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Edição 135, Fevº 2018

Reportagem de Robert Mickens /IHU /JF

Papa Francisco, a crise crescente e o ''génio feminino''

O maior erro que as lideranças católicas cometeram em relação à resposta da Igreja aos padres que abusam de crianças foi a exclusão das mulheres para liderar o processo de formulação das políticas. A reportagem é de Robert Mickens, publicada no sítio La Croix International. A tradução é de Moisés Sbardelotto

As últimas semanas não foram bem aquilo que qualquer um, em sua sã consciência, chamaria de o momento mais brilhante do atual pontificado. Primeiro, o cardeal encarregado do escritório da Cúria Romana sobre os leigos impediu a ex-presidente da Irlanda, Mary MacAleese, de falar em um evento pelo Dia Internacional da Mulher originalmente programado para ocorrer dentro do Vaticano. Em resposta, os organizadores simplesmente mudaram o local para a sede dos jesuítas, localizada ali perto. Depois, um cardeal aposentado de origem chinesa de Hong Kong criticou o cardeal secretário de Estado – e, por tabela, o Papa Francisco – por ser “um homem de pouca fé” e por liquidar os católicos “sofredores” no continente chinês de governo comunista ao adotar uma estratégia “ingéua” de apaziguamento ao lidar com as autoridades estatais. Em seguida, um bispo inconformado e irascível que supervisiona dois think-tanks vaticanos (as Pontifícias Academias para a Ciência e para as Ciências Sociais) ultrapassou suas fronteiras institucionais e entrou na polêmica sobre a política do papa em relação à China. Ele fez a inacreditável e embaraçosa afirmação de que a nação comunista é a líder mundial na implementação do ensino social católico.

O bispo, um argentino que quer que o mundo acredite que ele é melhor amigo de Francisco (ele não é), baseou sua avaliação em sua primeira e única visita à China há seis meses. Se alguma vez ficar comprovado que os funcionários do governo chinês temperaram sua comida com produtos químicos de lavagem cerebral, talvez todos estarão perdoados. No entanto, grandes danos já foram provocados.

Mas isso não foi o pior daquele que tem sido um período muito ruim para o Papa Francisco. O golpe mais sério contra ele e seu pontificado veio de uma reportagem da Associated Press, que produziu evidências difíceis e bastante convincentes de que o papa não foi completamente franco sobre aquilo que ele realmente sabe a respeito das (e sobre quando ele descobriu pela primeira vez as) alegações de que Dom Juan Barros, do Chile, tentou acobertar um padre condenado por abusos sexuais.

O artigo da Associated Press incluía uma carta de oito páginas que uma das vítimas do padre chileno enviou a Francisco em abril de 2015, que detalhava minuciosamente as supostas ações de Dom Barros. A carta foi entregue em mãos pelo cardeal Sean O’Malley, membro do Conselho dos Cardeais (C9) criado pelo papa e presidente da Pontifícia Comissão para a Proteção dos Menores. Se for verdade, isso contradiz a alegação de Francisco de nunca ter recebido evidências de tal acobertamento por parte de qualquer uma das vítimas.

Não é uma boa notícia. E despachar o ex-procurador-chefe dos crimes de abuso sexual por parte do clero ao Chile para coletar mais evidências sobre o caso Barros – por mais louvável e importante que seja essa operação da undécima hora – não enfrenta, de modo algum, os problemas reais que a reportagem da Associated Press revela.

Apenas uma das três coisas pode ser verdadeira – ou Francisco nunca se esforçou para ler a carta, ou ele a leu e a rejeitou por ser pouco convincente, ou ele simplesmente esqueceu que já a havia lido.

Há uma quarta possibilidade, embora menos plausível. Talvez O’Malley, na realidade, nunca entregou a carta ao papa, mesmo que um dos então membros da Pontifícia Comissão para a Proteção dos Menores (que a entregou a O’Malley – há uma foto para provar) e a vítima (que a escreveu) disseram que o cardeal lhes havia dito que entregou a carta ao papa.

Nenhum desses possíveis cenários é encorajador. Porque isso significa que alguém não está sendo completamente transparente. Até agora, apenas um lado falou publicamente sobre a reportagem da Associated Press – o ex-membro da Pontifícia Comissão para a Proteção dos Menores (Marie Collins) e a vítima chilena de abusos (Juan Carlos Cruz).

O Papa Francisco e o cardeal O’Malley, até agora, mantiveram seu silêncio. A fim de lançar luz sobre o que realmente aconteceu e revelar quem está dando um ponto de vista preciso sobre essa história, eles precisam se pronunciar.

Se O’Malley declarasse de repente que, não, ele nunca entregou a carta de Cruz ao papa – seja porque se esqueceu de fazer isso e depois mentiu a respeito, ou porque ele está tentando proteger Francisco do atual embaraço e da crescente crise em que isso está se transformando – ele teria que renunciar como presidente da Pontifícia Comissão para a Proteção dos Menores. Sua credibilidade entre os membros da comissão (que ainda devem ser nomeados nas próximas semanas) ficaria muito comprometida.

E quanto ao papa? Se Francisco recebeu a carta e nunca a leu, ou simplesmente se esqueceu de lê-la, isso se torna mais uma peça de evidência de que lidar com a crise dos abusos sexuais – particularmente ao responsabilizar os bispos negligentes – ainda não é uma grande prioridade para o papa, apesar de tudo o que seus apologistas digam ao contrário.

No entanto, seria ainda mais prejudicial para o papa se ele admitisse que, sim, ele leu a carta, mas não acreditou que as acusações de Cruz contra Dom Barros fossem credíveis. Isso significaria que ele não estava falando inteiramente a verdade durante sua visita ao Chile e ao Peru no mês passado, quando disse aos repórteres que nunca recebeu “provas” – que depois corrigiu para “evidências” – para apoiar as acusações contra o bispo.

Isso está rapidamente se tornando uma grande e nada santa confusão. E seria devastador para muitos católicos e outras pessoas de boa vontade se ela mutilasse severamente um pontificado que lançou um projeto profundamente enraizado e de longo prazo para reformar e restaurar a credibilidade da Igreja Católica e seu testemunho do Evangelho.

Então, o que pode ser feito neste momento?

Em primeiro lugar, o papa e seu departamento de comunicação (que está em uma desastrosa desordem e não o está servindo bem) devem abordar os conteúdos da reportagem da Associated Press e as consequências que se seguiram. Espera-se que o cardeal O’Malley possa ajudar nesse primeiro passo necessário.

Em segundo lugar, assumindo que a essência da reportagem está correta (a carta existe e foi entregue ao papa), é difícil ver como Francisco pode responder sem confessar que ele foi negligente (ao não ler a carta, por qualquer motivo) ou não foi completamente transparente (ou seja, ocultando dos jornalistas que ele a leu, mas não acreditou nos seus conteúdos).

Como eu já escrevi muitas vezes, este papa não tem medo de ser vulnerável e mostrar aquilo que alguns podem considerar como fraqueza a fim de engajar os outros naquilo que ele percebe como o bem maior da Igreja e da humanidade. Seu encontro com o patriarca ortodoxo de toda a Rússia, seus esforços para engajar Donald Trump e outros líderes mundiais construtivamente, e sua política sobre a China são apenas alguns exemplos.

O papa precisa rapidamente tornar a crise dos abusos sexuais na Igreja – que, aliás, está longe de se resolver – uma prioridade ainda maior. Francamente, ele não fez isso até agora.

Ele pode começar abrindo o jogo com os membros de sua Igreja e falando francamente com eles sobre seu próprio pensamento – suas dúvidas, preocupações, apreensões, omissões e até mesmo erros – a respeito do modo como as autoridades da Igreja (inclusive ele) abordaram a crise dos abusos até este ponto.

Ele ainda goza de uma sólida confiança e credibilidade entre milhões e milhões de pessoas que veriam sua franca confissão e testemunho como um passo verdadeiramente humano e positivo, e não como um grito de rendição. Mas essa confiança e credibilidade vão se corromper se ele não disser algo em breve. E a próxima temporada penitencial da Quaresma oferece a oportunidade perfeita para um gesto tão verdadeiramente cristão e até mesmo dramático.

Um pensamento final.

O Papa Francisco também precisa renovar totalmente o mandato e a missão da Pontifícia Comissão para a Proteção dos Menores e estabelecer outros mecanismos para lidar com a crise dos abusos sexuais. A maioria dos novos membros da comissão e seus outros assessores sobre essa questão deveriam ser mulheres. E ele deveria exigir que as dioceses e as Conferências Episcopais nacionais deem às mulheres, e especialmente às mães, o papel principal nessa questão também.

Esse seria um modo importante de ele fazer uma correção profética e necessária para a resposta até agora inadequada que a Igreja Católica ofereceu.

Muitos homens da hierarquia escondem e justificam sua misoginia, seu medo das mulheres ou seu desejo de manter as estruturas decisórias da Igreja nas mãos de clérigos – todos homens, é claro –, repetindo o refrão paternalista de São João Paulo II a algo que ele chamou de “gênio feminino”.

Essa expressão, que o falecido papa escreveu pela primeira vez em 1995 – e que Bento XVI, Francisco e inúmeros homens da Igreja continuaram repetindo – encarna um catálogo de traços que, de algum modo, são especialmente peculiares às mulheres em virtude do desígnio da natureza de Deus.

As pessoas podem debater se todas essas características são realmente exclusivas das mulheres. Mas uma coisa certa é que apenas as mulheres podem ser mães. E, por causa da intrincada conexão entre mãe e filho mediante a gravidez, o parto e a infância, pode-se argumentar que as mulheres – as mães – têm instintos únicos de proteção e de criação que são desenvolvidos de forma diferente em comparação com os mesmos instintos nos pais.

O maior erro que as lideranças católicas em todas as partes do mundo cometeram em relação à resposta da Igreja ao fenômeno dos padres que abusam de crianças e de adolescentes foi a exclusão das mulheres da liderança do processo de formulação de políticas. Onde as mulheres foram incluídas, elas foram meras consultoras ou especialistas, muitas vezes apenas peças decorativas para aliviar as incômodas consciências masculinas e satisfazer as demandas da opinião pública.

O Papa Francisco pode consertar isso e mostrar que a Igreja realmente acredita que as mulheres têm um “gênio feminino” especial – pelo menos na área da relação entre mãe e filho – colocando as mulheres à frente da resposta da Igreja aos abusos sexuais. Até agora, o “gênio clerical” não produziu bons frutos.

Uma liderança católica leiga que fez um excelente trabalho para ajudar os bispos de seu país a lidar com a crise dos abusos sexuais adora repetir esta frase: “Enquanto um leigo for o último a dar conselhos sobre esses assuntos ao papa, os instintos clericais sempre serão um problema!”.

Isso está exatamente certo. Mas o leigo deveria ser uma mulher.

Carta de Bento XVI ao Corriere

"URGENTE EM MÃOS”

A carta, “Urgente em mãos”, chegou terça-feira, 6 de Fevereiro, de manhã na sede romana do Corriere, vinda do “Monastero Mater Ecclesiae, V-120 – Città del Vaticano”: o eremitério dentro dos Sagrados Muros, para onde o Papa Emérito Bento XVI se retirou desde que renunciou, há exatamente cinco anos. O comentário é de Massimo Franco, publicado no jornal Corriere della Sera, no dia seguinte, 7. Mas parecia ter chegado de outro mundo, muito mais distante do que os poucos quilómetros que marcam a distância física daquele lugar. Talvez porque o envelope continha um cartãozinho dobrado e, dentro, outro envelope selado, com uma mensagem de 9 linhas

Mas, acima de tudo, porque transmitia palavras fortes, verdadeiras, não formais: um gesto de requintada atenção para com aqueles que, ultimamente, perguntavam cada vez mais frequentemente como estava o “Papa Bento”; como ele vivia aquilo que ele mesmo chama, no texto, de “este último período da minha vida”.

Há alguns dias, através de um canal reservado, tínhamos dirigido a pergunta a ele, confiando em receber uma resposta. Depois de cinco anos em que ele praticamente desapareceu do horizonte público, encontrando-se com poucos amigos e até diminuindo os seus passeios pelos jardins vaticanos, ajudando-se com um andador, talvez ele pensava ter sido esquecido.

Ele não sabia que sua figura permanece muito presente, com a sugestão epocal de um período em que convivem “dois papas”, expressão não exatamente ortodoxa, mas habitual. De fato, o mistério dos seus dias sem eco público, com imagens desfocadas e aparições cada vez mais raras em algumas cerimônias às quais ele era convidado por Francisco, afiaram e, ao mesmo tempo, agigantaram o seu perfil.

Bento “existe”, paira sem querer. Ou, melhor, talvez esteja enraizado na memória da opinião pública, precisamente porque tentou se dissolver em um limbo existencial para deixar toda a cena ao sucessor: aquele cardeal Jorge Mario Bergoglio “que tem a caligrafia menor do que a minha”, observou Joseph Ratzinger uma vez.

Mas a dele, à caneta, no fim da carta, já é minúscula: quase se encolhe junto com suas energias físicas, evidenciando a dificuldade até para escrever. Contam que, em particular, ele diz isso com um toque de tristeza: não consegue mais dedicar tempo suficiente para construir aqueles textos de grande refinamento teológico que traçaram durante anos o caminho da Igreja Católica.

No entanto, ele aceita sua fragilidade. Nas suas palavras, que são um agradecimento e, ao mesmo tempo, quase uma despedida, capta-se mais do que uma referência a isso.

Aquela referência à “lenta diminuição das forças físicas”, a confissão de estar “interiormente em peregrinação para Casa”, com o C maiúsculo, e o “agradecimento” aos “tantos leitores” do Corriere que continuam perguntando dele: são poucas palavras medidas, mas que transmitem uma grande profundidade.

Talvez, na admiração e em um pouco de nostalgia por Bento XVI que se sente, aqui e acolá, em alguns setores do mundo católico, pode-se adivinhar o trauma não totalmente digerido da sua renúncia, no dia 11 de fevereiro de 2013: uma reviravolta epocal.

Mas há também o reconhecimento de uma conduta exemplar entre ele e o Papa Francisco nesses cinco anos. Uma convivência não regulada por nenhuma lei; confiada apenas ao caráter desses dois personagens tão diferentes, apesar de uma ênfase, às vezes um pouco oficial, da continuidade entre seus pontificados.

Não era óbvio que “dois papas” no Vaticano conseguissem manter uma personalidade tão distinta, sem, por isso, se sobreporem ou, pior, transmitir mensagens de divisão. Se, por acaso, houvesse diferenças, elas permaneceram como um segredo guardado entre eles: como se ambos soubessem que o importante é tentar manter unida uma Igreja sacudida por milhares de tensões.

É um sinal de força espiritual e de humildade, que sublima quando, dirigido àqueles que continuam se interessando por ele, saúda com um tom quase familiar: “Só posso agradecer”.
(IHU / JF)

Edição 134, Janº 2018

Reportagem de Federico Rampini / La Reppublica / IHU

Bombas atómicas ''leves'', a nova ameaça deTrump

A primeira versão, publicada no The Huffington Post e citada no jornal La Repubblica, não foi desmentida pelo Pentágono, que se limitou a defini-la como “ainda não decidida”. Agora, uma detalhada antecipação do Wall Street Journal explica que se trata da “Nuclear Posture Review”, elaborada pelo Departamento de Defesa e que já se encontra sobre a mesa de Donald Trump.

Há um ano, o presidente pedira uma revisão estratégica sobre a adequação do arsenal nuclear, na esperança do seu reforço. Os generais lhe explicam por que e como consideram que devem auxiliá-lo.

As novas armas nucleares “leves” seriam fabricadas em duas versões. Uma poderia ser montada sobre os mísseis Trident fornecidos aos submarinos atómicos. A outra poderia se tornar a cabeça de mísseis Cruise fornecidos à Marinha dos Estados Unidos.

O facto de o novo arsenal estar destinado à Marinha confirma a hipótese de poder usá-lo em cenários de guerras distantes, não para a defesa imediata do território dos Estados Unidos. A natureza das novas armas nucleares é definida como “low-yield”, isto é, de baixo rendimento, apenas porque a comparação é feita com as outras ogivas atómicas (cerca de quatro mil) do arsenal estadunidense: que vão de 100 a 455 kilotons em comparação com os 15 kilotons de Hiroshima.

Mesmo assim, se trataria de bombas atômicas, ou seja, de armas com uma capacidade de destruição enorme em comparação com os explosivos convencionais. A bomba atômica “de bolso”, porém, ofereceria a vantagem de poder justificar o seu uso tático, para um ataque preventivo, sem que isso deva desembocar na Terceira Guerra Mundial. Mais política do que militar, a lógica é a de reduzir as resistências que, depois de Hiroshima e Nagasaki, sempre impediram o conflito nuclear, até nos momentos mais tensos da Guerra Fria. O equilíbrio do terror entre as duas superpotências EUA-URSS mantinha ambas à beira do precipício, por medo da aniquilação mútua.

A hipótese de uma minibomba atômica “tática”, no entanto, não é nova. Ela foi antecipada pelos soviéticos nos “euromísseis”, que anunciavam, nos anos 1970, a possibilidade de um conflito atômico limitado à Europa, portanto, com a possível desvinculação dos Estados Unidos da defesa dos outros países da Otan.

Antes ainda, um uso limitado de bombardeios nucleares foi levantado como hipótese pelo general Douglas MacArthur contra a China de Mao, durante a Guerra da Coreia (1950-1953). Mas o presidente Truman expulsou MacArthur.

Agora, é novamente em Moscovo e em Pequim que se deve procurar a justificativa da virada estadunidense. Antes antes de olhar para a ameaça da Coreia do Norte, o documento do Pentágono lança um alerta sobre o rearmamento nuclear das outras duas superpotências.

Rússia e China, defende o documento entregue a Trump, vem se movendo há anos na direção oposta à da desnuclearização. Vladimir Putin quis desenvolver uma nova geração de mísseis de cruzeiro terra-ar de porte intermediário, que seria, a reedição dos euromísseis: um arsenal estudado para o cenário de um conflito nuclear “limitado”.

Ainda de acordo com o documento do Pentágono, esses mísseis de nova geração violariam o tratado assinado em 1987 por Ronald Reagan e Michail Gorbachev. Ao contrário das novas armas russas, as ogivas nucleares “de baixa intensidade” que são propostas pelo Pentágono não violariam os tratados existentes, precisamente por serem instaladas em navios e submarinos. A fabricação dessas novas bombas, se Trump der o sinal verde, demoraria dois anos. A decisão do presidente está prevista para o fim de janeiro.

O anúncio da reviravolta ocorre no pano de fundo de uma crise aberta com a Coreia do Norte. A “hipótese MacArthur” será reproposta? Foi confirmado várias vezes que o Pentágono faz simulações sobre possíveis ataques militares contra Pyongyang, para atacar os seus arsenais nucleares para fins preventivos, já que agora os mísseis norte-coreanos podem alcançar os Estados Unidos.

Slavoj Žižek

Amor e Sexo sob o gelo dos contratos

Obcecada em transformar a experiência erótica em algo previsível e controlado, onda moralista ameaça afogar o desejo e sufocar a liberdade sexual das mulheres. O artigo é de Slavoj Žižek, filósofo, publicado por Outras Palavras. A tradução é de Ricardo Cavalcanti-Schiel / IHU


Ao menos no Ocidente, as pessoas tornaram-se bastante conscientes sobre o alcance da coerção e da exploração nas relações sexuais.

No entanto, devemos ter em mente também o facto (não menos significativo) de que diariamente milhões de pessoas flertam e praticam o jogo da sedução, com o objetivo claro de encontrar um parceiro para o amor e o sexo. Na cultura ocidental moderna consagrou-se a regra de que ambos os sexos estão habilitados para desempenhar papel ativo neste jogo.

Quando as mulheres se vestem de forma provocadora para atrair os olhares masculinos ou quando se “objetificam” para seduzi-los, não o fazem se oferecendo como objetos passivos. Em vez disso, elas são os agentes ativos de sua própria “objetificação”, manipulando homens e jogando jogos ambíguos, incluindo a reserva total do direito de sair do jogo a qualquer momento, mesmo que, para o olhar masculino, isso pareça em contradição com os “sinais” prévios.

Esta liberdade que as mulheres desfrutam incomoda todos os tipos de fundamentalistas, dos muçulmanos que recentemente proibiram as mulheres de tocar e manusear bananas – ou quaisquer outras frutas que se assemelhem ao pênis – aos nossos machos toscos que explodem em violência contra uma mulher que primeiro os “provoca” e depois rejeita os seus avanços.

A libertação sexual feminina não é apenas uma recusa puritana a ser “objetificada” (como um objeto sexual para os homens), mas o direito de brincar ativamente com a auto-objetificação, oferecendo-se e retirando-se à vontade do jogo. Mas será ainda possível proclamar esses factos simples? ou a pressão politicamente correta nos obrigaria agora a enquadrar todos esses jogos sob alguma forma de proclamação formal/legal (de consensualidade, etc.)?

Novas formas de pensar

Uma ideia recente e politicamente correta é o chamado “Consent Conscious Kit” (“kit de consentimento consciente”), atualmente à venda nos EUA: uma pequena bolsa com um preservativo, uma caneta, algumas balas de menta refrescante e um contrato simples, que estabelece que ambos os participantes estão livremente de acordo com o ato sexual. A sugestão é a de que um casal, pronto para ter relações sexuais, tire uma foto segurando nas mãos o contrato, ou que ambos o datem e assinem.

No entanto, embora o “kit de consentimento consciente” pretenda dar conta de um problema bastante real, ele faz isso de uma maneira que não é apenas boba, mas diretamente contraproducente. E por que isso?

A ideia subjacente é a de que o ato sexual, para ser purificado de qualquer suspeição de coerção, precisa ser declarado, antecipadamente, como uma decisão consciente de ambos os participantes. Falando em termos lacanianos, ele teria que ser registrado pelo Grande Outro, inscrito na ordem simbólica.

Assim, o “kit de consentimento consciente” é apenas uma expressão extrema de uma atitude que cresce em toda parte, nos EUA. Por exemplo, o Estado da Califórnia aprovou uma lei que exige que todas as faculdades que recebem financiamento do Estado adotem políticas que obriguem seus alunos a fazer uso do consentimento afirmativo, que é definido como “concordância afirmativa, consciente e voluntária para se envolver em atividade sexual” que esteja “em andamento”, em situação em que não se esteja muito bêbado, antes de se engajar propriamente nas atividades sexuais, e quando não haja risco de punição por meio de agressão sexual.

Um quadro mais amplo

“Acordo afirmativo, consciente e voluntário”. Mas por parte de quem? A primeira coisa a se fazer aqui pode ser simplesmente mobilizar a tríade freudiana de Ego, Superego e Id (em uma versão simplificada: minha autoconsciência; a agência de responsabilidade moral que me faz cumprir as normas; e minhas mais profundas paixões, um tanto reprimidas).

E se houver um conflito entre os três? Se, sob a pressão do Superego, meu Ego diz NÃO, mas meu Id resiste e se apega ao desejo negado? Ou (um caso muito mais interessante) o oposto: eu digo SIM ao convite sexual, entregando-me à minha paixão Id, mas no meio da realização do ato, meu Superego desencadeia um sentimento de culpa insuportável?

Assim, para reduzir as coisas ao absurdo, o acordo deve ser assinado por Ego, Superego e Id de cada parte contratante, de modo que seja válido somente se todos os três, de cada lado, dizem SIM. Mais: e se o parceiro do sexo masculino também usar seu direito contratual de recuar e cancelar o acordo a qualquer momento da atividade? Imaginem que, depois de obter o consentimento da mulher, quando os futuros amantes se encontram nus na cama, alguns minúsculos detalhes corporais (um som desagradável, como um arroto vulgar) dissipem o encantamento erótico e façam o homem se retirar? Isso não seria também extremamente humilhante para a mulher?…

A ideologia que sustenta essa promoção do “respeito sexual” merece um olhar mais atento. A fórmula básica é: “Sim significa que sim!”. Ou seja, tem que ser um “sim” explícito, não apenas a ausência de um não. A ausência de “não” não corresponde automaticamente a um “sim”, porque se uma mulher que está sendo seduzida não resiste ativamente, isso ainda deixaria margem para supor diferentes formas de coerção.

Cortando o tesão

Aqui, no entanto, os problemas se multiplicam: e se uma mulher deseja apaixonadamente um sujeito, mas se sente por demais envergonhada para declarar isso de forma aberta? E se, para ambos os parceiros, a “coerção”, a pegada mais forte, ironicamente, fizer parte do jogo erótico? E um “sim” seria um “sim” para o quê, precisamente? Para que gestos sexuais ele seria um sim declarado? O formulário do contrato precisaria, então, ser, logo em seguida, mais detalhado, de modo que o consentimento principal seja especificado: um “sim” para um coito vaginal, mas não anal; um “sim” para sexo oral, mas não para engolir o esperma; “sim” para uma palmadinha, mas não para um tapão; etc, etc.

Pode-se facilmente imaginar tanto uma longa negociação burocrática, que pode matar todos os desejos do ato, quanto a inflação libidinosa do ato, instigada pela própria negociação. Esses problemas estão longe de serem secundários, eles dizem respeito ao núcleo da interação erótica, do qual não é possível se abstrair para declarar a disposição (ou a indisposição) para seguir adiante com ela: cada ato conta na interação, seja para deserotizá-la seja para erotizá-la ainda mais.

A regra sexual do “sim significa sim” é um caso exemplar da intersubjetividade narcisista dos nossos dias. Uma experiência é fundamentalmente vivida como algo a que se é vulnerável, algo do qual se deve ser protegido, por meio de um conjunto complexo de regras, que prescreve a informação prévia de todas as intrusões eventuais que possam molestar alguém.

Lembremos que, quando do seu lançamento, E.T. foi proibido na Suécia, Noruega e Dinamarca [N. do T.: Há um pequeno equívoco aqui: o filme de Steven Spielberg foi proibido para crianças de menos de 12 anos na Suécia, Noruega e Finlândia]: porque a representação que faz dos adultos como seres hostis (para as crianças) foi considerada perigosa para as relações entre as crianças e seus pais. (Um detalhe engenhoso confirma esta acusação: nos primeiros 10 minutos do filme, todos os adultos são vistos apenas da cintura para baixo, como os adultos ameaçadores dos desenhos animados de Tom & Jerry…).

Vista com os olhos de hoje, essa proibição pode ser reconhecida como um sinal precoce da obsessão politicamente correta de proteger os indivíduos de qualquer experiência que possa machucá-los de algum modo. E a lista pode continuar indefinidamente – recorde-se, por exemplo, a proposta de excluir digitalmente o cigarro dos clássicos de Hollywood…

Sim, o sexo é atravessado por jogos de poder, obscenidades violentas etc, mas o difícil de admitir é que isso é inerente a ele. Alguns observadores perspicazes já notaram que a única forma de relação sexual que responde de forma plena aos critérios politicamente corretos seria um contrato estabelecido entre parceiros sadomasoquistas.

Assim, o aumento da correção política e o incremento da violência são dois lados da mesma moeda, uma vez que a premissa básica da correção política é a redução da sexualidade ao consentimento mútuo contratual. O linguista francês Jean-Claude Milner estava certo ao notar como o movimento antiassédio atinge inevitavelmente seu clímax nos contratos que estipulam formas extremas de sexo sadomasoquista (tratando uma pessoa como um cachorro numa coleira, como comércio de escravos, tortura e até assassinato consentido).

Em tais formas de escravidão consensual, a liberdade de mercado estabelecida por meio do contrato nega a si mesma: o comércio de escravos torna-se a afirmação final da liberdade. É como se o motivo “Kant com Sade”, de Jacques Lacan – o brutal hedonismo do marquês de Sade assumido como verdade na rigorosa ética kantiana –, se tornasse, inusitadamente, realidade. No entanto, antes de descartar esse motivo como apenas um paradoxo provocador, deveríamos refletir sobre como tal paradoxo tem estado em funcionamento na própria realidade social.

Edição 133 Dezº 2017

Reportagem de LISA SOARES, Brasil

IN NOMINE DEI

Todos os tentáculos do império IURD

A Igreja Universal do Reino de Deus tem mais de cem templos em Portugal. Em dezembro de 2013, foi inaugurado o templo da IURD em Vila Nova de Gaia, um dos maiores da Europa. O primeiro construído de raiz na Europa foi inaugurado no Porto em 2010. A Igreja controla uma cidade, o Rio, um partido, o ministério da Indústria, um grupo de comunicação e, consta, até um mini exército

O que fazem a ex-presidente Dilma Rousseff, do PT, o presidente Michel Temer, do PMDB, e o governador do estado de São Paulo e pré-candidato a presidente Geraldo Alckmin, do PSDB, lado a lado num altar? A pergunta até pode parecer o início de alguma anedota mas não é: Dilma, Temer e Alckmin estiveram, de facto, juntinhos na inauguração do maior espaço religioso do Brasil, o Templo de Salomão, em São Paulo, nova sede da Igreja Universal do Reino de Deus (IURD), para prestigiar o seu fundador bispo Edir Macedo. O poder da igreja evangélica neopentecostal mede-se em imagens como essa.

E em factos: um bispo da IURD ocupa a prefeitura do Rio de Janeiro, segunda maior cidade do país. Outro bispo gere o ministério da Indústria, Comércio Exterior e Serviços e preside ao sexto maior partido brasileiro. A igreja é dona da Record, poderoso grupo de comunicação cujas audiências televisivas só perdem para a Globo. E ainda treina um grupo, chamado Gladiadores do Altar, que os seus detratores chamam de exército da Universal.

O assunto foi notícia no Brasil em Março de 2015, depois das religiões de origem africana Umbanda e Candomblé se terem queixado de agressões nos seus terreiros por parte de elementos ligados à IURD. E de terem sido divulgados, mais ou menos na mesma altura, vídeos com os tais Gladiadores do Altar, grupo de jovens a bater a continência e a gritar com agressividade "altar, altar, altar" e "prontos para a batalha", num culto da Universal. "É uma atitude para-militar, elementos da IURD perseguem membros de religiões afro nas ruas, temos de agir, não podemos ficar à espera que um grupo fundamentalista pegue em armas", acusou o advogado dos credos africanos Luiz Martins. No parlamento, Jean Wyllys, deputado do Partido Socialismo e Liberdade, de extrema-esquerda, confessou sentir-se "assustado". A IURD negou na ocasião, com veemência, que os Gladiadores do Altar fossem o tentáculo armado da instituição. "O projeto realiza reuniões semanais com rapazes dispostos a abrir mão de suas vidas (...) cumprindo o que Jesus disse "ide por todo o mundo e pregai o evangelho a toda a criatura"", lia-se sobre o tema no website da igreja.

Mas a IURD, que enquanto credo evangélico juntou em 40 anos mais de oito milhões de fiéis, está em quase 200 países e abriga milhares de pastores, tem indiscutivelmente um tentáculo político. O bispo Marcelo Crivella, o sobrinho de Edir Macedo que disse um dia numa pregação que "os gays são fruto de um aborto mal sucedido", foi eleito prefeito do Rio, cartão postal do país. Além de Crivella, membro do Partido Republicano Brasileiro, força política que a IURD influencia, outro bispo, o líder do partido Marcos Pereira, senta-se ao lado de Temer nos conselhos de ministros. E segundo a pesquisadora da Universidade Federal Fluminense Christina Vital o fim último dos evangélicos - não necessariamente apenas da IURD - "é conquistar o Palácio do Planalto em 2018". Jair Bolsonaro, pré-candidato de extrema-direita pelo Patriotas e segundo classificado nas sondagens, já foi batizado no ano passado nas águas do Rio Jordão por um protestante, o Pastor Everaldo, da pentecostal Assembleia de Deus.

Nos media, Macedo é proprietário do grupo Record, quarto do Brasil atrás dos grupos Globo, Abril e Folha. Em audiências e faturação, a TV Record, no entanto, só perde para a TV Globo, superando os também enormes SBT e Bandeirantes. E lidera, através da Record News, no segmento dos canais de notícias, deixando Globo News e Band News para trás. Com 106 emissoras regionais pelo país, num total de 240 horas diárias de TV, mais o portal R7 na internet e o jornal O Correio do Povo nas bancas, a sua influência é pesada. Ainda não conseguiu produzir uma telenovela em horário nobre que superasse as da Globo mas esteve perto, em 2015, com o apoio da bancada parlamentar evangélica, no folhetim bíblico Os 10 Mandamentos - o líder dessa bancada, conhecida como Bancada da Bíblia, pediu aos milhões de fiéis protestantes para boicotarem Babilônia, concorrente da TV Globo transmitida à mesma hora, por causa de um beijo na boca entre as atrizes veteranas Fernanda Montenegro e Nathalia Timberg no primeiro episódio.

O poder da IURD mede-se também pelo tamanho dos seus principais inimigos: a Globo (embora tenha tido guerras paralelas com os grupos Abril e Folha) e o Vaticano (além do conflito citado com as afro-religiões e de choques frontais com denominações evangélicas concorrentes). Preso durante 11 dias em 1992 por "charlatanismo", Edir Macedo responsabilizou a igreja católica pela humilhação. Um ano antes, a IURD conseguira reunir 200 mil fiéis no Estádio do Maracanã em resposta aos 130 mil que o Papa João Paulo II levara ao Santuário de Aparecida. Aliás, uma imagem de Nossa Senhora de Aparecida, a padroeira do Brasil, seria chutada num programa de TV por um bispo evangélico, em 1995, num escândalo que abalou o país - os protestantes rejeitam o culto a imagens e santos.

Por outro lado, os casos na justiça envolvendo Macedo ou a IURD são incontáveis: além das acusações de charlatanismo e de intolerância religiosa, o bispo ou a sua igreja já foram denunciados por importação fraudulenta (em 2006), lavagem de dinheiro, evasão de divisas e formação de quadrilha (em 2009). No Brasil, em Espanha, no Luxemburgo, nos Estados Unidos, na Bélgica ou em Angola, a Universal já esteve, por motivos diferentes, na mira dos tribunais ou da imprensa. Como agora, em Portugal, nas recentes reportagens da TVI sobre adoções.

Condenada por vasectomia

Em 2014, o Tribunal Superior do Trabalho condenou a IURD ao pagamento de 25 mil euros a um ex-pastor que realizou uma vasectomia. De acordo com a imprensa brasileira, o pastor foi incentivado a ser submetido à intervenção para ser promovido ao cargo de bispo da congregação. Segundo o mesmo, o pedido era sustentado com o facto de as novas funções exigirem uma grande dedicação, o que podia ser prejudicado se tivesse filhos. Uma acusação que a IURD negou, alegando que a operação aconteceu por vontade do pastor. E esta não foi a primeira vez que a IURD foi acusada de proibir os pastores de ter filhos biológicos.

É um percurso abarrotado de sucessos e de controvérsias que começou em 1977, num acanhado coreto da Praça Jardim do Méier, no Rio de Janeiro, onde Macedo e o seu cunhado Romildo Soares, hoje concorrente, na qualidade de líder da Igreja Internacional da Graça de Deus, convenceram os primeiros fiéis, munidos apenas de uma aparelhagem sonora e de uma Bíblia. E que acabou no Templo de Salomão, maior espaço religioso do Brasil, maior até que o Santuário de Nossa Senhora de Aparecida e mais alto ainda do que o Cristo Redentor, abençoado na sua inauguração por Dilma, Temer e Alckmin.

Investigação em Portugal

Pelo menos dez crianças terão sido alvo de adoções ilegais por bispos e pastores da Igreja Universal do Reino de Deus (IURD) na década de 90. A informação foi revelada na reportagem "O Segredo dos Deuses", transmitida pela TVI, e o caso já está a ser investigado pelo Ministério Público.

A investigação da estação televisiva alega que a IURD financiava um lar, a "Casa de Acolhimento Mão Amiga", onde as crianças estariam de forma provisória, porque as famílias passavam dificuldades, mas que, à revelia dos pais, acabavam por ser adotadas de forma ilegal, sem direito de contraditório às famílias. Uma das mães conta que não a deixavam assinar o livro de registo quando visitava os filhos, o que pesa no processo de adoção, e que foi descrita por uma técnica da Segurança Social como sendo toxicodependente e seropositiva.

Edir Macedo, o líder máximo da IURD, estará envolvido na rede internacional de adoções ilegais de crianças e, de acordo com a mesma investigação, os seus próprios "netos" são "crianças roubadas do Lar Universal, uma instituição que à época fazia parte da obra social da igreja". Vera de Andrade e Luís Carlos de Andrade, os "netos", pronunciaram-se na semana passada, através de um vídeo, alegando que a reportagem faz acusações que não são verdadeiras. "Nós não fomos raptados, fomos adotados de forma legal por uma família americana e vivemos até os nossos 20 anos com esta família nos Estados Unidos", disse Luís. Também a IURD emitiu um comunicado, no qual nega as acusações, que diz serem baseadas num depoimento falso de um ex-bispo.

Entretanto, o Ministério Público abriu um inquérito sobre a situação, que, como explicou em comunicado, foi remetido ao DIAP [Departamento de Investigação e Ação Penal de Lisboa] para investigação. Os crimes, cometidos entre 1994 e o final da década de 90, já prescreveram, mas as mães portuguesas ponderam lutar na justiça. "As mães estão a equacionar a possibilidade de processar o Estado português numa ação conjunta. Mas não pensam avançar com uma ação contra a IURD porque consideram que iriam reclamar dinheiro sujo", adiantou recentemente ao DN a jornalista Alexandra Borges, co-autora, juntamente com Judite França, da série de informação "O Segredo dos Deuses", que teve um grande eco nos principais jornais online no Brasil.

De acordo com a Renascença, pelo menos desde o ano 2000 que a Segurança Social teria conhecimento das denúncias relativas ao alegado roubo de crianças do centro de acolhimento financiado IURD. Terá sido feito uma denúncia através da linha SOS Criança, o serviço de atendimento telefónico de apoio pertencente ao Instituto de Apoio à Criança, mas a Segurança Social só agiu agora, na sequência da reportagem exibida.

A jornada de um migrante em meio ao 'mercado' humano na Líbia

'FUI VENDIDO TRÊS VEZES'


Harun Ahmed é um dos milhares de jovens de países africanos pobres que se arriscaram na jornada pelo deserto do Saara até a Líbia, no norte da África, em busca de uma oportunidade para ir à Europa. Conseguiu chegar à Alemanha, mas só depois de sobreviver a meses de tortura e inanição nas mãos de três mercadores de escravos distintos, que compram e vendem imigrantes como se fossem gado. A comercialização de seres humanos na Líbia - país que sem um poder central eficiente desde a queda do líder Muamar Khadafi, em 2011 - foi identificada inicialmente pela CNN no início de novembro. Reportagem da emissora americana mostrava leilões de migrantes. Ali, pessoas eram vendidas como escravos por US$ 400 para outros traficantes ou para realizar trabalhos forçados. Após a reportagem, autoridades prometeram investigar a prática, mas migrantes entrevistados em Trípoli, capital líbia, dizem ser comum sofrer torturas e coerção na mão de traficantes e mercadores humanos. Harun, de 27 anos, nasceu em Agarfa, em uma região com uma das mais altas taxas de migração da Etiópia, por conta da ausência de perspectivas. Harun chegou a tentar a vida no Sudão, mas, depois de um ano e meio, decidiu ir à Líbia, conhecido ponto de partida de migrantes que decidem se arriscar na perigosa jornada pelo Mediterrâneo rumo à Europa. Contou sua história à BBC. Reportagem de Bekele Atoma, publicada por BBC Brasil/IHU/JF

"Eu e outros migrantes começamos a jornada à Líbia pagando US$ 600 (cerca de R$ 1900 na cotação atual) para cada traficante", explica Harun.

"Éramos 98 dentro de um único caminhão. As pessoas tinham que sentar umas em cima das outras, e o calor era insuportável. Nos deparamos com diversos problemas pelo caminho. Existem homens armados pelo deserto, (milicianos) que te param de repente e roubam tudo o que você tem."

Mas a situação se complicou mesmo foi na fronteira: após seis dias de viagem pelo Saara, o grupo de migrantes chegou à divisa entre Egito, Líbia e Chade.

Ali, os traficantes se reuniram para comercializar os migrantes, conta Harun.

Só que houve um imprevisto.

"Na fronteira, um grupo de milicianos nos sequestrou e nos levou ao Chade", ele conta. "Viajamos pelo deserto ao longo de dois dias, até chegarmos ao acampamento deles."

Ali, o grupo, fortemente armado, explicou - em árabe e em outros idiomas africanos - o que queria.

"Eles trouxeram um carro e disseram que os migrantes que pudessem pagar US$ 4 mil cada poderiam entrar no veículo. Quem não pudesse pagar ficaria ali (no acampamento)."

"Não tínhamos dinheiro, mas conversamos entre nós e decidimos fingir que tínhamos, para conseguir entrar no carro."

Harun e os demais migrantes que conseguiram entrar no veículo rodaram por mais três dias, até chegarem a outro local onde seres humanos são comprados e vendidos.

"Os homens que nos levaram disseram que haviam nos comprado por US$ 4 mil cada - e que, se não devolvêssemos o dinheiro, não iríamos a lugar nenhum", conta.

Ao seu redor, ele via o que poderia acontecer com ele caso não arranjasse dinheiro.

"Víamos migrantes, a maioria deles de origem somali e eritreia, que estavam ali havia mais de cinco meses. Eles sofreram muito e sequer se pareciam com seres humanos mais."

"Nós sofremos muito também. Nos forçavam a beber água quente misturada com petróleo, para fazer com que os pagássemos mais rapidamente. Nos davam uma quantidade minúscula de comida, e só uma vez por dia. Nos torturavam todas as noites."

'Muito ossudo'

Harun não conseguiu o dinheiro para pagar seus novos captores e, durante 80 dias, ficou retido no acampamento com outros 31 etíopes.

Até que os captores perderam a paciência.

"'Se você não vai nos pagar, então vamos vendê-lo', eles nos disseram", relembra Harun.

"Estávamos sem comida havia mais de dois meses, então nossos ossos estavam muito aparentes. Por isso, um homem que levaram ao acampamento se recusou a nos comprar, dizendo 'eles não devem nem mesmo ter rins'."

Por fim, os traficantes encontraram um comprador: um líbio que pagou US$ 3 mil por migrante.

"Entramos no carro dele convencidos de que nada poderia piorar ainda mais a nossa situação. Mas fomos levados a Saba (Líbia) e, após quatro dias de viagem, nos deparamos com um sofrimento desumano. Nos torturaram colocando sacolas plásticas em nossas cabeças, prendendo nossas mãos nas costas e nos empurrando para dentro de um barril cheio de água. Batiam em nós com cabos de aço."

Harun e os demais homens viveram assim por mais de um mês, até conseguirem contato com parentes para pedir dinheiro.

Após o pagamento, os migrantes foram autorizados a ir embora - só para serem presos novamente.

"Não fomos muito longe, porque outros homens armaram uma emboscada e nos levaram a um galpão. Disseram que só nos deixariam sair se pagássemos US$ 1 mil por cabeça."

"A tortura e as surras continuaram. Telefonamos para nossas famílias, pedindo dinheiro outra vez. Nossos parentes venderam gado, terras, todas as suas posses e nos mandaram mais dinheiro."

Refugiado

Harun conseguiu, assim, avançar mais em sua jornada. Chegou ao norte de Trípoli, disposto a tentar atravessar o Mediterrâneo.

"Ali, a situação ficou um pouco melhor", conta ele. "Trabalhamos durante alguns meses, em qualquer emprego que conseguíssemos encontrar, e daí cruzamos o Mediterrâneo para vir à Europa."

Harun teve, por fim, sorte - de não ter sido detido pelas forças de segurança dos países europeus e de não ter caído nas garras de novos traficantes humanos.

Ele desembarcou na Itália e de lá seguiu à Alemanha, onde seu pedido de refúgio foi aceito.

Harun diz que a "vida está boa agora", mas agrega que seu sofrimento até chegar à Europa - em especial as perdas que ele viveu na jornada - permanecerá para sempre em sua memória.

"Enterramos um de nossos amigos na fronteira entre o Egito e a Líbia. Outros dois se separaram de nós em Saba (Líbia), e não sei se estão vivos ou mortos. Uma garota caiu no mar Mediterrâneo. Mas alguns conseguiram chegar à Europa."

Questionado sobre se, com o conhecimento que tem agora, ele voltaria a fazer essa jornada, a resposta é direta: "Não".

"Falando francamente, eu poderia ter estudado ou trabalhado no meu país natal. (Mas) via as pessoas indo embora e isso, somado à situação (de instabilidade) política, me convenceu a emigrar."

Edição 132 Novº 2017

José Álvaro de Lima Cardoso (economista)

A VINGANÇA DO CAPITAL CONTRA O TRABALHO

As revoluções industriais são da própria natureza do capitalismo. O capital revoluciona o tempo todo os meios de produção e, assim, mudam também as relações sociais. Muda o jeito de produzir, mudam as relações sociais, mudam as ideias. A quarta revolução industrial, a exemplo das revoluções anteriores, coloca os meios técnicos e as forças produtivas num patamar muito superior, fornecendo as condições objetivas, do ponto de vista tecnológico, para a melhoria de vida das pessoas.

De um lado, portanto, o desenvolvimento das forças produtivas leva a avanços significativos nas tecnologias utilizadas e no processo de produção. Porém, as relações sociais de produção, baseada na propriedade privada e no lucro sem limites impossibilitam que tais avanços signifiquem benefícios para toda a sociedade. Talvez um dos principais efeitos dessa contradição seja o desemprego tecnológico, ou seja, aquele causado pela introdução de novas tecnologias. Mudanças tecnológicas implicam em elevação da produtividade que, muitas vezes, representa verdadeiros “saltos tecnológicos”. O uso de tecnologias mais eficientes permite produzir mais mercadorias em menos tempo de trabalho, ou seja, com menor quantidade de trabalho humano. O sistema produz assim uma elevação do desemprego, em decorrência do novo patamar tecnológico, criando uma força de trabalho excedente, que tende a crescer.

A substituição de trabalho humano por máquinas é decisão de cada grupo empresarial, que buscar reduzir permanentemente seus custos, o que lhe permite aumentar suas margens de lucros e/ou vender a preços mais baixos. O aumento da produtividade através da substituição de trabalho por máquinas gera uma “população excedente”, que é artificial, ou seja, é excedente em função das restrições impostas pelas relações sociais de produção. Então, as mesmas causas dos enormes ganhos de produtividade levam a existência de um grupo de trabalhadores sem espaço no mercado de trabalho. Quando muito, ocupando postos na economia informal, que paga menores salários, jornadas mais longas e tem condições de trabalho mais precárias.

O exército de desempregados e de trabalhadores na economia informal, são essenciais para a manutenção dos salários em baixos patamares. Até 2014, ocasião em que o Brasil, em algumas regiões, tinha uma situação praticamente de pleno emprego, ouvia-se dos prepostos patronais em mesas de negociação queixas de que não havia trabalhadores disponíveis para contratação, o que estaria “complicando” muito a gestão de pessoal. A mensagem podia ser entendida como: “é necessário que retorne o exército de reserva de desempregados, para impormos o nível salarial que queremos”.

Na mesma direção, o empresariado reclama recorrentemente da existência do salário mínimo, especialmente quando ele aumenta acima da inflação, como ocorreu no período entre 2004 e 2015. O salário mínimo funciona como impeditivo legal às possibilidades de achatamento salarial trazidas pelas flutuações do mercado e pelo exército industrial de reserva. Ligado ao mesmo fenômeno, na primeira grande onda neoliberal no Brasil, na década de 1990, na gestão FHC, nas mesas de negociação os patrões tentavam insistentemente eliminar os pisos das convenções coletivas de trabalho. Em Santa Catarina, algumas categorias chegaram a assinar à época convenções sem a existência de piso salarial, ou seja, o piso da categoria passava a ser o salário mínimo nacional do pais (cujo poder de compra, aliás, era baixíssimo).

O problema não é a tecnologia, em si, mas a expansão da tecnologia dentro de relações capitalistas, que conduzem ao desemprego tecnológico. A necessidade de manter as margens de lucratividade impedem (ou pelo menos constrangem) que os benefícios advindos das novas tecnologias sejam plenamente distribuídos para a sociedade como um todo. Por exemplo, se um salto tecnológico da quarta revolução industrial gera um excedente de trabalhadores em função dos ganhos de produtividade, isso pode representar uma redução da jornada de trabalho para toda a classe trabalhadora, o que evitaria o crescimento do desemprego, ao mesmo tempo em que possibilitaria a todos um ganho de tempo, para dedicar às demais esferas da vida (convivência com a família, cuidados com a saúde, prática de esportes, estudos, etc.)

Numa situação de desemprego elevado, aumenta o medo daqueles que conseguem se manter no emprego. Ao assistir os companheiros perderem seus empregos, o trabalhador tende a se submeter a piores condições de trabalho e a aceitar salários mais baixos. O risco para a classe trabalhadora é duplo: ou sofre as agruras do desemprego ou padece o aumento da exploração para manter os postos de trabalho. É muito comum na nossa sociedade a convivência entre o desemprego crescente e um número grande de pessoas trabalhando muito, com jornada de 50 ou 60 horas semanais, em um ou mais de um emprego. O trabalhador que, num processo de crise, fica alguns meses desempregado, sem o amparo de políticas públicas e/ou do sindicato, tende a posteriormente se submeter a piores condições de trabalho e salário. O trabalhador fica mais “dócil”, afinal qualquer coisa é melhor do que passar fome.

Neste quadro, é certo que alguns torcem para que aumente o desemprego, apesar de todo o sofrimento humano e do prejuízo social e econômico, decorrentes. É que o aumento do desemprego possibilita elevar a taxa de exploração para os trabalhadores que mantém o vínculo, ampliando assim a lucratividade das empresas. Como desgraça pouca é bobagem, a contrarreforma trabalhista, que entra em vigor em poucos dias, é uma espécie de vingança do capital contra os avanços que a duríssimas penas os trabalhadores conseguiram ao longo de séculos. O princípio da prevalência do negociado sobre o legislado, em relação a diversos aspectos das relações de trabalho, em meio à maior recessão da história, significa na prática, a autorização para retirar direitos e elevar os níveis de exploração dos trabalhadores.

Piero Benvenuti escreveu / Luisa Rabolini traduziu

UMA VISÃO REVOLUCIONÁRIA DO COSMOS

Parece que o próprio universo quis se curvar e prestar homenagem aos três cientistas estadunidenses agraciados com o Prémio Nobel de Física de 2017: poucos dias após a concessão do prestigioso reconhecimento, os astrónomos anunciaram a observação simultânea de ondas gravitacionais e de radiação eletromagnética emitidas por duas estrelas de nêutrons coalescentes numa fantástica explosão amplamente divulgada pelos media nos últimos dias


O Prémio Nobel foi concedido no último dia 3 de outubro a Rainer Weiss, Barry C. Barish e Kip S. Thorne, representando a grande Colaboração internacional Ligo (Laser Interferometry Gravitacional Observatory), que, depois de décadas de tentativas, conseguiu pela primeira vez detectar as ondas gravitacionais. O fenómeno foi previsto por Albert Einstein como uma consequência lógica da sua teoria da gravidade, conhecida como relatividade geral, mas a debilidade dessas mínimas ondulações no espaço-tempo tinha-as, até agora, tornado imperceptíveis e apenas a perseverança dos físicos na busca de soluções tecnológicas sempre mais refinadas tornou finalmente possível a inequívoca detecção desses fracos sinais cósmicos.

O resultado tinha despertado grande entusiasmo, não só entre os cientistas, mas também no grande público, sempre fascinado por fenómenos cósmicos e por uma teoria de consequências tão distantes do entendimento comum.

A concessão do Prémio Nobel aos representantes da Colaboração internacional Ligo era, portanto, esperada e eu diria quase descontada. O que não era absolutamente esperado foi que, justamente em concomitância com o prémio, os instrumentos da Colaboração – aos quais, desta vez, somou-se o interferómetro italiano Virgo - revelassem uma nova emissão de ondas gravitacionais e, ao mesmo tempo, os observatórios espaciais de raios gama (o satélite Fermi da NASA e Integral da Agência espacial Europeia) medissem um súbito e violento flash de luz gama, semelhante ao que acompanha as explosões nucleares.

Ficou logo evidente que se tratava de sinais emitidos pela própria catástrofe cósmica: duas estrelas de nêutrons, que em trajetória espiral cada vez mais próxima uma da outra, se fundem em uma só dando origem ao fenómeno, até agora previsto apenas teoricamente, chamado de "kilonova". A enorme vantagem da observação simultânea do flash gama consiste no fato de que a direção da origem deste último, ao contrário do local de emissão das ondas gravitacionais, pode ser determinada no céu com razoável precisão: imediatamente a localização do evento foi transmitida aos telescópios ópticos do mundo inteiro, incluindo o veterano telescópio espacial Hubble, e todos foram direcionados naquela direção na esperança de detectar o brilho de luz visível e infravermelha que certamente tal evento explosivo deveria produzir. A esperança foi amplamente recompensada, e justamente agora, em uma empolgante sucessão de conferências de imprensa, o filme (podemos realmente chamá-lo assim) do evento ocorrido 130 milhões de anos, em uma zona periférica de uma galáxia vizinha, foi mostrado ao público.

Para além do evento espectacular, as consequências científicas dessa fantástica observação são de grande magnitude. Em primeiro lugar, confirma-se a hipótese de que a velocidade de propagação das ondas gravitacionais é idêntica à da luz: de facto, se os sinais gravitacionais e eletromagnéticos - de natureza completamente diferente – fossem sendo propagados no espaço com velocidades mesmo que minimamente diferentes, depois de um percurso de bem 130 milhões de anos-luz, teriam chegado com um considerável lapso de tempo.

Outra consequência é que a admirável e frutífera colaboração entre telescópios ópticos e gravitacionais abre oficialmente uma nova era da astronomia observacional: no futuro poderemos investigar fenómenos cósmicos não só observando a luz emitida por eles, mas também através das mínimas vibrações do espaço-tempo, sinais estes que, diferentemente da radiação eletromagnética e por sua própria natureza, não encontram obstáculos em seu caminho.

Artigo de Raúl Zibechi

Insurreições silenciosas

“O mundo, nosso mundo, está mudando de maneira acelerada. Rejeitar essas mudanças, seria como anular a capacidade transformadora que está enterrando o capitalismo e levantando um mundo novo sobre seus escombros”, escreve o jornalista e analista político uruguaio Raúl Zibechi.

As grandes mudanças começam sempre por pequenos movimentos invisíveis para os analistas de cima e para os grandes meios de comunicação, como destaca um dos comunicados do zapatismo. Antes que milhares de pessoas ocupem as grandes avenidas, ocorrem processos subterrâneos, onde os oprimidos ensaiam os levantes que, depois, tornam visíveis nos eventos massivos que a academia denomina movimentos sociais.

Estas mudanças ocorrem na vida cotidiana, são produzidas por grupos de pessoas que têm relações diretas entre elas, não são fáceis de detectar e nunca sabemos se irão se tornar ações massivas. No entanto, apesar das dificuldades, é possível intuir que algo está mudando, caso agucemos os sentidos.

Algo disto parece estar ocorrendo em países da América Latina. Um companheiro brasileiro considerou, durante um encontro de geógrafos com movimentos sociais (Simpósio Internacional de Geografia Agrária – SINGA), que neste país estamos diante de uma insurreição silenciosa. A intuição se baseia em fatos reais. No seio de movimentos sociais e nos espaços mais pobres da sociedade, as mulheres e os jovens estão protagonizando mudanças, estão se deslocando do lugar designado pelo Estado e o mercado.

Os verdadeiros movimentos são aqueles que modificam o lugar das pessoas no mundo, quando se movimentam em coletivos e rasgam os tecidos da dominação. Neste ponto, deve se assinalar que não há uma relação direta ou mecânica causa-efeito, já que nas relações humanas os prognósticos não são possíveis pela complexidade que possuem e pela interação de uma multiplicidade de sujeitos.

Nos últimos anos, pude observar esta tendência de mudanças silenciosas no interior de vários movimentos. Entre os indígenas do sul da Colômbia, grupos de jovens nasa e misak 're-empreendem' a luta pela terra que havia sido paralisada pelas direções, focadas na ampliação das relações com o Estado que lhes proporciona abundantes recursos. Algo similar parece estar ocorrendo no sul do Chile, onde uma nova geração mapuche enfrenta a repressão estatal com renovadas forças.

Entre os movimentos camponeses consolidados, onde existem poderosas estruturas de direção, mulheres e jovens estão empreendendo debates e propostas de novo tipo, que incluem a mobilização e organização das pessoas que se definem LGBT (Lésbicas, Gays, Transexuais e Bissexuais).

Observamos também um crescente ativismo no seio dos movimentos tradicionais de militantes negros que constroem quilombos e palenques, inclusive nas universidades, como pode se apreciar nas academias brasileiras e colombianas, onde abrem espaços próprios.

Durante a escolinha, explicaram-nos que metade dos zapatistas tem menos de 20 anos, algo que pudemos apreciar. A participação das mulheres jovens é notável. Aqueles que participam dos encontros de arte e ciência convocados pelo EZLN enfatizam esta realidade. Em outros movimentos aparece a organização de garotos e garotas com assembleias que excluem os mais velhos.

Que reflexões podemos realizar sobre esta insurreição silenciosa, que abarca toda a sociedade e de modo particular os movimentos anti-sistêmicos. Sem pretender esgotar um debate incipiente, proponho três considerações.

A primeira é que as insurgências em curso das mulheres, dos povos negros e indígenas e dos jovens de todos os setores populares estão impactando no interior dos movimentos. Por um lado, estão produzindo uma necessária mudança geracional, sem deslocar os fundadores. Por outro, esta mudança é acompanhada por modos de fazer e de se expressar que tendem a modificar a ação política para direções que, ao menos quem escreve estas linhas, não é capaz de definir com clareza.

A segunda é de caráter qualitativo, estreitamente relacionada com a anterior. A irrupção juvenil/feminina é portadora de perguntas e culturas elaboradas no interior dos movimentos, com suas próprias características. As mulheres de baixo, por exemplo, não embandeiram o discurso feminista clássico, nem o da igualdade, nem o da diferença, mas, sim, algo novo que não me atrevo a conceituar, ainda que existam aqueles que mencionam feminismos comunitários, negros, indígenas e populares.

O desejo dos jovens zapatistas em mostrar suas músicas e danças, é algo mais que uma questão artística, do mesmo modo que suas perguntas sobre a ciência. Em alguns casos, como o mapuche e o nasa, é possível observar mudanças que, de fora, podemos avaliar como uma radicalização que não está focada apenas nas formas de ação política, mas também na recuperação de tradições de luta que tinham sido quase abandonadas pelos mais velhos.

A terceira, e talvez a mais importante, é que a irrupção dos jovens e mulheres de baixo vai perfilando outra concepção de revolução, que se afasta da tradicional teoria da revolução de cunho leninista. Aqui, aparece outra questão: como se faz política em chave quilombo/palenque? Como é a política em chave mulher? Não me refiro à participação das mulheres e os jovens de baixo nas estruturas já existentes.

As respostas serão dadas pelos próprios povos, que estão abrindo caminhos novos, ainda que o analista de cima sempre tende a os ver com olhos e conceitos do passado. Trata-se de construir, mais que de ocupar as instituições existentes. Vão se criando mundos novos ou sociedades novas, caso se deseje nomear com os conceitos de antes: poderes próprios, justiça própria com base, muitas vezes, em tradições e em outras de sentido comum dos povos; saúde, educação e maneiras de ocupar o espaço baseadas em lógicas não capitalistas.

O mundo, nosso mundo, está mudando de maneira acelerada. Rejeitar essas mudanças, seria como anular a capacidade transformadora que está enterrando o capitalismo e levantando um mundo novo sobre seus escombros.