RECENSÃO DE LIVROS

-------------------------------------------------

Sempre que houver livros para recensão, as recensões cá estarão. Com destaque para as NOVIDADES na área da Teologia, da Hermenêutica Bíblica e da Eclesiologia. Atenção, Editoras! Enviem pelo menos 1 exemplar ao cuidado de

Padre Mário/Jornal Fraternizar

Rua Alto da Paixão 298, 4615-418 MACIEIRA DA LIXA PORTUGAL

------------------------------------------------------------------------

Edição 133, Dezº 2017

Juan José TAMAYO / Editorial TROTTA

TEOLOGIAS DO SUL

A viragem copernicana pós-colonial

Este é o mais recente Livro – concluído em Maio de 2017 – do teólogo JJ Tamayo, de Madrid, meu amigo e companheiro desde os sucessivos Congressos de Teologia de Madrid, e, felizmente, já bem conhecido nos ambientes católicos ditos “progressistas” do nosso país, entre os quais, obviamente, não se conta nenhum dos clérigos de proa que odeiam tudo o que possa pôr em questão os seus corporativos privilégios e questione os seus rotineiros e mais do que previsíveis falares e fazeres teológico-pastorais sem-sal, escandalosamente desprovidos de bom senso e de dignidade, com viveres separados por um abismo intransponível do das multidões, inclusive, das que ainda frequentam as catedrais e os santuários fatimistas-marianistas, todos anti-Maria, a mãe de Jesus.

O Livro, 252 pgs, abre com uma desassombrada confissão pública do Autor que lhe serve de primorosa Introdução, e cuja leitura é obrigatória para se poder entender a viragem copernicana pós-colonial que está a operar-se irreversivelmente, desde há anos, na mente-consciência dele, graças, sobretudo, à sua reiterada presença activa e interventiva, todo olhos, ouvidos e mente bem abertos a outras abordagens teológicas de outros países, culturas e continentes, com destaque para as africanas, latino-americanas, asiáticas, feministas, de género, ecológicas. O roteiro teológico que está na origem deste novo Livro é impressionante. De tal modo que é legítimo perguntar como é que o teólogo de Madrid tem capacidade para tanto e tamanho poder de síntese do muito que tem visto, lido, escutado e que, manifestamente, o tem interpelado-desinstalado da pretensiosa supremacia teológica europeia em que foi educado-formado. É um novo nascer que o leva a cair na conta de que o facto de sermos europeus e cristãos, sempre faz de nós conquistadores, ladrões, assassinos dos povos que ainda hoje invadimos e colonizamos. Um colonialismo que não só não acabou com a chamada independência política, conseguida a ferro e fogo pelos respectivos povos colonizados, como ainda se tornou mais refinado e eficaz.

A verdade – e com que veemência este Livro no-lo grita! – é que sempre encobrimos-negamos o OUTRO diferente de nós. E, mais grave ainda, encobrimos-negamos os povos que empobrecemos, oprimimos, assassinamos, no sábio e lúcido dizer de Enrique Dussel, filósofo e teólogo latino-americano, com um ser-viver-filosofar-teologar que põe em sentido a Cúria romana, o papado, a própria Bíblia judeo-cristã e demais livros sagrados, bem como a interpretação oficial de sentido único que dela, deles, tem sido feita ao longo dos séculos. O que perfaz, objectivamente, um crime de lesa-povos que, para nossa vergonha e prejuízo, recusamos admitir, reconhecer e confessar com firme propósito de emenda. Tão superiores nos achamos, ainda hoje, frente a quantos são diferentes de nós.

O Livro conduz-nos por caminhos e mares filosóficos e teológicos nunca antes navegados pelo Autor que, nesta altura, dirige a Cátedra de Teologia e Ciências das Religiões «Ignacio Ellacuría» na Universidade Carlos III de Madrid, ao mesmo tempo que é professor da Cátedra Três Religiões na Universidade de Valencia. Já não se trata de sair a “conquistar”, como criminosamente sempre se fez no Ocidente. Trata-se de sair desarmado, braços e coração abertos, ao encontro do Outro, do Diferente, do Dissidente, para o acolher com inteligência cordial. E de partilharmos sororalmente uns com os outros a mesma Mesa das distintas Sabedorias. De contrário, podemos ser e somos muito cristãos, adoradores do deus Dinheiro, o mesmo do Poder nos três poderes em que ele historicamente subsiste, mas não somos Humanos plenos e integrais. E perdemo-nos, quando mais parece que nos ganhamos. Porque, como este Livro deixa perceber, nas entrelinhas, fora do Humano-aberto-ao-Outro, não há salvação para ninguém. E o nosso mundo, em lugar de Casa Comum, é Pesadelo comum, onde os grandes comem os pequenos. Um Livro imprescindível.

Se bem que continue a ser necessário ir ainda mais fundo, concretamente à raiz do problema que já vem do início da Humanidade, quando o Religioso, fruto do Medo, leva os povos primitivos e todos os seus descendentes a afirmarmos inequivocamente deus que nunca vimos, e a negar inequivocamente o Outro, o Diferente, que está aí a todo o instante diante dos nossos olhos. Enquanto nos mantemos demencialmente neste Desvio estrutural do início, e continuamos a recusar colocar os seres humanos que vemos no lugar de Deus que não vemos, jamais somos plena e integralmente Humanos, outros Jesus, que progressivamente nos descobrimos também misteriosamente habitados. Esta viragem copernicana antropológica-teológica só Jesus, o filho de Maria, a faz em seu tempo e país. Contra o Judaísmo, a sua Bíblia e o Império de turno. Por isso é crucificado, em nome do deus da Bíblia e torna-se maldito aos olhos dos praticantes do Religioso-Ateísmo, os cristãos e os outros. Para quando, pois, esta viragem copernicana antropológica-teológica em todo o mundo?!

Simon Critechley / Editorial TROTTA

A FÉ DOS QUE NÃOTÊM FÉ

Experiências de Teologia Política

É um Livro imprescindível, neste nosso tempo, pela temática que aborda. Não acessível a toda a gente, uma vez que o seu universo é abertamente o dos filósofos e artistas inquietos com a problemática das crenças-descrenças, fés-ateísmos. O facto de serem filósofos, etimologicamente, amigos do Saber, representa aos seus próprios olhos uma mais-valia que, em não poucos casos, vem a redundar numa perda do chão, nomeadamente, o chão pisado pelos “Condenados da terra”, de que fala Fanon, um dos intelectuais referidos vastas vezes nas 253 páginas com que se tece o Livro. O Autor, Simon Critchley, é titular da cátedra de Filosofia Hans Jonas na New Scool for Social Research de Nova York e ensina Filosofia na Universidade de Tilburg (Países Baixos), ao mesmo tempo que é habitual colaborador de The New York Times. Manifestamente, residente no universo das ideias, dos conceitos, das teorias e das doutrinas. Onde as inúmeras vítimas das religiões-igrejas cristãs, crenças, fés-ateísmos, embora constituam a esmagadora maioria da Humanidade, sempre têm de ficar à porta. Aliás, nem sequer dispõem de tempo, muito menos de desenvolvimento escolar-académico para se poderem ocupar com este tipo de preocupações, próprias de filósofos e teólogos. São elas a principal clientela das religiões-crenças-fés. Dos ateísmos, não consta. A verdade é que não chegam a perturbar o elitista universo das grandes universidades, produtoras das minorias dos privilégios, nas quais se incluem os clérigos-pastores e agentes do Poder que ajudam a fabricar a pobreza estrutural e os pobres em massa.

O livro “faz-se” em 4 capítulos (O Catecismo do Cidadão; O anarquismo místico; Não sejas tu mesmo: Sobre a natureza da fé; Violência não violenta), precedidos da habitual Introdução, “O cristianismo de Wilde. Um resumo suficientemente simples do argumento”. E fecha com a Conclusão, “Que tudo se faça segundo a tua fé”. É na Introdução que se coloca o argumento do Livro: “Muito provavelmente, o regresso da religião converteu-se num dos temas recorrentes da teoria contemporânea.” O próprio Autor reconhece que “o mundo da teoria, frequentemente não costuma oferecer-nos mais do que um eco amplificado do que está a acontecer na realidade, uma realidade política dominada por um facto: as guerras religiosas.” Só que até este facto dos factos, as guerras religiosas, está de todo ausente no Livro. Nele, estão as teorias que levam aos factos e os explicam, mas não os transformam, muito menos lhes põem fim. E não são quaisquer teorias, mas as de renomados filósofos e outros intelectuais da nossa praça académica ocidental, todas acentuadamente marcadas, não por Jesus, o camponês-artesão de Nazaré, o filho de Maria, mas pelo cristianismo, com destaque para S. Paulo e as suas Cartas..

O Livro arranca com uma destacada conclusão de Rousseau, “Portanto, gostava que houvesse em cada Estado um código moral, ou uma espécie de fé civil, que contivesse de modo positivo as máximas sociais que cada um deveria admitir e negativamente as máximas fanáticas que se deveriam rejeitar, não por serem ímpias, mas por serem sediciosas”. E refere mais uma mão bem cheia de nomes e respectivos pareceres do universo das teorias, como Althusser, Badiou, Carl Schmit, John Grey, Wilde, Norman Cohen, Lutero, Kierkegaard, Heidegger, Agamben, Zizek e bastantes outros. Surpreendentemente, S. Paulo e todo o seu zelotismo messiânico, por isso, anti-humano histórico, é a grande estrela do Livro. De modo que, neste universo das teorias e das doutrinas originárias do cristianismo paulino, não se chega sequer a dar por Jesus, muito menos, pelo seu Projecto político maiêutico de sociedade, pela sua Fé não-religiosa e pela sua Teologia, a única na história da Humanidade, que ousa prescindir da “hipótese Deus” que, para nosso mal, nos acompanha desde os primórdios da Humanidade, quando, afinal, a realidade das realidades somos nós, os seres humanos consciência, na nossa máxima fragilidade. E que, só religados uns aos outros ao modo dos vasos comunicantes, damos corpo a um Mundo plena e integralmente Humano. Fora do qual não há salvação!

Edição 132, Novº 2017

Mundial Agenda

LATINO-AMERICANA 2018

Igualdade de género

Está já à disposição de quem a não dispense na sua secretária de trabalho ou na mesinha de cabeceira do seu quarto, a LATINO-AMERICANA 2018. É Agenda-Livro mais bem conseguida no mundo. Porque temática. E não qualquer temática. Mas a temática antropológica-teológica que, em cada novo ano, está mais na berra e que urge aprofundar para transformarmos o nosso ser-viver quotidiano de seres humanos e povos das nações em ser-viver mais humano e sororal-fraterno. Em 2018, a temática escolhida, mais do que oportuna, imperiosa e urgente, é a “Igualdade de género”. Absolutamente imperdível!

“Um deputado europeu afirmou que as mulheres ganham menos, porque são fracas, burras e menores do que os homens. Já era 2017. Um deputado brasileiro declarou que só não estupraria uma colega porque ela não merecia, já que era feia e não fazia o seu tipo. Era 2016. Esse mesmo deputado afirmou que o envolvimento de seu filho com uma mulher negra seria promiscuidade. Era 2011. E que tinha quatro filhos homens e que teria fraquejado na última, que nasceu mulher. No mesmo ano afirmou que «ninguém gosta de homossexual, a gente suporta». Um amigo dele, que além de deputado é também pastor, declarou que o reconhecimento do direito das mulheres gera crise na família e incentiva a homossexualidade. Era 2013. Etc Etc Etc.”

É com estas “pérolas” de nascidos de mulher absolutamente dementes que abre a LATINO-AMERICANA 2018 em português do Brasil, traduzida do original hispano-americano, uma edição conjunta do teólogo e presbítero José María-VIGIL, do Panamá, e do Bispo emérito de São Félix do Araguaia, Brasil, Pedro Casaldáliga. Os autores daquelas absurdas afirmações nem chegam a dar-se conta de que, com elas e com os seus consequentes comportamentos sócio-politicos passam um atestado de “puta” às suas próprias mães. É o cúmulo da demência humana, a comprovar que o Poder, nas mentes onde entra e se aloja, mata o ser humano, filho de mulher, para colocar em seu lugar um ser vivo filho do Poder que, em linguagem teológica, tem tudo de “puta” gerador de filhas e filhos em tudo iguais a ele.

A Latino-Americana 2018 mantém-se fiel ao método transformador da realidade, o famoso “Ver-Julgar-Agir. Vem precedida e entremeada , de múltiplos Textos que nos descrevem a realidade tal-qual ela hoje se nos apresenta, seguidos de outros Textos que analisam antropológica e teologicamente a realidade actual e, na terceira parte aparecem Textos que nos deixam pistas para transformarmos a realidade, juntamente, com a nossa própria transformação individual e grupal. A tarefa é ciclópica, mas imperiosa e urgente. Sob pena de colapsarmos como Humanidade, quando, afinal, a Vida, no decurso da Evolução nas faz acontecer na história com a missão de Cuidarmos de nós, uns dos outros e do próprio planeta Terra, a nossa Mãe comum.

Dos Textos mais conseguidos e absolutamente imperdíveis desta Latino-Americana 2018, destacam-se “Perolas sobre a mulher no cristianismo”, da responsabilidade do Livro-Agenda Latino-Americano (pg 20-21); “Vivemos muito mais tempo com Deusa do que com Deus”, de José Maria VIGIL (pgs 38-39); “Qual é o sexo forte?”, de Ramón Nogués Carulla, Barcelona, Espanha; “Natureza e Deus, feminina e masculino? Uma nova visão” , de José María VIGI (pgs. 42-43)L; “Género na gramática da vida e no cristianismo”, de Ivone Gebara, São Paulo-Brasil (pgs 44-45); “Meu lado Mulher”, de Frei Betto, São Paulo-Brasil (pg47); “Maria de Nazaré ou a Virgem?”, de María López Vigil, Manágua-Nicarágua (pgs 66-67); e da mesma Autora, “Onde Deus é Homem...” (pgs 90-91).

Como se vê, por esta breve resenha, estamos perante uma Agenda-Livro indispensável. (Contactos, para possíveis encomendas da edição do Brasil: justpaz@dominicanos.org.br; Facebook: justpazop Brasil; Skype: juspazopgyn).

Edição 129 Junho 2017

FONTANAR / Heródoto Barbeiro e Frei Betto

O BUDISTA E O CRISTÃO

um diálogo pertinente

São 122 páginas. Sem divisão em capítulos. O diálogo aparece contínuo. Ainda que o acto de o protagonizar tenha ocorrido, com intervalos, ao longo de três dias, no convento dos frades dominicanos em São Paulo, onde os dois voluntariamente se trancaram. Ambos são jornalistas e seres humanos nascidos de mulher. Une-os uma grande amizade, mas um é budista (Heródoto Barbeiro) e o outro é cristão (Frei Betto). Este facto, assumido por ambos como natural, é o que há de mais anti-natural. Porque divide e separa o que nasceu unido, há-de crescer unido e ficar definitivamente unido, no momento de morrermos = darmos o nosso derradeiro sopro. Estranha-se que nenhum dos dois se dê conta do facto, para se deixar interpelar por ele. É que todas, todos somos nascidos de mulher, ainda que em distintas culturas e tradições, regiões geográficas e climatéricas. Pelo que o único denominador comum que há-de unir todas as diferenças é o Humano. De modo que tudo o que vier a sobrepor-se a este dado essencial atenta contra a única Humanidade, constituída por múltiplos povos e línguas.

O Livro é um exercício de erudição, muito interessante, nomeadamente, para o pequeno universo dos eruditos, ou intelectuais, a maior parte dos quais, infelizmente, não-orgânicos. O que agudiza ainda mais a erudição que assim pode fazer perder muitas vidas como a água por entre os dedos das mãos. São assim as vidas que, do princípio ao fim, lidam sobretudo com conceitos, com palavras, com ideias, com doutrinas, com teorias, filosofias e teologias, quando o imperativo ético é de crescermos de dentro para fora e fazermos crescer de dentro para fora todas, todos os mais aos quais estamos religados. De contrário, o que sai sempre a ganhar é o sistema de Poder, hoje financeiro global, que tem nos intelectuais não-orgânicos os seus maiores aliados, sem os quais, jamais conseguiria conter as multidões de empobrecidos e de oprimidos que científica e criminosamente produz.

Aparentemente, Buda e Jesus são as duas figuras centrais do diálogo entre estes dois especialistas no manejo do verbo. Em boa verdade, não são bem eles, mas sim a visão que o budista independente, Heródoto Barbeiro tem de Buda e a visão que o cristão, frade dominicano leigo, Frei Betto tem de Jesus. E estas duas visões dão-nos um Buda e um Jesus que ambos se esforçam por apresentar com muitos pontos em comum. Quando a verdade histórica diz que entre Buda e Jesus há um abismo. Basta dizer que um – Buda – nasce de uma família super-rica e morre aos 80 anos de idade e é o fundador de uma via de salvação chamada “a via do meio”, enquanto Jesus é desprezivelmente referido pelos seus conterrâneos de Nazaré, como “o camponês-artesão, o filho de Maria” e não morre de velhice, mas é morto na cruz do império e com isso fica maldito para sempre. De modo que a sua via é inevitavelmente “a via de porta estreita”, pois como ele próprio reconhece, “Larga é a porta que conduz à perdição e muitos são os que entram por ela”.

O que sabemos hoje de Buda, nascido há uns 2500 anos, é sobretudo lendário. Bem se pode dizer que hoje há por aí Budas para todos os gostos, desde os gordos aos magros, porque a tanto se presta a “via do meio” que busca a perfeição pela perfeição, no esforço individual do despojamento, como se as coisas criadas para nós fossem impuras. Neste particular, há sem dúvida uma grande semelhança entre budistas e cristãos, uma vez que o Cristo ou Messias do cristianismo é um mito bíblico, criado pela dinastia de David, do qual Jesus, o filho de Maria, ostensivamente se afasta e por isso acaba traído até pelo grupo dos Doze que ele próprio havia escolhido um a um para andarem com ele. Já o Jesus histórico é imanipulável. Assim como as suas históricas práticas económicas e políticas maiêuticas.

Por isso Jesus, ao contrário de Buda, tem muito poucos seguidores e ainda hoje, dois mil anos depois de ter sido crucificado e morto em Abril do ano 30 , continua a ser o grande desconhecido, assim como o seu Projecto político ou Evangelho de Deus que nunca ninguém viu e por isso também não conhece. Conhecido e com muitos seguidores é o mítico Cristo ou Messias davídico, assim como o evangelho de S. Paulo que lhe serve de fundamento doutrinal.

Mas atenção. Com isto que aqui fica dito, não se apressem a concluir que o Livro não tem interesse. Muito pelo contrário. Trata-se de um Livro que é obrigatório ler-debater. Para percebermos melhor o tipo de mundo em que nascemos e que, apesar de intrinsecamente perverso, nós o temos como o único mundo possível. Também por culpa de Buda e de Cristo, dos budismos e dos cristianismos. De resto, o Livro lê-se como um romance. E bem se pode dizer que de um romance se trata, porque os dois autores, embora lidem com nomes históricos, Buda e Jesus, acabam por dar-nos mais conteúdos míticos e lendários, do que históricos e reais. Ora, como garante Jesus, o do Evangelho de João, só a realidade-verdade nos faz livres, por isso, plena e integralmente humanos. Enquanto as doutrinas e os sistemas de doutrina nos fazem eruditos, por isso, louvados, reconhecidos e até premiados pelos grandes do Poder e seus institucionais. Cuidemo-nos!

ANFITEATRO / Frei Betto

OFÍCIO DE ESCREVER

O Autor, sobejamente conhecido dos leitores, elas e eles, do Jornal Fraternizar, porque seu colaborador gracioso quase desde o início da sua publicação, primeiro, em suporte papel (23 anos) e ultimamente em suporte digital, começa por se interrogar, “Por que escrevo?” O Texto é o primeiro de 13 Textos que constituem o capítulo 1, “Do ofício de escrever”. O Livro tem mais 3 capítulos: o capítulo 2, “Literatura e espiritualidade” (quatro Textos); capítulo 3, “Literatura e política” (quatro Textos); capítulo 4, “Aprender a ler” (cinco Textos); e ainda um Texto solitário, a concluir, com o sugestivo título, “Eu, o livro”. São pérolas da literatura portuguesa do Brasil, tecidas pelas mãos de um Escritor maior, tanto em quantidade, como em qualidade e variedade de géneros literários.

Incluído este, escrevi 60 livros ao longo de 45 anos, fora aqueles nos quais participo como coautor. Redijo de sete a oito artigos jornalísticos por mês. E... por que escrevo?” A esta pergunta, o Autor soma múltiplas hipóteses de resposta não excluentes. Uma das mais surpreendentes, diz assim: “Escrevo para ser feliz. Bartheneanamente, para ter prazer. Sabor do saber: Tecer textos. Tanto que, uma vez publicado, o texto já não me pertence. É como um filho que atingiu a maturidade e saiu de casa. Já não tenho domínio sobre ele. Ao contrário, são os leitores que passam a ter domínio sobre o autor e sua obra. Nesse sentido, toda escritura é uma oblação, algo que se oferta aos outros. Oferenda narcísica de quem busca superar a devastação da morte. O texto eterniza o autor.”

Frei Betto, dominicano leigo, grande intelectual de renome internacional, faz questão de se dizer cristão, sem se aperceber que,depois de dois mil anos decristianismo, urge passarmos de cristãos a humanos, sob pena de perdermos a alma, a identidade. Nesse sentido, revê-se no Evangelho de S. Paulo e na sua visão do mundo e dos seres humanos nele. Sobrevaloriza naturalmente o conceito, a palavra, como faz o cristianismo paulino e petrino, e revê-se, com gosto, na tradução canónica para português do início do Evangelho de João, “No princípio era o verbo”, o logos grego, a língua de Platão e de Aristóteles e, antes deles, de Sócrates, em que estão escritos os Livros do chamado Segundo Testamento bíblico e também a conhecida versão Septuaginta dos dois Testamentos da Bíblia. Só que o logos com que abre o Evangelho de João não é, como repetem à saciedade os cristianismos e suas igrejas cristãs, o verbo, a palavra, a doutrina, mas a Fragilidade humana desarmada (sarx em grego) feita Acção/prática política maiêutica, de seu nome histórico, Jesus Nazaré que, de tão incómodo para os detentores da palavra, do verbo, do discurso, do poder, acaba crucificado na cruz do império romano, em Abril do ano 30. E, ainda hoje, não tem lugar neste tipo de mundo que tem por pai o cristianismo petrino, paulino, constantiniano e papal, cuja palavra “ex cathedra” é dogma, por mais que choque com a realidade-que-se-vê.

É deveras elucidativo que o primeiro Texto do capítulo dedicado à espiritualidade, “Literatura e experiência de Deus”, o Autor comece por escrever, “Embora a música seja, em minha opinião, a mais sublime das artes, a literatura é a mais sagrada. Deus a escolheu para, através dela, se revelar a nós. Escolheu uma escrita, a semítica, e um género próximo da ficção, pois em toda a Bíblia não há uma única aula de teologia, um ensaio doutrinário, um texto conceitual. É toda ela uma narrativa pictórica – vê-se o que se lê.” Aqui caberia perguntar de que Deus falam os livros da Bíblia, desde o Pentateuco hebraico às Cartas de S. Paulo, o judeo-cristão ou messiânico nascido e educado em Tarsis, uma cidade da Grécia, ao tempo, colónia do império romano, que lhe garantiu o privilegiado estatuto de “cidadão romano”. Obviamente, não é do Deus que nunca ninguém viu e que se dá a conhecer exclusivamente na Fragilidade humana desarmada, de seu nome, Jesus, o filho de Maria, não em Cristo, o filho de David, por isso, o poder e todos os seus agentes históricos.

Literariamente belíssimo é o Texto, “Eu, o livro”, com que encerra esta obra, a todos os títulos recomendada, inclusive, a quem pretenda ser escritor e leitor à altura dos tempos que correm e que tanto assassinam a língua portuguesa, uma das mais faladas e mais maltratadas do mundo. “Sou muito especial. Minha tecnologia é insuperável. Funciono sem fios, bateria, pilhas ou circuitos eletrónicos. Sou útil até mesmo onde não há energia elétrica. E posso ser usado mesmo por uma criança: basta abrir-me.”

Corram, pois, por este Livro e deliciem-se com a sua leitura. Sem deixarem de discutir com o Autor, sempre que se justificar. Porque -nunca é demais lembrar – no princípio não é o verbo, a palavra, o discurso, mas a Actuação /Acção, concretamente, as Práticas políticas maiêuticas. Por isso, Pratico, logo Sou, e não, Penso, logo existo.

Edição 122, Novembro 2016

LATINO-AMERICANA 2017 mundial

Ecologia Integral

RECONVERTER TUDO

É a sempre desejada e acarinhada Agenda Latino-Americana 2017. Em versão Português do Brasil. Infelizmente, ainda não há em versão Português de Portugal. A versão original é em castelhano, o idioma dos antigos colonizadores, de todos os países da chamada América Latina, à excepção do Brasil. Cada ano, uma temática. A de 2017, é a Ecologia. Em mais um esforço para acudirmos ao sofoco da nossa Casa comum, em risco de se tornar no nosso Necrotério comum, tantas e tamanhas são as agressões que os grandes grupos económico-financeiros impunemente cometem cada vez com mais fúria sem que nada, ninguém os detenha! Com todas as culpas – haja coragem e lucidez para o dizer – para o judeo-cristianismo, versão católica romana e protestante e sua Bíblia que insiste em apresentar como mandamento primeiro de Deus, “Crescei, multiplicai-vos e DOMINAI a Terra”, em lugar de “Crescei, multiplicai-vos e CUIDAI da Terra. Apenas um verbo e os estragos, os crimes sem perdão a que tem conduzido. Esta civilização judeo-cristã é perversa desde raiz e nem neste início do Terceiro Milénio damos conta de que é preciso desistir radicalmente dela, da sua teologia, do seu Deus, para praticarmos Jesus terceiro milénio, a sua Fé, seu Deus Abba-Mãe e de todos os povos por igual.

A edição em Português do Brasil tem a chancela da Comissão Dominicana Justiça e Paz, a quem se pode e deve encomendar exemplares, via e-mail: justpaz@dominicanos.org.br ou Skype: justpazopyn, ou Fb: justpazopbr. “Como há 800 anos – lê-se no texto de abertura – a Família Dominicana sente-se desafiada a combater a heresia [neste nosso hoje, a heresia] do consumo, da degradação ambiental e da desigualdade social.” A edição Brasil da Agenda já acontece há 20 anos e tem tido sempre a sua chancela. “Esta é uma forma de testemunhar os mesmos valores que guiaram Domingos e que são hoje desafios nossos: uma denúncia das heresias do consumo e um apelo de Conversão Integral”.

Felizmente, a Agenda 2017 conta ainda com a Palavra, “À Maneira de introdução fraterna”, do co-fundador, Pedro Casaldália, Poeta e Bispo emérito da Prelazia S. Félix do Araguaia: “Apesar do facto de a consciência ecológica crescer no mundo inteiro, ainda não há vontade política nas sociedades nem em seus governos, nem dinâmica suficiente na opinião pública para a mudança que exigimos. Pode-se dizer que em geral seguimos filiados à velha visão, a qual causou o problema. Ela ainda está aí, activa e hegemónica. E a Eatwot tem razão: enquanto seguirmos sendo o mundo com a velha visão, não abandonaremos a atitude cómoda e suicida de destruir a natureza por um suposto e idolatrado «crescimento económico»”

A verdade – e isto nem a Agenda consegue ver-realçar – é que o judeo-cricstianismo é o pai de todo este agir contra a Natureza, contra a Vida, contra o Cosmos, contra a Humanidade. O cristão é o poder monárquico absoluto e infalível, que não aceita o outro, não reconhece o outro. Sempre o submete, explora, mata. Só não se nos mostra em toda a sua estrutural crueldade, porque habilmente integrou, a modos de moralismo, alguns dos valores do Evangelho de Jesus, que lhe dão aquela máscara de alguma bondade e até de contestação do Sistema que ele próprio – ironia das ironias! – gerou. E com isso tem conseguido levar a água ao seu moinho, inclusive, junto dos intelectuais mais, social e politicamente, comprometidos, teólogos da libertação incluídos. O que só revela até onde vai todo o seu poder de sedução e de tentação dos seres humanos. É bem o Pecado do mundo que só quantas, quantos vivem na peugada de Jesus Nazaré contra o mítico “Cristo-da-fé” davídico conseguem ver, sem que, entretanto, os demais – a esmagadora maioria – os tomem a sério. Como, de resto, a própria Agenda – apesar de toda a sua abertura – deixa bem a nu. Com tristeza e preocupação o constato e escrevo.

Antes da Agenda propriamente dita e dos muitos Textos de especialistas semeados ao longo de todo o ano 2017, a Agenda apresenta-nos 7 capítulos, subdivididos em bastantes tópicos, cujos títulos e subtítulos aqui se reproduzem, para vermos quão oportunos eles são e quão valiosa, apesar dos pesares, é esta Edição 2017, a não a perder, a título nenhum. Eis:

1 Ecologia integral, muito mais do que ambientalismo (ambientalismo, atitude ecológica incompleta; Atitude ecológica radical; Comparação entre as duas atitudes ecológicas; Atitude ecológica integral; Visão holística). 2 Nova cosmologia, o que mais nos está a transformar (Carentes de explicação e sentido; Para a acção; Reconverter tudo). 3 Nova visão do mundo (Outra visão da vida; A biosfera; Num mundo novo). 4 Nova visão de nós mesmos (Somos Terra; Vermo-nos de forma diferente; Fim do dualismo tradicional; Mudança do “lugar cósmico”; Transformações associadas). 5 Nova visão, inclusive do espiritual (Valor pedagógico-espiritual do cosmos; Holismo: tudo unido sem dualismos; Abertos à dimensão espiritual do cosmo; Eco-espiritualidade: experiência espiritual; Eco-espiritualidade transformadora; Eco-espiritualidade e práxis). 6 A máxima urgência de tudo isso (Resistência perante a Mudança Climática; O ponto de não-retorno; Por duas razões fundamentais; Uma ideologia económica hegemónica; Ousamos dizer a verdade: estamos na emergência). 7 Ecologia integral em nossa prática (A grande transformação; Uma mudança radical do sistema energético; Uma mudança de estilo de vida; Uma opção pelo decrescimento; Nova visão integralmente ecológica; Metodologias militantes; Diversas outras sugestões pela rede).

Entre os muitos autores de Textos-reflexão, no VER, no JULGAR e no AGIR, alguns são já bem nossos conhecidos como colaboradores do www.jornalfraternizar.pt. A saber: Leonardo Boff (Não à ecologia ambiental, sim à ecologia integral; Sentir com o coração e viver com a alma); Ivone Gebara (Dengue, Chicungunha, Microcefalia e mulheres: Clamor ecológico); José Maria Vigil, co-fundador e coordenador da Agenda (Cuidado com o planeta e eco-espiritualidade);Marcelo Barros (Ecologia integral e espiritualidade trans-religiosa) Frei Betto (Ecologia interior).

Concluo esta recensão da Latino-Americana 2017, com mais uma citação de Pedro Casaldáliga, destacada na contracapa plastificada: “Somente poderemos deter o desastre climático se em um tempo recorde conseguirmos transformar a sociedade actual imprimindo-lhe uma nova cultura profundamente ecocentrada. Após a Cúpula de Paris, talvez seja a última oportunidade para salvar a vida do Planeta tal como hoje a conhecemos. Vale a pena.” Cabe-nos, agora, a todas, todos nós a palavra. Sobretudo, agir em conformidade, cada dia do nosso viver na história.

*** *** ***

Edição 120, Setembro 2016

Frei Betto / Fontanar

FIDEL E A RELIGIÃO

Conversas com Frei Betto

Na contracapa do livro, lá está a foto do recente encontro do papa Francisco com Fidel Castro, no momento em que este lhe oferece um exemplar autografado da obra, agora em nova edição no Brasil. Ao papa move-o, porventura, a secreta esperança de ainda vir a ver o símbolo máximo da mais original e genuina Revolução do século XX deixar de ser assumidamente ateu, para se converter à fé cristã católica, a mesma dos Padres Jesuitas, cujo colégio em Cuba ele frequenta na sua adolescência e da qual, já então, se afasta para sempre. Felizmente, a lucidez do anfitrião e todo o seu espantoso percurso de vida nunca permitirão semelhante passo atrás no ser-viver histórico deste filho de mulher. Para Fidel, como para Jesus, o filho de Maria, não é o ateísmo em si que o aflige e preocupa, mas a ggrande idolatria em que todo o Ocidente e o mundo em geral estão hoje mais mergulhados do que nunca. Que a tanto nos conduziu e conduz o cristianismo petrino e paulino e o catolicismo romano papal imperial.

Aliás, o cristianismo é, em si mesmo, a idolatria feita sistema, como, de resto, surpreendentemente se depreende – vejam só! – destas longas Conversas que Fidel aceitou manter com Frei Betto, já nos idos da década de oitenta, a altura em que aparece a primeira edição desta obra singular, com tudo para ser o best-seller que veio a ser. E a prova está aí bem à vista: o livro está traduzido em 20 idiomas e editado em 32 países, conta dezenas de edições no Brasil e mais de 1 milhão e 300 mil exemplares vendidos só em Cuba. Três décadas depois, a obra de 349 páginas mantém-se actualíssima e revela-nos um Fidel de todo desconhecido, um ser humano de uma grandeza de carácter fora de série, que os seus inúmeros detractores, amantes do Dinheiro e do Poder, conseguiram escamotear e esconder, todos estes anos, o que perfaz uma intolerável intelectual e um crime sem perdão.

Bem se pode dizer, para grandeza da obra e do trabalho do Autor, que o título, Fidel e a Religião, é manifestamente redutor. Desengane-se, pois, quem pensa que é um Livro beato. Nem que o Autor, na altura, tivesse, porventura, querido levar por aí o seu entrevistado, que não é manifestamente o caso, este nunca se teria deixado confinar a esse terreno do cristão e do religioso que conhece como poucos e, só por isso, é o ateu convicto que se conhece. Ateu do Deus todo-poderoso do cristianismo e das religiões, o único que, desde o leite materno até aos nossos dias, lhe foi dado conhecer. Nem mesmo a teologia da libertação que, em dado momento, o surpreende e fascina, foi capaz de lhe testemunhar, mediante práticas económicas e políticas alternativas às do sistema do grande Capital e do Poder, nos três poderes em que historicamente subsiste, Deus que nunca ninguém viu e que se nos dá a conhecer no ser-viver-actuar histórrico de Jesus Nazaré, o filho de Maria. E também no Projecto político que ele próprio é e pratica, por sinal, bem mais próximo da Revolução dinamizada e conduzida por Fidel e seus companheiros, do que o próprio Estado do Vaticano e o papado, mai-la sua Cúria romana, a negação histórica absoluta de Jesus e do seu Evangelho.

Nas Conversas que Frei Betto, o de há 30 anos, tem ao vivo e presencialmente com Fidel, sente-se uma grande preocupação em mostrar ao carismático líder da Revolução cubana um tipo de Cristianismo que se preocupa com os pobres e, até, com as causas da pobreza em massa, mas Fidel não embarca nesse tipo de discurso e de doutrina em que são peritas as igrejas cristãs e as religiões, todas de cócoras perante o Poder, elas próprias, um dos pés do tripé do poder. Fidel não é, nunca foi homem de se ficar por ortodoxias, como os mestres da teologia da libertação. É homem de ortopraxias, e isso faz toda a diferença. É caso, até, para dizer que se, na altura, Frei Betto, mandatado pelos Bispos para esses contactos com Fidel, ia por lã, saiu tosquiado. Se ia com intuitos de evangelizar Fidel saiu evangelizado por ele.

Aliás, o ateísmo de todos os deuses e deusas que se alimentam de gente e se agradam de vítimas humanas e outras, é – tem de se dizer – o primeiro passo para alguém poder experimentar-se habitado e animado pela mesma Fé de Jesus Nazaré, o de antes do cristianismo. O que a Fé de Jesus não suporta é a idolatria. E idolatria é o que a generalidade das igrejas cristãs e das religiões mais sabe praticar. Para seu mal, da Humanidade e do Planeta Terra, como, de resto, estes primeiros anos do terceiro milénio aí estão a revelar-nos à saciedade, sem que elas se aflijam, ocupadas que vivem com os seus ritos, as suas missas, as suas rotinas, os seus templos e altares, as suas vaidades clericais, do topo da pirâmide, o Papa de Roma, à base da pirâmide, os párocos, funcionários de Deus. Dos “fiéis leigos”, elas e eles, fala-se aapenas nos documentos do Concílio Vaticano II, mas nem assim eles passaram a ser igreja com voz e vez. Apenas a hierarquia o é. Os leigos não passam de objecto do cuidado pastoral e, sobretudo, da usura dos seus pastores, quase todos mais mercenários do que pastores.

Um dos múltiplos momentos emocionantes do Livro acontece, quando Fidel e alguns dos seus companheiros se vêem cercados e presos pelos soldados do Exército do ditador Baptista. A planeada Revolução podia ter acabado ali, com o assassinato de Fidel e dos que estavam com ele. Não acabou, graças à corajosa e lúcida intervenção de um tenente do exército do ditador e tirano: «Não disparem, não disparem», diz com voz de comando.. “Impôs-se aos soldados, enquanto repetia em voz baixa: «Não disparem, as ideias não se matam». Três vezes aquele homem repetiu: «As ideias não se matam». Por caso, um dos dois companheiros era maçom. Trata-se de Oscar Alcalde, que está vivo e hoje preside o Banco da Poupança. Financista, era ele quem controlava os fundos do Movimento. Resolveu dizer ao tenente que era maçom. Isto surtiu efeito, pois havia muitos militares maçons. Bem amarrados nos levantaram e levaram. Impressionara-me a atitude daquele tenente e, depois de caminharmos um pouco, chamei-o e disse: «Vi como senhor procedeu e não quero enganá-lo, eu sou Fidel Castro». Ele me advertiu: «Não diga nada a ninguém».” (p. 160).

Estamos, como se vê, perante um Livro maior, um Livro imperdível. Dêem-se a si próprios esta pérola. Alimentem-se culturalmente com a sua leitura. Ficam aqui os contactos da Editora: Telefone, (11) 3707 3500; Fax, (11) 3707 3501; www.facebook.com/Fontanar.br

*** *** ***

Edição 119, Junho 2016

Enrique Dussel / Editorial Trotta

14 TESES DE ÉTICA

Para a essência do Pensamento Crítico

São pouco mais de 200 páginas, tecidas em duas partes complementares, mas que no sentir-dizer do próprio Autor constituem algo radicalmente novo no pensamento filosófico da Humanidade, dos Povos. Um caminho ainda não andado pelas Universidades da Europa, do Ocidente, do Mundo, mas que começa a ganhar forma de Tese, neste Livro, nascido na conquistada, roubada, humilhada, assassinada América Latina, a partir do México, onde vive e lecciona o Autor, já professor emérito, por demais conhecido entre filósofos, teólogos e mestres de ciências sociais e antropólogas de libertação. Há que reconhecer, então, que este é um trabalho inovador, de investigação metódica, acessível a verdadeiros amigos da Sabedoria praticada – a única Filosofia que vale a pena desenvolver, praticar, ensinar. Já que as filosofias que por aí se ensinam e divulgam, concretamente, na sua vertente moral e ética, são mais do mesmo, fporque ilosofias do Sistema dominante, nunca das suas inúmeras vítimas. Melhor fora por isso que nunca tivessem sido,paridas, desenvolvidas, divulgadas, seguidas.

“O paradigma da libertação, seu conceito nuclear e a consideração de noções ligadas ao seu conteúdo, constitui o tema de uma nova filosofia que mundializa a sua reflexão crítica, que se faz presente em África, em alguns países de cultura árabe, na Índia, na Europa, nos Estados Unidos (especialmente entre latinos e afros) e na maioria dos países latino-americanos, no Sul epistemológico e geopolítico, no dizer de Boaventura de Sousa Santos, observando-se uma crescente produção filosófica nesta tradição em diversas línguas e culturas”. É com este surpreendente parágrafo, onde sobressai o nome do intelectual português vivo mais politicamente comprometido com a Causa Maior, a das vítimas dos sistemas de poder, hoje, global, condenadas a um iver vale de lágrimas, como se um tal estado fosse da natureza das coisas, da realidade, quando é o crime dos crimes, a vergonha das vergonhas, a galopante descriação da vida humana e de toda a vida no planeta Terra, cada vez mais nosso inferno comum, quando deveria ser a nossa Casa Comum.

Mas quando até o papa Francisco, escreve no Twitter que a nossa comum é o céu, não a Mãe-Terra e o Cosmos que ela integra, está tudo dito. E o papa escreve-divulga esta aberração precisamente no primeiro dia do verão 2016. A revelar, à saciedade, que a Filosofia e a Teologia por que ele próprio se rege pode ser muito moral, mas não é ética, no sentido inovador que o Autor deste magnífico e espantoso Livro nos apresenta. É uma filosofia-teologia-moral que justifica o Sistema que produz vítimas em série, e canoniza os seus mais fiéis servidores, dos quais ele é o primeiro de todos. E não pode ser por ingenuidade, porque é latino-americano, o Continente que a Europa cristã-católica-e-protestante conquistou, massacrou, roubou, escravizou. E, cinco séculos depois, ainda continua essa perversão, só que por outros meios mais efecientes, mas não tão manifestamente cruéis e sádicos, como os dos primeiros séculos.

Utilizei este livro como apontamentos para as minhas aulas de ética, no primeiro semestre da carreira de filosofia. Porque são para jovens estudantes que começam os estudos, procurei explicar as questões de maneira mais simples possível. Sem deixar de fazer referência a outras obras minhas que podem permitir aos estudantes, quando mais avançados, ampliar a temática exposta.” A informação é do próprio Autor do livro, logo a abrir o Prólogo. Na verdade, Enrique Dussel é catedrático de Filosofia Política no Departamento de Filosofia da UAM-Izetapalapa (México) e dá cursos na UNAM, México. É Doutor em Filosofia pela Universidade Complutense de Madrid e da Sorbone de Paris, além de Mestre em Estudos da Religião pelo Instituto Católico de Paris. Movimenta-se como poucos no universo do filosófico, conhece muito mundo, carrega com ele muitos debates. É o que se pode chamar uma Enciclopédia viva, um “monstro sagrado” da Filosofia, na vertente da Libertação.

O Livro desenvolve-se em duas partes complementares. A primeira, A MORAL DO SISTEMA, subdivide-se em 8 teses: 1, A Ética como teoria geral dos campos práticos; 2, A ontologia prática fundamental; 3, A acção humana e as mediações práticas; 4, O nível institucional da Moral; 5, O princípio material da moral; 6, O princípio formal da moral; 7, O princípio de factibilidade moral; 8, A pretensão moral de bondade a a ordem vigente. A segunda parte, A ÉTICA CRÍTICA, integra as restantes Teses do Livro: 9, A exterioridade do Outro/a. A Ética como a meta-física prático-crítica; 10, A interpelação. Os princípios ético-críticos negativos; 11, A práxis de libertação I e a deconstrução institucional; 12, A praxis de libertação II e a criatividade institucional; 13, Os princípios ético-críticos positivos; 14, A pretensão crítica de bondade e a nova ordem alternativa. O Livro encerra com um Epílogo intitulado “O paradigma de libertação.

Tudo neste Livro é surpreeendente e de todo inabitual nas obras e nos textos de filósofos. Pela primeira vez, há um um filósofo que se levanta do mundo das vítimas e ensaia um Filosofar que emerge desse mundo e vai interpelar a Filosofia do mundo que as fabrica-produz, hoje, de modo cada vez mais científico. E fá-lo em nível filosófico e bem fundamentado, como o pioneiro de um caminho ainda por abrir e que agora não pode mais ser fechado. Enquanto a Moral nasce e desenvolve-se no mundo dominante e o justifica e aos seus projectos e às suas decisões, por mais criminosos que sejam, a Ética da Libertação nasce e desenvolve-se no mundo das vítimas e a partir dele. O conflito entre Moral e Ética de Libertação é inevitável, como é inevitável o conflito entre os protagonistas de um e outro mundo.

Neste particular, percebe-se bem quanto o Autor anda ainda negativamente marcado na sua formação filosófica pelo cristianismo que há dois mil anos produz e justifica o mundo dominante. Consequentemente, também o mundo das vítimas. Utiliza sobejamente nestas 14 Teses o que ele chama de mitos bíblicos, como o Êxodo, o Deserto, Moisés, Aarão, Josué e a Terra Prometida. E, consequentemente, Paulo de Tarso, nomeadamente a sua Carta aos Romanos. Sem nunca se aperceber que o messias-cristo do Evangelho de Paulo Tarso, de todo incompatível com o Evangelho de Jesus, o filho de Maria, é mais do mesmo, isto é, visa derrubar a ordem estabelecida para ficar só ele a reinar-dominar o mundo. A liberdade de que fala é a liberdade dos novos vencedores, porque não chega a fazer ruptura com o antes, apenas prossegue o antes com novos agentes. É um reformismo, não um Novo Nascer-Começo. Mudam os carrascos, as vítimas continuam. Chega a dar exemplos de “cristos” latino-americanos mais ou menos recentes que puseram fim às Colónias e criaram Estados indpendentes, sem nunca ver que os povos continuam impedidos de serem sujeitos dos seus próprios destinos. A violência armada chega a ser admissível em casos extremos e até necessária. Quando o fundamental, no ser-viver-actuar-político-económico de Jesus Nazaré, o filho de Maria, é mudar de ser e de Deus.

A Revolução é antropológica-teológica, ou não será. Traz umas melhoras nos primeiros dias, meses, mas, depressa, volta tudo ao mesmo, quase sempre pior do que antes. Como de resto adverte Jesus, o ser humano pleno e integral que não tem lugar no Judaísmo nem no cristianismo nem no império romano, onde só funciona a Moral, nunca a Ética de Libertação: “Quando o espírito imundo (= ideologia-teologia do mundo dominante) sai de um homem (= um povo), anda por lugares áridos em busca de repouso. Como não encontra, decide tomar outros sete (= a totalidade) espíritos piores do que ele e o estado daquele homem (= povo) acaba pior do que antes”. Essa é que é essa! Fica aqui o reparo, a concluir esta recensão crítica. Com todo o carinho de irmão que faz questão de viver com os pés no chão das vítimas, não nos lugares do Sistema onde se planeia e decide a sua sucessiva fabricação em série. E lá diz o provérbio: Diz-me onde tens os pés e eu digo-te como pensa e o que pensa a tua cabeça. Eis.

Philippe Ariño / Desclée De Brouwer

A homossexualidade em verdade

Romper de vez com o tabú

O Livro tem 120 páginas e lê-se de um fôlego. É tecido, do princípio ao fim, de múltiplas perguntas formuladas pelo próprio Autor e outras tantas respostas dele, agrupadas em 3 partes ou capítulos, “1. A homossexualidade, o que é e o que diz em mim?; 2. Que fazer do desejo homossexual se o experimento de modo persistente?; 3. Se sou crente e homossexual, que fazer?”. O Prólogo, assinado pelo Arcebispo de Barcelona, Juan José Omella Omella, desfaz, de imediato, a possível surpresa que quantas, quantos poderiam sentir, ao deparar-se com um livro, cuja capa é toda ocupada pela foto de duas jovens em pose lésbica, traduzido do francês e editado por uma prestigiada Editora católica do Estado espanhol. Para cúmulo, e como quem quer evitar quaisquer confusões e problemas, antes mesmo de se abrir o Livro, há um pequeno parágrafo do Prólogo postado na contracapa que diz tudo sobre o conteúdo que nos espera lá dentro: “Estou certo [- Pudera, não, senhor arcebispo!... -] que este livro ajudará muitas pessoas a entender o que é exactamente a tendência homossexual e a evitar cair no sofisma de que não se pode ser feliz vivendo os ensinamentos da Igreja sobre moral sexual”. O Autor, por sua vez, assume-se como um intelectual católico de 35 anos, cantor e ensaísta homossexual, criador-editor dos blogs, “La Araña del Desierto” e “CUCH – Católicos Unidos Contra a a Heterossexualidade”.

À pergunta, “A homossexualidade é uma doença?”, o Autor cita uma curta afirmação de Freud sobre o assunto, para depois responder convictamente, “As palavras melhores que encontro para a definir são «ferida e medo». Tal e qual. A Homossexualidade é uma ferida, é medo. Não é uma doença, no dizer do Autor, mas ferida e medo. Melhor ou pior do que “doença”? E prossegue, impávido: “Muitas pessoas homossexuais, nos seus discursos e nas suas obras artísticas, descrevem-na claramente como uma cicatriz, uma lesão”. E, no seu douto saber de intelectual católico, acrescenta: “Uma ferida não define uma pessoa na sua totalidade. Não culpabiliza ninguém. É algo que se agarra à pessoa, certamente e às vezes de forma duradoira, que não se sabe quem a causou, nem de onde vem, nem quais são as causas.” Não sabiam?! Pois então ficam a saber.

O Livro é assim do princípio ao fim. Diz e não diz. Faz lembrar o discurso do papa Francisco, jesuita, concretamente, a sua Exortação “Amoris laeticia”. Ter-se-á o papa inspirado neste livro,j á existente em lígua francesa, à data em que ele a escreve ou apenas retoca-assina, como costuma acontecer com os grandes documentos papais? É que também nesse extenso documento sobre o amor conjugal, escrito por clérigos do topo da pirâmide eclesiástica, proibidos, como é sabido, por lei eclesiástica de constituir família, por isso, proibidos de conhecer experiencialmente o amor conjugal, o papa diz e não diz. Uma hábil, mas perversa, maneira de parecer que está a abrir portas, quando está a fechá-las ainda mais. Um método muito jesuítico, muito cristão, sem dúvvida, mas nada jesuânico, por isso, nada de plena e integralmente humano. Quem não vê?!

Da leitura do Livro, conclui-se que o Autor é homossexual assumido– portador da tal “ferida”, “lesão”, cicatriz”, “medo”, mas não é praticante. Embora leigo, optou pela lei do celibato dos clérigos maiores, entenda-se, os que renunciaram à sua condição de seres humanos, filhos de mulher. Porventura, a Lei eclesiástica mais anti-natureza e anti-Evangelho de Jesus e anti-Deus Criador de filhas, filhos livres e autónomos, senhores dos próprios destinos. Mas é assim que manda a doutrina da igreja católica em matéria de moral sexual. Uma doutrina manifestamente imoral. A tal doutrina que defende e propõe-impõe o arcebispo de Barcelona no Prólogo do Livro e que o Autor, pelos vistos, faz questão de praticar e divulgar um pouco por todo o lado em múltiplos debates...

Quem gostar desta via, gostará também deste Livro. Das perguntas que levanta e das respostas que avança a cada uma delas. Muitas das perguntas são oportunas, prementes, até. O mesmo já não se pode dizer das respostas. A moral sexual da igreja católica que o Autor tem de respeitar a isso o obriga. E sem ele sequer se aperceber, condiciona-o. O que se lamenta. Porque, em vez de ser um livro para os seres humanos, tais quais Deus Criador nos fez-faz, heterossexuais e LGBT, é um livro para os católicos fiéis cumpridores da moral sexual da igreja, em vez de fiéis à sua própria consciência, liberta de toda essa ideologia-teologia moralista que mata a matriz original que é cada uma, cada um de nós, irrespetível e único. É caso para reproduzir aqui, a concluir, aquelas sábias palavras de Jesus que a moral católica nunca entenderá, porque não entende nada de consciência humana, de liberdade, de seres humanos concretos, cultural e historicamente situados. Estas: “Quem puder entender que entenda”! Coisa que moral católica nunca entenderá, porque tão pouco consegue entender Jesus Nazaré. Eis!

XII Jornadas de Estudo / Fundação S. Justino-Editorial Trotta

FILIAÇÃO

Cultura pagã, religião de Israel, Origens dos cristianismo

A filiação em Clemente de Alexandria, Volume VI

Este é um daqueles livros que se editam para divulgar os TEXTOS de especialistas que intervêm em Congressos ou em Jornadas de Estudo. No caso presente, as XII Jornadas de Estudo sobre “A Filiação nas origens da reflexão cristã”, organizadas pela Faculdade de Literatura cristã e clássica S. Justino da Universidade Eclesiástica San Dâmaso, Madrid, em Novembro 2013 e 2014. Neste volume, as Jornadas tiveram em atenção as obras e o pensamento de um único Autor, precisamente, Clemente de Alexandria. Três nomes assumem a responsabilidade da edição do Volume, Andrés Saéz Gutiérrez, doutor em Teologia Patrística, Guillermo José Cano Gómez, licenciado em Filologia Clássica, e Clara Sanvito, também licenciada em Filologia Clássica. Já os autores dos Textos, uns mais longos, outros bem mais curtos, são muito mais do que os dedos das duas mãos.

É manifestamente uma obra de especialistas e para pessoas razoavelmente eruditas que ainda se interessem por este tipo de assuntos, quando já nos encontramos no início do terceiro milénio. Uma investigação-estudo a não perder, para podermos perceber ainda melhor – se bem que não seja essa a intenção dos promotores, nem dos intervenientes! – como é que o cristianismo se implantou no mundo helénico, de fala grega e chegou até aos nossos dias. Bem se pode dizer., à luz deste Volume, que Clemente de Alexandria conseguiu dizer em categorias filosóficas-teológicas gregas, então, a cultura dominante no império romano, o Evangelho de S. Paulo. Fê-lo com o intuito de conquistar para o cristianismo esse mundo erudito, mas a verdade é que acabou conquistado por ele. De Jesus Nazaré e do seu Evangelho, nomeadamente, das causas que levaram ao seu assassinato político na cruz do império romano, a cultura grega clássica não chega sequer a ouvir falar. E a verdade é que, dois milénios depois, Jesus e os motivos da sua morte crucificada continuam a ser de todo desconhecidos dos povos das nações, não apenas dos povos do Ocidente. O que explica bem o tipo de mundo com que hoje estamos confrontados e dentro do qual não há nenhum lugar para os seres humanos e os povos, apenas para os poderes, suas ideologias-teologias. Por sinal, cada vez mais laicas, ateias, agnósticas. Todas intrinsecamente violentas, sem carne nem sangue, sem corpos, sem rostos, sem identidade, sem voz nem vez, apenas almas, encenações, milhões e milhões de vítimas. Um tipo de mundo sem qualquer saída, que não seja a descriação cada vez mais galopante.

Não deixa de ser surpreendente que os muitos intervenientes nas XII Jornadas e os seus promotores e organizadores não se apercebam do material explosivo que proferiram e estão a divulgar agoraa com a ediçãao deste Volume VI. Só a multisecular cegueira ilustrada que campeia neste nosso mundo de sofisticadas tecnologias, que está na base das múltiplas universidades e suas faculdades e anda pacificamente alojada nas mentes dos mestres, doutores em filosofia, teologia, economia, artes, explica uma publicação destas e de muitas outras obras como esta. Quando os mestres e doutores são cegos ilustrados, formam sucessivas gerações de cegos ilustrados, postos depois como guias dos povos. E assim, de cegueira ilustrada em cegueira ilustrada avançamos até à cegueira total e completa. Em que aquelas, aqueles que saltam fora do sistema que cega e conseguem ver, têm de ser ostracizados, rotulados de loucos, herejes, endemoninhados.

Clemente de Alexandria, como S. Paulo, como o Credo de Niceia-Constantinopla e os cristianismos todos são manifestamente antípodas de Jesus Nazaré, mas como apresentados como o que há de melhor sobre a terra, são olhados e tratados como mestres e doutores, nunca como cegos. E mestres e doutores são, mas da cegueira ilustrada, a pior de todas as cegueiras, a mais descriadora do Humano. Por isso, sem nenhum lugar para Jesus Nazaré, a sua Fé maiêutica não-religiosa, a sua Teologia, o seu Deus que nunca ninguém viu. E sem nenhum lugar para as suas discípulas, os seus discípulos. Sem querer, este Volume tem o condão de pôr a nu Clemente de Alexandria, prosseguidor de S. Paulo, um desconhecedor de Jesus Nazaré, até, um anti-Jesus Nazaré. Compreende-se, pois, porque o cristianismo lhe dá tanta importância, o estude tanto e até o canonize. Mas para sua própria vergonha.

400 páginas tecem este Volume sobre a questão da “Filiação” que atravessa todo o cristianismo e a sua teologia-idolatria, a mesma que está na base deste mundo do início do Terceiro Milénio. Um mundo à deriva, povoado de mentes cegas, marionetes, canas agitadas pelo vento ideológico do poder financeiro, assassino dos povos. Atentemos, a concluir, no último parágrafo com que fecha este Volume e vejamos toda a perfídia que nele se diz, sem que ninguém, a começar pelo próprio autor do texto, estremeça. É com esta citação que se dá por concluída a recensão crítica, só possível a alguém dissidente da ideologia-teologia deste tipo de mundo. Eis: “A conversão [do paganismo religioso rimperial ao cristianismo] é, desde esta perspectiva, a aquisição de uma paternidade nova e descoberta, a de Deus, que por sua vez é mais originária e verdadeira que a [própria] paternidade biológica e material dos homens. A paternidade celestial e divina é verdadeira, legítima, originária e nova; a terrena e humana é enganosa, bastarda, derivada e velha. Ambas são oferecidas aos homens pela boca de Clemente: a eles cabe escolher a sua filiação.”

Um horror. Mais horror ainda, se já não damos por tal. É assim o cristianismo de Pedro-Paulo-Clemente de Alexandria. Negador do Humano que vê e proclamador do divino que não vê. Concretamente, negador de Jesus histórico que vê e crucifica-mata, e proclamador do divino que não vê e doentiamente projecta fora de si. E do qual fica refém do nascer ao morrer!

C. G. Jung / Editorial Trotta

Escritos sobre espiritualidade e transcendência

A finalidade desta antologia é oferecer as ideias fundamentais sobre o tema «espiritualidade e transcendência» da vastíssima Obra Completa de C. G. Jung.” A informação é de Brigitte Dorst, editora do Livro na sua versão original, na Introdução ao mesmo. A Obra Completa é bastante extensa, um total de 20 títulos, para lá de muitos seminários, autobiografia, epistolário e entrevistas. Este Livro é, por isso, o que se pode chamar uma oportuna selecção de textos, extraídos das Obras Completas, destinada a despertar nas pessoas que os leiam a decisão de mergulharem, com tempo, nas Obras Completas do renomado psiquiatra e psicólogo suiço, e o fundador da Escola de Psicologia Analítica. O Autor começou por ser fervoroso discípulo de Freud, mas veio mais tarde a romper com ele e iniciou o seu próprio percurso e, assim, deu origem a uma nova corrente, conhecida por “psicologia dos complexos”. Que consegue ver muito mais profundamente do que qualquer radiografia toda a complexidade-simplicidade que somos como seres humanos-em-comunhão com o Cosmos.

Desde a sua morte, em 1961, muita coisa mudou na compreensão dos seres humanos no cosmos, graças também aos estudos e às obras de Jung. Juntamente com Freud, a nossa compreensão hoje dos seres humanos é muito distinta da que perdurou, quase inalterada, durante séculos e milénios. Daí a importância deste Livro, sobretudo, para iniciados no pensamento de Jung. Igrejas e religiões, pastores de almas (párocos e pastores), filósofos crentes, não-crentes, biblistas, alcorânicos e teólogos, têm tudo a beneficiar com a Obra Completa de Jung. Este Livro de 276 páginas é uma boa introdução, dada a variedade e profundidade das temáticas escolhidas pela editora.

Na sua já referida Introdução à antologia, a editora é a primeira a reconhecer que “nas últimas décadas, na transição para o século XXI, acumularam-se imensos temas religiosos na consciência colectiva. Com isso, foi-se impondo um novo conceito, o de espiritualidade. Por trás dele, erguiam-se as velhas perguntas da humanidade. De onde vimos? Aonde vamos? Qual o sentido do nosso viver?, Quem ou o que somos, nós os humanos, neste cosmos? No âmbito da pscologia existia uma nova abertura e disposição a reconhecer a religiosidade e a espiritualidade como temas importantes. Produziu-se uma reviravolta, uma mudança de paradigma: a partir dos Estados Unidos começou a desenvolver-se a chamada psicologia transpessoal; a espiritualidade e a consciência tornaram-se campos de investigação e de exploração relevantes.”

A Obra Completa de Jung é anterior a esta mudança de paradigma, mas não lhe é de todo estranha. Muito pelo contrário, como de resto fica bem patente neste Livro que acaba de ver a sua tradução e edição em língua castelhana, graças à Editorial Trotta. Pena é que o mesmo não se possa dizer da língua portuguesa, pelo menos, por enquanto. O Religioso, mascarado de cristianismo católico e protestante que nos acompanha desde os primórdios da fundação da nacionalidade tem-nos impedido de crescer de dentro para fora. Permanecemos reféns de ancestrais medos, avessos à Cultura, à Ciência, em confrangedor estado de menoridade, intelectualmente preguiçosos, meros consumidores. Que a tanto nos condenaram os clérigos católicos e os pastores de igrejas protestantes, geração após geração. São gerações e gerações obscenamente mantidas no infantil, carne para canhão, subservientes, beatas, pagadoras de promessas, possessas de deusas, deuses, de demónios, de delírios, de medos da Luz, da Verdade, por isso, terreno fértil a crer em messias, salvadores, sacerdotes, pastores, gurus, padrinhos, publicidade, bruxas, obisomens, e sem um pingo de consciência crítica.

Frequentemente – escreve Jung (pg. 81) – os cristãos perguntam por que Deus não lhes fala, como se crê que fez no passado. Quando oiço estas perguntas, recordo aquele rabino a quem perguntaram como era possível que no passado Deus se mostrasse com frequência aos seres humanos, enquanto hoje ninguém o vê. O rabino respondeu: «Hoje não há ninguém que possa descer tão baixo-fundo».” Eis a questão das questões que as religiões e os diverssos cristianismos não são capazes de despertar dentro de cada uma, cada um de nós. Sempre nos dão respostas, todas falsas, para as grandes Perguntas e, com elas, nos aquietam, desmobilizam poilticamente, alienam, cegam, matam. Ora, ninguém como Jesus Nazaré, o filho de Maria – o próprio Jung parece não ter chegado a ver a Luz do mundo que ele é para todos os povos e culturas – foi capaz de descer tão baixo, tão fundo e, por isso, viu o que antes e depois dele nunca ninguém viu. Concretamente, viu Aquilo e Aquele que, enquanto não formos (outros) Jesus, em cada hoje-aqui, não vemos, pelo menos, enquanto permanecermos na história. A saber: Aquilo que pode matar e mata o corpo e a alma, isto é, a identidade irrepetível e única de cada qual, precisamente, o Religioso e os diversos cristianismos com suas ideologias-teologias idolátricas; e Aquele que, desde o primeiro instante da nossa conceição, misteriosa e gratuitamente, nos habita no mais íntimo e nos faz ser-viver de dentro para fora como outras tantas dádivas vivas uns com os outros, uns para os outros, como se Ele não existisse. A esta profundidade temos de chegar, se quisermos ser plena e integralmente humanos.Para tanto, temos de expulsar do nosso (in)consciente individual e colectivo o Religioso e os cristianismos e outros ismos que mentirosamente se nos apresentam como o caminho, a verdade e a vida, quando são o desvio, a mentira, o assassínio do corpo e da alma-identidade de quem é levado a ir por aí, se deixa ir por aí.

O Livro apresenta-se estruturado em 5 partes e 17 capítulos. I, As dimensões da psique (Inconsciente pessoal e inconsciente suprapessoal ou colectivo; A função transcendente; A autonomia do inconsciente), II, Simbolismo religioso (A função dos símbolos religiosos; Curando a divisão). III, Psicoterapia e Religião (Introdução à problemática psicológica religiosa da alquimia; Sobre a relação da psicoterapia com a cura de almas; «Religião e Psicologa»: uma resposta a Martin Buber). IV, Vias espirituais e Sabedoria oriental (Comentário psicológico ao Libro Tibetano de la Gran Liberación; O yoga e Ocidente; Prólogo ao Livro de Daisetz Teitaro SuZuki La gran liberación; Prólogo ao I Ching). V, Realidade e Transcendência da Psique (Realidade e suprarealidade; Sobre a sincronicidade; Alma e morte; Sobre o renascer). Um livro a não perder. Eis.

*** *** ***

Edição 118, Maio 2016

Hans Küng / Editorial Trotta

Uma morte feliz

O livrinho de 108 páginas é dedicado “aos meus médicos, terapeutas, enfermeiros e a todos os que me assistiram e ajudaram. Com gratidão.” Mais do que um livro, é um opúsculo, editado depois do livro “Morrer com dignidade” (Trotta 2010). Com ele, o Autor pretende “contribuir para um processo de debate contínuo” sobre a controversa questão da eutanásia.” Trata-se de um testemunho na primeira pessoa. O grande destaque vai para as respostas que dá numa entrevista-conversa em televisão, conduzida por Anne Will.

O livrinho é atravessado pela grande questão do direito, sim ou não, de cada ser humano decidir o momento em que quer morrer, sem ter de passar por um prolongado calvário de dores, já sem qualquer hipótese clínica de retorno a um mínimo de vida de qualidade. Agora, que o seu viver na história está a terminar, o teólogo cristão católico da craveira de Hans Küng não foge, apesar dos riscos, por parte do sistema eclesiástico católico romano, a tomar partido e pronuncia-se pelo Sim. Porque a última palavra caberá sempre – o que não for assim é uma indignidade sem nome – a cada pessoa, antes de cada uma perder toda a capacidade de decisão.

Surpreendentemente, o drama maior do teólogo provém do factor cristão católico que ele faz questão de assumir e atestar, como uma questão tudo ou nada, de salvação eterna ou de perdição eterna. Aqui reside o inesperado deste Livrinho que, de resto, já atravessa o seu Livro anterior sobre o assunto, muito mais desenvolvido e fundamentado. Vê-se, assim, que o cristianismo se entranhou-se tanto na sua mente-consciência, que agora, nestes dias que são os últimos dele na história, assume dimensões dramáticas, trágicas, até. Custa, entretanto, a crer, mas é o que se constata, que nunca o teólogo se tenha apercebido que o cristianismo não via de salvação da humanidade, muito menos a única via de salvação que diz ser e que todos os teólogos formatados por sua ideologia-teologia e suas universidades dizem ser. Sem nunca se aperceberem que estão a reproduzir a cassete que lhes foi incutida como um demónio e que eles próprios têm contribuído para aprofundar mais e mais. Para mal deles próprios e da Humanidade que não é, não tem de ser cristã, mas plena e integralmente humana, sem dúvida, o que há de mais difícil, depois de dois mil anos de cristianismo imposto a ferro e fogo aos povos, primeiro, pelo império romano, depois pelo papado que lhe sucedeu e seus enviados, os bispos residenciais e os missionários.

Num inesperado Epílogo, o próprio Autor dá a conhecer que em finais de Junho de 2014, quando se preparava para editar este Livrinho, “viveu uma grave crise de saúde, consequência da progressão da doença de Parkinson que sofre.” A vida ficou-lhe por um fio, durante semanas. Recuperou desse estado, graças à intensa assistência médica que lhe foi dada. Não tivesse “regressado” à vida e ao comando pessoal dela, e lá teria morrido sem poder decidir ele o dia e a hora. Sobreviveu e, por isso, deixa claro, no final deste Epílogo o seguinte: “Cada indivíduo é responsável perante Deus e perante os seres humanos e tem também o direito de determinar por si próprio sobre a sua vida e sobre a sua passagem para a morte. Esta autodeterminação parece-me bem fundamentada, de um ponto de vista teológico e é necessária de um ponto de vista ético.”

Resta saber como Roma se comportará, caso o grande teólogo venha a morrer no dia, hora e local que ele próprio escolher e determinar. Nem que Roma o não excomungue, uma coisa é praticamente garantida: Nunca Hans Küng será beatificado-canonizado. Nem os seus livros serão estudados-debatidos nas universidades com a chancela “católica”. Porque, ao defender este direito e ao praticá-lo ele próprio, Hans Küng, ainda que continue a dizer-se cristão, na verdade já não é. É jesuânico como todas, todos havemos de ser. Porque é a ortopraxia que nos diz e faz, não a ortodoxia. Cantemos, pois, Hans Küng!

José M. Castillo / Editorial Trotta

A Humanidade de Jesus

As 143 páginas e os 9 capítulos com que se tece este Livro do conhecido teólogo espanhol, José M. Castillo, lêem-se de um fôlego. Mastigar o seu conteúdo pode levar a vida toda. Porque é um livro, como muitos outros livros seus, que põe em questão a teologia do cristianismo das igrejas e das religiões todas. Está mesmo nos umbrais da ruptura com ele, com elas, mas não chega a dar o radical salto qualitativo em frente. Aliás, se há algum senão a apontar ao Autor do Livro é precisamente este. Ainda não é desta que ele dá o salto que Jesus, o filho de Maria, em seu tempo e país, deu em relação ao judaismo e que lhe custou a vida, o bom nome e até a memória histórica. Tanto assim que 20 séculos depois, as populações sabem ou pensam saber tudo sobre Cristo e o cristianismo, desconhecem tudo sobre Jesus, o filho de Maria, o seu projecto político e, sobretudo, o seu Deus que nunca ninguém viu e nele se nos dá a conhecer. O Autor conhece muito, pelo menos, academicamente, sobre Jesus. Praticar Jesus, prosseguir Jesus, hoje e aqui, é já de outra dimensão bastante mais difícil. “Porta estreita”, chama-lhe Jesus e logo adianta que “são poucos os que entram por ela”. Quem tem privilégios, títulos, status social, bom nome a defender, dificilmente entra pela “Porta” Jesus (“Eu sou a Porta”, diz JESUS SEGUNDO JOÃO no capítulo 10). Acaba (quase) sempre por entrar por entrar por outro lado, como fazem todos os mercenários. Limita-se, quando muito, a seguir Jesus de longe, à maneira de Simão Pedro, o chefe do grupo dos Doze. O mesmo que, na hora da verdade, quando vê Jesus preso e a ser julgado no Tribunal judaico, sem que Deus intervenha a seu favor, apressa-se a dizer de forma contundente e definitiva, “Não conheço esse homem!”. Esta é a fulcral questão que Jesus, o filho de Maria, não de David, levanta na história da humanidade e que a humanidade continua a ter repulsa em acolher. Concretamente, viver com Deus, mas sempre sem Deus. Viver como se Deus não existisse. Por isso, sem ritos, sem religiões, sem messias, sem lugares sagrados, sem deuses, sem chefes. Seres humanos maieuticamente religados uns aos outros, simplesmente.

O Autor vive atormentado com esta questão. Percebe-se isso em cada página deste seu Livro, de leitura-estudo obrigatório. A conclusão que sente necessidade de escrever, depois dos 9 capítulos, é dramaticamente eloquente. De algum modo, diz a tese que atravessa todo o Livro. Chega a dar a impressão de que finalmente ele vai assumir a ruptura entre cristianismo e Jesus, entre o Jesus histórico e o Cristo da fé. Um passo mais e seria a libertação e o encontro da Ruah ou Sopro maiêutico de Jesus com ele. Porém, quando o salto qualitativo em frente está para acontecer, eis que o Autor segura-se e faz questão de dizer, preto-no-branco, que aceita o Credo de Niceia-Constantinopla e tudo o que decidiu o Concílio Vaticano I. Até parece esquecer-se que, depois deste, já houve o Vaticano II que, de algum modo, anulou o Vaticano I.

Compreende-se esta sua postura, mas lamenta-se. Porque enquanto não assumirmos a ruptura, não praticamos-prosseguimos Jesus, terceiro milénio adiante. E permanecemos reféns do cristianismo, das religiões, dos medos, dos mitos, das mentiras que um e outras fomentam, alimentam. Nomeadamente, do poder nos três poderes em que o poder historicamente subsiste e que hoje é mais absoluto e refinado do que nunca. Só cegos que não queiram ver é que não vêem. Nascemos, crescemos, vivemos e morremos totalmente cercados pelo poder, pela sua ideologia-teologia, a mesma do cristianismo. Para cúmulo, com um papa jesuíta à frente do Vaticano, que mais não é do que o reciclado império romano terceiro milénio adiante.

“Uma pergunta que se impõe”, é o título com que o Autor encima o texto-conclusão do seu Livro. Vê-se, depois, que a pergunta se desdobra em outras 5 perguntas mais, e estas em múltiplas outras. O facto diz bem da angústia do Autor. Vê o caminho, mas dá voltas e mais voltas, e acaba prisioneiro da dogmática cristã católica, a mesma que o império de Constantino começou por impor urbi et orbi e que, de então para cá, tem sido reiteradamente desenvolvida por milhões de teólogos e biblistas cristãos, para, desse modo, solidificar o poder monárquico absoluto, o único que sustém o império, com todos os povos como seus súbditos, graças aos chefes de cada nação do mundo, vassalos fiéis do papa de Roma. Com as igrejas e as religiões sempre presentes nos respectivos países, carregadas de regalias, privilégios, distinções, apoios.

Eis a a oportuna pergunta: “Quem ocupa realmente o centro da vida da Igreja [assim, com maiúscula, no original], Jesus e o seu Evangelho, ou Paulo e a sua teologia?” Como se vê a pergunta está muito bem formulada, concretamente, sugere que a resposta certa é a segunda parte da alternativa. Só que o Autor, em lugar de avançar com essa resposta, desdobra a pergunta em outras 5 perguntas, como quem parece fugir da verdade que nos faz livres, alegres, meninas, meninos a vida inteira. Ei-las: “1 De donde ou de quem vêm os grantes temas propostos e debatidos na teologia católica? 2 Em quê e como se justificam o culto, os ritos e a liturgia em geral que se celebra nos nossos templos? 3 De quem e de que argumentos se legitima o modo de governo que se exerce na Igreja? 4 Que tipo de presença na sociedade tem a Igreja que hoje temos? 5 Por que o cristianismo é visto e tido como uma religião, uma religiãao mais entre as demais religiões, que inevitavelmente coloca as outras no rol das falsas e erradas?”.

Recordemos que o Livro tem por título, “A humanidade de Jesus”. Por sua vez, os 9 capítulos fazem-se eco dele, como eloquentemente dizem os respectivos títulos, 1 O humano como ponto de partida; 2 Que é o que nos faz humanos? 3 Encontrar Deus na nossa humanidade; 4 O problema começou com Paulo; 5 Jesus e Paulo; 6 Paulo e a religião; 7 Paulo e a Igreja; 8 Igrejas com mais religião do que com humanidade; 9 De Jesus ao descrédito do 'ser humano'. Pelo meio, discute-se o divino e o humano, constata-se que o cristianismo come o humano e afirma o divino e, por fim, para espanto de quem lê, constata-se que o Autor que tudo questiona, opta pelo cristianismo, contra a humanidade. E porque, com o cristianismo, Jesus é “comido” pelo divino, não se estranhe então que o humano atinja, neste início do terceiro milénio, as raias do descrédito. Todo o valor reside no poder, hoje, o poder financeiro, precisamente, o filho unigénito do cristianismo que mata Jesus e todos os seres humanos como ele.

Que bom seria que o Autor fosse coerente e consequente com o que desenvolve neste seu livro, nem que por via disso passasse a integrar o número dos malditos. Aguardemos esse passo, com renovada esperança. Na certeza de que, se não for antes, a Morte, quando chegar também para ele e cada uma, cada um de nós, faz o que todas, todos haveríamos de ter feito: acaba com o cristianismo e demais religiões e deixa-nos simplesmente humanos. Porque essa, e apenas essa, é a nossa matriz original que nos cumpre desenvolver de dentro para fora na história. Eis!

*** *** ***

Edição 115, Fevereiro 2016

Emília Silva / Edição de Autora

Ao som da guerra

Poemas

“Passei por corpos tombados

Tantos corpos já defuntos

Decepados e amputados

Pelas beiras do caminho

Com fardas e ensanguentados

Alguns já meio putrefactos

De balas todos crivados

Por insectos até carcomidos!

Jazendo entre arbustos e fetos

Jardins de plantas silvestres

Muma sarcástica paleta de corres

Fúnebre sinfonia de horrores

Mas que odores... mas que odores!”

É um breve extracto de um dos Poemas, “A segunda fuga”, com que se tece todo o capítulo IV. Ao todo, o Livro de 135 páginas subdivide-se em 10 capítulos, 1, O Refúgio; 2, A primeira fuga; 3, Ilusão de uma conquista; 4, A segunda fuga; 5, Desespero; 6, Heróis! Que glória?; 7, Perseguição; 8, A derradeira fuga; 9, A água do poço; 10, O susto.

No brevíssimo Prefácio, a Autora, nascida em Lisboa, emigrante em Angola.”onde cresceu e conviveu, inserida num meio em que inevitavelmente se envolvem todos aqueles a quem a beleza natural de África e do seu povo o impõem, tendo habitado em diversos locais do Litoral Centro do País, Distrito do Kuanza-Sul”, escreve: “Foram centenas de horas! Foram centenas de lágrimas! Porque na vida tudo passa e nela tudo se desvanece, é preciso fixar as Memórias do Tempo, os momentos gritantes e sentidos que a marcam. Foi imperioso fazê-lo!”.

Os Poemas fluem como as lágrimas que rebentam no mar de dores, que é a experiência do início da Guerra Civil entre as diversas facções políticas armadas, após o reconhecimento da independência de Angola e do seu primeiro Presidente da República, Agostinho Neto, do MPLA. Transportam-nos no tempo de dores sem sentido e dizem-se em cadência certa e em continuada rima até final. Perpassam nestas páginas uma dor imensa que são todas as guerras, as coloniais, as civis que quase sempre se lhes seguem, as guerras mundiais e regionais. A Autora dá-se conta, a dado momento, que tinha de gravar em papel o que carrega na sua memória, onde as lágrimas de alegria e de dor se misturam.

O País que fez a Guerra Colonial e a perdeu e, com ela, perdeu também o império colonial ainda não a acabou definitivamente, porque a esmagadora maioria dos muitos milhares de cá e de lá que a fizeram, obrigados pela palavra de ordem fascista do ditador de turno, “Para Angola, rapidamente e em força!”, ainda não conseguiu libertar-se dela, via palavra escrita, vidiogravada, no mínimo, sob a forma de testemunho pessoal. A maioria prefere, em vez disso, fazer de conta que a Guerra nunca aconteceu, embora, não consiga esconder as indeléveis marcas, cicatrizes que ela deixou gravadas a sangue e fogo na sua pele e na sua consciência de jovens, roubados aos pais, muitos deles, às mulheres e aos filhos que já haviam concebido.

Este Livro de Emília Silva, para mais tecido de Poemas que gritam o absurdo que são todas as guerras, levadas a cabo por filhos de mulher que os Quartéis, maquiavelicamente, convertem em filhos da metrelhadora, uma postura contra a sua própria natureza humana, a máxima fragilidade, regista momentos da guerra civil entre as diversas facções com fome de poder e de domínio., testemunhados por uma jovem mulher e mãe, cujo parto ocorre de uma das filhas ocorre em plena fuga para Lisboa.

A causa da autonomia e independência é uma causa nobre, de preferência e sempre que possível, que é conseguida de forma desarmada. Infelizmente, o ditador de turno em Lisboa não entendeu assim e a luta armada levou à independência política, mas não à dignidade e à fraternidade entre Portugal e Angola. Foram semanas, meses, anos de guerras fratricidas entre angolanos que leva à fuga-regresso em massa de milhares de portugueses “angolanos” para Lisboa É sobre esta guerra civil que a Autora, em fuga para Lisboa, vive na pele, na alma e que aqui dá a conhecer a quem a ler.

“Os sons da guerra soaram

Era da guerra o recomeçar

O recomeço de um longo fim

Ou o fim de um nunca acabar

Sons de guerra, longas rajadas

Tiros soltos e constantes

E das metralhas mais pesadas

Os sons da guerra eram cortantes

Gentes sem rumo, destroçadas

Correndo p'las ruas rasgadas

Sem destino no caminhar

Ou saber onde atravessar

Indo para logo voltar

E no regresso talvez tombar

Bala perdida ou apontada?

Isso jamais se saberá

Ninguém dirá...ninguém dirá!”

Sem dúvida, uma agradável surpresa espera as pessoas que lerem este Livro, densamente humano e... feminino.

Fica por isso aqui o email da Autora para possíveis contactos: emiliaps@sapo.pt

Edição 114, Janeiro 2016

Latino-americana mundial 2016

Desiguldade e propriedade

“O tema deste livro/agenda deste ano não poderia ser mais urgente: convocar a sociedade para lutar contra a desigualdade é mexer nas estruturas do sistema de mundo que nos rodeia e exigir uma mudança nas regras da atual ordem político-económica. Quem estaria disposto a isso, nesses tempos de desesperança? Quem se atreveria? Somente os que se abastecem nas grandes utopias, a primeira das quais é a fonte viva do Evangelho e de tantos irmãos e irmãs que, em outros tempos, fizeram dos valores do Reino o modo de organização da «cidade dos humanos»”.

São palavras da Comissão Dominicana Justiça e Paz do Brasil, no texto de abertura da Agenda Latino-americana mundial 2016, edição em português escrito e falado no Brasil. A Agenda original é em espanhol, a língua dos antigos colonizadores/exploradores de todos os demais países da chamada América Latina. Trata-se de uma arrojada iniciativa que já soma muitos anos, numa manifestação de lucidez, audácia, determinação, hoje, quase impensável. Entretanto, e porque houve um escandaloso atraso nos correios do Brasil, no envio de dois exemplares para o Jornal Fraternizar, só agora o Jornal pode apresentar aqui a sua recensão crítica que, no caso, é sobretudo um alerta à navegação, para que, de nenhum modo, percamos esta iniciativa editorial, tamanha é a riqueza de informações e de análises político-sociais-económicas-teológicas que as suas 250 páginas contêm.

O teólogo e padre José Maria Vigil, o pai, juntamente com o bispo Pedro Casaldáliga, da Agenda, nascida há 25 anos (25 edições, portanto), escreve no texto de apresentação desta edição 2016: “Partimos, no VER, de uma chamada breve à situação da desigualdade no mundo, sobre a qual, afortunadamente, existem atualmente muitos materiais disponíveis para trabalhar o tema. Para JULGAR esta situação, recorremos aos pensadores mais renomados de nosso continente e além dele, para que iluminem nossa reflexão. Alguns «pontos quentes» fazem a transição até à parte final do AGIR, em que tratamos de sugerir conclusões, apontar caminhos, abrir pistas... mas haverá de ser cada comunidade, grupo ou pessoa que encontrará muitas outras, mais próximas e melhor aplicáveis à situação concreta”.

Mais adiante, o padre teólogo sublinha, com oportunidade, “Ela [a Agenda] continua na direção de seu carisma: promover mudanças de consciência, ajudar a mudar nosso software, difundir uma nova «visão» que possa induzir novas práticas e estratégias. É nosso «capital», o dos pobres: análise penetrante, consciência crítica, esperança criativa, a coragem utópica de sempre e uma militância conscientizadora também como a de sempre, a de nossos mártires e lutadores, companheiros/as na construção da Pátria Grande/Pátria Mundial.”

Não podia faltar, nesta edição bodas de prata, a vigorosa palavra do bispo Pedro, agora emérito da Prelazia de São Félix do Araguaia, no seu habitual texto “À maneira de introdução fraterna”. “O crescimento da desigualdade – sublinha – vem de longe, desde as fatídicas décadas dos anos 1970 e 1980 do século passado, quando as potências mundiais impuseram a revolução conservadora de Thatcher e Reagan, asfixiando as economias dos países em desenvolvimento com a alta dos juros sobre a dívida externa, exigindo a redução dos gastos sociais e de saúde e educação, a redução do Estado, o desmantelamento do estado de bem-estar social na Europa, a precarização do emprego e a marginalização da luta operária em todo o mundo, o naufrágio das revoluções populares na América Latina; tudo isso com a bênção da cúpula vaticana de plantão naquelas décadas e com a desqualificação da teologia da libertação, dos teólogos e bispos da Igreja dos pobres.”

“Quatro décadas mais tarde – prossegue, certeiro o Bispo Pedro – eis o resultado: uma humanidade submetida à maior desigualdade de sua história: 85 pessoas têm uma riqueza equivalente ao património da metade mais pobre da humanidade e o 1% mais rico da população, que neste ano de 2016 superará o seu próprio recorde patrimonial, ultrapassando a barreira psicológica de 50% da riqueza mundial, estabelecendo-se com metade da riqueza do mundo (e continua crescendo); a outra metade é dividida entre todo o restante dos humanos, 99% da população mundial. Tem que viver para acreditar.”

São assim as primeiras páginas desta Agenda única em todo o mundo. No interior, tem tudo o que é de esperar de uma Agenda, com espaço para cada um dos dias do ano, acrescido de dados que não se encontram em nenhuma outra Agenda do mundo. Com esses dados, podemos acompanhar, cada dia de cada mês deste ano bissexto, as pessoas lutadoras latino-americanas e do mundo dos empobrecidos, perseguidas, assassinadas pelos detentores do poder, os mesmos que detêm a riqueza amontoada que empobrece os povos do planeta.

Outra particularidade desta Agenda é o grande número de textos de peritos nas áreas do social, do económico, do político, da espiritualidade e da teologia da libertação. Alguns bem nossos conhecidos, graças ao Jornal Fraternizar, onde são colaboradores assíduos e muito oportunos, com destaque para José Maria Vigil, Frei Betto, L. Boff, Ivone Gebara, Juan José Tamayo, José António Pagola. Uma Agenda a não perder. Para tanto, ficam aqui os contactos para possíveis encomendas: latinoamericanabrasil@gmail.com; justpaz@dominicanos.org.br; http://Latinoamericana.org e http://Latinoamericana.org/Brasil

Edição 113, Dezembro 2015

Thomas Merton / Editorial Trotta

Oh, Coração Ardente

Poemas de amor e dissidência

Uma apaixonante e intrigante maneira de começar a leitura deste Livro, 200 páginas no total, é pelos poemas de amor com que a Editora e tradutora da obra, Sonia Petisco, doutora em Filologia Inglesa e Master of Arts in Applied Linguistics decidiu fechar esta antologia. São duma profundidade-intensidade erótica tal, que chega a causar arrepios na pele de quem os lê. Nunca mais se esquecem, sobretudo, se tivermos em conta de que são poemas de amor entre o mais conhecido e famoso monge católico Século XX do mosteiro Getsemani, nos EUA, e a enfermeira que cuidou dele, durante um internamento num hospital, chamada Margie, ou simplesmente, M. como rezam os títulos de dois dos poemas seleccionados, “Para M. numa fria manhã cinzenta” e “Para M. numa manhã de Outubro. Ainda hoje, esta relação afectiva intriga e deixa perceber quanto sofrimento acarreta para ambos, uma vez que o monge, dividido entre prosseguir essa relação e prosseguir a sua “solidão” em Getsemani, acaba por deixar cair Margie e prossegue monge até ao fim dos seus dias na história.

Outro choque que não se pode ignorar, nem passar adiante, é o modo nebuloso como acontece a abrupta morte de Thomas Merton, durante um banho. Uma descarga eléctrica provoca-lhe a morte imediata. Acidente? Suicídio? Assassinato? Ainda hoje, o assunto está em debate, sem quaisquer conclusões definitivas. Uma das três hipóteses é a verdadeira. Desconhece-se qual. A solução para o enigma parece estar na hipótese de assassinato, dadas as tomadas de posição publica de Merton contra a Guerra do Vietname. A sua frontal discordância tornada pública causou um grande mal-estar. Mas a hipótese de suicídio tão pouco está descartada, apesar de o secretário de Merton ser permptório em negar sequer a hipótese. A decisão de “cortar” com Margie, e prosseguir como monge em Getsemani, deve ter trazido ao monge-poeta uma dor inenarrável. Mas a ideologia-teologia do cristianismo terá falado mais forte que a realidade do amor que, inopinadamente, aconteceu entre ambos. A autorepressão que Merton se terá imposto não passa sem deixar marcas de muito sofrimento interior. A realidade, não a ideologia-teologia, tem tudo a ver com cada ser humano concreto. Quando, por força da educação cristã e da sua ideologia-teologia, a realidade sai a perder, perde-se também a alma, o Eu-sou que é cada mulher, cada homem que vem a este mundo. E o mais impensável pode acontecer.

O exemplo de Merton é terrivelmente eloquente. O voto de castidade que os monges são levados a pronunciar e a viver pode, em momentos como os que Merton e Margie protagonizam, naquele período tão intenso e tão belo – diga-se a palavra certa, tão humano – ter-se-á convertido, depois, numa prisão, num inferno, capaz de levar a desvarios impensáveis, onde a vida perde sabor e a morte aparece como uma libertação. O facto não é acessório. É profundamente revelador da verdade. E, quando há conflito entre a ideologia-teologia cristã e a vida consequente de alguém concreto e historicamente situado, tem de prevalecer o viver concreto desse alguém. De contrário, resvala-se para a idolatria, com a ideologia-teologia a valer mais do que as pessoas concretas, historicamente situadas.

A edição destes poemas é bilingue. Nas paginas da esquerda de quem lê o livro, vem o original em inglês, a língua oficial dos EUA. Nas páginas da direita, vem a tradução de cada um dos poemas. A possibilidade do confronto entre o poema original e o poema traduzido é, por isso, contínua e pode-deve ser feita na hora em que se saboreia o poema. O pormenor, só por si, já diz muito sobre a profundidade desta obra. Pena que nem todas as pessoas estejam preparadas para saborearem a profundidade e a beleza dos poemas de Merton. Tudo nos diz, quase grita, que Merton teria sido outro homem, se não tivesse sido educado no cristianismo, desde o seu nascer.

Ainda hoje, as famílias do Ocidente são levadas a pensar que a educação cristã é a melhor para as suas filhas, os seus filhos. Não é. Fazer cristãos não é o mesmo que fazer humanas, as filhas, humanos, os filhos. Esta conclusão é uma das muitas que nos estão reservadas neste livro de Merton. Corram por ele. E ousemos mudar de ser-viver e de Deus. Porque o Deus do cristianismo é um ídolo que nos devora por dentro. Bastaria esta antologia de poemas de Merton para no-lo revelar.

Chega a causar angústia ver em muitos dos poemas o ser humano Merton tão perdido de si e da realidade que o rodeia. Aceitou, sem nunca se questionar, o cristianismo e o Cristo de S. Paulo, os mesmos das igrejas cristãs, como se fossem a realidade, o supra-sumo da realidade. A realidade é Jesus, o ser humano por antonomásia, e o seu Evangelho-Projecto político de sociedade. E, por ele, com ele e nele, todas as mulheres, todos os homens e o cosmos. Cristo e os cristianismos são mitos. E nada pior do que valorizar o mitos e negar a realidade. Em tais casos, nascemos alienados, vivemos alienados e morremos alienados. Neste particular, esta antologia chega a ser quase patética. É preciso ler para crer. Leiam e concluam. É sempre tempo para se nascer de novo, do Vento/Ruah de Deus que nunca ninguém viu e se nos dá a conhecer em Jesus, o filho de Maria.

---

Olegário González de Cardedal / Editorial Tortta

Cristianismo e mística


São 257 páginas. Duas partes mais uma, intitulada “Panorama final, em 5 pontos ao modo de capítulos. A Parte I, Cristianismo e Mística, tem 4 capítulos: 1. A mística como forma de existência cristã; 2. O Novo Testamento e a Mística; 3. A Mística na História Moderna do Ocidente; 4. Valorização da Mística no último século. A Parte II, Mística, Filosofia, Cristianismo, tem mais 8 capítulos: 1. Questões epistemológicas prévias; 2. No marco filosófico da mística cristã: a tradição platónica; 3. A mística no Ocidente: Herança e criação; 4. Filosofia sem mística na era moderna; 5. Heidegger e a mística; 6. E. Tugendhat: um discípulo de Heidegger no umbral do século XXI; 7 As estruturas da experiência mística no cristianismo e na filosofia; 8. Uma clarificação final e teses conclusivas. Isto, no que respeita ao miolo do livro. Quanto ao Autor, é um teólogo espanhol por demais conhecido dos católicos de fala espanhola, sobretudo, dos madrilenos. A obra resulta do empenho do Editor e fundador da Trotta, Alejandro Sierra, amigo do Director do Jornal Fraternizar, quase desde o início da Editora.

Pelo teor do primeiro parágrafo, facilmente se conclui que estamos perante um livro de tese, uma espécie de Manual sobre a temática referida no título de capa. Essa será, no entender do Autor, a grandeza deste seu livro que lhe levou anos a escrever e que chegou ao seu termo, graças a amáveis e insistentes “pressões” do Editor. Mas é também a sua forte limitação. Confina-se sobremaneira ao cristianismo católico e, dentro deste, o europeu-ocidental. A limitação é tanto maior, quanto os cristianismos hoje estão no banco dos réus e as novas gerações já nascem pós-cristãs. A temática deste livro não lhes diz nada, à excepção de alguns jovens da classe média-alta que tenham o azar de, enquanto crianças-adolescentes, caírem nas mãos das organizações católicas, estilo sociedades secretas, com tudo de mafioso, para as quais os cristianismos continuam na moda O que não é de todo despiciendo, uma vez que são elites como essas que têm nas suas mãos os destinos dos povos das nações. Das quais urge acautelar-nos, se queremos ser fiéis à nossa matriz original, única e irrepetível. Quem se deixa cair nas malhas dessas organizações com tudo de secreto e de mafioso nunca mais se encontra. Será o que elas querem que se seja. E todos os delírios e arroubos-êxtases que venham a ter são classificados como “mística”, a modos de idas e vindas ao terceiro ou sétimo céu, nos antípodas dos duros quotidianos das populações suas vítimas.

Estamos perante uma obra erudita, mas não necessariamente, humana, muito menos jesuânica. A referência central deste livro é o mito bíblico chamado Cristo/Messias dos profetas da Bíblia hebraica e de S. Paulo, o perseguidor de Jesus, o filho de Maria. Jesus Nazaré é referido de raspão e logo deixado para trás, numa espécie de apêndice. Aliás, é difícil falar-se de mística, quando convivemos com Jesus, o da missão político-teológica entre meados do ano 28 e abril do ano 30. E com Jesus Século XXI. S. Paulo é a figura maior do cristianismo, porque sem ele o judeo-cristianismo de Pedro e outros ex-Doze não teria sobrevivido à catástrofe do ano 70, com a destruição do templo, da cidade de Jerusalém e do próprio sacerdócio judaico. O cristianismo, como o nome indica, é a afirmação do mito bíblico-davídico e o apagamento definitivo de Jesus Nazaré. E, nele, com ele e por ele, o apagamento dos seres humanos e da realidade, uma vez que o cristianismo é só um sistema de doutrina, fundada sobre o mito bíblico-davídico, Cristo ou Messias, completamente avesso à realidade.

Nunca Jesus e a Fé-teologia de Jesus poderiam originar um tratado como o deste livro. A realidade, que é tudo para Jesus, está totalmente fora deste tratado sobre cristianismo e mística. O Sopro-Espírito-Ruah de Jesus anda pelos antípodas do sopro-espírito do cristianismo e das igrejas cristãs que se deixam levar por ele, contra a humanidade e o planeta terra. É certo que o Autor alude com frequência aos Evangelhos. Simplesmente, ignora que eles são escritos na clandestinidade, com o objectivo de anunciar Jesus e o seu Projecto político de sociedade ou reino, contra o judeocristianismo nascente. Manifestamente, parece ignorar que os Doze são os traidores de Jesus, os que o denunciam e abandonam, quando percebem que ele não é o Cristo ou Messias anunciado pelos profetas bíblicos, todos defensores da casa-dinastia de David que têm como escolhida por Iavé, o deus dos judeus, melhor, do judaísmo.

Consequentemente, este livro é de todo estranho a Jesus e ao seu Projecto político maiêutico. É também de todo estranho à sua espiritualidade, ou Jesus não seja o camponês-artesão de Nazaré, o filho de Maria, nos antípodas do Cristo, o filho de David. É deveras dramático perceber que, à medida que nos adentramos na leitura-estudo deste livro, ele paira muito acima da realidade de todos os dias, a única com que Jesus se ocupa a tempo e fora de tempo, até aos sábados, à época, o mandamento mais sagrado do judaísmo. Não respeitar o Sábado equivalia a não respeitar a Bíblia proveniente da casa-dinastia de David, nem respeitar Deus, o da Bíblia. Outra, muito outra, é a teologia de Jesus, porque outro, totalmente outro, é o Deus de Jesus. Todo omnifragilidade, todo fecundidade, nenhum poder, mais íntimo a nós que nós próprios, para que vivamos a História como se Ele não existisse.

Tudo neste livro gira à volta de um sistema de doutrina intemporal e sem povos. Atentem só neste naco de prosa do Prólogo onde o Autor diz das suas intenções e objectivos, ao escrever este seu Manual de Cristianismo e Mística: “A recuperação da mística pode ser uma ajuda para que o homem redescubra a sua vocação divina, se aperceba do mistério que é a sua vida, e se abra Àquele em quem encontrará a luz, o amor e a paz.” Parece ignorar o Autor que, em Jesus, até Deus se faz humano, não divino, uma das três grandes tentações que batem à porta do seres humanos e que Jesus, felizmente, superou. Sempre quis ser e é o filho do homem, o ser humano, não o filho de Deus. São três mil anos de judeo-cristanismo e de Bíblia que a Humanidade do terceiro milénio tem de superar, sob pena de simplesmente extinguir-se. Ou é plena e integralmente humana, outro Jesus, ou perece. Porque o divino é o inimigo do humano, o tentador do humano. Fora do humano, toda a mística é fuga da realidade, nomeadamente, das vítimas que o divino das religiões produz e justifica, como sacrifício de redenção. Urge ler este livro, para vermos por onde não devemos embarcar. Corram por ele e concluam por vós mesmas, vós mesmos.

Leonardo Boff / Editoral Trotta

Direitos do Coração.

Uma inteligência cordial

 

O Autor é por demais conhecido no Brasil, na Europa e nos países do Continente Latino-americano. Este seu novo livrinho (99 páginas apenas) reúne um conjunto de 23 pequenos textos, provenientes de outras tantas crónicas publicadas em vários jornais, com destaque para o Jornal do Brasil, onde é colunista de referência, todas sobre a grande problemática da nossa actualidade, o Clima e as graves doenças que atacam, cada vez com mais violência, o planeta Terra, nossa casa comum. Os 23 textos apresentam-se agrupados em duas partes. A primeira, com 13 textos e a segunda, com 10. Para quem não tem acompanhado regularmente a profícua escrita do Autor nos media, este Livrinho tem a marca de uma preciosidade a não perder de nenhum modo.

 

“Seguramente – começa por sublinhar o Autor, na Introdução ao Livro – a crise ecológica global requere soluções técnicas, pois estas podem evitar que o aquecimento do planeta suba para além de mais dois graus centígrados, o que seria desastroso para a biosfera no seu conjunto. Se por irresponsabilidade humana, fizéssemos que o aquecimento aumentasse mais quatro, cinco ou até seis graus cent´tgrados, todas as formas de vida conhecidas, a humana incluída, ver-se-iam gravemente ameaçadas. Só que a técnica não é tudo, nem sequer o principal.”

 

E porque a técnica não é tudo, é mais do que tempo de olharmos para das razões do coração que a razão e a técnica não conhecem. Quem diz razões do coração também diz direitos do coração, precisamente, o título deste Livrinho. O Autor, reconhecido teólogo perito na matéria – a ecoteologia – poderia e deveria ser muito mais severo e minucioso no elencar das causas da já calamitosa situação em que, presentemente se encontra o planeta. Porque há causas. Há responsáveis. A presente situação não provém da natureza. Provém dos estragos que a mão dos sistemas de poder e os seus agentes históricos tem feito, sobretudo do final do século XIX para cá. O desenvolvimento tecnológico, impulsionado pelos sistemas de poder, deixaram progressivamente de ter controlo, por parte dos seres humanos e dos povos. Pelo contrário, os seres humanos e os povos acabaram reféns dos sistemas de poder e dos seus agentes históricos.

 

É preciso que se diga e sublinhe a vermelho que, entre estes sistemas de poder, está, em primeiríssimo lugar, o judeo-cristianismo-islamismo, mai-las suas Bíblias e o Alcorão. Neste particular, mais o judeo-cristianismo e as suas Bíblias que, logo a abrir, apresentam um Deus, o da casa-dinastia de David/ Salomão, a dizer ao Homem – a mulher é praticamente ignorada, não-existente – que domine a Terra e tudo o que ela contém. Em lugar de CUIDAR, ordena-lhe que DOMINE. E assim tem sucedido. Durante séculos, com um desenvolvimento mais artesanal do que industrial e, agora, também informático, quase não se deu pela perversão do sistema judeo-cristão, no que ao ambiente diz respeito. Não assim, desde o século XIX para cá. E de hoje em diante. Tudo se alterou. E só ao fim de três mil anos – mil anos de judaísmo + dois mil anos de cristianismo – é que vemos quão perverso é esse sistema e quão perversas são as Bíblias hebraica e a cristã, escrita em grego. Com a agravante de que continuam a ser olhadas, juntamente com o Alcorão, como “sagradas”.

 

O teólogo L. Boff mantém-se cristão, quando seria de esperar que já tivesse dado conta que entre o Cristo do cristianismo e Jesus e o seu Evangelho, há um abismo. São duas linhas paralelas que nunca se encontram. A sua “costela” de franciscano leva-o, contudo, a ser menos de Crsito e mais de Jesus. Por isso valoriza tanto o humano e, dentro do humano, o coração como organismo produtor de afectos, de inteligência cordial. Quando se desligar de vez do Cristo e do cristianismo, e ficar inteiro com Jesus e o seu Projecto político de sociedade, então a sua teologia será totalmente no prosseguimento da de Jesus e do Evangelho, não mais da Bíblia judeo-cristã, da qual emana o Evangelho de S. Paulo.

 

Neste Livrinho, tudo o que tem a marca do coração, da inteligência cordial é de Jesus. Por isso, profundamente humano. A técnica e a informática sem coração são filhas do sistema de poder judeo-cristão. E como ele, são duas armas prontas a roubar, matar, destruir sem interrupção. O Livro é um alerta que, pelo andar da carruagem dos sistemas de poder, já vem atrasado. Para mal do planeta. Sobretudo, para mal da vida, a humana e a outra. Mais aquecimento significa um planeta sem seres humanos e povos, porventura, sem o tipo de vida que hoje conhecemos. Ou, até, sem nenhum tipo de vida.

 

Com este seu Livrinho, o Autor deixa-nos o alerta. E o desafio. Acolhemos um e outro, ou fazemos orelhas moucas, possessos que vivemos de ambições de domínio e de riqueza acumulada e concentrada? Neste último caso, vale a palavra de Jesus; De que adianta ganhar o mundo inteiro, se perdemos a alma, as razões de viver, os afectos?

---

George Santayana / Editorial Trotta

Pequenos Ensaios Sobre Religião

 

O livro que agora conhece tradução e edição em espanhol, da responsabilidade da prestigiada Editorial Trotta, de Madrid, vem já de 1967, segunda metade do Século XX. É indispensável ter presente este dado para melhor compreendermos a importância, para não dizer, o saudável escândalo que então a sua edição causou. E que ainda hoje causa, se bem que com muito menor impacto. Mudamos de século e de milénio e hoje as religiões estão sob forte suspeita de serem a principal fonte de corrupção das populações e dos povos que as seguem. Nenhuma delas tem conserto, já que todas são por natureza más e fonte de perversãodo seres humanos que se queiram cordialmente humanos. Não se pense, ccomo nos quiseram convencer que as religiões são todas boas, e que os respectivos crentes é que podem não o ser. É exactamente o contrário. Todas as religiões são más, por natureza, e tornam más, inumanas, as populações e os povos que as praticam. Tornar-se religioso é deixar progressivamente de ser humano. O mais aonde chegam as pessoas religiosas é ao bem-fazer, aceite e até louvado pelos poderes instituídos, porque até ele é um dos meios mais eficazes de fazer mal às pessoas, às populações, aos povos. Quer os que o praticam, quer os que dele parecem beneficiar.

 

O Autor, madrileno de nascimento e de pais, recebe toda a influência dos EUA, já que foi educado em Boston e chegou, mais tarde, à cádredra de filósofo na Universidade de Harvard, depois, Londres e Paris. Neste livrinho de 109 páginas, elaborado a partir de capítulos de obras mais desenvolvidas e bem fundamentadas, os promotores procuram oferecer ao grande público uma súmula de breves extractos, para pessoas que tenham mais dificuldade em digerir as obras integrais. O Autor dessas obras deu o seu aval à edição e ela aí está, desde 1967 até aos nossos dias. Em sucessivas edições em outras tantas traduções. Chegou, agora, a vez da tradução deste Livrinho em espanhol, para os amantes desta temática.

 

Trata-se de um conjunto de breves capítulos, com os respectivos títulos. Neles, podemos ver quão importante é a Religiãao para o Autor, àquela época. Vivesse hoje e, certamente, outro seria o seu ponto de vista. É, porém, com alguma surpresa negativa que o cristianismo seja tido na conta por parte do Autor, a menos má das religiões existentes no planeta. Naquele então, a investigação científica-histórica sobre Jesus era ainda muito deficiente. E o cristianismo insistia em auto-apresentar-se ao mundo e aos povos como a religião verdadeira, a única verdadeira. Foi, até, com base nesta mentira apresentada como a verdade, que o cristianismo pôde colonizar os povos que o Ocidente veio a “descobrir” e, logo, conquistou pela força da espada e da cruz, os dois grandes instrumentos de tortura dos povos conquistados. A estes, juntou-se-lhes sempre a Bíblia que, primeiro, foi apenas dos judeus e, depois, acabou também por ser dos cristãos, organizados em igrejas locais, de acordo com a divisão administrativa do império romano.

 

Esta lacuna ajuda a compreender o juízo de valor que o Autor faz do cristianismo. Se bem que este não o mereça. E custa a aceitar como é que intelectuais de gabarito como o Autor deste Livrinho não tenham visto a máscara com que o cristianismo sempre se apresentou aos povos, atrás da qual esconde a sua verdadeira face. Bastavam a cruz e a espada, dois instrumentos de tortura do império romano e dois meios de conquista e de domínio dos povos militarmente mais fragilizados, para se ver que a máscara do cristianismo não podia corresponder à sua verdadeira face, natureza.

 

Não deixa, ainda assim, de ser interessante a leitura reflectida e debatida deste Livrinho, mas agora à luz dos novos dados científico-históricos de que este início do terceiro milénio dispõe para entendermos Jesus e o projecto político que o anima. E quão antágónicos e incompatívelis são ambos com o cristianismo. Procuremos mergulhar nestes textos datados de 1967. Leiamo-los à luz dos novos dados de que hoje dispomos. Só temos a ganhar se o fizermos. Por isso, este Livro se recomenda vivamente.

*** *** ***

Edição 110, Setembro 2015

 

Frei Betto / Fontanar

UM DEUS MUITO HUMANO

Um novo olhar sobre Jesus

 

“Ter fé em Jesus é facil. O desafio é ter a fé de Jesus.” A frase vem quase no final do mais recente Livro do internacionalmente conhecido dominicano brasileiro, opcionalmente, leigo, não clérigo, e já quase a concluir o pequeno capítulo intitulado “Sinal de contradição”. É, porventura, a frase mais surpreendente, mas também aquela que melhor resume e diz Jesus, o filho de Maria. Pena que o Livrinho de 119 páginas, não tenha sido todo escutado-escrito a partir dela, como teria sido desejável. Porque se ter fé em Jesus(cristo) é fácil, já é praticamente impossível, dentro dos diversos cristianismos – daí o desafio, a que se refere o Autor – alguém chegar a ter-viver a fé de Jesus, neste tipo de mundo do poder. Porém, se não temos a mesma fé de Jesus, podemos ser muito cristãos, mas não somos outros Jesus. E essa é a questão. Historicamente, Jesus – tem que se sublinhar – nunca foi cristão. Aliás, se há coisa que Jesus sempre recusa, é ser cristão = ser cristo/messias, o próprio Cristo/Messias, como vieram a fazer dele, contra ele, já depois da sua morte crucificada. O Autor é o primeiro a reconhecê-lo, pelo menos, implicitamente, quando evidencia, e bem, que Jesus chega a chamar “Satanás” a Simão Pedro, por este, à pergunta formulada por ele aos Doze, “E vós quem dizeis que eu sou?”, se ter adiantado aos demais e afirmar, de forma rotunda e categórica, “Tu és o Cristo!” Logo depois, escandalizado-decepcionado com a reacção de Jesus, por, de modo inequívoco, continuar a recusar ser-assumir-se como o messias/cristo (= poder invicto), cuja chegada era então oficialmente anunciada-esperada pelo judaísmo davídico, vai ao cúmulo de chamá-lo à parte e repreendê-lo! É então que Jesus, peremptório e definitivo, diz-lhe e, nele, aos onze também escandalizados como o seu chefe, “Retíra-te da minha frente, satanás, porque os teus pensamentos não são os de Deus, mas os dos homens (= do Poder)” (Marcos 8, 27-33).

 

Este precioso Livrinho abre com um Prólogo, em forma de carta, dirigida a Jesus e assinada pelo próprio Autor. Literariamente, é um texto muito belo, prenhe de emoção, de ternura, proximidade, intimidade. Começa assim: “Querido companheiro Jesus. Trago em mim o teu estigma e o teu enigma. Talvez a minha vida fosse mais simples sem esse fascínio pela divindade que impregnaste sob a minha pele, em minhas vísceras, nas dobras moleculares de meu coração. Mas seria menos empolgante, como tantas existências quadriculadas que jamais provaram o gosto do infinito.” Este é o primeiro parágrafo. O terceiro prossegue assim: Teu estigma gravou em mim a força gravitacional de atração do Absoluto. Há em todo vivente, esse impulso inelutável, ainda que polarizado por meras ambições. Sei que reduziste todo o intrincado mistério da existência humana a uma única atitude: o amor. Deixaste, todavia, a nosso cargo o enigma do que seja amar. Não questiono a exemplaridade de tua experiência amorosa. Amaste assim como só Deus ama. Eras descentrado de ti. Foste livre, embora a tua imagem, ao longo de vinte séculos esteja cercada de incontáveis gaiolas preparadas para prendê-la. Inúmeras teologias tentam empalhar-te, como a um desses animais raros encontrados em museus. Felizmente, tu sempre escapas.”

 

A transcrição é extensa, mas sobejamente reveladora de que o Autor está a dirigir-se, não propriamente a Jesus século XXI, como seria expectável e desejável, mas a Jesus século I, nomeadamente dos curtos anos da sua intervenção política militante na Galileia e, finalmente, em Jerusalém, onde acaba traído-entregue precisamente pelos mesmos Doze, na pessoa de um deles, desta vez, Judas Iscariotes, um nome que nos remete para o judaísmo davídico. A prova é que os verbos desta sua carta apresentam-se conjugados no passado, não no presente, concretamente, no hoje de cada mulher, cada homem, cada povo. O Livrinho, sem dúvida, inovador em muitos aspectos, capaz, até, de escandalizar muitos membros da hierarquia católica romana, corre, contudo, o sério risco de acabar por ser uma “gaiola” mais, a juntar àquelas muitas referidas pelo Autor, onde Jesus é hoje empalhado, em lugar de ser desempalhado, resgatado. Tanto assim que o “fascínio pela divindade” que, no dizer do Autor, Jesus provoca nele, acaba por empalidecer o imperioso fascínio pela humanidade, a partir das vítimas, que todas, todos, havemos de experimentar. Por sua vez, “a atração pelo Absoluto”, que Jesus causa ao Autor, corre o risco de empalidecer a incontornável atracção que havemos de sentir pelos últimos dos últimos, que se vê acontecer no ser-viver de Jesus Nazaré e deverá acontecer no ser-viver de cada uma, cada um de nós, seres humanos, se, é claro, tivermos a sua mesma Fé. Pelo que este modo de testemunhar Jesus pode indiciar que o seu Autor prossegue ainda no universo da antropologia-teologia judeo-cristã, nomeadamente, de S. Paulo, a mesma que justifica o assassinato de Jesus na cruz do império romano, ao considerar essa morte o sacrifício-mor de redenção, como, com fina ironia teológica, denuncia o 4º Evangelho atribuído a João, ao sublinhar que tal assassinato foi realizado “para se cumprir a Escritura”. Quando a verdade é que Jesus é assassinado na cruz do império romano, por, em seu ser-viver, rejeitar liminarmente essa antropologia-teologia.

 

Lê-se este Livrinho e gosta-se dele. É leve, acessível, solto, muito nosso, íntimo. Traduz, certamente, a vivência do Autor, na sua relação com Jesus, o filho de David, como se diz acerca do Cristo ou Jesuscristo de Pedro e de Paulo e, mais tarde, do imperador Constantino. Não, exactamente com Jesus, o filho de Maria, de quem testemunham os 4 Evangelhos em 5 volumes. É, sem dúvida, um pequeno-grande monumento literário, mas, talvez por isso acabe, de algum modo, por se sobrepor à realidade histórica e quedar-se no universo da doutrina-ideologia e dos mitos. De resto, uma postura comum a todos os cristianismos, os populares e os eruditos. Outra, muito outra é a postura dos 4 evangelhos em 5 volumes que têm estado cativos nos cristianismos e que urge resgatar, para os devolver aos povos de todas as nações, para os quais foram escritos. Ora, o género literário, Evangelho, é, indubitavelmente, o que melhor consegue dizer sem dizer, apenas apontar, o Mistério. E, para nós, seres humanos, o mistério maior com que todas, todos nos deparamos, não é propriamente Deus que nunca ninguém viu, como, erradamente, ensinam todas as religiões e todas as teologias, à excepção da teologia de Jesus. O maior mistério para nós seres humanos, é o próprio ser humano.

 

Pois bem. Em Jesus Nazaré, pela primeira vez na história dos povos e, certamente, também pela última vez na história dos povos, ficamos paradigmaticamente a conhecer como é o Ser Humano pleno e integral, que todas, todos, os nascidos de mulher, estamos chamados a ser. Porém, enquanto Jesus não acontecer no ser-viver de cada uma, cada um de nós, o paradigma de ser humano continuará a ser o vencedor crucificador /poder invicto, cristo-messias. Nunca o vencido crucificado, a omnifragilidade humana, que vemos plena e integralmente realizada em Jesus, o filho de Maria. Só que, dentro do tipo de mundo do poder, em que, desde o início da humanidade, nascemos-vivemos-morremos, um ser-viver humano assim, animado pela mesma Fé de Jesus, causa um choque e um escândalo tão grandes, que este tipo de mundo decide logo desfazer-se dele, e de um modo que nem memória dele fique na história, invariavelmente escrita pelos vencedores. É assim que paradigmaticamente se faz com Jesus Nazaré. De modo que o que mundo hoje conhece não é Jesus Nazaré, o filho de Maria, mas Jesuscristo, ou, simplesmente, cristo, o filho de David, o vencedor crucificador. Por isso, a apressada fundação do cristianismo, logo a seguir à morte crucificada de Jesus, como o maldito. Com o passar do tempo, acabou por tornar-se o que a história regista: o sistema número um de poder monárquico absoluto e infalível, em cuja génese está o substantivo Cristo. Fundado precisamente para fazer esquecer Jesus, o filho de Maria, e a sua revelação-revolução antropológica-teológica. Nisto estamos, neste início do terceiro milénio.

 

Deste modo, e para concluir, nem o Deus, a que se refere o título deste Livro é assim tão “humano”, quanto é o Deus que nunca ninguém viu e se nos revela em Jesus Nazaré, como a omnifragilidade, não como a omnipotência, nem o Humano do título é assim tão humano, quanto Jesus Nazaré, historicameente é. O trágico é que, quanto menos humano, também menos revelador do ser humano e de Deus que nunca ninguém viu. Sobre o qual, fora de Jesus, o filho de Maria, ninguém sabe dizer nada. Pelo que o melhor é mesmo o silêncio.

 

---

 

Frei Betto / Editora Rocco

PARAÍSO PERDIDO

Viagens ao mundo socialista

 

São mais de 500 páginas com memórias de viagens. Não como turista. Como dominicano, teólogo, filósofo, escritor, humanista, militante de Causas que tenham a ver com o ser-viver da Humanidade na história. Viagens ao mundo da Utopia socialista que fez muitos povos vibrar, mas que acabou, quase sempre, em pesadelo. Porque a Utopia, neste tipo de mundo dominado pelo Senhor Dinheiro, o grande ateu do Deus de Jesus e o maior inimigo dos seres humanos e dos povos, só tem lugar na condição de crucificada. Sempre que a Utopia insiste em colocar-se como poder pretensamente alternativo à frente dos povos, em lugar de se assumir como humilde parteira dos povos, depressa acaba a tiranizá-los. Os libertadores de ontem, quando se fazem aclamar como o novo poder, acabam sempre como os novos tiranos de hoje. No universo do poder, não há salvação, porque não há humanidade. Apenas dominadores e dominados. Tiranos e súbditos. E sem humanidade, não há povos em liberdade, em fraternidade, em igualdade nas diferenças, sempre bem-vindas.

 

Estamos perante um livro fascinante. Vivido pelo Autor entre os anos de 1979 e 2012. Lê-lo, é acompanhar Frei Betto pela China, Rússia, Letónia, Lituânia, Polónia, Checolosváquia, República Democrática da Alemanha, Nicarágua sandinista e Cuba. Podemos ver como Frei Betto intervém activamente na história, a fazer-se, por esses anos, nesses países. Não é um mero observador. É um interventor decisivo, já que chegou a assessorar os resspectivos governos, numa difícil, desafiadora (e impossível?!) missão – reaproximar Estado e Igreja e resgatar a liberdade religiosa. Uma missão típica de um missionário cristão erudito, culto, profundo conhecedor dos assuntos, como é, indiscutivelmente, Frei Betto. Se bem que a marca, acentuadamente cristã e eclesiástica católica romana, ocidental, tenha condicionado esta sua intervenção. Sem que o próprio Autor se tenha sequer chegado a aperceber. Teria sido preciso que o Autor saltasse fora do cristianismo e da igreja católica, enquanto sistema eclesiástico e estado do Vaticano, para que esse seu trabalho de assessor tivesse podido ser maiêutico, de parteira, ao jeito de Jesus Nazaré. O factor “cristão” é intrinsecamente ideológico, por isso, intrinsecamente limitativo. Em última instância, é cristandade, domínio, mesmo quando defende o que chama de “liberdade religiosa”, em lugar de Liberdade, simplesmente.

 

Emigrar, sair do cristianismo para a Humanidade, o Humano, é, sem dúvida, muito difícil, sobretudo para membros de congregações religiosas, reconhecidas pela igreja-estado do Vaticano, ou igreja-poder monárquico absoluto, nos antípodas de Jesus Nazaré. É difícil, mas inquestionavelmente imprescindível, se quisermos, finalmente, vermo-nos face a face com a Humanidade, o Humano, e não com o poder, o velho ou o novo que emerja, aqui e ali, para substituir o velho. O cristianismo é, porventura, a mais sofisticada forma de dominação da Humanidade. Tão sofisticada, que nem os grandes intelectuais cristãos, católicos ou protestantes, se dão conta. Podem, por isso, chegar a perder a própria vida, na convicção de que a salvam, quando, na verdade, a perdem para reforçar/salvar ainda mais a ideologia cristã que se mascara de mártir e se faz passar pelo que há de melhor sobre a terra.

 

Ainda assim, não deixa de ser fascinante viajar com Frei Betto, à medida que lemos este seu Livro. Descobrimos como ele, já com 60 livros publicados, muitos deles, traduzidos em diferentes línguas, se tornou amigo de Fidel e Raúl Castro. Conhecemos também os seus encontros ao vivo com Gorbacheve, Lech Walesa e Hugo Chávez. Como cristão erudito que é, Frei Betto foi capaz de questionar, nesses contextos, o ateísmo comunista, ao mesmo tempo que tentava demonstrar o carácter libertador da fé cristã. A tese do carácter libertador da fé cristã é típica do próprio cristianismo que, ao longo dos séculos, tem mantido tragicamente cativas as mentes dos grandes pensadores ocidentais, dos grandes artistas, dos grandes músicos, dos grandes filósofos e teólogos. Todos, à uma – é preciso dizê-lo – mais não têm feito do que reforçar a ideologia cristã, disfarçada de fé cristã, e que mais não é do que uma sibilina forma de olhar o mundo e os seres humanos, quando o mundo e os seres humanos não são efectivamente assim como a fé-ideologia cristã os vê e diz que são!

 

O Livro apresenta relatos de episódios curiosos dos relacionamentos de Frei Betto, seu Autor, com Gabriel García Márquez, José Saramago, Lula, Óscar Niemeyer, Chico Buarque, Hélio Pellegrino, Daniel Ortega, Ernesto Cardenal, Dom Paulo Evaristo Arns, Dom Pedro Casaldáliga, Leonardo Boff e muitos outros menos conhecidos do grande público ocidental. Cada qual com os seus valores, as suas originalidades, suas generosidades, seus equívocos. Por isso, dificilmente, se começa a ler este Livro e se pára, tão alucinante é a viagem com Frei Betto.

 

O mundo deste início de terceiro milénio tem muito das intervenções destas e de outras personalidades semelhantes. Em consequência, mais não é do que o resultado do choque entre o ateísmo comunista e a fé cristã deísta mais ilustrada. Seria com certeza um mundo muito outro, se, em vez disso, fosse o resultado de práticas políticas maiêuticas de mulheres, homens, ilustrados ou não, intrinsecamente jesuânicos, animados de dentro para fora da mesma fé de Jesus, o crucificado pelo império, precisamente, por ser plena e integralmente humano, como tal, não ter, nem poder ter lugar neste tipo de mundo do poder financeiro, religioso e político, senão como crucificado. Por isso, infinitamente fecundo.

*** *** ***

Edição 109, Junho 2015

Antonio Piñero / Editorial Trotta

GUIA

PARA ENTENDER

PAULO DE TARSO

Uma Interpretação do Pensamento paulino

 

São 575 páginas. Densas. De muito estudo, por parte do Autor. Para muito estudo por parte das potenciais leitoras, dos potenciais leitores. Deseja-se que sejam muitas, muitos. A obra merece. O Autor, licenciado em Filosofia Pura, Filologia Clássica, Filologia Bíblica trilingue, e doutor em Filologia Clássica, é hoje considerado uma das sumidades do Estado espanhol, em Bíblia, nomeadamente, nos Livros Apócrifos. Já com vários títulos, nesta mesma Editora. A obra exige alguns conhecimentos culturais gerais de base. Nomeadamente, do Novo Testamento. Mas até simples principiantes que entendam o espanhol aproveitam da leitura, uma vez que o Autor explica-se muito bem e com muito pormenor.

 

Trata-se de uma nova abordagem, a partir dos dados mais recentes que a investigação bíblica e hermêutica disponibiliza sobre aquele se auto-designou como 13º apóstolo, uma sibilina maneira de se dizer o 1.º de uma nova série de Doze, que deixa na sombra a série de Doze imediatamente anterior, encabeçada por Pedro e concluída por Judas, historicamente criada por Jesus, mas que depois o veio a trair. Paulo é o 1º e o único dessa nova série de doze, sem o qual dificilmente teria havido estes dois mil anos de cristianismo, praticamente, esvaziados de Jesus Nazaré e do seu Evangelho politicamente subversivo.

 

Um cristianismo que teve a sua pujança na Idade Média e a sua expansão global no século das “descobertas e conquistas”, a que se juntou o Protestantismo de Lutero e demais reformadores, mas hoje já em vias de extinção, no que respeita à sua versão religiosa; ainda que mais pujante do que nunca, no que respeita à sua versão financeira, intrinsecamente arrasadora do planeta Terra e da vida que nele aconteceu e se tem desenvolvido, com destaque para a vida humana consciência e afecto.

 

Nesta versão secular, laica, o cristianismo, nomeadamente, o paulino, é global e só irá parar, quando ele próprio implodir. Um dado inevitável, a menos que a Humanidade se converta, isto é, aceite regressar a Jesus e ao seu Projecto político maiêutico, traído-negado pelos Doze. Aos quais se juntou Paulo de Tarso e lhe deu um corpo de doutrina, sob a arguta forma de Evangelho paulino contra o Evangelho de Jesus, o que agravou ainda mais a traição primeira de Pedro e seus companheiros.

 

Estes 20 séculos de cristianismo são inteiramente dominados pela ideologia de Paulo, das suas Cartas, da sua visão mítica da história, totalmente acientífica, uma espécie de círculo fechado que acabaria, o mais tardar, no final do viver histórico do próprio Paulo que, até, já nem chegaria a morrer, seria assebatado nos ares com os outros seus contemporâneos vivos, ao encontro do “senhor”, o Cristo vencedor da morte e o juiz de todos os povos que iria chegar em todo o seu poder e glória, depois de, uns anos antes, ter sido crucificado-sacrificado pela redenção da Humanidade, caída em pecado desde o início, com Adão e Eva.

 

Uma concepção estruturalmente bíblica, davídica, criada para impor ao mundo o povo judeu como o único povo eleito por Deus entre todos os demais povos da terra, com a missãao de conduzir os demais à salvação. È uma aberração, mas tem sido esta aberração bíblica que continua presente na cabeça das elites dos privilégios e dos saberes académicos superiores, teológicos e filosóficos, apesar de tudo o que Paulo de Tarso disse ter por base um mito e não se ter chegado a cumprir, nem na época anunciada por ele, nem nestes dois mil anos de judaísmo-cristianismo paulino.

 

O presente Livro apresenta-nos uma nova interpretação do pensamento-evangelho de Paulo. O Autor não é propriamente o criador dessa nova interpretação, mas oferece-nos neste seu ingente trabalho uma visão de conjunto do que verdadeiramente Paulo terá querido dizer nas suas Cartas, garantidamente escritas ou ditadas por ele. Por sinal, todas elas apresentadas neste Livro, da mais antiga à mais recente, em nova tradução que ninguém deverá desconhecer, inclusive, os que hoje já não se dizem cristãos, em nenhuma das congregações ou igrejas. Se quisermos entender com mais profundidade o nosso tempo, a ideologia que domina e formata as mentes humanas deste início do terceiro milénio, temos de conhecer este Livro. De certo modo, dele se pode dizer que é a última palavra sobre o cristianismo paulino.

 

Certamente que o Autor impôs-se a si próprio este trabalho de investigação e de síntese sobre o “novo” S. Paulo, para, deste modo, contribuir para o êxito do cristianismo. Mal sabe ele quanto este seu trabalho contribui para motrar quanto o cristianismo é anti-Jesus, é anti-humanidade. Seja com a interpretação paulina que marcou todos os séculos do cristianismo, seja com esta nova interpretação, o cristianismo de Pedro e de Paulo, de Paulo e de Pedro, é smpre o que há de mais absurdo na história do pensamento humano, o destruidor do humano nos seres humanos. Como é absurdo um Deus que exige o sacrifício do seu próprio filho para, desse modo, perdoar aos seres humanos um pecado inicial que, sabemos hoje, nem sequer existiu. Como é absurdo todo o pensamento que aceita o sacrifício de um ser humano para redenção de todos os outros. Admitido este crime, como coisa santa, sagrada, agradável a Deus, todos os demais crimes são admitidos. Se, para cúmulo, ainda se acrescenta que Deus é que exige que as coisas sejam assim, então não há mais Humanidade, só o Absurdo institucionalizado. Pois bem, o nosso hoje e aqui mundial é este Absurdo organizado em sistema financeiro que aniquila tudo e todos os que se lhe opuserem. E, no fim, auto-destrói-se, porque é intrinsecamente suicida.

 

Podem as igrejas cristãs correr e saltar. São todas agentes históricos do Mal, mascaradas de agentes do Bem. A máscara é tão perfeita que passa por realidade, aos olhos do mais crítico. Só não passa aos olhos de Jesus e do seu princípio base para avaliar do agir de alguém: – atentar nos frutos que resultam de cada agir concreto. Se não são frutos de vida de qualidade e em abundância para todos os seres humanos e todos os outros seres que povoam o planeta, e para o próprio planeta, então, semelhante agir é o Mal institucionalizado, por mais que se reiviundique de Deus. A teologia que o justifica é pura idolatria e tem de ser liminarmente dunciada, rejeitada, lançada fora como o sal que perdeu a força de salgar e de impedir a corrupção. É uma teologia que mata. Outra coisa não é o cristianismo das Cartas de S. Paulo e, antes dele, o cristianismo de S. Pedro. Hoje, o cristianismo das igrejas cristãs todas, a cara religiosa do poder financeiro, intrinsecamente ladrão, assassino, suicida, geocida, ecocida.

 

Com este Livro, tudo fica ainda mais claro, mesmo que essa não tenha sido a intenção, muito menos, o objectivo do Autor. A verdade é que com o tempo, o evangelho de S. Paulo acabou por arrastar a humanidade para o beco sem saída, em que ela hoje se encontra. É cada vez mais claro que fora do Humano não há salvação dentro da história. Regressamos a Jesus, ao seu Projecto político maiêutico, ou perecemos, numa história sem saída. Dentro duma nave pilotada por loucos que se têm por bons, santos, eruditos. “O cristianismo, como fenómeno posterior ao Jesus histórico – escreve o Autor – não se entende sem Paulo de Tarso, como seu fundamento e condição, mais do que como seu fundador em sentido estrito.” Faltou-lhe concluir daqui que Jesus histórico é uma realidade, o cristianismo outra realidade. E que, entre uma e outra, entre um e outro, há um abismo instransponível. Eis!

 

---

Editorial Trotta / Rosa Rossi

TERESA DE ÁVILA

Biografia de uma escritora

 

Nunca Teresa de Ávila foi tão bem apresentada às mulheres, aos homens deste século XXI, como o faz a Autora maior deste Livro maior. O facto de Rosa Rossi ser uma intelectual marxista de alto gabarito é indubitavelmente decisivo para semelhante resultado. Só alguém com uma mente-consciência limpa dos mitos religiosos, cristãos, clericais, eclesiásticos contra os quais a própria Teresa se bateu, no seu tempo e país, mergulhados, um e outro, no terror da Santa Inquisição que não suporta a sua irreverência, dissidência, lucidez, autonomia mental, sem subserviências aos clérigos, apenas fiel à sua própria consciência, que Teresa chama “Voz interior”, pode protagonizar uma obra desta envergadura intelectual e moral, tecida ao longo de 320 páginas.

 

Ler este Livro é viajar por dentro do ser humano, no caso, a mulher Teresa de Ávila, situado no seu concreto contexto histórico. E, ao mesmo tempo, viajar por dentro desse contexto. Só uma escritora marxista consegue ver, no ser-viver dissidente, profundamente humano, de Teresa, do que são capazes os clérigos, nomeadamente, os confessores, directores espirituais, abades, abadessas dos conventos, então muito em voga e muito procurados, sobretudo, por mulheres que não conseguiam casamentos à altura das suas ambições e se refugiavam nessas casas de perdição santa, para serem consideradas santas, por isso, com um estatuto ainda superior ao das casadas.

 

Também Teresa é atacada por esta febre de santidade, mas, depressa, se apercebe que os conventos, sobretudo, os mais rigorosos nas suas regras, eram antros de desumanidade, crassa desigualdade, de corrupção, troca de influências, jogos de poder. Por esse então, o cristianismo está em força contra os judeus, nomeadamente, os chamados “cristãos novos”, contra os muçulmanos (mouros). Então, ser cristão é igual a ser de Deus. Ser humano é ser do diabo. Tal e qual. Ainda hoje é assim, mas com menor virulência do que então.

 

Teresa agiganta-se no meio deste antro de santidade sem humanidade. Nem a própria família a entende, como já a família de Jesus, filho de Maria, não o entendeu. As ambições de santidade são em tudo iguais às ambições do poder e do dinheiro. Parece estranho, mas não deveria parecer. Basta darmo-nos conta de que todas as ambições humanas têm o cristianismo por pai. Desde que o cristianismo foi implantado a ferro e fogo na mente das populações, as famílias que se constituem à sua sombra, são todas filhas dele. Se, nalguma família cconstituída, uma das filhas, um dos filhos ousar nascer de novo, do Vento, da Ruah de Jesus, encontra, logo, nos seus próprios familiares os mais perigosos inimigos.

 

O caso de Teresa de Ávila, nesta biografia de uma Escritora, é o que revela, dentro dos limites culturais do seu tempo. Pode a linguagem de Teresa ser ainda a do cristianismo, mas as suas práticas são próprias da Humanidade. E são precisamente as práticas de Teresa de Ávila que enfurecem os censores da Inquisição, os confessores, os directores espirituais, os clérigos, que, como sabemos, se têm na conta de deuses infalíveis, donos, senhores das consciências dos demais. Sem nunca chegarem a dar-se conta de que são, eles próprios, os mais escravizados pela ideologia-teologia do cristianismo que lhes rouba o Humano que são e faz deles clérigos, sacerdotes, seres àparte, separados, eunucos, por isso, tiranos, abutres, vampiros, sob o manto de santidade institucional, os mais infelizes dos seres vivos.

 

Navegar pelas páginas deste Livro é navegar por um dos períodos mais sinistros da história do cristianismo católico romano, dentro e fora dos conventos. Toda a sociedade está, nesse então, dominada por ele. As próprias famílias regem-se por códigos de comportamento que as leva ao suicídio interior, consequentemente, a submeter-se, até, a castigos públicos impostos pelos clérigos, numa prepotência de arrepiar o mais insensível. Lê-se e dificilmente se acredita. Mas a verdade é essa, crua e dura. Ai de quem cai nas malhas da Inquisição. Ai de quem cai nas malhas dos clérigos. Ai de quem cai nas malhas dos abades, das abadessas dos conventos. O Livro conduz-nos por essas cloacas sagradas, com o nome de Deus a justificar o que há de mais abominável.

 

A luz, num tempo de tão densa treva cristã católica, ganha corpo no corpo de Teresa de Ávila. O cristianismo começa por fazê-la sua refém. Mas não consegue levar a melhor. Porque, à medida que Teresa vai ao abismo do Mal santo institucional, acaba por perceber que o Mal santo continua a ser Mal. O adjectivo “santo” que o cristianismo lhe acrescenta, não consegue mudar o Mal em Bem. Por mais que os seus pregadores, os seus clérigos, o proclamem aos quatro ventos. O Mal é sempre Mal. E tem de ser visto em todo o seu hediondo. Teresa não tem linguagem alternativa para o dizer. Di-lo, porém, com a mais eloquente das linguagens, a das suas práticas. É uma mulher progressivamente insubmissa, dissidente, irreverente, autónoma, fiel à Voz interior, à sua consciência. Deixa-se conduzir por ela. É Vento no Vento, ora brisa, ora tsunami. Tudo nela vem de dentro. Afirma-se contra tudo e contra todos, para ser a favor das vítimas. É maldita na boca de muitos. Tem, entretanto, algumas almas gémeas, entre mulheres, homens que navegam as mesmas águas da irreverência, da insubmissão, da dissidência.

 

Uma coisa Teresa de Ávila não conseguiu e não sabemos se alguma vez algum ser humano chegará a conseguir. O Mal santo institucional que é o cristianismo perdeu com ela a batalha histórica, mas não perdeu a guerra. Só por isso é que Teresa integra hoje a lista dos santos, instituída pelo Mal santo institucional, que é o cristianismo. Os seus clérigos maiores não conseguiram vergá-la em vida histórica. Vergaram-na, depois que a apanharam na inevitável condição de invisibilidade história, em que a Morte, como plenitude da Vida, nos coloca, finalmente, a todas, todos. Já fez o mesmo com Jesus, o filho de Maria, quando o transformou no mítico Cristo, ou Jesuscristo. Por isso, a Autora faz questão, e bem, de lhe chamar, nesta sua biografia, Teresa de Ávila. Deixa para o Mal santo institucional chamar-lhe, “Santa Teresa de Ávila, doutora da igreja”. Odeia tanto o Humano, que àquelas, àqueles que não consegue vergar nos breves anos da nossa visibilidade histórica, faz delas, deles, santas, santos, após a morte. Prova, assim, que é o Mal santo institucional por antonomásia!

 

Corram por este Livro. Nem que tenham de aprender espanhol para o lerem. Não se arrependerão. Mas tenham convosco também esta recensão crrítica do JF. Porque ela é fundamental para navegarem nas páginas de Rosa Rossi. A sua formação marxista maior fica muito mais fecundamente reveladora, com a visão da Fé e da Teologia de Jesus, o filho de Maria com que esta recensão se apresenta tecida. Para escândalo de muitas, muitos, ainda hoje. Boa leitura, total libertação de dentro para fora. Com Teresa de Ávila contra o Mal santo institucional.

 

*** *** ***

Edição 108, Maio 2015

Hans Küng / Editorial Trotta

Grandes Pensadores Cristãos

Uma pequena introdução à teologia

 

A pequena Introdução ao Livro é assinada pelo próprio Autor, em 1993. A 1.ª edição Trotta é de 1995. Surge agora a 2.ª edição de uma pequena obra que se ocupa apenas de 7 grandes teólogos cristãos, todos com um denominador comum, no crítico ver do Autor: São, se assim se pode dizer, as traves-mestras dos diversos cristianismos, tais como hoje os conhecemos, seguimos, suportamos. Sim, suportamos. Porque são todos desviados de Jesus e da sua “teologia” que recusou sempre ser cristão, para se manter fiel ao Humano, aos povos de todas as nações, os que Deus Abba-Mãe ama infinitamente e nos quais habita em permanência, demos nós pela sua presença, ou não. Obviamente, esta não é a tese do Autor do Livro. Pelo menos, de forma assumida. De algum modo é, mas inconsciente e involuntariamente, se tivermos em conta o que ele nos diz-revela na breve Introdução ao Livro. Com a transcrição de palavras de um dos 7 “grandes teólogos cristãos” que nos apresenta neste Livro de 214 pgs, precisamente, o pai do cristianismo protestante, Martinho Lutero. Essas palavras são o que de melhor se pode dizer contra a teologia cristã, nomeadamente, contra os “grandes teólogos cristãos”, 7 dos quais são aqui estudados. A que havemos de juntar os milhões de outros, ao longo dos 20 séculos do cristianismo, também os da nossa actualidade.

 

“Se te sentes importante – escreve Lutero – e te imaginas detentor da verdade e te sentes agradado com os teus próprios livros, doutrinas ou escritos, como se os tivesses feito à mil maravilhas e pregado na perfeição; se te agrada sobremaneira que te louvem, de contrário, viverias triste e sem vontade de viver; se és deste tipo de teólogo, amigo, então pega as orelhas, agarra-as bem, verás que são um lindo par de grandes, largas, ásperas orelhas de burro. Nesse altura, não te importem as despesas e enfeita-as com umas campainhas de ouro, para que por onde passares, possam dar pela tua presença, apontar-te o dedo e dizer, «Vede aquele belo animal que sabe escrever livros tão incompreensíveis e pregar na perfeição». Então, serás bem-aventurado e mais do que bem-aventurado no reino dos céus. Sim, pois para o diabo com todos os seus anjos está preparado o fogo do inferno.”

 

Os cristianismos e seus teólogos são todos seres desta espécie. Conseguem a proeza de matar Jesus, furiosos que ficam com a sua prática teológica, entre meados do ano 28 e Abril do ano 30, que nos remete para um Deus que nunca ninguém viu. Para cúmulo, depois de o matarem, ainda colocam em seu lugar, um mito, chamado Cristo, ou Jesuscristo. Acerca dele, escrevem então complicados tratados que nem eles próprios entendem. Dois mil anos de teologia cristã são dois mil anos de desvio dos seres humanos, da realidade mais real. São dois mil anos de mitos praticados. Os frutos estão aí hoje bem à vista, no tipo de mundo que nos mata e transforma em mercadorias, coisas, vermes rastejantes, ou elites carregadas de privilégios, mas vassalos do poder financeiro, os mais infelizes dos seres vivos, já sem nada de humano, só mito sobre mito.

 

O livro é de leitura obrigatória. Não para nos edificar, mas para conhecermos sem margem para dúvidas estes 7 “grandes teólogos cristãos”, sem os quais, não haveria cristianismos. Pelo menos, nunca teriam chegado ao século XXI. Se nos impressiona negativamente o que aqui se escreve sobre Paulo de Tarso, Orígenes, Agostinho de Hipona, Martinho Lutero, Frederich Schleiermacher, Karl Barth, ficamos sem palavras sobre o muito que nos é dito sobre Tomás de Aquino, o famoso Santo Tomás de Aquino, o “grande teólogo cristão” que, desde o século XIII, domina por completo o pensamento teológico universitário até ao Concílio Vaticano II, realizado já no início da segunda metade do século XX. Compreendemos como nunca antes a influência nefasta que a sua teologia, juntamente, com a de Santo Agostinho, exerceu, ainda exerce, na hierarquia da igreja católica. E tamém na protestante, já que Martinho Lutero, monge católico atormentado com o medo do inferno, tem toda essa mesma escola teológica, fundada sobre as Cartas de S. Paulo, Santo Agostinho, Santo Tomás de Aquino.

 

Chega a doer-nos a alma, constatar que nem Hans Küng consegue sair desse labirinto que são os cristianismos e a sua teologia que remete fatalmente para um deus nos antípodas do de Jesus, por isso, o mais refinado dos ídolos. E nem ele consegue ver este monumental desvio, tão marcado que anda por ele, desde a infância. Se nem ele consegue ver, quem há-de ver? Certamente, aquelas, aqueles que se incluem no “pequenino rebanho” de pobres, humildes, aves do céu, lírios do campo, dos quais fala Jesus, os únicos a quem Deus Abba-Mãe se dá a conhecer. Os grandes e aspirantes a grandes só têm olhos e entendimento para o que é grande, majestático, solene, estilo cúria romana, cardeais, papa de Roma, basílica de s. pedro e quejandos.

 

Um pormenor salta da vida de Tomás de Aquino, em boa hora, destacado neste livro pelo seu Autor. Em dado momento, Tomás interrompe abruptamente a escrita da sua Suma de teologia, quando já ia a meio da terceira parte, na discussão sobre o sacramento da penitência. É dia 6 de Dezembro de 1273. Confessa o próprio, “Não posso continuar, porque tudo o que escrevi, parece-me palha. “Omne foenum = É tudo palha”. Nunca Tomás de Aquino foi tão lúcido, como nessa ocasião. Alguns meses depois, morre, a caminho do Concílio de Lyon, sem nunca mais ter escrito um linha sequer. “É tudo palha”. Concretamente, o cristianismo e sua teologia. Quem for capaz de entender que entenda. Mesmo assim, canonizaram-no e continuaram a ensinar às sucessivas gerações a sua teologia. Certamente, para poderem continuar na sua mentira teológica institucional, contra Jesus Nazaré, contra a Humanidade., contra os povos das nações. Só podemos chorar. Choremos. E mudemos.

 

*** *** ***

Edição 107, Abril 2015

 

Teófilo Cabestrero / Desclée De Brouwer

Jesus, o homem que ama como Deus

Viver hoje a condição humana ao estilo de Jesus

O Autor é missionário claretiano,doutor em teologia, diplomado em Evangelização, professor de Teologia Pastoral, escritor. Zaragoza, Espanha, é a sua terra natal, mas ele acabou por se tornar um cidadão do mundo, com uma fecunda visão cosmopolita. O Livro, 173 pgs, “faz-se” em 7 capítulos. Só a partir do quarto capítulo, inclusive, nos fala expressamente de Jesus. Muito a partir do que dele dizem/escrevem renomados teólogos de cristologia, biblistas. Melhor seria que fosse a partir da sua própria vivência-experiência com Jesus e sua Ruah, como sucede com as comunidades clandestinas que escrevem os 4 Evangelhos canónicos em 5 volumes, para nos testemunarem Jesus, o camponês-artesão de Nazaré, o filho de Maria, como faz questão de sublinhar o primeiro dos 4 a ser escrito, o Evangelho de Marcos. Também, a partir do próprio Jesus, tal como a mais recente investigação histórica no-lo apresenta – camponês-artesão de Nazaré, cujo ser-viver é recheado de conflitos com os dirigentes máximos do judaísmo davídico, seus teólogos, doutores da Lei, escribas, fariseus. Sobretudo, ainda, a partir da grande Pergunta, Porque mataram Jesus? E porque esse horrendo crime, convertido em obsceno sacrifício de redenção pelo cristianismo paulino, teve de ser consumado na cruz do império romano, convertida, entretanto, no símbolo maior do mesmo cristianismo, nascido depois dessa sua morte? Cristianismo que nunca fez parte do ser-viver de Jesus, nem sequer como projecto a concretizar depois do seu viver, abruta e violentamente interrompido. Este, sim, seria certamente um caminhomuito mais fiável, para, neste século XXI, chegarmos mais ao miolo do Jesus histórico, plena e integralmente humano, coisa que nem os Doze, nem depois S. Paulo, conseguiram chegar. Apesar dos Doze, terem andado com ele. Em verdade, nunca o conheceram verdadeiramente.

Ficam aqui os títulos dos sete capítulos, por sinal, bastante expressivos, porventura, muito mais prometedores no seu enunciado do que, depois, os respectivos conteúdos nos dizem em concreto. 1. Luzes e sombras na nossa condição humana que podem humanizar-nos ou desumanizar-nos. 2. Viver humanamente é conviver: as relações interpessoais na nossa condição humana. 3. O amor que nos humaniza e o desamor que nos destrói. 4. Como viveu Jesuas a nossa própria condição humana. 5. As relações interpessoais vividas por Jesus de Nazaré. 6. Jesus, o homem que ama como Deus. 7. Como podemos viver hoje a nossa condição humana ao estilo de Jesus.

É deste último capítulo que se destacam aqui algumas das suas afirmações: “Dois requisitos prévios são indispensáveis para assim chegar a viver ao estilo de Jesus: «desejá-lo» de verdade e meter-nos ao cuidado de «conhecer» como viveu Jesus no seu tempo a nossa condição humana. (…) Não é suficiente o conhecimento «doutrinal» teórico, teológico e cristológico, por melhor que seja. É indispensável o conhecimento «existencial»: conhecer a existência histórica de Jesus para nossa própria existência histórica. Não apenas uma questão de «mente», mas também e sobretudo de «coração».

É sem dúvida surpreendente, inovador, inabitual, este modo de olhar Jesus. Ainda assim, insuficiente. Porque do que se trata, no que respeita a Jesus, é conhecer a sua dimensão antropológica-teológica, sem nunca separar uma da outra. É que, com Jesus Nazaré, pudemos, finalmente ver-conhecer, pela primeira vez, tanto quanto aos seres humanos é possivel ver-conhecer, Deus que nunca ninguém viu, como sublinha, logo no capítulo 1, o quarto Evangelho, atribuído a João. De Deus, não sabemos nada, porque nunca O vimos. Conhecer/praticar Jesus é conhecer, ao mesmo tempo, o ser humano e Deus que nunca ninguém viu-conheceu. Pretender falar de Deus, sem ser a partir de Jesus Nazaré, é falar de um ídolo, projectado por quem a tal se atrever. É o que faz o judeo-cristisnismo nascente, sobretuo Paulo de Tarso nas suas viagens, nas suas Cartas e, mais tarde, o imperador Constantino, chefe da igreja de Roma com os Concílios de Niceia-Constantinopla, mai-los papas que lhe sucedem. Nessa altura, ficamos totalmente às escuras, quer quanto ao mistério que somos, nós, os seres humanos, quer quanto ao Mistério Maior que é Deus que em Jesus se nos dá a conhecer.

Depois de dois mil anos de cristianismo paulino, imperial, papal, é de todo impossível conhecer Jesus Nazaré, a partir deles, muito menos, dentro deles. Muito mais impossível é conhecermos Deus que nunca ninguém viu, o de Jesus. Ou nos distanciamos dos dois mil anos do cristianismo, nem que seja só metodicamente, ou tudo o que escrevemos, dizemos, ensinamos, praticamos é disparate, pior, idolatria. Teólogos, biblistas, os mais renomados, igrejas cristãs, estamos todos formatados por estes dois mil anos de cristianismo. Mas quem parte do cristianismo para Jesus, nunca chega a conhecer Jesus nem o verdadeiro porquê da sua morte. Nunca! Consequentemente, também nunca chega a conhecer Deus que nunca ninguém viu. Acaba sempre por saber tudo sobre Cristo, o mito davídico, praticamente nada sobre Jesus, o filho de Maria.

Esta é, por isso, a grande questão que se coloca no início do terceiro milénio do cristianismo e ao longo dele. Se não formos capazes deste “impossível”, a Humanidade corre sério risco de nunca mais chegar a Jesus, tão “comido” ele anda, ao fim de dois mil anos de cristianismo. E, se não chegamos a Jesus, tão pouco chegamos a Deus que nunca ninguém viu, nem sequer a nós próprios, seres humanos, outros Jesus. Consequentemente, não saímos da idolatria, em que os povos das nações estão mergulhados, um beco sem saída, que nos devora a alma, a mente cordial. Acabamos mercadorias. Com Cristo, o filho de David, em versão religiosa-litúrgica e, cada vez mais, em versão laica, o Cristo-poder financeiro global. Mas sem Jesus e o seu Projecto político. Inumanos, portanto! O presente Livro, apesar de inovador, na abordagem que faz de Jesus, fica muito aquém do que será necessário, neste milénio É ainda demasiado “cristão”, muito pouco “jesuânico”. Contudo, ninguém deixe de adquiri-lo, conhecê-lo. Ficam aqui os contactos: www.eedesclee.com e info@edesclee.com

---

Manuel Reis / Edicon Editora

Cultura Ocidental e Humanismo Crítico

Livro 1 e 2

 São dois livros, um só volume, 318 pgs. Entre o primeiro e segundo livros, medeiam 18-19 anos. Muito tempo, nestes que são os nossos dias de acelerada mudança. Isso explica a manifesta diferença, até na linguagem, entre os dois livros. Muito mais amadurecida, a mensagem, no Livro 2. Também, muito mais radical. O próprio Autor explica-se num curto texto enviado juntamente com o manuscrito digitalizado às suas Companheiras, aos seus Companheiros do Brasil, do Centro de Estudos do Humanismo Crítico (C.E.H.C.)/Grupo de Debates, responsável pela Edição, em comunhão com as Companheiras, os Companheiros de Portugal, cuja sede nacional fica em Guimarães, a cidade-residência do conhecido Autor.

“O Livro – lê-se nesse curto Texto, titulado, “Regastando um Ideal” – é uma espécie de Ponte de Transição criticista e a Modernidade Ocidental (ainda corrente) e a Pós-Modernidade Positiva e crítica, como tem vindo a ser configurada no C.E.H.C. É uma espécie de ante-Câmara do C.E.H.C.” E prossegue: “Arrancando da História da Cultura/Civilização do Ocidente, vai estruturando e balizando o Estaleiro criticista da Nova Cultura (adveniente) do Ocidente (com capacidades efectivas e justas para promover uma mundialização verdadeiramente Alternativa à Globalização (capitalista) em curso. Este plano é posto em prática pela negativa: autopsiando a História (tradicional) da Cultura filosófico-teológica do Ocidente; e pela positiva: estabelecendo os pródromos arquitecturais da nova Cultura/Civilização (do Ocidente) mundializada, que poderá ser, posteriormente, indiciada nos escritos e obras do C.E.H.C.”

Esta citação é suficientemente elucidativa de duas coisas a ter em conta no manuseio/leitura deste Volume, ambas oportunas: 1, A substantiva importância do conteúdo dos dois Livros que fazem este Volume; 2, A grande erudição com que ambos se apresentam escritos, de resto uma constante característica do Prof. Manuel Reis, querido Amigo do JF e do respectivo Director, desde os tempos da edição em suporte papel e também nestes mais recentes, em suporte online. A sua superior formação em Filosofia-Teologia, quer a teologia cristã, quer a teologia jesuânica, sempre nos é apresentada vestida de grande erudição. O que constitui, sem dúvida, uma mais-valia/exigência para as leitoras, os leitores, ainda que também uma dificuldade para quantas, quantos das populações são mantidos longe dessas profundidades e, até, deste modo erudito de nos dizermos-escrevermos.

O Livro 1, entre a extensa bibliografia que apresenta no final, lá aparece, também, o Jornal Fraternizar, então, ainda em suporte papel. E são diversas as citações de Textos inseridos nas suas 180 edições, concretizadas ao longo de ininterruptos 23 anos, mais o primeiro trimestre do ano 24, concretamente, Janº/Março 2011, a última edição, nesse suporte.

São inúmeras, nestes dois Livros, as citações de outros Autores, com as quais o Autor tece este Volume, como de resto, sempre tem tecido todos os muitos livros que já escreveu/fez editar. Nisso, faz jus ao seu modo erudito de dizer-escrever. Mergulhar nos seus livros tem, pois, essa valia, por sinal, muito apreciada entre os meios académicos, nomeadamente, nas Faculdades de Humanidades. O “senão” a apontar é que a esmagadora maioria das populações não tem hábitos de leitura, muito menos capacidade de interpretar o que lê. Fora do que se pode chamar “estilo jornalístico”, são muito poucas as pessoas preparadas para “comer-mastigar” livros como os dois Livros deste Volume. Mas há muitas das suas páginas mais acessíveis. Por elas, vale a pena mergulhar neste Volume e “comê-lo-digeri-lo”. Sobretudo, praticá-lo.

Fica aqui um naco comprovativo do que acaba de ser escrito: “Os dois «pais fundadores» da União Europeia (Jean Monet e Robert Shuman) – pode ler-se a concluir o Livro 2 – confessaram, no fim das suas vidas, que, se houvessem de iniciar de novo a odisseia, teriam começado pela Cultura (não pela Economia) e a união dos povos da Europa, nessa plataforma original/originante. Ora, é sabido que os agentes decisores, no Processo histórico, actuam em nome dos seus interesses e dos interesses nacionais do momento, não em nome do bom senso crítico. É isto que sempre acontece, inexoravelmente, na galáxia do Poder-dominação d’abord (que é a vigente e ainda predominante). Será possível corrigir do Processo histórico (no horizonte da planificação ante facta), se tivermos em conta algumas exigências fundamentais da gramática do «Homo Sapiens//Sapiens». Designadamente, na situação concreta da continuidade do Euro, enquanto moeda única: – Adopção (estratégica) do modelo da Confederação de Estados, aí integrados; - União bancária (com recurso aos eurobonds, para os países gravemente endividados) e definição prévia (em sedes de Parlamento Europeu e Conselho Europeu) de uma gramática económico-financeira para a elaboração dos orçamentos nacionais; - primado incontornável do Político sobre o económico-financeiro, para evitar (…, etc)”.

Quem puder, corra por este Volume, ao encontro dos 2 Livros que nele se nos oferecem. Contacto electrónico do CEHC – Portugal: lillian.reis40@gmail.com. No Brasil: noetica@uol.com.br .

---

Edição 105, Fevereiro 2015

 

Juan Antonio Estrada / Editorial Trotta

Que dizemos, quando falamos de Deus?

A fé em tempos de cepticismo

 Nunca um teólogo católico, da envergadura académica do Autor deste Livro, terá ido tão longe na crítica ao cristianismo das igrejas cristãs. Ao seu tipo de Fé. Ao seu tipo de teologia. E com uma profundidade argumentativa e fundamentada nada habitual. De modo algum, este Livro pode ser ignorado pelos demais teólogos, elas e eles. E pelas hierarquias das igrejas cristãs. Aliás, o Autor é catedrático de Filosofia na Universidade de Granada. E doutor em teologia pela Universidade Gregoriana de Roma. Nesta sua obra (180 pgs), inevitavelmente, erudita, sem deixar de ser bastante acessível a um grande público medianamente conhecedor de Bíblia e de história das igrejas cristãs, o Autor arrasa S. Paulo e o seu Evangelho, sem o qual, no magisterial dizer do actual papa de Roma, Francisco, pura e simplesmente não haveria cristianismo. O que, no entender do próprio papa, pode haver cristianismo sem haver Jesus Nazaré, nem o seu Evangelho. O que faz do cristianismo uma inqualificável aberração. À luz de todo o livro, a conclusão mais lógica seria esta, O cristianismo é uma inqualificável aberração. Surpreendentemente, não é a conclusão a que chega o Autor. Para desconcerto de quem o acompanha, da primeira à última página. O “peso” dos dois mil anos de cristianismo tê-lo-á impedido de tirar semelhante conclusão. O que se lamenta. Aliás, é essa a grande incongruência do Autor e deste seu Livro. Quem o ler-estudar, metodicamente distanciado dos dois mil anos de cristianismo, acaba por chegar lá. Ainda assim, temos tudo a agradecer ao Autor, por ter-nos conduzido até esse limite. Nem ele se atreveu a derrubá-lo – é preciso muita audácia e muita disponibilidade interior para pagar o respectivo preço – mas outras pessoas que o lerem-estudarem, chegarão, com certeza, lá. E isso é o mais importante.

Para se levar até ao fim a denúncia do cristianismo e erradicá-lo de vez das nossas mentes e das mentes das populações nunca evangelizadas por Jesus, é preciso colocarmo-nos em Abril do ano 30, naqueles dias imediatamente a seguir à sua morte crucificada. O que valeu ter o seu cadáver lançado à vala comum, não num luxuoso sepulcro, como rezam certas narrativas teológicas de “aparições” do “ressuscitado”, cuja interpretação tem de ser toda reformulada, à luz de Jesus, não de S. Paulo, como fazem as igrejas cristãs e suas universidades confessionais. A interpretação que foi imposta ao longo destes dois mil anos, é precisamente a do judeo-cristianismo primitivo, de Pedro, o negador-mor de Jesus, e de Tiago, irmão opositor de Jesus. Uma interpretação nitidamente interesseira, corporativa, nacionalista, a única que enchia a cabeça desses dois judeus, defensores fanáticos do messianismo davídico, ingenuamente anunciado/esperado para aqueles dias. Uma crença mítica que estes dois judeus tomaram à letra, cada qual segundo os interesses corporativos que o animavam: Familiares, os de Tiago. Do judaísmo nacionalista davídico, os de Pedro, enquanto chefe do grupo dos Doze, o “novo Israel” que foi ao fundo, quando, no ano 70, em vez do esperado messias e do seu reino triunfante, o que veio foi o império romano com as suas tropas, que não deixaram de Jerusalém e do templo, pedra sobre pedra.

O aparecimento de Saulo/Paulo, não muito depois da fundação do judeo-cristianismo primitivo, veio ajudar a salvar e a difundir pelas principais cidades do império de Roma, o absurdo judeo-cristianismo davídico que o próprio Jesus Nazaré desmascarou, rejeitou. Sem sucesso, diga-se, inclusive, junto do grupo dos Doze, escolhidos, um a um, por ele. Mal o apanham morto e maldito, segundo a Bíblia, logo se adiantaram e fundaram contra ele o judeo-cristianismo. Saulo acaba por ver neste judeo-cristianismo davídico, a realização do sonho dos seus antepassados e fez dessa mítica crença o núcleo do seu Evangelho contra o Evangelho de Jesus que, de resto, nunca chegou a conhecer, tão pouco, quis conhecer. Bastava-lhe essa sua fanática convicção. Chega, até, a morrer por ela. Em vão, porque a realidade de Deus, o de Jesus, é totalmente outra e só Jesus, o filho de Maria, no-la dá a conhecer. Já o cristianismo tem reiteradamente desviado as populações de Jesus e de Deus, o de Jesus. Também da Fé, a de Jesus, nos antípodas da fé cristã, mítica, religiosa, pura evasão da história e da realidade. 

“Neste livro – escreve o Autor, p. 20 – procuramos uma nova compreensão da fé, que não atraiçoe a identidade cristã e que não fique prisioneira do passado”. Sem querer, o Autor, com toda a sua erudição e profundidade teológica, começa por surpreender e criar em quem o lê-estuda uma grande expectativa com este seu Livro, mas, depois, mais não faz do que manter-nos no passado, se bem que com uma nova roupagem, bem mais erudita. Não conseguiu ver que não atraiçoar “a identidade cristã”, é, automaticamente, atraiçoar a identidade jesuânica. Não chega, por isso, a sair do círculo fechado do cristianismo. Não descobre, muito menos, saboreia a originalidade da via ou caminho que é Jesus, o filho de Maria, em contradição/oposição total com o Cristo, ou Jesuscristo, o filho de David. Entre Jesus, a fragilidade humana – sarx, em grego – na qual Deus que nunca ninguém viu, se nos dá a conhecer, e o Cristo filho de David – o poder invicto – a incompatibilidade é total. O abismo entre ambos é intransponível. O Autor deveria escrever: “Neste livro, procuramos uma nova compreensão da fé, que não atraiçoe Jesus, a sua Fé e o seu Movimento/Projecto político de sociedade alternativa à edificada por um qualquer filho de David, o poder ou o cristo invicto, cujo pai é o Diabo, no teológico dizer de Jesus segundo João (cap. 8).

Coisa estranha é que, numa obra de tanta profundidade teológica, falhe a profundidade na abordagem hermenêutica da Bíblia, Primeiro e Segundo Testamentos. Estranha-se, por exemplo, que o Autor pareça desconhecer que os 4 Evangelhos em 5 volumes, não só não integram o chamado Novo Testamento, (quase) todo conseguido com textos-cartas de S. Paulo, o grande fundamento doutrinal do judeo-cristianismo primitivo e do cristianismo paulino, como, inclusive, foram escritos com o objectivo de denunciar a traição que o judeo-cristianismo e S. Paulo, estavam, logo de início, a fazer a Jesus e ao seu Evangelho de Deus que nunca ninguém viu. Ignorar este dado, é edificar uma teologia sobre a areia. Mais do mesmo, portanto, entre as teologias deístas das religiões e as teodiceias. Lá se vai por água abaixo a originalidade de Jesus, da sua Fé, da sua teologia, da sua antropologia. Porque não se trata, como faz o cristianismo e suas igrejas cristãs, de ter fé em Jesus. Trata-se de ser-viver-praticar a mesma Fé de Jesus, completamente, inacessível aos cristãos, enquanto tais, aos cristianismos e respectivas igrejas, enquanto tais.

Segundo Jesus, o único denominador comum entre os seres humanos é o facto de todos sermos humanos. Nada mais. Tanto mais humanos, quanto mais o formos ao jeito de Jesus, prosseguidores praticantes da sua mesma Fé que, antes de nos abrir a Deus que nunca ninguém viu, abre-nos aos demais seres humanos como nós, a partir dos últimos dos últimos, as vítimas das religiões, das fés religiosas, dos poderosos, das igrejas cristãs, das hierarquias, laicas que hoje se digam! Entretanto, não esquecer, a concluir, que tudo isto que aqui acaba de ser escrito, só foi possível, porque quem o faz, primeiro, leu de cabo-a-rabo, o Livro deste eminente teólogo ibérico. Por isso, depois de lerem esta recensão crítica, não deixem de correr pelo Livro e tirem, no final, as vossas conclusões.

*** *** ***

Edição 104. Janeiro 2014

Bill deMello / Desclée De Brouwer

ANTONY deMELLO

O caminhante feliz

 Mais do que uma biografia, o Livro é sobretudo um emocionado testemunho do irmão mais novo deste jesuíta indiano, internacionalmente conhecido, filho de pais indianos, mas colonizados por europeus, com destaque para portugueses e espanhóis, até 1961, altura em que Goa, Damão e Diu foram integradas na Índia, “descoberta” em 1498 por Vasco da Gama. Os portugueses foram, de resto, os últimos a deixar os territórios, não por própria vontade, mas por decisão unilateral do Estado da Índia. Daí os nomes do biografado e do biógrafo terem muito de europeu/ibérico. O Livro, 264 páginas, apresenta-se tecido de muitos contributos de pessoas que fizeram questão de testemunhar Tony deMello, junto do irmão biógrafo, na qualidade de leitoras dos seus livros, de suas contemporãneas, de participantes em alguns dos seus múltiplos eventos, marcados por uma espiritualidade que começou por ser quase agressivamente jesuítica-cristã-ocidental, mas, depois, acabou por tornar-se progressivamente macro-ecuménica, indiana/oriental. Ao ponto de a Congregação para a Doutrina da Fé, presidida pelo então cardeal Ratzinger, ter aprovado e divulgado, já depois da sua morte prematura e repentina (50 anos de idade) uma Declaração sobre as suas múltiplas obras, na qual alerta para os perigos para a fé cristã católica romana que a respectiva leitura contém. O que, sem ela querer, pode ter contribuído para fazer crescer ainda mais o número de pessoas em todo o mundo, que ainda hoje continuam a ler-escutar Tony deMello. A situação estará, hoje, bastante mais serena, em Roma, e a prova real é a edição desta biografia, por uma editora da área dos jesuías do Estado espanhol.

Estamos perante uma obra emocionada, por parte de quem a escreve, e emocionante para quem a lê. Não é todos os dias que deparamos com uma personalidade da fibra de Tony deMello. Mas o livro é também profundamente demolidor, no que respeita aos processos e métodos a que os jesuítas de Inácio de Loyola recorreram, para recrutar membros entre as populações submetidas pelo cristianismo e seus reis paus-mandados do papa, os processos e os métodos que o cristianismo, como poder monárquico absoluto, utilizou/utiliza para depressa conquistar e submeter as populações e apoderar-se das suas mentes, das suas riquezas. Com recurso às desmedidas ambições dos reis/governos cristãos católicos romanos, quando Roma era a dona e a senhora do Ocidente e sonhou cristianizar-submeter todos os povos da terra. Objectivo nunca alcançado, mas ainda não totalmente abandonado. Com uma grande diferença do passado. Hoje, o domínio e a submissão fazem-se mais sobre a mente/consciência das populações, enquanto o poder financeiro – o cristianismo laico – se ocupa com a acumulação da riqueza, num casamento com tudo de crassa idolatria e de intolerável inumanidade, que nem os cristãos mais eruditos vêem, muito menos, denunciam.

A leitura deste livro, é tremendamente reveladora. Nem o Autor se dá conta do que denuncia/revela. Porventura, a própria Editora, tão pouco. A verdade é que ó há Tony deMello, o padre jesuíta indiano, porque Vasco da Gama, no século XV, chegou à Índia e, com ele, o Cristianismo europeu, com destaque para o cristianismo ibérico, levado por espanhóis e portugueses. Com a “descoberta” e ocupação de territórios da Índia, chegaram logo os sacerdotes/missionários. E, entre estes, os jesuítas, como “tropa de choque” do papa de Roma, de resto, a única ordem religiosa católica, cujos membros são levados a fazer um quarto voto, o de servirem incondicionalmente o papado, numa dependência de causar calafrios. Os métodos de recrutamento e de formação, narrados neste Livro e utilizados com Tony deMello, têm tudo de horror e de terror. Depois do Concílio Vaticano II, as coisas tornaram-se bastante mais atenuadas, mas nem por isso deixaram de continuar a condicionar a liberdade de quem é “apanhado” na rede lançada, de múltiplas formas, pela Ordem inaciana. Actualmente, a sedução/namoro por parte da Ordem, junto dos estudantes que frequentam os seus inúmeros colégios e universidades, recorre a métodos menos chocantes do que os do passado, inclusive na primeira metade do século XX, o tempo do adolescente/jovem Tony deMello. Os métodos eram os mesmos do cristianismo conquistador e ladrão, destinados a fazer dos povos, súbditos do papa de Roma. Com a agravante de que, após o Concílio de Trento (séc. XVI), as paróquias, as ordens religiosas e os seminários diocesanos eram praticamente as únicas escolas que as crianças-adolescentes tinham para frequentar. As catequeses das paróquias e os colégios com internamento formatavam-lhes de tal modo as mentes que, quando adultos, quase não tinham nada dos seus concidadãos/familiares não-cristãos. Sob o domínio do cristianismo e seus reis católicos, quem não fosse cristão, via-se reduzido quase à condição das chamadas bestas de carga, sem direitos, só deveres, servos da gleba, escravos dos clérigos, senhores das terras.

O Livro revela, sem o seu Autor se dar conta, que Tony deMello foi um dos “apanhados” pelos jesuítas de então. Porque, antes dele, já os que vieram a ser seus pais e pais dos seus irmãos, o haviam sido também, por meio do baptismo imposto à força. Com o domínio do cristianismo, não lhes restava outra saída que não fosse serem cristãos. Por isso, o seu filho Tony deMello, baptizado pelos jesuítas, depressa se deixou fascinar pelo cristianismo e levou totalmente a sério os ensinamentos dos sacerdotes, no caso, sacerdotes jesuítas, que ocupavam a região e superintendiam ao ensino, nos seus colégios. Desde cedo, o menino quis ser, obviamente, jesuíta e assim veio a acontecer, apesar da dor que essa sua opção irrevogável viria a causar nos pais e nos irmãos, nele próprio. Porque o noviciado e o juniorado exigiam um corte radical com a família, em consequências de profundas “lavagens ao cérebro”, feitas, certamente, com a melhor das intenções pelos jesuítas, sem nunca se darem conta de quão desumanos eram os processos e os métodos que, como jesuítas, tinham de adoptar. A obsessão por Cristo, um mito davídico que se veio a impor como sinónimo de Jesus, o filho de Maria, tornava-se manifestamente doentia, quase suicida. Inácio de Loyola, uma vez cristão fanático e seguidor do papa contra Lutero e a sua Reforma protestante, não olha a meios para obter os fins que a si próprio se impõe e a quantos se disponham a segui-lo, na ordem que fundou e depressa foi aprovada pelo papa de turno. Segundo ele, os jesuítas têm de ser os mais habilitados em tudo, numa entrega incondicional e total ao serviço da cristianização dos povos da terra. E assim se faz, ou se fica pelo caminho.

Este Livro testemunha estes anos de Tony deMello, a caminho da ordenação, e depois dela, totalmente entregue à obediência, quase como se fosse um cadáver. A vontade do superior da Ordem é a sua vontade.Os interesses da Ordem são os seus interesses. Praticamente, não chega a ter vida própria. A Ordem e ele são um só. Para a Ordem, é um jesuíta exemplar, a quem ela confiou importantes responsabilidades, porque o sabia incondicional, como se nunca tivesse tido vontade própria. O Autor, irmão do biografado, quase deixa subenteder, mais para o final do Livro, que TonY deMello foi formatado de tal maneira, que essa formatação terá apressado a sua morte antes de tempo, uma vez que ele, tão exigente consigo próprio, nunca chega a queixar-se de nada, mesmo quando haveria motivos para o fazer. Desse modo, vem a morrer precocemente aos 50 anos de idade. Como um herói jesuita, certamente, mas a quem impediram de ser indiano com os indianos e, nessa medida, um cidadão do mundo, sem nunca perder a sua matriz original, única e irrepetível! Um Livro que é obrigatório ler, para que nunca ideologia alguma, cristã ou não, faça de nós gato-sapato, totalmente sacrificados ao deus Poder. Corramos por ele (email: info@edesclee.com; Fb: editorialdesclee).

---

Frei Betto / Editora Planeta do Brasil

OITO VIAS PARA SER FELIZ

 O título de capa do Livro não podia ser mais oportuno e feliz. E a gravura que o acompanha, um caminho a subir, em direcção a uma rochosa montanha, sugere, logo, que isto de ser feliz tem o que se lhe diga. O Autor, frei dominicano, leigo, de grande formação teológica cristã católica romana e macro-ecuménica, muito viajado e muito relacionado dentro e fora do Brasil, amigo entranhado de Fidel Castro, a quem entrevistou, (cf. “Fidel e a Religião”, traduzido em múltiplas línguas), é a garantia de que estamos perante uma obra séria, ao mesmo tempo profunda e acessível (Frei também foi jornalista), cuja leitura não pode ser descurada por ninguém, inclusive, pelos ateus, muitos deles amigos do Autor e dos quais o Autor é amigo.

Um discreto subtítulo, “Introdução às bem-aventuranças do Evangelho”, que só aparece nas páginas interiores, não na capa, diz-nos, de imediato, junto de que fonte o Autor foi beber, para escrever este seu Livro de 158 páginas. A fonte é Jesus Nazaré, testemunhado pelas comunidades que escrevem o Evangelho de Mateus e o Evangelho de Lucas, os únicos dos quatro Evangelhos em cinco volumes, que nos apresentam o que, em linguagem século XXI, se pode chamar os princípios fundamentais do Projecto político maiêutico de Deus, Abba-Mãe que nunca ninguém viu, para o mundo. Tal como o próprio Jesus o captou/conheceu/praticou. Graças à máxima intimidade que mantém com Deus Abba-Mãe e que Deus Abba-Mãe mantém com Jesus. O que faz dele o ser humano por antonomásia, totalmente entregue às grandes causas da Humanidade e do próprio Cosmos, não às causas de alguma religião, alguma igreja. 

Adquiramos o Livro e “mastiguemo-lo”. Depressa descobrimos que estamos perante um texto escorreito, limpo, actualizado, lúcido, sem cedências ao Grande Mercado e à sua satânica/mentirosa/enganadora Publicidade. Porque a felicidade que todos os seres humanos, na variedade de línguas, cores, culturas, almejam, não depende da abundância dos bens, nem dos cargos honoríficos que possam vir a desempenhar na sociedade. Muito pelo contrário. Tem tudo a ver com o Ser, vivido harmoniosamente com o Ter reiteradamente compartilhado, ao modo dos vasos comunicantes, de cada um segundo as suas capacidades, a cada um segundo as suas necessidades. Ou não fôssemos todos, mulheres, homens, pessoas humanas-em-relação umas com as outras, com o próprio universo. Nós próprios, Universo-consciência.

O facto de a fonte aonde o Autor vai beber ser Jesus Nazaré, o filho de Maria, bem distinto do Cristo/Messias, o filho de David, que ele sempre recusou ser, garante ao Livro ainda mais qualidade, uma vez que o Cristianismo conseguiu ler-escutar-interpretar as chamadas “bem-aventuranças” de Mateus e de Lucas, em chave espiritualista, desencarnada, própria de gente sem ouvidos, sem olhos, sem mãos, sem pés, sem afectos, sem Política praticada, até acabar por tornar-se – vejam ! – o pai teológico do Poder financeiro, hoje, o único dono/senhor do mundo. Quem lê o Livro, a partir da “luz” que a capa e o título de capa fazem rebentar no mais dentro de nós que o acolhermos como meninas, meninos, acaba por se experimentar surpreendentemente encontrado por Jesus, pela sua Ruah/Sopro/Espírito maiêutico, que nos faz ser-crescer de dentro para fora, em lugar de fora para dentro. Como sempre faz o sopro/espírito do Poder, nos seus múltiplos e sucessivos agentes históricos, habitualmente rodeados pelos melhores cérebros de cada nação, que os servem a troco de múltiplos privilégios. Sem nunca chegarem a perceber que com esses privilégios o Poder os mata, sobretudo, mata-lhes a alma/ identidade/ originalidade. Como Poder monárquico absoluto que é, de facto, ou tendencialmente, odeia sempre a vida, a relação, a fragilidade humana que recusa fazer-se rico. E que, num mundo de incontáveis mutidões de pobres e de alguns super-ricos, decide ser pobre por opção contra a pobreza, nomeadamente, contra as causas estruturais, sistémicas, que a provocam.

“Todo o pobre é, de facto, um empobrecido, alguém que, involuntariamente, foi levado a essa condição e, agora, anseia desesperadamente ver-se livre dela.” São palavras do Autor (pg 37). A esta luz, é legítimo pensar-dizer, em linguagem século XXI, que a pobreza estrutural é o pecado do mundo, tal como a riqueza acumulada e concentrada que estupidamente cresce, à custa da diminuição dos seres humanos, dos povos, antes de mais, dos próprios grandes ricos. O que leva Jesus, o do Evangelho de Lucas, a contrapor, no seu “Sermão da planície”, Felizes vós, os pobres, porque é vossa a Terra organizada segundo o Projecto político maiêutico de Deus Abba-Mãe; e, Ai de vós, os ricos, em cujo ser-viver não há lugar para os outros, tão pouco para vós próprios, esmagados que viveis pelo Ter-mais e pela ambição do Ter sem limites.

Após a Introdução e a apresentação das Bem-aventuranças de Jesus, o Livro “faz-se”, naturalmente, em oito capítulos, tantos quantas as vias para ser feliz. 1. Felizes os que têm espírito de pobre, porque deles é o reino do céu. 2. Felizes os aflitos, porque serão consolados. 3. Felizes os mansos, porque possuirão a terra. 4. Felizes os que têm fome e sede de justiça, porque serão saciados. 5. Felizes os misericordiosos, porque encontrarão misericórdia. 6. Felizes os puros de coração, porque verão a Deus. 7. Felizes os que promovem a paz, porque serão chamados filhos de Deus. 8. Felizes os perseguidos por causa da justiça, porque deles é o reino do céu. Os títulos são quase transcrição do enunciado pelo Evangelho de Mateus. É no corpo do texto, de cada capítulo, que o Autor actualiza para este nosso século XXI, as palavras de Jesus e chama, sempre que oportuno, o enunciado do Evangelho de Lucas. Finalmente, vem a Conclusão e, inesperadamente, mais um pequeno Texto que o Autor chama “Bem-aventuranças do poder”. Um Texto curioso, uma vez que Felicidade/Bem-aventurança e Poder são realidades contraditórias. Onde está uma, não pode estar a outra. Mais uma razão para correrem pelo Livro e poderem ver como o Autor “resolve” a contradição.

(Contacto da Editora: atendimento@editoraplaneta.com.br)

*** *** ***

Edição 103, Dezembro 2014

 

Direitos Humanos na Agenda

LATINO-AMERICANA MUNDIAL 2015

www.jornalfraternizar.pt.vu

 Saúde. Educação. Pão. Terra. Justiça. Partilha. Seis direitos humanos que a Agenda Latino-americana Mundial 2015 destaca na sua capa toda preenchida pela fotografia de José María Concepción, tirada a partir de uma pintura de Maximiano CEREZO BARREDO onde sobressai uma jovem mulher que parece carregá-los a todos nos seus braços como outras tantas filhas, outros tantos filhos. É, certamente, o rosto humano e feminino da Mãe Terra que os apresenta e clama pelo seu cumprimento na história dos povos. Serão estes clamores da Terra finalmente escutados pelos governos das nações? Ou estes continuarão mais ou menos de cócoras perante o poder financeiro global, insaciável nos seus apetites sem controlo, demencialmente apostado em levar o planeta à ruína e à extinção das condições indispensáveis, para que a vida continue a florescer e a afirmar-se? “Hoje – escrevem o conhecidíssimo Bispo emérito Pedro Casaldáliga e o grande animador da Latino-americana, o teólogo José Maria Vigil, na sua Mensagem, “À maneira de introdução fraterna” – é a estratégia de aplicação dos direitos já reconhecidos. (…) Nesta hora histórica não está ao nosso alcance nenhum tipo de revolução social ou económica… Mas está aí à nossa disposição a Utopia dos Direitos Humanos, com todas as suas várias «gerações». É uma Utopia que não tem inimigos teóricos, que jorra evidências para todos os lados e que «todos» aceitam.

A Latino-americana conta já com 22 anos de publicação ininterrupta. A sua difusão não se limita aos países latino-americanos, ainda que esses sejam os mais beneficiados por ela, dada a língua comum, à excepção do Brasil. Apresenta-se traduzida em inglês, italiano, e vários idiomas da Suíça. A edição em português do Brasil fica a dever-se à Família Dominicana, nomeadamente, à Comissão Dominicana Justiça e Paz do Brasil, assumida “no intuito inclusive de viver a comunhão com as Directrizes Gerais da Ação Evangelizadora da Igreja no Brasil (2011-2015) que ensinam que «a igreja, como mãe, deve ser a primeira a interessar-se pela defesa dos Direitos Humanos» (nº. 112)”.

Como todas as agendas, também a Latino-americana apresenta-se distribuída pelos 12 meses do ano, cada semana em duas páginas paralelas, uma coluna para cada dia da semana. Logo no rodapé do final de 2014 e início de 2015, pode ler-se uma informação sempre bem-vinda e oportuna: “Ano 2015 pelo calendário gregoriano. Ano 6728 do período Juliano. Ano hebraico 5775 (5776 começa no 15 de setembro de 2015). Ano islâmico 1436 da Hégira (começou no 25 outubro 2014; o ano 1437 começa no 14 outubro 2015). Ano chinês 4711-4712. Ano 2769 ab Urbe condita. Ano budista 2581. Ano 1464 arménio.”

Mas o mais aliciente da Latino-americana mundial são as informações com as datas dos principais eventos que mais têm marcado a história dos países latino-americanos, com destaque para os crimes da colonização e para os nomes dos muitos mártires continentais pela Justiça. Antes do início do calendário propriamente dito e entre o final de um mês e o início de outro mês, há Textos de especialistas sobre a temática destacada para cada ano. Nesta edição, os Direitos humanos. É sem dúvida uma mais-valia sociológica, histórica e teológica que só num tipo de Agenda como esta, é possível encontrar. Autores, como Ariel Alvarez Valdés, Patrus Ananias, Marcelo Barros, Frei Betto, Míguel Concha Malo, Alfredo J. Gonçalves, David Loy, Ivo Poletto, João Pedro Stédite, Elsa Támez, assinam Textos ao longo do ano. Por agora, quase só autores homens, já que só muito recentemente as mulheres latino-americanas emergem de séculos e séculos de silenciamento, de exclusão, de ostracismo, numa condição com muito de escravatura.

Vale a pena conhecer/utilizar a Latino-americana Mundial, em português do Brasil, mais do que acessível à nossa compreensão. Por isso, deixam-se aqui os contactos através dos quais as pessoas interessadas – e que sejam muitas – poderão fazer as suas encomendas. Eis: Comissão Dominicana Justiça e Paz do Brasil, av Goiás 174, Edifício São Judas Tadeu, sala 601, Centro, 74010-010 – Goiânia-00 Brasil; Tlf (62) 3229-3014. Fax (62) 3225-9491; email: justpaz@dominicanos.org.br; Facebook: justpazbr

Dificilmente, encontrarão melhor companhia, ao longo de 2015 do que as 250 páginas com esta Latino-americana mundial 2015 se tece.

*** *** ***

Edição 102, Novembro 2014

 

Hans Küng / Editorial Trotta

HUMANIDADE VIVIDA. MEMÓRIAS

É o último de três volumes das suas Memórias. Mais de 750 páginas. Capa dura. Cobre o viver do mais falado e mundialmente conhecido teólogo cristão católico, em língua alemã. As suas três últimas dezenas de anos de vida activa. Mais parece um diário, tantos e tão variados, os pormenores. Não há acontecimento em que Küng tenha estado, em todos os continentes, que fique sem ser aqui referido, registado. Múltiplas vezes, ao pormenor. Inclusive, com transcrição de documentos e de conferências. Pode dizer-se que o momento cume deste terceiro volume do teólogo nascido na Suíça, mas Professor de teologia cristã na Universidade de Tubinga, Alemanha, é o seu encontro com o papa Bento XVI, no Vaticano. Se há evento registado ao pormenor, é este encontro de quase quatro horas, iniciado às 17 horas do dia 23 de Setembro 2005. Um evento nunca visto antes na Cúria romana. Chegam a cear juntos. Antes, porém, o papa convida o seu anfitrião para um passeio discreto no parque. Deslocam-se na viatura papal. Sentados os dois, no banco de trás, o papa á direita, Küng à sua esquerda. Um secretário particular do papa senta-se à frente ao lado do motorista. Do quase impensável encontro, é lavrada uma informação pormenorizada, sob a orientação do papa, coisa ainda mais impensável! nos comportamentos da Cúria. O papa conhece bem Küng e sabe do que ele é capaz de fazer, depois do encontro. E marca oficialmente o terreno. Antes da sua divulgação pública, na semana seguinte, o texto é enviado, conforme o combinado no decurso do encontro, via fax, ao próprio Küng, que de imediato o aceita, tal e qual, e informa disso a Cúria, para que se publique.

O anterior papa polaco sempre recusara receber o teólogo, a quem retirou a permissão canónica, indispensável para alguém ser professor de teologia nas universidades católicas. E eis que agora o teólogo da corte papal, ao tempo dessa decisão, por isso, cúmplice de tão autoritária e ilegítima decisão papal – a recompensa de João Paulo II pela cooperação do seu teólogo, foi este suceder-lhe no papado – uma vez feito papa, aceita o pedido do seu antigo companheiro em Tubinga e do qual ostensivamente se afastou, para passar a assessorar o papa polaco, em Roma, à frente da Congregação para a Doutrina da Fé. Aceita o encontro, graças à condição, previamente sugerida e assumida pelo próprio Küng, ao requerê-lo, de que o assunto da decisão papal nunca chegaria a ser abordada. E a verdade é que ela mantém-se de pé, mesmo agora que Küng, por força da idade, já não exerce mais a função de professor universitário. Pelo que este “sensacional encontro” – é assim que Küng aqui o adjectiva – tem tudo de hipocrisia institucional. Mesmo assim, o escândalo que provoca é grande entre a ala mais conservadora da igreja católica. E chega a suscitar alguma ingénua expectativa, na ala mais avançada. Em vão. O estigma canónico poderá vir a ser levantado, sim, mas só muito depois da morte de Küng, quando o Vaticano decidir reabilitar o teólogo e, porventura, até canonizá-lo. Aliás, o cristianismo é mesmo assim. Primeiro, mata os profetas, depois, reabilita-os e, até, os canoniza. Sem nunca chegar a acolher a sua teologia meramente reformista. Que faria, então, se a teologia de Küng fosse a mesma de Jesus Nazaré, alternativa a toda a teologia do poder?!...

Quem lê este terceiro volume de mais de 750 densas páginas, escritas com um nível literário invulgar num teólogo, acaba quase esmagado perante tanta erudição teológica, tanta informação, tantos eventos em que Küng é o sol reconhecido por multidões de estudantes universitários, e por outros professores de múltiplas outras áreas da Ciência. As suas conferências e os seus cursos nas principais universidades dos EUA, da China, da Índia, da Europa, do Islão, do judaísmo, do budismo e dos diversos protestantismos, arrastam multidões de pessoas mais ou menos eruditas, em espaços grandes, sempre a abarrotar. É impressionante como a teologia reformista, apresentada no erudito verbo de Küng cativa tanta outra gente erudita de todas as sensibilidades. Küng está por dentro de tudo e arranca aplausos sobre aplausos, muito raramente, também alguma oposição. As suas conferências sobre teologia e música, a dos grandes compositores, chegam a ser arrebatadoras.

É, por isso, quase impossível estarmos a ler este volume 3, das suas Memórias, e não pensarmos nas palavras de Jesus sobre João Baptista que imediatamente o precedeu no Jordão, e não as aplicar agora a Küng: “Em verdade vos digo, Entre os nascidos da mulher, não apareceu ninguém maior que João Baptista” / Em verdade vos digo, Entre os nascidos da mulher, não apareceu nenhum teólogo cristão maior que Hans Küng. Mas, atenção! Jesus não se fica pelo rasgado elogio a João Baptista. Acrescenta, de seguida, outra afirmação, aparentemente contraditória com a anterior, de resto, ainda hoje incompreensível para todos os teólogos e biblistas cristãos, Küng incluído, bem como para todas as igrejas cristãs, a católica e as protestantes: “E, no entanto, o mais pequeno no reino do céu, é maior do que ele!” (cf. Mateus 11, 11). E porquê esta insanável contradição? Porque o grande João Baptista conhece Jesus Nazaré, mas confunde-o com o Cristo/messas davídico, anunciado pelos profetas bíblicos, ingenuamente esperado pelos dirigentes do judaísmo, por aqueles dias. E não é capaz de ver em Jesus, o ser humano pleno e integral, concretamente, o filho de Maria, no qual Deus Abba-Mãe, o de todos os povos, que nunca ninguém viu, se nos dá definitivamente a conhecer e ao seu Projecto político, designado, então por “reino de Deus” ou do céu. Antípoda, por isso, do cristo/poder, o filho de David. Muito menos reconhece a necessidade dele próprio nascer de novo, da mesma Ruah/Vento de Jesus e crescer de dentro para fora em Humano até para lá do limite. O único nascer que nos possibilita crescer, de dentro para fora, em Sabedoria/Fragilidade, em vez de em Saber/Poder, como faz o sopro do Cristo do cristianismo de Pedro e Paulo, de Constantino e do Papado de Roma, de Lutero e de Calvino, nascido depois da morte crucificada de Jesus, precisamente, para o matar/fazer esquecer para sempre. 

Praticasse/anunciasse/prosseguisse Jesus Nazaré e o seu Projecto político maiêutico, em vez do Cristo/Messias/Poder que vence todos os opositores/inimigos, o último dos quais, no seu errado entender, é a Morte, e nunca Küng teria tido a seus pés, como sempre teve, tanta gente ilustrada. Todas as portas se lhe teriam fechado. Tão pouco teria andado a defender e a divulgar a tese de que só há paz entre as nações, quando houver paz entre as religiões. À luz da Fé de Jesus, veria que todas as religiões são causa de divisão e de guerra, inimigas do Humano e da plena autonomia do Humano. Teria tido contra ele todos os grandes do saber e do poder, muitos dos quais são referidos neste seu terceiro volume de Memórias e com os quais ele convive, tal como conviveu, naquele seu encontro de 4 horas no Vaticano, com seu inimigo maior, Ratzinger, entretanto, feito papa do cristianismo romano, a quem o próprio Küng trata, logo na saudação inicial, por “Santo Padre”. Um encontro aceite, não para Ratzinger reconhecer Küng e acolhê-lo na sua diferença reformista, mas para maior glória papal e da Cúria romana.

Se Küng, quando lhe foi arbitrariamente retirada a autorização canónica para ensinar nas universidades católicas, tivesse percebido que o cristianismo, como sistema, é intrinsecamente perverso, em lugar de se ter tornado ainda mais cristão, à maneira de São Paulo, teria corrido a acolher Jesus Nazaré e o seu Projecto, e a praticar/prosseguir um e outro. Não foi capaz de ver, porque a muita erudição cega. De novo, Jesus: “Bendigo-te, ó Pai, porque escondeste estas coisas aos doutores e aos eruditos, e as revelaste aos pequeninos”. Acabou assim por ajudar ainda mais a justificar o cristianismo e a difundi-lo, quando deveria tê-lo denunciado, como mentiroso, pai de mentira, assassino das mentes sapientes e cordiais das populações e dos povos. Consequentemente, a Luz, que é Jesus, não chega a acontecer no longo viver de Küng e, provavelmente, só acontecerá, no momento da sua derradeira páscoa, sem dúvida, o primeiro dia do resto da sua vida, como ser humano, um Hoje sem ocaso! De modo que tudo quanto fez pelo cristianismo, e foi muito, ficará reduzido a lixo. Em verdade, só o Humano é via de salvação, o religioso/divino é a tentação/alienação.

Infelizmente, termos, como pessoas e povos, preferido ser cegos e guias cegos, porque a luz que é Jesus crucificado, só nos chega da banda das vítimas do próprio cristianismo, das religiões, dos sistemas de poder. E poucos somos os que estamos dispostos a entrar por essa “porta estreita” que conduz à vida. Preferimos a “porta larga” do Cristo/poder invicto, que, sob a máscara da abundância para as elites dos privilégios, entre as quais os clérigos cristãos se incluem, conduz ao nada quem entra por ela. Foi por esta porta larga, que é o Cristo/poder/cristianismo, não pela porta estreita, Jesus/Fragilidade humana, que Küng entrou. E é pena, muita pena. Assim, nunca chegou a ver a Luz, Jesus Nazaré. Pior, sempre confundiu Jesus, o filho de Maria, com Jesuscristo, o mito bíblico que fundamenta e legitima o poder monárquico absoluto e infalível! Uma tragédia que nem o próprio é capaz de ver. Está-lhe vedado. Eis.

*** *** ***

Edição 101, Outubro 2014

Frei Betto / VOZES

Reinventar a vida

 Frei Betto, o dominicano leigo mais conhecido no Brasil, nos demais países da América Latina e, até, aqui, na Europa, acaba de lançar mais um Livro. Já nem chega a ser notícia, tantos e variados são os seus livros já editados e traduzidos em diversas línguas. Mas não se pense que é apenas um livro mais. Não! Cada livro de Frei Betto, como de resto de um Autor que se preze, é único e irrepetível. Lê-lo, não é só um imperativo ético, como é um prazer cultural e espiritual. Não se privem desta colectânea de textos, agrupados por temáticas: 1 Sobre a sabedoria de vida; 2 Sobre o mundo em que vivemos; 3 Sobre o consumismo; 4 Sobre amigas e amigos; 5 Sobre questões ambientais.

Outro grande teólogo engajado e conhecido, quanto Frei Betto, L. Boff, assina um curto texto na contracapa do Livro. “O valor deste livro de Frei Betto é colocar-nos marcos no caminho para a reinvenção da vida. Não coloca grandes sinais de trânsito, mas aproveita os materiais do próprio quotidiano, como o café, o futebol, a internet, pessoas referenciais como Paulo Freire, Dom Hélder, Dom Paulo Evaristo Arns, entre outros, para sinalizar o rumo da estrada. Na medida em que caminhamos, vamo-nos reinventando como seres humanos.”

Mergulhemos logo no primeiro texto desta colectânea: “Atribui-se a Gandhi esta lista dos Sete Pecados Sociais: 1. Prazeres sem escrúpulos; 2. Riqueza sem trabalho; 3. Comércio sem moral; 4. Conhecimento sem sabedoria; 5. Ciência sem humanismo; 6. Política sem idealismo; 7. Religião sem amor. (…) Hoje, predominam as celebridades do cinema e da TV, as cantoras exóticas, os desportistas biliardiários, a sugerir que a felicidade resulta de fama, riqueza e beleza.

Ninguém deixe de mergulhar neste Livro, uma espécie de companheiro de viagem. Tudo nele é simplicidade e profundidade. Pão sem veneno, alimento do humano que o Mercado está constantemente a vilipendiar e a manipular. Com este livro, por companhia, não desfalecemos no caminho da vida. E resistimos a todas as seduções mais do que muitas, do Mercado. Ousemos ser, cada dia do nosso viver na história. Com este livro como pão, defendemo-nos do risco de sermos arrastados pelos cantos das sereias. Permaneceremos fiéis a nós próprios, humanos, sororais/fraternos, maiêuticos uns com os outros. Reinventar a vida, é preciso!

*** *** ***

Edição 100, Julho 2014

Victoria Camps e + 9 Autores / Editorial Trotta

A fé na cidade secular

Laicidade e democracia

São 10, os Autores deste Livro de 214 páginas. Cada Autor assina um texto sobre o tema, mas cada qual faz essa abordagem, a partir da sua especialidade. O resultado é uma obra cheia de substância filosófica, social e também teológica sobre um dos temas mais candentes da nossa actualidade. Não apenas uma visão, mas dez visões, o que empresta a esta obra ainda mais interesse e lhe garante muita procura, por parte de quem se preocupa com estes temas que atravessam as nossas sociedades ocidentais, sem que as suas igrejas, as suas universidades e os seus grandes media lhes dêem a devida atenção. Uma falha grave por parte das igrejas, das universidades e dos grandes media, com tudo de pecado e de crime de omissão. Uma omissão, pela qual serão julgadas e, certamente, condenadas, quando as sociedades se tornarem irreversivelmente inumanas, com todos os fanatismos em acção. E o planeta terra se tornar irreversivelmente irrespirável. O que não está assim tão longe de acontecer, bem pelo contrário. O início das grandes dores já se faz sentir. Só a alienação em que vivem as sociedades é que nos tem impedido de ver que este tipo de mundo do poder financeiro, com os seus estádios de futebol dos milhões, os seus governos das nações, as suas universidades, as suas igrejas, os seus grandes santuários, os seus grandes media, está assente sobre a lava de um vulcão ecosistémico e social à escala planetária, prestes a entrar em ebulição.

A edição desta obra é de Daniel Gamper, de resto, um dos dez autores. Gamper é professor de Filosofia Moral e Política na Universidade Autónoma de Barcelona e tradutor das obras de Nietzsche, Habermas, Tugendhat e Scheler. O livro apresenta-se em duas partes, Secularização, a primeira, Laicidade, a segunda. São estes os autores e respectivos temas abordados. Na Parte I, Secularização, escrevem Victoria Camps (A secularização inacabada); Giacomo Marromao (O reencantamento do mundo na era global. Religião e identidade); Jordi Riba (Irreligião, crise de modernidade, democracia); Mercê Ruis (A fé na liberdade); Amélia Valcárcel (Os nomes do tempo). Já os autores e os temas da Parte II, Laicidade, são os seguintes: Oriol Farrés Juste (A laicidade numa democracia agonística); Alessandro Ferrara (A separação de religião e política numa sociedade pós-secular); Daniel Gamper (Laicidade pós-secular); Àngel Puyol (Habermas e a religião: Lost in translation); Joan Vergés Gifra (“Deus não existe, mas a Virgem de Montserrat sim”: Uma defesa razoável da laicidade positiva assimétrica).

Como se vê, pelos títulos dos textos e pelos respectivos autores, estamos perante uma obra de grande actualidade, direccionada particularmente a pessoas com formação universitária e erudita em questões do pensamento filosófico e, ainda que um pouco menos, também teológico, nomeadamente, o pensamento filosófico e teológico cristão, imperante nos países do Ocidente, inclusive, nas mentes/ consciências dos que hoje se assumem como agnósticos e ateus. Um pensamento que tem na sua génese um sopro envenenado que acaba por roubar, matar e destruir a matriz original de cada uma, cada um de nós, com que nascemos e que vem animada pela mesma Ruah/ Sopro de Jesus Nazaré, capacitada, por isso, a fazer de cada mulher, de cada homem, outros tantos protagonistas na história, em relação maiêutica uns com os outros, numa sociedade sem intermediários, sem sacerdotes, sem deuses, sem chefes, todas, todos vasos comunicantes.

Infelizmente, esta outra via, por sinal, de porta estreita, tão poucos são os seres humanos que se dispõem a entrar por ela, não está presente neste livro. E, por isso, ele perde muito em fermento de uma Humanidade totalmente outra, a única que o é verdadeiramente, já que esta que maciçamente hoje se vê e que já tem milénios de existência, anda envenenada pelo sopro do poder, de sua natureza, ladrão e assassino. O mesmo que está na génese de todas as religiões, sejam as chamadas “três religiões do Livro” (Bíblia e Alcorão), sejam todas as outras que continuam a marcar todas as restantes populações do planeta. Já presentes também no Ocidente, ainda que, por agora, só em comunidades minoritárias Esta falha leva a constatar que os pontos de vista dos 10 autores deste livro, importantes, sem dúvida, mas dentro do tipo de mundo que prevalece, graças à sua violência, a armada e a ideológica/ teológica, típica do cristianismo religioso e laico, acabam por ser mais do mesmo, ainda que escrito com novas formulações. Ora, mais do mesmo acaba sempre por reforçar o sistema que os autores pretendem questionar. Porque não chegam a mexer na raiz que alimenta o sistema. Uma raiz envenenada e assassina que destrói a alma/ mente/ consciência das populações, sobretudo, quando mais parece preservá-la. Fica o alerta. É preciso, imperioso e urgente mudar de ser, mudar de Deus, como tanto sublinha, oportunamente, o Livro JESUS SEGUNDO JOÃO, Seda Publicações, Porto.

*** *** ***

Edição 99, Junho 2014

António Piñero / Editorial Trotta

Jesus e as mulheres

O título do Livro é altamente sugestivo e prometedor. O Autor, licenciado em Filosofia Pura, Filologia Clássica, Filologia Bíblica Trilingue, e doutor em Filologia Clássica, tem tudo para garantir seriedade científica a este seu trabalho. Trata-se, no dizer do próprio Autor, de uma obra que “apresenta praticamente todos os textos que a literatura evangélica dos três primeiros séculos nos oferece sobre o tema Jesus e as mulheres”. Bastaria esta informação para nos mover a adquirir e a estudar este Livro de 250 páginas. E, quando o Autor diz “praticamente todos os textos”, é mesmo disso que se trata, pois neste volume encontramos tudo o que sobre o tema é garantidamente atribuído ao chamado Jesus histórico e, também tudo o mais que vem referido nos 4 Evangelhos em 5 volumes, e nos livros do Novo Testamento, mais ainda o que, a este propósito, hoje se conhece dos Evangelhos apócrifos e outros textos gnósticos, por sinal, super-explorados actualmente pelos escritores de romances, em busca de fama e de proveito financeiro.

Contra toda a especulação que sobre Jesus e as mulheres se tem por aí ficcionado a granel, o Autor não tem dúvidas em garantir que Jesus é um homem célibe, totalmente comprometido com a Causa política do Reinado de Deus, radical na sua visão política alternativa do mundo, por isso, não compreendido, muito menos seguido pelos familiares mais próximos, mãe incluída e irmãos de sangue, elas e eles, que só aparecem, depois da sua morte maldita na cruz do império, à frente do judeo-cristianismo em Jerusalém, inclusive no templo, certamente, para – e isto já não o diz o Autor, mas a realidade histórica que o Autor, apesar de tanta erudição, parece desconhecer de todo, certamente, devido ao cristianismo que ingenuamente ainda professa – com isso, tirarem proveito do que então se dizia que estava para acontecer naqueles dias, a respeito da vinda em poder e glória do Reinado de Deus sobre as nuvens do céu.

Um mito que as gerações de então pagaram caro e bem caro, porque o que efectivamente veio, no ano 70, foi a invasão de Jerusalém pelos exércitos do império romano que não deixaram da cidade, pedra sobre pedra, nem ninguém vivo no seu chão e arredores. O facto, pelos vistos, não parece ter servido de lição para o futuro, inclusive, para o nosso hoje, uma vez que estão aí de novo a proliferar igrejas cristãs antigas e recém-fundadas, que garantem a pés juntos que é agora, por estes dias, que tudo isso vai acontecer. São igrejas cristãs cegas que, entretanto, se têm por guias dos demais. E que os demais aceitam piamente, tamanho o Medo ancestral com que vivem possessos. E, assim, vão fanaticamente para o abismo, porventura, para um inferno nuclear, quando os milhares de milhões de empobrecidos já não suportarem mais a sua pobreza imposta pelo grande poder financeiro global, o Cristo laico anti-Jesus, o filho primogénito de Maria.

O Autor – vê-se sobejamente neste seu precioso Livro, que assim, não o é tanto quanto deveria e poderia ser – não consegue libertar-se e distanciar-se da sua formação/formatação cristã bíblica e por isso esta sua obra, com um certo carácter de estudo exaustivo, científico e definitivo sobre Jesus e as mulheres, acaba por ficar ainda bastante aquém da realidade histórica que só se conhece, fora do âmbito e da influência, sempre nefasta, do cristianismo e da igreja católica romana, a única que dominou as mentes dos povos e das populações até Lutero, no século XVI, e ao aparecimento das igrejas cristãs protestantes e evangélicas. As quais, neste particular, acabam por ser ainda mais papistas que o papa de Roma e do que a igreja católica romana, uma vez que fazem da Bíblia a sua principal, ou mesmo única base de apoio, sem cuidarem de saber, primeiro, como ela foi concebida, por quem foi mandada elaborar, que interesses visa alcançar e defender. Igrejas cristãs, completamente à revelia de Jesus, o filho de Maria, que, em seu tempo e missão, fez questão de se demarcar da Bíblia do judaísmo e acabou condenado à morte e executado em nome dela, pior, para que se cumprisse nele tudo o que nela está escrito. Mas como o que se fez historicamente com Jesus é o hediondo dos hediondos, a abominação das abominações, então, a Bíblia é a fonte e a justificação ideológica/ teológica desse hediondo, dessa abominação.

Esclarece o Autor, ainda na abertura desta Edição, que “este livro que agora se reedita pela Editorial Trotta, foi publicado em 2008 por Aguilar, do grupo Santillana. Algumas teólogas feministas espanholas ignoraram-no voluntariamente, quer nas listas bibliográficas, quer nas suas obras de síntese sobre as mulheres no cristianismo primitivo.” Estranha-se, mas é um facto que o próprio Autor não se inibe de denunciar, agora. E que só as teólogas feministas espanholas poderão explicar porque o fizeram até esta data. E esta postura delas não terá, certamente, a ver com o facto do Autor ser homem e não mulher. Poderá ter a ver, isso sim, com um certo desconforto, porque o Livro não dá protagonismo bastante às mulheres e às lideranças femininas, no Movimento político maiêutico desencadeado por Jesus e a sua Ruah, com destaque para Maria, mãe de João Marcos, e Maria Madalena, que se distanciaram do judeo-cristianismo de Pedro e de Tiago, depois de Paulo e de Constantino, imperador de Roma. E é imperioso regressarmos a Jesus, ao seu Movimento político maiêutico, e ao testemunho das mulheres sobre Jesus.

Pois bem, desta realidade outra, fala com desenvoltura o Livro do Pe. Mário de Oliveira, “Evangelho de Jesus, Segundo Maria, mãe de João Marcos, e Maria Madalena”, Edium Editores, 3.ª Edição, Março 2012. Mas quem, do cristianismo e das igrejas cristãs, o acolhe e estuda?! Enquanto não nos abrimos a esse Livro, verdadeiramente outro, acolhamos, pelo menos, este. É, de resto, uma boa introdução para melhor entendermos aquele. E, para despertar o “apetite” para este JESUS E AS MULHERES, eis aqui, a concluir, alguns títulos de outros tantos capítulos: 7 Jesus e as mulheres durante o seu ministério; 12 Jesus casado? 13 Jesus celibatário? 14 Um Jesus bígamo? 15 Um Jesus homossexual? 18 Maria Madalena, a esposa de Jesus? – Corram por ele, no site da respectiva Editorial Trotta.

---

José María Castillo / Desclée De Brouwer

A laicidade do Evangelho

 Mais um livro teologicamente chocante, no sentir e dizer de muitas pessoas que já conhecem o Autor, jesuíta durante mais de 50 anos, doutor em teologia dogmática pela Universidade Gregoriana de Roma e Prof de Teologia dogmática na Faculdade de Teologia de Granada. Teologicamente chocante, porque não alinha em nada com toda essa parafernália de ritos e de cultos sem cultura e sem dignidade humana das igrejas cristãs, com destaque para a igreja cristã católica romana, uma amálgama de todos os paganismos religiosos e completamente às avessas de Jesus e do Evangelho de Deus que nele se nos revela, a começar pelas suas práticas mais económicas e políticas do que religiosas. O Autor insiste, uma e outra vez, também neste Livro, em apresentar Jesus como religioso, embora não fundador de nenhuma religião, e parece ter algum escrúpulo em referir-se a ele como político, quando, afinal, é o primeiro a reconhecer que, com Jesus, até Deus nos é apresentado indissociável do “Reino de Deus”, precisamente, a designação do Projecto político que Deus tem para o mundo e que se situa nos antípodas do projecto do Poder político que sempre se tem sobreposto ao Projecto político maiêutico de Deus, o dos povos da terra.

São 26, os capítulos deste Livro de 182 páginas, uns muito breves, outros bastante mais extensos. Um dos pontos controversos do Livro e do Autor é a ênfase que ele põe, logo de entrada, na tese de que nos primórdios da humanidade, à época do homem caçador, já havia religião, mas “religião sem Deus”. Por religião, nesse então, entende o Autor uns quantos ritos e rituais, cerimónias, sacrifícios de animais, que os povos realizavam, sem qualquer referência explícita a Deus. Esta tese de que primeiro foi a religião e só depois foi Deus é especialmente atraente para ele, porque assim pode acabar por afirmar que, com Jesus e com o pós-Jesus, chegamos, finalmente, a um “Deus sem religião”. Como trocadilho, tem a sua curiosidade, mas, apesar de o Autor citar uma mão cheia de outros Autores especializados na matéria em abono da sua tese, nem por isso ela será de todo verdadeira. Podia, nesses remotos tempos, não haver e não haveria, certamente, ainda sacerdotes, a presidir e a intermediar esses ritos e essas cerimónias, basicamente, sacrifícios de animais. Mas haveria, tinha de haver, nos povos, vagas percepções de existir “alguém que nos domine”, como ainda hoje é frequente escutar das bocas de populações não escolarizadas em teologia. Tão pouco haveria “transcendência”, mas tal como hoje também não há, nos ritos e nos rituais religiosos que as populações com mentalidade semelhante à desses primitivos povos caçadores, protagonizam, quase sempre, inclusive, sem a presença de sacerdotes. Houve, há apenas “imanência” e uma “imanência” rasca. O que há, de sobra, como já então haveria, é Medo, muito Medo. Medo do outro, do divino, do estranho, do desconhecido, do que não se consegue alcançar e dominar. E para lhe resistir e fazer frente, nada melhor, pensava-se, pensa-se ainda, do que o recurso aos ritos e aos rituais. Porque é o Medo que está na origem das religiões e dos deuses – o Medo criou as deusas, os deuses.

Neste particular, as populações religiosas deste início do terceiro milénio, não são muito diferentes dos primitivos povos caçadores que realizavam sacrifícios de animais, para se redimirem da “pena” de terem de os matar para se alimentarem. As penosas promessas a pé a Fátima e a outros grandes santuários de nomeada são a prova provada disso. Não lhes interessa “Deus”, tão pouco, os sacerdotes, apenas lhes interessa os ritos, os rituais, as cerimónias, as rezas esteriotipadas, as fórmulas decoradas, todas aquelas coisas que são de uso e costume fazer, sempre da mesma maneira, do nascer ao morrer. Quem entra por aí e persiste nisso, são populações acorrentadas pelo Medo que de modo algum querem ser resgatadas, uma vez que é a única maneira que têm de ainda serem, à sua maneira, sujeitos, protagonistas, darem nas vistas, serem, até, objecto de reportagem e de directos nas tvs, deste nosso tempo. É tudo alienação, ópio, desmobilização política, mas é alguma coisa, do mais rasca, sem dúvida, mas alguma coisa que lhes deixa a sensação de serem alguém, quando, na verdade, é a mais sádica recusa a serem alguém!

Não quer isto dizer que Deus não exista e não esteja neste tipo de religião das populações sem voz nem vez, mais coisas, que pessoas. Está. Mas está apenas como uma coisa mais, também, nunca como alguém que importa acolher, escutar, praticar, deixá-lO ser em nós e através de nós. Jesus, pelo contrário, que vive uma relação de total fusão, nenhuma confusão com Deus, seu Abba-Mãe e nosso, os seres humanos sem distinção, é o primogénito de uma humanidade plena e integralmente humana que nunca o será sem Deus, mas Deus compreendido e experimentado como dádiva, como graça, nunca como uma necessidade. E porque assim é, nem o cristianismo que nasceu logo após a sua morte crucificada e veio a dar origem às igrejas cristãs que hoje conhecemos, o aceita, acolhe, pratica, prossegue. Ficam-se, um e outras, pelo mítico Cristo davídico, uma coisa, entre outras coisas, em nome da qual o poder, o inimigo do humano, é legitimado e até sufragado nas urnas eleitorais, quando ele é o que há de mais perverso à face da terra, porque nos reduz cada vez de forma mais científica a coisas e mata a originalidade de cada uma, cada um de nós. Infelizmente, nem o Autor se dá ainda conta desta perversão institucional que é o cristianismo, o assassino de Jesus e do Deus de Jesus, por isso, da Humanidade. E com o cristianismo, também as igrejas cristãs que dele procedem e o têm como sua ideologia.

Ainda assim, ninguém deixe de adquirir e ler este livro (www.edesclee.com), porque nos diz muita coisa que os cristianismos deste início do terceiro milénio ostensivamente ignoram e atacam, porque só lhes interessa coisificar, estupidificar, infantilizar cada vez mais as pessoas e as populações. Importa, porém, ir muito mais além deste Livro e chegarmos a Jesus, o alfa e ómega da revelação do ser humano e de Deus que nunca ninguém viu. É, felizmente, por aqui que navega o Livro JESUS SEGUNDO JOÃO, Seda Publicações, do Pe. Mário de Oliveira, Editor e Director do JF online. Um Livro que até as grandes editoras confessionais, para seu mal, ostensivamente ignoram e recusam traduzir e editar. Porque, também elas estão apostadas em vender religiões, coisas e odeiam Jesus que leva quem o acolhe, pratica e prossegue, a viver sem nada desse tipo de negócios, por demais, destruidores do Humano. E de Deus no Humano.

*** *** ***

Edição 98, Maio 2014

Hans Küng / Editorial Trotta

JESUS

Em boa hora, o Autor, com este seu novo livro que não ultrapassa as 215 páginas, meteu mãos ao trabalho de tornar mais acessíveis ao grande público que vive fora do universo académico superior, duas anteriores obras suas de grande fôlego e de grande erudição, concretamente, “O Cristianismo, Essência e História”, e “Ser cristão”, por sinal, ambas oportunamente traduzidas e editadas por esta mesma Editorial. Deste modo, Jesus, o filho de Maria, apresenta-se-nos aqui, na sua simplicidade, sem perder nada da sua profundidade antropológica e teológica. Este Livro-síntese diz o bastante, e muito é, sobre Jesus, o da história, de resto o único que, no seu próprio ser-viver-actuar-falar, melhor nos diz como seres humanos e, simultaneamente, melhor diz/ revela Deus que nunca ninguém viu, como faz questão de sublinhar o 4.º Evangelho, conhecido como o de João.

Onde o Autor, tido como uma das mais renomadas sumidades internacionais em teologia, nos surpreende e não pelas melhores razões, é quando, sem quaisquer hesitações, identifica Jesus com Cristo e Cristo com Jesus. Quando o próprio título do livro, JESUS, em vez do tradicional e eclesiástico Jesuscristo, parece sugerir, e bem, que o Autor faz questão de afirmar, finalmente, e de forma inequívoca, a plena humanidade de Jesus, em lugar de continuar a reproduzir e a fazer sua a tese-tentação do judeo-cristianismo primitivo e do cristianismo imperial que se lhe seguiu, com Constantino, o imperador de Roma que convocou e aprovou as conclusões do Concílio de Niceia, o mesmo que deifica Jesus e identifica Deus com o Poder. Como, de resto, sempre tem feito toda a teologia idolátrica, desde a Bíblia ao Alcorão e todos os demais livros sagrados das religiões, que sempre apresentam Deus como o omnipotente, o omnisciente, o omnipresente, quando Deus – e este é o cerne do Evangelho de Jesus, não, obviamente, o de S. Paulo – se nos revela como a infinita omnifragilidade.

Ora, o que mais ressalta dos 4 Evangelhos canónicos, em cinco volumes, é que o Poder instituído, no país, em nome de Deus conflitua ferozmente com Jesus e acaba por o matar, em três tempos, tamanho o ódio que nutre contra ele e contra o seu Projecto político, o mesmo de Deus que nunca ninguém viu, e que é o projecto político de uma sociedade sem poder. O que, porém, é gritante no caso de Jesus, para não dizer, até, impensável, é que, neste seu confronto duélico com o Poder e do Poder com ele, Deus, no testemunhar unânime dos 4 Evangelhos canónicos, toma partido por Jesus, a vítima do Poder e dá-lhe razão. Deste modo, a humanidade pôde ver, pela primeira e última vez, que, afinal, o Poder que sempre nos é apresentado como Deus, mais não é do que o nosso Tentador mor, por isso, o problema da humanidade, nunca a solução.

Logo a abrir este seu Livro, o Autor informa-nos como se aproximou a Jesus. É, de resto, o título do respectivo texto. Mas, depois, abre o texto com uma pergunta, de todo inusitada a ouvidos que se recusem a sair do humano, para passarem à condição de Poder, de divino, de Deus, quando, afinal, em Jesus, o humano é a plena epifania histórica de Deus que nunca ninguém viu. De tal modo que dizer Deus, fora do humano, é cair fatalmente na idolatria. E nada pior para os seres humanos e para o universo do que a idolatria. Só a idolatria fundamenta e legitima o tipo de sociedade organizada em pirâmide que, indevidamente, sempre temos sido, com uma minoria em cima e a imensa multidão na base, habitualmente esmagada e crucificada na cruz, que, inicialmente, foi do império romano e, desde o cristianismo imperial, passou a ser exclusiva do cristianismo. Até aos dias de hoje. Para desgraça e vergonha das igrejas cristãs e da humanidade. 

Chega a impressionar ver o Autor a fazer tanto finca-pé no título Cristo, ao mesmo tempo que insiste, uma e outra vez, que o fundamental do cristianismo, a sua referência última, é Jesus histórico. Mas porquê todo esse finca-pé, se o próprio Jesus dos Evangelhos, o que mais recusa é que o queiram identificar com o Cristo/ Messias davídico, ao ponto de, nos três Sinópticos, chegar a chamar “Satanás” a Pedro, por ele, reiteradamente, o fazer e levar outros discípulos a fazê-lo também?! É certo que Cristo, substantivo grego, significa, à letra, ungido. Mas um ungido para exercer o poder, ou sacerdotal, ou político, ou económico-financeiro, ou os três ao mesmo tempo, como sucede com o papa de Roma. Precisamente, a grande tentação da humanidade, através das sucessivas gerações e que, se não for contrariada por nós, como faz Jesus, acabará por ditar a nossa própria extinção sobre a terra.

De resto, o título Cristo/ Messias só teve algum impacto no histórico contexto cultural em que Jesus nasceu, 5-6 anos do ano 1 e viveu até Abril do ano 30. Porém, a crença bíblica na vinda de um messias/ cristo, anunciada para aquela altura, não passava de um consolador e mobilizador anúncio contra o império ocupante, sem qualquer consistência real, como os factos históricos depressa se encarregaram de comprovar, quando o império romano cercou Jerusalém e, no ano 70, invadiu a cidade com os seus exércitos e, dela, não deixou pedra sobre pedra. Jesus, felizmente, nunca embarcou nessa tentação, denunciou-a, combateu-a, e a sua morte crucificada é o preço que teve de pagar por lhe resistir e manter-se plena e integralmente humano até ao fim, abandonado por todos os fanáticos do messianismo, inclusive, pelo próprio Deus, o do messianismo bíblico.

Ainda assim, não deixem de ler, de fio a pavio, e com atenção, este Livro. E só podemos acabar por concluir quanto a tentação do cristianismo está entranhada, como um demónio, na mente dos seres humanos. Se nem uma sumidade em teologia como este Autor manifestamente é, vê este desvio do humano que é o cristianismo, quem o há-de ver e evitar ir por Jesus, plena e integralmente humano? Certamente, pelo menos, aquele “pequenino resto” de que fala Jesus e que o leva a cantar, Bendigo-te, ó Pai, porque escondeste estas coisas aos eruditos e aos poderosos, e as revelaste aos pequeninos, vítimas dos poderes, seus ideólogos e teólogos. Eis.

---

Paolo Flores d’Arcais / Editorial Trotta / Andrea Greppi

DEMOCRACIA SEM DEUS

 “A democracia é compatível com Deus?” É com esta provocadora pergunta que abre o Prólogo deste livrinho de cem páginas, inserido na colecção “mini-Trotta”. Só que, no caso deste livro, o mini é igual a maxi. Contudo, o mais surpreendente e, inevitavelmente, também mais chocante para os ouvidos pios que o cristianismo e as demais religiões do mundo têm ajudado a criar e a alimentar, é que a resposta a esta Pergunta com que abre o Prólogo só pode ser um peremptório NÂO. Assim: A democracia não é compatível com Deus. Entenda-se, o Deus que todas as religiões, as cristãs e as outras, criaram e reiteradamente apresentam/impõem às sucessivas gerações como verdadeiro e único, fora do qual, segundo elas, tudo na vida e na história fica sem sentido. A verdade, porém, é totalmente outra, embora sempre escondida. Esta: são as religiões e o Deus criado, cultuado e imposto por elas às populações, que não têm sentido e tão pouco deixam que a vida e a história o tenham. Os milhares e milhares de anos de religiões, de sacerdotes, de pastores, de gurus e de Deus, o das religiões e dos respectivos sacerdotes, pastores e gurus, aí estão a gritar/revelar ao mundo que o que não tem sentido é este tipo de mundo que elas, eles e o seu Deus edificaram e insistem em manter/perpetuar a ferro e fogo. São a inumanidade absoluta. Não a vemos assim, porque as religiões e o Deus das religiões têm esse terrível condão de nos esconder a realidade, ao apresentar todo o inumano estrutural e institucional que fabricam como outros tantos sacrifícios cruentos e incruentos, por isso, coisa sagrada, querida/ exigida por Deus, como redenção pelos pecados.

O Autor, filósofo e publicista italiano, felizmente, não alinha nesse discurso institucional e não hesita em afirmar, ainda no mesmo Prólogo, “Nisto consiste a democracia: autonomia, autos nomos. O que não recebe a lei de outros, nem que seja do Outro ou do Alto, mas que a cria. Soberanamente. E duas soberanias não podem conviver num mesmo universo. Aut a soberania de Deus, aut a soberania dos cidadãos, de modo que uma das duas tem que ser proscrita da esfera pública, deve ceder o lugar à outra, como o vile meccanico de Manzoni.” Só que nestes nossos dias – e esta é a realidade factual que preocupa o Autor e o leva a escrever este Livrinho, semelhante a uma cartilha de bolso – “o pensamento oposto, que encontra em Deus um auxílio para as democracias em crise, parece hoje hegemónico”. E não é que até os chamados agnósticos e ateus se apresentam na praça pública a patrocinar a chamada Lei da Liberdade religiosa e a defenderem sem rebuço que as religiões são fundamentais para a coexistência pacífica, quando, historicamente, todas são causa e ocasião de guerras intestinas, inclusive, entre os membros da mesma família, só porque uns são duma religião, outros, de outra e outros de nenhum?!. Só um cego que não queira ver é que não vê. Como vê todos os do Poder a proteger e a promover, inclusive, com a sua presença, em momentos de mais solenidade “democrática”, os cultos das religiões, nomeadamente, da que é maioritária nos respectivos países.

O Livrinho tece-se em 15 pequenos capítulos, qual deles, o mais oportuno, que importa ler e reler. E reter/praticar/assumir no dia a dia. Embora a coerência, no confronto com as religiões e o seu Deus tenha um elevadíssimo custo. Ou as religiões e o seu Deus não fossem vingativos, odientos, fanáticos, como efectivamente são. No grau máximo. São capazes de genocídios e de auto-imolações em massa, só para se afirmarem sobre as populações que porventura lhes resistam. Procedem assim, porque são o oposto da Luz, da Verdade. E odeiam a Luz, a Verdade. Visceralmente. Eis os títulos dos 15 capítulos: Laicos e crentes unidos na luta; O ateísmo é uma calamidade pública; A democracia não se sustém por si mesma; É necessário Deus; Sem Deus vence o niilismo; O risco totalitário; Deus é um bom argumento; Ofender a Deus não é liberdade; A ciência não basta; Valores não negociáveis; A liberdade não é pornografia; A vida é sagrada; Os laicos prevaricam; O abismo relativista; Só Deus pode salvar-nos.

Como depressa se dará conta, os títulos de cada capítulo dão voz às posições das religiões e dos seus sacerdotes, pastores, gurus, inventores/criadores de Deus, o das religiões. Mas o corpo de cada capítulo aí está a tirar o tapete a tais posturas dos líderes das religiões que se têm como os porta-vozes do respectivo Deus. Tudo delírios, como se vê. Mas delírios que já levam milénios e milénios. Simplesmente, porque não nos atrevemos a assumir-nos uns com os outros, na vida e na história, como se Deus não existisse, de resto, a única postura intelectualmente honesta para chegarmos a ser nós próprios, seres humanos, fragilidade consciência, em permanente relação, vasos comunicantes uns com os outros, nenhum tutor, nenhum Poder, comunidades de iguais, livres, nenhum medo!

Embora o Autor nunca o diga explicitamente, certamente, também por nefasta influência do cristianismo que ainda não terá sido erradicado de vez do seu inconsciente, esta é a via política de Jesus, o alfa e o ómega do Humano, fora do qual não há salvação, autonomia, liberdade. Só adoração, submissão, humilhação, infantilismo, tudo posturas históricas que deixam o caminho aberto a todas as tropelias/crimes estruturais, institucionais, praticados “para maior glória de Deus”. O das religiões, obviamente, não o de Jesus e da humanidade. Porque a este nunca ninguém O viu! Só nos vemos uns aos outros, como comunhão sororal de iguais. Como se vê, estamos perante um Livrinho a não perder por nada deste mundo!

*** ***

Edição 97, Abril 2014

Mark Hathawaw e Leonardo Boff / Editorial Trotta

O Tao da libertação

Uma ecologia da transformação

São 500 páginas. Densas. Perturbadoras. Inquietantes. Mas precisas. Imperiosas. Urgentes. Denunciam o tipo de mundo que tem por pai o poder financeiro, ou, dito em linguagem de Jesus e do seu Evangelho de Deus, o da Humanidade, o tipo de mundo que tem por pai o cristianismo de S. Paulo e do seu evangelho. Os seus dois Autores não o dizem assim, porque ambos permanecem ainda no âmbito do cristianismo que, há dois mil anos, nos tem formatado a mente a todas, todos, sobretudo, no Ocidente. E, já antes dele, também o judaísmo, o da Bíblia. E todos os chamados livros sagrados das religiões que sempre foram livros escritos pelo Poder de turno, ou a seu mando. Bastará um atento e cordial olhar sobre o índice, no final do livro, para ficarmos logo com os cabelos em pé, no que respeita ao tipo de mundo em que vivemos. Aliás, o oportuníssimo Prefácio assinado por Fritjof Capra, é, porventura, ainda mais incisivo e preciso que o Livro no seu todo. Felizmente, o Livro não se fica pelo “ver” o tipo de mundo em que vivemos. Mergulha mais fundo e busca e ensaia uma ecologia da transformação e, mais fundo ainda, uma espiritualidade da transformação. O trágico deste nosso tempo, porém, é que podemos andar já tão encandeados com este tipo de mundo e ele estar já tão fora de qualquer controlo humano, que nem a ecologia nem a espiritualidade da transformação cheguem a tempo e, sobretudo, tenham suficiente número de praticantes que evitem a catástrofe que já estamos a sentir na pele. E, nesta hipótese, só nos resta a morte colectiva ao jeito da de Jesus, por isso, um novo nascer, finalmente, humano, vasos comunicantes, organismos consciência e afectos, conduzidos, finalmente, pela Sabedoria, em vez de pelo Saber.

“Optamos – esclarecem os Autores – por utilizar neste livro, como fonte de inspiração, o Tao Te Ching (ou Dao De Jing), escrito aproximadamente há 2500 anos. O texto é atribuído tradicionalmente a um sábio que se julga ter vivido aproximadamente a Lao-tsé (ou Laozi), desde 551 até 479 a.c. Embora a maior parte dos estudiosos pensem que se trata duma colecção de provérbios de diversas fontes. (…) O Tao Te Ching é, depois da Bíblia, o texto mais publicado no mundo.” Compreende-se, então, a insólita opção dos Autores, no intuito de conseguir o que se pode chamar uma maior abertura a todos os povos e a todas as culturas do mundo. Mas não deixa de ser inquietante que até o Tao que dá o título a um Livro como este, que busca uma ecologia e uma espiritualidade de libertação e de transformação, seja um substantivo masculino, tal como o Saber/ Poder, quando é o Feminino que mais no define como seres humanos, enquanto o masculino nos define como poder, domínio, violência, roubo, assassínio.

“A nova economia – sublinha, com grande oportunidade, o Prefácio de Capra – que surgiu a partir da revolução devida à tecnologia da informação das três últimas décadas, estrutura-se em grande parte em torno de redes de fluxos financeiros. Umas sofisticadas tecnologias da informação e da comunicação permitem ao capital financeiro mover-se rapidamente por todo o globo em incessante procura de oportunidades de investimento. O sistema baseia-se em modelos informatizados que gerem a enorme complexidade produzida por uma desregulamentação e uma mareante variedade de novos instrumentos financeiros. Esta economia é tão complexa e turbulenta que desafia a análise em termos económicos convencionais. O que na realidade temos é um casino global manejado electronicamente. Os que jogam neste casino não são obscuros especuladores, mas importantes bancos de investimento, fundos de pensões, empresas multinacionais e fundos de investimento organizados, precisamente, com a finalidade de manipulação. O chamado mercado global não é em rigor um mercado em absoluto, mas uma rede de máquinas programadas de acordo com um único valor – ganhar dinheiro – com exclusão de todos os outros valores. O que significa que a globalização económica excluiu sistematicamente dos negócios todas as dimensões éticas.”

É precisamente aqui, neste dado factual, do nosso hoje global, que reside a raiz do trágico que é este tipo de mundo que tem por pai o cristianismo-judaísmo-taoismo. E que os próprios Autores, sem dúvida, duas sumidades, respectivamente, nas áreas das questões da justiça social, direitos humanos e ecologia (Mark Hathawaw) e da teologia, filosofia, ética, ecologia (Leonardo Boff), embora o tenham tido em conta, no acto de escreverem este Livro a duas mãos, não conseguem, de todo, neutralizar, muito menos, impedir que ele avance dia e noite, sem nada, ninguém, que lhe ponha freio. Por isso, as saídas apontadas no Livro soam ainda a receitas já conhecidas e sistematicamente recusadas pelo ímpeto financeiro com que este nosso tipo de mundo, filho do islamismo-cristianismo-judaísmo-taoísmo, está cada vez mais possesso. O trágico situa-se aqui. E para este trágico, continuamos sem saída, mesmo depois deste Livro, sem dúvida, um Livro oportuno, imperioso e urgente, mas manifestamente insuficiente. Porque, do que se trata, é de mudarmos de ser e de mudarmos de Deus. Mudarmos de antropologia e de teologia. A antropologia e a teologia do islamismo-cristianismo-judaísmo-taoísmo são as que estão na génese deste tipo de mundo. Porém, mudar de ser e de Deus, é coisa que este tipo de mundo nunca permitirá. Pelo contrário, continua aí a crucificar os praticantes, elas e eles, desta antropologia e desta teologia outras, as de Jesus. Já o fez paradigmaticamente com Jesus, em Abril do ano 30. Procedeu e procede assim, porque é um tipo de mundo tecido de mentira e de assassínio, ainda que mascarado de verdade e de vida!...

O Livro completa-se em três grandes partes, subdivididas em diversos capítulos. Parte I, EXPLORAR OS OBSTÁCULOS, 1. Procurar a sabedoria no tempo de crise; 2. Desmascarar um sistema patológico; 3. Para lá da dominação; 4 Superação da paralisia. Parte II, COSMOLOGIA E LIBERTAÇÃO, 5 Redescoberta da cosmologia; 6, Cosmologia da dominação; 7, Transcendendo a matéria; 8, Complexidade, caos e criatividade; 9, Memória, ressonância mórfica e emergência; 10, O cosmos como revelação. Parte III, O TAO DA LIBERTAÇÃO, 11. Espiritualidade para uma era ecozóica; 12, Ecologia da transformação.

Urge mergulhar neste Livro e, se possível, ir ainda mais fundo. Trata-se de vivermos em deserto, neste tipo de mundo, para, finalmente, podermos escutar o silêncio das vítimas e do próprio planeta Terra. E concebermos projectos políticos alternativos que prossigam, de modo actualizado, o mesmo projecto político de Jesus. Necessitamos de práticas económicas e políticas outras, mais do que receitas requentadas. O cristianismo religioso está esgotado e o cristianismo financeiro é estruturalmente cruel e sádico. A verdade é que só no HUMANO podemos ser. Fora do humano, não há salvação. O cristianismo – é cada vez mais claro, hoje – tem-se feito passar por caminho, verdade e vida, mas isso é apenas a máscara com que ele sempre se nos apresenta. Porque em verdade o cristianismo é o sistema que trabalha dia e noite para sacrificar os seres humanos ao seu deus, o Dinheiro/ Poder financeiro. Acordamos e mudamos de ser e de Deus, ou perecemos!

*** *** ***

Edição 96, Março 2014

Reyes Mate / Editorial Trotta

A PEDRA REJEITADA

 Logo a abrir o Prólogo do seu Livro, o Autor traz à colação o escritor japonês, prémio Nobel da literatura 1994, Kenzaburo Oé, que se lamentou por toda a sua vida, ter chegado “tão tarde” a Hiroshima. Sabia, é claro, da bomba atómica e de todo o seu poder destruidor. Desconhecia, contudo, todo o sofrimento que um tal engenho causou naquela cidade e causará, lá, onde quer que venha a ser lançado. Cita, logo depois, o teólogo alemão Johann Baptist Metz que, tão pouco se perdoou por ter chegado “tarde demais” a Auschwitz. A verdade é que vivemos num tipo de mundo e de civilização sem memória e sem atenção às vítimas que ele sadicamente produz. Como se vítimas e o seu sofrimento, os seus lancinantes gritos e os seus perturbadores silêncios, não existissem. Pois bem, todos os textos que tecem este Livro visam avivar a memória dos povos e alertar para as inúmeras vítimas humanas e outras que estão aí. Para que nunca mais haja literatura, filosofia, economia, arte, teologia, política, espiritualidade, que consigam acontecer, como se as vítimas não existissem, não estivessem aí, como efectivamente estão. E que, mesmo no seu silêncio, reduzem a lixo a arte, a literatura, a filosofia, a economia, a teologia, a espiritualidade, quando estas são capazes de acontecer, sem as ter a elas em conta. O que perfaz o cinismo dos cinismos. A hipocrisia das hipocrisias.

Reyes Mate é doutor pela Wilhelms-Universitat de Munster e pela Universidad Autónoma de Madrid. Os seus ensaios já chamaram a atenção dos escolhidos que atribuem o Prémio Nacional de Ensaio, em Espanha, porque, em 2009, o Prémio Ensaio foi para ele, pelo seu Livro “A herança do esquecimento. Ensaios em torno da razão compassiva”. Este seu novo Livro procura fazer a diferença e jamais pensar e escrever, seja o que for, e sobre que matéria for, que não tenha presente a memória e a realidade das vítimas. Porque, quando não apagamos a memória e não ignoramos as vítimas, tudo o que pensamos, fazemos, inventamos, escrevemos, sai diferente, sai interpelador, perturbador.

Neste seu novo Livro, o Autor agrupa os seus Textos em 4 grandes partes: I, A autoridade do sofrimento. II, Memória e Justiça. III, Deus depois de Auschwitz. IV, Retratos. Por sua vez, cada parte “faz-se” em vários capítulos, todos com o mesmo denominador comum: o sofrimento das vítimas está aí a dizer que este tipo de mundo e de civilização não tem sentido, nem ponta por onde se lhe pegue. Se produz vítimas, todos os seus inventos e todos os seus projectos são inventos e projectos perversos, por mais bem-intencionados que se digam e se apresentem. O próprio cristianismo não foge à regra. Produz vítimas – e que vítimas! – por isso, é perverso. Só que ninguém se atreve a dizê-lo. Mas aqui fica dito, agora mesmo. Escandalizamo-nos? Deixemo-nos disso. Aprofundemos, e veremos que é verdade! Retiremos as escamas ideológicas/teológicas dos olhos da mente, e veremos o que, nestes dois milénios, nunca quisemos ver, ou não nos deixaram ver.

Todo o Livro (311 pgs) é uma antologia que se lê de um fôlego e que nos faz estremecer por dentro, quase às lágrimas, ou mesmo às lágrimas. Porque de alguma maneira todo ele é tecido com o sangue, as lágrimas, os gritos e, até, os silêncios das vítimas que este tipo de mundo e de civilização inevitavelmente produz e sistematicamente esconde e esquece. Como se elas não existissem. Ou fossem uma inevitabilidade histórica. Quando não são. São, antes, o fruto de uma determinada opção, de uma determinada decisão política. Neste particular, se alguma coisa há a lamentar, neste Livro maior, é precisamente aqui. Porque a inevitabilidade das vítimas e do sofrimento parece que não tem como não existir. E assim é, mas só neste tipo de mundo e de civilização. Porém, para que as vítimas e o sofrimento dos inocentes não seja uma inevitabilidade, é preciso saltar fora do sistema em que este tipo de mundo e de civilização se apoia. Operação difícil, para qualquer intelectual que sonhe fazer carreira dentro deste tipo de mundo e de civilização.

Saltar fora, significa, inevitavelmente, aceitar mudar de ser e mudar de Deus. Mudar de tipo de mundo e de civilização! E isso, não parece haver quem esteja disposto a fazer. Ou muito poucas, poucos, o fazem, por toda a vida. De modo que, cultivamos a “Memória” e fazemos questão de ter as vítimas em conta nos nossos discursos e no nosso escrever, mas não nos atrevemos a saltar fora do sistema, não somos capazes de pensar e de gerar um tipo de mundo e de civilização em que seja politicamente proibido produzir vítimas, antes de mais, pobres em massa e pobreza estrutural. E também seja proibido produzir sofrimento, decorrente de determinadas opções e decisões políticas, como, por exemplo, produzir armas de destruição maciça e economias que visam o lucro, custe o que custar. É nesta encruzilhada que hoje nos encontramos, anos depois de Hiroshima e de Auschwitz. Nem ela, nem ele nos fizeram mudar de rumo, muito menos de tipo de mundo e de civilização. Hipócritas, que somos! São, pois de crocodilo, as nossas lágrimas.

É pena que o Autor, tão arguto e tão sensível, não chegue a romper de vez com o sistema e pretenda realizar a quadratura do círculo. Mas não está sozinho. Com ele, está a generalidade dos intelectuais, inclusive, os chamados filósofos e os teólogos da libertação. Nem sequer vêem que, com semelhante postura, apenas contribuem para tornar este tipo de mundo e de civilização, um pouco menos cruel e sádico, mas sem nunca irem à raiz do problema. E a verdade é que todos continuam aí a fazer filosofia e teologia, como se não houvesse Hiroshima e Auschwitz. Sabem que houve e que pode haver ainda pior. Inclsuive, escrevem a propósito dessas atrocidades inomináveis. Mas não têm a audácia de ir à raiz do problema, que é perguntar e responder à pergunta: O que tornou possível Hiroshima e Auschwitz?

A resposta a esta pergunta, quem a dá em plenitude, é apenas Jesus de Nazaré, o assassinado na cruz do Império, que, desse modo, se constitui “a Pedra que os construtores” deste tipo de mundo e de civilização “rejeitaram”, e que se tornou “a Pedra angular”. Com a agravante de que os construtores deste tipo de mundo e de civilização procedem assim com Jesus, para que se cumpra a Escritura/Bíblia deles, cujo Deus – está mais do que visto – só pode ser um Deus-ídolo que se alimenta de vítimas, a começar pelo seu próprio filho!!! E não é que, depois de tudo isto, nós, em vez de vermos nesses construtores institucionais, os grandes pecadores e os grandes carrascos do mundo, temos continuado a apoiá-los e a obedecer-lhes?! E – cúmulo dos cúmulos! – ainda acolhemos/comungamos o chamado “Cristo da fé” que eles nos impingem, em lugar de acolhermos/comungarmos Jesus e o seu Projecto político de sociedade. Quando, em boa verdade, o “Cristo da fé”, mais não é do que um mito bíblico-davídico, assumido e reformulado pelo trio fundador do cristianismo, Simão Pedro-Paulo de Tarso-Constantino de Roma, cuja síntese doutrinal está contida no Credo de Niceia-Constantinopla! Uma barbaridade doutrinal sem nome que muitos, todos estes séculos depois, continuam aí a repetir, sem entenderem minimamente o que estão a papaguear nas missas e noutros cultos sem cultura!

Pretender um mundo sem vítimas, dentro deste tipo de mundo e de civilização que tem por base a Bíblia judeo-cristã que o justifica, e, antes dela, os relatos míticos das origens das grandes religiões do planeta, mai-lo judaísmo, o cristianismo e o islamismo, é querer a quadratura do círculo. Só num outro tipo de mundo e de civilização, inspirado pelo Evangelho de Jesus, tal como, por exemplo, o livro JESUS SEGUNDO JOÃO, do Pe. Mário de Oliveira, Seda Publicações, no-lo apresenta – um tipo de mundo sem Poder, só seres humanos e povos maieuticamente religados uns aos outros ao modo dos vasos comunicantes. Ou assim, e somos coerentes e intelectualmente honestos, ou andamos às voltas, às voltas, género, pescadinha rabo na boca, sem nunca saltarmos fora do sistema e dos privilégios que este tipo de mundo e de civilização garante a quantas, quantos dizem ámen com ele, e, até, o bajulam. Pena que nem o Autor deste interpelador Livro chegue a ver a plena luz, quando, entretanto, nos fala tanto das vítimas. Percebe-se, mas não se pode aprovar. Se o Autor quisesse ser consequente, teria de nascer de novo, de fora do sistema, concretamente, da mesma Ruah/Sopro maiêutico de Jesus, o de antes do cristianismo. Só que, então, lá se iriam por água abaixo os privilégios, a cátedra e o Prémio Ensaio e muitas outras regalias que as vítimas jamais conhecem!!!

***

Edição 95, Fevereiro 2014

John Stuart Mill / Editorial Trotta

TRÊS ENSAIOS SOBRE A RELIGIÃO

Introdução, tradução e notas de Gerardo López Sastre

Embora o Autor tenha nascido e vivido no século XIX (1806-1873), este seu Livro (196 pgs) mantém uma impressionante actualidade. Certamente, devido ao facto do seu Autor ser o pensador britânico mais importante desse século. A profundidade da sua visão e do seu pensar atravessa gerações e mantém-se sempre em dia. Cada nova geração é surpreendida, agradavelmente surpreendida, por este Livro. E ele torna-se imprescindível em qualquer biblioteca que se preze. Pena que em Portugal não haja editoras que nos dêem a conhecer este Autor e outros autores britânicos da sua envergadura intelectual. Somos demasiado europeus e olhamos para a Grã-Bretanha como uma ilha separada da Europa. Para prejuízo nosso. Tanta actualidade do Autor pode advir do facto dele ser um dos poucos intelectuais que não teve de abandonar as crenças religiosas, para se afirmar na sociedade como adulto e responsável. Pela simples razão de que nunca teve crenças religiosas. Este mesmo facto faz dele um intelectual perspicaz, bem mais à altura de ver a realidade sem o manto da ideologia. Quem nunca foi contaminado com o vírus do religioso, está em melhores condições que todos os demais contemporâneos seus, para ver o mundo tal e qual ele é. Sem disfarces.

Tem de se dizer, aqui, que o Autor teve um pai como poucos: o reformador James Mill. E a verdade é que aos três anos de idade, já este seu filho começava a estudar grego, aos sete anos, já tinha lido vários diálogos de Platão e aos 15 anos, era um prodígio de conhecimentos. Aos 20 anos, o mundo, para ele, era uma prisão à qual ele se não ajustava, de modo algum. E sofreu atrozmente por isso. Felizmente, não ficou refém desse mundo e conseguiu encontrar o seu próprio itinerário e afirmar-se, em toda a sua originalidade.

Para a tradução desta sua obra para espanhol, foi preciosa a colaboração de outro Autor, professor de Filosofia na Faculdade de Humanidades de Toledo, Universidade de Castilla-La Mancha, especializado em autores britânicos. É dele a tradução, bem como a introdução e as notas que a pontuam, sempre que necessário. “A Natureza”, é o título do primeiro dos três ensaios. “A utilidade da religião”, é o segundo ensaio. O terceiro e mais amplo, tem por título, O teísmo. Este é o único ensaio dos três que se divide em partes, cinco, ao todo: Parte I, O teísmo; As evidências do teísmo; O argumento a favor duma Causa Primeira; O argumento a partir do consenso geral da humanidade; O argumento a partir da consciência; O argumento a partir dos sinais de desígnio na Natureza. Parte II, Os atributos. Parte III, A imortalidade. Parte IV, A Revelação. Parte V, Resultado geral. 

Para quem, pela primeira vez, conhece o Autor, é muito útil a Introdução de 38 páginas, assinada por Gerardo López Sastre. Mas o mais delicioso, mesmo, é mergulhar directamente nos três ensaios e tentar seguir a clarividência do Autor. Já se viu que, dos três ensaios, os mais extensos e mais empolgantes, são, respectivamente, o segundo, sobre A utilidade da religião, e o terceiro sobre o teísmo. “Um argumento a favor da utilidade da religião é um chamamento aos não crentes para os induzir a praticar uma hipocrisia bem intencionada, ou aos semi-crentes para fazer com que desviem seus olhos do que poderia possivelmente sacudir sua crença instável, ou, finalmente, às pessoas em geral, para que se abstenham de expressar as dúvidas que possam ter, posto que uma estrutura de imensa importância para a humanidade é tão insegura nos seus fundamentos, que os homens devem conter a respiração, na sua aproximação, por medo de a derrubar.”

Na verdade, e ao contrário do que sempre nos tem sido dito e redito, a religião não decorre da natureza humana. Pelo contrário, decorre do medo de nos assumirmos no mundo e na história. O ser humano não é naturalmente religioso. É religioso, porque o educam/forçam/induzem a ser religioso. Naturalmente, o ser humano é humano, simplesmente, e, na sua fragilidade-consciência, é relacional, já que ninguém é uma ilha, somos em relação/comunhão. Só a religião nos dispensa da relação uns com os outros, porque nos empurra para cima, para uma divindade fora de nós, e que temos como todo-poderosa. Em vez de sermos uns com os outros, dispensamos os outros e corremos para os deuses e deusas!!! É a alienação das alienações, como nos mostra o ser-viver-actuar-pensar-falar Jesus, o de antes do cristianismo.

Sobre o teísmo, o Autor escreve, quase a abrir o seu ensaio: “A luta contra as crenças religiosas desenvolvia-se no século passado [século XVIII] a partir do sentido comum ou da lógica; na época actual, a partir da ciência. Considera-se que o progresso das ciências físicas estabeleceu com uma evidência conclusiva questões de facto com as quais não são reconciliáveis as tradições religiosas da humanidade; e, por outra parte, considera-se que a ciência da natureza humana e da história mostra que os credos do passado são desenvolvimentos naturais da mente humana, em estádios concretos da sua carreira, destinados a desaparecer e a dar lugar a outras convicções numa etapa mais avançada.

São apenas umas pequenas amostras do pensamento do Autor, destinadas a despertar o apetite para nos debruçarmos sobre estes três ensaios. Estamos perante um Autor clássico, que se mantém actual. Certamente, a sua condição de homem que nunca teve qualquer crença religiosa, preparou-o para poder olhar o mundo sem estar condicionado por nenhuma religião, nem tão pouco pela rejeição das existentes. Sabe delas, mas não é de nenhuma. E este seu olhar é o olhar que todos os seres humanos, haveríamos de ter. Para nos desenvolvermos de dentro para fora, em lugar de desenvolvermos o religioso fora de nós que acaba por nos atrofiar como humanos e fazer de nós estranhos uns perante os outros e perante o planeta. Ninguém deixe de conhecer este Livro e este Autor. Mais vale tarde do que nunca!

---

Boaventura de Sousa Santos / Editorial Trotta

Se Deus fosse um activista dos direitos humanos

“A única opção que não existe [neste tipo de mundo em que vivemos] é a de sair deste mercado planetário. Esta ideia, é uma ideologia, na medida em que sustenta, manifesta e reforça as relações de poder dominantes nas nossas sociedades. Opera como uma espécie de apoliticismo normativo. Normativo, porque se pede à pessoa que seja autónoma, se é que se a não obriga a sê-lo, só para depois a deixar no maior desamparo, se ela vem a fracassar, em virtude da dependência ou da inaptidão no exercício da autonomia. E chamo apolítica, esta ideia, porque o seu imenso poder consiste em promover um conceito do poder, como se este estivesse imensamente fragmentado, disseminado numa rede virtualmente infinita de interacções entre indivíduos que competem no mercado por recursos e recompensas escassos. A autonomia individual entende-se, em consequência, como um compromisso pessoal com um mundo já feito e impossível de mudar. O ser social, ou, inclusive, anti-social que emerge desta ideologia é o homo sociologicus do capitalismo monopolista global, a que costuma chamar-se neo-liberalismo. Este ser social é uma versão muito mais ampliada do homo economicus. Difundida por pregadores e proselitistas que crêem que a sua missão é anunciar o novo modelo de ser humano, esta ideologia tende a prevalecer em todos os rincões do globo, embora o impacto da sua penetração varie amplamente de região para região.”

A citação é longa, mas suficientemente reveladora do olhar sobre o mundo deste nosso hoje, por parte do Autor de tão surpreendente Livro de apenas 111 páginas de texto. As palavras encontram-se logo no Prefácio, escrito pelo próprio Autor, Professor catedrático jubilado da Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra, português de nascimento, mas planetário, devido às múltiplas intervenções que tem sucessivamente mantido em todo o lado, neste que é o tempo das grandes viagens efectuadas em cada vez mais reduzido número de horas. O Livro apresenta-se denso e inquietante, também esperançador, ainda que, neste último aspecto, a ruçar o messianismo/cristianismo, e nessa mesma medida, perigosamente ilusório. Precisamente, porque é uma esperança sem os pés bem assentes na realidade que está aí, arrogante e dura, cruel e sádica, nenhumas entranhas de humanidade, o pleno da Besta, travestida de Deus omnipotente, omnisciente e omnipresente, sem que se lhe chegue sequer a ver os seus pés de barro, graças, sobretudo, à esmagadora maioria dos intelectuais não-orgânicos, teólogas, teólogos incluídos, que optam por se movimentar e intervir, nele, sempre do lado do algoz estrutural, nunca do lado das suas inúmeras vítimas e com elas. Embora falem muito delas e nelas, nem por isso deixam de continuar a integrar o mesmo mundo do algoz estrutural. Por isso, são outros tantos aliados dele, ainda que pareçam aliados das suas inúmeras vítimas. Apenas parecem. Efectivamente, não são.

São 5, os capítulos do Livro, para lá da Introdução, intitulada “Os direitos humanos, uma frágil hegemonia”. Eis os respectivos títulos: 1. A globalização das teologias políticas; 2. O caso do fundamentalismo islâmico; 3. O caso do fundamentalismo cristão; 4. Os direitos humanos na zona de contacto das teologias políticas; 5. Para uma concepção pós-secularista dos direitos humanos: direitos humanos contra-hegemónicos e teologias progressistas.

“Se Deus fosse um activista dos direitos humanos é, evidentemente, uma proposição metafórica, à qual só se pode responder metaforicamente. Segundo a lógica deste livro, se Deus fosse um activista dos direitos humanos, Ele ou Ela andariam definitivamente em busca duma concepção contra-hegemónica dos direitos humanos e duma prática coerente com a mesma. Ao fazê-lo, antes ou depois, este Deus enfrentar-se-ia com o Deus invocado pelos opressores e não encontraria nenhuma afinidade com Este, ou com Esta. Dito de outro modo: Ele ou Ela chegariam à conclusão de que o Deus dos subalternos não pode deixar de ser um Deus subalterno. A consequência lógica de tal conclusão seria bastante ilógica do ponto de vista humano, pelo menos, no que respeita às religiões monoteístas que constituem a base da minha análise: um Deus monoteísta apelando ao politeísmo como condição para que a invocação de Deus nas lutas sociais e políticas por uma transformação social progressista não tenha efeitos perversos. A ideia de um Deus subalterno seria que só o politeísmo permite uma resposta inequívoca a esta pergunta crucial: De que lado estás? Reconheço que um Deus monoteísta, a defender um conjunto politeísta de deuses e, em consequência, o seu próprio suicídio sacrificial pelo bem da humanidade, é um completo absurdo. Porém, pergunto-me se o papel de muitas teologias não foi o de evitar que nos confrontemos com este absurdo e tiremos dele as devidas conclusões. É como se o logos de Deus tivesse sido desde sempre um exercício humano para impedir Deus de expressar a sua pluralidade.”

É com estas perturbadoras palavras que o Autor conclui o seu livro. Palavras, obviamente, chocantes. Sobretudo, porque revelam que o Autor não conseguiu ainda sair do universo da chamada civilização ocidental e cristã que tem, na sua génese, o evangelho e a teologia de S. Paulo, não o evangelho e a teologia de Jesus. Ora, pensar-dizer Deus fora de Jesus, o filho de Maria, é sempre, mas sempre, idolatria. Porque o Deus de S. Paulo é o Deus dos vencedores, por isso, o Ídolo dos ídolos. Ferozmente, macho e monárquico, cujo rosto visível na terra é o do império vencedor de turno, hoje, o império financeiro global, por sinal, o filho unigénito do cristianismo. Em Jesus, a fragilidade por antonomásia, Deus Abba-Mãe que nunca ninguém viu, dá-se a conhecer na vítima, nas vítimas. Nunca O vemos, apenas vemos as vítimas produzidas pelo Ídolo dos ídolos, o Senhor Dinheiro, omnipotente, omnisciente, omnipresente. Precisamente, o mesmo Deus do Credo de Niceia-Constantinopla, que as igrejas cristãs recitam com regularidade nos seus cultos e sobre o qual discorrem nas suas faculdades de teologia e em milhares de milhões de livros espalhados por inúmeras bibliotecas do planeta. É este, também, o Deus da Cúria romana, da sua teologia, do seu Catecismo, do seu Código de Direito Canónico. O mais trágico, neste particular, é que nem a chamada Teologia da Libertação conseguiu sair do universo do cristianismo, o mesmo de S. Paulo, o das Cartas, perseguidor de Jesus e do Deus de Jesus. 

Do Deus de Jesus, nunca se poderá sequer formular a hipótese de Ele ou Ela ser um activista dos direitos humanos. Porque nunca ninguém o viu. Como tal, não se pode dizer nada sobre. Apenas o Silêncio diz Deus, o de Jesus. O mesmo silêncio que escutamos depois da pergunta de Jesus na cruz do império, imediatamente antes de entregar o seu Sopro, a sua Ruah, Meu Deus, meu Deus, porque me abandonaste? Conhecemos a Pergunta. Não a resposta. E esta Não-resposta à Pergunta é que nos faz humanos, sororais, vasos comunicantes. A resposta, em lugar da Pergunta-sem-resposta, sempre nos remete para o Ídolo dos ídolos, que é, afinal, o Deus do evangelho de S. Paulo, do cristianismo, da Bíblia, do Alcorão. Um falso Deus que reiteradamente se faz passar por verdadeiro e mata todos os que o denunciam e o desmascaram. É este Deus-Ídolo dos ídolos que mata Jesus. E mata os pobres. Produ-los e mata-os. Porque não vive sem vítimas, sem sacrifícios, e alimenta-se de vítimas.

Quando decidirmos ser, plena e integralmente, humanos, já não haverá mais vítimas. Haverá seres humanos que se experimentam habitados por Deus Abba-Mãe que nunca ninguém viu, porque mais íntimo a nós que nós próprias, nós próprios. É por estas águas outras, que navega o Livro mais recente do Pe. Mário de Oliveira, JESUS SEGUNDO JOÃO, O 4.º EVANGELHO TRADUZIDO E ANOTADO COMO NUNCA O CONHECEMOS (206 pgs), Seda Publicações, 2.ª Edição, Janeiro 2014. Que haverá de marcar/transformar de raiz o terceiro milénio, ou este, simplesmente, não será. Acolhamo-lo, estudemo-lo, debatamo-lo, pratiquemo-lo. Se o não encontrarem, encomendem-no ao Autor.

---

Edição 94, Janeiro 2014

José M.ª Castillo / Desclée de Brouwer

Teologia Popular, I, II, III

A boa notícia de Jesus (I)

O reinado de Deus (II)

O final de Jesus e o nosso futuro (III)

São três pequenos volumes, duma assentada. Que o teólogo José M. Castillo trabalha/escreve sempre, sem ter em conta os anos de vida na história que já soma. Os três, têm em comum, o título, TEOLOGIA POPULAR, seguido de um numeral romano, respectivamente, I, II, III. Para lá deste pormenor, há outro, um subtítulo, em cada um dos volumes, que é, esse sim, bem mais indicador do que trata cada um deles. Eis cada um dos três subtítulos: A boa notícia de Jesus (I), O reinado de Deus (II), O final de Jesus e o nosso futuro (III). Os três volumes, todos igualmente dedicados à Companhia de Jesus, têm, segundo esclarecimento do próprio Autor, “as suas origens na Teologia popular, impressa a stencil – o usual nos anos 70 do século passado – que então se difundiu por bairros e aldeias, com notável aceitação entre grupos e pessoas de boa vontade, que procuravam o bem”. É, pois, este tipo de Teologia popular, devidamente actualizada pelo Autor, que nos é aqui agora disponibilizada, nestes três volumes, graças à Editorial Desclée de Brouwer.

O Autor prima por centrar toda a sua Teologia na pessoa de Jesus e no Deus de Jesus. E faz bem. E tanto melhor, quanto mais teólogo jesuânico for. Porque quando dizemos Teologia, dizemos reflexão, discurso, comunicação sobre Deus. E aqui reside o perigo. É que o conceito “Deus” não tem, como se sabe, mas nunca ou quase nunca se assume, na vida real, um sentido unívoco. Embora seja um conceito transversal a todos os povos e a todas as culturas, em si mesmo, não significa nada. É um puro conceito. Para cúmulo, invariavelmente relacionado com o Religioso, a Religião. E aqui reside o problema da Teologia, também, da Teologia Popular, destes três volumes. Porque o Deus de Jesus, ao contrário de todos os deuses e deusas de antes e depois de Jesus, não gosta de religião. Não é religioso. Tão pouco é cristão. Gosta de Política praticada pelos seres humanos e por todos os povos da terra. Não gosta de Poder, nem sequer do Poder religioso/eclesiástico e do Poder político, assassinos da Política praticada que, como diz a própria etimologia da palavra, Política, é a Arte de Cuidarmos da cidade, da sociedade, do nosso global viver na história, e do próprio planeta Terra, minúscula parte do Universo ainda em expansão. Só a Política praticada, não a Religião, é o grande imperativo ético que vem inscrito no ADN de cada ser humano que vem a este mundo, do qual nenhum de nós pode demitir-se, sob pena, se o fizermos, de renunciarmos a ser seres humanos criadores e livres, sororais e maiêuticos, sempre a crescer de dentro para fora e a fazermo-nos crescer de dentro para fora uns aos outros. E, porque não somos-fazemos assim, acabarmos todos reduzidos a uns abortos de ser humano, na condição de servos/súbditos, a maioria, ou na condição de Poder/algozes dos demais, uma minoria cada vez mais diminuta e sem rosto.

Jesus, o filho de Maria, faz a diferença substantiva na História da humanidade, concretamente, na Antropologia e na Teologia, porque chega a dar-se conta de que a Deus, nunca ninguém o viu. Consequentemente, ninguém o conhece. Pelo que todo o discurso sobre Deus – toda a Teologia – corre o risco de andar infectada de idolatria, já que remete para um Deus que se conhece e sobre o qual muito se tem escrito. Mas um Deus que se conhece, é um Deus que se vê. E o Deus que se vê só pode ser uma criação/projecção dos seres humanos, graças ao qual tudo o que, depois, fazemos e dizemos, está justificado, inclusive, os actos mais objectivamente horrendos.

Nunca antes de Jesus, nem depois dele, alguém mais, se atreve a dizer/proclamar/advertir, Cuidado!, que a Deus, nunca ninguém o viu. Porque, se o disser e for consequente com esse seu dizer, retira, de imediato, toda a base ideológica e teológica em que assenta este tipo de mundo e de civilização onde nascemos, crescemos e morremos, e que tem um Deus que se vê, por base e justificação, por isso, institucionalmente inquestionável. Quando muito, apenas admite ser reformado, mas para que tudo continue na mesma e sem grandes sobressaltos. O próprio ateísmo que, outrora, no tempo do Poder religioso global, foi considerado politicamente subversivo, é hoje tolerado e, até, coisa chique, porque tem subjacente a ele a negação de um Deus que se vê, concretamente, o da Religião e das igrejas cristãs, mas não tem, não pode ter subjacente a ele, aquele Deus, o de Jesus, que nunca ninguém viu. Basta vermos como quase todos os que, hoje, se dizem ateus, capricham em ser os grandes servidores do Dinheiro, do Poder financeiro. Não são verdadeiros ateus. São, isso sim, idólatras compulsivos, já que adoradores do omnipotente, omnisciente, omnipresente Deus Dinheiro, intrinsecamente cruel e sádico!

O Autor apresenta-se-nos, nestes três volumes, muito crítico da Religião, do factor Religioso. Chega a escrever, na Apresentação do Volume I: “O que este livro nos vem dizer é que o cristianismo, a Igreja, a religião, têm que se humanizar, têm que ser mais humanos, mais próximos a todo o ser humano, mais identificados com tudo o que é verdadeiramente humano.” Só que, perante este belíssimo falar teológico, levanta-se, incontornável, a pergunta: Mas então, J. M.ª Castillo, porque fazermo-nos cristãos, se, afinal, só o Humano é o nosso ADN, não o cristão, metido, por isso, de fora para dentro e sempre à força, muitas vezes, até com recurso à violência armada, estilo, ou aceitas ser baptizado e fazes-te cristão, ou morres?! Não é assim toda a história do cristianismo, o católico romano e o protestante, na multiplicidade das suas igrejas, todas organizadas ao modo de empresas de religião? E todas, bastante lucrativas, pelo menos, para os respectivos hierarcas, párocos, pastores, missionários? E quantos deles estão dispostos a ser, terceiro milénio adiante, outros, Jesus, a plenitude da Fragilidade Humana maiêutica, desarmada e crucificada? Quantos?

Por isso, a grande pergunta que fica, depois de lermos estes três volumes: Renovar a igreja-religião, ou fazê-la desaparecer, para, em seu lugar, ficar apenas a Humanidade dinamizada de dentro para fora, pela mesma Ruah de Jesus, que nunca ninguém vê, e a sua mesma Fé política, não religiosa? Deste modo, veremos apenas a Humanidade que somos, todos, sem nenhuma espécie de discriminação entre nós, e não vemos nunca Deus Abba-Mãe, o de Jesus, que nos habita a todos e cada qual, mais íntimo a nós que nós próprios! É para aqui que nos anda a querer conduzir a mesma Ruah de Jesus, a porta, o caminho, a verdade, a vida. Resistir-lhe, é o grande pecado do mundo (cf. Pe. Mário de Oliveira, JESUS SEGUNDO JOÃO, o 4.º Evangelho traduzido e anotado como nunca o conhecemos, Seda Publicações, 1.ª edição, Outubro 2013, 2.ª edição, Janeiro 2014). Ousemos seguir e prosseguir Jesus, agora, terceiro milénio adiante! (www.edesclee.com; info@ecleslee.com).

---

Juan José Tamayo / Fragmenta Editorial

50 intelectuais para uma consciência crítica

 Em boa hora, o conhecido e prestigiado teólogo Juan José Tamayo – acaba de ser galardoado, estes dias, com a medalha de ouro dos direitos humanos, atribuído anualmente pela respectiva Liga espanhola – decidiu meter mãos a um trabalho de tamanha importância como é este seu novo Livro. Quando rareiam cada vez mais entre nós os intelectuais dignos deste nome, orgânica e maieuticamente religados às populações sem voz nem vez, de tão oprimidas e empobrecidas, um Livro como este (519 páginas) é uma estrela que nos ilumina e aquece a mente e a consciência. E a garantia de que o nosso Hoje, apesar da existência de milhões de pobres e de pobreza em massa, cientificamente programados e produzidos, nem assim deixa de ser um mundo, onde a Esperança que nos levanta e põe a caminho, continua a encontrar lugar e a ter sentido. Nem que seja como a última utopia política, esse não-lugar que teima em fazer-se carne, fragilidade humana, e erguer a sua tenda entre nós, como paradigmaticamente aconteceu, 5 ou 6 anos antes desta nossa era comum, em Jesus de Nazaré, o de antes do cristianismo, a Luz do Mundo que os intelectuais não-orgânicos e amantes do Poder e do Dinheiro, odiaram e mataram, para que nunca mais alguém o tomasse a sério e o prosseguisse. Procederam e procedem assim, porque são más, perversas, todas as suas obras.

Neste Livro, são destacados 50 intelectuais, certamente, aqueles, elas e eles, mais eles que elas, que mais terão, de um modo ou de outro, tocado e impressionado o Autor. Entre os escolhidos, figuram dois portugueses, Boaventura de Sousa Santos e José Saramago. São bem mais, os intelectuais do Estado espanhol, compreensivelmente, aqueles que mais podem ter marcado positivamente o viver do Autor, como são os casos de José María Díez-Alegría (1911-2010), Enrique Miret Magdalena (1914-2009), José María González Ruiz (1917-2005), Casiano Floristán (1926-2006), Pere Casaldàliga, hoje bispo emérito de Prelazia de S. Félix do Araguaia, Brasil, Ignacio Ellacuría (1930-1989), mártir de El Salvador, Jon Sobrino, e outros mais. Entre as várias mulheres intelectuais que figuram neste Livro, sobressaem nomes como Elsa Tamez, teóloga latino-americana feminista da libertação, Dorothee Solle (1929-2003), Simone de Beauvoir (1906-1986), Elisabeth Schusser Fiorenza, apresentada aqui como “Hermeneuta feminista da suspeita”.

Ao todo, 50 intelectuais, de reconhecido mérito, parte dos quais já falecidos, uma outra parte ainda visivelmente entre nós e activos, com destaque para o poeta dos poetas latino-americanos, Ernesto Cardenal, da Nicarágua. “Os intelectuais – escreve o Autor na Introdução, a pensar, certamente, nos 50 que aqui nos apresenta neste seu valiosíssimo e oportuníssimo trabalho – não se instalam comodamente na realidade, nem se contentam com a realidade tal como ela é. Perguntam-se como deve ser (momento ético) e procuram a sua transformação (momento da praxis). Desestabilizam a ordem estabelecida, despertam as consciências adormecidas e revolucionam as mentes instaladas.”

O Livro abre com o intelectual Ernst Bloch (1885-1977), o grande filósofo alemão marxista ateu da Esperança. O seu livro, “O Princípio esperança” é, porventura, o mais conseguido Evangelho do ateísmo, ao qual não é estranho o Evangelho de Jesus de Nazaré. E o seu ateísmo, tão prenhe de Esperança, só o será, porque, para desgraça da humanidade, até os grandes intelectuais ocidentais do passado recente e da actualidade, sempre têm vivido sem acesso directo a Jesus, o da história. Confundem-no com o Jesuscristo de Paulo e do Evangelho de Paulo, causa e fonte de ateísmo, como causa e fonte de religião cristã, sem dúvida, as duas faces da mesma medalha. Neste particular, de todos os 50 intelectuais apresentados neste Livro, sobressai a lúcida visão jesuânica do jesuíta que deixou o conforto do convento e optou pelos pobres e se fez pobre entre eles e com eles, o teólogo Díez-Alegría. “Quando completou 97 anos – escreve, emocionado, o Autor e amigo - fez estas declarações verdadeiramente estremecedoras: «Penso que a Igreja católica, no seu conjunto, traiu Jesus. Esta Igreja não é a que Jesus quis, mas a que os poderosos, ao longo da história, quiseram. Estas são as ideias que agora tenho, surdo e meio cego, à espera da morte com muita esperança e com muito humor.»”

A verdade é que nem o famoso e controverso teólogo Hans Kung, outro dos grandes nomes que integram este Livro, foi tão longe, em lucidez teológica, até agora. E oxalá ainda vá. Porque, enquanto não resgatarmos Jesus de Nazaré do cristianismo e das igrejas cristãs, e continuarmos a confundi-lo com o Cristo de Paulo e do seu mítico Evangelho, a humanidade continuará mergulhada na mais densa Treva, porque privada da Luz do mundo, que é Jesus, o de antes do cristianismo. Jesus e o seu Projecto político maiêutico de sociedade.

Parabéns ao teólogo, Juan JoséTamayo, por mais esta oportuníssima e valiosíssima obra com que acaba de nos brindar. E parabéns a Fragmenta Editorial por a ter feito sua, e divulgá-la. Se ainda não sabiam da existência deste Livro, corram por ele: www.fragmenta.es e fragmenta@fragmenta.es

N. E. Sobre este livro, o Autor deu uma entrevista que muito importa visionar-escutar Uns preciosos 18m. Eis o link: http://www.rtve.es/alacarta/videos/para-todos-la-2/para-todos-2-entrevista-juan-jose-tamayo-sobre-conciencia-critica-del-intelectual/2294047/?modl=TOC

---

Latino-americana mundial 2014

Liberdade, Liberdade!

“Em nome da Liberdade. Em nome da Libertação.” As maiúsculas deste título com que deparamos, logo ao abrir a Agenda Latino-americana Mundial 2014, justifica-se, porque, hoje, as palavras comuns, como “liberdade”, por exemplo, já estão mais do que “comidas” pelo grande Mercado global. E a confirmação deste facto vem logo a abrir o texto encimado por este título e que é o primeiro Texto que a Agenda 2014 nos dá a ler: “A liberdade é um dos valores mais reivindicados do nosso tempo. Por isso mesmo, o mais desgastado. Confundido com a afirmação egoísta de um desejo alheio aos outros, não raro ela se contrapõe ao valor urgente da solidariedade e da responsabilidade. Chegou-se ao absurdo: uma grande loja de departamentos brasileira ergueu uma cópia da famosa estátua da liberdade norte-americana em frente às 60 lojas da sua rede espalhadas pelo país. Numa delas, em Santa Catarina (considerada – pasmem! – o maior monumento da América Latina, maior até que o Cristo Redentor!), pode-se ler na placa inaugural: trata-se de uma homenagem da loja à liberdade de consumo de seus clientes. Nada mais aniquilador e redutível: o sistema capitalista ergue seus troféus ao lucro e ao consumo desmedido, sequestrando valores sagrados da cultura e anulando seus verdadeiros significados.

Eis! Perante isto, o que vale verdadeiramente o título de capa da Agenda 2014, “LIBERDADE, LIBERDADE!”?! Por melhor que seja a intenção dos organizadores desta Agenda, hoje, mundial, porque traduzida em muitas línguas, também no português do Brasil, da responsabilidade da Comissão Dominicana de Justiça e Paz do Brasil, aquele título corre o risco de ser um grito que já não chega sequer a sair das gargantas dos povos empobrecidos do mundo, hoje, a esmagadora maioria da população mundial, eles próprios, reféns do consumismo e do egoísmo, e sem a mais mínima capacidade para se levantarem e andarem pelo seu próprio pé. Por mais que gritemos a cada um, Levanta-te e anda! Simplesmente, jazem!

Na sua habitual mensagem, “À maneira de introdução fraterna”, assinada pelo bispo emérito Pedro Casaldáliga, em cada edição da Agenda, é retomado o título da capa. O Bispo tenta justificá-lo. Mas a verdade é que nem ele, com todo o seu viver de mártir e de Poema vivo, consegue beliscar o grande Mercado global. A Liberdade de que ele se reivindica e que a Agenda também, é, ela própria, uma Liberdade condicionada e vigiada pelo grande Mercado global. Chama-lhe o Bispo-Poeta, com recurso a um Poema de Mercedes Sosa, “uma coisa pequenina”. Como a semente. Como o grão de trigo. Mas isto significa, à luz de Jesus, o do Evangelho de João, que a Liberdade, neste tipo de mundo em que vivemos, só mesmo crucificada e assassinada, é que frutifica na história, cuja condução está hoje totalmente entregue ao Poder financeiro global, o único dono e senhor do mundo, o único deus que as populações reconhecem, adoram/idolatram, e que atravessa o próprio cristianismo e todas as igrejas cristãs que o pariram. Isto, obviamente, já o não diz a Latino-americana mundial 2014. E deveria dizer. Porque se continuamos a confundir o Cristo do cristianismo com Jesus, só contribuímos mais e mais para o genocídio global e para o ecocídio planetário, ou mesmo cósmico. Já que na génese do grande Mercado e do seu pai, o Poder financeiro global, está o cristianismo, fundado e desenvolvido após a morte crucificada de Jesus, pelos mesmos que haviam constituído o grupo dos “Doze”. Em lugar de prosseguirem Jesus e ao seu Projecto político maiêutico, traíram-no e entregaram-no, para que fosse crucificado. E, em seu lugar, correram logo a criar o judeo-cristianismo que passou a cristianismo, simplesmente, quando o imperador Constantino o converteu na religião única do Império de Roma e mandou que fosse escrito um Credo, aprovado e imposto por ele, o mesmo que ainda hoje é proclamado em todas as missas de domingo do cristianismo católico romano e é aceite por todas as igrejas cristãs!!!

A Latino-americana mundial 2014 vem recheada de Textos assinados por nomes sonantes do universo latino-americano, na sua maioria, teólogas, teólogos da libertação. Abunda também em dados e em análises científicas da sociedade continental e global. E está atravessada por nomes de inúmeros mártires, tombados ao longo dos últimos anos, com destaque para os latino-americanos. É, por isso, uma Agenda única no seu género, em todo o mundo. Explica bem este tipo de mundo em que nascemos e em que estamos condenados a ter de viver. Um tipo de mundo que mais não é do que uma planetária fábrica de produção de pobres e de pobreza em massa, de vítimas humanas aos biliões, e de ricos cada vez mais ricos, os carrascos ou algozes do nosso tempo. Quem a faz e nela participa, pode ter, e tem, com certeza, uma manifesta opção intelectual/espiritual pelos pobres. Mas a verdade é que não são eles os pobres. São intelectuais que estão bem na vida e que, em última instância, contribuem, à sua medida, porventura, inconscientemente, para manter este tipo de mundo. Por isso, explicam-no, mas não o transformam. Porque só mesmo as vítimas têm o condão de transformar o mundo. E não o fazem, enquanto permanecerem reféns da ideologia/idolatria do cristianismo de Paulo-Pedro-Constantino-Papa Francisco, porventura, a mais perversa de todas as ideologias, porquanto é intrinsecamente demoníaca, perversa, compulsivamente mentirosa e assassina. E faz referência a um deus falso, que é o Dinheiro/Poder financeiro global, mas que, graças ao cristianismo, se faz passar por o único deus verdadeiro, vestido de religioso e de ateísmo, conforme os gostos e as conveniências. Na Latino-américa, veste maioritariamente de religioso; na Europa, veste cada vez mais de ateu ou, pior ainda, de indiferente. Como se já tivéssemos desistido da nossa condição de seres humanos, para sermos simplesmente coisas, mercadorias, robots. 

A grande tragédia é que nem a Latino-americana mundial 2014 se dá conta disto. E os intelectuais que a concebem e escrevem, teólogos, sociólogos, cientistas, filósofos, continuam no seu bem-bom, nas suas cátedras, não são orgânicos com as vítimas. Tão pouco, aceitam viver em deserto, por toda a vida, como Jesus, o camponês-artesão de Nazaré, o filho de Maria, viveu e vive. Agora, feito Ruah/Sopro maiêutico/Vento. E não se vê, nesta edição 2014, que esteja no horizonte, uma mudança substantiva, aquele NASCER DE NOVO, DE FORA DO SISTEMA, de que fala Jesus, o de João (cf, a este propósito, Pe. Mário de Oliveira, JESUS SEGUNDO JOÃO, o 4.º Evangelho traduzido e anotado como nunca o conhecemos, Seda Publicações, Outubro 2013).

Para quem estiver interessado em adquirir esta Agenda 2014, em português do Brasil, ficam aqui os contactos: Email: justpaz@dominicanos.org.br; Skype: juspazopgyn; Fb: justpazbr  E para conhecer toda a história da Agenda, site: latinoamericana.org/digital

---