TEXTOS DE FREI BETTO

Teólogo e Escritor

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Edição 151, outubro 2019

MARIGHELLA, 50 ANOS

O líder revolucionário brasileiro Carlos Marighella (1911-1969) foi fuzilado pela ditadura militar há 50 anos, a 4 de novembro de 1969, em São Paulo. As circunstâncias de seu assassinato, cuja culpa o governo brasileiro admitiu, oficialmente, em 1996, estão devidamente esclarecidas em três livros: “Batismo de sangue” (Rocco), de minha autoria, filmado por Helvécio Ratton; a biografia escrita por Emiliano José, “Carlos Marighella: o inimigo número um da ditadura militar” (Casa Amarela); e, em especial, a biografia assinada por Mário Magalhães, “Marighella: o guerrilheiro que incendiou o mundo” (Companhia das Letras).

Falta, agora, o público brasileiro superar as barreiras do clima de censura imposto pelo governo Bolsonaro para ter acesso ao filme de Wagner Moura sobre Marighella, baseado no livro de Magalhães.

Para os que defendem a tortura (exceto neles) e torcem o nariz para os direitos humanos, Marighella foi um terrorista que pretendia fazer do Brasil uma nova Cuba. (Quem dera. Assim toda a nossa população, como em Cuba, teria assegurada os direitos humanos elementares - alimentação, saúde e educação -, sem ônus para o orçamento familiar, e a nação se destacaria por seu alto nível cultural e senso de soberania e independência).

Epítetos demeritórios semelhantes, em vocábulos próprios da época, foram aplicados a Zumbi dos Palmares (decepado), Tiradentes (enforcado), Frei Caneca (fuzilado), Angelim (exilado), Madre Joana Angélica (assassinada), e tantos outros que deram suas vidas para livrar o Brasil de seu complexo de vira-lata perante as nações metropolitanas.

Conheci Marighella em 1967, no convento dominicano de São Paulo, quando se mostrou interessado no apoio dos frades à sua proposta revolucionária e nos presenteou com os seus poemas. Dotado de talento poético, fez em versos uma prova de física quando cursava o ensino médio, em Salvador. Ingressou na faculdade de engenharia, mas não terminou o curso. Dedicou-se a defender os direitos dos mais pobres como militante do Partido Comunista. Eleito deputado federal pela Bahia, em 1946, se viu obrigado a retornar à luta clandestina tão logo o governo Dutra cassou o PCB.

Com o advento da ditadura militar, em 1964, Marighella rompeu com o PCB e fundou a ALN (Ação Libertadora Nacional), organização revolucionária destinada a redemocratizar o Brasil e implantar o socialismo. Não viveu o suficiente para ver o fim da ditadura, em 1985. Mas deu a sua vida para que outros tivessem vida. Seus ideais continuam atuais, embora hoje sejam outros os métodos de luta. Já não se justificam as ações armadas, que interessam apenas aos fabricantes de armas e à extrema-direita. Os espaços democráticos foram duramente reconquistados com a derrubada da ditadura, em 1985, e precisam ser preservados e ampliados à luz da Constituição Cidadã de 1988.

Marighella, com quem tive diversos contatos, era um homem afável, culto, que tratava seus comandados como irmãos e irmãs mais novos. Sabia ouvir críticas e reconsiderar suas posições. Sensato, jamais sugeriu que os frades devessem participar de ações armadas. Nossas tarefas eram todas de apoio, como abrigar militantes feridos ou facilitar a saída clandestina do país daqueles que, identificados, eram arduamente perseguidos.

Como militante da utopia, Marighella é um exemplo a ser seguido por todos aqueles que se encontram, hoje, insatisfeitos com a atual conjuntura brasileira. E não ficam à espera de que as coisas aconteçam, mas assumem a proposta de Geraldo Vandré: “Quem sabe faz a hora, não espera acontecer.”

DULCE, A SANTA BAIANA

Maria Rita de Souza Brito Lopes Pontes, mais conhecida como Irmã Dulce, será canonizada pelo papa Francisco amanhã, 13 de outubro, em Roma. Ela merece, tamanha a sua dedicação aos pobres. É a primeira santa genuinamente brasileira. Madre Paulina, que viveu no sul do Brasil, nasceu na Itália. Os demais santos brasileiros são quase todos homens, muitos nascidos na Europa, como o espanhol Padre Anchieta. Exceções são o paulista Frei Galvão e os 23 mártires potiguares, entre os quais cinco mulheres.

De facto, o Brasil tem multidão de santos. Santo é todo aquele que viveu segundo as bem-aventuranças anunciadas por Jesus (Mateus 5, 1-12, e Lucas 6, 21-49), ainda que não tenha tido fé, como atesta o capítulo 25 do Evangelho de Mateus (31-46).

Temos santos vivos, à beça: mulheres abandonadas por seus maridos e que, na pobreza, criam heroicamente filhos e netos; militantes que lutam por justiça e paz; políticos que, com risco de vida, ousam defender os direitos humanos; ambientalistas que enfrentam ameaças de morte; inúmeras pessoas, de diferentes classes sociais, que fazem de suas vidas um dom para que outros tenham vida. Esses santos anônimos, que não esperam reconhecimento ou recompensa, jamais serão elevados aos altares nem terão devotos.

A baiana Irmã Dulce foi uma mulher exemplar. Nascida na classe média alta, tornou-se freira e dedicou sua vida a cuidar dos mais pobres. Pena que a Igreja não a incentivou a estudar teologia. As religiosas, em sua maioria, são, ainda hoje, relegadas a funções subalternas e papéis secundários dentro da comunidade católica. Embora consagrem suas vidas a serviço do próximo, estão impedidas de acesso ao sacerdócio.

Grave falha da Igreja, sobretudo se considerarmos que a primeira apóstola foi uma mulher, a samaritana do poço de Jacó (João 4, 1-41). E Jesus integrou ao seu grupo várias mulheres, citadas em Lucas 8,1, inclusive Madalena, a primeira testemunha de sua ressurreição. A misoginia clericalista não encontra respaldo na prática de Jesus, que escolheu para liderar sua comunidade apostólica um homem casado, Pedro, conforme atesta o Evangelho de Marcos (1, 30-31).

Espero que a devoção à Irmã Dulce não venha a reforçar o assistencialismo que tanto predominou na Igreja em tempos passados. O sistema econômico injusto produz a desigualdade e a miséria, exclui milhares de famílias do acesso aos serviços de saúde e à educação de qualidade, e os religiosos abrem orfanatos, asilos, hospitais, lactários e casas da mãe solteira para aliviar o sofrimento oriundo da exclusão social.

Felizmente o Concílio Vaticano II e a Teologia da Libertação mudaram esse enfoque ao centrar a evangelização na promoção da justiça e no combate às causas da pobreza. O papa Francisco atua na mesma direção. E inclui, entre as principais vítimas do sistema, a Mãe Natureza. Daí a importância do Sínodo da Amazônia, reunido em Roma desde o dia 6 deste mês até o próximo dia 27.

Nesses tempos de hostilidade generalizada, do presidente que ofende índios, quilombolas e médicos cubanos cuidadores dos mais pobres, ao procurador que se arma no intuito de assassinar um juiz da suprema corte; nesses tempos de redes digitais, equivocadamente chamadas de sociais, transformadas em trincheiras de injúrias e mentiras; nesses tempos de feminicídio, homofobia e racismo; nesses tempos de xenofobia, eleuterofobia (medo à liberdade) e fundamentalismos, vale sublinhar esta frase lapidar da santa Irmã Dulce: “As pessoas que espalham amor não têm tempo nem disposição para jogar pedras.”

EU, DEUS

N.E. Pois é, meu caro amigo Frei Betto. Mas o deus do cristianismo é mesmo assim. Nas suas diferentes máscaras. A pior de todas é a do Papado da Roma imperial. O Brasil de BolsoNero é, neste momento, uma das mais feias do Ocidente. Mas o mal reside mesmo no deus do próprio cristianismo, o da Bíblia-Alcorão. Outro, muito outro, é o Deus de Jesus, o de antes do cristianismo

Abusam de meu nome no Brasil. Estranho que, em um país tão cristão, outrora conhecido como Terra de Santa Cruz, muitos parecem ignorar o Decálogo que entreguei às mãos de Moisés, e cujo segundo mandamento é “Não tomar em vão” meu Santo Nome.

Há políticos que não fazem outra coisa. Evocam-me sem o menor escrúpulo e a qualquer pretexto. Até na ONU, instituição laica e plural, meu Nome foi citado na finalização de um discurso presidencial repleto de falácias e eivado de ódios e discriminações.

Confesso que me sinto incomodado desde que me usaram como jargão na campanha eleitoral: “O Brasil acima de tudo; Deus acima de todos”. Ora, o Brasil não é um disco voador que paira acima de tudo. O Brasil é toda essa gente que ocupa esse extenso e rico território. Essa gente sofrida, desempregada, que é alvo de operações policiais que disparam a esmo, assassinando crianças como Ágatha Félix que, agora, brinca com os anjos no Céu. Esses ricos que, nos últimos sete anos, tiveram 8,5% de aumento na renda, e os pobres que, no mesmo período, perderam 14% da renda.

E Eu, é bom frisar, não estou acima de todos. Estou entre vocês, povo brasileiro, e dentro de tudo: na árvore derrubada pela motosserra na Amazônia; na água do rio envenenado pelo mercúrio dos garimpeiros; no coração dos torcedores que lotam os estádios de futebol; e também no dos policiais emboscados por bandidos.

Nada, neste Universo, prescinde de minha amorosa presença. E, pelo amor de D..., ou melhor, por favor (pois não quero parecer cabotino), não confundam o que digo com panteísmo. Panteísta crê que tudo é deus. Apoiem, sim, os panenteístas, que acreditam, com razão, que Eu me faço presente em tudo que criei.

Devo frisar, porém, que não criei a desigualdade social, a devastação ambiental, a misoginia, a homofobia, o preconceito étnico etc. Todas essas aberrações não resultam de minha divina vontade. São frutos amargos da injustiça humana.

Por favor, não atribuam a mim males e crimes que vocês provocam. Dei-lhes liberdade porque sou, essencialmente, um Ser amoroso. E só há liberdade onde reina o amor. Se tivesse criado todas as pessoas como autômatos programados a fazer sempre o bem, eu me negaria. Isso seria o mundo de um tirano, e não de um Deus cujo único sinônimo é Amor. Como ser amoroso, só poderia tê-los criado com livre arbítrio. Tão livres que podem até me dar as costas ou negar a minha existência. E, ainda assim, jamais deixarei de amá-los. Como bem afirmou o papa João Paulo I, sou mais Mãe do que Pai.

Rogo aos que me são fiéis não admitir que tomem o meu Santo Nome em vão. Denunciem e combatam os que me evocam para extorquir os pobres, aqueles que pregam ser Jesus o caminho, mas insistem em cobrar o pedágio... Rejeitem os que ostentam o meu Nome para ampliar seus negócios, impor suas leis injustas e oprimir o povo. Façam o que fez meu Filho. Não se aliou aos fariseus hipócritas. Não bajulou os abastados, mas despediu-os com as mãos vazias. E deu a sua vida para que “todos tenham vida e vida em abundância”, como registrou João no Evangelho.

Dito isso, retorno à minha comunhão trinitária. E, reitero, estou presente em todas as coisas criadas. Basta que vocês tenham coração para amar, mãos para partilhar, pernas para prosseguir no rumo da esperança, e olhos para ver luz mesmo onde parece reinar trevas.

AMAZÔNIA AMEAÇADA

Nos últimos 50 anos, a Amazônia brasileira perdeu área equivalente aos estados de Minas Gerais e Paraná. A floresta já sofreu desmatamento de 17% de sua extensão. Segundo a ONU, o limite são 20%. Além disso, o equilíbrio ecológico entra em colapso e a floresta fica condenada a se transformar em savana estéril.

Cortar uma árvore de 20 metros de altura com máquinas automotrizes demanda apenas um minuto. Reflorestar, leva anos, e sem resgate da qualidade originária. As florestas primárias absorvem muito mais monóxido de carbono que as secundárias, as replantadas.

Nove países englobam a Amazônia: Brasil, Guiana Francesa, Suriname, Guiana, Venezuela, Colômbia, Equador, Peru e Bolívia. Mas 60% de sua área ficam dentro do Brasil. A Amazônia representa 40% das florestas tropicais do mundo e abriga 15% da biodiversidade do planeta.

O brasileiro não demonstra apreço pela Amazônia. Se possui recursos, prefere conhecer santuários ecológicos do exterior. Nem sequer o Brasil explora a potencialidade turística da região, como faz a Costa Rica, a ponto de o turismo ecológico neste país superar, como fator de aumento do PIB, a exportação de frutas e café. O que nossas escolas ensinam a respeito da história dessa floresta gigantesca e dos povos indígenas que a habitam e conservam?

Trata-se também de uma floresta pluvial, pois gera metade da chuva que assegura a sua conservação. A umidade que sopra do Atlântico na direção dos Andes produz precipitações retidas pelas árvores, que a reciclam, já que a umidade sobe da raiz à copa para, em seguida, cair como chuva. Esse resfriamento alivia o aquecimento global.

Segundo o System of Environmental Economic Accounting (SEEA), órgão da ONU que analisa a relação da economia com o meio ambiente, o desmatamento nos países tropicais gera um prejuízo anual de US$ 5 trilhões, valor superior ao PIB do Japão e vinte vezes o faturamento da Amazon. Em resumo, os gastos com os efeitos da destruição ambiental são muito superiores ao que se exige para preservar a biodiversidade.

A natureza viveu bilhões de anos sem a incômoda presença do ser humano. E pode voltar a fazê-lo em breve. A menos que os responsáveis pelas decisões passem a entender a gravidade da situação. A região abriga cerca de 2,5 milhões de espécies de insetos, e mais de 2 mil aves e mamíferos. Até hoje foram classificadas cientificamente na região pelo menos 40 mil espécies de plantas, 3 mil de peixes, 1.294 aves, 427 mamíferos, 428 anfíbios e 378 répteis. Um de cada cinco pássaros no mundo vive nas florestas tropicais da Amazônia. Os cientistas já descreveram entre 96.660 e 128.843 espécies de invertebrados só no Brasil.

A diversidade de espécies de plantas é a mais rica da Terra, sendo que alguns especialistas estimam que um quilômetro quadrado amazônico pode conter mais de mil tipos de árvores. De acordo com um estudo de 2001, um quarto de quilômetro quadrado de floresta equatoriana suporta mais de 1.100 espécies de árvores. Um quilômetro quadrado de floresta amazônica pode conter cerca de 90.790 toneladas métricas de plantas vivas. Até o momento, cerca de 438 mil espécies de plantas de interesse econômico e social têm sido registradas na região, e muitas mais ainda a serem descobertas ou catalogadas.

O Sínodo da Amazônia, convocado pelo papa Francisco, e que se realizará em Roma de 6 a 27 de outubro, servirá para alertar o mundo quanto à urgência de se pôr fim às queimadas e ao desmatamento da floresta amazônica, bem como fortalecer a defesa dos direitos de seus habitantes, principalmente os povos indígenas.

COLONIALIDADE

Acaso a modernidade teve início em 1492, quando Colombo aportou em nosso continente? Por que qualificar de modernidade a expansão mercantilista das frotas marítimas de Espanha, Portugal, Inglaterra, França e Holanda?

Melhor qualificá-la de colonialidade. As investidas europeias no Oriente, na África e no Novo Mundo se caracterizaram por pilhagem de bens naturais, como ouro, prata e especiarias, e exploração do trabalho escravo de indígenas e negros.

Como assinala Dussel (1979), o mito da modernidade como progresso e luzes contribuiu para a “justificação de uma práxis irracional de violência”. Os povos dominados foram subjugados. A empresa colonial se revestia do manto da religião para legitimar a invasão para “o bem da salvação das almas”.

A cultura passa, então, a ter como eixo o eurocentrismo. Invasão é denominada “descobrimento”; subjugação dos “bárbaros”, processo civilizatório; saque e genocídio, sacrifícios inevitáveis para o avanço do progresso.

O eurocentrismo ainda hoje é estampado em mapas-múndi, cujo centro é ocupado pela Europa. Todos os territórios em volta são considerados periferia, na qual os reinos europeus se sentiram no direito de impor uma economia mercantilista-capitalista; uma sociedade racista; uma cultura excludente e patriarcal.

A colonialidade é “a face oculta da modernidade” (Mignolo 2007). Empreende-se, portanto, um processo acelerado de “naturalização”. Primeiro, da desigualdade entre colonizador e colonizado. Inventa-se o conceito de raça, que carece de base cientifica por não se sustentar na estrutura biológica da espécie humana. Assim, os colonizadores se denominaram “brancos” em contraponto “natural” aos “negros, amarelos e vermelhos”, considerados “de cor”. Mesmo entre os brancos havia a distinção de nobres possuidores de “sangue azul”, que ao evitarem a exposição ao sol ressaltavam-se as veias azuladas sob a pele alva.

As supostas diferenças biológicas, portanto, justificariam a noção de raça e a superioridade dos “civilizados” sobre os “incivilizados”. Ainda hoje vigora na visão de muitos civis e policiais que negro é sempre suspeito, e moradores de favela e bairros da periferia são potencialmente perigosos. A territorialidade delimita e “naturaliza” a desigualdade social, e estabelece os limites entre os “cidadãos de bem” e os que ameaçam a ordem pública...

Quem assimila essa ideologia imposta pelo colonizador ignora, ou prefere ignorar, que o progresso da Europa Ocidental e dos EUA resulta da exploração secular da “periferia” do mundo. Basta pesquisar a história das nações africanas; do Japão e da China (a guerra do ópio); da América Latina e do Caribe. Basta conferir o destino de nossas riquezas naturais e identificar, em nossas cidades, a logomarca das grandes empresas transnacionais que dominam as nossas economias, todas sediadas nos EUA ou na Europa Ocidental.

Como nos acusar de inferioridade cultural? Há nos atuais países metropolitanos algo parecido à Muralha da China e as pirâmides do Egito? Onde foram escritos a Bíblia e o Alcorão? Como os habitantes do Novo Mundo eram incultos se os maias utilizavam o zero muito antes dos europeus e faziam previsões meteorológicas precisas? Cortés, ao invadir o México em 1519, encontrou uma cidade de 500 mil habitantes edificada por cima de um lago pantanoso. E seria incivilidade nossos indígenas usarem o ouro como mero adorno e não fator de cobiça e guerras? Quem inventou o papel, o sismógrafo, a bússola, o álcool e a pólvora? Os chineses.

Portanto, convém rever nossos conceitos de progresso, desenvolvimento e civilização. E nos livrar dessa cultura que nos torna cego ao entorno e nos induz a idolatrar aqueles que ainda hoje nos espoliam e infundem o complexo de vira-latas.

Edição 150, Setembro 2019

SACRALIDADE DO SER HUMANO

Nem todos devem ser políticos profissionais. É preciso vocação e, de preferência, decência também. Mas em qualquer atividade que se exerça, faz-se política, toma-se posição nesse mundo desigual.

Cada um de nós é chamado a se posicionar. Não existe neutralidade. Em tudo que fazemos contribuímos para manter ou transformar a realidade; dominar ou mudar; oprimir ou libertar.

Quando me perguntam por que me envolvo em política, por via pastoral ou de movimentos sociais (nunca me filiei a partido político), respondo: porque sou discípulo de um prisioneiro político. Que eu saiba, Jesus não morreu nem de hepatite na cama, nem de desastre de camelo em uma rua de Jerusalém. Morreu como muitas vítimas da ditadura militar brasileira - preso, torturado, julgado por dois poderes políticos e condenado à pena de morte dos romanos, a cruz.

A pergunta é outra: por que Jesus foi condenado, se era tão espiritual e santo? Que tipo de fé temos hoje, nós cristãos, que não questiona essa desordem estabelecida que produz aberrações como o assassinato da menina Ágatha? Jesus foi condenado por apregoar ser preciso buscar um “outro mundo possível”.

Dentro do reino de César, Jesus anunciava o Reino de Deus! A Igreja deslocou-o para a vida após a morte. Mas, para ele, o Reino de Deus fica no futuro histórico. Tanto que oramos “Venha a nós o vosso Reino”, e não “Leve-nos ao vosso Reino” . Anunciar um outro reino dentro do reino de César era alta subversão.

Jesus não veio fundar uma Igreja ou uma religião. Veio nos trazer as sementes de um novo projeto civilizatório, baseado na justiça e no amor. Basta ler as Bem-aventuranças e O sermão da montanha - um mundo de partilha dos bens da Terra e dos frutos do trabalho humano.

É interessante observar que, nos quatro evangelhos, a expressão Reino de Deus aparece, na boca de Jesus, 122 vezes. E a palavra Igreja apenas duas vezes.

A Igreja é a comunidade dos discípulos de Jesus. E deveria ser, como ele foi, semente do novo projeto civilizatório, isenta de fundamentalismo religioso. É bom lembrar que Jesus curou o servo do centurião, que era pagão, e a mulher cananeia, que não era judia e pertencia a um povo politeísta.

Disse a cada um deles: “A tua fé te salvou”. Um fundamentalista diria: “Primeiro, acredite no que prego. Depois, se torne meu seguidor e, então, lhe farei o bem.”

Em nossa sociedade são merecedores de direitos aqueles que gozam de certo padrão de vida. Para Jesus, ao contrário, a pessoa pode ser cega, coxa, hanseniana, excluída. Ela é templo vivo de Deus! Eis a radical defesa dos direitos humanos.

O simples fato de uma pessoa existir já a torna dotada de ontológica sacralidade. Isso é extremamente radical. O marxismo europeu, por exemplo, graças ao qual a modernidade avançou em termos de inclusão social, nunca defendeu os direitos indígenas, como fez o marxista peruano Mariátegui. Até entendemos a razão, pois foi criado na Europa, onde havia poucos índios. Mas também nunca defendeu o protagonismo dos moradores de rua, chamado lumpemproletariado. Ou seja, eles seriam os beneficiários de um futuro projeto socialista ou comunista, mas não protagonistas. Para Jesus, todos são chamados a serem protagonistas.

Portanto, abraçar os direitos humanos é aceitar que cada pessoa é dotada de radical dignidade. Em linguagem teológica, sacralidade.

À luz dos direitos humanos há que indagar: o que nossos políticos propõem é para aumentar o lucro de uma minoria ou defender os direitos de todos? É para favorecer um pequeno segmento ou para que toda a nação seja beneficiada?

Não sejamos ingênuos. Direitos humanos são incompatíveis com um sistema que defende, como principal direito, a acumulação privada da riqueza.

REENCANTAR O MUNDO

Illya Prigogine e Isabelle Stengers em “A nova aliança” (Brasília, UNB, 1997) acentuam que a ciência, e a física em particular, desencantaram o mundo. O Universo mítico, outrora alvo de contemplação, se tornou um objeto desvendável. O que antes brilhava aos nossos olhos é, agora, esmiuçado por nossa razão e por nossas mãos (e pés, ao pisar na lua).

Comemos a maçã do Paraíso. A árvore do conhecimento foi apoderada por nós que, livres das amarras divinas, violamos o Jardim do Éden. Agora supomos saber o que é o bem e o mal, e não raramente confundimos um com o outro.

O pecado original não foi comer o fruto proibido. Proibido era querer possuir a árvore e se julgar dono de seus frutos. O desvio originário consistiu em apropriar-se do que era comum. Apropriar-se da liberdade para si e ignorar os demais.

Este desencanto, contudo, não esvaziou o mundo de sua aura divina. As religiões e os mitos crescem mundo afora. Afirmam-se como forças políticas. Querem religar o que a ciência desligou. E, muitas vezes, extrapolam suas esferas e negam avanços da ciência, como a voga criacionista nos EUA e a tese, redondamente equivocada, de que a Terra é plana, também em moda no Brasil. Aqui, a homofobia transparece na censura à diversidade de gêneros sexuais, enquanto esdrúxulas concepções regem a nossa política exterior.

O mundo só pode ser reencantado pelo olhar mítico, sem contudo menosprezar a ciência. A análise fria da ciência pode desvendá-lo, jamais explicá-lo. Sabemos que o cérebro humano pesa 1,5kg e possui 86 bilhões de neurônios, cada um deles com 10 mil conexões. Mas por que emerge dessa massa encefálica sentimentos tão controversos quanto a alegria e a raiva, e percepção do eu? O que havia antes da explosão do Big Bang?

Nada mais enfadonho do que procurar respostas para todos os mistérios da natureza. A ciência ensina que não há cor fora de mim. A deslumbrante policromia que vejo ao contemplar o nascer e o pôr do sol é apenas efeito da radiação eletromagnética cujas combinações de comprimentos de onda se transformam em cores dentro de minha cabeça. Ainda assim, prefiro acreditar na magia do arco-íris e quem sabe me atreva a buscar o pote de ouro em seus pés...

As ciências respondem aos porquês. Já as religiões não perguntam por que o dia se alterna entre claridade e escuridão, e sim qual a razão de atravessarmos esse breve período de tempo chamado vida. O mito nada indaga, apenas contempla. E, na dúvida, ele mesmo encontra a resposta. O mito é autoexplicativo, extrapola a razão e confunde as verdades de fé. Por isso todo amor é mítico. E nada reencanta uma vida ou o mundo mais do que o amor.

Pode ser que, no futuro, os algoritmos façam os computadores substituírem prefeitos, governadores e presidentes, com mais eficiência e corrupção zero. Contudo, poderão os computadores amar? Bater papo à mesa de refeição? Orar pela manhã?

Com certeza a resposta é negativa. Mas por que os humanos devem se gabar de sua inteligência se dispomos de tecnologias tão avançadas e, no entanto, para a maioria de nós a vida é, ainda hoje, sofrimento, incerteza e angústia?

FACE AUTORITÁRIA DO NEOLIBERALISMO

       Por paradoxal que pareça, a lei se tornou ferramenta do neoliberalismo para enfraquecer a democracia. O Estado de Direito vem sendo demolido por dentro, de modo a servir apenas aos interesses da elite.

       O tão esperado abalo do neoliberalismo, a partir da crise financeira de 2008, não ocorreu. Ao contrário, ele se fortalece com novas estratégias.

       O neoliberalismo é mais do que imposição de políticas de austeridade, privatização do patrimônio público, ditadura dos mercados financeiros. Ele implica uma racionalidade de abrangência mundial, que vai da economia de mercado à subjetividade das pessoas. Anula a soberania dos países aos submetê-los aos ditames do FMI, do Banco Mundial e da União Europeia. Demarca a linha divisória entre a parcela da humanidade com acesso ao consumo e a imensa multidão excluída até mesmo de direitos elementares, como alimentação, saúde e educação.

       O neoliberalismo já não necessita fazer concessões ao Estado de bem-estar social, pois desapareceu a ameaça comunista. Já não precisa posar de democrata. Agora, a imposição de um único modelo econômico deve se coadunar com a imposição de um único modelo político, o autoritário, de modo a favorecer a acumulação do capital e conter a insatisfação de amplos setores da população sem direito aos bens essenciais à vida digna.

       Os estrategistas do neoliberalismo sabem que suas políticas causam exclusão e sofrimento. Sabem também que é preciso conter a insatisfação dos excluídos, de modo a evitar a explosão que resultaria em caos político ou revolução. Assim, canalizam a miséria e a pobreza para o alívio virtual da religião, tornando-a, de fato, “ópio do povo”, capaz de aplacar a revolta e incutir espírito de sacrifício. Concentram o ressentimento e a descrença na democracia, e  transformam em bodes expiatórios partidos e políticos críticos ao neoliberalismo. Fazem convergir a baixa autoestima e a atual tendência à adoção de pautas identitárias para um amplo sentimento de identidade nacional marcado pela xenofobia.

       Em suma, encobrem as causas dos males sociais, e recobrem seus efeitos com ideologias que, ao tornar opacas as causas, acirram os ânimos diante dos efeitos. Por isso, o neoliberalismo mostra agora a sua face mais autoritária, com a construção de muros que separam nações e etnias; a supremacia do poder executivo sobre o legislativo e o judiciário; a desinformação via redes digitais; o culto à pátria; e a ofensiva descarada contra os direitos humanos.

       Por outro lado, reduz impostos para os mais ricos, precariza as relações de trabalho, suprime políticas sociais, corta investimentos na educação, acelera as privatizações e considera estorvo aos interesses do capital a proteção socioambiental.

       Henry Giroux qualifica de “fascismo neoliberal” essa formação política caracterizada por ortodoxia econômica, militarismo, desprezo por instituições e leis, ódio aos artistas e intelectuais, repulsa ao estrangeiro pobre, desconsideração pelos direitos e pela dignidade das pessoas, e violência para com os adversários.

       As reformas propostas pelo novo neoliberalismo, como, no Brasil, a trabalhista e a previdenciária, tendem a extinguir as redes de proteção social: sindicatos, ONGs, movimentos populares, e instituições corporativas (OAB, ABI, CNBB etc.) de defesa dos princípios democráticos.

       Como reagem os vencidos? Articulam as forças de oposição e se posicionam em favor de democracia? Antes fosse. De fato, os vencidos são como moscas presas no globo da lâmpada, cegos pelos encantos da sociedade de consumo. Não conseguem encontrar a saída e sofrem por estarem ali presos. Reagem ao se abster nas eleições, refugiar-se em suas bolhas digitais, dar apoio a quem vocifera em tom bélico. Toda raiva é a violência introjetada na alma.

       Resta aos críticos saírem de suas redomas acadêmicas para ajudar os vencidos a descobrir que possuem uma força capaz de virar o jogo e instaurar a democracia.

COMO OS POBRES SUSTENTAM OS RICOS

Em menos de 24 horas a França arrecadou 2 bilhões de euros para reconstrução da Catedral de Notre Dame, na qual fiéis, sacerdotes, bispos e cardeais manifestam a fé de que todos os seres humanos são filhos de Deus e merecem viver com dignidade. A mesma França que desde 1957, ou seja, após 62 anos de independência de suas colônias na África, cobra delas 85% de suas reservas nacionais.

São 15 países que pagam um salvo-conduto à França todo ano. Alguns são marcados por destruição, guerras e fome, como Benin, Burkina Faso, Costa do Marfim, Mali, Níger, Senegal, Togo, Camarões, República Centro Africana, Chade, Congo, República da Guiné e Gabão. Destes, seis figuram entre os mais miseráveis do mundo.

Seus governos são obrigados a colocar 60% das suas reservas no Banco da França, e só podem usar 15% ao ano. Caso retirem mais do que isso, devem pagar um ágio de 65% do valor. Ou seja, são penalizados por utilizarem o próprio dinheiro.

Nas ex-colônias africanas, toda descoberta mineral pertence à França. Todo equipamento e treinamento militares têm de ser franceses, o que mostra quem lucra com as guerras locais. Já morreram mais de 350 milhões de inocentes por causas de guerras causadas pela pobreza naqueles países.

Até 2004, o Haiti também tinha de pagar essa mesma taxa à França. Em 1825, quando a independência do Haiti foi reconhecida, o então presidente haitiano, Jean-Pierre Boyer, assinou um acordo com o rei francês Carlos X, pelo qual a importação de produtos da nação caribenha teriam redução de 50% nas tarifas alfandegárias, e o Haiti pagaria à França, em cinco parcelas, uma indenização no valor de 150 milhões de francos, equivalentes hoje a US$ 21 milhões.

Essa quantia seria para compensar os franceses por haverem perdido imóveis, terras e escravos. Caso o governo haitiano não assinasse o tratado, o país continuaria isolado diplomaticamente e ficaria cercado por uma frota de navios de guerra.

Aquele valor equivalia às receitas anuais do governo haitiano multiplicadas por dez. Portanto, o Haiti teve que recorrer a um empréstimo para pagar a primeira parcela. Tomado de um banco francês... Assim começou formalmente o que se conhece como a “dívida da independência”. O banco francês emprestou 30 milhões de francos, valor da primeira parcela, da qual deduziu 6 milhões de francos em comissões bancárias.

Com o restante 24 milhões de francos, o Haiti começou a pagar as indenizações. Ou seja, o dinheiro passou direto dos cofres de um banco francês para os cofres do governo francês. E o Haiti ficou devendo 30 milhões de francos ao banco francês, e mais 6 milhões de francos ao governo da França referentes ao valor que faltou da primeira parcela.

Estabeleceu-se uma espiral absurda de dívidas para pagar uma indenização que continuou alta demais para os cofres do país caribenho, mesmo quando foi reduzida à metade, em 1830. Mais tarde, em 1844, o lado leste da ilha se declararia definitivamente independente do oeste, formando a República Dominicana.

 o Haiti teve que pedir grandes empréstimos a bancos americanos, franceses e alemães, com taxas de juros exorbitantes que comprometiam a maior parte das receitas nacionais.

Finalmente, em 1947, o Haiti terminou de compensar os franceses. Foram 122 anos pagando dívidas desde a independência. E restou ao país a triste realidade de também figurar entre os 20 países mais miseráveis do mundo.

Notre Dame será reerguida, sem dúvida. E ali a glória de Deus será exaltada. Mas, e aqueles que foram criados à Sua imagem e semelhança, a população das ex-colônias?

AMAZÔNIA, O ROSTO ECOLÓGICO DE DEUS

O Sínodo da Amazônia, convocado pelo papa Francisco para outubro, terá lugar em Roma, numa decisão equivocada do Vaticano, pois fora agendado, de início, para ocorrer no coração da selva. Ali se debaterá mais do que a presença da Igreja Católica naquela região interconectada e cada vez mais violenta e desigual.

O bioma amazônico engloba nove países e ocupa mais de 7 milhões de km² habitados por 34 milhões de pessoas, das quais 3 milhões são indígenas, que dominam 340 diferentes idiomas. Ali, cada metro quadrado tem mais diversidade do que qualquer outro lugar do planeta. O bioma possui três tipos de rios: os de superfície; o subterrâneo, conhecido como “alter do chão”; e os “rios voadores”, assim chamados por acumular vapor na atmosfera e distribui-lo em forma de chuva em toda a América do Sul.

A Amazônia exerce forte relevância no ciclo do carbono, ao absorvê-lo em bilhões de árvores e impedir sua liberação na atmosfera em forma de gás. Reduz, assim, o aquecimento da Terra.

As quatro dádivas da região são: povos que sabem viver da selva e na selva, sem ameaçá-la; o ciclo das águas e do carbono; a biodiversidade; e a regulação do clima.

Segundo o papa Francisco, “os povos amazônicos originários nunca estiveram tão ameaçados em seus territórios como agora”. Em sua sabedoria ancestral, eles nos ensinam a se relacionar com a natureza, os demais seres humanos e Deus. No entanto, agora são vítimas de assassinatos, expulsões de suas terras, ação de grileiros e mineradoras, desmatamento, e proibição de se reunir e organizar.

A Igreja tem consciência de que, se agora defende a causa indígena, pela qual há tantos mártires, por outro lado ainda não se libertou da influência do projeto colonizador que vigorou no passado. O Sínodo busca justamente implantar uma Igreja pós-colonial e solidária, com rosto amazônico e indígena. Para a Igreja, a região é muito mais do que um lugar geográfico; é também um lugar teológico, no qual transparece a face de Deus criador.

Não há como manter a floresta de pé sem a sabedoria dos povos que a habitam. O “capitalismo verde” não convém, pois se rege pelas leis do mercado e busca patentear princípios e essências, privatizar a água e promover a pirataria dos saberes populares.

Os povos indígenas guardam ainda uma sintonia holística com o Cosmo. Seus sentidos aguçados estabelecem um diálogo permanente com a natureza. Conhecem cada ruído, prenunciam a chegada da chuva ou da seca, identificam os recursos medicinais das ervas. O índio não é um indivíduo na natureza. Seu corpo, o território no qual habita e a natureza formam uma unidade.

Os indígenas respiram uma cultura que se traduz, de fato, em espiritualidade da reciprocidade. Através de ritos e festas, celebram a exuberância da natureza e exorcizam os espíritos malignos. Sem recorrer à escrita, passam de geração a geração a cultura do cuidado da floresta e do respeito a todos os seres vivos.

Para eles, a terra não é um bem econômico, e sim dom gratuito de Deus no qual descansam seus antepassados, e espaço sagrado com o qual interagem para preservar sua identidade e valores.

Sofrem, no entanto, sérias ameaças de uma equivocada concepção de desenvolvimento e riqueza que lhes cobiçam as terras para implantar projetos extrativos e agropecuários, indiferentes à degradação da natureza e à destruição de suas culturas.

Cinco grandes sintomas da crise planetária se manifestam na Amazônia: 1) mudança climática; 2) envenenamento da água; 3) perda da biodiversidade; 4) degradação da qualidade de vida humana e da natureza; 5) conflitos sociais marcados por violência e assassinatos.

A convocação do Sínodo Panamazônico pelo papa Francisco é uma boa nova para toda a humanidade.

LIVRO DE TRÁGICA ATUALIDADE

Em 1934, a editora Cruzeiro do Sul, do Rio, publicou “Hitler e seus comediantes – o despertar da Alemanha”, de autoria do futuro embaixador José Jobim, então correspondente de O Globonaquele país. Jobim foi “suicidado” pela ditadura militar, no Rio, em 1979, ao ameaçar denunciar as falcatruas na construção da usina de Itaipu, agora de novo em foco.

A Alemanha, destroçada pela Primeira Grande Guerra (1914-1918), viu em Hitler um salvador da pátria. Jobim registra: “Os hitleristas prometeram acender o fogão de todos os alemães. Para isso, necessitavam do apoio das mulheres. E, paradoxalmente, a melhor maneira que encontraram para atraí-las foi insultá-las. Houve já quem dissesse que os três Kas – “Kuche” (cozinha), “Kirche” (igreja) e “Kinder” (filhos) – são todo o programa feminista do nacional-socialismo. As mulheres sabem disso e, entretanto, o apoiam.”

Como explicar esse apoio? “Num país onde há milhões de desempregados, sem nenhuma esperança séria de resolver o problema, a mulher desiludiu-se com a democracia e deu ouvidos ao Fuehrer que lhe prometeu um lar.”

Jobim escreve: “O nazismo não aprecia a inteligência. Despreza-a. É infindável a lista dos aposentados, demitidos, afastados e perseguidos nas letras, ciências e artes. Nas ciências, o caso mais conhecido é o de Einstein, culpado dos crimes de ser judeu e sábio. Suas obras foram queimadas nas fogueiras da Universidade de Berlim.”

“Outros autores foram escolhidos para a fogueira. Os autores das obras pacifistas, das poesias e novelas sociais cujos nomes encarnam o melhor da Alemanha democrática. Foram-se os livros de Thomas Mann e Heinrich Mann, Leonhard Frank, Magnus Hirschfeld, Jacob Wassermann, Stephan Zweig, Bertold Brecht, Alfred Doeblin e Th. Plivier.”

“Quando ouço a palavra cultura, engatilho o meu revólver” – esta frase, repetida à exaustão por Goebbels, na verdade é da peça “Schlageter”, de Hanns Johst, intelectual de esquerda que aderiu a Hitler. Segundo Jobim, “o único escritor nacional-socialista legível”.

A respeito dos jovens escritores alemães, o autor reproduz as palavras de seu amigo Gorkin: “Assistiram ao triunfo do nacional-socialismo em atitude fatalista. ‘Que importa?’, perguntaram-se. Como defender os princípios democráticos se não acreditavam neles? Logo começaram a pagar as consequências de sua indiferença. O nacional-socialismo respondeu ao seu fatalista ‘que importa?’ queimando suas obras nas praças públicas. Arderam no fogo de seus próprios livros os últimos lampejos de liberdade e rebeldia de toda uma geração intelectual.”

“Depurar, transformar, hitlerizar!”, escreve Jobim. “É a preocupação que se manifesta em todos os domínios: educação, moda, patriotismo. O novo ensino superior desprezava, por inútil, o sânscrito. Mas um sábio explicou ao ministro da Educação que o sânscrito era a língua sagrada dos brâmanes, dos arianos da Índia. E pronto! O sânscrito passou a ser gênero de primeira necessidade.”

Jobim salienta em seu livro: “Os leitores dos jornais servidos pela Agência Brasileira estiveram durante muito tempo convencidos de que o Reichstag (parlamento alemão) fora mesmo incendiado pelos comunistas. As crônicas que enviei da Europa narrando os verdadeiros debates das audiências do processo do Reichstag desmoralizaram os despachos da agência hitlerista no Rio. O Globo encontrou, porém, grande dificuldade para publicá-las. A censura alegava, para cortá-las, a necessidade de não perturbar as boas relações de amizade que o Brasil deve manter com a Alemanha. Não podia, eu, entretanto, ser mais sereno. Minhas crônicas diferiam das de qualquer um jornalista a soldo da Legação alemã apenas pela honestidade com que eram escritas.”

Pela sua trágica atualidade, a obra de José Jobim sobre a ascensão do nazismo merece ser republicada no Brasil. Qualquer semelhança com o período atual do nosso país não é mera coincidência. Eis um autor à procura de editora.

Edição 149, Junho 2019

TRÂNSITO PARA A MORTE

As estatísticas indicam que 1,25 milhão de pessoas morrem por ano em acidentes de trânsito em todo o mundo. Isso supera o número de vítimas de guerras, ataques terroristas e homicídios. A maioria dos acidentes ocorre por erros humanos, como embriaguez, uso do celular ao volante, excesso de velocidade etc.

No Brasil, segundo o Observatório Nacional de Segurança Viária, 400 mil pessoas são afetadas anualmente por acidentes de trânsito, ou seja, ficam inválidas ou com sequelas, como deficiências físicas e psíquicas. E o número de mortos chega a 47 mil por ano. Com certeza, este é um índice subestimado. Segundo a Polícia Rodoviária Federal, em nosso país entram na estatística apenas as mortes contabilizadas imediatamente após o acidente. No Canadá, por exemplo, os acidentados são acompanhados por 90 dias.

Nos últimos 10 anos, mais de 1,6 milhão de pessoas ficaram lesadas, no Brasil, por acidente de trânsito. Isso representou para o SUS um custo de R$ 3 bilhões! Segundo o Conselho Nacional de Medicina, a cada hora cerca de 20 pessoas dão entrada em um hospital da rede pública de saúde com ferimentos graves causados por veículos terrestres.

No índice da OMS (Organização Mundial da Saúde), o Brasil figura em 5º lugar entre os países recordistas em mortes no trânsito, superado apenas por Índia, China, EUA e Rússia. A violência no trânsito é a terceira principal causa de mortes no mundo, precedida apenas por doenças cardíacas e câncer.

Apesar dessas cifras tão alarmantes, o presidente Bolsonaro propõe liberar de multa pais que não usarem cadeirinhas para levar bebês no carro; extinguir os exames toxicológicos de caminhoneiros; adotar menos radares nas estradas; dobrar o limite de pontuação na carteira de motoristas infratores; aplicar punição menor para motoqueiros que usarem capacetes sem viseira etc.

O governo parece não se dar conta de que, se aprovadas tais medidas, ele estará enxugando gelo. Pois serão maiores os gastos do SUS com hospitalização e tratamento de acidentados.

O veículo que mais causa mortes nas ruas do Brasil é a motocicleta. Em 2018 foram 884 óbitos na capital paulista. A prefeitura considera a principal causa o aumento dos aplicativos (como iFood, Uber Eats, Loggi e Rappi) de entrega por motoboys, premiados em dinheiro para quem faz mais entregas.

Os exames para a obtenção de carteira para pilotar motos nem sempre são rigorosos, os veículos não passam por revisões periódicas e seus motoqueiros não dispõem de tempo adequado para o descanso. Isso repercute no aumento das despesas com previdência social e favorece a sonegação de impostos, pois nem sempre as leis trabalhistas são respeitadas na relação entre aplicativos e entregadores.

Segundo o presidente do Sindicato dos Mensageiros Motociclistas de São Paulo (Sindimotosp), Gilberto dos Santos, “o principal problema é que essas empresas trazem gente muito nova, sem experiência, sem cursos. E com esses estímulos (prêmio em dinheiro), esse pessoal é colocado para correr.”

Em outubro de 2018, mensagem em SMS atribuída à Uber Eats prometia: “Ganhe 570 reais completando 44 entregas, ou ganhe 80 reais completando 26 entregas.” Na tentativa de alcançar esse índice, muitos motoqueiros se acidentam.

Eles se sentem obrigados a fazer em menos tempo possível o percurso do estacionamento em que se encontram ao restaurante que fornecerá o pedido, e deste ao domicílio da entrega. E, ao acelerar, dividem a atenção entre a rua e o celular que indica os endereços dos destinatários das encomendas.

Embora as motos representem menos de 30% dos veículos automotores do país, consomem mais de 70% das indenizações do DPVAT (Seguro de Danos Pessoais Causados por Veículos Automotores de Via Terrestre).

Flexibilizar o Código de Trânsito Brasileiro é favorecer a letalidade em nossas ruas e estradas, e aumentar os custos do governo com a saúde pública. E já é hora de as escolas introduzirem educação para o trânsito, de modo a evitar que mais motoristas transformem o seu veículo em uma arma.

PERGUNTE À HISTÓRIA

Em conferências na Europa, me perguntaram como se explica eleitores brasileiros preferirem eleger presidente da República um homem notoriamente defensor da tortura, da homofobia, das milícias, do machismo e da ditadura. Como entender que a maioria tenha escolhido um candidato que considera mais importante armar a população do que reduzir a desigualdade social.

Por que os eleitores não preferiram Haddad, Alckmin, Meirelles, Ciro Gomes ou Álvaro Dias?

Minha resposta foi sempre “perguntem à história”. A ela recorro. Como foi possível, após 15 anos de Estado Novo (1930-1945), um regime ditatorial de dura repressão, censura à imprensa e promulgação, em 1937, de uma Constituição fascista, conhecida como “polaca”, Vargas ter sido democraticamente eleito presidente da República nas eleições de 1950?

Como explicar que a nação de Kant, Beethoven, Bach, Goethe e Einstein tenha escolhido um austríaco racista e genocida, Adolf Hitler, para comandá-la? E a Itália de Dante Alighieri, Maquiavel, Da Vinci e Michelangelo, um fascista como Mussolini?

Eleitores nem sempre votam com a razão. Muitos votam com a emoção. Insatisfeitos com o atual estado de coisas, optam pelo extremo oposto na esperança de que, num passe de mágica, tudo venha a melhorar. Muitas vezes, o voto não é propriamente a favor do candidato que amealha a preferência do eleitorado. É contra tudo que ele critica e promete combater, como na eleição de Jânio Quadros a presidente, em 1960. Ao brandir como símbolo de sua campanha a vassoura, prometeu varrer a corrupção e os corruptos do Brasil... Idem Collor, em 1989, ao ostentar o título de “caçador de marajás”.

Há boa dose de irracionalidade naqueles que votam contra isso ou aquilo, movidos pelo ódio e a sede de vingança. Quanto mais demonizam os adversários, mais mitificam o candidato preferido, como se a política prescindisse de instituições democráticas e dependesse apenas da vontade pessoal do eleito. Esses eleitores não votam a favor de um projeto de nação e propostas consistentes, e sim contra aqueles que, na opinião do avatar escolhido, representam o mal.

No Brasil, a redução do tempo de campanha política, as restrições a comícios e propagandas eleitorais fazem com que as candidaturas não favoreçam a educação eleitoral e política. Assim, o clima de revanche tende a suplantar a reflexão cívica, o debate democrático, a avaliação dos candidatos e de suas propostas.

Perguntem à história quem ganha eleições, e ela certamente responderá que não são necessariamente os melhores, mas aqueles capazes de servir de imã às insatisfações e frustrações da população. Em países em crise, e cuja nação carece de consciência histórica, os eleitores não buscam solução, buscam salvação. Já não são um povo, formam uma massa.

“A massa é extraordinariamente influenciável, crédula, acrítica; o improvável não existe para ela. Pensa em imagens que evocam umas às outras associativamente, como no indivíduo em estado de livre devaneio, e que não tem sua coincidência com a realidade medida por instância razoável. Os sentimentos da massa são sempre muito simples e exaltados. Ela não conhece dúvida, nem incerteza. Vai prontamente a extremos; a suspeita exteriorizada se transforma de imediato em certeza indiscutível; um germe de antipatia se torna ódio selvagem.”

“Quem quiser influir sobre ela não necessita medir logicamente os argumentos; deve pintar com imagens mais fortes, exagerar e sempre repetir a mesma fala. Como a massa não tem dúvidas quanto ao que é verdadeiro ou falso, e tem consciência da sua enorme força, ela é, ao mesmo tempo, intolerante e crente na autoridade. Respeita a força, e se deixa influenciar apenas moderadamente pela bondade, para ela uma espécie de fraqueza. O que exige de seus heróis é fortaleza, até mesmo violência. Quer ser dominada e oprimida, quer temer os seus senhores. No fundo, inteiramente conservadora, tem profunda aversão a todos os progressos e inovações, e ilimitada reverência pela tradição” (Freud,Psicologia das massas e análise do eu – 1921).

PÓS-DEMOCRACIA

O banqueiro David Rockefeller declarou à Newsweek International, em fevereiro de 1999: “Nos últimos anos há uma tendência à democracia e à economia de mercado em muitas partes do mundo. Isso reduziu o papel dos governos, algo favorável aos homens de negócios. (...) Mas a outra face da moeda é que alguém tem que tomar o lugar dos governos, e o business me parece a instituição lógica para fazê-lo.”

A queda do Muro de Berlim, em 1989, marca a rejeição ao estatismo. Em 1979, Hayek, guru do neoliberalismo, já advogava “destronar a política” em nome da “espontaneidade” do mercado: “A política assumiu lugar importante demais, tornou-se muito onerosa e prejudicial, absorvendo muita energia mental e recursos materiais.”

É o que vem acontecendo mundo afora. Decepcionados com a política e os políticos, os eleitores são convencidos a escolher empresários, na esperança de que governem o país tão bem quanto o fizeram em seus empreendimentos. Na longa lista de empresários alçados a governantes destaco Berlusconi (1994) na Itália; Piñera (2010 e 2018) no Chile; Macri (2015) na Argentina; Trump (2016) nos EUA; e Macron (2017) na França.

Esses homens nutrem a ambição de gerir o Estado como uma empresa familiar, como prometeu Erdogan ao assumir o governo da Turquia. Nessa ótica, as instituições democráticas são desprestigiadas e encaradas como estorvo ao desempenho do presidente-CEO. Este, convencido de seu carisma, adota uma prática “decisionista”, termo criado pelo jurista nazista Carl Schmitt em seu Teologia política (1922) para expressar o modo de tomar decisões com autoridade e determinação, sem se preocupar com as consequências.

Ocorre, portanto, um processo de enfraquecimento do Estado e fortalecimento das corporações empresariais e da instituição fiadora da liberdade do capital sobre os direitos de cidadania, as Forças Armadas. O Estado, agora uma instituição híbrida, é despolitizado, reduzido à função de mero gestor, o que explica a supressão de Filosofia e Sociologia em universidades públicas. E as corporações assumem o papel de novos sujeitos políticos e seus tentáculos se estendem pelas malhas do Estado, como o comprova a Lava Jato, sobretudo nos casos da Petrobras e da Odebrecht, e as bancadas corporativas no Congresso Nacional.

Fenômeno semelhante ocorreu com a modernidade ao desbancar a reforma gregoriana dos séculos XI e XII, quando o Estado-Igreja cedeu lugar às instituições democráticas, ora ameaçadas pela “privatização” do espaço público e dos direitos civis, como atesta a proposta de capitalização na reforma da Previdência. O dever do Estado se desloca para a defesa dos privilégios da elite empresarial e bancária.

No Estado-Igreja, a ideologia predominante era a teologia. No Estado-empresa, a hegemonia cultural é assegurada pela laicidade das empresas-mecenas, como outrora a Petrobras ou a multiplicidade de institutos culturais do sistema S, dos bancos e de outras corporações, como Google, Amazon, Facebook etc.

O advento do Estado-empresa comprova a “revolução passiva” apontada por Gramsci, reformar para preservar ou, nas palavras de outro italiano, Lampedusa, “mudar para que tudo permaneça como está.”

A corporocracia é a face da pós-democracia. E entre as corporações se incluem as Forças Armadas, supostamente despolitizadas. Daí a incômodo do presidente-avatar e do poder Executivo-empresário com a não submissão dos parlamentares e do Judiciário. Na lógica de qualquer empresa, os que resistem às decisões do comando devem ser sumariamente excluídos. O Brasil das corporações acima de tudo e o deus criado à imagem e semelhança deles acima de 
todos.

Frente a essa ameaça, o desafio é intensificar a repolitização da política e a desprivatização do Estado. Isso só se dará pelo fortalecimento das instituições democráticas e, sobretudo, dos movimentos sociais, de modo a ampliar os mecanismos de protagonismo popular na esfera do poder.

SEXO & AFETO

Na pesquisa da Unesco sobre a sexualidade da juventude brasileira há aspectos positivos, como o repúdio à promiscuidade e busca de conhecimento sobre o tema. Os jovens brasileiros tendem a iniciar a vida sexual mais cedo (entre 11 e 14 anos) e consideram desimportante a virgindade. Mas nem sempre se protegem contra as DST (doenças sexualmente transmissíveis) e a Aids, e tendem a discriminar os homossexuais.

Pesquisa no Ceará indica aumento da gravidez precoce e diminuição dos casos de aborto. As meninas, com certeza induzidas por exemplos televisivos, preferem assumir a "produção independente", ainda que haja riscos de abandono da escola, ingresso na prostituição e mais criança na rua. Na pesquisa da Unesco, 14,7% das entrevistadas admitiram ter engravidado pela primeira vez entre 10 e 14 anos.

O Unicef constata que a educação escolar de uma menina equivale, na América Latina, em termos de efeitos sociais, à educação de cinco meninos. Quanto mais escolaridade da mãe, menor o índice de natalidade e maior o período de vida do filho. São as mães que assumem, sempre mais, a chefia da família, e transmitem valores aos filhos.

Os jovens se queixam de ter poucas fontes de conhecimento sobre a sexualidade. Só nas últimas décadas as escolas começaram a introduzir o tema em salas de aulas, assim mesmo com ênfase na higiene corporal, tendo em vista as DST.

O melhor seria a TV, com o seu poder de irradiação, entrar em detalhes a respeito deste assunto. Mas nem sempre interessa tratar sexo e afeto às claras. O tabu reforça o mistério, que excita a imaginação, alimenta o voyeurismo, atrai milhares de telespectadores à exibição de produtos que imprimem à sexualidade o sabor libidinoso da pornografia. E dá-lhe delegacias de mulheres e, paralelamente, a proliferação de assédios, estupros, feminicídios, e o preconceito aos homossexuais.

Certo dia vi, num hospital público, com uma menina de 13 anos, bastante machucada. Havia sido espancada pela mãe, inconformada por vê-la grávida. E ficou revoltada quando a menina declarou não saber quem é o pai. Havia participado da dança do "trenzinho" em baile funk: rapazes sentados, a braguilha aberta, as garotas sem calcinha pulando de colo em colo…

O que me chocou não foi tanto o ritual orgíaco. Mas a carência, o vazio, a busca desenfreada de afeto reduzida àquela espécie de "roleta russa". Não se trata de imoralidade, e sim de amoralidade, como entre os répteis. Pela vergonha de assumir valores, cultivar o espírito e fazer projetos. Nos escombros da modernidade, tudo é aqui-e-agora. E quando o desemprego, o baixo nível da educação, a violência, a desagregação familiar, nos fecham as cortinas do horizonte da felicidade, o jeito é apelar para o prazer imediato, epidérmico, já que a vida parece se reduzir a um jogo de sobrevivência e a morte pode estar nos espreitando na próxima esquina.

O CARDEAL ELETRICISTA

Eu me encontrava na Itália quando um prédio de Roma, na Via Santa Croce, ocupado por 450 pessoas, entre as quais uma centena de crianças, ficou dias às escuras devido à dívida de 300 mil euros com a empresa fornecedora de energia. Contudo, teve a luz religada graças à habilidade de eletricista do cardeal Konrad Krajewski. Ele simplesmente entrou no poço do edifício, onde fica a central energética, removeu os lacres e a pôs a funcionar.

Perrini, um dos moradores, contou: "O cardeal, que no passado já foi nosso hóspede, porque vem para cuidar de idosos, doentes e crianças que moram aqui, chegou na tarde de sábado, por volta das 17h, a bordo de uma van cheia de presentes para as crianças. Ele sabia que estávamos sem eletricidade há três dias. Assim que chegou, telefonou para a Acea (empresa de energia) e a prefeitura de Roma, pedindo que reativassem a eletricidade às 20h, caso contrário ele próprio faria isso. Por volta das 20h15, o cardeal retornou, nos explicou que entendia de energia elétrica porque, antes de ser padre, na Polônia, havia trabalhado no setor, e novamente chamou as autoridades municipais para manifestar a sua intenção. Depois entrou no poço onde fica a nossa instalação elétrica, fez uma série de procedimentos, como se fala no jargão técnico, e a luz voltou. Eu realmente não sei como ele fez isso, mas fez."

O ministro Salvini, que comanda a política italiana, ficou bravo com a ousadia do cardeal e declarou que ele “agora deve pagar as contas em atraso”.

Krajewski declarou: "Intervi pessoalmente para religar os medidores. Foi um gesto desesperado. Havia mais de 400 pessoas sem eletricidade, com famílias, crianças, sem sequer a possibilidade de manter ligadas as geladeiras."

O cardeal polonês, de 55 anos, é o principal assessor do papa Francisco no cuidado dos pobres. Cedeu o seu apartamento em Roma para abrigar uma família refugiada da Síria e passou a dormir no cômodo que lhe serve de escritório.

À noite ele circula pela capital italiana dirigindo um furgão repleto de alimentos, roupas e cobertores para distribuir às pessoas que dormem ao relento. Foi ele que tomou as providências para construir, por ordem do papa, instalações sanitárias, incluindo chuveiros e barbearia, para uso dos mendigos que fazem ponto em torno do Vaticano, na esperança de receberem algum dinheiro de peregrinos e turistas.

Na conferência que proferi na Universidade Lumsa, no Vaticano, sobre a conjuntura política do Brasil, ao lado de Jessé de Souza, me perguntaram o que achava da atitude do cardeal. Respondi não ver nada de estranho no fato de um cardeal, discípulo de um carpinteiro palestino, ser eletricista. Estranhos são os cardeais que se julgam príncipes, moram em palácios e gastam fortunas com seus trajes eclesiásticos.

A instituição cardinalícia é herança do Império Romano, e não encontra fundamento na comunidade apostólica formada por Jesus. Sempre me pergunto se foi a Igreja que converteu Constantino, no século IV, ou se foi o imperador que converteu a Igreja em uma instituição monárquica que, ao longo da história, muitas vezes trocou seu serviço evangélico pela pompa do poder.

O título de “cardinalis” era dado pelo imperador a generais e prefeitos pretorianos. Os cardeais são os senadores da Igreja e têm por função eleger o papa e assessorá-lo. Até o século XII o papa era eleito pelo clero e fiéis de Roma.

A cor predominante nos trajes cardinalícios é a vermelha, também usada outrora pelos senadores romanos. Na Igreja, significa a disposição de derramar o próprio sangue na defesa dos valores evangélicos. Mas nem todos os cardeais se mostram dispostos a trilhar o caminho de Jesus, como o fez o cardeal Dom Paulo Evaristo Arns, arcebispo de São Paulo que destemidamente assumiu a defesa das vítimas da ditadura, entre os anos de 1969 e 1985. Muitos preferem as pompas imperiais às sandálias dos pescadores. Por isso, se opõem abertamente às reformas do papa Francisco, empenhado em desclericalizar a Igreja e livrá-la da corrupção sexual e financeira.

FUNDAMENTALISMOS

O fundamentalismo sempre existiu nas tradições religiosas. Consiste em interpretar literalmente o texto sagrado, sem contextualizá-lo, e extrair deduções alegóricas e subjetivas como única verdade universalmente válida. Para o fundamentalista, a letra da lei vale mais que o Espírito de Deus. E a doutrina religiosa está acima do amor.

Escolas do sul dos EUA, e também algumas no Brasil, rejeitam os avanços científicos resultantes das pesquisas de Darwin e ensinam que o homem e a mulher foram criados diretamente por Deus. Tal visão fundamentalista nem sequer reconhece que Adão, em hebraico, significa “terra”, e Eva, “vida”. Como os autores do Primeiro Testamento não raciocinavam com categorias abstratas, à semelhança da gente simples do povo, o conceito ganhou plasticidade no “causo” de Adão e Eva.

Todo fundamentalista é um “altruísta”. Está tão convencido de que só ele enxerga a verdade que trata de forçar os demais a aceitar o seu ponto de vista... “para o bem deles”!

Há muitos fundamentalismos em voga, desde o religioso, que confessionaliza a política, ao líder político que se julga revestido de missão divina. Eles geram fanáticos e intolerantes.

Uma das melhores conquistas da modernidade é a separação entre a Igreja e o Estado. Nada de papas coroando reis, como na Idade Média, ou presidentes consagrando a nação ao Imaculado Coração de Maria, como fez Bolsonaro no Planato dia 21 de maio.

Certa vez perguntei a Fidel por que em Cuba o Estado e o Partido eram confessionais. Ele estranhou: “Como confessionais?” “Sim, expliquei, pois são oficialmente ateus. E negar a existência de Deus é tão confessional como afirmá-la.” Mais tarde, o Estado e o Partido Comunista cubanos tornaram-se laicos, assim como todos os estados e partidos modernos.

Reger a vida política a partir de preceitos religiosos é um desrespeito a quem professa outra religião ou nenhuma. Isso não significa que um cristão deva abrir mão de suas convicções e dos valores evangélicos. Mas ele não deve esperar que todos reconheçam a natureza religiosa de sua ética. E nem queira impor a sua fé como paradigma político.

Há que cuidar também para evitar o fundamentalismo laicista, de quem julga que religião é uma questão privada, sem dimensão social e política. Afinal, todos os cristãos são discípulos de um prisioneiro político. E a prática da fé implica em defesa intransigente da vida, especialmente dos vulneráveis e excluídos.

O fundamentalismo laicista, que sempre relegou a religião à esfera da superstição, é danoso por estimular o preconceito e não reconhecer que milhões de pessoas têm em sua fé o paradigma de suas convicções e práticas. Corre-se o risco de repetir o erro dos antigos partidos comunistas, que exigiam dos novos militantes profissão de fé no ateísmo.

Reforçam o fundamentalismo cristão todos os que são indiferentes ao diálogo inter-religioso e consideram a sua Igreja como a única verdadeira intérprete dos mandamentos e da vontade divinos. Por isso, é importante estabelecer os critérios éticos que propiciam a base sobre a qual as diferentes Igrejas e religiões devem dialogar e somar esforços. São eles: a ética da libertação em um mundo dominando por múltiplas opressões; a ética da justiça nessa realidade estruturalmente injusta; a ética da gratuidade nessa cultura mercantilista onde imperam o interesse e o negócio; a ética da compaixão num mundo marcado pela dor de tantas vítimas; a ética da acolhida, já que há tantas exclusões à nossa volta; a ética da solidariedade nessa sociedade fortemente competitiva; a ética da vida frente a tantos sinais de morte que ameaçam a natureza e os pobres.

O fundamentalismo é irmão gêmeo do moralismo. E o moralista é capaz de ver o mosquito no olho alheio, como observou Jesus, sem atinar para a trava no próprio olho. No caso de certos políticos, quem sabe a solução para a paz seja considerar a guerra um atentado ao pudor...

Edição 148, Maio 2019

DA MÍDIA DE CONSENSO À DE CONFLITO

Definha o interesse por notícias impressas ou televisivas. Pesquisas revelam que o público prefere notícias online.

Nos séculos XIX e XX, o modo de pensar da sociedade tendia a ser moldado pelos grandes meios de comunicação: mídia impressa, rádio e TV. Tudo indica que termina aquela era. Trump se elegeu atacando a grande mídia dos EUA. Só a Fox o apoiou. Os principais veículos da mídia britânica se opuseram ao Brexit. Ainda assim a maioria dos eleitores votou a favor dele. Bolsonaro fez campanha presidencial quase ausente da grande mídia. Criticou os principais veículos, e ainda assim se elegeu. O que acontece de novo?

O novo são as redes digitais, as novas tecnologias ao alcance da mão. Elas deslocam a notícia dos grandes veículos para computadores e smartphones. Têm o mérito de democratizar a informação, rompendo a barreira ideológica que evitava opiniões contrárias à orientação editorial do veículo.

Contudo, pulverizam a notícia. O que é manchete na TV não merece destaque na comunicação interpersonalizada na internet. O receptor corre o risco de perder ou não adquirir critérios de valoração das notícias. Pode ser que lhe seja mais importante ficar ciente de que seu colega tem nova namorada do que inteirado do golpe de estado no país vizinho ou da nova lei que regula o trânsito em seu bairro.

Essa informação individualizada, embora mais cômoda, prêt-à-porter, tende a evitar o contraditório. Cada interessado se isola no interior de sua tribo no Whatsapp, no Twitter, no Facebook, no Instagram, no YouTube, no Telegram, nos serviços de mensagens no Google e do Periscope. Não há interação dialógica. Não interessa o que dizem as tribos vizinhas, potenciais inimigas. O que transmitem não merece crédito. A única verdade é a que circula na tribo com a qual o internauta se identifica. Ainda que essa “verdade” seja fake news, mentira deslavada, farsa. Apenas um dialeto faz sentido para o internauta. Desprovido de visão conjuntural, ele se agarra ao que propagam seus parceiros como quem acolhe oráculos divinos.

Querer mudar-lhe o foco é como se alguém tentasse convencer os astecas contemporâneos de Cortés de que o sol haveria de despontar no horizonte ainda que eles não despertassem de madrugada para celebrar os ritos capazes de acendê-lo. Com certeza não ousariam correr o risco de ver o dia inundado de escuridão.

Eis a privatização da notícia. Essa seletividade individualizada faz com que o internauta se encerre com a sua tribo na fortaleza virtual dotada de agressivas armas de defesa e ataque. Se a versão emitida pela tribo inimiga chegar a ele, será imediatamente repelida, deletada ou respondida por uma bateria de impropérios e ofensas. É dever de sua tribo disseminar em larga escala a única verdade admissível, ainda que careça de fundamento, como a teoria do terraplanismo.

Os efeitos dessa atomização das comunicações virtuais são deletérios: perda da visão de conjunto; descrédito dos métodos científicos; indiferença ao conhecimento historicamente acumulado; e, sobretudo, total desprezo por princípios éticos. Qualquer um que se expresse em linguagem que não coincida com a da tribo merece ser atacado, injuriado, difamado e ridicularizado.

O que fazer frente a essa nova situação? Desconectar-se? Ora, isso seria bancar a tartaruga que recolhe a cabeça para dentro do casco e, assim, se julga invisível. A saída deve ser ética. O que implica tolerância e não revidar no mesmo tom. Como sugere Jesus, “não atirar pérolas aos porcos” (Mateus 7,6). Deixar que chafurdem na lama sem, no entanto, ofendê-los.

A vida é muito curta para que o tempo seja gasto em guerras virtuais. Quanto a mim, prefiro ignorar ataques e atuar propositivamente. Sobretudo, não trocar a sociabilidade real pela conflituosidade virtual. E muito menos livros por memes e zapps que nada acrescentam à minha cultura e à minha espiritualidade.

ESCALADA CONTRA A DEMOCRACIA

Não faço parte do time das pitonisas. Prefiro guardar o pessimismo para dias melhores. Contudo, prevejo tempos difíceis para o Brasil, a menos que a nossa indignação se transforme em mobilização. Pelo andar da carruagem, nossa frágil democracia se encontra ameaçada, e nossa liberdade de expressão, amordaçada.

Os sinais não são promissores. Nada indica que a economia brasileira sairá em breve do atoleiro em que se encontra. O número de desempregados passa de 13 milhões. As previsões do PIB 2019 encolhem a cada novo balanço. No início do atual governo acreditava-se que cresceria 2,2%. Agora, se prevê 1,7%. O Brasil retrocede.

Ainda que alguma reforma da Previdência seja aprovada (sem afetar os privilégios do andar de cima, é claro), nada indica vir do exterior investimentos substanciais. Nosso país está desacreditado. Quem se aventura a embarcar em um navio avariado? E há outras opções mundo afora para os investidores. Preferem multiplicar seu capital em economias robustas e confiáveis.

Como se sentir seguro sob um governo que a cada dia se desdiz? Em menos de cinco meses desacreditou as próprias promessas de campanha. O corporativismo e o viés ideológico falam mais alto que a competência. Ministro que se preze deve vestir a farda de recruta e engolir a seco as ordens do comandante. Não se admite o contraditório, o pluralismo, o debate democrático.

Dança-se ao ritmo leninista: um passo à frente, dois atrás. A embaixada brasileira transferida para Jerusalém permanece em Tel Aviv. A soberania do país se dobra à suspensão unilateral de vistos para estadunidenses. A cultura é sufocada pela falta de recursos. As ações da Petrobras e do Banco do Brasil despencam, porque o governo “não intervencionista” veta o aumento do diesel e a publicidade do banco.

A grileiros, desmatadores e invasores de terras indígenas é concedida licença para matar. Aos milicianos se faz vista grossa. Aos corruptos amigos da família, silêncio. O que ao pai, movido a arroubos, não convém manifestar, ao filho é transferida a tarefa, ainda que ofensas ao general eleito vice do capitão.

O desmonte é geral. Conselhos federais são extintos; não há médicos em muitas localidades antes atendidas por cubanos; disciplinas que ensinam a pensar, como filosofia e sociologia, são riscadas dos currículos; milícias são toleradas; índios são recebidos em Brasília, não por autoridades abertas ao diálogo, mas pela Força Nacional, como se um bando de feras evadidas da selva ameaçasse avançar sobre o Planalto.

O clima é de repúdio à democracia. Até quando o STF e o Congresso Nacional serão tolerados? E a liberdade de imprensa? Oitenta tiros do Exército assassinaram dois cidadãos inocentes e o fato é considerado irrelevante.

Pelos corredores do governo disseminam o medo e a insegurança. O ministro da Economia fala em obter R$ 1 trilhão com as reformas, e horas depois o presidente reduz para R$ 800 bilhões. O secretário da Receita Federal acenou com novos impostos e foi desautorizado no dia seguinte de sua entrevista. A lei do silêncio impera. Quem pretende se agarrar à sua boquinha no governo que trate de fechar a própria. O atual governo sabe destruir, mas não sabe construir.

As pesquisas comprovam que a aprovação ao Planalto despenca a cada mês? Ora, puro “fake”, clama o governo. Ele garante que a aprovação, como ótimo, é 98%! Exceto para 2% de gente envenenada pelo marxismo cultural. Gente que não respeita a família, ainda que o acusador tenha tido três. Gente que é a favor dos direitos dos homossexuais e contra a liberação da posse e do porte de armas.

O rei está nu. Mas não convém admitir isso em público. Cada cidadão que cubra seus olhos indignados com as cores vivas dessa policromia ministerial em 22 tons de cinza.

'MARXISMO CULTURAL', O QUE É

A cultura não é neutra. É roupa que veste os factos. Os factos são fatos, e não se pode negá-los, exceto se você ostenta a suprema toga. Pode-se, porém, ressignificá-los.

Ninguém nega que os militares derrubaram o governo democrático de João Goulart, em 1964. É um facto. Contudo, varia a hermenêutica. Para uns, foi golpe; para outros, simples movimento, contrarrevolução ou intervenção salvífica de Nossa Senhora Aparecida, invocada pela Marcha da Família com Deus pela Liberdade, para livrar o Brasil da iminente ameaça comunista.

O “marxismo cultural” dissemina a versão de que se tratou de um golpe cívico-militar, e ainda insulta a imagem de oficiais das Forças Armadas e agentes policiais aos acusá-los de torturadores e assassinos.

Outro facto inquestionável é a existência do planeta Terra, no qual vivemos. No entanto, há quem afirme ser ele redondo, o que teria sido constatado pelo grego Eratóstenes no século III a.C. Contudo, há controvérsias. Para os adeptos do terraplanismo ele é plano, e há uma muralha de gelo nas suas bordas, o que impede o esvaziamento dos oceanos. E acima de nossas cabeças paira o domo com o Sol e a Lua. Porém, a Nasa gasta bilhões de dólares para nutrir a farsa globalista de que a Terra é redonda.

No século XVI, o polaco Nicolau Copérnico concordou que a Terra é redonda, e ainda acrescentou que, integrada a um colar de planetas, ela gira em torno do Sol.

O leitor certamente se pergunta: como o “marxismo cultural” influi nessa questão? Aparentemente trata-se apenas de uma divergência astronômica. Só aparentemente.

O astrônomo polonês anteviu a tese do educador Paulo Freire de que mudança de lugar social tende a modificar o lugar epistêmico. Copérnico se deslocou virtualmente da Terra para o Sol e, dali, proclamou que o nosso planeta desenvolve uma dança sideral em volta do Sol. E, como se sabe, Paulo Freire era um cristão-marxista.

O “marxismo cultural” é capcioso, subtil, subliminar. Não reside apenas nas ideias de um professor ou em livros didáticos. Está na cor vermelha de uma camisa, no cabelo afro de uma aluna, nos trejeitos efeminados de um homossexual, até mesmo na equivocada versão de que o nazismo teria sido um movimento da extrema-direita. O nazismo era, sim, um movimento de esquerda chamado nacional-socialismo. Foi derrotado pelo exército soviético para que Hitler, caso sobrevivesse, não fizesse sombra a Stalin.

Outro efeito político do “marxismo cultural” foi o fascismo. Sabem por que Mussolini tinha o prenome de Benito? Porque seu pai, Alessandro, fervoroso socialista, quis homenagear o revolucionário mexicano Benito Juárez. Mussolini contatou Lenin na Suíça, em 1903. E em 1910 fundou, na Itália, o jornal “Luta de classes”. E dirigiu o jornal do Partido Socialista Italiano, em cuja redação trabalhou com o supremo mentor do “marxismo cultural”, Antonio Gramsci.

Uma das áreas preferidas do marxismo cultural é a das estatísticas. Todos sabem que não há fome no Brasil, pois, como observou a ministra, há suficientes mangas caídas nas ruas. Se não são mangas, são goiabas. No entanto, órgãos do governo, como o IBGE, ou globalistas, como a ONU, insistem em anunciar que 52 milhões de brasileiros vivem na miséria. Ou que há 13,1 milhões de desempregados, quando todos sabem que toda a população trabalha, seja catando o que comer em latas de lixo, seja na árdua tarefa de planear um assalto a banco.

Para integrar o novo governo do Brasil não é necessário competência. Importa estar isento de qualquer influência do “marxismo cultural”. E fazer de conta que não tem ideologia. Essa vigilância quanto a vírus nocivos à nossa cultura deve ser exercida com lupa de caçar piolho em cabeça de pulga.

Só assim teremos um país livre de influência comunista e purificado da subtil inoculação de ideias que contrariam o único poder capaz de nos garantir quando a verdade é mentira, e quando a mentira é verdade.

Edição 147, Abril 2019

O DESFILE DE PEN

O Banco Mundial divulgou, a 4 de abril, relatório no qual destaca que a pobreza triplicou no Brasil entre 2014 e 2017. Hoje, atinge 21% da população, ou seja, 43,5 milhões de pessoas, o que equivale a toda a população do estado de São Paulo. São brasileiros e brasileiras que dispõem de renda diária de R$ 20,9, ou de apenas R$ 627 por mês!

Entre 2003 e 2014, a parcela da população brasileira vivendo com menos de R$ 20,9 por dia (na paridade do poder de compra de 2011) caiu de 41,7% para 17,9%. Essa tendência se reverteu em 2015, quando a pobreza aumentou para 19,4% da população.

Dados do Banco Mundial mostram que a contração da economia brasileira, em 2015 e 2016, freou uma década de redução continuada da pobreza. “As crescentes taxas de pobreza do Brasil têm sido acompanhadas por um salto na taxa de desemprego, que cresceu quase seis pontos percentuais do primeiro trimestre de 2015, e chegou a 13,7% da população no primeiro trimestre de 2017”, aponta o organismo financeiro. Em 2018, com o crescimento econômico de apenas 1,1%, as taxas de pobreza se mantiveram altas.

O Banco Mundial utilizou dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD) 2018, do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), da Relação Anual de Informações Sociais (RAIS) 2017, e do Conselho Nacional de Justiça.

O banco ressalta ainda a importância dos programas sociais “como amortecedores do choque”. No entanto, o atual governo do Brasil caminha na direção contrária. Propõe uma reforma da Previdência que penaliza ainda mais os pobres, em especial os trabalhadores rurais e os que recebem Benefício de Prestação Continuada. E o Ministério da Economia quer que o reajuste anual do salário mínimo seja feito sem ganho real para os trabalhadores.

Hoje, o cálculo de reajuste do salário mínimo leva em conta o resultado do PIB dos dois anos anteriores, mais a inflação do ano anterior medida pelo INPC. Isso garante que o aumento do salário mínimo supere a inflação, reduza a desigualdade social e amplie o consumo das famílias.

Agora o governo propõe que o reajuste seja feito levando em conta apenas a inflação, o que representaria uma economia de R$ 7,6 bilhões para os cofres públicos.

Vale ressaltar que esta é uma conta de náufrago, aquele que, isolado na ilha na qual nada se vende, ocupa seus dias contando dinheiro. O que o governo pretende economizar equivale a recolher água em peneira. Pois reduzir o valor do salário mínimo é contribuir para o aumento de enfermidades, evasão escolar, moradores de rua e criminalidade, além de reduzir a venda de bens e serviços. Isso significa mais gastos do governo com saúde, assistência social, aparelho policial repressivo, prisões e sistema judiciário.

A América Latina e o Caribe tinham renda per capita de US$ 10,7 mil em 1980. Representava 45,3% da renda das economias avançadas naquele ano. Já em 2023 a renda per capita de nosso Continente deve chegar a US$ 15,9 mil, apenas 32,4% da renda das economias avançadas, o que significa aumento de apenas 1,5 vez, bem menor do que os 2,1 vezes dos países ricos.

As manifestações dos “coletes amarelos”, na França, têm o mérito de colocar na pauta do dia a pobreza e a desigualdade que se alastram também pelo chamado Primeiro Mundo. Enquanto a miséria se aprofunda, as Bolsas de Valores batem recordes. Como alertou Simone Weil, “ao fazer do dinheiro o móvel único ou quase de todos os atos, a medida única ou quase de todas as coisas, espalhou-se o veneno da desigualdade em toda parte”.

Em 1971, o economista holandês Jan Pen publicou um tratado sobre a distribuição de renda no Reino Unido, no qual descreveu um desfile de carnaval reunindo as pessoas mais pobres, na abertura, e as mais ricas, no final. Daí o termo “Desfile de Pen”. O Banco Mundial propôs o mesmo para o Brasil, colocando na Sapucaí “o desfile mais estranho da história”.

“Por muito tempo, o público só veria pessoas incrivelmente pequenas (apenas alguns centímetros de altura). Levaria mais de 45 minutos para os participantes alcançarem a mesma altura dos espectadores. Nos minutos finais, gigantes incríveis, mais altos do que montanhas, apareceriam”, descreve o relatório, produzido pelo economista-chefe do Banco Mundial para América Latina e Caribe.

O encerramento seria feito por um número insignificante de foliões, os milionários brasileiros com renda mensal acima de R$ 55 mil (1,2 milhão de pessoas em uma população de 208 milhões), porém com mais destaque do que a multidão que os precedeu (206,8 milhões de pessoas), pois seus corpos teriam 100 mil metros de altura!

LÓGICA DO PODER

Uma observação de Voltaire (1694-1778) ressalta por que tantas pessoas emitem ofensas nas redes digitais e, assim, revelam mais a respeito do próprio caráter do que do perfil de quem é desrespeitado. “Ninguém se envergonha do que faz em conjunto”, escreveu em “Deus e os homens”.

Isso explica a insanidade dos linchamentos virtuais e a violência gerada pelo preconceito, como bem demonstra o filme “Infiltrado na Klan”, de Spike Lee, vencedor do Oscar de melhor roteiro adaptado em 2019.

Muitos de nós jamais ofenderíamos pessoalmente um interlocutor com injúrias e palavrões. No entanto, há quem seja capaz de replicar nas redes digitais ofensas a inúmeras pessoas, sem sequer se dar ao trabalho de apurar se a informação procede.

Ao ser humano é dada a capacidade de discernimento, atributo que lhe permite o exercício da liberdade. Há, contudo, quem prefira abdicar desse direito de optar livremente. Prefere deixar que as decisões sejam tomadas pelo líder, guru ou mentor do grupo social com a qual a pessoa se identifica. Opta pela “servidão voluntária”, na expressão de La Boétie (1530-1563). E todos que não comungam o seu credo são considerados inimigos, hereges ou traidores, e devem ser varridos da face da Terra.

Essa submissão de si à vontade do outro ocorre em partidos políticos, empresas, associações e, sobretudo, em segmentos religiosos. No caso de Igrejas, a dominação ideológica é legitimada pela suposta vontade de Deus ecoada pela voz do pastor ou do padre. Assim, difunde-se uma perigosa teodiceia pela qual tudo se explica pela lógica divina, ainda que a humana não consiga digeri-la.

Se há uma catástrofe como a de Brumadinho, se estou desempregado, se perco um filho atingido por bala “perdida”, não devo protestar ou lamentar. Deus tinha algo em mente para permitir que tais desgraças acontecessem. Assim a teodiceia se transforma em panaceia.

É o recurso da apatia como anestesia da consciência. O exemplo paradigmático é o extermínio das vítimas do nazismo. A ordem genocida não saía da cabeça de um tresloucado, e sim de quem tinha plena (e tranquila) consciência do que fazia, como demonstrou Hannah Arendt.

A ordem inicial se desdobrava em sequência. Um dirigia o caminhão até o alojamento dos presos; outro os encaminhava ao veículo; outro ordenava se despirem e distribuía toalhas e sabão; outro apertava o botão vermelho; e, por fim, um grupo retirava os corpos da câmara de gás sem a menor ideia por que foram mortos. Processo confirmado pela descoberta, em 1980, dos relatos escritos pelo grego Marcel Nadjari e guardados no interior de uma garrafa térmica enterrada no solo de Auschwitz, onde ele, prisioneiro, fazia parte do Sonderkommando, a equipe que retirava os cadáveres das câmaras de gás (cf: https://www.bbc.com/portuguese/internacional-42193700).

Isso se repete hoje em instituições que controlam o mercado financeiro mundial, como o FMI e o Banco Mundial. Ao propor ajustes fiscais, austeridade, teto de gastos a países periféricos, seus oráculos não são movidos por um sentimento de maldade para com povos que verão agravada sua situação de pobreza. Eles seguem a lógica do sistema: esses países tomaram dinheiro emprestado de credores nacionais e internacionais e, agora, precisam honrar suas dívidas. Ainda que isso signifique aumento da mortalidade infantil e do desemprego.

Esta a lógica do poder, que nem sempre leva em conta os direitos dos subalternos. Isso vale para os casos de feminicídio, nos quais o homem agride a mulher; dos neonazistas que odeiam negros e judeus; dos internautas que vociferaram porque a Justiça permitiu que Lula, prisioneiro, comparecesse ao sepultamento do neto.

Como frisou Bachelard (1884-1962), “quanta amargura há no coração de um ser que a doçura corrói.”

CARTA A LULA, PRESO POLÍTICO

São Paulo, 07 de abril de 2019

Querido Lula,

Coincidiu eu estar junto a você nas datas de suas duas prisões. A primeira, em abril de 1980. Desde que se iniciara a greve metalúrgica no ABC paulista, e os líderes sindicais presos um a um, passei a permanecer em sua casa em apoio à família. Fui acordá-lo quando, às primeiras horas da manhã, os policiais da ditadura bateram à sua porta. Estive em sua casa até o dia de seu retorno do cárcere, um mês depois.

Em 2018, há um ano, ao escutar no rádio que a sua prisão fora decretada pelo juiz Sergio Moro, fui ao seu encontro na sede do Sindicato dos Metalúrgicos do ABC, em São Bernardo do Campo (SP), onde você dormia. De novo despertei-o e rezamos juntos.

Desde que você se encontra encarcerado em Curitiba, tive a oportunidade de visitá-lo duas vezes. A última, pouco antes do Natal. Levei a eucaristia e partilhamos o corpo e o sangue do Senhor.

Nas duas ocasiões, constatei o seu espírito forte, aguerrido. Como narrei a amigos, você se mantém a par do noticiário, lê muito, faz exercícios físicos, ouve música, assiste a programas de TV, de preferência, como me disse, na TV Aparecida: “gosto da missa das seis da tarde e dos programas de música sertaneja”.

Falei-lhe de minhas experiências de prisão. Aliás, descrita nos livros que lhe dei, como “Cartas da prisão” (Companhia das Letras) e “Diário de Fernando – nos cárceres da ditadura militar brasileira” (Rocco). O mais importante é evitar a contradição entre o corpo retido na cela e a mente, em sua incontrolável liberdade, aqui fora. Não se deixar possuir pela ânsia de liberdade a qualquer custo. Considerar o cárcere a sua normalidade, ainda que empenhe todo o seu esforço para recuperar a liberdade. E lembrar o que me disse: “Não troco minha dignidade pela liberdade”.

Mil condenações jamais haverão de sombrear o seu protagonismo na história do Brasil e a força de sua liderança popular. Quanto mais tentam esmagá-lo, mais você cresce. Em todo o mundo há mobilizações pró “Lula livre”. Ao proferir conferências no exterior e dedicá-las em sua homenagem, seu nome tem sido efusivamente aplaudido.

A prisão é um eremitério. Lugar de reflexão e aprofundamento. Sei que você tem aproveitado para avaliar acertos e equívocos dos 13 anos de governo do PT. Os acertos são sobejamente conhecidos. Basta comparar os dados sociais e económicos dos governos Temer-Bolsonaro com os períodos Lula-Dilma. Não havia esse clima de animosidade, e até ódio, que hoje divide muitas famílias e separa amigos. Vivia-se com mais civilidade e sem ameaça à democracia. Não se precisava penhorar a democracia na conta dos militares, e eles estavam onde sempre deveriam estar – nos quartéis.

Contudo, o PT não cuidou de promover a alfabetização política de nosso povo; descuidou do trabalho de base; deixou de punir com rigor desvios éticos; e jamais dominou o uso tático das redes digitais. Esse flanco vulnerável permitiu ao adversário centrar baterias no ataque ao partido, o que resultou no golpe de Temer contra Dilma e na eleição de Bolsonaro ao surfar na onda antipetista.

Agora é hora de repensar a estratégia política. Fazer autocrítica, analisar por que não houve consistente reação popular à deposição de Dilma. Nunca fui militante partidário, mas julgo que é hora de o PT se reinventar. Reatar seus vínculos com os mais pobres e excluídos, fortalecer os movimentos sociais e, sobretudo, assumir desempenho propositivo, para que o povo brasileiro vislumbre uma saída democrática ao governo Bolsonaro.

Há que resgatar a esperança e a utopia. Não se manter refém de eleições periódicas, e sinalizar um projeto de Brasil capaz de tirar o nosso país do buraco em que se encontra, e mobilizar amplos setores nacionais frente ao desafio de reduzir drasticamente a desigualdade social.

Nada haverá de calá-lo, Lula. Mesmo quando a morte o surpreender. Faça sempre de sua voz a voz dos que não têm voz nem vez, impedidos de falar e atuar. Você representa milhões de brasileiros e brasileiras que não venderam a alma às mentiras virtuais e às infundadas acusações judiciais.

Como dizia nosso amigo Henfil, ainda que esmaguem uma flor, não haverão de deter a primavera.

Meu abraço fraterno,

Frei Betto

OLIGOPÓLIO DIGITAL

Somos todos dependentes de Google, Apple, Amazon, Microsoft, Facebook e, agora, Netflix. E não há livre escolha, nossos smartphones só podem operar com os sistemas Android e IOS.

Todo o Ocidente é, hoje, colonizado pelas corporações digitais. Elas sabem o que pensamos e de que gostamos. Não por acaso o valor de mercado da Apple e da Amazon já chega a 1 trilhão de dólares cada uma! Quase metade do PIB brasileiro de 2017.

Tal concentração de poder não ocorre em nenhuma outra esfera da atividade humana. E pouco nos importamos com isso, já que os recursos que nos oferecem são úteis e confortáveis.

Segundo o Fórum Económico Mundial, entre os 20 gigantes da economia digital não aparece nenhuma empresa europeia. As cinco maiores são “made in USA”: Apple, Amazon, Alphabet (Google), Microsoft e Facebook. Os sexto e sétimo lugares são ocupados por duas gigantes chinesas, a Alibaba e a Tencent.

Todas essas empresas investem pesadamente em inovação tecnológica e, em especial, em inteligência artificial. Putin declarou, em 2017, que o país que obtiver liderança em inteligência artificial “será o dono do mundo”.

É ali, no Vale do Silício, na Califórnia, que se urde a estratégia capitalista de manipular emoções e eleições, como fez a empresa britânica Cambridge Analytica com dados do Facebook, e os bots russos (contas falsas que atuam automaticamente) nas eleições de Trump e Bolsonaro, e no referendo sobre o Brexit.

Todas essas poderosas empresas nos oferecem cada vez mais entretenimento e menos cultura, mais informação e menos conhecimento. Cultura é o que enriquece a nossa consciência e o nosso espírito. O entretenimento “fala” aos cinco sentidos e, em geral, carece de valores. Nele os “valores” são a exacerbação do individualismo, a competitividade, o consumismo e o hedonismo regados com boa dose de violência.

Quanto mais a hegemonia ideológica é controlada por esse oligopólio digital, e as finanças pelas grandes corporações bancárias e instituições como o FMI, menos democracia há no mundo. Tudo conspira para que aceitemos a proposta do sistema, trocar liberdade por segurança. Na ótica do sistema, basta olhar em volta para constatar que tudo respira violência: o noticiário da TV, novelas e filmes; memes na internet e mensagens no Facebook; a criminalidade nas ruas e a permanente insegurança do cidadão. Então, sugere a mensagem subliminar, entregue-se a quem chuta o pau da barraca da tolerância e das convenções de direitos humanos e você viverá num mundo seguro, onde nada nem ninguém haverá de ameaçá-lo.

Como a base do sistema é o consumismo compulsivo, os oligopólios põem a funcionar seus algoritmos para saber como você se identifica com milhões de pessoas na busca de determinado produto. Se você está gripado e comunica isso a amigos em sua rede digital, e outros respondem que também têm gripe, e as palavras ‘gripe’, ‘resfriado’, ‘tosse’ se multiplicam por milhões na Web, os oligopólios captam essa informação e a repassam a laboratórios e farmácias que, por sua vez, aumentam a propaganda e os preços de medicamentos na região em que foi detectada a epidemia de gripe. O mercado, sim, é capaz de lhe assegurar bem-estar e felicidade.

Quando você abre o Google para fazer uma pesquisa, inúmeros anúncios aparecem, pois são eles que sustentam o poderoso oligopólio. Na busca de, por exemplo, “Como viajar para a Amazónia”, aparecem inúmeras informações e, no fim da página, a sequência numeral indicando que há outras contendo mais dicas. Qual o critério para uma informação figurar na primeira página? Pagar por isso! Em geral a resposta à sua busca virá, na primeira página, na forma de pacotes turísticos e empresas de transportes.

Os gigantes digitais moldam o mundo à imagem e semelhança do que há de mais sagrado para o sistema: o mercado e seus astronómicos lucros apropriados pela selecta seita dos bruxos que transformam informação virtual em dinheiro real.

Edição 146, Março 2019

HARMONIA ENTRE CIÊNCIA E FÉ

O físico brasileiro Marcelo Gleiser, professor da Universidade de Dartmouth (EUA), arrebatou o Prêmio Templeton 2019, considerado o “Nobel” da espiritualidade. A fundação premiadora ressaltou ter ele dado “uma contribuição excepcional para afirmar a dimensão espiritual da vida”.

Em julho de 2010, Gleiser e eu nos trancamos quatro dias no Hotel Santa Teresa, no Rio, para dialogar sobre fé e ciência, mediados por Waldemar Falcão. Do encontro resultou o livro “Conversa sobre a fé a ciência” (Agir/Nova Fronteira), hoje fora de catálogo.

De formação judaica e órfão de mãe ainda criança, Gleiser teve a morte como primeiro desafio para encarar o além. Ainda jovem se interessou pelo taoísmo e o hinduismo, praticou ioga e, graças à leitura de Einstein, para quem nada era mais importante do que “experimentar o mistério”, descobriu que temas outrora reservados às religiões, como origens do Universo e da vida, agora eram abordados pela ciência. Recebeu ainda influência do físico e comunista brasileiro Mario Schenberg, que se declarava “materialista místico”.

Antes de nosso encontro, lemos os livros um do outro. Verificamos haver entre nós mais convergências que divergências. Admirei-me com sua abertura ao transcendente, em especial nas obras “A harmonia do mundo” e “Criação imperfeita”, em um período em que físicos como Stephen Hawking e Richard Dawkins professavam o ateísmo militante.

Gleiser admitiu ter se surpreendido com os conhecimentos de astrofísica e física quântica de um frade após ler meus livros “A obra do artista – uma visão holística do Universo” (José Olympio) e “Sinfonia Universal – a cosmovisão de Teilhard de Chardin” (Vozes).

Entender o mundo é desvendar a mente de Deus. À minha afirmação de que a ciência é o reino da dúvida, Gleiser completou que “ela se alimenta da dúvida para buscar a verdade. Não existem verdades acabadas. O processo da busca é o processo da transcendência.”

A ciência trata do “como” e a teologia do “porquê”. “Não existe incompatibilidade entre espiritualidade e ciência”, disse Gleiser. “Muito pelo contrário, o cientista dedica a vida ao estudo da natureza porque é apaixonado por ela. Essa relação é espiritual.”

Admitiu ver “a busca pelo conhecimento científico como uma grande busca espiritual, que responde a anseios que estão conosco desde tempos ancestrais. Nossa visão do mundo caminha de mãos dadas com os avanços da ciência. Nossa espiritualidade também.”

Agnóstico, o físico teórico concorda que a ideia de Deus não pode ser objeto da ciência, pois, como o amor, não é verificável. Pertence à esfera do mistério, que supera a nossa racionalidade. Talvez, opinou, a ciência jamais venha a obter a Teoria Unificada, capaz de articular todas as forças da natureza, como aspirava Hawking. E Gleiser duvida que, um dia, se possa explicar cientificamente as origens do Big Bang e da vida, e o funcionamento da mente, ainda que o cérebro esteja quase todo mapeado, bem como o mecanismo de suas ondas elétricas.

Gleiser e eu entendemos que não se deve confundir religião e espiritualidade. A primeira é uma instituição, a segunda, uma experiência, assim como na distinção entre família e amor. E ambos consideramos que o esteio da espiritualidade é a meditação. Em um lago próximo à sua casa, em Hanover, praticava o fly fishing, pesca com isca artificial, em que os peixes são devolvidos vivos à água; o objetivo é esvaziar a mente do pescador. “A meta final de qualquer prática de meditação é você se desidentificar de sua mente”, ressaltou.

Premiar Marcelo Gleiser representa significativo libelo contra a intolerância religiosa e a obsessão de pretender divinizar a ciência e desprestigiar a fé. 

A VIDA TEM SENTIDO?

Hélio Pellegrino dizia que eu daria um bom psicanalista. Eu retrucava que a diferença entre nós é que ele marcava hora e eu não; ele cobrava e eu não...

Nós frades, padres e pastores, com frequência somos procurados por pessoas angustiadas em busca de ouvidos atentos e palavras de consolo. Supõem que, pela função que nos reveste, somos todos éticos e capacitados a guardar confidências devido ao rigor do segredo de confissão.

O perigo é quando o religioso se julga capaz de substituir o terapeuta ou se convence de que é, de facto, um guru merecedor de discípulos que o incensam de admiração. Por vezes essa dependência descamba para abusos sexuais. A prostituta entrega o corpo, mas não a alma. E quem entrega a alma torna o corpo vulnerável.

Viktor Frankl (1905-1997), psiquiatra austríaco fundador da logoterapia, tinha por hábito indagar após ouvir o desabafo de seus pacientes: “Por que você não se mata?” Sim, se a vida é tão sofrida e os problemas parecem insolúveis, por que insistir em continuar vivendo?

Havia sempre um “gancho”, uma razão que impedia a pessoa de dar fim à existência: “Não me mato por causa de minha filha”; “Porque tenho fé”; “Porque quero acabar de pagar as prestações do imóvel de minha família” etc.

O que diferia Frankl de Freud é que este considerava a frustração sexual causa de muitas angústias, enquanto o primeiro apontava como causa a vontade intencional, ou seja, a falta de sentido para a existência.

Quantos jovens demonstram, hoje em dia, angústia diante da vida? Fazem terapia, vivem sob medicação, movem-se de uma atividade a outra sem que nenhuma delas os satisfaça. Alguns se refugiam no álcool ou nas drogas, como se a vida fosse um peso insuportável que exige muleta como ponto de apoio. Outros, como os assassinos de Suzano (SP), transformam o ressentimento em violência letal, sacrificando vidas alheias e as próprias.

Não lembro de ter visto tanto desalento juvenil na década de 1960, aos meus 20 anos. Talvez porque a geração dos “anos dourados” fosse viciada em... utopia! Não queríamos mudar apenas o corte de cabelo e os ditames da moda. Queríamos mudar o Brasil e o mundo.

Então, o adjetivo novo definia o otimismo reinante – a bossa nova, o cinema novo, os Novos Baianos etc. Consumir ideias e cultura era mais importante do que adquirir um carro novo.

O neoliberalismo, em doses cavalares de hedonismo e consumismo, consegue agora narcotizar boa parcela da juventude entre 15 e 30 anos. Parcela que ancora seus sonhos em torno de quatro supostos valores: riqueza, beleza, fama e poder. Nem todos querem tudo. As preferências recaem no sonho de ficar rico e preservar uma aparência física sedutora de quem descobriu o elixir da eterna juventude.

Há, contudo, enorme contingente de jovens que, apesar das dificuldades que enfrentam (falta de renda, emprego, estudos qualificados) sentem-se felizes por abraçarem um projeto de vida. Encontraram um sentido pelo qual a vida vale a pena.

Há aqueles cujo sentido é meramente de caráter pessoal, como se tornar um bom profissional ou constituir uma família. Muitos, porém, têm um sentido altruísta, fazem de suas vidas um serviço para que outros tenham vida. É dessa seara que brotaram pessoas como Betinho, Chico Mendes, Marielle Franco, Gandhi, Mandela e Luther King.

Entre os jovens que se engajam em projetos sociais há aqueles que, dotados de ideologia elitista, se empenham em aprimorar os mecanismos institucionais que visam reprimir e combater os efeitos nocivos da desigualdade social (menores infratores, criminalidade etc), sem jamais se perguntarem pelas causas de tais males.

E há aqueles que, sensibilizados pelos efeitos, se mobilizam para atacar as causas. Estes são tidos como inimigos pelo neoliberalismo. Daí a Escola Sem Partido, a militarização da educação, os ataques a todos aqueles que ousam denunciar que o rei está nu.

O facto é que só há perseverança onde há esperança. E mais temem a morte aqueles que menos souberam dar valor à vida.

BRASIL, DECLÍNIO SOCIAL E ECONÓMICO

O IBGE divulgou, na última semana de fevereiro, que o desemprego voltou a crescer no Brasil. Agora são 12,7 milhões de pessoas. Quem se encontra nessa situação, ou já passou por isso, sabe como é terrível estar desempregado. A autoestima se reduz, as incertezas assustam, a insegurança se aprofunda. Como pagar o aluguel, o gás, a luz, o telefone, e as prestações dos eletrodomésticos?

O trabalho é o nosso fator de identidade social. Quando somos apresentados a uma pessoa não basta saber-lhe o nome. Paira a pergunta: e o que faz? A resposta qualifica socialmente o interlocutor.

Segundo levantamento do Instituto de Economia da Fundação Getúlio Vargas, no final de 2018 a desigualdade se agravou devido à dificuldade de os trabalhadores menos qualificados aumentarem seus rendimentos. O governo modificou os critérios de aumento anual do salário mínimo, o que reduziu o poder aquisitivo dessa parcela da população.

Desde 2015 o salário mínimo não tem ganho real, porque o PIB, que mede a riqueza do país, encolheu em 2015 e 2016. E piorou com a reforma trabalhista da gestão Temer, porque o emprego informal, quase sempre desqualificado, passou a pagar salários indignos, muito aquém das necessidades básicas dos empregados.

O Brasil é, hoje, o 9º país mais desigual do mundo, e o 1º da América Latina. Os outros oito países mais desiguais ficam todos na África. Hoje, a renda média da metade mais pobre da população é de R$ 787,69 por mês, inferior ao valor do salário mínimo (R$ 998). Sessenta por cento dos brasileiros sobrevivem com menos de um salário mínimo por mês.

Em 2016, os pobres tinham renda média de R$ 217,63. No ano seguinte, R$ 198,03. Perda de 9%. Já os 10% mais ricos tiveram 2,09% de aumento na renda, que chegou a R$ 9.519,10 por mês. Desses 10%, 12 milhões ganharam até R$ 17,8 mil de renda tributável. E a parcela de 1% mais rico, que abrange 1,2 milhão de brasileiros, teve rendimento médio superior a R$ 55 mil por mês (Oxfam).

Portanto, ainda que o PIB volte a crescer, isso não significa que haverá aumento da renda dos trabalhadores. A desigualdade é agravada pela apropriação abusiva que uma pequena parcela da sociedade faz da riqueza nacional.

O Brasil é um país de jovens. Nessa faixa etária, segundo a ONU (Pnud), o desemprego em nosso país é de 30,5%, o maior percentual da América do Sul. E 1 em cada 4 jovens integra o time dos “nem nem”, ou seja, aqueles que nem trabalham nem estudam.

Ora, não é preciso ter bola de cristal para saber como esses jovens conseguem bancar seus gastos. Ou desfrutam de renda alheia (família, herança etc) ou recorrem a atividades ilícitas (narcotráfico, contrabando, roubos etc).

Os economistas do FMI e do Banco Mundial, que controlam as finanças internacionais, defendem que, para o Brasil crescer, é preciso impor austeridade, promover ajuste fiscal, respeitar o teto de gastos e fazer a reforma da Previdência. Como diz Stiglitz, Prêmio Nobel de Economia (2001), o capitalismo só cresce se contar com produtores e consumidores. Mas hoje o sistema tem como foco principal a financeirização da economia, denunciada por Piketty.

Com um PIB de R$ 6,3 trilhões, o Brasil é um país rico. Daria para toda a nossa população viver muito bem. Somos 208 milhões de habitantes. Dividido o valor do PIB pelo número de habitantes, cada um teria uma renda anual de R$ 30 mil. Ou R$ 10 mil por mês para cada família de 4 pessoas, o que asseguraria a todos uma vida digna.

Portanto, como alerta o economista Ladislau Dowbor, o problema brasileiro não consiste na falta de recursos. Reside na falta de justiça e de distribuição da renda.

SERMÃO DO CARNAVAL

Festejai! Dançai! Diverti ó nobres pecadores! Trazei às ruas vossas fantasias, as que se abrigam nos baús e as que fervilham em vossas mentes! Eis que chega o Carnaval! E, agora, toda carne se fará verbo.

Não fujais à alegria de Momo. A vida é breve, os dias árduos, os sofrimentos frequentes e as dores, muitas. Sobrepairam tempos sombrios de mentiras oficiais, de esperanças minguadas, de direitos castrados. Não percais o ânimo de escalar o apogeu. Entoai alvíssaras do alto dos morros e do cume dos prédios!

Não vos omitais da euforia popular. Nuvens carregadas insistem em cegar o sol e coturnos pesados esmagam o asfalto. Tempestades brotam até do chão, em forma de lama. Portanto, não deixeis de se incorporar aos cordões que volteiam alegres às vossas portas. Lançai serpentinas e confetes por vossas cabeças e inebriai de êxtases os vossos corações.

Integrai-vos todos - crianças, idosos, abastados e desdentados -, aos blocos que colorem de cantos e encantos todos os recantos da cidade. Não permitais que nos roubem o júbilo, a exaltação do espírito, a euforia que se apodera de razão e propaga emoção. Não deis espaço ao desalento, desacreditai a tristeza, impedi que as más notícias soneguem o júbilo do pierrô e da colombina.

Evocai os deuses, os orixás e os espíritos benfazejos para que nos festejos reine a mais irrevogável democracia, na qual as antinomias se fundem, as contradições se volatilizam, o futuro se avizinha quando o ajudante de pedreiro exibe sua majestade encimada pela coroa dourada e a faxineira descida da favela se revela rainha no cortejo triunfal.

Ide todos aos desfiles! Juntai-vos à multidão daqueles que tanto incomodam aos arautos ressentidos do moralismo exacerbado: homossexuais, travestis, indígenas, quilombolas, moradores de rua, comunistas e adeptos do papa Francisco. Proclamai o direito à diferença sem que prevaleça a divergência. Fazei vibrar os dedos das mãos sobre vossas cabeças, qual revoar de abelhas besuntadas de mel, antes que o indicador e o polegar se paralisem em simulacro bélico.

Não oculteis sob a vergonha o que Deus não se envergonhou de ter criado. Reverenciai a sacralidade da nudez, a do corpo e a da alma, para que a transparência predomine sobre a obscuridade. Tende em conta que a indecência não reside no que se expõe à vossa frente, e sim em vossos olhos desviados da inocência. Ousai todos manifestar a soberania da arte, livre de todas as amarras da censura.

Desfilai pelo sambódromo e exibi, na sumptuosidade dos carros alegóricos, a pujança da Amazônia ameaçada pela voracidade do lucro; as alegorias dos casais que se unem por amor, alforriados da ditadura hétero; as utopias libertárias do século XX, que induziram tantos jovens a se viciarem em utopia, livres das sombras necrófilas de supostas filosofias eivadas de ódio; a bateria rítmica que celebra com seus tambores o direito à vida dos rejeitados pelo crivo assassino da desigualdade social.

Vinde todos entoar o samba-enredo da magia carnavalesca nessa quarta-feira de cinzas iniciada desde o primeiro dia do ano. Na festa de Momo são exaltados os humilhados, celebrados os descartados, reverenciados os ofendidos. Limpai vossas gargantas, apurai vossas vozes, cantai a plenos pulmões para que o Carnaval se dissemine por corações e mentes e se prolongue por dias e anos vindouros.

Abri alas para que a felicidade alcance o quanto antes a praça da apoteose. E que todos os olhos se voltem para os céus e contemplem, eufóricos, na passarela do tempo, o rodopiar das cabrochas fantasiadas de planetas em torno do mestre-sala sol em seu brilho esfuziante, a lua de porta-bandeira, e todo o Universo em incessante baile no espaço sideral.

Edição 145, Fevereiro 2019

GOVERNO BOLSONARO E SÍNODO PAN-AMAZÔNICO

O noticiário desta semana informa que os cardeais brasileiros estão sendo espionados pela Abin (Agência Brasileira de Inteligência), que relata ao governo recentes encontros deles com o papa Francisco, no Vaticano, para prepararem o Sínodo (do grego, ‘caminhar juntos’) sobre a Amazônia, a se reunir em outubro, em Roma.

“Estamos preocupados e queremos neutralizar isso aí”, declarou o general Augusto Heleno. Isso faz recordar a famosa pergunta de Stálin na Segunda Grande Guerra: “Quantas divisões possui o Vaticano?”

Segundo o Documento Preparatório do Sínodo, predomina na Amazônia a “cultura do descarte”, somada à mentalidade extrativista, que convertem o planeta em lixão. “A Amazônia, região com rica biodiversidade, é multiétnica, pluricultural e plurirreligiosa, um espelho de toda a humanidade que, em defesa da vida, exige mudanças estruturais e pessoais de todos os seres humanos, dos Estados e da Igreja”. (...) “É de vital importância escutar os povos indígenas e todas as comunidades que vivem na Amazônia, como os primeiros interlocutores deste Sínodo”.

A Igreja denuncia situações de injustiça na região, como o neocolonialismo das indústrias extrativistas, projetos de infraestrutura que destroem a biodiversidade, e imposição de modelos culturais e econômicos estranhos à vida dos povos.

Nos nove países que compõem a Pan-Amazônia (Brasil, Bolívia, Colômbia, Equador, Guiana, Peru, Suriname, Venezuela, incluindo Guiana Francesa como território ultramar), registra-se presença de três milhões de indígenas, no total de 390 povos. Vivem nesse território também entre 110 a 130 “Povos Indígenas em Situação de Isolamento Voluntário”.

A bacia amazônica representa uma das maiores reservas de biodiversidade (30 a 50% da flora e fauna do mundo); de água doce (20% da água doce não congelada de todo o planeta); e possui mais de 1/3 das florestas primárias.

Segundo os bispos, “o crescimento desmedido das atividades agropecuárias, extrativistas e madeireiras da Amazônia, não só danificou a riqueza ecológica da região, de suas florestas e de suas águas, mas também empobreceu sua riqueza social e cultural, forçando um desenvolvimento urbano não integral nem inclusivo da bacia amazônica.”

Lamentavelmente, “ainda hoje existem restos do projeto colonizador que criou manifestações de inferiorização e demonização das culturas indígenas. Tais resquícios debilitam as estruturas sociais indígenas e permitem o desprezo de seus saberes intelectuais e de seus meios de expressão.”

O papa Francisco afirmou em Puerto Maldonado, Peru, em janeiro de 2018: «Provavelmente, nunca os povos originários amazônicos estiveram tão ameaçados nos seus territórios com o estão agora».

O pontífice denunciou esse modelo de desenvolvimento asfixiante, com sua obsessão pelo consumo e seus ídolos de dinheiro e poder. Impõem-se novos colonialismos ideológicos disfarçados pelo mito do progresso que destroem as identidades culturais próprias. Francisco apela à defesa das culturas e à apropriação de sua herança, que é portadora de sabedoria ancestral. Essa herança propõe uma relação harmoniosa entre a natureza e o Criador, e expressa com clareza que «a defesa da terra não tem outra finalidade senão a defesa da vida».

Hoje, o grito da Amazônia ao Criador é semelhante ao grito do Povo de Deus no Egito (cf. Ex3,7). É um grito desde a escravidão e o abandono, que clama por liberdade e escuta de Deus. Grito que pede a presença de Deus, especialmente quando os povos amazônicos, ao defenderem suas terras, têm seu protesto criminalizado, tanto por parte das autoridades como da opinião pública. 

PÓS-MODERNIDADE E COMUNICAÇÃO

Pós-modernidade é sinônimo de explosão comunicativa. Estamos cercados da parafernália eletrônica destrinchada pelas análises de Adorno, Hockeimer, MacLuhan, Walter Benjamin e outros. Ela reduz o mundo a uma aldeia que se intercomunica em tempo real. Porém, enquadrada em uma paisagem cultural hegemônica, que Boaventura de Sousa Santos qualifica de monocultura. A espetacularização da notícia procura naturalizar a imagem midiática, como se o mundo fosse o que vemos na TV ou na Internet.

Tudo isso molda-nos a identidade. Não há como configurá-la de outro modo. Somos vulneráveis à multimídia. E nunca a comunicação foi tão ágil, rápida e fácil, embora cara. Sem sair da cama, podemos saber o que ocorre na Ásia, falar ao telefone com um nepalês, entrar em um site de bate-papo e nos enturmar com um bando de jovens do Brooklin. À audição (rádio) somam-se a visão (foto, cine, TV) e a fala (telefone e Internet). Faltam apenas o cheiro e o contato epidérmico, o toque.

Diante de todo esse cipoal comunicativo levanta-se uma questão: e a intercomunicação pessoal, tão valorizada por Habermas? Quantos pais “acessam” os filhos? Como é a conversa olho no olho? Comunicação que se faz comunhão, interação, e que transmite, não apenas emoção de imagens e sons, mas algo mais profundo – afeto.

Reféns da tecnologia, sem aparatos eletrônicos temos dificuldade de dialogar com o próximo. Nossos avós punham a cadeira na varanda, e até mesmo na calçada, e ficavam horas jogando conversa fora. Hoje, a ansiedade dificulta o diálogo interpessoal. Preferimos a comunicação virtual, mental, mas não a corporal. O corpo se transforma em território do silêncio das palavras, embora se cubra de adornos que “falam”, como a roupa, a esbelteza malhada, os gestos...

Nessa “fala” o corpo simula (faz de conta ser o que não é) e dissimula (esconde o que de fato é). Por isso, a comunicação interpessoal é arriscada, pois tende a desmascarar, trair, revelar contradições. O corpo sou eu e eu não sou tão bom quanto a imagem que projeto de mim mesmo. Como cavaleiro medieval, visto uma armadura que encobre a minha verdadeira identidade, a armadura pós-moderna da parafernália eletrônica. Ela me salva. Permite-me ser conhecido por uma imagem mediatizada pela multimídia ou, no contato pessoal, pelos adornos que me imprimem cheiro de grife.

Nu, sou um fracasso, uma decepção frente à minha baixa autoestima. Ainda mais se acrescento à nudez o que me desnuda por dentro, a fala. Não é por outra razão que os ícones projetados pela mídia – modelos, artistas, atletas, ricos - não falam. São fotografados e expostos excessivamente, mas nada se sabe do que pensam, em que acreditam, que valores abraçam ou que visão de mundo têm. São seres belos, porém silenciados. Se abrirem a boca, o balão desinfla, o encanto desaparece, a carruagem vira abóbora.

Não é fácil o verbo se fazer carne. Graças à multimídia, o verbo se faz caro e raro. É virtualizado para ser esvaziado de significado. Assim, não nos sentimos desafiados. Na imagem, a catástrofe é épica; na minha esquina, trágica. E ao contemplar o épico me iludo de que vivo em uma ilha imune à dor e ao sofrimento. E suporto a reclusão do silêncio temendo que a minha palavra se faça carne, ou seja, revele quem realmente sou - este ser frágil, carente, que ainda não descobriu a diferença entre prazer, alegria e felicidade.

Por isso, costumam ser complicadas as relações familiares e de grupos que compartilham o mesmo espaço virtual, como toda relação confinada em um mesmo espaço. Não se desfila dentro de casa. No cotidiano, a imagem é atropelada pelas emoções. É o que Buñuel desvela no filme “O discreto charme da burguesia”. No espaço doméstico emerge o nosso lado avesso – aquela pessoa que realmente somos, sem maquiagens de bens, funções e adornos.

Para conviver fora de casa, vestimos a armadura. Vamos para a guerra, para o reino da competição e do sucesso a qualquer preço. Não podemos, portanto, mostrar a cara. Protegem-nos a parafernália eletrônica e o diálogo virtual. Somos o que não aparentamos e aparentamos o que não somos. Eis a pós-verdade, o paradoxo que a pós-modernidade nos impõe.

CADÊ A CULTURA POLÍTICA?

Cadê o novo? Cadê a moralidade? Dá vontade de fazer eco a Stanislaw Ponte Preta: “Restaure-se a moralidade ou locupletemo-nos todos!”

De nada adianta o desalento. É entregar o ouro ao bandido. Desopilar o fígado nas redes digitais é acender fósforo para conferir se há gasolina no tanque...

A questão é mais profunda: não conseguimos criar no Brasil uma cultura política. A tradição patrimonialista, o mandonismo, o nepotismo, tudo isso esgarça o tecido de nossas instituições democráticas. A maioria se elege ou ocupa cargos públicos de olho nos proveitos pessoais e corporativos. Poucos têm princípios éticos e objetivos claros de serviço ao bem comum. Bastou aparecer a primeira boquinha de uma viagem à China e lá se foi, alvoroçado, um bando de deputados felizes com a mordomia.

A estrutura do Estado é vista como uma grande vaca, na qual cada um busca a teta mais gorda para a sua boca. O discurso da urgente contenção de gastos é como o sermão do padre que, ao celebrar missa para os alcoólicos anônimos, enchia seu cálice de vinho.

“Façam o que digo e não o que faço”. São sempre os outros que devem apertar o cinto em nome da salvação nacional. Nunca os políticos, os magistrados e os militares. “Nada é o bastante para quem considera pouco o suficiente”, já alertava Epicuro, no século IV a.C. Na apertada balsa que pretende conduzir a nação a um futuro melhor, atirem-se ao mar os sem mandato, os sem toga e os sem farda. Alguém deve pagar a conta. E ela sobra, invariavelmente, para os mais pobres.

Por que, no Brasil, soa como ofensa falar em imposto progressivo? Nessa descultura da boca pra fora, sobejam elogios à Noruega, Dinamarca e Suécia, onde vigora uma cultura política de fortes raízes. Mas aqui ninguém está disposto a ceder um grão de mordomia. O trio (mandato, toga e farda) do privilégio (termo que deriva de ‘lei privada’, que vale para uns e não para todos) não abre mão do auxílio-moradia, do plano de saúde especial, de carros e viagens aéreas pagas pelo contribuinte, férias prolongadas, seguranças etc. Essa gente nunca leu Platão e Aristóteles, Montesquieu e Rousseau, Habermas e Bobbio, e aprecia Gandhi e Mandela apenas como retratos na parede.

E cadê a oposição? Dizem que a esquerda (se é que ainda existe) só se une na cadeia... De fato, o caciquismo impede as forças da oposição de terem uma estratégia e um programa comuns. As críticas à situação são pontuais. E quase sempre emocionais, de pretender desconstruir o adversário, não por argumentos convincentes, e sim pela ridicularização e a galhofa.

Qual a proposta alternativa da oposição à reforma da Previdência? E à retomada do crescimento, combate ao desemprego e melhoria da saúde e da educação? Cadê o trabalho de base, os vínculos orgânicos com as classes populares, a alfabetização política?

Apesar de tudo, não nos resta outra via fora da política. Pode-se odiá-la, repudiá-la ou ficar indiferente a ela. Mas é ela que determina a nossa qualidade de vida, como trabalho, moradia, alimentação e saúde. Quem não gosta de política é governado por quem gosta. E tudo que os maus políticos desejam é que fiquemos alheios à política. Assim, damos carta de alforria aos corruptos, nepotistas e similares.

Mas como criar uma cultura política se a Escola sem Partido pretende proibir o tema nas salas de aula? Nossa incultura política é tão rasteira que, em vez de o Estado cumprir a sua função constitucional de dar segurança à nação, ele libera a posse de armas. E há quem esteja de acordo com o “cada um que se defenda!” E seja o que Deus não quer...

TENHA UM EXCELENTE DIA

Ao viajar pelo Oriente, mantive contatos com monges do Tibete, da Mongólia, do Japão e da China. Eram homens serenos, comedidos, recolhidos e em paz nos seus mantos cor de açafrão. Outro dia, eu observava o movimento do aeroporto de São Paulo: a sala de espera cheia de executivos com telefones celulares, preocupados, ansiosos, geralmente comendo mais do que deviam. Com certeza, já haviam tomado café da manhã em casa, mas como a companhia aérea oferecia um outro café, todos comiam vorazmente. Aquilo me fez refletir: 'Qual dos dois modelos produz felicidade?'

Encontrei Daniela, 10 anos, no elevador, às nove da manhã, e perguntei: 'Não foi à aula?' Ela respondeu: 'Não, tenho aula à tarde'. Comemorei: 'Que bom, então de manhã você pode brincar, dormir até mais tarde'. 'Não', retrucou ela, 'tenho tanta coisa de manhã...' 'Que tanta coisa?', perguntei. 'Aulas de inglês, de balé, de pintura, piscina', e começou a elencar seu programa de garota robotizada. Fiquei pensando: 'Que pena, a Daniela não disse: 'Tenho aula de meditação! Estamos construindo super-homens e super mulheres, totalmente equipados, mas emocionalmente infantilizados.

Uma progressista cidade do interior de São Paulo tinha, em 1960, seis livrarias e uma academia de ginástica; hoje, tem sessenta academias de ginástica e três livrarias! Não tenho nada contra malhar o corpo, mas me preocupo com a desproporção em relação à malhação do espírito. Acho ótimo, vamos todos morrer esbeltos: 'Como estava o defunto?'. 'Olha, uma maravilha, não tinha uma celulite!' Mas como fica a questão da subjetividade? Da espiritualidade? Da ociosidade amorosa?

Hoje, a palavra é virtualidade. Tudo é virtual. Trancado em seu quarto, em Brasília, um homem pode ter uma amiga íntima em Tóquio, sem nenhuma preocupação de conhecer o seu vizinho de prédio ou de quadra! Tudo é virtual. Somos místicos virtuais, religiosos virtuais, cidadãos virtuais. E somos também eticamente virtuais...

A palavra hoje é 'entretenimento'; domingo, então, é o dia nacional da imbecilização coletiva. Imbecil o apresentador, imbecil quem vai lá e se apresenta no palco, imbecil quem perde a tarde diante da tela. Como a publicidade não consegue vender felicidade, passa a ilusão de que felicidade é o resultado da soma de prazeres: 'Se tomar este refrigerante, vestir este tênis, usar esta camisa, comprar este carro,você chega lá!' O problema é que, em geral, não se chega! Quem cede desenvolve de tal maneira o desejo, que acaba precisando de um analista. Ou de remédios. Quem resiste, aumenta a neurose.

O grande desafio é começar a ver o quanto é bom ser livre de todo esse condicionamento globalizante, neoliberal, consumista. Assim, pode-se viver melhor. Aliás, para uma boa saúde mental três requisitos são indispensáveis: amizades, autoestima, ausência de estresse.

Há uma lógica religiosa no consumismo pós-moderno. Na Idade Média, as cidades adquiriam status construindo uma catedral; hoje, no Brasil, constrói-se um shopping-center. É curioso: a maioria dos shoppings-centers tem linhas arquitetônicas de catedrais estilizadas; neles não se pode ir de qualquer maneira, é preciso vestir roupa de missa de domingo. E ali dentro sente-se uma sensação paradisíaca: não há mendigos, crianças de rua, sujeira pelas calçadas...

Entra-se naqueles claustros ao som do gregoriano pós-moderno, aquela musiquinha de esperar dentista. Observam-se os vários nichos, todas aquelas capelas com os veneráveis objetos de consumo, acolitados por belas sacerdotisas. Quem pode comprar à vista, sente-se no reino dos céus. Deve-se passar cheque pré-datado, pagar a crédito, entrar no cheque especial, sente-se no purgatório. Mas se não pode comprar, certamente vai se sentir no inferno... Felizmente, terminam todos na eucaristia pós-moderna, irmanados na mesma mesa, com o mesmo suco e o mesmo hambúrguer do Mc Donald...

Costumo advertir os balconistas que me cercam à porta das lojas: 'Estou apenas fazendo um passeio socrático.' Diante de seus olhares espantados, explico: 'Sócrates, filósofo grego, também gostava de descansar a cabeça percorrendo o centro comercial de Atenas. Quando vendedores como vocês o assediavam, ele respondia:...

"Estou apenas observando quanta coisa existe de que não preciso para ser Feliz"!!!

Tenha Um Dia Excelente

Edição 144, Janeiro 2019

Com cáustico Humor político

A TERRA É PLANA!

Homem de fé que sou, e ainda mais mineiro, sempre desconfiei dessa ciência influenciada pelo marxismo. Se a Terra fosse redonda e girasse em torno do próprio eixo, no mínimo deveríamos sentir tonturas. Esse preconceito contra o geocentrismo de Ptolomeu decorre dos malévolos conceitos paulofreirianos assumidos por Copérnico e Galileu. Eles adotaram o princípio marxista de que o lugar social determina o lugar epistémico, e ao retirar os pés da Terra para fixá-los no Sol, inventaram a teoria do heliocentrismo. Ora, basta erguer os olhos ao céu e constatar que o Sol gira em torno da Terra, caso contrário não haveria dia e noite.

Não há nada de anacronismo quando acuso Copérnico e Galileu de influência marxista. Nosso chanceler, Ernesto Araújo, já demonstrou que as teorias de Marx, tão perniciosas, precedem o próprio Marx, pois, segundo ele, o “marxismo cultural globalista” teve como marco inicial a Revolução Francesa.

Outro absurdo pretensamente científico, que espero seja corrigido pela Escola sem Partidos, é a teoria de que nós, seres humanos, descendemos dos símios. Somos descendentes diretos de Adão e Eva! Está na Bíblia! Decorremos da Criação divina, e não desses macacos que se dependuram com o rabo nos galhos, enquanto descascam bananas com as mãos.

Sim, sei que Adão e Eva tiveram dois filhos homens, Caim e Abel. O facto de estarmos aqui explica-se porque ao menos um deles transou com a mãe. Contudo, na época o incesto ainda não era pecado. No máximo, um mal necessário, como hoje a liberação de armas de fogo para a defesa da vida.

O marxismo é como essas partículas de poeira que flutuam no ar e são vistas apenas quando forte incidência de raio solar atravessa à nossa frente. Toda a nossa cultura, em especial a história e a arte, está contaminada pelo marxismo. Afirmar que Moisés libertou os escravos do Egito é pura ideologia. Não havia escravos às margens do Nilo, havia servos. E o grande feito de Moisés não foi libertar escravos, e sim abrir caminho para os hebreus, em terra seca, entre as águas do Mar Vermelho (que, de facto, era ocre, mas a influência comunista...).

Não existe Estado laico. Há que se definir, ou é de Deus ou é do diabo. É pura ideologia colocar a ciência acima da fé e afirmar que o Estado é laico numa nação cristã.

Já que o super-ministério da Economia já sabe como reduzir o desemprego, e os problemas de saúde podem encontrar cura na igreja da esquina, faz bem o governo em liberar, como primeiro grande gesto da nova gestão, a posse de armas! O Estado precisa conter gastos e a segurança pública é onerosa. Melhor que cada cidadão se defenda como pode!

E se uma criança acessar a arma do pai?, indagam mães preocupadas. Ora, esclarece o ministro, arma é menos perigosa que liquidificador. No entanto, não se cogita descartar esse eletrodoméstico. O que faltou ao ministro explicar é que, como o nome do aparelho alerta, liquidificador, além de triturar tenras mãozinhas, é uma arma indelével, fica a dor...

Ora, chegou a hora de dar um basta nessas ideologias nefastas que confundem a cabeça do povo. O politicamente correto é científica e teologicamente incorreto.

RELAÇÃO FÉ E POLÍTICA

Fé e política têm, em última instância, o mesmo objetivo de criar uma sociedade na qual todos vivam com iguais direitos e oportunidades, e sem antagonismos de classes. Se as duas visam a aprimorar a nossa convivência social, também podem servir para dominar, como a fé dos fariseus ou a política dos opressores.

A fé é um acto pelo qual o ser humano se posiciona diante do mistério de Deus. A política é a ferramenta de construção da sociedade de justiça e liberdade. Orienta-se por algo que não é próprio da fé, como as estratégias de realização do bem comum.

A vivência da fé é necessariamente política. No céu não haverá fé. Vive-se a fé em uma comunidade politicamente situada. Quando a comunidade religiosa afirma que só faz religião, não sabe o que diz ou mente para encobrir com a fé os seus reais interesses políticos. Toda comunidade religiosa aparentemente apolítica só favorece a política dominante, ainda que injusta.

Jesus, em razão da sua fé, morreu assassinado como prisioneiro político. Como Jesus, o cristão deve viver sua fé no compromisso libertador com os mais pobres. Seja qual for o modo de o cristão viver seu compromisso evangélico, ele sempre terá consequências políticas. Pode sacralizar a desigualdade social ou favorecer a sua erradicação.

O Concílio Vaticano II reconheceu a autonomia da política. E ela pode ser bem feita por quem não tem fé. E nem sempre os que têm fé fazem política bem feita. Um ateu pode fazer uma política justa, favorável à maioria da população, assim como há muitos cristãos corruptos que buscam na política proveitos pessoais.

É uma antinomia falar em política “cristã”. A política jamais deve ser confessionalizada. Em princípio, ela representa os anseios de crentes e descrentes. Deve haver uma política justa, democrática, voltada para a maioria. E uma política assim inevitavelmente incorporará os valores da fé, como a libertação dos pobres e a construção da sociedade sem desigualdades.

A fé não tem receitas para resolver administrativamente problemas como dívida pública, reforma da Previdência ou melhoria da saúde. Isso é tarefa da política. A fé mostra o sentido da política: dar vida a todos. O jeito de fazê-lo depende da política. Se esta for injusta, muitos estarão privados das condições mínimas de dignidade e alcance da felicidade.

Fé e política são instâncias diferentes que se completam na prática da vida. A fé exige participação em uma comunidade religiosa para ser cultivada. A política exige participação nas demandas populares e o conhecimento dos problemas sociais para ser consequente.

A política deve se pautar por valores que, em geral, coincidem com os valores das propostas religiosas, como direitos dos excluídos, vida para todos, partilha de bens, poder como serviço, e outros. Sem esses valores, a política vira politicagem, e a corrupção produz a inversão que prioriza o pessoal ou o corporativo em detrimento do social e do coletivo.

Isso não significa que a política deva ser feita em nome da fé. Deve ser feita em nome do amor, da verdade e da justiça. O bem comum é o que importa, e não os interesses de determinado segmento religioso. Jesus não veio ao mundo fundar uma religião. Veio para que “todos tenham vida e vida em abundância” (João 10, 10).

O DIABO NA CORTE

Conta um velho manuscrito carolíngio que, certa feita, decidiu o diabo instalar-se em plena corte de um rei que se julgava verdadeiro messias. Dos súditos se exigia não apenas obediência, mas sobremaneira devoção.

Como sabem todos, etimologicamente diabo é antónimo de símbolo. Se este une e agrega, aquele divide e confunde. E era exatamente este o intuito do diabo, semear na corte a mais intensa confusão.

O rei se tomou de perplexidade e ódio ao ver seus propósitos reduzidos à galhofa. O que ele dizia pela manhã era desmentido à tarde por seus ministros. Se prometia aumentar impostos, logo seus acólitos se apressavam a esclarecer que ele se equivocara. Se um ministro demonstrava a intenção de vender aos barões parte do patrimônio do reino, logo Sua Majestade tratava de contradizê-lo e reafirmar que certos bens estratégicos do reino não poderiam ser alienados.

O diabo, em sua esperteza maléfica, tratou de semear uma das mais eficazes pragas: a confusão semântica. As palavras viram seus significados se esvaziar ou ser trocados, a ponto de uma princesa ousar confessar em público ser uma pessoa “terrivelmente religiosa”. Consultasse ela um dos vernaculistas do reino, saberia que o advérbio deriva de “terrível, que causa ou infunde terror”, conforme aclarou o sábio Michaelis. E o monge carolíngio copista do importante manuscrito fez esta glosa que tanto agradou o diabo: “Uma religiosidade terrível nada tem a ver com o bom Deus”.

A mesma nobre autoridade ousou decretar que, no reino, meninas deveriam trajar rosa e, meninos, azul. O diabo esfregou as mãos de satisfação. Os daltônicos, por temerem incorrer em erro, preferiram sair nus à rua, o que suscitou uma onda de escândalos. Os que haviam nascido menina e, no entanto, se sabiam menino, vestiram-se de rosa, e os meninos que se sabiam meninas trajaram o azul, o que os tornou alvo de severos castigos.

Por injunção do diabo, toda e qualquer pluralidade foi banida do reino, impondo-se a mais estrita dualidade. Quem não era amigo, era inimigo. E para que tal dualidade não sofresse a menor ameaça de ser contaminada pela dialética, baniu-se do reino o Ministério da Cultura. Pensar, antes considerado um estorvo, passou à categoria de crime. Foi extinto ainda, entre outros, o Ministério do Trabalho, já que o diabo incutiu na nobreza ser muito mais lucrativo o trabalho escravo que o assalariado, tão oneroso para as burras de marqueses e condes.

Não satisfeito em provocar tamanha confusão no reino, o diabo decidiu agir na educação dos súbditos. Para o rei, todos os monarcas que o precederam haviam envenenado a educação com a famosa peste do ismo, contaminando de tal modo a visão dos educandos que enxergavam vermelho onde havia verde. Assim, Sua Majestade buscou, entre os 90 mil professores de ensino superior do reino, um capaz de extirpar tão ameaçadora doença. Não encontrou um sequer. Viu-se obrigado a importar do reino vizinho um professor tido como suficientemente capaz para velar por uma educação desprovida de qualquer senso crítico e protagonismo social. A higienização das mentes muito agradou os propósitos do diabo.

Na alfabetização, baniram-se todos os métodos que associavam palavras e ideias, e adotou-se o método fônico, que recorta letras para formar palavras. O jogo de Palavras Cruzadas foi terminantemente proibido por favorecer a semântica em detrimento da sonoridade vocabular.

O ministro encarregado das relações com os reinos vizinhos falava javanês. Ninguém nada entendia, o que não tinha a menor importância, já que o seu interesse era se sentir cercado de admiradores e, de preferência, bajuladores. Sua diplomacia consistia no mais estrito verticalismo, que prioriza a relação com os Céus, em detrimento de todo e qualquer horizontalismo de boa vizinhança com os demais reinos.

Muitos séculos depois de encontrado este manuscrito, descobriu-se outro em um reino do Sul, saído da lavra de um descendente de escravos. Intitulava-se “A igreja do diabo”. O autor se chamava Joaquim Maria Machado de Assis. Mas isso é outra história.

FELIZ ANO NOVO

Feliz Ano Novo a quem alarga o horizonte da utopia e espelha a diversidade de gênero nas cores do arco-íris. E aos que proclamam a soberania do amor como lei irrevogável.

Feliz Ano Novo a quem teme sombras de coturnos e aos que se atrevem a ressoar a voz de quem a exclusão silencia, para que também tenha vez.

Feliz Ano Novo aos que livram a democracia de suas algemas liberais e insistem que ela também floresça lá onde a economia impõe a afronta de poucos terem muito e muitos sobreviverem com quase nada.

Feliz Ano Novo aos artistas que fazem da palavra eco de esperança e desnudam, com suas obras, os figurinos da hipocrisia que encobrem a realidade.

Feliz Ano Novo a quem se recusa a beber a cicuta do ódio à espera de que outros morram. E aos que reverenciam a alteridade como ponte que separa a diferença da divergência.

Feliz Ano Novo aos alpinistas da solidariedade, que escalam confiantes a montanha da indiferença para desfraldar, no topo, a bandeira da ontológica sacralidade de cada ser humano.

Feliz Ano Novo a quem é capaz de enxergar os fenômenos sociais além dos efeitos, e reconhece que entender o capitalismo não requer estudos nem decifrar os índices do mercado. Basta sair à rua e ter cuidado de não pisar nos pedintes estendidos pelas calçadas.

Feliz Ano Novo a quem não divorcia liberdade de justiça e não se refugia em sua ilha de conforto cercada de egoísmo mórbido. E a quem se irmana a todos que lutam para que o pão nosso não seja apenas um verso da oração ensinada por Jesus.

Feliz Ano Novo aos que se despem de toda arrogância para desinvisibilizar aqueles que, na loteria biológica, não mereceram o prêmio de uma vida digna. E a quem desconsidera privilégio ter mais alimentos que apetite, e faz disso uma dívida social.

Feliz Ano Novo a quem cultiva seu jardim de valores éticos e ousa abdicar de todo poder capaz de fomentar opressão, discriminação e sofrimento.

Feliz Ano Novo a quem guarda a memória do passado sombrio e não permite que se apaguem as luzes do alvorecer democrático. E a todos que reforçam os laços das demandas populares e tornam ensurdecedor o grito parado no ar.

Feliz Ano Novo a quem não renuncia ao riso nem se deixa abater pelas diatribes do terror. E a todos que impedem que a noite devore o dia, o sol seja engolido pelos buracos negros, e a liberdade trocada pela segurança.

Feliz Ano Novo aos que ousam apontar que o rei está nu e se empenham em arrancar-lhe a coroa. E a quem anuncia aos quatro ventos que não há súditos, somos todos majestades.

Feliz Ano Novo a quem guarda saudades do velho e se paralisa diante da pedra no caminho. E a todos que descobriram que o contrário do medo não é a coragem, é a fé.

Feliz Ano Novo a todos que se sabem habitantes de um minúsculo planeta situado em uma pequena galáxia do Pluriverso e, por isso, aprenderam a recolher as asas da afetação. E a quem garimpa a própria subjetividade em busca de preciosidades inefáveis.

Feliz Ano Novo a todos que desnaturalizam a desigualdade social e se sentem tocados pelo dor alheia. E a quem se desassossega perante os arautos da fatalidade e se soma aos iconoclastas do mercado.

Feliz Ano Novo a todos que, conscientes de que o humano vem com defeito de fabricação e prazo de validade, se despem da empáfia e contabilizam seus erros como lições no rumo da transparência

Feliz Ano Novo a quem sabe que a fonte da felicidade é fazer os outros felizes. E que um dia abracem esta verdade todos que atropelam os semelhantes com a sua soberba, seus preconceitos e sua voracidade de prazeres. Empanturrados de si mesmos, ignoram que o melhor roteiro turístico é o que nos faz viajar para mergulhar nas aventuras do espírito. No avesso de si, então se encontra o dom do outro. O resto é silêncio.

O CASO JOBIM E O RESGATE DAS VÍTIMAS DA DITADURA

No último 3 de dezembro, a Comissão Especial de Mortos e Desaparecidos Políticos promoveu o I Encontro Nacional de Familiares. Duas importantes notícias foram compartilhadas na ocasião, representando um alento para quem espera, há décadas, por informações e reconhecimento sobre o destino de seus parentes.

A primeira concerne à possibilidade de alterar os atestados de óbitos dos que faleceram em decorrência da ação dos órgãos da ditadura, para que deles conste a real causa da morte. Esta retificação em documento representa reparação moral a que todos os familiares têm direito, bastando que se dirijam à Comissão Especial de Mortos e Desaparecidos Políticos (cemdp.certidao@mdh.gov.br).

O primeiro caso a merecer essa alteração documental foi o do embaixador José Jobim, sequestrado e morto em 1979, após afirmar que denunciaria, em livro, a corrupção que envolveu o processo de construção da usina de Itaipu.

O segundo foi o reconhecimento dos restos mortais de Aluizio Palhano Pedreira Ferreira, presidente do Sindicato dos Bancários do Rio de Janeiro, desaparecido em maio de 1971. Sua ossada era uma das mais de mil encontradas em uma vala comum, no Cemitério de Perus, em São Paulo. Após anos de dedicação de qualificada equipe forense, foi possível a identificação genética.

Este é o segundo caso de identificação desde a descoberta da cova clandestina. Centenas de outras famílias esperam pelo momento em que poderão, enfim, enterrar de forma digna seus familiares. e dar alguma conclusão à longa história de dor e sofrimento.

O trabalho não pode ser conduzido de forma mais rápida devido às limitações impostas pelo orçamento extremamente reduzido da Comissão – em torno de R$ 400 mil em 2018, e deverá se aproximar de R$ 250 mil, em 2019. Não fossem as verbas extras garantidas por emendas parlamentares propostas por deputados dedicados à causa, a Comissão possivelmente estaria paralisada.

Nos próximos anos será fundamental a atuação de parlamentares e a pressão da sociedade civil, para que não se interrompam os trabalhos de identificação e reparação, num esforço coletivo para resgatar e reconstruir uma parte da nossa história que muitos insistem em apagar. É preciso garantir o direito à memória, à verdade e à justiça das vítimas da cruel ditadura militar que governou o Brasil ao longo de 21 anos, de 1964 a 1985.

Edição 143 Dezembro 2018

BRASIL, NAÇÃO MUITO DESIGUAL

Duas pesquisas acabam de nos informar que a situação social do Brasil sofreu considerável piora nos dois últimos anos do governo Temer. A pesquisa extraoficial, feita pela Oxfam Brasil e intitulada “País estagnado, um retrato das desigualdades brasileiras”, foi divulgada em 26/11. A oficial, tornada pública em 5/12, é a Síntese de Indicadores Sociais do IBGE.

A redução da desigualdade estagnou entre 2016 e 2017. Hoje, a renda média da metade mais pobre da população é de R$ 787,69 por mês, inferior ao valor do salário mínimo (R$ 954). Sessenta por cento dos brasileiros sobrevivem com menos de um salário mínimo por mês.

O Brasil recuou cinco anos na questão social. Voltou ao patamar de 2012. A população em situação de extrema pobreza, com renda inferior a R$ 8 por dia, passou de 13,5 milhões de pessoas, em 2016, para 15,2 milhões de pessoas, em 2017. Em um ano foram condenados à miséria 1,7 milhão de brasileiros.

Ampliou-se o número dos que sobrevivem abaixo da linha da pobreza, com renda diária inferior a R$ 22. Em 2016, eram 52,8 milhões de pessoas. Em 2017, 54,8 milhões sobreviviam com menos de US$ 5,50 por dia (R$ 406 por mês), patamar que, segundo o Banco Mundial, designa o nível de pobreza. Três vezes a população do Chile.

Em 2016, os pobres tinham renda média de R$ 217,63. No ano seguinte, R$ 198,03. Perda de 9%. Já os 10% mais ricos tiveram 2,09% de aumento na renda, que chegou a R$ 9.519,10 por mês. Desses 10%, 12 milhões ganharam até R$ 17,8 mil de renda tributável. E a parcela de 1% mais rico, que abrange 1,2 milhão de brasileiros, teve rendimento médio superior a R$ 55 mil por mês.

Para que todo esse contingente populacional deixe a pobreza é preciso investir R$ 10,2 bilhões por mês ou R$ 187 mensais por pessoa! O governo prevê destinar ao Bolsa Família, em 2019, R$ 30 bilhões. Erradicar a extrema pobreza no Brasil significa canalizar à área social quatro Bolsas Famílias.

Para reduzir a desigualdade não bastam medidas conjunturais. São necessárias atitudes estruturantes, como a reforma tributária. Quem ganha mais deve pagar mais impostos. O sistema fiscal precisa ser progressivo, como em muitos países. Não adiantam ajustes fiscais sem políticas sociais. Nem cortar gastos da administração pública sem promover a reforma tributária com novas alíquotas de imposto de renda para os mais ricos. É preciso reduzir a tributação sobre bens e serviços e aumentá-la sobre rendimentos e patrimônios. De que vale salvar as contas do governo e jogar a maior parte da nação no desamparo?

Se em 20 anos o nosso país reduziu pela metade a mortalidade infantil, ampliou de cinco para oito os anos de escolaridade e diminuiu o número de famílias na miséria, isso não resultou apenas da austeridade fiscal. Foi sobretudo fruto de políticas sociais. Porém, nada indica que estamos na direção certa. O Judiciário reajusta seus gordos salários e os royalties do pré-sal destinados à educação são reduzidos pela metade! A renda do 1% de brasileiros mais ricos é 36 vezes superior à media do que ganham os mais pobres. O Brasil é o segundo país que mais concentra renda no topo da pirâmide social. Só perde para o Qatar.

Em 2017, 28% da população eram crianças de 6 a 14 anos fora de escola, pessoas com mais de 14 anos analfabetas e acima de 15 anos sem o ensino fundamental completo. Sem investimento em educação não haverá redução do desemprego.

Fala-se muito que tudo será melhor se for aprovada a reforma da Previdência. Mas afetará os privilégios do funcionalismo público? Estudo do Ministério da Fazenda, divulgado no último dia 5, demonstra que a Previdência paga 12 vezes mais para os ricos do que para os mais pobres. De todos os benefícios previdenciários, apenas 3,3% vão para os mais pobres. O que equivale a R$ 17,8 bilhões. Os mais ricos embolsam 40,6% do bolo, ou seja, R$ 243,1 bilhões – 12 vezes mais.

Enquanto não for dado um basta ao patrimonialismo – a ideia de que o Estado é patrimônio da elite – não haverá erradicação da pobreza e, portanto, redução da violência e da exclusão social.

ESTADO CONFESSIONAL

Tudo indica que teremos pela frente um Estado confessional, disposto a negar o princípio constitucional da laicidade. Algo parecido ao Destino Manifesto defendido pelos ultraconservadores dos EUA e governos que preferem ater-se a Livros Sagrados do que a Constituições.

“O Brasil acima de tudo, Deus acima de todos”. Este brado da Brigada de Paraquedistas do Exército foi o mote de campanha do futuro presidente. Mas, que deus? O que levou a Inquisição a acender fogueiras a supostos hereges? O invocado pelo cardeal Spellman, de Nova York, ao abençoar soldados que foram perder a guerra no Vietnam?

O Deus de Jesus ou dos escribas e fariseus que o levaram à cruz? O da fé de Hitler ou de Luther King, que deu a vida pelo fim da discriminação racial?

Tão logo soube de sua vitória eleitoral, Bolsonaro declarou: “Afinal de contas, a nossa bandeira, o nosso slogan, eu fui buscar naquilo que muitos chamam de caixa de ferramenta para consertar o homem e a mulher, que é a Bíblia Sagrada. Fomos em João, 8:32: “E conhecereis a verdade. E a verdade vos libertará.”

Qual verdade? A pós-verdade? A Bíblia contém, sim, valores e propostas de como homens e mulheres poderiam ser melhores. E todos contrariam o discurso do futuro presidente, pois não admitem preconceitos, ofensas, torturas, e nada que atente contra o que há de mais sagrado para Deus – a vida do ser humano.

“Quem é da verdade escuta a minha voz”, disse Jesus a Pilatos (João 18,37). O governador romano retrucou: “O que é a verdade?” (38). E ficou sem resposta. Não porque Jesus preferisse não responder-lhe. Mas porque Pilatos não tinha ouvidos para ouvir nem olhos para ver que a verdade era a prática libertadora de Jesus. Não valia a pena, na expressão do próprio Nazareno, “atirar pérolas aos porcos” (Mateus 7,6).

No Brasil, o futuro ministro das Relações Exteriores, Ernesto Araújo, professa a fé de que a missão de Trump é resgatar a civilização ocidental, sua fé cristã e as tradições forjadas “pela cruz e pela espada”. Os indígenas que o digam... E faz uma salada semântica ao afirmar que o “globalismo” é “essencialmente um sistema anti-humano e anticristão. A fé em Cristo significa, hoje, lutar contra o globalismo, cujo objetivo último é romper a conexão entre Deus e o homem, tornado o homem escravo e Deus irrelevante. O projeto metapolítico significa, essencialmente, abrir-se para a presença de Deus na política e na história.”

Curioso é constatar que a globalização é uma invenção cristã. Até a era cristã as religiões estavam confinadas a etnias. Não tinham como objetivo angariar adeptos de outras culturas. Foi o Nazareno que enviou os discípulos a anunciá-lo “a todos os povos”, missão da qual o apóstolo Paulo se destacou como pioneiro exemplar.

Fracassaram os profetas do fim da religião e da morte de Deus, como Marx e Freud. Ela está mais viva do que nunca, e em certos países, como nos EUA, é no mínimo politicamente incorreto professar o ateísmo.

A diferença é que, agora, a religião saiu dos trilhos das etnias. Já não depende de um poder centralizado como o Vaticano. O islamismo ultrapassa as fronteiras do mundo árabe e conquista multidões de fiéis na África. As tradições religiosas da Índia atraem adeptos em todo o Ocidente. E o nome de Deus é invocado em vão por democratas e tiranos. As notas de reais estampam “Deus seja louvado”, como nas de dólares consta We God in Trust (“Em Deus nós confiamos”).

Se o Brasil adotar o modelo do Estado Leviatã de Hobbes e retroceder ao século XIX, possivelmente teremos, nas escolas, a volta da concepção criacionista para explicar as origens do Universo e da humanidade, e o descarte sumário de Darwin e do evolucionismo. E, na falta de médicos que atendam às populações mais pobres, bastaria ensinar a suplicar a Deus pela cura de todas as doenças. Os recursos públicos seriam poupados e, caso não ocorra o milagre, com certeza o Céu será o prêmio eterno de consolação aos desvalidos.

COMUNICAÇÃO GLOBAL E INTERPESSOAL

Nunca a comunicação foi tão ágil, rápida e fácil, embora cara. Sem sair da cama, podemos saber o que ocorre na Ásia, falar ao telefone com um nepalês, entrar em um site de bate-papo e nos enturmar com um bando de jovens do Brooklin. À audição (rádio) somam-se a visão (foto, cine, TV) e a fala (telefone e Internet). Faltam apenas o cheiro e o contato epidérmico, o toque.

Diante de todo esse cipoal comunicativo levanta-se uma questão: e a intercomunicação pessoal, tão valorizada por Habermas? Quantos pais “acessam” os filhos? Como é o diálogo olho no olho? Comunicação que se faz comunhão, interação, e que transmite, não a emoção de imagens e sons, mas algo mais profundo – afeto.

Reféns da tecnologia, sem todos esses aparatos temos dificuldade de dialogar com o próximo. Nosso avós punham as cadeiras na varanda, e até mesmo na calçada, e ficavam horas jogando conversa fora. Hoje, a ansiedade dificulta o diálogo interpessoal. Preferimos a comunicação virtual, mental, mas não a corporal. O corpo transforma-se em território do silêncio das palavras, embora se cubra de adornos que “falam”: a roupa, a esbeltez malhada, os gestos...

Nessa “fala” o corpo simula (faz de conta ser o que não é) e dissimula (esconde o que de fato é). Por isso a comunicação interpessoal é arriscada, pois tende a desmascarar, trair, revelar contradições. O corpo sou eu, e eu não sou tão bom quanto a imagem que projeto de mim mesmo. Como os cavaleiros medievais, visto uma armadura que encobre a minha verdadeira identidade, a armadura pós-moderna da parafernália eletrônica. É ela que me salva. Permite-me ser conhecido por uma imagem mediatizada pela multimídia ou, no contato pessoal, pelos adornos que me imprimem um cheiro de grife.

Nu, sou um fracasso, uma decepção frente à minha baixa autoestima. Ainda mais se acrescento à nudez o que me desnuda por dentro: a fala. Por isso os ícones projetados pela mídia – modelos, artistas, atletas, ricos - não falam. São fotografados e expostos excessivamente, mas nada se sabe o que pensam, em que acreditam, que valores abraçam, qual visão de mundo assumem. São seres belos, porém silenciados. Se abrirem a boca, o balão desinfla, o encanto desaparece, a carruagem vira abóbora.

Pós-modernidade é sinônimo de explosão comunicatória. Estamos cercados da parafernália eletrônica destrinchada pelas análises de Adorno, Hockeimer, MacLuhan, Walter Benjamin e outros. Ela reduz o mundo a uma aldeia que se intercomunica em tempo real. E dentro de uma paisagem cultural hegemônica que Boaventura de Sousa Santos qualifica de monocultura: a espetacularização da notícia e naturalização da imagem midiática, como se o mundo fosse o que vemos na TV ou na Internet.

Tudo isso molda a nossa identidade. Não há como configurá-la de outro modo. Estamos cercados pela multimídia: no mesmo celular temos relógio, calculadora, rádio, e-mail, TV, jogos... e até telefone.

Não é fácil o verbo se fazer carne. Graças à multimídia, o verbo se faz caro e raro. É virtualizado para ser esvaziado de significado. Assim, não nos sentimos desafiados. Na imagem, a catástrofe é épica; na minha esquina, trágica. E ao contemplar o épico me iludo de que vivo em uma ilha imune à dor e ao sofrimento. E suporto a reclusão do silêncio temendo que a minha palavra se faça carne, ou seja, revele quem realmente sou: este ser frágil, carente, que ainda não descobriu a diferença entre prazer, alegria e felicidade.

Por isso tendem a ser complicadas as relações familiares, como toda relação que se confina em um mesmo espaço. Não se desfila dentro de casa. No cotidiano, a imagem é atropelada pelas emoções. É o que Buñuel mostrou em “O discreto charme da burguesia”. No espaço doméstico emerge o nosso lado avesso – aquela pessoa que realmente somos, sem maquiagens de bens, funções e adornos.

Para conviver fora de casa vestimos a armadura. Vamos para a guerra, para o reino da competição e do sucesso a qualquer preço. Não podemos, portanto, mostrar a cara. Protegem-nos a parafernália eletrônica e o diálogo virtual. Somos o que não aparentamos e aparentamos o que não somos. Eis o paradoxo que a pós-modernidade nos impõe.

Edição 142 Novembro 2018

CAVALOS DA RAZÃO E DA PAIXÃO

Diziam os gregos antigos que somos como cocheiros de carruagens tentando controlar dois cavalos, o da razão e o da paixão. Cada um puxa para um lado. O cocheiro procura manter o equilíbrio entre eles.

As decisões que envolvem a emoção são mais difíceis de serem tomadas do que as que envolvem apenas a razão. A neurociência explica. Na decisão racional, o cérebro ativa os córtices pré-frontal dorsolateral, pré-frontal ventrolateral e o parietal. Na emocional, se estabelece uma intrincada conexão entre os córtices cingulado anterior, pré-frontal medial, orbitofrontal, a amídala e o tronco encefálico.

A guerra, por exemplo, suscita comoção. Por isso, durante a do Vietnam, a Casa Branca perdia prestígio a cada novo caixão desembarcado nos EUA. Utilizou-se, então, a UTI para prolongar ao máximo a agonia dos pacientes, de modo a não morrerem antes de tocar o solo pátrio. Assim não eram contabilizados como mortos em território inimigo.

Mais tarde, na guerra do Iraque, Bush tomou uma posição mais drástica. Para evitar comoção na opinião pública proibiu que os caixões fossem vistos pela mídia. Assim, o número de soldados usamericanos mortos se resumia a uma fria estatística.

A tensão entre o racional e o emocional é perfeitamente manifestada quando se trata de nossas próprias decisões. Um diretor de empresa reduz o número de empregados ao assinar-lhes a demissão, a fim de poupar custos. Porém, se um dos empregados é seu afilhado pode ser que, por isso, não seja cortado.

O envolvimento emocional provoca o nepotismo. O político emprega na máquina pública parentes, amantes e amigos, não por terem competência, e sim por estarem emocionalmente vinculados a ele.

Hoje, o poder já não se empenha em evitar a violência, da qual tem o monopólio legal. Procura apenas aplacar o impacto emocional das decisões que induzem à violência. Usa drones para assassinar supostos terroristas no Afeganistão e na Somália e, assim, poupa soldados que poderiam morrer no enfrentamento com o inimigo.

O mesmo raciocínio lógico, frio e implacável induziu a Casa Branca a promover, sem a menor dose de culpa, o maior atentado terrorista de todos os tempos: as bombas atômicas que, em 1945, dizimaram Hiroshima e Nagasaki. Nenhum dos envolvidos na monstruosa decisão tinha parentes ou conhecidos naquelas cidades japonesas, o que tornou tudo mais fácil.

Para nós, que comemos além do que devemos e necessitamos, as estatísticas do número de famintos no mundo são apenas dados frios no noticiário. Não temos parentes que passam fome e jamais vimos a mãe de crianças raquíticas oferecer aos filhos lagartos e insetos.

É essa cultura “clean”, fria, que o neoliberalismo tenta nos incutir para ficarmos insensíveis aos dramas alheios e centrados no próprio umbigo. Cabe à educação associar razão e paixão, e suscitar empatia e solidariedade. O mundo virtual não pode ser a nossa caverna de refúgio e omissão. É preciso quebrar as suas fronteiras e mergulhar no mundo real, única forma de assegurar a nossa sensibilidade a tudo que é humano e às dádivas da natureza.

VIOLÊNCIA E AGRESSÃO

Friedrick Hacker (1914-1989), psiquiatra usamericano, analisou com propriedade as raízes da violência nesse mundo globocolonizado que se ajoelha reverente ao deus Mercado. A agressividade é própria da natureza animal, incluída a espécie humana. Denota o espírito de sobrevivência. Frente a determinadas circunstâncias, cada um é agressivo a seu modo: ironia, humor, astúcia desprezo, presunção etc. Violência é quando se rompe a barreira da alteridade e a força física se impõe sobre o mais frágil ou indefeso.

Quase nunca entendemos como violenta a ação que atinge o outro, exceto quando nós somos vítimas. Se na saída do cinema a polícia cerca nosso grupo de amigos, e exige que fiquemos todos de mãos na parede e pernas abertas, enquanto nos revista, consideraremos violência. Se da janela do apartamento vemos a mesma cena, com a diferença de que os detidos são jovens de periferia, admitimos que a polícia cumpre seu dever.

Se um dos amigos protesta pelo modo como está sendo apalpado e recebe em resposta um empurrão, fica patente a violência. Para o policial em nenhum momento houve violência. Julga apenas que impôs sua autoridade. É o caso do pai que, ao retornar do trabalho, descobre que o filho mais velho bateu no mais novo. Para dar-lhe uma lição de que nunca se deve bater em alguém mais fraco, o pai dá uma surra no mais velho. Sem consciência de que fez exatamente o que recriminou. É essa contradição entre o discurso e o método que dissemina o comportamento violento.

A violência é sempre praticada como se fosse ato de justiça, legitimada por razão superior, seja o Deus dos cruzados ou dos fundamentalistas; a defesa da propriedade privada; a liberdade do Mercado; os deveres de uma boa educação etc.

A violência é a mais primária forma de manifestação da agressão. Toda a estrutura da sociedade, com suas leis e instituições, contém boa dose de agressividade, assim como a disciplina que os pais impõem à boa educação dos filhos. Ela favorece a nossa convivência social e reprime nossas tendências autodestrutivas. Em princípio, o melhor exemplo de agressividade sem violência é o esporte.

Já a violência é cruel e repetitiva, o que permite à polícia identificar o modus operandi de criminosos, pois ela se propaga sem a menor criatividade. Para saber lidar com a agressividade é preciso de refinamento de espírito. Já a violência é burra, não exige educação, está ao alcance de qualquer um.

O mais grave é que nos acostumamos à violência. Covardes, não usamos as próprias mãos, mas aplaudimos quando a polícia espanca o bandido; a lei retroage a idade penal; o plebiscito libera o comércio de armas; o Estado decreta a pena de morte etc. Sem nos dar conta de que nos deixamos dominar pela parte mais primária de nosso cérebro, lá onde se aloja o réptil que nos precede na escala evolutiva e do qual somos tributários.

Se uma sociedade ignora a limite entre violência e agressividade, isso aquece o caldo de cultura do autoritarismo. O sentimento de humilhação que a Primeira Grande Guerra impôs ao povo alemão favoreceu a ascensão do “vingativo” Hitler. A derrota do Bush pai no Iraque, em 1991, impeliu a opinião pública dos EUA a apoiar, em 2003, o filho disposto a “lavar a honra”.

Ninguém é capaz de atacar seu semelhante, a menos que produza, entre si e o outro, a dessemelhança. Assim, o homem bate na mulher por considerá-la imbecil; o branco agride o negro por encará-lo como inferior; a grande nação decreta guerra à pequena que se nega a abrir mão de sua soberania; o líder popular passa a ser demonizado pela poderosa mídia, de modo a deslegitimar a causa que defende. Tal postura desculpabiliza e abre caminho à violência como legítima e até legal.

Não se trata de erradicar a agressividade própria do humano e que nos impele a alcançar metas e conquistas. O desafio é fazer a distinção ensinada por Hacker e criar uma cultura baseada no mais primordial paradigma da alteridade, que tem a sua origem Naquele que, radicalmente diferente de nós, nos criou à Sua imagem e semelhança.

NOVA CONSTITUIÇÃO DE CUBA

Cuba prepara-se para aprovar uma nova Constituição que trará importantes novidades ao país, como a adopção do parlamentarismo, novas formas de economia mista e o reconhecimento da união homo-afetiva. A atual Constituição foi aprovada em 1976 e revela forte influência das Cartas Magnas dos países socialistas do Leste europeu, em especial da União Soviética. Agora, ampla mobilização nacional promove nova reforma constitucional. No momento em que escrevo, novembro de 2018, o anteprojeto está sendo submetido à consulta popular e, em seguida, será referendado pela população mediante voto livre, direto e secreto.

Com a queda do Muro de Berlim, em 1989, a Constituição cubana sofreu importante reforma em 1992, quando, por exemplo, se retirou o caráter ateu do Estado para introduzir o caráter laico. Fez-se ainda pequena reforma em 2002, ao blindar o caráter socialista da Revolução.

Diante das teses aprovadas no VI Congresso do Partido Comunista de Cuba, em 2011, ocorreram mudanças no modelo econômico e na organização partidária, o que suscitou a necessidade de nova reforma da Constituição.

Em maio de 2013, o Birô Político criou o Grupo de Trabalho, presidido por Raúl Castro, para debater o aprimoramento institucional do país. Durante um ano o grupo preparou as bases do atual processo de reforma, aprovadas em junho de 2014. Analisaram-se os impactos de ordem jurídica nas reformas ocorridas no Vietnam e na China. Levaram-se em conta também as reformas constitucionais de Venezuela, Bolívia e Equador.

O resultado desses estudos foram analisados, em fevereiro deste ano, pelo Birô Político e, um mês depois, pelo Comitê Central do Partido. Em seguida, o Conselho de Estado, órgão de representação permanente da Assembleia Nacional do Poder Popular (equivalente ao nosso Congresso Nacional), convocou sessão extraordinária para dar início ao processo de reforma, o que aconteceu em dia 2 de junho. O parlamento instituiu a comissão encarregada de preparar o novo projeto constitucional. Um mês depois, um esboço foi submetido à Assembleia Nacional, que recolheu diversas críticas e propostas. A população acompanhou os debates por TV e outros meios de comunicação. O parlamento decidiu, então, submeter o texto à consulta popular, de modo a enriquecê-lo com a participação direta do povo, incluídos cidadãos cubanos residentes no exterior.

O que se debate agora em todo o país não é uma reforma do texto constitucional vigente, mas a aprovação de um novo texto que visa a introduzir mudanças profundas na estrutura do Estado e ampliar o leque de direitos de cidadania, sem prejuízo do caráter socialista da Revolução.

O texto propositivo contém 224 artigos (87 a mais do que o vigente); são modificados 113 artigos da atual Constituição; mantidos 11; e eliminados 13.

Não se convocou uma Assembleia Constituinte por respeito à cláusula que assegura à Assembleia Nacional função constituinte.

Inovações

A nova proposta constitucional reafirma o caráter socialista dos sistemas político, econômico e social de Cuba. É preservado o papel do Partido Comunista como monitor da sociedade e do Estado, destacando-se seu caráter democrático e a importância de vínculo com o povo. Ressalta-se que o Partido não está acima da Constituição e, como ente político, é obrigado a respeitá-la e defendê-la. E em sua atuação não deve substituir os órgãos estatais e administrativos, cujas atribuições são definidas pela Constituição e pelas leis do país.

O texto ressalta o reconhecimento de Cuba como Estado Socialista de Direito, de modo a reforçar o império da lei e a supremacia da Constituição.

Esse conceito de Estado de Direito se choca com a tradição socialista, que o considerava liberal e capitalista, e na qual somente cabia uma visão classista do Estado e do Direito. Quem deu o primeiro passo nesta nova direção foi o Vietnam, na reforma constitucional de 2013, quando incorporou o conceito de “Estado de Direito Socialista”.

No econômico se mantém, como princípio, a propriedade socialista de todo o povo sobre os meios fundamentais de produção, bem como a direção planificada da economia, mas sem ignorar o papel do mercado. Não se trata de uma economia socialista de mercado, mas de submeter o mercado a um sistema de planificação flexível.

Reconhece-se a propriedade privada, que a Constituição não cria, já que nunca deixou de existir em Cuba. Admite-se o trabalho por conta própria (contapropismo) e o empreendedorismo individual, com direito de contratação de mão de obra. Porém, proíbe-se a concentração de propriedades em mãos de pessoas ou corporações não estatais, com o objetivo de preservar “os limites compatíveis com os valores socialistas de equidade e justiça social”. Valoriza-se a propriedade cooperativa.

Novidade é como se estrutura a propriedade mista, até agora vinculada exclusivamente ao investimento estrangeiro e relacionada sempre com a propriedade estatal. Entende-se agora como mista a integração de duas ou mais formas de propriedades, incluídas a privada e a cooperativa, não apenas a estatal. No entanto, a empresa estatal é considerada a principal protagonista da economia e se reconhece a autonomia de seu funcionamento.

Quanto à cidadania, reconhece-se o princípio da cidadania efetiva. Um cubano pode adquirir outra cidadania sem prejuízo da original.

O novo texto constitucional reforça a defesa dos direitos humanos reconhecidos em tratados internacionais dos quais Cuba é signatária. Ressalta-se a importância de proteção do meio ambiente e de combate aos efeitos das mudanças climáticas.

Questões de gênero

Adota-se uma concepção de direitos humanos na qual se reconhece a sua indivisibilidade, irrenunciabilidade e interdependência, em correspondência com o princípio de progressividade, e sem discriminação. Amplia-se o direito de igualdade, e se proíbe toda discriminação por “razões de sexo, gênero, orientação sexual, identidade de gênero, origem étnica, cor da pele, crença religiosa, deficiência física ou mental, origem nacional ou qualquer outra lesiva à condição humana.” Se oferecem garantias às liberdades de pensamento, consciência, expressão e convicção religiosa.

Abandona-se a atual concepção de matrimônio como relação entre um homem e uma mulher, e se introduz o conceito de relação “entre duas pessoas”. Diante desta proposta, a sociedade cubana se divide. Há quem prefira manter o atual conceito de matrimônio, relação entre um homem e uma mulher; os que apóiam a nova redação ou o novo conceito de relação “entre duas pessoas”; quem aceite o reconhecimento civil dos casais de fato, mas não o matrimônio; e outros que estão de acordo mas, em se tratando de filhos, limitam o direito à adoção; e por último, alguns advogam o conceito de matrimônio como a união “de duas ou mais pessoas”.

Amplo leque é oferecido quanto se trata de direitos trabalhistas, já que o Estado deixou de ser o único empregador, e hoje há variadas formas não estatais de empregabilidade.

Educação e saúde são mantidas sob responsabilidade do Estado e com caráter universal e gratuito. Abre-se, entretanto, a brecha, em caráter excepcional, para que determinados serviços de saúde não imprescindíveis e parte do ensino de pós-graduação, possam ser remunerados.

O Estado admite que alguns direitos econômicos e sociais, por ora, não há como assegurá-los, e incluí-los seria tornar a Constituição uma obra de ficção. Ficam, porém, regulados com projeção de progressividade, decisão que gera certa inconformidade entre a população, como os direitos à moradia digna, à alimentação e à agua.

Se introduz a tutela judicial diante de violação de direitos constitucionais por parte de órgãos e funcionários do Estado, inclusive mediante indenização aos atingidos.

Parlamentarismo

Na estrutura do Estado são introduzidas importantes mudanças. Criam-se os cargos de Presidente da República e primeiro-ministro. Hoje, o Chefe de Estado de Cuba é o Presidente do Conselho de Estado escolhido pela Assembleia Nacional, que também acumula a função de Chefe de Governo. De acordo com o projeto constitucional, o Presidente teria que ser um deputado eleito pela Assembleia Nacional, desde que tenha a idade mínima de 35 anos e, máxima, de 60, para seu primeiro mandato. O mandato seria de 5 anos e possibilidade de uma única reeleição.

O Presidente não cumprirá apenas funções cerimoniais e de representação. Ele é quem proporá à Assembleia Nacional o nome do primeiro-ministro, e este deverá lhe prestar contas de sua gestão, bem como será o presidente do Conselho de Ministros.

A comissão preparatória considera fundamental estabelecer limites de tempo para cargos importantes do Estado, na linha do que indicaram os últimos congressos do Partido, ainda mais porque, com o avançar do tempo, já não se justifica a legitimidade histórica dos que combateram em Sierra Maestra.

A Assembleia Nacional do Poder Popular mantém seu carater de órgão supremo, único com poder constituinte e legislativo, encarregada de preencher os cargos mais importantes do Estado, à qual prestarão contas os órgãos e organismos do Estado. O presidente, vice-presidente e secretário do Parlamento ocuparão as mesmas funções no Conselho de Estado. E é o Parlamento, e não o poder judiciário, que vela pela aplicação da Constituição, o que é motivo de polêmica nos debates em torno do projeto constitucional, mesmo considerando que este estabelece maior independência funcional ao sistema judiciário.

Nas províncias (equivalentes aos estados da federação brasileira), se suprimem as assembleias do Poder Popular e se constitui um governo formado por um governador e um Conselho Provincial, presidido pelo governador e integrado pelos presidentes das assembleias municipais e todos que exercem funções de direção administrativa nos municípios. Discute-se se o governador deve ser eleito ou designado.

Cria-se o Conselho Eleitoral Nacional, encarregado de organizar, dirigir e supervisionar as eleições e outros processos de consulta popular.

Este projeto está sendo debatido em centros de trabalho, escolas, unidades militares e bairros. “Podemos afirmar que estamos perante um exercício único de democracia real e efetiva, e de um processo constituinte igualmente paradigmático com o povo como verdadeiro protagonista”, declarou Homero Acosta, secretário do Conselho de Estado.

Terminada a consulta popular em 15 de novembro, a comissão redatora avaliará todas as propostas. Em seguida, apresentará um novo projeto à Assembleia Nacional, da qual resultará a nova Constituição da República de Cuba. Então, será submetida a plebiscito por votação direta e secreta de todos os eleitores cubanos, de modo a adquirir plena legitimidade democrática.

Edição 141 Outubro 2018

ESSE ÓDIO QUE ASSOLA O PAÍS

É notório que há no Brasil um clima de ódio e discórdia, agudizado pela atual disputa eleitoral. Não participo dele. Não por virtude, mas por comodismo. Situações de vida me ensinaram a não ter ódio de ninguém nem somatizar conjunturas políticas. Meditação e oração são meus antídotos.

É obvio, há pessoas das quais prefiro não ser amigo. Não por querer mal a elas, e sim por discordar radicalmente de suas ideias. Ideias que contrariam os princípios que norteiam a minha vida. Isso torna o diálogo quase impossível. E não sou de bater boca. Só lamento o sofrimento que causam quando as teses que defendem são levadas à prática. Como é o caso do racismo, da homofobia, do machismo, da arrogância e da opressão.

Evito também quem naturaliza a desigualdade social e defende estruturas sociais e leis que aprofundam o aviltante abismo entre os pouco ricos e os muito pobres.

Repito, não trago em mim sentimento de raiva ou ódio por qualquer pessoa. Nem a quem repudio, como os torturadores e assassinos dos anos em que padeci no cárcere sob a ditadura militar.

Isso não me faz melhor do que ninguém. A vida me ensinou que ódio é um veneno que se toma esperando que o outro morra. Portanto, não abro mão deste bem que me é tão precioso e constitui a razão de minha felicidade: a paz de espírito.

Demônios não trafegam em meu mundo interior. Mantenho relações de amizade com amplo espectro de pessoas de diferentes ideologias, religiões e condições sociais. Todos sabem exatamente o que penso, quem sou, o que faço. Pela simples razão de eu ter atividades pastorais e sociais notórias, e expor o que penso em 64 livros, além dos inúmeros artigos que produzo.

Para manter contato com pessoas tão díspares há que reconhecer a importância da virtude da tolerância. Nunca fecho as portas à possibilidade de uma boa amizade. Aliás, condição primeira para ser feliz, frisou o velho Aristóteles há 24 séculos. Como optei por não constituir família, nem tenho saudades dos filhos que não tive, sustento-me nas relações de amizade. Quase todas, aliás, parceiras. Porque além da amizade que nos aproxima, com a maioria compartilho projetos e ideais comuns: de militantes que lutam por terra e teto a gente muito rica.

Portanto, não incorporo a crise brasileira. Conheço suas causas, e não é o acúmulo de emoções que apontará soluções. Considero perda de tempo as discussões virtuais. Uso moderadamente as redes digitais e jamais polemizo com quem me acessa. Não tenho Facebook por receio de que me roube momentos de ler bons livros. Uso parcimoniosamente o Twitter e o Whatsapp. E não gosto de falar ao telefone. Nele sou telegráfico. Jamais o ocupo por mais de dois minutos.

Esta a minha postura nesse conflituoso mapa da diminuta parcela da sociedade brasileira mergulhada nas turbulências desse tempo de intrigas. Diminuta porque há milhões de pessoas que não estão nem aí, não acessam redes digitais, e se encontram muito ocupadas em lutar pela sobrevivência, cuidar dos filhos, de suas lavouras e de seus negócios, levantar cedo para enfrentar dura jornada de trabalho. Essa gente não figura entre os que formam (ou deformam) isso que se denomina “opinião pública”.

Em resumo, a vida é mesma conturbada e todos nós, humanos, somos tributários das espécies que nos precederam na escala evolutiva, como os répteis egocentrados. Há, contudo, o esforço civilizado de nos descentrarmos e enxergar o próximo. Sem buscar nele a nossa imagem e semelhança, como se ele fosse espelho de nosso olhar narcísico. A boa democracia, tão apregoada e pouco praticada, exige que não se converta a diferença em divergência.

O que temos de comum é o que todos almejamos, amar e ser amados. A essa experiência denomino Deus. Quase todos concordam comigo, exceto em um detalhe: Deus quer ser amado naqueles que Ele criou à sua imagem e semelhança, incluídos índios, negros, gays e pobres.

PAULO VI E OSCAR ROMERO PROCLAMADOS SANTOS

O papa Francisco elevou aos altares da Igreja Católica dois novos santos, o papa Paulo VI, que ocupou a cátedra de Pedro por 15 anos (1963-1978), e monsenhor Oscar Ranulfo Romero, arcebispo de San Salvador assassinado a tiros pela ditadura de seu país, em 24 de março de 1980.

Nutro gratidão pelos dois. Sob o pontificado de Paulo VI um grupo de frades dominicanos brasileiros foi preso, em 1969, pelo regime militar, conforme mostra o filme “Batismo de sangue”, dirigido por Helvécio Ratton, e baseado em livro de minha autoria editado pela Rocco.

Alguns cardeais e bispos abraçaram a versão policial tão logo fomos detidos, acusados de “terroristas”. Não foi o caso de nossos superiores em Roma. Vieram nos visitar na prisão e, convencidos do arbítrio ditatorial, mantiveram informado o papa Paulo VI. Este nos presenteou com um rosário feito de sementes de azeitonas do Horto das Oliveiras, em Jerusalém, e um afetuoso cartão manuscrito. E leu minhas cartas da prisão, editadas na Itália antes mesmo de serem publicadas no Brasil.

Contrariado com o fato de o cardeal Agnelo Rossi, de São Paulo, haver assumido a versão dos algozes e negar que houvesse torturas no Brasil, Paulo VI o removeu do país e, para o seu lugar, nomeou Dom Paulo Evaristo Arns. Este nos deu todo apoio, e se destacou com um dos mais corajosos defensores dos direitos humanos, como o comprovam sua atuação no caso Vladimir Herzog e na autoria, junto com o reverendo Jaime Wright, do clássico livro “Brasil, nunca mais” (Vozes), no qual são denunciados os métodos hediondos do regime militar.

Paulo VI coleciona, entre outros méritos, os de ter dado continuidade ao Concílio Vaticano II, convocado por seu antecessor, João XXIII, e que impulsionou a renovação da Igreja Católica, e publicar a encíclica “Populorum progressio” (1967), documento pilar da teologia da libertação, que ressalta a dimensão política da fé cristã e acentua o conceito de pecado social.

Conheci monsenhor Romero em janeiro de 1979, na cidade mexicana de Puebla, durante a conferência episcopal latino-americana, inaugurada pelo papa João Paulo II. Presenteei-lhe com minhas “Cartas da prisão” (Fontanar). Perseguido pelos militares que governavam El Salvador, ele agradeceu: “É possível que eu tenha de aprender a escrever cartas assim”, disse sorrindo.

Não teve tempo. Foi assassinado, em plena celebração eucarística, por quem acreditava que a força das armas tem o poder de silenciar a força da verdade.

Monsenhor Romero era um bispo conservador, vinculado à elite de seu país, e preconceituoso em relação à teologia da libertação. Desconfiado das aulas bíblicas de um sacerdote progressista, postou-se atrás da cortina do auditório para confirmar, de ouvido próprio, as heresias exegéticas do palestrante. O efeito resultou contrário. O arcebispo se convenceu de que a leitura da Bíblia pela ótica dos oprimidos aproxima a fé da essência da revelação divina. E se tornou vez e voz daqueles que, em El Salvador, foram privados de direitos, liberdade e vida.

Canonizar um cristão, proclamar a sua dignidade de santo, não significa exaltá-lo à perfeição. Somos todos limitados e marcados pelo pecado. A Igreja considera santidade o fato de esses cristãos terem sido testemunhas dos valores evangélicos. Seguiram com ousadia o caminho indicado por Jesus. Assumiram virtudes heroicas, como a de enfrentar, sem temor, toda sorte de acusação e perseguição.

São elevados aos altares não para serem adorados, e sim servir de exemplo a todos que, como Jesus, dão suas vidas “para que todos tenham vida e vida em abundância” (João 10, 10).

BALANÇO DAS ELEIÇÕES NO BRASIL

As eleições brasileiras, no domingo, 7 de outubro, revelaram que a política brasileira será cada vez mais conservadora. O próximo presidente do país, a tomar posse a 1 de janeiro de 2019, será definido no segundo turno, a 28 de outubro, na disputa entre Jair Bolsonaro (PSL) e Fernando Haddad (PT).

Todo o processo eleitoral foi comandado da cadeia e do hospital. Da cadeia, pelo ex-presidente Lula (PT), detido em Curitiba por uma condenação que carece de provas. E do hospital, pelo capitão Jair Bolsonaro, internado após ser esfaqueado em plena campanha eleitoral.

Bolsonaro recebeu 46,05%, ou seja, 49,3 milhões de votos, e Fernando Haddad, indicado por Lula, 29,24% (31,3 milhões de votos) de 147,3 milhões de eleitores,. Vale ressaltar que o capitão candidato quase não teve tempo de campanha na TV, não participou de debates com seus concorrentes em setembro nem fez campanha nas ruas. Foi o eleitor do Nordeste que garantiu a presença do PT no segundo turno. As outras quatro regiões do Brasil deram vitória ao PSL.

Bolsonaro também elegeu seus filhos Flávio, senador pelo Rio, e Eduardo, deputado federal por São Paulo. E ainda leva para o Congresso Nacional vários pastores evangélicos, militares e policiais.

O resultado sepulta o PSDB, partido social democrata, que nas últimas seis eleições presidenciais polarizou a disputa com o PT de Lula. Geraldo Alckmin, apoiado por FHC, teve apenas 4,76% dos votos.

O governo Temer foi enfaticamente derrotado nas urnas. Nenhum de seus 11 ministros que disputaram a eleição foi eleito. Ficaram sem mandatos os caciques Romero Jucá, Eunício Oliveira e Edison Lobão, todos ex-ministros de Temer.

A ambientalista Marina Silva, da Rede, que nas duas eleições anteriores mereceu, em cada uma, cerca de 20 milhões de votos, recebeu agora pouco mais de 1 milhão.

A advogada Janaína Paschoal, autora do processo de impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff, foi a candidata ao parlamento mais votada da história do Brasil. Elegeu-se deputada estadual por São Paulo com 2 milhões de votos.

O Congresso Nacional teve uma renovação surpreendente. Nomes apontados como preferenciais nas pesquisas eleitorais, como os candidatos a senadores Dilma Rousseff e Eduardo Suplicy, foram derrotados, como também Cristovam Buarque, candidato a senador pelo Distrito Federal. Na Câmara dos Deputados, o PSL, partido de Bolsonaro, terá a segunda bancada de parlamentares (52). A maior será a do PT (56).

No Maranhão, a dinastia Sarney parece definitivamente sepultada. A filha do ex-presidente, Roseana, foi derrotada por Flávio Dino, do PCdoB, reeleito governador. Pela primeira vez, em 60 anos, a família Sarney não terá nenhum representante no Congresso Nacional.

No segundo turno da escolha presidencial, Haddad deverá ter o apoio de Ciro Gomes, do PDT, que recebeu 12,4% dos votos, e dos demais candidatos progressistas.

Na disputa do segundo turno, Bolsonaro carregará o peso de reafirmar suas declarações em defesa da tortura, da homofobia, da discriminação de índios e quilombolas e da remuneração de salários menores às mulheres. E de manter em seu programa de governo estes pontos: alteração da política de direitos humanos, liberação do uso de armas de fogo, “expurgar a ideologia de Paulo Freire” e “tipificar como terrorismo as invasões de propriedades rurais e urbanas” .

Já Haddad será prejudicado pelas denúncias de corrupção contra líderes do PT.

Como se explica a ascensão de Bolsonaro? Embora tenha sido deputado federal por sete vezes consecutivas, ao longo de 28 anos, agora ele se valeu do vácuo político criado pela Lava Jato e conseguiu se apresentar como “o novo” ao adotar um discurso moralista de defesa da família e de combate à violência urbana. Atraiu os eleitores desencantados com a política e, em especial, fortaleceu em todo o país a onda antipetista.

Não será fácil para Haddad vencer Bolsonaro. Terá que enfatizar a importância da democracia contra o discurso autoritário do capitão, já que pesquisa recente aponta que 69% dos brasileiros preferem este regime de governo, e apenas 12% a ditadura. Mas o que se entende por democracia? O direito de o cidadão se armar para enfrentar bandidos segundo a lei de talião?

Bolsonaro, com certeza, reforçará o discurso de Temer de que todos os males do Brasil, como o desemprego de 12 milhões de pessoas e a recessão econômica, são culpa dos 13 anos de governo do PT. E haverá de explorar o fato de os principais líderes do PT serem apontados como corruptos pela Lava Jato.

Já Haddad não poderá manter sua coerência com o discurso do PT no primeiro turno, sob o risco de não conseguir o apoio de amplos setores da população brasileira que não simpatizam com as propostas de Bolsonaro. Em outras palavras, segundo analistas, Haddad terá que fazer um discurso mais próximo à ideologia do PSDB que do PT, prometendo um governo de coalizão de classes, como tentou Dilma em seu segundo mandato.

UTOPIA E POLÍTICA

Tudo é política, mas a política não é tudo. Participar da vida política, ainda que apenas pelo voto, é exercício de cidadania. Porque a política tem a ver com todos os aspectos de nossas vidas, da qualidade dos serviços de saúde à segurança de nossas famílias. Quem anula o voto ou vota em branco favorece o poder vigente e fica de costas para o bem comum.

Não há como erradicar a miséria, reduzir a criminalidade e a desigualdade social sem a atividade política. A política serve para oprimir e favorecer a corrupção, como também para libertar e punir os corruptos. Tudo depende do modo como é exercida.

O Evangelho de Lucas (3, 1), ao contextualizar a missão de Jesus, a situa politicamente: “No décimo quinto ano do governo de Tibério César, sendo Pôncio Pilatos governador da Judeia; Herodes, tetrarca da Galileia; Filipe, seu irmão, tetrarca da região da Itureia e da Traconídite; e Lisânias, tetrarca de Abilene” etc. Até mesmo a Palavra de Deus tem a ver com política, embora não se deva confessionalizá-la.

Jesus foi assassinado por razões políticas. Ousou anunciar, no reino de César, outro reino possível, o de Deus! Rechaçou a opressão, a doença e a pobreza como castigos divinos. Condenou a religião como legitimadora de preconceitos e discriminações. E propôs um novo projeto civilizatório baseado, nas relações pessoais, no amor e na compaixão; e nas relações sociais, na partilha dos bens da Terra e dos frutos do trabalho humano.

Oito séculos antes de Cristo, o profeta Isaías já havia prefigurado a utopia de uma sociedade na qual a implantação da justiça assegurará o advento da paz: "Vejam! Vou criar novo céu e nova terra. As coisas antigas nunca mais serão lembradas, nem voltarão ao pensamento. Fiquem alegres! Exultarei com Jerusalém e me alegrarei com o meu povo. E nela nunca mais se ouvirá choro ou clamor. Aí não haverá mais crianças que vivam alguns dias apenas, nem velhos que não cheguem a completar seus dias; pois será ainda jovem quem morrer com cem anos... Quem construir casa nela habitará, e quem plantar vinhas comerá de seus frutos. Ninguém construirá para outro morar, nem semeará para outro comer, porque a vida do meu povo será longa como a das árvores, meus escolhidos poderão gastar o que suas mãos fabricarem. Ninguém trabalhará inutilmente, nem gerará filhos para morrerem antes do tempo, porque todos serão a descendência dos abençoados de Javé, juntamente com seus filhos. Antes que me invoquem eu responderei; quando começarem a falar, já estarei atendendo. O lobo e o cordeiro pastarão juntos, o leão comerá capim junto com o boi... Em todo o meu monte santo ninguém causará danos ou estragos, diz Javé.” (65, 17-25).

Na próxima semana, os brasileiros escolherão seus futuros governos estadual e federal. Eis um direito democrático de substancial importância. Os eleitos haverão de fazer o país avançar ou retroceder ainda mais. Deles dependerão o combate ao desemprego e às causas da criminalidade, a universalização da educação de qualidade e o fim das intermináveis filas nos postos de saúde.

Os políticos são considerados autoridades. Ora, a rigor autoridades somos nós, o povo brasileiro, que os elegemos, pagamos seus salários e todos os gastos do exercício de seus mandatos, da conta de luz do Palácio da Alvorada ao combustível que move o avião presidencial.

Sem utopia a política se apequena. Torna-se mero jogo de poder em função de ambições pessoais e interesses corporativos. É de suma importância votar de olho no projeto Brasil. No futuro das novas gerações. Na conquista de uma sociedade que espelhe a proposta do profeta Isaías, onde o lobo e o cordeiro, que são diferentes, não façam da diferença divergência, e possam conviver em harmonia e igualdade de condições.

Edição 140 Setembro 2018

QUERIDA DEMOCRACIA

A senhora, todos sabem, nunca foi como a Amélia, que, na opinião do saudoso Mário Lago, era mulher de verdade. Desde que surgiu no cenário das instituições políticas, sua presença sempre foi cercada daquelas suspeitas que envolvem mulheres que se casam com um e flertam com outros.

Lembra-se de seus tempos na Grécia, quando ainda menina? Na verdade, nem todos os habitantes de Atenas tinham entrada livre em seus jardins. Segundo alguns pesquisadores, apenas 20 mil atenienses desfrutavam da liberdade que a senhora veio a introduzir nas decisões políticas. Os 400 mil escravos, os metecos (estrangeiros que viviam em Atenas) e as mulheres ficavam de fora, excluídos da cidadania e, portanto, do direito de participar da vida pública.

Na Idade Moderna, Rousseau, Tocqueville e Montesquieu colaboraram muito para a sua maturidade. Com o seu charme, aos poucos a senhora fez a vetusta nobreza, toda enrugada, recolher-se a seus aposentos privados à espera de morte condigna, embora algumas famílias reais insistam em prolongar-lhe a agonia. Mas, em geral, o fazem de braços dados com o parlamentarismo, como meras figuras decorativas, permitindo que a senhora ocupe o espaço das decisões que resultam do confronto plural de partidos e opiniões diferentes.

Seu melhor atributo, a liberdade, exaltada na tela de Delacroix, aparece com os seios à mostra, guiando o povo. Pena que as suas duas outras filhas, a igualdade e a fraternidade, ainda não tenham saído da pré-escola, repudiadas por quem se farta com as desigualdades e se impõe pela discriminação.

Um fenômeno curioso é como a senhora é mais falada que amada, exaltada que praticada, evocada que realizada. Veja o Brasil. Desde a queda do Império, a senhora foi sequestrada por nossas elites e, embora o nosso povo continue a pagar, como resgate, cotas de sofrimento e miséria, a senhora ainda enfrenta dificuldades para ganhar praças e ruas. Quando tentou fugir do cativeiro, seus áulicos a puniram com rigor, fazendo-a desaparecer de nosso cenário político, como ocorreu no Estado Novo, na década de 1930, e na ditadura militar, entre 1964 e 1985.

Com o fim do regime dos generais, a senhora voltou à cena, timidamente, ainda refém dos mesmos políticos que se locupletaram com a ditadura. Tancredo Neves morreu à porta de sua casa e, nos braços de Sarney, a senhora experimentou a vertigem inflacionária, favorecendo a sua queda na Casa da Dinda. Para salvá-la, foi preciso que o povo ocupasse as ruas, resgatando-a de quem pretendia, em seu nome, transformar a coisa pública em negócio privado.

Veio o governo Itamar Franco e criou o real, moeda que, no bolso da maioria, continua virtual. E fez a cama para FHC, Lula e Dilma, apoiados pelos mesmos partidos tolerados pela ditadura militar, embora acobertados em siglas diferentes. Assim, os interesses das elites ficaram assegurados, salvos das turbulências conjunturais, enquanto o Brasil se tornou campeão mundial de desigualdade social. Hoje, ocupa o vergonhoso 73º lugar no Índice de Desenvolvimento Humano.

O Brasil conta com 13,4 milhões de desempregados e 15 milhões de analfabetos funcionais. Agora, em pleno ano eleitoral, querem de novo conspurcá-la, pois os donos do poder, tão bem estudados por Raimundo Faoro, não admitem que a senhora tenha plena vigência em nosso país. Todos podem vencer as eleições, exceto quem não está de acordo com o atual modelo econômico, financeiramente concentrador e socialmente excludente. Daí o terrorismo conservador, as pressões dos especuladores, e a arrogância da Casa Branca, disposta a desestabilizar o país caso seja eleito um candidato que não agrade ao deus Mercado.

Ora, querida democracia, por que a tratam tão mal? Sua presença entre nós é mero jogo de cena, a ponto de não suportar a sua vigência em nossa vida política, como o comprova o golpe parlamentar de 2016? Dos que se gabam de estarem comprometidos com a senhora, quem, de facto, admite a alternância de poder no Brasil?

Os que fazem terrorismo eleitoral em seu nome confessam que a temem, pois se acostumaram a governar o povo, jamais com o povo e em benefício do povo.

ELEIÇÃO DEMOCRÁTICA DO TERROR

Ele nada entendia da situação real do país. Nem demonstrava interesse por ela, embora atuasse ativamente na política. Por isso não gostava de ser questionado, irritava-se diante das perguntas como se fossem armas apontadas em sua direção. Não queria que a sua ignorância se tornasse explícita.

Ser estranho, ele tinha olhos alucinados afundados nas órbitas, lábios espremidos, gestos cortantes. Todo o seu corpo era rígido, como se moldado em armadura. Ao ficar na defensiva, parecia uma fera acossada. Ao passar à ofensiva, a fera exibia garras afiadas e de suas mandíbulas pingava sangue.

Sua fala exalava ódio, rancor, preconceito. Aliás, não falava, gritava. Não sabia sorrir, tratar alguém com delicadeza, ter um gesto de cortesia ou humildade. Evitava ao máximo os repórteres. Julgava suas perguntas invasivas. E temia que a sua verdadeira face antidemocrática transparecesse em suas respostas.

Educado em fileiras militares, aprendera apenas a dar e cumprir ordens, enquadrar quem o cercava e ultrajar quem se opunha às suas opiniões. Jamais aceitava o contraditório ou praticava um mínimo de tolerância. Considerava-se o senhor da razão.

A nação estava em frangalhos, mergulhada em crise ética, política e econômica, e o horizonte da esperança espelhado em trevas. Pelo país afora havia milhares de desempregados, criminalidade generalizada, corrupção em todas as instâncias de poder. O câmbio disparara, a moeda nacional perdia valor, o descontentamento era geral. O governo carecia de credibilidade e se via cada vez mais fragilizado. O povo clamava por um salvador da pátria.

Jovens desesperançados viam nele um avatar capaz de inaugurar a idade de ouro. Era ele o cara, surfando na descrença generalizada na política e nos políticos. O Executivo se debilitara por corrupção e incompetência, o Legislativo mais parecia um ninho de ratos, o Judiciário se partidarizara submisso a interesses escusos.

Ele se dizia cristão, e se considerava ungido por Deus para livrar o país de todos os males. Advogava soluções militares para problemas políticos. Movido pela ambição desmedida, se apresentou como candidato à eleição democrática para ocupar o mais alto posto da República, embora ostentasse a patente de simples oficial de baixo escalão do Exército.

De sua oratória raivosa ressoava o discurso agressivo, bélico, insano. Haveria de modificar todas as leis para implantar uma ordem marcial que poria fim a todas as mazelas do país. Eleito, seria ele o comandante-em-chefe, e todos os cidadãos passariam a ser tratados como meros recrutas obrigados a cumprir estritamente as suas ordens.

Prometia fortalecer o aparato policial e as Forças Armadas. Sua noção de justiça se resumia a uma bala de revólver ou a um tiro de fuzil. Eleito, excluiria da vida social um enorme contingente de pessoas consideradas por ele sub-humanos e indesejáveis, mulheres, homossexuais, trabalhadores em luta por seus direitos e comunistas. Todos que se opunham às suas opiniões eram por ele apontados como bodes expiatórios da desgraça nacional.

Seu mandato presidencial haveria de trazer a era de fartura e prosperidade. Reergueria a economia e asseguraria oportunidades de trabalho a todos. Exaltaria os privilégios do capital sobre os direitos dos trabalhadores. Aqueles que o seguissem seriam felizes, e livres para sobrepor a lógica das armas ao espírito das leis. Os demais, excluídos sumariamente do convívio social.

Enfim, após uma série de manobras políticas e forte repressão às forças adversárias, ele foi eleito chefe de Estado. A nação entrou um júbilo. O salvador havia descido dos céus! Ou melhor, brotado das urnas.

Tudo isso aconteceu há 85 anos, em 1933. Na Alemanha alquebrada pela derrota na Primeira Grande Guerra. O nome dele era Adolfo Hitler.

N-E.

Em tempo: Convém não esquecer que A. Hitler teve o explícito apoio dos bispos católicos da Alemanha na altura.

ALERTA À CLASSE MÉDIA

A classe média é a salsicha do sanduíche da desigualdade social. Ela sobe uma rampa ensaboada: quanto mais se esforça para atingir o topo, mais escorrega para baixo. Trata-se de uma classe híbrida, com variados perfis. Há quem já tenha nascido na classe média, filho de profissionais liberais. Há os que vieram da classe assalariada ou da zona rural e ascenderam socialmente graças à escolaridade que seus pais não tiveram. Há ainda quem se refira nostalgicamente à fazenda ou à casa espaçosa dos avós, gente outrora abastada, cujos netos agora moram em apartamentos e ganham menos do que gostariam.

A classe média ascendente é mais conservadora. Sonha atingir o cume da pirâmide social. Regozija-se por haver trocado a carteira de trabalho assinada pelo negócio próprio e a periferia sem saneamento pela rua asfaltada.

Para esse setor da classe média, a solução para a criminalidade se resume em mais polícias e mais cadeias. Não duvida de que o noticiário da TV fala sempre a verdade. E se sente confortável por possuir carro, celular e computador, ainda que more de aluguel e viva endividado.

A classe média descendente é filha ou neta de uma estirpe que, no passado, teve baixelas de prata, taças de cristal e empregadas dia e noite. É sofrido para quem já foi rei perder a majestade. Por ter meia dúzia de amigos ricos e boa escolaridade, esse setor vive a ilusão de estar muito próximo de ser aceito no seleto clube da elite, embora tenha consciência de que lhe falta o essencial – capital.

Já a classe média média oscila entre o conservadorismo e o progressismo. Os avós são conservadores, cultivam o “American way of life”, enquanto os netos exibem camisetas com a estampa de Che Guevara e votam em candidatos de esquerda.

Entre todos os segmentos da classe média há algo em comum: ai dos filhos jovens se os pais não os socorressem com periódicas ajudas financeiras! Se os avós tiveram empregos bem remunerados, e os filhos alcançaram a época em que ainda era viável fazer poupança, agora os netos estão longe de poder alçar voo próprio. São dependentes familiares. Se não estão desempregados, ganham muito menos do que a geração anterior ao desempenhar as mesmas funções. E sabem que o futuro não é nada alentador...

Não é mesmo. O avanço tecnocientífico engole, cada vez mais, os postos de trabalho. A maioria dos candidatos a um deles não preenche os requisitos mínimos: não é capaz de redigir uma carta, não tem leitura, não domina um idioma estrangeiro, tem baixo nível de cultura geral.

Qual o futuro dessa nova geração? No atual modelo de sociedade consumista, nenhum, exceto para um em cada mil. O sistema vigente é intrinsecamente seletivo e excludente.

A saída seria um modelo pós-capitalista baseado na redução da desigualdade social e na preservação do meio ambiente, ancorado na sustentabilidade, como propõem Thomas Piketty (“O capitalismo no século XXI”), e Glen Weyl e Eric Posner (“Desenraizando o capitalismo e a democracia para uma sociedade justa”). Ou uma sociedade socialista capaz de compatibilizar liberdade individual e justiça social, propriedade estatal e capital privado.

Enquanto não se alcança o ideal, a única solução em curto prazo são políticas sociais centradas na seguridade e na inclusão, e o Estado como indutor do desenvolvimento que prioriza o trabalho, não o capital.

OS SANTOS E SEU AVESSO

Outrora eu nutria profunda veneração aos santos. Homens e mulheres capazes de tantos milagres só poderiam ter existido em outras épocas. Supunha que eu jamais conheceria alguém como aqueles seres sobrenaturais, isentos de preocupações triviais e simples carências humanas.

Ao contemplar suas imagens nas igrejas, suas figuras em ilustrações e santinhos, nada daquilo me parecia humano; eram seres privilegiados até na beleza física, no olhar beatífico, envolvidos por uma auréola de pureza que jamais eu reconheceria em qualquer dos meus contemporâneos.

Com o tempo, deixei os santos nos altares e nas estampas, e fui procurar algo mais humano, mais condizente com a realidade trágica e arriscada da nossa condição terrestre.

Haveria um ser que sentisse raiva e medo, desafiasse os inimigos, chorasse a morte dos amigos, desrespeitasse a lei, rompesse a tradição, sofresse angústia e fome? Alguém repelido como um portador de hanseníase, perseguido como um bandido, caluniado como uma mulher adúltera, e que andasse foragido como um criminoso e acabasse morto como um pária, da maneira mais ignominiosa? E haveria neste mesmo ser humano a plenitude do amor de Deus?

Perdi os santos do céu, mas encontrei este homem na Terra. Ele não tinha a delicadeza nem a beleza dos santos; não provocava a admiração dos reis, nem suscitava a compaixão dos magistrados. Era tão sem atrativos como os bêbados da madrugada, as prostitutas das ruas infectas, os mendigos estirados nas calçadas, os loucos molhados pela própria baba, os presos que nos fitam entre grades, os hansenianos de mãos e pés atrofiados.

Este homem identificava-se com essa escória, fazia-se um deles, entregava-se por eles, e a quem desse um banquete, sugeria não convidar a família nem os vizinhos ricos. Convidasse os pobres, os estropiados, os coxos e os cegos, para se sentir feliz porque esses não têm com que lhe retribuir (Lucas 14, 12-14).

Ainda assim houve quem acreditasse neste homem. Houve quem visse, naquele pregador ambulante, a plenitude do amor de Deus. Não foram muitos, nem eram ricos e poderosos. Foram os pobres, os humildes, os que têm fome de justiça e constroem a paz.

Houve também quem visse nele um perigo a ser contido: “Se o deixamos continuar assim, todos crerão nele, e virão as tropas estrangeiras e destruirão nosso lugar santo e nossa nação. Convém que morra um homem por todo o povo, antes que o povo todo pereça. A partir desse dia resolveram matá-lo” (João 11, 45-53).

Ele fugiu. “Não andava em público” (João 11, 54). Passou à vida clandestina. “Os chefes dos sacerdotes e os fariseus tinham dado ordem para que se alguém soubesse onde ele estava, o denunciasse, afim de que pudesse ser preso” (João 11, 56).

De facto, ele “foi torturado e suportou, não abriu a boca. Por um iníquo julgamento foi condenado, sem que ninguém pensasse em defendê-lo. Deram-lhe sepultura ao lado de facínoras e, ao morrer, achava-se entre bandidos, se bem que não tenha cometido nenhuma injustiça e jamais dito uma mentira” (Isaías 53, 7-9).

Assassinado por dois poderes políticos, este homem ressuscitou. Era o próprio Deus entre nós. Mas quem o reconheceria sob tanta humilhação e sofrimento? “Sendo ele de condição divina, não se prevaleceu de sua igualdade com Deus, mas aniquilou-se a si mesmo, assumindo a condição de servo, tornando-se semelhante aos homens. Por isso Deus o exaltou e lhe deu um nome que está acima de todo nome, para que ao nome de Jesus se dobre todo joelho no céu, na Terra e nos infernos. E toda língua proclame, para a glória de Deus Pai, que Jesus Cristo é o Senhor” (Filipenses 2, 6-11).

Hoje, muitos que almejam o poder se esforçam por transformar este homem em cabo eleitoral. Em nome de Jesus, eles criaram um deus à sua imagem e semelhança... E descartam de seus projetos e programas os direitos dos pobres e excluídos como prioridade.

COMO SEMEAR VIOLÊNCIA

Tome-se um país de 208 milhões de habitantes. Desses, 104 milhões e 200 mil se encontram em idade laboral. Mas o país não oferece trabalho para todos. Estão desempregados 12 milhões e 966 mil. E 65 milhões e 642 mil se encontram fora do mercado de trabalho. (IBGE 31.07.2018). De que vive tanta gente?

Desses 65,6 milhões que não estão empregados nem à procura de empregos, há jovens que preferem se dedicar aos estudos, aposentados e desalentados, ou seja, os que cansaram de buscar emprego. Vivem de quê?

Qualquer anúncio de vagas de emprego atrai milhares de pessoas. Filas quilométricas se formam. A maioria deixa o local sem contratação. São mulheres chefes de família que, ao declararem terem filhos pequenos, são preteridas; jovens sem qualificação profissional; analfabetos funcionais (eles são 15 milhões no país, pessoas com mais de 15 anos que mal sabem ler e escrever).

Hoje, são 17,9 milhões de trabalhadores sem carteira assinada. E o número de trabalhadores com carteira assinada no Brasil é de apenas 35,9 milhões.

O rendimento médio mensal dos trabalhadores ocupados gira em torno de R$ 2.095. Como comparação, o salário mínimo necessário, calculado pelo DIEESE, deveria ser de R$ 3.674 – quase duas vezes mais que a renda média dos ocupados, e quase quatro vezes o salário mínimo nacional, de R$ 954,00. Ou seja, somos uma nação de salários muito baixos.

Um dos fatores que levam empregadores a diminuírem contratações com carteira assinada é a reforma trabalhista do governo Temer, que “flexibilizou” (leia-se: precarizou) as condições de trabalho e aumentou os direitos dos patrões ao reduzir os dos empregados.

Ora, se há cerca de 105 milhões de pessoas em idade laboral no Brasil, das quais 12,9 milhões estão sem emprego e 65,6 milhões sobrevivem da economia informal; se há 15 milhões de analfabetos funcionais; se 63,6 milhões de brasileiros(as) são considerados “ficha suja” pelo mercado, enquadrados no SPC por endividamento; o que esperar do futuro desta nação? O Unicef divulgou, em 13 de agosto, que 60 milhões de crianças e jovens brasileiros vivem na pobreza.

No Enem de 2017, a nota máxima em redação era 1.000. Foram entregues 4 milhões de redações. Apenas 53 mereceram a nota máxima. Como obter emprego qualificado e salário digno quando sequer se sabe redigir?

Para muitos jovens semianalfabetos e excluídos do mercado de trabalho – e eles são milhões – a “saída” é ingressar na criminalidade, em especial no narcotráfico. Não adianta o governo atuar apenas nos efeitos, como aumentar o efetivo policial e multiplicar o número de cadeias. Há que enfrentar as causas. A principal delas é a desigualdade social, seguida da falta de escola pública gratuita e de qualidade.

Segundo o Fórum Brasileiro de Segurança Pública, em 2017 ocorreram 63.880 assassinatos no Brasil. São 175 mortes por dia! Em comparação com 2016 houve aumento de 2,9%.

Como deter essa escalada da violência? Entregando uma arma a cada cidadão, como propõe certo candidato à presidência da República? Instituindo a pena de morte? Ora, se tais medidas fossem eficazes os EUA não seriam um país violento, com a maior população carcerária do mundo: mais de 2 milhões de prisioneiros (o Brasil ocupa o terceiro lugar, logo após a China).

Conclusão: para semear a violência bastam um governo desprovido de políticas sociais; o ensino sucateado; leis trabalhistas que protegem o capital e prejudicam o trabalhador; políticos indiferentes ao bem comum; e cidadãos incapazes de transformar sua indignação em luta por um país melhor.

Edição 139 Junho 2018

SUICÍDIO

Os recentes suicídios da estilista Kate Spade e do chef Anthony Bourdain, somados ao de alunos de colégios de classe alta em São Paulo, exigem reflexão.

Segundo a OMS (Organização Mundial de Saúde, dados de 2015) o suicídio mata mais jovens entre 15 e 29 anos que o HIV. Fica atrás apenas dos acidentes de trânsito.

Nos EUA, o Centro de Controle e Prevenção de Doenças (CDC), órgão do governo, admite aumento de 30% nos suicídios desde 1999, a maioria por armas de fogo. No Brasil, o índice é de 6,9 casos por cada 100 mil habitantes.

São muitas as causas: perda de entes queridos (por morte ou separação), problemas financeiros ou legais, abuso de substâncias químicas (drogas, bebidas, medicamentos), declínio da saúde física ou mental etc. Entre os jovens, perda da autoestima.

Nossas famílias e escolas tratam o tema como tabu. Calam-se sobre o que precisa ser debatido: sexo, falta de afeto, dor, separação, fracasso e morte.

Nessa sociedade neoliberal que enfatiza como valores supremos riqueza, poder, fama e beleza, é indispensável à educação fomentar a consciência crítica perante tal proposta consumista/hedonista e instruir os jovens a lidar com perdas e conflitos emocionais. E se as coisas derem errado em suas vidas, o que fazer?

O suicida é um actor que entra em cena quando cai a cortina do palco. Ele nos interpela. Joga sobre nós o peso da culpa. Por que não fomos capazes de salvá-lo? Deixamos de amá-lo o suficiente? Há várias formas de suicídio e a pior nem sempre é a que faz cessar a vida como fenómeno biológico.

A Bíblia menciona raros casos de suicídios, como Abimelec (Juízes 9,54), Saul (1 Samuel 31, 4), Zimri (1 Reis 16,18) e Judas (Mateus 27,5). A Igreja primitiva silenciou diante do facto, embora eminentes teólogos, como Eusébio de Cesareia, João Crisóstomo, Ambrósio e Agostinho, tenham aconselhado encará-lo com misericórdia.

No século VI, a Igreja passou a negar funerais religiosos aos suicidas. Pouco mais de um século depois, eles foram excomungados. Isso mudou com o novo Catecismo, aprovado pelo papa João Paulo II, em 1983. Embora cometam um atentado ao maior dom de Deus, a vida, deve-se acolher com misericórdia os suicidas induzidos por “distúrbios psíquicos graves, angústia ou o medo grave da provação, do sofrimento ou da tortura”, fatores que lhes diminuem a responsabilidade. E acrescenta: “Não se deve desesperar da salvação eterna das pessoas que se mataram. Deus pode, por muitos caminhos que só Ele conhece, dar-lhes ocasião de um arrependimento salutar. A Igreja ora pelas pessoas que atentaram contra a própria vida” (2283 – Catecismo da Igreja Católica).

Meu confrade frei Tito de Alencar Lima foi levado ao suicídio, aos 28 anos, devido às torturas sofridas sob a ditadura militar, conforme retrato em Batismo de sangue (Rocco), obra levada ao cinema por Helvécio Ratton.

Por ocasião do retorno de suas cinzas ao Brasil, em solene celebração na catedral da Sé, em São Paulo, o cardeal Paulo Evaristo Arns afirmou na homilia: “Frei Tito não se matou. Buscou do outro lado da vida a unidade perdida deste lado.”

OS FUROS DA LAVA JATO

A corrupção é inerente à história humana. Até no grupo de apóstolos escolhidos por Jesus havia um corrupto: Judas Iscariotes. E quantos de nós podem dizer com sinceridade que nunca furtaram manta de avião, sonegaram o imposto de renda, embolsaram o troco excessivo entregue por engano pela caixa do supermercado?

A corrupção decorre da impunidade e da imunidade. Impunidade de empreiteiras, empresas, frigoríficos e bancos que, graças ao caixa dois, tinham (e muitos ainda têm) em mãos juízes, políticos e fiscais. E imunidade assegurada por essa aberração constitucional chamada foro privilegiado, que derruba o princípio angular do direito e legitima a verdade de que nem todos são iguais perante a lei.

Agora, surgiu uma pedra no meio do caminho de corruptos e corruptores: a Lava Jato. Em si, necessária e urgente. É a primeira vez na história do Brasil que políticos graduados e donos de empresas são encarcerados e obrigados a devolver aos cofres públicos parte do que roubaram.

Mas há lisura na Lava Jato? Infelizmente os factos demonstram que não. Promotores buscam vaidosamente a luz dos holofotes; prisões são feitas antes da devida investigação e solidez de provas; frequentes vazamentos jamais são apurados e os responsáveis punidos; e as informações contrabandeadas dos autos para a mídia são preconceituosamente seletivas, focando uns partidos e poupando outros...

No tsunami de corrupção que assola o Brasil, a Lava Jato constitui uma exceção. Onde estão os criminosos descobertos pela Operação Zelotes? Todos soltos. Onde os responsáveis pela catástrofe provocada pela Samarco, em Minas? Todos em liberdade. E as maracutaias do metrô de São Paulo? Debaixo do tapete.

O elitismo é um carrapato que suga privilégios da Justiça. Quanto tempo levará o STF para condenar os culpados e absolver os inocentes? Até hoje o STF não levou nenhum político com mandato à cadeia. E no passo de tartaruga que caracteriza a nossa suprema corte, pode ser que muitos crimes prescrevam. Além disso, a polícia manda algemar, a Justiça manda ao Gilmar…

Uma pergunta que não quer calar: como toda essa montanha de dinheiro roubado pelos réus da Lava Jato transitou do Brasil ao exterior? Levada em mala de turista? A nado? Enfiada em tubos de pasta de dente?

Se o Banco Central tem olhos para qualquer quantia acima de 10 mil reais movimentada entre bancos, como justificar a cegueira diante de vultosas quantias da corrupção?

Não basta espalhar veneno pela casa para acabar com os ratos. Do mesmo modo, enquanto as instituições brasileiras não passarem por profundas reformas, como erradicar o foro privilegiado e divulgar na internet todos os atos públicos, dos salários dos políticos às licitações, os ratos continuarão à espreita, dispostos a aproveitar as múltiplas brechas hoje existentes.

O moralismo causa indignação. Mas não inibe a corrupção.

LIÇÕES DA ESCASSEZ

A paralisação dos camionistas obrigou-nos a enfrentar, sem alternativa, a escassez de produtos essenciais ou ao menos a ameaça de que isso viesse a acontecer.

Durante a paralisação não houve diferença entre ricos e pobres. Aos primeiros também faltou combustível para se deslocarem até onde pudessem adquirir os produtos desejados.

Um abastado advogado paulistano se viu obrigado, pela primeira vez na vida, a andar de metro. Em rua da Zona Norte do Rio vizinhos se puseram de acordo para alternarem seus carros como lotação até o centro da cidade.

Em muitas famílias a incerteza quanto à volta dos camionistas às estradas forçou-as a moderarem o consumo de alimentos, evitando o desperdício.

Todos os dias, 45 mil toneladas de alimentos vão para o lixo no Brasil. As perdas sobre o que é cultivado chegam a 64% e acontecem por toda a cadeia produtiva, sendo, segundo o Instituto Akatu, 20% na colheita; 8% no transporte e armazenamento; 15% na indústria de processamento; 1% no varejo; 20% no processamento culinário e nos hábitos alimentares.

De que vale ser rico quando não se pode fugir da escassez? No cerco romano a Jerusalém, no ano 70, as mais ricas famílias judaicas ofereciam barras de ouro em troca de um punhado de trigo ou uma cesta de tâmaras. Em vão. Ouro não é comestível...

A sabedoria é considerar suficiente o necessário. No entanto, somos pressionados por poderosa engrenagem publicitária que nos induz a considerar imprescindível o que é, de fato, supérfluo. O desejo incontido de possuir algo gera ânsia de consumo em alguns e lucro para outros. A fantasia estimula o desejo. A publicidade cria a fantasia. Não se compra uma roupa, e sim um estilo de vida.

Em Bogotá um padre me contou que, na Quaresma, não incentiva os paroquianos a se privarem dos prazeres da mesa. Promove mutirão de coleta de supérfluos, tudo isso que, em casa, ocupa espaço nos armários e não é utilizado: peças de vestuário, carrinho do bebé, pratos e talheres fora de uso etc. Tudo é destinado a um bazar em bairro de famílias de baixa renda, onde os preços são simbólicos.

Livrar-se de excessos faz bem à alma e ao corpo. Seja de bens materiais, seja disso que acumulamos no espírito: mágoas, ódio, inveja etc. A vida fica mais leve quando ousamos nos despojar.

Europeus da geração do pós-guerra não costumam deixar comida no prato. Guardam a lembrança da escassez. Mas quem sempre teve o privilégio de desfrutar da abundância sofre frente à possibilidade de escassez. A simples ideia de se privar de certos confortos causa tormento. Como a meu vizinho enfurecido diante de seus dois possantes carros estacionados na garagem com gasolina suficiente apenas para uma situação de emergência.

A maioria da população vive em permanente escassez: de salário digno, moradia confortável, serviços de saúde adequados, educação de qualidade, transportes individual e coletivo, acesso à cultura e arte etc.

Isso nada tem a ver com despojamento, e sim com flagrante injustiça, fruto de um sistema económico que torna os ricos cada vez mais ricos e multiplica a multidão de pobres e excluídos.

“Vim para que todos tenham vida e vida em abundância”, proclamou Jesus (João 10, 10). A escassez de bens essenciais e direitos é grave violação de direitos humanos e ofensa a Deus. Frente a isso não devemos admitir a escassez da bem-aventurança da fome e sede de justiça.

A MINHA VISITA AO EX-PRESIDENTE LULA

"Fiquei segunda-feira das 16h às 17h15m com o ex-presidente Lula na cela que ele ocupa na Superintendência da Polícia Federal, em Curitiba. O recinto de 15 metros quadrados abriga a cama junto à janela, uma mesa no centro, esteira para exercícios físicos a um canto e o armário colado à divisória entre a cela e o banheiro. Na parede, uma única foto — ele com filhos, netos e bisneta.

Encontrei-o vestido com um conjunto de moletão azul, muito animado, mais magro e bem penteado. Sobretudo, bem informado. Dispõe de TV aberta, pela qual acompanha o noticiário e se entretém com filmes. Prefere a TV Aparecida, devido à programação de música sertaneja e pela qual assiste diariamente à missa das 18h.

Recebe todas as manhãs um clipping de notícias de jornais, blogs e agências internacionais, o que o ocupa na hora do café. Tem direito a duas horas diárias de banho de sol.

Riu muito quando comentei que figurou como fake news — teria sofrido síndrome de abstenção alcoólica nos primeiros dias de prisão. Já na época das caravanas ele se privou de álcool para não prejudicar a voz.

Há uma relação respeitosa entre ele e os agentes penitenciários, sem, contudo, qualquer aproximação amigável. Dois deles permanecem de plantão do lado de fora da cela, e tivemos que bater na porta para que viessem abri-la para eu sair.

Lula reafirmou que não pensa em retirar sua candidatura a presidente nem apoiar nenhum dos concorrentes, embora confesse sua admiração por Guilherme Boulos, do PSOL. “Como me retirar de uma disputa eleitoral se as pesquisas comprovam que, sozinho, tenho mais votos que a soma de todos os concorrentes?”

Admite não entender por que está preso em Curitiba se a peça da acusação — o tríplex do Guarujá — fica em São Paulo...

Considera que a elite brasileira, que tanto o bajulou durante os 13 anos de governo do PT, hoje se posiciona contra por estar interessada na venda do Estado brasileiro e indignada com a ascensão social da maioria pobre graças às políticas de inclusão adotadas no período em que ele e Dilma governaram.

Segundo ele, um novo golpe estaria sendo armado com a adoção do parlamentarismo via STF, sem consulta plebiscitária como prevê a Constituição.

Disse não estar preocupado com a questão jurídica, e aguarda sereno o julgamento do mérito dos processos nos quais figura como réu. Tem plena consciência de que o caráter político das acusações que o levaram à prisão pesa muito mais.

Hoje, os media mostrá-lo-ão de terno e gravata ao depor por videoconferência em processo que envolve Sérgio Cabral e as Olimpíadas do Rio."

Antes de me despedir, rezamos juntos a Oração do Espírito Santo

Publicado no jornal O Globo

A NATUREZA DE TRUMP

Quem planta limoeiro espera colher limão. No entanto, nossa sociedade, movida pela ótica analítica, e não pela dialética, se acostumou a examinar os factos por seus efeitos e não por suas causas.

O próprio sistema ideológico no qual vivemos cuida de encobrir as verdadeiras causas. Assim, apregoa que há países pobres porque seu povo não é empreendedor; muçulmanos são potenciais terroristas; presos comuns, irrecuperáveis; homossexuais, pervertidos; negros, inaptos às carreiras científicas etc.

Trump surpreende muitos. Sobretudo seus aliados. Ninguém esperava que o seu primeiro soco na cara de governos da América Latina fosse exatamente em gestões que se postavam de joelhos diante da Casa Branca: México e Argentina. Se fosse na cara do governo da Venezuela não teria surpreendido.

Trump deu uma rasteira em seus mais fiéis aliados, como agora faz com os governos europeus, ao adoptar medidas proteccionistas prejudiciais ao Velho Continente e abandonar o acordo nuclear com o Irão.

Trump é louco? Porá fogo no mundo, como Hitler fez na Europa e Nero em Roma? De modo algum. Louco rasga dinheiro, e Trump sabe como multiplicá-lo. Ele é fruto genuíno do sistema cujo valor primordial é a competitividade e não a solidariedade. E aparelha sua administração para consolidar os mais caros “valores” de quem pratica a idolatria do dinheiro: supremacia dos brancos; fortalecimento dos privilégios dos ricos; anulação de direitos sociais, como saúde; liberdade da CIA para sequestrar suspeitos em qualquer ponto do planeta, torturar e manter cárceres clandestinos etc.

Se quem planta limoeiro colhe limões, quem planta essa perversa noção de que é direito natural ser rico em um mundo maioritariamente pobre (a renda de 1% da população mundial supera a de 99%), legitima a desigualdade e a violência.

A propaganda é avassaladora. Tirânica, como analisou Hannah Arendt. Incute-nos a ideia de que só os ricos são felizes, pois têm acesso ao luxuoso e requintado mercado de bens supérfluos. Ou vemos com frequência a TV exaltar quem partilha seus bens ou defende os direitos dos negros e homossexuais?

O sistema não tem o menor interesse nas pessoas, excepto se potencialmente consumidoras. O que importa é o lucro e a acumulação de riquezas. Se um país é pobre, isso resulta de sua falta de cultura e criatividade. Assim, jogam-se para debaixo do tapete as verdadeiras causas: séculos de colonialismo, de tirania a serviço dos países metropolitanos, de extorsão de recursos naturais e exploração da mão de obra.

Exemplo disso é o Brasil, no qual os portugueses tudo fizeram para evitar uma nação de letrados. A primeira impressora desembarcou aqui em 1808, com Dom João VI, mais de três séculos após o início da colonização. E a primeira universidade foi inaugurada em 1920, no Rio de Janeiro.

Trump é um imperador que se acredita revestido de cabelos de ouro. Seu país viola impunemente a soberania de inúmeros outros através de suas empresas e bases militares. Quantas bases militares estrangeiras existem nos EUA? O dólar é a moeda padrão internacional. Se os EUA tossem, a economia global se gripa.

O bom de Trump é que, agora, ele exibe as garras afiadas de Tio Sam. Este já não faz questão de esconder sua verdadeira natureza sob a fachada de bom velhinho. Clark Kent se despe, afinal, de sua cara de boa gente. Quem acreditou na humanização do capitalismo talvez se convença de que serrar os dentes e as garras do tigre não anula a sua natural ferocidade.

ERA DE INCERTEZAS

Vivemos na era de incertezas. Há mais perguntas que respostas. Mais dúvidas que certezas. Navegamos à deriva na terceira margem do rio. Abandonamos a primeira, a modernidade com sólidos paradigmas filosóficos e religiosos, e ainda não sabemos como se configurará a segunda, a pós-modernidade.

Estão em crise as grandes instituições pilares da modernidade: o Estado, a Família, a Escola e a Religião. Vigoram modelos e propostas para todos os gostos.

Em meio à turbulência, emerge com nitidez o mundo hegemonizado pelo capitalismo neoliberal. A financeirização da economia supera a produtividade. A regulação da sociedade se desloca das mãos do Estado para as do mercado.

Se, no século passado, a Europa fez concessões à social-democracia como antídoto à ameaça socialista, agora os direitos sociais retrocedem e novas tecnologias tornam obsoleto o trabalho humano.

Como tudo que é sólido desmancha no ar, é preciso criar exceções e dar consistência ao sistema “globocolonizado” de consumismo e hedonismo. Assim, difunde-se a ideologia da privatização, concomitante ao esgarçamento das instituições. Privatiza-se a política. Já que os políticos fracassaram, entrega-se a administração pública a empresários bem-sucedidos. Já que os partidos se desmoralizaram, cada um que lance mão de seu celular e faça dele sua tribuna de ódio ou aplauso.

Para sustentar essa democracia virtual sobre abissal desigualdade social, cria-se a cultura da apartação. UPPs, não para combater o crime organizado, e sim para assegurar que a turba ignara desça dos morros em fúria ensandecida. Se desaba um prédio ocupado por pessoas sem-teto, a culpa é das vítimas. O discurso do ódio é legitimado até pelo STF ao confundir graves ofensas à honra alheia com liberdade de expressão.

Passamos da era analógica à digital. Mudam também os padrões de relacionamentos. O valor do outro depende de sua posição no mercado. E fora do mercado não há salvação.

Nem tudo, entretanto, se ajusta à mercantilização do planeta em detrimento dos direitos humanos. E o maior desajuste reside em nossa relação com a natureza. Esgotou-se o tempo. A ânsia de lucro poluiu o ar, o mar e a terra. Ou mudamos os nossos paradigmas socioambientais ou a Terra voltará a viver como ao longo de milênios, sem a nossa incômoda presença.

Há que se adotar o desenvolvimento sustentável, no qual estejam incluídos o ecológico, o social e o cultural. No fim da década de 1940, o Japão, arruinado pela guerra, era mais pobre que o Brasil. E quarenta anos depois, quando o nosso país se destacou como a 8ª economia do mundo, o Japão já figurava entre as cinco primeiras. Havia promovido uma revolução educacional, o que jamais fizemos.

Nosso modelo de desenvolvimento continua predatório e são tímidas as iniciativas para que, neste país ensolarado, as energias eólica e solar prevaleçam sobre as fósseis, tão poluidoras do meio ambiente. É preciso mudar os paradigmas do que entendemos por progresso e avanço civilizatório. Os países europeus e os EUA comprovam que crescimento do PIB não significa redução da desigualdade social. E como tem acentuado o Papa Francisco, desenvolvimento que não tem centralidade no ser humano, e sim do acúmulo do capital privado, é antiético.

Quiçá os índios andinos tenham algo a nos ensinar quando sublinham a diferença entre “viver bem” e “bem viver”.

Edição 138, Maio 2018

ARQUIVOS DA DITADURA E MEMÓRIA SUBVERSIVA

As Forças Armadas brasileiras preferem tergiversar a respeito dos arquivos da ditadura. Insistem na versão de que foram queimados. Não haveria nada a ser trazido a público. Ora, impossível apagar a memória daqueles 21 anos de atrocidades.

Mais de 70 anos após o inferno nazista, novos dados ainda vêm à tona. Não será aqui no Brasil que haverão de borrar da história o longo período no qual crimes hediondos foram cometidos pelo Estado, em nome do Estado e por ordem do Estado chefiado por militares, como constam nos documentos da CIA.

À semelhança do genocídio nazista, aqui também vítimas sobrevivem. E jamais haverão de esquecer o tempo em que a arma do Direito deu lugar ao direito das armas. Há mortos e desaparecidos, conforme apurou a Comissão da Verdade, e seus parentes e amigos não admitem que se adicione à supressão de suas vidas o selo indelével do silêncio.

O governo dos EUA, que patrocinou o golpe militar de 1964 e adestrou muitos de seus oficiais, mantém robusto arquivo com o registo das confissões dos algozes. A história é feita de fatos cujos significados dependem de versões. Raramente a versão do poder prevalece sobre a dos vencidos, ainda que esta última demore a emergir, como foi o caso do genocídio indígena cometido por espanhóis e portugueses na colonização da América Latina.

O exemplo emblemático de memória subversiva é a que coloca no centro da história do Ocidente um jovem palestino preso, torturado e assassinado na cruz há mais de dois mil anos. Tudo se fez para que as versões do Império Romano prevalecessem. Os discípulos de Jesus de Nazaré foram perseguidos e mortos, a cidade na qual ele morreu foi invadida e arrasada no ano 70, e os historiadores da época, como Flávio Josefo e Plínio, não lhe dedicaram mais do que uma linha.

Seus feitos e suas palavras, no entanto, não caíram no olvido. As comunidades mediterrâneas que nele reconheceram Deus encarnado preservaram os relatos daqueles que com ele conviveram. Trinta anos depois de o pregarem na cruz, as narrativas, hoje conhecidas como evangelhos, se difundiram. O que se tentou apagar veio à luz.

As Forças Armadas brasileiras podem insistir em não separar o joio do trigo, ao contrário do que fizeram os militares da Argentina, do Uruguai e do Chile, que se livraram do estigma de cumplicidade com o horror. Jamais, porém, haverão de apagar da memória nacional as graves violações dos direitos humanos cometidas pela ditadura.

O pacto de silêncio não cala a voz da história. A memória subversiva não confunde amnistia com amnésia. Somente o silêncio das vítimas poderia salvar os algozes. Mas isso é impossível. O grito parado no ar ressoa. E exige justiça.

PATOLOGIA DO ÓDIO

Nem sempre foi assim no passado. As pessoas discordavam, mas não se odiavam. Mesmo durante a ditadura, divergências políticas não se transformavam necessariamente em antipatias pessoais.

O que sucede? Por que tanta virulência nas redes digitais? Por que xingar desafetos em locais públicos? Por que atirar na caravana do ex-presidente Lula e no acampamento de seus apoiadores?

Nossa racionalidade está esgarçada. A queda do Muro de Berlim fez desabar também as grandes narrativas. O otimismo de Montesquieu cedeu lugar ao niilismo de Nietzsche. A competitividade, exaltada pelo neoliberalismo, se erigiu em valor, desbancando a solidariedade.

Na Alemanha nazista, os supostos arianos se julgaram no direito de eliminar os “impuros”, como judeus, comunistas, ciganos e homossexuais. Na Rússia de Stalin, os dissidentes padeciam na Sibéria ou eram sumariamente eliminados pela KGB. Nos EUA, os negros eram impedidos de frequentar escolas, restaurantes e transportes coletivos preferidos pelos brancos. E ainda há muitos ianques que se consideram uma raça superior.

A seletividade é uma anomalia do poder que traça limite entre os que estão a favor e os que se posicionam contra. Ora, discordar ou se opor é um direito intrínseco à democracia. Nas relações pessoais ou sociais, a imposição do pensamento único é sintoma de tirania.

Hoje, o esvaziamento das instituições abre espaço à animosidade pessoal. Diferenças e divergências não são debatidas apenas nos fóruns apropriados. A despolitização da sociedade faz com que a discordância se manifeste em “vendetta” individual. Não se contradiz o adversário, procura-se aniquilá-lo. Não se procura contra-argumentar, e sim esmagar. Como nos videogames, cada potencial inimigo deve ser virtualmente eliminado. Só a razão do poder prevalece.

As redes digitais nos empoderam. Permitem a cada usuário ter em mãos a sua tribuna de contestação. Já não se faz necessária a representação política. Nem as ideologias. As grandes narrativas cedem lugar às pequenas celeumas. A emoção sobrepassa a razão. Abdica-se da argumentação para adotar a ridicularização.

O linchamento virtual é o efeito dessa carência de ideias e propostas que traz à tona o ódio inflamado. O ego se arvora em supremo juiz e inviabiliza a alteridade. O outro só é percebido como reflexo da imagem de si projetada no espelho narcísico.

O que fazer? Primeiro, desarmar o próprio espírito. Não engrossar o raivoso exército dos que se julgam donos da verdade absoluta. Não transformar a diferença em divergência. Respeitar a singularidade alheia, ainda que ela questione meus valores. Poupar o coração do ódio, este veneno que se ingere na expectativa de que o outro morra.

Ora, o ódio só faz mal a quem acumula dentro de si este sentimento, jamais a quem é odiado. O preceito evangélico de “amar os inimigos” não significa condescendência com a injustiça, e sim abraçar a tolerância e empenhar-se em eliminar as causas que fazem com que seres humanos atuem como monstros cegos pelo paroxismo do mal.

INFORMAÇÃO E CONHECIMENTO

É avassalador o fluxo de informação que recebemos atualmente. Não conseguimos retê-lo. Nossa memória é inteligentemente seletiva. Se me perguntam se ontem vi inúmeras peças publicitárias por ruas e mídias, digo que sim. Se me pedem para mencioná-las, poderia apontar apenas quatro ou cinco.

A mente “pesca” se possui “isca”, ou seja, se focada no que pretende apreender. Isso ocorre quando pesquiso na internet a arte de Aleijadinho ou a política de felicidade do reino do Butão. Então a informação se transforma em conhecimento.

Em visita a uma escola, pedi aos alunos para registrarem no papel quanto tempo cada um navegou na internet no dia anterior. Em média, três horas. Em seguida, solicitei escreverem dez temas apreendidos naquelas horas. A maioria não chegou a enumerar cinco. O que comprova que não navegam; de fato, naufragam... Tempo perdido devido à mente dispersa, desatenta.

Transformar informação em conhecimento requer pedagogia. A informação pode ser falsa, como a de alimentos saborosos destituídos de propriedades nutricionais positivas à saúde. Por isso a publicidade é repetitiva. Empenha-se em nos convencer de que o supérfluo é necessário e está impregnado de valor social. Mexe com a nossa autoestima. Faz-nos sentir que não podemos ser felizes ao prescindir daquele produto, refrigerante ou sanduíche que traz felicidade.

Para que a informação se transforme em conhecimento precisa ser contextualizada. Não basta saber que os EUA disputam com a China a hegemonia mundial. É preciso conhecer por que a China é uma potência; por que os EUA adotam uma política protecionista; por que a ONU propõe a não proliferação de armas nucleares e, ao mesmo tempo, aceita em seu Conselho de Segurança países detentores de ogivas nucleares; por que se admite que EUA e Rússia possuam, juntos, mais de 14 mil ogivas nucleares, capazes de aniquilar várias vezes o nosso planeta.

A mente é um polvo com vários tentáculos. Armazena conhecimento na memória racional. Nem sempre, porém, nos lembramos do que aprendemos, até mesmo nomes de pessoas próximas.

Já a memória emocional grava melhor a informação. Porque nos faz sentir, além de nos fazer pensar. Desperta deleite ao recebermos convite para jantar o prato de nossa preferência ou revisitar uma cidade que nos encanta; ou ojeriza, ao nos deparar com quem nos ofendeu; ou medo ao andar à noite por ruas inseguras.

A informação se faz tanto mais conhecimento quando mais o texto é inserido em seu contexto. Um brasileiro é mais apto a apreender a obra de Machado de Assis do que um alemão, por viver no contexto em que o texto foi produzido. Já o alemão apreende melhor as obras de Goethe.

Daí a importância da experiência na assimilação da informação a ser transformada em conhecimento. Isso não significa que os sentidos sejam confiáveis. Copérnico desbancou Ptolomeu ao provar que o sol não gira ao redor da Terra, como se nos aparenta. Ocorre o contrário.


PADRE FÁBIO DE MELO E A MACUMBA

Quando um sacerdote se torna excessivamente mediático, como ocorre com os padres cantores, sua espontaneidade fica ameaçada. Torna-se um personagem de si mesmo. A fama o sufoca. Entre os padres que priorizam essa forma de evangelização, nutro especial apreço pelos padres Zezinho e Fábio de Melo. Este é um homem aberto, culto, e se esforça para não enxergar no espelho a sua imagem contida nos olhos de seus fãs.

Fábio de Melo reconhece que cometeu uma falha de intolerância religiosa ao ridicularizar a macumba. Com humildade, pediu perdão. De fato, ele expressou a visão preconceituosa da maioria dos católicos frente às tradições religiosas de matriz africana, consideradas por eles meras superstições.

A macumba promove oferendas de alimentos e bebidas, conhecidas como despachos, aos espíritos ou entidades. A pergunta que cabe fazer a nós, católicos, é qual a diferença dos despachos de macumba com as salas de ex-votos nas igrejas? Não seria também mera superstição ofertar a Nossa Senhora ou ao santo protetor réplicas em cera de órgãos e membros cujas curas são atribuídas a milagres ou intervenção divina?

Lembro que na minha paróquia, quando eu era criança, havia cofres para recolher ofertas em dinheiro. Um deles continha a placa “Para as almas”. Ainda hoje me pergunto como as almas embolsavam as ofertas...

Deus não tem religião. Tanto a galinha da macumba quanto o pão da eucaristia são objetos de fé de quem acredita no caráter sagrado da oferenda. O vinho da missa e a cachaça do despacho dependem da crença dos fiéis.

Não é fácil ser tolerante quando se está imbuído de que a religião abraçada é a única admitida por Deus. Ora, a árvore se conhece por seus frutos, frisou Jesus. A boa religião é aquela que suscita tolerância, compaixão, partilha, serviço aos necessitados.

Ainda que eu tenha “uma fé capaz de remover montanhas”, como assinalou o apóstolo Paulo, “e não tivesse amor”, isso não teria o menor valor.

CASA DA MOEDA

Temer se convenceu de que não convém privatizar a Casa da Moeda. Resta agora encontrar recursos para mantê-la.

Fundada em 1694, ali são fabricados papel-moeda, moedas, medalhas, passaportes, selos postais, certificação digital, diplomas, comendas etc.

A moeda é um símbolo nacional. Nela são gravadas estampas de pessoas que se destacaram na história do país, evocações de feitos heroicos ou imagens de nossa flora e fauna.


Entregar a Casa da Moeda a uma empresa privada, possivelmente de capital estrangeiro, equivaleria a desfigurar a nossa bandeira ou deturpar a letra do Hino Nacional. Isso reduziria a autoestima da nação.






Ninguém ignora que o Brasil é, hoje, um país colonizado, que depende de investimentos vindos de fora e da importação de produtos manufaturados e de primeira necessidade, como trigo. Nossa indústria foi sucateada. Sequer fabricamos nossos próprios veículos, apesar de dispormos de tecnologia para tanto.

No Grupo Escolar Barão do Rio Branco, em Belo Horizonte, aprendi que a história do Brasil se divide em ciclos de exportação de matérias-primas. Primeiro, o pau-brasil, que deu nome ao país, em seguida cana-de-açúcar, ouro, café etc.

Desses ciclos não nos libertamos até hoje. A diferença é que, agora, as matérias-primas têm o elegante nome de commodities. Produzimos para o mercado externo, não para o interno. E ainda há quem acredite que os exportadores trazem para as finanças nacionais todo o lucro do que vendem aos estrangeiros, como se não existissem paraísos fiscais.

Entregar a Casa da Moeda à iniciativa privada seria correr o sério risco de estimular a corrupção. Se ela já é endémica com o dinheiro público, pode-se supor o que aconteceria quando o real passasse a ser fabricado por uma empresa particular! E como o único objetivo do capital é o lucro, isso tornaria mais cara a nossa moeda, pois o governo teria de pagar por ela.

Agora o governo Temer insiste em privatizar a Eletrobrás. Não me surpreenderei se, em breve, se decidir privatizar o Estado brasileiro, entregando-o à Confederação Nacional da Indústria. Então já não haverá nem mais Estado mínimo, objetivo dos neoliberais. A nação se tornará uma grande corporação, na qual a cidadania cederá lugar ao clientelismo; os direitos civis, às ofertas do mercado; e a política, à mera administração do negócio chamado Brasil. E, como em qualquer empresa, serão alijados todos aqueles que não forem produtivos, já que manter aposentados, enfermos e idosos é muito dispendioso para a Previdência Social, quanto mais para o capital privado!

Edição 137 Abril 2018

BRASILEIROS CADA VEZ MAIS POBRES

O Brasil se destaca como um dos países mais injustos do mundo. Os dados são do governo Temer, divulgados a 11 de abril deste ano, pela Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua, feita pelo IBGE.

Nossa população atual é de 213 milhões de habitantes. Apenas 1% da população, 2.130 pessoas, recebe 36,1 vezes mais do que ganha a metade mais pobre da população. O rendimento médio mensal dessa metade mais pobre era de R$ 754 em 2017, enquanto a média recebida pelos mais ricos, de R$ 27.213.

Se todas as pessoas que têm algum tipo de renda no Brasil recebessem o mesmo valor mensal, este seria de R$ 2.112. Não é o que acontece. Metade dos trabalhadores com menores rendimentos ganha, em média mensal, R$ 754, enquanto o 1% com os maiores rendimentos recebe, em média, R$ 27.213, ou seja, 36,1 vezes mais.

Em 2017, 5% dos trabalhadores tinham rendimento médio mensal de apenas R$ 47. Houve uma queda de 38% em relação a 2016, quando a renda média mensal desses 5% era de R$ 76.

Houve também queda no percentual de domicílios beneficiados pelo Bolsa Família. Passou da fatia de 14,3% em 2016 para 13,7% em 2017. Temer corta sem dó nem piedade.

Em 2017, 60,2% da população brasileira, (124,6 milhões de pessoas) tinham algum tipo de renda, sendo 41,9% (86,8 milhões de indivíduos) provenientes do trabalho, e 24,1% (50 milhões) originários de outras fontes.

Entre rendimentos de outras fontes, o mais frequente era aposentadoria ou pensão, recebido por 14,1% da população, seguido por pensão alimentícia, doação ou mesada (2,4%); aluguer e arrendamento (1,9%); e outros rendimentos (7,5%), categoria que inclui seguro-desemprego, programas de transferência de renda (como Bolsa Família) e poupança, entre outros.

Em 2017, do total de 207,1 milhões de pessoas residentes no Brasil, 124,6 milhões (60,2%) possuíam algum tipo de renda, seja proveniente de trabalho (41,9% das pessoas) ou de outras fontes (24,1% das pessoas), como aposentadoria, aluguel e programas de transferência de renda.

Outra maneira de constatar a distribuição de renda no Brasil é através da renda domiciliar per capita (por pessoa), calculada da seguinte forma: somam-se todos os rendimentos de um domicílio e divide-se pelo número de moradores.

Em 2017, a renda média domiciliar per capita foi de R$ 1.271. Da massa de R$ 263,1 bilhões gerados, os 20% da população com os maiores rendimentos ficaram com uma parcela superior à dos 80% com os menores rendimentos.

Em 2017, os 10% mais pobres da população detinham apenas 0,7% de toda a massa de renda do País. Já os 10% com mais ricos concentravam 43,3% de toda a riqueza, montante superior à massa detida por 80% da população com renda mais baixa.

Combater a desigualdade social é o principal desafio de um Brasil bem administrado.

Água e Energia, Direitos da Cidadania

De 1 a 5 de outubro deste ano o Movimentos dos Atingidos por Barragens (MAB) realiza, no Rio, seu 8º. encontro nacional. O tema, “Água e energia com soberania, distribuição de riqueza e controle popular”.

Do encontro participarão também a Plataforma Operária e Camponesa de Energia, Via Campesina, Frente Brasil Popular, Movimentos de Afetados por Represas (MAR) e entidades internacionais. O objetivo é formular as bases da construção de um projeto energético popular.

Países ricos, como EUA, China, Alemanha e Inglaterra, altamente dependentes de energia, possuem reservas insuficientes, o que os motiva a controlar das reservas estratégicas de países periféricos. O Brasil é alvo prioritário por deter potencial energético de grande qualidade e quantidade, como o pré-sal e a hidroeletricidade.

Há décadas, governo a governo, nosso país abre mão de sua soberania energética. Hoje, a indústria de produção e distribuição de energia se encontra em mãos do capital privado. Hidrelétricas, linhas de transmissão e distribuidoras pertencem ao capital transnacional, sendo a Petrobras uma exceção.

Embora a maior parte da energia do Brasil proceda de hidroelétricas, consideradas de baixo custo de produção, o brasileiro paga uma das contas de luz mais caras do mundo. Há, porém, exceções, como grandes empresas consumidoras. A Samarco, por exemplo, responsável pelo crime socio-ambiental de Mariana (e ainda impune), recebe energia a preço de custo, o que equivale a dez vezes menos do que paga uma família pelo consumo da mesma quantidade de quilowatts. E tudo isso é controlado pelo Estado, a serviço do grande capital, através da Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel), sem nenhuma participação popular.

O apetite das empresas transnacionais por nosso potencial energético impõe ao governo afrouxar o licenciamento ambiental, permitir a construção de hidroelétricas em áreas indígenas e forçar o deslocamento predatório das populações ribeirinhas.

A soberania energética do Brasil vem sendo substituída pelo conceito de “segurança energética”, ainda que se paguem valores exorbitantes às empresas controladoras. Os trabalhadores do setor são terceirizados e precarizados pela reforma trabalhista do governo Temer, e seus movimentos sofrem criminalização, enquanto a população arca com o aumento das tarifas, do gás de cozinha e dos combustíveis de veículos.

O encontro nacional do MAB visa a reforçar a luta pela soberania energética do Brasil; pelo controle popular sobre o planeamento e execução do setor; e pela adequada destinação da riqueza por ele gerada, de modo a garantir os direitos dos atingidos por barragens e melhor qualidade de vida dos trabalhadores.

Água e energia são bens essenciais à vida humana e planetária, e não podem ser consideradas meras mercadorias. Portanto, deveriam estar excluídos do direito de apropriação privada.

Há que pressionar o governo para que os recursos do pré-sal sejam aplicados em saúde e educação, geração de empregos e garantia de direitos da cidadania.

FACTOR LULA

Difícil prender Lula. Ainda que detido na Polícia Federal, em Curitiba, a presença dele impregna o imaginário de parcela significativa do povo brasileiro. Impossível ignorá-lo. E isso vale também para quem o odeia e comemora a sua prisão.

O Brasil carece de heróis. Os poucos que transcendem o período no qual viveram são admirados justamente por terem resistido às forças do conservadorismo, de Zumbi a Tiradentes, de Antônio Conselheiro a Lampião, de Marighella a Chico Mendes, de Betinho e Marielle.

Não há como condenar Lula ao olvido. Vários factores excepcionais moldaram a sua biografia singular: a miséria da família em Garanhuns (PE); a mudança para São Paulo em pau-de-arara; o líder sindical que escapou da cooptação da esquerda e da direita, e liderou as mais expressivas greves operárias de nossa história durante a ditadura militar; a fundação do PT; os dois mandatos presidenciais encerrados com 87% de aprovação etc.

Ainda que a Justiça o condene como corrupto, no imaginário popular o fiel da balança se inclina a seu favor. Por simples razão: a Justiça brasileira é leniente com os poderosos (ainda que a Lava Jato por vezes se esforce por reverter essa tendência) e severamente cruel com os pobres acusados de pequenos delitos.

Fora Lula, quantos políticos o STF condenou até hoje? Quantos de nossos 600 mil encarcerados têm acesso a advogados? E a juízes? Os julgamentos são considerados imparciais?

Na opinião pública, o juiz perde credibilidade ao aceitar, além de gordo salário, injustificáveis privilégios, como auxílio-moradia e auxílio-“salsicha” (alimentação).

De pouco mais de dois mil juízes e desembargadores do estado de São Paulo, apenas 168 abrem mão dessas mordomias (informação de um desembargador).

O Brasil é, hoje, uma nau sem rumo. Nosso futuro é imprevisível. Sua sinalização ocorrerá em outubro, com o resultado da eleição presidencial. E qualquer que seja o resultado, a nação não será apaziguada. Nossas divergências não se situam no patamar das ideias, e sim da esfera social, onde as disparidades de renda são gritantes. A opulência da Casa Grande não logra ofuscar a miséria que multiplica corpos estendidos nas calçadas, e ainda aquece o caldo de cultura da violência urbana e rural.

Enquanto não houver um governo que faça do Estado indutor do desenvolvimento social, adotando políticas que combatam as causas das desigualdades, o Brasil não superará essa atual etapa de sebastianismo. Porque é inegável que Lula presidente deu passos significativos na direção de maior justiça e inclusão sociais.

ESPIRITUALIDADE E POLÍTICA

Para justificar decepções e encobrir omissões, criamos estereótipos. Na atual conjuntura, a demonização da política e dos políticos. Tal maniqueísmo favorece exatamente o que se critica, a má política.

Distanciar-se da política é se refugiar em suposta redoma de vidro enquanto grassa o dilúvio. Muito pouca coisa é insubstituível na história humana. Uma delas é a política. Ainda não se inventou outra forma de nos organizar como coletividade. A política permeia todos os espaços pessoais e sociais, da qualidade do pão do café da manhã ao acesso à saúde e à educação.

Se a política é “a forma mais perfeita de caridade”, como enfatiza o papa Francisco, por ser capaz de erradicar a fome e a miséria, as estruturas políticas são passíveis de severa crítica quando favorecem a desigualdade e a corrupção.

A política não é intrinsecamente nefasta. Nefasto é o modelo político que sabota a democracia, privilegia a minoria rica, e nada faz de eficaz para promover a inclusão social. Ao contrário, permite ampliar a exclusão e reforça os mecanismos, inclusive repressores, que impedem os excluídos de avançarem da margem para o centro.

Todos os grandes mestres espirituais foram políticos. Buda se indignou ao transpor as muralhas de seu palácio e se deparar com o sofrimento dos súditos. Jesus, na versão de sua mãe, Maria, veio para “derrubar os poderosos de seus tronos e exaltar os humildes, despedir os ricos com mãos vazias e saciar de bens os famintos” (Lucas 1, 52-53). Pagou com a vida a ousadia de anunciar, dentro do reino de César, outro projeto civilizatório denominado Reino de Deus.

A política é uma exigência espiritual. Santo Tomás de Aquino preconizou não poder esperar virtudes de quem carece de condições dignas de vida. A política diz respeito ao outro, ao próximo, ao bem-estar da coletividade. Repudiá-la é entregá-la às mãos daqueles que a transformam em arma para defender apenas os próprios interesses.

Se a política perpassa os aspectos mais íntimos de nossas vidas, como dispor ou não de um teto sob o qual se abrigar das intempéries, nem todos participam do mesmo modo. Há múltiplas maneiras de fazer política, seja por participação, seja por omissão.

O modo mais universal é o voto, uma falácia quando o povo vota e o poder econômico elege. Um embuste quando a democracia é como Saci-Pererê: os eleitores decidem quem administrará o país, mas não como os recursos da nação serão utilizados.

Se não há democracia econômica, se a desigualdade se agrava, a democracia política é uma farsa. De que adianta a Constituição, uma carta política, proclamar que todos têm direito a uma vida digna se a estrutura socioeconômica impede a maioria de desfrutar de fato deste direito?

No reino de César, Jesus rogou ao Pai: “Venha a nós o vosso reino”, ou seja, o projeto civilizatório no qual todos “tenham vida e vida em abundância” (João 10, 10). Esta a espiritualidade que move quem se empenha em fazer da política ferramenta de libertação, não de opressão e exclusão.

MINHA SEGUNDA DESPEDIDA DE LULA

Às 7 da manhã da sexta, 6 de abril, despertei Lula que dormira em um quarto improvisado, sobre um colchão estendido no chão, na sede do sindicato dos metalúrgicos do ABC, em São Bernardo do Campo. Fui me despedir do amigo, já que eu tinha voo marcado para as 10h.

Recordamos que há 38 anos, também em abril, eu dormia na casa dele quando os policiais do DEOPS foram prendê-lo por liderar a greve metalúrgica contra a ditadura militar.

Em tempos de intolerância, guardo sempre a lição que o ódio é um veneno que você toma esperando que o outro morra... Por formação e princípio cristão, não confundo amizades com divergência de ideias. Em minha família há pessoas de diferentes ideologias e atividades profissionais, inclusive generais e banqueiros. Na Lava Jato, visito também Otávio Melo Azevedo, ex-presidente da Andrade Gutierrez, meu vizinho na adolescência em Belo Horizonte, e José Carlos Bumlai, que participou ativamente do Fome Zero quando, no início do governo Lula, coordenei com Oded Grajew a mobilização social.

Apesar de minhas críticas aos governos do PT (muito antes de se descobrir o mensalão), contidas nos livros “A mosca azul – reflexão sobre o poder” e “Calendário do poder”, ambos editados pela Rocco, nunca se quebrou a amizade de quarenta anos entre mim e Lula.

Dos valores evangélicos aprendi que pessoas não são discrimináveis, ainda que não se esteja de acordo com suas ideias e atos. Em especial quando se encontram em dificuldades. Esta foi a atitude de Jesus com a mulher adúltera e o rico Zaqueu, a Madalena “possuída por sete demônios” e o centurião romano ocupante da Palestina, entre outros.

Lula demonstrava serenidade. Perguntou-me pela família e por amigos comuns, inclusive Ricardo Kotscho, a quem fez questão de acordar para um papo telefônico.

Disse-me que não iria se apresentar em Curitiba. A polícia que viesse buscá-lo. Considera prepotente a ordem de prisão emitida pelo juiz Sérgio Moro quando ainda não se haviam esgotadas as medidas processuais adotadas pela defesa.

Recordou que ao ser preso, em 1980, sentiu mais inquietação do que agora. Não tinha ideia para onde os policiais da repressão o conduziam. Havia muita cerração na Via Anchieta, no trajeto entre sua casa em São Bernardo do Campo e a carceragem do DEOPS, em São Paulo.

Ficou aliviado quando escutou, no rádio da viatura, a notícia de sua prisão, divulgada por Dom Paulo Evaristo Arns, cardeal-arcebispo de São Paulo, e Dom Cláudio Hummes, bispo de Santo André, a quem eu telefonara tão logo os policiais o levaram.

Nesta sexta-feira, como em 1980, oramos juntos. E lembramos que, no dia seguinte, seria aniversário de Marisa, sua companheira por 43 anos.

FETICHE DO PODER

A partir de agora o presidente da China pode ser sucessivamente reeleito. Isso significa um retrocesso aos tempos imperiais. A diferença é não ser considerado imperador, e sim ditador.

Com plenos poderes nas mãos, Xi Jinping cuidará de afastar da máquina pública todos os potenciais adversários. Só dois fatores poderão derrubá-lo: um golpe de Estado ou a morte.

“O poder desperta a ambição e faz multiplicar a cobiça”, dizia Aristóteles. Os espanhóis cunharam um provérbio que diz o mesmo em outras palavras: “Si quieres conocer a Juanito, dale un carguito” (Se queres conhecer a Juanito, dá-lhe um carguinho). Em dois anos no Palácio do Planalto, como assessor presidencial, aprendi que o poder não muda ninguém, faz com que as pessoas se revelem.

Por que o poder é a mais sedutora ambição do ser humano e a maior de todas as tentações, acima do dinheiro e do sexo? Porque virtualmente possibilita a realização de todas as demais ambições. Ele “diviniza” o poderoso. Sempre cercado de quem lhe faz eco, se reveste de imunidade e impunidade. Qualquer de suas palavras e atitudes é sucedida de elogios, o que o priva da capacidade de autocrítica.

O poder nasceu democrático. Toda a tribo debatia como abater o mamute e distribuir a carne à satisfação de todos. À medida que a tribo trocou o nomadismo pelo sedentarismo, tornou-se possível conservar o excedente da caça e da colheita. A apropriação desse excedente empoderou seus responsáveis. Poder legitimado por xamãs, feiticeiros e sacerdotes que sacramentaram a autoridade da minoria sobre a maioria.

Se na monarquia o poder se deslocou de Deus para os reis, na democracia ele trocou o trono pelas ruas. O poder seria concedido pelo povo e em seu nome exercido. Isso de fato jamais aconteceu. Os eleitos criaram uma enorme barreira entre a rua e o palácio – a burocracia estatal. Instituições intermediárias, como partidos, ministérios, agências reguladoras e o aparato policial militar, tornam o governo praticamente impermeável às demandas populares.

O poder é, sim, permeável às demandas da elite, manifestadas pela mídia, bancos e empresas. Em uma sociedade marcada por abissal desigualdade social, o poder é sempre monopólio da minoria afortunada.

A fratura mais grave da democracia é a que separa poder político do poder econômico e submete o primeiro ao segundo. O eleitor vota, a elite financeira elege. Os cidadãos não apenas são excluídos das decisões que regem a economia, como também são retalhados em classes sociais distintas e antagônicas de acordo com a renda a que têm acesso.

Mais importante do que saber quem exerce o poder é discernir para quem ele é exercido. Para uma classe minoritária? Para a maioria da população? “A loucura dos grandes precisa ser vigiada”, alertou Shakespeare.

Em ano eleitoral, os eleitores devem pesquisar bem o perfil e a vida pregressa de cada candidato. E votar naqueles que inspiram confiança de agir com ética por mudanças estruturais em favor da maioria da população.

O QUE É IDEOLOGIA

Toda pessoa recebe, pelo condicionamento social em que está inserida, determinada configuração do mundo e da história pela qual se situa e se entende dentro da sociedade. Esta configuração reúne um conjunto de ideias, valores e princípios de ordem jurídica, social, moral, política e religiosa. A esse conjunto chamamos ideologia.

Ideologia não é algo que se pode ter ou não, dependendo da própria vontade. É algo que se possui sem consciência de que se possui. É a maneira pela qual vemos os acontecimentos da vida e da história, e nos situamos diante deles. São os óculos através dos quais encaramos o mundo de determinada cor e forma. Ninguém enxerga sem os olhos, porém ao enxergar algo ninguém vê os próprios olhos. Assim ocorre com a ideologia. Por meio dela - que resulta de nossas concepções morais, políticas, sociais, artísticas ou religiosas, nem sempre explícitas -, vemos e interpretamos a realidade objetiva na qual nos situamos.

A ideologia expressa nossa teoria sobre a vida, o mundo e a história. Os antigos acreditavam que o cosmos era uma ordem hierarquicamente disposta, e a Terra ocupava o seu centro, em torno da qual girava o sol. Desta óptica ideológica de interpretar o mundo tiravam consequências práticas, como acreditar que pessoas que ocupavam o polo superior da escala social eram mais abençoadas por Deus que as demais situadas na escala inferior. Portanto, além de exprimir certa teoria, a ideologia determina também hábitos e costumes, ou seja, uma práxis.

A maneira de pensar e viver predominante em uma sociedade corresponde geralmente ao modelo ideológico imposto pelo grupo social que domina esta sociedade. Em uma economia competitiva, baseada na acumulação privada da riqueza e na busca desenfreada de lucro, é natural que se acredite que o ideal à felicidade se resume em ser rico, mesmo em detrimento da ampla camada da população desprovida dos recursos mínimos à sobrevivência.

Assim, a ideologia da sociedade consumista impõe seus valores por meio de programas de TV, sites, revistas em quadrinhos, livros de história que evitam interpretar os fatos pelo ângulo dos humilhados e ofendidos. O jovem, mais maleável a essa influência, sonha com a vida opulenta de seus heróis. A propaganda manipula “valores” que socialmente aparecem como os mais importantes na vida: poder, fama, riqueza e beleza. E sugere produtos pelos quais tal “valor” pode ser facilmente alcançado: carro, cigarro, perfume ou roupa de determinada grife.

Para o rolo compressor publicitário, converter uma pessoa significa infundir-lhe novos hábitos de consumo através da crença de que, assim, estará adquirindo um novo status social.

Nada mais ideológico do que alguém supor não ter ideologia. Todos a temos, e ela favorece o nosso altruísmo ou egoísmo, respeito ou preconceito ao diferente, ideal solidário ou arrogância colonialista.

DA EPIDERME À VIDA INTERIOR

Uma das características da pós-modernidade é a redução da cultura a mero entretenimento e a exacerbação dos sentidos em detrimento da razão e do espírito. Para estimular o consumismo, utilizam-se como isca recursos capazes de nos fazer sentir mais e pensar menos. Isso vale para a publicidade, certos programas televisivos e até rituais religiosos.

Dissemina-se uma cultura centrada no epidérmico, na qual há mais estética que ética, nádegas que cabeças, urros que melodias, ambições que princípios, devaneios que utopias.

Tudo é aqui e agora a ser devorado por olhos e ouvidos, o corpo entregue a um frenesim de sensações que faz do prazer simulacro da felicidade e do amor.

Seres relacionais e racionais, como acentuam os filósofos desde Sócrates, somos agora reduzidos a seres extróficos, revirados para fora, estranhos a nós mesmos, como lamentava Kierkegaard, pois a nossa autoestima passa a depender do que vem de fora – da gula e da antropofagia visual aos arremedos da fama, fortuna e poder.

Páscoa significa travessia, passagem. Talvez uma das mais difíceis seja a que nos faz percorrer o caminho entre a epiderme e a vida interior, não para dualizar polaridades, mas para resgatar a unidade ontológica. O budismo tibetano tem razão ao afirmar que, malgrado todo avanço científico e tecnológico, cada pessoa é ontologicamente a mesma desde que o símio tomou consciência de que o galho de árvore em suas mãos poderia servir-lhe de arma de ataque e defesa.

Aristóteles sintetizou-nos em esferas sensitiva, racional e espiritual, como unidade que exige equilíbrio. A exacerbação de uma significa a atrofia das outras. Só a predominância do espiritual é capaz de imprimir sensatez às “loucas da casa”, como disse Teresa de Ávila, evitando o sabor da náusea dos sentidos, descrito por Sartre, bem como o racionalismo que, ao contrário de Tomás de Aquino, julga equivocadamente que a razão é a suprema expressão da inteligência.

Fazer Páscoa em si mesmo é cultivar a interioridade. “Beber do próprio poço”, sugerem os místicos. Desnudar-se de ilusões egocêntricas, jejuar os sentidos, adequar a razão a seus limites, orar e meditar para poder contemplar.

Somos seres vocacionados à transcendência. Como dizia Hélio Pellegrino, cuja transvivenciação comemora agora 30 anos, uma samambaia desfruta de sua plenitude vegetal. Nós, não; escravos do desejo, temos buracos no corpo e na alma. É a “gula de Deus”, da qual falava Rimbaud.

Ao deixar de trilhar as veredas que conduzem ao Absoluto, corremos o risco de nos perder no acidentado terreno que quotidianiza o absurdo: iras e mágoas, inveja e competição, medo e, sobretudo, uma incomoda sensação de não saber exatamente o que fazer desse breve período de existência.

A Páscoa é precedida de morte que, emblematicamente, a tradição cristã qualifica de paixão, um ato de amor, de entrega, que faz refluir tudo aquilo que dispersa, aliena e ilude. Jesus no túmulo simboliza o silêncio, a volta ao mais íntimo de si mesmo, abraçar a solidão sem se sentir solitário.

Edição 136 Março 2018

SOMOS TODOS(AS) MARIELLE

Os assassinatos da vereadora Marielle Franco, do PSOL, na noite de 14 de março, no Rio, e de seu motorista, Anderson Pedro Gomes, equivalem ao do estudante Edson Luis, no Calabouço, em 28 de março de 1968. Este representou o desmascaramento da ditadura militar e de sua natureza cruel, sacramentada pelo AI-5, a 13 de dezembro de 1968.

Agora, o crime organizado escancara suas impressões digitais e proclama que é o dono do pedaço carioca. Não pretenda a intervenção militar extirpar o conluio entre a banda podre da polícia e o narcotráfico, nem ousar defender os direitos humanos dos moradores de favelas. Este o recado dado.

Os tiros que ceifaram a vida de Marielle atingem todos nós que lutamos para que, nas palavras de Jesus (João 10, 10), “todos tenham vida e vida em plenitude”. A morte dos mártires comprova que em vão a injustiça busca predominar sobre a justiça. Gandhi, Luther King, Chico Mendes são apenas alguns exemplos de como os mortos comandam os vivos.

Em fevereiro de 1987, na Moscovo que ainda era a capital da União Soviética, vi imensa fila à porta do cinema próximo à rua Arbat. Exibia-se O arrependimento, transformado em símbolo da glasnot por ter sido proibido durante dois anos, embora seu diretor, George Abuladze, o tenha realizado sob a proteção do então primeiro-secretário do Partido na Geórgia, o ministro das relações exteriores de Gorbachev, Eduard Shervadnadze.

Consegui entrar. O filme, todo gravado na língua da Geórgia, é legendado em russo. Mas a forte beleza das imagens me permitiu entender o roteiro. Trata-se da história do prefeito de uma pequena cidade. Usava bigodinho tipo Hitler, camisa preta ao estilo de Mussolini e cruzava os braços como Estaline. Quando morreu, todos choraram, exceto uma mulher que vivia de fazer bolos em forma de igrejas. Ela era uma das vítimas da prepotência daquela autoridade e insistia em manter o cadáver insepulto. Desenterrava-o a cada noite, para que ninguém se esquecesse daquele que encarnara a opressão.

Marielle é, hoje, uma mulher insepulta. Seu exemplo de vida, seus ideais políticos, sua garra em prol das comunidades marginalizadas nas favelas e das crianças e jovens excluídos de direitos básicos como educação, haverão de perdurar em todos nós que fizemos da vida oferenda destemida para que todos tenham vida.

Somos todos (as) Marielle!

REDES DIGITAIS: O ALVO É VOCÊ!

As redes digitais, ao encurtarem a distância entre estranhos, permitem que se posicionem em relação ao que você expressa. Ao postar uma opinião a respeito de um político, um partido, um facto do noticiário, fica-se totalmente exposto a todo tipo de reação. Saiu do armário, tomou chuva (ou chumbo)!

Muitos internautas com certeza manifestam-se favoráveis, reforçam a sua postura, tratam de felicitá-lo por pensar daquela maneira. Como as redes ultrapassam as fronteiras dos relacionamentos entre amigos, é possível que você não tenha a menor ideia de quem sejam muitos que o apoiam. Assim, a sua autoestima se vê gratificada por tantos que encaram os factos pela mesma óptica que a sua.

Outros, porém, reagem criticamente ao que você posta. Reações educadas de quem contra-argumenta e expõe uma opinião contrária à sua; reações raivosas de quem exala ódio por você ousar pensar como pensa; reações agressivas de quem tenta ridicularizá-lo e profere todo tipo de ofensa para tentar deslegitimar a sua opinião e até mesmo “assassiná-lo” virtualmente.

Diante das ofensas, você se sente ferido em sua autoestima e revida no mesmo nível de baixaria. Ou ignora a agressão, sacode a poeira e dá volta por cima.

A primeira reação comprova que, de facto, você tem baixa autoestima. Entra no jogo armado por seus adversários. E ao revidar no mesmo tom talvez se sinta vingado, mas terá apenas dado murro em ponta de faca.

Suas reações não farão ninguém mudar de opinião. Acima das ofensas a você reina o preconceito. Seus detratores não estão propriamente interessados em contestar suas ideias. Eles odeiam você. Qualquer coisa que você diga é rejeitada de antemão.

É o que seu nome, sua pessoa e suas opções representam que tanto incomodam. Prova disso é que não conseguem ignorá-lo e ficam atentos ao que você posta, como o atirador na trincheira espera que o inimigo erga a cabeça no lado oposto.

Se você, contudo, ignora os detratores é sinal de que suas convicções estão enraizadas e sua autoestima resolvida. O ódio é um veneno que alguém ingere esperando que o outro morra. Como não foi você que ingeriu, o melhor é prosseguir em suas opções ciente de que, como dizia Nelson Rodrigues, a unanimidade é burra, e a diversidade, inclusive de opiniões, é uma das virtudes da democracia.

Não se deixe abalar pelas reações negativas às suas postagens. Nem se permita consumir por essa guerrinha de opiniões que induz inúmeras pessoas a perderem um tempo inestimável (e irrecuperável) transitando pelas redes digitais.

Seja coerente com as suas ideias e opções. E evite ser opositivo, seja propositivo. Saiba que muitos de seus detratores são movidos pela inveja. E inveja é a frustração de não possuir o bem alheio.

Se você é feliz com a postura que assume na vida, que importam ofensas e agressões? Faça do silêncio a sua melhor resposta. Caso contrário você se atolará no pântano das intrigas e se afogará no lago da maledicência.

CAPITALISMO É RELIGIÃO?

O capitalismo é uma religião? Parece que sim. O Vaticano fica no FMI e no Banco Mundial, cujas ordens dali emanadas devem ser religiosamente respeitadas. Roma, em Wall Street. O papa, o presidente do Federal Reserve Bank, banco central dos EUA.

O apóstolo Paulo, Adam Smith. Entre seus teólogos se destacam Locke, Keynes, David Ricardo, Hayek e Friedman. A teologia, o liberalismo. O deus, o Mercado, cujas mãos invisíveis regulam as nossas vidas.

Meca fica em Davos. Todos os anos cardeais e bispos devem peregrinar até a cidade suíça para acertarem seus relógios. Suas basílicas, as Bolsas de Valores, para as quais se voltam atentos olhos, corações e bolsos dos que ali depositaram seus dízimos. As capelas, os bancos, que prometem operar o milagre da multiplicação das moedas confiadas às suas mãos.

Seu dogma de fé proclama que fora do mercado não há salvação. O céu, a riqueza; o purgatório, as dívidas; o inferno, a falta de crédito e a exclusão social. Nas notas de dólar, está gravado In God we trust (Em Deus confiamos). Houve pequeno erro de grafia. A frase correta é In Gold we trust (No Ouro confiamos).

Trata-se de uma religião canibal. Apropria-se até mesmo de Deus ao apregoar que Ele criou o mundo desigual, para que os ricos sejam generosos com os pobres, e estes lutem meritoriamente por seu lugar ao sol.

O que seria dos pobres se os ricos não lhes dessem empregos e pagassem o salário que lhes assegura a sobrevivência?

Seus santos, venerados por gerações, são Rothschild, Rockfeller, Ford, Bill Gates, Mark Zuckerberg e tantos outros afortunados. A teologia é disseminada mundo afora pelas confrarias GM, Sony, Coca-Cola, Nestlé, Apple e muitas outras marcas famosas. Quem é fiel a elas alcançará a felicidade, prometem os arautos da fé financista.

O Santo Ofício são as agências de risco que aprovam ou desaprovam as nações interessadas em investimentos. O catecismo, as obras de Walt Disney, que ensinam às crianças como ser resignadas como Donald, sovinas como Tio Patinhas, imbecis como o Pateta.

O capitalismo aponta os demónios dos quais todos os fiéis devem se manter distantes, como o socialismo e o comunismo. Seu L’Osservatore Romano são o Wall Street Journal e The Economist.

Enquanto o cristianismo prega a solidariedade, o capitalismo incentiva a competição. O cristianismo recomenda o perdão, o capitalismo a desapropriação. O cristianismo, a partilha; o capitalismo, a acumulação. O cristianismo, a sobriedade; o capitalismo, a ostentação.

Nas grandes cidades erguem-se as catedrais desta religião de culto ao dinheiro: os shopping centers. Nele, os fiéis do consumismo se deslumbram diante das sofisticadas capelas que, acolitadas por belas sacerdotisas, exibem os veneráveis produtos dotados do miraculoso poder de imprimir valor a quem os adquire.

Aqueles que cometem o pecado de acreditar em ética, compaixão, partilha e justiça, a religião capitalista, que sacrifica no altar do deus Dinheiro a vida dos pobres para assegurar a dos ricos, condena ao limbo dos excluídos do festim dos eleitos.

CARTA AO GENERAL BRAGA NETTO

General, o Rio precisa de intervenção cívica, e não militar. O Estado fluminense e a prefeitura carioca estão acéfalos.

Em 10 anos de implantação das UPPs houve tempo suficiente para evitar que uma geração de crianças e jovens escapasse das garras do narcotráfico. Cometeu-se o equívoco de instalar postos policiais nas comunidades, e não escolas, cursos profissionalizantes, quadras de esportes, oficinas de dança, teatro, música e literatura.

O Exército brasileiro acumula uma história de fracassos. Promoveu um genocídio no Paraguai, e até hoje os arquivos da guerra no século XIX são mantidos secretos para não envergonharem a nossa história militar. Fez uma matança desnecessária em Canudos para evitar que os nordestinos se livrassem da tutela dos donos de engenhos.

Deixou-se manipular pela Casa Branca, em 1964, para derrubar o governo democraticamente eleito de Jango, e implantou uma ditadura que durou 21 anos.

Não permita, general, que haja novo fracasso. Não autorize seus soldados a se transformarem em assassinos fardados que, ao ingressar nas comunidades, primeiro atiram e depois interrogam.

Sua missão será tão inútil quanto a das UPPs se acreditar que a violência que assola o Rio é culpa apenas do narcotráfico, dos bandidos e das milícias.

As causas é que precisam ser urgentemente combatidas: a desigualdade social, o sucateamento da escola pública, o desemprego, a falência do sistema de saúde.

Não admita que seus soldados e oficiais sejam corrompidos, como ocorre a tantos policiais e autoridades que engordam a conta bancária ao fazer vista grossa para o crime organizado. De onde procedem as sofisticadas armas em mãos dos bandidos? Quem os mantém previamente informados das operações repressivas?

Os problemas não estão apenas nos morros. Estão sobretudo no asfalto, onde residem os que alimentam o narcotráfico, os políticos corruptos, os que permitem que o nosso sistema carcerário seja sede do comando do crime.

Salve a imagem do Exército, general. E convença os governantes do povo fluminense e carioca a renunciarem, para que sejam convocadas eleições antecipadas. A democracia é sempre a melhor alternativa!

Edição 135 Fevº 2018

Tempo de inflexão e reflexão

Jejuar, mas não de alimentos nessa era de dietas anoréxicas que não transferem ao prato alheio o que se priva no próprio. Valem os jejuns da maledicência, da ira gratuita, da empáfia autoritária, do preconceito arrogante, da discriminação insultuosa. Jejuar do monólogo solipsista no celular e dar atenção ao diálogo com o próximo

As quaresmeiras florescem nesta época do ano. Lindas e tristes as flores roxas, delicadas miçangas de um colar inconsútil.

Nos quarenta dias prévios à Páscoa, a fé cristã celebra, antecipadamente, a vitória da vida sobre a morte. Ressurreição experimentada a cada manhã ao despertar. Vindos da inércia e da inconsciência, da perda de si no sono, súbito revivemos! Na curva final da existência, proclama a fé, desponta a eterna benquerença.

Tempo de inflexão e reflexão. De que vale abster-se de carne terrestre ou aérea se as marítimas nos repletam a pança? Sacrifício, ofício de cultuar o sagrado. Não Deus, que se basta, e sim nós humanos, ossos revestidos de carne, o que há de mais sagrado. Feitos de pó cósmico, de partículas elementares consubstanciadas em átomos, congregadas em moléculas, revitalizadas em células. Quarenta trilhões de células em um corpo humano. Umas, revestidas de seda pura, fragrâncias raras e joias preciosas. Outras estiradas nas calçadas, fétidas, famélicas, entorpecidas pela química da fuga.

Jejuar, mas não de alimentos nessa era de dietas anoréxicas que não transferem ao prato alheio o que se priva no próprio. Valem os jejuns da maledicência, da ira gratuita, da empáfia autoritária, do preconceito arrogante, da discriminação insultuosa. Jejuar do monólogo solipsista no celular e dar atenção ao diálogo com o próximo.

Vale abster-se da indiferença e abraçar causas solidárias. Deixar de praguejar contra o mundo e tratar de transformá-lo. Esperar mais de si do que dos outros. Poupar críticas aos efeitos e denunciar as causas. Evitar o pessimismo da razão e alentar o otimismo da vontade. Ousar converter o protesto em proposta.

Tempo de penitência. Descer do pedestal e admitir os graves pecados contra a natureza: poluição dos ares, contaminação das águas, agrotoxização dos alimentos. A corrupção em doses cínicas, pois enquanto se torce pela higienização da política, emporcalha-se o varejo com a sonegação de impostos, o furto de objetos no local de trabalho, o salário injusto pago à faxineira, a propina ao guarda de trânsito, as maracutaias que engordam o lucro pessoal e lesam a coletividade.

Tempo de refluir à interioridade. Dedicar-se às flexões da subjetividade. Trilhar sendas espirituais. Extirpar gorduras da alma. Arrancar a trave do próprio olho antes de apontar o cisco no olho alheio. Cuspir camelos que entopem o coração antes de vociferar perante quem engole mosquitos.

Ah, como é cómodo ser juiz do mundo e proferir duras sentenças condenatórias! Fácil apontar o suposto criminoso, difícil erradicar as causas da criminalidade. Fácil identificar os maus políticos, difícil abandonar a própria zona de conforto para inovar a política.

Em tempo de quaresma há de ter presente que o pior pecado não é o da transgressão, é o da omissão. Graças a ele proliferam tantas transgressões imunes e impunes.

VIOLÊNCIA E DESIGUALDADE

Pelo menos quatro pessoas morrem assassinadas na América Latina a cada 15 minutos, de acordo com informe recente do Banco Mundial. Embora haja redução da pobreza e das desigualdades nos últimos anos, isso não influi na diminuição da criminalidade.

Dos dez países mais violentos do mundo, oito são latino-americanos, assim como 42 das 50 cidades mais afetadas pela criminalidade. A taxa de homicídios no nosso Continente é de 23,9 mortos a cada 100 mil habitantes, a mais alta do mundo. Entre os jovens de 15 a 24 anos, o índice sobe para 92 em cada 100 mil habitantes, mais de quatro vezes a taxa média. No Brasil, há 47 mil homicídios por ano!

Segundo o Banco Mundial, isso se deve ao aumento do tráfico de drogas e do crime organizado; de falhas do sistema judiciário e da impunidade; e da falta de melhor educação e oportunidades de trabalho para os jovens de famílias de baixa renda.

Para enfrentar esse quadro dramático, o banco recomenda a construção de “um tecido social mais inclusivo com maior igualdade de oportunidades”; a implementação de políticas preventivas, com redução dos índices de evasão escolar; e a ampliação da oferta de empregos de qualidade.

O Banco Mundial não se pergunta, em seu relatório, as causas dessa situação. Pesam, evidentemente, o pouco investimento do poder público em educação de qualidade, a corrupção dos políticos e a despolitização da sociedade. Na lógica neoliberal, toda pessoa de “sucesso na vida” é resultado de seu próprio esforço. Ora, isso equivale a esperar que mil alpinistas alcancem, na mesma semana, o pico do Monte Everest, o mais alto do mundo.

É o sistema capitalista, com a sua apropriação privada da riqueza produzida pela sociedade, o grande responsável pela exclusão e desigualdades sociais. Para que uma pessoa atinja o topo da escola social, outros milhares são alijados das oportunidades.

Dos 15 países mais desiguais do mundo, 10 são latino-americanos, nesta ordem: Bolívia, Haiti, Brasil, Equador, Honduras, Panamá, Paraguai, Chile, Colômbia e Guatemala. Entre os países do G20, o Brasil é o mais desigual. Basta dizer que os 10% mais ricos da população ficam com 60%.

Os lucros das empresas, que representam 6% da renda nacional, cresceram 231% entre 2000 e 2015. A JBS que o diga! E isso graças à generosidade do Estado que, via BNDES, canalizou muitos recursos para a iniciativa privada cobrando juros irrisórios. Em outras palavras, o pobre povo brasileiro financiou a multiplicação da fortuna dos ricos.

Enquanto o Brasil não passar por uma profunda reforma tributária a desigualdade social só tende a aumentar. O economista Rodolfo Hoffmann calcula, baseado em dados do Pnad 2015, que a disparidade de renda no Brasil cairia 23% se todos pagassem Imposto de Renda de acordo com as alíquotas em vigor, sem deduções, e os recursos arrecadados fossem canalizados para beneficiar os segmentos mais pobres da população. A queda seria de 27% se fosse criada uma alíquota de 40% de Imposto de Renda para quem ganha mais de R$ 7 mil mensais. E ainda seria maior essa redução se o imposto fosse progressivo, taxando a renda e o patrimônio dos 10% mais ricos.

Mas cadê governo para ousar governar democraticamente, ou seja, a favor da maioria do povo brasileiro?

FANTASIADO DE MIM MESMO

Neste Carnaval me fantasiarei de mim mesmo. Arrancarei todos os adornos que me disfarçam aos olhos alheios: a postura arrogante, o olhar altivo, a função que me faz sentir importante, a roupa que me enfeita a personalidade. Desgravatado, descalço, desgarrado do trio elétrico, buscarei um bar para embriagar-me de utopias.

Do coração extrairei todas as pedras que lhe encobrem a textura de carne: a ira e o ódio, a mágoa e o ciúme, a inveja e a indiferença. Cantarei o samba-enredo das bem-aventuranças e trarei alvíssaras aos que padecem de desesperança.

Desnudado desses artifícios que projetam de mim um simulacro, hei de descer do pedestal que me ampara a elevada autoestima para cortar as asas de minha pusilanimidade. Evitarei assim gravar como epitáfio ter sido o que não sou.

Não abominarei minha acidental condição humana, tão frágil e limitada. Despojado dos fantasmas nos quais me espelho, sairei livre e solto no bloco Nau dos Insensatos. Exibirei o meu rosto lavado com todas as rugas gravadas por minha história de vida. Não me envergonharei dos traços irregulares do meu corpo nem cobrirei a cabeça para esconder meus cabelos alvejados.

Neste Carnaval hei de participar do desfile das escolas de sabedoria. Deixarei Buda calar as vozes que tanto gritam dentro de mim, e pedirei a Confúcio ensinar-me o caminho do equilíbrio. Serei discípulo peripatético de Sócrates e aluno disciplinado na Academia de Aristóteles. Farei coro aos magníficos clamores de Maria por justiça, e dançarei com Hipácia nas pedras lisas do porto de Alexandria. Subirei as ladeiras de Assis para saudar aquele que ousou se desfantasiar por completo, e cruzarei as muralhas de Ávila para beijar as mãos daquela que me instrui nas vias da profundência.

Inebriado pelo vinho de Caná, desfilarei no carro alegórico dos místicos e me deixarei conduzir pelas inescrutáveis veredas da meditação. Ao carro abre-alas convidarei todos os incrédulos que professam fé na vida.

Quero muito júbilo neste Carnaval, festa da carne transfigurada pela alegria do espírito e transubstanciada pela sacralidade que a impregna. Festa de sorriso d’alma e da partilha perdulária de todos os meus bens materiais e simbólicos.

Nesta louvação de Momo, não serei pierrô ou colombina, palhaço ou pirata. Liberto de máscaras e fantasias, ousarei exibir na Praça da Apoteose a nudez de meu lado avesso. Haverão de contemplá-la aqueles que, livres dos óculos da ilusão, abrirem os olhos da empatia.

Quando o som agônico da cuíca se calar no irromper da alvorada, desfantasiado de mim mesmo hei de sambar, em reverentes rodopios, em torno do Mestre-sala: Aquele que nos primórdios do tempo, quando nada havia, quebrou a solidão trinitária no exuberante baile, enfeitado de confetes e serpentinas que, iluminados pelo brilho dos fogos, se fizeram estrelas e galáxias para marcar o desfile evolutivo da mãe natureza.

Então a vida irromperá na avenida em todo o seu esplendor, e a multidão verá que não é mera alegoria.

ATRASOS NA EDUCAÇÃO BRASILEIRA

Os cortes no orçamento da Educação, feitos pela tesoura implacável de Temer, fazem de seu governo uma ponte para o passado.

O IBGE divulgou, no apagar das luzes de 2017, dados do PNAD que retratam a situação educacional do Brasil em 2016. O analfabetismo perdura em 7,2% da população com mais de 15 anos de idade. São 11,8 milhões de analfabetos, equivalente à população de Cuba, que erradicou o analfabetismo em 1961.

Convém lembrar que o PNE (Plano Nacional de Educação), aprovado em 2014, previa para 2015, ano anterior ao dos dados acima, a redução do analfabetismo, que abrangeria apenas 6,5% da população... Prevê ainda a erradicação total do analfabetismo no Brasil para 2024, daqui a sete anos. Além de Cuba, já eliminaram o analfabetismo, na América Latina, Venezuela, em 2005, e Bolívia, em 2008.

Entre os jovens de 14 a 29 anos, 33,4% estavam empregados mas não matriculados em uma escola, em 2016. Estudavam e não trabalhavam 32,7%. Estudavam e trabalhavam 13,3%. E o mais grave: a turma do nem nem, que nem estudava nem trabalhava alcançava o índice de 20,5%, ou seja, 24,8 milhões de jovens daquela faixa etária.

De cada 100 alunos que concluíram o ensino médio, apenas 7 aprenderam o suficiente em matemática, e 28 o conteúdo básico de língua portuguesa. Quantos de nossos universitários são capazes de fazer cálculos simples sem uso de calculadora ou redigir uma carta sem graves erros de gramática?

Apenas 53% dos adolescentes de 15 anos chegam ao ensino médio, com 34% deles ainda no ensino fundamental. Na média dos países ricos, 90% dos estudantes entre 15 e 17 anos já chegam nesta etapa.

Houve algum avanço no Brasil: a fatia de estudantes que concluíram o ensino médio subiu de 53%, em 2010, para 64%, em 2015.

Porém, na educação infantil os índices estão abaixo da média. Apenas 3,1 milhões de crianças de 0 a 3 anos frequentam creches, o que equivale a 30,4% da população nessa faixa etária.

O acesso ao ensino superior avançou no Brasil, mas ainda está abaixo da média. Só 15% dos adultos (25-64 anos) chegam a esta etapa do ensino, abaixo de países como Argentina (21%), Chile (22%), Colômbia (22%), Costa Rica (23%) e México (17%).

A diferença de salário entre quem faz faculdade e quem não faz é maior no Brasil do que em outros países: uma graduação pode render salário até 2,4 vezes maior no país, ante 1,5 na média dos países da Europa Ocidental. Se o profissional tiver doutorado, a diferença é de 4,5 vezes, mais do que o dobro da Europa Ocidental.

O salário pago aos professores brasileiros também está abaixo da média - paga-se o equivalente a 13 mil dólares por ano, em média, e 30 mil dólares nos países ricos.

Apesar da gravidade dos dados, Temer continua cortando verbas da Educação.

COMUNIDADES ECLESIAIS DE BASE

Londrina (PR) abrigou, na semana de 21 a 27 de janeiro, o 14º Intereclesial Nacional das Comunidades Eclesiais de Base (CEBs). Participaram 5 mil pessoas, entre indígenas, ribeirinhos, sem-terras, sem-tetos, pequenos agricultores e trabalhadores informais, irmanados a 63 bispos. Como tema, os desafios do mundo urbano.

Todos acolhidos em casas de famílias de Londrina, o que barateou o custo do evento e favoreceu o entrosamento entre os anfitriões e os delegados ao 14º intereclesial.

As CEBs, surgidas no Brasil na década de 1960, se disseminaram, primeiro, pelo mundo rural e periferias das cidades. Agora o objetivo é incrementá-las também nos centros urbanos, onde já existem de modo precário.

Nas décadas de 1970 e 1980, as CEBs desempenharam importante papel na conjuntura brasileira. Foram sementeiras de lideranças populares que criaram movimentos sociais e revitalizaram o sindicalismo combativo. Favoreceram a capilaridade nacional do PT, embora jamais tivessem caráter partidário e sempre abrigassem militantes de diferentes partidos.

Dotadas de espírito profético, no sentido bíblico de denúncia das injustiças e anúncio de uma nova sociedade, as CEBs sempre se caracterizaram como um novo modo de ser Igreja e um novo modo de a Igreja ser. Elas não são um movimento eclesial. São a própria Igreja na base social.

Sob os pontificados de João Paulo II e Bento XVI, as CEBs careceram de suficiente apoio de pastores católicos, devido ao fruto mais expressivo gerado por elas: a Teologia da Libertação. Agora experimentam novo alento com o papa Francisco, inspirador e animador dessa opção pastoral.

No encontro de Londrina, elas redesenharam seu papel no mundo urbano brasileiro, tão marcado pela desigualdade social e hegemonizado por uma concepção de desenvolvimento que prioriza os interesses do capital, como a circulação de veículos particulares, e não os direitos de cidadania, como educação, saúde, moradia, transporte e emprego.

Assessorei a plenária dos interessados em formação e educação no mundo urbano. Nos grupos e debates se criticou a crescente privatização da educação escolar e o sucateamento da educação pública. O acesso à escola tende a deixar de ser um direito social para se transformar em mercadoria a ser adquirida por quem pode pagar.

Quanto à formação das CEBs, dois pilares devem norteá-la: a espiritualidade bíblica e a atuação política, no sentido amplo do termo. Como discípulos de Jesus que anunciou, dentro do reino de César, a alternativa do Reino de Deus, os militantes das CEBs devem se aprofundar na vida de oração pessoal e litúrgica, e se comprometer com o projeto de uma sociedade mais igualitária, de modo a atuarem em fidelidade aos valores evangélicos de fome de justiça, partilha dos bens, prioridade aos direitos dos marginalizados e excluídos.

Edição 134 Janº 2018

DAQUI A 100 ANOS

Daqui a cem anos já não serei. O punhado de cinzas que restar da cremação estará integrado ao útero fértil da terra. De minha obra talvez figure, em um catálogo de alfarrábios, não mais que um ou dois livros. Nos arquivos de um convento, um frade curioso saberá que um dia o precedi nas sendas de São Domingos.

A ideia da imortalidade é fardo ridículo de vaidade póstuma. Importam os aplausos após os atores deixarem o palco? A notoriedade não me adula. Mineiro, me convém a discrição, poder parar anônimo em uma esquina.

Bastam-me as letras a me desnudarem frente ao leitor, e a fé de que me aguarda um fim infindo. Quero o colo de Deus. E não mais.

Agora sou um entre mais de 7 bilhões. Como cabe tanta pretensão em tão diminuta pequenez? Por que o coração se infla de ambições? Pra que essa sofreguidão insana, a corrida contra o relógio, a irrefreável gula frente ao mundo circundante?

Fecho os olhos para ver melhor. A meditação me devolve àquele Outro que não sou eu e, no entanto, funda a minha verdadeira identidade. Renova meu oxigênio espiritual. Revolve esse canteiro que trago no mais íntimo de mim, sempre à espera da inefável semente divina. Porque o verdadeiro amor é sempre (e)terno.

Daqui a 100 anos terá sido inútil toda a minha pressa. Essa voracidade d’alma será apenas um definitivo silêncio no tempo. Estarei emudecido pela deslembrança. Não colherei flores da primavera, nem ouvirei o som da flauta em minhas manhãs orantes. Transmutado no ciclo implacável da natureza, serei o que já fui: multidão de bactérias, húmus de um caule que brota, alimento de um réptil.

Tenho 13,7 bilhões de anos. Sei que, como toda matéria, comungo a perene transubstanciação de todas as coisas criadas. Existo, coexisto e subsisto em Universo.

Dentro de poucos anos serei tragado pelo ritmo da entropia. Minhas células se condensarão em moléculas integradas no baile alquímico da evolução. De novo, serei um com o todo, como o oceano resulta da interação de pingos d’água.

Essa certeza recata-me ansiedades. Volto a mim mesmo, ao recôndito do espírito, atento à delicadeza da vida. Tudo é liturgia, basta ter olhos para crer: o pão sobre a mesa, a água derramada no copo, a janela assediada pelo vento, a roda pétrea do amolador de facas, a luz da vela consumindo-se junto ao sacrário, o cheiro doce de manga, o mistério do momento exato em que o sono me sequestra, o grito alegre de uma criança ao colher uma flor no que restar de jardim daqui a 100 anos.

O melhor da existência são as contas de seu colar, as diminutas miçangas que formam belos desenhos, os cacos do vitral. A busca da utopia, a conversa inconsútil com os amigos, a língua perfumada pelo vinho, os salmos recitados na cadência do gregoriano, a sesta de domingo, o gesto de carinho, o cuidado solidário.

Daqui a 100 anos o mundo estará, como sempre, entregue a si mesmo, porém sem o concurso de minhas ambições, pretensões e inquietações.

Meditar no futuro longínquo me aquieta. Impregna-me de algo muito importante: um profundo sentimento de desimportância.

 JULGAMENTO DO JUDICIÁRIO

Na verdade, quem estará sentado no banco dos réus, dia 24, não será o cidadão Luiz Inácio Lula da Silva. Será o Judiciário brasileiro

Lula, o mais destacado líder popular brasileiro da atualidade, vai a julgamento dia 24 de janeiro. Não há como ficar indiferente ao facto.

A expectativa deixa a nação em suspenso. E a divide: de um lado, aqueles que já o pré-julgaram e esperam apenas que a sentença seja confirmada pelos juízes de Porto Alegre; de outro, os que afirmam não haver suficientes provas para condená-lo, e as acusações estão de tal maneira impregnadas de caráter político que extrapolam o exercício imparcial da Justiça.

Estamos em ano de eleição presidencial. Vários candidatos em potencial aguardam o veredicto para tomarem uma decisão. Com Lula no páreo a disputa fica bem mais difícil para os neocandidatos. É o que apontam as pesquisas eleitorais.

Lula adotou uma firme postura frente às acusações que lhe imputam: o ónus da prova cabe ao acusador. Ele se declara inocente, vítima de uma conspiração do Judiciário movido por forças aparentemente “ocultas”.

Os que derrubaram Dilma e empossaram Temer miraram no que viram e acertaram no que não viram. Lula, após oito anos de mandato presidencial, saiu do Planalto com aprovação de 87% da opinião pública. É um dado significativo. E ainda conseguiu emplacar por duas vezes a eleição de Dilma para o comando do país.

Armou-se um golpe parlamentar, à semelhança dos ocorridos em Honduras e Paraguai, defenestrou-se Dilma do poder para dar lugar a Temer, acusado de graves delitos. Porém, a costura saiu pior que o remendo. Temer não consegue alcançar 5% de aprovação. Governa graças ao descarado “franciscanismo” que mantém a maioria da Câmara dos Deputados refém dos cofres do Tesouro Nacional, cuja chave Temer traz em mãos.

Nada indica que Temer logrará fazer aprovar a tão almejada (por ele) reforma da Previdência. Reeleger-se é muito mais importante para a bancada governista do que enfiar agora mais dinheiro no bolso e sofrer desgaste político. Afinal, muitos governistas ostentam no pescoço a corda da Lava Jato, e a reeleição é o modo mais indicado de se manterem afastados do patíbulo.

Qualquer que seja o resultado do dia 24, Lula sai ganhando: absolvido, ficará livre das acusações que lhe são feitas. Se condenado, se tornará um mártir político do Judiciário que condena uns e se mantém cego e leniente diante de outras figuras políticas que cometeram delitos comprovados em imagens e gravações exibidas no noticiário.

Na verdade, quem estará sentado no banco dos réus, dia 24, não será o cidadão Luiz Inácio Lula da Silva. Será o Judiciário brasileiro.

TEMER AGRAVA CRISE SOCIAL

Depois de uma década em queda, a pobreza se ampliou no país desde a recessão iniciada em 2014. De acordo com levantamento do Instituto de Estudos do Trabalho e Sociedade (Iets), pouco mais de 9 milhões de brasileiros foram empurrados para baixo da linha de pobreza em 2015 e 2016, reflexo da deterioração do emprego e da renda. Desses, 5,4 milhões tornaram-se extremamente pobres (ou miseráveis).

São dados da “Síntese de Indicadores Sociais”, divulgada em dezembro pelo IBGE. De acordo com o Banco Mundial e o IBGE, vive na extrema pobreza quem ganha US$ 1,90 por dia (R$ 133,72 mensais); e na pobreza moderada quem recebe US$ 5,50 por dia (R$ 387,07 mensais).

Em 2016, 52,2 milhões de brasileiros(as) viviam abaixo da linha de pobreza, ou 25,4% da população. No caso da pobreza extrema, eram 13,35 milhões de pessoas, 6,5% da população.

Pelos cálculos do Iets, de 2004 a 2014 o Brasil retirou quase 40 milhões de pessoas da pobreza. Nem mesmo a crise mundial de 2008, que provocou pequena e rápida recessão no país, foi capaz de interromper o processo de redução da pobreza. “O retrocesso ocorre de 2014 para 2015. É quando a crise [brasileira] começa a afetar a renda, provocar desemprego e gerar informalidade. Os empregos perdidos na construção civil, por exemplo, afetaram muitos trabalhadores”, disse o pesquisador do Iets.

Francisco Ferreira, economista do Banco Mundial, chegou a conclusões parecidas. A parcela da população em situação de extrema pobreza cresceu de 4,1%, em 2014, para 6,5% em 2016. Em entrevista ao jornal Valor, José Graziano, diretor-geral da FAO, braço da ONU para alimentação e agricultura, declarou que mais de 7 milhões de brasileiros, mesmo vivendo em situação de extrema pobreza, não recebem nenhum tipo de assistência social. O país, advertiu, pode voltar a integrar o Mapa da Fome Mundial, que a FAO divulga desde 1990.

Em nosso país, todo dia são jogados no lixo 41 mil toneladas de alimentos, suficientes para alimentar 25 milhões de pessoas! Um quarto desse desperdício é culpa do consumidor final. Por isso, é tão baixo o índice de reaproveitamento feito pelos bancos de alimentos: apenas 150 toneladas por mês.

Nossas escolas insistem em ignorar a educação nutricional, e o governo não delimita a propaganda e venda de produtos que prejudicam a saúde, em especial a das crianças. A morte não está embutida apenas em maços de cigarros. Também em refrigerantes, achocolatados, enlatados e embutidos. Sutil, ela se inicia por nos corroer por dentro, na forma de perda de vitaminas, obesidade mórbida, debilitação dos ossos, câncer etc.

No mundo, a FAO calcula que, todos os dias, 1/3 dos alimentos vai para o lixo, o que equivale a 3,5 milhões de toneladas.

Esses dados devem pesar, neste ano de 2018, em nossa consciência de eleitores.

IMPEDIR A ANTIRREFORMA DA PREVIDÊNCIA

Graças à efetiva comprovação de que governo é como feijão, só funciona na panela de pressão, a mobilização popular impediu o Congresso Nacional de aprovar a antirreforma da Previdência proposta por Temer. Agora é hora de esclarecer a opinião pública e pressionar os deputados federais para que, em fevereiro, engavetem de vez essa proposta injusta.

Vamos aos números. O governo mente ao afirmar que a Previdência é deficitária, ou seja, paga mais do que recebe. A CPI da Previdência no Senado comprovou o contrário. Entre 2000 e 2015, o superávit foi de R$ 821 bilhões. Atualizado pela Selic, seria hoje de R$ 2,1 trilhões. Nos últimos 20 anos, devido a desvios, sonegações e dívidas, a Previdência deixou de recolher aos seus cofres mais de R$ 3 trilhões!

A CPI denunciou que um dos meios de desviar recursos da Previdência é pela DRU (Desvinculação de Receitas da União). Entre 2000 e 2015, foram retirados R$ 614 bilhões. Atualizado, esse valor seria hoje de R$ 1,4 trilhão. No ano passado, o percentual de retirada subiu de 20% para 30%. Ou seja, o Planalto toma dinheiro da Previdência para outros fins, e depois a acusa de deficitária...

Segundo Floriano Martins, vice-presidente da Associação Nacional dos Auditores Fiscais da Receita Federal do Brasil, a reforma da Previdência só beneficiará um setor: o sistema financeiro. Este está ávido para se apossar daquele que será o maior fundo de pensão fechado do Brasil: o dos servidores públicos federais. E, como efeito cascata, do funcionalismo estadual e municipal.

A previsão é que ele se transforme no maior fundo de pensão do Brasil ao longo dos próximos 20 anos. Segundo Martins, o governo abre espaço para oferecer previdência complementar fechada a ser gerida diretamente pelos bancos.

O Planalto quer a reforma a todo custo para entregar a previdência do setor público complementar aos fundos de pensão. Ou seja, conclui Martins, se a reforma passar, o trabalhador brasileiro estará condenado a trabalhar até morrer sem se aposentar.

A grande reforma que o Brasil exige é a tributária, de modo a cobrar mais de quem ganha mais, e menos de quem ganha menos. Um dos buracos da Previdência é o volume de sonegação. E o governo Temer ainda ameniza as dívidas dos sonegadores e alivia aqueles que devem ao Funrural, destinado ao trabalhador do campo.

É uma vergonha o secretário da Receita Federal, Jorge Antônio Rachid, admitir à CPI do Senado que serão precisos 77 anos para cobrar dos sonegadores... Esta é uma grave ofensa à inteligência e à dignidade do povo brasileiro que, com o seu trabalho, cobre os buracos deixados pela sonegação.

ANO NOVO, VIDA NOVA?

Estamos à porta de 2018. E o que fizemos de nós mesmos em 2017?

Há em nós abissal distância entre o que somos e queremos ser. Um apetite de Absoluto e a consciência aguda de nossa finitude. Olhamos para trás: a infância que resta na memória com sabor de paraíso perdido; a adolescência tecida em sonhos e utopias; os propósitos altruístas.

Hoje, o salário apertado num país tão caro; os filhos, sem projeto, apegados à casa e ao consumismo; os apetrechos eletrônicos que perenizam a criança que ainda resta em nós.

Em volta, a violência da paisagem urbana e nossa dificuldade de conectar efeitos e causas. Como se os infratores fossem cogumelos espontâneos, e não frutos do darwinismo econômico que segrega a maioria pobre e favorece a minoria abastada. O mesmo executivo que teme assalto e brada contra bandidos, abastece o crime consumindo drogas.

Ano novo. Vida nova? Depende. Podemos continuar a nos empanturrar de carnes e doces, encharcados em bebidas alcoólicas, como se a alegria saísse do forno e a felicidade viesse engarrafada. Ou a opção de um momento de silêncio, um gesto litúrgico, uma oração, a efusão de espíritos em abraços afetuosos.

No fundo da garganta, um travo. Vontade de remar contra a corrente e, enquanto tantos celebram a pós-modernidade, pedir colo a Deus e resgatar boas coisas: uma oração em família, a leitura espiritual, a solidão orante, o gesto solidário que ameniza a dor de um enfermo.

Reencontrar, no ano que se inicia, a própria humanidade. Despir-nos do lobo voraz que, na arena competitiva do mercado, nos faz estranhos a nós mesmos. Por que acelerar tanto, se temos que parar no sinal vermelho? Por que tanta dependência do celular e dificuldade de dialogar olho no olho?

Ano novo de eleições. Olhemos o país. As obras que beneficiam empreiteiras trazem proveito à maioria da população? Melhoram o transporte público, o serviço de saúde, a rede educacional? Nosso bairro tem um bom sistema sanitário, as ruas são limpas, existem áreas de lazer? Participamos do debate sobre a reforma da Previdência? Os políticos em quem votamos tiveram desempenho satisfatório? Prestaram contas do mandato?

Em política, tolerância é cumplicidade com maracutaias. Voto é delegação e, na verdadeira democracia, governa o povo por meio de seus representantes e de mobilizações diretas junto ao poder público. Quanto mais cidadania, mais democracia.

Ano de nova qualidade de vida. De menos ansiedade e mais profundidade. Aceitar a proposta de Jesus a Nicodemos: nascer de novo. Mergulhar em si, abrir espaço à presença do Inefável. Braços e corações abertos também ao semelhante. Recriar-se e apropriar-se da realidade circundante, livre da pasteurização que nos massifica na mediocridade bovina de quem rumina hábitos mesquinhos, como se a vida fosse uma janela da qual contemplamos, noite após noite, a realidade desfilar nos ilusórios devaneios de uma telenovela.

Feliz homem novo. Feliz mulher nova.

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