mais difíceis de serem tomadas do que as que envolvem apenas a razão. A neurociência explica. Na decisão racional, o cérebro ativa os córtices pré-frontal dorsolateral, pré-frontal ventrolateral e o parietal. Na emocional, se estabelece uma intrincada conexão entre os córtices cingulado anterior, pré-frontal medial, orbitofrontal, a amídala e o tronco encefálico.

A guerra, por exemplo, suscita comoção. Por isso, durante a do Vietnam, a Casa Branca perdia prestígio a cada novo caixão desembarcado nos EUA. Utilizou-se, então, a UTI para prolongar ao máximo a agonia dos pacientes, de modo a não morrerem antes de tocar o solo pátrio. Assim não eram contabilizados como mortos em território inimigo.

Mais tarde, na guerra do Iraque, Bush tomou uma posição mais drástica. Para evitar comoção na opinião pública proibiu que os caixões fossem vistos pela mídia. Assim, o número de soldados usamericanos mortos se resumia a uma fria estatística.

A tensão entre o racional e o emocional é perfeitamente manifestada quando se trata de nossas próprias decisões. Um diretor de empresa reduz o número de empregados ao assinar-lhes a demissão, a fim de poupar custos. Porém, se um dos empregados é seu afilhado pode ser que, por isso, não seja cortado.

O envolvimento emocional provoca o nepotismo. O político emprega na máquina pública parentes, amantes e amigos, não por terem competência, e sim por estarem emocionalmente vinculados a ele.

Hoje, o poder já não se empenha em evitar a violência, da qual tem o monopólio legal. Procura apenas aplacar o impacto emocional das decisões que induzem à violência. Usa drones para assassinar supostos terroristas no Afeganistão e na Somália e, assim, poupa soldados que poderiam morrer no enfrentamento com o inimigo.

O mesmo raciocínio lógico, frio e implacável induziu a Casa Branca a promover, sem a menor dose de culpa, o maior atentado terrorista de todos os tempos: as bombas atômicas que, em 1945, dizimaram Hiroshima e Nagasaki. Nenhum dos envolvidos na monstruosa decisão tinha parentes ou conhecidos naquelas cidades japonesas, o que tornou tudo mais fácil.

Para nós, que comemos além do que devemos e necessitamos, as estatísticas do número de famintos no mundo são apenas dados frios no noticiário. Não temos parentes que passam fome e jamais vimos a mãe de crianças raquíticas oferecer aos filhos lagartos e insetos.

É essa cultura “clean”, fria, que o neoliberalismo tenta nos incutir para ficarmos insensíveis aos dramas alheios e centrados no próprio umbigo. Cabe à educação associar razão e paixão, e suscitar empatia e solidariedade. O mundo virtual não pode ser a nossa caverna de refúgio e omissão. É preciso quebrar as suas fronteiras e mergulhar no mundo real, única forma de assegurar a nossa sensibilidade a tudo que é humano e às dádivas da natureza.

VIOLÊNCIA E AGRESSÃO

Friedrick Hacker (1914-1989), psiquiatra usamericano, analisou com propriedade as raízes da violência nesse mundo globocolonizado que se ajoelha reverente ao deus Mercado. A agressividade é própria da natureza animal, incluída a espécie humana. Denota o espírito de sobrevivência. Frente a determinadas circunstâncias, cada um é agressivo a seu modo: ironia, humor, astúcia desprezo, presunção etc. Violência é quando se rompe a barreira da alteridade e a força física se impõe sobre o mais frágil ou indefeso.

Quase nunca entendemos como violenta a ação que atinge o outro, exceto quando nós somos vítimas. Se na saída do cinema a polícia cerca nosso grupo de amigos, e exige que fiquemos todos de mãos na parede e pernas abertas, enquanto nos revista, consideraremos violência. Se da janela do apartamento vemos a mesma cena, com a diferença de que os detidos são jovens de periferia, admitimos que a polícia cumpre seu dever.

Se um dos amigos protesta pelo modo como está sendo apalpado e recebe em resposta um empurrão, fica patente a violência. Para o policial em nenhum momento houve violência. Julga apenas que impôs sua autoridade. É o caso do pai que, ao retornar do trabalho, descobre que o filho mais velho bateu no mais novo. Para dar-lhe uma lição de que nunca se deve bater em alguém mais fraco, o pai dá uma surra no mais velho. Sem consciência de que fez exatamente o que recriminou. É essa contradição entre o discurso e o método que dissemina o comportamento violento.

A violência é sempre praticada como se fosse ato de justiça, legitimada por razão superior, seja o Deus dos cruzados ou dos fundamentalistas; a defesa da propriedade privada; a liberdade do Mercado; os deveres de uma boa educação etc.

A violência é a mais primária forma de manifestação da agressão. Toda a estrutura da sociedade, com suas leis e instituições, contém boa dose de agressividade, assim como a disciplina que os pais impõem à boa educação dos filhos. Ela favorece a nossa convivência social e reprime nossas tendências autodestrutivas. Em princípio, o melhor exemplo de agressividade sem violência é o esporte.

Já a violência é cruel e repetitiva, o que permite à polícia identificar o modus operandi de criminosos, pois ela se propaga sem a menor criatividade. Para saber lidar com a agressividade é preciso de refinamento de espírito. Já a violência é burra, não exige educação, está ao alcance de qualquer um.

O mais grave é que nos acostumamos à violência. Covardes, não usamos as próprias mãos, mas aplaudimos quando a polícia espanca o bandido; a lei retroage a idade penal; o plebiscito libera o comércio de armas; o Estado decreta a pena de morte etc. Sem nos dar conta de que nos deixamos dominar pela parte mais primária de nosso cérebro, lá onde se aloja o réptil que nos precede na escala evolutiva e do qual somos tributários.

Se uma sociedade ignora a limite entre violência e agressividade, isso aquece o caldo de cultura do autoritarismo. O sentimento de humilhação que a Primeira Grande Guerra impôs ao povo alemão favoreceu a ascensão do “vingativo” Hitler. A derrota do Bush pai no Iraque, em 1991, impeliu a opinião pública dos EUA a apoiar, em 2003, o filho disposto a “lavar a honra”.

Ninguém é capaz de atacar seu semelhante, a menos que produza, entre si e o outro, a dessemelhança. Assim, o homem bate na mulher por considerá-la imbecil; o branco agride o negro por encará-lo como inferior; a grande nação decreta guerra à pequena que se nega a abrir mão de sua soberania; o líder popular passa a ser demonizado pela poderosa mídia, de modo a deslegitimar a causa que defende. Tal postura desculpabiliza e abre caminho à violência como legítima e até legal.

Não se trata de erradicar a agressividade própria do humano e que nos impele a alcançar metas e conquistas. O desafio é fazer a distinção ensinada por Hacker e criar uma cultura baseada no mais primordial paradigma da alteridade, que tem a sua origem Naquele que, radicalmente diferente de nós, nos criou à Sua imagem e semelhança.

NOVA CONSTITUIÇÃO DE CUBA

Cuba prepara-se para aprovar uma nova Constituição que trará importantes novidades ao país, como a adopção do parlamentarismo, novas formas de economia mista e o reconhecimento da união homo-afetiva. A atual Constituição foi aprovada em 1976 e revela forte influência das Cartas Magnas dos países socialistas do Leste europeu, em especial da União Soviética. Agora, ampla mobilização nacional promove nova reforma constitucional. No momento em que escrevo, novembro de 2018, o anteprojeto está sendo submetido à consulta popular e, em seguida, será referendado pela população mediante voto livre, direto e secreto.

Com a queda do Muro de Berlim, em 1989, a Constituição cubana sofreu importante reforma em 1992, quando, por exemplo, se retirou o caráter ateu do Estado para introduzir o caráter laico. Fez-se ainda pequena reforma em 2002, ao blindar o caráter socialista da Revolução.

Diante das teses aprovadas no VI Congresso do Partido Comunista de Cuba, em 2011, ocorreram mudanças no modelo econômico e na organização partidária, o que suscitou a necessidade de nova reforma da Constituição.

Em maio de 2013, o Birô Político criou o Grupo de Trabalho, presidido por Raúl Castro, para debater o aprimoramento institucional do país. Durante um ano o grupo preparou as bases do atual processo de reforma, aprovadas em junho de 2014. Analisaram-se os impactos de ordem jurídica nas reformas ocorridas no Vietnam e na China. Levaram-se em conta também as reformas constitucionais de Venezuela, Bolívia e Equador.

O resultado desses estudos foram analisados, em fevereiro deste ano, pelo Birô Político e, um mês depois, pelo Comitê Central do Partido. Em seguida, o Conselho de Estado, órgão de representação permanente da Assembleia Nacional do Poder Popular (equivalente ao nosso Congresso Nacional), convocou sessão extraordinária para dar início ao processo de reforma, o que aconteceu em dia 2 de junho. O parlamento instituiu a comissão encarregada de preparar o novo projeto constitucional. Um mês depois, um esboço foi submetido à Assembleia Nacional, que recolheu diversas críticas e propostas. A população acompanhou os debates por TV e outros meios de comunicação. O parlamento decidiu, então, submeter o texto à consulta popular, de modo a enriquecê-lo com a participação direta do povo, incluídos cidadãos cubanos residentes no exterior.

O que se debate agora em todo o país não é uma reforma do texto constitucional vigente, mas a aprovação de um novo texto que visa a introduzir mudanças profundas na estrutura do Estado e ampliar o leque de direitos de cidadania, sem prejuízo do caráter socialista da Revolução.

O texto propositivo contém 224 artigos (87 a mais do que o vigente); são modificados 113 artigos da atual Constituição; mantidos 11; e eliminados 13.

Não se convocou uma Assembleia Constituinte por respeito à cláusula que assegura à Assembleia Nacional função constituinte.

Inovações

A nova proposta constitucional reafirma o caráter socialista dos sistemas político, econômico e social de Cuba. É preservado o papel do Partido Comunista como monitor da sociedade e do Estado, destacando-se seu caráter democrático e a importância de vínculo com o povo. Ressalta-se que o Partido não está acima da Constituição e, como ente político, é obrigado a respeitá-la e defendê-la. E em sua atuação não deve substituir os órgãos estatais e administrativos, cujas atribuições são definidas pela Constituição e pelas leis do país.

O texto ressalta o reconhecimento de Cuba como Estado Socialista de Direito, de modo a reforçar o império da lei e a supremacia da Constituição.

Esse conceito de Estado de Direito se choca com a tradição socialista, que o considerava liberal e capitalista, e na qual somente cabia uma visão classista do Estado e do Direito. Quem deu o primeiro passo nesta nova direção foi o Vietnam, na reforma constitucional de 2013, quando incorporou o conceito de “Estado de Direito Socialista”.

No econômico se mantém, como princípio, a propriedade socialista de todo o povo sobre os meios fundamentais de produção, bem como a direção planificada da economia, mas sem ignorar o papel do mercado. Não se trata de uma economia socialista de mercado, mas de submeter o mercado a um sistema de planificação flexível.

Reconhece-se a propriedade privada, que a Constituição não cria, já que nunca deixou de existir em Cuba. Admite-se o trabalho por conta própria (contapropismo) e o empreendedorismo individual, com direito de contratação de mão de obra. Porém, proíbe-se a concentração de propriedades em mãos de pessoas ou corporações não estatais, com o objetivo de preservar “os limites compatíveis com os valores socialistas de equidade e justiça social”. Valoriza-se a propriedade cooperativa.

Novidade é como se estrutura a propriedade mista, até agora vinculada exclusivamente ao investimento estrangeiro e relacionada sempre com a propriedade estatal. Entende-se agora como mista a integração de duas ou mais formas de propriedades, incluídas a privada e a cooperativa, não apenas a estatal. No entanto, a empresa estatal é considerada a principal protagonista da economia e se reconhece a autonomia de seu funcionamento.

Quanto à cidadania, reconhece-se o princípio da cidadania efetiva. Um cubano pode adquirir outra cidadania sem prejuízo da original.

O novo texto constitucional reforça a defesa dos direitos humanos reconhecidos em tratados internacionais dos quais Cuba é signatária. Ressalta-se a importância de proteção do meio ambiente e de combate aos efeitos das mudanças climáticas.

Questões de gênero

Adota-se uma concepção de direitos humanos na qual se reconhece a sua indivisibilidade, irrenunciabilidade e interdependência, em correspondência com o princípio de progressividade, e sem discriminação. Amplia-se o direito de igualdade, e se proíbe toda discriminação por “razões de sexo, gênero, orientação sexual, identidade de gênero, origem étnica, cor da pele, crença religiosa, deficiência física ou mental, origem nacional ou qualquer outra lesiva à condição humana.” Se oferecem garantias às liberdades de pensamento, consciência, expressão e convicção religiosa.

Abandona-se a atual concepção de matrimônio como relação entre um homem e uma mulher, e se introduz o conceito de relação “entre duas pessoas”. Diante desta proposta, a sociedade cubana se divide. Há quem prefira manter o atual conceito de matrimônio, relação entre um homem e uma mulher; os que apóiam a nova redação ou o novo conceito de relação “entre duas pessoas”; quem aceite o reconhecimento civil dos casais de fato, mas não o matrimônio; e outros que estão de acordo mas, em se tratando de filhos, limitam o direito à adoção; e por último, alguns advogam o conceito de matrimônio como a união “de duas ou mais pessoas”.

Amplo leque é oferecido quanto se trata de direitos trabalhistas, já que o Estado deixou de ser o único empregador, e hoje há variadas formas não estatais de empregabilidade.

Educação e saúde são mantidas sob responsabilidade do Estado e com caráter universal e gratuito. Abre-se, entretanto, a brecha, em caráter excepcional, para que determinados serviços de saúde não imprescindíveis e parte do ensino de pós-graduação, possam ser remunerados.

O Estado admite que alguns direitos econômicos e sociais, por ora, não há como assegurá-los, e incluí-los seria tornar a Constituição uma obra de ficção. Ficam, porém, regulados com projeção de progressividade, decisão que gera certa inconformidade entre a população, como os direitos à moradia digna, à alimentação e à agua.

Se introduz a tutela judicial diante de violação de direitos constitucionais por parte de órgãos e funcionários do Estado, inclusive mediante indenização aos atingidos.

Parlamentarismo

Na estrutura do Estado são introduzidas importantes mudanças. Criam-se os cargos de Presidente da República e primeiro-ministro. Hoje, o Chefe de Estado de Cuba é o Presidente do Conselho de Estado escolhido pela Assembleia Nacional, que também acumula a função de Chefe de Governo. De acordo com o projeto constitucional, o Presidente teria que ser um deputado eleito pela Assembleia Nacional, desde que tenha a idade mínima de 35 anos e, máxima, de 60, para seu primeiro mandato. O mandato seria de 5 anos e possibilidade de uma única reeleição.

O Presidente não cumprirá apenas funções cerimoniais e de representação. Ele é quem proporá à Assembleia Nacional o nome do primeiro-ministro, e este deverá lhe prestar contas de sua gestão, bem como será o presidente do Conselho de Ministros.

A comissão preparatória considera fundamental estabelecer limites de tempo para cargos importantes do Estado, na linha do que indicaram os últimos congressos do Partido, ainda mais porque, com o avançar do tempo, já não se justifica a legitimidade histórica dos que combateram em Sierra Maestra.

A Assembleia Nacional do Poder Popular mantém seu carater de órgão supremo, único com poder constituinte e legislativo, encarregada de preencher os cargos mais importantes do Estado, à qual prestarão contas os órgãos e organismos do Estado. O presidente, vice-presidente e secretário do Parlamento ocuparão as mesmas funções no Conselho de Estado. E é o Parlamento, e não o poder judiciário, que vela pela aplicação da Constituição, o que é motivo de polêmica nos debates em torno do projeto constitucional, mesmo considerando que este estabelece maior independência funcional ao sistema judiciário.

Nas províncias (equivalentes aos estados da federação brasileira), se suprimem as assembleias do Poder Popular e se constitui um governo formado por um governador e um Conselho Provincial, presidido pelo governador e integrado pelos presidentes das assembleias municipais e todos que exercem funções de direção administrativa nos municípios. Discute-se se o governador deve ser eleito ou designado.

Cria-se o Conselho Eleitoral Nacional, encarregado de organizar, dirigir e supervisionar as eleições e outros processos de consulta popular.

Este projeto está sendo debatido em centros de trabalho, escolas, unidades militares e bairros. “Podemos afirmar que estamos perante um exercício único de democracia real e efetiva, e de um processo constituinte igualmente paradigmático com o povo como verdadeiro protagonista”, declarou Homero Acosta, secretário do Conselho de Estado.

Terminada a consulta popular em 15 de novembro, a comissão redatora avaliará todas as propostas. Em seguida, apresentará um novo projeto à Assembleia Nacional, da qual resultará a nova Constituição da República de Cuba. Então, será submetida a plebiscito por votação direta e secreta de todos os eleitores cubanos, de modo a adquirir plena legitimidade democrática.

Edição 141 Outubro 2018

ESSE ÓDIO QUE ASSOLA O PAÍS

É notório que há no Brasil um clima de ódio e discórdia, agudizado pela atual disputa eleitoral. Não participo dele. Não por virtude, mas por comodismo. Situações de vida me ensinaram a não ter ódio de ninguém nem somatizar conjunturas políticas. Meditação e oração são meus antídotos.

É obvio, há pessoas das quais prefiro não ser amigo. Não por querer mal a elas, e sim por discordar radicalmente de suas ideias. Ideias que contrariam os princípios que norteiam a minha vida. Isso torna o diálogo quase impossível. E não sou de bater boca. Só lamento o sofrimento que causam quando as teses que defendem são levadas à prática. Como é o caso do racismo, da homofobia, do machismo, da arrogância e da opressão.

Evito também quem naturaliza a desigualdade social e defende estruturas sociais e leis que aprofundam o aviltante abismo entre os pouco ricos e os muito pobres.

Repito, não trago em mim sentimento de raiva ou ódio por qualquer pessoa. Nem a quem repudio, como os torturadores e assassinos dos anos em que padeci no cárcere sob a ditadura militar.

Isso não me faz melhor do que ninguém. A vida me ensinou que ódio é um veneno que se toma esperando que o outro morra. Portanto, não abro mão deste bem que me é tão precioso e constitui a razão de minha felicidade: a paz de espírito.

Demônios não trafegam em meu mundo interior. Mantenho relações de amizade com amplo espectro de pessoas de diferentes ideologias, religiões e condições sociais. Todos sabem exatamente o que penso, quem sou, o que faço. Pela simples razão de eu ter atividades pastorais e sociais notórias, e expor o que penso em 64 livros, além dos inúmeros artigos que produzo.

Para manter contato com pessoas tão díspares há que reconhecer a importância da virtude da tolerância. Nunca fecho as portas à possibilidade de uma boa amizade. Aliás, condição primeira para ser feliz, frisou o velho Aristóteles há 24 séculos. Como optei por não constituir família, nem tenho saudades dos filhos que não tive, sustento-me nas relações de amizade. Quase todas, aliás, parceiras. Porque além da amizade que nos aproxima, com a maioria compartilho projetos e ideais comuns: de militantes que lutam por terra e teto a gente muito rica.

Portanto, não incorporo a crise brasileira. Conheço suas causas, e não é o acúmulo de emoções que apontará soluções. Considero perda de tempo as discussões virtuais. Uso moderadamente as redes digitais e jamais polemizo com quem me acessa. Não tenho Facebook por receio de que me roube momentos de ler bons livros. Uso parcimoniosamente o Twitter e o Whatsapp. E não gosto de falar ao telefone. Nele sou telegráfico. Jamais o ocupo por mais de dois minutos.

Esta a minha postura nesse conflituoso mapa da diminuta parcela da sociedade brasileira mergulhada nas turbulências desse tempo de intrigas. Diminuta porque há milhões de pessoas que não estão nem aí, não acessam redes digitais, e se encontram muito ocupadas em lutar pela sobrevivência, cuidar dos filhos, de suas lavouras e de seus negócios, levantar cedo para enfrentar dura jornada de trabalho. Essa gente não figura entre os que formam (ou deformam) isso que se denomina “opinião pública”.

Em resumo, a vida é mesma conturbada e todos nós, humanos, somos tributários das espécies que nos precederam na escala evolutiva, como os répteis egocentrados. Há, contudo, o esforço civilizado de nos descentrarmos e enxergar o próximo. Sem buscar nele a nossa imagem e semelhança, como se ele fosse espelho de nosso olhar narcísico. A boa democracia, tão apregoada e pouco praticada, exige que não se converta a diferença em divergência.

O que temos de comum é o que todos almejamos, amar e ser amados. A essa experiência denomino Deus. Quase todos concordam comigo, exceto em um detalhe: Deus quer ser amado naqueles que Ele criou à sua imagem e semelhança, incluídos índios, negros, gays e pobres.

PAULO VI E OSCAR ROMERO PROCLAMADOS SANTOS

O papa Francisco elevou aos altares da Igreja Católica dois novos santos, o papa Paulo VI, que ocupou a cátedra de Pedro por 15 anos (1963-1978), e monsenhor Oscar Ranulfo Romero, arcebispo de San Salvador assassinado a tiros pela ditadura de seu país, em 24 de março de 1980.

Nutro gratidão pelos dois. Sob o pontificado de Paulo VI um grupo de frades dominicanos brasileiros foi preso, em 1969, pelo regime militar, conforme mostra o filme “Batismo de sangue”, dirigido por Helvécio Ratton, e baseado em livro de minha autoria editado pela Rocco.

Alguns cardeais e bispos abraçaram a versão policial tão logo fomos detidos, acusados de “terroristas”. Não foi o caso de nossos superiores em Roma. Vieram nos visitar na prisão e, convencidos do arbítrio ditatorial, mantiveram informado o papa Paulo VI. Este nos presenteou com um rosário feito de sementes de azeitonas do Horto das Oliveiras, em Jerusalém, e um afetuoso cartão manuscrito. E leu minhas cartas da prisão, editadas na Itália antes mesmo de serem publicadas no Brasil.

Contrariado com o fato de o cardeal Agnelo Rossi, de São Paulo, haver assumido a versão dos algozes e negar que houvesse torturas no Brasil, Paulo VI o removeu do país e, para o seu lugar, nomeou Dom Paulo Evaristo Arns. Este nos deu todo apoio, e se destacou com um dos mais corajosos defensores dos direitos humanos, como o comprovam sua atuação no caso Vladimir Herzog e na autoria, junto com o reverendo Jaime Wright, do clássico livro “Brasil, nunca mais” (Vozes), no qual são denunciados os métodos hediondos do regime militar.

Paulo VI coleciona, entre outros méritos, os de ter dado continuidade ao Concílio Vaticano II, convocado por seu antecessor, João XXIII, e que impulsionou a renovação da Igreja Católica, e publicar a encíclica “Populorum progressio” (1967), documento pilar da teologia da libertação, que ressalta a dimensão política da fé cristã e acentua o conceito de pecado social.

Conheci monsenhor Romero em janeiro de 1979, na cidade mexicana de Puebla, durante a conferência episcopal latino-americana, inaugurada pelo papa João Paulo II. Presenteei-lhe com minhas “Cartas da prisão” (Fontanar). Perseguido pelos militares que governavam El Salvador, ele agradeceu: “É possível que eu tenha de aprender a escrever cartas assim”, disse sorrindo.

Não teve tempo. Foi assassinado, em plena celebração eucarística, por quem acreditava que a força das armas tem o poder de silenciar a força da verdade.

Monsenhor Romero era um bispo conservador, vinculado à elite de seu país, e preconceituoso em relação à teologia da libertação. Desconfiado das aulas bíblicas de um sacerdote progressista, postou-se atrás da cortina do auditório para confirmar, de ouvido próprio, as heresias exegéticas do palestrante. O efeito resultou contrário. O arcebispo se convenceu de que a leitura da Bíblia pela ótica dos oprimidos aproxima a fé da essência da revelação divina. E se tornou vez e voz daqueles que, em El Salvador, foram privados de direitos, liberdade e vida.

Canonizar um cristão, proclamar a sua dignidade de santo, não significa exaltá-lo à perfeição. Somos todos limitados e marcados pelo pecado. A Igreja considera santidade o fato de esses cristãos terem sido testemunhas dos valores evangélicos. Seguiram com ousadia o caminho indicado por Jesus. Assumiram virtudes heroicas, como a de enfrentar, sem temor, toda sorte de acusação e perseguição.

São elevados aos altares não para serem adorados, e sim servir de exemplo a todos que, como Jesus, dão suas vidas “para que todos tenham vida e vida em abundância” (João 10, 10).

BALANÇO DAS ELEIÇÕES NO BRASIL

As eleições brasileiras, no domingo, 7 de outubro, revelaram que a política brasileira será cada vez mais conservadora. O próximo presidente do país, a tomar posse a 1 de janeiro de 2019, será definido no segundo turno, a 28 de outubro, na disputa entre Jair Bolsonaro (PSL) e Fernando Haddad (PT).

Todo o processo eleitoral foi comandado da cadeia e do hospital. Da cadeia, pelo ex-presidente Lula (PT), detido em Curitiba por uma condenação que carece de provas. E do hospital, pelo capitão Jair Bolsonaro, internado após ser esfaqueado em plena campanha eleitoral.

Bolsonaro recebeu 46,05%, ou seja, 49,3 milhões de votos, e Fernando Haddad, indicado por Lula, 29,24% (31,3 milhões de votos) de 147,3 milhões de eleitores,. Vale ressaltar que o capitão candidato quase não teve tempo de campanha na TV, não participou de debates com seus concorrentes em setembro nem fez campanha nas ruas. Foi o eleitor do Nordeste que garantiu a presença do PT no segundo turno. As outras quatro regiões do Brasil deram vitória ao PSL.

Bolsonaro também elegeu seus filhos Flávio, senador pelo Rio, e Eduardo, deputado federal por São Paulo. E ainda leva para o Congresso Nacional vários pastores evangélicos, militares e policiais.

O resultado sepulta o PSDB, partido social democrata, que nas últimas seis eleições presidenciais polarizou a disputa com o PT de Lula. Geraldo Alckmin, apoiado por FHC, teve apenas 4,76% dos votos.

O governo Temer foi enfaticamente derrotado nas urnas. Nenhum de seus 11 ministros que disputaram a eleição foi eleito. Ficaram sem mandatos os caciques Romero Jucá, Eunício Oliveira e Edison Lobão, todos ex-ministros de Temer.

A ambientalista Marina Silva, da Rede, que nas duas eleições anteriores mereceu, em cada uma, cerca de 20 milhões de votos, recebeu agora pouco mais de 1 milhão.

A advogada Janaína Paschoal, autora do processo de impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff, foi a candidata ao parlamento mais votada da história do Brasil. Elegeu-se deputada estadual por São Paulo com 2 milhões de votos.

O Congresso Nacional teve uma renovação surpreendente. Nomes apontados como preferenciais nas pesquisas eleitorais, como os candidatos a senadores Dilma Rousseff e Eduardo Suplicy, foram derrotados, como também Cristovam Buarque, candidato a senador pelo Distrito Federal. Na Câmara dos Deputados, o PSL, partido de Bolsonaro, terá a segunda bancada de parlamentares (52). A maior será a do PT (56).

No Maranhão, a dinastia Sarney parece definitivamente sepultada. A filha do ex-presidente, Roseana, foi derrotada por Flávio Dino, do PCdoB, reeleito governador. Pela primeira vez, em 60 anos, a família Sarney não terá nenhum representante no Congresso Nacional.

No segundo turno da escolha presidencial, Haddad deverá ter o apoio de Ciro Gomes, do PDT, que recebeu 12,4% dos votos, e dos demais candidatos progressistas.

Na disputa do segundo turno, Bolsonaro carregará o peso de reafirmar suas declarações em defesa da tortura, da homofobia, da discriminação de índios e quilombolas e da remuneração de salários menores às mulheres. E de manter em seu programa de governo estes pontos: alteração da política de direitos humanos, liberação do uso de armas de fogo, “expurgar a ideologia de Paulo Freire” e “tipificar como terrorismo as invasões de propriedades rurais e urbanas” .

Já Haddad será prejudicado pelas denúncias de corrupção contra líderes do PT.

Como se explica a ascensão de Bolsonaro? Embora tenha sido deputado federal por sete vezes consecutivas, ao longo de 28 anos, agora ele se valeu do vácuo político criado pela Lava Jato e conseguiu se apresentar como “o novo” ao adotar um discurso moralista de defesa da família e de combate à violência urbana. Atraiu os eleitores desencantados com a política e, em especial, fortaleceu em todo o país a onda antipetista.

Não será fácil para Haddad vencer Bolsonaro. Terá que enfatizar a importância da democracia contra o discurso autoritário do capitão, já que pesquisa recente aponta que 69% dos brasileiros preferem este regime de governo, e apenas 12% a ditadura. Mas o que se entende por democracia? O direito de o cidadão se armar para enfrentar bandidos segundo a lei de talião?

Bolsonaro, com certeza, reforçará o discurso de Temer de que todos os males do Brasil, como o desemprego de 12 milhões de pessoas e a recessão econômica, são culpa dos 13 anos de governo do PT. E haverá de explorar o fato de os principais líderes do PT serem apontados como corruptos pela Lava Jato.

Já Haddad não poderá manter sua coerência com o discurso do PT no primeiro turno, sob o risco de não conseguir o apoio de amplos setores da população brasileira que não simpatizam com as propostas de Bolsonaro. Em outras palavras, segundo analistas, Haddad terá que fazer um discurso mais próximo à ideologia do PSDB que do PT, prometendo um governo de coalizão de classes, como tentou Dilma em seu segundo mandato.

UTOPIA E POLÍTICA

Tudo é política, mas a política não é tudo. Participar da vida política, ainda que apenas pelo voto, é exercício de cidadania. Porque a política tem a ver com todos os aspectos de nossas vidas, da qualidade dos serviços de saúde à segurança de nossas famílias. Quem anula o voto ou vota em branco favorece o poder vigente e fica de costas para o bem comum.

Não há como erradicar a miséria, reduzir a criminalidade e a desigualdade social sem a atividade política. A política serve para oprimir e favorecer a corrupção, como também para libertar e punir os corruptos. Tudo depende do modo como é exercida.

O Evangelho de Lucas (3, 1), ao contextualizar a missão de Jesus, a situa politicamente: “No décimo quinto ano do governo de Tibério César, sendo Pôncio Pilatos governador da Judeia; Herodes, tetrarca da Galileia; Filipe, seu irmão, tetrarca da região da Itureia e da Traconídite; e Lisânias, tetrarca de Abilene” etc. Até mesmo a Palavra de Deus tem a ver com política, embora não se deva confessionalizá-la.

Jesus foi assassinado por razões políticas. Ousou anunciar, no reino de César, outro reino possível, o de Deus! Rechaçou a opressão, a doença e a pobreza como castigos divinos. Condenou a religião como legitimadora de preconceitos e discriminações. E propôs um novo projeto civilizatório baseado, nas relações pessoais, no amor e na compaixão; e nas relações sociais, na partilha dos bens da Terra e dos frutos do trabalho humano.

Oito séculos antes de Cristo, o profeta Isaías já havia prefigurado a utopia de uma sociedade na qual a implantação da justiça assegurará o advento da paz: "Vejam! Vou criar novo céu e nova terra. As coisas antigas nunca mais serão lembradas, nem voltarão ao pensamento. Fiquem alegres! Exultarei com Jerusalém e me alegrarei com o meu povo. E nela nunca mais se ouvirá choro ou clamor. Aí não haverá mais crianças que vivam alguns dias apenas, nem velhos que não cheguem a completar seus dias; pois será ainda jovem quem morrer com cem anos... Quem construir casa nela habitará, e quem plantar vinhas comerá de seus frutos. Ninguém construirá para outro morar, nem semeará para outro comer, porque a vida do meu povo será longa como a das árvores, meus escolhidos poderão gastar o que suas mãos fabricarem. Ninguém trabalhará inutilmente, nem gerará filhos para morrerem antes do tempo, porque todos serão a descendência dos abençoados de Javé, juntamente com seus filhos. Antes que me invoquem eu responderei; quando começarem a falar, já estarei atendendo. O lobo e o cordeiro pastarão juntos, o leão comerá capim junto com o boi... Em todo o meu monte santo ninguém causará danos ou estragos, diz Javé.” (65, 17-25).

Na próxima semana, os brasileiros escolherão seus futuros governos estadual e federal. Eis um direito democrático de substancial importância. Os eleitos haverão de fazer o país avançar ou retroceder ainda mais. Deles dependerão o combate ao desemprego e às causas da criminalidade, a universalização da educação de qualidade e o fim das intermináveis filas nos postos de saúde.

Os políticos são considerados autoridades. Ora, a rigor autoridades somos nós, o povo brasileiro, que os elegemos, pagamos seus salários e todos os gastos do exercício de seus mandatos, da conta de luz do Palácio da Alvorada ao combustível que move o avião presidencial.

Sem utopia a política se apequena. Torna-se mero jogo de poder em função de ambições pessoais e interesses corporativos. É de suma importância votar de olho no projeto Brasil. No futuro das novas gerações. Na conquista de uma sociedade que espelhe a proposta do profeta Isaías, onde o lobo e o cordeiro, que são diferentes, não façam da diferença divergência, e possam conviver em harmonia e igualdade de condições.

Edição 140 Setembro 2018

QUERIDA DEMOCRACIA

A senhora, todos sabem, nunca foi como a Amélia, que, na opinião do saudoso Mário Lago, era mulher de verdade. Desde que surgiu no cenário das instituições políticas, sua presença sempre foi cercada daquelas suspeitas que envolvem mulheres que se casam com um e flertam com outros.

Lembra-se de seus tempos na Grécia, quando ainda menina? Na verdade, nem todos os habitantes de Atenas tinham entrada livre em seus jardins. Segundo alguns pesquisadores, apenas 20 mil atenienses desfrutavam da liberdade que a senhora veio a introduzir nas decisões políticas. Os 400 mil escravos, os metecos (estrangeiros que viviam em Atenas) e as mulheres ficavam de fora, excluídos da cidadania e, portanto, do direito de participar da vida pública.

Na Idade Moderna, Rousseau, Tocqueville e Montesquieu colaboraram muito para a sua maturidade. Com o seu charme, aos poucos a senhora fez a vetusta nobreza, toda enrugada, recolher-se a seus aposentos privados à espera de morte condigna, embora algumas famílias reais insistam em prolongar-lhe a agonia. Mas, em geral, o fazem de braços dados com o parlamentarismo, como meras figuras decorativas, permitindo que a senhora ocupe o espaço das decisões que resultam do confronto plural de partidos e opiniões diferentes.

Seu melhor atributo, a liberdade, exaltada na tela de Delacroix, aparece com os seios à mostra, guiando o povo. Pena que as suas duas outras filhas, a igualdade e a fraternidade, ainda não tenham saído da pré-escola, repudiadas por quem se farta com as desigualdades e se impõe pela discriminação.

Um fenômeno curioso é como a senhora é mais falada que amada, exaltada que praticada, evocada que realizada. Veja o Brasil. Desde a queda do Império, a senhora foi sequestrada por nossas elites e, embora o nosso povo continue a pagar, como resgate, cotas de sofrimento e miséria, a senhora ainda enfrenta dificuldades para ganhar praças e ruas. Quando tentou fugir do cativeiro, seus áulicos a puniram com rigor, fazendo-a desaparecer de nosso cenário político, como ocorreu no Estado Novo, na década de 1930, e na ditadura militar, entre 1964 e 1985.

Com o fim do regime dos generais, a senhora voltou à cena, timidamente, ainda refém dos mesmos políticos que se locupletaram com a ditadura. Tancredo Neves morreu à porta de sua casa e, nos braços de Sarney, a senhora experimentou a vertigem inflacionária, favorecendo a sua queda na Casa da Dinda. Para salvá-la, foi preciso que o povo ocupasse as ruas, resgatando-a de quem pretendia, em seu nome, transformar a coisa pública em negócio privado.

Veio o governo Itamar Franco e criou o real, moeda que, no bolso da maioria, continua virtual. E fez a cama para FHC, Lula e Dilma, apoiados pelos mesmos partidos tolerados pela ditadura militar, embora acobertados em siglas diferentes. Assim, os interesses das elites ficaram assegurados, salvos das turbulências conjunturais, enquanto o Brasil se tornou campeão mundial de desigualdade social. Hoje, ocupa o vergonhoso 73º lugar no Índice de Desenvolvimento Humano.

O Brasil conta com 13,4 milhões de desempregados e 15 milhões de analfabetos funcionais. Agora, em pleno ano eleitoral, querem de novo conspurcá-la, pois os donos do poder, tão bem estudados por Raimundo Faoro, não admitem que a senhora tenha plena vigência em nosso país. Todos podem vencer as eleições, exceto quem não está de acordo com o atual modelo econômico, financeiramente concentrador e socialmente excludente. Daí o terrorismo conservador, as pressões dos especuladores, e a arrogância da Casa Branca, disposta a desestabilizar o país caso seja eleito um candidato que não agrade ao deus Mercado.

Ora, querida democracia, por que a tratam tão mal? Sua presença entre nós é mero jogo de cena, a ponto de não suportar a sua vigência em nossa vida política, como o comprova o golpe parlamentar de 2016? Dos que se gabam de estarem comprometidos com a senhora, quem, de facto, admite a alternância de poder no Brasil?

Os que fazem terrorismo eleitoral em seu nome confessam que a temem, pois se acostumaram a governar o povo, jamais com o povo e em benefício do povo.

ELEIÇÃO DEMOCRÁTICA DO TERROR

Ele nada entendia da situação real do país. Nem demonstrava interesse por ela, embora atuasse ativamente na política. Por isso não gostava de ser questionado, irritava-se diante das perguntas como se fossem armas apontadas em sua direção. Não queria que a sua ignorância se tornasse explícita.

Ser estranho, ele tinha olhos alucinados afundados nas órbitas, lábios espremidos, gestos cortantes. Todo o seu corpo era rígido, como se moldado em armadura. Ao ficar na defensiva, parecia uma fera acossada. Ao passar à ofensiva, a fera exibia garras afiadas e de suas mandíbulas pingava sangue.

Sua fala exalava ódio, rancor, preconceito. Aliás, não falava, gritava. Não sabia sorrir, tratar alguém com delicadeza, ter um gesto de cortesia ou humildade. Evitava ao máximo os repórteres. Julgava suas perguntas invasivas. E temia que a sua verdadeira face antidemocrática transparecesse em suas respostas.

Educado em fileiras militares, aprendera apenas a dar e cumprir ordens, enquadrar quem o cercava e ultrajar quem se opunha às suas opiniões. Jamais aceitava o contraditório ou praticava um mínimo de tolerância. Considerava-se o senhor da razão.

A nação estava em frangalhos, mergulhada em crise ética, política e econômica, e o horizonte da esperança espelhado em trevas. Pelo país afora havia milhares de desempregados, criminalidade generalizada, corrupção em todas as instâncias de poder. O câmbio disparara, a moeda nacional perdia valor, o descontentamento era geral. O governo carecia de credibilidade e se via cada vez mais fragilizado. O povo clamava por um salvador da pátria.

Jovens desesperançados viam nele um avatar capaz de inaugurar a idade de ouro. Era ele o cara, surfando na descrença generalizada na política e nos políticos. O Executivo se debilitara por corrupção e incompetência, o Legislativo mais parecia um ninho de ratos, o Judiciário se partidarizara submisso a interesses escusos.

Ele se dizia cristão, e se considerava ungido por Deus para livrar o país de todos os males. Advogava soluções militares para problemas políticos. Movido pela ambição desmedida, se apresentou como candidato à eleição democrática para ocupar o mais alto posto da República, embora ostentasse a patente de simples oficial de baixo escalão do Exército.

De sua oratória raivosa ressoava o discurso agressivo, bélico, insano. Haveria de modificar todas as leis para implantar uma ordem marcial que poria fim a todas as mazelas do país. Eleito, seria ele o comandante-em-chefe, e todos os cidadãos passariam a ser tratados como meros recrutas obrigados a cumprir estritamente as suas ordens.

Prometia fortalecer o aparato policial e as Forças Armadas. Sua noção de justiça se resumia a uma bala de revólver ou a um tiro de fuzil. Eleito, excluiria da vida social um enorme contingente de pessoas consideradas por ele sub-humanos e indesejáveis, mulheres, homossexuais, trabalhadores em luta por seus direitos e comunistas. Todos que se opunham às suas opiniões eram por ele apontados como bodes expiatórios da desgraça nacional.

Seu mandato presidencial haveria de trazer a era de fartura e prosperidade. Reergueria a economia e asseguraria oportunidades de trabalho a todos. Exaltaria os privilégios do capital sobre os direitos dos trabalhadores. Aqueles que o seguissem seriam felizes, e livres para sobrepor a lógica das armas ao espírito das leis. Os demais, excluídos sumariamente do convívio social.

Enfim, após uma série de manobras políticas e forte repressão às forças adversárias, ele foi eleito chefe de Estado. A nação entrou um júbilo. O salvador havia descido dos céus! Ou melhor, brotado das urnas.

Tudo isso aconteceu há 85 anos, em 1933. Na Alemanha alquebrada pela derrota na Primeira Grande Guerra. O nome dele era Adolfo Hitler.

N-E.

Em tempo: Convém não esquecer que A. Hitler teve o explícito apoio dos bispos católicos da Alemanha na altura.

ALERTA À CLASSE MÉDIA

A classe média é a salsicha do sanduíche da desigualdade social. Ela sobe uma rampa ensaboada: quanto mais se esforça para atingir o topo, mais escorrega para baixo. Trata-se de uma classe híbrida, com variados perfis. Há quem já tenha nascido na classe média, filho de profissionais liberais. Há os que vieram da classe assalariada ou da zona rural e ascenderam socialmente graças à escolaridade que seus pais não tiveram. Há ainda quem se refira nostalgicamente à fazenda ou à casa espaçosa dos avós, gente outrora abastada, cujos netos agora moram em apartamentos e ganham menos do que gostariam.

A classe média ascendente é mais conservadora. Sonha atingir o cume da pirâmide social. Regozija-se por haver trocado a carteira de trabalho assinada pelo negócio próprio e a periferia sem saneamento pela rua asfaltada.

Para esse setor da classe média, a solução para a criminalidade se resume em mais polícias e mais cadeias. Não duvida de que o noticiário da TV fala sempre a verdade. E se sente confortável por possuir carro, celular e computador, ainda que more de aluguel e viva endividado.

A classe média descendente é filha ou neta de uma estirpe que, no passado, teve baixelas de prata, taças de cristal e empregadas dia e noite. É sofrido para quem já foi rei perder a majestade. Por ter meia dúzia de amigos ricos e boa escolaridade, esse setor vive a ilusão de estar muito próximo de ser aceito no seleto clube da elite, embora tenha consciência de que lhe falta o essencial – capital.

Já a classe média média oscila entre o conservadorismo e o progressismo. Os avós são conservadores, cultivam o “American way of life”, enquanto os netos exibem camisetas com a estampa de Che Guevara e votam em candidatos de esquerda.

Entre todos os segmentos da classe média há algo em comum: ai dos filhos jovens se os pais não os socorressem com periódicas ajudas financeiras! Se os avós tiveram empregos bem remunerados, e os filhos alcançaram a época em que ainda era viável fazer poupança, agora os netos estão longe de poder alçar voo próprio. São dependentes familiares. Se não estão desempregados, ganham muito menos do que a geração anterior ao desempenhar as mesmas funções. E sabem que o futuro não é nada alentador...

Não é mesmo. O avanço tecnocientífico engole, cada vez mais, os postos de trabalho. A maioria dos candidatos a um deles não preenche os requisitos mínimos: não é capaz de redigir uma carta, não tem leitura, não domina um idioma estrangeiro, tem baixo nível de cultura geral.

Qual o futuro dessa nova geração? No atual modelo de sociedade consumista, nenhum, exceto para um em cada mil. O sistema vigente é intrinsecamente seletivo e excludente.

A saída seria um modelo pós-capitalista baseado na redução da desigualdade social e na preservação do meio ambiente, ancorado na sustentabilidade, como propõem Thomas Piketty (“O capitalismo no século XXI”), e Glen Weyl e Eric Posner (“Desenraizando o capitalismo e a democracia para uma sociedade justa”). Ou uma sociedade socialista capaz de compatibilizar liberdade individual e justiça social, propriedade estatal e capital privado.

Enquanto não se alcança o ideal, a única solução em curto prazo são políticas sociais centradas na seguridade e na inclusão, e o Estado como indutor do desenvolvimento que prioriza o trabalho, não o capital.

OS SANTOS E SEU AVESSO

Outrora eu nutria profunda veneração aos santos. Homens e mulheres capazes de tantos milagres só poderiam ter existido em outras épocas. Supunha que eu jamais conheceria alguém como aqueles seres sobrenaturais, isentos de preocupações triviais e simples carências humanas.

Ao contemplar suas imagens nas igrejas, suas figuras em ilustrações e santinhos, nada daquilo me parecia humano; eram seres privilegiados até na beleza física, no olhar beatífico, envolvidos por uma auréola de pureza que jamais eu reconheceria em qualquer dos meus contemporâneos.

Com o tempo, deixei os santos nos altares e nas estampas, e fui procurar algo mais humano, mais condizente com a realidade trágica e arriscada da nossa condição terrestre.

Haveria um ser que sentisse raiva e medo, desafiasse os inimigos, chorasse a morte dos amigos, desrespeitasse a lei, rompesse a tradição, sofresse angústia e fome? Alguém repelido como um portador de hanseníase, perseguido como um bandido, caluniado como uma mulher adúltera, e que andasse foragido como um criminoso e acabasse morto como um pária, da maneira mais ignominiosa? E haveria neste mesmo ser humano a plenitude do amor de Deus?

Perdi os santos do céu, mas encontrei este homem na Terra. Ele não tinha a delicadeza nem a beleza dos santos; não provocava a admiração dos reis, nem suscitava a compaixão dos magistrados. Era tão sem atrativos como os bêbados da madrugada, as prostitutas das ruas infectas, os mendigos estirados nas calçadas, os loucos molhados pela própria baba, os presos que nos fitam entre grades, os hansenianos de mãos e pés atrofiados.

Este homem identificava-se com essa escória, fazia-se um deles, entregava-se por eles, e a quem desse um banquete, sugeria não convidar a família nem os vizinhos ricos. Convidasse os pobres, os estropiados, os coxos e os cegos, para se sentir feliz porque esses não têm com que lhe retribuir (Lucas 14, 12-14).

Ainda assim houve quem acreditasse neste homem. Houve quem visse, naquele pregador ambulante, a plenitude do amor de Deus. Não foram muitos, nem eram ricos e poderosos. Foram os pobres, os humildes, os que têm fome de justiça e constroem a paz.

Houve também quem visse nele um perigo a ser contido: “Se o deixamos continuar assim, todos crerão nele, e virão as tropas estrangeiras e destruirão nosso lugar santo e nossa nação. Convém que morra um homem por todo o povo, antes que o povo todo pereça. A partir desse dia resolveram matá-lo” (João 11, 45-53).

Ele fugiu. “Não andava em público” (João 11, 54). Passou à vida clandestina. “Os chefes dos sacerdotes e os fariseus tinham dado ordem para que se alguém soubesse onde ele estava, o denunciasse, afim de que pudesse ser preso” (João 11, 56).

De facto, ele “foi torturado e suportou, não abriu a boca. Por um iníquo julgamento foi condenado, sem que ninguém pensasse em defendê-lo. Deram-lhe sepultura ao lado de facínoras e, ao morrer, achava-se entre bandidos, se bem que não tenha cometido nenhuma injustiça e jamais dito uma mentira” (Isaías 53, 7-9).

Assassinado por dois poderes políticos, este homem ressuscitou. Era o próprio Deus entre nós. Mas quem o reconheceria sob tanta humilhação e sofrimento? “Sendo ele de condição divina, não se prevaleceu de sua igualdade com Deus, mas aniquilou-se a si mesmo, assumindo a condição de servo, tornando-se semelhante aos homens. Por isso Deus o exaltou e lhe deu um nome que está acima de todo nome, para que ao nome de Jesus se dobre todo joelho no céu, na Terra e nos infernos. E toda língua proclame, para a glória de Deus Pai, que Jesus Cristo é o Senhor” (Filipenses 2, 6-11).

Hoje, muitos que almejam o poder se esforçam por transformar este homem em cabo eleitoral. Em nome de Jesus, eles criaram um deus à sua imagem e semelhança... E descartam de seus projetos e programas os direitos dos pobres e excluídos como prioridade.

COMO SEMEAR VIOLÊNCIA

Tome-se um país de 208 milhões de habitantes. Desses, 104 milhões e 200 mil se encontram em idade laboral. Mas o país não oferece trabalho para todos. Estão desempregados 12 milhões e 966 mil. E 65 milhões e 642 mil se encontram fora do mercado de trabalho. (IBGE 31.07.2018). De que vive tanta gente?

Desses 65,6 milhões que não estão empregados nem à procura de empregos, há jovens que preferem se dedicar aos estudos, aposentados e desalentados, ou seja, os que cansaram de buscar emprego. Vivem de quê?

Qualquer anúncio de vagas de emprego atrai milhares de pessoas. Filas quilométricas se formam. A maioria deixa o local sem contratação. São mulheres chefes de família que, ao declararem terem filhos pequenos, são preteridas; jovens sem qualificação profissional; analfabetos funcionais (eles são 15 milhões no país, pessoas com mais de 15 anos que mal sabem ler e escrever).

Hoje, são 17,9 milhões de trabalhadores sem carteira assinada. E o número de trabalhadores com carteira assinada no Brasil é de apenas 35,9 milhões.

O rendimento médio mensal dos trabalhadores ocupados gira em torno de R$ 2.095. Como comparação, o salário mínimo necessário, calculado pelo DIEESE, deveria ser de R$ 3.674 – quase duas vezes mais que a renda média dos ocupados, e quase quatro vezes o salário mínimo nacional, de R$ 954,00. Ou seja, somos uma nação de salários muito baixos.

Um dos fatores que levam empregadores a diminuírem contratações com carteira assinada é a reforma trabalhista do governo Temer, que “flexibilizou” (leia-se: precarizou) as condições de trabalho e aumentou os direitos dos patrões ao reduzir os dos empregados.

Ora, se há cerca de 105 milhões de pessoas em idade laboral no Brasil, das quais 12,9 milhões estão sem emprego e 65,6 milhões sobrevivem da economia informal; se há 15 milhões de analfabetos funcionais; se 63,6 milhões de brasileiros(as) são considerados “ficha suja” pelo mercado, enquadrados no SPC por endividamento; o que esperar do futuro desta nação? O Unicef divulgou, em 13 de agosto, que 60 milhões de crianças e jovens brasileiros vivem na pobreza.

No Enem de 2017, a nota máxima em redação era 1.000. Foram entregues 4 milhões de redações. Apenas 53 mereceram a nota máxima. Como obter emprego qualificado e salário digno quando sequer se sabe redigir?

Para muitos jovens semianalfabetos e excluídos do mercado de trabalho – e eles são milhões – a “saída” é ingressar na criminalidade, em especial no narcotráfico. Não adianta o governo atuar apenas nos efeitos, como aumentar o efetivo policial e multiplicar o número de cadeias. Há que enfrentar as causas. A principal delas é a desigualdade social, seguida da falta de escola pública gratuita e de qualidade.

Segundo o Fórum Brasileiro de Segurança Pública, em 2017 ocorreram 63.880 assassinatos no Brasil. São 175 mortes por dia! Em comparação com 2016 houve aumento de 2,9%.

Como deter essa escalada da violência? Entregando uma arma a cada cidadão, como propõe certo candidato à presidência da República? Instituindo a pena de morte? Ora, se tais medidas fossem eficazes os EUA não seriam um país violento, com a maior população carcerária do mundo: mais de 2 milhões de prisioneiros (o Brasil ocupa o terceiro lugar, logo após a China).

Conclusão: para semear a violência bastam um governo desprovido de políticas sociais; o ensino sucateado; leis trabalhistas que protegem o capital e prejudicam o trabalhador; políticos indiferentes ao bem comum; e cidadãos incapazes de transformar sua indignação em luta por um país melhor.

Edição 139 Junho 2018

SUICÍDIO

Os recentes suicídios da estilista Kate Spade e do chef Anthony Bourdain, somados ao de alunos de colégios de classe alta em São Paulo, exigem reflexão.

Segundo a OMS (Organização Mundial de Saúde, dados de 2015) o suicídio mata mais jovens entre 15 e 29 anos que o HIV. Fica atrás apenas dos acidentes de trânsito.

Nos EUA, o Centro de Controle e Prevenção de Doenças (CDC), órgão do governo, admite aumento de 30% nos suicídios desde 1999, a maioria por armas de fogo. No Brasil, o índice é de 6,9 casos por cada 100 mil habitantes.

São muitas as causas: perda de entes queridos (por morte ou separação), problemas financeiros ou legais, abuso de substâncias químicas (drogas, bebidas, medicamentos), declínio da saúde física ou mental etc. Entre os jovens, perda da autoestima.

Nossas famílias e escolas tratam o tema como tabu. Calam-se sobre o que precisa ser debatido: sexo, falta de afeto, dor, separação, fracasso e morte.

Nessa sociedade neoliberal que enfatiza como valores supremos riqueza, poder, fama e beleza, é indispensável à educação fomentar a consciência crítica perante tal proposta consumista/hedonista e instruir os jovens a lidar com perdas e conflitos emocionais. E se as coisas derem errado em suas vidas, o que fazer?

O suicida é um actor que entra em cena quando cai a cortina do palco. Ele nos interpela. Joga sobre nós o peso da culpa. Por que não fomos capazes de salvá-lo? Deixamos de amá-lo o suficiente? Há várias formas de suicídio e a pior nem sempre é a que faz cessar a vida como fenómeno biológico.

A Bíblia menciona raros casos de suicídios, como Abimelec (Juízes 9,54), Saul (1 Samuel 31, 4), Zimri (1 Reis 16,18) e Judas (Mateus 27,5). A Igreja primitiva silenciou diante do facto, embora eminentes teólogos, como Eusébio de Cesareia, João Crisóstomo, Ambrósio e Agostinho, tenham aconselhado encará-lo com misericórdia.

No século VI, a Igreja passou a negar funerais religiosos aos suicidas. Pouco mais de um século depois, eles foram excomungados. Isso mudou com o novo Catecismo, aprovado pelo papa João Paulo II, em 1983. Embora cometam um atentado ao maior dom de Deus, a vida, deve-se acolher com misericórdia os suicidas induzidos por “distúrbios psíquicos graves, angústia ou o medo grave da provação, do sofrimento ou da tortura”, fatores que lhes diminuem a responsabilidade. E acrescenta: “Não se deve desesperar da salvação eterna das pessoas que se mataram. Deus pode, por muitos caminhos que só Ele conhece, dar-lhes ocasião de um arrependimento salutar. A Igreja ora pelas pessoas que atentaram contra a própria vida” (2283 – Catecismo da Igreja Católica).

Meu confrade frei Tito de Alencar Lima foi levado ao suicídio, aos 28 anos, devido às torturas sofridas sob a ditadura militar, conforme retrato em Batismo de sangue (Rocco), obra levada ao cinema por Helvécio Ratton.

Por ocasião do retorno de suas cinzas ao Brasil, em solene celebração na catedral da Sé, em São Paulo, o cardeal Paulo Evaristo Arns afirmou na homilia: “Frei Tito não se matou. Buscou do outro lado da vida a unidade perdida deste lado.”

OS FUROS DA LAVA JATO

A corrupção é inerente à história humana. Até no grupo de apóstolos escolhidos por Jesus havia um corrupto: Judas Iscariotes. E quantos de nós podem dizer com sinceridade que nunca furtaram manta de avião, sonegaram o imposto de renda, embolsaram o troco excessivo entregue por engano pela caixa do supermercado?

A corrupção decorre da impunidade e da imunidade. Impunidade de empreiteiras, empresas, frigoríficos e bancos que, graças ao caixa dois, tinham (e muitos ainda têm) em mãos juízes, políticos e fiscais. E imunidade assegurada por essa aberração constitucional chamada foro privilegiado, que derruba o princípio angular do direito e legitima a verdade de que nem todos são iguais perante a lei.

Agora, surgiu uma pedra no meio do caminho de corruptos e corruptores: a Lava Jato. Em si, necessária e urgente. É a primeira vez na história do Brasil que políticos graduados e donos de empresas são encarcerados e obrigados a devolver aos cofres públicos parte do que roubaram.

Mas há lisura na Lava Jato? Infelizmente os factos demonstram que não. Promotores buscam vaidosamente a luz dos holofotes; prisões são feitas antes da devida investigação e solidez de provas; frequentes vazamentos jamais são apurados e os responsáveis punidos; e as informações contrabandeadas dos autos para a mídia são preconceituosamente seletivas, focando uns partidos e poupando outros...

No tsunami de corrupção que assola o Brasil, a Lava Jato constitui uma exceção. Onde estão os criminosos descobertos pela Operação Zelotes? Todos soltos. Onde os responsáveis pela catástrofe provocada pela Samarco, em Minas? Todos em liberdade. E as maracutaias do metrô de São Paulo? Debaixo do tapete.

O elitismo é um carrapato que suga privilégios da Justiça. Quanto tempo levará o STF para condenar os culpados e absolver os inocentes? Até hoje o STF não levou nenhum político com mandato à cadeia. E no passo de tartaruga que caracteriza a nossa suprema corte, pode ser que muitos crimes prescrevam. Além disso, a polícia manda algemar, a Justiça manda ao Gilmar…

Uma pergunta que não quer calar: como toda essa montanha de dinheiro roubado pelos réus da Lava Jato transitou do Brasil ao exterior? Levada em mala de turista? A nado? Enfiada em tubos de pasta de dente?

Se o Banco Central tem olhos para qualquer quantia acima de 10 mil reais movimentada entre bancos, como justificar a cegueira diante de vultosas quantias da corrupção?

Não basta espalhar veneno pela casa para acabar com os ratos. Do mesmo modo, enquanto as instituições brasileiras não passarem por profundas reformas, como erradicar o foro privilegiado e divulgar na internet todos os atos públicos, dos salários dos políticos às licitações, os ratos continuarão à espreita, dispostos a aproveitar as múltiplas brechas hoje existentes.

O moralismo causa indignação. Mas não inibe a corrupção.

LIÇÕES DA ESCASSEZ

A paralisação dos camionistas obrigou-nos a enfrentar, sem alternativa, a escassez de produtos essenciais ou ao menos a ameaça de que isso viesse a acontecer.

Durante a paralisação não houve diferença entre ricos e pobres. Aos primeiros também faltou combustível para se deslocarem até onde pudessem adquirir os produtos desejados.

Um abastado advogado paulistano se viu obrigado, pela primeira vez na vida, a andar de metro. Em rua da Zona Norte do Rio vizinhos se puseram de acordo para alternarem seus carros como lotação até o centro da cidade.

Em muitas famílias a incerteza quanto à volta dos camionistas às estradas forçou-as a moderarem o consumo de alimentos, evitando o desperdício.

Todos os dias, 45 mil toneladas de alimentos vão para o lixo no Brasil. As perdas sobre o que é cultivado chegam a 64% e acontecem por toda a cadeia produtiva, sendo, segundo o Instituto Akatu, 20% na colheita; 8% no transporte e armazenamento; 15% na indústria de processamento; 1% no varejo; 20% no processamento culinário e nos hábitos alimentares.

De que vale ser rico quando não se pode fugir da escassez? No cerco romano a Jerusalém, no ano 70, as mais ricas famílias judaicas ofereciam barras de ouro em troca de um punhado de trigo ou uma cesta de tâmaras. Em vão. Ouro não é comestível...

A sabedoria é considerar suficiente o necessário. No entanto, somos pressionados por poderosa engrenagem publicitária que nos induz a considerar imprescindível o que é, de fato, supérfluo. O desejo incontido de possuir algo gera ânsia de consumo em alguns e lucro para outros. A fantasia estimula o desejo. A publicidade cria a fantasia. Não se compra uma roupa, e sim um estilo de vida.

Em Bogotá um padre me contou que, na Quaresma, não incentiva os paroquianos a se privarem dos prazeres da mesa. Promove mutirão de coleta de supérfluos, tudo isso que, em casa, ocupa espaço nos armários e não é utilizado: peças de vestuário, carrinho do bebé, pratos e talheres fora de uso etc. Tudo é destinado a um bazar em bairro de famílias de baixa renda, onde os preços são simbólicos.

Livrar-se de excessos faz bem à alma e ao corpo. Seja de bens materiais, seja disso que acumulamos no espírito: mágoas, ódio, inveja etc. A vida fica mais leve quando ousamos nos despojar.

Europeus da geração do pós-guerra não costumam deixar comida no prato. Guardam a lembrança da escassez. Mas quem sempre teve o privilégio de desfrutar da abundância sofre frente à possibilidade de escassez. A simples ideia de se privar de certos confortos causa tormento. Como a meu vizinho enfurecido diante de seus dois possantes carros estacionados na garagem com gasolina suficiente apenas para uma situação de emergência.

A maioria da população vive em permanente escassez: de salário digno, moradia confortável, serviços de saúde adequados, educação de qualidade, transportes individual e coletivo, acesso à cultura e arte etc.

Isso nada tem a ver com despojamento, e sim com flagrante injustiça, fruto de um sistema económico que torna os ricos cada vez mais ricos e multiplica a multidão de pobres e excluídos.

“Vim para que todos tenham vida e vida em abundância”, proclamou Jesus (João 10, 10). A escassez de bens essenciais e direitos é grave violação de direitos humanos e ofensa a Deus. Frente a isso não devemos admitir a escassez da bem-aventurança da fome e sede de justiça.

A MINHA VISITA AO EX-PRESIDENTE LULA

"Fiquei segunda-feira das 16h às 17h15m com o ex-presidente Lula na cela que ele ocupa na Superintendência da Polícia Federal, em Curitiba. O recinto de 15 metros quadrados abriga a cama junto à janela, uma mesa no centro, esteira para exercícios físicos a um canto e o armário colado à divisória entre a cela e o banheiro. Na parede, uma única foto — ele com filhos, netos e bisneta.

Encontrei-o vestido com um conjunto de moletão azul, muito animado, mais magro e bem penteado. Sobretudo, bem informado. Dispõe de TV aberta, pela qual acompanha o noticiário e se entretém com filmes. Prefere a TV Aparecida, devido à programação de música sertaneja e pela qual assiste diariamente à missa das 18h.

Recebe todas as manhãs um clipping de notícias de jornais, blogs e agências internacionais, o que o ocupa na hora do café. Tem direito a duas horas diárias de banho de sol.

Riu muito quando comentei que figurou como fake news — teria sofrido síndrome de abstenção alcoólica nos primeiros dias de prisão. Já na época das caravanas ele se privou de álcool para não prejudicar a voz.

Há uma relação respeitosa entre ele e os agentes penitenciários, sem, contudo, qualquer aproximação amigável. Dois deles permanecem de plantão do lado de fora da cela, e tivemos que bater na porta para que viessem abri-la para eu sair.

Lula reafirmou que não pensa em retirar sua candidatura a presidente nem apoiar nenhum dos concorrentes, embora confesse sua admiração por Guilherme Boulos, do PSOL. “Como me retirar de uma disputa eleitoral se as pesquisas comprovam que, sozinho, tenho mais votos que a soma de todos os concorrentes?”

Admite não entender por que está preso em Curitiba se a peça da acusação — o tríplex do Guarujá — fica em São Paulo...

Considera que a elite brasileira, que tanto o bajulou durante os 13 anos de governo do PT, hoje se posiciona contra por estar interessada na venda do Estado brasileiro e indignada com a ascensão social da maioria pobre graças às políticas de inclusão adotadas no período em que ele e Dilma governaram.

Segundo ele, um novo golpe estaria sendo armado com a adoção do parlamentarismo via STF, sem consulta plebiscitária como prevê a Constituição.

Disse não estar preocupado com a questão jurídica, e aguarda sereno o julgamento do mérito dos processos nos quais figura como réu. Tem plena consciência de que o caráter político das acusações que o levaram à prisão pesa muito mais.

Hoje, os media mostrá-lo-ão de terno e gravata ao depor por videoconferência em processo que envolve Sérgio Cabral e as Olimpíadas do Rio."

Antes de me despedir, rezamos juntos a Oração do Espírito Santo

Publicado no jornal O Globo

A NATUREZA DE TRUMP

Quem planta limoeiro espera colher limão. No entanto, nossa sociedade, movida pela ótica analítica, e não pela dialética, se acostumou a examinar os factos por seus efeitos e não por suas causas.

O próprio sistema ideológico no qual vivemos cuida de encobrir as verdadeiras causas. Assim, apregoa que há países pobres porque seu povo não é empreendedor; muçulmanos são potenciais terroristas; presos comuns, irrecuperáveis; homossexuais, pervertidos; negros, inaptos às carreiras científicas etc.

Trump surpreende muitos. Sobretudo seus aliados. Ninguém esperava que o seu primeiro soco na cara de governos da América Latina fosse exatamente em gestões que se postavam de joelhos diante da Casa Branca: México e Argentina. Se fosse na cara do governo da Venezuela não teria surpreendido.

Trump deu uma rasteira em seus mais fiéis aliados, como agora faz com os governos europeus, ao adoptar medidas proteccionistas prejudiciais ao Velho Continente e abandonar o acordo nuclear com o Irão.

Trump é louco? Porá fogo no mundo, como Hitler fez na Europa e Nero em Roma? De modo algum. Louco rasga dinheiro, e Trump sabe como multiplicá-lo. Ele é fruto genuíno do sistema cujo valor primordial é a competitividade e não a solidariedade. E aparelha sua administração para consolidar os mais caros “valores” de quem pratica a idolatria do dinheiro: supremacia dos brancos; fortalecimento dos privilégios dos ricos; anulação de direitos sociais, como saúde; liberdade da CIA para sequestrar suspeitos em qualquer ponto do planeta, torturar e manter cárceres clandestinos etc.

Se quem planta limoeiro colhe limões, quem planta essa perversa noção de que é direito natural ser rico em um mundo maioritariamente pobre (a renda de 1% da população mundial supera a de 99%), legitima a desigualdade e a violência.

A propaganda é avassaladora. Tirânica, como analisou Hannah Arendt. Incute-nos a ideia de que só os ricos são felizes, pois têm acesso ao luxuoso e requintado mercado de bens supérfluos. Ou vemos com frequência a TV exaltar quem partilha seus bens ou defende os direitos dos negros e homossexuais?

O sistema não tem o menor interesse nas pessoas, excepto se potencialmente consumidoras. O que importa é o lucro e a acumulação de riquezas. Se um país é pobre, isso resulta de sua falta de cultura e criatividade. Assim, jogam-se para debaixo do tapete as verdadeiras causas: séculos de colonialismo, de tirania a serviço dos países metropolitanos, de extorsão de recursos naturais e exploração da mão de obra.

Exemplo disso é o Brasil, no qual os portugueses tudo fizeram para evitar uma nação de letrados. A primeira impressora desembarcou aqui em 1808, com Dom João VI, mais de três séculos após o início da colonização. E a primeira universidade foi inaugurada em 1920, no Rio de Janeiro.

Trump é um imperador que se acredita revestido de cabelos de ouro. Seu país viola impunemente a soberania de inúmeros outros através de suas empresas e bases militares. Quantas bases militares estrangeiras existem nos EUA? O dólar é a moeda padrão internacional. Se os EUA tossem, a economia global se gripa.

O bom de Trump é que, agora, ele exibe as garras afiadas de Tio Sam. Este já não faz questão de esconder sua verdadeira natureza sob a fachada de bom velhinho. Clark Kent se despe, afinal, de sua cara de boa gente. Quem acreditou na humanização do capitalismo talvez se convença de que serrar os dentes e as garras do tigre não anula a sua natural ferocidade.

ERA DE INCERTEZAS

Vivemos na era de incertezas. Há mais perguntas que respostas. Mais dúvidas que certezas. Navegamos à deriva na terceira margem do rio. Abandonamos a primeira, a modernidade com sólidos paradigmas filosóficos e religiosos, e ainda não sabemos como se configurará a segunda, a pós-modernidade.

Estão em crise as grandes instituições pilares da modernidade: o Estado, a Família, a Escola e a Religião. Vigoram modelos e propostas para todos os gostos.

Em meio à turbulência, emerge com nitidez o mundo hegemonizado pelo capitalismo neoliberal. A financeirização da economia supera a produtividade. A regulação da sociedade se desloca das mãos do Estado para as do mercado.

Se, no século passado, a Europa fez concessões à social-democracia como antídoto à ameaça socialista, agora os direitos sociais retrocedem e novas tecnologias tornam obsoleto o trabalho humano.

Como tudo que é sólido desmancha no ar, é preciso criar exceções e dar consistência ao sistema “globocolonizado” de consumismo e hedonismo. Assim, difunde-se a ideologia da privatização, concomitante ao esgarçamento das instituições. Privatiza-se a política. Já que os políticos fracassaram, entrega-se a administração pública a empresários bem-sucedidos. Já que os partidos se desmoralizaram, cada um que lance mão de seu celular e faça dele sua tribuna de ódio ou aplauso.

Para sustentar essa democracia virtual sobre abissal desigualdade social, cria-se a cultura da apartação. UPPs, não para combater o crime organizado, e sim para assegurar que a turba ignara desça dos morros em fúria ensandecida. Se desaba um prédio ocupado por pessoas sem-teto, a culpa é das vítimas. O discurso do ódio é legitimado até pelo STF ao confundir graves ofensas à honra alheia com liberdade de expressão.

Passamos da era analógica à digital. Mudam também os padrões de relacionamentos. O valor do outro depende de sua posição no mercado. E fora do mercado não há salvação.

Nem tudo, entretanto, se ajusta à mercantilização do planeta em detrimento dos direitos humanos. E o maior desajuste reside em nossa relação com a natureza. Esgotou-se o tempo. A ânsia de lucro poluiu o ar, o mar e a terra. Ou mudamos os nossos paradigmas socioambientais ou a Terra voltará a viver como ao longo de milênios, sem a nossa incômoda presença.

Há que se adotar o desenvolvimento sustentável, no qual estejam incluídos o ecológico, o social e o cultural. No fim da década de 1940, o Japão, arruinado pela guerra, era mais pobre que o Brasil. E quarenta anos depois, quando o nosso país se destacou como a 8ª economia do mundo, o Japão já figurava entre as cinco primeiras. Havia promovido uma revolução educacional, o que jamais fizemos.

Nosso modelo de desenvolvimento continua predatório e são tímidas as iniciativas para que, neste país ensolarado, as energias eólica e solar prevaleçam sobre as fósseis, tão poluidoras do meio ambiente. É preciso mudar os paradigmas do que entendemos por progresso e avanço civilizatório. Os países europeus e os EUA comprovam que crescimento do PIB não significa redução da desigualdade social. E como tem acentuado o Papa Francisco, desenvolvimento que não tem centralidade no ser humano, e sim do acúmulo do capital privado, é antiético.

Quiçá os índios andinos tenham algo a nos ensinar quando sublinham a diferença entre “viver bem” e “bem viver”.

Edição 138, Maio 2018

ARQUIVOS DA DITADURA E MEMÓRIA SUBVERSIVA

As Forças Armadas brasileiras preferem tergiversar a respeito dos arquivos da ditadura. Insistem na versão de que foram queimados. Não haveria nada a ser trazido a público. Ora, impossível apagar a memória daqueles 21 anos de atrocidades.

Mais de 70 anos após o inferno nazista, novos dados ainda vêm à tona. Não será aqui no Brasil que haverão de borrar da história o longo período no qual crimes hediondos foram cometidos pelo Estado, em nome do Estado e por ordem do Estado chefiado por militares, como constam nos documentos da CIA.

À semelhança do genocídio nazista, aqui também vítimas sobrevivem. E jamais haverão de esquecer o tempo em que a arma do Direito deu lugar ao direito das armas. Há mortos e desaparecidos, conforme apurou a Comissão da Verdade, e seus parentes e amigos não admitem que se adicione à supressão de suas vidas o selo indelével do silêncio.

O governo dos EUA, que patrocinou o golpe militar de 1964 e adestrou muitos de seus oficiais, mantém robusto arquivo com o registo das confissões dos algozes. A história é feita de fatos cujos significados dependem de versões. Raramente a versão do poder prevalece sobre a dos vencidos, ainda que esta última demore a emergir, como foi o caso do genocídio indígena cometido por espanhóis e portugueses na colonização da América Latina.

O exemplo emblemático de memória subversiva é a que coloca no centro da história do Ocidente um jovem palestino preso, torturado e assassinado na cruz há mais de dois mil anos. Tudo se fez para que as versões do Império Romano prevalecessem. Os discípulos de Jesus de Nazaré foram perseguidos e mortos, a cidade na qual ele morreu foi invadida e arrasada no ano 70, e os historiadores da época, como Flávio Josefo e Plínio, não lhe dedicaram mais do que uma linha.

Seus feitos e suas palavras, no entanto, não caíram no olvido. As comunidades mediterrâneas que nele reconheceram Deus encarnado preservaram os relatos daqueles que com ele conviveram. Trinta anos depois de o pregarem na cruz, as narrativas, hoje conhecidas como evangelhos, se difundiram. O que se tentou apagar veio à luz.

As Forças Armadas brasileiras podem insistir em não separar o joio do trigo, ao contrário do que fizeram os militares da Argentina, do Uruguai e do Chile, que se livraram do estigma de cumplicidade com o horror. Jamais, porém, haverão de apagar da memória nacional as graves violações dos direitos humanos cometidas pela ditadura.

O pacto de silêncio não cala a voz da história. A memória subversiva não confunde amnistia com amnésia. Somente o silêncio das vítimas poderia salvar os algozes. Mas isso é impossível. O grito parado no ar ressoa. E exige justiça.

PATOLOGIA DO ÓDIO

Nem sempre foi assim no passado. As pessoas discordavam, mas não se odiavam. Mesmo durante a ditadura, divergências políticas não se transformavam necessariamente em antipatias pessoais.

O que sucede? Por que tanta virulência nas redes digitais? Por que xingar desafetos em locais públicos? Por que atirar na caravana do ex-presidente Lula e no acampamento de seus apoiadores?

Nossa racionalidade está esgarçada. A queda do Muro de Berlim fez desabar também as grandes narrativas. O otimismo de Montesquieu cedeu lugar ao niilismo de Nietzsche. A competitividade, exaltada pelo neoliberalismo, se erigiu em valor, desbancando a solidariedade.

Na Alemanha nazista, os supostos arianos se julgaram no direito de eliminar os “impuros”, como judeus, comunistas, ciganos e homossexuais. Na Rússia de Stalin, os dissidentes padeciam na Sibéria ou eram sumariamente eliminados pela KGB. Nos EUA, os negros eram impedidos de frequentar escolas, restaurantes e transportes coletivos preferidos pelos brancos. E ainda há muitos ianques que se consideram uma raça superior.

A seletividade é uma anomalia do poder que traça limite entre os que estão a favor e os que se posicionam contra. Ora, discordar ou se opor é um direito intrínseco à democracia. Nas relações pessoais ou sociais, a imposição do pensamento único é sintoma de tirania.

Hoje, o esvaziamento das instituições abre espaço à animosidade pessoal. Diferenças e divergências não são debatidas apenas nos fóruns apropriados. A despolitização da sociedade faz com que a discordância se manifeste em “vendetta” individual. Não se contradiz o adversário, procura-se aniquilá-lo. Não se procura contra-argumentar, e sim esmagar. Como nos videogames, cada potencial inimigo deve ser virtualmente eliminado. Só a razão do poder prevalece.

As redes digitais nos empoderam. Permitem a cada usuário ter em mãos a sua tribuna de contestação. Já não se faz necessária a representação política. Nem as ideologias. As grandes narrativas cedem lugar às pequenas celeumas. A emoção sobrepassa a razão. Abdica-se da argumentação para adotar a ridicularização.

O linchamento virtual é o efeito dessa carência de ideias e propostas que traz à tona o ódio inflamado. O ego se arvora em supremo juiz e inviabiliza a alteridade. O outro só é percebido como reflexo da imagem de si projetada no espelho narcísico.

O que fazer? Primeiro, desarmar o próprio espírito. Não engrossar o raivoso exército dos que se julgam donos da verdade absoluta. Não transformar a diferença em divergência. Respeitar a singularidade alheia, ainda que ela questione meus valores. Poupar o coração do ódio, este veneno que se ingere na expectativa de que o outro morra.

Ora, o ódio só faz mal a quem acumula dentro de si este sentimento, jamais a quem é odiado. O preceito evangélico de “amar os inimigos” não significa condescendência com a injustiça, e sim abraçar a tolerância e empenhar-se em eliminar as causas que fazem com que seres humanos atuem como monstros cegos pelo paroxismo do mal.

INFORMAÇÃO E CONHECIMENTO

É avassalador o fluxo de informação que recebemos atualmente. Não conseguimos retê-lo. Nossa memória é inteligentemente seletiva. Se me perguntam se ontem vi inúmeras peças publicitárias por ruas e mídias, digo que sim. Se me pedem para mencioná-las, poderia apontar apenas quatro ou cinco.

A mente “pesca” se possui “isca”, ou seja, se focada no que pretende apreender. Isso ocorre quando pesquiso na internet a arte de Aleijadinho ou a política de felicidade do reino do Butão. Então a informação se transforma em conhecimento.

Em visita a uma escola, pedi aos alunos para registrarem no papel quanto tempo cada um navegou na internet no dia anterior. Em média, três horas. Em seguida, solicitei escreverem dez temas apreendidos naquelas horas. A maioria não chegou a enumerar cinco. O que comprova que não navegam; de fato, naufragam... Tempo perdido devido à mente dispersa, desatenta.

Transformar informação em conhecimento requer pedagogia. A informação pode ser falsa, como a de alimentos saborosos destituídos de propriedades nutricionais positivas à saúde. Por isso a publicidade é repetitiva. Empenha-se em nos convencer de que o supérfluo é necessário e está impregnado de valor social. Mexe com a nossa autoestima. Faz-nos sentir que não podemos ser felizes ao prescindir daquele produto, refrigerante ou sanduíche que traz felicidade.

Para que a informação se transforme em conhecimento precisa ser contextualizada. Não basta saber que os EUA disputam com a China a hegemonia mundial. É preciso conhecer por que a China é uma potência; por que os EUA adotam uma política protecionista; por que a ONU propõe a não proliferação de armas nucleares e, ao mesmo tempo, aceita em seu Conselho de Segurança países detentores de ogivas nucleares; por que se admite que EUA e Rússia possuam, juntos, mais de 14 mil ogivas nucleares, capazes de aniquilar várias vezes o nosso planeta.

A mente é um polvo com vários tentáculos. Armazena conhecimento na memória racional. Nem sempre, porém, nos lembramos do que aprendemos, até mesmo nomes de pessoas próximas.

Já a memória emocional grava melhor a informação. Porque nos faz sentir, além de nos fazer pensar. Desperta deleite ao recebermos convite para jantar o prato de nossa preferência ou revisitar uma cidade que nos encanta; ou ojeriza, ao nos deparar com quem nos ofendeu; ou medo ao andar à noite por ruas inseguras.

A informação se faz tanto mais conhecimento quando mais o texto é inserido em seu contexto. Um brasileiro é mais apto a apreender a obra de Machado de Assis do que um alemão, por viver no contexto em que o texto foi produzido. Já o alemão apreende melhor as obras de Goethe.

Daí a importância da experiência na assimilação da informação a ser transformada em conhecimento. Isso não significa que os sentidos sejam confiáveis. Copérnico desbancou Ptolomeu ao provar que o sol não gira ao redor da Terra, como se nos aparenta. Ocorre o contrário.


PADRE FÁBIO DE MELO E A MACUMBA

Quando um sacerdote se torna excessivamente mediático, como ocorre com os padres cantores, sua espontaneidade fica ameaçada. Torna-se um personagem de si mesmo. A fama o sufoca. Entre os padres que priorizam essa forma de evangelização, nutro especial apreço pelos padres Zezinho e Fábio de Melo. Este é um homem aberto, culto, e se esforça para não enxergar no espelho a sua imagem contida nos olhos de seus fãs.

Fábio de Melo reconhece que cometeu uma falha de intolerância religiosa ao ridicularizar a macumba. Com humildade, pediu perdão. De fato, ele expressou a visão preconceituosa da maioria dos católicos frente às tradições religiosas de matriz africana, consideradas por eles meras superstições.

A macumba promove oferendas de alimentos e bebidas, conhecidas como despachos, aos espíritos ou entidades. A pergunta que cabe fazer a nós, católicos, é qual a diferença dos despachos de macumba com as salas de ex-votos nas igrejas? Não seria também mera superstição ofertar a Nossa Senhora ou ao santo protetor réplicas em cera de órgãos e membros cujas curas são atribuídas a milagres ou intervenção divina?

Lembro que na minha paróquia, quando eu era criança, havia cofres para recolher ofertas em dinheiro. Um deles continha a placa “Para as almas”. Ainda hoje me pergunto como as almas embolsavam as ofertas...

Deus não tem religião. Tanto a galinha da macumba quanto o pão da eucaristia são objetos de fé de quem acredita no caráter sagrado da oferenda. O vinho da missa e a cachaça do despacho dependem da crença dos fiéis.

Não é fácil ser tolerante quando se está imbuído de que a religião abraçada é a única admitida por Deus. Ora, a árvore se conhece por seus frutos, frisou Jesus. A boa religião é aquela que suscita tolerância, compaixão, partilha, serviço aos necessitados.

Ainda que eu tenha “uma fé capaz de remover montanhas”, como assinalou o apóstolo Paulo, “e não tivesse amor”, isso não teria o menor valor.

CASA DA MOEDA

Temer se convenceu de que não convém privatizar a Casa da Moeda. Resta agora encontrar recursos para mantê-la.

Fundada em 1694, ali são fabricados papel-moeda, moedas, medalhas, passaportes, selos postais, certificação digital, diplomas, comendas etc.

A moeda é um símbolo nacional. Nela são gravadas estampas de pessoas que se destacaram na história do país, evocações de feitos heroicos ou imagens de nossa flora e fauna.


Entregar a Casa da Moeda a uma empresa privada, possivelmente de capital estrangeiro, equivaleria a desfigurar a nossa bandeira ou deturpar a letra do Hino Nacional. Isso reduziria a autoestima da nação.






Ninguém ignora que o Brasil é, hoje, um país colonizado, que depende de investimentos vindos de fora e da importação de produtos manufaturados e de primeira necessidade, como trigo. Nossa indústria foi sucateada. Sequer fabricamos nossos próprios veículos, apesar de dispormos de tecnologia para tanto.

No Grupo Escolar Barão do Rio Branco, em Belo Horizonte, aprendi que a história do Brasil se divide em ciclos de exportação de matérias-primas. Primeiro, o pau-brasil, que deu nome ao país, em seguida cana-de-açúcar, ouro, café etc.

Desses ciclos não nos libertamos até hoje. A diferença é que, agora, as matérias-primas têm o elegante nome de commodities. Produzimos para o mercado externo, não para o interno. E ainda há quem acredite que os exportadores trazem para as finanças nacionais todo o lucro do que vendem aos estrangeiros, como se não existissem paraísos fiscais.

Entregar a Casa da Moeda à iniciativa privada seria correr o sério risco de estimular a corrupção. Se ela já é endémica com o dinheiro público, pode-se supor o que aconteceria quando o real passasse a ser fabricado por uma empresa particular! E como o único objetivo do capital é o lucro, isso tornaria mais cara a nossa moeda, pois o governo teria de pagar por ela.

Agora o governo Temer insiste em privatizar a Eletrobrás. Não me surpreenderei se, em breve, se decidir privatizar o Estado brasileiro, entregando-o à Confederação Nacional da Indústria. Então já não haverá nem mais Estado mínimo, objetivo dos neoliberais. A nação se tornará uma grande corporação, na qual a cidadania cederá lugar ao clientelismo; os direitos civis, às ofertas do mercado; e a política, à mera administração do negócio chamado Brasil. E, como em qualquer empresa, serão alijados todos aqueles que não forem produtivos, já que manter aposentados, enfermos e idosos é muito dispendioso para a Previdência Social, quanto mais para o capital privado!

Edição 137 Abril 2018

BRASILEIROS CADA VEZ MAIS POBRES

O Brasil se destaca como um dos países mais injustos do mundo. Os dados são do governo Temer, divulgados a 11 de abril deste ano, pela Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua, feita pelo IBGE.

Nossa população atual é de 213 milhões de habitantes. Apenas 1% da população, 2.130 pessoas, recebe 36,1 vezes mais do que ganha a metade mais pobre da população. O rendimento médio mensal dessa metade mais pobre era de R$ 754 em 2017, enquanto a média recebida pelos mais ricos, de R$ 27.213.

Se todas as pessoas que têm algum tipo de renda no Brasil recebessem o mesmo valor mensal, este seria de R$ 2.112. Não é o que acontece. Metade dos trabalhadores com menores rendimentos ganha, em média mensal, R$ 754, enquanto o 1% com os maiores rendimentos recebe, em média, R$ 27.213, ou seja, 36,1 vezes mais.

Em 2017, 5% dos trabalhadores tinham rendimento médio mensal de apenas R$ 47. Houve uma queda de 38% em relação a 2016, quando a renda média mensal desses 5% era de R$ 76.

Houve também queda no percentual de domicílios beneficiados pelo Bolsa Família. Passou da fatia de 14,3% em 2016 para 13,7% em 2017. Temer corta sem dó nem piedade.

Em 2017, 60,2% da população brasileira, (124,6 milhões de pessoas) tinham algum tipo de renda, sendo 41,9% (86,8 milhões de indivíduos) provenientes do trabalho, e 24,1% (50 milhões) originários de outras fontes.

Entre rendimentos de outras fontes, o mais frequente era aposentadoria ou pensão, recebido por 14,1% da população, seguido por pensão alimentícia, doação ou mesada (2,4%); aluguer e arrendamento (1,9%); e outros rendimentos (7,5%), categoria que inclui seguro-desemprego, programas de transferência de renda (como Bolsa Família) e poupança, entre outros.

Em 2017, do total de 207,1 milhões de pessoas residentes no Brasil, 124,6 milhões (60,2%) possuíam algum tipo de renda, seja proveniente de trabalho (41,9% das pessoas) ou de outras fontes (24,1% das pessoas), como aposentadoria, aluguel e programas de transferência de renda.

Outra maneira de constatar a distribuição de renda no Brasil é através da renda domiciliar per capita (por pessoa), calculada da seguinte forma: somam-se todos os rendimentos de um domicílio e divide-se pelo número de moradores.

Em 2017, a renda média domiciliar per capita foi de R$ 1.271. Da massa de R$ 263,1 bilhões gerados, os 20% da população com os maiores rendimentos ficaram com uma parcela superior à dos 80% com os menores rendimentos.

Em 2017, os 10% mais pobres da população detinham apenas 0,7% de toda a massa de renda do País. Já os 10% com mais ricos concentravam 43,3% de toda a riqueza, montante superior à massa detida por 80% da população com renda mais baixa.

Combater a desigualdade social é o principal desafio de um Brasil bem administrado.

Água e Energia, Direitos da Cidadania

De 1 a 5 de outubro deste ano o Movimentos dos Atingidos por Barragens (MAB) realiza, no Rio, seu 8º. encontro nacional. O tema, “Água e energia com soberania, distribuição de riqueza e controle popular”.

Do encontro participarão também a Plataforma Operária e Camponesa de Energia, Via Campesina, Frente Brasil Popular, Movimentos de Afetados por Represas (MAR) e entidades internacionais. O objetivo é formular as bases da construção de um projeto energético popular.

Países ricos, como EUA, China, Alemanha e Inglaterra, altamente dependentes de energia, possuem reservas insuficientes, o que os motiva a controlar das reservas estratégicas de países periféricos. O Brasil é alvo prioritário por deter potencial energético de grande qualidade e quantidade, como o pré-sal e a hidroeletricidade.

Há décadas, governo a governo, nosso país abre mão de sua soberania energética. Hoje, a indústria de produção e distribuição de energia se encontra em mãos do capital privado. Hidrelétricas, linhas de transmissão e distribuidoras pertencem ao capital transnacional, sendo a Petrobras uma exceção.

Embora a maior parte da energia do Brasil proceda de hidroelétricas, consideradas de baixo custo de produção, o brasileiro paga uma das contas de luz mais caras do mundo. Há, porém, exceções, como grandes empresas consumidoras. A Samarco, por exemplo, responsável pelo crime socio-ambiental de Mariana (e ainda impune), recebe energia a preço de custo, o que equivale a dez vezes menos do que paga uma família pelo consumo da mesma quantidade de quilowatts. E tudo isso é controlado pelo Estado, a serviço do grande capital, através da Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel), sem nenhuma participação popular.

O apetite das empresas transnacionais por nosso potencial energético impõe ao governo afrouxar o licenciamento ambiental, permitir a construção de hidroelétricas em áreas indígenas e forçar o deslocamento predatório das populações ribeirinhas.

A soberania energética do Brasil vem sendo substituída pelo conceito de “segurança energética”, ainda que se paguem valores exorbitantes às empresas controladoras. Os trabalhadores do setor são terceirizados e precarizados pela reforma trabalhista do governo Temer, e seus movimentos sofrem criminalização, enquanto a população arca com o aumento das tarifas, do gás de cozinha e dos combustíveis de veículos.

O encontro nacional do MAB visa a reforçar a luta pela soberania energética do Brasil; pelo controle popular sobre o planeamento e execução do setor; e pela adequada destinação da riqueza por ele gerada, de modo a garantir os direitos dos atingidos por barragens e melhor qualidade de vida dos trabalhadores.

Água e energia são bens essenciais à vida humana e planetária, e não podem ser consideradas meras mercadorias. Portanto, deveriam estar excluídos do direito de apropriação privada.

Há que pressionar o governo para que os recursos do pré-sal sejam aplicados em saúde e educação, geração de empregos e garantia de direitos da cidadania.

FACTOR LULA

Difícil prender Lula. Ainda que detido na Polícia Federal, em Curitiba, a presença dele impregna o imaginário de parcela significativa do povo brasileiro. Impossível ignorá-lo. E isso vale também para quem o odeia e comemora a sua prisão.

O Brasil carece de heróis. Os poucos que transcendem o período no qual viveram são admirados justamente por terem resistido às forças do conservadorismo, de Zumbi a Tiradentes, de Antônio Conselheiro a Lampião, de Marighella a Chico Mendes, de Betinho e Marielle.

Não há como condenar Lula ao olvido. Vários factores excepcionais moldaram a sua biografia singular: a miséria da família em Garanhuns (PE); a mudança para São Paulo em pau-de-arara; o líder sindical que escapou da cooptação da esquerda e da direita, e liderou as mais expressivas greves operárias de nossa história durante a ditadura militar; a fundação do PT; os dois mandatos presidenciais encerrados com 87% de aprovação etc.

Ainda que a Justiça o condene como corrupto, no imaginário popular o fiel da balança se inclina a seu favor. Por simples razão: a Justiça brasileira é leniente com os poderosos (ainda que a Lava Jato por vezes se esforce por reverter essa tendência) e severamente cruel com os pobres acusados de pequenos delitos.

Fora Lula, quantos políticos o STF condenou até hoje? Quantos de nossos 600 mil encarcerados têm acesso a advogados? E a juízes? Os julgamentos são considerados imparciais?

Na opinião pública, o juiz perde credibilidade ao aceitar, além de gordo salário, injustificáveis privilégios, como auxílio-moradia e auxílio-“salsicha” (alimentação).

De pouco mais de dois mil juízes e desembargadores do estado de São Paulo, apenas 168 abrem mão dessas mordomias (informação de um desembargador).

O Brasil é, hoje, uma nau sem rumo. Nosso futuro é imprevisível. Sua sinalização ocorrerá em outubro, com o resultado da eleição presidencial. E qualquer que seja o resultado, a nação não será apaziguada. Nossas divergências não se situam no patamar das ideias, e sim da esfera social, onde as disparidades de renda são gritantes. A opulência da Casa Grande não logra ofuscar a miséria que multiplica corpos estendidos nas calçadas, e ainda aquece o caldo de cultura da violência urbana e rural.

Enquanto não houver um governo que faça do Estado indutor do desenvolvimento social, adotando políticas que combatam as causas das desigualdades, o Brasil não superará essa atual etapa de sebastianismo. Porque é inegável que Lula presidente deu passos significativos na direção de maior justiça e inclusão sociais.

ESPIRITUALIDADE E POLÍTICA

Para justificar decepções e encobrir omissões, criamos estereótipos. Na atual conjuntura, a demonização da política e dos políticos. Tal maniqueísmo favorece exatamente o que se critica, a má política.

Distanciar-se da política é se refugiar em suposta redoma de vidro enquanto grassa o dilúvio. Muito pouca coisa é insubstituível na história humana. Uma delas é a política. Ainda não se inventou outra forma de nos organizar como coletividade. A política permeia todos os espaços pessoais e sociais, da qualidade do pão do café da manhã ao acesso à saúde e à educação.

Se a política é “a forma mais perfeita de caridade”, como enfatiza o papa Francisco, por ser capaz de erradicar a fome e a miséria, as estruturas políticas são passíveis de severa crítica quando favorecem a desigualdade e a corrupção.

A política não é intrinsecamente nefasta. Nefasto é o modelo político que sabota a democracia, privilegia a minoria rica, e nada faz de eficaz para promover a inclusão social. Ao contrário, permite ampliar a exclusão e reforça os mecanismos, inclusive repressores, que impedem os excluídos de avançarem da margem para o centro.

Todos os grandes mestres espirituais foram políticos. Buda se indignou ao transpor as muralhas de seu palácio e se deparar com o sofrimento dos súditos. Jesus, na versão de sua mãe, Maria, veio para “derrubar os poderosos de seus tronos e exaltar os humildes, despedir os ricos com mãos vazias e saciar de bens os famintos” (Lucas 1, 52-53). Pagou com a vida a ousadia de anunciar, dentro do reino de César, outro projeto civilizatório denominado Reino de Deus.

A política é uma exigência espiritual. Santo Tomás de Aquino preconizou não poder esperar virtudes de quem carece de condições dignas de vida. A política diz respeito ao outro, ao próximo, ao bem-estar da coletividade. Repudiá-la é entregá-la às mãos daqueles que a transformam em arma para defender apenas os próprios interesses.

Se a política perpassa os aspectos mais íntimos de nossas vidas, como dispor ou não de um teto sob o qual se abrigar das intempéries, nem todos participam do mesmo modo. Há múltiplas maneiras de fazer política, seja por participação, seja por omissão.

O modo mais universal é o voto, uma falácia quando o povo vota e o poder econômico elege. Um embuste quando a democracia é como Saci-Pererê: os eleitores decidem quem administrará o país, mas não como os recursos da nação serão utilizados.

Se não há democracia econômica, se a desigualdade se agrava, a democracia política é uma farsa. De que adianta a Constituição, uma carta política, proclamar que todos têm direito a uma vida digna se a estrutura socioeconômica impede a maioria de desfrutar de fato deste direito?

No reino de César, Jesus rogou ao Pai: “Venha a nós o vosso reino”, ou seja, o projeto civilizatório no qual todos “tenham vida e vida em abundância” (João 10, 10). Esta a espiritualidade que move quem se empenha em fazer da política ferramenta de libertação, não de opressão e exclusão.

MINHA SEGUNDA DESPEDIDA DE LULA

Às 7 da manhã da sexta, 6 de abril, despertei Lula que dormira em um quarto improvisado, sobre um colchão estendido no chão, na sede do sindicato dos metalúrgicos do ABC, em São Bernardo do Campo. Fui me despedir do amigo, já que eu tinha voo marcado para as 10h.

Recordamos que há 38 anos, também em abril, eu dormia na casa dele quando os policiais do DEOPS foram prendê-lo por liderar a greve metalúrgica contra a ditadura militar.

Em tempos de intolerância, guardo sempre a lição que o ódio é um veneno que você toma esperando que o outro morra... Por formação e princípio cristão, não confundo amizades com divergência de ideias. Em minha família há pessoas de diferentes ideologias e atividades profissionais, inclusive generais e banqueiros. Na Lava Jato, visito também Otávio Melo Azevedo, ex-presidente da Andrade Gutierrez, meu vizinho na adolescência em Belo Horizonte, e José Carlos Bumlai, que participou ativamente do Fome Zero quando, no início do governo Lula, coordenei com Oded Grajew a mobilização social.

Apesar de minhas críticas aos governos do PT (muito antes de se descobrir o mensalão), contidas nos livros “A mosca azul – reflexão sobre o poder” e “Calendário do poder”, ambos editados pela Rocco, nunca se quebrou a amizade de quarenta anos entre mim e Lula.

Dos valores evangélicos aprendi que pessoas não são discrimináveis, ainda que não se esteja de acordo com suas ideias e atos. Em especial quando se encontram em dificuldades. Esta foi a atitude de Jesus com a mulher adúltera e o rico Zaqueu, a Madalena “possuída por sete demônios” e o centurião romano ocupante da Palestina, entre outros.

Lula demonstrava serenidade. Perguntou-me pela família e por amigos comuns, inclusive Ricardo Kotscho, a quem fez questão de acordar para um papo telefônico.

Disse-me que não iria se apresentar em Curitiba. A polícia que viesse buscá-lo. Considera prepotente a ordem de prisão emitida pelo juiz Sérgio Moro quando ainda não se haviam esgotadas as medidas processuais adotadas pela defesa.

Recordou que ao ser preso, em 1980, sentiu mais inquietação do que agora. Não tinha ideia para onde os policiais da repressão o conduziam. Havia muita cerração na Via Anchieta, no trajeto entre sua casa em São Bernardo do Campo e a carceragem do DEOPS, em São Paulo.

Ficou aliviado quando escutou, no rádio da viatura, a notícia de sua prisão, divulgada por Dom Paulo Evaristo Arns, cardeal-arcebispo de São Paulo, e Dom Cláudio Hummes, bispo de Santo André, a quem eu telefonara tão logo os policiais o levaram.

Nesta sexta-feira, como em 1980, oramos juntos. E lembramos que, no dia seguinte, seria aniversário de Marisa, sua companheira por 43 anos.

FETICHE DO PODER

A partir de agora o presidente da China pode ser sucessivamente reeleito. Isso significa um retrocesso aos tempos imperiais. A diferença é não ser considerado imperador, e sim ditador.

Com plenos poderes nas mãos, Xi Jinping cuidará de afastar da máquina pública todos os potenciais adversários. Só dois fatores poderão derrubá-lo: um golpe de Estado ou a morte.

“O poder desperta a ambição e faz multiplicar a cobiça”, dizia Aristóteles. Os espanhóis cunharam um provérbio que diz o mesmo em outras palavras: “Si quieres conocer a Juanito, dale un carguito” (Se queres conhecer a Juanito, dá-lhe um carguinho). Em dois anos no Palácio do Planalto, como assessor presidencial, aprendi que o poder não muda ninguém, faz com que as pessoas se revelem.

Por que o poder é a mais sedutora ambição do ser humano e a maior de todas as tentações, acima do dinheiro e do sexo? Porque virtualmente possibilita a realização de todas as demais ambições. Ele “diviniza” o poderoso. Sempre cercado de quem lhe faz eco, se reveste de imunidade e impunidade. Qualquer de suas palavras e atitudes é sucedida de elogios, o que o priva da capacidade de autocrítica.

O poder nasceu democrático. Toda a tribo debatia como abater o mamute e distribuir a carne à satisfação de todos. À medida que a tribo trocou o nomadismo pelo sedentarismo, tornou-se possível conservar o excedente da caça e da colheita. A apropriação desse excedente empoderou seus responsáveis. Poder legitimado por xamãs, feiticeiros e sacerdotes que sacramentaram a autoridade da minoria sobre a maioria.

Se na monarquia o poder se deslocou de Deus para os reis, na democracia ele trocou o trono pelas ruas. O poder seria concedido pelo povo e em seu nome exercido. Isso de fato jamais aconteceu. Os eleitos criaram uma enorme barreira entre a rua e o palácio – a burocracia estatal. Instituições intermediárias, como partidos, ministérios, agências reguladoras e o aparato policial militar, tornam o governo praticamente impermeável às demandas populares.

O poder é, sim, permeável às demandas da elite, manifestadas pela mídia, bancos e empresas. Em uma sociedade marcada por abissal desigualdade social, o poder é sempre monopólio da minoria afortunada.

A fratura mais grave da democracia é a que separa poder político do poder econômico e submete o primeiro ao segundo. O eleitor vota, a elite financeira elege. Os cidadãos não apenas são excluídos das decisões que regem a economia, como também são retalhados em classes sociais distintas e antagônicas de acordo com a renda a que têm acesso.

Mais importante do que saber quem exerce o poder é discernir para quem ele é exercido. Para uma classe minoritária? Para a maioria da população? “A loucura dos grandes precisa ser vigiada”, alertou Shakespeare.

Em ano eleitoral, os eleitores devem pesquisar bem o perfil e a vida pregressa de cada candidato. E votar naqueles que inspiram confiança de agir com ética por mudanças estruturais em favor da maioria da população.

O QUE É IDEOLOGIA

Toda pessoa recebe, pelo condicionamento social em que está inserida, determinada configuração do mundo e da história pela qual se situa e se entende dentro da sociedade. Esta configuração reúne um conjunto de ideias, valores e princípios de ordem jurídica, social, moral, política e religiosa. A esse conjunto chamamos ideologia.

Ideologia não é algo que se pode ter ou não, dependendo da própria vontade. É algo que se possui sem consciência de que se possui. É a maneira pela qual vemos os acontecimentos da vida e da história, e nos situamos diante deles. São os óculos através dos quais encaramos o mundo de determinada cor e forma. Ninguém enxerga sem os olhos, porém ao enxergar algo ninguém vê os próprios olhos. Assim ocorre com a ideologia. Por meio dela - que resulta de nossas concepções morais, políticas, sociais, artísticas ou religiosas, nem sempre explícitas -, vemos e interpretamos a realidade objetiva na qual nos situamos.

A ideologia expressa nossa teoria sobre a vida, o mundo e a história. Os antigos acreditavam que o cosmos era uma ordem hierarquicamente disposta, e a Terra ocupava o seu centro, em torno da qual girava o sol. Desta óptica ideológica de interpretar o mundo tiravam consequências práticas, como acreditar que pessoas que ocupavam o polo superior da escala social eram mais abençoadas por Deus que as demais situadas na escala inferior. Portanto, além de exprimir certa teoria, a ideologia determina também hábitos e costumes, ou seja, uma práxis.

A maneira de pensar e viver predominante em uma sociedade corresponde geralmente ao modelo ideológico imposto pelo grupo social que domina esta sociedade. Em uma economia competitiva, baseada na acumulação privada da riqueza e na busca desenfreada de lucro, é natural que se acredite que o ideal à felicidade se resume em ser rico, mesmo em detrimento da ampla camada da população desprovida dos recursos mínimos à sobrevivência.

Assim, a ideologia da sociedade consumista impõe seus valores por meio de programas de TV, sites, revistas em quadrinhos, livros de história que evitam interpretar os fatos pelo ângulo dos humilhados e ofendidos. O jovem, mais maleável a essa influência, sonha com a vida opulenta de seus heróis. A propaganda manipula “valores” que socialmente aparecem como os mais importantes na vida: poder, fama, riqueza e beleza. E sugere produtos pelos quais tal “valor” pode ser facilmente alcançado: carro, cigarro, perfume ou roupa de determinada grife.

Para o rolo compressor publicitário, converter uma pessoa significa infundir-lhe novos hábitos de consumo através da crença de que, assim, estará adquirindo um novo status social.

Nada mais ideológico do que alguém supor não ter ideologia. Todos a temos, e ela favorece o nosso altruísmo ou egoísmo, respeito ou preconceito ao diferente, ideal solidário ou arrogância colonialista.

DA EPIDERME À VIDA INTERIOR

Uma das características da pós-modernidade é a redução da cultura a mero entretenimento e a exacerbação dos sentidos em detrimento da razão e do espírito. Para estimular o consumismo, utilizam-se como isca recursos capazes de nos fazer sentir mais e pensar menos. Isso vale para a publicidade, certos programas televisivos e até rituais religiosos.

Dissemina-se uma cultura centrada no epidérmico, na qual há mais estética que ética, nádegas que cabeças, urros que melodias, ambições que princípios, devaneios que utopias.

Tudo é aqui e agora a ser devorado por olhos e ouvidos, o corpo entregue a um frenesim de sensações que faz do prazer simulacro da felicidade e do amor.

Seres relacionais e racionais, como acentuam os filósofos desde Sócrates, somos agora reduzidos a seres extróficos, revirados para fora, estranhos a nós mesmos, como lamentava Kierkegaard, pois a nossa autoestima passa a depender do que vem de fora – da gula e da antropofagia visual aos arremedos da fama, fortuna e poder.

Páscoa significa travessia, passagem. Talvez uma das mais difíceis seja a que nos faz percorrer o caminho entre a epiderme e a vida interior, não para dualizar polaridades, mas para resgatar a unidade ontológica. O budismo tibetano tem razão ao afirmar que, malgrado todo avanço científico e tecnológico, cada pessoa é ontologicamente a mesma desde que o símio tomou consciência de que o galho de árvore em suas mãos poderia servir-lhe de arma de ataque e defesa.

Aristóteles sintetizou-nos em esferas sensitiva, racional e espiritual, como unidade que exige equilíbrio. A exacerbação de uma significa a atrofia das outras. Só a predominância do espiritual é capaz de imprimir sensatez às “loucas da casa”, como disse Teresa de Ávila, evitando o sabor da náusea dos sentidos, descrito por Sartre, bem como o racionalismo que, ao contrário de Tomás de Aquino, julga equivocadamente que a razão é a suprema expressão da inteligência.

Fazer Páscoa em si mesmo é cultivar a interioridade. “Beber do próprio poço”, sugerem os místicos. Desnudar-se de ilusões egocêntricas, jejuar os sentidos, adequar a razão a seus limites, orar e meditar para poder contemplar.

Somos seres vocacionados à transcendência. Como dizia Hélio Pellegrino, cuja transvivenciação comemora agora 30 anos, uma samambaia desfruta de sua plenitude vegetal. Nós, não; escravos do desejo, temos buracos no corpo e na alma. É a “gula de Deus”, da qual falava Rimbaud.

Ao deixar de trilhar as veredas que conduzem ao Absoluto, corremos o risco de nos perder no acidentado terreno que quotidianiza o absurdo: iras e mágoas, inveja e competição, medo e, sobretudo, uma incomoda sensação de não saber exatamente o que fazer desse breve período de existência.

A Páscoa é precedida de morte que, emblematicamente, a tradição cristã qualifica de paixão, um ato de amor, de entrega, que faz refluir tudo aquilo que dispersa, aliena e ilude. Jesus no túmulo simboliza o silêncio, a volta ao mais íntimo de si mesmo, abraçar a solidão sem se sentir solitário.

Edição 136 Março 2018

SOMOS TODOS(AS) MARIELLE

Os assassinatos da vereadora Marielle Franco, do PSOL, na noite de 14 de março, no Rio, e de seu motorista, Anderson Pedro Gomes, equivalem ao do estudante Edson Luis, no Calabouço, em 28 de março de 1968. Este representou o desmascaramento da ditadura militar e de sua natureza cruel, sacramentada pelo AI-5, a 13 de dezembro de 1968.

Agora, o crime organizado escancara suas impressões digitais e proclama que é o dono do pedaço carioca. Não pretenda a intervenção militar extirpar o conluio entre a banda podre da polícia e o narcotráfico, nem ousar defender os direitos humanos dos moradores de favelas. Este o recado dado.

Os tiros que ceifaram a vida de Marielle atingem todos nós que lutamos para que, nas palavras de Jesus (João 10, 10), “todos tenham vida e vida em plenitude”. A morte dos mártires comprova que em vão a injustiça busca predominar sobre a justiça. Gandhi, Luther King, Chico Mendes são apenas alguns exemplos de como os mortos comandam os vivos.

Em fevereiro de 1987, na Moscovo que ainda era a capital da União Soviética, vi imensa fila à porta do cinema próximo à rua Arbat. Exibia-se O arrependimento, transformado em símbolo da glasnot por ter sido proibido durante dois anos, embora seu diretor, George Abuladze, o tenha realizado sob a proteção do então primeiro-secretário do Partido na Geórgia, o ministro das relações exteriores de Gorbachev, Eduard Shervadnadze.

Consegui entrar. O filme, todo gravado na língua da Geórgia, é legendado em russo. Mas a forte beleza das imagens me permitiu entender o roteiro. Trata-se da história do prefeito de uma pequena cidade. Usava bigodinho tipo Hitler, camisa preta ao estilo de Mussolini e cruzava os braços como Estaline. Quando morreu, todos choraram, exceto uma mulher que vivia de fazer bolos em forma de igrejas. Ela era uma das vítimas da prepotência daquela autoridade e insistia em manter o cadáver insepulto. Desenterrava-o a cada noite, para que ninguém se esquecesse daquele que encarnara a opressão.

Marielle é, hoje, uma mulher insepulta. Seu exemplo de vida, seus ideais políticos, sua garra em prol das comunidades marginalizadas nas favelas e das crianças e jovens excluídos de direitos básicos como educação, haverão de perdurar em todos nós que fizemos da vida oferenda destemida para que todos tenham vida.

Somos todos (as) Marielle!

REDES DIGITAIS: O ALVO É VOCÊ!

As redes digitais, ao encurtarem a distância entre estranhos, permitem que se posicionem em relação ao que você expressa. Ao postar uma opinião a respeito de um político, um partido, um facto do noticiário, fica-se totalmente exposto a todo tipo de reação. Saiu do armário, tomou chuva (ou chumbo)!

Muitos internautas com certeza manifestam-se favoráveis, reforçam a sua postura, tratam de felicitá-lo por pensar daquela maneira. Como as redes ultrapassam as fronteiras dos relacionamentos entre amigos, é possível que você não tenha a menor ideia de quem sejam muitos que o apoiam. Assim, a sua autoestima se vê gratificada por tantos que encaram os factos pela mesma óptica que a sua.

Outros, porém, reagem criticamente ao que você posta. Reações educadas de quem contra-argumenta e expõe uma opinião contrária à sua; reações raivosas de quem exala ódio por você ousar pensar como pensa; reações agressivas de quem tenta ridicularizá-lo e profere todo tipo de ofensa para tentar deslegitimar a sua opinião e até mesmo “assassiná-lo” virtualmente.

Diante das ofensas, você se sente ferido em sua autoestima e revida no mesmo nível de baixaria. Ou ignora a agressão, sacode a poeira e dá volta por cima.

A primeira reação comprova que, de facto, você tem baixa autoestima. Entra no jogo armado por seus adversários. E ao revidar no mesmo tom talvez se sinta vingado, mas terá apenas dado murro em ponta de faca.

Suas reações não farão ninguém mudar de opinião. Acima das ofensas a você reina o preconceito. Seus detratores não estão propriamente interessados em contestar suas ideias. Eles odeiam você. Qualquer coisa que você diga é rejeitada de antemão.

É o que seu nome, sua pessoa e suas opções representam que tanto incomodam. Prova disso é que não conseguem ignorá-lo e ficam atentos ao que você posta, como o atirador na trincheira espera que o inimigo erga a cabeça no lado oposto.

Se você, contudo, ignora os detratores é sinal de que suas convicções estão enraizadas e sua autoestima resolvida. O ódio é um veneno que alguém ingere esperando que o outro morra. Como não foi você que ingeriu, o melhor é prosseguir em suas opções ciente de que, como dizia Nelson Rodrigues, a unanimidade é burra, e a diversidade, inclusive de opiniões, é uma das virtudes da democracia.

Não se deixe abalar pelas reações negativas às suas postagens. Nem se permita consumir por essa guerrinha de opiniões que induz inúmeras pessoas a perderem um tempo inestimável (e irrecuperável) transitando pelas redes digitais.

Seja coerente com as suas ideias e opções. E evite ser opositivo, seja propositivo. Saiba que muitos de seus detratores são movidos pela inveja. E inveja é a frustração de não possuir o bem alheio.

Se você é feliz com a postura que assume na vida, que importam ofensas e agressões? Faça do silêncio a sua melhor resposta. Caso contrário você se atolará no pântano das intrigas e se afogará no lago da maledicência.

CAPITALISMO É RELIGIÃO?

O capitalismo é uma religião? Parece que sim. O Vaticano fica no FMI e no Banco Mundial, cujas ordens dali emanadas devem ser religiosamente respeitadas. Roma, em Wall Street. O papa, o presidente do Federal Reserve Bank, banco central dos EUA.

O apóstolo Paulo, Adam Smith. Entre seus teólogos se destacam Locke, Keynes, David Ricardo, Hayek e Friedman. A teologia, o liberalismo. O deus, o Mercado, cujas mãos invisíveis regulam as nossas vidas.

Meca fica em Davos. Todos os anos cardeais e bispos devem peregrinar até a cidade suíça para acertarem seus relógios. Suas basílicas, as Bolsas de Valores, para as quais se voltam atentos olhos, corações e bolsos dos que ali depositaram seus dízimos. As capelas, os bancos, que prometem operar o milagre da multiplicação das moedas confiadas às suas mãos.

Seu dogma de fé proclama que fora do mercado não há salvação. O céu, a riqueza; o purgatório, as dívidas; o inferno, a falta de crédito e a exclusão social. Nas notas de dólar, está gravado In God we trust (Em Deus confiamos). Houve pequeno erro de grafia. A frase correta é In Gold we trust (No Ouro confiamos).

Trata-se de uma religião canibal. Apropria-se até mesmo de Deus ao apregoar que Ele criou o mundo desigual, para que os ricos sejam generosos com os pobres, e estes lutem meritoriamente por seu lugar ao sol.

O que seria dos pobres se os ricos não lhes dessem empregos e pagassem o salário que lhes assegura a sobrevivência?

Seus santos, venerados por gerações, são Rothschild, Rockfeller, Ford, Bill Gates, Mark Zuckerberg e tantos outros afortunados. A teologia é disseminada mundo afora pelas confrarias GM, Sony, Coca-Cola, Nestlé, Apple e muitas outras marcas famosas. Quem é fiel a elas alcançará a felicidade, prometem os arautos da fé financista.

O Santo Ofício são as agências de risco que aprovam ou desaprovam as nações interessadas em investimentos. O catecismo, as obras de Walt Disney, que ensinam às crianças como ser resignadas como Donald, sovinas como Tio Patinhas, imbecis como o Pateta.

O capitalismo aponta os demónios dos quais todos os fiéis devem se manter distantes, como o socialismo e o comunismo. Seu L’Osservatore Romano são o Wall Street Journal e The Economist.

Enquanto o cristianismo prega a solidariedade, o capitalismo incentiva a competição. O cristianismo recomenda o perdão, o capitalismo a desapropriação. O cristianismo, a partilha; o capitalismo, a acumulação. O cristianismo, a sobriedade; o capitalismo, a ostentação.

Nas grandes cidades erguem-se as catedrais desta religião de culto ao dinheiro: os shopping centers. Nele, os fiéis do consumismo se deslumbram diante das sofisticadas capelas que, acolitadas por belas sacerdotisas, exibem os veneráveis produtos dotados do miraculoso poder de imprimir valor a quem os adquire.

Aqueles que cometem o pecado de acreditar em ética, compaixão, partilha e justiça, a religião capitalista, que sacrifica no altar do deus Dinheiro a vida dos pobres para assegurar a dos ricos, condena ao limbo dos excluídos do festim dos eleitos.

CARTA AO GENERAL BRAGA NETTO

General, o Rio precisa de intervenção cívica, e não militar. O Estado fluminense e a prefeitura carioca estão acéfalos.

Em 10 anos de implantação das UPPs houve tempo suficiente para evitar que uma geração de crianças e jovens escapasse das garras do narcotráfico. Cometeu-se o equívoco de instalar postos policiais nas comunidades, e não escolas, cursos profissionalizantes, quadras de esportes, oficinas de dança, teatro, música e literatura.

O Exército brasileiro acumula uma história de fracassos. Promoveu um genocídio no Paraguai, e até hoje os arquivos da guerra no século XIX são mantidos secretos para não envergonharem a nossa história militar. Fez uma matança desnecessária em Canudos para evitar que os nordestinos se livrassem da tutela dos donos de engenhos.

Deixou-se manipular pela Casa Branca, em 1964, para derrubar o governo democraticamente eleito de Jango, e implantou uma ditadura que durou 21 anos.

Não permita, general, que haja novo fracasso. Não autorize seus soldados a se transformarem em assassinos fardados que, ao ingressar nas comunidades, primeiro atiram e depois interrogam.

Sua missão será tão inútil quanto a das UPPs se acreditar que a violência que assola o Rio é culpa apenas do narcotráfico, dos bandidos e das milícias.

As causas é que precisam ser urgentemente combatidas: a desigualdade social, o sucateamento da escola pública, o desemprego, a falência do sistema de saúde.

Não admita que seus soldados e oficiais sejam corrompidos, como ocorre a tantos policiais e autoridades que engordam a conta bancária ao fazer vista grossa para o crime organizado. De onde procedem as sofisticadas armas em mãos dos bandidos? Quem os mantém previamente informados das operações repressivas?

Os problemas não estão apenas nos morros. Estão sobretudo no asfalto, onde residem os que alimentam o narcotráfico, os políticos corruptos, os que permitem que o nosso sistema carcerário seja sede do comando do crime.

Salve a imagem do Exército, general. E convença os governantes do povo fluminense e carioca a renunciarem, para que sejam convocadas eleições antecipadas. A democracia é sempre a melhor alternativa!

Edição 135 Fevº 2018

Tempo de inflexão e reflexão

Jejuar, mas não de alimentos nessa era de dietas anoréxicas que não transferem ao prato alheio o que se priva no próprio. Valem os jejuns da maledicência, da ira gratuita, da empáfia autoritária, do preconceito arrogante, da discriminação insultuosa. Jejuar do monólogo solipsista no celular e dar atenção ao diálogo com o próximo

As quaresmeiras florescem nesta época do ano. Lindas e tristes as flores roxas, delicadas miçangas de um colar inconsútil.

Nos quarenta dias prévios à Páscoa, a fé cristã celebra, antecipadamente, a vitória da vida sobre a morte. Ressurreição experimentada a cada manhã ao despertar. Vindos da inércia e da inconsciência, da perda de si no sono, súbito revivemos! Na curva final da existência, proclama a fé, desponta a eterna benquerença.

Tempo de inflexão e reflexão. De que vale abster-se de carne terrestre ou aérea se as marítimas nos repletam a pança? Sacrifício, ofício de cultuar o sagrado. Não Deus, que se basta, e sim nós humanos, ossos revestidos de carne, o que há de mais sagrado. Feitos de pó cósmico, de partículas elementares consubstanciadas em átomos, congregadas em moléculas, revitalizadas em células. Quarenta trilhões de células em um corpo humano. Umas, revestidas de seda pura, fragrâncias raras e joias preciosas. Outras estiradas nas calçadas, fétidas, famélicas, entorpecidas pela química da fuga.

Jejuar, mas não de alimentos nessa era de dietas anoréxicas que não transferem ao prato alheio o que se priva no próprio. Valem os jejuns da maledicência, da ira gratuita, da empáfia autoritária, do preconceito arrogante, da discriminação insultuosa. Jejuar do monólogo solipsista no celular e dar atenção ao diálogo com o próximo.

Vale abster-se da indiferença e abraçar causas solidárias. Deixar de praguejar contra o mundo e tratar de transformá-lo. Esperar mais de si do que dos outros. Poupar críticas aos efeitos e denunciar as causas. Evitar o pessimismo da razão e alentar o otimismo da vontade. Ousar converter o protesto em proposta.

Tempo de penitência. Descer do pedestal e admitir os graves pecados contra a natureza: poluição dos ares, contaminação das águas, agrotoxização dos alimentos. A corrupção em doses cínicas, pois enquanto se torce pela higienização da política, emporcalha-se o varejo com a sonegação de impostos, o furto de objetos no local de trabalho, o salário injusto pago à faxineira, a propina ao guarda de trânsito, as maracutaias que engordam o lucro pessoal e lesam a coletividade.

Tempo de refluir à interioridade. Dedicar-se às flexões da subjetividade. Trilhar sendas espirituais. Extirpar gorduras da alma. Arrancar a trave do próprio olho antes de apontar o cisco no olho alheio. Cuspir camelos que entopem o coração antes de vociferar perante quem engole mosquitos.

Ah, como é cómodo ser juiz do mundo e proferir duras sentenças condenatórias! Fácil apontar o suposto criminoso, difícil erradicar as causas da criminalidade. Fácil identificar os maus políticos, difícil abandonar a própria zona de conforto para inovar a política.

Em tempo de quaresma há de ter presente que o pior pecado não é o da transgressão, é o da omissão. Graças a ele proliferam tantas transgressões imunes e impunes.

VIOLÊNCIA E DESIGUALDADE

Pelo menos quatro pessoas morrem assassinadas na América Latina a cada 15 minutos, de acordo com informe recente do Banco Mundial. Embora haja redução da pobreza e das desigualdades nos últimos anos, isso não influi na diminuição da criminalidade.

Dos dez países mais violentos do mundo, oito são latino-americanos, assim como 42 das 50 cidades mais afetadas pela criminalidade. A taxa de homicídios no nosso Continente é de 23,9 mortos a cada 100 mil habitantes, a mais alta do mundo. Entre os jovens de 15 a 24 anos, o índice sobe para 92 em cada 100 mil habitantes, mais de quatro vezes a taxa média. No Brasil, há 47 mil homicídios por ano!

Segundo o Banco Mundial, isso se deve ao aumento do tráfico de drogas e do crime organizado; de falhas do sistema judiciário e da impunidade; e da falta de melhor educação e oportunidades de trabalho para os jovens de famílias de baixa renda.

Para enfrentar esse quadro dramático, o banco recomenda a construção de “um tecido social mais inclusivo com maior igualdade de oportunidades”; a implementação de políticas preventivas, com redução dos índices de evasão escolar; e a ampliação da oferta de empregos de qualidade.

O Banco Mundial não se pergunta, em seu relatório, as causas dessa situação. Pesam, evidentemente, o pouco investimento do poder público em educação de qualidade, a corrupção dos políticos e a despolitização da sociedade. Na lógica neoliberal, toda pessoa de “sucesso na vida” é resultado de seu próprio esforço. Ora, isso equivale a esperar que mil alpinistas alcancem, na mesma semana, o pico do Monte Everest, o mais alto do mundo.

É o sistema capitalista, com a sua apropriação privada da riqueza produzida pela sociedade, o grande responsável pela exclusão e desigualdades sociais. Para que uma pessoa atinja o topo da escola social, outros milhares são alijados das oportunidades.

Dos 15 países mais desiguais do mundo, 10 são latino-americanos, nesta ordem: Bolívia, Haiti, Brasil, Equador, Honduras, Panamá, Paraguai, Chile, Colômbia e Guatemala. Entre os países do G20, o Brasil é o mais desigual. Basta dizer que os 10% mais ricos da população ficam com 60%.

Os lucros das empresas, que representam 6% da renda nacional, cresceram 231% entre 2000 e 2015. A JBS que o diga! E isso graças à generosidade do Estado que, via BNDES, canalizou muitos recursos para a iniciativa privada cobrando juros irrisórios. Em outras palavras, o pobre povo brasileiro financiou a multiplicação da fortuna dos ricos.

Enquanto o Brasil não passar por uma profunda reforma tributária a desigualdade social só tende a aumentar. O economista Rodolfo Hoffmann calcula, baseado em dados do Pnad 2015, que a disparidade de renda no Brasil cairia 23% se todos pagassem Imposto de Renda de acordo com as alíquotas em vigor, sem deduções, e os recursos arrecadados fossem canalizados para beneficiar os segmentos mais pobres da população. A queda seria de 27% se fosse criada uma alíquota de 40% de Imposto de Renda para quem ganha mais de R$ 7 mil mensais. E ainda seria maior essa redução se o imposto fosse progressivo, taxando a renda e o patrimônio dos 10% mais ricos.

Mas cadê governo para ousar governar democraticamente, ou seja, a favor da maioria do povo brasileiro?

FANTASIADO DE MIM MESMO

Neste Carnaval me fantasiarei de mim mesmo. Arrancarei todos os adornos que me disfarçam aos olhos alheios: a postura arrogante, o olhar altivo, a função que me faz sentir importante, a roupa que me enfeita a personalidade. Desgravatado, descalço, desgarrado do trio elétrico, buscarei um bar para embriagar-me de utopias.

Do coração extrairei todas as pedras que lhe encobrem a textura de carne: a ira e o ódio, a mágoa e o ciúme, a inveja e a indiferença. Cantarei o samba-enredo das bem-aventuranças e trarei alvíssaras aos que padecem de desesperança.

Desnudado desses artifícios que projetam de mim um simulacro, hei de descer do pedestal que me ampara a elevada autoestima para cortar as asas de minha pusilanimidade. Evitarei assim gravar como epitáfio ter sido o que não sou.

Não abominarei minha acidental condição humana, tão frágil e limitada. Despojado dos fantasmas nos quais me espelho, sairei livre e solto no bloco Nau dos Insensatos. Exibirei o meu rosto lavado com todas as rugas gravadas por minha história de vida. Não me envergonharei dos traços irregulares do meu corpo nem cobrirei a cabeça para esconder meus cabelos alvejados.

Neste Carnaval hei de participar do desfile das escolas de sabedoria. Deixarei Buda calar as vozes que tanto gritam dentro de mim, e pedirei a Confúcio ensinar-me o caminho do equilíbrio. Serei discípulo peripatético de Sócrates e aluno disciplinado na Academia de Aristóteles. Farei coro aos magníficos clamores de Maria por justiça, e dançarei com Hipácia nas pedras lisas do porto de Alexandria. Subirei as ladeiras de Assis para saudar aquele que ousou se desfantasiar por completo, e cruzarei as muralhas de Ávila para beijar as mãos daquela que me instrui nas vias da profundência.

Inebriado pelo vinho de Caná, desfilarei no carro alegórico dos místicos e me deixarei conduzir pelas inescrutáveis veredas da meditação. Ao carro abre-alas convidarei todos os incrédulos que professam fé na vida.

Quero muito júbilo neste Carnaval, festa da carne transfigurada pela alegria do espírito e transubstanciada pela sacralidade que a impregna. Festa de sorriso d’alma e da partilha perdulária de todos os meus bens materiais e simbólicos.

Nesta louvação de Momo, não serei pierrô ou colombina, palhaço ou pirata. Liberto de máscaras e fantasias, ousarei exibir na Praça da Apoteose a nudez de meu lado avesso. Haverão de contemplá-la aqueles que, livres dos óculos da ilusão, abrirem os olhos da empatia.

Quando o som agônico da cuíca se calar no irromper da alvorada, desfantasiado de mim mesmo hei de sambar, em reverentes rodopios, em torno do Mestre-sala: Aquele que nos primórdios do tempo, quando nada havia, quebrou a solidão trinitária no exuberante baile, enfeitado de confetes e serpentinas que, iluminados pelo brilho dos fogos, se fizeram estrelas e galáxias para marcar o desfile evolutivo da mãe natureza.

Então a vida irromperá na avenida em todo o seu esplendor, e a multidão verá que não é mera alegoria.

ATRASOS NA EDUCAÇÃO BRASILEIRA

Os cortes no orçamento da Educação, feitos pela tesoura implacável de Temer, fazem de seu governo uma ponte para o passado.

O IBGE divulgou, no apagar das luzes de 2017, dados do PNAD que retratam a situação educacional do Brasil em 2016. O analfabetismo perdura em 7,2% da população com mais de 15 anos de idade. São 11,8 milhões de analfabetos, equivalente à população de Cuba, que erradicou o analfabetismo em 1961.

Convém lembrar que o PNE (Plano Nacional de Educação), aprovado em 2014, previa para 2015, ano anterior ao dos dados acima, a redução do analfabetismo, que abrangeria apenas 6,5% da população... Prevê ainda a erradicação total do analfabetismo no Brasil para 2024, daqui a sete anos. Além de Cuba, já eliminaram o analfabetismo, na América Latina, Venezuela, em 2005, e Bolívia, em 2008.

Entre os jovens de 14 a 29 anos, 33,4% estavam empregados mas não matriculados em uma escola, em 2016. Estudavam e não trabalhavam 32,7%. Estudavam e trabalhavam 13,3%. E o mais grave: a turma do nem nem, que nem estudava nem trabalhava alcançava o índice de 20,5%, ou seja, 24,8 milhões de jovens daquela faixa etária.

De cada 100 alunos que concluíram o ensino médio, apenas 7 aprenderam o suficiente em matemática, e 28 o conteúdo básico de língua portuguesa. Quantos de nossos universitários são capazes de fazer cálculos simples sem uso de calculadora ou redigir uma carta sem graves erros de gramática?

Apenas 53% dos adolescentes de 15 anos chegam ao ensino médio, com 34% deles ainda no ensino fundamental. Na média dos países ricos, 90% dos estudantes entre 15 e 17 anos já chegam nesta etapa.

Houve algum avanço no Brasil: a fatia de estudantes que concluíram o ensino médio subiu de 53%, em 2010, para 64%, em 2015.

Porém, na educação infantil os índices estão abaixo da média. Apenas 3,1 milhões de crianças de 0 a 3 anos frequentam creches, o que equivale a 30,4% da população nessa faixa etária.

O acesso ao ensino superior avançou no Brasil, mas ainda está abaixo da média. Só 15% dos adultos (25-64 anos) chegam a esta etapa do ensino, abaixo de países como Argentina (21%), Chile (22%), Colômbia (22%), Costa Rica (23%) e México (17%).

A diferença de salário entre quem faz faculdade e quem não faz é maior no Brasil do que em outros países: uma graduação pode render salário até 2,4 vezes maior no país, ante 1,5 na média dos países da Europa Ocidental. Se o profissional tiver doutorado, a diferença é de 4,5 vezes, mais do que o dobro da Europa Ocidental.

O salário pago aos professores brasileiros também está abaixo da média - paga-se o equivalente a 13 mil dólares por ano, em média, e 30 mil dólares nos países ricos.

Apesar da gravidade dos dados, Temer continua cortando verbas da Educação.

COMUNIDADES ECLESIAIS DE BASE

Londrina (PR) abrigou, na semana de 21 a 27 de janeiro, o 14º Intereclesial Nacional das Comunidades Eclesiais de Base (CEBs). Participaram 5 mil pessoas, entre indígenas, ribeirinhos, sem-terras, sem-tetos, pequenos agricultores e trabalhadores informais, irmanados a 63 bispos. Como tema, os desafios do mundo urbano.

Todos acolhidos em casas de famílias de Londrina, o que barateou o custo do evento e favoreceu o entrosamento entre os anfitriões e os delegados ao 14º intereclesial.

As CEBs, surgidas no Brasil na década de 1960, se disseminaram, primeiro, pelo mundo rural e periferias das cidades. Agora o objetivo é incrementá-las também nos centros urbanos, onde já existem de modo precário.

Nas décadas de 1970 e 1980, as CEBs desempenharam importante papel na conjuntura brasileira. Foram sementeiras de lideranças populares que criaram movimentos sociais e revitalizaram o sindicalismo combativo. Favoreceram a capilaridade nacional do PT, embora jamais tivessem caráter partidário e sempre abrigassem militantes de diferentes partidos.

Dotadas de espírito profético, no sentido bíblico de denúncia das injustiças e anúncio de uma nova sociedade, as CEBs sempre se caracterizaram como um novo modo de ser Igreja e um novo modo de a Igreja ser. Elas não são um movimento eclesial. São a própria Igreja na base social.

Sob os pontificados de João Paulo II e Bento XVI, as CEBs careceram de suficiente apoio de pastores católicos, devido ao fruto mais expressivo gerado por elas: a Teologia da Libertação. Agora experimentam novo alento com o papa Francisco, inspirador e animador dessa opção pastoral.

No encontro de Londrina, elas redesenharam seu papel no mundo urbano brasileiro, tão marcado pela desigualdade social e hegemonizado por uma concepção de desenvolvimento que prioriza os interesses do capital, como a circulação de veículos particulares, e não os direitos de cidadania, como educação, saúde, moradia, transporte e emprego.

Assessorei a plenária dos interessados em formação e educação no mundo urbano. Nos grupos e debates se criticou a crescente privatização da educação escolar e o sucateamento da educação pública. O acesso à escola tende a deixar de ser um direito social para se transformar em mercadoria a ser adquirida por quem pode pagar.

Quanto à formação das CEBs, dois pilares devem norteá-la: a espiritualidade bíblica e a atuação política, no sentido amplo do termo. Como discípulos de Jesus que anunciou, dentro do reino de César, a alternativa do Reino de Deus, os militantes das CEBs devem se aprofundar na vida de oração pessoal e litúrgica, e se comprometer com o projeto de uma sociedade mais igualitária, de modo a atuarem em fidelidade aos valores evangélicos de fome de justiça, partilha dos bens, prioridade aos direitos dos marginalizados e excluídos.

Edição 134 Janº 2018

DAQUI A 100 ANOS

Daqui a cem anos já não serei. O punhado de cinzas que restar da cremação estará integrado ao útero fértil da terra. De minha obra talvez figure, em um catálogo de alfarrábios, não mais que um ou dois livros. Nos arquivos de um convento, um frade curioso saberá que um dia o precedi nas sendas de São Domingos.

A ideia da imortalidade é fardo ridículo de vaidade póstuma. Importam os aplausos após os atores deixarem o palco? A notoriedade não me adula. Mineiro, me convém a discrição, poder parar anônimo em uma esquina.

Bastam-me as letras a me desnudarem frente ao leitor, e a fé de que me aguarda um fim infindo. Quero o colo de Deus. E não mais.

Agora sou um entre mais de 7 bilhões. Como cabe tanta pretensão em tão diminuta pequenez? Por que o coração se infla de ambições? Pra que essa sofreguidão insana, a corrida contra o relógio, a irrefreável gula frente ao mundo circundante?

Fecho os olhos para ver melhor. A meditação me devolve àquele Outro que não sou eu e, no entanto, funda a minha verdadeira identidade. Renova meu oxigênio espiritual. Revolve esse canteiro que trago no mais íntimo de mim, sempre à espera da inefável semente divina. Porque o verdadeiro amor é sempre (e)terno.

Daqui a 100 anos terá sido inútil toda a minha pressa. Essa voracidade d’alma será apenas um definitivo silêncio no tempo. Estarei emudecido pela deslembrança. Não colherei flores da primavera, nem ouvirei o som da flauta em minhas manhãs orantes. Transmutado no ciclo implacável da natureza, serei o que já fui: multidão de bactérias, húmus de um caule que brota, alimento de um réptil.

Tenho 13,7 bilhões de anos. Sei que, como toda matéria, comungo a perene transubstanciação de todas as coisas criadas. Existo, coexisto e subsisto em Universo.

Dentro de poucos anos serei tragado pelo ritmo da entropia. Minhas células se condensarão em moléculas integradas no baile alquímico da evolução. De novo, serei um com o todo, como o oceano resulta da interação de pingos d’água.

Essa certeza recata-me ansiedades. Volto a mim mesmo, ao recôndito do espírito, atento à delicadeza da vida. Tudo é liturgia, basta ter olhos para crer: o pão sobre a mesa, a água derramada no copo, a janela assediada pelo vento, a roda pétrea do amolador de facas, a luz da vela consumindo-se junto ao sacrário, o cheiro doce de manga, o mistério do momento exato em que o sono me sequestra, o grito alegre de uma criança ao colher uma flor no que restar de jardim daqui a 100 anos.

O melhor da existência são as contas de seu colar, as diminutas miçangas que formam belos desenhos, os cacos do vitral. A busca da utopia, a conversa inconsútil com os amigos, a língua perfumada pelo vinho, os salmos recitados na cadência do gregoriano, a sesta de domingo, o gesto de carinho, o cuidado solidário.

Daqui a 100 anos o mundo estará, como sempre, entregue a si mesmo, porém sem o concurso de minhas ambições, pretensões e inquietações.

Meditar no futuro longínquo me aquieta. Impregna-me de algo muito importante: um profundo sentimento de desimportância.

 JULGAMENTO DO JUDICIÁRIO

Na verdade, quem estará sentado no banco dos réus, dia 24, não será o cidadão Luiz Inácio Lula da Silva. Será o Judiciário brasileiro

Lula, o mais destacado líder popular brasileiro da atualidade, vai a julgamento dia 24 de janeiro. Não há como ficar indiferente ao facto.

A expectativa deixa a nação em suspenso. E a divide: de um lado, aqueles que já o pré-julgaram e esperam apenas que a sentença seja confirmada pelos juízes de Porto Alegre; de outro, os que afirmam não haver suficientes provas para condená-lo, e as acusações estão de tal maneira impregnadas de caráter político que extrapolam o exercício imparcial da Justiça.

Estamos em ano de eleição presidencial. Vários candidatos em potencial aguardam o veredicto para tomarem uma decisão. Com Lula no páreo a disputa fica bem mais difícil para os neocandidatos. É o que apontam as pesquisas eleitorais.

Lula adotou uma firme postura frente às acusações que lhe imputam: o ónus da prova cabe ao acusador. Ele se declara inocente, vítima de uma conspiração do Judiciário movido por forças aparentemente “ocultas”.

Os que derrubaram Dilma e empossaram Temer miraram no que viram e acertaram no que não viram. Lula, após oito anos de mandato presidencial, saiu do Planalto com aprovação de 87% da opinião pública. É um dado significativo. E ainda conseguiu emplacar por duas vezes a eleição de Dilma para o comando do país.

Armou-se um golpe parlamentar, à semelhança dos ocorridos em Honduras e Paraguai, defenestrou-se Dilma do poder para dar lugar a Temer, acusado de graves delitos. Porém, a costura saiu pior que o remendo. Temer não consegue alcançar 5% de aprovação. Governa graças ao descarado “franciscanismo” que mantém a maioria da Câmara dos Deputados refém dos cofres do Tesouro Nacional, cuja chave Temer traz em mãos.

Nada indica que Temer logrará fazer aprovar a tão almejada (por ele) reforma da Previdência. Reeleger-se é muito mais importante para a bancada governista do que enfiar agora mais dinheiro no bolso e sofrer desgaste político. Afinal, muitos governistas ostentam no pescoço a corda da Lava Jato, e a reeleição é o modo mais indicado de se manterem afastados do patíbulo.

Qualquer que seja o resultado do dia 24, Lula sai ganhando: absolvido, ficará livre das acusações que lhe são feitas. Se condenado, se tornará um mártir político do Judiciário que condena uns e se mantém cego e leniente diante de outras figuras políticas que cometeram delitos comprovados em imagens e gravações exibidas no noticiário.

Na verdade, quem estará sentado no banco dos réus, dia 24, não será o cidadão Luiz Inácio Lula da Silva. Será o Judiciário brasileiro.

TEMER AGRAVA CRISE SOCIAL

Depois de uma década em queda, a pobreza se ampliou no país desde a recessão iniciada em 2014. De acordo com levantamento do Instituto de Estudos do Trabalho e Sociedade (Iets), pouco mais de 9 milhões de brasileiros foram empurrados para baixo da linha de pobreza em 2015 e 2016, reflexo da deterioração do emprego e da renda. Desses, 5,4 milhões tornaram-se extremamente pobres (ou miseráveis).

São dados da “Síntese de Indicadores Sociais”, divulgada em dezembro pelo IBGE. De acordo com o Banco Mundial e o IBGE, vive na extrema pobreza quem ganha US$ 1,90 por dia (R$ 133,72 mensais); e na pobreza moderada quem recebe US$ 5,50 por dia (R$ 387,07 mensais).

Em 2016, 52,2 milhões de brasileiros(as) viviam abaixo da linha de pobreza, ou 25,4% da população. No caso da pobreza extrema, eram 13,35 milhões de pessoas, 6,5% da população.

Pelos cálculos do Iets, de 2004 a 2014 o Brasil retirou quase 40 milhões de pessoas da pobreza. Nem mesmo a crise mundial de 2008, que provocou pequena e rápida recessão no país, foi capaz de interromper o processo de redução da pobreza. “O retrocesso ocorre de 2014 para 2015. É quando a crise [brasileira] começa a afetar a renda, provocar desemprego e gerar informalidade. Os empregos perdidos na construção civil, por exemplo, afetaram muitos trabalhadores”, disse o pesquisador do Iets.

Francisco Ferreira, economista do Banco Mundial, chegou a conclusões parecidas. A parcela da população em situação de extrema pobreza cresceu de 4,1%, em 2014, para 6,5% em 2016. Em entrevista ao jornal Valor, José Graziano, diretor-geral da FAO, braço da ONU para alimentação e agricultura, declarou que mais de 7 milhões de brasileiros, mesmo vivendo em situação de extrema pobreza, não recebem nenhum tipo de assistência social. O país, advertiu, pode voltar a integrar o Mapa da Fome Mundial, que a FAO divulga desde 1990.

Em nosso país, todo dia são jogados no lixo 41 mil toneladas de alimentos, suficientes para alimentar 25 milhões de pessoas! Um quarto desse desperdício é culpa do consumidor final. Por isso, é tão baixo o índice de reaproveitamento feito pelos bancos de alimentos: apenas 150 toneladas por mês.

Nossas escolas insistem em ignorar a educação nutricional, e o governo não delimita a propaganda e venda de produtos que prejudicam a saúde, em especial a das crianças. A morte não está embutida apenas em maços de cigarros. Também em refrigerantes, achocolatados, enlatados e embutidos. Sutil, ela se inicia por nos corroer por dentro, na forma de perda de vitaminas, obesidade mórbida, debilitação dos ossos, câncer etc.

No mundo, a FAO calcula que, todos os dias, 1/3 dos alimentos vai para o lixo, o que equivale a 3,5 milhões de toneladas.

Esses dados devem pesar, neste ano de 2018, em nossa consciência de eleitores.

IMPEDIR A ANTIRREFORMA DA PREVIDÊNCIA

Graças à efetiva comprovação de que governo é como feijão, só funciona na panela de pressão, a mobilização popular impediu o Congresso Nacional de aprovar a antirreforma da Previdência proposta por Temer. Agora é hora de esclarecer a opinião pública e pressionar os deputados federais para que, em fevereiro, engavetem de vez essa proposta injusta.

Vamos aos números. O governo mente ao afirmar que a Previdência é deficitária, ou seja, paga mais do que recebe. A CPI da Previdência no Senado comprovou o contrário. Entre 2000 e 2015, o superávit foi de R$ 821 bilhões. Atualizado pela Selic, seria hoje de R$ 2,1 trilhões. Nos últimos 20 anos, devido a desvios, sonegações e dívidas, a Previdência deixou de recolher aos seus cofres mais de R$ 3 trilhões!

A CPI denunciou que um dos meios de desviar recursos da Previdência é pela DRU (Desvinculação de Receitas da União). Entre 2000 e 2015, foram retirados R$ 614 bilhões. Atualizado, esse valor seria hoje de R$ 1,4 trilhão. No ano passado, o percentual de retirada subiu de 20% para 30%. Ou seja, o Planalto toma dinheiro da Previdência para outros fins, e depois a acusa de deficitária...

Segundo Floriano Martins, vice-presidente da Associação Nacional dos Auditores Fiscais da Receita Federal do Brasil, a reforma da Previdência só beneficiará um setor: o sistema financeiro. Este está ávido para se apossar daquele que será o maior fundo de pensão fechado do Brasil: o dos servidores públicos federais. E, como efeito cascata, do funcionalismo estadual e municipal.

A previsão é que ele se transforme no maior fundo de pensão do Brasil ao longo dos próximos 20 anos. Segundo Martins, o governo abre espaço para oferecer previdência complementar fechada a ser gerida diretamente pelos bancos.

O Planalto quer a reforma a todo custo para entregar a previdência do setor público complementar aos fundos de pensão. Ou seja, conclui Martins, se a reforma passar, o trabalhador brasileiro estará condenado a trabalhar até morrer sem se aposentar.

A grande reforma que o Brasil exige é a tributária, de modo a cobrar mais de quem ganha mais, e menos de quem ganha menos. Um dos buracos da Previdência é o volume de sonegação. E o governo Temer ainda ameniza as dívidas dos sonegadores e alivia aqueles que devem ao Funrural, destinado ao trabalhador do campo.

É uma vergonha o secretário da Receita Federal, Jorge Antônio Rachid, admitir à CPI do Senado que serão precisos 77 anos para cobrar dos sonegadores... Esta é uma grave ofensa à inteligência e à dignidade do povo brasileiro que, com o seu trabalho, cobre os buracos deixados pela sonegação.

ANO NOVO, VIDA NOVA?

Estamos à porta de 2018. E o que fizemos de nós mesmos em 2017?

Há em nós abissal distância entre o que somos e queremos ser. Um apetite de Absoluto e a consciência aguda de nossa finitude. Olhamos para trás: a infância que resta na memória com sabor de paraíso perdido; a adolescência tecida em sonhos e utopias; os propósitos altruístas.

Hoje, o salário apertado num país tão caro; os filhos, sem projeto, apegados à casa e ao consumismo; os apetrechos eletrônicos que perenizam a criança que ainda resta em nós.

Em volta, a violência da paisagem urbana e nossa dificuldade de conectar efeitos e causas. Como se os infratores fossem cogumelos espontâneos, e não frutos do darwinismo econômico que segrega a maioria pobre e favorece a minoria abastada. O mesmo executivo que teme assalto e brada contra bandidos, abastece o crime consumindo drogas.

Ano novo. Vida nova? Depende. Podemos continuar a nos empanturrar de carnes e doces, encharcados em bebidas alcoólicas, como se a alegria saísse do forno e a felicidade viesse engarrafada. Ou a opção de um momento de silêncio, um gesto litúrgico, uma oração, a efusão de espíritos em abraços afetuosos.

No fundo da garganta, um travo. Vontade de remar contra a corrente e, enquanto tantos celebram a pós-modernidade, pedir colo a Deus e resgatar boas coisas: uma oração em família, a leitura espiritual, a solidão orante, o gesto solidário que ameniza a dor de um enfermo.

Reencontrar, no ano que se inicia, a própria humanidade. Despir-nos do lobo voraz que, na arena competitiva do mercado, nos faz estranhos a nós mesmos. Por que acelerar tanto, se temos que parar no sinal vermelho? Por que tanta dependência do celular e dificuldade de dialogar olho no olho?

Ano novo de eleições. Olhemos o país. As obras que beneficiam empreiteiras trazem proveito à maioria da população? Melhoram o transporte público, o serviço de saúde, a rede educacional? Nosso bairro tem um bom sistema sanitário, as ruas são limpas, existem áreas de lazer? Participamos do debate sobre a reforma da Previdência? Os políticos em quem votamos tiveram desempenho satisfatório? Prestaram contas do mandato?

Em política, tolerância é cumplicidade com maracutaias. Voto é delegação e, na verdadeira democracia, governa o povo por meio de seus representantes e de mobilizações diretas junto ao poder público. Quanto mais cidadania, mais democracia.

Ano de nova qualidade de vida. De menos ansiedade e mais profundidade. Aceitar a proposta de Jesus a Nicodemos: nascer de novo. Mergulhar em si, abrir espaço à presença do Inefável. Braços e corações abertos também ao semelhante. Recriar-se e apropriar-se da realidade circundante, livre da pasteurização que nos massifica na mediocridade bovina de quem rumina hábitos mesquinhos, como se a vida fosse uma janela da qual contemplamos, noite após noite, a realidade desfilar nos ilusórios devaneios de uma telenovela.

Feliz homem novo. Feliz mulher nova.

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