Textos de A. Pedro Ribeiro

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Edição 133, Dezº 2017

HOMEM LIVRE

Penso que hoje poderia passar dia e noite a escrever. Posso até gerar estrelas de tal forma me sinto grávido. Posso também ouvir os meus semelhantes que se queixam e estão mortos por chegar a casa. Chegar a casa. Chegar a casa, ligar a TV e olhar para as imagens, as imagens que vivem por nós em vez das imagens que podemos gerar, de tudo o que podemos gerar. Ó senhores, que “vida” levais? Sois escravos, todos vós. Ainda não percebestes que nada está acima da vida, da vida autêntica. Seres de luz vêm ter comigo e dizem-mo. Para alcançar a glória basto-me a mim mesmo. Para alcançar a glória basta-me estar aqui nesta confeitaria de Vilar do Pinheiro. Peregrinações virão a Vilar do Pinheiro. Ah! Ah! Ah! Ah! Ah! Estou louco. Não vedes? Absolutamente louco, absolutamente criança, absolutamente sem limites. O que fazer mais hoje? O que fazer mais aqui? Danço com o super-homem. Brindo, celebro. Estou louco, mãe. Porque me trouxeste para aqui? Parecia que vinha para a vida regrada mas não vim. Aos 17/18, aos 19, aos 20, tornei-me outro. Em Braga, nos bares, na Rádio Clube do Minho. Os Doors, os Joy Division, os UHF. A TV sempre a martelar. Mas eu era diferente, tornei-me diferente. Ah! Não me atirem dívidas, contas, economistas! Eu estou para lá. Eu nasci para lá. Reinos esplendorosos, reinos de luz. Sou tão louco, mãe. Eu inventava jogos, personagens. Eu criei mundos. Eu naveguei por mares jamais navegados. Eu brincava com as meninas. Tinha uma namorada, a Gina. Dava-lhe a mão, dava-lhe beijos. Já nem sei quem sou, mãe. Sei que não pertenço a este mundo. Poucos e poucas realmente me compreenderam. Velhos amigos, à noite, no bar. Onde irei dar? Estou realmente próximo de atingir o que quero. Mas que quero eu senão o mundo? O mundo de aquém e o de além.

Homem livre, és verdadeiramente tu. Homem livre, porque adormeces e agora regressas à vida? Homem livre, eles realmente acham-te estranho, diferente deles. Não és da mesma tribo, talvez até nem sejas da mesma espécie. Não lutas na mesma guerra. Não são teus os tambores que ouves. Homem livre, és daqui e não és. Tanto podes ser rei como podes acabar nas ruas. Continuarás o teu percurso pelos bares e pelas tascas. Este é o teu tempo. Olha, a mulher da confeitaria olhou para o “Socialismo Científico” de Marx, Engels e Lenine que acabaste de ler hoje. Há livros que ainda podem ser explosivos. Tu és explosivo, homem livre. Com ou sem óculos. Poderias realmente passar o dia e a noite a escrever. Voltaste a ser o único cliente da confeitaria. A mulher não pára de trabalhar. Tens publicado textos falhados ou semi-falhados. Este não é um deles.

JERUSALÉM

Jerusalém. Minha Jerusalém. A ferro e fogo. Por causa do macaco do Trump. Os filhos de Maomé têm razão. Desta vez têm razão. Amor com amor se paga. Desta vez trago a espada. Jerusalém. Jerusalém. Onde fui crucificado. Jerusalém. Jerusalém. Quero a tua Melania. Macaco maldito, acendeste o fogo. Agora não te salvas. No fundo, aceleras o apocalipse. Jogas o nosso jogo. Jesus, save us. Jim, sempre o Jim. Nietzsche, sempre Nietzsche. Sempre Zaratustra. Deuses que dançam. Demónios que se soltam. Vem aí o Juízo Final. Acabou a vossa era, ó ponderados, ó comentaristas. Do caos nascerá a nova Terra. Jerusálem, ó Jerusálem. Onde bebi do Graal. Onde Jesus expulsou os vendilhões, vendilhões que eu expulso agora. Olha a bela Rita. Está aqui hoje. Nem dava por ela. Mas hoje estou em Jerusalém como se estivesse em Braga. Contigo, Goreti. Acima de todas. Sou Hamlet, Quixote, Artur de Camelot. Ao raiar da aurora entraremos na terra prometida. Desfilaremos entre os anjos sobre o tapete celestial. Ah, tanto medo, tanto pânico, tanta imbecilidade. Reclamo o trono. Fora com o Marcelo, o beijoqueiro. Caos. Desordem. Bandeiras americanas queimadas. O jogo. A vida. A vida em jogo. O menino. O Super-Homem. O bailarino. Nada a temer. Tudo a ganhar. Danço sobre o abismo. Como me rio de vós, versejadores da corte. Como vos gozo, escritores oficiais. Como reino. Como reino de uma vez por todas.

PARA A ETERNIDADE

É impressionante. Há pessoas que têm uma mentalidade exclusivamente comercialista. É evidente que conheço comerciantes que são óptimas pessoas, de bom coração, generosas. Mas há realmente pessoas mesquinhas, más, sem salvação. Do muito que vivi até hoje em Braga, no Porto, na Trofa, em Vilar do Pinheiro, em Lisboa, na Póvoa, em Vila do Conde, etc das patadas que levei mas também das festas, dos abraços, dos amores, da Luz que vi condeno esses macacos, os grandes e os pequenos. No fundo, sou um gajo porreiro, um tipo sincero, mas aprendi a ser sacana, nem que seja 2000 anos depois. Por isso trago a paz mas também a espada. Já fui candidato a vários cargos. Só fui eleito no JUP e na Faculdade de Letras. De resto, ainda bem que não fui eleito. Seria como o Fidel, que admiro. Mas não sou comunista. Sou anarquista. Bakuninista. Quero demolir o Poder. Contudo, para tal, paradoxalmente, preciso de poder. E não chega o Poder da Palavra. Mas, hoje, 4 de dezembro de 2017, sinto poderes. Estranhos poderes. Um misto de amor e ódio, de céu e inferno. E ainda é cedo. Muito cedo. Estamos no princípio do mundo. No Princípio do Mundo. AH!AH! Danço contigo, Goreti, no Deslize, no Juno, no V5. Danço contigo, Zaratustra. E bebo. Porque não tenho travões, porque sou louco, o mais louco dos poetas. E danço. E canto. E sou alegre como tu, Nietzsche, como tu, Walt Whitman. E estou na estrada larga. E estou com os meus amigos e amigas. E celebro. E sou Dionisos com as bacantes. E ainda é cedo. Muito cedo. Tenho muito tempo. Eternidades. Pai. Mãe. Nasço hoje. Outra vez.

CAPITALISMO E MISÉRIA

O número de pessoas assistidas por IPSS que estiveram "uma vez ou outra" sem comer durante um dia inteiro aumentou de 18% para 26% entre os anos 2014 e 2016. Dos 1466 inquiridos, 46% admitiram que "às vezes" não têm dinheiro para comida até ao fim do mês, revelou um estudo da Universidade Católica.

A Universidade Católica revela ainda que duas em que cada três famílias apoiadas por instituições de solidariedade social têm rendimentos mensais líquidos inferiores a 500 euros, sendo que o desemprego está presente em 47% dos agregados.

Em cerca de metade das famílias, a pessoa que mais contribui financeiramente não tem instrução ou tem apenas o primeiro ciclo do Ensino Básico, e somente 5% possuem um grau superior.

Ou seja, depois da austeridade fascista de Passos Coelho, e apesar das melhorias introduzidas pelo governo PS, apoiado pelo PCP e pelo BE, o capitalismo mantém-se bem vivo em Portugal. As situações de pobreza, miséria e sem-abrigo são gritantes enquanto os filhos dos Amorins e dos Belmiros nadam em milhões, enquanto os políticos corruptos sobem e enchem os bolsos, enquanto o homem médio compete pelo dinheiro, pelo lugar, pelo estatuto.

BATEDORES DE PALMAS

Os homens dão sobretudo importância à sua própria conservação e à propagação da espécie. Só, em última instância, valorizam os artistas, os filósofos e os poetas. E, ainda mais nesta era tecnológica, nesta era de luta implacável pela sobrevivência, os valores do bem, do belo e da justiça são relegados para segundo plano. O amor de Jesus e Sócrates, a liberdade de Jim Morrison e Rimbaud, a revolução de Bakunine e Che Guevara, tudo isso é maldito para os controleiros do mercado e da finança, tudo isso é perigoso para os carneiros da TV, dos smartphones, do futebol e da família. Daí que nos queiram apartados uns dos outros, solitários, deprimidos, à distância do facebook, com conversas banais, repetitivas, com os pequenos e os grandes castradores dia após dia, com as cobras venenosas, com os abutres e os padrecas, com todos os inimigos da vida e o grande parque de diversões, o grande circo, a sociedade-espectáculo. Daí que nos queiram destruir, fazer a cabeça, com ilusões, com vedetas, com contos de fadas, escritores actuais inclusive, de modo a que fiquemos cada vez mais patetas, mais espectadores, mais batedores de palmas.

Edição 132 Nov.º 2017

ASSIM A VIDA NÃO É VIDA

No Ocidente e em grande parte do mundo os rapazes e as raparigas são encaminhados para o mercado e para o consumo em massa. Daí as comunicações em massa, a publicidade em massa, os estupefacientes em massa, sob a forma de televisão, internet, telemóveis ou "pensamentos positivos". Glorifica-se a competição, a luta pela vida. Os jovens não são encorajados para cooperarem, para se realizarem, para se transformarem em seres humanos plenamente desenvolvidos. Daí que tenhamos uma sociedade amputada, cheia de gente doente, com depressões, doença bipolar, esquizofrenia. E mesmo os aparentemente sãos só o são de fachada. Daí que mesmo que continuemos a investigar a mente humana e o sentido da vida, continuemos sujeitos a um punhado de macacos que só se interessam por acumular cada vez mais poder e dinheiro. Ainda assim prosseguimos. Com Jesus, com Aldous Huxley, com o padre Mário de Oliveira, a trilhar o caminho do humano, do amor, da liberdade. Porque a vida assim não é Vida.

O poeta na confeitaria pensa

O poeta na confeitaria. Ouve a Fátima Lopes. Escreve. Pensa. Pensa na figura imbecil da Fátima Lopes, apesar da beleza. Pensa acerca das limitações daqueles que o cercam, na cultura cega da obediência. Pensa na publicidade imbecil e venenosa. Pensa na Revolução Russa. Nos grandes avanços e no terror, na tragédia. Pensa no que fazemos aqui. Num homem melhor, num homem novo. Pensa na infância, na adolescência, no ponto de viragem, no questionar, enquanto muitos outros se deixaram levar na enxurrada. Pensa que só vale a pena estarmos aqui se formos vontade, liberdade, amor, criação, gozo, sabedoria. Pensa que muitos são limitados. Pensa que deve ser mais duro. Pensa que não deve escutar mais os macacos e os imbecis. Pensa que chegou a hora de fazer a síntese.

COMO LUIZ PACHECO

Tenho as minhas afinidades com Luiz Pacheco. Sou um poeta maldito, tenho problemas com o álcool, já dormi em bancos de jardim. Sou mais burguês, é certo. No entanto, também conquistei a liberdade e abandonei os empregos certos. O padre Mário de Oliveira publica-me no "Fraternizar", publico livros, canto numa banda, recito poemas. Sou diferente desta gente que me rodeia. Não faço parte de rebanhos nem sirvo o capital. Acredito que a grande revolução está próxima. Até porque isto está a ficar em cacos mesmo que esta gente não dê por nada.

REALMENTE HUMANOS

Quanto mais avanço mais me vejo rodeado de futilidades, imbecilidades e crueldades. Quanto mais leio os mestres mais me apercebo que grande parte da existência humana é desperdiçada. Vivemos como ratos, como ratazanas. Só alguns de nós verdadeiramente conseguem elevar-se, atingir a luz, a iluminação. A mera sobrevivência- trabalho, dinheiro, família- é absolutamente podre e pobre. Não é liberdade, é escravatura. Só quando soltamos o desejo, a criação, o amor e a busca da sabedoria, só quando nos sentimos efectivamente livres é que somos realmente humanos, homo sapiens-demens. Tudo o resto são prisões, convenções, religiões. Daí que não possamos aceitar qualquer tipo de poder ou dominação. Daí que nos devamos entregar a 100% ao estudo, ao gozo e à Vida, explorando toda a maravilha e todos os fantasmas interiores, sem qualquer tipo de preconceitos. A vida deve ser um experimento permanente, já dizia Nietzsche. Olhemos nos olhos, falemos com o desconhecido, façamos a descoberta permanente, o banquete permanente. Cresçamos a cada instante, como a natureza. Regressemos à origem, à essência, sem grande necessidade de novas tecnologias. Sejamos simples e sinceros. Amemos. Sem hipocrisias. Em Sócrates, em Jesus, em Che Guevara. Sigamos a estrela. Não digamos mais "até amanhã!". Façamos da vida um dia único, uma noite única. Sem televisões. Sem polícias. Acabemos com a farsa.

COMO LUIZ PACHECO

Tenho as minhas afinidades com Luiz Pacheco. Sou um poeta maldito, tenho problemas com o álcool, já dormi em bancos de jardim. Sou mais burguês, é certo. No entanto, também conquistei a liberdade e abandonei os empregos certos. O padre Mário de Oliveira publica-me no "Fraternizar", publico livros, canto numa banda, recito poemas. Sou diferente desta gente que me rodeia. Não faço parte de rebanhos nem sirvo o capital. Acredito que a grande revolução está próxima. Até porque isto está a ficar em cacos mesmo que esta gente não dê por nada.

Edição 131 Out.º 2017

A REVOLUÇÃO PERMANENTE

Em Braga, de novo. No "Arte", mesmo ao lado do liceu Alberto Sampaio. É sempre bom regressar a Braga, regressar à Gotucha. Aqui até parece que não há relógios. Alimento sempre o desejo de vir viver para cá. Não que as imagens não continuem a passar. Não que tudo seja perfeito. Mas Braga é sempre Braga. A minha cidade. Fiz o meu 12º ano aqui no Alberto Sampaio com notas brilhantes. O pior, em termos escolares, veio depois: a Faculdade de Economia do Porto, a solidão, a depressão. No entanto, ao mesmo tempo, aqui em Braga eu descobria a noite e a vida. Deixei de ser o menino de sua mãe. Tornei-me o puto provocador. Mais tarde, o poeta maldito. Não me dou com toda a gente nem sequer especialmente com os pobres e com a classe operária. Aí divirjo do Che Guevara. Contudo, defendo o internacionalismo e a revolução permanente. Admiro Fidel, Hugo Chávez, Evo Morales, Pepe Mujica. Sou declaradamente anti-imperialista. Condeno todas as guerras e invasões yankees. Em último caso, defendo a luta armada. Sou também de Bakunine, de Netchaiev, do destruir para construir. O tédio da vida normal aborrece-me. Ainda bem que, neste momento, em Portugal e no mundo se vive uma situação explosiva. O PS dependente do PCP. O PCP a lançar as suas hostes sindicais para as ruas. O Costa a perder peso. Os incêndios, as alterações climáticas. A situação é favorável aos anti-capitalistas. Enquanto estes imbecis pastam e contam anedotas, nós podemos avançar. Enquanto estes imbecis se entretêm com as suas vidinhas, nós discutimos e preparamos a revolução. Graças às alterações climáticas, às catástrofes naturais, a situação vai mudar nos próximos 10, 20, 30 anos, necessariamente. Tremei, merceeiros. Tremei, cabrões capitalistas.

O GRUPO BILDERBERG

O Grupo Bilderberg integra uma série de políticos, banqueiros, empresários, patrões dos media que controlam a grande maioria dos governos do mundo. O seu objectivo é constituir um governo mundial onde os cidadãos perdem todo o direito de decisão, inclusivamente o próprio direito ao voto. Controle dos media, levar as pessoas a trabalhar e a não pensar contemplando imagens imbecis é outro dos fins a atingir. Dominar completamente o sector financeiro, cujos lucros ficam nas mãos dos membros do grupo, eis outra das consequências. Fomentar e financiar guerras, é outro dos sinistros objectivos desses execráveis chacais. Cabe-nos a nós tomar consciência de que estamos a ser alienados a cada momento. Cabe-nos a nós a revolta.

OS INCÊNDIOS E O NOSSO FUTURO

Incêndios, furacões, tsunamis, dilúvios. São as alterações climáticas. Até agora o homem tem posto o crescimento económico, o império da pilhagem, do dinheiro e da finança acima de tudo. A Mãe-Natureza revolta-se. Se nada se fizer, nos próximos 10, 20 anos a Terra será dominada pelo terror, pelo medo do inferno. A Humanidade está em perigo. De uma vez por todas, derrubemos os cães do capitalismo, os moedeiros, os mercadores. De uma vez por todas, se queremos ter futuro.

O TRIUNFO DO BEM

De acordo com Freud, existe em nós a barbárie, o instinto elementar da destruição. Porém, paralelamente, existe a tendência para o bem, para o amor, para a bondade. A questão é fazer com que esse instinto benigno triunfe, a questão é seguir, entre outras, as palavras de Sócrates e Jesus. Esse caminho implica sabedoria, virtude e criação. A sociedade mercantil empurra-nos para a guerra, para a inveja, para a competição. Urge superá-la.

SALVEMOS A HUMANIDADE

Sismos, tsunamis, furacões. São as alterações climáticas. Se nada se fizer, nos próximos 10, 20 anos as tragédias naturais vão multiplicar-se. A natureza revolta-se. Os homens e os animais estão em perigo. Trump, o palhaço fascista, recusa-se a assinar o Acordo do Clima. Repito: se nada se fizer, será o caos, Se não for para nós, será para os nossos filhos e netos, Homens e mulheres de boa-vontade, unamo-nos. Tiremos esses imbecis, esses inimigos da vida, do poder. O mundo é nosso. A Terra é nossa. Salvemos a Humanidade, salvemos a Terra.

Edição 130 Setembro 2017

A PALHAÇADA DAS ELEIÇÕES

Abomino esses políticos engravatados que se vendem como putas nas campanhas eleitorais. Salvo raras excepções, não vejo nada de novo na pose direitinha, no discurso mais ou menos inflamado, nas promessas de sempre. E depois só ouço falar de economia, como se só o dinheiro interessasse, como se não fosse necessário amor, fraternidade, liberdade, verdade, virtude, justiça. Apoio o Bloco de Esquerda. Tenho lá alguns bons amigos, com boas propostas. No entanto, no geral, começo a achar as campanhas uma palhaçada. Gente a auto-promover-se, a fazer pela vidinha, a subir para o poleiro. E sobretudo imbecis a repetir-se. A repetir mensagens, slogans e cartazes. Pão e circo. Sobretudo circo. Pouca coisa há de elevado, de poético, de filosófico. Mélenchon, nas presidenciais francesas, ainda falou da democracia ateniense, dos tribunos, de Sólon e Péricles. Agora pouco resta. Parece que se engole tudo. Ou então há o chico-esperto que tem a mania mas que, no fundo, só saca umas migalhas. Somos uns poucos. De resto, é o império que controla.

Campanha para as eleições autárquicas

Mesmo que me façam críticas negativas, sei que sou um bom escritor, um poeta maldito. Construí uma obra e agora ninguém me afasta dela. Queria era uma mulher bela e inteligente. Não uma atrofiada. Agora, de facto, dediquei-me à obra de corpo e alma. E falo lucidamente em público sem precisar de álcool, só a águas. Porém, sei que tenho estado do lado dionisíaco, da embriaguez, da vida pela vida, da festa. Sei que tenho estado contra o sistema. Por isso me declaro revolucionário, anarquista, não reformista, não economicista. Não me revejo em grande parte do que se diz na campanha para as eleições autárquicas. Acho que se deveria ir aos problemas globais, às doenças que afectam a humanidade. E não ficar em casos e casinhos. Eu sei que questiono. Eu sei que poucos questionam. Eu sei que há atrofiados que me perseguem. Eu sei que há arrogantes que não me querem ouvir. Eu sei que há atrasados mentais. Eu sei que há o dinheiro. Eu sei que as pessoas normalmente só falam em trivialidades. Eu sei que está tudo demasiado ocupado para filosofar. Eu sei que é difícil.

ROUBARAM-NOS O PARAÍSO

Leio livros. Leio muitos livros. Busco a sabedoria. No geral, considero ridícula a vida que grande parte das pessoas levam. A pré-determinação da vida antes do nascimento, a destruição da infância, da adolescência e da juventude às mãos da moral, da religião, do mercado, do dinheiro, do trabalho. Tudo isso torna a vida uma prisão. Apesar da minha solidão, e graças a várias influências, libertei-me dessas amarras. Mas não há dúvida de que a vida burguesa é absurda. E o Bloco de Esquerda e outros não vêem ou não querem ver isso. Vivemos num absurdo desde antes do nascimento. Um absurdo que nos foi imposto por deuses, reis, padres, patrões, media, família. Nós tínhamos o direito ao Paraíso! Esse direito foi-nos roubado. Em vez disso uns quantos colocam-nos a competir ferozmente uns contra os outros pelo emprego, pelo dinheiro, pela carreira, pelo poder, pelo sucesso. Eis a grande fraude. Eis a grande mentira. Roubaram-nos o Paraíso.

A HUMANIDADE DOENTE

Cada vez há mais pessoas doentes. Depressão, esquizofrenia, doença bipolar, outras. Esta sociedade tecnológica, em vez de aproximar as pessoas, afasta-as. Os smartphones, o Facebook, etc são inimigos do contacto face a face. Os indivíduos estão cada vez mais isolados ou encerrados em grupos fechados, sem abertura à novidade, à descoberta. Os media, a TV, a Internet provocam a atrofia ou autênticas lavagens ao cérebro. O império do dinheiro e do mercado torna as pessoas hiper-competitivas, mesquinhas, malévolas. A maioria já não aguenta. O consumo de fármacos explode. O ser humano está gravemente doente, caminha para um estado vegetativo.

Edição 129 Junho 2017

DO DINHEIRO

"O dinheiro é a essência genérica alienada do homem."

(Karl Marx, "Manuscrito de 44")

O dinheiro está na base da alienação do homem. O dinheiro destrói o homem. Torna-o ganancioso, mesquinho, vendilhão, merceeiro. O dinheiro destrói as relações humanas. Destrói o amor, destrói a criação, destrói a sensibilidade. É preciso acabar com o dinheiro. O dinheiro e o poder comandam tudo. Controlam as nossas vidas, as nossas mentes. Dividem-nos em ricos e pobres. Em milionários e miseráveis. Em poderosos e escravos. Em servos e senhores. É preciso acabar com o dinheiro. O quanto antes. Se queremos ser realmente livres, realmente felizes. Se queremos que o nosso interior, que a nossa alma se una ao amor, ao outro, ao cosmos. Se queremos nascer de novo. Se somos de Jesus.

A GRANDE REVOLUÇÃO

Tenho que ser mais humilde. Ouvir mais as pessoas. Claro que isso não significa que me venda, nem que renuncie às minhas ideias. Tenho um percurso político, literário e artístico. Isso não quer dizer que tenha que ser sempre coerente. Tenho o direito de dizer e de escrever disparates. No fundo, são provocações. Sou, de certa forma, um político. Mas nunca um político tradicional. Até sei que isto incomoda muito boa gente, mesmo dentro da minha área. Cometi erros e continuo a cometer. Contudo, não me arrependo. De uma maneira geral, fiz o que tinha a fazer. Sou realmente o homem da liberdade. Aprendi com o Nietzsche e com o Jim Morrison e com outros e outras que fui conhecendo ao longo da vida. Hoje, 23 de junho de 2017, noite de São João, tenho a certeza de que a grande revolução está próxima. O capitalismo está descontrolado. Terrorismo contra terrorismo, guerras, crise dos refugiados, alterações climáticas, caos, miséria, grandes desigualdades, esquizofrenia tecnológica, indícios de revolta juvenil, lavagem cerebral. Muita gente vai sofrer mas os donos do império cairão. O novo mundo vai nascer.

A BARBÁRIE E A VIDA COMO DÁDIVA

Apesar de tudo, lúcido, interpreto o mundo. Alterações climáticas, terrorismo contra terrorismo, capitalismo feroz, lavagem ao cérebro. O cenário é negro mas há esperança. Os jovens, ou uma parte dos jovens, começa a compreender que a barbárie não faz sentido. Há uma consciência ecologista. O futuro da Humanidade e do Planeta está em perigo. A selvajaria do dinheiro e do mercado só conduz à escravidão e à alienação na vida, no trabalho e até nos lazeres. A lavagem ao cérebro mediática destrói a nossa capacidade de pensar e de agir. O indivíduo tem de afirmar-se, tem de soltar o seu eu no meio da esquizofrenia tecnológica. Impõe-se a ligação do eu interior ao cosmos, ao outro, ao amor. Urge a recuperação da vida enquanto dádiva, enquanto bênção, enquanto liberdade livre, enquanto amor.

A REVOLUÇÃO DO AMOR E DA POESIA

Eles, sempre os mesmos, têm-nos feito a cabeça ao longo dos séculos. E nós caímos no erro de só falar a linguagem dos números e da economia, esquecendo o amor e a poesia. Antes de mais, somos reis de nós próprios, não precisamos de representantes que tomem decisões por nós. Não podemos admitir que pensem pela nossa cabeça, somos livres de pensar, de opinar, de filosofar. Eles- grandes corporações, banqueiros, políticos influentes, grandes media- querem fundar um governo mundial onde não teremos qualquer capacidade de intervenção, onde seremos escravos e robôs. É através da tomada de consciência em grande escala, da revolução bakuninista, mas também através do amor e da poesia que nos salvaremos a nós próprios e ao planeta. O amor de Jesus une as pessoas e a poesia transforma. Daí nascerá o novo homem.

TRUMP, O NOVO HITLER

Donald Trump concretizou a saída dos EUA do Acordo de Paris, relativo às alterações climáticas, assinado por 195 países. Trump é um louco megalómano como Hitler ou Estaline que põe em causa a sobrevivência da Humanidade e do Planeta. Esse monstro tem que ser derrubado o quanto antes, custe o que custar. Mesmo com o acordo, já por si insuficiente, prevêem-se grandes tragédias naturais para os próximos anos, o que não será sem o acordo? Não. Mobilizemo-nos. Tiremos do poder esse macaco e os seus seguidores. Não há tempo a perder. Em nome da Vida.

A DESTRUIÇÃO DA CRIANÇA

"Qualquer instituição dos nossos tempos, a família, o Estado, os nossos códigos morais, vê em cada personalidade forte, bela e sem compromisso um inimigo mortal; então faz todo o esforço para coagir a emoção e a originalidade do pensamento no indivíduo com um colete de forças desde a mais tenra infância; ou para moldar todos os seres humanos de acordo com um padrão; não numa individualidade integral, mas num escravo paciente do trabalho, um autómato profissional, um cidadão que paga impostos ou um moralista justiceiro", assim falava Emma Goldman já em 1906.

"O ser sensível abomina a ideia de ser tratado como uma simples máquina ou como um mero papagaio do convencional e do respeitável". Perante as imposições da tecnologia, da família, da escola, do mercado, dos media, é quase um milagre a criança ou o adolescente que se lhe segue conservar a força e a pureza iniciais. Só através de ferozes e ardentes batalhas contra a multidão e contra a "opinião pública" a criança e o jovem se emancipam. "O ideal do pedagogo comum não é formar um ser completo, íntegro, original", mas sim, "autómatos de carne e osso (...) que se adequem melhor à esteira da sociedade e ao vazio e monotonia das nossas vidas". Com regras e castrações, com o encaminhamento para o mercado e para o mercado de trabalho se destrói a juventude e a inocência. "Tu deves!", "Tu tens de!", "Isto é certo!", "Aquilo é errado!", assim se castram as sensibilidades e as mentes. Sim, o capitalismo começa aqui. É aqui que se nega a curiosidade, a brincadeira, a liberdade, a autonomia. É aqui que se mata o espírito livre, o próprio amor jesuânico.

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Edição 128, Maio 2017

AS MORTES POR DEMÊNCIA E A SOCIEDADE DEMENTE

As perturbações mentais e do comportamento provocaram, em 2015, 3267 óbitos- um aumento de 24% face a 2014-, com as mortes por demência a ocuparem um lugar de destaque (94%).

De acordo com os dados publicados pelo INE sobre as causas da morte em 2015, das 3267 mortes por perturbações mentais e do comportamento naquele ano, 3076 foram por demência.

Em 2015 ocorreram 1132 suicídios em Portugal.

A elevada taxa das mortes por demência no nosso país prova que estamos perante uma sociedade altamente competitiva, que está a perder os seus valores e onde a depressão e a solidão tomam a primazia. A publicidade, o futebol, as telenovelas, as vedetas que vivem por nós, tudo isso alimenta um imenso "Big Brother" que nos dá cabo da cabeça. As próprias relações entre as pessoas são afectadas, tornando-se mercantis, financeiras e interesseiras. Os gestos puros de amor e de amizade vão definhando a olhos vistos. E depois surgem aí nas televisões uns comentaristas a dizer como nos devemos comportar. Insuportável. Esquizofrénico.

A TELEVISÃO DOS VENDILHÕES

Segundo Pierre Bordieu, a televisão transformou-se numa espécie de "espelho de Narciso" onde as pessoas vão não para dizer algo de novo mas para serem vistas. Isso passa-se também entre os intelectuais e os artistas. Os escritores e os intelectuais escrevem a intervalos regulares e tão curtos quanto possível obras que têm por objectivo primordial assegurar a esses autores convites para aparecerem na TV.

Eis a hipocrisia reinante. A grande feira. O grande mercado. Macacos que trepam uns por cima dos outros, como dizia Nietzsche. Vendilhões. Só vendilhões.

BALEIA AZUL

O jogo "Baleia Azul", cujo objectivo final é levar os participantes ao suicídio, já fez várias vítimas no mundo inteiro. Em Portugal, foram abertos três inquéritos pela Procuradoria-Geral da República relacionados com o dito evento e recentemente foram conhecidos mais dois casos. Além de uma jovem de Matosinhos, também uma adolescente de Gondomar está a receber tratamento psiquiátrico, depois de lhe terem sido detectados cortes no corpo associados ao jogo. A adolescente recebia telefonemas do administrador do jogo, bem como músicas e filmes de terror.

Os participantes do "Baleia Azul" são, em regra, adolescentes fragilizados. Parte dos 50 desafios envolve automutilação e o último é "tira a tua tua própria vida". Uma das condições é que o jogo deve ser cumprido até ao fim, sem desistências e sem contar a ninguém.

O primeiro caso revelado no nosso país foi o de uma jovem de 18 anos, residente em Albufeira, que foi levada a automutilar-se e a atirar-se de um viaduto junto a uma linha férrea. A tentativa de suicídio ocorreu a 27 de Abril. A jovem foi encontrada caída na linha férrea da estação de comboios de Ferreiras, em Albufeira.

Para além da pura maldade dos mentores do jogo, há que ter em conta que vivemos numa sociedade completamente desestruturada, sem valores, onde impera a lei do mais apto e do mais "forte". Os jovens e os adolescentes de hoje, se exceptuarmos fenómenos como a mobilização em torno de Mélenchon em França, não têm quaisquer perspectivas de futuro, estão colados à Internet e aos smartphones, não têm ideais, não têm interesse em estudar. Isto porque os media lhes querem (e conseguem) fazer a cabeça, porque os pais lhes exigem o sucesso a qualquer preço, porque o capitalismo lhes impõe o mercado onde te safas ou cais em depressão ou pensamentos/comportamentos suicidas. É um outro "no future". Um "no future" sem revolta.

O FASCISMO DE MACRON

Há uns anos atrás o sucesso comercial imediato era visto como suspeito. Hoje tudo se rege pelas leis do mercado. Dentro dos media, os jornalistas concorrem entre si como cães em busca da notícia mais escaldante, para lá da concorrência geral entre os "cidadãos" pelo dinheiro, pelo sucesso, pelo poleiro. Banqueiros, patrões dos media, milionários, capitalistas, políticos do centrão infernizam-nos as vidas e estão-se nas tintas para os milhões que vivem e morrem na miséria. Por isso não apoio Macron. Não apoio os senhores da Terra que agora tremem. São todos fascistas. Trump, Le Pen, Macron, Erdogan e Merkel. Estão todos feitos com as indústrias de armamento. Com os que querem destruir a Humanidade e a Terra. Prossigamos, pois, a luta.

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Edição 127, Abril 2017

O BANQUEIRO E A FASCISTA

Um banqueiro contra uma fascista. Eis o que temos na segunda volta das presidenciais francesas. É claro que, numa primeira fase, devemos eliminar a fascista. Mas o banqueiro não perde pela demora. Aliás, os partidos sociais-democratas neo-liberais e a direita tradicional, o centrão, estão em declínio. Devemos, de facto, banir essa gente toda do poder. Essa gente que nos rouba o tempo e a vida. Essa gente que nos quer controlar as mentes e acumula milhões, deixando-nos uns trocos e milhões e milhões na miséria. Devemos defender a Humanidade, a natureza, a Vida. As lutas daqueles que, antes de nós, deram a vida pela Humanidade, pelos seus semelhantes. A sabedoria de Sócrates, Platão, Nietzsche, Marcuse, Sartre, Guy Debord, Erich Fromm, Raoul Vaneigem. A luta de Jesus, Marx, Bakunine, Kropotkine, Fidel, Hugo Chávez, Che Guevara. A arte de Rimbaud, Baudelaire, William Blake, Walt Whitman, Lautréamont, Sade, Dali, Da Vinci, Shakespeare, Homero, Sófocles, Jim Morrison, Breton, Artaud, Camões, Mário de Sá-Carneiro, Cesariny, Fernando Pessoa. LUTEMOS POR UM HOMEM LIVRE NUMA TERRA LIVRE. POR UM MUNDO SEM FRONTEIRAS. BRINDEMOS, POIS, À VIDA.

MÉLENCHON

Mélenchon fala como um poeta. Como o sub-comandante Marcos do EZLN. Não fala a linguagem da finança. Estou com ele. Com a invenção da democracia de Sólon, de Péricles na antiga Grécia. Com Sócrates, Platão e Aristóteles. Com todos os vivos de hoje e de ontem. Com o irmão Sol, com a irmã Lua. Com Nietzsche e Jesus. Com o amor, a liberdade e a justiça. Com Bakunine e Che Guevara. Eis-me aqui renascido. Não mais chacais. Não mais vendilhões. Este é o início da nova era. Do caos virá a luz, o renascimento, a festa.

António Pedro Ribeiro

Rua da Senra, 76 4485-883 Vilar do Pinheiro

Vila do Conde

BI nº 8177054

O TERRORISMO DE TRUMP

Terrorismo contra terrorismo. As bombas de Donald Trump são tão terroristas como as bombas do Daesh. As bombas de Trump também matam inocentes. Não nos bastava termos uma sociedade desumana, onde se morre de fome e de tédio, e agora temos um carniceiro na Casa Branca. Um carniceiro, um fascista, que só tem negócios na cabeça e que quer dar cabo da Humanidade. Não, não podemos ficar de braços cruzados a assistir. Mobilizemo-nos. Saiamos para a rua. Este Trump e estes demónios capitalistas querem reduzir-nos a números, coisas, mercadorias. Não deixemos que eles nos ponham doentes, depressivos. Não deixemos que eles nos matem. Resistamos.

DA BARBÁRIE AO FESTIM

1

Observo as pessoas, agora na cidade. Há uma aparente calmaria. Andam de um lado para o outro, prosseguem as suas vidas. No entanto, nota-se a mecanização dos gestos. A bomba pode rebentar. A tranquilidade é falsa. Sim, há o apelo do sexo. Há o álcool que acende. Há os amigos e conhecidos que vemos em alguns dias. De resto, o mundo é absurdo, aborrecido. Sempre toxicodependentes do dinheiro. As pessoas imitam-se umas às outras. Não procuram os verdadeiros tesouros da vida. Fingem que estão bem, que são felizes. Sempre na fila, aparentemente adaptadas. Mas o medo reina. O medo de perder tudo. As famílias. A reprodução. A descendência. O animal mesclado com o humano e com o mecânico. A doença. A grande doença. Ainda estamos aqui vivos. Ainda comunicamos. Não necessariamente por palavras. Tão iguais. Tão diferentes. A vida prossegue, mesmo com bombas. E cá voltamos todos os dias. Claro que não falo daqueles que vivem a miséria todos os dias. Esses estão numa condição sub-humana. Mas não estaremos nós também? Estes gajos tentam fazer-nos a cabeça todos os dias. Estes gajos tentam enlouquecer-nos. Ou fazer de nós máquinas de produção. E lá continuamos a andar de um lado para o outro. Muitas vezes vendemo-nos. Porque fazemos filhos? Porque continuamos a espécie? Homens como Sócrates, Jesus, Marx, Nietzsche, Bakunine ou Che Guevara não aparecem todos os dias. Claro que podemos acreditar num novo homem, num novo espírito, numa nova educação. Numa educação que leve as crianças e os jovens a buscar o bem, a criação e a sabedoria. Contudo, continuo a vê-los passar, a vê-los sentados a conversar, a vê-las exibir os corpos, e tudo permanece na mesma, tudo permanece exactamente na mesma como se isto não estivesse prestes a explodir. Bom, é certo que se sentem aliviados do trabalho. Mas o trabalho volta sempre no dia seguinte, tal como no mito de Sísifo. É tudo uma ilusão. E há muitos que só falam de trabalho. Ainda me entediam mais. Prosseguem sempre a caminhada rumo a um deus ou ao desconhecido ou ao completo sem sentido. Que viemos cá fazer? Porque não nos sentamos e discutimos estas questões? Porquê a separação, sempre a separação? Estou rodeado de gente e estou cada vez mais só. Nem a cerveja me salva. Mas eles continuam a sorrir como se nada fosse, como se não hão houvesse bombas na Síria e aqui riscos de apocalipse e explosão. Estou a tornar-me um eremita no meio da cidade com um esquizofrénico à minha mesa. De que me vale a inteligência, meu pai? Só teatro, fingimento, representação. Oxalá a minha cabeça explodisse. Não suporto mais as conversas. Não sou a estrela do rock n' roll. Vejo os amigos e as amigas de vez em quando, é o que é. De resto, há mesmo gajos hostis. Apetece-me rebentar com esta merda toda. Isto não é o justo, não é o virtuoso, não é o bem, não é o amor. São personagens que passam.

O relógio. Sempre o relógio. Não há festa. Não há orgia. Não há tambores. Não há celebração. Sempre o quantitativo. Sempre o matemático. Sem toque. Sem carinho. Dou em doido. Apetece gritar. Uns comprimidos aqui e ali. Uns sorrisos. Nada mais. A depressão espreita. Falta-me a outra metade. O dinheiro sempre a circular. A merda sempre a circular. Inferno. Que farsa. Que loucura. Não, isto não serve. Não vim para sofrer assim. De que me valem as glórias passadas? Malditos sejais, ó profetas da morte! Deixa ver se me consigo levantar. Se o sangue ainda corre. Talvez a minha loucura me salve. Talvez a minha louca sabedoria nietzscheana. Sim, ergo-me com o álcool no Piolho. Contudo, o Piolho já não é o que era. Travei aqui grandes discussões políticas. Lancei livros. Disse poesia. Mas agora há uma sensação de vazio. Mas, porra, eu tentei.

2

Hoje sinto uma estranha serenidade. O livro avança. Contrariamente a ontem, sinto a vida pulsar. Estas pessoas não atingem mas são amáveis, simpáticas. Terei que falar a linguagem do profeta. Terei que lhes tocar o coração. Afinal, é o amor que nos mantém de pé. O amor e a liberdade. Depois dos Trumps, dos terrorismos, da lavagem ao cérebro, depois da descida aos infernos virá a terra prometida. Hoje acredito no super-homem. Naquele que tomará conta da Terra, que cuidará dos homens, dos animais e da Terra. Mesmo estando só, sinto poderes interiores e celestes. Sou o tal xamã urbano. Dialogo com os espíritos. Sou feliz no meu festim.

A DEPRESSÃO

O consumo de antidepressivos em Portugal aumentou cerca de 33% em cinco anos, de 2012 para 2016, revela o Infarmed, regulador do medicamento. Os especialistas alertam para o excesso de medicação e para a falta de psicólogos nos centros de saúde.

Em 2012 foram dispensadas 5,9 milhões de embalagens de antidepressivos e, no ano passado, 7,9 milhões. Entre os psicofármacos, os antidepressivos são os que mais cresceram.

No último ano, 8% dos portugueses tiveram um episódio de depressão. Ao longo da vida, cerca de 20% já tiveram depressão.

Em média, uma pessoa com depressão tem uma incapacidade de 50% superior à provocada pela angina de peito, artrite ou diabetes.

A linha de ajuda na área de prevenção do suicídio SOS Voz Amiga recebeu 3701 pedidos em 2016.

Eis no que dá a sociedade mercantil. As pessoas estão cada vez mais isoladas, idiotizadas pelo consumo, pela compra e venda. Os smartphones, os facebooks ainda nos isolam mais. O tédio e a pressão das horas fazem as pessoas cada vez mais infelizes. A verdadeira comunhão vai rareando. São eleitos ditadores, vigaristas, patetas que obedecem aos senhores do dinheiro e do mercado. Rareia o abraço, o gesto espontâneo de alegria. Estamos a ficar doentes, muito doentes. Com dificuldades em comunicar, em abrirmo-nos ao outro. As pessoas passam na rua automatizadas. Acabamos por ficar em frente ao computador à espera de algo que nunca mais vem. Não abordamos o desconhecido. O capitalismo, além de matar de fome, mata de depressão, de tristeza.

O QUE ESTAMOS A FAZER AQUI?

Vou observando o mundo, as pessoas. Levam vidas muito rotineiras. Repetem os dias. Não que eu também não sinta o tédio. Mas, caramba. Sempre os mesmos hábitos. E depois o regressar a casa para ficaram pregadas à televisão. Não há festa. Só tarefas. Só trabalho. Só há festa quando ela é forçada pelo álcool, pelas drogas ou pelo consumismo. Ao menos os antigos dançavam em redor da fogueira. Agora é só ordem e doença. Festejam-se golos. E há ódios por causa disso. De resto, anda tudo alinhadinho, na fila, a envelhecer, a apanhar bolor. Aceita-se um sistema altamente injusto. Passa-se ao lado da Vida. Os merceeiros comandam. Os escritores escrevem banalidades enquanto a morte se abate sobre nós. A solidão aperta. Antes estivesse em delírio. Antes tivesse visões. Em vez de ouvir a linguagem da compra e venda, da sobrevivência, da competição. A simpatia soa-me a falso. Morte. Morte. Dinheiro. Solidão. O que estamos a fazer aqui?

Edição 126, Março 2017

O CAOS

É o caos. Fanáticos de Alá, fanáticos do dinheiro, extrema-direita. Eles batem-se na arena. Sofrem os inocentes. Mas os inocentes também se batem na corrida pelo lugar, pelo dinheiro. Há vendilhões por todo o lado. Os vermes do mercado vendem pai e mãe todos os dias. Imagens. Confusão. Esquizofrenia. Uns acumulam milhões, outros na miséria. Offshores. Corrupção. Patifaria. Parecem poucos os homens bons. O medo reina.

Caos. Atentados. Guerras. Vigilância. Onde está o amor? Onde está o gesto desinteressado, generoso? Tudo é finança, negócio, ausência de sentimentos. Querem-nos controlar os actos, o pensamento, querem-nos enlouquecer. É o caos. Mas do caos também pode vir a insubmissão, a revolta. O homem não pode mais aceitar não ser livre. O homem ainda pode ser o seu próprio deus.

A PODRIDÃO DO CAPITALISMO

Gente que acumula milhões e milhões e insulta a pobreza e os que contam os trocos todos os dias. O mundo arde em corrupção e falcatruas. O capitalismo é isto. Uns devoram-se aos outros. Mesmo entre os pequenos reinam a intriga, a competição e a inveja. As pessoas atropelam-se na corrida pelo lugar, pela carreira, pelo dinheiro. As relações são cada vez mais superficiais. Vão rareando a fraternidade, a verdadeira camaradagem. Tudo gira em torno do lucro e do sucesso. As pessoas estão doentes, deprimidas, esquizofrénicas em trabalhos, em vidas com cada vez menos sentido. A finança domina todos os discursos como se fôssemos números, percentagens, mercadorias. Como se não existisse amor, iluminação, poesia. Como se não fôssemos filhos dos céus e de Dionisos. Como se tivéssemos de andar sempre contidos, castrados, mortos. Em vez da liberdade e da libertação avançam o medo e o sentimento de culpa- que ainda vêm das religiões- e daí os terrorismos de Estado e os outros, o ascenso da extrema-direita, o medo do diferente, a mania da vigilância.

O capitalismo é também roubo. Do rico ao pobre, do explorador ao explorado. É mercearia. É compra e venda. É conversa de mercador, é ausência de vida, de sentimento, de substância. E é igualmente lavagem ao cérebro. São imagens sobre imagens e ideias que se impõem como únicas e absolutas desde a infância. A família, a escola, o trabalho e os media convencem os indivíduos de que não há alternativa à sociedade mercantil, de que esta "vida" é única e irreversível. Claro que alguns de nós, a dada altura, nos questionamos e nos rebelamos. Mas é uma luta diária, dura, quase quixotesca. No entanto, temos as nossas armas.

Edição 125, Fevereiro 2017

MACACOS ENDINHEIRADOS

Henry Miller transmite-me sabedoria. O homem está a apodrecer, a morrer aos poucos. A ganância, a competição, a inveja, a avareza destroem o coração e a alma. Imbecis como Trump, o capitalismo feroz, os eurocratas, a alienação das mentes, o terrorismo, os desastres naturais, anunciam o inferno. E é melhor que isto rebente de vez. Que venha o novo homem!

As pessoas estão doentes. Têm umas raras alegrias, é certo. Mas muito fugazes. Geralmente é tempo de obrigação, de castração, de escravidão. Que direito têm esses macacos endinheirados de controlar a vida dos outros? Por que carga de água são tão poderosos? É certo que os dominados, em boa parte, também se deixam dominar. Mas que vida é esta? Sem arte, sem festa, sem sabedoria, sem descoberta. Não é justo. Esses cães querem levar tudo. É podre. É porco. Não é justo.

CONFÚCIO

Confúcio distingue quatro tipos de homens: os santos, que desde o nascimento se encontram na posse do saber. Os nobres que, através da aprendizagem, poderão alcançar o saber. Os que têm dificuldade em aprender mas não se deixam desanimar. E, por último, os que têm dificuldades mas que também não fazem qualquer esforço. Ora, é isso que verifico na nossa sociedade. A maioria das pessoas limita-se a frequentar a escola, a própria faculdade, mas depois perdem toda a curiosidade de ler um bom livro, de aprofundar os seus conhecimentos. Guiam-se apenas pelo prático, pelo útil, pelo imediato, pelo que dá dinheiro. Ora, para Confúcio, o nobre entende o que respeita à justiça, o vulgo o que respeita ao lucro. Como não lêem, como não discutem os grandes temas, como não ouvem boa música, essas pessoas são incapazes de formar um juízo crítico sobre a sociedade e sobre a sua própria situação no mundo. É tudo muito mediático, internético, muito pela rama, não há profundidade de raciocínio e vamos caindo na barbárie.

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Edição 124, Janeiro 2017

JESUS

Desprovido de todo o calculismo, de todo o realismo, de todo o materialismo, Jesus veio contra a ordem do mundo. Veio contra o próprio cristianismo. O seu nome é invocado pelos hereges. Segundo Karl Jaspers, "quando ele irrompia de novo e devastador, insistia em trazer o Reino de Deus, acompanhado pelo fim do mundo". Jesus não trouxe apenas a mensagem do amor universal mas também a mensagem da rebeldia. Por isso expulsou os vendilhões do templo, por isso condenou o dinheiro.

São tempos de fim do mundo estes, tempos de caos e barbárie. As pessoas atropelam-se na corrida. São manipuladas todos os dias. São drogadas todos os dias. Mas, através da luz de Jesus, da sabedoria de Sócrates, Platão e Nietzsche, da revolução de Marx, Bakunine e Che Guevara, o caos transformar-se-à em harmonia. Um novo homem, um novo mundo nascerá. Claro que uma boa parte ficará para trás, agarrada ao dinheiro, à mesquinhez, ao poder, às riquezas. Mas os outros encontrarão o caminho. Falta pouco. É uma certeza.

O REINO

O apocalipse é, simultaneamente, a chegada do reino. Estamos às portas do apocalipse e às portas do reino. Os sinais do reino- Jesus, Bakunine, a sua mensagem, estão entre nós. O reino pode vir a qualquer momento. "Não vos preocupeis mais com a vossa vida, com aquilo que comeis. Não vos preocupeis com o dia de amanhã; o dia de amanhã preocupar-se-à consigo mesmo". "Não junteis tesouros na Terra. (...) Juntai antes tesouros no Céu". Assim falou Jesus. Não discutais números, não façais contas. A vida virá ter convosco. Desprezai os moedeiros, os acumuladores. Não é essa a vossa riqueza. Olhai os sinais do reino. O mundo corre a nosso favor.

CÃES

Oito empresários, incluindo Bill Gates e Mark Zuckerberg, o fundador do Facebook, acumulam a mesma riqueza que a metade mais pobre da população mundial, no total de 3,6 mil milhões de pessoas, revelou a Oxfam, confederação internacional contra a pobreza.

A Oxfam publicou um relatório, "uma economia para 99 por cento", que mostra que os novos dados disponíveis levam a concluir que a desigualdade entre ricos e pobres é muito maior do que se supunha. A imensa riqueza de uns poucos resulta ainda mais obscena quando muitos sobrevivem com menos de dois dólares por dia.

Chacais. Abutres. Do alto das suas mansões, do alto dos seus milhões, esses senhores passam por cima de tudo e de todos, acumulando mais e mais, matando os seus semelhantes com guerras, fome e tédio. Não têm qualquer coração esses cães que controlam a máquina e o "Big Brother"- a finança, os governos, a escola, a família, os media. Infelizmente, a maioria das pessoas deixa-se levar na conversa desses exploradores, desses inimigos da vida e da sua legião de súbditos e engole as patranhas da TV, dos comentaristas e aceita a pobreza e a existência de multimilionários como uma fatalidade, como se não houvesse nada a fazer, como se estivéssemos de mãos completamente atadas. Nunca o homem foi tão lobo do homem. Nunca o capitalismo foi tão feroz como agora. Nunca a manha, a ganância, a falta de humanidade foram tão reais como agora.

O POETA QUE VIVEU COMO POETA

Morreu o meu amigo poeta Armando Ramalho. O Ramalho foi um poeta que viveu como poeta. Fora das modas, fora do circo. Vendia e oferecia poemas pelos cafés, especialmente pelo Pátio em Vila do Conde. Fazia os seus próprios livros e cadernos de poesia. Tinha uma escrita visceral, vulcânica mas era um homem de afectos, de ternura. Viveu como um fora da lei, como um vadio de Agostinho da Silva. Poderia ter sido reconhecido como um Luiz Pacheco, como um Cesariny. Mas preferiu ficar ao balcão do Pátio a fumar cigarros. Foi assim a última vez que o vi. Do lado de lá do balcão estava o Ramiro.

OS MEUS EXÉRCITOS

L., G., V., M., o vosso amor impede-me de pegar fogo ao mundo. Às 4 da manhã os meus exércitos estão prontos para avançar sobre os moedeiros e os mercadores. O Fernando e os outros futeboleiros borrar-se-ão de medo. Eis o meu reino. O encontro com Ulisses, Parsifal e Quixote. L, eis o Graal. O mundo é meu, o universo. Nada há a temer. Danço com Zaratustra e Jesus. Hoje ides ter uma surpresa, ó homens pequenos. Hoje vou reinar. Hoje vou rosnar. Também o mereceis. Até agora apoiastes sempre os imbecis do império. Sempre quietinhos, sempre mansinhos. Não vos suporto. Quero a Glória. Quero Camelot de volta. E não essa vidinha de atropelos que levais. São 4 da manhã e os meus exércitos estão prontos para avançar sobre os moedeiros e os mercadores. Aproxima-se o dia triunfal, minhas meninas. Reino no Céu e nos Infernos. Amo-te, ó eternidade! Danço com Afrodite nas àguas do Ave. Bebo do cálice. Berro. Desafio-vos daqui, ó polícias da humanidade! Não sois mais do que eu. Pelo contrário. Segurai-me, minhas irmãs, que vai correr sangue.

PASSAGEM DE ANO EM BRAGA

Everybody loves my baby. Braga, Juno, passagem de ano. O bailarino baixinho a abraçar-me. O puto comunista a propor-me fazer a revolução no "Sardinha Biba". Os gajos loucos pela Leonor. O grande provocador no "Insólito". Enfim, o caos a manifestar-se cada vez mais. O fim de uma era. Copo sobre copo. Chegaram ao fim os dias tranquilos, querida. Chegaram ao fim as falinhas mansas. O leão anda à solta. Está ferido, ruge. Vai para o palco. Canta. Putas de Deus. As conversas normais aborrecem-me de morte. Quero o grito animal, a hybris, a histeria. Este é o ano da viragem. O ano da grande viagem. Vamos dançar até ao infinito. Vamos ser deuses, matar o capitalismo.

A DOENÇA DA ACUMULAÇÃO DE RIQUEZA

"Quem passa a sua vida a acumular riqueza está doente como um toxicodependente, deveria tratar-se". Assim fala Pepe Mujica, ex- Presidente do Uruguai. De facto, a acumulação de dinheiro e de riqueza, o passar por cima do outro para alcançar esse fim, constitui um vício que leva as pessoas a tornarem-se invejosas, mesquinhas, malvadas. No fundo, ficam doentes, cegas pela sua ambição. A sua vida não tem qualquer valor.

Devemos dedicar o máximo de tempo da nossa vida ao que gostamos, à liberdade e aos afectos e não ficar na sofreguidão, na obrigação de "ganhar cada vez mais para consumir ainda mais", ainda Mujica. Temos de parar a corrida louca pelo dinheiro, pelo poder, pelo sucesso. A bem da vida. A bem da liberdade. A bem da nossa saúde mental.

Edição 123, Dezembro 2016

EM TRANSE

Ouço os anjos. Estou em transe. Há gritos de borboleta. Há barcos no mar. E tu danças, danças para mim. Já não há limites, companheira. Provo o vinho do paraíso. Canto. Voo sobre os homens. Há ouro, muito ouro na caverna. Medito. Elevo-me. Atinjo estados de iluminação. Jesus, Buda, Zaratustra. Vim conquistar o mundo. Leões, dragões, serpentes. Estou ás portas do céu. Quem me ama? Quem me vem dar amor? Estou possesso. Deliro. Tenho milénios em mim. Atravesso desertos. Sou tentado por Satã. Ainda assim acredito no homem. Incêndios. Guerras. Pilhagens. Primeiro virá o caos. Companheira, tenho visões. Vejo Camelot próspera novamente. Vejo William Blake e a Fêmea Eterna. Vejo o sacrifício e a dor. Em transe. Gritos ébrios. Como sois normais, como vos repetis. Jesus, Jesus. Busco o super-homem. Jesus, Jim, vou explodir. Trago mensagens dos céus. Leonor, Leonor, estou em êxtase, no gozo da sabedoria. Leonor, Leonor, cheguei aos meus dias.

PROFETA

Profeta. Agora sou profeta. Assim vem no Jornal de Notícias. Até já me publicam os meus textos místicos. Enquanto isso a miúda ginga. Profeta sim, santo não. Apesar das influências, há algo algo de original na minha literatura. Canto os pássaros, canto as mulheres, canto as tabernas. Bem sei que a grande maioria das mulheres se interessam tanto pelo ouro como pelo amor. Bem sei que só durante uns dias tenho plenos poderes. No entanto, agora sou o tal profeta, o poeta maldito que brada e bebe. Será injusto não me reconhecerem. Se bem que eu continue a provocar mais e mais. A puxar a corda. A apontar a dedo os vendilhões imbecis, como hoje no JN. Não, não são esses os meus medos. Os meus medos são interiores. São demónios, fantasmas que vêm de dentro e ainda um pouco das forças da educação, da sociedade, dos media, mas cada vez menos. Aliás, nestes dias cada vez me sinto mais solto. Sobretudo entre as mulheres. Amo-te, ó eternidade! Bebo o vinho do eterno regresso. Sou amável com a Fêmea Eterna. Recebi uma boa educação mas aprendi a linguagem dos bares, da rua, da vida. Tornei-me um dos malditos. Estou a deixar a minha marca no mundo. Eu, António Pedro Ribeiro, o profeta. O homem que bebe no café da Vera. O narciso. O grande louco. Hoje serei o sr. escritor. Hoje darei dinheiro à Vera. As mulheres ligam muito ao dinheiro, salvo raras excepções. Em contrapartida, são capazes de te dar o grande amor. Eu, como já tenho dito, não vim para este mundo de notas e moedas, sou como Sócrates e Jesus. Prefiro que me dêem alimento e morada. De qualquer modo, quando tenho dinheiro facilmente o gasto em dois tempos. Sou do dispêndio, da consumação. Detesto é este espectáculo de ver uns a atropelarem-se uns aos outros, detesto esta tremenda sofreguidão. Amo o sorriso ainda inocente da menina. Amo tudo quanto quanto é puro, livre, coração. Haverá talvez presentemente quem escreva melhor do que eu mas duvido que esse alguém tenha em si a verdade, a virtude e a paixão que neste momento me movem. Ah, como sois ridículos, ó comentaristas, ó futeboleiros, ó politiqueiros, como pertenceis à ralé. Tudo o que o dizeis já eu sabia antes de nascer. De resto, só me fazeis mal à cabeça. De resto, antes beber. De resto, mil vezes a mulher.

RONALDO

Cristiano Ronaldo até pode ser o melhor do mundo no pontapé na bola mas eticamente, como pessoa, não vale a ponta de um corno. Ronaldo foge ao fisco, desviou para o paraíso fiscal das Ilhas Virgens britânicas pelo menos 150 milhões de euros obtidos em direitos de imagem, além de ter desviado dinheiro de impostos. Ronaldo é um ídolo de pés de barro. Enquanto o cidadão comum conta os trocos ou vive na pobreza e é obrigado a pagar impostos, o craque milionário dá-se ao luxo de gozar com toda a gente, fugindo aos seus deveres de cidadão. É o menino mimado, a boneca do capitalismo que se passeia com os seus milhões mas não passa de um escravo dos seus patrões e da sua imbecilidade.

COM JESUS E DIONISO

Com Jesus e Dioniso no Carbono em Vila do Conde. A discutir Bakunine e Kropotkine e o novo mundo das crianças. O regresso à natureza e o fim do império. Embriagado com o Henrique e a Maria Jorge. Embriagado com a fêmea eterna que provoca. Com a carne. Com a pele. Com as ancas. O mundo é meu. O mundo agora é meu. Posso libertá-lo. Posso incendiá-lo. Com Jesus e Dioniso, com Bakunine e Kropotkine. O álcool vive. A mulher acende, provoca. No Cacau tatuada. Não, eu não eu não sou daqui. Venho de outros reinos, de outras galáxias. Por isso sou xamã. Por isso incendeio. Quero destruir os merceeiros e os mercadores. Quero um novo mundo de crianças livres. Não quero relógios nem polícias. Nasci para criar, para abusar, para destruir os vendilhões e os moedeiros. Nasci para viver, para crescer, para transformar. Por isso mudo de pele como as serpentes. Por isso te amo, Goreti. Por isso sou do Eterno, do Infinito e do Divino.

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