Textos de A. Pedro Ribeiro

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Edição 146, Março 2019

AS PESSOAS DE BEM E O CAPITALISMO

Não devemos menosprezar as pessoas. Há pessoas de bem, que nos respeitam, que nos querem bem, que nos pedem desculpa. Por isso, cantemos a irmandade com Jesus e Walt Whitman. O que não quer dizer que aceitemos a imbecilidade, a estupidez dos programas televisivos. O problema é que a grande maioria das pessoas se deixa anestesiar pelo deus-dinheiro, pela conversa dos políticos, dos capitalistas e dos seus homens de mão, pelo Big Brother dos media e da internet. Parecem felizes e não fazem perguntas. E depois também há, sempre houve, pessoas mesmo maldosas, vis, mal-intencionadas que passam a vida a tentar lixar o parceiro.

A AMIZADE COMBATE O CAPITALISMO

As relações sociais, na sociedade mercantil, são uma mescla de intrigas, maledicência e inveja. A hipocrisia e a maldade são parte integrante das regras do jogo do mercado e do sucesso.

A amizade combate o capitalismo. Requer que não haja inveja nem avidez. Na amizade não há luta nem competição. O amigo é aquele que te faz justiça. Aquele que está a teu lado nos bons e nos maus momentos. Aquele que dá. Por isso, a sociedade do controlo e da tecnologia tudo faz para afastar as pessoas, para as isolar. Com o Big Brother, com os programas imbecis da TV, com o reino selvagem das redes sociais, com o império do número e da finança. Eles sabem que a amizade, que a camaradagem é perigosa.

AMO A VIDA

Artistas, músicos que se suicidam. Eu continuo aqui, apesar de tudo. Nunca fiz nenhuma tentativa de suicídio, apesar de já ter pensado no suicídio, apesar das grandes depressões. A verdade é que eu, apesar de tudo, apesar da ditadura do mercado e da finança, amo a Vida. Amo a Vida sem castrações, sem opressão. Amo a Vida Livre, autêntica. Mesmo que ache a maior parte das conversas ridículas, patéticas. Mesmo que ache a grande maioria das pessoas controladas, domesticadas. Mesmo que ache que os grandes poderes nos querem destruir e que os médios e os pequenos se guerreiam na arena sem tréguas em busca do emprego, do dinheiro, da carreira. Mesmo que ache que estamos cada vez mais sós e doentes. Sim, amo a Vida que cria, que brilha, que é amor, amizade, que combate a ditadura. Sim, amo a Vida que nasce, que floresce, que se fortalece, que resiste, sem medos.

A SOCIEDADE DOS SUICIDAS

A taxa de suicídio está a aumentar em Portugal, especialmente entre as mulheres e os jovens. Em 2017, foram registados 1061 suicídios, ou seja, mais 80 casos, mais 8% do que no ano anterior. Os dados mais recentes do INE revelam que os homens continuam a responder pela maioria dos óbitos (74%). No entanto, foi nas mulheres que a subida teve mais impacto, com um aumento de 19% para os 274 suicídios (mais 43 casos).

Também se tem verificado um aumento dos suicídios entre os mais jovens. Em 2017, registaram-se 46 casos em pessoas com menos de 24 anos, mais 15 casos do que em 2016. Fausto Amaro, presidente da Sociedade Portuguesa de Suicidologia, afirma que urge um "maior apoio na área da saúde mental dos jovens porque é uma área de grandes riscos, com muita influência das redes sociais".

A sociedade capitalista e tecnológica torna as pessoas depressivas, bipolares e esquizofrénicas. Leva a que as pessoas compitam ferozmente entre si, na luta pela vida. Não são só os poderosos que são vis, os pequenos e os médios também tendem a lixar o parceiro do lado em busca do dinheiro, do poder, do sucesso. E no meio disto tudo fica o vazio, fica o tédio, fica uma vida sem sentido. As pessoas deixam de acreditar no mundo e em si próprias, sofrem. Por isso põem fim à vida. O próprio amor, a verdadeira amizade, a solidariedade, são desencorajadas na sociedade do controlo e do espectáculo. A liberdade é castrada. A vida é negada. Só a grande revolução global nos tirará deste inferno. Só a grande revolução global nos devolverá a celebração e a alegria.

A AMIZADE E A INVEJA

Mesmo nos momentos de divertimento, convívio, nas festas, há jogos de poder. Há sempre alguém que procura afirmar-se, evidenciar-se. As pessoas reúnem-se em grupinhos para falar dos outros e formam-se hierarquias. Esses grupos constituem coligações para combater os adversários e para derrubar os concorrentes, nas palavras de Francesco Alberoni. A maledicência serve para agredir colectivamente o ausente, para o colocar fora de jogo.

A vida quotidiana é dominada pela mesquinhez e pela inveja. A amizade interrompe e transcende a vida quotidiana. O grupo fechado tenta impor à amizade as suas regras. A maledicência, os deveres, a tagarelice, a competição, o mercado, o dinheiro, a conta. No entanto, a amizade é liberdade, é amor, é reciprocidade, é transparência. Sem ela não há vida autêntica.

Edição 145, Fevereiro 2019

O CAOS DO MARKETING

Ai, a ligação entre os bancos e as empresas e as lojas e os projectos...pessoas normais...network marketing...capitalismo. Nada tenho a ver com isso. Sou de outro mundo, apesar das miúdas bonitas. Lindas de morrer. Ah, as transacções, o rendimento a subir, o mercado, as aplicações, o Continente, os cartões, os descontos. A gaja não se cala. É uma máquina de falar. Merda! Já disse. Nada tenho a ver com isso. Sou de outro mundo. Sou poeta. Um poeta dos antigos. Um poeta a valer. Bebo a minha cerveja. Jaime, Zé Né, Paulo Bonito. Estou farto da conversa da gaja. Poupem-me. Dinheiro. Percentagens. Consumidores. Argh! Que asco! Deus meu! 10%. 500 euros. Pontos. Promoções. Menu. Números. Números. Mas não são os teus números, meu pai. Não são os números de Pitágoras. Pai, a gaja põe-me louco. 50 euros às quintas-feiras na conta. Transferências. Não se cala. Jesus, save us! É o caos. A juventude está perdida. É só negócio. Antes beber. Antes ser louco. Antes ser poeta vadio. Valha-me a cerveja. Valha-me Deus. Tanto paleio, tanto paleio e no fundo, no fundo, não passas de uma escrava.

A MORTE DA POESIA

Os homens já não comunicam. A sociedade deixou de ser uma comunidade. Estamos cada vez mais isolados, apesar dos avanços tecnológicos. Provavelmente vamos assistir à morte da poesia. Os discípulos de Rimbaud não são as figuras literárias do nosso tempo, mas sim os obscuros, os eclipsados ou os jovens forçados a reprimir o seu génio.

Só se aspira às luzes da fama. É necessário que alguém reine no silêncio e nas trevas. O lugar das trevas, a zona em que Nietzsche situava os deuses caídos, é tão importante como o mundo da luz. Lembremos os que criam nas sombras.

HELENA

Ontem abri o espírito com a Helena. A Helena ensina-me coisas, dá-me amor, dá-me vida. Empresta-me livros e abre-me novas perspectivas. Com ela saio da máquina e da pobreza das conversas quotidianas, mesmo as de certos artistas. Com ela cresço. Com ela renasço. Ah! Pedro. Ela até afasta de ti desejos de violência e vingança. A Helena traz-me paz, bonança. Procuras com mais afinco a virtude, a sabedoria. O Natal sobre a Terra.

A TRAIÇÃO DO BE

Há muito que tinha avisado que o Bloco de Esquerda tinha deixado de ser um partido revolucionário (ao contrário da UDP e do PSR), tendo-se tornado num grupo fortemente institucionalizado, colado aos poderes, cada vez mais social-democrata, mortinho por se coligar com o PS no governo. Aliás, o discurso é cada vez mais moderado, cada vez mais apenas apenas de "causas" e pouco ou nada ideológico. Não se ouve uma única palavra sobre as grandes doenças da sociedade contemporânea: a luta pela vida, as alterações climáticas, o Big Brother dos media, da internet, das grandes corporações, da alta tecnologia. Já pouco ou nada se fala de capitalismo ou imperialismo. Não se abordam as psicoses, as doenças mentais, a sociedade imbecil e miserável. O socialismo deve ter ficado na gaveta.

A MISSÃO DO POETA

O homem está doente, perdeu a fé no seu semelhante. Vivemos numa sociedade esquizofrénica, governada por loucos, fascistas e burocratas fanáticos pelo Poder, com enormes camadas de miséria e pobreza e competição feroz. A missão do poeta é despertar. O poeta, não enquanto apenas aquele que escreve versos, mas enquanto aquele que é capaz de alterar o mundo. Quantos restam assim? A grande maioria perde-se em conferências, apresentações, prémios, feiras de vaidades. O próprio poeta já não acredita na sua missão divina, profética. O despertar implica conquistar espíritos e derreter corações. Não são versos técnicos e desgarrados que o conseguem.

PARA QUÊ VIR?

As pessoas, as conversas. Não que haja necessariamente maldade. Por vezes até há bondade pura. Mas as conversas repetem-se, sem brilho, sem imaginação. Ao sabor do deus-dinheiro e da luta pela vida. Ou então da intriga, dos mexericos. Para quê vir ao mundo assim? Para sermos robôs ou merceeiros? Tudo guiado pelo interesse ou pela tecnologia sem rosto. Para quê vir se não desenvolvemos as nossas potencialidades criativas e emocionais? Para quê vir se não partilhamos, se não damos amor? Para quê vir se não nos completamos, se, na verdade, nem dialogamos nem comungamos? Para quê vir se tudo é relógio, negócio, lucro, dominação? Para quê vir se não celebramos a arte, a beleza, o êxtase, a loucura? Para quê vir se vivemos presos? Para quê vir se vivemos vigiados? Para quê vir se vivemos apressados? Para quê vir se vivemos a farsa? Para quê vir se não vivemos a liberdade?

A SOCIEDADE DO CONTROLE

Não percebo a maioria das pessoas. Vivem como se nada fosse nesta sociedade do controle e da exploração. São permanentemente vigiadas e controladas desde o nascimento pela família, pela escola, pelos media, pela internet, pelo trabalho, pelo mercado, pelos políticos, pelo capitalismo. Não reagem. Parecem felizes. As suas relações já pouco têm de amor, de liberdade. São, na maior parte dos casos, falsas, hipócritas, interesseiras. Impera a luta pela sobrevivência. Imperam a morte e o tédio. Mas, ainda assim, parecem contentes. Estão alienadas, anestesiadas. Deixam-se comer pela propaganda e pelo Big Brother. Aldous Huxley e George Orwell tinham razão.

PARA QUÊ VIR?

As pessoas, as conversas. Não que haja necessariamente maldade. Por vezes até há bondade pura. Mas as conversas repetem-se, sem brilho, sem imaginação. Ao sabor do deus-dinheiro e da luta pela vida. Ou então da intriga, dos mexericos. Para quê vir ao mundo assim? Para sermos robôs ou merceeiros? Tudo guiado pelo interesse ou pela tecnologia sem rosto. Para quê vir se não desenvolvemos as nossas potencialidades criativas e emocionais? Para quê vir se não partilhamos, se não damos amor? Para quê vir se não nos completamos, se, na verdade, nem dialogamos nem comungamos? Para quê vir se tudo é relógio, negócio, lucro, dominação? Para quê vir se não celebramos a arte, a beleza, o êxtase, a loucura? Para quê vir se vivemos presos? Para quê vir se vivemos vigiados? Para quê vir se vivemos apressados? Para quê vir se vivemos a farsa? Para quê vir se não vivemos a liberdade?

DEUS VIDA É PARA DERRUBAR CÉSAR

Deus Vida (Jesus) é para derrubar César. Assim fala o padre Mário de Oliveira em "Da Escuridão de Milénios à Luz". O Poder tem que ser demolido. "Temos que regressar a Jesus Nazaré. Ao seu Evangelho revolucionário que canta um Deus que derruba todos os impérios e deixa de mãos vazias os ricos". O Dinheiro e o Império controlam as nossas vidas, desde que nascemos. Fazem as nossas mentes, moldam os nossos comportamentos. Roubam-nos a virtude e a dignidade. Tornam-nos animalescos. Família, escola, media, internet, smartphones, políticos, empresas, banqueiros, religiões, propaganda, todos nos vão inculcando coisas, mentiras, ao longo da vida. Quando, como diz o padre Mário, "educar é acompanhar como parteira cada novo ser humano que vem a este mundo. Para que nunca se torne clone de ninguém. É despertar e desenvolver o criador único que dorme em cada recém-nascido. Coisa que o Poder nunca fará. Ao Poder só lhe importam seres humanos feitos em série."

Sejamos outros Jesus. O amor de Jesus vai libertar-nos.

Edição 144, Janeiro 2019

O GOLPE NA VENEZUELA

A direita e a extrema-direita querem dominar o mundo. Agora querem derrubar Nicolas Maduro. Não que Maduro seja um santo, não raras vezes diz e faz disparates. No entanto, foi eleito pelo povo venezuelano. Agora, Trump, Bolsonaro e os seus aliados europeus mostram as garras. Para nos oferecerem um mundo de castração e alta tecnologia, de felicidade fabricada. De muros combinados com democracia burguesa. De mísseis, solidão, alienação e Big Brother.

JESUS VOLTA, PEÇO-TE!

Jesus volta, peço-te. Tu sabes, muito melhor do que nós, que a tua presença é inadiável nesta era de trevas. Vieste a primeira vez para salvar; nasceste para salvar; falaste para salvar; a tua arte, a tua obra, a tua missão, a tua vida é salvar. Jesus, a espécie humana enlouqueceu nos últimos anos. O divino Negócio e a santa Moeda absorvem (quase) tudo. A tecnologia é o novo deus. Uns poucos escravizam ou exploram a grande maioria. O fascismo avança. Ou somos carneiros domesticados ou estamos envolvidos na luta feroz pela vida. As relações entre as pessoas são cada vez mais falsas ou esquizofrénicas. Reinam a manha e a sacanice. Jesus volta, peço-te.

FILHOS DA PUTA

Mesmo que sejamos simpáticos, amáveis, educados, há algo que nos aprisiona, algo que só alguns de nós ultrapassamos e nem sempre. É a máquina trituradora que nos controla, que diminui a vida. Maldita ganância, maldita conquista que vem dos séculos e que o capitalismo amplifica. Maldita máquina que nos impede de sermos nós mesmos. Sim, nós tínhamos sonhos, desejos. Nós conversávamos sobre o homem novo, sobre a vida nova. Agora eles querem separar-nos, isolar-nos, converter-nos à imbecilidade. Atiram-nos imagens e mais imagens e nós já não vivemos, as imagens vivem por nós, é a felicidade fabricada. Merda! No deserto do café eu revolto-me. No deserto do café eu sou soberano. Mas eles continuam a atirar-me imagens. Mãe, eles querem-me doente, passivo. Mãe, eles querem que eu os siga. Fodem-me a cabeça com mensagens esquizofrénicas. Mãe, eu não estou louco. Mãe, eu li os mestres. Eles querem mesmo drogar-nos, intoxicar-nos. Alguns de nós conseguem manter-se conscientes mas somos poucos, os outros são completamente levados, mesmo que se julguem felizes. Mãe, isto parece uma coisa inofensiva mas é um inferno. Poderia ser o Céu na Terra de Rimbaud, de Henry Miller. Mas somos obrigados a drogar-nos e a sacrificar-nos. Quase perdemos a vontade. Só a espaços somos irmãos. Só a espaços fazemos a festa. Tudo o mais é forçado e burguês e exige (muito) dinheiro. Não há banquete gratuito, não há o feriado permanente de Nietzsche e Dionisos. O que estamos a fazer aqui, porra? A sofrer? Para quê então estar aqui? Em que é que esses filhos da puta são melhores do que nós? Porque é que esses filhos da puta hão-de mandar em nós e controlar-nos? Expliquem-me! Somos inteligentes, somos cultos, criamos, produzimos. Não temos que nos submeter a nenhuma máquina. Destruamos a máquina! Somos homens e mulheres livres, enviados dos céus, nada devemos a ninguém. Dêmos cabo destes merdas que destroem as nossas vidas. No fundo, não passam de uns merdas. Dêmos cabo deles. Eles estão na TV todos os dias. Eles estão na bolsa todos os dias. Eles estão nos mercados todos os dias. Eles perseguem-nos todos os dias. Eles querem enlouquecer-nos. Eles aparecem sorridentes. Eles parecem simpáticos. Eles querem-nos mansos. Não os suporto. Não os quero ver mais.

UMA SOCIEDADE DE DEPRIMIDOS

Mesmo que as pessoas tentem ou passem por gentis, reinam a ganância, a castração e a obediência. A sociedade está doente. Psiquiatras, psicólogos, comprimidos, terapias alternativas. Normalmente culpa-se o indivíduo e não a sociedade mercantil e mediática. Impera o imbecil e o pimba. As notícias e a internet estão manipuladas. Esquizofrenia. Esquizóides são as relações entre as pessoas. Roubam-nos o tempo e a vida os mercadores, os politiqueiros e os fascistas. Ou então é o tédio. E a felicidade fabricada. O amor escasseia. Vivemos aprisionados em televisões, em telemóveis. Drogam-nos dia após dia. Estamos cada vez mais sós. Cada vez mais sem palavras num mundo de pallradores. Cada vez mais deprimidos.

O AMOR DA VERDADE E DO CONHECIMENTO


A mente humana não se pode perder em ninharias. O que o ser humano tem procurado ao longo dos séculos, Deus, a Verdade, o Imensurável, o Inominável, o Eterno está presente. Imensamente feliz é esse homem que procura: para ele existe a Verdade e o êxtase. Feliz aquele que se dedica à filosofia, ao pensamento, ao amor do conhecimento, porque quem ama não conhece o medo.

UMA VIDA SEM LUZ

A educação, a ciência e a religião não resolvem os nossos problemas profundos. A sociedade mercantil põe-nos doentes e alienados. Ao viver o caos, a luta pela vida, temos que nos questionar porque aceitamos e nos acomodamos em vez de romper com este processo dentro de nós mesmos. Com algumas diversões ilusórias mas entediados e amedrontados, em condições normais vivemos uma vida sem luz, sem brilho. Agarrados às posses e ao dinheiro, desaprendemos o amor. Desaprendemos a liberdade. Somos coisas, números.

JESUS E OS VENDILHÕES

O Negócio é, para Jesus, uma forma de roubo. O mercado um antro de bandidos. Contudo, nenhuma das formas de comércio é mais detestável do que o comércio de moeda. Tudo quanto cheira a banca, a câmbio, a usura é odioso. Daí Jesus ter expulso os vendilhões do Templo. Porque o Demónio dá aos homens da banca e da finança o controlo da terra. São eles que mandam nos povos, que provocam as guerras, que empobrecem as nações, que tornam infernal a vida dos pobres e dos homens conscientes. Jesus, ao varrer da caverna os ladrões e ao purificar o Templo, uniu contra si Negociantes e Sacerdotes no sentido da compra de um traidor (Judas) e de uma cruz. Se ele vencer, é a ruína de todos eles.

A CRIAÇÃO DO NOVO HOMEM

Uma questão essencial se coloca. São os seres humanos irremediavelmente egoístas, maléficos, materialistas ou podem tornar-se essencialmente bons ou santos ou divinos? Se é verdade que até aqui errámos, vamos trabalhar no sentido da criação de um novo homem e de uma nova vida. A avidez das riquezas, infelizmente, é comum a grande parte da Humanidade. Quem quiser vir ter com Jesus terá que distribuir tudo o que tem e trocar os bens visíveis e presentes pelos futuros e invisíveis. Ou seja, queimemos as posses e o dinheiro.

Todo o homem vê com angústia o dia de amanhã. Receia que o pão lhe falte. Jesus proclama: "Não vos preocupeis mais com o dia de amanhã. Olhai as aves do céu!" O que importa é o presente. A construção do Reino. A transformação do Homem. A elevação do espírito. A iluminação. O Paraíso.

PROFETAS

Sereis perseguidos e caluniados porque quereis tornar os homens em santos. Sois amaldiçoados porque proclamais o amor e a libertação do Homem. Sois incompreendidos porque sois diferentes e desprezais o poder e as riquezas. Sois apartados porque possuis a inteligência iluminada e profética, porque seguis o caminho da Verdade e da Vontade. E os Profetas, mesmo que os matem, a sua voz será ouvida em todas as línguas e por todos os séculos.

Edição 143, Dezembro 2018

A DESTRUIÇÃO DA HUMANIDADE

Realmente isto está cheio de vendilhões e de corruptos. Em boa parte, o ser humano é perverso e maligno por natureza, mesmo antes do capitalismo, ama o poder e o dinheiro, intriga e inveja. O problema é que a conjugação das guerras, dos atentados à dignidade contra os refugiados, do terrorismo, do ascenso da extrema-direita, da luta pela vida e, principalmente, do aquecimento global, das alterações climáticas, já está a gerar o caos. Se o pateta do Trump e outros persistirem na cegueira, dentro de muitos poucos anos as catástrofes naturais multiplicar-se-ão a um ritmo irreversível. O Planeta, as espécies animais e a Humanidade estão em perigo. Já é notório o mal-estar com os coletes amarelos em França. Na Bélgica, na Grécia, na Hungria, em Espanha, mesmo em Portugal, os protestos são visíveis. Não são mais aceitáveis as drogas que nos injectam todos os dias, via media, via internet. Não é mais aceitável a pobreza e a miséria enquanto uns poucos nadam nas suas fortunas, não é mais aceitável a guerra religiosa ou imperialista. Não é mais aceitável a destruição da Humanidade e dos outros seres vivos.

ALEGREMO-NOS COMO JESUS

Com Jesus vem a Boa Nova, o Reino está próximo. Entusiasmo-me. Em vez do jejum a ebriedade, em vez da água o vinho. O pão da verdade, o pão da alegria, o pão místico nunca pode acabar. Alimentemos o espírito de amor, de verdade, de liberdade, de justiça. Sejamos outros Jesus. Dêmo-nos. Ultrapassêmo-nos a nós mesmos. Celebremos o dia. Celebremos o grande sol, a grande lua. Brindemos à vida. Abençoados por estarmos aqui, por termos vindo ao mundo. Abençoados por termos uma missão: praticar o bem, o conhecimento, a justiça. Alegremo-nos. Alegremo-nos como deuses, como crianças, como Jesus se alegra.

A CRIANÇA QUE SE DÁ À LUZ

O homem de coração nobre impõe a si mesmo o dever de nunca humilhar ninguém. Respeita tudo o que sofre. Contudo, tem o seu orgulho de criador. "Se existem deuses, como poderia eu suportar não ser Deus?". Temos que levar o nosso pensamento até aos limites. Ser a criança que se dá à luz e que, ao mesmo tempo, ser a mãe em trabalho de parto e as próprias dores de parto. Assim fala Nietzsche. Engendrar, engrandecer, conservar a inocência. E dar, ser a dádiva, amar cada vez mais, para lá do próprio perdão, da própria piedade.

A REBELIÃO DE PARIS

A revolta dos "coletes amarelos" é a revolta sem nome. A raiva, o caos desesperado, redentor, que vai contra Macron e os contabilistas do Império. Não tememos mais a autoridade. Nas ruas de Paris também se erguem as bandeiras da anarquia. "We want the world and we want it now!", como grita Jim Morrison. Não mais os políticos palradores e os senhores do tédio e da rotina, não mais os relógios e o controle. Rebelião contra os ricos e os poderosos. Liberdade. Liberdade cor de homem.

JESUS

Recusar todo o Poder e nada querer com o Dinheiro. Praticar a Verdade em todo o lado. Desmascarar o Templo e o Império. E quando estes saem coligados ao seu encontro para o prender e matar simplesmente dizer: "Eu sou!". Há um homem assim: Jesus. E é esse o exemplo que devemos seguir. Porque quem não ama permanece na morte, segundo as palavras do padre Mário de Oliveira. Mesmo que sejamos insultados, perseguidos, malditos, devemos seguir o caminho do Amor, da Verdade, da Justiça, da Sabedoria, da Liberdade, da Vida, da Vida Autêntica

DA ESCURIDÃO À LUZ

Ai dos ricos! Clama Jesus, mas nem os pobres o entendem porque o que mais desejam é serem ricos. Decapitemos o dinheiro nas nossas mentes, como defende o padre Mário de Oliveira em "Da Escuridão de Milénios à Luz", e seremos povos livres-sororais, ao comando das nossas vidas. O dinheiro e o capitalismo estão a matar o ser humano, a coisificá-lo. "Um pouco mais e desaprendemos a falar-sorrir", ainda o padre Mário. Um pouco mais e desaprendemos o amor. Comemos dinheiro. Cagamos dinheiro. Sem tempo nem espaço para o poema, para a dança, para o canto. Sem tempo para a Vida. Mortos. Pelo Grande Mercado. Pela Compra e Venda. Pela podridão. Pela filha da putice. Pela mentira. Pela finança. É a hora!

Edição142 Novembro 2018

SEMPRE COM A VIDA

Tal como a de Nietzsche, a minha palavra parece ainda mais insólita aos escritorzecos e aos rabiscadores de todas as qualidades. Agora sou leão, defendo a dama, Enfrento os encantadores e os fantasmas. Contudo, quero aprender a voar, quero tornar-me leve como uma ave, por isso me amo a mim mesmo, ao próximo e ao longínquo, apesar das depressões, apesar das humilhações passadas. Vou observando as jovens fêmeas e desejo-as. Indiferente aos boatos, às beatas, aos mexericos. Sempre com Zaratustra, A afirmar a Vida, A experimentar e a interrogar. Sem horários, sem disciplinas, sem tv. Faço teatro, cinema. Vagabundeio pelo palco.

O TÉDIO

Como diz a minha amiga Isabel, eles dividem-nos, provocam-nos o medo. De tal forma que as pessoas, mesmo sendo amáveis, simpáticas, não evoluem, ficam paradas no sítio, regridem até. A televisão, a internet, as redes sociais fazem-nos a cabeça cada vez mais ao serviço da grande finança e dos políticos às suas ordens. No entanto, um dos grandes problemas da actualidade, senão o maior, para lá da fome e da miséria, é o aborrecimento, é o tédio. Apesar das pretensas diversões que nos injectam, das pretensas drogas, vivemos dias iguais, sempre iguais, conversas repetidas, sem interesse, imbecis, patetas. Vá lá que, de vez em quando, surge alguém a quebrar a rotina, a recordar histórias e memórias, a acender o espírito. Mas vai rareando o espanto, a surpresa. Querem-nos doentes. Esses pregadores da morte, esses inimigos da vida. Só pensam em acumular poder e riquezas. E contaminam o cidadão comum: que também aldraba, que se atropela na arena, na fila. Um mundo aparentemente tranquilo mas completamente desesperado.

O GRANDE DESPERTAR

O desprezo pelo espírito, pela filosofia, pela cultura crítica, pela poesia. Eis o capitalismo, que juntamente com o cristianismo, quer tornar-se senhor de animais ferozes, a fim de os tornar doentes. O enfraquecimento é a receita para a domesticação, para o culto do rebanho. O cristianismo, que não Jesus, que é amor, verdade e vida, é a religião do sacrifício, do medo e do cansaço. Na sociedade mercantil, as lavagens ao cérebro sucedem-se todos os dias. Media, redes sociais, fake news, imperialismo. O grande dinheiro, o grande mercado, a compra e venda. A direita e a extrema-direita. A perseguição aos refugiados, a discriminação dos negros, das mulheres, dos índios, dos homossexuais, dos esquerdistas. As semelhanças dos efeitos da crise de 2008 com os da grande depressão de 1929-33. As alterações climáticas e a extinção em massa de animais selvagens. Jesus, Marx, Nietzsche, Che Guevara, Bakunine. O despertar. O grande despertar. A rebelião. A grande revolução. Aqui e agora.

JESUS

30 dinheiros, Pedro. Pensa. É um sinal. Deus meu! Jesus, Jesus! A multidão traiu-te. Pilatos deu a escolher e eles escolheram Barrabás, influenciados pelos sacerdotes. Mas escolheram Barrabás e condenaram-te a ti, Jesus! Malditos sejam! Não! Jesus perdoou. Jesus é perdão. Jesus é amor. "Eles não sabem o que fazem". Pedro, eles querem realmente dizer-te alguma coisa.

A NOVA INTERNACIONAL

Uma nova Internacional, a exemplo de Marx, Engels e Bakunine. Para combater o fascismo, o imperialismo, a grande finança e o deus-dinheiro. Uma nova Internacional fundada na luta contra o controlo das mentes, contra a corrida pelo lugar, pela carreira, contra a luta pela vida e contra o atropelo, mas também pelo recrudescimento da luta de classes, pelo combate à pobreza, à miséria e às situações de sem-abrigo, pela atenção máxima às doenças mentais e à prevenção do suicídio, pela tomada urgente de medidas relativamente às alterações climáticas, pelo combate ao racismo, à discriminação e violentação das mulheres, pela defesa dos direitos dos animais e da natureza. Uma nova Internacional pela Vida, pela vida livre, autêntica, sem opressão, sem castração, sem fronteiras. Por um mundo novo, por um homem novo, por um planeta novo.

Edição 141 Outubro 2018

O FASCISMO DE BOLSONARO

"Pretalhada, vai tudo vocês para a ponta da praia. Vocês não terão mais vez em nossa pátria, porque eu vou cortar todas as mordomias de vocês. Vocês não terão mais ONG para saciar a fome de mortadela de vocês."

"Vagabundo, vai ter de trabalhar" e "vocês, pretalhada, verão um polícia civil e militar com retaguarda jurídica para fazer valer a lei no lombo de vocês."

"Estamos a avisar os bandidos dos movimentos dos trabalhadores rurais sem terra e sem tecto que as suas acções de ocupações de terras e de prédios serão tipificadas como terrorismo".

"Lula vai apodrecer na cadeia" e terá a "companhia" de Fernando Haddad, o candidato de esquerda. "Esses marginais vermelhos serão banidos da nossa pátria".

Eis algumas das pérolas e ameaças de Jair Bolsonaro, o candidato fascista e muito provável próximo presidente do Brasil. Bolsonaro, além da boçalidade, representa o que há de mais deplorável na conduta humana: o racismo, o ódio, o desprezo pelas mulheres, a repressão militar e policial, a homofobia, a castração, a desumanidade. A crise capitalista de 2008, tal como a de 1929, está a trazer o renascimento da extrema-direita e dos fascismos. Os Trumps, os Bolsonaros, as Le Pens aproveitam-se do medo, da ignorância, da falência da democracia burguesa. Vivemos tempos terríveis. De atropelo à dignidade, de atropelos na arena do quotidiano, na fila, no emprego, na compra e venda. Temos que enfrentar a grande mercearia e o fascismo. Lutemos. Unamo-nos.

GUARDEMOS AS ÚLTIMAS LIBERDADES QUE NOS RESTAM

Como diz a minha amiga Isabel, temos que resistir a isto tudo: ao grande mercado e ao fascismo, sem nos perdermos. Temos que guardar as últimas liberdades que nos restam: de pensar, de ser, de gritar, de subir ao palco, de nos expressarmos. O problema não são apenas os grandes, os poderosos. Os pequenos, muitas vezes, são mesquinhos, merceeiros, trepam por cima dos outros. Ou então limitam-se a obedecer, paralisados pelo medo. Muitas vezes tornam-se fascistas, racistas ou apoiam candidatos fascistas por uma questão de insegurança, medo, ignorância. As relações pessoais tantas vezes são falsas, hipócritas. E a máquina quer-nos pôr doentes e culpabilizar-nos por isso. Tal como o cristianismo, o capitalismo inculca-nos a culpa, o sacrifício, a não-vida. Mas até parece que o grande rebanho tem gosto em lixar o parceiro do lado, em perpetuar a não-vida. Não se procura a vida livre, autêntica. Há cada vez mais pessoas sós, isoladas. Reina a esquizofrenia. Resistamos, Isabel. Resistamos, Goreti. Os partidos não nos compreendem. Guardemos a liberdade e o amor que nos restam.

O POETA, SEGUNDO RIMBAUD

O poeta, segundo Rimbaud, deve mudar a sua alma, perturbar a sua vida, exaltar os seus sentidos, exasperar as suas paixões, romper todas as barreiras, ser semelhante a um bandido, a um herético, a um mártir, a um alienado. O poeta deve ser um profeta, um iluminado, o oposto do homem normal. É nele que vive a visão, o delírio, a oposição a tudo quanto é alinhadinho. É ele que atravessa para o outro lado, para outros mundos, é dele o canto rebelde e maldito. Daí o seu casamento com a hybris e com a loucura, daí a união do Céu e do Inferno de que fala William Blake.

O JOGO NÃO TERMINOU, GORETI

Ás vezes conseguimos ser Um, Goreti, às vezes conseguimos ser a Vida, a Alegria, em Jesus, em Nietzsche, em Bakunine. Mas é tão difícil, Goreti. Eles querem empurrar-nos para o tédio, para a rotina, para a compra e venda, para a arena, para a corrida. É claro que nós temos consciência, Goreti, não fazemos parte do rebanho, da legião de consumidores dóceis, claro que nós nos opomos à máquina trituradora do capitalismo e à agora revigorada extrema-direita. Mas é tão difícil, Goreti. É tão difícil aguentar de pé. Eles querem mesmo fazer-nos a cabeça de todas as maneiras, todos os dias. Eles querem mesmo destruir-nos. Por-nos doentes. Por-nos descrentes. Tem sido tão difícil, Goreti. Mas nós vamos conseguir. Nós vamos conseguir. Unidos vamos conseguir. Vais ver, Goreti. O jogo não terminou.

A PRAXE FASCISTA

A agressão de dois alunos de Ciências Biomédicas da Universidade da Beira Interior (UBI), algures na serra da Estrela, veio revelar a existência, há pelo menos 11 anos, de um ritual exercido por uma "irmandade" que vai muito além dos limites do código definido pela universidade. De acordo com uma estudante da Faculdade de Ciências da Saúde, o grupo é constituído por actuais e antigos alunos de Ciências Biomédicas. "Obrigam os caloiros a despir-se e batem-lhes até com pás da construção civil quando não respondem certo às perguntas que lhes fazem", conta a estudante.

Que barbaridade. Ao abrigo da praxe, praticam-se actos criminosos e nazis. Mas é preciso dizer que a própria praxe, e nós sempre nos batemos contra ela, é em si mesma uma estupidez e algo de extremamente reaccionário. Desde logo porque se estabelece uma divisão classista entre "veteranos", "doutores" e "caloiros", como se uns tivessem mais direitos do que os outros, como se uns estivessem às ordens dos outros. A pretexto de uma pretensa integração, os "caloiros" são obrigados a brincadeiras ridículas ou então a autênticos atropelos à dignidade humana, como já se viu, só porque entram na Faculdade numa posição de fragilidade. Essa lógica da manada, do rebanho leva a que esses mesmos "caloiros", muitas vezes, no ano seguinte, praxem os novos estudantes do 1º ano. No fundo, está aqui presente uma grande mesquinhez.

Edição 140 Setembro 2018

ASSIM FALAVA ZARATUSTRA

"Assim Falava Zaratustra" de Nietzsche deu-me a volta à cabeça, juntamente com Jim Morrison, aos 18/19 anos. Alertou-me para o facto de os homens gostarem de ser escravos, rebanho, homens pequenos. Ou então macacos que trepam uns para cima dos outros em busca do dinheiro, do poder, do sucesso, seres que mercadejam. A isto opõe-se o homem criador, o homem superior, aquele que se passeia na corda-bamba do devir, que faz da vida um experimento permanente, o menino e o bailarino.

Sou um poeta. Não viemos ao mundo para comer, beber e ganhar a vida. Julgo que vim com uma missão. Passar mensagens. Dar-me aos outros no palco. Partilhar.

A vida não pode ser tão entediante e monótona. O capitalismo tem destruído a vida. Há cada vez mais pessoas doentes e conversas desinteressantes. As pessoas abrem-se pouco umas às outras. Têm medo. De perder o emprego, de perder a posição, de perder as posses. Há cada vez mais solidão. O amor, a amizade, acontecem cada vez mais a espaços. A tecnologia mecaniza tudo. As imagens estão por todo o lado. Os mercadores acumulam e passam. As bolsas, os mercados e os políticos prosseguem a dança. E o povo deixa andar. E o povo aplaude o circo. Gosta de se sacrificar. Gosta de ser escravo.

CANTAR A MULHER E AMAR A SABEDORIA

Segundo Lucrécio, o homem é dominado pela avidez de poder e de lucro. Conseguir ouro para ganhar poder; poder para aumentar o ouro; ouro para comprar consciências de homens e abraços de mulheres. Só duas coisas são dignas de ocupar o espírito: o conhecimento da realidade e o amor pela mulher. De facto, dedicar a vida à filosofia e ao amor parece-nos a resposta mais digna, ainda mais num mundo como o de hoje, marcado pela competição cega, pela lei do mais apto e do mais forte, pelo culto do dinheiro e do mercado. Amar a sabedoria e conhecer, conhecer cada vez mais, eis uma forma de potencializar as nossas capacidades ao máximo. Cantar a mulher e amá-la como a uma deusa, eis o desígnio dos grandes poetas.

CARTA AO IMPÉRIO

O medo subsiste no homem comum. Mas leio os cronistas do regime e também vejo medo. Medo da grande adesão à greve geral, medo do poder bipartido dos últimos 43 anos finalmente estar em causa, medo da rua e dos anarquistas, medo de que o grande casino das bolsas, dos mercados e dos "offshores" comece a ser posto em causa, medo de perderem o poder e os milhares e milhões das regalias. Se a 7 de Outubro muita gente por toda a Europa retirar o seu dinheiro dos bancos, ai aí não temos dúvidas, os cronistas do regime vão tremer e o poder político e financeiro, os divinos mercados vão começar a arder. Mesmo que não seja no dia 7, se a tendência se mantiver nos tempos próximos, a sociedade dos banqueiros, dos "investidores", dos "credores" e de todos esses cretinos que andam atrás do máximo lucro e de depenar o parceiro do lado, sem quaisquer escrúpulos, desses que vendem pai e mãe nas bolsas, vai mesmo começar a arder. O nervosismo dos cronistas do regime é sintomático. Como revolucionários dionisíacos não podemos deixar de soltar umas boas gargalhadas sarcásticas e satânicas e gritos de júbilo. Desafiamos-te daqui, ó deus dos mercados, do dinheiro e do medo! Dizemos-te que tens pés de barro. Hoje, na noite de 15 de Setembro de 2018 cuspimos na tua cara. Juramos destruir-te como tu tens destruído muitos de nós, seja roubando-nos, seja intrujando-nos, seja vendendo-nos "felicidade" nos media, seja atirando-nos para a pobreza e para a miséria. Sabemos que ainda tens polícias, exércitos do teu lado, sabemos que o teu poder e o teu poder de persuasão ainda são consideráveis nas massas, mas também sabemos que a engrenagem, de tão vil, de tão torpe, de tão assassina, começa a ser posta em causa. Hoje, 15 de Setembro, afirmo a minha Liberdade sobre a Terra. Afirmo que as vossas TV's, os vossos jornais e as vossas vedetas boazonas não me levam na cantiga, que os vossos discursos me provocam vómitos, que os vossos orçamentos e impostos servem para limpar o cu, que os vossos mercados vão ser empalados no altar da Justiça, que ides ficar na mesma miséria para onde atirastes os vossos semelhantes, que o vosso império vai arder.

O POETA

Ser o maior. Ser "O Poeta". Amado, odiado e invejado. Muito acima dos escritores da moda, dos escritores comerciais. Um legado a deixar. Talvez um lugar reservado na eternidade. Não sei. Não sei bem quem sou. Vim com uma missão, com uma demanda. Sou um deus que dança. Um menino e um bailarino. Bebo do Graal. Com Quixote combato os moinhos. Com Morrison abro portas. Estou farto de imbecis. Estou farto de macacos. Queimarei todo o dinheiro do mundo. Onde estais, meus guerrilheiros? Porque me deixais tão só?

SERVIDÃO VOLUNTÁRIA

Não é somente o sistema social que impõe a dominação, a servidão, é o próprio povo que se auto-decapita, que, podendo ser livre, escolhe ser escravo, como afirma La Boétie no "Discurso Sobre a Servidão Voluntária". O hábito ou o costume tem a capacidade de nos ensinar a servir. Os homens acabam por dizer que sempre viveram na sujeição, que ela já vem dos antepassados. Convencem-se de que são pertença daqueles que os tiranizam. Contudo, há-de haver sempre homens livres, que dizem não à servidão, que nunca se esquecem dos seus privilégios naturais nem da sua antiga condição.

"Tomai a resolução de não mais servirdes e sereis livres. Não vos peço que empurreis o tirano ou o derrubeis, peço-vos tão-somente que o não apoieis; não tardareis a ver como, qual descomunal Colosso, a que se tire a base, cairá por terra e se desfará", ainda La Boétie,

Tal como os teatros, os jogos, os gladiadores, as feras exóticas na Antiguidade, o futebol, a televisão, o consumismo, a internet, os smartphones são os engodos de que se servem os novos tiranos para adormecerem os súbditos sob o jugo. Os povos, ludibriados, "divertem-se" enquanto perdem a liberdade e a fraternidade.

HÁ HOMENS QUE PENSAM

Há homens que pensam. Cada um na sua arte. Não têm que ser iguais a mim. Devemos valorizar os homens e as mulheres que pensam por si mesmos. Não o rebanho. Não os macacos. Devemos valorizar os homens e as mulheres que discutem, que debatem à mesa, como Sócrates. Sócrates em Vilar do Pinheiro. E eles riem. E eles discutem a coisa pública. As vigarices do reino. No entanto, Pedro, são cidadãos honestos e pacíficos, não serão eles que farão a revolução. Contudo, estão vigilantes e atentos. Mais do que certos punks e anarcas que conheces. Todavia, Pedro, sabes que um dia será preciso tomar Lisboa, será preciso pegar em armas. Porque os poderes jamais cederão de mão beijada. Por isso és do Che, de Bakunine, da Rosa.

MADALENA

Em cada mulher havia uma fêmea que não podia satisfazer-se com belas palavras em rima. Para quê fazer sofrer os homens, que estrebucham e se torturam, quando satisfazê-los custa tão pouco a uma mulher, não doente?

"Vinham até mim os poetas mais admirados, os oradores que dominavam os povos com a sua palavra, e até os filósofos austeros, que aos seus discípulos ensinavam a virtude. Todos os que conheciam os segredos dos deuses, que eram senhores da vida e da morte dos cidadãos, que procuravam os mistérios do céu e das almas, vi-os a todos humildes e suplicantes aos meus pés, vi-os a todos, delirantes entre os meus braços. Não era, acaso, adorada e cumulada de ofertas como uma deusa do Olimpo? Os meus devotos eram uma multidão imensa, a ponto de tornar ciumenta a própria Afrodite."

Como Laís enches a casa. Todos os caminhos vêm dar a ti, ao teu esplendor, à tua beleza. Canto-te, mulher. Canto-te, fêmea. Abrigas os poetas, os filósofos e os artistas. Ilumina-los. Deixa-los em êxtase carnal e místico. Ao mesmo tempo, és irmã, és Madalena. És música, és poesia. E eu estou novamente em Jesus mas também em Zaratustra. E desço ao lago do mago. Acompanhado da águia e da serpente. E nunca mais serei o mesmo. Porque estou em ti e e em H. e em G. Porque ouço a voz do meu Pai. E por isso reino.

Edição 139Junho 2018

EXIGIR O IMPOSSÍVEL

Da política à economia, as pessoas são afastadas das decisões, sendo reduzidas ao particular, ao doméstico, e mesmo esses sectores são invadidos. Domesticadas, alienadas, controladas, as pessoas são afastadas da polis. Não há democracia com desigualdades sociais, não há democracia sem liberdade para todos, não há democracia com capitalismo. É assim que os senhores do mundo nos querem: cegos, confusos e submissos. Só ultrapassaremos esta situação se exigirmos o impossível, como no Maio de 68. Só se tomarmos a política nas nossas mãos. Só se formos senhores do nosso destino.

O AMOR

O amor, o amor, acima de toda a intriga, de toda a inveja. O amor divino, infinito, de Jesus por Madalena, de Madalena por Jesus. O amor para lá do sexo. O amor cantado pelos grandes poetas. O amor do universo, do único verso, do ultimo verso. O amor que não tem preço. O amor para lá da morte. O amor, simplesmente o amor.

SAIBAMOS TRANSCENDER O REAL

Humilhações passadas. Grandes depressões. Foi o horror. Outro que não sou agora. Mas que existiu mesmo. Daí também a vontade de vingança ou mesmo de potência. Agora, pelo contrário, todos os reinos parecem meus. Sou mesmo o homem livre, primitivo, que vem dos deuses. Finalmente, descubro os mistérios e os demónios do homem. O combate com o demónio, com a serpente, o caos que vai dar ao cosmos. É preciso fazê-lo na vida, nas mulheres, na revolução. A criação do mundo. O acto da criação. Também eu tenho combatido os meus demónios, as minhas serpentes. Agora regresso ao Centro, à cidade, à Glória, à crucificação. Sou rei coroado. Dez mil anjos. Salva-nos, salva-nos, ó bom Jesus. Crianças que brincam. Loucos. Esquizofrénicos. Até amanhã, se Deus quiser. Deus? Onde está Deus? É Deus anterior aos deuses? Na verdade, estas tricas da política e da economia são tão pequenas...são tão pequenos esses homens e mulheres...perante os mundos que estou a descobrir. De facto, é tudo uma questão mítica, de espírito, de vontade, de amor. Tudo parte da desconstrução da realidade, do jogo, do poder. Tudo parte duma afirmação mítica, divina, primitiva, libertária de afrontamento do poder. Tudo parte do verbo, do verso e do palco, da ágora. Saibamos usa los. Saibamos ser divinos. Saibamos viver sempre o presente. Saibamos transcender o real.

QUE FILHA DA PUTICE

Hoje em dia, a divisão fundamental coloca-se entre aqueles que aceitam o sistema e aqueles que o rejeitam. É ao nível da juventude que a recusa do sistema pode ser mais efectiva. Tal deve-se a duas razões essenciais - a personalidade ainda em fase de formação; os indivÍduos ainda não foram bem apanhados, não só nos logros do sistema, mas também nos seus subtis mecanismos de violência psico-económica. Aliás, vendo bem, trabalho e obediência, com umas migalhinhas, é o que a sociedade capitalista nos promete. É escravatura em relação ao dinheiro e às horas. A vida assim não é vida. Claro que há pessoas de bem, de bom coração, de bons sentimentos. Mas, de resto, é só controle, alienação, competição, tédio, intriga. Que podridão. Que filha da putice. Sim, a juventude, alguma pequena burguesia, alguns intelectuais, alguns artistas. Aí está a esperança. A porra da esperança. Afinal, estamos vivos.

NÃO, NÃO VIM PARA ISSO

Cheguei até aqui, construi me, fui feliz na infância, tive dificuldades de adaptação na adolescência, passei por grandes depressões e até humilhações, tive delírios e alucinações, visões, iluminações, mas também provei e provo a Glória, a grande Glória. Li muitos livros, li os mestres, dediquei me à poesia, à escrita, ao jornalismo, à declamação, à música, à revolução, à política, fui professor, sociólogo, sou pensador e agitador das massas. Sou um actor, um belo actor, um performer, vi as peças, os filmes, ouço os rockers. À parte alguns problemas de saúde, passo por uma fase de grande confiança. Melhor do que as da juventude dos anos 80 e 90 em Braga. Confesso que exagero no narcisismo e na megalomania de alguns textos. Mas isso também é uma forma de defesa. E depois? Fiz apenas umas asneiras. Algumas delas nem sequer foram asneiras, foram verdadeiros actos revolucionários. E até já paguei a factura. Bem sei que há gente de bem. Mas, e a maioria? A maioria, Santo Deus, ou vive aterrorizada ou passa a vida a competir com o vizinho do lado numa luta desenfreada. Carneiros que se tornam víboras. Não, não vim para isso. A vida é vontade, vontade de potência. A vida é amor. A vida é liberdade. A vida é poesia. A vida é filosofia, gozo e sabedoria. Por isso não me arrependo do caminho que segui. Por isso vou continuar. Por isso vou continuar a rebelião permanente.

Edição 138 Maio 2018

O NOVO PARTIDO

Agora que se passaram as celebrações, regresso à luta. Mas não venham seitas nem MRPP's ter comigo. Já dei para esse peditório. Além do mais, acho que o MRPP já não vai a lado nenhum. O Zé Né falou-me em formar um novo partido e eu começo a pensar seriamente nisso. Um novo partido que abarque as grandes questões com que a Humanidade se defronta nos próximos 10 ou 20 anos e de que nenhum outro partido fala. Um novo partido para as novas gerações, apesar de tudo. Um novo partido que não se limite ao imediato e ao mediático. Sim, Zé Né, velho amigo e companheiro, estou nessa. Está a chegar a hora. Como disse, nada há a perder, Tudo há a ganhar. Cavalguemos o caos vigente. Abramos caminho para o homem nobre, para o super-homem criador de Nietzsche, para a Glória de Jesus na Terra.

50 ANOS

Braga. Hoje faço 50 anos. Já não sou um jovem. Tenho-me dedicado a observar o homem e o mundo. Para quê tanta pressa, tanta sofreguidão? Para quê perseguir a recompensa que nunca mais vem? Ou então olhar para aqueles palhaços imbecis na televisão ou para as vedetas que vivem por nós. Não, não vim para isto, tenham paciência. Aprendi com outros a liberdade. Não vim atrás da felicidade da maioria, nem vim dizer banalidades. Acredito num homem infinito, absoluto, num homem capaz de se transcender. Não sou dos macacos que seguem e trepam. Sou do homem que bebe e voa. Aos 50 anos publiquei livros, fiz performances, disse poesia, publiquei em jornais, revistas e fanzines, participei em actos revolucionários. Fiz o que havia a fazer. Cometi os meus erros, naturalmente. Não me arrependo. Nunca me vendi. Não sou como essas patas-chocas da TV. Claro que preciso de ir à TV dizer a palavra. Dizer o que os outros não dizem. Segui o caminho dos malditos. Nada a fazer, minha rica. Eles bombardeiam-nos todos os dias. Eles tentam fazer-nos a cabeça todos os dias. Docemente. Suavemente. Temos de contra-atacar. A Vida é nossa.

MARX E A LAVAGEM AO CÉREBRO CAPITALISTA

O proletariado de hoje já não é o mesmo do tempo de Marx e Engels. Inclui muito mais do que o operariado industrial, inclui os empregados comerciais, a pequena burguesia e muitos outros. A questão é que essas pessoas, na sua grande maioria, estão alienadas, não têm consciência de classe. São bombardeadas todos os dias pela TV, pelas redes sociais, pelo futebol, pelos smartphones. Sofrem uma lavagem cerebral permanente. E poucos têm consciência disso. Aliás, em vez de se revoltarem contra o controle, contra os seus senhores, atiram-se uns contra os outros numa luta feroz pelo dinheiro, pelo emprego, pela carreira. E vamos assistindo nos media ao triste espectáculo dos políticos, dos banqueiros, dos empresários e dos comentadores a brincar aos jogos da corrupção, do compadrio e da criminalidade, num filme sem fim onde muito poucos são realmente justos e virtuosos. O caos está mesmo instalado. Talvez daí surja a luz. Acreditemos.

O JESUS DO PADRE MÁRIO

O padre Mário de Oliveira é um companheiro. Mantém-se fiel às suas convicções jesuânicas. Publica-me todas as semanas no "Fraternizar". Acredito no seu Jesus, no Jesus das mesas partilhadas, das práticas maiêuticas. No Jesus que expulsou os vendilhões do templo. No Jesus que é amor. No Jesus que é revolução. Que denuncia os poderes político, financeiro e religioso. Que rejeita o deus-dinheiro. Que denuncia a grande manipulação das mentes. Que dá e se dá. Que anuncia o novo reino.

OS SLOGANS GASTOS DOS SINDICATOS E DOS PARTIDOS E O NOVO DISCURSO

Os sindicatos são necessários. Mas repetem sempre os mesmos "slogans". Já cansa. É só economia. São quase como os partidos de esquerda. Para não falar do BE com as suas causas fracturantes. À parte a eutanásia e pouco mais, já chateia. Também não é atacar no consumo como o Renato Filipe Cardoso diz. Isso é contraproducente. Depois eu é que sou utópico...será que estes gajos não percebem que isto é uma grande operação de alienação, de controlo das mentes? As próprias pessoas se castram umas às outras no medo, em relações amorosas cinzentas. Com isto não digo que não haja gente inteligente, gente de bem, gente generosa. Só que a questão é que se o amor, se a fraternidade, se a liberdade, se a poesia que essas pessoas soltam será suficiente para suplantar a máquina capitalista. Henry Miller dizia que sim. Mas não vejo nenhum partido preocupado com estas questões. Com as alterações climáticas, felizmente, já vejo. No entanto, continuo a dizer: as pessoas têm culpa. Atropelam-se umas às outras, fazem-se à corrida pelo dinheiro. pelo estatuto, pela carreira. Não são tão inocentes e dóceis como isso.

SÓCRATES E PINHO CORRUPTOS. COSTA MARCADO

Manuel Pinho, enquanto ministro da Economia no governo Sócrates entre 2005 e 2009, recebeu a quantia de cerca de 15 mil euros por mês, num total de cerca de meio milhão de euros através de um esquema de offshores. A proveniência é o famoso "saco azul" do BES de Ricardo Salgado, banco para o qual Pinho trabalhou antes e depois de ser ministro e que era accionista da EDP, empresa que terá beneficiado. Ao referir-se ao caso, a deputada europeia Ana Gomes afirmou que o PS "se prestou a ser instrumento de corruptos e criminosos". José Sócrates, igualmente acusado de ter recebido dinheiros do referido "saco azul", remeteu-se ao silêncio no que toca aos recebimentos fraudulentos do seu ministro. Sócrates e Pinho são lixo, não prestam. Sócrates e Pinho são corruptos e criminosos. Fazem parte do mesmo esquema, da mesma rede. António Costa nada diz. Começa a ficar manchado.

Edição 137 Abril 2018

SINTO-ME ACIMA DA CORJA CAPITALISTA

Atravesso uma das melhores fases da minha vida. Não fossem uns pequenos detalhes e, claro, a sociedade capitalista onde estou inserido, tudo correria às mil maravilhas. De resto, escrevo, publico, intervenho publicamente, recito e canto e grito nas Sereias. Sou reconhecido. Sei bem que tenho os meus detractores, até sofro provocações. No entanto, atingi um patamar em que me tenho que habituar a isso. Se calhar, já estava escrito. O que é certo é que me sinto superior a toda essa corja mercantil e capitalista. Tenho uma noção de bem, de virtude, de justiça, nada tenho a ver com esses cães exploradores e castradores. Por isso me sinto acima. Com Jesus, Marx, Morrison, Bakunine, Nietzsche e Che Guevara. Por isso, grito a Liberdade e a Rebeldia. E também o Amor. E também a Dádiva. Por isso, cheguei a um ponto onde a minha vontade é soberana, a vontade de potência. Por isso, procuro ultrapassar o homem, no sentido do super-homem.

UM MUNDO DE POBREZA E EXPLORAÇÃO

Em 2030, 1% da população terá nas mãos 2/3 da riqueza mundial. A raiz da pobreza não se encontra apenas nos baixos salários, nas pensões miseráveis ou no desemprego. Encontra-se sobretudo ao nível das imensas desigualdades, da propriedade e da exploração do trabalho. Como afirma Rousseau no "Discurso sobre a Origem das Desigualdades entre os Homens": "O primeiro que, tendo cercado um terreno, se atreveu a dizer, isto é meu!, e encontrou gente suficientemente simples para acreditar nele, foi o verdadeiro fundador da sociedade civil".

No sector petrolífero, o trabalhador em 8 horas de trabalho por dia trabalha 1,6 horas para para pagar o seu salário, sendo as restantes 6,4 horas trabalho não pago, logo mais-valia da Galp. Olhemos também para o sector energético, em que a EDP e a REN acumulam lucros obscenos. A remuneração por hora de trabalho é de apenas 9,2% do valor produzido, o que significa que ao fim de 44 minutos o trabalhador tem o seu salário retribuído, dando mais de 7 horas do seu trabalho em regime não pago. A exploração dos trabalhadores está, portanto, ao nível do séc. XIX ou pior. O fosso entre ricos e pobres agrava-se cada vez mais. A alienação avança. Exigimos justiça!

O NOVO BIG BROTHER

A China quer premiar os cidadãos bem-comportados e castigar aqueles que não cumprem as regras. Para isso, vai utilizar um sistema de avaliação que utiliza dados de aplicações móveis e informações do Estado. É um cenário em tudo parecido com o que acontece num episódio da série futurista "Black mirror", mas com implicações bem reais na vida das pessoas.

Até 2020, os cidadãos estarão registados numa base de dados nacional, que cruza registos financeiros e criminais. Estes históricos ajudarão o Governo a classificar os cidadãos, beneficiando os que têm um ranking superior. O projecto, que arrancou em 2014, já tem os dados de mais de 10 milhões de pessoas com crédito social baixo.

Os cidadãos com a pontuação mais baixa terão que passar por uma espécie de lista de espera para, por exemplo, comprarem bilhetes de comboio ou viajar de avião.

"O principal objectivo é que as pessoas que se comportam de forma pouco séria ou desonesta, no seu dia a dia, percam acesso a tudo. Desde os benefícios do Governo até aos transportes públicos", afirma Wenhong Chen, investigadora especialista em redes sociais da Universidade do Texas, em Austin, nos EUA.

Ao que chegamos. Eis o "Big Brother" no seu esplendor. Tudo o que as pessoas fazem é monitorizado. A vida das pessoas completamente vigiada e controlada pelo Estado ou pelas grandes corporações. Eis o triunfo da tecnologia. Do homem do séc. XXI. Que podridão. Que fascismo. A vida avaliada por rankings. A vida autêntica completamente destruída. Assim, como se nada fosse. E tanta gente a engolir. A vida controlada. Ainda falam em liberdade. Porra. O Homem não é isto. É mesmo preciso rebentar com isto. De uma vez por todas.

AGOSTINHO DA SILVA E O POETA À SOLTA

"O homem não nasce para trabalhar, nasce para criar, para ser o tal poeta à solta." (Agostinho da Silva) O trabalho é sacrifício, é "tripalium", é tortura, normalmente corresponde à exploração do homem pelo homem, da grande maioria por um pequeno grupo de privilegiados: empresários, banqueiros, mercadores, especuladores, Estado. Ora, o homem não veio para ser besta de carga, veio para realizar-se, para criar, para brincar, para ser o "poeta à solta". O poeta à solta, o criador, passeia-se na corda-bamba do devir, faz da vida um experimento permanente, como diz Nietzsche. Cabe-lhe a ele espevitar os outros, trazê-los para a arte, para o conhecimento, para a liberdade, para o amor, para a Vida. O poeta à solta não tem preconceitos, joga apenas com a vida, é um menino e um grande bailarino. Não suporta a normalidade nem a rotina, quer celebração, festa. O poeta à solta quer a comunhão, a união do homem com a mulher, quer erguer grandes obras. O poeta à solta é o homem da liberdade, das portas abertas, de Morrison, de Miller, de Zaratustra.

A VIDA É CURIOSIDADE E ESPANTO

"A curiosidade é uma forma de agradecer a vida, de querer viver: "já que aqui estou vamos lá saber o que se passa".Mas a maioria das pessoas quando cresce acha que aprender dá trabalho, e dá, por isso vê televisão. E deixa de fazer perguntas de um dia para o outro." (Inês Teotónio Pereira, Diário de Notícias, 7/4/2018)

A curiosidade, o espanto, estão na base da busca do conhecimento, da filosofia. Andar espantado com a vida é próprio dos filósofos e das crianças. Mas também de todos aqueles que verdadeiramente amam a vida, que agradecem à vida. Porque a vida, a vida em si, fora das amarras capitalistas, é uma bênção, uma dádiva. Por isso as crianças estão sempre a fazer perguntas. Por isso nos interrogamos sobre a nossa origem, sobre o que fazemos aqui, sobre o porque viemos. Quem já não tem curiosidade nem faz perguntas está velho ou morto. A vida é interrogação, experimento e descoberta.

O MUNDO EM EBULIÇÃO: DA CATALUNHA AOS EUA

As miúdas falam e eu estudo política, sociologia, literatura. As miúdas bonitas falam de trabalho, da vida, de canetas. Falam rapidamente, depressa. Principalmente uma delas. A mais bela, a mais bonita. Fala da estupidez alheia, do administrador, das invejas, das peças. Jogos de xadrez. "Xadrez onde faltam as negras". Contratos precários. Vidas. Juventude com consciência. Greves, sindicatos. Nos meus tempos de faculdade ganhei várias votações difíceis em Assembleia. Não seria um grande tribuno mas convencia as massas, levava-as à greve, quase à revolta. Agora as pessoas vêm discutir problemas laborais para a confeitaria. Extraordinário! Talvez esperem algo de mim. Talvez saibam mesmo algo de mim. De certeza que já ouviram falar de mim. Pedro, és mesmo uma figura pública. E de cada vez serás mais, se não te der o treco. O problema é que bebes. Que se foda. Desde que bebas pouco. Começo a ter outra vez mais respeito pelo proletariado. O proletariado é cada vez mais abrangente. Já não é só o operariado industrial de Marx e Lenine. É preciso criar focos como dizia Ernesto Che Guevara. Eles já existem, por exemplo, na Catalunha mas também nos Estados Unidos com o levantamento dos jovens contra as armas. O mundo está de novo em ebulição, camarada

O FACEBOOK FASCISTA

O Facebook, juntamente com a Cambridge Analytica, é suspeito de manipular a opinião pública norte-americana e ajudar a eleger Donald Trump. Os dados pessoais de 50 milhões de eleitores americanos que utilizaram a famosa rede social foram violados. A acrescer isto diga-se que as multinacionais tecnológicas como a Google, a Apple ou o Facebook facturam a um ritmo alucinante e quanto a impostos, pagam quase nada. A Google, por exemplo, paga apenas 0,1% em impostos dos seus lucros.

Até agora tendia-se a acreditar que os algoritmos das multinacionais tecnológicas pareciam revelar mais confiança do que a sabedoria dos filósofos, dos poetas, dos cientistas sociais e dos profetas. "Os resultados imprevisíveis e imperscrutáveis a que chegam estas máquinas aconselham que desconfiemos das explicações que a Inteligência Artificial nos concede", diz o deputado e constitucionalista Pedro Bacelar de Vasconcelos. Esta estratégia de manipulação das redes sociais tem por objectivo dominar todo o mundo e une o capitalismo à extrema-direita. Ainda segundo Bacelar de Vasconcelos, "os alvos mais vulneráveis são os imigrantes e os refugiados, os desempregados e os trabalhadores precários, os jovens e todos os que perderam a esperança."

Edição 136 Março 2018

OS JORNAIS, OS REVOLUCIONÁRIOS E O STATUS QUO

Mesmo que os jornais sejam aparentemente plurais, com uma aparente diversidade, pelo menos, ao nível dos artigos de opinião, não vejo nenhum anarquista ou um qualquer Arnaldo de Matos ou Garcia Pereira a escrever para o Público, para o Jornal de Notícias ou para o Diário de Notícias. Isto significa que os jornais nacionais, tal como as televisões, são controlados pelos grandes grupos económicos, pelos tubarões da finança e pelos politiqueiros do regime.

Tal como no séc. XIX, os trabalhadores estão reduzidos à condição de mercadorias. Houve muitas revoltas, muitas revoluções no séc. XIX, no séc. XX, mesmo no séc. XXI, no entanto, nenhuma foi completamente cumprida ou, se quisermos, nenhuma resultou. O status quo levou a melhor. Os detentores do poder não abdicam dos seus privilégios a não ser pela força: através de um governo revolucionário, segundo Saint-Just e Robespierre; através de uma ditadura revolucionária, de acordo com Babeuf e Lenine. Há outra via: a de Saint-Simon, que pode ser a de Jesus. A do amor universal. A dos poetas, dos videntes e dos profetas, aqueles que têm maior capacidade de inspirar o amor universal nos outros. A ligação entre os condutores místicos e os indivíduos por eles conduzidos não é de autoridade nem de subordinação mas de amor dado e recebido, de comunhão na grande experiência. Há ainda os anarquistas que são contra o governo do homem pelo homem, ou seja, que pretendem derrubar o poder e construir uma sociedade alternativa, sem Deus, nem Estado, nem patrões, nem polícias.

A SOCIEDADE DO MEDO

A maior parte das pessoas até são bem-intencionadas, amistosas. Simplesmente, estão de tal forma narcotizadas por um sistema que promove a culpa, o medo, a desconfiança que vivem uma vida de horizontes muito limitados. Se as pessoas têm alguma consciência de que são alienadas pelo "Big Brother" capitalista então é porque vivem no medo, num terror imenso. Medo de perder o dinheiro, medo de perder o emprego, medo de perder os bens, medo da vida. No entanto, desconfio que a maior parte das pessoas nem sequer tem noção de que está a ser alienada por um sistema onde o dinheiro, o mercado, a competição feroz e a lei do mais apto comandam (quase) tudo. Senão certamente reagiriam.

Contudo, como têm medo, normalmente expressam-se de uma forma muito defensiva, contida. Temem o desconhecido, o invulgar, o diferente. Estão normalizadas. Até parece que só quando bebem uns copos ou quando se drogam é que saem dos trilhos. Mas mesmo esses comportamentos, muitas vezes, são inseridos numa lógica consumista. Ou seja, rareia o homem da liberdade de Nietzsche, de Rimbaud, de Jim Morrison. As pessoas raramente se soltam, não voam. A sociedade capitalista é altamente castradora.

O CAMINHO DO SOLITÁRIO

Podia dar-me para escrever uma história, um romance, mas não dá. Ou saem poemas ou saem crónicas políticas ou filosóficas. Por isso, desconfio que nunca ganharei muito dinheiro com a escrita. No entanto, lá vou remando contra o papel e vão-me saindo coisas novas. Na verdade, hoje também vou ocupando o tempo. Uns anos depois de ter deixado a "Voz da Póvoa" como jornalista conquistei o meu tempo como escritor e leitor. Penso que até deixei de ter depressões. Tempo não me falta. Solidão também não. Eis os requisitos ideais para escrever poemas melancólicos, que não tem saído por aí além. Que falta me fazem as minhas amigas...Irritam-me estas pessoas que parece que estão sempre bem, que parece que não têm problemas. Como já disse, passei grande parte da minha vida sozinho e precisei disso...bom, às vezes custa...mas aprende-se...o caminho do solitário...Recordo os meus amigos do liceu, Jorge e Rui, as conversas que mantínhamos...o que aprendi com eles...as boas notas...a adolescência...lembro-me de ter escrito um texto sobre a liberdade...perdeu-se...as letras dos Vikings...este que está aqui, agora...49 anos...vivo...outros já partiram...os livros...a obra...o sol lá fora...confusões no cérebro...explosões...eu era o menino Pedrinho...o que se portava muito bem na escola...agora tenho fama de maldito...cofio as barbas...trip na Arcada...a Paulinha?...Onde pára?...Demasiado tempo aqui na aldeia... relógio...17,30...ainda é cedo...muito cedo...os livros...os óculos...a chávena de café...O que é a vida? Solidão...muita solidão... pensamento...observação...tenho que sair daqui...falar com amigos...não mereço esta provação...tenho tanto para dizer...tanto para dizer...cara linda...mas há fronteiras, divisões e eu perdi a lata...não, não estou bem...comércio, comércio, comércio. Hipocrisia. Tanta hipocrisia.

A FALTA DE INTERESSE DOS ESTUDANTES

Segundo me contam as minhas amigas professoras, a grande maioria dos alunos do liceu não se interessa pelos estudos nem sequer respeita os professores. É evidente que a responsabilidade também é de uma sociedade e de um sistema de ensino que promovem a competição sem freios e a lei do mais apto mas os jovens também têm culpas, tanto tempo passam agarrados aos smartphones e aos videojogos. Está a formar-se uma geração robótica, sem sensibilidade, sem qualquer queda para as artes e para o humanismo e para as grandes questões do Planeta e da Humanidade. Só um grande abanão, só uma grande explosão permitirão alterar a mentalidade destes jovens aparentemente indiferentes e sem qualquer ponta de curiosidade.

O ANIMAL DESCONFIADO

O ser humano tornou-se num animal alerta, desconfiado, com muitos cuidados em não se revelar. Claro que também não nos podemos dar a qualquer um. Há malfeitores e criminosos. Mas a maior parte das pessoas até é educada e tolerante. E estamos longe dos perigos da Idade Média e de outras eras. Estamos, também contudo, longe de atingir uma sociedade de portas abertas, de mesas partilhadas, de contacto com o desconhecido como o padre Mário de Oliveira preconiza. A barbárie capitalista, o império do número e da finança são inimigos mortais da fraternidade e da comunhão entre os homens.

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Edição 135, Fevº 2018

A CORRENTE DE AMOR

Penso no Homem. Na maldade e na bondade. Na maldade que existe em todos nós mas que parece pura em alguns. Naqueles que roubam, matam, exploram, escravizam. Tudo isso contribui para que vivamos no medo, desconfiados uns dos outros, e que as relações entre as pessoas sejam cada vez menos autênticas. Tudo isso é consequência do capitalismo e da adoração do poder e do deus-dinheiro. As pessoas fecham-se cada vez mais em grupos fechados, em famílias e temem a ágora, a praça, a grande assembleia. Há obviamente pessoas extraordinariamente bondosas, puras, que se dão totalmente ao outro, mas essas vão-se mostrando cada vez menos em público, até por pressão dos patrões dos media. O ódio e o capitalismo parecem estar a levar a melhor sobre o amor. Só uma grande comunhão, só uma grande corrente de amor permitirão reverter a situação.

O AMOR É A SOLUÇÃO

Nestes dias de repouso, tenho lido sobre homens de sabedoria como Jesus, Leonardo Da Vinci ou Platão. Tal tem-me ajudado a acalmar, a olhar para as coisas não com ódio ou raiva mas com a curiosidade e o espanto das mesas partilhadas e do amor à sabedoria. Vinha seguindo um caminho de narcisismo a mais, a ponto de me auto-considerar um deus. Devo ser mais humilde e maravilhar-me com as pequenas coisas das pessoas boas. Claro que muito neste mundo é cruel mas há pessoas que me dizem que nos devemos amar uns aos outros, como a Mariana. O amor está no nosso íntimo, como pregava Jesus. O amor está no bem pelo bem, como preconizavam Sócrates e Platão. O amor é a solução.

JESUS

Jesus

o sol

a luz

a meio do concerto

do deserto

do desespero

Jesus

a luz que guia

que conduz

na rua

no escuro

Jesus

dá-me asas

dá-me forças

para enfrentar o medo

as perseguições

os judas

os vendilhões do templo

Jesus

a estrela está em mim

dentro das moléculas

no universo

no último verso

no único verso.

EU NÃO SOU DESSE MUNDO

Preciso ser mais humilde. Mas não vou perdoar aos chacais grandes e pequenos. Não vou perdoar o que me fizeram em Vila do Conde. Adiante. Estou lixado do joelho. Tenho dificuldades em levantar-me. Há dois dias que não saio de casa. Vivemos num mundo de imbecis que fazem tudo pelo dinheiro. Roubam, pilham, matam. Eu não sou desse mundo. Eu não nasci assim. Até agora confiei demasiado nas pessoas. Pois agora, vou tornar-me um pouco cínico. Continuo convencido que o caos e a grande revolução virão e esses pelintras vão-se lixar todos. No mercy.

COMO JESUS

Sinto-me poderoso, G. Capaz de tomar o poder, de reunir exércitos. Tenho o poder da palavra, a banda e a escrita. Sou uma figura pública. Não tenho que me portar bem como o Jerómino ou como a Catarina. Posso fazer asneiras. Posso partir os vidros dos bancos e dos carros. Deus está do meu lado. Sou filho de Jesus e de Satã. Nunca me senti tão forte, tão seguro. E sem alucinações. Como Jesus a entrar em Jerusalém. Como Jesus a expulsar os vendilhões do templo. O meu reino não é deste mundo. Eu sou a verdade e a luz. Nada me pára. E vejo-os preocupados com as coisinhas deles, com as pequenas coisas dos homens pequenos, com a mercearia, com o mercadejar com o poder e os padrecas. Eles vão chamar-me. Vão chamar-me não tarda nada. E todos esses palradores de merda. Agora enfrento-os com a espada. O mundo é meu. O mundo é nosso, G. Cidades arderão. Capitalistas serão decapitados. No mercy. Um novo mundo nascerá.

DIVINOS

É o cultivar do espírito que nos torna sábios, não a experiência. Há os seres do mundo da luz e os seres do mundo das trevas. Os do mundo da luz movem-se sem cadeias nem grilhetas, segundo diz Henry Miller.

Quando o ser humano alcançar todos os seus poderes será divino. Quando se converter no deus que é será livre. Só existe uma coisa: o espírito. O espírito responde ao espírito. O resto é conversa. Nem sequer é preciso praticar quaisquer exercícios físicos ou espirituais. Devemos ser inteiros, completos, santos. Daí que todas as sombras que nos impingem não passem de ilusões. Nós somos mais fortes, mais poderosos. Que importância tem um Trump se eu posso ser divino? Que importância têm esses personagens que desfilam nos ecrãs? Sombras. Meras sombras. Nós somos superiores, nós somos da luz de Platão. Deixemo-los a rastejar como vermes. O espírito é nosso. O mundo é nosso.

A GLÓRIA DO AMOR

O mundo inteiro nunca parou simultaneamente para escutar palavras de sabedoria. Se isso acontecesse a resposta seria a palavra "amor", segundo Henry Miller. Se essa palavra fosse apreendida, o mundo instantaneamente transformar-se-ia. "Quem poderia resistir se o amor se tornasse a ordem do dia?" Quem ambicionaria o poder ou o dinheiro se fosse iluminado pela glória do amor?

Os homens dos tempos antigos conheciam os deuses. Nós não estamos preparados para isso. Estamos castrados, isolados. Somos escravos uns dos outros. Ainda de acordo com Miller, no momento em que efectivamente desejarmos a liberdade, seremos livres. Agora somos máquinas, ávidas de poder e de dinheiro, vítimas desses elementos. "No dia em que aprendermos a exprimir amor, conheceremos o amor e teremos amor". O mal é uma criação da nossa mente. Só existe como ameaça ao reino eterno do amor. Há homens que têm visões de uma humanidade liberta. Visões dos deuses que, em tempos, foram.

Como disse Lawrence: "Para o homem, a imensa maravilha é estar vivo". Tornemo-nos inteiramente livres, inteiramente vivos.

A BOLA NO CÉREBRO

Esta gente só fala de bola, vive em função da bola. Eu até gosto de futebol mas o futebol não passa de um jogo e, além do mais, quem perde os jogos são os dirigentes e os futebolistas, eu não perco nada. Esta gente parece que não tem outro assunto para falar. Matam-se pelo clube de eleição. E depois vêm aqueles comentaristas imbecis na televisão a toda a hora. Cambada de fanáticos patetas. Fazem lembrar os jihadistas. No lugar do cérebro têm uma bola. A vossa paixão é tédio. Viveis de tédio e alimentais os outros de tédio. Imbecis. Patetas.

Edição 134, Janº 2018

A CRIANÇA SÁBIA

Aborreço-me, sabes. Aborreço-me da banalidade das conversas, da monotonia dos temas. Vá lá que tenho subido ao palco, que me tenho passado para o lado de lá, que tenho incendiado. A verdade é que a maioria das pessoas me aborrece, não segue a minha estrela, se é que segue alguma estrela...

Ao longo da vida, tenho encontrado pessoas muito interessantes, fascinantes mesmo, com quem dá um gozo imenso trocar ideias mas essas pessoas não estão sempre presentes, algumas até já partiram. A verdade é que o que conta realmente na vida é o gozo, a criação, o amor, a amizade, a sabedoria, a espiritualidade, não são as riquezas materiais. Daí que seja ridícula a corrida em que a grande maioria das pessoas estão envolvidas, a corrida dos macacos que trepam uns para cima dos outros em busca do dinheiro, do poder, do estatuto. Matam-se uns aos outros em guerras inúteis, em jogos de futebol que, ao fim e ao cabo, não têm importância nenhuma. Importa, por isso, atirar de vez a bola fora, abandonar o jogo, brincar pelo simples gozo de brincar como as crianças, como a criança sábia.

O POETA É DO UNIVERSO

A olhar para ti, S. Sinto-me na paz e na concórdia. É uma bênção contemplar as mulheres belas, desejá-las, conversar com elas. Em vez de estar no outro bar a observar imbecis agarrados ao computador e aos ecrãs da vida. A tua calma pacifica-me, cura-me a alma. És doce, terna. E eu sou o tal poeta de Braga, ébrio, à solta, que quer desesperadamente que algo aconteça. Porque não suporta a pasmaceira. Porque quer a mulher bela. Cada vez mais se identifica com o Jim Morrison e com outros loucos divinos, Não suporta o tédio dos dias. Quer atravessar para o outro lado. Por isso bebe, droga-se. E a música é a sua amiga íntima. Há patetas que o desafiam, que o põem em causa. Contudo, ele segue o seu caminho. Aprendeu com Zaratustra. Agora beberia toda a noite. Mas o cacau não chega, Há noites assim. Agora é assim. O poeta, às vezes, até tem cacau. E quer a menina. Continua a escrever como um possesso. Como Blake, como Rimbaud, como Pessoa. Não há limites. O poeta é doido. Escreve na tasca, Vai sair mais um poema para os netos. Sofia, traz mais uma! O poeta cansou-se de gunas, de merdosos, de polícias. Agora reina. Produz Arte. É o mais espontâneo dos poetas. Vai tudo à pincelada. Dali. Picasso. Bosch. Breton. Tzara. O poeta é dadá, surrealista. Não tem casa. E bebe. Bebe. Mama. Mama. Foge do racional. De Sócrares, de Platão, de Descartes, mesmo que os ame. O poeta é das Sereias, das Tequillas e da Mana Calórica. O poeta não cabe aqui. É do universo, do Big Bang. Explode em mil pedaços. Rebenta. Forma um uno com a caneta. E esses? E esses? Quem são? Escrevinhadores? Filhos de Deus e do Cão? Alguns, sim, ainda procuram. Outros, a grande maioria, são lixo. Lixo. Merda. Lixo. Meras cópias de cópias. Comércio. Compra e venda. Políticos imbecis, no fundo. Comerciantes. Carniceiros. Merceeiros. Economistas. Que raça de atrasados mentais, como dizia o meu pai. Nem pensar sabem. Nem usar o cérebro sabem. E aquelas gajas vão atrás deles! Nem todas. Não exageremos. Muitas começam a compreender. Mas são séculos, milénios. Sexo. Dominação de parte a parte. Sedução. Poder. Dinheiro. Estatuto. É preciso um grito. Um grito maldito que rompa com tudo isto. Que rebente com tudo isto. Que acorde as mulheres. Não para o feminismo. Mas para a Fêmea Eterna, que tem sido espezinhada ao longo dos séculos. Vamos dançar, S. O mundo começa agora. Não há limites. Não há fronteiras. Só tambores e fogo. Dança. Dança. Dança. As Bacantes e Dioniso. A guitarra de Hendrix. O ritual. O blues. O Carnaval. Vamos conquistar o mundo agora. Agora mesmo. Não há desculpas. Não há meias-medidas. Jim Morrison. O grito animal. É preciso acordar estes mortos. Jesus, olha a luz. Dança, dança. Fornica a Madalena. Terás muitos filhos. Jim. Vamos até ao fim. Ritmo. Rock n' Roll. Estes gajos não acordam. Andam entretidos com politiquices. Desconhecem o Uno Primordial. Por um lado, ainda bem...eh, eh...

A REVOLUÇÃO

No café da Vera ouço a Vera e ouço os operários. Agora compreendo melhor os operários mas entendo que a classe operária é uma classe em decadência, já nada tem de revolucionário, como dizia Marcuse. Apenas luta por reivindicações salariais e sectoriais. Não se quer educar como no tempo de Marx, como no tempo de Lenine, como nos anos 60. Só podemos contar com alguns. De resto, os grandes revolucionários continuam a sair da burguesia e da pequena burguesia instruída. De resto, anda tudo enfeitiçado pelo deus-dinheiro e pela ilusão dos euromilhões. Claro que, por outro lado, não vale a pena um homem andar-se a matar. As loucuras do Trump, do Putin, do palhaço da Coreia do Norte, dos terroristas de Alá, da extrema-direita, as alterações climáticas, o Big Brother dos media, a loucura tecnológica, a corrida desenfreada pelo lugar, pelo emprego, pela carreira, a luta pela vida, tudo isso, mais tarde ou mais cedo, levará necessariamente ao caos, à revolução. Não tenho dúvidas. A revolução e o apocalipse estão próximos.

CHE

Regresso ao café da Vera. Estou leve, bem-disposto. Mais um artigo no JN. O sr. Alberto reflecte. Um outro homem lê o jornal. As mulheres dão à língua. O trabalho. O trabalhinho. Também eu trabalho. Mas na escrita. Tenho uma vantagem. Faço o que quero. Não tenho chefes a dar-me ordens. Ouço imbecis na TV, na CMTV. Pão-Nosso de cada dia. Vá lá que ontem lembraram o Che. A revolução está viva e bem viva. Tremei, burgueses. Tremei, macacos. Tremei, capitalistas. A hora está a chegar. Apocalipse Now. Marlon Brando. Jim Morrison. Bakunine. Destruir para construir.

Pronto, agora toda a gente publica poemas. Toda a gente vai à televisão mostrar os seus poemas de merda. Prefiro continuar no underground, apesar de agora ser uma estrela. Sinto-me como Charles Bukowski. Dispenso a PC. Já não preciso dela para nada. Nem de buracos sem luz. Nem de nada. Reclamo o trono. De D. João I. Exijo o mundo. O mundo é meu, todo meu, Gotucha. Não, não deliro, estou perfeitamente lúcido. Mais lúcido do que nunca. Os meus guerrilheiros protegem-me.

UM JESUS QUE RI

E agora, quem sou? Regressei, depois da Odisseia, depois da grande Demanda. Ulisses regressa a Ítaca, à casa da Mãe. Ontem era o vento, o frio, a chuva, os demónios, os gigantes, as sereias, os fantasmas. Mas também a luz de Jesus. Um Jesus que ri. Um deus alegre que ri, como defendia Nietzsche. Ir do céu ao inferno numa só manhã, numa só noite, como Rimbaud, como Baudelaire. Lembro-me de ti, Henrique, meu bom amigo. E agora tenho sono outra vez depois de uma directa. Dormir, dormir, dormir...esquecer...sonhar talvez...amanhã, outro dia.

A PÓVOA, SÓCRATES, PLATÃO, NIETZSCHE E JESUS

Póvoa, 30 de Dezembro de 2017. "Torreões". Estive com o Francisco Gonçalves a preparar a apresentação do livro na Biblioteca de Vila do Conde. Agora, sim, tenho a sensação de que as pessoas olham para mim, tenho a sensação de ser uma estrela. Mas hoje, na Póvoa, nem por isso me sinto vaidoso, nem por isso me sinto superior. O ouvido continua a dar sinais. A cerveja sobre a mesa. Amanhã é a passagem de ano. Em princípio vou a Braga. Hoje quero ouvir o Arnaldo de Matos, o Grande Educador da Classe Operária. As feridas estão saradas, embora MRPP, nunca mais. As pessoas têm compras, horários e eu não. Felizmente, estou-me a dar melhor com os meus irmãos. Cuidado, Pedro, que te pode dar o treco. Já tens exemplos que te cheguem. E já estás quase nos 50. És poeta, escritor, toda a gente o reconhece. Isso não constitui novidade nenhuma. Estás na Póvoa. Na tua Póvoa. Os teus pais conheceram-se aqui, no Casino. Talvez por isso ames tanto a cidade. E não paras de escrever. Há pouco mal conseguias pegar na caneta, emocionado. E depois falam do Ronaldo e de outros imbecis. Nossa Senhora, Pedro, as passas que tu passaste. Ai, bate, coração. As vezes que tiveste que ouvir calado. As vezes que tiveste que suportar. A cambada de hipócritas, patetas e imbecis. Agora as tuas palavras são facas. Matam. Ferem. Consegues ser mesmo cruel. Contudo, o Amor ainda brota dentro de ti. Agora nada tens a recear. Só a morte, só a doença. Os teus olhos brilham. Não vão em futebóis. Não bebas demais, Pedro. Não morras cedo como o Jim. Ainda tens que deixar descendência. Não és daqui. És absolutamente divino. Como Sócrates, como Platão, como Nietzsche, como Jesus. E bebes. E continuas a beber. Não tens cura. Tens de parar. És inteligente o suficiente. Como o AMR. Sempre o AMR. Até vês nas miúdas o Robert Plant. Uh, baby, babe, I wanna give you my love! És louco, como a outra diz. É uma tapadinha, coitada. Não pertence à tua tribo de gajas fixes. Não é como a Gotucha. No fundo, às vezes fazes-te de louco: "Once I had a little game/ this little game is fun to do/ this game is called to go insane", Jim, sempre o Jim. Pronto, agora bebes uma água das pedras e está resolvido. A água das pedras tem-te resolvido os problemas. E ainda dizem que não trabalhas, que não te esforças para nada...que vontade de rir! Ah! Que vontade de rir! Camelos! Idiotas! Ponto final.

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