Textos de A. Pedro Ribeiro

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Edição 135, Fevº 2018

JESUS

Jesus

o sol

a luz

a meio do concerto

do deserto

do desespero

Jesus

a luz que guia

que conduz

na rua

no escuro

Jesus

dá-me asas

dá-me forças

para enfrentar o medo

as perseguições

os judas

os vendilhões do templo

Jesus

a estrela está em mim

dentro das moléculas

no universo

no último verso

no único verso.

EU NÃO SOU DESSE MUNDO

Preciso ser mais humilde. Mas não vou perdoar aos chacais grandes e pequenos. Não vou perdoar o que me fizeram em Vila do Conde. Adiante. Estou lixado do joelho. Tenho dificuldades em levantar-me. Há dois dias que não saio de casa. Vivemos num mundo de imbecis que fazem tudo pelo dinheiro. Roubam, pilham, matam. Eu não sou desse mundo. Eu não nasci assim. Até agora confiei demasiado nas pessoas. Pois agora, vou tornar-me um pouco cínico. Continuo convencido que o caos e a grande revolução virão e esses pelintras vão-se lixar todos. No mercy.

COMO JESUS

Sinto-me poderoso, G. Capaz de tomar o poder, de reunir exércitos. Tenho o poder da palavra, a banda e a escrita. Sou uma figura pública. Não tenho que me portar bem como o Jerómino ou como a Catarina. Posso fazer asneiras. Posso partir os vidros dos bancos e dos carros. Deus está do meu lado. Sou filho de Jesus e de Satã. Nunca me senti tão forte, tão seguro. E sem alucinações. Como Jesus a entrar em Jerusalém. Como Jesus a expulsar os vendilhões do templo. O meu reino não é deste mundo. Eu sou a verdade e a luz. Nada me pára. E vejo-os preocupados com as coisinhas deles, com as pequenas coisas dos homens pequenos, com a mercearia, com o mercadejar com o poder e os padrecas. Eles vão chamar-me. Vão chamar-me não tarda nada. E todos esses palradores de merda. Agora enfrento-os com a espada. O mundo é meu. O mundo é nosso, G. Cidades arderão. Capitalistas serão decapitados. No mercy. Um novo mundo nascerá.

DIVINOS

É o cultivar do espírito que nos torna sábios, não a experiência. Há os seres do mundo da luz e os seres do mundo das trevas. Os do mundo da luz movem-se sem cadeias nem grilhetas, segundo diz Henry Miller.

Quando o ser humano alcançar todos os seus poderes será divino. Quando se converter no deus que é será livre. Só existe uma coisa: o espírito. O espírito responde ao espírito. O resto é conversa. Nem sequer é preciso praticar quaisquer exercícios físicos ou espirituais. Devemos ser inteiros, completos, santos. Daí que todas as sombras que nos impingem não passem de ilusões. Nós somos mais fortes, mais poderosos. Que importância tem um Trump se eu posso ser divino? Que importância têm esses personagens que desfilam nos ecrãs? Sombras. Meras sombras. Nós somos superiores, nós somos da luz de Platão. Deixemo-los a rastejar como vermes. O espírito é nosso. O mundo é nosso.

A GLÓRIA DO AMOR

O mundo inteiro nunca parou simultaneamente para escutar palavras de sabedoria. Se isso acontecesse a resposta seria a palavra "amor", segundo Henry Miller. Se essa palavra fosse apreendida, o mundo instantaneamente transformar-se-ia. "Quem poderia resistir se o amor se tornasse a ordem do dia?" Quem ambicionaria o poder ou o dinheiro se fosse iluminado pela glória do amor?

Os homens dos tempos antigos conheciam os deuses. Nós não estamos preparados para isso. Estamos castrados, isolados. Somos escravos uns dos outros. Ainda de acordo com Miller, no momento em que efectivamente desejarmos a liberdade, seremos livres. Agora somos máquinas, ávidas de poder e de dinheiro, vítimas desses elementos. "No dia em que aprendermos a exprimir amor, conheceremos o amor e teremos amor". O mal é uma criação da nossa mente. Só existe como ameaça ao reino eterno do amor. Há homens que têm visões de uma humanidade liberta. Visões dos deuses que, em tempos, foram.

Como disse Lawrence: "Para o homem, a imensa maravilha é estar vivo". Tornemo-nos inteiramente livres, inteiramente vivos.

A BOLA NO CÉREBRO

Esta gente só fala de bola, vive em função da bola. Eu até gosto de futebol mas o futebol não passa de um jogo e, além do mais, quem perde os jogos são os dirigentes e os futebolistas, eu não perco nada. Esta gente parece que não tem outro assunto para falar. Matam-se pelo clube de eleição. E depois vêm aqueles comentaristas imbecis na televisão a toda a hora. Cambada de fanáticos patetas. Fazem lembrar os jihadistas. No lugar do cérebro têm uma bola. A vossa paixão é tédio. Viveis de tédio e alimentais os outros de tédio. Imbecis. Patetas.

Edição 134, Janº 2018

A CRIANÇA SÁBIA

Aborreço-me, sabes. Aborreço-me da banalidade das conversas, da monotonia dos temas. Vá lá que tenho subido ao palco, que me tenho passado para o lado de lá, que tenho incendiado. A verdade é que a maioria das pessoas me aborrece, não segue a minha estrela, se é que segue alguma estrela...

Ao longo da vida, tenho encontrado pessoas muito interessantes, fascinantes mesmo, com quem dá um gozo imenso trocar ideias mas essas pessoas não estão sempre presentes, algumas até já partiram. A verdade é que o que conta realmente na vida é o gozo, a criação, o amor, a amizade, a sabedoria, a espiritualidade, não são as riquezas materiais. Daí que seja ridícula a corrida em que a grande maioria das pessoas estão envolvidas, a corrida dos macacos que trepam uns para cima dos outros em busca do dinheiro, do poder, do estatuto. Matam-se uns aos outros em guerras inúteis, em jogos de futebol que, ao fim e ao cabo, não têm importância nenhuma. Importa, por isso, atirar de vez a bola fora, abandonar o jogo, brincar pelo simples gozo de brincar como as crianças, como a criança sábia.

O POETA É DO UNIVERSO

A olhar para ti, S. Sinto-me na paz e na concórdia. É uma bênção contemplar as mulheres belas, desejá-las, conversar com elas. Em vez de estar no outro bar a observar imbecis agarrados ao computador e aos ecrãs da vida. A tua calma pacifica-me, cura-me a alma. És doce, terna. E eu sou o tal poeta de Braga, ébrio, à solta, que quer desesperadamente que algo aconteça. Porque não suporta a pasmaceira. Porque quer a mulher bela. Cada vez mais se identifica com o Jim Morrison e com outros loucos divinos, Não suporta o tédio dos dias. Quer atravessar para o outro lado. Por isso bebe, droga-se. E a música é a sua amiga íntima. Há patetas que o desafiam, que o põem em causa. Contudo, ele segue o seu caminho. Aprendeu com Zaratustra. Agora beberia toda a noite. Mas o cacau não chega, Há noites assim. Agora é assim. O poeta, às vezes, até tem cacau. E quer a menina. Continua a escrever como um possesso. Como Blake, como Rimbaud, como Pessoa. Não há limites. O poeta é doido. Escreve na tasca, Vai sair mais um poema para os netos. Sofia, traz mais uma! O poeta cansou-se de gunas, de merdosos, de polícias. Agora reina. Produz Arte. É o mais espontâneo dos poetas. Vai tudo à pincelada. Dali. Picasso. Bosch. Breton. Tzara. O poeta é dadá, surrealista. Não tem casa. E bebe. Bebe. Mama. Mama. Foge do racional. De Sócrares, de Platão, de Descartes, mesmo que os ame. O poeta é das Sereias, das Tequillas e da Mana Calórica. O poeta não cabe aqui. É do universo, do Big Bang. Explode em mil pedaços. Rebenta. Forma um uno com a caneta. E esses? E esses? Quem são? Escrevinhadores? Filhos de Deus e do Cão? Alguns, sim, ainda procuram. Outros, a grande maioria, são lixo. Lixo. Merda. Lixo. Meras cópias de cópias. Comércio. Compra e venda. Políticos imbecis, no fundo. Comerciantes. Carniceiros. Merceeiros. Economistas. Que raça de atrasados mentais, como dizia o meu pai. Nem pensar sabem. Nem usar o cérebro sabem. E aquelas gajas vão atrás deles! Nem todas. Não exageremos. Muitas começam a compreender. Mas são séculos, milénios. Sexo. Dominação de parte a parte. Sedução. Poder. Dinheiro. Estatuto. É preciso um grito. Um grito maldito que rompa com tudo isto. Que rebente com tudo isto. Que acorde as mulheres. Não para o feminismo. Mas para a Fêmea Eterna, que tem sido espezinhada ao longo dos séculos. Vamos dançar, S. O mundo começa agora. Não há limites. Não há fronteiras. Só tambores e fogo. Dança. Dança. Dança. As Bacantes e Dioniso. A guitarra de Hendrix. O ritual. O blues. O Carnaval. Vamos conquistar o mundo agora. Agora mesmo. Não há desculpas. Não há meias-medidas. Jim Morrison. O grito animal. É preciso acordar estes mortos. Jesus, olha a luz. Dança, dança. Fornica a Madalena. Terás muitos filhos. Jim. Vamos até ao fim. Ritmo. Rock n' Roll. Estes gajos não acordam. Andam entretidos com politiquices. Desconhecem o Uno Primordial. Por um lado, ainda bem...eh, eh...

A REVOLUÇÃO

No café da Vera ouço a Vera e ouço os operários. Agora compreendo melhor os operários mas entendo que a classe operária é uma classe em decadência, já nada tem de revolucionário, como dizia Marcuse. Apenas luta por reivindicações salariais e sectoriais. Não se quer educar como no tempo de Marx, como no tempo de Lenine, como nos anos 60. Só podemos contar com alguns. De resto, os grandes revolucionários continuam a sair da burguesia e da pequena burguesia instruída. De resto, anda tudo enfeitiçado pelo deus-dinheiro e pela ilusão dos euromilhões. Claro que, por outro lado, não vale a pena um homem andar-se a matar. As loucuras do Trump, do Putin, do palhaço da Coreia do Norte, dos terroristas de Alá, da extrema-direita, as alterações climáticas, o Big Brother dos media, a loucura tecnológica, a corrida desenfreada pelo lugar, pelo emprego, pela carreira, a luta pela vida, tudo isso, mais tarde ou mais cedo, levará necessariamente ao caos, à revolução. Não tenho dúvidas. A revolução e o apocalipse estão próximos.

CHE

Regresso ao café da Vera. Estou leve, bem-disposto. Mais um artigo no JN. O sr. Alberto reflecte. Um outro homem lê o jornal. As mulheres dão à língua. O trabalho. O trabalhinho. Também eu trabalho. Mas na escrita. Tenho uma vantagem. Faço o que quero. Não tenho chefes a dar-me ordens. Ouço imbecis na TV, na CMTV. Pão-Nosso de cada dia. Vá lá que ontem lembraram o Che. A revolução está viva e bem viva. Tremei, burgueses. Tremei, macacos. Tremei, capitalistas. A hora está a chegar. Apocalipse Now. Marlon Brando. Jim Morrison. Bakunine. Destruir para construir.

Pronto, agora toda a gente publica poemas. Toda a gente vai à televisão mostrar os seus poemas de merda. Prefiro continuar no underground, apesar de agora ser uma estrela. Sinto-me como Charles Bukowski. Dispenso a PC. Já não preciso dela para nada. Nem de buracos sem luz. Nem de nada. Reclamo o trono. De D. João I. Exijo o mundo. O mundo é meu, todo meu, Gotucha. Não, não deliro, estou perfeitamente lúcido. Mais lúcido do que nunca. Os meus guerrilheiros protegem-me.

UM JESUS QUE RI

E agora, quem sou? Regressei, depois da Odisseia, depois da grande Demanda. Ulisses regressa a Ítaca, à casa da Mãe. Ontem era o vento, o frio, a chuva, os demónios, os gigantes, as sereias, os fantasmas. Mas também a luz de Jesus. Um Jesus que ri. Um deus alegre que ri, como defendia Nietzsche. Ir do céu ao inferno numa só manhã, numa só noite, como Rimbaud, como Baudelaire. Lembro-me de ti, Henrique, meu bom amigo. E agora tenho sono outra vez depois de uma directa. Dormir, dormir, dormir...esquecer...sonhar talvez...amanhã, outro dia.

A PÓVOA, SÓCRATES, PLATÃO, NIETZSCHE E JESUS

Póvoa, 30 de Dezembro de 2017. "Torreões". Estive com o Francisco Gonçalves a preparar a apresentação do livro na Biblioteca de Vila do Conde. Agora, sim, tenho a sensação de que as pessoas olham para mim, tenho a sensação de ser uma estrela. Mas hoje, na Póvoa, nem por isso me sinto vaidoso, nem por isso me sinto superior. O ouvido continua a dar sinais. A cerveja sobre a mesa. Amanhã é a passagem de ano. Em princípio vou a Braga. Hoje quero ouvir o Arnaldo de Matos, o Grande Educador da Classe Operária. As feridas estão saradas, embora MRPP, nunca mais. As pessoas têm compras, horários e eu não. Felizmente, estou-me a dar melhor com os meus irmãos. Cuidado, Pedro, que te pode dar o treco. Já tens exemplos que te cheguem. E já estás quase nos 50. És poeta, escritor, toda a gente o reconhece. Isso não constitui novidade nenhuma. Estás na Póvoa. Na tua Póvoa. Os teus pais conheceram-se aqui, no Casino. Talvez por isso ames tanto a cidade. E não paras de escrever. Há pouco mal conseguias pegar na caneta, emocionado. E depois falam do Ronaldo e de outros imbecis. Nossa Senhora, Pedro, as passas que tu passaste. Ai, bate, coração. As vezes que tiveste que ouvir calado. As vezes que tiveste que suportar. A cambada de hipócritas, patetas e imbecis. Agora as tuas palavras são facas. Matam. Ferem. Consegues ser mesmo cruel. Contudo, o Amor ainda brota dentro de ti. Agora nada tens a recear. Só a morte, só a doença. Os teus olhos brilham. Não vão em futebóis. Não bebas demais, Pedro. Não morras cedo como o Jim. Ainda tens que deixar descendência. Não és daqui. És absolutamente divino. Como Sócrates, como Platão, como Nietzsche, como Jesus. E bebes. E continuas a beber. Não tens cura. Tens de parar. És inteligente o suficiente. Como o AMR. Sempre o AMR. Até vês nas miúdas o Robert Plant. Uh, baby, babe, I wanna give you my love! És louco, como a outra diz. É uma tapadinha, coitada. Não pertence à tua tribo de gajas fixes. Não é como a Gotucha. No fundo, às vezes fazes-te de louco: "Once I had a little game/ this little game is fun to do/ this game is called to go insane", Jim, sempre o Jim. Pronto, agora bebes uma água das pedras e está resolvido. A água das pedras tem-te resolvido os problemas. E ainda dizem que não trabalhas, que não te esforças para nada...que vontade de rir! Ah! Que vontade de rir! Camelos! Idiotas! Ponto final.

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Edição 133, Dezº 2017

O POETA E JESUS

É, de novo, madrugada. O poeta arde. Não sabe se é Jesus ou se está em Jesus. Não sabe se o que está a viver é o princípio de uma alucinação ou se é algo mais, capaz de unir os povos da Terra. Tal como Jesus, o poeta quer derrubar os banqueiros e os mercados mas hesita quanto ao uso da violência. Vê as montras partidas em Paris, Roma, Atenas e acredita que a revolução passa por aí. Também Jesus apelou à espada. Também Jesus era provocador e insolente: "No mundo tereis aflições, mas tende confiança! Eu venci o mundo", disse. Venceremos o mundo, derrubaremos o poder. Companheiros, companheiras. Aproxima-se a hora. Contudo, o poeta ainda tem dúvidas. Teme a barbárie pura. Deseja o amor entre os homens mas odeia os governantes, os mercadores, os banqueiros. Quer um mundo novo e um homem novo despidos da moeda e da mercearia.

É, de novo, madrugada. O poeta arde. Não sabe se é Jesus ou filho de Jesus. A mente e o coração expandem-se. O poeta sente que está a iniciar uma nova vida. Uma vida de entrega ao próximo e ao longínquo, sem caridadezinhas. 0 poeta sabe que, sendo naturalmente irresponsável, tem responsabilidades. Como Nietzsche, cria, dança em redor da sabedoria. As suas palavras vão chegar mais longe. Sabe-o. Os próximos dias poderão ser decisivos. O poeta chegou onde queria. Não haverá mais escritos menores, gratuitos. O poeta é de graça e é da Graça. Canta, ri. O mundo está a seus pés, tal como as mulheres mais belas. Se bem que seja necessária alguma prudência com as mulheres. Mas o poeta começa a conhecer as mulheres. Já não é o rapaz ingénuo dos 18 anos. As ideias vêm. O cérebro quase rebenta. O poeta quer construir um mundo novo. Acredita. É isso que o distingue dos outros. Hesita entre a paz e a espada. Sabe que a morte espreita. Contudo, vai continuar. É para isso que veio ao mundo. Vai ao fundo do ser. Vive. É. Está a chegar a hora, companheiros, companheiras. Chegou o tempo de cerrar fileiras. O poeta sabe que a manhã virá. E com ela a luz. Mas também a vida da rotina. Talvez ainda não amanhã, domingo. Mas segunda-feira. O poeta escreve e os homens dormem. Já não é Natal. O poeta nasceu outra vez. Vai pregar na praça. Vai sujeitar-se ao desprezo dos homens e das mulheres. Mas vai chegar a muita gente. Dentro e fora dos livros. O poeta é aquele que quer ser. Pensa na amada. Os galos cantam. Pedro não o nega. Está a escrever verdadeiramente como os mestres. É aqui que queria chegar. Ou melhor, esta é uma das etapas do processo. O poeta já quase não sente medo. Prossegue. Escreve madrugada fora. Está na casa da mãe e dos irmãos. Consulta o Evangelho de João. Vive. Chama o pai. Ele ouve-o. A voz do pai ecoa na sua mente. Está em paz. Há outra vida na mente. Uma vida sem economistas nem conta-corrente.

HOMEM LIVRE

Penso que hoje poderia passar dia e noite a escrever. Posso até gerar estrelas de tal forma me sinto grávido. Posso também ouvir os meus semelhantes que se queixam e estão mortos por chegar a casa. Chegar a casa. Chegar a casa, ligar a TV e olhar para as imagens, as imagens que vivem por nós em vez das imagens que podemos gerar, de tudo o que podemos gerar. Ó senhores, que “vida” levais? Sois escravos, todos vós. Ainda não percebestes que nada está acima da vida, da vida autêntica. Seres de luz vêm ter comigo e dizem-mo. Para alcançar a glória basto-me a mim mesmo. Para alcançar a glória basta-me estar aqui nesta confeitaria de Vilar do Pinheiro. Peregrinações virão a Vilar do Pinheiro. Ah! Ah! Ah! Ah! Ah! Estou louco. Não vedes? Absolutamente louco, absolutamente criança, absolutamente sem limites. O que fazer mais hoje? O que fazer mais aqui? Danço com o super-homem. Brindo, celebro. Estou louco, mãe. Porque me trouxeste para aqui? Parecia que vinha para a vida regrada mas não vim. Aos 17/18, aos 19, aos 20, tornei-me outro. Em Braga, nos bares, na Rádio Clube do Minho. Os Doors, os Joy Division, os UHF. A TV sempre a martelar. Mas eu era diferente, tornei-me diferente. Ah! Não me atirem dívidas, contas, economistas! Eu estou para lá. Eu nasci para lá. Reinos esplendorosos, reinos de luz. Sou tão louco, mãe. Eu inventava jogos, personagens. Eu criei mundos. Eu naveguei por mares jamais navegados. Eu brincava com as meninas. Tinha uma namorada, a Gina. Dava-lhe a mão, dava-lhe beijos. Já nem sei quem sou, mãe. Sei que não pertenço a este mundo. Poucos e poucas realmente me compreenderam. Velhos amigos, à noite, no bar. Onde irei dar? Estou realmente próximo de atingir o que quero. Mas que quero eu senão o mundo? O mundo de aquém e o de além.

Homem livre, és verdadeiramente tu. Homem livre, porque adormeces e agora regressas à vida? Homem livre, eles realmente acham-te estranho, diferente deles. Não és da mesma tribo, talvez até nem sejas da mesma espécie. Não lutas na mesma guerra. Não são teus os tambores que ouves. Homem livre, és daqui e não és. Tanto podes ser rei como podes acabar nas ruas. Continuarás o teu percurso pelos bares e pelas tascas. Este é o teu tempo. Olha, a mulher da confeitaria olhou para o “Socialismo Científico” de Marx, Engels e Lenine que acabaste de ler hoje. Há livros que ainda podem ser explosivos. Tu és explosivo, homem livre. Com ou sem óculos. Poderias realmente passar o dia e a noite a escrever. Voltaste a ser o único cliente da confeitaria. A mulher não pára de trabalhar. Tens publicado textos falhados ou semi-falhados. Este não é um deles.

JERUSALÉM

Jerusalém. Minha Jerusalém. A ferro e fogo. Por causa do macaco do Trump. Os filhos de Maomé têm razão. Desta vez têm razão. Amor com amor se paga. Desta vez trago a espada. Jerusalém. Jerusalém. Onde fui crucificado. Jerusalém. Jerusalém. Quero a tua Melania. Macaco maldito, acendeste o fogo. Agora não te salvas. No fundo, aceleras o apocalipse. Jogas o nosso jogo. Jesus, save us. Jim, sempre o Jim. Nietzsche, sempre Nietzsche. Sempre Zaratustra. Deuses que dançam. Demónios que se soltam. Vem aí o Juízo Final. Acabou a vossa era, ó ponderados, ó comentaristas. Do caos nascerá a nova Terra. Jerusálem, ó Jerusálem. Onde bebi do Graal. Onde Jesus expulsou os vendilhões, vendilhões que eu expulso agora. Olha a bela Rita. Está aqui hoje. Nem dava por ela. Mas hoje estou em Jerusalém como se estivesse em Braga. Contigo, Goreti. Acima de todas. Sou Hamlet, Quixote, Artur de Camelot. Ao raiar da aurora entraremos na terra prometida. Desfilaremos entre os anjos sobre o tapete celestial. Ah, tanto medo, tanto pânico, tanta imbecilidade. Reclamo o trono. Fora com o Marcelo, o beijoqueiro. Caos. Desordem. Bandeiras americanas queimadas. O jogo. A vida. A vida em jogo. O menino. O Super-Homem. O bailarino. Nada a temer. Tudo a ganhar. Danço sobre o abismo. Como me rio de vós, versejadores da corte. Como vos gozo, escritores oficiais. Como reino. Como reino de uma vez por todas.

PARA A ETERNIDADE

É impressionante. Há pessoas que têm uma mentalidade exclusivamente comercialista. É evidente que conheço comerciantes que são óptimas pessoas, de bom coração, generosas. Mas há realmente pessoas mesquinhas, más, sem salvação. Do muito que vivi até hoje em Braga, no Porto, na Trofa, em Vilar do Pinheiro, em Lisboa, na Póvoa, em Vila do Conde, etc das patadas que levei mas também das festas, dos abraços, dos amores, da Luz que vi condeno esses macacos, os grandes e os pequenos. No fundo, sou um gajo porreiro, um tipo sincero, mas aprendi a ser sacana, nem que seja 2000 anos depois. Por isso trago a paz mas também a espada. Já fui candidato a vários cargos. Só fui eleito no JUP e na Faculdade de Letras. De resto, ainda bem que não fui eleito. Seria como o Fidel, que admiro. Mas não sou comunista. Sou anarquista. Bakuninista. Quero demolir o Poder. Contudo, para tal, paradoxalmente, preciso de poder. E não chega o Poder da Palavra. Mas, hoje, 4 de dezembro de 2017, sinto poderes. Estranhos poderes. Um misto de amor e ódio, de céu e inferno. E ainda é cedo. Muito cedo. Estamos no princípio do mundo. No Princípio do Mundo. AH!AH! Danço contigo, Goreti, no Deslize, no Juno, no V5. Danço contigo, Zaratustra. E bebo. Porque não tenho travões, porque sou louco, o mais louco dos poetas. E danço. E canto. E sou alegre como tu, Nietzsche, como tu, Walt Whitman. E estou na estrada larga. E estou com os meus amigos e amigas. E celebro. E sou Dionisos com as bacantes. E ainda é cedo. Muito cedo. Tenho muito tempo. Eternidades. Pai. Mãe. Nasço hoje. Outra vez.

CAPITALISMO E MISÉRIA

O número de pessoas assistidas por IPSS que estiveram "uma vez ou outra" sem comer durante um dia inteiro aumentou de 18% para 26% entre os anos 2014 e 2016. Dos 1466 inquiridos, 46% admitiram que "às vezes" não têm dinheiro para comida até ao fim do mês, revelou um estudo da Universidade Católica.

A Universidade Católica revela ainda que duas em que cada três famílias apoiadas por instituições de solidariedade social têm rendimentos mensais líquidos inferiores a 500 euros, sendo que o desemprego está presente em 47% dos agregados.

Em cerca de metade das famílias, a pessoa que mais contribui financeiramente não tem instrução ou tem apenas o primeiro ciclo do Ensino Básico, e somente 5% possuem um grau superior.

Ou seja, depois da austeridade fascista de Passos Coelho, e apesar das melhorias introduzidas pelo governo PS, apoiado pelo PCP e pelo BE, o capitalismo mantém-se bem vivo em Portugal. As situações de pobreza, miséria e sem-abrigo são gritantes enquanto os filhos dos Amorins e dos Belmiros nadam em milhões, enquanto os políticos corruptos sobem e enchem os bolsos, enquanto o homem médio compete pelo dinheiro, pelo lugar, pelo estatuto.

BATEDORES DE PALMAS

Os homens dão sobretudo importância à sua própria conservação e à propagação da espécie. Só, em última instância, valorizam os artistas, os filósofos e os poetas. E, ainda mais nesta era tecnológica, nesta era de luta implacável pela sobrevivência, os valores do bem, do belo e da justiça são relegados para segundo plano. O amor de Jesus e Sócrates, a liberdade de Jim Morrison e Rimbaud, a revolução de Bakunine e Che Guevara, tudo isso é maldito para os controleiros do mercado e da finança, tudo isso é perigoso para os carneiros da TV, dos smartphones, do futebol e da família. Daí que nos queiram apartados uns dos outros, solitários, deprimidos, à distância do facebook, com conversas banais, repetitivas, com os pequenos e os grandes castradores dia após dia, com as cobras venenosas, com os abutres e os padrecas, com todos os inimigos da vida e o grande parque de diversões, o grande circo, a sociedade-espectáculo. Daí que nos queiram destruir, fazer a cabeça, com ilusões, com vedetas, com contos de fadas, escritores actuais inclusive, de modo a que fiquemos cada vez mais patetas, mais espectadores, mais batedores de palmas.

Edição 132 Nov.º 2017

ASSIM A VIDA NÃO É VIDA

No Ocidente e em grande parte do mundo os rapazes e as raparigas são encaminhados para o mercado e para o consumo em massa. Daí as comunicações em massa, a publicidade em massa, os estupefacientes em massa, sob a forma de televisão, internet, telemóveis ou "pensamentos positivos". Glorifica-se a competição, a luta pela vida. Os jovens não são encorajados para cooperarem, para se realizarem, para se transformarem em seres humanos plenamente desenvolvidos. Daí que tenhamos uma sociedade amputada, cheia de gente doente, com depressões, doença bipolar, esquizofrenia. E mesmo os aparentemente sãos só o são de fachada. Daí que mesmo que continuemos a investigar a mente humana e o sentido da vida, continuemos sujeitos a um punhado de macacos que só se interessam por acumular cada vez mais poder e dinheiro. Ainda assim prosseguimos. Com Jesus, com Aldous Huxley, com o padre Mário de Oliveira, a trilhar o caminho do humano, do amor, da liberdade. Porque a vida assim não é Vida.

O poeta na confeitaria pensa

O poeta na confeitaria. Ouve a Fátima Lopes. Escreve. Pensa. Pensa na figura imbecil da Fátima Lopes, apesar da beleza. Pensa acerca das limitações daqueles que o cercam, na cultura cega da obediência. Pensa na publicidade imbecil e venenosa. Pensa na Revolução Russa. Nos grandes avanços e no terror, na tragédia. Pensa no que fazemos aqui. Num homem melhor, num homem novo. Pensa na infância, na adolescência, no ponto de viragem, no questionar, enquanto muitos outros se deixaram levar na enxurrada. Pensa que só vale a pena estarmos aqui se formos vontade, liberdade, amor, criação, gozo, sabedoria. Pensa que muitos são limitados. Pensa que deve ser mais duro. Pensa que não deve escutar mais os macacos e os imbecis. Pensa que chegou a hora de fazer a síntese.

COMO LUIZ PACHECO

Tenho as minhas afinidades com Luiz Pacheco. Sou um poeta maldito, tenho problemas com o álcool, já dormi em bancos de jardim. Sou mais burguês, é certo. No entanto, também conquistei a liberdade e abandonei os empregos certos. O padre Mário de Oliveira publica-me no "Fraternizar", publico livros, canto numa banda, recito poemas. Sou diferente desta gente que me rodeia. Não faço parte de rebanhos nem sirvo o capital. Acredito que a grande revolução está próxima. Até porque isto está a ficar em cacos mesmo que esta gente não dê por nada.

REALMENTE HUMANOS

Quanto mais avanço mais me vejo rodeado de futilidades, imbecilidades e crueldades. Quanto mais leio os mestres mais me apercebo que grande parte da existência humana é desperdiçada. Vivemos como ratos, como ratazanas. Só alguns de nós verdadeiramente conseguem elevar-se, atingir a luz, a iluminação. A mera sobrevivência- trabalho, dinheiro, família- é absolutamente podre e pobre. Não é liberdade, é escravatura. Só quando soltamos o desejo, a criação, o amor e a busca da sabedoria, só quando nos sentimos efectivamente livres é que somos realmente humanos, homo sapiens-demens. Tudo o resto são prisões, convenções, religiões. Daí que não possamos aceitar qualquer tipo de poder ou dominação. Daí que nos devamos entregar a 100% ao estudo, ao gozo e à Vida, explorando toda a maravilha e todos os fantasmas interiores, sem qualquer tipo de preconceitos. A vida deve ser um experimento permanente, já dizia Nietzsche. Olhemos nos olhos, falemos com o desconhecido, façamos a descoberta permanente, o banquete permanente. Cresçamos a cada instante, como a natureza. Regressemos à origem, à essência, sem grande necessidade de novas tecnologias. Sejamos simples e sinceros. Amemos. Sem hipocrisias. Em Sócrates, em Jesus, em Che Guevara. Sigamos a estrela. Não digamos mais "até amanhã!". Façamos da vida um dia único, uma noite única. Sem televisões. Sem polícias. Acabemos com a farsa.

COMO LUIZ PACHECO

Tenho as minhas afinidades com Luiz Pacheco. Sou um poeta maldito, tenho problemas com o álcool, já dormi em bancos de jardim. Sou mais burguês, é certo. No entanto, também conquistei a liberdade e abandonei os empregos certos. O padre Mário de Oliveira publica-me no "Fraternizar", publico livros, canto numa banda, recito poemas. Sou diferente desta gente que me rodeia. Não faço parte de rebanhos nem sirvo o capital. Acredito que a grande revolução está próxima. Até porque isto está a ficar em cacos mesmo que esta gente não dê por nada.

Edição 131 Out.º 2017

A REVOLUÇÃO PERMANENTE

Em Braga, de novo. No "Arte", mesmo ao lado do liceu Alberto Sampaio. É sempre bom regressar a Braga, regressar à Gotucha. Aqui até parece que não há relógios. Alimento sempre o desejo de vir viver para cá. Não que as imagens não continuem a passar. Não que tudo seja perfeito. Mas Braga é sempre Braga. A minha cidade. Fiz o meu 12º ano aqui no Alberto Sampaio com notas brilhantes. O pior, em termos escolares, veio depois: a Faculdade de Economia do Porto, a solidão, a depressão. No entanto, ao mesmo tempo, aqui em Braga eu descobria a noite e a vida. Deixei de ser o menino de sua mãe. Tornei-me o puto provocador. Mais tarde, o poeta maldito. Não me dou com toda a gente nem sequer especialmente com os pobres e com a classe operária. Aí divirjo do Che Guevara. Contudo, defendo o internacionalismo e a revolução permanente. Admiro Fidel, Hugo Chávez, Evo Morales, Pepe Mujica. Sou declaradamente anti-imperialista. Condeno todas as guerras e invasões yankees. Em último caso, defendo a luta armada. Sou também de Bakunine, de Netchaiev, do destruir para construir. O tédio da vida normal aborrece-me. Ainda bem que, neste momento, em Portugal e no mundo se vive uma situação explosiva. O PS dependente do PCP. O PCP a lançar as suas hostes sindicais para as ruas. O Costa a perder peso. Os incêndios, as alterações climáticas. A situação é favorável aos anti-capitalistas. Enquanto estes imbecis pastam e contam anedotas, nós podemos avançar. Enquanto estes imbecis se entretêm com as suas vidinhas, nós discutimos e preparamos a revolução. Graças às alterações climáticas, às catástrofes naturais, a situação vai mudar nos próximos 10, 20, 30 anos, necessariamente. Tremei, merceeiros. Tremei, cabrões capitalistas.

O GRUPO BILDERBERG

O Grupo Bilderberg integra uma série de políticos, banqueiros, empresários, patrões dos media que controlam a grande maioria dos governos do mundo. O seu objectivo é constituir um governo mundial onde os cidadãos perdem todo o direito de decisão, inclusivamente o próprio direito ao voto. Controle dos media, levar as pessoas a trabalhar e a não pensar contemplando imagens imbecis é outro dos fins a atingir. Dominar completamente o sector financeiro, cujos lucros ficam nas mãos dos membros do grupo, eis outra das consequências. Fomentar e financiar guerras, é outro dos sinistros objectivos desses execráveis chacais. Cabe-nos a nós tomar consciência de que estamos a ser alienados a cada momento. Cabe-nos a nós a revolta.

OS INCÊNDIOS E O NOSSO FUTURO

Incêndios, furacões, tsunamis, dilúvios. São as alterações climáticas. Até agora o homem tem posto o crescimento económico, o império da pilhagem, do dinheiro e da finança acima de tudo. A Mãe-Natureza revolta-se. Se nada se fizer, nos próximos 10, 20 anos a Terra será dominada pelo terror, pelo medo do inferno. A Humanidade está em perigo. De uma vez por todas, derrubemos os cães do capitalismo, os moedeiros, os mercadores. De uma vez por todas, se queremos ter futuro.

O TRIUNFO DO BEM

De acordo com Freud, existe em nós a barbárie, o instinto elementar da destruição. Porém, paralelamente, existe a tendência para o bem, para o amor, para a bondade. A questão é fazer com que esse instinto benigno triunfe, a questão é seguir, entre outras, as palavras de Sócrates e Jesus. Esse caminho implica sabedoria, virtude e criação. A sociedade mercantil empurra-nos para a guerra, para a inveja, para a competição. Urge superá-la.

SALVEMOS A HUMANIDADE

Sismos, tsunamis, furacões. São as alterações climáticas. Se nada se fizer, nos próximos 10, 20 anos as tragédias naturais vão multiplicar-se. A natureza revolta-se. Os homens e os animais estão em perigo. Trump, o palhaço fascista, recusa-se a assinar o Acordo do Clima. Repito: se nada se fizer, será o caos, Se não for para nós, será para os nossos filhos e netos, Homens e mulheres de boa-vontade, unamo-nos. Tiremos esses imbecis, esses inimigos da vida, do poder. O mundo é nosso. A Terra é nossa. Salvemos a Humanidade, salvemos a Terra.

Edição 130 Setembro 2017

A PALHAÇADA DAS ELEIÇÕES

Abomino esses políticos engravatados que se vendem como putas nas campanhas eleitorais. Salvo raras excepções, não vejo nada de novo na pose direitinha, no discurso mais ou menos inflamado, nas promessas de sempre. E depois só ouço falar de economia, como se só o dinheiro interessasse, como se não fosse necessário amor, fraternidade, liberdade, verdade, virtude, justiça. Apoio o Bloco de Esquerda. Tenho lá alguns bons amigos, com boas propostas. No entanto, no geral, começo a achar as campanhas uma palhaçada. Gente a auto-promover-se, a fazer pela vidinha, a subir para o poleiro. E sobretudo imbecis a repetir-se. A repetir mensagens, slogans e cartazes. Pão e circo. Sobretudo circo. Pouca coisa há de elevado, de poético, de filosófico. Mélenchon, nas presidenciais francesas, ainda falou da democracia ateniense, dos tribunos, de Sólon e Péricles. Agora pouco resta. Parece que se engole tudo. Ou então há o chico-esperto que tem a mania mas que, no fundo, só saca umas migalhas. Somos uns poucos. De resto, é o império que controla.

Campanha para as eleições autárquicas

Mesmo que me façam críticas negativas, sei que sou um bom escritor, um poeta maldito. Construí uma obra e agora ninguém me afasta dela. Queria era uma mulher bela e inteligente. Não uma atrofiada. Agora, de facto, dediquei-me à obra de corpo e alma. E falo lucidamente em público sem precisar de álcool, só a águas. Porém, sei que tenho estado do lado dionisíaco, da embriaguez, da vida pela vida, da festa. Sei que tenho estado contra o sistema. Por isso me declaro revolucionário, anarquista, não reformista, não economicista. Não me revejo em grande parte do que se diz na campanha para as eleições autárquicas. Acho que se deveria ir aos problemas globais, às doenças que afectam a humanidade. E não ficar em casos e casinhos. Eu sei que questiono. Eu sei que poucos questionam. Eu sei que há atrofiados que me perseguem. Eu sei que há arrogantes que não me querem ouvir. Eu sei que há atrasados mentais. Eu sei que há o dinheiro. Eu sei que as pessoas normalmente só falam em trivialidades. Eu sei que está tudo demasiado ocupado para filosofar. Eu sei que é difícil.

ROUBARAM-NOS O PARAÍSO

Leio livros. Leio muitos livros. Busco a sabedoria. No geral, considero ridícula a vida que grande parte das pessoas levam. A pré-determinação da vida antes do nascimento, a destruição da infância, da adolescência e da juventude às mãos da moral, da religião, do mercado, do dinheiro, do trabalho. Tudo isso torna a vida uma prisão. Apesar da minha solidão, e graças a várias influências, libertei-me dessas amarras. Mas não há dúvida de que a vida burguesa é absurda. E o Bloco de Esquerda e outros não vêem ou não querem ver isso. Vivemos num absurdo desde antes do nascimento. Um absurdo que nos foi imposto por deuses, reis, padres, patrões, media, família. Nós tínhamos o direito ao Paraíso! Esse direito foi-nos roubado. Em vez disso uns quantos colocam-nos a competir ferozmente uns contra os outros pelo emprego, pelo dinheiro, pela carreira, pelo poder, pelo sucesso. Eis a grande fraude. Eis a grande mentira. Roubaram-nos o Paraíso.

A HUMANIDADE DOENTE

Cada vez há mais pessoas doentes. Depressão, esquizofrenia, doença bipolar, outras. Esta sociedade tecnológica, em vez de aproximar as pessoas, afasta-as. Os smartphones, o Facebook, etc são inimigos do contacto face a face. Os indivíduos estão cada vez mais isolados ou encerrados em grupos fechados, sem abertura à novidade, à descoberta. Os media, a TV, a Internet provocam a atrofia ou autênticas lavagens ao cérebro. O império do dinheiro e do mercado torna as pessoas hiper-competitivas, mesquinhas, malévolas. A maioria já não aguenta. O consumo de fármacos explode. O ser humano está gravemente doente, caminha para um estado vegetativo.

Edição 129 Junho 2017

DO DINHEIRO

"O dinheiro é a essência genérica alienada do homem."

(Karl Marx, "Manuscrito de 44")

O dinheiro está na base da alienação do homem. O dinheiro destrói o homem. Torna-o ganancioso, mesquinho, vendilhão, merceeiro. O dinheiro destrói as relações humanas. Destrói o amor, destrói a criação, destrói a sensibilidade. É preciso acabar com o dinheiro. O dinheiro e o poder comandam tudo. Controlam as nossas vidas, as nossas mentes. Dividem-nos em ricos e pobres. Em milionários e miseráveis. Em poderosos e escravos. Em servos e senhores. É preciso acabar com o dinheiro. O quanto antes. Se queremos ser realmente livres, realmente felizes. Se queremos que o nosso interior, que a nossa alma se una ao amor, ao outro, ao cosmos. Se queremos nascer de novo. Se somos de Jesus.

A GRANDE REVOLUÇÃO

Tenho que ser mais humilde. Ouvir mais as pessoas. Claro que isso não significa que me venda, nem que renuncie às minhas ideias. Tenho um percurso político, literário e artístico. Isso não quer dizer que tenha que ser sempre coerente. Tenho o direito de dizer e de escrever disparates. No fundo, são provocações. Sou, de certa forma, um político. Mas nunca um político tradicional. Até sei que isto incomoda muito boa gente, mesmo dentro da minha área. Cometi erros e continuo a cometer. Contudo, não me arrependo. De uma maneira geral, fiz o que tinha a fazer. Sou realmente o homem da liberdade. Aprendi com o Nietzsche e com o Jim Morrison e com outros e outras que fui conhecendo ao longo da vida. Hoje, 23 de junho de 2017, noite de São João, tenho a certeza de que a grande revolução está próxima. O capitalismo está descontrolado. Terrorismo contra terrorismo, guerras, crise dos refugiados, alterações climáticas, caos, miséria, grandes desigualdades, esquizofrenia tecnológica, indícios de revolta juvenil, lavagem cerebral. Muita gente vai sofrer mas os donos do império cairão. O novo mundo vai nascer.

A BARBÁRIE E A VIDA COMO DÁDIVA

Apesar de tudo, lúcido, interpreto o mundo. Alterações climáticas, terrorismo contra terrorismo, capitalismo feroz, lavagem ao cérebro. O cenário é negro mas há esperança. Os jovens, ou uma parte dos jovens, começa a compreender que a barbárie não faz sentido. Há uma consciência ecologista. O futuro da Humanidade e do Planeta está em perigo. A selvajaria do dinheiro e do mercado só conduz à escravidão e à alienação na vida, no trabalho e até nos lazeres. A lavagem ao cérebro mediática destrói a nossa capacidade de pensar e de agir. O indivíduo tem de afirmar-se, tem de soltar o seu eu no meio da esquizofrenia tecnológica. Impõe-se a ligação do eu interior ao cosmos, ao outro, ao amor. Urge a recuperação da vida enquanto dádiva, enquanto bênção, enquanto liberdade livre, enquanto amor.

A REVOLUÇÃO DO AMOR E DA POESIA

Eles, sempre os mesmos, têm-nos feito a cabeça ao longo dos séculos. E nós caímos no erro de só falar a linguagem dos números e da economia, esquecendo o amor e a poesia. Antes de mais, somos reis de nós próprios, não precisamos de representantes que tomem decisões por nós. Não podemos admitir que pensem pela nossa cabeça, somos livres de pensar, de opinar, de filosofar. Eles- grandes corporações, banqueiros, políticos influentes, grandes media- querem fundar um governo mundial onde não teremos qualquer capacidade de intervenção, onde seremos escravos e robôs. É através da tomada de consciência em grande escala, da revolução bakuninista, mas também através do amor e da poesia que nos salvaremos a nós próprios e ao planeta. O amor de Jesus une as pessoas e a poesia transforma. Daí nascerá o novo homem.

TRUMP, O NOVO HITLER

Donald Trump concretizou a saída dos EUA do Acordo de Paris, relativo às alterações climáticas, assinado por 195 países. Trump é um louco megalómano como Hitler ou Estaline que põe em causa a sobrevivência da Humanidade e do Planeta. Esse monstro tem que ser derrubado o quanto antes, custe o que custar. Mesmo com o acordo, já por si insuficiente, prevêem-se grandes tragédias naturais para os próximos anos, o que não será sem o acordo? Não. Mobilizemo-nos. Tiremos do poder esse macaco e os seus seguidores. Não há tempo a perder. Em nome da Vida.

A DESTRUIÇÃO DA CRIANÇA

"Qualquer instituição dos nossos tempos, a família, o Estado, os nossos códigos morais, vê em cada personalidade forte, bela e sem compromisso um inimigo mortal; então faz todo o esforço para coagir a emoção e a originalidade do pensamento no indivíduo com um colete de forças desde a mais tenra infância; ou para moldar todos os seres humanos de acordo com um padrão; não numa individualidade integral, mas num escravo paciente do trabalho, um autómato profissional, um cidadão que paga impostos ou um moralista justiceiro", assim falava Emma Goldman já em 1906.

"O ser sensível abomina a ideia de ser tratado como uma simples máquina ou como um mero papagaio do convencional e do respeitável". Perante as imposições da tecnologia, da família, da escola, do mercado, dos media, é quase um milagre a criança ou o adolescente que se lhe segue conservar a força e a pureza iniciais. Só através de ferozes e ardentes batalhas contra a multidão e contra a "opinião pública" a criança e o jovem se emancipam. "O ideal do pedagogo comum não é formar um ser completo, íntegro, original", mas sim, "autómatos de carne e osso (...) que se adequem melhor à esteira da sociedade e ao vazio e monotonia das nossas vidas". Com regras e castrações, com o encaminhamento para o mercado e para o mercado de trabalho se destrói a juventude e a inocência. "Tu deves!", "Tu tens de!", "Isto é certo!", "Aquilo é errado!", assim se castram as sensibilidades e as mentes. Sim, o capitalismo começa aqui. É aqui que se nega a curiosidade, a brincadeira, a liberdade, a autonomia. É aqui que se mata o espírito livre, o próprio amor jesuânico.

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