TEXTOS DE FREI BETTO

Teólogo e Escritor

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Edição 133 Dezº 2017

A DIREITA SAIU DO ARMÁRIO; A ESQUERDA ENTROU

Você é capaz de identificar uma pessoa de esquerda? De direita é óbvio: defende a primazia do capital sobre os direitos humanos, o caráter sagrado da propriedade privada, apoia a privatização do patrimônio público, venera o gigantismo dos EUA, apregoa que “bandido bom é bandido morto”; e costuma ser racista, homofóbica e indiferente aos direitos dos mais pobres.

Ao longo de 12 anos de governo do PT, a direita se manteve no armário. Não tinha razões para exibir as garras afiadas, já que se beneficiava economicamente (robustez da Bolsa de Valores, isenções tributárias, benesses do BNDES, captação de investimentos estrangeiros etc).

Bastou a economia brasileira dar sinais de insustentabilidade para a direita sair do armário, decidida a assumir o controle da nação. A exemplo do que ocorrera em Honduras e no Paraguai, armou-se aqui um golpe parlamentar. Destituiu-se uma presidente democraticamente eleita, isenta de qualquer acusação de ter cometido crime, para empossar Temer, acusado de vários e graves crimes.

A direita errou o alvo. Constrangida, não bate panelas quando Temer dá as caras na TV, nem ocupa as ruas para protestar contra a corrupção escancarada. Mas vocifera raivosamente diante do menor indício de que o Brasil possa vir a ser novamente governado pelo petismo.

O que me parece estranho é a oposição não ir além dos limites do Congresso. Por que o “Fora Temer” não ganha as ruas? Por que os movimentos sociais, sindicais e estudantis permanecem imobilizados, exceto quando se trata de reivindicações pontuais e corporativas, como ocupações de áreas urbanas e rurais? Onde se enfiou a esquerda brasileira?

Somos, hoje, uma esquerda envergonhada. A corrupção nos atingiu e abateu a nossa moral. Ficamos calados frente ao ajuste fiscal proposto pelo governo Dilma. Trocamos um projeto de nação por um projeto de poder. Não cuidamos da alfabetização política do nosso povo. Não criamos uma mídia capaz de se contrapor à versão da direita.

Nossa “pátria-mãe”, a União Soviética, ruiu. A China enveredou pelo capitalismo de Estado. O futuro da Revolução Cubana é incerto. “Proletários de todo o mundo, uni-vos”, exortava Marx. Foram os biliardários do mundo todo que se uniram em Davos. Como assinalou o historiador Perry Anderson: “Pela primeira vez, desde a Reforma, não há mais oposição propriamente dita – de visão de mundo rival – no universo do pensamento ocidental, e quase nenhuma em escala mundial. (...) O neoliberalismo, como conjunto de princípios, reina inconteste no globo” (Renewals, New Left Review, Londres, janeiro de 2000).

E agora, José? Permanecer no armário e aguardar o resultado das eleições de 2018? Quem garante que os eleitos ao Congresso não serão mais conservadores do que os atuais parlamentares? Ainda que Lula escape das ciladas da Lava Jato e vença a eleição presidencial, que tipo de alianças fará para assegurar a governabilidade?

Nós, da esquerda, abandonamos o trabalho de base, a formação de militantes, o enfrentamento ideológico. Sob os escombros do Muro de Berlim ficou soterrado nosso arcabouço teórico. Nunca mais fomos os mesmos. Ao nos afastar da base popular perdemos a vergonha de ser burgueses. Silenciamos quanto ao futuro socialista. Passamos a acreditar que o capitalismo é humanizável, tigre vulnerável a se transformar em gatinho doméstico. Arranha mas não devora...

Se o nosso arcabouço teórico ficou sob o Muro de Berlim, a razão primeira da existência da esquerda se agigantou, mas nem sempre tivemos olhos para ver a grande horda de excluídos e marginalizados. Porém, o pobretariado não figura em nossas cogitações. Até gostamos de governar para ele, não de manter vínculos orgânicos que deem consistência a uma proposta política transformadora.

O passado se foi e não sabemos ainda como reinventar o futuro. Nossas ações pontuais, todas meritórias, não se consubstanciam em uma proposta política com indícios de viabilizar “o outro mundo possível”. Visto de hoje, ele parece impossível.

O que nós, progressistas (poupemos o termo esquerda), queremos de fato: governar para o povo ou governar com o povo?

Apesar dessa ausência de povo nas ruas e aparente inércia, algo de novo brota no seio da esquerda brasileira: a Frente Povo Sem Medo (www.vamosmudar.org.br) e a Frente Brasil Popular, além de tantas lutas assumidas por movimentos indígenas, quilombolas, atingidos por barragens, mulheres, LBGTodos etc. E nas redes digitais se fortalece a oposição ao governo Temer, obrigando-o a recuar em relação a medidas de retrocesso social.

Sem deixarmos de fazer autocrítica, há que guardar o pessimismo para dias melhores.

QUEM SABE FAZ A HORA, NÃO ESPERA RECEBER

O inconsciente histórico brasileiro é repleto de mitos. Como o brasileiro “cordial”, sujeito à interpretação equivocada do que assinalou Sérgio Buarque de Hollanda. Cordial sim, de cordis, coração, por agir mais movido pelo coração do que pela razão. O que explica o paradoxo de os defensores “da família” serem os mesmos que incentivam a homofobia, a exclusão e os preconceitos.

Alardeia-se que somos um povo pacífico, no esforço de favorecer o memoricídio que encobre as inúmeras revoltas que marcam a história do Brasil. Saiba a verdade histórica ao ler “Brasil: uma biografia”, de Lilia M. Schwarcz e Heloísa M. Starling.

O fracasso da tentativa de escravizar nossos indígenas é atribuído à benevolência dos portugueses. Padre Vieira assumiu-lhes a causa e não transigiu em defesa deles. Pouco se considera a própria resistência indígena, que se estende aos nossos dias.

A abolição oficial da escravatura, em 1888 (a última a ser decretada nas três Américas!), teria sido um presente da generosa princesa Isabel. Ora, basta um pouco mais de atenção à história para constatar como foi árdua a luta dos negros escravizados, dos quilombos e das forças políticas abolicionistas que ousaram se posicionar contra o pelourinho.

A República teria sido outra dádiva dos militares, assim como mais tarde Getúlio Vargas, pai dos pobres e mãe dos ricos, teria nos dado a legislação trabalhista que alforriou o nosso operariado do regime de semiescravidão. Assim, silenciam-se acirradas lutas, desde a segunda metade do século XIX, de anarquistas, comunistas e sindicalistas.

A ditadura militar teria concedido aos idosos da zona rural a aposentadoria compulsória. E pouco se fala das décadas de lutas pela reforma agrária e do papel libertário das Ligas Camponesas.

Os governos Lula teriam implantado programas sociais, como o combate à fome, a demarcação de terras indígenas, os benefícios a idosos, estudantes, pessoas portadoras de deficiências etc.

Ora, o PT, fundado em 1980, resultou da confluência das Comunidades Eclesiais de Base, do sindicalismo combativo e dos remanescentes das esquerdas que enfrentaram a ditadura. Portanto, eleito presidente em 2002, Lula simbolizava o resultado de pelo menos 40 anos de lutas populares.

Na história não há direitos regalados e sim conquistados. O que prevalece, entretanto, é a versão de quem está por cima. Versão que visa a encobrir a crueldade da repressão, os crimes hediondos das forças policiais e militares, a chibata, o pau-de-arara, o choque elétrico, as greves e mobilizações, enfim, rios de sangue derramados para que, ao menos na letra da lei, fossem conquistados direitos mínimos de cidadania, agora negados pelo governo golpista de Temer. A propósito, quando serão abertos os arquivos da Guerra do Paraguai?

A versão do poder impregna o inconsciente coletivo e tende a imobilizar. Sobretudo quando o governo agarra o violino com a mão esquerda e toca com a direita. As mobilizações arrefecem, embora a insatisfação se amplie. É o que ocorre hoje. Em nome do “podia ser pior”, setores progressistas ficam a ver “a banda passar”. A banda podre da economia brasileira asfixia os pobres com o ajuste fiscal, preserva os privilégios da elite, e põe a culpa do zika vírus no mosquito, sem admitir que 50% da nação não dispõem de saneamento básico.

Talvez uma parcela considerável da esquerda tenha desaparecido, e eu ainda cometa o erro de ter fé na sua existência. Foi soterrada sob os escombros do Muro de Berlim, cooptada pelo neoliberalismo, aliciada por alianças promíscuas, desmoralizada pela corrupção. Quem sabe isso explique por que há, nas redes digitais, tantos protestos, sem porém nenhuma proposta, exceto a de Lampedusa, “mudar para que tudo fique como está”.

O Brasil se parece ao Titanic. Embora à deriva, muitos acreditam que ele aportará em solo firme em 2018. A orquestra do “vai melhorar” continua a soar aos nossos ouvidos, embora a água já nos atinja a cintura...

Duas lições aprendi em minha passagem pelo Planalto: o poder não muda ninguém, faz com que a pessoa se revele. E governo é como feijão, só funciona na panela de pressão. Sem a mobilização dos movimentos sociais, como no passado fizeram os indígenas, os escravos e os trabalhadores, não haveremos de conquistar direitos e ampliar o espaço democrático. E isso exige algo raro hoje: uma esquerda capacitada na teoria e engajada junto aos segmentos populares na prática.

RICOS PAGAM MENOS IMPOSTOS

O Brasil tem, hoje, 206 milhões de habitantes. Toda a estrutura do Estado, dos tribunais aos recursos para programas sociais, é mantida pelos impostos pagos por 27 milhões de brasileiros. Portanto, pouco mais de 10% da população sustenta, com seus tributos, todo a máquina pública, dos hospitais do SUS aos jantares oferecidos por Temer no Alvorada.

Dos 27 milhões de contribuintes, 13,5 milhões, a metade, recebem, a cada mês, no máximo o equivalente a cinco salários mínimos (R$ 4.685). É muita gente que ganha pouco e, ainda assim, é obrigada a entregar uma fatia ao Leão. E todos os impostos pagos por essa gente correspondem a apenas 1% do que a Receita Federal arrecada por ano.

Um mínimo de justiça da reforma tributária dispensaria esses 13,5 milhões de trabalhadores de pagarem impostos. E isso reverteria em mais saúde, educação, alimentação, enfim, uma vida menos apertada para todos eles.

Quem mais canaliza recursos para o Leão são pouco mais de 2 milhões de pessoas que ganham, por mês, de 20 (R$ 18.740) a 40 salários mínimos (R$ 37.480).

Apenas 0,5% da população economicamente ativa - pouco mais de 1 milhão de pessoas - ganha por mês de 40 a 160 salários mínimos (R$ 149.920).

E acima desses milionários há ainda uma categoria mais privilegiada, segundo dados revelados pela Receita Federal: as 71.440 pessoas que têm renda média, anual, de R$ 4 milhões, e patrimônio calculado em R$ 1,2 trilhão. Graças a elas o Leão abocanha, por ano, cerca de R$ 300 bilhões – 14% da renda total das declarações de IR.

Em 2013, desses super ricos, 52 mil receberam lucros e dividendos isentos de IR. Do total de rendimentos desses bilionários, apenas 35% foram tributados pelo IR de pessoa física. Já na faixa de quem ganha de 3 a 5 salários mínimos, mais de 90% da renda foram abocanhados pelo Leão.

Portanto, fica evidente que, no Brasil, o trabalhador assalariado paga imposto, o que não acontece com os lucros dos bilionários. Alguém poderia objetar: mas todos pagamos IPTU! Sim, mas os imóveis em bairros de classe alta são taxados na mesma proporção dos que se situam em bairros habitados por famílias de baixa renda. E os imóveis rurais não pagam quase nada de IR, além de obterem crédito barato.

Para alcançar uma boa arrecadação sem pôr a culpa na Previdência, bastaria a Receita Federal cobrar devidamente de 100 mil dos 17 milhões de contribuintes.

Uma reforma tributária deveria, para ser efetiva, isentar todos que ganham, por mês, até 10 salários mínimos (R$ 9.370); adotar o imposto progressivo e taxar mais os ricos, inclusive mudando as regras que lhes permitem isenção e desconto para lucros e dividendos; cobrar Imposto Territorial Rural das propriedades do campo; e tributar as heranças, exceto pequenos valores.

O Brasil tem solução. Faltam apenas vontade política e vergonha na cara.

Francisco quer a Igreja fora das igrejas

N.E. Mas o papa Francisco bem pode esperar sentado. Enquanto ele próprio não deixar definitivamente as sumptuosas liturgias na basílica de S.Pedro, o Estado do Vaticano, covil de ladrões, e não erguer a sua tenda num dos bairros da sua Argentina, bem pode esperar sentado. Nenhum dos milhares de bispos residenciais pratica esse falar do papa, quando ele próprio faz como Frei Tomás, Diz mas não faz!!!

Semana passada, em Nova Iguaçu (RJ), agentes pastorais, membros de Comunidades Eclesiais de Base, adeptos da Teologia da Libertação, do Movimento Fé e Política e de movimentos sociais se reuniram para aprofundar a proposta do papa Francisco de “uma Igreja em saída”.

Diminui o número de católicos no Brasil. A pesquisa Datafolha, de dezembro de 2016, comprovou redução de 9 milhões de fiéis em dois anos. Naquela data, apenas 50% dos entrevistados se autodeclararam católicos.

O papa Francisco está ciente da crise do catolicismo. Por isso, propõe uma “Igreja em saída”. Isso significa romper os muros clericalistas que amarram a Igreja aos templos; flexibilizar as leis canônicas (como admitir o recasamento de divorciados); e modificar os parâmetros ideológicos (que consideram o catolicismo conatural ao capitalismo).

Esse projeto de Francisco se choca com a “restauração identitária” ou, nas palavras do teólogo e meu primo João Batista Libanio, “volta à grande disciplina”, defendida por João Paulo II e Bento XVI. Propunham a leitura dos documentos do Concílio Vaticano II à luz do Vaticano I: predominância do Direito Canônico; Catecismo da Igreja Católica; desestímulo às Comunidades Eclesiais de Base; aceitação da liturgia tridentina; valorização dos movimentos papistas; e desconfiança diante da sociedade (tida como relativista e niilista).

Para o projeto de “restauração identitária”, o papel da Igreja é salvar almas. Para o de “Igreja em saída”, é libertar a humanidade da injustiça e da desigualdade. As pessoas se salvam salvando a humanidade de tudo que a impede de ser a grande família dos filhos e filhas de Deus. Daí a proposta de Francisco ao incentivar os movimentos sociais a lutar por três T: terra, teto e trabalho.

O primeiro projeto quer uma Igreja centrada na liturgia e nos sacramentos, na noção de pecado, na submissão dos leigos ao clero. Guarda nostalgia dos tempos em que a Igreja Católica ditava a moral social; merecia a reverência do Estado, que a cobria de privilégios; e, hoje, seus adeptos se sentem incomodados frente à secularização da sociedade e aos avanços da ciência e da tecnologia.

Ora, quantos jovens batizados na Igreja Católica estão hoje preocupados com a noção de pecado? Quantos temem ir para o inferno ao morrer? Quantos se preservam virgens até o casamento?

O projeto de Francisco é de uma Igreja descentrada de si e centrada nos graves desafios do mundo atual: preservação da natureza; combate à idolatria do capital; diálogo entre as nações; acolhimento dos refugiados; misericórdia às pessoas; protagonismo dos movimentos populares; centralidade evangélica nos direitos dos pobres e excluídos.

Bento XVI renunciou por reconhecer o fracasso do projeto de “restauração identitária”, ainda apoiado por expressivo número de bispos, padres e religiosas, incomodados com as orientações do papa Francisco, a quem alguns criticam abertamente.

O novo jeito de ser católico, proposto por Francisco, corresponde ao que dizia são Domingos, fundador da Ordem religiosa a que pertenço: “O trigo amontoado apodrece; espalhado, frutifica”. Sair da sacristia para a sociedade; encarar o mundo como dádiva de Deus; descobrir a presença de valores evangélicos em pessoas e situações desprovidas de fé ou religiosidade; buscar o diálogo ecumênico e inter-religioso; estar menos na Igreja para se fazer mais presente no Reino de Deus – categoria que, na boca de Jesus, se contrapunha ao reino de César, e significa o mundo no qual a paz seja fruto da justiça, e não do equilíbrio de armas.

A meta é o Reino de Deus, no qual “Deus será tudo em todos”, como prenunciou o apóstolo Paulo (I Coríntios 15, 28). O caminho para atingi-lo inclui os movimentos sociais, as instituições da sociedade, as ferramentas políticas. E a Igreja funciona como “posto de gasolina” para abastecer-nos na fé e na espiritualidade capaz de nos estimular como militantes da grande utopia - o mundo que Deus quer para seus filhos e filhas viverem com dignidade, liberdade, justiça e paz.

Edição 132 Novembro 2017

TEMER E O LAMAÇAL DA SAMARCO

Completaram-se dois anos do maior desastre socioambiental ocorrido no Brasil. As vítimas continuam desamparadas e os responsáveis, impunes.

Segundo o Ibama, 68 penalidades foram impostas à mineradora Samarco e suas acionistas, Vale e BHP Billiton. O valor somado é de R$ 552 milhões. Porém, apenas uma, no valor de 1% do total, e parcelada em 59 prestações, começou a ser quitada. As outras 67 condenações estão pendentes de recursos, graças à morosidade do Judiciário brasileiro.

Acresce-se a isso a suspensão da ação penal para punir os responsáveis pelas 19 mortes provocadas pela tragédia e a devastação do Rio Doce.

O acidente derrubou centenas de casas, inundou pastos e lavouras, privou de alimentos índios, pescadores e ribeirinhos, deixou 1 milhão de famílias sem água e trabalho, e afetou a biodiversidade da bacia do Rio Doce, hoje amargada por 40 bilhões de litros de rejeitos de minério de ferro.

O Comitê Nacional em Defesa dos Territórios Frente à Mineração identificou que esta atividade se destaca como um dos setores que mais contribuíram com as campanhas políticas de 2014. A mineração perde apenas para bancos, construção civil e agronegócio. As empresas mineradoras doaram R$ 32,7 milhões a 15 partidos. Priorizaram candidatos dos três estados de maior atividade mineradora: Minas, Pará e Bahia.

O PMDB arrecadou 13,8 milhões; o PSB, 5,7 milhões; o PT, 4,3 milhões; o PSDB, 3,6 milhões; e o PP, 1,7 milhão.

O governo Temer agrava o cenário ao editar três Medidas Provisórias (789, 790 e 791/17) destinadas a alterar o Código de Mineração. As medidas visam a favorecer as empresas do setor: criar uma agência reguladora em substituição ao DNPM (Departamento Nacional de Produção Mineral); alterar as alíquotas da Compensação Financeira pela Exploração Mineral, de modo a facilitar empresas mineradoras a pagarem menos royalties; favorecê-las ao promover leilões virtuais para disponibilizar áreas de extração mineral; adotar fiscalização por amostragem, pondo em risco a vida de milhões de pessoas e a natureza, o que significa a possibilidade de ocorreram tragédias semelhantes à de Mariana (MG).

O Movimento pela Soberania Popular na Mineração alerta que as Medidas Provisórias não levam em consideração “as populações em conflito com os empreendimentos minerários, os trabalhadores da mineração, o meio ambiente e o interesse do povo brasileiro.”

Na proposta de criação da Agência Nacional de Mineração, o artigo 12 assinala que sindicalistas não poderão assumir funções na agência. Mas seria permitido a ex-diretores de empresas do setor...

O Brasil é, hoje, o terceiro maior produtor mundial de minério de ferro, atrás apenas da China e da Austrália. Nos últimos anos, a exploração da matéria-prima pela Vale cresceu 253%. Alcançou 348,9 milhões de toneladas em 2016. Apesar de grande produtora, a China é a nossa maior compradora, e absorve 70% do minério de ferro vendido no mundo.

No Brasil, a mineração tem baixa tributação e privilegiadas isenções fiscais. É isenta de ICMS em produtos e serviços destinados à exportação. Estima-se que as manobras contábeis dão um prejuízo anual de 5,6 bilhões de dólares ao Brasil.

E convém lembrar que minério não dá duas safras!

SILÊNCIO

A simples pronúncia ou leitura da palavra silêncio causa espanto hoje em dia. Quem busca silêncio? Quem sabe fazê-lo? Sintoma que evidencia quão ruidosa é a sociedade pós-moderna.

Vivemos na era panóptica, na qual é difícil escapar de assédios alheios na forma de ruídos. Ruídos não se resumem a sons captados pela audição. Nossos cinco sentidos são permanentemente afetados pela avalanche de informações, imagens, apelos publicitários etc. E a voracidade de querer fazer tudo ao mesmo tempo e estar em permanente conexão digital nos faz experimentar como frustração nossos próprios limites.

Estar só se tornou uma experiência ameaçadora. Tememos a solidão, talvez pelo medo do encontro consigo mesmo. “Amai o próximo como a si mesmo.” Simples. Quem não se gosta não se sente à vontade para estar só. E tem mais dificuldade para amar o próximo.

Náufragos sem boia em pleno mar revolto, urge nos apegar a algo, encontrar urgentemente uma alteridade virtual. Pode ser a TV, o rádio, alguém no facebook ou alguma coisa que nos entretenha e impeça que o silêncio se instaure.

O silêncio é quebrado pela ansiedade e a imaginação, “a louca da casa”. E também por símbolos, logotipos, outdoors, linhas arquitetônicas de mau gosto. A poluição visual desgasta o espírito. A cidade encobre a sua beleza com a propaganda que sujeita o olhar à solicitação incessante.

Em matéria de dependência, a predominância é do celular. Repare no metrô, no ônibus, no aeroporto, em restaurantes e shoppings. Ninguém está consigo mesmo. Quase todos surfam nas redes digitais, muitas vezes envolvidos em contatos desprovidos de afeto e empatia. Pessoas que se tornam objetos de seus objetos, impossibilitadas de se assumirem como sujeitos, incapazes de repetir com Cecília Meireles em “Serenata”: “Permita que agora emudeça:/que me conforme em ser sozinha.”

O silêncio constrange quem não sabe acolhê-lo. Só é suportável quando o sono aplaca a audição. Imagine uma refeição na qual todos se calam em torno da mesa. Seria suficiente para sentir o peso opressivo do silêncio. No entanto, outrora os monges se alimentavam calados. A única voz no refeitório era a do leitor, responsável por nos nutrir a mente e o espírito enquanto cuidávamos do corpo.

Costumo indagar do jovem casal que se prepara para o matrimônio: vocês são capazes de estar sós em uma sala, e permanecer em silêncio sem que um se sinta constrangido pelo fato de o outro não dizer nada? Se a resposta é negativa, alerto para a imaturidade da relação. E do risco de a alteridade dar lugar à submissão de um ao outro.

O silêncio perturba porque nos remete à desafiadora via do mergulho em nós mesmos. Desnudar-se frente ao espelho da subjetividade. Desprover-se de todos os artifícios que nos convocam à permanente exposição. Ousar viajar para a morada interior na qual habita aquele que não sou eu e, no entanto, é ele quem revela a minha verdadeira identidade. Então, o silêncio se faz epifania.

Há pessoas tão densas de silêncio que, sem nada dizer, bradam alto. O silêncio do sábio é eloquente, como o do santo é questionador. Ao se calarem, excluem-se da competição verborrágica. Por isso, sobrepõem-se aos demais. Guardam para si as pérolas que os outros atiram aos porcos.

Saber se calar é sabedoria. Só quem conhece a beleza do silêncio, dentro e fora de si, é capaz de viajar por seu próprio mundo interior - pacote impossível de ser encontrado em agências de turismo. Trata-se de uma exclusividade dos sábios e das tradições espirituais milenares.

Como os poetas expressam o indizível, convém se deixar impregnar pelos versos de Arnaldo Antunes em “O silêncio”: “Antes de existir a voz / existia o silêncio / o silêncio foi a primeira coisa que existiu / um silêncio que ninguém ouviu / astro pelo céu em movimento / e o som do gelo derretendo / o barulho do cabelo em crescimento / e a música do vento / e a matéria em decomposição / a barriga digerindo o pão / explosão de semente sob o chão / diamante nascendo do carvão / homem pedra planta bicho flor / luz elétrica tevê computador / batedeira, liquidificador / vamos ouvir esse silêncio meu amor / amplificado no amplificador / do estetoscópio do doutor / no lado esquerdo do peito, esse tambor.”

ESPERANÇA ABRAÂMICA

Diz o livro do Gênesis que Abraão – patriarca do judaísmo, cristianismo e islamismo – “esperou contra toda esperança”. A atitude retrata o que vivemos hoje no Brasil. Onde colocar a nossa esperança?

Trocou-se um governo ruim por outro muito pior. As políticas sociais estão sendo esgarçadas. A reforma trabalhista anulou direitos conquistados nos últimos 80 anos e sucateou a força de trabalho do brasileiro. O país está à venda para o capital estrangeiro. Em pleno século XXI ainda debatemos o fim da escravidão!

Os três poderes da República estão desgastados. O Executivo é chefiado por uma quadrilha. No Legislativo predominam corruptos e oportunistas. O Judiciário carece de credibilidade, atrela-se ao partidarismo, abre mão de suas prerrogativas, como punir parlamentares, e se enreda em suas divergências internas.

Ah, teremos eleições ano que vem! Ora, engana-se quem deposita as suas esperanças em um avatar. Ou em um Iluminado que, do alto de seu cavalo branco, haverá de brandir a sua espada da moralidade, da ordem e do progresso, e recolocar o Brasil nos trilhos.

Há que ser realista: o perfil do Congresso a ser eleito em 2018 não será muito diferente do atual. A bancada do B (banco, bola, bala, boi e Bíblia) é muito poderosa. Embora esteja proibido o financiamento de campanha política por empresas, o poder econômico haverá de encontrar meios para financiar os conservadores que, hoje, dominam a política brasileira.

Se alguém lhe perguntar, estimado(a) leitor(a), em quem você votará para deputado federal e senador ano que vem, o que responderia? E para presidente da República?

Talvez você se inclua entre aqueles que já perderam até o último fio de esperança e, portanto, pretende anular o voto ou se abster nas eleições. Direito seu. Porém, é bom lembrar que em política não há neutralidade. Quem não gosta de política é governado por quem gosta. E ao dar as costas à política você passa cheque em branco aos atuais caciques políticos.

Nossa esperança não deve se centrar em nomes, e sim em programas. O que pretendem os candidatos a presidente? Qual o programa de governo? Vão impedir o desmatamento da Amazônia, combater o trabalho escravo e defender as reservas indígenas e quilombolas? Vão aprovar a reforma tributária com imposto progressivo, e punir rigorosamente os sonegadores? Haverão de priorizar os direitos dos pobres ou o privilégio dos ricos?

Coloco a minha esperança no grão de mostarda. Nos movimentos sociais. Nos que lutam por terra, moradia, saneamento e direitos sociais. Nos que combatem o feminicídio, a homofobia, o racismo e o fundamentalismo religioso. Nos que defendem a igualdade de gêneros e a diversidade de crenças religiosas.

Uma nação se muda de baixo para cima. São as raízes que sustentam a árvore. São os alicerces que mantêm a casa de pé. Nosso voto deve cair na urna como semente promissora de um futuro melhor para o Brasil. Futuro de menos desigualdade, mais justiça social, mais saúde e educação de qualidade para todos.

ABRAÇOS DE AFOGADOS

Em caso de naufrágio é comum o desespero leva vítimas a se agarrarem umas às outras, na esperança de salvação. É o que ocorre hoje no Brasil. O governo Temer, com apenas 3% de aprovação, afunda a olhos vistos, sob o peso das graves acusações de atividades criminosas de sua cúpula. E a Câmara dos Deputados cobra o alto preço a ser pago por ter, legal mas injustamente, promovido dupla obstrução da Justiça.

Retrocedem os direitos sociais, definham os orçamentos vitais destinados à saúde e à educação, multiplicam-se as benesses corporativas, a ponto de flexibilizar inclusive a lei que pune empresas coniventes com o trabalho escravo.

O PSDB, que penou 13 anos no gélido desterro dos sem governo federal, agora se agarra com unhas e dentes nos cargos oferecidos por Temer. Ah, como é bom ser ministro! (Ainda que o salário seja análogo ao trabalho escravo).

Mas nem todos os tucanos embarcam na nau sem rumo do PMDB. Muitos temem resultar em drástica derrota eleitoral em 2018 o partido abrigar-se à sombra de quem se afoga no descalabro ético e sonega direitos sociais, com visíveis efeitos no aumento da violência e de endemias.

Quem serão, em 2018, o protagonista e o figurante? O PSDB como vice de um candidato do PMDB ou vice-versa? Nada disso, bradam alguns tucanos. O PSDB terá candidato próprio e, por isso, é hora de desembarcar da canoa furada de Temer.

A disputa no arraial tucano é de peixeira afiada brilhar no escuro. Doria a quem doer, mas o geral do cenário intrapartidário é para Henrique nenhum botar defeito, nem o Meirelles, que semeia ventos e colhe tempestades, nem o Fernando, que insiste no desembarque antes que os tucanos tenham que pagar alta fatura pelos erros e desvios do PMDB.

O PT, recuperado do coice peemedebista que o desalojou do Planalto, começa a fazer as contas de seu cacife eleitoral em 2018. E na direção inversa de alguns caciques tucanos, aproxima-se do PMDB. Julga que este não tem ninguém capaz de se apresentar como candidato a presidente. De novo, terá de se conformar com o papel de vice.

O PT conta com uma estrela que muitos julgam em ascensão e, outros, em extinção. Mas todos sabem que Lula não pode ser menosprezado nem como candidato nem como cabo eleitoral.

Estenderia ele de novo a mão aos novos Malufs? Para aqueles que, no PMDB, ostentam igual folha corrida?

Ora, se ficar o bicho come, se correr o bicho pega. A turma do PT que trocou o projeto de Brasil pelo projeto de poder exibe seu pragmatismo e rasga a fantasia de esquerda acuada: o que importa é ganhar as eleições! Ainda que o fim não justifique os meios, os meios são escassos e devem se adequar ao fim. Às favas os escrúpulos!

A turma do PT que resgata o projeto de Brasil grita “basta!” É hora de voltar às origens. Esquerda, volver! Confiar nos movimentos sociais. Nada de perdoar aqueles que impuseram o gosto amargo da derrota.

Enquanto PSDB e PT tentam apaziguar suas lutas intestinas, os avatares surgem das sombras e proclamam “abaixo a política!” A salvação virá do empreendedorismo, do moralismo, da economia livre das amarras partidárias.

No filme “O arrependimento”, de George Abuladze, o tirano de uma pequena cidade morre e é sepultado. Uma mulher desenterra-o a cada noite, para que ninguém esqueça aquele que encarnara a opressão.

A corrupção e a falta de prospectiva política capaz de assegurar “um outro Brasil possível” serão os cadáveres insepultos nas eleições de 2018.

A DISTÂNCIA QUE NOS SEPARA

A Oxfam Brasil divulgou, em setembro último, o informe “A distância que nos une — um retrato das desigualdades brasileiras.” Entre os dados preocupantes se destaca que apenas seis bilionários brasileiros acumulam riqueza igual à da metade mais pobre da população, cerca de 100 milhões de pessoas.

Apesar dos avanços das políticas sociais na última década, o Brasil ainda é um dos países mais desiguais do mundo. Mais de 16 milhões de pessoas vivem abaixo da linha da pobreza.

Segundo o informe, os 47 milhões de brasileiros que ganham um salário mínimo por mês precisam trabalhar quatro anos para ganhar o mesmo que recebem, em um mês, os privilegiados que formam 1% da população. E demorariam 19 anos para juntar o equivalente a um mês de renda média do segmento 0,1% mais rico.

Se for mantida a tendência dessa injusta distribuição de renda dos últimos 20 anos, as mulheres brasileiras terão renda igual à dos homens somente em 2047, ou seja, daqui a 30 anos. E a população negra conseguirá ganhar o mesmo que a branca somente em 2089, ou seja, daqui a 72 anos!

Se a redução da desigualdade de renda permanecer no ritmo médio constatado desde 1988, o Brasil levará 35 anos para alcançar o atual nível de desigualdade de renda do Uruguai, e 75 anos para alcançar o patamar da Inglaterra.

“Precisamos falar sobre as nossas desigualdades e os caminhos existentes para reduzi-las. Se no mundo a desigualdade já nos causa espanto, no Brasil essa situação é ainda mais dramática”, afirmou Katia Maia, diretora da Oxfam Brasil.

Para ela, a situação nacional é “inadmissível” e precisa ser enfrentada por toda a sociedade para, de facto, ser solucionada. “Existe uma distância absurda entre a maior parte da população brasileira e 1% mais rico, não apenas em relação à renda e à riqueza, mas também ao acesso a serviços básicos, como saúde e educação. Atacar essa questão é responsabilidade de todos”, ponderou Katia Maia.

O que já é absurdo, entretanto, pode piorar. A diretora da Oxfam Brasil enfatizou que estimativas do Banco Mundial indicam que, ainda neste ano de 2017, até 3,6 milhões de brasileiros devem voltar para a situação de pobreza, devido aos retrocessos do governo Temer em matéria de políticas sociais.

Segundo a Oxfam Brasil, se o governo brasileiro acabasse com a “isenção sobre lucros e dividendos ao exterior, e juros sobre capital próprio” poderia aumentar em R$ 60 bilhões a arrecadação do país, valor igual a duas vezes o orçamento da União para o Programa Bolsa Família ou quase três vezes o orçamento federal para a educação básica.

Nosso atual sistema tributário reforça as desigualdades. “O efeito da tributação no Brasil é, no geral, de aumentar a concentração da renda ou, no mínimo, não a alterar. Trata-se de uma situação já resolvida na maioria dos países desenvolvidos (onde a tributação, de fato, distribui renda), e que compõe barreira estrutural na redução de desigualdades no Brasil. Apesar de nossa carga tributária bruta girar em 33% do PIB – nível similar ao dos países da Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico (OCDE) – ela é mal distribuída, de modo que os mais pobres e a classe média pagam muito mais impostos proporcionalmente que pessoas com rendas muito altas”, afirma um trecho do relatório.

Segundo Rafael Georges, coordenador de campanhas da Oxfam Brasil, a trajetória de redução de desigualdades que vinha desde 1988 foi interrompida e o país está hoje “dando muitos passos para trás na garantia de direitos à população”. “Enquanto isso, a concentração de renda e de patrimônio continua intocável. Se não enfrentarmos essa situação, vai ser ruim para todos no país, mas principalmente para quem pouco ou nada tem para se proteger”, afirma.

UMA ESCOLA SINDICAL

      Completam-se, neste ano, duas décadas sem Paulo Freire, educador popular pernambucano que sistematizou a pedagogia do oprimido a partir de trabalhos de base e alfabetização, tanto no Brasil como em diversos países. 

      Também 2017 marca o centenário da primeira greve geral no Brasil, desencadeada a partir da paralisação de operárias da indústria têxtil em São Paulo. Elas reivindicavam aumento de salário e redução da jornada de trabalho, até então não garantidos por lei. Em poucas semanas a greve se espalhou por diversos setores da economia, pelo estado de São Paulo e, em seguida, Rio e Porto Alegre.

      Paulo Freire e a greve geral de 1917 aproximam-se nesta iniciativa pioneira do DIEESE (Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos) - a Escola DIEESE de Ciências do Trabalho, que há pouco visitei em São Paulo.

     Credenciada pelo Ministério da Educação em 2012, a escola oferece um inédito bacharelado interdisciplinar em Ciências do Trabalho, com duração de três anos. Três turmas, com 60 alunos no total, já se formaram no curso, e outras três seguem em andamento. A partir de 2015, a escola passou a oferecer também curso de pós-graduação em Economia e Trabalho, com 35 alunos em duas turmas já formados e atualmente com duas turmas em andamento.

     Paulo Freire escreveu que “não basta saber ler que Eva viu a uva. É preciso compreender qual a posição que Eva ocupa no seu contexto social, quem trabalha para produzir a uva e quem lucra com esse trabalho.” 

     A proposta pedagógica da Escola DIEESE visa a alfabetização política de trabalhadores para a ação sindical. Tarefa urgente diante das ações do governo Temer e do Congresso Nacional dominado por interesses empresariais empenhados em desmontar o sistema brasileiro de relações de trabalho e favorecer as empresas nas negociações com os sindicatos.

     A educação popular não é apenas uma forma de inovar o processo ensino-aprendizado, mas expressa uma concepção ideológica de ser humano e de mundo. Ela antecede a educação escolarizada, pois se refere às trocas de saberes que circulam no cotidiano de organizações sociais e sindicatos, não estruturadas a partir da divisão social do conhecimento. 

      A educação popular também pode ser definida a partir dos movimentos políticos com caráter educativo presentes no Brasil e na América Latina desde a década de 1960. Uma educação que se reivindica política, humanizadora e construtora de um projeto novo de nação.

     A Escola DIEESE retoma a formação sindical com intencionalidade transformadora da realidade. Toda ação de opressão se defronta com uma ação de resistência de homens e mulheres que lutam, no cotidiano, por mais liberdade. No entanto, a resistência, assim como a opressão, nem sempre é vivenciada de forma consciente por educandos e educadores.

     Essa percepção é uma descoberta que exige releitura do mundo. Muitos sindicatos e a Escola DIEESE buscam ser um espaço de cultivo dos elementos de resistência que se expressam de diferentes formas. Descobri-los e potencializá-los é um longo caminho a ser trilhado por educadores e educandos. Afinal, como escreveu Paulo Freire, “a pessoa conscientizada tem uma compreensão diferente da história e de seu papel nela. Recusa a se acomodar, mobiliza-se, organiza-se para mudar o mundo.” 

     Foi assim na greve de 1917. É urgente que seja assim no Brasil a partir deste ano de 2017.

AINDA A ARTE DA TOLERÂNCIA

Enquanto os povos viviam distantes um do outro, cada um com as suas crenças e costumes, a intolerância não se evidenciava. Isso teve início com a ruptura provocada na Igreja pelo surgimento do protestantismo. Então, pessoas de um mesmo vilarejo, bairro ou família se dividiam entre católicos e protestantes. O conflito se desencadeou e, inclusive, fez correr sangue.

A reforma luterana rompeu a unidade religiosa do Sacro Império Germânico e, por consequência, a unidade de toda a Europa Ocidental.

Foi preciso encontrar novos critérios para a paz. Não através da submissão forçada de uns por outros. E sim pela via do entendimento e do bom senso.

Em 1686, Pierre Bayle escreveu ser um absurdo querer forçar alguém a pensar de uma determinada maneira. No máximo se pode obrigá-lo a fingir. Como já havia assinalado santo Tomás de Aquino no século XIII, a consciência de cada pessoa é irredutivelmente livre. A ponto de poder inclusive recusar a ideia de Deus.

A obra de Bayle preparou o terreno para a liberdade de consciência. Três anos depois, em 1689, John Locke, filósofo inglês, publicou sua “Carta sobre a tolerância”, na qual defende que o Estado não deve interferir nas convicções religiosas, e sim assegurar a liberdade de crenças. Deu-se o início da laicização do Estado e da sociedade.

Entre os séculos XVII e o início do XVIII, muitas vozes se ergueram contra a intolerância, como Baruch Spinoza, Jonathan Swift, John Toland, John Locke e Shaftesbury. A eles se somaram Montesquieu, Voltaire, Diderot, Rousseau, D’Holbach, entre outros.

Em 1763, Voltaire lançou o “Tratado sobre a tolerância por ocasião da morte de Jean Calas”. Este comerciante de Toulouse era protestante. Seu filho, Marc-Antoine, de 20 anos, apareceu enforcado no sótão da casa. Como manifestara a vontade de aderir ao catolicismo, o pai foi acusado de matá-lo, condenado à morte e executado.

Voltaire ergueu a sua voz contra o fanatismo. Exigiu revisão do caso. Apurou-se que o rapaz sofria de depressão. O pai, declarado inocente, foi reabilitado quando já se estava morto.

Voltaire salientou que existe uma fraternal solidariedade entre os seres humanos. Todos se mobilizam quando há uma catástrofe – incêndio, alagamento, terremoto, furacão etc. Aliás, como há dias se comprovou após o terremoto no México e o massacre em Las Vegas, quando multidões se dispuseram a doar sangue e socorrer as vítimas. Por que a intolerância quando se trata de pensar ou crer de modo diferente?

A intolerância só é aplicável às ciências exatas. Inútil querer que a água ferva antes de atingir os 100 graus centígrados. Ou insistir que 2 + 2 são 5...

No campo científico, a tolerância só é aceitável em se tratando de hipóteses. Antes de se chegar ao dado científico há várias hipóteses até a comprovação empírica de que a molécula de água resulta da junção de dois átomos de hidrogênio com um de oxigênio.

Isso é impossível em se tratando de crenças religiosas. Jamais as diferentes religiões ou tendências confessionais chegarão a um acordo quanto às suas convicções de fé. Restam, portanto, duas alternativas: a guerra ou a tolerância. E o passado demonstra que a guerra é inútil, apenas deixa lastro de ódio e sangue.

Fora do âmbito das ciências, a tolerância é desejável. Se alguém acredita que todos procedemos, não da evolução dos símios, mas da união de Adão e Eva, isso é tolerável porque não faz mal a ninguém. Embora os criacionistas não logrem explicar como estamos aqui, neste planeta superpovoado, se Adão e Eva tiveram dois filhos homens, Caim e Abel. A menos que admitam o incesto com a mãe...

Nem sempre é fácil demarcar a fronteira entre o tolerável e o intolerável. Depende de cada cultura. Para muitos é inconcebível que, em pleno século XXI, uma sociedade exija por lei que a mulher seja submissa ao homem, como ocorre na Arábia Saudita. Ainda que um estrangeiro que mora naquele país seja tolerante frente a esse absurdo, não significa que esteja de acordo com tal violação dos direitos humanos.

Diante de opiniões e atitudes diferentes, como em recentes exposições artísticas no Brasil, o tolerante se alegra e celebra a diversidade; o intolerante se enche de ódio e apela à violência.

Edição 131 Outubro 2017

SEJA FELIZ, TOME REMÉDIOS

A felicidade é um produto engarrafado que se adquire no supermercado da esquina? É o que sugere o neoliberalismo, criticado pelo clássico romance de Aldous Huxley, “Admirável mundo novo” (1932). A narrativa propõe construir uma sociedade saudável através da ingestão de medicamentos.

Aos deprimidos se distribui um narcótico intitulado “soma”, de modo a superarem seus sofrimentos e alcançar a felicidade pelo controle de suas emoções. Assim, a sociedade não estaria ameaçada por gente como o atirador de Las Vegas.

Huxley declarou mais tarde que a realidade havia confirmado muito de sua ficção. De fato, hoje a nossa subjetividade é controlada por medicamentos. São ingeridos comprimidos para dormir, acordar, ir ao banheiro, abrir o apetite, estimular o cérebro, fazer funcionar melhor as glândulas, reduzir o colesterol, emagrecer, adquirir vitalidade, obter energia etc. O que explica encontrar uma farmácia em cada esquina e, quase sempre, repleta de consumidores.

O neoliberalismo rechaça a nossa condição de seres pensantes e cidadãos. Seu paradigma se resume na sociedade consumista. A felicidade, adverte o sistema, consiste em comprar, comprar, comprar. Fora do mercado não há salvação. E dentro dele feliz é quem sabe empreender com sucesso, manter-se perenemente jovem, brilhar aos olhos alheios. A receita está prescrita nos livros de autoajuda que encabeçam a lista da biblioterapia

Se você não corresponde ao figurino neoliberal é porque sofre de algum transtorno. As doenças estão em moda. Respiramos a cultura da medicalização. Não nos perguntamos por que há tantas enfermidades e enfermos. Esta indagação não convém à indústria farmacêutica nem ao sistema cujo objetivo primordial é a apropriação privada da riqueza.

Estão em moda a síndrome de pânico e o transtorno bipolar. Já em 1985, Freud havia diagnosticado a síndrome de pânico sob o nome de neurose de angústia. O transtorno bipolar era conhecido como psicose maníaco-depressiva. Muitas pessoas sofrem, de fato, dessas enfermidades, e precisam ser tratadas e medicadas. Há profissionais que se sentem afetados por elas devido à cultura excessivamente competitiva e à exigência de demonstrar altíssimos rendimentos no trabalho segundo os atléticos parâmetros do mercado.

Em relação às crianças se constata o aumento do Transtorno por Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH). Ora, é preciso cuidado no diagnóstico. Hiperatividade e impulsividade são características da infância, às vezes rebaixadas à categoria de transtorno neurobiológico, de desordem do cérebro. Submeta seu filho a um diagnóstico precoce. É possível que alguma anomalia seja descoberta e medicamentos prescritos.

Nos EUA, o neurologista Fred Baughman apresentou ao Congresso uma denúncia de fraude ao consumidor pelo falso diagnóstico de TDAH. Crianças sem qualquer problema de saúde foram diagnosticadas com fictícios desequilíbrios químicos cerebrais, e orientadas por médicos a ingerir medicamentos.

Quando um suposto diagnóstico científico arvora-se em quantificar nosso grau de tristeza e frustração, de hiperatividade e alegria, é sinal de que não somos nós os doentes, e sim a sociedade que, submissa ao paradigma do mercado, pretende reduzir todos nós a meros objetos mecânicos, cujos funcionamentos podem ser decompostos em suas diferenças peças facilmente azeitadas por quilos de medicamentos.

Há algo de profundamente errado com essa sociedade que tem as ruas permanentemente cortadas por ambulâncias e carros de polícia. Ela é que está doente, e não nós, os únicos com o poder de curá-la.

JUSTIÇA ÀS AVESSAS

O ator de filmes pornô Alexandre Frota declarou em programa de TV, em 2015, que estuprou uma mãe de santo até ela desmaiar. Como era de se esperar, Eleonora Menicucci, então à frente do Ministério das Mulheres, repudiou a apologia ao crime.

Em maio de 2016, o ministro da Educação do governo Temer, Mendonça Filho, recebeu em audiência Alexandre Frota, para ouvir propostas para a educação básica e defender o projeto “Escola sem partidos” (exceto os conservadores).

Em nota na Folha de S. Paulo, Eleonora Menicucci declarou: "Lamento, como ex-ministra e cidadã, que o ministro golpista Mendonça Filho tenha recebido, como primeira pessoa da sociedade civil, um homem que foi à TV e fez apologia do estupro. Fico muito preocupada com a educação de nossa juventude, e lamento muito."

Alexandre Frota decidiu, então, processar a ex-ministra por danos morais. Pediu R$ 35 mil de indemnização. Em setembro de 2016, na audiência de conciliação, ele sugeriu que ela pedisse desculpas, o que não foi aceito.

Em maio deste ano, a juíza de primeira instância Juliana Nobre Correia emitiu sentença condenando Eleonora Menicucci a pagar R$ 10 mil a Frota, alegando que ela ultrapassara o limite da crítica.

Em agosto, teve início o julgamento do recurso em segundo instância, e a relatora, Fernanda Melo de Campos Gurgel, proferiu voto a favor da juíza que condenara a ex-ministra.

Que país é este em que mulheres defendem quem faz apologia do estupro e condenam quem ergue a voz em prol da dignidade das vítimas; juízes repassam ao Congresso Nacional, repleto de corruptos, o direito de julgar seus pares; um rapaz é preso acusado de traficante por ser pobre e estar bem vestido e, em seguida, sua mãe é assassinada por policiais do Bope-Rio por defender o filho? Que país é este no qual dois amigos do presidente são flagrados com malas de dinheiro; Temer recebe na calada da noite o dono da JBS que confessou ter corrompido quase dois mil políticos; e tudo fica como dantes no quartel de Abrantes?

Talvez os olhos vendados do símbolo da Justiça não representem isenção nos julgamentos, e sim vergonha por tantas inversões judiciais. Bem recomenda Chico Buarque: “Chame o ladrão... chame o ladrão...”

ARTE DA TOLERÂNCIA

Tolerância não significa aceitar passivamente violência, homofobia e racismo. Frente a tais atitudes temos o dever ético de ser intolerantes. A tolerância se situa na esfera das ideias e opiniões.

Na democracia, cada um tem o direito de ter as suas próprias convicções, ainda que se contraponham às minhas. Não devo por isso ofendê-lo, desmerecê-lo, humilhá-lo. Mas devo tentar impedi-lo de ir além de suas convicções predatórias à violação da dignidade por atitudes como o racismo.

A tolerância é filha da democracia. Na sociedade autocrática predomina a versão do poder e é crime se contrapor ou discordar dela.

A modernidade se funda na diversidade. Contudo, o coração humano não tem idade. Em todos os lugares e épocas ele comporta o solidário, o altruísta, o generoso, e também o ditador, o fundamentalista, o fanático que se julga dono da verdade.

Na medicina, intolerância é de quem sofre de alergia a camarão ou gergelim e considera insuportáveis tais alimentos. O que não se pode é transferir esse tipo de reação às ideias contrárias às minhas. Ainda que me escandalizem, não devo combatê-las com as armas de ódio e violência. Devo recorrer à razão, ao bom senso, me empenhando para que o marco legal da sociedade impeça que os intolerantes passem das ideias aos fatos, como considerar a homossexualidade uma doença e prescrever a “cura gay”.

Dizia Gandhi que “tolerar não significa aceitar o que se tolera.” Tolerar vem do latim “tollere”, e significa carregar, suportar. “Tolerantia”, na cultura romana, equivalia à resistência, qualidade de quem suporta dignamente dificuldades e pressões.

Tolerar não implica conceder a outro um direito. Direito não se tolera; pratica-se com plena liberdade. Em 1789, quando os deputados franceses debatiam na Assembleia Constituinte o artigo 10 da Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão, que se refere à liberdade religiosa, a maioria católica propôs que aos protestantes fosse tolerado terem seus próprios templos e praticarem o seu culto.

Saint-Étienne, deputado protestante, discordou. Disse que tolerância era “uma palavra injusta, que nos representa apenas como cidadãos dignos de piedade, como culpados que são perdoados.” E exigiu liberdade de culto.

Uma liberdade não tem o direito de pretender coibir a outra. Na Alemanha, os nazistas têm o direito de se organizar em partido político e ocupar cadeiras no Congresso. Mas não de querer restringir os direitos de judeus e imigrantes.

O exercício dos direitos não depende apenas da letra da lei. Todos temos liberdade de expressão, mas em uma sociedade economicamente desigual aqueles que possuem mais recursos têm mais condições de se expressar do que a população carente. Portanto, só há plena liberdade quando há também equidade.

Não existem religiões fanáticas ou intolerantes. Há, sim, indivíduos e grupos que encarnam tais atitudes.

O sofrimento pode nos tornar tolerantes ou intolerantes. No século III a.C., o imperador Ashoka governava o que é hoje Índia, Paquistão e grande parte do Afeganistão. Cruel, assassinava seus rivais. Conta-se que, após uma batalha, viu o rio encharcado de sangue e decidiu não mais provocar tanto sofrimento e morte.

Ashoka dedicou-se, então, a promover a paz entre religiões e pessoas com diferentes opiniões. Em colunas de pedra deixou gravados seus conselhos, como “aquele que defende a sua própria religião e, devido a um zelo excessivo, condena as outras pensando ‘tenho o direito de glorificar a minha própria religião’, apenas prejudica a sua, pois deve escutar e respeitar as doutrinas professadas pelos outros.”

Exemplo de tolerância é Jesus. Acolheu o centurião romano, adepto da religião pagã (Mateus 8, 5-13), e a mulher fenícia, que cultuava deuses repudiados pelos judeus (Mateus 15, 22-25). Não disse uma palavra moralista à samaritana que tivera cinco maridos e vivia com o sexto (João 4, 7-26). Impediu que os fariseus apedrejassem a mulher adúltera (João 8, 1-11). Permitiu que a mulher pecadora lhe perfumasse os pés e os enxugasse com os cabelos (Lucas 7, 36-50). Diante do teólogo judeu, acentuou o gesto solidário do samaritano como exemplo do que Deus espera de nós (Lucas 10, 25-36).

O sábio tolera; o arrogante julga; o injusto condena.

QUANDO ME TORNEI FANÁTICO

Abracei o fanatismo ao descobrir que só o Deus pregado por minha Igreja é o verdadeiro. Todos os outros deuses, todas as outras religiões, todas as outras tradições espirituais que não creem como eu creio são heréticas, ofendem a Deus, procedem do diabo e merecem ser varridas da face da Terra.

Os fiéis dessas Igrejas que não professam o meu Credo estão condenados às chamas do Inferno e só haverão de se salvar aqueles que se arrependerem, abandonarem seus cultos idólatras e abraçarem a única e verdadeira fé – esta que a minha Igreja manifesta.

Tornei-me fanático em sucessivas etapas. Fui criado em uma família católica e, desde cedo, aprendi que os protestantes são infiéis por não respeitarem a virgindade de Maria nem acatarem a autoridade do papa.

Ridicularizei os espíritas por admitirem que se comunicam com os mortos. Acusei os judeus de terem assassinado Jesus. Abominei os ritos de matriz africana como supersticiosos e orquestrados pelo demônio.

Tivesse eu poder, haveria de banir da sociedade todas essas crendices que tomam o Santo Nome de Deus em vão.

Até que um dia sofri um acidente de trânsito no centro de Salvador, onde me encontrava a trabalho. Fui atropelado por uma moto que surgiu inesperadamente quando eu atravessava o Largo Terreiro de Jesus.

Fui socorrido por um desconhecido que me levou a um hospital evangélico em seu carro. Por eu estar inconsciente, devido à pancada da cabeça no solo, ele assumiu os custos apresentados pelo pronto-socorro e ainda assinou um termo de responsabilidade. Como deixou telefone e endereço, ao receber alta fui agradecer-lhe. Soube que é ateu.

Fiquei me perguntando se todos os fiéis de minha Igreja seriam capazes de prestar igual solidariedade ou se passariam indiferentes diante de um acidentado, e ainda se autodesculpariam com este raciocínio cínico: “Nada tenho a ver com isso.”

No hospital, fui visitado por uma senhora espírita, que me deu grande consolo, já não tenho parentes na capital baiana. Manifestei a ela meu estranhamento ao fato de os espíritas afirmarem conversar com os mortos. Ela retrucou com um sorriso: “Vocês, católicos, conversam com quem quando oram a São Jorge, Santo Expedito e Santo Antônio?”

Meu médico era um judeu casado com uma palestina. E as duas enfermeiras, muito atenciosas, frequentavam o candomblé e a umbanda.

Ao deixar o hospital, tive a surpresa de encontrar, na pousada na qual me hospedara, a mochila que havia perdido no acidente. Dentro, todos os meus pertences, inclusive o dinheiro que eu tinha retirado do banco para pagar a hospedagem.

Um taxista encontrou o cartão da pousada entre meus documentos, devolveu a mochila e informou o que me havia ocorrido. Como deixara o telefone dele, liguei para agradecer. Não resisti à pergunta: “Por que o senhor devolveu todos os meus pertences, inclusive o dinheiro?” Ele simplesmente respondeu: “Sou muçulmano.”

ILHAS DO TESOURO

Nos últimos 30 anos, países periféricos, à exceção da China, transferiram para as nações metropolitanas capitalistas US$ 10,6 trilhões, quantia que equivale a cinco vezes o PIB do Brasil.

      Isso acaba com o mito de que são os países ricos que investem nos pobres. De fato, ocorre o contrário. A diferença é que a fuga de capitais não chega aos países desenvolvidos como investimento, e sim como mera especulação via paraísos fiscais.

São considerados paraísos fiscais os 48 países e jurisdições listados pelo FMI como centros financeiros offshores. Essa a verdadeira máfia criminosa que drena recursos dos pobres para os ricos e, assim, impede a redução das desigualdades sociais e o aumento da qualidade de vida de bilhões de pessoas.

       Nas últimas três décadas, as transferências legais de países pobres para os ricos somam US$ 1,1 trilhão. As sem registro, US$ 10,6 trilhões, dos quais US$ 7 trilhões saíram por meios ilegais.

       Em 2011, habitantes de países periféricos tinham, em paraísos fiscais, US$ 4,4 trilhões! Dinheiro que o fisco não recolheu, a economia local não recebeu, e do qual a população não se beneficiou.

       Os paraísos fiscais recebem fluxos financeiros de criminosos via corrupção, evasão fiscal e comercial, sonegação etc. Dados de 2014 indicam que, naquele ano, eles alojaram, em bilhões de dólares, US$ 505 do tráfico de drogas; US$ 109 do tráfico de pessoas; US$ 1,3 do comércio de órgãos humanos; e outros valores elevados advindos do contrabando de pesca, madeira (com efeito no desmatamento), tráficos de armas e pedras preciosas, roubo de petróleo e falsificação de medicamentos, produtos eletrônicos e cigarros.
       O valor global de fluxos criminosos transnacionais foi de aproximadamente US$ 1,1 a US$ 1,4 trilhão em 2014. O impacto econômico desses fluxos é significativo, e os crimes ameaçam a segurança e a estabilidade mundiais.
       O estoque de ativos é baseado em bancos de dados do FMI: Pesquisa Coordenada sobre Investimentos Diretos (Coordinated Direct Investment Survey - CDIS); Pesquisa Coordenada sobre Investimentos em Portfólio (Coordinated Portfolio Investment Survey - CPIS); Posição Internacional de Investimentos (International Investment Position – PII); e o banco de dados do Banco de Pagamentos Internacionais (BPI) sobre depósitos bancários internacionais nos paraísos fiscais.

Deve-se levar em conta que mais de 80% dos paraísos fiscais não reportaram, ou reportaram alegando confidencialidade, de modo que os números estão subavaliados.

        Todos os dados acima constam do relatório “Fluxos financeiros e paraísos fiscais: uma combinação para limitar a vida de bilhões de pessoas” (http://www.ihu.unisinos.br/571501-e-os-pobres-sutentam-o-cassino-financeiro -global)..

        Os autores são o Instituto de Estudos Socioeconômicos (Inesc), em parceria com o Centro de Pesquisa Aplicada da Escola de Economia da Noruega (SNF); a Global Financial Integrity (GFI); a Universidade Jawaharlal Nehru, da Índia; e o Instituto Nigeriano de Pesquisa Social e Econômica.

MANUAL DE NATAÇÃO

Para quem não sabe nadar e se interessa em aprender, não basta ler o manual de natação. Ao passar à prática o risco de se afogar é inevitável.

Isso vale para a vida de oração. Não bastam lições de catecismo ou teologia, ler textos religiosos ou frequentar a igreja. Oração, como natação, se aprende na prática. É o recurso mais apropriado para se cultivar a espiritualidade.

Nós, cristãos ocidentais, somos cartesianamente muito conceituais. Falamos de Deus, sobre Deus, com Deus, mas não deixamos Deus falar em nós. Somos como a minha tia que, no telefone, tanto falava que nem se dava conta de que minha mãe de vez em quando largava o fone para conferir as panelas no fogão.

Para que serve a oração? Para o coração embeber-se da presença divina, dilatar a nossa capacidade de amar e aprofundar a fé. Jesus orava. Passava longas horas em oração, até mesmo a noite inteira, como registra Lucas (6,12; 9,18; 18,1). Isso derruba a ideia herética e, no entanto, tão frequente, de que Jesus não tinha fé como nós temos. Ele inclusive passou por crises de fé (Marcos 15, 34).

Há muitas formas de oração. Algumas religiosas, como culto ou missa, canto, ofício divino, rosário ou terço, recitação dos salmos, romarias ou peregrinações. E há as que transcendem a esfera religiosa, como a meditação e a contemplação.

Meditar é como aprender a nadar ou andar de bicicleta. Para quem não sabe, são tarefas arriscadas, perigosas. Depois que se aprende, faz-se sem pensar.

Devemos estar bem conscientes de que a mente egocêntrica não é capaz de entrar no mundo da meditação. Medita-se com o coração, não com a razão; com o inconsciente, não com o consciente; com o não pensar, não com o pensar. Assim, de condutor se passa à condição de conduzido.

Há que perder a mania de querer tudo controlar através da mente. É preciso despojar-se dela. Calá-la. Virá-la pelo avesso. Fechar olhos e boca da mente, tão gulosa e soberana. Quanto mais se consegue cegá-la, mais se vê a luz. A mente é capaz de apreender a física da luz. Não a própria luz – esta, só a meditação capta.

Meditar é mergulhar no mar. Não posso possuir ou reter o oceano. Mas posso banhar-me nele, deixar que me envolva, embale e carregue em suas ondas. Ao ser capaz desse mergulho começo a meditar.

O mar está sempre lá. Eu é que devo dar os passos em sua direção. Ele jamais se afasta de mim; está pronto a me receber. Mas devo livrar-me das roupagens que tanto pesam em meu ser. Quanto menos, mais leveza dentro da água.

Entro no mar. Mal sei nadar. De repente, percebo que já não dá pé. É quando se inicia a meditação. O ego sente que já não tem apoio. A força da água que me envolve é maior que a minha capacidade de caminhar dentro dela.

Quanto mais fundo penetro no mar, mais água me envolve. Quanto mais mergulho, maior a profundidade que alcanço. Em torno de mim, do lado direito e do esquerdo, acima da cabeça e abaixo dos pés, tudo é oceano.

Eis a meditação. Porém, se uma ideia furtiva ou preocupação me atira na praia, não devo me inquietar. Basta retornar à água. É infinito o oceano da meditação.

A meditação dilata a nossa capacidade de abrir-se ao amor de Deus e amar o próximo. E nos induz a não dar importância ao que não tem importância, livrando-nos de sofrimentos inúteis.

Nos evangelhos não consta o termo meditação. Mas tudo indica que Jesus meditava. Se ele tanto insistiu para não multiplicarmos as palavras na oração, e passava noites cultivando a sua vida espiritual, é de se supor que meditava. Deixava-se impregnar da presença amorosa do Espírito de Deus. Descentrava-se de si para centrar-se na natureza, no próximo e em Deus.

Para quem tem interesse em aprofundar a vida de oração, o primeiro passo consiste em reservar tempo para isso, como fazemos para as refeições e dormir. Para se tornar efetiva a oração, precisa ser afetiva. Comum união (comunhão) de amor.

Oração que não resulta em misericórdia, tolerância, serviço aos necessitados e defesa intransigente dos direitos humanos é mero palavrório carente de conteúdo e sentido. É tomar o santo nome de Deus em vão. Pois “nem todo aquele que diz ‘Senhor, Senhor’ entrará no Reino de Deus, e sim quem faz a vontade de meu Pai” (Mateus 7, 21).

CIDADANIA E SOLIDARIEDADE

Qualquer pessoa ou instituição - movimento social, denominação religiosa, ONG, escola, empresa, associação etc - pode e deve promover iniciativas que reforcem a cidadania e a solidariedade: mesas-redondas; campanhas; palestras; mutirão que beneficie, sem assistencialismo, a população mais pobre.

Não há quem não possa fazer um gesto para promover debates em salas de aula sobre as causas da pobreza e os entraves à melhor distribuição de renda; introduzir na escola educação nutricional; promover exposição sobre os direitos dos povos indígenas ou ações de combate ao trabalho e à prostituição infantis; organizar uma horta comunitária; lutar pela melhoria da educação, do acesso a medicamentos seguros e baratos ou abrir um curso de alfabetização de adultos; denunciar o preconceito contra homossexuais e o uso da mulher no estímulo ao consumismo.

É preciso mobilizar a nação em torno de ações concretas que nos permitam construir o "outro mundo possível". E priorizar, em pleno neoliberalismo que assola o Planeta, valores antagônicos ao individualismo e à competitividade, como o são a cidadania e a solidariedade.

Não é fácil ser cidadão brasileiro. Nascemos como nação-colônia, aprendendo que o estrangeiro é sempre melhor que o nacional. Tivemos o mais longo período de escravidão da América Latina - 350 anos!

Essa submissão atávica está entranhada em nossas veias. Basta alguém se revestir dos símbolos do poder - riqueza, autoridade e ostentação - para ser tratado como se fosse um ser naturalmente superior a seus semelhantes.

Cidadania rima com soberania. É preciso gostar de si próprio para conquistá-la. Ocorre que a globalização detona todos os fundamentos de nossa soberania.

O neoliberalismo nos impõe o Estado mínimo e o mercado máximo, tão livre que paira acima das leis e da decência. As privatizações do patrimônio público (Siderúrgica Nacional, Vale do Rio Doce, Usiminas, sistema de telefonia etc.) são o exemplo maior de dependência de nosso país ao capital privado, em geral estrangeiro. E o que é mais grave: privatizam-se também nossos valores. Corroem nosso espírito cidadão. Estamos ficando cada vez menos solidários, menos cooperativos, menos participantes.

Até a fé religiosa é privatizada, destituída de sua ressonância social e política. Como se Deus fosse um balcão de atendimento de emergências e mero anabolizante de exaltações espiritualistas que não se traduzem em serviço libertador ao pobre, ao enfermo, ao excluído.

Edição 130 Setembro 2017

DOMÍNIO GLOBAL

Noam Chomsky, teórico estadunidense que revolucionou a linguística moderna, comprova que após a Segunda Grande Guerra (1939-1945) os EUA puseram em prática a estratégia de domínio global. O governo do presidente Franklin D. Roosevelt havia decidido que controlar as reservas energéticas do mundo, em especial dos países produtores de petróleo, traria a seu país “um controle substancial do mundo”.

O Departamento de Estado, que cuida da política externa usamericana, visualizou o domínio de uma Grande Área na qual estariam incluídos todo o hemisfério ocidental, o Extremo Oriente e os territórios do antigo Império Britânico. Dentro dessa Grande Área os EUA manteriam um “poder inquestionável”, com “supremacia militar e econômica”, e garantiriam a “limitação de qualquer exercício de soberania” por parte dos países que pudessem interferir no projeto de domínio global.

Por temer que a Europa Ocidental de pós-guerra adotasse um rumo independente da hegemonia controlada por Washington, os EUA criaram a OTAN, em 1949. O pretexto foi unir forças para conter a ameaça soviética que dividia o continente europeu em dois sistemas delimitados pelo Muro de Berlim.

Ao decidir pôr fim ao socialismo soviético, Gorbachev exigiu da OTAN o compromisso de não avançar sobre o Leste europeu. Bastou cair o Muro de Berlim para que o acordo fosse ignorado. Desde então, a OTAN se tornou uma força de intervenção. Segundo Jaap de Hoop Scheffer, seu secretário-geral entre 2004 e 2009, cabe às tropas da OTAN “vigiar os oleodutos que transportam petróleo e gás em direção ao Ocidente” e as rotas dos navios petroleiros.

O princípio estratégico do domínio global foi reafirmado por Clinton, que declarou ter seu país o direito de usar força militar para garantir o “acesso irrestrito aos principais mercados, abastecimentos energéticos e recursos estratégicos”, e deve manter tropas “permanentemente mobilizadas” na Europa e na Ásia, “a fim de moldar as opiniões das pessoas sobre nós” e de “configurar os eventos que afetam a nossa subsistência e segurança”.

Tais princípios resultaram na invasão do Iraque, do Afeganistão, da Líbia e da Síria. Em 2007, a Casa Branca decidiu que as tropas usamericanas se mantivessem por tempo indefinido no Iraque, de modo a privilegiar investidores ianques.

A chamada Primavera Árabe, em especial no Egito e na Tunísia, foi mero jogo de cena típico do provérbio de Lampedusa: mudar para que tudo fique como está. Trocaram-se governos, não os regimes ditatoriais. Os EUA estão dispostos a tudo para impedir que a democracia vigore no mundo árabe.

O desprezo da elite estadunidense pela democracia revelou-se de modo eloquente quando vazaram as informações do WikiLeaks. Os fatos ali revelados não foram desmentidos, mas os responsáveis pelos vazamentos mereceram condenação sumária.

(Fontes: Noam Chomsky, “Hopes and Prospects”, Chicago, Haymarker Books, 2010, 55 e 62. Do mesmo autor, “Quem manda no mundo?”, São Paulo, Planeta, 2017. Laurence H. Shoup e William Minter, “Imperial Brain Trust: The Council on Foreign Relations and United States Foreign Policy”, NY, Monthly Review Press, 1977, 130. Gerard Van Bilzen, “The development of AID”, Newcastle upon Tyne: Cambridge Scholars Publishing, 2015, 497. http://georgewbush-whitehuse.archives.gov/news/releases/2007/11/20071126-11.html).

SEDUÇÃO DO PODER

Para muitos, o poder é a suprema ambição. É a perversa maneira de se comparar a Deus. Vide os políticos que gastam somas bilionárias em campanhas eleitorais e, mesmo derrotados, voltam à cena. A sede de poder parece proporcional à fortuna que dilapidam.

        Há homens que, fora do poder, sentem-se terrivelmente humilhados, expulsos do Olimpo dos deuses. Caem em depressão e, passada a ressaca, voltam à disputa pelo espaço de poder com mais garra e menos escrúpulos. 

        Modificado o modo de viver de quem ocupa o poder, em pouco tempo altera-se também o modo de pensar. Pois o poder faz girar a roda da fortuna e opera na pessoa uma mudança de lugar social e cultural. Ela se vê cercada de bajuladores, recebe convites e homenagens, ganha presentes, conta com vários assessores e, sobretudo, passa a dispor de uma infraestrutura que a reveste de uma aura especial. Troca de guarda-roupa, de casa, de amigos e de mulher ou marido. 

        Aos olhos do comum dos mortais, possui as chaves da felicidade alheia. Tem o poder de aprovar projetos, liberar verbas, autorizar obras, permitir viagens, distribuir cargos, promover pessoas, conceder benesses e transformar seus gestos em fatos políticos. 

        Quem se apega ao poder mira-se todas as manhãs no espelho da bruxa da Branca de Neve e não suporta críticas, pois minam sua auto-imagem e exibem suas contradições aos olhos de outrem. Daí porque se isola, fecha-se num círculo hermético ao qual só têm acesso os que cumprem suas ordens, dizem "amém" às suas ideias e palavras. 
        
        Por que o poder encanta tanto? Porque  compensa quem tem baixa autoestima. Só quem não se sente bem sendo o que é busca salvação na boia chamada poder.

        Quem se apega ao poder se sente desesperado diante da possibilidade de perdê-lo. Seu ego necessita de uma prótese, como o homem feio que divulga nas redes sociais a foto de Marlon Brando como se fosse a sua.

        Até trabalhar no Planalto, em 2003 e 2004, como assessor especial do presidente Lula, eu também pensava que o poder muda as pessoas. Descobri que não é bem assim. O poder faz com que a pessoa se revele. Qualquer poder, do senador ao gerente da agência bancária. Como bem diz o ditado espanhol: “Quieres conocer a Juanito, dale un carguito.” 

         São raros aqueles que fazem do poder, como ensinou Jesus, um dever de serviço à justica, à solidariedade e à paz.

ROUBARAM A ESPERANÇA?

Se você já não enxerga perspectiva de futuro, despreza políticos e a política, recolhe-se à sua esfera privada, é sinal de que lhe roubaram a esperança.

Se já não suporta o noticiário, acredita que a espécie humana deu errado e todas as libertações resultam em opressões, saiba que lhe roubaram a esperança.

Se destila ódio nas redes digitais, desconfia de todos que proferem discursos sobre ética e preservação do meio ambiente, e confia apenas em sua conta bancária, esteja certo, roubaram-lhe a esperança.

Se não curte mais sonhos de um futuro melhor, não injeta utopia na veia e não assume seu protagonismo como cidadão, preferindo se isolar em sua redoma de cristal, é sinal de que lhe roubaram a esperança.

Os amigos de Jó tudo argumentaram para que ele abdicasse da esperança. Como teimava em mantê-la acesa se havia perdido terras, riquezas e família? Jó não introjetou a culpa, não jogou sobre os ombros de outrem os males que o afligiam, não abominou os revezes que o acometeram.

Reza o poema de Franz Wright, inspirado na prece da poeta persa Rabi’a al-Adawiyya, “Deus, se pronuncio meu amor por você por medo do inferno, incinere-me nele; / se pronuncio meu amor por ansiar pelo paraíso, feche-o em minha face. / Mas se com você eu falo apenas porque você existe, pare / de esconder de mim sua / infinita beleza.”

Nessa gratuidade da fé, da esperança e do amor é que Jó se sentiu recompensado ao contemplar a infinita beleza: “Te conhecia só por ouvir dizer. Mas, agora, meus olhos te viram” (42, 5).

Como escreveu Spinoza em seu “Tratado teológico político”, “um povo livre se guia pela esperança mais do que pelo medo; o que está oprimido se guia mais pelo medo do que pela esperança. Um almeja cultivar a sua vida. O outro, suportar o opressor. Ao primeiro, eu chamo livre. Ao segundo, chamo servo.”

Você, como eu, é vítima de promessas que se transformaram em ilusões que desembocaram em frustrações. Nem por isso admito que me roubem a esperança.

O segredo? Simples. Não me prendo ao aqui e agora. Olho as contradições do passado, marcado por retrocessos e avanços. Quantas batalhas perdidas resultaram em guerras vitoriosas? E quantos imperadores, senhores da vida e da morte, dos Césares a Átila, o huno; de Napoleão a Hitler; acabaram enxovalhados pela história?

Encaro o futuro em longo prazo. Sei que não participarei da colheita, mas faço questão de morrer semente.

Não creio em discursos nem amarro a minha esperança no paraquedas de algum avatar que promete salvação em curto prazo. Exijo programas e projetos, e julgo seus portadores por critérios rígidos. Procuro conhecer-lhes a vida pregressa, o compromisso com os movimentos sociais, sua ética e valores.

Sei que o futuro será o que fizermos no presente. Não espero milagres. Arregaço as mangas, convicto de que “quem sabe faz a hora, não espera acontecer”.

A esperança é uma virtude teologal. A fé crê; o amor acolhe; a esperança constrói. Assim como o caminho se faz ao caminhar, a esperança se tece como o alvorecer no poema de João Cabral de Melo Neto: "Um galo sozinho não tece a manhã: / ele precisará sempre de outros galos. / De um que apanhe esse grito que ele / e o lance a outro: de outro galo / que apanhe o grito que um galo antes / e o lance a outro; e de outros galos / que com muitos outros galos se cruzam / os fios de sol de seus gritos de galo / para que a manhã, desde uma tela tênue, / se vá tecendo, entre todos os galos.”

Gosto do verbo esperançar – estender o fio de Ariadne que nos conduz a todos para fora do labirinto. É um esforço coletivo, uma ação comunitária, um mutirão que nos irmana na certeza de que de dentro da pedra corre o filete de água que forma o córrego, faz o riacho, vira rio e rasga a terra, rega campos, alimenta ribeirinhos, até se somar ao leito do oceano.

Como diz Mário Quintana em “Das utopias”, “Se as coisas são inatingíveis... ora! / Não é motivo para não querê-las... / Que tristes os caminhos, se não fora / A mágica presença das estrelas!”

LEGADOS DE FIDEL

O líder máximo da Revolução Cubana, Fidel Castro, faria 91 anos em 13 de agosto de 2017. Faleceu em novembro do ano anterior. No aniversário de 90 anos estive em sua casa, em Havana. Participei, em seguida, da homenagem festiva que lhe foi prestada no Teatro Karl Marx. Embora com o organismo frágil, tinha a cabeça tão lúcida e ágil de quando o conheci, em 1980.

Mantivemos uma amizade ininterrupta por todos esses anos posteriores ao nosso encontro em Manágua, na comemoração do primeiro aniversário da Revolução Sandinista. Mesmo após deixar o governo, Fidel me convidava à sua casa. Nossos papos, em companhia de Dalia, sua esposa, abrangiam os mais variados temas, de política à cosmologia.

Com seu testemunho de vida, discursos e artigos, Fidel nos deixou um rico legado. Seu testamento, lido pelo irmão Raúl Castro, em Havana, por ocasião das pompas fúnebres, surpreendeu a todos. Na contramão do culto à personalidade, tão cultivado pela tradição comunista, Fidel registrou por escrito não admitir que o seu nome fosse dado a nenhuma obra (escola, hospital etc.) ou logradouro (rua, avenida etc.) públicos. Nem que se fizesse qualquer imagem, busto ou estátua de sua figura.

Tal decisão condiz com a sentença que mais o encantava na obra de Martí: “Toda a glória do mundo cabe em um grão de milho.” Não por acaso a sua tumba, em Santiago de Cuba, conforme desejo dele, é um monólito em forma de grão de milho.

Fidel foi um revolucionário vitorioso. Isso se deve também à sua total falta de dogmatismo, o que lhe permitiu unificar a esquerda cubana – Movimento 26 de Julho, Diretório Estudantil e Partido Comunista – no mesmo objetivo de derrubar a ditadura de Batista.

Não era homem de gabinete. Sentia-se melhor no meio do povo, a quem esclarecia e politizava com seus longos discursos. Gostava de visitar cooperativas agrícolas, fábricas, escolas e hospitais. E deixava que seus interlocutores se sentissem à vontade para manifestar-lhe críticas e sugestões.

Jamais conheceu o medo. Atacou o quartel Moncada, em 1953, ele e seus companheiros, movidos pelo ideal de acender o estopim do processo revolucionário cubano, mesmo sabendo o risco e que ceifou a vida de uns tantos revolucionários. Consciente de seu papel histórico, fez de seu célebre texto, “A história me absolverá”, sua peça de defesa, já que, como advogado, teve o direito de atuar em causa própria.

Mais do que Marx, foi José Martí o grande inspirador de Fidel, cujo caráter só se pode entender quem conhece a obra de Martí e a índole da formação que lhe imprimiram os padres jesuítas durante uma década de sua formação escolar. De Martí, herdou a inteligência; dos jesuítas, a educação da vontade.

A invasão de Cuba pela Baía dos Porcos, em 1961, patrocinada por Washington, induziu Cuba a estreitar seus vínculos com a União Soviética, em tempos da bipolaridade criada pela Guerra Fria. Fidel sempre se manifestou agradecido à solidariedade soviética. No entanto, soube preservar a soberania cubana frente à ingerência dos russos. Embora o ateísmo tenha sido adotado por um período no sistema de ensino do país, e como condição de ingresso no Partido Comunista de Cuba, jamais o governo revolucionário fechou uma única igreja ou fuzilou um padre ou pastor, apesar do envolvimento de alguns em graves atentados contrarrevolucionários. Ao contrário, em suas viagens ao exterior, Fidel fazia questão de abrir espaço em sua agenda para encontros com líderes religiosos. Compreendia a importância da natureza religiosa do povo latino-americano e o seu caráter estratégico.

Impactado pela participação dos cristãos no processo sandinista, e pela emergência da Teologia da Libertação, Fidel reverteu a tradição comunista, tão crítica e arredia ao fenômeno religioso. Surpreendeu a esquerda mundial ao se referir positivamente à religião, destacando seus aspectos libertadores, na entrevista que me concedeu em 1985, contida no livro “Fidel e a religião” (São Paulo, Fontanar, 2016).

Fidel não temia a crítica e não se furtava à autocrítica. Por diversas ocasiões, em momentos cruciais da Revolução, convocou o povo a se manifestar livremente em campanhas de retificação do processo revolucionário. Inclusive em nossas conversas pessoais disse-me um dia que eu não apenas tinha o direito de expressar minhas críticas à Revolução, como também o dever.

Nesse rico legado deixado por ele se destaca que não se pode ter a ilusão de aplacar a agressão do tigre apenas arrancando-lhe os dentes. O poder do capitalismo de exercer o domínio imperial e de cooptar muitos que lhe fazem oposição é muito maior do que se supõe. Por isso, aqueles que ainda acreditam que não haverá futuro para a humanidade fora da partilha dos bens da Terra e dos frutos do trabalho humano devem se perguntar por que os EUA, que invadiram o Iraque, o Afeganistão, a Líbia e tantos outros países, não o fizeram em relação à pequena ilha do Caribe, após a fracassada tentativa da Baía dos Porcos. A resposta é uma só: nos outros países, os EUA derrubaram governos. Em Cuba, como no Vietnam, teria que obter o impossível: derrubar um povo. E um povo não se derrota.

Edição 129 Junho 2017

VIOLÊNCIA E IMPUNIDADE NO BRASIL RURAL

O (des)governo Temer agravou a escalada de violência no campo. Em apenas 35 dias, ocorreram três massacres e uma tentativa, quase um por semana, com 22 trabalhadores mortos na luta pelo direito à terra, defendido pelo papa Francisco ao enfatizar que a dignidade humana depende de três T: terra, trabalho e terra.

O primeiro, em Colniza (MT), em 20 de abril, com nove trabalhadores torturados e mortos por jagunços encapuzados. O líder dos posseiros foi degolado.

Em Vilhena (RO), em 29 de abril, três corpos carbonizados foram encontrados dentro de um carro, na mesma fazenda em que cinco trabalhadores haviam sido assassinados em 2015, três deles queimados ainda vivos. O crime permanece impune.

O ataque aos índios Gamela ocorreu em 30 de abril, em Viana (MA), e resultou em 22 feridos, dois com mãos decepadas por populares insuflados por ruralistas e políticos, com envolvimento da Polícia Militar, conforme registro de uma viatura da própria corporação.

O mais recente massacre foi em Pau d’Arco, no sul do Pará, em 24 de maio: nove homens e uma mulher assassinados por policiais civis e militares. A versão oficial é a de que as mortes ocorreram em confronto armado, pois os policiais teriam sido recebidos a bala.

Esta versão é uma afronta à inteligência da opinião pública nacional e internacional. Como em um confronto armado nenhum dos 29 policiais envolvidos sequer foi ferido? Mas não só: a cena do crime foi desmontada e os policiais transportaram os corpos para a cidade.

Tais circunstâncias, bem como o depoimento de alguns sobreviventes do massacre, feita a integrantes do Ministério Público e a outras entidades que investigam o caso, indicam que houve execução fria e planejada.

A versão oficial tenta revestir a chacina de Pau d’Arco de aparência legal ao alegar “cumprimento de mandados de prisão” e de “prestação de socorro” à retirada dos corpos das vítimas. Na verdade, o que se fez foi apagar vestígios e encobrir um massacre premeditado e cruelmente realizado, às gargalhadas, conforme testemunhas. A barbárie se consumou com o tratamento dispensado aos corpos das vítimas, jogados como animais em carrocerias de camionetes, levados a distâncias de até 350 km para perícias, e devolvidos, do mesmo modo, aos familiares, largados ao chão de uma funerária, já putrefatos, para serem enterrados às pressas e à custa deles, sem chance nem de um breve velório.

A diversidade dos autores revela a barbárie generalizada provocada pelo descaso do governo na solução dos problemas de terra no Brasil, com agravamento de suas consequências, sobretudo nos últimos três anos. Tudo indica que este ano de 2017 vai superar 2016, recordista em ocorrências de conflitos por terra no Brasil nos últimos 32 anos. Foram 1.079 ocorrências, quase três por dia, o maior número desde 1985, quando a Comissão Pastoral da Terra (CPT) começou a publicar sistematicamente seus registros. Já são 37 os trabalhadores rurais assassinados nos últimos cinco meses de 2017, oito a mais que em igual período no ano passado, quando houve o registro de 29 assassinatos.

Essa exacerbação dos conflitos agrários está ligada à crise política que o país atravessa e ao avanço criminoso do agronegócio sobre o Estado brasileiro. Os desmandos autoritários da cúpula da República, com seu jogo de poder servil aos interesses da minoria do capital, vilipendiam os direitos sociais e relativizam os direitos humanos.

O Estado brasileiro tem ultrapassado os limites do desrespeito à cidadania e aos interesses do povo, numa democracia de fachada, cinismo e desfaçatez, que se alimenta de desmandos criminosos impunes, conforme o comprova a Lava Jato. A desobediência ou manipulação da legalidade é senha para os excessos na repressão aos pobres. É licença para matar e tripudiar sobre eles. Nega-se um mínimo de dignidade a camponeses, trabalhadores sem terra, pescadores, quilombolas e indígenas.

É inaceitável que o poder público se faça de cego frente à manifestação de ruralistas e parlamentares, em 29 de maio, em Redenção, no sul do Pará, em solidariedade aos policiais que praticaram o massacre em Pau d’Arco, e ali proclamados heróis da causa ruralista.

AUTOCRÍTICA DA ESQUERDA

A esquerda latino-americana não anda com boa saúde. Perdemos Fidel; o PT está encalacrado na Lava Jato; a Venezuela é, hoje, uma terra em transe. A Revolução Bolivariana não logrou criar raízes como a cubana.

Em Cuba, a revolução foi obra de um povo. O que explica o fato de os EUA jamais agredirem belicamente a ilha, após o fracasso da invasão da Baía dos Porcos, em 1961. Os ianques aprenderam, com a derrota no Vietnam, que governos (como Iraque, Líbia e Afeganistão) se derrubam; um povo, jamais.

Os governos progressistas da América Latina estão ameaçados pelo avanço da ofensiva neoliberal. Sofreram golpes parlamentares Honduras (2009), Paraguai (2012) e Brasil (2016). Na Argentina, a direita elegeu Macri. No Equador, Rafael Correa fez Lenin Moreno seu sucessor por pequena margem de votos. Na Bolívia, Evo Morales se depara com o desgaste de sua base de apoio.

No Chile, Bachelet tem baixíssimo índice de popularidade e a direita se assanha para retomar o poder nas próximas eleições. Na Nicarágua, a esquerda se divide entre os que apoiam e os que se opõem ao governo de Daniel Ortega. Salvam-se El Salvador e Uruguai, onde a esquerda moderada não enfrenta grandes dificuldades.

Não existe hoje, na América Latina, uma correlação de forças que assegure, em curto prazo, a superação do modelo desenvolvimentista neoliberal por um novo modelo de sociedade centrado nos direitos dos trabalhadores, na inclusão social dos setores marginalizados e excluídos, e na preservação ambiental.

Alguns governos progressistas adotaram verdadeira esquizofrenia ao proferir um discurso político de esquerda e, ao mesmo tempo, abraçar uma política econômica regida pelo capital internacional, dependente da exportação de commodities, sem criar bases de sustentabilidade para o desenvolvimento do país.

No Brasil, no governo do PT adotou-se a emulação do crescimento (PAC – Política de Aceleração do Crescimento), visando a, em primeiro lugar, anabolizar o PIB. E a dependência da exportação de matérias-primas, hoje elegantemente denominadas commodities, agravou o processo de desindustrialização.

A corrupção se entranhou nas estruturas governamentais, cooptou líderes políticos como agentes de interesses privados de grandes corporações e corroeu a credibilidade ética da esquerda. Abandonou-se o horizonte socialista e acreditou-se na política de inclusão assistencialista dos mais pobres, sem alterar minimamente as estruturas sociais e os direitos de propriedade.

Cedeu-se à falácia de que o capitalismo é passível de humanização. Priorizou-se o acesso da população a bens pessoais (celular, computador, eletrodomésticos etc.) e não a bens sociais (alimentação, saúde, educação etc.). Não houve empenho em preparar as bases de uma democracia participativa. Movimentos populares foram alijados como interlocutores preferenciais ou cooptados para atuarem como correia de transmissão entre governo e bases sociais.

É hora de fazer autocrítica e corrigir rotas, antes que seja demasiadamente tarde. Pena que, em seu congresso nacional, na primeira semana de junho, o PT tenha declinado desse dever político sob o pretexto de não dar munição aos adversários. Quem se cala, consente.

CONFISSÕES DE SANTO AGOSTINHO

N.E. Pode ser e é actualíssima, esta obra. Mas não é humanamente exemplar. Santo Agostinho e S. Paulo são os pais ideológicos do cristianismo, o inimigo maior de Jesus histórico e dos seres humanos. O Papado imperial soube tirar partido destes dois alucinados intelectuais e impor a sua cruz, a sua bíblia e, até, a sua espada, hoje, a bomba nuclear. Sem eles, provavelmente, não estaríamos hoje sob a ditadura do deus Dinheiro como estamos. Por isso, à beira de implodirmos. É imperioso libertarmo-nos destes alucinados místicos, para recuperarmos o HUMANO que tem sido comido pelo DIVINO. É por aqui que vai a via Jesus Nazaré, o filho de Maria, e que havemos de ir todas, todos nós como Humanidade.

A Peguin-Companhia das Letras acaba de lançar nova edição do clássico Confissões, de Santo Agostinho (354-430), em tradução de Lorenzo Mammì.

É a primeira autobiografia da literatura ocidental. Na falta de Freud, e sob o peso de sua vida pré-cristã, Agostinho escalou todos nós, leitores, como seus terapeutas. Ele se despe aos nossos olhos nos treze livros que compõem a obra.

O autor já passara dos 40 anos e era bispo de Hipona (na atual Argélia) ao iniciar a redação. Descreve episódios bizarros, como a recusa à proposta de pagar um adivinho para vencer um concurso de poesia dramática.

A espiritualidade de Agostinho é acentuadamente evangélica, de quem se sente “morada divina” (João 14, 23), e crê que “tu não abandonas tua criatura como eles abandonam seu Criador” (V, II). “Onde estava quando te procurava? Tu estavas diante de mim, mas eu me afastara até de mim mesmo e não me encontrava, quanto menos a ti!” (V, II). “Tarde te amei, beleza tão antiga e tão nova, tarde te amei. Mas eis: estavas dentro e eu estava fora” (X, XVII, 38).

Mudam os tempos, não os costumes! Agostinho faz severa crítica aos discursos demagógicos: “Como eu era miserável e de que maneira fizeste com que sentisse minha miséria naquele dia, quando me preparava para declamar o elogio do imperador (no décimo aniversário do reino de Valentiniano II, em 385) em que diria muitas mentiras e mentindo ganharia a aprovação dos entendidos” (VI, VI, 9).

Confessa a inveja que sentiu de um mendigo bêbado que cantava e ria em uma rua de Milão: “Ele era mais feliz, sem dúvida, não apenas porque transbordava de alegria, enquanto eu era dilacerado por preocupações, mas também porque ele ganhara o vinho augurando o bem, enquanto eu buscava a vanglória mentindo” (VI, 10).

Em exaltação ética, cita seu amigo Alípio que, na Itália, assessorava o responsável pelas finanças do país: ”Um senador poderosíssimo, que a muitos cativava pelos benefícios ou subjugava pelo medo, aproveitando-se de seu poder, como era seu costume, pretendeu que lhe fosse concedido algo proibido pelas leis: Alípio se opôs. Prometeram-lhe um prêmio: menosprezou-o resolutamente. Fizeram-lhe ameaças: rechaçou-as com energia incomum, maravilhando todos por não aceitar como amigo ou temer como inimigo um homem tão importante, celebrado pela vasta reputação de dispor de inúmeros meios para favorecer ou prejudicar alguém” (VI, X, 16).

Agostinho amaciou-se por longos anos. E a isso se refere abertamente: “Amarrado à doença da carne por uma atração mortífera” (VI, XII, 21) (...) “de maneira alguma eu poderia suportar uma vida de celibatário” (22) (...) “e pedi em casamento uma jovem à qual faltavam cerca de dois anos para ser núbil” (23) (...) “quando aquela com a qual eu costumava me deitar foi arrancada do meu flanco por ser um empecilho ao casamento, meu coração, que se apegara a ela, despedaçado e ferido, deixou um rastro de sangue. Ela voltou para a África prometendo a ti que não conheceria outros homens, e deixou comigo o filho que tive com ela” (VI, XV, 25).

Jostein Gaarder não foi justo em Vita Brevis – a carta de Flória Emília para Aurélio Agostinho (São Paulo, Companhia das Letras, 1997), pois Agostinho soube cuidar de Adeodato, levou-o para Milão e fez dele personagem do diálogo A vida feliz e interlocutor em O mestre. Não poupou elogios ao filho: “Tinha apenas quinze anos e superava em inteligência muitos homens sérios e eruditos (...) Sua inteligência me dava arrepios” (IX, VI, 14).

Confissões contém ainda tratados sobre a memória, o tempo, a verdadeira felicidade. E cita a piada: “O que Deus fazia antes de criar o céu e a terra? Não respondo como alguém respondeu, esquivando com uma brincadeira a contundência do questionamento: ‘Prepara o inferno para quem investiga mistérios profundos.’ Não respondo assim. Prefiro responder: Não sei o que não sei” (XI, XII, 14).

Eis uma obra que, dezassete séculos depois, permanece atualíssima.

ESTADO E MERCADO

No Brasil, os dois governos de Lula e o primeiro de Dilma foram os melhores de nossa história republicana. Entre 2003 e 2011, a renda dos brasileiros cresceu a uma taxa média de 2,8% ao ano. O volume de divisas internacionais superou o montante da dívida externa com os bancos internacionais, fazendo com que o Brasil se destacasse como credor mundial. Acreditou-se que o país havia superado seus problemas com as contas externas.

O aumento do salário mínimo acima da inflação a cada ano, e a política de facilitação de acesso ao crédito, fizeram com que o consumo fosse amplamente dilatado. No período Lula, entre 2003 e 2010, a geração de empregos chegou a 14 milhões (índice igual ao desemprego no período Temer). Todo esse processo criou a impressão de que o Brasil havia conquistado o patamar de um desenvolvimento capitalista autossustentável.

Esse processo reduziu, de fato, a desigualdade social. O índice Geni, que mede o grau de concentração pessoal da renda, se reduziu um pouco nos 13 anos de governo do PT. Diminuiu a distância entre a renda média dos 10% mais pobres e dos 10% mais ricos. Em 2010, esta diferença era de 39 vezes, enquanto em 2002, no governo FHC, era de 57 vezes. Cerca de 40 milhões de brasileiros saíram da miséria. Ampliou-se a rede de proteção social aos mais pobres. Em 2015, o Bolsa Família atendeu a quase 14 milhões de famílias.

Somam-se a isso a independência e a soberania da política externa brasileira, como a desarticulação da Alca, o fortalecimento do Mercosul, a participação na Celac e no G-20, a formação do Brics (Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul), e a eleição do nosso país para sediar a Copa do Mundo de 2014 e as Olimpíadas de 2016.

A falta, porém, de uma ousada política de comunicação e democratização da mídia, aliada ao fortalecimento dos mecanismos de participação democrática, tanto na esfera política quanto na econômica, fragilizaram todas essas conquistas. Não se fez um intensivo trabalho de alfabetização política da população, mormente dos setores populares, concomitante à organização e mobilização desses setores.

Nem sempre os governos progressistas da América Latina se empenharam em inverter a relação, historicamente predominante, da supremacia do mercado sobre o Estado. Ao contrário, através de desonerações tributárias, subsídios generosos a juros baixos e flexibilização das leis trabalhistas, o Estado se aliou ao mercado e se tornou seu provedor.

O Estado, por natureza, deve ser o provedor daqueles que se encontram marginalizados ou excluídos pelo mercado. O Estado tem, por dever, contrapor-se ao mercado quando este favorece a desigualdade social; reforça a primazia da propriedade privada sobre os direitos coletivos; e suga os recursos públicos, através de dívidas públicas não auditadas e, portanto, suspeitas.

Um governo que se pretende progressista e, no entanto, não logra assegurar a soberania do Estado sobre o mercado, está inevitavelmente condenado a ter seu poder político derrotado pelo poder econômico.

COMER, AMAR, ORAR

Um belo Texto. Por mim, só não utilizaria as expressões “transcendemo-nos a nós mesmos”, nem o substantivo mítico, “Cristo”. A espiritualidade de Jesus, o filho de Maria nunca nos leva a “transcender” nem a ver os pobres “como sacramentos vivos da presença de Cristo”. Os pobres são vítimas produzidas por este tipo de mundo, estruturalmente cristão, por isso, inumano. E não temos que nos transcender. Temos, sim, de ser cada vez mais seres humanos em relação maiêutica uns com os outros e com a Natureza. (Nota do Editor-Director)

Há três coisas inerentes aos seres humanos: nutrição, sexualidade e espiritualidade. São as fontes de nossa existência. Pela nutrição, desenvolvemos e asseguramos a saúde; pela sexualidade, preservamos e multiplicamos a espécie; pela espiritualidade, transcendemo-nos a nós mesmos, relacionando-nos com a natureza, o próximo e Deus.

Sem ingerir alimentos ninguém vive. De nossos cinco sentidos, o paladar é o primeiro a ser ativado. Ainda na fase intrauterina sugamos os nutrientes maternos. Por isso, este é o mais arraigado dos sentidos. Ao mudar de país, modificamos hábitos, adotamos outro idioma etc., mas jamais trocamos de paladar. Como a linguagem, ele é fator primordial de identificação. Na Austrália ou no Alasca, um brasileiro experimenta indizível prazer ao comer arroz com feijão ou manga e abacaxi.

A comensalidade é o mais humano de nossos atos. Nenhum outro animal cuida de preparar os alimentos e, em seguida, sentar em torno da mesa acompanhado de seus semelhantes. Só nós, humanos, fazemos do preparo dos alimentos uma arte – a culinária. E um ritual – estar à mesa e obedecer a um ritual: talheres, guardanapo, pratos, travessas... E nada pior do que comer sozinho. Comer é comungar, partilhar. É ação ressurrecional. A carne que nos alimenta é um animal que morreu para nos dar vida, assim como a salada, um vegetal, ou o arroz e feijão, cereais... A vida é sempre reciclável. Em torno da mesa dou ao outro algo de mim mesmo. Ele se “alimenta” do meu ser, assim como eu do dele.

A sexualidade pode ser sublimada, reprimida, mas nunca ignorada. É o reflexo da idade que a vida tem em nosso planeta: cerca de 3,5 bilhões de anos. Ela assegura a cadeia geracional que veio se aperfeiçoando desde as trilobitas até o ser humano. É a mais significativa manifestação de que a vida é um fenômeno intrinsecamente comunitário.

A libido, como ensinou Freud, pode ser canalizada, mas não descartada. Nem Jesus deixou de ter pulsão sexual. A questão é saber em que nível se manifesta a nossa sexualidade, como porno, eros, filia ou ágape. Como porno (donde pornografia) o meu prazer é a sua degradação; como eros (donde erotismo) o meu prazer é também o seu; como filia (donde filia + sofia = amizade à sabedoria, filosofia), o prazer reside na amizade, na cumplicidade; como ágape, nossos prazeres culminam na felicidade, na comunhão espiritual entre dois seres que se amam.

Graças à ciência moderna, a sexualidade não está mais atrelada à procriação, o que permite que exista como sacramento amoroso, de interação física da comunhão espiritual. O inverso é perverso: a sexualidade como mero prazer físico, imediato, sem mediação da subjetividade.

Espiritualidade é a janela de nossa vocação à transcendência. Podemos canalizá-la para o consumismo, o mercado, o poder ou escolher o dinheiro no lugar de Deus (Mateus 6, 24), mas ela está sempre presente, pois imprime sentido à nossa subjetividade e, portanto, à existência. Portanto, precede a experiência religiosa, assim como o amor antecipa e fundamenta a instituição familiar. Convém lembrar: Deus não tem religião.

A vida espiritual nos induz à comunhão com Deus e reativa a nossa potencialidade amorosa. O caminho mais curto não é ser amoroso com o próximo para, em seguida, amar a Deus. Ao contrário, invadidos pelo amor de Deus transbordamos amor na direção do próximo.

A comunhão com Deus tem duas vias. A mais em voga imagina que Deus é alcançável pela escalada de nossas virtudes morais. Quanto mais puros e santos, mais próximos estaremos de Deus. A via evangélica adota a direção contrária. Deus é amor e irremediavelmente apaixonado por cada um de nós. Nenhum pecado faz com que ele se afaste de nós e deixe de nos amar. Portanto, basta-nos abrir o coração ao amor divino.

É como a relação de um casal: o homem se sente tão amado e ama tanto a sua mulher que não consegue deixar de ser fiel. Assim é a relação com Deus. Em respeito à nossa liberdade, ele espera apenas que decidamos nos abrir mais ou menos ao seu amor, que é terno. E o método mais fácil a essa abertura é a oração, em especial a meditação, que nos permite descobrir Deus no âmago de nosso ser, e no serviço aos mais pobres, sacramentos vivos da presença de Cristo.

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Edição 128, Maio 2017

NOSSA AMÉRICA LATINA

A América Latina, com 605 milhões de habitantes, é hoje a região de maior desigualdade no mundo. Em 2014, os ganhos per capita dos 10% mais ricos eram 14 vezes superiores aos de 40% da população mais pobre. Esse índice de desigualdade subia para 17 vezes no Brasil, Colômbia e Guatemala, e 24 vezes em Honduras.

Nenhum outro continente foi tão oprimido quanto o americano. Na Ásia predominam os olhos puxados. Na África, a população negra. Aqui escasseia quem possua traços indígenas. Já no primeiro século da colonização se calcula que 70 milhões de índios foram massacrados pelos colonizadores europeus.

Graças aos governos democráticos populares instalados no continente a partir de 1998, desde 2003 mais de 72 milhões de latino-americanos deixaram a pobreza, segundo dados da Oxfam. Isso ocorreu devido ao aumento do salário mínimo e dos gastos públicos em políticas sociais (agora reduzidos, no Brasil, pelo governo Temer), e o aprimoramento da educação fundamental.

No entanto, o PNUD (Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento) calcula que, desde 2014, 1,7 milhão de latino-americanos voltaram à pobreza. E no final de 2016 se somaram a este contingente mais 1,5 milhão de pessoas, como vem ocorrendo no Brasil com seus 14 milhões de desempregados.

Esse reempobrecimento do continente decorre não apenas de fatores econômicos, como o fim do boom das commodities, mas também de redução das políticas sociais, em especial nos países afetados por golpes parlamentares, como Honduras, Paraguai e Brasil, e agora governados por presidentes neoliberais, como Argentina e México. Há que considerar ainda as catástrofes ambientais, como as recentes chuvas torrenciais na região andina e a seca que ora castiga o Nordeste brasileiro.

Em matéria de educação, o Brasil ainda não atingiu o patamar médio dos países latino-americanos. Aqui os alunos do ensino médio permanecem na escola cerca de quatro horas por dia. A média continental é de seis horas.

A América Latina não encontrou ainda seu modelo de desenvolvimento sustentável. Todos os países continuam na dependência de suas exportações, ou seja, sujeitos aos interesses das nações metropolitanas e às oscilações do mercado.

Segundo a Cepal, 29,2% da população latino-americana vive, hoje, na pobreza, o que equivale a 172 milhões de pessoas. Em 2014 eram 28,2. A pobreza se expande, sobretudo, em Honduras, México e Venezuela.

A América Latina não terá futuro enquanto não alcançar justiça fiscal, ou seja, o imposto progressivo (quem ganha mais, paga mais), a redução da corrupção e o aumento dos gastos em políticas sociais.

No Brasil, o retrocesso nos índices sociais aumentará com a provável aprovação das reformas trabalhista e previdenciária, que cortam substancialmente direitos sociais conquistados nas últimas sete décadas. No governo Temer, o orçamento da Funai (Fundação Nacional do Índio) sofreu redução de 23%, e o das secretarias voltadas às questões étnicas e aos direitos humanos, 56,3%. Isso explica os recentes conflitos envolvendo sem terras e indígenas na Amazônia brasileira.

DO MODERNO AO PÓS-MODERNO

A morte da modernidade merece missa de sétimo dia? Os pais da modernidade nos deixaram de herança a confiança nas possibilidades da razão. E nos ensinaram a situar o homem no centro do pensamento e a acreditar que a razão, sem dogmas e donos, construiria uma sociedade livre e justa.

Pouco afeitos ao delírio e à poesia, não prestamos atenção à crítica romântica da modernidade - Byron, Rimbaud, Burckhardt, Nietzsche e Jarry. Agora, olhamos em volta e o que vemos? As ruínas do Muro de Berlim, a Estátua da Liberdade tendo o mesmo efeito no planeta que o Cristo do Corcovado na vida cristã dos cariocas, o desencanto com a política, o ceticismo frente aos valores.

Somos invadidos pela incerteza, a consciência fragmentária, o sincretismo do olhar, a disseminação, a ruptura e a dispersão. O evento soa mais importante que a história e o detalhe sobrepuja a fundamentação.

O pós-moderno aparece na moda, na estética, no estilo de vida. É a cultura de evasão da realidade. De fato, não estamos satisfeitos com a inflação, com a nossa filha gastando mais em pílulas de emagrecimento que em livros, e causa-nos profunda decepção saber que, neste país, a impunidade é mais forte que a lei.

Ainda assim, temos esperança de mudá-lo. Recuamos do social ao privado e, rasgadas as antigas bandeiras, nossos ideais transformam-se em gravatas estampadas. Já não há utopias de um futuro diferente. Hoje, é considerado politicamente incorreto propagar a tese de conquista de uma sociedade onde todos tenham iguais direitos e oportunidades.

Agora predominam o efêmero, o individual, o subjetivo e o estético. Que análise de realidade previu a volta da Rússia à sociedade de classes? Resta-nos captar fragmentos do real (e aceitar que o saber é uma construção coletiva). Nosso processo de conhecimento se caracteriza pela indeterminação, descontinuidade e pluralismo.

A desconfiança da razão nos impele ao esotérico, ao espiritualismo de consumo imediato, ao hedonismo consumista, em progressiva mimetização generalizada de hábitos e costumes. Estamos em pleno naufrágio ou, como predisse Heidegger, caminhando por veredas perdidas.

Sem o resgate da ética, da cidadania e das esperanças libertárias, e do Estado-síndico dos interesses da maioria, não haverá justiça, exceto aquela que o mais forte faz com as próprias mãos.

Ingressamos na era da globalização. Graças às redes de computadores, um rapaz de São Paulo pode namorar uma chinesa de Beijing sem que nenhum dos dois saia de casa. Bilhões de dólares são eletronicamente transferidos de um país a outro no jogo da especulação, derivativo de ricos. Caem as fronteiras culturais e econômicas, afrouxam-se as políticas e morais. Prevalece o padrão do mais forte.

A globalização tem sombras e luzes. Se de um lado aproxima povos e quebras barreiras de comunicação, de outro ela assume, nas esferas econômica e cultural, o caráter de globocolonização.

FRANCISCO E O VALOR HUMANO

Notícias que nos dão a impressão de retrocessos dos valores conquistados pela modernidade: Trump cassa o direito dos pobres à saúde; Marine Le Pen falsifica documento para acusar o adversário Emmanuel Macron de manter contas em paraíso fiscal; terroristas islâmicos atacam acampamento de refugiados; deputado do PSDB assina projeto de lei em prol da neo escravatura do trabalhador rural; a corrupção no Brasil parece não ter fim; bispos denunciam reformas trabalhista e previdenciária como violação de direitos dos trabalhadores etc.

Talvez a contradição seja inerente à nossa condição humana, o que a Bíblia chama de pecado original. Sempre houve malfeitos. Não havia, porém, meios de comunicação que dessem notícias da aldeia vizinha. Como ainda hoje pouco se divulga o lado positivo da vida.

Na Igreja primitiva também havia fiéis que prestavam culto a Deus embora se mantivessem insensíveis aos direitos dos excluídos: “Queres honrar o corpo de Cristo? Então não deixes que ele seja alvo de desprezo nos seus membros, ou seja, nos pobres, que não têm roupa para se vestir. Não o honres aqui na igreja com retalhos de seda, enquanto lá fora o deixas padecer de frio e nudez.” (Homilia de São João Crisóstomo [344-407], patriarca de Constantinopla).

Não é fácil criar uma cultura que induza todo ser humano a encarar o outro como digno de supremo respeito. Na linguagem evangélica, como “morada de Deus” (Carta a Timóteo 3, 15). Não haveria massacres de sem-terras no Mato Grosso, ataque a índios no Maranhão ou a refugiados em São Paulo, fuzilaria nos morros do Rio.

Onde a causa dessa incivilidade? Na cultura neoliberal que respiramos, na qual os bens valem mais que as pessoas. Merecem valor apenas as pessoas portadoras de bens materiais ou simbólicos (fama, poder, riqueza).

A essa óptica equivocada reagiu o papa Francisco: “Gostaria de vos contar uma história que aparece no midrash bíblico de um rabino do século XII. Relata a construção da Torre de Babel. Para construir a torre era preciso fazer tijolos: amassar a lama, formatar na palha, pôr as peças no forno. Quando o tijolo estivesse pronto, tinha de ser levado para cima. Um tijolo era um tesouro, tendo em vista todo o trabalho necessário para fabricá-lo. Cada vez que caía um, era uma tragédia, e se punia o operário culpado. Um tijolo era muito precioso. Mas se caísse um operário, era diferente, não acontecia nada.

É o que acontece hoje: se os investimentos nos bancos diminuem minimamente, eis uma tragédia! Mas se as pessoas morrem de fome, não têm o que comer, não gozam de boa saúde, não faz mal! Eis a nossa crise de hoje! E o testemunho de uma Igreja pobre para os pobres vai contra essa mentalidade.” (Galleazzi, Giacomo; Tornielli, Andrea. Papa Francisco, esta economia mata. Lisboa, Bertrand Editora, 2016, pp. 24-25).

Ao receber embaixadores junto à Santa Sé, em 16 de maio de 2013, Francisco sublinhou: “Criamos novos ídolos. A adoração do antigo bezerro de ouro encontrou uma imagem nova e desapiedada no fetichismo do dinheiro e na ditadura da economia sem rosto nem objetivo realmente humano. A crise mundial que atinge as finanças e a economia parece evidenciar as deformidades e, sobretudo, a grave falta de perspectiva antropológica, que reduz o homem a apenas uma das suas exigências: o consumo. E, pior ainda: hoje o próprio ser humano é considerado um bem de consumo descartável.

Inauguramos esta cultura do desperdício. Nesse contexto, a solidariedade, o tesouro dos pobres, é muitas vezes julgada contraproducente, contrária à racionalidade financeira e econômica. Enquanto os rendimentos de uma minoria crescem de maneira exponencial, os da maioria diminuem. Este desequilíbrio deriva de ideologias que promovem a autonomia absoluta dos mercados e a especulação financeira, negando assim o direito de controle aos Estados, aos quais caberia a responsabilidade de zelar pelo bem comum.”

A voz do papa clama no deserto? Há que atacar as causas desses efeitos que tanto nos horrorizam.

RECLAMAR MENOS, ATUAR MAIS

Quando me perguntam sobre o Brasil, respondo que não vejo luz no fim do túnel porque nem mesmo enxergo o túnel...

      Não lembro de ter vivido conjuntura tão incerta. Na ditadura os atores, de um lado e outro, eram definidos. Agora não. Há um assombroso retrocesso no país, e é praticamente insignificante a reação de quem se lhe opõe.

      A reforma trabalhista jogou por terra mais de 70 anos de conquistas laborais. A terceirização passou ao primeiro lugar. A reforma da Previdência condena os brasileiros mais pobres a uma vida toda de trabalho forçado, pois dificilmente terão sobrevida após 49 anos de aluguel de sua força de trabalho aos patrões, a preço salarial irrisório.

      O Brasil está atolado no retrocesso econômico, no esgarçamento das políticas sociais, na precarização da saúde e da educação, e na corrupção. Os dados são alarmantes: 13 milhões de desempregados; surtos de febre amarela, dengue, zika e chikungunya, violência urbana crescente.

      Para se contrapor a essa conjuntura, não basta abastecer as redes sociais de ofensas, ironias, ressentimentos e piadas. É preciso organizar a esperança. Ter clareza de como proceder nas eleições de 2018 e qual o projeto de Brasil dos nossos sonhos.

      O voto em 2018 deverá estar pautado pelo Brasil que queremos. Essa visão estratégica deve nortear a escolha de partidos e candidatos.

      Eleições, contudo, não mudam um país. O que muda é o fortalecimento dos movimentos sociais, o aprofundamento ideológico à luz do marxismo, o resgate da utopia e a militância junto aos segmentos empobrecidos da população. Buscar a alternativa socialista brasileira com visão crítica das experiências socialistas historicamente existentes.

      Há que resistir a essa avassaladora cooptação feita pelo neoliberalismo. A direita avança no mundo todo. A desigualdade se acentua: oito indivíduos, segundo a Oxfam, possuem a mesma renda de 3,6 bilhões de pessoas, metade da humanidade.

      Temos apenas duas escolhas: cuidar de nossa vida biológica, como estudar para obter emprego e, graças ao salário, sustentar a família, esperando que a sorte não nos empurre para a pobreza; ou imprimir à vida um sentido biográfico, histórico, ao assumir a militância da luta por justiça, liberdade e defesa intransigente dos direitos humanos.

      Não nos basta informação. É preciso investir em formação, de modo a construir uma alternativa de sociedade que, a meu ver, deve consistir no ecossocialismo.

      Fora Temer? E o que colocar dentro?

REVOGUE-SE A LEI DA ABOLIÇÃO

Não satisfeito com a reforma trabalhista que retira direitos dos trabalhadores e favorece interesses dos patrões, o deputado federal Nilson Leitão (PSDB-MT), líder da bancada ruralista, encaminhou projeto que reintroduz no Brasil a neoescravatura.

A proposta é de estarrecer: os trabalhadores rurais não seriam pagos apenas com salários, mas também mediante “remuneração de qualquer espécie”, como oferta de moradia e alimentação.

Esse descaso com os direitos humanos é um retrocesso civilizatório. Se aprovado o projeto, fazendeiros que só têm olhos para suas contas bancárias dirão ao empregado: “Vou lhe fornecer casa e comida. E este será o pagamento pelo seu trabalho, uma vez que vai morar e comer de graça.”

O projeto prevê ainda que a jornada diária poderá se estender por 12 horas! Anula-se assim o 1º de Maio, data na qual os trabalhadores comemoram a conquista das 8 horas diárias. E só haverá dia de descanso após 18 dias de trabalho consecutivo. Ou seja, além de o trabalhador jamais desfrutar de aposentadoria, devido à desumana reforma previdenciária em pauta, teria sua morte antecipada por exaustão. Quem nunca pegou no cabo de enxada não tem ideia do que significa lidar com a terra sob sol ou chuva.

O deputado do PSDB, sem nenhum pudor diante da Declaração Universal dos Direitos Humanos e da Constituição Cidadã de 1988, propõe ainda: o que negociarem patrão e empregado valerá mais que a legislação trabalhista; a CLT não mais protegerá o trabalhador rural; autoriza-se trabalho aos domingos e feriados sem necessidade de laudos; empregado que morar no local de trabalho poderá vender integralmente as férias; revogam-se as normas do Ministério do Trabalho sobre saúde e segurança no campo; as regras sobre agrotóxicos não mais serão definidas pelos ministérios do Trabalho e da Saúde etc.

O Brasil acelerou o seu retrocesso com o governo Temer. Fala-se que a Previdência é deficitária e se reduzem os direitos dos trabalhadores de baixa renda, sem no entanto tocar nas gordas aposentadorias de políticos que exerceram dois mandatos, e de membros das Forças Armadas e do Poder Judiciário.

Há muita grita de “fora Temer” e repulsa a parlamentares favoráveis às reformas trabalhistas e previdenciárias. Nenhum deles, porém, entrou no Congresso Nacional pela porta dos fundos. Foram todos eleitos nas urnas.

Ano que vem termina o mandato de todos os deputados e de 27 senadores. Novos deputados e 54 senadores serão eleitos. E em 2018 não será fácil utilizar o caixa dois. Portanto, a questão que se coloca não é apenas em quem cada eleitor votará. É iniciar, desde hoje, campanha em prol de candidatos que sejam comprovadamente éticos e comprometidos com os direitos dos segmentos mais pobres e discriminados de nossa população.

Como canta Geraldo Vandré, “quem sabe faz a hora, não espera acontecer.” Tomara que deputados e senadores eleitos em 2018 não possam entoar, ao tomarem posse, o verso de Belchior: “Ainda somos os mesmos!”


CIDADANIA DE DIREITOS

Uma democracia se caracteriza por favorecer a cidadania de direitos. Direito à alimentação, saúde e educação. A uma vida digna e feliz. Direito ao trabalho e ao lazer, à moradia e à cultura. Direito de escolher seus representantes políticos e se beneficiar da proteção social custeada pelos impostos que o cidadão paga.

A democracia é sabotada quando o governo sonega direitos ao cidadão. Flexibiliza as leis trabalhistas ao romper cláusulas pétreas dos contratos laborais que impedem a superexploração da força de trabalho e o fortalecimento dos privilégios do capital.

A democracia entra em colapso quando direitos básicos, como saúde e educação, se tornam produtos caros a serem negociados no balcão do mercado. E também quando o governo privatiza o patrimônio público, reduz o Estado a mero gerente de interesses particulares, manda às favas os escrúpulos e garante a governabilidade por meios escusos, como o conluio criminoso entre políticos e corporações empresariais através da corrupção.

Essa falácia democrática segue a lógica de que não deve haver cidadania de direitos, exceto para a elite, o que transforma direitos em privilégios. Deve haver “cidadania” de bens, de acesso ao mercado de consumo, de mimetismo cultural, de aspirações dos remediados e da classe média aos padrões de consumo das nações metropolitanas.

Quando a cultura narcísica do ter predomina sobre a cultura humanística do ser é sinal de que o tecido social começa a se esgarçar. Virtudes como solidariedade, voluntariado, acolhimento e respeito às diferenças são implodidas. Cedem lugar à competitividade, ao individualismo, à vaidade exacerbada, aos preconceitos e discriminações. A harmonia social se vê ameaçada pela violência da imposição arbitrária de usos e costumes, e pelo agravamento das diferenças sociais. Então a sociedade, qual manada tocada ao curral, aceita trocar liberdade por segurança.

Os tempos mudam. Inútil sonhar com a volta ao passado. Agora a informatização estabelece novas modalidades de relações sociais. E essas ferramentas tecnológicas não são neutras. Ditam comportamentos, atitudes, novos paradigmas. Por isso é preciso impedir que estimulem o solipsismo, esse dar de ombros para o que se passa em volta por quem não se interessa senão pelo próprio umbigo.

As redes sociais podem e devem tecer vínculos de solidariedade, e propiciar plataformas de protestos e propostas. É preciso desimbecializá-las como meros nichos de desconstrução do outro. Os problemas não estão nos indivíduos, e sim nas instituições, nas estruturas, no sistema.

De nada adianta querer cortar a árvore podre sem considerar a doença que contamina a floresta. Sem a visão macro do processo social cai-se no atoleiro do emocionalismo bizarro, infantil, que em nada contribui para se formular um projeto alternativo de sociedade.

APÓSTOLAS, PIONEIRAS DO FEMINISMO

N.D. É pena que até o meu querido amigo Frei Betto embarque aqui, neste seu belo texto numa leitura jornalística de narrativas densamente teológicas e, deste modo, nos prive na Boa Notícia antropológica que elas escondem-revelam. Nada como estudar o meu Livro, JESUS SEGUNDO JOÃO, Seda Publicações, para mergulharmos no ser-viver-ver deJesus, o filho de Maria

O Evangelho de João (20, 11-18) descreve que, morto Jesus, Maria Madalena permaneceu chorando junto ao túmulo, cuja pedra-porta havia sido retirada. Ao fitar o interior, não avistou o corpo de Jesus. Viu dois anjos. Perguntaram por que chorava. Ela respondeu: “Porque levaram o meu Senhor e não sei onde o colocaram.”

Ao se virar, Madalena se deparou com um homem que também lhe perguntou por que chorava e o que procurava. Supôs tratar-se do jardineiro do cemitério: “Se foi o senhor que levou Jesus, diga-me onde o colocou e irei buscá-lo.” O estranho chamou-a pelo nome: “Maria.” Reconheceu Jesus pelo tom de voz e exclamou: “Rabuni!” (em hebraico, Mestre).

Madalena não se conteve e o abraçou. “Não me segure”, disse Jesus, “porque ainda não voltei para o Pai. Mas diga a meus irmãos que subo para junto de meu Pai, que é o Deus de vocês.” Ela foi ao encontro dos discípulos e anunciou: “Eu vi o Senhor!”

Madalena foi a primeira testemunha da Ressurreição. E a primeira a anunciar Jesus ressuscitado. Só o machismo imperante na Igreja, desde os primeiros séculos, explica por que não é considerada apóstola. Desde que Jesus a livrou de “sete demônios” não deixou de segui-lo, em companhia de Joana, Susana “e várias outras mulheres” (Lucas 8, 3).

Madalena não foi, entretanto, a primeira a reconhecer em Jesus o esperado Messias. Tal mérito pertence a outra mulher, também destacada por João (4, 1-30). Não sabemos o nome dela. Sabemos que vivia na Samaria e tinha o estranho hábito de ir ao poço buscar água por volta do meio-dia.

Ora, em qualquer região onde não há água encanada é ao amanhecer que se costuma buscar água. A atitude da samaritana se explica pelo óbvio: não queria encontrar outras mulheres. Sabia que tinha má fama e preferia ir ao poço quando não tivesse ninguém.

Certo dia se deparou ali com um jovem. Ao vê-la descer o balde no poço, ele pediu-lhe: “Dá-me de beber.” Pelo sotaque, reconheceu-o como judeu. E reinava forte rixa histórica entre judeus e samaritanos. “Como você, judeu, pede de beber a mim, samaritana?” Jesus, que ali parara para descansar enquanto os discípulos haviam ido comprar provisões, reagiu: “Se soubesse quem lhe pede de beber, você é que lhe pediria, e ele lhe daria água viva.”

A afirmação a intrigou: “Você não tem balde. De onde tirará água viva?” Jesus insistiu: “Quem bebe desta água terá sede de novo. Mas quem beber da água que darei nunca mais terá sede.” A fim de se livrar do trabalho de ir ao poço, ela o desafiou: “Dá-me dessa água, para que eu não tenha mais sede nem precise vir aqui.”

Jesus mudou o foco do papo: “Vá chamar seu marido.” “Não tenho marido”, disse ela. Sua fama já havia chegado à Galileia. “Você está certa ao dizer que não tem marido”, retrucou Jesus. “Já teve cinco e, agora, vive com um homem que não é seu marido. Você falou a verdade.”

Curioso Jesus não ter proferido um sermão moralista: “Sua promíscua! Como ousa querer minha água viva se não é capaz de botar freio nessa rotatividade conjugal?” E pensar que, hoje, há cardeais, bispos e padres que, contrariando o papa Francisco, insistem em negar os sacramentos a homens e mulheres recasados!

Além de não emitir nenhuma censura, Jesus a elogiou por dizer a verdade. E ao elucidar a dúvida dela sobre que lugar Deus deveria ser adorado, se em Jerusalém ou na Samaria, ele enfatizou que “os verdadeiros adoradores que o Pai deseja devem adorar em espírito e verdade.” E, pela primeira vez, quebrou o anonimato sobre a sua natureza divina e se revelou a ela como o esperado Messias.

Pobres dos puritanos escrupulosos! Não suportam o fato de Jesus ter se revelado, pela primeira vez, não a Pedro ou a outro apóstolo, mas a uma mulher de vida irregular! Por quê? Porque percebeu o quanto ela tinha sede de amor (a água viva). Era uma mulher voraz e veraz. E só Deus seria suficiente para preencher tamanho buraco no coração.

A samaritana largou o balde e correu à cidade para anunciar que encontrara o Messias. Ela foi, de fato, a primeira apóstola.

Estranho é que, até hoje, as mulheres sejam consideradas fiéis de segunda classe na Igreja Católica, impedidas de acesso ao sacerdócio. Se Deus quiser, isso haverá de mudar um dia, como tantas outras pedras do tradicionalismo já removidas.

Edição 127, Abril 2017

SETE LIÇÕES DA LISTA DE FACHIN

A divulgação da lista de políticos delatados pelos réus da Lava Jato nos deixam importantes lições:

1. Nós votamos, o poder econômico elege. Sempre foi assim, desde que se introduziu o voto na política brasileira, em 1891. Candidatos criam caixa dois, compram votos, distribuem brindes, fazem ameaças. Os custos da campanha não costumam sair do bolso deles. Saem dos cofres de bancos, empresas, instituições (como a Fiesp), Igrejas, paraísos fiscais e contravenção (jogo do bicho, narcotráfico etc).Aprovou-se agora uma lei que proíbe o financiamento de campanhas eleitorais por pessoas jurídicas. Ilusão supor que não haverá caixa dois. O capitalismo é intrinsecamente corrupto. Nele o capital não conhece fronteiras e impera acima da lei.

2. Muitos políticos são eleitos, não para representar seus eleitores, e sim para servir aos interesses de quem banca a campanha eleitoral. É o que a Lava Jato comprova. Até Medidas Provisórias foram encomendadas pela Odebrecht. Leis são modificadas em função de interesses corporativos.

3. A maioria dos políticos brasileiros não tem ideais, projetos ou propostas. Eles têm negócios. Fazem da função pública um balcão de negócios privados. Lixam-se para o povão. Odeiam pobres e se sentem incomodados com a mobilização dos movimentos populares.

4. A política brasileira virou um regime de dinastia. Pais elegem filhos, e maridos elegem a mulher, e eles, por sua vez, abrem caminho às suas descendências. É a nobreza da República. E, assim, ampliam largamente o patrimônio e o poder de barganha.

5. A Lava Jato jogou uma ducha de água fria na safadeza generalizada de muitos políticos. Querem desesperadamente amenizar os estragos por terem sido denunciados. Sonham em não perder o foro privilegiado. Por isso, mexem os pauzinhos para limitar a ação do Judiciário e do Ministério Público sob o pretexto de “abuso de autoridade”. Descaradamente propõem o voto em lista para que o eleitor vote sem saber quem elege. A escolha dos eleitos ficaria a critério dos caciques que mandam em seus partidos, como um latifundiário manda em suas terras.

6. Você, eu, todos nós pagamos a roubalheira levantada pela Lava Jato. Isso mesmo, porque o dinheiro das propinas veio dos nossos impostos. Dinheiro que deveria ter sido aplicado na saúde, na educação, na agricultura familiar etc. As obras encomendadas pelos políticos desonestos foram superfaturadas, para que as empreiteiras repassassem a eles as propinas. Embora haja políticos éticos, não se deve exigir apenas ética dos políticos, mas sobretudo ética na política.

7. Só uma profunda reforma política, com um governo que tenha projeto de nação, e não apenas de poder, poderá reduzir as anomalias da política brasileira. Porém, enquanto perdurar a desigualdade social haverá de vigorar o império da corrupção e do cinismo. Só haverá verdadeira democracia política quando houver de facto democracia econômica

SETE LIÇÕES DA LISTA DE FACHIN

A divulgação da lista de políticos delatados pelos réus da Lava Jato nos deixam importantes lições:

1. Nós votamos, o poder econômico elege. Sempre foi assim, desde que se introduziu o voto na política brasileira, em 1891. Candidatos criam caixa dois, compram votos, distribuem brindes, fazem ameaças. Os custos da campanha não costumam sair do bolso deles. Saem dos cofres de bancos, empresas, instituições (como a Fiesp), Igrejas, paraísos fiscais e contravenção (jogo do bicho, narcotráfico etc).Aprovou-se agora uma lei que proíbe o financiamento de campanhas eleitorais por pessoas jurídicas. Ilusão supor que não haverá caixa dois. O capitalismo é intrinsecamente corrupto. Nele o capital não conhece fronteiras e impera acima da lei.

2. Muitos políticos são eleitos, não para representar seus eleitores, e sim para servir aos interesses de quem banca a campanha eleitoral. É o que a Lava Jato comprova. Até Medidas Provisórias foram encomendadas pela Odebrecht. Leis são modificadas em função de interesses corporativos.

3. A maioria dos políticos brasileiros não tem ideais, projetos ou propostas. Eles têm negócios. Fazem da função pública um balcão de negócios privados. Lixam-se para o povão. Odeiam pobres e se sentem incomodados com a mobilização dos movimentos populares.

4. A política brasileira virou um regime de dinastia. Pais elegem filhos, e maridos elegem a mulher, e eles, por sua vez, abrem caminho às suas descendências. É a nobreza da República. E, assim, ampliam largamente o patrimônio e o poder de barganha.

5. A Lava Jato jogou uma ducha de água fria na safadeza generalizada de muitos políticos. Querem desesperadamente amenizar os estragos por terem sido denunciados. Sonham em não perder o foro privilegiado. Por isso, mexem os pauzinhos para limitar a ação do Judiciário e do Ministério Público sob o pretexto de “abuso de autoridade”. Descaradamente propõem o voto em lista para que o eleitor vote sem saber quem elege. A escolha dos eleitos ficaria a critério dos caciques que mandam em seus partidos, como um latifundiário manda em suas terras.

6. Você, eu, todos nós pagamos a roubalheira levantada pela Lava Jato. Isso mesmo, porque o dinheiro das propinas veio dos nossos impostos. Dinheiro que deveria ter sido aplicado na saúde, na educação, na agricultura familiar etc. As obras encomendadas pelos políticos desonestos foram superfaturadas, para que as empreiteiras repassassem a eles as propinas. Embora haja políticos éticos, não se deve exigir apenas ética dos políticos, mas sobretudo ética na política.

7. Só uma profunda reforma política, com um governo que tenha projeto de nação, e não apenas de poder, poderá reduzir as anomalias da política brasileira. Porém, enquanto perdurar a desigualdade social haverá de vigorar o império da corrupção e do cinismo. Só haverá verdadeira democracia política quando houver de fato democracia econômica.

PAPA FRANCISCO SOFRE OPOSIÇÃO DENTRO DA IGREJA


       É cada vez mais acirrada a oposição intraeclesial ao papa Francisco. O cardeal Robert Sarah, prefeito da Congregação do Culto Divino, responsável pela vida litúrgica da Igreja Católica, no ano passado atacou abertamente o rito da missa adotado pelo Concílio Vaticano II.

       Em carta enviada a um encontro litúrgico que defende a restauração da missa tridentina (rezada em latim e com o celebrante de costas para os fiéis),  o prefeito do Culto Divino criticou o atual rito da missa: “Não podemos fechar os olhos aos desastres, devastações e guerras que os promotores modernos de uma liturgia viva causaram ao remodelar a liturgia da Igreja de acordo com suas ideias.”

       O cardeal africano não se dá conta de que as tradições oriundas do Concílio de Trento (1545-1563) também representaram, à época, inovações na liturgia católica, muitas delas infiéis aos ritos dos primórdios da Igreja.

       De modo nada sutil, o cardeal Sarah ataca o papa Francisco ao frisar na carta que “muitos creem e declaram em alto e bom som que o Concílio Vaticano II ocasionou uma verdadeira primavera na Igreja (…). Com efeito, um número cada vez maior de líderes eclesiais consideram esta ‘primavera’ um rechaço, uma renúncia à sua herança milenar.” Para ele, há uma “tendência sacrílega”  na Igreja depois do Vaticano II. O uso da expressão “primavera” não foi casual. Tem sido utilizada para definir o clima na Igreja após a eleição de Francisco.

       O atual pontífice é amado por muitos, mas não por todos, principalmente os conservadores que agem com o intuito de enfraquecer a autoridade papal. O facto mais midiático ocorreu em Roma, em fevereiro último, quando ruas próximas ao Vaticano amanheceram tomadas por cartazes apócrifos com críticas a Francisco.

       Os cartazes traziam uma foto do papa com expressão séria, e textos referentes a atitudes que ele teve em relação aos que se opõem a seu modo de dirigir a Igreja: "Francisco, você destituiu os chefes das congregações, removeu sacerdotes, decapitou a Ordem de Malta e a dos Franciscanos da Imaculada, e ignorou cardeais. Onde está sua misericórdia?", dizia o texto, coberto horas depois pela prefeitura de Roma com a inscrição "publicidade ilegal".

       Na mesma época, cardeais de Roma receberam uma versão apócrifa do jornal do Vaticano, o L'Osservatore Romano. Na capa figurava uma lista de perguntas ao papa feitas por cardeais conservadores em que a resposta era sempre sic et non (sim e não).

       Francisco incomoda. Eleito em março de 2013, após escândalos que abalaram a imagem da Igreja e induziram o papa Bento XVI à renúncia, o novo papa tomou medidas drásticas, como auditoria das finanças vaticanas, punição aos corruptos da Cúria Romana e aos pedófilos, abertura a questões de gêneros e sexualidade, críticas ao capitalismo etc. Para os tradicionalistas supostamente puritanos, é inaceitável o papa admitir que divorciados recasados possam se aproximar dos sacramentos, e homossexuais sejam acolhidos no seio da Igreja.

       "O papa é o vigário de Cristo na Terra, mas não é Cristo. Pode errar, pecar e até ser corrigido. Não concordo com seu modo de governar. A Igreja está hoje imersa em confusão e desorientação: os fiéis precisam de certezas, mas não conseguem encontrá-las. Corremos o risco de uma cisão", diz Roberto De Mattei, presidente da Fundação Lepanto, que faz campanha pela "defesa dos princípios e instituições da civilização cristã."

       Os seguidores de De Mattei são suspeitos de terem divulgado os cartazes ofensivos a Francisco. Ele se defende: "Não sei quem são os autores (dos cartazes), mas não fomos nós. Em Roma, você percebe um clima de medo, típico de regimes totalitários. Estamos diante de uma monarquia absoluta que usa a colaboração de cardeais e bispos, mas lhes dá pouca autonomia. O papa ama nomear comissários especiais para muitos assuntos, assim, ao final, ele sempre pode decidir", declarou De Mattei.

      Para o historiador Massimo Faggioli, professor de teologia na Villanova University (EUA), é possível identificar três tipos de oposição ao papa: teológica, institucional e política. "A teológica parte de alguns setores na Igreja que acham que o papa é muito moderno em questões como casamento e família. É uma oposição pequena, que age de forma respeitosa", diz o professor.

Nessa trincheira se destacam quatro cardeais ultraconservadores: Walter Brandmüller e Joachim Meisner, da Alemanha; Carlo Cafarra, da Itália; e Raymond Burke, dos EUA. Em setembro de 2016, pediram, em carta pública, que o papa corrija "erros doutrinários" da Exortação Apostólica Amoris Laetitia (Alegria do Amor), um guia para a vida em família que prega a aceitação, pela Igreja, de comportamentos próprios da sociedade contemporânea.

Na oposição institucional há os que insistem em manter o statu quo. "Alguns cardeais têm medo de perder privilégios ou da mudança de mecanismos para a nomeação dos bispos", diz Faggioli.

O historiador considera que a maior oposição a Francisco refere-se às suas atitudes políticas: "O papa fala sobre vivermos juntos, construir pontes em vez de muros. São questões 'inconvenientes' para a política global da atualidade, pois contrastam com ideias da direita francesa, italiana e americana. São tidas como uma ameaça. O papa pode lidar com as duas primeiras oposições, mas a política é a mais difícil", afirma.

A reação contra o papa não se concentra apenas na Itália e na Europa. O jornalista italiano Nello Scavo, autor do livro Os inimigos de Francisco, diz que há grupos nos EUA que trabalham pelo enfraquecimento da liderança papal: "Há grupos financeiros, fabricantes de armas e multinacionais, que querem que o papa perca poder. Sua retórica é muito anti-establishment. Ele afirmou que a nossa economia mata, condenou o capitalismo e se fez escutar em questões ecológicas", diz Scavo, citando críticas a Francisco feitas pelo centro de estudos conservador American Enterprise Institute (AEI).

O AEI conta, entre seus dirigentes, com vários ex-integrantes do governo George W. Bush, entre eles o ex-vice-presidente Dick Cheney. "Cheney faz parte do AEI, foi membro do conselho da Lockheed Martin, principal fabricante de sistemas de defesa no mundo, e a AEI tem a Halliburton entre seus principais financiadores", afirma o jornalista, citando a multinacional de serviços para exploração de petróleo.

Jornalista da emissora católica canadense Salt and Light, Matteo Ciofi diz que a oposição teológica é, de facto, a que menos deve preocupar o papa. "Não é possível que um cardeal africano e um europeu possam ter a mesma visão sobre a família. Faz parte das diferenças culturais, é normal que haja críticas. O problema, dentro da Igreja, se concentra naqueles que não querem perder privilégios", diz.

Ao papa Francisco se aplica o que disse a Maria o velho Simeão, ao se referir a Jesus: “Ele será um sinal de contradição” (Lucas 2, 34).

DOM MARCELO CARVALHEIRA, CRISTÃO INTRANSIGENTE

Perseguido pela repressão da ditadura militar em 1969, transferi-me de São Paulo para São Leopoldo (RS), matriculado no curso de teologia dos jesuítas. No seminário Cristo Rei funciona também um curso para reitores de seminários. Ali conheci padre Marcelo Carvalheira, reitor do Seminário Regional do Nordeste, no Recife, e assessor de Dom Helder Camara.

Em novembro, escapei do cerco da repressão da ditadura e, graças ao padre Marcelo, me refugiei na igreja da Piedade, em Porto Alegre, cujo pároco, padre Manuel Valiente, atendeu ao apelo de me socorrer. Dias depois fomos os três presos.

Padre Marcelo foi duramente interrogado, tanto no Dops de Porto Alegre quanto no de São Paulo, ao qual fomos transferidos no início de dezembro. O alvo das perguntas não era nem ele nem eu. Era Dom Helder Camara. Os policiais queriam saber quem eram “as amantes de Dom Helder; de onde ele tira tanto dinheiro para constantes viagens ao exterior” etc.

Padre Marcelo jamais perdia a calma nem seu jeito de príncipe florentino. Respondia com ironia, e defendia com ardor o arcebispo de Olinda e Recife, qualificado pela ditadura de “bispo vermelho”.

A prisão selou o caráter fraterno de nossa amizade. No Deops de São Paulo, conhecemos o jovem militante comunista Jeová de Assis Gomes. Padre Marcelo expressou-lhe admiração:

— Jeová, você foi torturado horas seguidas. Fizeram com você o que não fizeram com Cristo. Quebraram seus braços e pernas. Você podia ter morrido. Não passou por sua cabeça que a morte seria o encontro com o Absoluto?

— Padre, agora me sinto feliz porque conheço o gosto da morte. Sei, por experiência, que sou capaz de dar a minha vida aos oprimidos.

— Quem ama passa da morte para a vida. Na leitura cristã, quem faz a experiência do dom total está salvo e se encontra com Deus. A Bíblia não diz que serão salvos os que têm fé e celebram o culto, mas sim os que são capazes de amar. Para estar aqui neste calabouço, eu arrisquei muito pouca coisa. Mas você arriscou sua juventude, a carreira universitária, a própria vida. Isso vale mais que proclamar a fé.

Jeová retrucou enfático:

— Como o senhor arriscou pouco?! O senhor é monsenhor!

— Sou merda, e você é Cristo. O capítulo 25 do evangelho de Mateus mostra claramente os critérios de salvação: são as respostas eficazes que damos às necessidades econômicas, sociais e espirituais do próximo. Jesus se identifica com quem tem fome, sede, vive no abandono ou aprisionado. O que fazemos ao oprimido para libertá-lo é ao próprio Cristo que o fazemos. Portanto, Jeová, o que você faz pela humanidade, pelo amor dos homens, é por Ele que você faz.

Criou-se uma afetuosa cumplicidade entre os dois prisioneiros.

Anos mais tarde, padre Marcelo me reafirmaria que o testemunho daquele jovem combatente fora a mais forte interpelação que recebera em sua vida. Jeová morreria assassinado pela ditadura em Goiás, em janeiro de 1972.

Interrogado sobre a sua formação, respondeu padre Marcelo:

— Fui muito influenciado por Teilhard de Chardin.

Intrigados, os policiais indagaram:

— Quem é esse cara?

— Um padre jesuíta, cientista e místico, que viveu na China.

— Onde mora?

Talvez o Dops tivesse a intenção de prender o autor de O fenômeno humano. Padre Marcelo explicou que ele morrera em Nova York, na Páscoa de 1955, deixando uma obra que lança ponte entre a ciência contemporânea e a fé cristã, ao descrever, em estilo poético próprio dos místicos, a evolução do Universo e do gênero humano.

Solto poucos dias depois, Marcelo Carvalheira foi consagrado bispo e assumiu a diocese de Guarabira (PB). Mais tarde, o papa nomeou-o arcebispo da Paraíba.

Acometido pelos males de Parkinson e Alzheimer, Dom Marcelo Carvalheira transvivenciou no último sábado, 25 de março, aos 88 anos.

A GAIOLA NEOLIBERAL

Ao contrário do liberalismo, o neoliberalismo defende a supremacia do mercado e a redução do Estado a mero operador de interesses corporativos privados. A democracia, entendida como participação popular, é um estorvo para o neoliberalismo. Como certo general brasileiro, não suporta “o cheiro de povo”.

Já em 1975, no Relatório Rockefeller que enunciou as bases da Comissão Trilateral (EUA, Europa e Japão), os autores se queixavam do “excesso de democracia” e admitiam, sem nenhum constrangimento, que só funciona se há certo grau de apatia por parte da população e desinteresse de indivíduos e grupos.

Max Weber nos havia advertido da tirania do mercado que constitui, em nossas vidas – da subjetividade mais íntima à atividade política –, a “gaiola de ferro” da qual não é fácil se livrar. O mercado de tudo se apropria. E transfere a culpa de seus males à responsabilidade do Estado.

Na década de 1960, fome, devastação ambiental, corrupção, desemprego etc. eram apontados como (de)efeitos do capitalismo. Hoje, são atribuídos à inépcia do Estado. Eis o grande vilão responsável por todas as mazelas sociais e econômicas. Daí o açodamento com a aprovação da reforma trabalhista proposta por Temer, de modo a fazer retroceder os direitos trabalhistas duramente conquistados, anular o papel do Estado como árbitro das questões sociais, e restringir os direitos dos trabalhadores às parcas concessões patronais formalizadas em acordos privados.

O neoliberalismo é a nova razão do mundo. Promove a desdemocratização, na medida em que favorece a formação de monopólios e oligopólios. Dos bancos aos meios de comunicação. A pirâmide social e cultural se afunila sempre mais.

No neoliberalismo vigora a teologia da culpa. Em tese, o Deus Mercado oferece a todos iguais oportunidades. Se na prática reina brutal desigualdade, a culpa é daqueles que não souberam evitar o próprio fracasso...

Pergunte a um cidadão comum o que é neoliberalismo. É provável que não saiba responder. Pergunte então o que pensa da vida, do país e do mundo. Certamente expressará essa ideologia do sucesso individual e da supremacia de uns sobre outros, que legitima todo tipo de preconceito e discriminação.

Duas áreas nas quais o neoliberalismo investe pesado são educação e cultura. Os livros didáticos são submetidos à lupa da censura do que hoje se denomina Escola Sem Partido. A cultura é reduzida a mero entretenimento. A grande mídia exalta o mercado e execra o Estado. Se este favorece a maioria da população, isso é populismo. A finalidade do Estado é alavancar o crescimento das grandes empresas, a elevação dos índices da Bolsa de Valores, engordar as corporações financeiras e garantir a segurança do jogo mercantil contra o descontentamento e, quiçá, a revolta dos excluídos de suas benesses (greves, manifestações etc).

O neoliberalismo é uma praga que só pode ser combatida com um antídoto: o neossocialismo ou o ecossocialismo.

É POSSÍVEL SER ÉTICO?


         Pode ser estancada a corrupção que cria relação promíscua entre Estado e interesses privados? Depende. Não bastam leis. É preciso criar mecanismos de rigorosa aplicação das leis. E ainda que existam, seus operadores, como os fiscais da Carne Fraca, podem se omitir graças à corrupção.

         Qual a saída? Basta olhar em volta. Todos conhecemos pessoas éticas. Que antídotos têm contra a corrupção? Outrora, os preceitos religiosos. A noção de pecado. Não havia como o fiel se esconder do olho divino. Seus mais íntimos atos, até pensamentos, eram contabilizados pela Providência a favor de sua salvação ou perdição.

         A sociedade se secularizou. Na expressão de Max Weber, se desencantou. Ainda que muitos admitam crer em Deus, há quem não dê a menor importância aos preceitos religiosos. Vide a América Latina, o mais cristão de todos os continentes. E, no entanto, o mais desigual e injusto.

         Não se pode esperar, portanto, que a sociedade ocidental do século XXI volte à ética fundada na noção de pecado. Onde a solução?

         Sócrates deu a resposta. Sabia que a ética de todos os povos que lhe eram contemporâneos, ou que o precederam, derivava de oráculos divinos. Grego, ele também olhou para o céu de sua cultura, o Olimpo. Verificou que, dali, não havia como extrair princípios éticos. O Olimpo era visceralmente antiético. Então Sócrates recorreu a outra fonte: a razão humana. Sua ousadia foi considerada blasfêmia; seu exemplo, herético; e sua culpa, digna da pena de morte. Há, no entanto, quem viva socrática e kantianamente coerente com seus princípios éticos.

         Estamos hoje na terceira margem do rio. Saímos da margem da ética baseada na fé e ainda não chegamos à margem da ética fundada na razão.

         Esse limbo ético é agravado pela ideologia neoliberal capitalista, que situa os interesses privados acima dos direitos coletivos; a competitividade mais importante que a solidariedade; a apropriação privada dos bens um direito, e uma aberração a socialização dos bens da Terra e dos frutos do trabalho humano.

         As ciências ajudariam? Elas se divorciaram da ética. O maior atentado terrorista de todos os tempos, as bombas atômicas atiradas contra Hiroshima e Nagasaki, foram construídas por cientistas altamente qualificados. Como os agrotóxicos que envenenam nossos alimentos, ou a lógica das ciências econômicas, centrada na prevalência do capital privado.

         A política também se divorciou da ética. Segundo Lévinas, a política deveria ser controlada pela ética. Porém, transformou-se em balcão de negócios. Daí o pânico dos políticos com os desdobramentos da Lava Jato. A caverna de Ali Babá foi invadida por holofotes.

         Ética não é questão de moralismo. É questão de princípios e estruturas sociais. Há quem seja educado com o próximo e, no entanto, procure um jeito de pagar a seus empregados cada vez menos, de modo a acumular mais riqueza. Há quem injete recursos no cassino do mercado financeiro e é incapaz de socorrer com dinheiro um parente ou amigo enfermo.

         Não creio em ética dos políticos (ou dos padres, pastores e qualquer outra condição humana). Temos todos defeito de fabricação, o que a Bíblia chama de pecado original. Há que se obter a ética da política, ou seja, criar instituições que, malgrado a fraqueza humana e a vontade de corromper ou ser corrompido, impeçam que o desejo se transforme em ato.

         Os princípios éticos devem estar enraizados em uma cultura holística. Ética sistêmica, ambiental, que considere a relação do ser humano com a natureza e seus semelhantes. Ética que resgate a sacralidade da Mãe terra e favoreça a cidadania de direitos, e não de bens.

         Tal ética só será possível se ancorada na espiritualidade. Não me refiro à religião, e sim à fonte das religiões: as motivações altruístas que regem a nossa relação com o próximo, a natureza, o Transcendente e consigo mesmo.

         Ainda que a pessoa seja ateia, há nela uma emulação espiritual que norteia suas atitudes. O desafio é evitar que essa emulação seja egocêntrica, e lograr que se volte à solidariedade, ao amor, à justiça e à compaixão.

         Fora disso, o projeto humano pode ser considerado um rotundo fracasso.

BRASIL, RADIOGRAFIA DO GOLPE

Quando é difícil manter o rumo,

o pessimista se queixa do vento;

o otimista aguarda a calmaría;

O realista ajusta as velas.

William G. Ward (1812-1882,​

Em 17 de abril de 2016, o governo Dilma Rousseff foi destituído por um golpe parlamentar. Eis a nova modalidade de ação conservadora na América Latina. O primeiro golpe parlamentar ocorreu em Honduras (2009), com a deposição do presidente Manuel Zelaya. O segundo, no Paraguai (2012), quando destituíram o presidente Fernando Lugo.

No caso do Brasil, o golpe está devidamente comprovado pelas gravações telefônicas entre o senador Romero Jucá e o ex-diretor da Petrobras Sérgio Machado, acusado de corrupção pela Operação Lava Jato - investigação da Justiça para apurar o envolvimento de políticos, empresários e servidores públicos com tais crimes. Nomeado ministro do Planeamento por Michel Temer, presidente interino do Brasil, Jucá permaneceu no cargo apenas oito dias. Na gravação, amplamente divulgada, o então ministro diz claramente que tirar Dilma do poder seria uma forma de impedir o avanço da Lava Jato, em cujas denúncias de corrupção Jucá é citado.

Dilma foi afastada da presidência do Brasil e o país passou a ser presidido por Michel Temer, vice-presidente da República, presidente do PMDB e mentor do golpe.

De que Dilma é acusada? De haver cometido crime de responsabilidade fiscal. Explico: o dinheiro de que dispõe o governo resulta dos impostos embutidos nos produtos e serviços consumidos pela população; dos tributos pagos por pessoas físicas de maior renda, e por pessoas jurídicas, como bancos e empresas rurais e urbanas. Esses recursos tributários ficam em mãos do Tesouro Nacional.

Em 2014, ano de eleição presidencial, a crise econômica mundial, em especial a redução dos preços das commodities, afetou o Brasil. A tonelada de ferro caiu de US$ 180 para US$ 55. A saca de soja, de US$ 40 para US$ 18. O barril de petróleo cru, de US$ 140 para US$ 40. No ano seguinte, o PIB brasileiro decresceu 3,7%.

Para manter os programas sociais, como o Bolsa Família, e financiar o Plano Safra, de incentivo à agricultura, Dilma recorreu a dois bancos públicos, o Banco do Brasil e a Caixa Econômica Federal. Pouco depois, o Tesouro Nacional repôs o valor retirado dos bancos públicos.

Na óptica da oposição, Dilma cometeu um crime. A Lei de Responsabilidade Fiscal impede que bancos públicos financiem projetos públicos! Embora todos os presidentes anteriores tenham cometido o mesmo “crime”, apenas Dilma foi punida. A lógica que rege o sistema bancário brasileiro decorre dos bancos privados. Banco é para especular, dar um para tomar dois ou três. Jamais para promover ações sociais ou impedir a suspensão de programas sociais que, no Brasil, tiraram da miséria, nos 13 anos de governo do PT, 45 milhões de pessoas.

Esta a razão legal, embora injusta, que justificou a abertura do processo de impeachment de Dilma, aprovado pela Câmara dos Deputados no domingo, 17 de abril de 2016. No dia 12 de maio, o Senado acatou a decisão da Câmara. A 31 de agosto a presidente foi destituída.

RAZÕES POLÍTICAS E ECONÔMICAS

Até a aprovação de abertura do processo de impeachment, a Câmara dos Deputados era presidida por Eduardo Cunha, do PMDB (mesmo partido do presidente golpista, Michel Temer), acusado pela Operação Lava Jato de vários crimes graves, como depositar em diversos paraísos fiscais dinheiro de corrupção.

Em dezembro de 2015, o PT (Partido dos Trabalhadores, fundado por Lula, e ao qual pertence a presidente Dilma) votou favorável a que a Comissão de Ética da Câmara dos Deputados desse andamento ao processo de cassação do mandato de Eduardo Cunha. Foi o bastante para o presidente da Câmara decidir se vingar e, assim, aceitar o pedido de impeachment de Dilma.

O pedido mereceu a aprovação inclusive de partidos que, até a véspera da votação, eram aliados do PT. A mudança brusca e oportunista se deveu ao baixo índice de popularidade de Dilma, rejeitada por 80% da opinião pública. Tal desprestígio é consequência de vários fatores políticos e econômicos.

Em 13 anos de governo do Brasil, o PT, ao longo de duas gestões de Lula (2003-2006 e 2007-2010) e do primeiro mandato de Dilma (2011-2014), promoveu mudanças significativas no mapa social do Brasil, como estender a energia elétrica a 15 milhões de domicílios; permitir a 9 milhões de jovens o acesso à universidade; reduzir significativamente a pobreza; estender a atenção médica à população mais pobre através do Programa Mais Médicos, que trouxe para o Brasil mais de 11 mil cubanos profissionais da saúde etc.

Graças ao governo do PT, a impunidade perdeu espaço, a Operação Lava Jato foi deflagrada, o Ministério Público e a Polícia Federal atuaram com autonomia, inclusive prendendo e condenando dirigentes históricos do PT, como José Dirceu, acusados de corrupção.

Embora os 13 anos do PT tenham sido os melhores de nossa história republicana, equívocos cometidos permitiram que o segundo mandato de Dilma se visse fragilizado frente à ofensiva da oposição. Entre estes se destacam:

1.O êxito de programas sociais, como o Bolsa Família, não foi acompanhado por um intenso trabalho de alfabetização política dos beneficiários. Devido à facilidade de crédito concedido pelos bancos públicos e a desoneração tributária de gêneros de primeira necessidade, aqueceu-se o mercado interno. O aumento anual do salário mínimo acima do índice da inflação favoreceu o crescimento da renda dos segmentos mais pobres da população.

No entanto, a falta de uma educação política fez com que a inclusão social se desse pela via do consumo, e não da produção. A população teve mais acesso a bens pessoais que a bens sociais. Dentro de um barraco de favela, pode-se encontrar toda a linha branca (fogão, geladeira, microonda) - produtos adquiridos a preços mais baixos em consequência dadesoneração tributária - e, ainda, computador, celular e, quem sabe, no pé do morro, o carro comprado a prestações.

Porém, lá está o barraco ocupado pela família sem acesso à moradia, segurança, saúde, educação, saneamento e ao transporte coletivo de qualidade. A prioridade deveria ter sido o acesso aos bens sociais. Criou-se, portanto, uma nação de consumistas, não de cidadãos.

Com a crise econômica agravada a partir de 2014, e a incapacidade de o governo Dilma de freá-la, disseminou-se a insatisfação popular frente ao aumento da inflação e do desemprego – 13 milhões de pessoas até fevereiro de 2017, segundo levantamento recente do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatítica (IBGE). Diante desta realidade que afeta toda a população, o apoio ao governo se enfraqueceu.

O PT, que surgiu em 1980 com o propósito de “organizar a classe trabalhadora”, não se empenhou no trabalho político de base nem em democratizar a mídia, para impedir que seus inimigos de classe falassem mais alto.

2. Desde o primeiro mandato de Lula o PT optou por garantir sua governabilidade através de alianças com os partidos representados no Congresso Nacional. A maioria partidos fisiológicos, acostumados ao “toma lá, dá cá”, reféns da bancada do B (boi, bala, bíblia e bancos) – que reúne políticos ligados ao agronegócio, à industria de armas, a cultos religiosos e ao sistema financeiro - sempre dispostos a trocar votos por propinas. Tal promiscuidade contaminou dirigentes do PT e setores do governo, cujo envolvimento em corrupção foi comprovado nas investigações policiais denominadas “mensalão” e, posteriormente, no “petrolão”. Assim, o PT perdeu a credibilidade a que se propunha ao ser fundado em 1980 – ser o partido da ética na política.

O PT é fruto dos movimentos sociais que contribuíram para derrubar a ditadura militar que governou o Brasil entre 1964-1985. Uma vez no governo federal, deveria ter seguido o exemplo de Evo Morales e valorizado os movimentos sociais, de modo a que suas lideranças viessem a ocupar as cadeiras do Congresso Nacional. No entanto, foram as Igrejas evangélicas, de perfil conservador, que adotaram essa estratégia com éxito.

3. Em 13 anos no governo, o PT não promoveu nenhuma reforma estrutural, nem a agrária, nem a tributária, nem a previdenciária. Agora é vítima por não ter proposto uma reforma política. A atual institucionalidade política do Brasil se caracteriza por aberrações como o fato de um estado da federação, como Rondônia, com 1,5 milhão de habitantes, ser representado no Congresso pelo mesmo número de senadores eleitos pelo estado de São Paulo, que abriga 44 milhões de habitantes.

4. Não se criaram as condições de sustentabilidade para o desenvolvimento. O modelo neodesenvolvimentista adotado pelo PT se esgotou com a crise econômica mundial, em especial a retração da economia chinesa, e o baixo preço das commodities. Não se estimulou o mercado interno nem se investiu suficientemente na qualificação do capital humano.

5. Enquanto o orçamento do Bolsa Família para 2016 era de R$ 28 bilhões (= US$ 8 bilhões), e o déficit primário do governo chegava a R$ 120 bilhões (= US$ 34,2 bilhões), a “bolsa” empresário era de R$ 270 bilhões (= US$ 77 bilhões) – quase dez vezes superior ao Bolsa Família. Pai severo com os pobres, o governo atuou como mãe supergenerosa dos ricos. Nem assim o PT logrou aplacar o ódio de classe contra ele.

A fortuna do “bolsa” empresário é o resultado da soma de subsídios, desonerações e regimes tributários diferenciados para portos, indústrias químicas, agronegócio, empresas de petróleo e fabricantes de equipamentos de energia eólica.

A agricultura, por exemplo, quase nada recolhe para a Previdência Social, e a maioria dos latifundiários e barões do agronegócio sonega impostos ao se enquadrar na Receita Federal como pessoa física e não jurídica.

Muitos novos fatos políticos podem influir para que o governo Temer não dure até o primeiro dia de janeiro de 2019. Sobretudo se as gravações feitas pelo ex-diretor da Petrobras Sérgio Machado comprometerem líderes do governo Temer, como já ocorreu com o ex-ministro do Planejamento Romero Jucá. Destituído após uma semana de sua posse, está ameaçado também de perder o mandato de senador por crime de obstrução da Justiça.

Aprovado o impeachment de Dilma e Temer confirmado como presidente até fins de 2018, ele tem como desafio mostrar resultados positivos na recuperação da economia e ganhar o apoio da opinião pública, hoje bastante resistente à sua manutenção no poder. Caso contrário, poderá ser o grande eleitor de Lula na eleição presidencial de 2018.

De qualquer modo, resta à esquerda brasileira o desafio de fazer uma profunda autocrítica e repensar as bases teóricas e práticas de seu projeto político, para se reinventar como alternativa de poder fiel às aspirações dos mais pobres, aos principios éticos e à utopia ecossocialista.

Edição 126, Março 2017

OS FUROS DA LAVA JATO


      A corrupção é inerente à história humana. Até no grupo de apóstolos escolhidos por Jesus havia um corrupto: Judas Iscariotes. E quantos de nós podem dizer com sinceridade que nunca roubaram uma manta de avião, sonegaram o imposto de renda, embolsaram o troco excessivo entregue por engano pela caixa do supermercado?
 
      A corrupção decorre da impunidade e da imunidade. Impunidade de empreiteiras, empresas, frigoríficos e bancos que, graças ao caixa dois, tinham (e muitos ainda têm) em mãos juízes, políticos e fiscais. E imunidade assegurada por essa aberração constitucional chamada foro privilegiado, que derruba o princípio angular do direito e legitima a verdade de que nem todos são iguais perante a lei.
 
      Agora, surgiu uma pedra no meio do caminho de corruptos e corruptores: a Lava Jato. Em si, necessária e urgente. É a primeira vez na história do Brasil que políticos graduados e donos de empresas são encarcerados e obrigados a devolver aos cofres públicos parte do que roubaram.
 
      Mas há lisura na Lava Jato? Infelizmente os fatos demonstram que não. Promotores buscam vaidosamente a luz dos holofotes; frequentes vazamentos jamais são investigados e os responsáveis punidos; e as informações contrabandeadas dos autos para a mídia são preconceituosamente seletivas, focando uns partidos e poupando outros...
 
      Porém, no tsunami de corrupção que assola o Brasil, a Lava Jato constitui uma exceção. Onde estão os criminosos descobertos pela Operação Zelotes? Todos soltos. Onde os responsáveis pela catástrofe provocada pela Samarco, em Minas? Todos em liberdade. E as maracutaias do metrô de São Paulo? Debaixo do tapete.
 
      O elitismo é um carrapato que suga privilégios da Justiça. Adriana Ancelmo, mulher do ex-governador Sérgio Cabral, será libertada para cuidar dos filhos de 11 e 14 anos. E quantas outras mães que se encontram encarceradas merecem o mesmo privilégio (termo que decorre de “lei privada”, feita para beneficiar uma pessoa)?
 
      A Lista do Janot, enfim, chegou ao Supremo Tribunal Federal (STF). Mas também vazou ao cobrir os poucos metros que separam a Procuradoria Geral da República do STF. O que favorece todo tipo de especulação sobre os nomes ali registrados.
 
      E quanto tempo levará o STF para condenar os culpados e absolver os inocentes? Até hoje o STF não levou nenhum político com mandato à cadeia. E no passo de tartaruga que o caracteriza, pode ser que muitos crimes prescrevam...

      Acabamos de presenciar a descoberta de mais um nicho de corrupção: os frigoríficos, que entregam carne apodrecida ao consumo da população. Muitos outros nichos existem, alguns ainda serão descobertos.
 
      No entanto, fica uma pergunta: como toda essa montanha de dinheiro roubada pelos réus da Lava Jato transitou do Brasil ao exterior? Levada em mala de turista? A nado? Enfiada em tubos de pasta de dente?
 
      Se o Banco Central tem olhos para qualquer quantia acima de 10 mil reais movimentada entre bancos, como justificar sua cegueira diante de vultosas quantias da corrupção?

      Não basta espalhar veneno pela casa para acabar com os ratos. É preciso exterminá-los no nascedouro. Do mesmo modo, enquanto as instituições brasileiras não passarem por profundas reformas, como erradicar o foro privilegiado, os ratos continuarão à espreita, dispostos a aproveitar as múltiplas brechas hoje existentes.
 
      O moralismo causa indignação. Mas não inibe a corrupção.

Edição 125, Fevereiro 2017

MARISA LETÍCIA

Se há uma mulher que não podia ser considerada mero adereço do marido era Marisa Letícia Lula da Silva. Ela não tinha a vocação política de Lula, mas sua aguçada sensibilidade funcionava como um radar que lhe permitia captar o âmago das pessoas e discernir as variáveis de cada situação.

Nascida em São Bernardo do Campo, numa família de pequenos sitiantes, ela guardava a firmeza de caráter de seus antepassados italianos. Comedida nas palavras, a ponto de preferir não dar entrevistas, não fazia rodeios quando se tratava de dizer o que pensava, doesse a quem doesse. Por isso não podia ser incluída entre as tietes do marido. Nos palanques, preferia ficar atrás e não ao lado de Lula. A admiração recíproca não impedia que, ao vê-lo retornar de uma maratona de reuniões, às 3 da madrugada, ela o convocasse para criticar o desempenho dele numa entrevista na TV ou compartilhar decisões domésticas.

Marisa era, com certeza, a única pessoa que, no cara a cara, não corria o risco de se deixar enredar pela lógica política do marido. Defensora intransigente de seu próprio espaço, não chegava a ser o tipo de esposa que competia com o parceiro. Sabia que seus papéis eram diferentes e complementares. Ninguém era aceito na intimidade dos Silva sem passar pelo crivo dela, que sabia distinguir muito bem quem eram os amigos do casal e quem eram os amigos de Lula.

Tanto quanto Lula, Marisa conhecia as dificuldades da vida. Décima filha de Antônio João Casa e Regina Rocco Casa, cresceu vendo o pai carregar a charrete de verduras e legumes que ele plantava e vendia no mercado. Se o sítio era pequeno, suficiente para assegurar a precária subsistência da família de onze filhos, o coração dos Casa era grande o bastante para acolher os necessitados. Dona Regineta – como era tratada sua mãe – ficou conhecida como benzedora em São Bernardo do Campo pois, na falta de médicos e de recursos, muitas pessoas a procuravam, especialmente quem padecia de bronquite.

A filha estudou até a 7ª série. Ainda criança, viu-se obrigada a conciliar a escola com o trabalho, empregando-se como babá na casa de um sobrinho de Portinari. Aos 13 anos de idade, tornou-se operária na fábrica de chocolates Dulcora. Do setor de embalagem Marisa foi promovida a coordenadora de seção antes de, aos 20 anos, trocar a Dulcora por um cargo na área de educação da prefeitura de São Bernardo do Campo, onde trabalhou enquanto solteira.

Em 1970, ela se casou com Marcos Cláudio dos Santos, motorista de caminhão. Seis meses depois, ele morreu assassinado, quando dirigia o táxi do pai, deixando Marisa grávida do filho Marcos, que Lula considera seu primogênito. Em 1973, ao recorrer ao Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo do Campo para obter um pecúlio deixado pelo marido, Marisa conheceu Lula. De facto, foi paquerada dentro de um verdadeiro cerco estratégico montado pelo presidente do sindicato, que ouvira falar de uma “lourinha muito bonita” que andava por ali. Lula tentou convencê-la de que também era viúvo, sem que a moça acreditasse, até ver o documento que ele, de propósito, deixara cair no chão. A primeira mulher de Lula, Maria de Lourdes, morrera em 1971, com o filho que trazia no ventre, em consequência de uma hepatite mal curada. Em maio de 1974, Lula e Marisa se casaram. Da união nasceram os irmãos de Marcos: Fábio, Sandro e Luís Cláudio.

Nos primeiros anos de casada, Marisa não gostava de política. O progressivo comprometimento de Lula com atividades sindicais alterava a rotina da casa. Obrigada a levantar cedo para despachar as crianças para a escola, ela esperava o marido regressar de reuniões que se prolongavam madrugada adentro. No fogão, a comida pronta para ser requentada, já que Lula prefere não comer em restaurantes.

Depois de deitar os filhos, ela acompanhava as telenovelas sem entusiasmo. E, com razão, se queixava da difícil tarefa de atender a mais de cem telefonemas por dia, muitas vezes sem conseguir convencer os interlocutores de que ela não controlava a agenda do marido e, muito menos, o que ele pensava do último pronunciamento de um ministro.

Em abril de 1980, ela passou pela prova de fogo, quando Lula esteve preso no DEOPS de São Paulo, devido à greve de 41 dias. Preocupada com a segurança dele, sempre fez questão de abrir a porta quando estranhos batiam, evitando expor o marido. No mesmo ano, fez o curso de Introdução à Política Brasileira, promovido pela Pastoral Operária de São Bernardo do Campo. Filiada ao Partido dos Trabalhadores, abriu sua casa para as reuniões do núcleo petista que se organizara no bairro Assunção, onde moravam. O engajamento da mulher levou Lula a participar mais diretamente das tarefas domésticas. Mas era ela quem cuidava das finanças da casa.

Dela dependia também a logística pessoal de Lula, cujas roupas era ela quem comprava geralmente. Como ele costumava andar de bolsos vazios, sequer trazendo consigo a carteira de identidade, da bolsa de Marisa surgiam o talão de cheques e a caneta com a qual Lula dava autógrafos. Durante as campanhas presidenciais, Marisa sempre levava, nas viagens, uma coleção de camisas para que, após cada comício, ele pudesse trocá-las.

Embora Marisa preferisse, em política, o papel de assessora mais íntima do marido e não gostasse de fazer discursos e nem mesmo ser o centro das atenções, ela não dispensava a oportunidade de participar de conversas políticas. Independentemente de quem fosse o interlocutor, Lula jamais pedia a Marisa que se retirasse, exceto para buscar um café. No fogão, ela preferia o trivial: arroz, feijão, bife e salada de alface com tomate, embora o seu prato predileto fosse camarões e um bom copo de vinho. Para quem chegava, havia sempre uma xícara de café. Sair sem aceitá-la era considerado quase uma ofensa. E ela se comprazia em ler toda a correspondência que o marido recebia nos comícios, bem como em distribuir estrelinhas do Partido às crianças.

Devota do Sagrado Coração de Jesus, cuja folhinha jamais dispensava, a ex-Filha de Maria tinha, como Lula, a impressão de que Deus comandava os seus passos. Mas, por curiosidade, gostava de ler seu horóscopo nos jornais.

Habilidosa na arte do silk-screen, Marisa fez a primeira bandeira do PT, num tecido vermelho trazido da Itália. Em 1981, montou em casa uma pequena oficina para estampar camisetas com símbolos do Partido, inclusive criações de Henfil. Para a campanha de Lula a deputado federal, em 1986, ela chegou a estampar cerca de vinte mil camisetas, vendidas para angariar fundos. Ciosa de sua privacidade familiar virava uma fera quando a imprensa tentava entrar pela porta de sua casa ou incluir seus filhos no noticiário. Em tais situações, só o cuidado das plantas era capaz de acalmá-la.

Avessa a protocolos, gostava mesmo era de ficar entre amigos, cercada de muita planta e água, em qualquer lugar em que os filhos pudessem se divertir, livres das normas de segurança. Um bom jogo de buraco, o papo solto, o marido de bermudas ao seu lado e o telefone desligado – era o que bastava para deixá-la em paz

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Edição 124, Janeiro 2017

AMNÉSIA GLOBAL

Há patologias psíquicas que desestruturam o indivíduo ao esgarçarem de tal modo seus nexos emocionais e racionais a ponto de fazê-lo perder o senso de identidade. Uma delas é a perda de memória, como acontece com quem padece do mal de Alzheimer.

Uma pessoa destituída de consciência de quem ela é e ignora o próprio nome, suas raízes e seu histórico, praticamente retrocede ao estado vegetativo. Elevada essa síndrome à potência coletiva, o resultado é a perda de identidade de povos inteiros.

A visão histórica criou as condições para a descoberta da evolução genética, as teorias de Darwin e a filosofia de Marx. Já não sou apenas um indivíduo nascido em uma determinada família. Sou cidadão de uma cidade, de uma nação, parte de um povo, cujas raízes históricas estão impregnadas em minha sensibilidade, memória, cultura e religião, e na arte e na culinária que aprecio.

Ao adquirir senso histórico, o homem moderno imprimiu à sua vida um sentido imanente – mudar o que deve ser mudado, investigar os fenômenos da natureza (ciência), aprimorar as ferramentas de trabalho e os utensílios úteis à vida (tecnologia), refletir criticamente sobre todas as questões (filosofia). Essa emancipação da razão humana permitiu que fossem desvendados o que, até então, era tido como mito ou mistério.

A modernidade derrubou monarquias e engendrou revoluções que mudaram a face do mundo: inglesa, francesa, americana, russa, chinesa e cubana. Do mundo feudal restaram poucos resquícios. E, no entanto, malgrado tantos avanços civilizatórios, o Céu não desceu à Terra. A revolução moderna e o senso histórico foram sabotados pelo capitalismo.

O neoliberalismo proclamou pela boca de Francis Fukuyama: “A história acabou.” Leia-se: já não cabe nenhuma esperança de que, no futuro, o capitalismo será superado por outro modo de produção e consumo. As tentativas socialistas resultaram em fracasso.

Para o sistema, entretanto, não basta proclamar o fim da história. É preciso desmobilizar todas as forças capazes de ter olhos críticos para o presente e esperançosos para o futuro. Urge apagar de vez o horizonte da utopia. Destituir os seres humanos de qualquer senso histórico.

Trata-se, agora, de aplicar ao conjunto da sociedade o que as enfermidades causam naqueles que perdem a própria identidade. Daí a afirmação de Margareth Thatcher: “A sociedade se resume ao Estado e à família.” Com esse simples suspiro ela pretendeu anular todas as instituições que mediatizam a relação da família com o Estado: associações, sindicatos, partidos etc. Suprimido o senso histórico, está esgarçado o tecido social.

Essa estratégia neoliberal de atomização das grandes narrativas visa a evitar que as novas gerações promovam mudanças sociais. A esperança deve ceder lugar à ambição. A solidariedade à competitividade. A política à antipolítica. E o desejo deve ter, como alvo, apenas o que o mercado oferece.

Triste horizonte nos oferece o sistema que prioriza o capital e não os direitos humanos.

ORAÇÃO IDÓLATRA

Meu Senhor e meu Deus, eis o Teu sagrado nome, aclamado e louvado por toda a Terra – Dinheiro

Tu és o meu Senhor e meu Deus. Penso em Ti em todas as horas de todos os meus dias, ao acordar e me alimentar, ao trabalhar e me divertir, e a Tua existência povoa meus sonhos à noite.

Ao despertar, meu primeiro pensamento a Ti se dirige. Ao longo do dia, deixo-me guiar pela Tua luz. Ela refulge em tudo que me cerca, das roupas que me vestem aos adereços que trazem encanto à minha vida.

Com a Tua presença sinto que os meus pés pisam em terra firme. Já a Tua ausência me entristece por atirar-me aos braços do desamparo. Senhor, poupa-me da pobreza e conduze-me às trilhas da prosperidade.

És a minha alegria e o meu consolo, pois em Ti deposito toda a minha confiança. O que seria de mim sem a Tua companhia? Como eu poderia viver sem o Teu respaldo? Tu és a minha salvação!

Guardo-Te como as pupilas dos olhos. A cada hora confiro a Tua bênção à minha vida e me asseguro de que sou digno de Teus abundantes dons. Eles me fazem sentir amado e abençoado, salvo dos infortúnios e dos males que tanto afligem aqueles que não gozam de Tua proteção.

Em Ti ponho a minha segurança. Graças a Ti, caminho por sendas ladrilhadas de ouro. Tua divina luz resplandece em minha casa e em meu trabalho. Teu manto me recobre e, por isso, todos me tratam com respeito e reverência.

Teu miraculoso poder aplaca sofrimentos e dirime dificuldades. Na aflição e na carência é a Ti que recorro, pois de Ti emana a força que desata todos os nós e derruba todas as barreiras. A Ti dobro os meus joelhos e curvo a minha cabeça. Sou Teu servo e escravo! Faça-se em mim o que for a Tua vontade!

Por Ti sou capaz de correr riscos, infringir leis humanas e suportar a má fama. Tua atração e teu fascínio me são irresistíveis. Tu me conduzes e agasalhas, e eu Te amo acima de todas as pessoas e de todas as coisas.

Se Te afastas de mim, desfaleço tomado por um sentimento de orfandade. Quando Te distancias de mim, o chão me falta aos pés, a vergonha me recobre, e meu coração é corroído pela inveja daqueles que jamais se encontram excluídos do Teu abrigo.

Tu és o meu guia, e de Ti decorrem a minha saúde e a minha felicidade. Quando Te aproximas, minha alma se rejubila. Quando Te afastas, a desolação me abate. Nada sou sem a Tua inefável presença. Nela encontro o meu valor e a razão do meu viver.

Seduzistes-me e eu me deixei seduzir. Ainda que muitos Te acusem de causar males e provocar divisão onde havia união, jamais levantarei a minha voz contra Ti. Tu és o meu pastor! Nada haverá de me faltar!

É a Ti que mais almejo, e por Ti se movem a minha vontade e a minha inteligência. Faça chuva ou sol, é a Ti que busco. Tu és o espírito que me anima. Em tudo que faço e idealizo, anseio por Tua divina companhia.

Não suportaria viver sem as Tuas bênçãos e a imensa fartura que deriva de Tuas dádivas. Elas transparecem em todos os bens que me revestem e me dignificam aos olhos alheios.

Porém, se Te apartas de mim, já ninguém comigo se importará nem me estenderá as mãos. Serei atirado à escória do mundo. Todos evitarão cruzar os meus passos, e aqueles que porventura o fizerem haverão de virar o rosto para o outro lado.

Quando, porém, recobres a minha vida, todos rendem homenagens e professam louvores. Não a mim, mas a Tua poderosa manifestação, capaz de abrir portas e corações, e suscitar, naqueles que Te adoram, desejos infinitos.

Ao Teu poder não há fronteiras nem obstáculos. És capaz de mudar os passos e o caráter dos homens, e converter nações inteiras aos Teus desígnios.

Meu Senhor e meu Deus, eis o Teu sagrado nome, aclamado e louvado por toda a Terra – Dinheiro.

PARA UMA REFORMA DO SISTEMA PRISIONAL

Qualquer projeto de reforma penitenciária terá de ouvir todas as partes interessadas, a menos que fique no papel e seus recursos abocanhados pela corrupção. São partes interessadas: presos e suas famílias; agentes penitenciários; funcionários qualificados (psicólogos, médicos, mestres de oficinas etc); advogados e juízes; além de instituições como a Pastoral Carcerária, que lidam há décadas com o universo prisional.

Cada ponto de vista é a vista a partir de um ponto. Ouvir uns e fazer ouvidos moucos a outros é correr o risco de cair na cilada das versões dos que não querem mudar quase nada, pois isso significaria fechar a boca da cornucópia que alimenta a corrupção de funcionários públicos, de agentes penitenciários a juízes.

Quando me transferiram para o Carandiru havia ali 5 mil detentos. A capacidade era de apenas 1.800. Naquela masmorra, as drogas corriam soltas, muitos portavam facas e estiletes, e havia leilões de gays (muitos à força, sob pena de levarem facadas) nos corredores dos pavilhões.

Grande parte da mão de obra era dos próprios presos: eletricistas, encanadores, pedreiros etc. O que mais me intrigou foi, na chegada, ao ser transferido da Penitenciária do Estado, passar por uma revista... feita pelos próprios presos! Era a “elite” da cadeia, que falava em pé de igualdade com a direção do presídio. Um deles, para a minha surpresa, era Ronaldo Castro, acusado de ter assassinado, no Rio, Aída Cury, crime que ocupou muitas edições da revista O Cruzeiro.

Fui falar com o diretor, coronel Guedes. Como admitia tantos abusos e ilegalidades ali dentro? Reagiu sem tergiversar: “Isso aqui é um barril de pólvora. Pode explodir a qualquer momento. Meu papel é retardar a explosão. Por isso faço vista grossa. Aqui só não permito duas coisas: mulher e helicóptero.”

A explosão aconteceu em 1992, e resultou no massacre de 111 presos pela PM de São Paulo. Até hoje os responsáveis não sofreram condenação definitiva.

Na Penitenciária do Estado, um preso me disse ter uma arma de fogo. Perguntei como conseguira fazê-la entrar. Contou que pelo funcionário responsável pela alfaiataria. Um idoso com cara de avô da gente e do qual jamais se suspeitaria de qualquer deslize. “E ele teve coragem de trazer a arma?” “Não”, disse o preso, “mas como está para se aposentar, ameacei melar o final de carreira dele e denunciá-lo como nosso fornecedor de drogas caso não buscasse a arma em mãos de minha mulher.”

Na Penitenciária de Presidente Venceslau, as drogas entravam via funcionários. Os comparsas dos presos, soltos aqui fora, conheciam o endereço de todos eles. E ameaçavam suas famílias caso não obedecessem as ordens das gangues internas.

Havia um rebanho de vacas no setor agrícola da penitenciária. E nenhum copo de leite era servido aos presos. O diretor comercializava o produto. Além de obrigar os detentos do ateliê de pinturas a fazerem cópias de telas famosas para presentear os amigos.

Haveria muito mais a contar. Esses exemplos são suficientes para enfatizar que não haverá solução para a questão carcerária enquanto os agentes penitenciários não forem aprovados em cursos de qualificação, nos quais ética e pedagogia mereçam prioridade. O objetivo é recuperar para o convívio social homens e mulheres que ali se encontram, e não transformá-los em monstros através de torturas, castigos injustos e cumplicidade em ações ilegais. Um carcereiro mal remunerado precisa ter muita ética para se recusar a receber o dobro de seu salário mensal em troca de um celular contrabandeado para dentro das grades.

Não é preciso reinventar a roda para reformar nossas prisões. Há suficientes exemplos mundo afora de como se reduz o índice de reincidência. O que falta ao poder publico é fechar as inúmeras torneiras da corrupção no sistema. Basta fazer as contas: os recursos que o Estado gasta com esse regime de enjaulamento sumário são infinitamente superiores do que despenderia com a formação e qualificação de todos que trabalham na esfera prisional.

Soluções existem. E não incluem a multiplicação de cadeias. O que falta é vontade política para dissociar os agentes públicos da criminalidade, e acreditar que, se ninguém nasce bandido, há sempre a possibilidade de ressocializar quem infringe a lei.

DEUS DE LOTERIA

Crucifica Jesus pela segunda vez quem, em nome de Deus, legitima a desigualdade social e dela tira proveito para enriquecer. Este deus de loteria não encontra lugar na Bíblia [= nos Evangelhos, nota do Editor]

“Para brasileiro, sucesso financeiro vem de Deus.” Esta a manchete da Folha de S. Paulo no dia de Natal. Segundo pesquisa Datafolha, 88% dos pesquisados, ou seja, nove entre dez brasileiros, acreditam que a fé em Deus influi no aumento da renda pessoal.

Essa fé no deus que traz dinheiro é compartilhada por 90% das pessoas que têm religião; 70% das que se declaram “sem religião”; e 23% dos ateus... E o mais curioso, 1/3 dos entrevistados que cursaram apenas o ensino fundamental, e 28% dos que ganham no máximo dois salários mínimos por mês, concordam com esta afirmação: “As pessoas pobres, em geral, não têm fé em Deus e, por isso, não conseguem sair dessa situação.”

Pobre Deus! Seu santo Nome é em vão invocado até para justificar a desigualdade social. “Se você é pobre, basta um pouco mais de fé e, logo, a sua situação financeira haverá de melhorar.” Ideia que peca por dois equívocos: atribuir a Deus a causa da desigualdade social, e desqualificar a fé de quem se encontra na pobreza.

Essa teologia da prosperidade já vigorava no tempo de Jesus. E foi por ele duramente condenada. Os fariseus atribuíam os males humanos ao pecado. Se uma pessoa tinha uma doença, isso era culpa de seus pecados ou dos pecados de seus familiares, conforme relata o capítulo nove do Evangelho de João.

Jesus se posicionou contra essa falsa teologia e demonstrou que Deus não quer ninguém doente, como também não faz da pobreza um castigo por falta de fé. Se há miséria, pobreza e doença, temos que buscar as causas aqui na Terra, e não no Céu. Elas resultam dos males que nós, humanos, provocamos, como a acumulação privada da riqueza em mãos de poucos, em detrimento da maioria. E isso não corresponde à vontade divina; pelo contrário.

Isto sim é “ópio do povo”: culpar Deus pelas injustiças humanas. Ora, a Bíblia registra, na primeira página do livro dos Gênesis, que Deus nos criou para viver no paraíso. E ao terminar a obra da Criação “viu que tudo era muito bom”. [Nota do Editor: Vero meu livro, “Nem Adão e Eva nem Pecado Original”, Campo das Letras, Porto]

Se agora muita coisa anda ruim não é porque Deus, como escreveu Beckett na peça Fim de jogo, criou apressadamente o mundo em apenas seis dias, quando nem a confecção de uma roupa pode ficar perfeita em tão curto tempo... Nós é que abusamos de nossa liberdade e alteramos o projeto da Criação ao introduzir os frutos amargos do egoísmo: opressão, exclusão, preconceito e discriminação.

Por que, então, muitos atribuem a Deus terem se tornado um pouco menos pobres? Porque ao ingressar em uma Igreja, deixam de beber, fumar, jogar, frequentar bares e danceterias. Aprendem a poupar, adotam vida mais regrada. Isso é o suficiente para o assalariado melhorar a sua qualidade de vida.

Acreditar que o sucesso financeiro vem de Deus é aceitar um deus cruel que condena à pobreza metade da população mundial. Que culpa tem uma criança que nasce na miséria? Ora, a miséria de muitos existe porque, do outro lado do apartheid social, a riqueza de poucos engorda os cofres dos bancos.

Até um cego sabe que muitas fortunas nada têm de abençoadas. Decorrem da corrupção (vide a Lava Jato), da opressão (lucra-se muito e paga-se pouco aos funcionários), da falta de direitos básicos (o filho do pobre não tem acesso à educação de qualidade propiciada ao filho do rico), e até da exploração da fé alheia (padres e pastores que, em nome de Deus, enriquecem graças aos donativos dos fiéis).

Jesus não veio fundar uma religião ou uma Igreja. Veio semear entre nós um novo projeto civilizatório, baseado na partilha dos bens da Terra e dos frutos do trabalho humano, e no amor. Veio arrancar a venda que nos cobre os olhos e impede que reconheçamos as causas da miséria e da pobreza. Veio anunciar o Reino de Deus dentro do reino de César. Por isso foi assassinado na cruz, por associar Deus como “Pai Nosso” (de todos, e não somente meu) na medida em que somos capazes de partilhar o “Pão Nosso” (bens e direitos necessários para que “todos tenham vida e vida em abundância”).

Crucifica Jesus pela segunda vez quem, em nome de Deus, legitima a desigualdade social e dela tira proveito para enriquecer. Este deus de loteria não encontra lugar na Bíblia [= nos Evangelhos, nota do Editor].

CARTA AO MINISTRO DA JUSTIÇA

Hoje o Brasil abriga 660 mil presos. A continuar a enxugar gelo, ou seja, aliviar os efeitos da criminalidade sem combater as causas, daqui a pouco serão 1 milhão. A solução é polvilhar nosso território de presídios?

Excelência: fui preso comum. Sim, a ditadura, que não respeitava direitos, me transferiu da prisão política para a comum. Em dois anos, passei pela Penitenciária do Estado de São Paulo, Carandiru e Penitenciária de Presidente Venceslau (SP), a mesma que hoje abriga o comando do PCC.

É verdade, faz tempo que vivi em nosso sistema prisional. Mas de lá pra cá pouco mudou. Só piorou. E os governos do Brasil democrático tomaram uma única medida, a mesma que o presidente Temer anunciou há pouco: construir novas cadeias. Agora mesmo, frente ao massacre no Amazonas, já conhecido como “Carandiru 2”, o que fez o governo federal? Propôs a construção de mais duas penitenciárias naquele estado.

Hoje o Brasil abriga 660 mil presos. A continuar a enxugar gelo, ou seja, aliviar os efeitos da criminalidade sem combater as causas, daqui a pouco serão 1 milhão. A solução é polvilhar nosso território de presídios?

Há quem proponha entregar o sistema prisional à iniciativa privada. Aliás, a penitenciária Anísio Jobim, em Manaus, na qual foram trucidados 56 presos, funciona em parceria público-privada. Esse modelito, adotado nos EUA, vem sendo revisto pelo Tio Sam. Como a empresa recebe do Estado segundo o número de detentos que administra, quanto mais lotada a prisão, maior o lucro...

Sou a favor da parceria público-privada em outros termos. Transformar cada penitenciária em oficina-escola. Tirar os detentos da ociosidade. Em convênio com empresas, fazer funcionar ali dentro oficinas de fabricação de brinquedos, bicicletas e velocípedes, material esportivo, artesanato etc., mediante remuneração salarial. E aulas de ensinos fundamental e médio, idiomas, culinária, teatro, dança etc. E, de acordo com a lei, regressão da pena a cada etapa vencida.

Muitos ingressariam nessas atividades movidos, inicialmente, pelo interesse de encurtar o tempo entre as grades. Porém, oficinas e cursos haveriam de mudar-lhes o modo de pensar e agir, recuperando-os ao convívio social.

Utopia? Não, experiência. Basta analisar o índice de reincidência criminal daqueles que, em Presidente Venceslau, passaram pelo curso de ensino médio e as oficinas de pintura, teatro e estudos bíblicos. Todos administrados por nós, meia-dúzia de presos políticos, inseridos na massa carcerária.

ANO NOVO, VIDA NOVA

Chegamos a 2017! Estamos a nos aproximar mais perto de nós mesmos?

Há uma abissal distância entre o que somos e o que queremos ser. Um apetite de Absoluto e a consciência aguda de nossa finitude. Olhamos para trás: a infância que resta na memória com sabor de paraíso perdido; a adolescência tecida em sonhos e utopias; os propósitos altruístas.

Agora, nas atuais circunstâncias, a ameaça de desemprego; o salário exíguo em um país tão caro; o (des)governo sem rumo; a sombra de Trump.

Em volta, a violência da paisagem urbana e a nossa dificuldade de conectar efeitos e causas. Como se moradores de rua fossem cogumelos espontâneos e não frutos do darwinismo econômico que segrega a maioria pobre e favorece a minoria abastada. O mesmo executivo que teme sequestro e brada contra bandidos, abastece o crime ao consumir drogas e corromper o poder público.

Ano novo, vida nova. No fundo da garganta, o travo. Vontade de remar contra a corrente e, enquanto tantos celebram a pós-modernidade, pedir colo a Deus e resgatar boas coisas: a oração em família, o amor sem pressa, a leitura dos místicos, o diálogo amigável com os filhos, a solidão entre matas, o gesto solidário capaz de amenizar a dor de um enfermo.

Reencontrar, no ano que se inicia, a própria humanidade. Despir-se do lobo voraz que, na arena competitiva do mercado, nos faz estranhos a nós mesmos.

Ano novo de incertezas. Olhemos a cidade, o estado, o país. As obras que beneficiam empreiteiras trazem proveito à maioria da população? Melhoram o transporte público, o serviço de saúde, a rede educacional, o saneamento? Nosso bairro tem bom sistema sanitário, as ruas são limpas, há áreas de lazer? Participamos do debate sobre o orçamento municipal? Os políticos em quem votamos têm desempenho satisfatório? No combate à violência, eles remetem às áreas de conflito policiais ou professores?

Em política, tolerância é cumplicidade com maracutaias. Voto é delegação e, na verdadeira democracia, governa o povo através de seus representantes e de mobilizações diretas junto ao poder público. Quanto mais cidadania, mais democracia.

Ano de nova qualidade de vida. De menos ansiedade e mais profundidade. Aceitar a proposta de Jesus a Nicodemos: nascer de novo. Mergulhar em si, abrir espaço à presença do Inefável. Braços e corações abertos também ao semelhante. Recriar-se e apropriar-se da realidade circundante, livre da pasteurização que nos massifica na mediocridade bovina de quem rumina hábitos mesquinhos, como se a vida fosse uma janela da qual contemplamos, noite após noite, a realidade desfilar nos ilusórios devaneios de uma telenovela.

Feliz ano novo a quem se propõe a trocar o lamento pela ação, a queixa pela pressão, o protesto pela proposta. E está disposto a sair de si para organizar a esperança.

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Edição 123, Novembro 2016

O homem que não conheceu o medo’

N. E. Na sua qualidade de ex-preso político, Frei Betto faz uma cronologia das intervenções do cardeal brasileiro agora falecido, durante esse dificílimo período da ditadura militar.

O cardeal Paulo Evaristo Arns era um dos homens mais corajosos que conheci

20 de janeiro de 1970. Dom Paulo Evaristo Arns obteve, enfim, permissão para visitar os frades dominicanos encarcerados no Presídio Tiradentes, em São Paulo. Franciscano, o bispo auxiliar do cardeal Agnelo Rossi era responsável pela Pastoral Carcerária. Diante do diretor do presídio, narramos ao prelado nossas prisões, torturas, interrogatórios e ameaças recebidas.

21 de outubro de 1970. O papa Paulo VI declarou que o método de torturas se espalhava pelo mundo como uma epidemia, sem referência direta ao Brasil. Citou, porém, “um grande país” no qual se aplicavam “torturas, isto é, meios policiais cruéis e desumanos para extorquir confissões dos prisioneiros.” Acrescentou que esses meios “devem ser condenados abertamente”.

22 de outubro de 1970. Ao desembarcar em Guarulhos, procedente de Roma, o cardeal Agnelo Rossi, presidente da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), declarou que “no Brasil não existe perseguição religiosa, e, sim, uma campanha de difamação dirigida do exterior contra o governo brasileiro.” Segundo o cardeal, ao condenar a tortura o papa não se referia ao Brasil. Na tarde do mesmo dia, dom Rossi foi destituído pelo Vaticano do arcebispado de São Paulo e nomeado prefeito da Congregação de Evangelização dos Povos, em Roma. No mesmo ato, o papa nomeou dom Paulo Evaristo Arns para suceder a ele à frente da arquidiocese paulistana.

23 de outubro de 1970. Recebemos, no Presídio Tiradentes, a visita de dom Paulo. Concedeu-nos a honra de sua primeira visita pastoral como novo arcebispo. Dali partiu para o retiro que antecedia a sua posse, a 1º de novembro de 1970.

21 de novembro de 1970. Fomos despertados às seis da manhã pela visita de dom Paulo. Veio celebrar conosco no Presídio Tiradentes. O altar, um caixote vazio de maçãs; o cálice, um copo americano; o templo, uma cela apertada; os fiéis, prisioneiros em sua maioria.

Janeiro de 1971. Dom Paulo denunciou a prisão do padre Giulio Vicini e da agente pastoral Yara Spadini. Encontrados com manifestos de protesto contra a morte do operário Raimundo Eduardo da Silva — que se achava recolhido ao Hospital Militar à disposição das autoridades policiais —, foram torturados no Deops. O arcebispo invadiu a repartição e conseguiu avistar-se com os dois, que lhe mostraram as marcas das sevícias. Indignado, mandou afixar em todas as paróquias da arquidiocese nota em defesa dos presos e de denúncia das torturas sofridas.

5 de maio de 1971. O general Médici recebeu, no Palácio do Planalto, dom Paulo, que lhe relatou casos de torturas. O ditador, com a rispidez que o caracterizava, não se fez de rogado e reiterou: “Elas existem e vão continuar porque são necessárias. E a Igreja que não se meta, porque o próximo passo será a prisão de bispos…”

23 de dezembro de 1971. À tarde, hora das visitas, dom Paulo foi ao Presídio Tiradentes. Percorreu cada uma das celas. Demos a ele uma grande cruz de couro — a Comenda do Cárcere — pirografada com versículos do Evangelho, trechos do Documento de Medellín e nomes de todos os revolucionários assassinados. Gravamos: “O Bom Pastor é aquele que dá a vida por suas ovelhas.”

12 de maio de 1972. Dom Paulo, nosso mediador na greve de fome coletiva, esteve na Penitenciária do Estado, onde nos encontrávamos misturados aos presos comuns. Não nos permitiram vê-lo. Segundo o diretor, só podemos falar com os advogados. Porém, soubemos que o arcebispo advertiu-o de que está historicamente comprovado que medidas de isolamento carcerário geralmente precedem a eliminação física...

Em encontro com o juiz Nelson Guimarães, do Tribunal Militar, o arcebispo questionou-o: “O senhor sabe que é responsável pela vida dos presos?”. O juiz auditor assentiu: “Assumo a responsabilidade se vierem a morrer”. Dom Paulo retrucou: “Meu filho, assume dois ou três dias. Depois, não assume mais. Sua consciência passa a martirizá-lo. E que contas dará o senhor perante si mesmo e perante Deus?”. O juiz respondeu de cabeça baixa: “O senhor tem razão.”

Vladimir Herzog suicidado. Dom Paulo decidiu celebrar missa solene na Catedral da Sé em homenagem a ele. Judeus que apoiavam a ditadura tentaram demover o cardeal: “Por que missa para Herzog? Era judeu!”. Dom Paulo respondeu: “Jesus também.”

O cardeal Paulo Evaristo Arns era um dos homens mais corajosos que conheci. Imbuído da fé que caracterizou seu patrono e modelo, Francisco de Assis, jamais pensou no próprio sucesso. Sua vida dedicada ao próximo veio a público, com riqueza de detalhes, na obra “Dom Paulo Evaristo Arns — um homem amado e perseguido”, de Evanize Sydow e Marilda Ferri.

Se a História da independência do Brasil não pode ignorar Tiradentes, nem o movimento ecológico, Chico Mendes, a resistência à ditadura que nos governou 21 anos deve muito à figura ímpar de dom Paulo. O mesmo cuidado amoroso que São Francisco dedicava aos pobres e à natureza, dom Paulo estendeu às vítimas da repressão.

O livro “Brasil: Nunca mais” é uma radiografia irrespondível da ditadura, graças à iniciativa de dom Paulo e do pastor Jaime Wright, que promoveram uma devassa nos arquivos da Justiça Militar. Analisaram o conteúdo de mais de um milhão de páginas de processos políticos. A anistia ainda evita que torturadores paguem por seus crimes. Mas, graças a esses dois pastores, não se apagarão da memória brasileira o terror de Estado e o sofrimento de milhares de vítimas.

Dom Paulo Evaristo Arns rezou, com a vida, a oração de São Francisco de Assis, adaptada aos nossos tempos: “Senhor, fazei-me instrumento de vossa paz. Onde houver… repressão e pobreza, que eu leve liberdade e justiça”.