OUTROS TEXTOS DE INTERESSE

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Edição 140 Setembro 2018

Luiz Gonzaga Belluzzo

É O CAPITALISMO, ESTÚPIDO!

Os ganhos de produtividade gerados pelas novas tecnologias estão escondidos nos calabouços construídos pelo poder de mercado das grandes empresas que se apropriam do valor criado: sobem as margens de lucro e destinam seus ganhos chorudos à recompra das próprias ações e ao pagamento de dividendos”, escreve Luiz Gonzaga Belluzzo, economista, em artigo publicado por CartaCapital. Segundo ele, “a aceleração do progresso tecnológico desloca um contingente significativo de trabalhadores para atividades de baixa qualificação, o que deprime a produtividade e a capacidade de consumo dos trabalhadores submetidos ao emprego precário e intermitente”. Deste modo, conclui, “algumas projeções estimam que, nos próximos cinco anos, mais de 40% da força de trabalho americana estará submetida a um emprego precário”. Eis o texto

Na terça-feira 11 o jornal Valor ofereceu-nos um artigo instigante de Rana Foroohar, colunista do Financial Times. Os analistas do mercado jogam Lego com a macroeconomia dos manuais, entoando as estrofes de ‘Batatinha quando nasce”.

Rana arrisca-se em compreender as peripécias do capitalismo global. Empenha-se em desvendar a especificidade dos movimentos que afetam o arranjo macro-económico-financeiro das economias contemporâneas.

Com simplicidade, a colunista do Financial Times observa que “os dirigentes dos bancos centrais do mundo foram responsáveis por garantir que a Grande Recessão não se transformasse em mais uma Grande Depressão, ao conservar baixas as taxas de juros e ao manter impressionantes 15 trilhões de dólares em seus balanços.

"Isso levou as bolsas a alcançar seus picos de todos os tempos, apesar de não ter propiciado a criação de qualquer tipo de crescimento real dos salários. Os bancos centrais podem criar bolhas de ativos, é claro, mas não conseguem mudar os efeitos de arrocho salarial da globalização, a deflação puxada pela tecnologia e a crescente concentração de poder corporativo que impossibilita que os trabalhadores dos países ricos contem com qualquer verdadeiro poder de barganha.

"(...) Desde a gestão de Alan Greenspan no comando do Fed, o viés tem sido deixar as taxas baixas e se preocupar com as inevitáveis bolhas de ativos depois. Trata-se de atitude compreensível, especialmente diante da incapacidade dos políticos do mundo desenvolvido de aprovar grandes planos de infraestrutura ou a reforma educacional ou outras coisas que realmente mudariam a situação para as pessoas comuns, nos últimos dez anos.”

A colisão entre as práticas financeiras, a formação das cadeias globais de valor, as inovações tecnológicas sustentam a competitividade da grande empresa internacionalizada.

A migração das empresas para as regiões onde prevalece uma relação mais favorável entre produtividade e salários associou-se à rapidez das inovações tecnológicas e ao controle do capital financeiro sobre as estratégias empresariais para enfraquecer o poder de negociação dos sindicatos e o número de sindicalizados.

Os ganhos de produtividade gerados pelas novas tecnologias estão escondidos nos calabouços construídos pelo poder de mercado das grandes empresas que se apropriam do valor criado: sobem as margens de lucro e destinam seus ganhos chorudos à recompra das próprias ações e ao pagamento de dividendos.

Os salários modorrentos, a letargia do investimento empresarial, a "geração de valor" para os acionistas e a aflitiva concorrência pela busca de resultados a curto prazo espelham o poder de monopólio das grandes empresas.

Há poucas semanas, no encontro patrocinado pelo Federal Reserve em Jackson Hole, o economista da Sloan School of Management, John Van Reenen, observou que muitas indústrias se tornaram “o vencedor leva tudo ou quase tudo”, devido à globalização e às novas tecnologias.

No relatório Compendium of Productivity Indicators 2018, a OCDE investiga o paradoxo da produtividade: “A despeito da retomada do crescimento na maioria dos países da OCDE, o maior peso de empregos de baixa produtividade reduziu os salários reais na economia como um todo”.

A aceleração do progresso tecnológico desloca um contingente significativo de trabalhadores para atividades de baixa qualificação, o que deprime a produtividade e a capacidade de consumo dos trabalhadores submetidos ao emprego precário e intermitente.

Em seu rastro de vitórias, as poderosas empresas deixam uma procissão de desgraças: a despeito das cifras oficiais do desemprego, caem as taxas de participação na força de trabalho por conta do desalento e cresce a precariedade das novas formas de ocupação, o que desata a queda dos salários reais e a exclusão social.

O processo que submete a criação de valor à extração de valor impulsiona o crescimento dos trabalhadores em tempo parcial e a título precário, sobretudo nos serviços, é escoltado pela destruição dos postos de trabalho mais qualificados na indústria. O inchaço do subemprego e da precarização endureceu as condições de vida do trabalhador.

A evolução do regime do “precariato” constituiu relações de subordinação dos trabalhadores dos serviços, independentemente da qualificação, sob as práticas da flexibilidade do horário, que tornam o trabalhador permanentemente disponível.

O resultado é a incerteza a respeito dos rendimentos e horas de trabalho. Esta é a mudança mais importante na força de trabalho americana ao longo de um século. Algumas projeções estimam que, nos próximos cinco anos, mais de 40% da força de trabalho americana estará submetida a um emprego precário.

Rosana Pinheiro-Machado

ATENTADO A BOLSONARO É O ÁPICE INSANO DA POLARIZAÇÃO

Atiçar a polarização me parece a atitude mais irresponsável nesta nova era do salve-se quem puder, escreve Rosana Pinheiro-Machado, professora Titular Visitante da Universidade Federal de Santa Maria - UFSM no PPG de Ciências Sociais e e coordenadora e co-fundadora da Escola de Governo Comum, em artigo publicado por The Intercept, 07-09-2018. Eis o texto

A imagem é simbólica: deitado com o peito descoberto, Bolsonaro é operado às pressas depois de levar uma facada na região do abdômen enquanto era carregado nos ombros por uma multidão apaixonada. Tudo transmitido nas redes sociais em tempo real.

O evento é dramático por não ser um caso da violência isolada, mas representar o caos em que estamos nesse momento pré-eleições. São tempos de messianismo. Na figuração do mito, Bolsonaro encarna a figura de um herói carregado pelo povo que é covardemente atingido. O agressor alega que agiu em nome de Deus. Vivemos o ápice insano da polarização.

Para analisar os eventos em perspectiva histórica, vale lembrar o momento mais crítico da China moderna, no final do século 19, quando o país estava dividido em guardas ‘brancas’ e ‘vermelhas’. Rebeliões diárias e fanáticos de todos os lados se diziam enviados de Jesus Cristo. E o resultado nós sabemos bem: o país só conseguiu cessar essa violência organizada com outra violência organizada e institucionalizada, um autoritarismo que durou décadas e visava curar as feridas do chamado “período das humilhações”.

Os tiros contra a caravana de Lula e posteriormente contra militantes durante a vigília em frente à sede da Polícia Federal de Curitiba já mostravam que adentramos em uma era perigosa de violência messiânica, individualizada, cada um salvando o mundo com pode. Ativistas da campanha de Guilherme Boulos, do PSOL, também foram atacados recentemente. É uma eleição no meio de um faroeste.

Fazendo trabalho de campo sobre o eleitores de Bolsonaro há quase dois anos, posso afirmar que muitos deles, que vestem camisa do candidato ou usam adesivo em carros, têm sido agredidos verbalmente e fisicamente, todos os dias. Há mais tempo, o mesmo ocorre, ou pior, com aqueles que vestem vermelho. Os meios progressistas apenas relatam violência como uma força unilateral concentrada em demônios que eles conseguem culpar. Em tempos de caos, o autoritarismo messiânico, pulverizado e desordenado está espalhado por todo o tecido social.

O Brasil que mata em massa mulheres, jovens negros, pobres e LGBTs nunca foi um país democrático por excelência, e o Estado sempre funcionou para poucos. Seria ingênuo falar que estamos numa crise da democracia. Esse nível messiânico e insano é o estopim de uma ordem autoritária, que se deixa levar pelas paixões calorosas de candidatos salvadores e do fanatismo religioso que por séculos esteve camuflada sob o ideal da harmonia. A história está repleta de exemplos que nos mostram os tristes desfechos políticos desse tipo de conjuntura.

Qual é o apelo de Bolsonaro nisso? Ele é o agressor e o agredido. Recebe a mesma violência que propaga. Mas é preciso ter prudência em como pontuar esse debate – em nada adianta usar esse argumento em tom revanchista, em guerras de narrativas inócuas. Pouco serve adentrar em brigas vazias que apontam o dedo. Esse revanchismo punitivista apenas gera mais raiva e alimenta o ciclo de violência que, há muito, já saiu das redes. Os doidos que rosnam no Facebook agora estão às soltas.

É parte de meu ofício, há 19 meses, acompanhar grupos de WhatsApp de eleitores de Bolsonaro e de eleitores mistos (Bolsonaro, anti-Bolsonaro e indecisos). Até antes do atentado, grupos de jovens conseguiram manter as regras de diálogo. No momento do evento, eleitores contrários ao candidato começaram a debochar: “pena que não acertou o desgraçado”. Depois disso – o debate aconteceu por horas –, os “bolsominions” reagiram com muitas ofensas, dizendo que quem desejava a morte de outra pessoa tinha que levar porrada. Os indecisos ficaram comovidos e chocados com as brincadeiras de que o agressor era incompetente. Um falou “se querem matar o cara, é porque ele incomoda”.

A piada “que pena que não acertou” circula por todos os lados, com a frase “ah, mas to só brincando…”. Mas quando os haters de direita fizeram essa brincadeira com Lula, a esquerda, com razão, não gostou.

Sem Lula, Bolsonaro está em primeiro lugar nas pesquisas de intenção de voto. Se ele é um candidato autoritário, violento e que faz apologia à tortura – e se é a esquerda que denuncia um golpe de estado neste país, nossa arma só pode ser a luta por democracia, e não por revanchismo ingênuo. Se Bolsonaro disse sobre o Museu Nacional “queimou querem que eu faça o quê?”, a resposta “esfaqueou, querem que eu faça o quê?” vai na mesma fragilidade narrativa.

Não se trata aqui de relativizar – e colocar em falsa simetria – a extrema-direita e a esquerda. Pelo contrário. Mas é preciso encarar os fatos para combater o candidato fascista. Eu queria que Bolsonaro não existisse. Mas eu não queria que ele fosse assassinado. A diferença entre uma coisa e outra é imensa. Ele existe. E nós precisamos lidar com a realidade e não fugir dela.

Os presidenciáveis manifestaram repúdio. Essa é a única postura aceitável neste momento trágico. De histeria de rede social já basta a culpabilização do PT por tudo o que ocorre neste país. Não foi suficiente tirar Dilma Rousseff do poder, parece que é preciso culpar o partido por toda a desgraça que ocorre: do Museu Nacional ao ataque a Bolsonaro.

Bolsonaro e suas seitas são o nosso mais bem acabado protótipo fascista, do fracasso democrático e da violência estrutural do Brasil. Esse atentado traz o imenso risco de torná-lo herói, reforçar a narrativa mítica daquele que sobrevive e que volta para salvar o Brasil contra tudo e contra todos. Um messiânico que renasceu da apunhalada de outro messiânico. “Agora é guerra”, disse o presidente do PSL. Um prato cheio para aqueles que vivem da expectativa do simbolismo do sangue, da tortura e da violência. Atiçar a polarização me parece a atitude mais irresponsável nesta nova era do salve-se quem puder.

Artigo de Enrique Dussel

WALTER BENJAMIN E O MESSIANISMO

O messias é uma luz nas trevas que o povo acende, e uma vez acesa incendeia ao próprio povo, exigindo-lhe, agora, tornar-se responsável pela história. É uma dialética entre povo e liderança. Nos os trairei! Cumprirei com o mandato!, expressa ao povo o consagrado pelo povo. Sabem quem é a última instância da soberania”, escreve o filósofo Enrique Dussel, a respeito da nova etapa da vida política no México, em artigo publicado por La Jornada. A tradução é do Cepat. Eis o artigo.

Tendo cumprido minha previsão de 2012 sobre Morena e o PRD: Finalmente, duas concepções da política, onde predizia o futuro desaparecimento do PRD, continuarei a reflexão iniciada há seis anos, hoje mais atual que nunca.

Com W. Benjamin, desejo abordar o estranho tema do messianismo que obstinadamente o trágico filósofo alemão levantou, a partir de seu diálogo ao longo de sua vida com G. Scholem, tão incompreendido por outros membros da Escola de Frankfurt (e a esquerda em geral, e especialmente a marxista ortodoxa, ainda em nossos dias no México).

O tema da liderança foi uma questão perigosa para a esquerda tradicional pela possibilidade de cair em um populismo de direita (como o nazismo que Benjamin tanto criticou e sofreu, um certo bonapartismo), ou um carismatismo (superficialmente tratado por M. Weber). Ainda menos considerado sob o rótulo do messianismo (caricaturado como um teologúmeno superficial) nomeado por outros como um messianismo tropical. No entanto, na contracorrente e autorizando-me Benjamin, desejo tratar este tema de grande profundidade política, no contexto deste momento crucial do México em 2018.

Trata-se de meditar sobre atores políticos situados em três níveis que se determinam mutuamente. Em primeiro lugar, o próprio povo como totalidade, que é o ator coletivo político, última instância da soberania, que se expressa na participação pública (institucional ou espontânea). Em segundo lugar, um setor ou grupo de tal povo (que G. Agamben, a partir de Paulo de Tarso, recorda como o resto) que luta contra vento e maré, nas boas e más, em favor de tal povo. Em terceiro lugar, uma pessoa ou muito poucas que padecem o suportar em sua própria corporalidade o sofrimento do povo oprimido (que na tradição semita de W. Benjamin se denominava o servo sofredor, questão tratada em minha obra “El humanismo semita”, apêndice), denominado pelo filósofo alemão como o meshiakh (em hebraico: o ungido pelo povo). Benjamin, em sua obra Sobre o conceito da história (GS, I, 2, pp. 691 ss), trata repetidamente, nas 18 teses, o tema do messianismo a partir de um marco teórico marxista e materialista histórico (Tese I), que será o que adotaremos nesta contribuição.

Michael Löwy, o conhecido filósofo judeu, trotskista e ateu, diz-nos: A redenção messiânica e revolucionária é uma missão que as gerações passadas nos atribuem. Não há Messias enviado do céu: nós mesmos somos o Messias (em Aviso del incendio, FCE, México, 2002, p. 50); pensemos “no lugar que tiveram no imaginário revolucionário, dos últimos 30 anos, as figuras de José Martí, Emiliano Zapata, Augusto Sandino, Farabundo Martí e mais recentemente Ernesto Che Guevara [...]”.

Em último termo, o messias é uma pessoa que encarna para o povo, por sua fidelidade, compromisso, honestidade, coragem, prudência prático-sapiencial, os valores que não se encontram nos líderes corruptos da sociedade dominante. Por isso, cresce seu significado até que o povo o descobre como uma possível solução para seus males. É assim que tal povo o consagra em função do serviço ao próprio povo (função messiânica que recebe do ator coletivo: o próprio povo). O messias é uma luz nas trevas que o povo acende, e uma vez acesa incendeia ao próprio povo, exigindo-lhe, agora, tornar-se responsável pela história. É uma dialética entre povo e liderança. Nos os trairei! Cumprirei com o mandato!, expressa ao povo o consagrado pelo povo. Sabem quem é a última instância da soberania.

Tratei o tema de forma mais ampla em uma publicação de La Jornada Ediciones [Carta a los indignados, México, 2011, pp. 27-85), texto que recomendo a quem desejar aprofundar o tema.

Por tudo isso, o dia primeiro de julho de 2018 foi um acontecimento messiânico (como segundo acontecimento libertador, em relação ao primeiro acontecimento exposto por A. Badiou), mas como diz o sentir popular: não se deve dormir sobre os louros! É agora o tempo da participação ativa de todo o povo e dos militantes mais responsáveis que despertaram na efervescência, ainda que desprezada por alguns situados na extrema esquerda, criticando-a como uma jornada eleitoral vazia e sem conteúdo. E não é assim, aqui a forma (uma eleição) tem conteúdo (é uma transformação real política).

A função messiânica agora já não necessita da legitimidade conquistada graças ao voto, agora, necessita da práxis participativa de todo o povo, cada um em sua trincheira. A função messiânica necessita da diária correção da crítica fraterna e responsável. Já não é o tempo para aplaudir, mas, sim, para atuar multiplicando a liderança em todos os níveis.

Boaventura de Sousa Santos

OS CONCEITOS QUE NOS FALTAM

'Foi por via dessa erosão que desapareceram do nosso vocabulário político as lutas anti-capitalistas, anti-colonialistas, anti-fascistas, anti-imperialistas. Concebeu-se como passado superado o que afinal era o presente mais do que nunca determinado a ser futuro. Nisto consistiu estar no abismo a olhar para trás, confiante que o passado do futuro nada tem a ver com o futuro do passado. Esta a maior monstruosidade do tempo presente'. O Texto é de Boaventura de Sousa Santos, sociólogo, publicado por Outras Palavras, Agosto 2018. Fonte, IHU.

Os seres humanos, ao contrário dos pássaros, voam com raízes. Parte das raízes estão nos conceitos que herdamos para analisar ou avaliar o mundo em que vivemos. Sem eles, o mundo pareceria caótico, uma incógnita perigosa, uma ameaça desconhecida, uma jornada insondável.

Os conceitos nunca retratam exatamente as nossas vivências, até porque estas são muito mais diversas e mutantes que as que servem de base aos conceitos dominantes. Estes são, afinal, os conceitos que servem os interesses dos grupos social, política, económica e culturalmente dominantes, ainda que matizados pelas modificações que lhes vão sendo introduzidas pelos grupos sociais que resistem à dominação. Estes últimos nem sempre recorrem exclusivamente a esses conceitos. Muitas vezes dispõem de outros que lhes são mais próximos e verdadeiros, mas reservam-nos para consumo interno. No entanto, no mundo de hoje, sulcado por tantos contactos, interações e conflitos, não podem deixar de tomar em conta os conceitos dominantes, sob o risco de verem as suas lutas ainda mais invisibilizadas ou mais cruelmente reprimidas. Por exemplo, os povos indígenas e os camponeses não dispõem do conceito de meio ambiente, porque este reflecte uma cultura (e uma economia) que não é a deles. Só uma cultura que separa em termos absolutos a sociedade da natureza, de modo a pôr esta à disposição incondicional daquela, precisa de tal conceito para dar conta das consequências potencialmente nefastas (para a sociedade) que de tal separação podem resultar. Em suma, só uma cultura (e uma economia) que tende a destruir o meio ambiente precisa do conceito de meio ambiente.

Em verdade, ser dominado ou subalterno significa antes de tudo não poder definir a realidade em termos próprios, com base em conceitos que reflictam os seus verdadeiros interesses e aspirações. Os conceitos, tal como as regras do jogo, nunca são neutros e existem para consolidar os sistemas de poder, sejam estes velhos ou novos. Há, no entanto, períodos em que os conceitos dominantes parecem particularmente insatisfatórios ou imprecisos. São-lhes atribuídos com igual convicção ou razoabilidade significados tão opostos, que, de tão ricos de conteúdo, mais parecem conceitos vazios. Este não seria um problema de maior se as sociedades pudessem facilmente substituir esses conceitos por outros mais esclarecedores ou condizentes com as novas realidades. A verdade é que os conceitos dominantes têm prazos de validade insondáveis, quer porque os grupos dominantes têm interesse em mantê-los para disfarçar ou legitimar melhor a sua dominação, quer porque os grupos sociais dominados ou subalternos não podem correr o risco de deitar fora o bebé com a água do banho. Sobretudo quando estão a perder, o medo mais paralisante é perder tudo. Penso que vivemos um período com estas características. Paira sobre ele uma contingência que não é resultado de nenhum empate entre forças antagónicas, longe disso. Mais parece uma pausa à beira do abismo e a olhar para trás.

Os grupos dominantes nunca sentiram tanto poder nem nunca tiveram tão pouco medo dos grupos dominados. A sua arrogância e ostentação não têm limites. No entanto, têm um medo abissal do que ainda não controlam, uma apetência desmedida por aquilo que ainda não possuem, um desejo incontido de prevenirem todos os riscos e terem apólices contra todos eles. No fundo, suspeitam serem menos definitivamente vencedores da história quanto pretendem, serem senhores de um mundo que se pode virar contra eles a qualquer momento e de forma caótica. Esta fragilidade perversa, que os corrói por dentro, fá-los temer pela sua segurança como nunca, imaginam obsessivamente novos inimigos, e sentem terror ao pensar que, depois de tanto inimigo vencido, são eles, afinal, o inimigo que falta vencer.

Por sua vez, os grupos dominados nunca se sentiram tão derrotados quanto hoje, as exclusões abissais de que são vítimas parecem mais permanentes do que nunca, as suas reivindicações e lutas mais moderadas e defensivas são silenciadas, trivializadas pela política do espectáculo e pelo espectáculo da política, quando não envolvem riscos potencialmente fatais. E, no entanto, não perdem o sentido fundo da dignidade que lhes permite saber que estão a ser tratados indignamente e imerecidamente. Que melhores dias terão de vir. Não se resignam, porque desistir pode ser-lhes fatal. Apenas sentem que as armas de luta não estão calibradas ou não são renovadas há muito; sentem-se isolados, injustiçados, carentes de aliados competentes e de solidariedade eficaz. Lutam com os conceitos e as armas que têm mas, no fundo, não confiam nem nuns nem noutras. Suspeitam que enquanto não tiverem confiança para criar outros conceitos e inventar outras lutas correrão sempre o risco de serem inimigos de si mesmos.

Tal como tudo o resto, os conceitos estão à beira do abismo e olham para trás. Menciono, a título de exemplo, um deles: direitos humanos. Nos últimos cinquenta anos os direitos humanos transformaram-se na linguagem privilegiada da luta por uma sociedade melhor, mais justa, menos desigual e excludente, mais pacífica. Tratados e convenções internacionais existentes sobre os direitos humanos foram sendo fortalecidos por novos compromissos no plano das relações internacionais e do direito constitucional, ao mesmo tempo que o elenco dos direitos se foi ampliando de modo a abranger injustiças ou discriminações anteriormente menos visíveis (direitos dos povos indígenas e afro-descendentes, mulheres, LGBTI; e direitos ambientais, culturais, etc.). Movimentos sociais e organizações não-governamentais foram-se multiplicando ao ritmo das mobilizações de base e dos incentivos de instituições multilaterais. Em pouco tempo, a linguagem dos direitos humanos passou a ser a linguagem hegemónica da dignidade, uma linguagem consensual, eventualmente criticável por não ser suficientemente ampla, mas nunca impugnável por algum defeito de origem.

Claro que se foi denunciando a distância entre as declarações e as práticas e a duplicidade de critérios na identificação das violações e nas reações contra elas, mas nada disso abalou a hegemonia da nova literacia da convivência humana. Cinquenta anos depois, qual é o balanço desta vitória? Vivemos hoje numa sociedade mais justa, mais pacífica? Longe disso, a polarização social entre ricos e pobres nunca foi tão grande, guerras novas, novíssimas, regulares, irregulares, civis, internacionais continuaram a ser travadas, com orçamentos militares imunes à austeridade, e a novidade é que morrem nelas cada vez menos soldados e cada vez mais populações civis inocentes: homens, mulheres e, sobretudo, crianças. Em consequência delas, do neoliberalismo global e dos desastres ambientais, nunca como hoje tanta gente foi forçada a deslocar-se das regiões ou dos países onde nasceu, nunca como hoje foi tão grave a crise humanitária. Mais trágico ainda é o facto de muitas das atrocidades cometidas e atentados contra o bem-estar das comunidades e dos povos terem sido perpetrados em nome dos direitos humanos.

Claro que houve conquistas em muitas lutas, e muitos activistas de direitos humanos pagaram com a vida o preço da sua entrega generosa. Acaso eu não me considerei e considero um activista de direitos humanos? Acaso não escrevi livros sobre as concepções contra-hegemónicas e interculturais de direitos humanos? Apesar disso, e perante uma realidade cruel que só não salta aos olhos dos hipócritas, não será tempo de repensar tudo de novo? Afinal, a vitória dos direitos humanos foi uma vitória de quê e de quem? Foi a derrota de quê e de quem? Terá sido coincidência que a hegemonia dos direitos humanos se acentuou com a derrota histórica do socialismo simbolizada na queda do Muro de Berlim? Se todos concordam com a bondade dos direitos humanos, ganham igualmente com tal consenso tanto os grupos dominantes como os grupos dominados? Não terão sido os direitos humanos uma armadilha para centrar as lutas em temas setoriais, deixando intacta (ou até agravando) a dominação capitalista, colonialista e patriarcal? Não se terá intensificado a linha abissal que separa os humanos dos sub-humanos, sejam eles negros, mulheres, indígenas, muçulmanos, refugiados, imigrantes indocumentados? Se a causa da dignidade humana, nobre em si mesma, foi armadilhada pelos direitos humanos, não será tempo de desarmar a armadilha e olhar para o futuro para além da repetição do presente?

Estas são perguntas fortes, perguntas que desestabilizam algumas das nossas crenças mais enraizadas e das práticas que sinalizam o modo mais exigentemente ético de sermos contemporâneos do nosso tempo. São perguntas fortes para as quais apenas temos respostas fracas. E o mais trágico é que, com algumas diferenças, o que acontece com os direitos humanos acontece com outros conceitos igualmente consensuais. Por exemplo, democracia, paz, soberania, multilateralismo, primado do direito, progresso. Todos estes conceitos sofrem o mesmo processo de erosão, a mesma facilidade com que se deixam confundir com práticas que os contradizem, a mesma fragilidade perante inimigos que os sequestram, cooptam e transformam em instrumentos dóceis das formas mais arbitrárias e repugnantes de dominação social. Tanta desumanidade e chauvinismo em nome da defesa dos direitos humanos, tanto autoritarismo, desigualdade e discriminação transformados em normal exercício da democracia, tanta violência e apologia bélica para garantir a paz, tanta pilhagem colonialista dos recursos naturais, humanos e financeiros dos países dependentes com o respeito protocolar da soberania, tanta imposição unilateral e chantagem em nome do novo multilateralismo, tanta fraude e abuso de poder sob a capa do respeito das instituições e do cumprimento da lei, tanta destruição arbitrária da natureza e da convivência social como preço inevitável do progresso!

Nada disto tem de ser inevitavelmente assim e para sempre. A mãe de toda esta confusão, induzida por quem beneficia dela, de toda esta contingência disfarçada de fatalismo, de toda esta paragem vertiginosa à beira do abismo reside na erosão bem urdida, nos últimos cinquenta anos, da distinção entre ser de esquerda e ser de direita, uma erosão levada a cabo com a cumplicidade de quem mais seria prejudicado por ela. Foi por via dessa erosão que desapareceram do nosso vocabulário político as lutas anti-capitalistas, anti-colonialistas, anti-fascistas, anti-imperialistas. Concebeu-se como passado superado o que afinal era o presente mais do que nunca determinado a ser futuro. Nisto consistiu estar no abismo a olhar para trás, confiante que o passado do futuro nada tem a ver com o futuro do passado. Esta a maior monstruosidade do tempo presente.

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João Barcellos

BRASIL: da Oca à Casa Grande

Breve Leitura Da Luso-Brasilidade

Nas Trilhas Pré-Coloniais


de outros horizontes e, no caso do povo guarani, também

uma demanda psicológica e religiosa que o levará pelo

´piabiyu´ [caminho] até à ´ivy marãey´ [q.s. ´terra sem mal´].

São diásporas de longa duração, porque nômades e a

enfrentar guerras mortíferas com tribos dispersas [as

´goayanazes´, q.s. ´outras gentes´], na maioria dos casos

gentes antropófagas que saboreiam o corpo dos guerreiros

inimigos como sinal de maior poderio; e assim, tupis e

guaranis seguem de koty em koty [ou ´acutia´, ´bacotia´, etc.,

q.s ´ponto de encontro, ou ´a partir de´], tendo no litoral as

´itapemas´ [rochas de abertura entre a lâmina d´água e a

terra) e nos certõens y mattos as ´ibiturunas´ e ´tijucas´

(cerros de terra preta e áreas de olhos d´água entre lama ou

pântano) as balizas geográficas.

Não por acaso, ao final do Século 16 e a apanhar todo o

Século 17 até os Anos 70 do Século 18, o tupi-guarani é a

Língua geral, até que a ´reforma pombalina´ [a exigência da

Língua portuguesa nos territórios d´além-mar, ou

ultramarinos) a proíbe. Entretanto..., as amas que criam a

filharada mameluca (filhos de branco com nativas), ou não,

dos colonos e bandeirantes (estes, tropas paramilitares de

ocupação em terras de povos nativos), são mulheres cativas

da terra, e depois as africanas escravizadas, logo, a Língua

não será mais a lusa original, porque já lhe é introduzida uma

Cultura multiétnica. Ou seja: na Casa Grande e na Senzala,

como nos sítios do Poder palaciano, a Língua lusa adquiriu

a Cultura Luso-Americana com pitadas africanas durante

mais de dois séculos.

Eis a perspectiva geossocial entre a Oca/Aldeia tupiguarani

e a Aldeia tomada e sitiada ao marco-zero ocidentalcristão,

digo, a Capela. É em tal perspectiva que agora se

situa a História do Brasil, pois, tudo foi/é estruturado na e

pela trilha tribal: dos bandeirantes aos tropeiros passando

pelos caminhos de ferro e as hidrovias.
Em meio à estruturação rural-urbana e industrial, o contato

físico-sexual das nativas com os colonos ibéricos leva à

humanidade um surto mortífero: a Sífilis. Não se contentam

os ibéricos com o ritual esotérico que é fumar o tabaco, nem

com o ter para si a facilidade sexual, fazem da facilidade a

libertinagem. Assim, com a doença, levam às tribos a bebida

alcoólica: uma ´bomba´ que destrói o organismo das gentes

florestais e sinaliza parte do seu extermínio. O ´pecado´ de

uma sexualidade descontrolada chega à Europa caraveleira

e dizima tanto como além-mar.

Enquanto isso, a geração mameluca toma um espaçotempo

que a põe como foco de uma nação que emerge

dentro da própria colonização [ex.: Suzana Dias, neta do

cacique Tibiriçã, a matrona mameluca que ergue a

Sant´Anna de Parnahyba e quase faz desaparecer a Sam

Paolo jesuítica]; uma geração que retoma as trilhas tribais e

estabelece acordos políticos e econômicos.

Assim se explica o contínuo nomadismo migratório dos

povos do Brasil e a sua cultura de assimilação diante de

outras gentes, a par de uma economia liberal iniciada ao

longo do Piabiyu por colonos como Affonso Sardinha (o

Velho) e Guilherme Pompeu de Almeida, ativa até hoje.

Perceber a Ilha de Brasil é perceber uma história rica em

culturas diversas e que, infelizmente, a academia ainda não

alcançou por causa do corporativismo político e dos dogmas

socialmente desestruturantes!

BARCELLOS, João, Escritor e pesquisador de história.

[jb.escritor@uol.com.br]

Ilha de Brasil, Julho de 20

Edição 139 Junho 2018

Richard J. Bernstein, filósofo

A PROFECIA DE HANNAH ARENDT

No prefácio da coleção de ensaios de 1968, Homens em tempos sombrios, Hannah Arendt escreveu: "Mesmo no tempo mais sombrio temos o direito de esperar alguma iluminação." Nos tempos sombrios de hoje a obra de Arendt assume nova importância porque é justamente uma fonte de iluminação. Arendt foi dotada de notável perspicácia na análise dos problemas mais graves, as dúvidas mais profundas e as tendências mais perigosas da realidade política moderna, em muitos casos, ainda presentes hoje. O artigo é de Richard J. Bernstein, filósofo americano que leciona em The New School for Social Research e que tem escrito, entre outas obras, Classical American Pragmatism, Neopragmatism, Critical Theory, Social Philosophy e Hermeneutics, publicado por La Repubblica, 25-06-2018. A tradução é de Luisa Rabolini.

Nessa referência aos "tempos sombrios" e no seu convite para desconfiar das "exortações morais ou de outro género que, sob o pretexto de confirmar antigas verdades, degradam cada uma dessas a insignificante banalidade", lemos não só uma crítica aos horrores do totalitarismo do século XX, mas também um aviso sobre algumas forças amplamente presentes hoje no nível político dos Estados Unidos e da Europa.

Arendt foi um dos primeiros expoentes do pensamento político a defender que o crescimento constante do número de apátridas e refugiados teria continuado a ser um problema insuperável. Um de seus primeiros ensaios, Nós, refugiados, publicado em uma revista em 1943 e baseado em sua experiência pessoal de apátrida, levanta questões fundamentais. Arendt oferece uma vívida descrição do que significa perder casa, língua e trabalho, e conclui com uma reflexão mais geral sobre as consequências políticas do novo fenómeno, ou seja, a "criação" das massas de pessoas forçadas a deixar as próprias casas e o próprio país "os refugiados forçados a vagar de país em país representam a vanguarda de seus povos [...] O respeito recíproco dos povos europeus se estraçalhou quando, e porque, permitiu-se que os membros mais fracos fossem excluídos e perseguidos".

No momento em que escrevia tudo isso, Arendt não poderia saber o quanto as suas observações seriam atuais em 2018. Nos últimos cem anos, praticamente todos os acontecimentos políticos significativos levaram à proliferação de novas categorias de refugiados, um fenômeno aparentemente destinado a se repetir sem fim. No ensaio de 1951, intitulado As Origens do Totalitarismo, Arendt escreve, referindo-se aos refugiados: "A desgraça de indivíduos sem estatuto jurídico não consiste em ser privados da vida, da liberdade, da busca da felicidade, da igualdade perante a lei e da liberdade de opinião, mas em não pertencer mais a nenhuma comunidade". A perda da comunidade comporta a expulsão da própria humanidade. Fazer um apelo aos direitos humanos em abstrato não serve na ausência de instituições que garantam efetivamente tais direitos. O mais fundamental dos direitos é o "direito de ter direitos".

O ensaio Verdade e política, publicado em 1967, poderia ter sido escrito ontem. A análise que Arendt faz da mentira sistemática e do perigo que representa para a verdade efetiva se encaixa perfeitamente. Pelo fato que as verdades efetivas são contingentes e, portanto, o seu oposto é possível, é muito fácil destruir a verdade efetiva substituindo-a por "fatos alternativos", ou seja, realidades alternativas. Em Verdade e Política, ela escreve: "A liberdade de opinião é uma farsa, a menos que a informação efetiva não seja garantida, e os fatos em si sejam removidos da disputa". Infelizmente uma das técnicas mais bem sucedidas para esmaecer a diferença entre verdade e falsidade é distribuir qualquer verdade como uma simples opinião: o que acontece mais ou menos diariamente na administração Trump. Hoje, os líderes políticos estão seguindo com grande sucesso uma prática flagrante dos regimes totalitários do passado, isto é, criam um mundo fictício de realidades alternativas.

Arendt identifica um risco ainda pior: "O resultado de uma substituição coerente e total de mentiras à verdade não é que agora as mentiras serão aceitas como verdade e que a verdade será denegrida como mentira, mas que o sentido graças ao qual nós nos orientamos no mundo - e a categoria de verdade versus falsidade está entre os meios mentais destinados a esse fim - é destruído".

As possibilidades de mentir se tornam ilimitadas e muitas vezes encontram pouca resistência. Muitos progressistas continuam perplexos com a indiferença do público diante de mentiras desmascaradas com base na verificação dos fatos. Mas Arendt tinha entendido como realmente funciona a propaganda. As massas "se deixam convencer não pelos fatos, nem mesmo pelos fatos inventados, mas apenas pela compactação do sistema que promete abraçá-las como uma sua parte". Os indivíduos que se sentem negligenciados e esquecidos anseiam por uma narrativa - mesmo fictícia - que dê um sentido à ansiedade que sentem e prometa uma espécie de redenção. Os líderes autoritários se beneficiam amplamente explorando essas ansiedades e inventando uma história a que as pessoas queiram acreditar. Uma história inventada que promete resolver os problemas de cada um tem muito mais aceitação que os fatos e as teses "racionais".

Arendt não era uma Cassandra. Não se limitou apenas a denunciar os riscos políticos, mas elaborou um conceito preciso da dignidade da política. Graças à nossa capacidade de agir, estamos sempre em condições de dar vida a uma renovação. O foco do pensamento de Arendt está precisamente na necessidade de assumirmos a responsabilidade de nossa vida política. A sua defesa da dignidade da política representa um parâmetro de juízo importantíssimo para muitos de nós diante da situação atual, que vê a diminuição das oportunidades de participação, de ação em conjunto e de envolvimento em um debate autêntico entre pares. Devemos resistir à tentação de nos afastar da política pensando que nada pode ser feito contra as feiúras, os enganos e a corrupção de hoje. Por toda a vida Arendt se propôs a enfrentar e compreender realmente a escuridão dos nossos tempos, sem perder de vista a possibilidade de transcendência e de iluminação. Nós deveríamos ter o mesmo propósito.

Luiz Alberto Gomez de Souza, sociólogo

A INVENÇÃO DE PSEUDOMITOS NO CAPITALISMO PREDADOR

"É hora de revisar essa economia criminosa dos patrocínios do grande capital que usam jogadores jovens, sem muito estofo psicológico para resistir"

Há dias, antes da estreia de Brasil da copa da Rússia, vinha o mesmo martelar: Neymar, Neymar. Como se tudo dependesse de um jogador, franzino, habilidoso sem dúvida, coleção de topetes exóticos. Criava-se um mito, logo adiante talvez descartável, e tudo passaria a depender dele e não do conjunto da selecção. E esse mito vem logo a ser alvo de uma caçada implacável pelos adversários.

No jogo de estreia do Brasil, bastou um golo no começo do segundo tempo e tudo se desarrumou. Por saúde mental não ouço o Galvão Bueno. Dizem que ele exultou com o golo suíço. Provavelmente mais por seus interesses materiais atingidos do que pelo amor ao futebol.

Ontem na Argentina, o centro era o Messi. Errou um penalti infantil e a selecção se desconstruiu. Há muitos interesses económicos na construção de mitos. É o velho individualismo da modernidade, regado a milhões de dólares. Quando vamos aprender a acreditar no colectivo nas várias áreas da realidade, na política, na economia, na cultura, nos desportos?

Lembram-se do jogo final da copa de 1998 quando, na véspera, Ronaldo, que possivelmente tivera uma convulsão, esteve fora da primeira escalação e veio imposto na segunda, provavelmente por grandes patrocinadores - talvez a Nike? Lá estava ele, no meio do campo, um patético zumbi. E o Brasil perdeu para a selecção capitaneada por Zinedine Zidane, hoje técnico do mais bem armado clube do mundo, o Real Madrid, onde está, aliás, Cristiano Ronaldo.

É hora de rever essa economia criminosa dos patrocínios do grande capital que usam jogadores jovens, sem muito estofo psicológico para resistir. É só ver o olhar errático de Gabriel de Jesus, com seus 21 anos, antes dos jogos. O Brasil tem de apostar no conjunto de uma selecção que tem excelentes jogadores, por exemplo, Philippe Coutinho ou Marcelo - neste primeiro jogo sem o costumeiro ímpeto que lhe é próprio.

Cristiano Ronaldo, ou o mito real

Quero dar um salto nos patamares da normalidade.

Temos um caso em situação oposta: Cristiano Ronaldo, esse sim génio. Há figuras que saem do quotidiano, como nas grandes epopeias homéricas. Isolado, empatou praticamente sozinho com a fúria espanhola, à qual servira até a véspera, no Real Madrid. Mas CR7 salta claramente dos parâmetros normais. Três goloss incríveis. Num jogo que foi uma obra prima. A exceção confirma a regra. Ainda que sempre possamos temer que isso possa ir subindo sinuosamente pela cabeça, com seu narciso desmedido. Até agora segue num nível inalcançável. Solitário herói.

Fernando Pessoa nos traz três mitos: Ulisses, Viriato e o Conde D. Henrique, quando brotou Portugal. Penso neste ultimo, ao ver jogar CR7:

“Todo começo é involuntário.

Deus é o agente.

O herói a si assiste, vário

E inconsciente.

Á espada em tuas mãos achada

Teu olhar desce,

‘Que farei eu com esta espada?’.

Ergueste-a e fez-se”.

Simplesmente acontece. Tão elementar e tão fora de medidas.

Como Miguel de Unamuno via em meu herói Quixote.

Manuel Castells, autor do Livro Ruptura

'APRENDER A VIVER NO CAOS PODE NÃO SER TÃO NOCIVO'

O presente texto integra ‘Ruptura’, novo livro do sociólogo espanhol que a Zahar lança neste mês. Nele, o autor sustenta que a antiga ordem político-institucional foi superada e afirma que aprender a viver no caos talvez não seja tão nocivo. O texto é publicado por Folha de S. Paulo, 0. Eis


No lo que pudo ser:

es lo que fue.

Y lo que fue está muerto.

Octavio Paz, "Lección de Cosas", 1955

Em tempos de incertezas costuma-se citar Gramsci quando não se sabe o que dizer. Em particular, sua célebre assertiva de que a velha ordem já não existe e a nova ainda está para nascer. O que pressupõe a necessidade de uma nova ordem depois da crise.

Mas não se contempla a hipótese do caos. Aposta-se no surgimento dessa nova ordem de uma nova política que substitua a obsoleta democracia liberal que, manifestamente, está caindo aos pedaços em todo o mundo, porque deixa de existir no único lugar em que pode perdurar: a mente dos cidadãos.

A crise dessa velha ordem política está adotando múltiplas formas. A subversão das instituições democráticas por caudilhos narcisistas que se apossam das molas do poder a partir da repugnância das pessoas com a podridão institucional e a injustiça social; a manipulação midiática das esperanças frustradas por encantadores de serpentes; a renovação aparente e transitória da representação política através da cooptação dos projetos de mudança; a consolidação de máfias no poder e de teocracias fundamentalistas, aproveitando as estratégias geopolíticas dos poderes mundiais; a pura e simples volta à brutalidade irrestrita do Estado em boa parte do mundo, da Rússia à China, da África neocolonial aos neofascismos do Leste Europeu e às marés ditatoriais na América Latina.

E, enfim, o entrincheiramento no cinismo político, disfarçado de possibilismo realista, dos restos da política partidária como forma de representação. Uma lenta agonia daquilo que foi essa ordem política.

De fato, a ruptura da relação institucional entre governantes e governados cria uma situação caótica que é particularmente problemática no contexto da evolução mais ampla de nossa existência como espécie no planeta azul. Isso no momento em que se questiona a habitabilidade deste planeta a partir da própria ação dos humanos e de nossa incapacidade de aplicar as medidas corretoras, de cuja necessidade estamos conscientes.

E no momento em que nosso extraordinário desenvolvimento tecnológico entra em contradição com nosso subdesenvolvimento político e ético, pondo nossas vidas nas mãos de nossas máquinas.

E em que as condições ecológicas nas megalópoles, que concentram uma proporção crescente da população mundial, podem provocar, e de fato provocam, pandemias de todo tipo, que se transformam em mercado para as multinacionais farmacêuticas, esse malévolo poder que raptou e deformou a ciência da vida para seu exclusivo benefício.

Um planeta no qual a ameaça de um holocausto nuclear continua vigente pela loucura de endeusados governantes sem controle psiquiátrico. E no qual a capacidade tecnológica das novas formas de guerra, incluída a ciberguerra, prepara conflitos possivelmente mais atrozes do que os vividos no século 20. Sem que as instituições internacionais, dependentes dos Estados, e portanto da pequenez de objetivos, da corrupção e da falta de escrúpulos daqueles que os governam, sejam capazes de pôr em prática estratégias de sobrevivência para o bem comum.

A ruptura da mistificação ideológica de uma pseudo-representatividade institucional tem a vantagem da clareza da consciência a respeito de que mundo vivemos.

Mas nos precipita na escuridão da incapacidade de decidir e atuar porque não temos instrumentos confiáveis para isso, particularmente no âmbito global em que pairam as ameaças sobre a vida.

A experiência histórica mostra que do fundo da opressão e do desespero surgem, sempre, movimentos sociais de diferentes formas que mudam as mentes e, através delas, as instituições. Como aconteceu com o movimento feminista, com a consciência ecológica, com os direitos humanos.

Mas também sabemos que, até agora, as mudanças profundas demandaram uma substituição institucional a partir da transformação das mentes. E é nesse nível, o político-institucional propriamente, que o caos continua imperando. Daí a esperança, abrigada por milhões, de uma nova política.

Contudo, quais são as formas possíveis dessa nova política? Não estaríamos diante do velho esquema da esquerda, de esperar a solução mediante o aparecimento de um novo partido, o autêntico transformador que finalmente seja a alavanca da salvação humana? E se tal partido não existir? E se não pudermos recorrer a uma força externa àquilo que somos e vivemos para além de nossa quotidianidade?

Qual é essa nova ordem que necessariamente deve existir e substituir aquilo que morre? Ou será que estamos numa situação historicamente nova, na qual nós, cada um de nós, devemos assumir a responsabilidade de nossas vidas, das de nossos filhos e de nossa humanidade, sem intermediários, na prática de cada dia, na multidimensionalidade de nossa existência?

Ah, a velha utopia autogestionária. Mas por que não? E, sobretudo, qual é a alternativa? Onde estão essas novas instituições dignas da confiança de nossa representação?

Auscultei muitas sociedades nas duas últimas décadas. E não detecto sinais de nova vida democrática por trás das aparências.

Há projetos embrionários pelos quais tenho respeito e simpatia, sobretudo porque me emocionam a sinceridade e a generosidade de tanta gente. Mas não são instituições estáveis, não são protopartidos ou pré-Estados. São humanos agindo como humanos.

Utilizando a capacidade de autocomunicação, deliberação e codecisão de que agora dispomos na Galáxia Internet. Pondo em prática o enorme caudal de informação e conhecimento de que dispomos para gerir nossos problemas. Resolvendo o que vai surgindo a cada instante. E reconstruindo de baixo para cima o tecido de nossas vidas, no pessoal e no social.

Utópico? Utópico é pensar que o poder destrutivo das atuais instituições pode deixar de se reproduzir em novas instituições criadas a partir da mesma matriz. E, já que a destruição de um Estado para criar outro leva necessariamente ao Terror, como já aprendemos no século 20, poderíamos experimentar e ter a paciência histórica de ver como os embriões de liberdade plantados em nossa mente por nossa prática vão crescendo e se transformando.

Não necessariamente para constituir uma ordem nova. Mas sim, quem sabe, para configurar um caos criativo no qual aprendamos a fluir com a vida, em vez de aprisioná-la em burocracias e programá-la em algoritmos. Dada nossa experiência histórica, aprender a viver no caos talvez não seja tão nocivo quanto conformar-se à disciplina de uma ordem.

Francesco Chiabotti

O EREMITA E A ESCRAVA

"A história de Su`ûd, a alaudista negra, mestra de Dhu l-Nûn, é paradoxal porque nos ensina a buscar conhecimento no ser humano, mas em um ser humano jamais separado de Deus, em uma união que só a pobreza, a miséria e a tristeza podem alcançar. Não um lugar de transcendência, o templo da Caaba, poderia reuni-los, mas a presença humana do Profeta, em que a tradição reconhece o amante perfeito", escreve Francesco Chiabotti, professor da Universidade de Tübingen no Centro de Teologia Islâmica, em artigo publicado por L'Osservatore Romano. A tradução é de Luisa Rabolini /IHU.

Afastar-se do mundo pode representar um perigo bem mais grave do que o próprio mundo. Solidão, acreditar-se junto a Deus, esconde o mal invisível da ilusão de tal proximidade mística. Como acreditar-se perto de Deus, mas longe de suas criaturas? Quando apareceram os primeiros textos de mística islâmica, os seus redatores tiveram que transformar em doutrina e pedagogia espiritual uma longa série de experiências que haviam atravessado os primeiros séculos do Islão. Foi ali que o retiro do mundo passa a ser visto como uma primeira fase no caminho do discípulo, e são colocadas algumas condições. A primeira, essencial: ninguém se deve retirar do mal do mundo, retira-se do mundo o próprio mal. A história a seguir é atribuída a um personagem enigmático da mística islâmica.

Dhu l-Nûn do Egito é um mestre do século IX. Ele nasceu e morreu nas proximidades do Cairo, mas passou a maior parte de sua vida em constantes peregrinações, deixando que um caminho jamais traçado se fizesse ocasião de encontros extraordinários. Seus ensinamentos foram transmitidos oralmente, processo que certamente tornou possível acréscimos apócrifas, mas apenas a incerteza filológica não é suficiente para explicar e compreender o imenso número de eventos do qual ele foi protagonista. Em sua singularidade fez escola, e há uma coerência geral no personagem que a tradição transmitiu, pela pluralidade das ciências que ele encarnou, pela ascese aos primórdios da mística, pelos pareceres jurídicos para as ciências mais ocultas. O próprio nome, Dhu l-Nûn, "o homem da letra nûn" é uma reminiscência coránica da figura de Jonas e a baleia, história de dilúvio e salvação. Foram numerosas as mulheres que, apesar da brevidade dos encontros, se revelaram fundamentais em seu percurso espiritual. O "sumo mestre" Ibn 'Arabi da Andaluzia, que morreu em Damasco no século XIII, descreveu a biografia de algumas delas em sua obra dedicada ao nosso personagem, a Vida de Dhu l-Nûn do Egito.

Mas vamos avançar com ordem. No episódio a que nos referimos, o problema da solidão é ilustrado graças a um encontro com um ser ainda mais solitário de Dhu l-Nûn, uma escrava negra, a alaudista Su`ûd. Narra Dhu l-Nûn que havia passado um ano retirado em uma floresta, alimentando-se de plantas selvagens e bebendo em fontes. Descreve seu estado como uma insondável plenitude espiritual, que, no entanto, descobriu frágil no dia em que um gemido, vindo de uma caverna na floresta, lembrou da fraternidade humana. Ficou como possuído por um raptus, incapaz de opor-se, e viu-se perto de uma sombra escura que era rondada por leões ferozes, sem prejudicá-la. Ele se aproximou e viu uma mulher de cor preta. Aproximou-se mais e os leões fugiram. Ela o chamou pelo nome, como se o conhecesse desde sempre. "Dhu l-Nûn! Para quem é íntimo de Deus, alheio a que Deus não é, cada coisa é amiga, mas tudo evita aquele que tem saudade de sua espécie, em cujo coração os sentidos penetraram!" Não era a primeira vez que em seu caminho se deparava com uma figura feminina misteriosa, e não era a primeira vez que tal figura o reconhecia, chamando-o pelo nome. Já tinha lhe acontecido perto de Antioquia, onde uma jovem serva enlouquecida, vestida de lã crua, o havia questionado sobre a obra espiritual. Em outra peregrinação uma mulher andarilha o tinha repreendido por ter-se apresentado a ela como "um estrangeiro": existiria acaso "estrangeirismo" junto a Deus?

Su`ûd continuou, "Dhu l-Nûn, eram você e ele, por que me colocou entre vocês dois?" Ela virou-se para os leões e pediu-lhes para ficar. "Ele é Dhu l-Nûn, não tenham medo." Dhu l-Nûn queria sair, a tomada de consciência era muito forte e as lágrimas impossíveis de segurar. Mas ela lhe perguntou onde ele tinha intenção de ir. Quase impotente, ele respondeu: "Não é suficiente o que acabou de acontecer?" Ela replicou: "Não, querido amigo! Você procurou intimidade com os outros de Deus por amor da intimidade de Deus, e quando os entes queridos se reúnem em memória do Amado comum, não por isso abandonam a intimidade do amor!" Dhu l-Nûn então se sentou com ela, contaram um ao outro seus respectivos exílios, o abandono dos irmãos e das irmãs, seus retiros longe dos homens. Dhu l-Nûn descreve assim o seu estado: "Caminhávamos como ébrios, me perguntou sobre o motivo da minha conversão a Deus e lhe contei a minha história, e perguntei-lhe, por minha vez, para contar-me a dela." E então ela contou a sua história. Su`ûd era uma escrava que pertencia a um poderoso vizir na corte do califa de Bagdá. Esse vizir gostava de beber, e organizava festas e banquetes durante os quais ela cantava e tocava, e ele a vestia com as roupas que mais lhe agradavam. Durante uma dessas festas, alguém bateu na porta do palácio. Antes de abrir, eles perguntaram quem era. "Um pobre homem que veio pedir algo em nome de Deus!" O vizir concordou. "Deixe-o entrar, que o sirvam de acordo com seu desejo!" Mas o pobre homem se recusou a avançar, por zelo e medo, em um palácio onde se bebe e as escravas dançam e tocam. "Alimente-me aqui fora, se não quiserem que eu vá embora!" O próprio vizir levou-lhe um prato de comida e um prato de frutas, mas o pobre homem ordenou-lhe para colocar o alimento em sua boca. O Vizir ficou impaciente: "Chega de tantos caprichos! Como você se atreve?". "Se te pareço cheio de caprichos", respondeu o pobre homem, "saiba que ele me trata com muitos mais ainda!" Quando ouviu as palavras do mendigo, Su`ûd gritou ao seu dono: "Esse tesouro é para ti, não o deixe escapar!" Ele olhou para ela: "Se você entendeu isso, significa que o tesouro é para você. Você não voltará mais, certo?". "É assim", disse ela, "não voltarei mais."

Dhu l-Nûn se despediu para regressar ao seu lugar de retiro, mas não conseguia parar de pensar nela e na sua história. Sentia falta. Tentou viajar, mas a peregrinação o levava de volta para o lugar de seu encontro, mas ela não estava mais lá. Como encontrá-la? Ele disse para si mesmo que deveria haver um lugar digno de reuni-los, e que só poderia ser a santa casa de Deus na Meca, durante a peregrinação anual. Não a encontrou junto a Caaba, então foi para a mesquita onde repousa o Profeta, em Medina, onde ele, o Amado, teria sido capaz de unir os amantes. E, de fato, encontrou-a lá. Quando ela o viu, dirigiu-lhe duras palavras: "Eu vi você circular ao redor da Caaba, mas era em torno de mim que você girava! Eu queria falar com você, mas algo me impediu de fazê-lo e fui empurrada para a mesquita do Profeta. Finalmente, agora posso falar com você. Dhu l-Nûn, o que você aprendeu em suas viagens?". Ele respondeu: "Estar satisfeito com ele, saber aceitar a proximidade ou a distância, a união ou o exílio, a pobreza ou a fartura, a glória ou a humilhação, a vida ou a morte". Su`ûd lhe deu uma lição final. "Você não poderia ter se sentido satisfeito com Deus, se Deus antes não tivesse se sentido totalmente satisfeito com você". E ela recitou um versículo do Alcorão, repetido em várias passagens do livro, "Deus fica satisfeito com os homens, e os homens ficam satisfeitos, portanto, com Ele ...." Claro, o texto sagrado coloca tal olhar da graça na vida após a morte, mas Su`ûd sabia que as coisas do espírito não têm tempo, ou melhor, que o tempo e o espaço são reflexos contingentes da eternidade.

"Dhu l-Nûn, desde quando nos encontramos, em nosso retiro, nada mais desejo que encontrar Deus, mas não tenho nenhum mérito de que eu possa me orgulhar na sua presença, peço-lhe, implore-o você por mim, peça que me aceite!" Uma voz invisível interveio, que só Dhu l-Nûn ouviu: "Não faça isso! Ela pertence a Deus que ama ouvir seu gemido, não se coloque entre os dois!" Então ele percebeu o que era aquele gemido que o fez sair de sua solidão com Deus, ou melhor, agora entendia que aquele gemido, na realidade, nunca o tinha afastado da solidão com Deus. "Dhu l-Nûn, você não reza por mim?". "Não, eu não posso intrometer-me entre o amante e o amado." Eles se separaram, e a história não nos conta se algum dia voltaram a se encontraram novamente.

A história de Su`ûd, a alaudista negra, mestra de Dhu l-Nûn, é paradoxal porque nos ensina a buscar conhecimento no ser humano, mas em um ser humano jamais separado de Deus, em uma união que só a pobreza, a miséria e a tristeza podem alcançar. Não um lugar de transcendência, o templo da Caaba, poderia reuni-los, mas a presença humana do Profeta, em que a tradição reconhece o amante perfeito. A história de Dhu l-Nûn é extraordinária, e perde-se na lenda. Mas para concluí-la, os antigos biógrafos procuraram saber quais foram as suas últimas palavras. Em uma versão, ele teria dito: "Conhecê-lo, mesmo que apenas por um momento antes de morrer!" Há uma parte do ensinamento de Su`ûd, nesse testamento espiritual.

Marco Marzano /IHU

Os seminários estão cheios de gays

Os seminários estão cheios de gays, assim como, consequentemente, as casas paroquiais, os mosteiros e as outras estruturas católicas. Alguns seminaristas e padres homossexuais se abstêm de ter uma vida sexual ativa, muitos outros não.” A opinião é do sociólogo italiano Marco Marzano, professor da Universidade de Bergamo, em artigo publicado por Il Fatto Quotidiano, 26-05-2018. A tradução é de Moisés Sbardelotto. Eis o texto.

Encontrando-se com os membros da Conferência Episcopal Italiana no Vaticano, o Papa Francisco fez uma afirmação importante: evitem, disse o papa aos bispos italianos, que gays entrem no seminário e afastem os estudantes sobre cuja identidade sexual vocês têm até mesmo a menor dúvida.

O papa reiterou, assim, também nesse ponto, em perfeita continuidade com seus antecessores, a católica tolerância zero em relação aos gays, a exclusão absoluta dos homossexuais da vida da Igreja. Se se trata de simples fiéis, embora apresentem, como afirma o Catecismo, “uma inclinação objetivamente desordenada”, eles podem ser acolhidos com misericórdia, mas somente contanto que renunciem a toda forma de vida sexual e se mantenham castos e puros. No caso daqueles que, entre eles, aspirem a se tornar sacerdotes, lembrou o papa, apenas a inclinação, por si só, já deve se tornar causa de imediata exclusão.

As palavras de Francisco nos comprovam que o papa está ciente da existência e das dimensões do “problema”, como ele o definiu. Depois de termos lidado com o clero pedófilo, declarou o papa, aproximando os dois fenômenos, também deveremos lidar com o homossexual.

A premissa da qual o papa partiu está correta: os seminários estão cheios de gays, assim como, consequentemente, as casas paroquiais, os mosteiros e as outras estruturas católicas. Alguns seminaristas e padres homossexuais se abstêm de ter uma vida sexual ativa, muitos outros não.

A partir da literatura científica internacional, chegam algumas confirmações interessantes desse dado. Um dos mais renomados estudiosos da vida sexual do clero, Richard Sipe, ao analisar uma amostra de grandes dimensões, defendeu que cerca de 30% do clero estadunidense são homossexuais, e que um terço desses 30% têm uma vida afetiva e sexual ativa, às vezes acompanhada de um grave sentimento de culpa.

Na opinião de outros estudiosos, os dados fornecidos por Sipe devem ser corrigidos: de acordo com Nines, mais de 40% do clero são homossexuais, enquanto, de acordo com Cozzens, a estimativa deve ser corrigida para cima, e os padres gays são entre 45% e 50% do total. A existência de uma verdadeira subcultura gay nos seminários é confirmada (às vezes com aborrecimento por parte daqueles que são excluídos) pelos resultados de outras pesquisas sociológicas.

Para além de suas reais dimensões, eu acredito que, se realmente querem banir a homossexualidade entre os funcionários da organização, o papa e os bispos devem tomar algumas decisões potencialmente muito dolorosas. Por exemplo, o papa deveria começar afastando da Igreja os bispos “até mesmo suspeitos” (para usar a sua linguagem) de serem homossexuais.

A mesma dureza deveria ser usada por parte dos bispos em relação ao clero submetido a eles e especialmente em relação aos reitores, prefeitos e professores encarregados de formar os futuros padres. Com que credibilidade um reitor de um seminário homossexual pode expulsar um seminarista gay? E o que acontece, que dinâmica psicológica se instaura se um padre gay se torna o pai espiritual de um seminarista igualmente homossexual?

Em segundo lugar, seria preciso que a Igreja potencializasse os seus instrumentos inquisitoriais para encontrar, também reforçando o recurso a psicólogos profissionais, a presença de gays entre os estudantes dos seminários. Uma atividade inquisitorial rigorosa é necessária, porque os seminários estão repletos de jovens que não estão cientes ou que não aceitam sua “inclinação” por pessoas do mesmo sexo e que vão ao seminário justamente para não levantarem o problema da própria sexualidade, para removê-lo.

Além disso, para remediar o fato de que a expulsão dos gays determinaria um verdadeiro colapso nas vocações, e levando-se em conta que a Igreja europeia já está, desse ponto de vista, em uma situação muito difícil, será preciso encorajar fortemente a importação de funcionários provenientes daqueles territórios (por exemplo, a África), onde há grande abundância de clero.

Por fim, provavelmente deveria ser desencorajado o recurso a um vestuário tradicional demais, composto por longas batinas, rendas e floreios variados, por trás do qual, muitas vezes, se oculta uma homossexualidade mais ou menos reprimida.

Feita uma lista resumida de coisas que a Igreja deveria fazer se quisesse combater a presença de gays em seu interior, resta dar um modesto conselho aos gays católicos. Por que se obstinar em esperar que venha qualquer abertura de uma organização irredutivelmente inimiga da liberdade e da diversidade sexual?

Por que não escolher outro lugar, e eles existem (penso, por exemplo, na Igreja valdense), para se transcorrer serenamente a própria existência de cristãos e de homossexuais, sendo aceites e considerados como seres humanos perfeitamente iguais a todos os outros?

Edição 138 Maio 2018

Lenio Luiz Streck

Prendam-nos todos!

O impasse sobre prisão após condenação em 2º grau é o tema do artigo de Lenio Luiz Streck, advogado, ex-procurador de Justiça e membro catedrático da Academia Brasileira de Direito Constitucional no Folha de S. Paulo.

"Matem-nos todos. Deus saberá reconhecer os seus!" Diz-se que estas foram as palavras ditas pelo abade Arnoldo de Amaury, determinando a aniquilação total dos cátaros que se escondiam na fortaleza de Béziers, no Languedoc, em julho de 1209.

É que dentre eles havia cristãos. Eram as cruzadas do papa Inocêncio 3º (1161-1216). Os cátaros eram dissidentes. Considerados hereges, não "rezavam" pela cartilha da Igreja.

Pois hoje parece que a defesa da presunção da inocência, claramente constante na "bíblia da democracia", a Constituição ("Livro Defesas", 5, 57 e em "Processus" 283,1), parece ter transformado seus adeptos em hereges jurídicos.

A tese defendida pela mídia e por tribunais como o TRF-4 é a seguinte: é automática a prisão após condenação em segundo grau. E se alguém pergunta: "Mas, se o réu tiver bons antecedentes e respondeu ao processo em liberdade?" A resposta —punitivista— é: "Não importa. Deve ser preso. Temos de acabar com a impunidade. A Constituição é leniente". Por isso, o TRF-4 até elaborou a súmula 122, pela qual qual várias pessoas já foram presas.

O que poucos se deram conta é que nem o Supremo Tribunal Federal concorda com essa automaticidade. Só dois ministros (Luiz Fux e Luís Roberto Barroso) votaram pela solução radical.

Desde o ministro Teori Zavascki (1948-2017) e até mesmo pelo voto do mais conservador dos ministros, hoje, Edson Fachin, essa solução foi apresentada. Eles falaram "possibilidade" de prisão. Isso quer dizer que a prisão em segundo grau não decorre simplesmente da decisão condenatória.

Tem-se, assim, um impasse: dos cinco ministros que desconsideram a presunção da inocência (atenção: a ministra Rosa Weber disse ser a favor da presunção), três admitem que ela é apenas possível (Cármen Lúcia, Fachin e Alexandre de Moraes).

Logo, a ADC 54 colocou o STF em uma sinuca de bico. Se todos confirmarem seus votos (mesmo que a ministra Rosa vote contra a presunção), as prisões automáticas são todas inconstitucionais e ilegais.

Raciocinemos: se a prisão após decisão de segundo grau é possível, então, por lógica, há casos em que ela não ocorrerá, porque não necessária. Logo, para ela acontecer, devem estar presentes os requisitos que permitem a prisão antes do julgamento. Se o réu não os tiver e ingressar com recurso especial e/ou extraordinário, então poderá aguardar em liberdade. Simples assim.

Isso está implícito no voto do ministro Teori no HC 126.292 e no voto do ministro Fachin, que aponta, inclusive, para o efeito suspensivo que pode ser dado ao recurso especial ou até mesmo ao extraordinário, tudo previsto no Código de Processo Civil de 2015.

Na medida em que só os ministros Fux e Barroso querem a automaticidade —eu levantei essa questão e foi repetida no voto do ministro Gilmar Mendes no julgamento do HC de Lula— , tem-se que, para vingarem as prisões determinadas sem fundamentação, será necessário que o STF construa nova maioria, obrigando o próprio ministro Fachin a endurecer ainda mais o seu voto.

Somente se o Supremo Tribunal tiver seis votos pela automaticidade é que, por exemplo, a prisão de Lula poderá ser mantida. Só que disso surge um problema. Se o STF assim decidir, qualquer decisão de segundo grau ou decisões em instância única (prefeitos, deputados) acarretarão —sempre— prisão direta, sem choro nem vela. Esses são os danos colaterais. Todos serão presos.

Restará, então, o consolo, recordando o abade Arnoldo de Amaury: "Prendam-nos todos; a deusa da Justiça saberá cuidar dos seus". Afinal, todo condenado é um herege jurídico. A Constituição, a bíblia do Direito, já não o protege.

Boaventura Sousa Santos

Eis a Guerra Fria, no século 21

O bombardeio de alvos sírios onde supostamente se produzem ou armazenam armas químicas supostamente usadas pelo governo de Bashar al-Assad contra os rebeldes deixou os cidadãos do mundo confusos, num misto de perplexidade e de ceticismo. Apesar do bombardeio (imagem apropriada no caso) midiático dos meios de comunicação ocidentais, tentando convencer a opinião pública das mais recentes atrocidades do regime de Bashar Al-Assad; apesar da quase unanimidade dos comentaristas políticos de que se tratou de uma intervenção humanitária, de uma punição justa e de mais uma prova da vitalidade da “aliança ocidental”; apesar de tudo isto, os cidadãos do mundo ocidental (dos outros nem se fala), sempre que consultados, mostraram as suas dúvidas a respeito da narrativa midiática e manifestaram-se majoritariamente contra os ataques. Por que?

As consequências

Porque os cidadãos minimamente informados têm uma memória mais apurada que os comentaristas e porque, sem serem peritos sobre as causas destes atos bélicos, são peritos no conhecimento das suas consequências, algo que escapa sempre às contas dos ditos comentaristas. Lembram-se que em 2003 a invasão do Iraque foi justificada pela existência de armas de destruição em massa, que se provou mais tarde não existirem. Lembram-se que as fotos que na altura foram mostradas eram fotomontagens para dar credibilidade à mentira. Lembram-se que, tal como agora, o ataque foi feito na véspera de chegar ao país uma comissão independente de peritos para averiguar a existência ou não de tais armas. Lembram-se que essa mentira deixou no terreno um milhão de mortos, um país destruído e rendeu lucrativos contratos de reconstrução entregues a empresas norte-americanas (Halliburton, por exemplo) e de exploração do petróleo às empresas petrolíferas ocidentais. Lembram-se que em 2011 a mesma aliança destruiu a Líbia, tornou-a um antro de terroristas e de negociantes de tráfico de refugiados e emigrantes e rendeu o mesmo tipo de lucrativos contratos. Lembram-se que a guerra da Síria já causou 500 mil mortos, 5 milhões de refugiados e 6 milhões de pessoas deslocadas no interior do país. E sobretudo, talvez pela misteriosa astúcia da razão de que falava Hegel, lembram-se do que lhes não é dito pela mídia. Lembram-se que naquela região estão em curso dois genocídios perpetrados por terrorismo de Estado de que quase não se fala porque os Estados agressores são “nossos” aliados: o genocídio dos iemenitas pela Arábia Saudita e o dos palestinos por Israel.

Estas são as consequências mais visíveis. Mas há outras vítimas de que o cidadão comum tem uma ideia mais vaga, uma suspeita que por vezes não é mais que um mal-estar. Saliento três. A primeira vítima é o direito internacional que foi mais uma vez violado, uma vez que tais intervenções bélicas só são legítimas em caso de legítima defesa ou sob mandato do Conselho de Segurança da ONU, condições que não se verificaram. Os tratados bilaterais e multilaterais estão a ser deitados no lixo um atrás do outro, ao mesmo tempo que as guerras comerciais se acirram cada vez mais. Estamos entrando numa nova Guerra Fria com menos regras e mais mortes inocentes? Estamos a caminho de uma terceira guerra mundial? Onde estará a ONU para a evitar pela via diplomática? Pode esperar-se outra coisa de países como a Rússia, a China ou o Irã senão que se afastem ainda mais dos países ocidentais e do falso multilateralismo destes e que organizem as suas próprias alternativas de cooperação?

A segunda vítima são os direitos humanos. A hipocrisia ocidental atingiu o paroxismo: a destruição militar de países e a morte de populações inocentes tornou-se o único meio de promover os direitos humanos. Aparentemente, deixou de haver outros meios de promover os direitos humanos senão violando-os. A democracia de tipo ocidental não sabe florescer senão nas ruínas. A terceira vítima é a “guerra contra o terrorismo”. Ninguém de boa vontade pode concordar com a morte de vítimas inocentes em nome de qualquer objetivo político ou ideológico, e muito menos os países que desde há vinte anos têm dado total prioridade à guerra contra o terrorismo, os EUA e seus aliados. Sendo assim, como se pode compreender que estejam sendo financiados e armados pelas potências ocidentais grupos de rebeldes da Síria que são reconhecidamente organizações terroristas e que, tal como Bashar al-Assad, usaram no passado armas químicas contra populações inocentes? Refiro-me particularmente à frente al-Nusra, conhecida como a Al Qaeda da Síria, um grupo extremista salafista que quer implantar um Estado islâmico. Aliás, o mais fiel aliado dos EUA, a Arábia Saudita, é quem tem sido acusado mais frequentemente por instituições norte-americanas de financiar grupos extremistas e terroristas. Quais são os objetivos ocultos de uma guerra contra o terror que financia e arma terroristas?

As causas

Os cidadãos comuns têm mais dificuldades em identificar as causas porque estas se furtam ao ruído das notícias. É convencional distinguir entre causas próximas e estruturais. Entre as causas próximas, a disputa sobre o gasoduto do gás natural tem sido a mais mencionada. As grandes reservas de gás natural da região do Qatar e Irã têm dois trajetos alternativos para chegar à rica e voraz consumidora Europa: o gasoduto do Qatar através da Arábia Saudita, Jordânia, Síria e Turquia; e o gasoduto do Irã, através do Irã, Iraque e Síria. Por razões geopolíticas, os EUA favorecem o primeiro trajeto e a Rússia, o segundo. Bashar al-Assad também preferiu o segundo por favorecer apenas governos xiitas. A partir de então passou a ser um alvo a abater pelos governos ocidentais. O Major Rob Taylor, professor do US Army´s Command and General Staff College, escreveu no Armed Forces Journal de 21 de Março de 2014: “Visto através de uma lente geopolítica e econômica, o conflito na Síria não é uma guerra civil; é antes o resultado do posicionamento de vários atores internacionais no tabuleiro do xadrez geopolítico, preparando-se para a abertura do gasoduto em 2016”.

As causas estruturais são talvez mais convincentes. Como tenho defendido, estamos num momento de transição entre globalizações do capitalismo. A primeira globalização ocorreu entre 1860 e 1914 e foi dominada pela Inglaterra. A segunda ocorreu entre 1944 e 1971 e foi dominada pelos EUA. A terceira iniciou-se em 1989 está terminando agora. Foi dominada pelos EUA, mas com crescente participação multilateral da Europa e da China. Nos intervalos das globalizações, a rivalidade entre países aspirantes ao domínio aumenta e pode redundar em guerras entre eles ou entre os aliados de cada um. A rivalidade neste momento é entre o EUA, um império em declínio, e a China, um império ascendente. Segundo o estudo “Tendências globais, 2030” do insuspeito National Intelligence Council dos EUA, em 2030 “a Ásia será o motor da economia mundial como foi até 1500” e a China pode vir a tornar-se a primeira economia do mundo.

A rivalidade intensifica-se e não pode ser de enfrentamento direto porque a China é já hoje muito influente na economia interna dos EUA e um credor importante da sua dívida pública. A guerra comercial é fundamental e atinge as áreas de alta tecnologia porque quem dominar estas (a automação ou robótica) dominará a próxima globalização. Os EUA só investem em tratados que possam isolar a China.

Como a China é já demasiado forte, tem de ser enfrentada através dos seus aliados. O mais importante é a Rússia, e os acordos recentes entre os dois países preveem transações comerciais, sobretudo de petróleo, não denominadas em dólares, uma ameaça fatal para a moeda de reserva internacional. A Rússia em caso algum poderia vangloriar-se de uma vitória na Síria (uma vitória contra os extremistas terroristas, diga-se de passagem), uma vitória que esteve a ponto de obter devido ao suposto desnorte da política de Obama ao não incluir a Síria na lista das prioridades. Por isso, os EUA precisavam encontrar um pretexto para regressar à Síria e continuar a guerra por mais alguns anos, como acontece no Iraque e no Afeganistão. A Coreia do Norte é outro aliado e tem de ser hostilizado de modo a embaraçar a China. Finalmente, a China, como todos os impérios ascendentes, investe em (falsos) multilateralismos e por isso responde à guerra comercial com abertura comercial.

Mas além disso tem investido concretamente em acordos multilaterais limitados que visam criar alternativas ao domínio econômico e financeiro norte-americano. O mais importante desses acordos foi o Brics que incluía, além da China e Rússia, a Índia, a África do Sul e o Brasil. Os Brics chegaram a criar um Banco Mundial alternativo. Era preciso neutralizá-los. A Índia desinteressou-se do acordo desde que o presidente Narenda Modi chegou ao poder. O Brasil era o parceiro particularmente estratégico porque se articulava, ainda que relutantemente, com uma alternativa mais radical que emergira na América Latina por iniciativa de alguns governos progressistas, com destaque para a Venezuela de Hugo Chávez. Refiro-me à Alba, Unasur, e Celac, um conjunto de acordos político-comerciais que visavam libertar a América Latina e o Caribe da secular tutela dos EUA.

O país mais vulnerável dos Brics, talvez porque o mais democrático de todos eles, era o Brasil. A sua neutralização iniciou-se com o golpe institucional contra a presidente Dilma Rousseff e continuou com a prisão ilegal de Lula da Silva e o desmonte de todas as políticas nacionalistas empreendidas pelos governos do PT. Curiosamente, na África do Sul, Jacob Zuma, sem dúvida um líder corrupto e entusiasta dos Brics, foi substituído por Cyril Ramaphosa, um dos homens mais ricos da África (menos corrupto que Zuma?) e adepto incondicional do neoliberalismo global. A Cúpula das Américas que teve lugar em Lima, nos passados dias 13 e 14 de Abril, foi uma peça geopolítica muito importante neste contexto. A participação da Venezuela foi vetada e, segundo o El Pais (edição brasileira) de 15 de Abril, a reunião selou o fim da América bolivariana. O fortalecimento da influência dos EUA na região está bem patente no modo como foi criticada pela delegação norte-americana a crescente influência da China no continente.

Por tudo isto, a guerra na Síria é parte de um jogo geopolítico bem mais amplo e de futuro muito incerto.

Slavoj Zizek

Marx hoje: o fim está próximo... apenas não da forma que imaginávamos

"E a única maneira de permanecer fiel a Marx hoje não é mais ser um “marxista”, mas repetir o gesto fundador de Marx de uma nova maneira", escreve o filósofo esloveno Slavoj Zizek, em artigo publicado por Philosophical Salon, e reproduzido por Lavra Palavra. A tradução é de Daniel Alves Teixeira /IHU

Existe uma velha e deliciosa piada soviética sobre a rádio Yerevan: um ouvinte pergunta “É verdade que Rabinovitch ganhou um carro novo na loteria?”, e o rádio responde: “Em princípio sim, é verdade, somente não era um carro novo mas uma bicicleta velha, e ele não ganhou, ela foi roubada dele. ” Será que exatamente o mesmo não vale para o destino dos ensinamentos de Marx hoje, 200 anos depois de seu nascimento?

Vamos perguntar à rádio Yerevan: “Marx ainda é atual hoje?” Podemos adivinhar a resposta: em princípio sim, ele descreve maravilhosamente a dança louca da dinâmica capitalista que atingiu o seu pico apenas nos dias atuais, mais de um século e meio depois, mas… Gerald A. Cohen enumerou as quatro características da noção marxista clássica da classe trabalhadora: 1) ela constitui a maioria da sociedade; 2) ela produz a riqueza da sociedade; 3) ela consiste nos membros explorados da sociedade; 4) seus membros são as pessoas necessitadas na sociedade.

Quando essas quatro características são combinadas, eles geram duas outras características: 5) a classe trabalhadora não tem nada a perder com uma revolução; 6) ela pode e vai se envolver em uma transformação revolucionária da sociedade.

Nenhum dos quatro primeiras se aplica à classe trabalhadora de hoje, e é por isso que as características (5) e (6) não podem ser geradas. (Mesmo que algumas das características continuem a se aplicar a partes da sociedade de hoje, elas não estão mais unidas em um único agente: as pessoas necessitadas na sociedade não são mais os trabalhadores, etc.)

O impasse histórico do marxismo reside não apenas no facto de que ele contava com a perspectiva da crise final do capitalismo, e portanto não conseguiu compreender como o capitalismo saiu de cada crise fortalecido. Há um erro muito mais trágico no corpo clássico do marxismo, descrito em termos precisos por Wolfgang Streeck : O marxismo estava certo sobre a “crise final” do capitalismo; nós estamos claramente entrando nela hoje, mas esta crise é apenas isso, um processo prolongado de decadência e desintegração, sem nenhum Aufhebung hegeliano fácil à vista, nenhum agente para dar a esta decadência uma reviravolta positiva e transformá-la em uma passagem para algum nível superior de organização social:

“É um preconceito marxista – ou melhor: modernista – que o capitalismo como uma época histórica só terminará quando uma nova e melhor sociedade estiver à vista, e um sujeito revolucionário pronto para implementá-la para o avanço da humanidade. Isso pressupõe um grau de controle político sobre nosso destino comum com o qual não podemos sequer sonhar após a destruição da ação coletiva e, mesmo da esperança para isso, na revolução globalista neoliberal.”

A visão de Marx era a de uma sociedade gradualmente se aproximando de sua crise final, uma situação na qual a complexidade da vida social é simplificada em um grande antagonismo entre capitalistas e a maioria proletária. No entanto, mesmo uma rápida olhada nas revoluções comunistas do século XX deixa claro que essa simplificação nunca ocorreu: os movimentos comunistas radicais foram sempre constrangidos a uma minoria de vanguarda e, para ganhar hegemonia, tiveram que esperar pacientemente por uma crise (geralmente uma guerra) que forneceu uma janela estreita de oportunidade. Em tais momentos, uma autêntica vanguarda pode tomar o dia, mobilizar as pessoas (mesmo que não a maioria) e assumir o controle. Os comunistas eram aqui sempre completamente “não dogmáticos”, prontos para serem parasitas em alguma outra questão: terra e paz na Rússia, libertação nacional e unidade contra a corrupção na China… Eles estavam sempre bem conscientes de que a mobilização acabaria logo, e estavam cuidadosamente preparando o aparato de poder para mantê-los no poder nesse momento. (Em contraste com a Revolução de Outubro que explicitamente tratou os camponeses como aliados secundários, a revolução chinesa nem sequer fingia ser proletária: ela endereçava diretamente os agricultores como sua base.)

O problema do marxismo ocidental (e mesmo do marxismo como tal) era a ausência do sujeito revolucionário: como é que a classe trabalhadora não completa a passagem do em si para o para-si e constitui a si mesma como um agente revolucionário? Esse problema forneceu a principal razão de ser da referência à psicanálise que foi evocada justamente para explicar os mecanismos libidinais inconscientes que impedem o surgimento da consciência de classe inscrita no próprio ser (situação social) da classe trabalhadora.

Deste modo, a verdade da análise socioeconómica marxista era salva; não havia razão para dar fundamento às teorias “revisionistas” sobre a ascensão das classes médias, etc. Por essa mesma razão, o marxismo ocidental também estava em busca constante por outros atores sociais que pudessem desempenhar o papel de agente revolucionário, como o dublê substituto da classe trabalhadora indisposta: camponeses do Terceiro Mundo, estudantes e intelectuais, os marginais excluídos …

A versão mais recente dessa ideia refere-se aos refugiados: somente o influxo de um número realmente grande de refugiados pode revitalizar a esquerda radical europeia. Essa linha de pensamento é completamente obscena e cínica. Não obstante o fato de que tal desenvolvimento certamente daria um impulso imenso à brutalidade anti imigrante, o aspecto verdadeiramente louco dessa ideia é o projeto de preencher a lacuna dos proletários desaparecidos ao importá-los do exterior, para que então pudéssemos ter a revolução por um agente revolucionário substituto e terceirizado.

O fracasso da classe trabalhadora como sujeito revolucionário já está no cerne da revolução bolchevique. A arte de Lenin era detectar o “potencial de fúria” (Sloterdijk) dos camponeses desapontados. A Revolução de Outubro venceu devido ao slogan “terra e paz”, endereçado à vasta maioria camponesa, aproveitando o curto momento de sua insatisfação radical. Lenin já pensava por essas linhas uma década antes, motivo pelo qual ficou horrorizado com a perspectiva do sucesso da reforma agrária de Stolypin, que visava criar uma nova classe forte de agricultores independentes. Ele escreveu que se Stolypin tivesse sucesso, a chance de uma revolução estaria perdida por décadas.

Todas as revoluções socialistas bem-sucedidas, de Cuba à Iugoslávia, seguiram esse modelo, aproveitando a oportunidade em uma situação crítica extrema, cooptando a libertação nacional ou outros “capitais de fúria”. Obviamente, aqui, um partidário da lógica hegemónica indicaria que essa é a própria lógica “normal” da revolução, que a “massa crítica” é alcançada precisamente e somente através de uma série de equivalências entre múltiplas demandas que são sempre radicalmente contingentes e dependentes de um conjunto específico, mesmo único, de circunstâncias. Uma revolução nunca ocorre quando todos os antagonismos colapsam no Grande único, mas quando eles combinam sinergeticamente seus poderes.

A questão não é apenas que a revolução não segue mais o curso da História, seguindo suas Leis, uma vez que não há História, já que a história é um processo aberto contingente. O problema é diferente: é como se houvesse uma Lei da História, uma linha principal de desenvolvimento histórico mais ou menos clara, e que a revolução somente poderia ocorrer em seus interstícios, “contra a corrente”. Os revolucionários têm que esperar pacientemente pelo período de tempo (geralmente muito breve) em que o sistema abertamente falha ou colapsa, para aproveitar a janela de oportunidade, tomar o poder que naquele momento estava nas ruas, está em disputa, e então fortalecer seu domínio no poder, construindo aparelhos repressivos, etc., de modo que, uma vez terminado o momento de confusão e a maioria fique sóbria e desapontada com o novo regime, será tarde demais para se livrar dele, dado seu firme entrincheiramento.

Os comunistas também sempre calcularam cuidadosamente o momento certo de parar a mobilização popular. Vejamos o caso da Revolução Cultural Chinesa que, sem dúvida, continha elementos de uma utopia actuada. Em seu momento final, antes que a agitação fosse bloqueada pelo próprio Mao (já que ele já alcançara seu objetivo de restabelecer seu poder total e de se livrar da principal competição da nomenclatura), ocorreu a “Comuna de Xangai”: um milhão de trabalhadores que simplesmente tomou os slogans oficiais a sério, exigindo a abolição do Estado e até do próprio Partido, e querendo uma organização comunal directa da sociedade. É significativo que foi nesse exato momento que Mao ordenou que o exército interviesse e restaurasse a ordem. O paradoxo é o de um líder que desencadeia uma sublevação descontrolada, enquanto tenta exercer o poder pessoal total – a sobreposição da extrema ditadura e da extrema emancipação das massas.

A questão sobre a continuidade da relevância da crítica de Marx à economia política em nossa era do capitalismo global deve ser então respondida de uma maneira propriamente dialética: não apenas a crítica de Marx à economia política, seus contornos da dinâmica capitalista, ainda são totalmente atuais, mas deve-se também dar um passo à frente e afirmar que é apenas hoje, com o capitalismo global, que, em termos hegelianos, a realidade chegou ao seu conceito. Entretanto, uma inversão propriamente dialética intervém aqui: neste exato momento de plena atualidade a limitação tem que aparecer, o momento do triunfo é o da derrota. Depois de superar os obstáculos externos, a nova ameaça vem de dentro, sinalizando inconsistências imanentes. Quando a realidade alcança plenamente seu conceito, esse conceito em si precisa ser transformado. Aí reside o paradoxo propriamente dialético: Marx não estava simplesmente errado, ele estava certo na maior parte das vezes, mas mais literalmente do que ele próprio esperava estar.

Então qual é o nosso resultado? Devemos descartar os textos de Marx como um documento interessante do passado e nada mais? Em um paradoxo dialético, os próprios impasses e fracassos do comunismo do século XX, impasses que eram claramente alicerçados nas limitações da visão de Marx, ao mesmo tempo testemunham a sua atualidade: a solução marxista clássica fracassou, mas o problema permanece. O comunismo não é hoje o nome de uma solução, mas o nome de um problema, o problema dos comuns em todas as suas dimensões – os comuns da natureza como a substância de nossa vida, o problema de nossos comuns biogenéticos, o problema de nossos bens culturais (“propriedade intelectual”) e, por último mas não menos importante, os comuns como o espaço universal da humanidade do qual ninguém deve ser excluído. Qualquer que seja a solução, ela terá que lidar com esses problemas.

Nas traduções soviéticas, a bem conhecida declaração de Marx a Paul Lafargue “Ce qu’il y de certain, c’est que moi je ne suis pas marxiste” foi traduzida como “se isso é marxismo, então eu não sou marxista”. Este erro traduz perfeitamente a transformação do marxismo num discurso universitário: no marxismo soviético, mesmo o próprio Marx era marxista, participando do mesmo conhecimento universal que compõe o marxismo. O facto de que dele criou o ensinamento mais tarde conhecido como “marxismo” não oferece exceção, e assim sua negação apenas se refere a alguma versão errada específica que se proclama falsamente “marxista”. O que Marx queria dizer era algo mais radical: uma lacuna separa o próprio Marx, o criador que tem uma relação substancial com o seu ensino, dos “marxistas” que seguem este ensinamento. Essa lacuna também pode ser traduzida pela conhecida piada dos irmãos Marx: “Você parece o Emmanuel Ravelli. - Mas eu sou Emmanuel Ravelli. – Então não admira que se pareça com ele.” O cara que é Ravelli não se parece com Ravelli; ele simplesmente é Ravelli. E, da mesma maneira, o próprio Marx não é marxista (um entre os marxistas); ele é o ponto de referência exceptuado da série. É a referência a ele que faz dos outros marxistas. E a única maneira de permanecer fiel a Marx hoje não é mais ser um “marxista”, mas repetir o gesto fundador de Marx de uma nova maneira.

Edição 137 Abril 2018

Chantal Mouffe

Populismo de esquerda no Reino Unido

Com Jeremy Corbyn, “os trabalhistas conseguiram devolver o gosto pela política àqueles que a haviam abandonado com Blair e atrair cada vez mais jovens. Isto prova que, contra o que afirmam muitos cientistas políticos, os partidos políticos não se tornaram obsoletos e que, ao se articular com os movimentos sociais, podem se renovar. É a conversão da social-democracia ao neoliberalismo o que está na origem do descontentamento de seus eleitores”, escreve a cientista política Chantal Mouffe, em artigo publicado por Página/12, 23-04-2018. A tradução é do Cepat /IHU. Eis o artigo.

A crise da social-democracia europeia está confirmada. Após os fracassos do Pasok, na Grécia, do PvdA nos Países Baixos, do PSOE na Espanha, do SPÖ na Áustria, do SPD na Alemanha e do PS na França, o PD obteve o pior resultado de sua história na Itália. A única exceção a este desastroso panorama se encontra na Grã-Bretanha, onde o Partido Trabalhista, dirigido por Jeremy Corbyn, está em pleno crescimento. Com quase 600.000 filiados, o Trabalhista é hoje o maior partido de esquerda na Europa.

O que fez Corbyn, que surpreendentemente foi eleito como líder do partido em 2015, para conseguir esta proeza?

Após uma tentativa por parte da direita do partido de o retirar, em 2016, o momento decisivo na consolidação de sua liderança foi o forte crescimento do Partido Trabalhista nas eleições de junho de 2017. Enquanto as pesquisas davam aos conservadores uma vantagem de 20 pontos, o Partido Trabalhista conquistou 32 cadeiras, conseguindo fazer com que os ‘tories’ perdessem a maioria absoluta. A estratégia desenvolvida nessas eleições é a chave do êxito de Corbyn.

Isto se deve a dois fatores principais. Primeiro, um manifesto radical, em linha com a rejeição à austeridade e as políticas neoliberais, por parte de importantes setores da sociedade britânica. Depois, a formidável mobilização organizada por Momentum, o movimento criado em 2015 para apoiar a candidatura de Corbyn.

Inspirado nos métodos de Bernie Sanders nos Estados Unidos, assim como nos novos agrupamentos radicais europeus, Momentum aproveitou inúmeros recursos digitais para estabelecer vastas redes de comunicação que permitiram aos militantes e a muitos voluntários saber em quais distritos era necessário ir conversar com os eleitores de porta em porta. Foi esta mobilização inesperada que conduziu ao erro de todos os prognósticos.

Mas, tudo isto foi possível graças ao entusiasmo que o conteúdo de seu programa despertou. Com o título For the many, not the few (para a maioria, não para uns poucos), utilizou um lema que já havia sido utilizado pelo partido, mas com um novo significado para estabelecer uma fronteira política entre um “nós” e um “eles”. Desta maneira, buscava-se repolitizar o debate e oferecer uma alternativa ao neoliberalismo instaurado por Margaret Thatcher e continuado por Tony Blair.

As principais propostas do programa foram a renacionalização dos serviços públicos, como as ferrovias, a energia, a água e o correio, o freio ao processo de privatização do Serviço Nacional de Saúde e ao sistema escolar, a abolição das tarifas de inscrição na universidade e um aumento significativo dos subsídios sociais. Tudo apontava para uma clara ruptura com a concepção da terceira via do Novo Trabalhismo.

Enquanto este último havia substituído a luta por igualdade pela liberdade de “escolher”, o manifesto reafirmou que o Trabalhista era o partido da igualdade. O outro ponto destacado foi a insistência no controle democrático, colocando-se o acento na natureza democrática das medidas propostas para criar uma sociedade mais igualitária. A intervenção do Estado foi reivindicada, mas com o papel de criar as condições que permitissem aos cidadãos assumir o controle dos serviços públicos e os administrar.

A insistência na necessidade de aprofundar a democracia é uma das características centrais do projeto de Corbyn. Isto ressoa muito particularmente no espírito que inspira Momentum, que defende o estabelecimento de estreitos vínculos com os movimentos sociais. E explica a centralidade atribuída à luta contra todas as formas de dominação e discriminação, tanto nas relações econômicas como em outras áreas, como as lutas feministas, antirracistas e LGBT.

É a articulação das lutas sociais com as que se relacionam com outras formas de dominação o que está no coração da estratégia de Corbyn e é por isso que pode ser qualificada como “populismo de esquerda”. O objetivo é estabelecer uma sinergia entre as diversas lutas democráticas que atravessam a sociedade britânica e transformar o Partido Trabalhista em um grande movimento popular capaz de construir uma nova hegemonia.

É claro que a realização de um projeto como este significaria para a Grã-Bretanha uma mudança tão radical, ainda que de sentido oposto, como a realizada com Margaret Thatcher. Certamente, o combate em reinvestir o Trabalhismo ainda não foi vencido e a luta interna continua com os partidários de Blair. Os oponentes de Corbyn desdobram múltiplas manobras para tentar desacreditá-lo, a última consiste em o acusar de tolerar o antissemitismo dentro do partido.

As tensões também existem entre os partidários de uma concepção mais tradicional do Trabalhismo e os partidários da “nova política”. Contudo, estes estão se impondo e as relações de força jogam a seu favor. Em comparação a outros movimentos como Podemos ou França Insubmissa, a vantagem de Corbyn consiste em que está na cabeça de um grande partido e conta com o apoio dos sindicatos.

Sob sua condução, os trabalhistas conseguiram devolver o gosto pela política àqueles que a haviam abandonado com Blair e atrair cada vez mais jovens. Isto prova que, contra o que afirmam muitos cientistas políticos, os partidos políticos não se tornaram obsoletos e que, ao se articular com os movimentos sociais, podem se renovar. É a conversão da social-democracia ao neoliberalismo o que está na origem do descontentamento de seus eleitores.

Quando é oferecido aos cidadãos a perspectiva de uma alternativa e contam com a possibilidade de participar de um debate agonístico real, eles se mostram ansiosos em fazer ouvir suas vozes. Contudo, isto requer abandonar a concepção tecnocrática da política, que a reduz à gestão de problemas técnicos, e reconhecer seu caráter partidário.

Boaventura Sousa Santos e outros

'Aliança entre neoliberalismo internacional e conservadores locais é algoz da democracia no Brasil'

O Brasil vive uma profunda crise democrática de seu modelo liberal. O capitalismo, na verdade, nunca foi compatível com a democracia e a agenda dominante hoje é o contra-reformismo democrático. O algoz da democracia, no caso brasileiro, é a aliança entre o neoliberalismo internacional e o conservadorismo histórico das elites do país. A avaliação foi feita pelo sociólogo português Boaventura de Souza Santos, nesta quinta-feira (11), em Lisboa, no Colóquio “Do liberal-democratismo ao risco do totalitarismo”, promovido pelo Instituto Novos Paradigmas (INP), pelo Centro de Estudos Sociais (CES) da Universidade de Coimbra e pela Fundação José Saramago (FJS). A reportagem é de Sandra Bitencourt, publicada por Sul21, 12-04-2018

O debate de quatro horas e meia entre intelectuais, acadêmicos e lideranças do Brasil, Portugal e Espanha, reuniu além de Boaventura, nomes como o ex-ministro Tarso Genro, o pré-candidato à presidência do Brasil pelo PSOL, Guilherme Boulos, a deputada portuguesa do Bloco de Esquerda, Joana Mortágua, o deputado português do Partido Socialista Pedro Vasconcelos, os professores Antonio Baylos, Manoel Carvalho, Francisco Louçã, Pablo Gentili, Carol Proner e Juarez Guimarães.

Na mesma linha do pensamento de Boaventura, Juarez Guimarães assinalou que o liberalismo social keynesiano foi deslocado do pensamento das classes dominantes. “Vivemos uma crise civilizatória, uma crise de época”, resumiu. Guilherme Boulos falou sobre a situação política brasileira e foi enfático ao destacar que “a liberdade de Lula é a batalha dos setores democráticos contra o arbítrio”.

Tarso Genro enfatizou que a crise do liberal-democratismo e da representação política permite violações constitucionais permanentes contra os direitos fundamentais e contra as conquistas sociais e econômicas que repousam na própria constituição democrática. O propósito de colóquio foi discutir por que que isto está acontecendo, quais são os limites dessa torção da constituição e como unificar um vasto campo democrático que inclua as formações de esquerda todas no centro dessa articulação para fazer uma contra-ofensiva política ao projeto neoliberal e contra s distorções autoritárias que ocorrem hoje nas democracias contemporâneas.

“Esta ocorrência não é só brasileira, mas sim latino-americana e também envolve muitos países europeus e são os dois debates que estamos fazendo para contribuir com a reflexão. Eles não têm nenhuma conclusão “unitária”, nenhuma vontade de concentrar ou dirigir quaisquer formações políticas, mas levar para dentro dos partidos democráticos de esquerda e de centro-esquerda, reflexões importantes que normalmente os países, os partidos internamente não estão fazendo”, afirmou o ex-governador do Rio Grande do Sul.

Os diretores do INP, Jorge Branco e Paulo Petri, também apresentaram análises sobre as condições de desdemocratização no Brasil e a judicialização da política. Para Petri, a judicialização é uma prática estratégica de disputa política, que resulta em ativismo judicial e transforma o aparato judiciário em um “player” do jogo político. “Sem cerimônia ocorre a supressão de direitos, o vazamento seletivo , a expressão de opiniões sobre as disputas políticas”, disse.

Jorge Branco apontou evidências empíricas para comprovar que vivemos um processo efetivo de alteração de regime político no país, não um fenômeno meramente conjuntural ou momentâneo. De acordo com o sociólogo, está em curso no país um processo de desdemocratização, carectarizado em seis evidências:

“1. A eleição geral teve seu resultado alterado pelo impeachment, ou seja, a ideia da vontade soberana do eleitor foi excluída;

2) depois do impeachment o país viveu uma eleição municipal que sofreu uma terrível interferência política do aparato estatal e da mídia que não nos permite mais falar em eleições livres e justas no país;

3) o aparato judicial policial é discricionário no exercício das suas funções públicas, portanto, nós não podemos hoje falar numa liberdade de expressão universal, já que há perseguição a uma opinião;

4) não há no Brasil mais diversificação das opiniões;

5) há um processo de perseguição aos movimentos sociais, aos movimentos populares por parte do aparto policial estatal brasileiro, portanto, não se pode falar mais em livre associação;

6) como resultado desse processo persecutório, discriminatório, não se pode tampouco mais falar na ideia de inclusividade universal no sistema político. Há uma parte que é vítima de exclusão do processo.

É evidente que nós do PT, em especial o lulismo como fenômeno político, temos que fazer uma autocrítica desse processo”, firmou Branco.

Claudia Fanti /Il Manifesto /IHU

Um adesivo ideal para libertar os mais necessitados

A obra de Ignácio Martín Baró

"Uma tarefa que o jesuíta considerava possível, no entanto, apenas a partir de uma libertação da própria psicologia, geralmente pouco clara sobre a 'relação entre alienação pessoal e opressão social, como se a patologia das pessoas fosse algo alheio à história e à sociedade ou como se o sentido dos distúrbios do comportamento se esvaziasse no plano individual'", escreve Claudia Fanti, em Il manifesto, 3-4-2018. Tradução de Luisa Rabolini

No quinquagésimo aniversário da Conferência do Episcopado latino-americano em Medellín, verdadeiro ato de nascimento de uma Igreja autóctona libertadora e profética, a publicação da obra de Ignácio Martín Baró - um dos jesuítas da UCA (Universidade da América Central em San Salvador) assassinados em 16 de novembro de 1989 pelas forças armadas salvadorenhas - não poderia ser mais oportuna. Ainda mais porque, com seu livro Psicologia della Liberazione (Psicologia da libertação, Bordeaux, pp. 320, € 18), os dois curadores, Mauro Cruz e Felice Di Lernia, propõem-se lançar um debate sobre uma nova maneira de exercer a psicologia, dentro daquele horizonte da libertação proposto 50 anos atrás por Medellín a partir a denúncia da miséria coletiva como "injustiça que clama aos céus".

Se o convite dos bispos para reler a realidade no reverso da história traduziu-se especificamente na teologia da libertação, entendida como uma reflexão que surge a partir da prática e resulta em uma ação transformadora da realidade, tal pensamento crítico em seguida sai do âmbito eclesial para investir e atravessar muitos outros saberes, que encontram naquele horizonte da libertação, como evidencia Mauro Croce, "um adesivo perfeito, teórico, metodológico e até mesmo utópico": da pedagogia dos oprimidos de Paulo Freire ao teatro do oprimido de Augusto Boal, até à filosofia da libertação de Enrique Dussel. E, justamente, essa psicologia da libertação de que Martín Baró é unanimemente reconhecido como o fundador, direcionada a resgatar as massas populares contra a exploração econômica, a miséria social e a opressão política, contribuindo a construir um ser humano novo em uma sociedade nova.

Uma tarefa que o jesuíta considerava possível, no entanto, apenas a partir de uma libertação da própria psicologia, geralmente pouco clara sobre a "relação entre alienação pessoal e opressão social, como se a patologia das pessoas fosse algo alheio à história e à sociedade ou como se o sentido dos distúrbios do comportamento se esvaziasse no plano individual". Para Martín Baró, pelo contrário, "é a estrutura sócio-histórica que configura o caráter. Ou seja, cada indivíduo tem o caráter que tem porque assim lhe foi “atribuído” pela estrutura sócio-histórica". Assim como “masculinidade e feminilidade são, basicamente, um produto sociocultural, não um dado biológico". Apenas uma psicologia "libertada" pode então se transformar em um modelo de intervenção para os oprimidos, promovendo uma transição de um sentimento de impotência e de resignação, de um fatalismo pessimista entendido como introjeção da dominação social, para a consciência de poder inferir no próprio destino, muito além, explica Cruz, daquele conceito de bem-estar individual dominante na presente fase histórica, cada vez mais distante de uma "ideia e de um planejamento compartilhados", e colocado em uma moldura consumista em que “não pode que resultar competitivo com aquele dos demais”.

Se a psicologia, destaca Martín Baró, quer se colocar ao serviço da causa da libertação dos povos latino-americanos, no entanto, não deverá apenas reconsiderar a sua bagagem teórica e prática, mas terá de fazê-lo a partir de baixo, da vida, dos sofrimentos, das aspirações e lutas dos povos oprimidos, do ponto de vista dos dominados em vez daquele dos dominadores. Onde falar de ponto de vista significa que "não se trata de pensar nós por eles, de transmitir-lhes os nossos esquemas ou de resolvermos os seus problemas; se trata de pensar e teorizar nós junto com eles e a partir deles". E isso significa tentar "pensar na psicologia educacional a partir da perspectiva do analfabeto”, “a psicologia clínica a partir da perspectiva do marginalizado" e, em especial, “a psicologia do trabalho a partir da perspectiva do desempregado” a fim de avaliar o que fazer "para que sua personalidade não se desintegre ou para que a sua vida e até mesmo a vida de comunidades inteiras não existam sem outro horizonte ou projeto que o da mera sobrevivência diária". Uma psicologia do sem-trabalho, da qual, como comenta Felice Di Lernia, em um contexto como o italiano não é possível não sentir falta.

Boaventura Sousa Santos

O Colonialismo e o século XXI

(Para Marielle Franco, in memoriam)

O termo alemão Zeitgeist é hoje usado em diferentes línguas para designar o clima cultural, intelectual e moral de uma dada época, literalmente, o espírito do tempo, o conjunto de crenças e de ideias que compõem a especificidade de um período histórico. Na Idade Moderna, dada a persistência da ideia do progresso, uma das maiores dificuldades em captar o espírito de uma dada época reside em identificar as continuidades com épocas anteriores, quase sempre disfarçadas de descontinuidades, inovações, rupturas.

E para complicar ainda mais a análise, o que permanece de períodos anteriores é sempre metamorfoseado em algo que simultaneamente o denuncia e dissimula e, por isso, permanece sempre como algo diferente do que foi sem deixar de ser o mesmo. As categorias que usamos para caracterizar uma dada época são demasiado toscas para captar esta complexidade, porque elas próprias são parte do mesmo espírito do tempo que supostamente devem caracterizar a partir de fora. Correm sempre o risco de serem anacrônicas, pelo peso da inércia, ou utópicas, pela leveza da antecipação.

Tenho defendido que vivemos em sociedades capitalistas, coloniais e patriarcais, por referência aos três principais modos de dominação da era moderna: capitalismo, colonialismo e patriarcado ou, mais precisamente, hetero-patriarcado. Nenhuma destas categorias é tão controversa, quer entre os movimentos sociais, quer na comunidade científica, quanto a de colonialismo. Fomos todos tão socializados na ideia de que as lutas de libertação anti-colonial do século XX puseram fim ao colonialismo que é quase uma heresia pensar que afinal o colonialismo não acabou, apenas mudou de forma ou de roupagem, e que a nossa dificuldade é sobretudo a de nomear adequadamente este complexo processo de continuidade e mudança. É certo que os analistas e os políticos mais avisados dos últimos cinquenta anos tiveram a percepção aguda desta complexidade, mas as suas vozes não foram suficientemente fortes para pôr em causa a ideia convencional de que o colonialismo propriamente dito acabara, com exceção de alguns poucos casos, os mais dramáticos sendo possivelmente o Sahara Ocidental, a colônia hispano-marroquina que continua subjugando o povo saharaui e a ocupação da Palestina por Israel. Entre essas vozes, é de salientar a do grande sociólogo mexicano Pablo Gonzalez Casanova com o seu conceito de colonialismo interno para caracterizar a permanência de estruturas de poder colonial nas sociedades que emergiram no século XIX das lutas de independência das antigas colônias americanas da Espanha. E também a voz do grande líder africano, Kwame Nkrumah, primeiro presidente da República do Gana, com o seu conceito de neocolonialismo para caracterizar o domínio que as antigas potências coloniais continuavam a deter sobre as suas antigas colônias, agora países supostamente independentes.

Uma reflexão mais aprofundada dos últimos 60 anos leva-me a concluir que o que quase terminou com os processos de independência do século XX foi uma forma específica de colonialismo, e não o colonialismo como modo de dominação. A forma que quase terminou foi o que se pode designar por colonialismo histórico caracterizado pela ocupação territorial estrangeira. Mas o modo de dominação colonial continuou sob outras formas e, se as considerarmos como tal, o colonialismo está talvez hoje tão vigente e violento como no passado. Para justificar esta asserção é necessário especificar em que consiste o colonialismo enquanto modo de dominação. Colonialismo é todo o modo de dominação assente na degradação ontológica das populações dominadas por razões etno-raciais. Às populações e aos corpos racializados não é reconhecida a mesma dignidade humana que é atribuída aos que os dominam. São populações e corpos que, apesar de todas as declarações universais dos direitos humanos, são existencialmente considerados sub-humanos, seres inferiores na escala do ser, e as suas vidas pouco valor têm para quem os oprime, sendo, por isso, facilmente descartáveis. Foram inicialmente concebidos como parte da paisagem das terras “descobertas” pelos conquistadores, terras que, apesar de habitadas por populações indígenas desde tempos imemoriais, foram consideradas como terras de ninguém, terra nullius. Foram também considerados como objetos de propriedade individual, de que é prova histórica a escravatura. E continuam hoje a ser populações e corpos vítimas do racismo, da xenofobia, da expulsão das suas terras para abrir caminho aos megaprojetos mineiros e agroindustriais e à especulação imobiliária, da violência policial e das milícias paramilitares, do tráfico de pessoas e de órgãos, do trabalho escravo designado eufemisticamente como “trabalho análogo ao trabalho escravo” para satisfazer a hipocrisia bem-pensante das relações internacionais, da conversão das suas comunidades de rios cristalinos e florestas idílicas em infernos tóxicos de degradação ambiental. Vivem em zonas de sacrifício, a cada momento em risco de se transformarem em zonas de não-ser.

As novas formas de colonialismo são mais insidiosas porque ocorrem no âmago de relações sociais, econômicas e políticas dominadas pelas ideologias do anti-racismo, dos direitos humanos universais, da igualdade de todos perante a lei, da não-discriminação, da igual dignidade dos filhos e filhas de qualquer deus ou deusa. O colonialismo insidioso é gasoso e evanescente, tão invasivo quanto evasivo, em suma, ardiloso. Mas nem por isso engana ou minora o sofrimento de quem é dele vítima na sua vida quotidiana. Floresce em apartheids sociais não institucionais, mesmo que sistemáticos. Tanto ocorre nas ruas como nas casas, nas prisões e nas universidades como nos supermercados e nos batalhões de polícia. Disfarça-se facilmente de outras formas de dominação tais como diferenças de classe e de sexo ou sexualidade mesmo sendo sempre um componente constitutivo delas. Verdadeiramente só é captável em close-ups, instantâneos do dia-a-dia. Em alguns deles, o colonialismo insidioso surge como saudade do colonialismo, como se fosse uma espécie em extinção que tem de ser protegida e multiplicada. Eis alguns desses instantâneos.

Primeiro instantâneo. Um dos últimos números de 2017 da respeitável revista científica Third World Quarterly, dedicada aos estudos pós-coloniais, incluía um artigo de autoria de Bruce Gilley, da Universidade Estadual de Portland, intitulado “Em defesa do colonialismo”. Eis o resumo do artigo: “Nos últimos cem anos, o colonialismo ocidental tem sido muito maltratado. É chegada a hora de contestar esta ortodoxia. Considerando realisticamente os respectivos conceitos, o colonialismo ocidental foi, em regra, tanto objetivamente benéfico como subjetivamente legítimo na maior parte dos lugares onde ocorreu. Em geral, os países que abraçaram a sua herança colonial tiveram mais êxito do que aqueles que a desprezaram. A ideologia anti-colonial impôs graves prejuízos aos povos a ela sujeitos e continua a impedir, em muitos lugares, um desenvolvimento sustentado e um encontro produtivo com a modernidade. Há três formas de estados fracos e frágeis recuperarem hoje o colonialismo: reclamando modos coloniais de governação; recolonizando certas áreas; e criando novas colônias ocidentais”. O artigo causou uma indignação geral e quinze membros do conselho editorial da revista demitiram-se. A pressão foi tão grande que o autor acabou por retirar o artigo da versão eletrônica da revista, mas permaneceu na versão já impressa. Foi um sinal dos tempos? Afinal, o artigo fora sujeito a revisão anônima por pares. A controvérsia mostrou que a defesa do colonialismo estava longe de ser um ato isolado de um autor tresloucado.

Segundo instantâneo. O Wall Street Journal de 22 de março passado publicou uma reportagem intitulada “Procura de sêmen americano disparou no Brasil”. Segundo a jornalista, a importação de sêmen americano por mulheres solteiras e casais de lésbicas brasileiras ricas aumentou extraordinariamente nos últimos sete anos e os perfis dos doadores selecionados mostram a preferência por crianças brancas e com olhos azuis. E acrescenta: “A preferência por doadores brancos reflete uma persistente preocupação com a raça num país em que a classe social e a cor da pele coincidem com grande rigor. Mais de 50% dos brasileiros são negros ou mestiços, uma herança que resultou de o Brasil ter importado dez vezes mais escravos africanos do que os Estados Unidos; foi o último país a abolir a escravatura, em 1888. Os descendentes de colonos e imigrantes brancos – muitos dos quais foram atraídos para o Brasil no final do século XIX e princípio do século XX quando as elites no governo procuraram explicitamente ‘branquear’ a população – controlam a maior parte do poder político e da riqueza do país. Numa sociedade tão racialmente dividida, ter descendência de pele clara é visto muitas vezes como um modo de providenciar às crianças melhores perspectivas, seja um salário mais elevado ou um tratamento policial mais justo”.

Terceiro instantâneo. Em 24 de março o mais influente jornal da África do Sul, Mail & Guardian, publicou uma reportagem intitulada “Genocídio branco: como a grande mentira se espalhou para os Estados Unidos e outros países”. Segundo o jornalista, “O Suidlanders, um grupo sul-africano de extrema direita, tem estabelecido contato com outros grupos extremistas nos Estados Unidos e na Austrália, fabricando uma teoria da conspiração sobre genocídio branco com o objetivo de conseguir apoio internacional para sul-africanos brancos. O grupo, que se auto-descreve como ‘uma iniciativa-plano de emergência’ para preparar uma minoria sul-africana de cristãos protestantes para uma suposta revolução violenta, tem-se relacionado com vários grupos extremistas (alt-right) e seus influentes contatos midiáticos nos Estados Unidos para erguer uma oposição global à alegada perseguição a brancos na África do Sul… Na semana passada, o, ministro australiano dos Assuntos Internos, disse ao Daily Telegraph que estava considerando a concessão de vistos rápidos para agricultores sul-africanos brancos, os quais, alegava o ministro, precisavam de ‘fugir de circunstâncias atrozes’ para ‘um país civilizado’. Segundo o ministro, os ditos agricultores ‘merecem atenção especial’ por causa de ocupação de terras e violência … Tem também sido dada mais atenção a agricultores sul-africanos brancos na Europa, onde políticos da extrema direita com contatos diretos com a extrema direita (alt-right) nos Estados Unidos têm solicitado ao Parlamento Europeu que intervenha na África do Sul. Agentes políticos contra os refugiados no Reino Unido estão igualmente ligados à causa”.

Edição 136 Março 2018

Stephen Hawking

''Ao ver um rapaz morrer na minha frente, parei de sentir pena de mim''

Muitas vezes me perguntam: como você se sente tendo esclerose lateral amiotrófica? A resposta é: não muito bem. Eu tento levar uma vida o máximo possível normal e não pensar na minha condição, ou não lamentar as coisas que ela não me permite fazer, que, no fim, não são tantas.

Para mim, foi um trauma muito grave quando soube que tinha a doença dos neurónios motores. Quando criança, nunca tive uma grande coordenação motora. Não era bom nos jogos de bola, e talvez foi justamente essa a razão da minha falta de interesse pelos desportos ou pelas atividades físicas. Mas as coisas pareceram mudar quando fui para Oxford. Comecei a ser timoneiro no remo. Certamente, não estava em um nível de competições oficiais, mas me virava bem no nível das disputas entre universidades.

No meu terceiro ano em Oxford, porém, notei que eu parecia ter me tornado mais desajeitado nos movimentos e algumas vezes caí sem qualquer razão aparente. Apenas depois da minha passagem para Cambridge, no ano seguinte, minha mãe se deu conta disso e me levou ao médico de família. Ele me mandou para um especialista e, pouco depois do meu 21º aniversário, fui internado no hospital para exames. Fiquei lá por algumas semanas, durante as quais fui submetido a uma grande variedade de análises. Extraíram uma amostra de músculo de um dos meus braços, aplicaram-me electrodos, injetaram-me um líquido rádio-opaco na espinha dorsal e o observaram nos raios-X subindo e descendo, enquanto inclinavam o leito de vários modos.

No fim, não me disseram o que eu tinha, excepto que não era uma esclerose múltipla, e que eu era um caso atípico. Mas eu me dei conta que eles esperavam que eu continuasse piorando e que não poderiam fazer nada mais do que me administrar vitaminas. Também ficou claro que não esperavam que as vitaminas pudessem fazer muita coisa. Não me perguntaram outros detalhes, já estando claro que eram decididamente desfavoráveis.

A consciência de ter uma doença incurável que provavelmente me mataria em poucos anos foi um trauma para mim. Como era possível que algo desse tipo acontecesse justamente comigo? Por que eu devia ser arrancado daquele modo?

Enquanto eu estava no hospital, porém, vi um rapaz que eu conhecia vagamente morrer de leucemia no leito em frente ao meu. Certamente, não foi um belo espetáculo. Estava claro que havia pessoas que estavam piores do que eu. Pelo menos, minha condição não me fazia sofrer fisicamente.

Toda vez que estou inclinado a sentir pena de mim mesmo, aquele rapaz vem à minha mente. Não sabendo o que aconteceria comigo, nem quão rapidamente a doença progrediria, eu não fazia nada. Os médicos me disseram para voltar para Cambridge e continuar a pesquisa que acabara de começar sobre a relatividade geral e a cosmologia. Mas eu não estava fazendo muitos progressos, porque não tinha uma grande preparação matemática e, em todo o caso, não viveria o suficiente para terminar minha tese de doutorado. Eu me via como personagem de tragédia. Comecei a ouvir Wagner, pois seria um exagero me entregar à bebida.

Naquele tempo, eu tinha muitos pesadelos. Antes de a doença ter sido diagnosticada, eu estava bastante aborrecido com a vida. Parecia-me que não havia nada que valesse a pena fazer. Pouco depois de sair do hospital, porém, sonhei que estava prestes a ser executado. De repente, percebi que havia uma série de coisas importantes que eu poderia ter feito se minha condenação tivesse sido suspensa.

Outro sonho que tive várias vezes foi aquele em que eu sacrificava minha vida para salvar outras pessoas. Afinal, se eu tivesse que morrer de qualquer maneira, minha história também poderia ter alguns aspectos positivos.

Mas eu não morri. Ou, melhor, apesar de uma grande nuvem escura pairar sobre o meu futuro, achei, não sem me surpreender, que estava apreciando a vida mais do que antes. Comecei a fazer progressos na minha pesquisa, noivei e me casei, e obtive uma bolsa de estudos no Caius College, em Cambridge. A bolsa de estudos no Caius resolveu meu problema imediato do emprego. Foi uma sorte que eu tivesse escolhido trabalhar com física teórica, porque esta era uma das poucas áreas em que minha condição não me prejudicaria seriamente. E foi uma sorte que a minha reputação científica crescesse com a piora da minha invalidez.

Elena Llorente, em Página|12. Tradução do Cepat /IHU

Uma Itália anti-sistema, anti-euro e anti-imigração

A Itália não conseguirá formar um governo rapidamente. E isto era mais ou menos previsível, dado os resultados das eleições do domingo, quando nenhum partido conseguiu a maioria. Contudo, o que não se esperava eram os importantes saltos dados por alguns partidos, para trás e para frente, segundo demonstram os dados oficiais destas eleições. Com efeito, o partido mais votado foi o Movimento Cinco Estrelas (M5S), fundado pelo comediante Beppe Grillo e hoje liderado por um jovem de 31 anos, Luigi Di Maio. O M5S passou dos 26%, das eleições de 2013, para os 33%, ontem. Ou seja, teve um crescimento de 7 pontos.

“Hoje, inicia-se a terceira República – disse Di Maio aos jornalistas, como candidato a primeiro-ministro – e será uma república dos cidadãos italianos. O resultado destas eleições foi pós-ideológico, indo além dos esquemas de direita e de esquerda e que se refere aos temas sem resolução que a nação possui”.

Por outro lado, a coligação mais votada foi a de centro-direita (Força Itália de Silvio Berlusconi, a Liga e Irmãos da Itália), que passou dos 31%, em 2013, aos 37%, ontem, ganhando seis pontos. No entanto, desta vez, quem leva a coroa dentro da centro-direita não é o ex-primeiro-ministro Silvio Berlusconi, mas, sim, a racista, anti-imigrantes e antieuropeísta Liga (ex-Liga Norte) que de apenas 4%, em 2013, passou a quase 18%, ganhando 14 pontos.

O líder da Liga, Matteo Salvini, que durante toda a campanha eleitoral afirmou que seria o próximo primeiro-ministro, disse, ontem, em coletiva de imprensa, que sua coligação é “o quadro que necessita de menos números para ter a maioria no Parlamento” e que ele e seus aliados trabalharão “para conseguir essa maioria parlamentar”. Também, como costuma fazer, lançou-se contra a Europa: “O euro foi e continua sendo uma escolha equivocada”, disse. E referindo-se aos dirigentes do Partido Democrático (PD), concluiu: “O voto puniu a arrogância de Renzi e seus amigos”.

O secretário do PD, Matteo Renzi, um personagem muito criticado dentro do PD e no início a causa de importantes divisões no partido, nestes anos, formalizou sua renúncia como secretário geral. Alguns atribuem ao seu proceder que o partido tenha passado dos 27%, nas eleições de 2013, para 19%, agora, perdendo 8 pontos. “Para nós, foi uma derrota clara e nítida”, disse Renzi ao apresentar publicamente sua renúncia em uma coletiva de imprensa. “Cometemos erros, mas, ao mesmo tempo, estou orgulhoso de todo o trabalho que fizemos nestes anos. Pedi à direção que se convoque uma assembleia e, em seguida, um congresso para eleger o novo secretário”.

A aliança de centro-esquerda (PD, Mais Europa e outros) conseguiu 23% dos votos, ao passo que o partido Livres e Iguais (formado pelos ex-PD) conquistou apenas 3%.

No total das mesas eleitorais do exterior, segundo os dados oficiais, o PD manteve sua porcentagem de 2013, ou seja, cerca de 27% dos votos, seguido pela centro-direita, com 22%, e pelo M5S, com 18%. Contudo, na Argentina, em particular, ficaram com os primeiros lugares dois movimentos que se dizem liberais e centristas: o MAIE (Movimento Associativo de Italianos no Exterior), fundado na Argentina, em 2007, que conseguiu em torno de 35% dos votos; e a USEI (União Sul-Americana de Italianos Emigrantes), cuja base está na Argentina e no Brasil, que obteve em torno de 28%. Estas duas formações locais foram seguidas pelo PD, com 12%, aliança centro-direita Berlusconi-Salvini e Meloni (a mesma aliança de centro-direita da Itália), com 8%, e Livres e Iguais, com 5%. O M5S ficou em sétimo nesta classificação, na Argentina, com apenas 4% dos votos.

“Acredito que não se deve olhar o futuro das alianças políticas na Itália só em chave interna, mas também em relação à Europa”, explicou o cientista político Gianni Bonvicini ao jornal argentino Página|12, atual conselheiro científico do Instituto de Assuntos Internacionais da Itália, do qual foi presidente e director durante vários anos. “De modo particular, quando são analisados os resultados obtidos pelo M5S, Liga e Irmãos da Itália, chega-se a quase 55%. São três partidos que se consideram anti-sistema, anti-europeístas e anti-imigrantes e que são a favor do fechamento da Itália em relação à Europa e ao mundo”.

E ainda: “O PD e as outras formações menores, e em parte Força Itália, possuem posições distintas neste sentido, razão pela qual é muito difícil que seja possível uma coligação entre M5S e PD. É mais fácil pensar em uma divisão na centro-direita, particularmente entre Liga e Irmãos da Itália, que faça algum acordo com o M5S. É preciso se perguntar sobre quais podem ser as consequências de uma aliança deste tipo para Itália e Europa. Nossos colegas europeus e os mercados financeiros internacionais estão particularmente preocupados diante da eventualidade de um acordo deste tipo”.

L'Osservatore Romano /Rudolfo Cardenal /IHU

A vida dramática de Rutilio Grande, assassinado com o seu povo

Estas páginas contam a vida de Rutilio Grande, uma vida de fé ao Evangelho e ao povo de Deus. Rutilio tinha plena confiança no poder transformador do Evangelho. Ele viveu a sua vocação jesuíta e sacerdotal como "serviço da fé, do qual a promoção da justiça constitui uma exigência absoluta, enquanto faz parte da reconciliação dos homens exigida pela reconciliação dos mesmos com Deus" (Congregação Geral 32, Decreto 4.2). É por isso que o mataram.

Em seus primeiros anos, formou seminaristas, nos quais incutiu a fidelidade ao Evangelho e ao povo salvadorenho, e a vocação para o serviço. Depois, ele passou os últimos quatro anos de sua vida pregando o evangelho e a justiça do reino para os agricultores da paróquia Aguilares. Entre eles favoreceu a fundação de comunidades cristãs e promoveu os laicos como agentes pastorais ativos. Então, retornou à cidade que ela tinha deixado décadas antes de entrar no seminário. Lá foi encontrado por seus assassinos. Arrancaram a sua vida, junto com a de um velho homem e uma criança, símbolos do povo salvadorenho. Apesar do perigo que corria, ele não quis fugir. "Precisamos fazer o que Deus quer", foram suas últimas palavras.

Rutilio viveu a sua opção "primária e fundamental" para os pobres em uma complexa realidade sócio-econômica e política, uma crise estrutural que levou a doze anos de guerra civil sangrenta e cruel. A realidade eclesial não era tão complicada. A Igreja de El Salvador acolheu o concílio só depois de Medellín. Rutilio foi um dos sacerdotes que mais se empenhou para que aquele ensinamento fosse implementado, não sem experimentar adversidade e recusas, que o fizeram sofrer tanto. Rutilio convidou à conversão pessoal e institucional para enfrentar os desafios da realidade que estava se vivendo. A coerência consigo mesmo e a fidelidade ao evangelho de Jesus Cristo o levaram a uma encruzilhada da história de El Salvador, onde se decidia a vida e a morte da maioria dos salvadorenhos. A história de El Salvador, da paróquia de Aguilares e a biografia de seu pároco ficaram assim intimamente ligadas para sempre.

A vida de Rutilio foi dramática. Limitações severas impostas à sua saúde, a obsessão com a fidelidade à sua vocação, à Igreja e à Companhia de Jesus o levaram a viver situações ambíguas e complexas. Às vezes, caminhava na escuridão, no não saber, prisioneiro de dúvidas cruéis e perturbadoras incertezas, que testavam a sua fé e a sua confiança em Deus. Naqueles momentos, entregou-se com confiança a Deus.

Rutilio Grande foi um padre e um jesuíta de estatura humana e religiosa inimagináveis. Em sua vulnerabilidade encontrou a sua magnitude. Ele passou a maior parte de sua vida em silêncio. Não foi um estudante brilhante, não se destacou pela sua liderança. Nos momentos mais difíceis, existem inclusive sinais de certo desprezo por parte de seus companheiros e superiores. No entanto, todos aqueles que tinham relações com ele encontraram uma pessoa próxima, disponível e boa.

Os seminaristas e o clero encontraram nele um formador e um companheiro humano, compreensivo e amigável, mas firme e sério. Os moradores de El Paisnal e Aguilares, bem como os agricultores dos arredores, os Guaimis de Hato Pilón (Panamá) e os agricultores de Gaviñay (Equador) encontraram nele um padre próximo, altruísta e amigável. Quando assumiu a direção da paróquia de Aguilares, sua vida adquiriu uma dimensão pública inesperada e desconhecida, e seu trabalho paroquial teve uma grande influência sobre a pastoral da Arquidiocese de San Salvador e até mesmo da província eclesiástica de El Salvador.

Estas páginas estão baseadas em duas biografias que escrevi há vários anos, por sugestão do padre provincial, César Jerez. O primeiro livro, Rutilio Grande. Mártir de evangelização rural em El Salvador (San Salvador, UCA Editores, 1978), foi publicado de forma anônima no primeiro aniversário do assassinato do servo de Deus e de seus dois companheiros camponeses com a devida aprovação do arcebispo Oscar Romero, concedida em março 1978. Trata-se de um trabalho curto, escrito rapidamente para poder ser distribuído por ocasião da comemoração do primeiro aniversário de sua morte.

A intensa repressão desencadeada contra a Igreja e a Companhia de Jesus desaconselhava publicar a biografia com o meu nome. Assim, no Prólogo é registrado que os autores são vários jesuítas. Pelo mesmo motivo de prudência, não coloquei muitos nomes, especialmente dos jesuítas e dos informantes entrevistados. Naquele momento e nos anos seguintes circularam milhares de cópias dessa biografia. Recentemente, foi publicada com o meu nome (2015).

No entanto, o arquivo pessoal de Rutilio merecia uma investigação mais aprofundada. Graças a sua obsessão para documentar o seu trabalho, legou à posteridade um patrimônio documental que merecia ser estudado no contexto e relatado de forma mais detalhada. Essa foi a melhor maneira de lembrar Rutilio e seus companheiros mártires. Também satisfez o desejo expresso por monsenhor Romero em uma de suas homilias, e até pelo clero da arquidiocese, de colocar à disposição uma biografia de Rutilio. Dessa forma, depois de 1978, entre outras tarefas, eu trabalhei nisso. Em 1985 foi publicada História de uma esperança. Vida de Rutilio Grande (San Salvador, UCA Editors).

As páginas seguintes estão em dívida com essas duas obras, mais da segunda do que da primeira. Mas a nova versão também inclui novidades. Nos últimos anos, apareceram mais informações sobre a sua vida. Talvez a mais importante esteja relacionada à autoria intelectual e material do assassinato. Esta nova versão inclui os nomes dos jesuítas mais próximos a Rutilio, especialmente em Aguilares. No entanto, os depoimentos de algumas pessoas permanecem anônimos por sua própria vontade.

Por fim, cuidadosamente revisei o texto para torná-lo mais claro e compreensível. Eliminei as repetições e explicações desnecessárias, e organizei algumas seções de forma mais coerente com o curso da vida de Rutilio.

Edição 135, Fevº 2018

Massimo Recalcati

Mais do que de Édipo, existe hoje um ''complexo de Orestes''

“Estamos em um tempo em que o acesso ao complexo de Édipo é obstruído pela presença de uma maternagem perversa, incrementada por uma ‘sociedade maternalizante’, que vincula a vida do filho à do objeto incestuoso, suprimindo a dimensão terceira encarnada pela palavra do pai. Nesse corpo a corpo do filho com a mãe, não circula oxigênio, ar, não há nenhuma possibilidade de diferenciação, de separação, de subjetivação.” A opinião é do psicanalista italiano Massimo Recalcati, professor das universidades de Pavia e de Verona, em artigo publicado por La Repubblica, 12-02-2018. A tradução é de Moisés Sbardelotto /IHU

No livro intitulado Oreste, la faccia nascosta di Edipo? Attualità del matricidio [Orestes, a face oculta de Édipo? Atualidade do matricídio], Jean-Pierre Lebrun, psicanalista belga de escola lacaniana, encontra-se envolvido em um interessante diálogo com a colega Michèle Gastambide, que começa a partir de uma releitura comum da Oresteia, de Ésquilo.

No centro, está o gesto matricida de Orestes. Por que voltar a uma figura esquecida da psicanálise como a do matricida que vinga o pai, Agamenon, assassinado em seu retorno de Troia pela esposa, Clitemnestra, sua mãe, decidindo, por sua vez, suprimir sua progenitora? Qual é o segredo guardado por esse filho que não poupa quem o colocou no mundo?

Ao privilegiar a figura de Orestes à de Édipo, está em jogo a leitura do desconforto contemporâneo da civilização. Michèle Gastambide declara isso abertamente na conclusão do livro: “Se Édipo é a tragédia do destino (...)a partir do qual Freud extraiu a interdição do incesto, Orestes é a tragédia do impossível gozo incestuoso para quem quer ser humano”.

No tempo do nascimento da psicanálise, o complexo que organizava a vida individual e coletiva tinha sido isolado por Freud na figura de Édipo, o filho maldito manchado pelos dois crimes mais hediondos da humanidade: parricídio e incesto. A transgressão da barreira do incesto ocorre por causa da ultrapassagem da Lei do pai que, portanto, ainda existem como tal no inconsciente do sujeito, conseguindo escavar, no próprio filho, aquele sentimento de culpa que humaniza sua vida, separando-a da vida animal.

Em suma, a dialética do desejo que o Édipo de Sófocles, relido por Freud, nos entrega é uma dialética simbólica, triangular, em que o filho se defronta com um objeto (impossível), sobre o qual cai a interdição paterna que o obriga a pagar o preço de sua transgressão e – se se quiser evitar o fim trágico de Édipo – a deslocar a meta do seu desejo a outros objetos, não afetados pela interdição paterna.

Orestes precede Édipo, assim como Ésquilo precede Sófocles. Trata-se de uma precedência não só histórica, mas também psíquica: para poder acessar a triangulação simbólica que governa o complexo edípico, é preciso passar pela fratura da díade mãe-filho ou, melhor, pela morte, igualmente simbólica, da mãe.

Nesse sentido, o gesto de Orestes antecipa necessariamente o de Édipo. No seu centro, não é a morte do pai rival, mas sim a da mãe onipotente que sujeita o filho matando o pai. O tendencial “desaparecimento do Édipo freudiano” que caracteriza o nosso tempo acaba por abandonar o filho à baila de uma maternalização amplamente incestuosa.

O conflito não se trianguliza simbolicamente, mas permanece não expressado, desencadeando-se apenas como violência errática, que nada mais será – é uma tese forte e discutível do livro – do que uma passagem ao ato de tipo matricida: a falta do corte simbólico entre o filho e a mãe confia ao filho essa responsabilidade que, em Orestes, assume a forma completa do ato matricida. Nesse sentido, ele se torna “o ator da própria separação”.

Aqui se coloca o interesse psicanalítico e antropológico que investe o gesto de Orestes: como extrair o sujeito do vínculo incestuoso que o sujeita ao capricho materno em um tempo em que a função paterna está em declínio? Orestes tem acesso à separação através do ato horrendo do matricídio. Será essa, no nosso tempo, a única forma que pode assumir um ato de separação?

Porque, como afirmam os protagonistas desse apaixonante diálogo, “o problema não é tanto separar a mãe da criança, ou vice-versa, mas sim que ambos se separem daquilo que os mantém juntos, de tal modo que nenhuma fratura possa se intrometer, nenhuma perda possa ser contemplada”.

Estamos em um tempo em que o acesso ao complexo de Édipo é obstruído pela presença de uma maternagem perversa – por uma mèrversion, para usar uma eficaz expressão de Lebrun –, incrementada por uma “sociedade maternalizante”, como também teoriza Michel Schneider em Big Mother, que vincula a vida do filho à do objeto incestuoso, suprimindo a dimensão terceira encarnada pela palavra do pai.

Nesse corpo a corpo do filho com a mãe – que pode ser assumido como paradigma clínico das chamadas dependências patológicas hoje disseminadas epidemicamente – não circula oxigênio, ar, não há nenhuma possibilidade de diferenciação, de separação, de subjetivação.

Na violência que parece caracterizar a psicopatologia contemporânea tanto individual (a passagem ao ato violento cada vez mais difundido; pense-se, por exemplo, no feminicídio) quanto de massa (pense-se no terrorismo fundamentalista), os autores desse livro veem em ação aquilo que poderíamos definir, seguindo seu raciocínio, como um verdadeiro complexo de Orestes.

Em uma sociedade que não conhece mais o senso do limite e em que o gozo que se espalha parece ser incestuoso, o matricídio seria a tentativa desesperada de criar um espaço, uma fratura, uma separação, uma descontinuidade com esse gozo fatalmente mortífero que impede o surgimento da diferença, como acontece com um paciente toxicômano de Michèle Gastambide, que declarava, sem meios termos: “Eu deveria matar a minha mãe... mas não posso, estou tecido nela”.

Reportagem de Robert Mickens /IHU /JF

Papa Francisco, a crise crescente e o ''génio feminino''

O maior erro que as lideranças católicas cometeram em relação à resposta da Igreja aos padres que abusam de crianças foi a exclusão das mulheres para liderar o processo de formulação das políticas. A reportagem é de Robert Mickens, publicada no sítio La Croix International. A tradução é de Moisés Sbardelotto

As últimas semanas não foram bem aquilo que qualquer um, em sua sã consciência, chamaria de o momento mais brilhante do atual pontificado. Primeiro, o cardeal encarregado do escritório da Cúria Romana sobre os leigos impediu a ex-presidente da Irlanda, Mary MacAleese, de falar em um evento pelo Dia Internacional da Mulher originalmente programado para ocorrer dentro do Vaticano. Em resposta, os organizadores simplesmente mudaram o local para a sede dos jesuítas, localizada ali perto. Depois, um cardeal aposentado de origem chinesa de Hong Kong criticou o cardeal secretário de Estado – e, por tabela, o Papa Francisco – por ser “um homem de pouca fé” e por liquidar os católicos “sofredores” no continente chinês de governo comunista ao adotar uma estratégia “ingéua” de apaziguamento ao lidar com as autoridades estatais. Em seguida, um bispo inconformado e irascível que supervisiona dois think-tanks vaticanos (as Pontifícias Academias para a Ciência e para as Ciências Sociais) ultrapassou suas fronteiras institucionais e entrou na polêmica sobre a política do papa em relação à China. Ele fez a inacreditável e embaraçosa afirmação de que a nação comunista é a líder mundial na implementação do ensino social católico.

O bispo, um argentino que quer que o mundo acredite que ele é melhor amigo de Francisco (ele não é), baseou sua avaliação em sua primeira e única visita à China há seis meses. Se alguma vez ficar comprovado que os funcionários do governo chinês temperaram sua comida com produtos químicos de lavagem cerebral, talvez todos estarão perdoados. No entanto, grandes danos já foram provocados.

Mas isso não foi o pior daquele que tem sido um período muito ruim para o Papa Francisco. O golpe mais sério contra ele e seu pontificado veio de uma reportagem da Associated Press, que produziu evidências difíceis e bastante convincentes de que o papa não foi completamente franco sobre aquilo que ele realmente sabe a respeito das (e sobre quando ele descobriu pela primeira vez as) alegações de que Dom Juan Barros, do Chile, tentou acobertar um padre condenado por abusos sexuais.

O artigo da Associated Press incluía uma carta de oito páginas que uma das vítimas do padre chileno enviou a Francisco em abril de 2015, que detalhava minuciosamente as supostas ações de Dom Barros. A carta foi entregue em mãos pelo cardeal Sean O’Malley, membro do Conselho dos Cardeais (C9) criado pelo papa e presidente da Pontifícia Comissão para a Proteção dos Menores. Se for verdade, isso contradiz a alegação de Francisco de nunca ter recebido evidências de tal acobertamento por parte de qualquer uma das vítimas.

Não é uma boa notícia. E despachar o ex-procurador-chefe dos crimes de abuso sexual por parte do clero ao Chile para coletar mais evidências sobre o caso Barros – por mais louvável e importante que seja essa operação da undécima hora – não enfrenta, de modo algum, os problemas reais que a reportagem da Associated Press revela.

Apenas uma das três coisas pode ser verdadeira – ou Francisco nunca se esforçou para ler a carta, ou ele a leu e a rejeitou por ser pouco convincente, ou ele simplesmente esqueceu que já a havia lido.

Há uma quarta possibilidade, embora menos plausível. Talvez O’Malley, na realidade, nunca entregou a carta ao papa, mesmo que um dos então membros da Pontifícia Comissão para a Proteção dos Menores (que a entregou a O’Malley – há uma foto para provar) e a vítima (que a escreveu) disseram que o cardeal lhes havia dito que entregou a carta ao papa.

Nenhum desses possíveis cenários é encorajador. Porque isso significa que alguém não está sendo completamente transparente. Até agora, apenas um lado falou publicamente sobre a reportagem da Associated Press – o ex-membro da Pontifícia Comissão para a Proteção dos Menores (Marie Collins) e a vítima chilena de abusos (Juan Carlos Cruz).

O Papa Francisco e o cardeal O’Malley, até agora, mantiveram seu silêncio. A fim de lançar luz sobre o que realmente aconteceu e revelar quem está dando um ponto de vista preciso sobre essa história, eles precisam se pronunciar.

Se O’Malley declarasse de repente que, não, ele nunca entregou a carta de Cruz ao papa – seja porque se esqueceu de fazer isso e depois mentiu a respeito, ou porque ele está tentando proteger Francisco do atual embaraço e da crescente crise em que isso está se transformando – ele teria que renunciar como presidente da Pontifícia Comissão para a Proteção dos Menores. Sua credibilidade entre os membros da comissão (que ainda devem ser nomeados nas próximas semanas) ficaria muito comprometida.

E quanto ao papa? Se Francisco recebeu a carta e nunca a leu, ou simplesmente se esqueceu de lê-la, isso se torna mais uma peça de evidência de que lidar com a crise dos abusos sexuais – particularmente ao responsabilizar os bispos negligentes – ainda não é uma grande prioridade para o papa, apesar de tudo o que seus apologistas digam ao contrário.

No entanto, seria ainda mais prejudicial para o papa se ele admitisse que, sim, ele leu a carta, mas não acreditou que as acusações de Cruz contra Dom Barros fossem credíveis. Isso significaria que ele não estava falando inteiramente a verdade durante sua visita ao Chile e ao Peru no mês passado, quando disse aos repórteres que nunca recebeu “provas” – que depois corrigiu para “evidências” – para apoiar as acusações contra o bispo.

Isso está rapidamente se tornando uma grande e nada santa confusão. E seria devastador para muitos católicos e outras pessoas de boa vontade se ela mutilasse severamente um pontificado que lançou um projeto profundamente enraizado e de longo prazo para reformar e restaurar a credibilidade da Igreja Católica e seu testemunho do Evangelho.

Então, o que pode ser feito neste momento?

Em primeiro lugar, o papa e seu departamento de comunicação (que está em uma desastrosa desordem e não o está servindo bem) devem abordar os conteúdos da reportagem da Associated Press e as consequências que se seguiram. Espera-se que o cardeal O’Malley possa ajudar nesse primeiro passo necessário.

Em segundo lugar, assumindo que a essência da reportagem está correta (a carta existe e foi entregue ao papa), é difícil ver como Francisco pode responder sem confessar que ele foi negligente (ao não ler a carta, por qualquer motivo) ou não foi completamente transparente (ou seja, ocultando dos jornalistas que ele a leu, mas não acreditou nos seus conteúdos).

Como eu já escrevi muitas vezes, este papa não tem medo de ser vulnerável e mostrar aquilo que alguns podem considerar como fraqueza a fim de engajar os outros naquilo que ele percebe como o bem maior da Igreja e da humanidade. Seu encontro com o patriarca ortodoxo de toda a Rússia, seus esforços para engajar Donald Trump e outros líderes mundiais construtivamente, e sua política sobre a China são apenas alguns exemplos.

O papa precisa rapidamente tornar a crise dos abusos sexuais na Igreja – que, aliás, está longe de se resolver – uma prioridade ainda maior. Francamente, ele não fez isso até agora.

Ele pode começar abrindo o jogo com os membros de sua Igreja e falando francamente com eles sobre seu próprio pensamento – suas dúvidas, preocupações, apreensões, omissões e até mesmo erros – a respeito do modo como as autoridades da Igreja (inclusive ele) abordaram a crise dos abusos até este ponto.

Ele ainda goza de uma sólida confiança e credibilidade entre milhões e milhões de pessoas que veriam sua franca confissão e testemunho como um passo verdadeiramente humano e positivo, e não como um grito de rendição. Mas essa confiança e credibilidade vão se corromper se ele não disser algo em breve. E a próxima temporada penitencial da Quaresma oferece a oportunidade perfeita para um gesto tão verdadeiramente cristão e até mesmo dramático.

Um pensamento final.

O Papa Francisco também precisa renovar totalmente o mandato e a missão da Pontifícia Comissão para a Proteção dos Menores e estabelecer outros mecanismos para lidar com a crise dos abusos sexuais. A maioria dos novos membros da comissão e seus outros assessores sobre essa questão deveriam ser mulheres. E ele deveria exigir que as dioceses e as Conferências Episcopais nacionais deem às mulheres, e especialmente às mães, o papel principal nessa questão também.

Esse seria um modo importante de ele fazer uma correção profética e necessária para a resposta até agora inadequada que a Igreja Católica ofereceu.

Muitos homens da hierarquia escondem e justificam sua misoginia, seu medo das mulheres ou seu desejo de manter as estruturas decisórias da Igreja nas mãos de clérigos – todos homens, é claro –, repetindo o refrão paternalista de São João Paulo II a algo que ele chamou de “gênio feminino”.

Essa expressão, que o falecido papa escreveu pela primeira vez em 1995 – e que Bento XVI, Francisco e inúmeros homens da Igreja continuaram repetindo – encarna um catálogo de traços que, de algum modo, são especialmente peculiares às mulheres em virtude do desígnio da natureza de Deus.

As pessoas podem debater se todas essas características são realmente exclusivas das mulheres. Mas uma coisa certa é que apenas as mulheres podem ser mães. E, por causa da intrincada conexão entre mãe e filho mediante a gravidez, o parto e a infância, pode-se argumentar que as mulheres – as mães – têm instintos únicos de proteção e de criação que são desenvolvidos de forma diferente em comparação com os mesmos instintos nos pais.

O maior erro que as lideranças católicas em todas as partes do mundo cometeram em relação à resposta da Igreja ao fenômeno dos padres que abusam de crianças e de adolescentes foi a exclusão das mulheres da liderança do processo de formulação de políticas. Onde as mulheres foram incluídas, elas foram meras consultoras ou especialistas, muitas vezes apenas peças decorativas para aliviar as incômodas consciências masculinas e satisfazer as demandas da opinião pública.

O Papa Francisco pode consertar isso e mostrar que a Igreja realmente acredita que as mulheres têm um “gênio feminino” especial – pelo menos na área da relação entre mãe e filho – colocando as mulheres à frente da resposta da Igreja aos abusos sexuais. Até agora, o “gênio clerical” não produziu bons frutos.

Uma liderança católica leiga que fez um excelente trabalho para ajudar os bispos de seu país a lidar com a crise dos abusos sexuais adora repetir esta frase: “Enquanto um leigo for o último a dar conselhos sobre esses assuntos ao papa, os instintos clericais sempre serão um problema!”.

Isso está exatamente certo. Mas o leigo deveria ser uma mulher.

Carta de Bento XVI ao Corriere

"URGENTE EM MÃOS”

A carta, “Urgente em mãos”, chegou terça-feira, 6 de Fevereiro, de manhã na sede romana do Corriere, vinda do “Monastero Mater Ecclesiae, V-120 – Città del Vaticano”: o eremitério dentro dos Sagrados Muros, para onde o Papa Emérito Bento XVI se retirou desde que renunciou, há exatamente cinco anos. O comentário é de Massimo Franco, publicado no jornal Corriere della Sera, no dia seguinte, 7. Mas parecia ter chegado de outro mundo, muito mais distante do que os poucos quilómetros que marcam a distância física daquele lugar. Talvez porque o envelope continha um cartãozinho dobrado e, dentro, outro envelope selado, com uma mensagem de 9 linhas

Mas, acima de tudo, porque transmitia palavras fortes, verdadeiras, não formais: um gesto de requintada atenção para com aqueles que, ultimamente, perguntavam cada vez mais frequentemente como estava o “Papa Bento”; como ele vivia aquilo que ele mesmo chama, no texto, de “este último período da minha vida”.

Há alguns dias, através de um canal reservado, tínhamos dirigido a pergunta a ele, confiando em receber uma resposta. Depois de cinco anos em que ele praticamente desapareceu do horizonte público, encontrando-se com poucos amigos e até diminuindo os seus passeios pelos jardins vaticanos, ajudando-se com um andador, talvez ele pensava ter sido esquecido.

Ele não sabia que sua figura permanece muito presente, com a sugestão epocal de um período em que convivem “dois papas”, expressão não exatamente ortodoxa, mas habitual. De fato, o mistério dos seus dias sem eco público, com imagens desfocadas e aparições cada vez mais raras em algumas cerimônias às quais ele era convidado por Francisco, afiaram e, ao mesmo tempo, agigantaram o seu perfil.

Bento “existe”, paira sem querer. Ou, melhor, talvez esteja enraizado na memória da opinião pública, precisamente porque tentou se dissolver em um limbo existencial para deixar toda a cena ao sucessor: aquele cardeal Jorge Mario Bergoglio “que tem a caligrafia menor do que a minha”, observou Joseph Ratzinger uma vez.

Mas a dele, à caneta, no fim da carta, já é minúscula: quase se encolhe junto com suas energias físicas, evidenciando a dificuldade até para escrever. Contam que, em particular, ele diz isso com um toque de tristeza: não consegue mais dedicar tempo suficiente para construir aqueles textos de grande refinamento teológico que traçaram durante anos o caminho da Igreja Católica.

No entanto, ele aceita sua fragilidade. Nas suas palavras, que são um agradecimento e, ao mesmo tempo, quase uma despedida, capta-se mais do que uma referência a isso.

Aquela referência à “lenta diminuição das forças físicas”, a confissão de estar “interiormente em peregrinação para Casa”, com o C maiúsculo, e o “agradecimento” aos “tantos leitores” do Corriere que continuam perguntando dele: são poucas palavras medidas, mas que transmitem uma grande profundidade.

Talvez, na admiração e em um pouco de nostalgia por Bento XVI que se sente, aqui e acolá, em alguns setores do mundo católico, pode-se adivinhar o trauma não totalmente digerido da sua renúncia, no dia 11 de fevereiro de 2013: uma reviravolta epocal.

Mas há também o reconhecimento de uma conduta exemplar entre ele e o Papa Francisco nesses cinco anos. Uma convivência não regulada por nenhuma lei; confiada apenas ao caráter desses dois personagens tão diferentes, apesar de uma ênfase, às vezes um pouco oficial, da continuidade entre seus pontificados.

Não era óbvio que “dois papas” no Vaticano conseguissem manter uma personalidade tão distinta, sem, por isso, se sobreporem ou, pior, transmitir mensagens de divisão. Se, por acaso, houvesse diferenças, elas permaneceram como um segredo guardado entre eles: como se ambos soubessem que o importante é tentar manter unida uma Igreja sacudida por milhares de tensões.

É um sinal de força espiritual e de humildade, que sublima quando, dirigido àqueles que continuam se interessando por ele, saúda com um tom quase familiar: “Só posso agradecer”.
(IHU / JF)

Edição 134, Janº 2018

Reportagem de Federico Rampini / La Reppublica / IHU

Bombas atómicas ''leves'', a nova ameaça deTrump

A primeira versão, publicada no The Huffington Post e citada no jornal La Repubblica, não foi desmentida pelo Pentágono, que se limitou a defini-la como “ainda não decidida”. Agora, uma detalhada antecipação do Wall Street Journal explica que se trata da “Nuclear Posture Review”, elaborada pelo Departamento de Defesa e que já se encontra sobre a mesa de Donald Trump.

Há um ano, o presidente pedira uma revisão estratégica sobre a adequação do arsenal nuclear, na esperança do seu reforço. Os generais lhe explicam por que e como consideram que devem auxiliá-lo.

As novas armas nucleares “leves” seriam fabricadas em duas versões. Uma poderia ser montada sobre os mísseis Trident fornecidos aos submarinos atómicos. A outra poderia se tornar a cabeça de mísseis Cruise fornecidos à Marinha dos Estados Unidos.

O facto de o novo arsenal estar destinado à Marinha confirma a hipótese de poder usá-lo em cenários de guerras distantes, não para a defesa imediata do território dos Estados Unidos. A natureza das novas armas nucleares é definida como “low-yield”, isto é, de baixo rendimento, apenas porque a comparação é feita com as outras ogivas atómicas (cerca de quatro mil) do arsenal estadunidense: que vão de 100 a 455 kilotons em comparação com os 15 kilotons de Hiroshima.

Mesmo assim, se trataria de bombas atômicas, ou seja, de armas com uma capacidade de destruição enorme em comparação com os explosivos convencionais. A bomba atômica “de bolso”, porém, ofereceria a vantagem de poder justificar o seu uso tático, para um ataque preventivo, sem que isso deva desembocar na Terceira Guerra Mundial. Mais política do que militar, a lógica é a de reduzir as resistências que, depois de Hiroshima e Nagasaki, sempre impediram o conflito nuclear, até nos momentos mais tensos da Guerra Fria. O equilíbrio do terror entre as duas superpotências EUA-URSS mantinha ambas à beira do precipício, por medo da aniquilação mútua.

A hipótese de uma minibomba atômica “tática”, no entanto, não é nova. Ela foi antecipada pelos soviéticos nos “euromísseis”, que anunciavam, nos anos 1970, a possibilidade de um conflito atômico limitado à Europa, portanto, com a possível desvinculação dos Estados Unidos da defesa dos outros países da Otan.

Antes ainda, um uso limitado de bombardeios nucleares foi levantado como hipótese pelo general Douglas MacArthur contra a China de Mao, durante a Guerra da Coreia (1950-1953). Mas o presidente Truman expulsou MacArthur.

Agora, é novamente em Moscovo e em Pequim que se deve procurar a justificativa da virada estadunidense. Antes antes de olhar para a ameaça da Coreia do Norte, o documento do Pentágono lança um alerta sobre o rearmamento nuclear das outras duas superpotências.

Rússia e China, defende o documento entregue a Trump, vem se movendo há anos na direção oposta à da desnuclearização. Vladimir Putin quis desenvolver uma nova geração de mísseis de cruzeiro terra-ar de porte intermediário, que seria, a reedição dos euromísseis: um arsenal estudado para o cenário de um conflito nuclear “limitado”.

Ainda de acordo com o documento do Pentágono, esses mísseis de nova geração violariam o tratado assinado em 1987 por Ronald Reagan e Michail Gorbachev. Ao contrário das novas armas russas, as ogivas nucleares “de baixa intensidade” que são propostas pelo Pentágono não violariam os tratados existentes, precisamente por serem instaladas em navios e submarinos. A fabricação dessas novas bombas, se Trump der o sinal verde, demoraria dois anos. A decisão do presidente está prevista para o fim de janeiro.

O anúncio da reviravolta ocorre no pano de fundo de uma crise aberta com a Coreia do Norte. A “hipótese MacArthur” será reproposta? Foi confirmado várias vezes que o Pentágono faz simulações sobre possíveis ataques militares contra Pyongyang, para atacar os seus arsenais nucleares para fins preventivos, já que agora os mísseis norte-coreanos podem alcançar os Estados Unidos.

Slavoj Žižek

Amor e Sexo sob o gelo dos contratos

Obcecada em transformar a experiência erótica em algo previsível e controlado, onda moralista ameaça afogar o desejo e sufocar a liberdade sexual das mulheres. O artigo é de Slavoj Žižek, filósofo, publicado por Outras Palavras. A tradução é de Ricardo Cavalcanti-Schiel / IHU


Ao menos no Ocidente, as pessoas tornaram-se bastante conscientes sobre o alcance da coerção e da exploração nas relações sexuais.

No entanto, devemos ter em mente também o facto (não menos significativo) de que diariamente milhões de pessoas flertam e praticam o jogo da sedução, com o objetivo claro de encontrar um parceiro para o amor e o sexo. Na cultura ocidental moderna consagrou-se a regra de que ambos os sexos estão habilitados para desempenhar papel ativo neste jogo.

Quando as mulheres se vestem de forma provocadora para atrair os olhares masculinos ou quando se “objetificam” para seduzi-los, não o fazem se oferecendo como objetos passivos. Em vez disso, elas são os agentes ativos de sua própria “objetificação”, manipulando homens e jogando jogos ambíguos, incluindo a reserva total do direito de sair do jogo a qualquer momento, mesmo que, para o olhar masculino, isso pareça em contradição com os “sinais” prévios.

Esta liberdade que as mulheres desfrutam incomoda todos os tipos de fundamentalistas, dos muçulmanos que recentemente proibiram as mulheres de tocar e manusear bananas – ou quaisquer outras frutas que se assemelhem ao pênis – aos nossos machos toscos que explodem em violência contra uma mulher que primeiro os “provoca” e depois rejeita os seus avanços.

A libertação sexual feminina não é apenas uma recusa puritana a ser “objetificada” (como um objeto sexual para os homens), mas o direito de brincar ativamente com a auto-objetificação, oferecendo-se e retirando-se à vontade do jogo. Mas será ainda possível proclamar esses factos simples? ou a pressão politicamente correta nos obrigaria agora a enquadrar todos esses jogos sob alguma forma de proclamação formal/legal (de consensualidade, etc.)?

Novas formas de pensar

Uma ideia recente e politicamente correta é o chamado “Consent Conscious Kit” (“kit de consentimento consciente”), atualmente à venda nos EUA: uma pequena bolsa com um preservativo, uma caneta, algumas balas de menta refrescante e um contrato simples, que estabelece que ambos os participantes estão livremente de acordo com o ato sexual. A sugestão é a de que um casal, pronto para ter relações sexuais, tire uma foto segurando nas mãos o contrato, ou que ambos o datem e assinem.

No entanto, embora o “kit de consentimento consciente” pretenda dar conta de um problema bastante real, ele faz isso de uma maneira que não é apenas boba, mas diretamente contraproducente. E por que isso?

A ideia subjacente é a de que o ato sexual, para ser purificado de qualquer suspeição de coerção, precisa ser declarado, antecipadamente, como uma decisão consciente de ambos os participantes. Falando em termos lacanianos, ele teria que ser registrado pelo Grande Outro, inscrito na ordem simbólica.

Assim, o “kit de consentimento consciente” é apenas uma expressão extrema de uma atitude que cresce em toda parte, nos EUA. Por exemplo, o Estado da Califórnia aprovou uma lei que exige que todas as faculdades que recebem financiamento do Estado adotem políticas que obriguem seus alunos a fazer uso do consentimento afirmativo, que é definido como “concordância afirmativa, consciente e voluntária para se envolver em atividade sexual” que esteja “em andamento”, em situação em que não se esteja muito bêbado, antes de se engajar propriamente nas atividades sexuais, e quando não haja risco de punição por meio de agressão sexual.

Um quadro mais amplo

“Acordo afirmativo, consciente e voluntário”. Mas por parte de quem? A primeira coisa a se fazer aqui pode ser simplesmente mobilizar a tríade freudiana de Ego, Superego e Id (em uma versão simplificada: minha autoconsciência; a agência de responsabilidade moral que me faz cumprir as normas; e minhas mais profundas paixões, um tanto reprimidas).

E se houver um conflito entre os três? Se, sob a pressão do Superego, meu Ego diz NÃO, mas meu Id resiste e se apega ao desejo negado? Ou (um caso muito mais interessante) o oposto: eu digo SIM ao convite sexual, entregando-me à minha paixão Id, mas no meio da realização do ato, meu Superego desencadeia um sentimento de culpa insuportável?

Assim, para reduzir as coisas ao absurdo, o acordo deve ser assinado por Ego, Superego e Id de cada parte contratante, de modo que seja válido somente se todos os três, de cada lado, dizem SIM. Mais: e se o parceiro do sexo masculino também usar seu direito contratual de recuar e cancelar o acordo a qualquer momento da atividade? Imaginem que, depois de obter o consentimento da mulher, quando os futuros amantes se encontram nus na cama, alguns minúsculos detalhes corporais (um som desagradável, como um arroto vulgar) dissipem o encantamento erótico e façam o homem se retirar? Isso não seria também extremamente humilhante para a mulher?…

A ideologia que sustenta essa promoção do “respeito sexual” merece um olhar mais atento. A fórmula básica é: “Sim significa que sim!”. Ou seja, tem que ser um “sim” explícito, não apenas a ausência de um não. A ausência de “não” não corresponde automaticamente a um “sim”, porque se uma mulher que está sendo seduzida não resiste ativamente, isso ainda deixaria margem para supor diferentes formas de coerção.

Cortando o tesão

Aqui, no entanto, os problemas se multiplicam: e se uma mulher deseja apaixonadamente um sujeito, mas se sente por demais envergonhada para declarar isso de forma aberta? E se, para ambos os parceiros, a “coerção”, a pegada mais forte, ironicamente, fizer parte do jogo erótico? E um “sim” seria um “sim” para o quê, precisamente? Para que gestos sexuais ele seria um sim declarado? O formulário do contrato precisaria, então, ser, logo em seguida, mais detalhado, de modo que o consentimento principal seja especificado: um “sim” para um coito vaginal, mas não anal; um “sim” para sexo oral, mas não para engolir o esperma; “sim” para uma palmadinha, mas não para um tapão; etc, etc.

Pode-se facilmente imaginar tanto uma longa negociação burocrática, que pode matar todos os desejos do ato, quanto a inflação libidinosa do ato, instigada pela própria negociação. Esses problemas estão longe de serem secundários, eles dizem respeito ao núcleo da interação erótica, do qual não é possível se abstrair para declarar a disposição (ou a indisposição) para seguir adiante com ela: cada ato conta na interação, seja para deserotizá-la seja para erotizá-la ainda mais.

A regra sexual do “sim significa sim” é um caso exemplar da intersubjetividade narcisista dos nossos dias. Uma experiência é fundamentalmente vivida como algo a que se é vulnerável, algo do qual se deve ser protegido, por meio de um conjunto complexo de regras, que prescreve a informação prévia de todas as intrusões eventuais que possam molestar alguém.

Lembremos que, quando do seu lançamento, E.T. foi proibido na Suécia, Noruega e Dinamarca [N. do T.: Há um pequeno equívoco aqui: o filme de Steven Spielberg foi proibido para crianças de menos de 12 anos na Suécia, Noruega e Finlândia]: porque a representação que faz dos adultos como seres hostis (para as crianças) foi considerada perigosa para as relações entre as crianças e seus pais. (Um detalhe engenhoso confirma esta acusação: nos primeiros 10 minutos do filme, todos os adultos são vistos apenas da cintura para baixo, como os adultos ameaçadores dos desenhos animados de Tom & Jerry…).

Vista com os olhos de hoje, essa proibição pode ser reconhecida como um sinal precoce da obsessão politicamente correta de proteger os indivíduos de qualquer experiência que possa machucá-los de algum modo. E a lista pode continuar indefinidamente – recorde-se, por exemplo, a proposta de excluir digitalmente o cigarro dos clássicos de Hollywood…

Sim, o sexo é atravessado por jogos de poder, obscenidades violentas etc, mas o difícil de admitir é que isso é inerente a ele. Alguns observadores perspicazes já notaram que a única forma de relação sexual que responde de forma plena aos critérios politicamente corretos seria um contrato estabelecido entre parceiros sadomasoquistas.

Assim, o aumento da correção política e o incremento da violência são dois lados da mesma moeda, uma vez que a premissa básica da correção política é a redução da sexualidade ao consentimento mútuo contratual. O linguista francês Jean-Claude Milner estava certo ao notar como o movimento antiassédio atinge inevitavelmente seu clímax nos contratos que estipulam formas extremas de sexo sadomasoquista (tratando uma pessoa como um cachorro numa coleira, como comércio de escravos, tortura e até assassinato consentido).

Em tais formas de escravidão consensual, a liberdade de mercado estabelecida por meio do contrato nega a si mesma: o comércio de escravos torna-se a afirmação final da liberdade. É como se o motivo “Kant com Sade”, de Jacques Lacan – o brutal hedonismo do marquês de Sade assumido como verdade na rigorosa ética kantiana –, se tornasse, inusitadamente, realidade. No entanto, antes de descartar esse motivo como apenas um paradoxo provocador, deveríamos refletir sobre como tal paradoxo tem estado em funcionamento na própria realidade social.

Edição 133 Dezº 2017

Reportagem de LISA SOARES, Brasil

IN NOMINE DEI

Todos os tentáculos do império IURD

A Igreja Universal do Reino de Deus tem mais de cem templos em Portugal. Em dezembro de 2013, foi inaugurado o templo da IURD em Vila Nova de Gaia, um dos maiores da Europa. O primeiro construído de raiz na Europa foi inaugurado no Porto em 2010. A Igreja controla uma cidade, o Rio, um partido, o ministério da Indústria, um grupo de comunicação e, consta, até um mini exército

O que fazem a ex-presidente Dilma Rousseff, do PT, o presidente Michel Temer, do PMDB, e o governador do estado de São Paulo e pré-candidato a presidente Geraldo Alckmin, do PSDB, lado a lado num altar? A pergunta até pode parecer o início de alguma anedota mas não é: Dilma, Temer e Alckmin estiveram, de facto, juntinhos na inauguração do maior espaço religioso do Brasil, o Templo de Salomão, em São Paulo, nova sede da Igreja Universal do Reino de Deus (IURD), para prestigiar o seu fundador bispo Edir Macedo. O poder da igreja evangélica neopentecostal mede-se em imagens como essa.

E em factos: um bispo da IURD ocupa a prefeitura do Rio de Janeiro, segunda maior cidade do país. Outro bispo gere o ministério da Indústria, Comércio Exterior e Serviços e preside ao sexto maior partido brasileiro. A igreja é dona da Record, poderoso grupo de comunicação cujas audiências televisivas só perdem para a Globo. E ainda treina um grupo, chamado Gladiadores do Altar, que os seus detratores chamam de exército da Universal.

O assunto foi notícia no Brasil em Março de 2015, depois das religiões de origem africana Umbanda e Candomblé se terem queixado de agressões nos seus terreiros por parte de elementos ligados à IURD. E de terem sido divulgados, mais ou menos na mesma altura, vídeos com os tais Gladiadores do Altar, grupo de jovens a bater a continência e a gritar com agressividade "altar, altar, altar" e "prontos para a batalha", num culto da Universal. "É uma atitude para-militar, elementos da IURD perseguem membros de religiões afro nas ruas, temos de agir, não podemos ficar à espera que um grupo fundamentalista pegue em armas", acusou o advogado dos credos africanos Luiz Martins. No parlamento, Jean Wyllys, deputado do Partido Socialismo e Liberdade, de extrema-esquerda, confessou sentir-se "assustado". A IURD negou na ocasião, com veemência, que os Gladiadores do Altar fossem o tentáculo armado da instituição. "O projeto realiza reuniões semanais com rapazes dispostos a abrir mão de suas vidas (...) cumprindo o que Jesus disse "ide por todo o mundo e pregai o evangelho a toda a criatura"", lia-se sobre o tema no website da igreja.

Mas a IURD, que enquanto credo evangélico juntou em 40 anos mais de oito milhões de fiéis, está em quase 200 países e abriga milhares de pastores, tem indiscutivelmente um tentáculo político. O bispo Marcelo Crivella, o sobrinho de Edir Macedo que disse um dia numa pregação que "os gays são fruto de um aborto mal sucedido", foi eleito prefeito do Rio, cartão postal do país. Além de Crivella, membro do Partido Republicano Brasileiro, força política que a IURD influencia, outro bispo, o líder do partido Marcos Pereira, senta-se ao lado de Temer nos conselhos de ministros. E segundo a pesquisadora da Universidade Federal Fluminense Christina Vital o fim último dos evangélicos - não necessariamente apenas da IURD - "é conquistar o Palácio do Planalto em 2018". Jair Bolsonaro, pré-candidato de extrema-direita pelo Patriotas e segundo classificado nas sondagens, já foi batizado no ano passado nas águas do Rio Jordão por um protestante, o Pastor Everaldo, da pentecostal Assembleia de Deus.

Nos media, Macedo é proprietário do grupo Record, quarto do Brasil atrás dos grupos Globo, Abril e Folha. Em audiências e faturação, a TV Record, no entanto, só perde para a TV Globo, superando os também enormes SBT e Bandeirantes. E lidera, através da Record News, no segmento dos canais de notícias, deixando Globo News e Band News para trás. Com 106 emissoras regionais pelo país, num total de 240 horas diárias de TV, mais o portal R7 na internet e o jornal O Correio do Povo nas bancas, a sua influência é pesada. Ainda não conseguiu produzir uma telenovela em horário nobre que superasse as da Globo mas esteve perto, em 2015, com o apoio da bancada parlamentar evangélica, no folhetim bíblico Os 10 Mandamentos - o líder dessa bancada, conhecida como Bancada da Bíblia, pediu aos milhões de fiéis protestantes para boicotarem Babilônia, concorrente da TV Globo transmitida à mesma hora, por causa de um beijo na boca entre as atrizes veteranas Fernanda Montenegro e Nathalia Timberg no primeiro episódio.

O poder da IURD mede-se também pelo tamanho dos seus principais inimigos: a Globo (embora tenha tido guerras paralelas com os grupos Abril e Folha) e o Vaticano (além do conflito citado com as afro-religiões e de choques frontais com denominações evangélicas concorrentes). Preso durante 11 dias em 1992 por "charlatanismo", Edir Macedo responsabilizou a igreja católica pela humilhação. Um ano antes, a IURD conseguira reunir 200 mil fiéis no Estádio do Maracanã em resposta aos 130 mil que o Papa João Paulo II levara ao Santuário de Aparecida. Aliás, uma imagem de Nossa Senhora de Aparecida, a padroeira do Brasil, seria chutada num programa de TV por um bispo evangélico, em 1995, num escândalo que abalou o país - os protestantes rejeitam o culto a imagens e santos.

Por outro lado, os casos na justiça envolvendo Macedo ou a IURD são incontáveis: além das acusações de charlatanismo e de intolerância religiosa, o bispo ou a sua igreja já foram denunciados por importação fraudulenta (em 2006), lavagem de dinheiro, evasão de divisas e formação de quadrilha (em 2009). No Brasil, em Espanha, no Luxemburgo, nos Estados Unidos, na Bélgica ou em Angola, a Universal já esteve, por motivos diferentes, na mira dos tribunais ou da imprensa. Como agora, em Portugal, nas recentes reportagens da TVI sobre adoções.

Condenada por vasectomia

Em 2014, o Tribunal Superior do Trabalho condenou a IURD ao pagamento de 25 mil euros a um ex-pastor que realizou uma vasectomia. De acordo com a imprensa brasileira, o pastor foi incentivado a ser submetido à intervenção para ser promovido ao cargo de bispo da congregação. Segundo o mesmo, o pedido era sustentado com o facto de as novas funções exigirem uma grande dedicação, o que podia ser prejudicado se tivesse filhos. Uma acusação que a IURD negou, alegando que a operação aconteceu por vontade do pastor. E esta não foi a primeira vez que a IURD foi acusada de proibir os pastores de ter filhos biológicos.

É um percurso abarrotado de sucessos e de controvérsias que começou em 1977, num acanhado coreto da Praça Jardim do Méier, no Rio de Janeiro, onde Macedo e o seu cunhado Romildo Soares, hoje concorrente, na qualidade de líder da Igreja Internacional da Graça de Deus, convenceram os primeiros fiéis, munidos apenas de uma aparelhagem sonora e de uma Bíblia. E que acabou no Templo de Salomão, maior espaço religioso do Brasil, maior até que o Santuário de Nossa Senhora de Aparecida e mais alto ainda do que o Cristo Redentor, abençoado na sua inauguração por Dilma, Temer e Alckmin.

Investigação em Portugal

Pelo menos dez crianças terão sido alvo de adoções ilegais por bispos e pastores da Igreja Universal do Reino de Deus (IURD) na década de 90. A informação foi revelada na reportagem "O Segredo dos Deuses", transmitida pela TVI, e o caso já está a ser investigado pelo Ministério Público.

A investigação da estação televisiva alega que a IURD financiava um lar, a "Casa de Acolhimento Mão Amiga", onde as crianças estariam de forma provisória, porque as famílias passavam dificuldades, mas que, à revelia dos pais, acabavam por ser adotadas de forma ilegal, sem direito de contraditório às famílias. Uma das mães conta que não a deixavam assinar o livro de registo quando visitava os filhos, o que pesa no processo de adoção, e que foi descrita por uma técnica da Segurança Social como sendo toxicodependente e seropositiva.

Edir Macedo, o líder máximo da IURD, estará envolvido na rede internacional de adoções ilegais de crianças e, de acordo com a mesma investigação, os seus próprios "netos" são "crianças roubadas do Lar Universal, uma instituição que à época fazia parte da obra social da igreja". Vera de Andrade e Luís Carlos de Andrade, os "netos", pronunciaram-se na semana passada, através de um vídeo, alegando que a reportagem faz acusações que não são verdadeiras. "Nós não fomos raptados, fomos adotados de forma legal por uma família americana e vivemos até os nossos 20 anos com esta família nos Estados Unidos", disse Luís. Também a IURD emitiu um comunicado, no qual nega as acusações, que diz serem baseadas num depoimento falso de um ex-bispo.

Entretanto, o Ministério Público abriu um inquérito sobre a situação, que, como explicou em comunicado, foi remetido ao DIAP [Departamento de Investigação e Ação Penal de Lisboa] para investigação. Os crimes, cometidos entre 1994 e o final da década de 90, já prescreveram, mas as mães portuguesas ponderam lutar na justiça. "As mães estão a equacionar a possibilidade de processar o Estado português numa ação conjunta. Mas não pensam avançar com uma ação contra a IURD porque consideram que iriam reclamar dinheiro sujo", adiantou recentemente ao DN a jornalista Alexandra Borges, co-autora, juntamente com Judite França, da série de informação "O Segredo dos Deuses", que teve um grande eco nos principais jornais online no Brasil.

De acordo com a Renascença, pelo menos desde o ano 2000 que a Segurança Social teria conhecimento das denúncias relativas ao alegado roubo de crianças do centro de acolhimento financiado IURD. Terá sido feito uma denúncia através da linha SOS Criança, o serviço de atendimento telefónico de apoio pertencente ao Instituto de Apoio à Criança, mas a Segurança Social só agiu agora, na sequência da reportagem exibida.

A jornada de um migrante em meio ao 'mercado' humano na Líbia

'FUI VENDIDO TRÊS VEZES'


Harun Ahmed é um dos milhares de jovens de países africanos pobres que se arriscaram na jornada pelo deserto do Saara até a Líbia, no norte da África, em busca de uma oportunidade para ir à Europa. Conseguiu chegar à Alemanha, mas só depois de sobreviver a meses de tortura e inanição nas mãos de três mercadores de escravos distintos, que compram e vendem imigrantes como se fossem gado. A comercialização de seres humanos na Líbia - país que sem um poder central eficiente desde a queda do líder Muamar Khadafi, em 2011 - foi identificada inicialmente pela CNN no início de novembro. Reportagem da emissora americana mostrava leilões de migrantes. Ali, pessoas eram vendidas como escravos por US$ 400 para outros traficantes ou para realizar trabalhos forçados. Após a reportagem, autoridades prometeram investigar a prática, mas migrantes entrevistados em Trípoli, capital líbia, dizem ser comum sofrer torturas e coerção na mão de traficantes e mercadores humanos. Harun, de 27 anos, nasceu em Agarfa, em uma região com uma das mais altas taxas de migração da Etiópia, por conta da ausência de perspectivas. Harun chegou a tentar a vida no Sudão, mas, depois de um ano e meio, decidiu ir à Líbia, conhecido ponto de partida de migrantes que decidem se arriscar na perigosa jornada pelo Mediterrâneo rumo à Europa. Contou sua história à BBC. Reportagem de Bekele Atoma, publicada por BBC Brasil/IHU/JF

"Eu e outros migrantes começamos a jornada à Líbia pagando US$ 600 (cerca de R$ 1900 na cotação atual) para cada traficante", explica Harun.

"Éramos 98 dentro de um único caminhão. As pessoas tinham que sentar umas em cima das outras, e o calor era insuportável. Nos deparamos com diversos problemas pelo caminho. Existem homens armados pelo deserto, (milicianos) que te param de repente e roubam tudo o que você tem."

Mas a situação se complicou mesmo foi na fronteira: após seis dias de viagem pelo Saara, o grupo de migrantes chegou à divisa entre Egito, Líbia e Chade.

Ali, os traficantes se reuniram para comercializar os migrantes, conta Harun.

Só que houve um imprevisto.

"Na fronteira, um grupo de milicianos nos sequestrou e nos levou ao Chade", ele conta. "Viajamos pelo deserto ao longo de dois dias, até chegarmos ao acampamento deles."

Ali, o grupo, fortemente armado, explicou - em árabe e em outros idiomas africanos - o que queria.

"Eles trouxeram um carro e disseram que os migrantes que pudessem pagar US$ 4 mil cada poderiam entrar no veículo. Quem não pudesse pagar ficaria ali (no acampamento)."

"Não tínhamos dinheiro, mas conversamos entre nós e decidimos fingir que tínhamos, para conseguir entrar no carro."

Harun e os demais migrantes que conseguiram entrar no veículo rodaram por mais três dias, até chegarem a outro local onde seres humanos são comprados e vendidos.

"Os homens que nos levaram disseram que haviam nos comprado por US$ 4 mil cada - e que, se não devolvêssemos o dinheiro, não iríamos a lugar nenhum", conta.

Ao seu redor, ele via o que poderia acontecer com ele caso não arranjasse dinheiro.

"Víamos migrantes, a maioria deles de origem somali e eritreia, que estavam ali havia mais de cinco meses. Eles sofreram muito e sequer se pareciam com seres humanos mais."

"Nós sofremos muito também. Nos forçavam a beber água quente misturada com petróleo, para fazer com que os pagássemos mais rapidamente. Nos davam uma quantidade minúscula de comida, e só uma vez por dia. Nos torturavam todas as noites."

'Muito ossudo'

Harun não conseguiu o dinheiro para pagar seus novos captores e, durante 80 dias, ficou retido no acampamento com outros 31 etíopes.

Até que os captores perderam a paciência.

"'Se você não vai nos pagar, então vamos vendê-lo', eles nos disseram", relembra Harun.

"Estávamos sem comida havia mais de dois meses, então nossos ossos estavam muito aparentes. Por isso, um homem que levaram ao acampamento se recusou a nos comprar, dizendo 'eles não devem nem mesmo ter rins'."

Por fim, os traficantes encontraram um comprador: um líbio que pagou US$ 3 mil por migrante.

"Entramos no carro dele convencidos de que nada poderia piorar ainda mais a nossa situação. Mas fomos levados a Saba (Líbia) e, após quatro dias de viagem, nos deparamos com um sofrimento desumano. Nos torturaram colocando sacolas plásticas em nossas cabeças, prendendo nossas mãos nas costas e nos empurrando para dentro de um barril cheio de água. Batiam em nós com cabos de aço."

Harun e os demais homens viveram assim por mais de um mês, até conseguirem contato com parentes para pedir dinheiro.

Após o pagamento, os migrantes foram autorizados a ir embora - só para serem presos novamente.

"Não fomos muito longe, porque outros homens armaram uma emboscada e nos levaram a um galpão. Disseram que só nos deixariam sair se pagássemos US$ 1 mil por cabeça."

"A tortura e as surras continuaram. Telefonamos para nossas famílias, pedindo dinheiro outra vez. Nossos parentes venderam gado, terras, todas as suas posses e nos mandaram mais dinheiro."

Refugiado

Harun conseguiu, assim, avançar mais em sua jornada. Chegou ao norte de Trípoli, disposto a tentar atravessar o Mediterrâneo.

"Ali, a situação ficou um pouco melhor", conta ele. "Trabalhamos durante alguns meses, em qualquer emprego que conseguíssemos encontrar, e daí cruzamos o Mediterrâneo para vir à Europa."

Harun teve, por fim, sorte - de não ter sido detido pelas forças de segurança dos países europeus e de não ter caído nas garras de novos traficantes humanos.

Ele desembarcou na Itália e de lá seguiu à Alemanha, onde seu pedido de refúgio foi aceito.

Harun diz que a "vida está boa agora", mas agrega que seu sofrimento até chegar à Europa - em especial as perdas que ele viveu na jornada - permanecerá para sempre em sua memória.

"Enterramos um de nossos amigos na fronteira entre o Egito e a Líbia. Outros dois se separaram de nós em Saba (Líbia), e não sei se estão vivos ou mortos. Uma garota caiu no mar Mediterrâneo. Mas alguns conseguiram chegar à Europa."

Questionado sobre se, com o conhecimento que tem agora, ele voltaria a fazer essa jornada, a resposta é direta: "Não".

"Falando francamente, eu poderia ter estudado ou trabalhado no meu país natal. (Mas) via as pessoas indo embora e isso, somado à situação (de instabilidade) política, me convenceu a emigrar."

Edição 132 Novº 2017

José Álvaro de Lima Cardoso (economista)

A VINGANÇA DO CAPITAL CONTRA O TRABALHO

As revoluções industriais são da própria natureza do capitalismo. O capital revoluciona o tempo todo os meios de produção e, assim, mudam também as relações sociais. Muda o jeito de produzir, mudam as relações sociais, mudam as ideias. A quarta revolução industrial, a exemplo das revoluções anteriores, coloca os meios técnicos e as forças produtivas num patamar muito superior, fornecendo as condições objetivas, do ponto de vista tecnológico, para a melhoria de vida das pessoas.

De um lado, portanto, o desenvolvimento das forças produtivas leva a avanços significativos nas tecnologias utilizadas e no processo de produção. Porém, as relações sociais de produção, baseada na propriedade privada e no lucro sem limites impossibilitam que tais avanços signifiquem benefícios para toda a sociedade. Talvez um dos principais efeitos dessa contradição seja o desemprego tecnológico, ou seja, aquele causado pela introdução de novas tecnologias. Mudanças tecnológicas implicam em elevação da produtividade que, muitas vezes, representa verdadeiros “saltos tecnológicos”. O uso de tecnologias mais eficientes permite produzir mais mercadorias em menos tempo de trabalho, ou seja, com menor quantidade de trabalho humano. O sistema produz assim uma elevação do desemprego, em decorrência do novo patamar tecnológico, criando uma força de trabalho excedente, que tende a crescer.

A substituição de trabalho humano por máquinas é decisão de cada grupo empresarial, que buscar reduzir permanentemente seus custos, o que lhe permite aumentar suas margens de lucros e/ou vender a preços mais baixos. O aumento da produtividade através da substituição de trabalho por máquinas gera uma “população excedente”, que é artificial, ou seja, é excedente em função das restrições impostas pelas relações sociais de produção. Então, as mesmas causas dos enormes ganhos de produtividade levam a existência de um grupo de trabalhadores sem espaço no mercado de trabalho. Quando muito, ocupando postos na economia informal, que paga menores salários, jornadas mais longas e tem condições de trabalho mais precárias.

O exército de desempregados e de trabalhadores na economia informal, são essenciais para a manutenção dos salários em baixos patamares. Até 2014, ocasião em que o Brasil, em algumas regiões, tinha uma situação praticamente de pleno emprego, ouvia-se dos prepostos patronais em mesas de negociação queixas de que não havia trabalhadores disponíveis para contratação, o que estaria “complicando” muito a gestão de pessoal. A mensagem podia ser entendida como: “é necessário que retorne o exército de reserva de desempregados, para impormos o nível salarial que queremos”.

Na mesma direção, o empresariado reclama recorrentemente da existência do salário mínimo, especialmente quando ele aumenta acima da inflação, como ocorreu no período entre 2004 e 2015. O salário mínimo funciona como impeditivo legal às possibilidades de achatamento salarial trazidas pelas flutuações do mercado e pelo exército industrial de reserva. Ligado ao mesmo fenômeno, na primeira grande onda neoliberal no Brasil, na década de 1990, na gestão FHC, nas mesas de negociação os patrões tentavam insistentemente eliminar os pisos das convenções coletivas de trabalho. Em Santa Catarina, algumas categorias chegaram a assinar à época convenções sem a existência de piso salarial, ou seja, o piso da categoria passava a ser o salário mínimo nacional do pais (cujo poder de compra, aliás, era baixíssimo).

O problema não é a tecnologia, em si, mas a expansão da tecnologia dentro de relações capitalistas, que conduzem ao desemprego tecnológico. A necessidade de manter as margens de lucratividade impedem (ou pelo menos constrangem) que os benefícios advindos das novas tecnologias sejam plenamente distribuídos para a sociedade como um todo. Por exemplo, se um salto tecnológico da quarta revolução industrial gera um excedente de trabalhadores em função dos ganhos de produtividade, isso pode representar uma redução da jornada de trabalho para toda a classe trabalhadora, o que evitaria o crescimento do desemprego, ao mesmo tempo em que possibilitaria a todos um ganho de tempo, para dedicar às demais esferas da vida (convivência com a família, cuidados com a saúde, prática de esportes, estudos, etc.)

Numa situação de desemprego elevado, aumenta o medo daqueles que conseguem se manter no emprego. Ao assistir os companheiros perderem seus empregos, o trabalhador tende a se submeter a piores condições de trabalho e a aceitar salários mais baixos. O risco para a classe trabalhadora é duplo: ou sofre as agruras do desemprego ou padece o aumento da exploração para manter os postos de trabalho. É muito comum na nossa sociedade a convivência entre o desemprego crescente e um número grande de pessoas trabalhando muito, com jornada de 50 ou 60 horas semanais, em um ou mais de um emprego. O trabalhador que, num processo de crise, fica alguns meses desempregado, sem o amparo de políticas públicas e/ou do sindicato, tende a posteriormente se submeter a piores condições de trabalho e salário. O trabalhador fica mais “dócil”, afinal qualquer coisa é melhor do que passar fome.

Neste quadro, é certo que alguns torcem para que aumente o desemprego, apesar de todo o sofrimento humano e do prejuízo social e econômico, decorrentes. É que o aumento do desemprego possibilita elevar a taxa de exploração para os trabalhadores que mantém o vínculo, ampliando assim a lucratividade das empresas. Como desgraça pouca é bobagem, a contrarreforma trabalhista, que entra em vigor em poucos dias, é uma espécie de vingança do capital contra os avanços que a duríssimas penas os trabalhadores conseguiram ao longo de séculos. O princípio da prevalência do negociado sobre o legislado, em relação a diversos aspectos das relações de trabalho, em meio à maior recessão da história, significa na prática, a autorização para retirar direitos e elevar os níveis de exploração dos trabalhadores.

Piero Benvenuti escreveu / Luisa Rabolini traduziu

UMA VISÃO REVOLUCIONÁRIA DO COSMOS

Parece que o próprio universo quis se curvar e prestar homenagem aos três cientistas estadunidenses agraciados com o Prémio Nobel de Física de 2017: poucos dias após a concessão do prestigioso reconhecimento, os astrónomos anunciaram a observação simultânea de ondas gravitacionais e de radiação eletromagnética emitidas por duas estrelas de nêutrons coalescentes numa fantástica explosão amplamente divulgada pelos media nos últimos dias


O Prémio Nobel foi concedido no último dia 3 de outubro a Rainer Weiss, Barry C. Barish e Kip S. Thorne, representando a grande Colaboração internacional Ligo (Laser Interferometry Gravitacional Observatory), que, depois de décadas de tentativas, conseguiu pela primeira vez detectar as ondas gravitacionais. O fenómeno foi previsto por Albert Einstein como uma consequência lógica da sua teoria da gravidade, conhecida como relatividade geral, mas a debilidade dessas mínimas ondulações no espaço-tempo tinha-as, até agora, tornado imperceptíveis e apenas a perseverança dos físicos na busca de soluções tecnológicas sempre mais refinadas tornou finalmente possível a inequívoca detecção desses fracos sinais cósmicos.

O resultado tinha despertado grande entusiasmo, não só entre os cientistas, mas também no grande público, sempre fascinado por fenómenos cósmicos e por uma teoria de consequências tão distantes do entendimento comum.

A concessão do Prémio Nobel aos representantes da Colaboração internacional Ligo era, portanto, esperada e eu diria quase descontada. O que não era absolutamente esperado foi que, justamente em concomitância com o prémio, os instrumentos da Colaboração – aos quais, desta vez, somou-se o interferómetro italiano Virgo - revelassem uma nova emissão de ondas gravitacionais e, ao mesmo tempo, os observatórios espaciais de raios gama (o satélite Fermi da NASA e Integral da Agência espacial Europeia) medissem um súbito e violento flash de luz gama, semelhante ao que acompanha as explosões nucleares.

Ficou logo evidente que se tratava de sinais emitidos pela própria catástrofe cósmica: duas estrelas de nêutrons, que em trajetória espiral cada vez mais próxima uma da outra, se fundem em uma só dando origem ao fenómeno, até agora previsto apenas teoricamente, chamado de "kilonova". A enorme vantagem da observação simultânea do flash gama consiste no fato de que a direção da origem deste último, ao contrário do local de emissão das ondas gravitacionais, pode ser determinada no céu com razoável precisão: imediatamente a localização do evento foi transmitida aos telescópios ópticos do mundo inteiro, incluindo o veterano telescópio espacial Hubble, e todos foram direcionados naquela direção na esperança de detectar o brilho de luz visível e infravermelha que certamente tal evento explosivo deveria produzir. A esperança foi amplamente recompensada, e justamente agora, em uma empolgante sucessão de conferências de imprensa, o filme (podemos realmente chamá-lo assim) do evento ocorrido 130 milhões de anos, em uma zona periférica de uma galáxia vizinha, foi mostrado ao público.

Para além do evento espectacular, as consequências científicas dessa fantástica observação são de grande magnitude. Em primeiro lugar, confirma-se a hipótese de que a velocidade de propagação das ondas gravitacionais é idêntica à da luz: de facto, se os sinais gravitacionais e eletromagnéticos - de natureza completamente diferente – fossem sendo propagados no espaço com velocidades mesmo que minimamente diferentes, depois de um percurso de bem 130 milhões de anos-luz, teriam chegado com um considerável lapso de tempo.

Outra consequência é que a admirável e frutífera colaboração entre telescópios ópticos e gravitacionais abre oficialmente uma nova era da astronomia observacional: no futuro poderemos investigar fenómenos cósmicos não só observando a luz emitida por eles, mas também através das mínimas vibrações do espaço-tempo, sinais estes que, diferentemente da radiação eletromagnética e por sua própria natureza, não encontram obstáculos em seu caminho.

Artigo de Raúl Zibechi

Insurreições silenciosas

“O mundo, nosso mundo, está mudando de maneira acelerada. Rejeitar essas mudanças, seria como anular a capacidade transformadora que está enterrando o capitalismo e levantando um mundo novo sobre seus escombros”, escreve o jornalista e analista político uruguaio Raúl Zibechi.

As grandes mudanças começam sempre por pequenos movimentos invisíveis para os analistas de cima e para os grandes meios de comunicação, como destaca um dos comunicados do zapatismo. Antes que milhares de pessoas ocupem as grandes avenidas, ocorrem processos subterrâneos, onde os oprimidos ensaiam os levantes que, depois, tornam visíveis nos eventos massivos que a academia denomina movimentos sociais.

Estas mudanças ocorrem na vida cotidiana, são produzidas por grupos de pessoas que têm relações diretas entre elas, não são fáceis de detectar e nunca sabemos se irão se tornar ações massivas. No entanto, apesar das dificuldades, é possível intuir que algo está mudando, caso agucemos os sentidos.

Algo disto parece estar ocorrendo em países da América Latina. Um companheiro brasileiro considerou, durante um encontro de geógrafos com movimentos sociais (Simpósio Internacional de Geografia Agrária – SINGA), que neste país estamos diante de uma insurreição silenciosa. A intuição se baseia em fatos reais. No seio de movimentos sociais e nos espaços mais pobres da sociedade, as mulheres e os jovens estão protagonizando mudanças, estão se deslocando do lugar designado pelo Estado e o mercado.

Os verdadeiros movimentos são aqueles que modificam o lugar das pessoas no mundo, quando se movimentam em coletivos e rasgam os tecidos da dominação. Neste ponto, deve se assinalar que não há uma relação direta ou mecânica causa-efeito, já que nas relações humanas os prognósticos não são possíveis pela complexidade que possuem e pela interação de uma multiplicidade de sujeitos.

Nos últimos anos, pude observar esta tendência de mudanças silenciosas no interior de vários movimentos. Entre os indígenas do sul da Colômbia, grupos de jovens nasa e misak 're-empreendem' a luta pela terra que havia sido paralisada pelas direções, focadas na ampliação das relações com o Estado que lhes proporciona abundantes recursos. Algo similar parece estar ocorrendo no sul do Chile, onde uma nova geração mapuche enfrenta a repressão estatal com renovadas forças.

Entre os movimentos camponeses consolidados, onde existem poderosas estruturas de direção, mulheres e jovens estão empreendendo debates e propostas de novo tipo, que incluem a mobilização e organização das pessoas que se definem LGBT (Lésbicas, Gays, Transexuais e Bissexuais).

Observamos também um crescente ativismo no seio dos movimentos tradicionais de militantes negros que constroem quilombos e palenques, inclusive nas universidades, como pode se apreciar nas academias brasileiras e colombianas, onde abrem espaços próprios.

Durante a escolinha, explicaram-nos que metade dos zapatistas tem menos de 20 anos, algo que pudemos apreciar. A participação das mulheres jovens é notável. Aqueles que participam dos encontros de arte e ciência convocados pelo EZLN enfatizam esta realidade. Em outros movimentos aparece a organização de garotos e garotas com assembleias que excluem os mais velhos.

Que reflexões podemos realizar sobre esta insurreição silenciosa, que abarca toda a sociedade e de modo particular os movimentos anti-sistêmicos. Sem pretender esgotar um debate incipiente, proponho três considerações.

A primeira é que as insurgências em curso das mulheres, dos povos negros e indígenas e dos jovens de todos os setores populares estão impactando no interior dos movimentos. Por um lado, estão produzindo uma necessária mudança geracional, sem deslocar os fundadores. Por outro, esta mudança é acompanhada por modos de fazer e de se expressar que tendem a modificar a ação política para direções que, ao menos quem escreve estas linhas, não é capaz de definir com clareza.

A segunda é de caráter qualitativo, estreitamente relacionada com a anterior. A irrupção juvenil/feminina é portadora de perguntas e culturas elaboradas no interior dos movimentos, com suas próprias características. As mulheres de baixo, por exemplo, não embandeiram o discurso feminista clássico, nem o da igualdade, nem o da diferença, mas, sim, algo novo que não me atrevo a conceituar, ainda que existam aqueles que mencionam feminismos comunitários, negros, indígenas e populares.

O desejo dos jovens zapatistas em mostrar suas músicas e danças, é algo mais que uma questão artística, do mesmo modo que suas perguntas sobre a ciência. Em alguns casos, como o mapuche e o nasa, é possível observar mudanças que, de fora, podemos avaliar como uma radicalização que não está focada apenas nas formas de ação política, mas também na recuperação de tradições de luta que tinham sido quase abandonadas pelos mais velhos.

A terceira, e talvez a mais importante, é que a irrupção dos jovens e mulheres de baixo vai perfilando outra concepção de revolução, que se afasta da tradicional teoria da revolução de cunho leninista. Aqui, aparece outra questão: como se faz política em chave quilombo/palenque? Como é a política em chave mulher? Não me refiro à participação das mulheres e os jovens de baixo nas estruturas já existentes.

As respostas serão dadas pelos próprios povos, que estão abrindo caminhos novos, ainda que o analista de cima sempre tende a os ver com olhos e conceitos do passado. Trata-se de construir, mais que de ocupar as instituições existentes. Vão se criando mundos novos ou sociedades novas, caso se deseje nomear com os conceitos de antes: poderes próprios, justiça própria com base, muitas vezes, em tradições e em outras de sentido comum dos povos; saúde, educação e maneiras de ocupar o espaço baseadas em lógicas não capitalistas.

O mundo, nosso mundo, está mudando de maneira acelerada. Rejeitar essas mudanças, seria como anular a capacidade transformadora que está enterrando o capitalismo e levantando um mundo novo sobre seus escombros.