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Edição 142 Novembro 2018

Thomas Reese

É POSSÍVEL UM CISMA NA IGREJA CATÓLICA?

A questão na reunião dos bispos dos Estados Unidos em Baltimore não é o cisma, mas sim a credibilidade. Se os bispos não forem capazes de lidar de maneira credível com o abuso sexual durante a sua reunião em Baltimore, os fiéis não vão se dividir; eles simplesmente vão embora.” O comentário é do jesuíta estadunidense Thomas J. Reese, ex-editor-chefe da revista America, dos jesuítas dos Estados Unidos, de 1998 a 2005, e autor de O Vaticano por dentro (Ed. Edusc, 1998), em artigo publicado por Religion News Service. A tradução é de Moisés Sbardelotto /IHU

Enquanto os bispos católicos dos Estados Unidos se reúnem em Baltimore para discutir questões polêmicas como o abuso sexual clerical e o racismo, algumas pessoas estão falando sobre a ameaça de cisma.

A história mostra que a possibilidade de cisma está sempre presente, mas as probabilidades contra um cisma são altas hoje.

Primeiro, para se ter um cisma, você precisa de pelo menos um bispo interessado em se separar. Se um padre e seus paroquianos decidem se separar da Igreja, isso não é um cisma. Se um padre lidera uma divisão, ela geralmente desaparece quando o padre morre.

Os bispos cismáticos podem ordenar outros bispos e padres, de modo que o afastamento tem uma maior chance de continuidade; o Grande Cisma de 1054 entre o cristianismo oriental e ocidental durou quase 1.000 anos.

Por outro lado, o cisma mais famoso do século XX foi liderado pelo arcebispo francês Marcel Lefebvre contra muitas das reformas ordenadas pelo Concílio Vaticano II, incluindo o ecumenismo, a liberdade religiosa e a tradução da liturgia ao vernáculo. Em 1988, ele ordenou quatro bispos sem a aprovação do papa, mas levou consigo apenas um número relativamente pequeno de católicos para o cisma. Após sua morte, seu grupo não cresceu significativamente e experimentou suas próprias divisões (Bento XVI também tornou o grupo menos atraente ao permitir um maior uso da missa em latim pré-Vaticano II).

Certamente há bispos que não gostam do modo como o Papa Francisco está liderando a Igreja. O arcebispo Carlo Viganò pediu que o papa renunciasse. Outros, incluindo o cardeal Raymond Burke, criticaram Francisco, mas até agora nenhum deles demonstrou interesse algum em debandar.

Eles o veem como uma aberração que será corrigida pelo próximo papado. Afinal, aos 81 anos de idade, ele é mais velho do que muitos de seus críticos. Eles podem esperar por isso.

Para se ter um cisma, você também precisa de questões verdadeiramente divisivas que rachem a comunidade, não apenas os bispos.

Bispos conservadores se queixaram de que Francisco é excessivamente permissivo ao permitir que católicos divorciados em segunda união comunguem; demasiadamente suave com os católicos que praticam o controle de natalidade; e muito acolhedor aos católicos LGBT. No entanto, pesquisas de opinião pública mostram que os católicos, até mesmo aqueles que frequentam a Igreja semanalmente, são muito mais liberais do que o papa nessas questões.

Embora blogueiros e comentaristas conservadores possam reclamar dessas questões, os fiéis não vão seguir um bispo ao cisma porque querem que as regras sobre o controle de natalidade, o divórcio e a homossexualidade sejam rigorosamente cumpridas.

Os sentimentos são mais fortes em relação ao aborto, mas Francisco expressou repetidas vezes a sua oposição ao aborto, embora, no início de seu reinado, ele tenha indicado que não transformaria a questão em uma “obsessão”, já que todos conhecem a posição da Igreja.

Os temas em discussão na reunião de Baltimore, o abuso sexual e o racismo, certamente são controversos, mas os bispos estão unidos em sua oposição ao racismo e unidos no pânico ao lidar com a crise dos abusos sexuais. Sobre o abuso sexual, a grande divisão não é entre os bispos, mas sim entre os bispos e o seu povo.

Os cismas mais importantes da história tiveram mais a ver com a política do que com a teologia. Isso foi verdade no Grande Cisma e na divisão anglicana com Henrique VIII. Hoje, o cisma entre os fiéis ortodoxos ucranianos e russos tem tudo a ver com a política.

Do mesmo modo, alguns também consideravam que os bispos pertencentes à Associação Patriótica Chinesa estavam em cisma, porque também ordenaram bispos sem a aprovação vaticana. O Vaticano evitava chamá-los de cismáticos, e um dos principais objetivos do recente acordo de Francisco com o governo chinês foi emendar a divisão entre os católicos chineses, mesmo que isso significasse aceitar alguns bispos que o Vaticano nunca teria ordenado voluntariamente.

A Igreja Católica dos Estados Unidos tem sido extraordinariamente bem-sucedida em manter os oponentes políticos no seu redil. Enquanto muitas Igrejas protestantes se dividiram durante a Guerra Civil, a Igreja Católica permaneceu unida. Nas recentes eleições de meio de mandato, os católicos dividiram seu voto entre candidatos republicanos e candidatos democratas, como fizeram na última eleição presidencial, enquanto outras denominações tenderam a votar esmagadoramente em um partido.

Essa unidade está sentindo alguma tensão, mas ainda parece forte. De acordo com o Pew Research Center, 84% dos católicos têm uma opinião favorável sobre Francisco, mas, quando isso é analisado por partido, os números são de 89% para os católicos democratas e de 79% para os católicos republicanos. Este último ainda é um número extraordinariamente alto; qualquer político adoraria ter essa classificação. Mas isso mostra como o partidarismo pode enfraquecer a união.

O Pew também constatou que 55% dos católicos republicanos acham que Francisco é liberal demais. O discurso do papa sobre construir pontes em vez de muros e o seu forte apoio aos refugiados e migrantes vai contra a ortodoxia de Trump. Mas esses republicanos não parecem dispostos a abandonar a Igreja.

Assim como os bispos estadunidenses não parecem prontos para abandonar as sensibilidades de ambos os lados. Embora alguns prefiram se concentrar no aborto, no casamento gay e na liberdade religiosa, nenhum deles tem apoiado as políticas anti-imigrantes do governo Trump. Somente neste ano, a Conferência dos Bispos dos Estados Unidos publicou 21 comunicados de imprensa sobre a a imigração, todos críticos em relação ao governo Trump.

É verdade, eles querem juízes pró-vida nomeados para a Suprema Corte, mas, ao contrário das lideranças evangélicas, os bispos católicos não venderam suas almas ao Partido Republicano. Eles ainda seguem a doutrina social católica, com a sua preocupação pelos trabalhadores, os pobres e os marginalizados. Na verdade, eles se sentem desconfortáveis com ambas os partidos.

A questão em Baltimore não é o cisma, mas sim a credibilidade. Se os bispos não forem capazes de lidar de maneira credível com o abuso sexual durante a sua reunião em Baltimore, os fiéis não vão se dividir; eles simplesmente vão embora.

Donata Horak

MULHERES E SÍNODO: É PRECISO FAZER AS PERGUNTAS CERTAS

Donata Horak é teóloga e canonista italiana, professora de Direito Canônico no Studio Teologico Alberoni, afiliado à Pontifícia Universidade Angelicum, de Piacenza, e da Escola de Formação Teológica de Piacenza.O artigo foi publicado em Il Regno. Uma primeira versão apareceu no sítio da Coordenação das Teólogas Italianas. A tradução é de Moisés Sbardelotto /IHU

Por ocasião do Sínodo dos bispos, a imprensa deu um certo destaque a um movimento, nascido espontaneamente em diversos países, que pede que o papa conceda um voto deliberativo às mulheres participantes em vários níveis nos trabalhos sinodais.

As sínteses jornalísticas nem sempre ajudaram a compreender o porte do pedido, tratando o Sínodo como uma assembleia democrática cujas regras excluiriam as mulheres por serem mulheres, enquanto confeririam plenos poderes deliberativos aos homens, inclusive aos não bispos.

Talvez seja útil esclarecer os termos da questão, não para diminuir o porte do movimento Votes for Catholic Women, mas justamente para canalizar melhor as energias para reformas que possam contribuir para alcançar aquela sinodalidade que deveria dar forma às relações na Igreja.

Auxiliar o bispo de Roma

Estamos falando do “Sínodo dos bispos”, organismo instituído para auxiliar o bispo de Roma no exercício pessoal do seu ministério. No delicado e nunca estático equilíbrio entre colegialidade e primado, o pontífice se vale de todos aqueles órgãos de consulta que lhe permitem agir em comunhão e a serviço da comunhão das Igrejas.

O Sínodo, embora composto por bispos, não tem natureza deliberativa, mas apenas consultiva: o papa o convoca, o papa o preside, o papa, no fim, decide que valor deve atribuir ao documento final elaborado pela assembleia sinodal.

Quando falamos de direito a voto no Sínodo dos bispos, não devemos pensar em um poder deliberativo que imediatamente torne magistério aquilo que é deliberado pela maioria. Quem tem direito a voto no Sínodo, mesmo sendo bispo, não faz nada mais do que contribuir para a formação do magistério papal. E, precisamente nesse ponto, ocorreu a reforma mais importante na recentíssima constituição apostólica Episcopalis communio.

Comumente, o documento final, votado pela assembleia, deve ser aprovado posteriormente e, assim, passa a fazer parte do magistério ordinário do sucessor de Pedro. Agora, prevê-se que o papa possa conceder ao Sínodo um poder deliberativo. Nesse caso, o documento final só deve ser ratificado e se torna magistério ordinário do sucessor de Pedro, publicado com as assinaturas do papa e de todos os membros que votaram nele.

Isso é uma revolução? Não exatamente: a norma reforça e explicita o que já era previsto pelo cânone 343 do Código de Direito Canônico de 1983.

A Episcopalis communio certamente insiste na dimensão sinodal do exercício do ministério do bispo de Roma e de todos os outros bispos; valoriza o forte vínculo entre cada bispo individual e a Igreja particular que lhe é confiada, estabelecendo, por exemplo, que o Conselho Ordinário da Secretaria Geral seja composto por bispos diocesanos, ou seja, por pastores que fazem parte de uma porção do povo de Deus que lhes foi confiada; fortalece a fase de consulta preparatória e prevê que os fiéis, como indivíduos ou associados, possam enviar diretamente as suas contribuições à Secretaria Geral.

É nesses termos que se deve entender a “representatividade” do povo de Deus. O Sínodo dos bispos não é um pequeno parlamento eclesial, em que os membros com direito a voto deliberativo tentam obter a maioria dos votos para satisfazer as reivindicações de um partido, de uma categoria de fiéis ou de uma linha eclesiológica. O povo de Deus é representado pelos bispos por estarem em comunhão com as Igrejas particulares em todos os seus componentes.

Portanto, por sua natureza, a assembleia do Sínodo “dos bispos” nunca será composta por todos os componentes do povo de Deus, em proporção à sua consistência (característica, esta, de outros órgãos, como os conselhos pastorais).

A composição

No entanto, mesmo do ponto de vista da composição do Sínodo, não faltam novidades na Episcopalis communio: referimo-nos ao cânone 346, que prevê que a maioria dos membros sejam bispos, mas que descarta aquele limite de 15% de pessoas não marcadas pelo múnus episcopal previsto nos Regulamentos anteriores; quanto aos especialistas que participam das assembleias, já não se diz mais que devem ser “eclesiásticos”.

Em suma, quem pode participar do Sínodo, além dos bispos? Todos os sujeitos previstos pelo cânone 346 do Código de Direito Canônico e também “outros mais, que não detêm o múnus episcopal e cujo papel é determinado de cada vez pelo Romano Pontífice”. Nem o Código nem a Episcopalis communio especificam que esses “outros” devem ser ministros ordenados, religiosos ou religiosas, homens ou mulheres. O direito a voto poderia ser concedido a eles, sem distinção de estado de vida ou de sexo.

Neste momento, entre os 39 membros de nomeação pontifícia, 10 não são bispos, mas são todos presbíteros. Talvez, seria possível desejar mais coragem na nomeação, talvez atribuindo um papel mais forte aos jovens e às jovens, já que se fala deles? É possível, assim como, aliás, o papa poderia estender o direito a voto também a outros participantes nos trabalhos sinodais, e até durante o andamento dos trabalhos, o que veremos.

Existe um precedente. O cânone 346, confirmado pela Episcopalis communio, prevê que a União dos Superiores Gerais eleja alguns membros representativos dos institutos religiosos “clericais”. Por que só estes e não também os institutos masculinos leigos e todos os institutos femininos? Parece, evidentemente, uma norma irrationabilis aos próprios superiores gerais, tanto que, no Sínodo de 2015, eles tinham eleito surpreendentemente um irmão leigo, o prior dos Irmãozinhos de Jesus.

Pensava-se que ele participaria como simples consultor, mas o papa, usando legitimamente as suas prerrogativas, concedeu-lhe surpreendentemente o direito a voto. Também por ocasião do Sínodo de 2018, a União dos Superiores Maiores designou dois irmãos leigos. Parece evidente que deveriam ser reformados os cânones 346 e 347: bastaria remover o adjetivo “clericais” e, para evitar dúvidas, especificar que o próprio direito de eleição está nas mãos dos superiores e das superioras gerais.

Isso seria suficiente para responder às reivindicações dos movimentos que pedem uma ampliação do direito a voto no Sínodo? Evidentemente não; evidentemente, o que está em jogo é mais sério e mais elevado.

Uma demanda radical das mulheres

Talvez, o Sínodo dos bispos não seja a instituição adequada para recolher as reivindicações que esses movimentos expressam: ele continuará sendo um órgão composto, em sua maioria, por bispos, portanto, de ampla composição masculino, e sempre terá uma função predominantemente consultiva.

Isso não deve nos distrair do fato de acolher com profunda gratidão a demanda que está atrás do slogan “Votes for Women”. É a partir das periferias que a Igreja é movimentada e impulsionada pelo Espírito. As mulheres são uma periferia que pede participação, que pede para pode se pôr em jogo com paixão, que pede não uma representatividade política (não existe um “partido das mulheres” que votaria compactamente se investido do direito a voto em um Sínodo), mas pede para ser visível, para tomar a palavra com autoridade, porque senão somos todos mais pobres.

Esse movimento é um belo dom do Espírito que poderá contribuir para gerar novas formas sinodais, novas instituições ou a renovação de práxis antigas (poderiam ser repensados os concílios particulares? Poderiam ser introduzidos conselhos de participação democrática como já ocorre nos institutos religiosos?).

Com gratidão, acolhemos o entusiasmo de movimentos femininos que, com nova energia, assertividade e autoridade, inserem processos criativos.

Mas se poderia perguntar: onde estão os leigos homens? Já se sentem suficientemente representados por órgãos com um grande componente clerical? Não acreditam que a sua experiência de vida deveria contribuir com o discernimento comunitário?

E, por fim, uma pergunta, aquela que arde mais do que as outras. Não se vê um movimento semelhante no mundo juvenil, entre aqueles jovens pelos quais se está celebrando o Sínodo? Será que já não se afastaram silenciosamente aqueles jovens e aquelas jovens que não se sentem representados e ouvidos nos processos decisórios, nas estruturas institucionais e na linguagem de uma Igreja clerical?

Massimo Faggioli

OS LIMITES DE UMA ABORDAGEM CRIMINOLÓGICA À CRISE DOS ABUSOS NA IGREJA

É necessário adotar uma abordagem focada na reconciliação, paralelamente à implementação de medidas criminais e canônicas. A opinião é do historiador italiano Massimo Faggioli, professor da Villanova University, nos Estados Unidos. O artigo foi publicado em La Croix International. A tradução é de Moisés Sbardelotto /IHU

Konrad Adenauer, o devoto católico romano que foi chanceler da Alemanha de 1949 a 1963, desempenhou um papel-chave na transição do seu país do nazismo (1933-1945) para a nova, democrática e anticomunista República Federal que nasceu sob o olhar atento dos Aliados após a Segunda Guerra Mundial. E, nessa tarefa, ele disse certa vez, “Não jogue fora a água suja se você não tiver outra que esteja limpa”.

Essa afirmação é tão apropriada para a Igreja Católica de hoje, no modo como ela navega na tempestade global da crise dos abusos sexuais, quanto foi para a Alemanha pós-nazista em 1945.

A Igreja terá que trilhar um caminho semelhante ao que foi percorrido por todas as nações que já migraram de um tipo de regime para outro. E terá que lidar com um passado problemático (para dizer o mínimo), em que a responsabilidade moral recai sobre muito mais pessoas do que as que podem ser processadas criminalmente.

A mudança, por parte da Europa pós-Segunda Guerra Mundial, de regimes autoritários e totalitários para sistemas democráticos e constitucionais é um bom exemplo, nesse sentido.

Imediatamente após sua derrota militar, a Alemanha e a Itália, por exemplo, começaram um processo de “desnazificação” e de “desfascistização”. Isso foi realizado em fases.

A primeira fase, que ocorreu ao longo de várias semanas, foi marcada por uma onda de execuções (em parte, extrajudiciais).

Então, durante alguns meses depois disso, houve uma segunda fase em que colaboradores nazistas e fascistas foram banidos ou expurgados do serviço público e da vida pública.

E, finalmente, numa terceira fase (com um cronograma que diferia de país para país), foi elaborada uma legislação para reintegrar oficiais e funcionários de segunda linha do regime na vida pública por meio de programas de amnistia oficiais e não oficiais.

A Igreja Católica não é um regime nazista ou fascista. E ninguém quer amnistia para aqueles membros da Igreja que abusaram sexualmente dos jovens e vulneráveis; ou para aqueles que acobertaram os abusos.

Mas o paralelo é particularmente importante, porque ressalta um elemento-chave na maneira como os católicos estão atualmente respondendo às revelações de abuso em comparação com o modo como eles reagiram em 2002, quando a crise eclodiu.

A abordagem criminológica da crise dos abusos tende a simplificar demais uma situação muito mais complexa. Ao se focar apenas nos abusadores e nos que possibilitaram os abusos, ela tende a exonerar todos os outros ou – muito pelo contrário – tende a identificar a própria Igreja (ou a hierarquia) como um sistema inteiramente corrupto do ponto de vista criminal.

A realidade é que, para além da lista de abusadores e de facilitadores, há também uma lista muito mais longa de católicos que ocupam uma vasta área cinzenta. Ela inclui pessoas que não levaram as vítimas a sério ou que se recusaram a acreditar em rumores sobre supostos abusadores.

Ela também consiste naqueles que não lidaram com a hipocrisia de como a Igreja frequentemente lida com a moral sexual e naqueles que justificaram ou lucraram com o sistema clerical que está no cerne da história da crise dos abusos.

Processo de conscientização

Se olharmos para os abusos na Igreja dessa maneira, fica claro que a abordagem criminológica por si só não proporcionará uma saída dessa crise. Aqui a comparação com a transição de um tipo de regime para outro na Europa pós-1945 é reveladora.

Ninguém deveria esperar ou procurar pelo “atestado de saúde” fácil e muitas vezes hipócrita e cúmplice dado às autoridades da Igreja de maneira semelhante ao chamado Persilscheine concedido pelas autoridades encarregadas pela desnazificação na Alemanha após a Segunda Guerra Mundial.

Ao mesmo tempo, seria ingénuo pensar que a Igreja ou as autoridades seculares que conduzem as investigações conseguirão visar àqueles que têm responsabilidade legal e moral na crise dos abusos e declarar indiretamente a inocência de todos os outros.

Uma abordagem criminológica pura não fará isso, porque o que está acontecendo com as revelações de abuso faz parte de uma revolução cultural e social mais ampla.

A nova consciência na Igreja sobre os abusos – abuso sexual e abuso de poder de todos os tipos – não é apenas um resultado do trabalho de investigação de jornalistas e de autoridades seculares. É também uma consciência produzida por uma compreensão mais profunda do conceito de dignidade de todas as pessoas humanas e de todos os membros da Igreja – membros leigos, menores e mulheres.

Isso deveria levar-nos a entender que deve haver um processo de conscientização, purificação e reconciliação na Igreja paralelo às investigações, processos e condenações de abusadores e facilitadores.

E também porque a história das mudanças de regime nos diz que o processo de depuração (expurgo de colaboradores do antigo regime) está sempre misturado com uma agenda política e nunca envolve apenas o cumprimento da lei. Isso fica bem claro na forma como alguns grupos católicos estadunidenses estão tentando usar o escândalo dos abusos como uma arma nas “guerras culturais”.

É necessário adoptar uma abordagem focada na reconciliação junto com a implementação de medidas criminais e canônicas. Isso não apenas para refletir honestamente as complexidades morais que fazem parte da crise sistêmica de abusos na Igreja. Mas também para responder à fase particular da crise que começou neste ano, com uma nova onda de investigações conduzidas por autoridades seculares, especialmente nos Estados Unidos.

O lado sombrio do catolicismo institucional

Começando em junho passado com as revelações sobre o ex-cardeal Theodore McCarrick e continuando em agosto com o relatório do Grande Júri da Pensilvânia, e agora com o anúncio de muitos Estados estadunidenses que estão prestes a investigar os registros diocesanos, o foco da atenção mudou para os arquivos da Igreja – encontrados em dioceses, nunciaturas papais e no Vaticano.

Essa nova onda de investigações lançadas por autoridades seculares nos arquivos eclesiásticos significa que a Igreja terá que enfrentar um longo período de revelações sobre o lado sombrio do catolicismo organizado e institucional.

Em geral, os arquivos tendem a registar apenas (ou principalmente) as sombras, e não o lado positivo das pessoas e das instituições. Os arquivos não guardam registros da santidade cotidiana da vasta maioria dos cristãos.

Além disso, permitir que a dimensão legal assuma completamente o modo como a Igreja lida com a crise dos abusos traria de volta a ideia de governança da Igreja exemplificada por um dos bispos italianos mais conservadores do Concílio Vaticano II, o cardeal Giuseppe Siri (1906-1989).

Ex-arcebispo de Gênova e papável, Siri costumava dizer que a Igreja Católica devia ser governada por meio do silentium et archiva (silêncio e arquivos) – isto é, protegendo os arquivos daqueles que são culpados de alguma coisa; arquivos que podem e serão usados contra eles.

Neste momento presente na crise dos abusos sexuais católicos, há uma grande tentação a buscar uma solução criminológica simples para o problema. Um sintoma revelador dessa tentação é a evidente falta – ainda hoje – de reflexões teológicas sobre a crise e o seu significado para a Igreja.

Para ser claro: a fase de investigações nos arquivos eclesiásticos por instituições seculares é necessária e há muito tempo esperada. Mas não pode haver nenhuma esperança para uma solução duradoura para essa crise, a menos que levemos em consideração o panorama muito mais complexo das responsabilidades institucionais, teológicas e morais em escalões da Igreja que são muito maiores do que a lista daqueles que serão declarados culpados.

Edição 141 Outubro 2018

Reportagem de Sergio Ferrari, publicada por Alai /IHU

A POBREZA NO MUNDO, UM EFEITO DA INJUSTIÇA

Com os alimentos desperdiçados poderiam alimentar-se 800 milhões de pessoas

Uma em cada dez pessoas no planeta Terra sofre, em 2018, com o impacto da pobreza extrema, segundo as cifras oficiais dos organismos internacionais. E se bem nos últimos 25 anos, as mesmas estatísticas, indicam que bilhões de seres humanos escaparam dessa categoria, a realidade cotidiana em muitas regiões aporta sinais preocupantes de retrocessos significativos.

Acabar com a pobreza não é uma questão de caridade, mas sim de justiça, enfatizaram as Nações Unidas nesta terceira semana de outubro, em ocasião do Dia Internacional para a Erradicação da Pobreza, que se comemorou no dia 17. Reflexão ainda mais atual ao celebrar este ano o 70º aniversário da Declaração Universal de Direitos Humanos e quando se reatualiza o debate sobre os Objetivos do Desenvolvimento Sustentável, o primeiro dos quais tenta terminar com esse flagelo.

Segunda as estatísticas da ONU, 700 milhões de seres humanos vivem abaixo da linha da pobreza, o que significa que contam com menos de US$ 1,90 por dia. Entretanto, limitam as mesmas, seriam 1,3 bilhões de pessoas que padecem de “pobreza multidimensional”, conceito que contabiliza o acesso aos serviços básicos essenciais para levar uma vida digna. Fator ainda mais preocupante: a metade das vítimas são menos de 18 anos.

O drama do custo de um prato de comida

Um mesmo prato de comida, caseira, simples, mas nutritiva, elaborada com ingredientes semelhantes, que assegura um terço das calorias diárias necessárias para uma pessoa, custa, em Nova Iorque, US$ 1,20, o que representa 0,6% do salário diário médio. Não obstante, no Sudão do Sul, representaria mais de dois dias de salário. Isso é, como se um habitante de Nova Iorque tivesse que pagar US$ 350 por esse cardápio.

Na Nigéria, para esse mesmo tipo de alimento, deve se destinar o salário de mais de um dia. Enquanto na Colômbia, Guatemala ou Bolívia, um menu dessa natureza representaria entre 2 ou 2,7% da média salarial diária. Assim aponta o relatório “Contando os feijões: o custo real de um prato de comida em todo o mundo, 2018”, recentemente publicado pelo Programa Mundial de Alimentos da ONU (PMA). Os principais afetados, segundo o estudo, são os países em conflito ou que sofrem diversos fatores de instabilidade.

Causas e fatores da pobreza

Para Antonio Guterres, secretário-geral da ONU, na sua mensagem oficial de 17 de outubro, os conflitos armados, os desastres naturais e as desigualdades crescentes aparecem como obstáculos para o combate contra esse lastre. E chamou a “uma globalização justa que produza oportunidades para todos e que garanta que o desenvolvimento tecnológico impulsará esforços para erradicar a pobreza”.

Conceitos compartilhados, parcialmente, por organizações não-governamentais (ONGs) internacionais, que aprofundam ainda mais a reflexão sobre causas e fatores da pobreza.

“A pobreza é uma epidemia que afeta milhões de pessoas no nosso planeta”, enfatiza a Oxfam Intermón que há anos prioriza sua ação nessa temática. Para a ONG, são 1,4 bilhões de pessoas que sofrem da pobreza extrema e quase 900 milhões padecem de fome, e não tem acesso à água potável a outros serviços básicos como a saúde e a educação.

Na pedagogia da dita ONG, o conteúdo, entretanto, é mais contundente. No seu site, a Oxfam destaca que antes de explicar quais são as causas da pobreza no mundo, é importante clarear entre fator e causa. “As causas são situações que levam ao desenvolvimento da pobreza, enquanto um fato pode manter essas condições de pobreza durante longo tempo dado que não permitem uma solução”, explica.

“Diferentes instituições estudaram as causas da pobreza. Porém, é preciso ter em conta que cada território e cada situação é diferente, na qual falar da casuística geral é mais que complexa”, destaca. E se coloca a analisar os fatores que favorecem a manutenção desse flagelo.

Entre eles, o modelo comercial multinacional, com o desenvolvimento de grandes corporações que usam recursos e mão-de-obra barata em países em risco de pobreza, empobrecendo-os ainda mais.

A corrupção, que subtrai recursos essenciais que deveriam estar destinados para as áreas sociais. Sem subestimar o impacto das mudanças climáticas, enfermidades e epidemias. Outros fatores: o desperdício dos alimentos, que implica que com os gastos de 800 milhões de pessoas que padecem de fome, a discriminação de gênero, os conflitos armados e o crescimento exponencial do número de habitantes no planeta. Entretanto, segundo a mesma ONG, um dos fatores mais preocupantes, segue sendo, o desinteresse dos países desenvolvidos para acabar com a pobreza.

Massimo Faggioli

A MAIOR CRISE DA IGREJA CATÓLICA DESDE A REFORMA

“Muitos dos críticos do papa no Ocidente, e particularmente nos Estados Unidos, veem a crise dos abusos não apenas como um fracasso moral-teológico, mas também como o fracasso da Igreja Católica em continuar sendo a alma do Ocidente.” A opinião é do historiador italiano Massimo Faggioli, professor da Villanova University, nos Estados Unidos. O artigo foi publicado por Foreign Affairs, 11-10-2018. A tradução é de Moisés Sbardelotto. Eis o texto.

A Igreja Católica está enfrentando a sua mais séria crise em 500 anos. Nestes últimos meses, uma nova onda de revelações de abusos clericais deixou o mundo em estado de choque. Da Austrália ao Chile, da Alemanha aos Estados Unidos, relatos horripilantes revelaram milhares de casos de assédio infantil cometidos por membros do clero. Um relatório de um Grande Júri dos Estados Unidos documentou 1.000 crianças abusadas por 300 padres somente no Estado da Pensilvânia ao longo de sete décadas.

A nova onda de revelações em 2018 foi perturbadora não apenas porque expôs a persistência dos abusos, mas também porque envolveu autoridades de alto nível da Igreja nos abusos e no seu acobertamento. O cardeal Theodore McCarrick, ex-arcebispo de Washington, renunciou ao Colégio dos Cardeais em julho, quando acusações confiáveis vieram à tona, denunciando que ele havia abusado sexualmente de um menor e assediado os seminaristas que ele supervisionava.

As revelações sobre McCarrick foram particularmente preocupantes, porque o ex-arcebispo havia desempenhado um papel de liderança na resposta da Igreja Católica ao último escândalo de abusos sexuais clericais em 2002. No fim de agosto, o arcebispo Carlo Maria Viganò, ex-diplomata papal, publicou uma carta acusando o Papa Francisco de saber sobre os abusos sexuais de McCarrick há anos e de ajudar a encobri-los. Viganò concluiu pedindo ao papa que renunciasse.

A carta de Viganò e o próprio escândalo enviaram ondas de choque ao longo de uma fundação que já estava rachada. A Igreja está amargamente dividida entre alas progressistas e conservadoras. Essa divisão é particularmente pronunciada nos Estados Unidos, onde os católicos neotradicionalistas, altamente mobilizados, assumiram o pedido de Viganò pela renúncia de Francisco.

Esse ramo da Igreja já temia que Francisco apresentasse uma ameaça progressiva aos ensinamentos da Igreja sobre matrimônio e sexualidade. A carta parecia justificar tal desconfiança, acusando o atual papado e seus apoiadores na Igreja de complacência com aquilo que Viganò chamou de “ideologia pró-gay” e “redes homossexuais” entre o clero. Na opinião de Viganò, essa foi a causa da crise dos abusos.

Os progressistas da Igreja, enquanto isso, defenderam Francisco contra as denúncias, mas sem a determinação daqueles que estão exigindo a sua renúncia – em parte porque eles também consideram o seu histórico geral em relação à crise dos abusos sexuais como fraco.

Na necessidade desesperada de uma reforma institucional e enfrentando crescentes rixas políticas, teológicas e geopolíticas, a Igreja não experimentava uma crise tão grande desde a Reforma Protestante. Ao contrário do século XVI, a situação atual provavelmente não resultará em um cisma ou no estabelecimento de novas Igrejas. Mas, para entender a magnitude e a complexidade do que está acontecendo agora, temos que olhar para trás e para uma ruptura tão significativa.

Uma Igreja dividida

Assim como a Reforma, a atual crise se desdobra contra um pano de fundo de corrupção institucional generalizada. Então e agora, a Igreja institucional, especificamente o papado, recuou em relação a propostas-chave de reforma nas décadas anteriores à crise.

No início do século XV, após um período de cisma, uma série de concílios se reuniu para unificar a Igreja Católica. Eles propuseram um sistema pelo qual um conselho de representantes das Igrejas locais forneceria um controle sobre o poder papal e a corrupção. Mas o papado foi rápido em declarar essa doutrina, conhecida como conciliarismo, incompatível com o catolicismo.

Essa inversão foi um fator que tornou possível a corrupção na liderança da Igreja que Martinho Lutero viu quando visitou Roma em 1510. Os papas do Renascimento encorajaram a reforma, mas nunca uma reforma que se estendesse ao papado.

Nos anos após o fim do Concílio Vaticano II em 1962-1965, o papado mais uma vez recuou em relação às reformas. O Vaticano II teve um enorme impacto na cultura e na teologia da Igreja, incluindo a mudança da linguagem da missa do latim ao vernáculo e incluindo mais os leigos e os jovens na vida da Igreja.

No entanto, teve muito pouco sucesso na reforma da estrutura institucional da Igreja e do papado. Embora as propostas vindas dos bispos do Vaticano II para mudanças radicais na Cúria Romana (o governo central da Igreja) fossem cuidadosamente ouvidas por Paulo VI (ele mesmo uma criatura da Cúria Romana), ele finalmente decidiu retirar essa pauta do Vaticano II.

A crise dos abusos sexuais hoje se deve em grande parte aos 50 anos de um ofício papal que rejeitava qualquer proposta de descentralização ou de modernização de uma Cúria Romana cuja estrutura mudou pouco desde a sua fundação em 1588, no período imediatamente posterior ao Concílio de Trento. Ela continua sendo um sistema de carreira sem responsabilização real, não apenas quando se trata da crise dos abusos, mas também em termos da governança e liderança pastoral das Igrejas locais confiadas aos bispos.

A Cúria também está seriamente subfinanciada e com pouco pessoal para as tarefas que supostamente deve desempenhar, incluindo a seleção, a avaliação, a nomeação e a supervisão de um episcopado que, hoje, consiste em mais de 5.000 bispos católicos em todo o mundo.

Mediante medidas como a descentralização do processo de anulação do matrimônio e um novo conjunto de procedimentos para os Sínodos dos Bispos – parte do impulso deste pontificado rumo a uma Igreja mais “sinodal”, menos clerical e menos dependente de Roma – o Papa Francisco visivelmente tentou mudar de rumo e permitir mais descentralização da Igreja: resta saber se já é tarde demais.

Até agora, o episcopado mundial não tem se mostrado disposto a aceitar a oferta do papa. A mudança mais visível foi a decisão de Francisco de criar mais cardeais (em comparação com o passado) do chamado Sul global. Mas essa não é uma mudança que pode ou vai afetar o governo central da Igreja em Roma no curto prazo.

A fragilidade que resulta de um papado e de uma Igreja resistentes à reforma institucional tornam as disputas teológicas ainda mais perigosas. Na época de Lutero, a disputa centrou-se no papel da Escritura na vida teológica dos cristãos. Hoje, os católicos estão divididos em torno dos ensinamentos da Igreja sobre a sexualidade.

Consideremos, primeiro, os pontos de vista de muitos católicos tradicionalistas, especialmente leigos e clérigos nos Estados Unidos que gravitam em torno de revistas como First Things, o conglomerado midiático católico EWTN, blogs tradicionalistas e grupos de lobby católicos como o Instituto Napa.

Eles tendem a ver a crise dos abusos como um produto da revolução sexual dos anos 1960 e 1970, que eles acreditam ter contribuído para a normalização da cultura LGBT dentro do clero, entre outros desdobramentos. Essa ala da Igreja acredita que a crise dos abusos só diminuirá se a Igreja se mantiver firme contra qualquer tentativa de atualizar o ensino oficial sobre as questões sexuais – especialmente sobre a homossexualidade. Para muitos tradicionalistas, a aplicação efetiva desse ensino significaria reprimir a homossexualidade entre o clero, incluindo clérigos gays que são celibatários e castos.

O lado liberal-progressista da Igreja, incluindo os cardeais estadunidenses nomeados por Francisco, como Blase Cupich, de Chicago, e Joseph Tobin, de Newark, geralmente afirma o ensinamento católico sobre a sexualidade, mas defende uma abordagem mais pragmática a questões como as situações de católicos gays, divorciados e recasados, de contracepção e coabitação pré-marital.

Esse grupo vê o silenciamento e o acobertamento dos abusos como um resultado tóxico da hipocrisia da Igreja institucional, que até recentemente havia negado a necessidade de atualizar a linguagem dos seus ensinamentos, enquanto, silenciosamente, estava ciente da enorme lacuna entre tais ensinamentos e a cultura moderna.

Assim como durante a Reforma Protestante, a brecha teológica se estendeu para além do clero até os leigos e os fiéis comuns nos bancos das igrejas. Os debates não são sobre questões doutrinárias obscuras para especialistas, mas sobre questões como a sexualidade, que fazem parte da vida cotidiana dos leigos.

O mesmo vale para as brechas políticas dentro da Igreja, tanto no século XVI quanto hoje. A Reforma Protestante foi o início de um processo de nacionalização política, em que os fiéis se tornaram sujeitos não só da Igreja, mas também das nações. A ascensão do Estado-nação marcou o declínio da doutrina política católica romana que mantinha a suprema legitimidade da Igreja (especificamente do papa) sobre a dos governantes imperiais.

De um modo semelhante, a crise católica hoje tem a ver com as divisões políticas mais profundas dentro da Igreja em torno do ensino correto sobre questões sociopolíticas. Onde os católicos conservadores tradicionalistas tendem a se opor a qualquer legislação que descriminalize o aborto, os progressistas geralmente são favoráveis à descriminalização junto com medidas que ofereçam às mulheres alternativas destinadas a limitar o número de abortos o máximo possível. Os conservadores tendem a se opor ao acesso universal aos cuidados de saúde e a ser favoráveis ao direito irrestrito aos civis de portar armas, enquanto os progressistas são favoráveis ao primeiro e pressionam pelo controle das armas.

Os dois campos também têm opiniões opostas sobre a pena de morte e sobre a recente mudança de Francisco no Catecismo, que declarou a pena capital como “inadmissível”. Em geral, os conservadores favorecem o encolhimento do governo, enquanto os progressistas veem os serviços governamentais e as autoridades públicas como essenciais para promover o bem comum na sociedade civil. Essas divergências políticas entre os dois campos católicos nunca foram tão profundas nos tempos modernos, especialmente no mundo ocidental.

Assim como a Reforma, que levou ao rompimento religioso do Sacro Império Romano de Carlos V, a crise de hoje tem dimensões geopolíticas. O Papa Francisco, pela primeira vez, desviou o olhar do papado para longe da Europa e da América do Norte, voltando-se para o Sul global, especialmente para a Ásia. Em setembro de 2018, por exemplo, Francisco conseguiu chegar a um acordo histórico com o governo da China para reunir a Igreja oficial e não oficial de lá – uma medida que muitos católicos dos Estados Unidos veem com grande desconfiança.

Muitos dos críticos do papa no Ocidente, e particularmente nos Estados Unidos, veem a crise dos abusos não apenas como um fracasso moral-teológico, mas também como o fracasso da Igreja Católica em continuar sendo a alma do Ocidente. Não é coincidência que o ex-estrategista da Casa Branca e presidente do Breitbart News, Steve Bannon, está ajudando a construir o Instituto Dignitatis Humanae, um instituto católico romano de direita na Itália, cujo fundador o descreve como uma “academia para o Ocidente judaico-cristão”.

O que vem em seguida?

Dadas essas divisões, uma nova ruptura está no horizonte para o Vaticano? Um cisma formal na Igreja Católica é, embora não impossível, improvável no curto prazo. Os potenciais membros de uma seita católica cismática estão localizados em áreas do mundo como os Estados Unidos, onde a Igreja tem recursos financeiros e propriedades significativos, além de uma ampla gama de instituições católicas independentes que operam em grande parte fora da hierarquia da Igreja. Um cisma desencadearia uma cascata de alegações contenciosas sobre quem é dono do quê – e quem deve o quê, à medida que a Igreja paga os danos às vítimas de abuso sexual.

Uma possibilidade mais provável é que a Igreja Católica Romana acabará com uma estrutura semelhante à das Igrejas ortodoxas orientais. Algumas Igrejas ortodoxas individuais têm identidades nacionais muito fortes. O nacionalismo, muitas vezes, influencia a teologia dessas Igrejas e o sistema de lealdades globais entre elas e o Patriarca de Constantinopla, que é “o primeiro entre iguais” e o centro da unidade ortodoxa.

Essa poderia ser uma solução de longo prazo para um papado sobrecarregado, especialmente liderado por um papa latino-americano com um domínio tênue sobre as Igrejas católicas que construíram o mundo da cristandade na Europa e na América do Norte. O Vaticano não pode e não deve abandonar a globalização do catolicismo, mas o processo pode ter um custo acentuado para a sua unidade interna.

Por enquanto, o que mais provavelmente acontecerá é um aprofundamento da divisão pré-existente e não oficial da Igreja. Os católicos permanecerão formalmente obedientes a um único papa e a uma única hierarquia episcopal. Ao mesmo tempo, grupos católicos neotradicionalistas – com suas próprias paróquias e seminários – continuarão em um curso diferente do restante da Igreja. Será uma “longa marcha” por parte deles: uma tentativa para devolver o catolicismo romano e a teologia católica a um modelo anterior ao Vaticano II e até mesmo anterior ao século XX.

Seria uma grande ironia da história da Igreja se, assim que o Vaticano curar a ferida na China, uma nova e profunda ferida se abrisse no Ocidente.

Amyra El Khalili

OUTRO MODELO DE FINANÇAS EXIGE OUTRA ESTRATÉGIA SOCIO-AMBIENTAL

Amyra El Khalili, professora de economia socio-ambiental. Foi economista com mais de duas décadas de experiência nos mercados futuros e de capitais. É fundadora do Movimento Mulheres pela P@Z! e editora da Aliança RECOs – Redes de Cooperação Comunitária Sem Fronteiras. É autora do e-book “Commodities Ambientais em Missão de Paz: Novo Modelo Económico para a América Latina e o Caribe”, em artigo publicado por Diálogos do Sul e reproduzido por EcoDebate e IHU

A financeirização tem permeado os mais diversos setores da economia, provocando distorções entre a economia real (produção) e a economia financeira. A economia real baseia-se em produtividade na indústria, na agropecuária, no comércio e em serviços. Já a economia financeira é a que faz circular o dinheiro nos sistemas informatizados e tecnológicos, alimentando as taxas de juros e a especulação sobre a base produtiva.

Há uma diferença substancial entre financiar e financeirizar:

– Financiar é proporcionar um empréstimo para que a costureira compre uma máquina de costura e consiga pagá-la nas condições de sua produção. – Já financeirizar significa emprestar o dinheiro para a costureira comprar a máquina, causando o endividamento e, consequentemente, fazendo com que ela não consiga cumprir com seu compromisso, tornando-a escrava da dívida. É o que tem acontecido na América Latino-Caribenha, quando os países do Norte conseguem desenvolver sua produção industrial e agropecuária com o financiamento, e os países vulneráveis, e em desenvolvimento, tornam-se reféns de empréstimos sem poder se libertar do eterno endividamento, especialmente quando tal empréstimo destina-se a pequenos e médios empreendedores e agricultores.

Entre os mais endividados, estão os agricultores, pois a contração das dívidas exige garantias reais, como terras, imóveis, maquinários e equipamentos, entre outros bens que dão acesso ao recurso financeiro. Se os(as) agricultores(as) comprometem a terra para obter financiamento e as alienam ao sistema financeiro, passam a depender da decisão desses credores, submetendo-se a produzir o que os credores determinam, por exemplo, produtos transgênicos em escala. Devem, igualmente, vincular sua produção a equipamentos e a maquinário, a produtos químicos (agrotóxicos); enfim, passam a depender de uma estrutura com forças assimétricas em cuja engrenagem não têm poder de decisão.

Sob a pressão do sistema financeiro entre corporações e governos que impõe como contrapartida (ou garantia) a escala de produção, a terra, monetariamente falando, é o bem mais barato, pois caro é o que você põe em cima dela. Daí o avanço desenfreado sobre as áreas de florestas que ainda hoje detêm, graças aos povos indígenas e aos povos tradicionais, rica biodiversidade, água, minérios e alternativas energéticas. Dessa forma é que a financeirização avançou sobre as riquezas naturais consideradas sem valor (financeiro) na contabilidade de produção de bens e serviços. A esse avanço do capitalismo neoliberal chamamos de “financeirização da natureza”.

Uma finança diferente

Veja o paradoxo tão discutido nos cânones das várias religiões: as finanças podem ser usadas a favor da vida como a favor da morte. Nem todo dinheiro é ruim, assim como nem toda forma de o gastar é saudável. É nesse ponto que compreendo a análise do economista francês Yann Moulier Boutang, quando se refere à necessidade de construir uma finança diferente, que seja a favor da vida, financiando projetos socioambientais, e não a globalizada e enraizada no modelo neoliberal, que financia o mercado de armas, drogas, e favorece a biopirataria (ilícito). Quando tratamos de uma cifra de R$1.000,00 (mil reais), o senso comum sabe do que estamos falando. Quando, porém, tratamos de cifras que ultrapassam a casa dos três zeros, como 100.000 (cem mil), 1 milhão, 1 bilhão, 1 trilhão, a população não sabe o que tantos zeros representam.

É nessa casa de cifras que circulam os valores monetários no sistema financeiro, migrando de um continente a outro na velocidade de milésimos de segundos. Quando o sistema alavanca tais cifras, arrebenta com a atividade produtiva, causando estragos enormes nas contas públicas e privadas. Esse processo onera o custo de taxas de juros e tributos, em detrimento do custo de vida da população pobre, que é a maior pagadora de impostos.

A sociedade é mobilizada por campanhas de esclarecimento, auditorias de contas públicas e pressão com propostas proativas em favor de uma reforma tributária e fiscal que contemple e estimule o financiamento e os investimentos diretos em projetos socioambientais, com produção consciente e de menor impacto ambiental. Esse é o caminho que a ferramenta finanças deve seguir em favor da vida, e não como tem sido usada até agora, para projetos de morte, provocando guerras, conflitos regionais, etnocídios e genocídios. É por essas consequências que muitos demonizam o capitalismo e o sistema financeiro. A moeda não faz parte do paradigma organicista dos demais seres vivos. No paradigma mecanicista os humanos vivem condicionados ao sucesso do ter e não do ser.

Crise sistêmica

A crise sistêmica é fruto do entrelaçamento e imbricamento entre a moeda e as garantias que lastreiam a emissão de dinheiro, e do fato de cada saca de soja ser negociada na bolsa de Chicago, situação em que se pode multiplicar até 100 vezes em contratos futuros. Se em algum momento houver necessidade de se executar judicialmente qualquer contrato que circula no mercado de derivativos (derivado de ativos), nem toda a soja do mundo será suficiente, porque ela simplesmente não existe. Para não correrem o risco de uma intervenção judicial, as bolsas suprimiram a cláusula que prevê entrega física. É nesse ponto que reside a financeirização da produção de commodities agropecuárias e de minérios.

Os mercados futuros deveriam ter por função “fixar preço” para prevenir riscos de uma quebra de safra, crises políticas e econômicas, crises climáticas e desastres naturais, entre outros fatores imprevisíveis, capazes de provocar aumentos estratosféricos ou baixas expressivas nos preços, prejudicando custos, com isso provocando desemprego, falência de indústrias, de produtores e prestadores de serviços (hedge/proteção).

Desregulamentação do sistema financeiro

Com a desregulamentação do sistema financeiro para reduzir ao mínimo a intervenção do Estado no mercado, os instrumentos contratuais desenvolvidos para os mercados futuros – os derivados de ativos (derivativos) – estão sendo utilizados para outras finalidades. Embora devessem servir para proteger seus agentes contra as bruscas oscilações de preços, passaram a ser determinantes na formação de preços na produção, jogando a economia real no risco e na especulação da economia de mercado. Dessa maneira, o preço futuro da soja na Bolsa de Chicago determina o valor à vista da soja colhida no campo, quando o processo deveria ser o contrário. Na prática, o preço da soja colhida hoje no campo, calculado seu custo de produção – que compreende armazenagem, tributos e transporte até o porto para exportação –, é determinado pelo valor futuro das bolsas.

O chamado risco sistêmico, portanto, significa a quebra de toda a cadeia imbricada de garantias reais, seja pelo dinheiro que migra de um lado para outro virtualmente, seja pela quantidade e qualidade de produção. Se um banco empresta dinheiro a alguém, ele deve ter, em contrapartida, uma garantia que permita o empréstimo. É comum os bancos trocarem garantias entre si, pois um mesmo banco não pode ser garantidor de si mesmo. É nessa confusão de garantias e de produção que se formam as bolhas financeiras, que colocam em risco sistêmico as economias mundiais globalizadas pela tecnologia da informação.

A biodiversidade tem sua própria lógica

Façamos agora um exercício: o que acontecerá se essa prática ocorrer com nossas riquezas naturais, como as florestas, a biodiversidade e a água? A biodiversidade tem sua própria lógica, não sendo compatível com a produção em escala, sem com isso gerar altos impactos ambientais pela intervenção humana por meio da biotecnologia, da geo-engenharia e da mecanização. É possível, porém, analisar o que ocorre com as commodities minerais, uma vez que o preço da energia está atrelado ao preço do barril de petróleo, por sua vez cotado nas bolsas de commodities.

Estamos gritando contra o fracking (fraturamento hidráulico) para extração de gás de xisto, pois, além dos impactos ambientais, promoverá a militarização das áreas exploradas, uma vez que, pelo controle do combustível fóssil, o Oriente Médio tornou-se um barril de pólvora com conflitos e guerras sangrentas. São projetos de morte que prevalecem na contabilidade do sistema financeiro. As finanças são engenhadas por seres humanos que as sustentam com dados estatísticos, com números e programas matemáticos. São dados friamente calculados, sem a percepção de que cifras em trilhões podem causar prejuízos consideráveis para milhares e milhares de pessoas, como apertar o gatilho de uma metralhadora giratória. Esse é o paradigma mecanicista, em cuja lógica se fundamentam o mercado de carbono e seus derivativos (REDD, REDD+, Pagamentos por Serviços Ambientais, Créditos de Efluentes, Créditos de Compensação, etc.).

Quando Boutang propõe uma economia da polinização, está, na verdade, defendendo o mesmo princípio da economia socioambiental, explicada por Ignacy Sachs como economia dos biomas. Sachs concluiu que são os povos das florestas e os povos tradicionais os que têm realmente condições de manter a floresta em pé, protegendo-a e fiscalizando a partir de sua produção equilibrada e em harmonia com o ecossistema. Foi nesse estudo que Sachs conceituou o “ecodesenvolvimento”, posteriormente passando para “desenvolvimento sustentável”, e, finalmente, traduzido por “sustentabilidade”, agora ajustada ao modelo neoliberal, que chamam de economia verde. Trata-se de um conceito confuso, que apenas repete a teoria do capitalismo verde com algumas adequações, inicialmente cunhado pelo acadêmico inglês John Elkington, com o clássico The green capitalists (Os capitalistas verdes, Editora Gonllaccz, 1989), assentado no tripé: pessoas, planeta e lucro (triple botton line).

No entanto, em oposição à economia verde, a economia socioambiental agrega as propostas da economia solidária com a economia dos biomas a partir de núcleos formados em torno das bacias hidrográficas, já que, historicamente, a humanidade agrupa-se em torno das águas, construindo cidades e urbanizando-se. Uma cidade, grupo humano e demais seres vivos não sobrevivem sem água e não se desenvolvem economicamente sem energia.

A água não é substituível como a energia, que pode ser produzida por diversas fontes renováveis, além das não renováveis. A água é um enigma da natureza a ser decifrado, pois pode ser renovável se cuidada, e não renovável se degradada. A água está para a história da humanidade e do planeta como o ouro está para a história econômica globalizada, com seus fascínios, ganâncias e conquistas de povos sobre povos. Na mística, a água e o ouro encontram-se. Os movimentos da América Latina estão se mobilizando contra a mineração com o chamamento “Água sim, Ouro não”. Podemos beber água, mas não podemos comer ouro!

Na prática, a tese de Boutang pode ser implementada com a pulverização das finanças e com a cobrança sobre a “responsabilidade socioambiental do sistema financeiro”, fazendo com que os empréstimos exijam financiamento de projetos que não gerem impactos ambientais nem promovam exclusão social e violação de direitos humanos.

Sistema financeiro e política

Quando o sistema financeiro torna-se cúmplice de governos corruptos, viabiliza a lavagem de dinheiro, facilita a sonegação fiscal, transfere recursos públicos à iniciativa privada para que cumpra o que é função do Estado cuja função não é “lucrar”. Quando protege o mercado ilícito de armas, drogas, prostituição, entre outros, a sociedade deve ter o poder de impedir que essa economia subterrânea continue a se propagar. A proposta das redes e movimentos que questionam os investimentos e tantas outras pautas podem fazer a transmutação das finanças e alcançar o que há duas décadas estamos propondo como ação proativa.

É entendendo esse sistema e esclarecendo a sociedade, de forma didática, como ele funciona que promoveremos uma estratégia efetiva para combater as mazelas do mercado financeiro. A outra questão passa pela prestação de contas e auditorias dos recursos a fundo perdido, despejados em ONGs e OSCIPs.

As OSCIPs (Organizações Sociais de Interesse Público) passaram a ser um híbrido entre Estado e sociedade civil organizada, engessadas pela dependência de dinheiro público e sem condições de combater o sistema financeiro. Em favor da Amazônia, existem milhares de ONGs e OSCIPs que sequer puseram os pés na região. Afirmam pretender defender esse bioma, pois é onde há maior interesse financeiro, diferentemente de regiões como o Cerrado e a Caatinga, onde poucos querem investir e onde os projetos socioambientais se auto sustentam justamente pela carência de recursos. Eles devem ser criativos e fazer a economia prosperar, já que esses biomas – tipo a Mata Atlântica, o Pantanal, o Pampa e a Amazônia – são ricos em biodiversidade.

Dessa forma, haverá recursos financeiros suficientes para investimentos em educação, saúde, proteção e preservação ambiental, segurança pública e, principalmente, para a transição da economia em que vivemos para a economia que queremos. De fato, a economia é um todo e não está nem funciona fragmentada. Todos os sistemas e setores estão direta e indiretamente interligados pela globalização e pela tecnologia da informação. O que afeta a um afetará a todos em qualquer parte do mundo.

O que está faltando é a reestruturação do sistema financeiro e, com a sua regulamentação, uma política fiscal e tributária específica para esse setor, que propicie a migração de fortunas virtuais. Os impostos são mais pesados para os pobres e mais baratos para os ricos, que sempre conseguem linhas de financiamento. A população está sendo financeirizada com cartões de crédito, limites no cheque especial, no crédito consignado, enquanto os capitalizados são financiados com empréstimos de longo prazo e baixas taxas de juros.

Há, portanto, várias ações proativas: a necessidade de uma política de fomento e de incentivo à produção; o financiamento da transição de uma produção degradadora para uma produção ambientalmente sustentável e inclusiva; a fiscalização e a auditoria das contas públicas e privadas, principalmente de empresas cujas ações são negociadas nas bolsas de valores; a reforma tributária e fiscal, além do código do consumidor, a se fazer valer. Por fim, no que for ilícito, ilegal e imoral, deve haver aplicação da ação do Judiciário, pois não é possível ser tolerante com a corrupção, a sonegação fiscal e a lavagem de dinheiro. Temos de agir em conjunto com as instituições jurídicas, assessorando e estimulando. Não faltam razões. Pode-se até relembrar que em mercados desregulamentados muitos contratos entre partes acabam parando na mesa do juiz e os magistrados não entendem de finanças nem de seus jargões – como as palavras ou expressões em inglês grafadas nos contratos financeiros e mercantis, por exemplo, commodities, spread, gap, swap, etc.

Transição energética

Para viabilizar a transição energética, é necessário repensar o modelo econômico. A maioria da população vive em cidades. Quando o Brasil passou a ocupar a posição de sexta economia do mundo, ironicamente o IBGE divulgou dados assustadores sobre as favelas brasileiras. Segundo esses dados, certamente conservadores, o Brasil tem 6.329 áreas irregulares e precárias nas quais vivem 11.425.644 pessoas. Juntas, elas equivalem à população da Grécia (FERNANDES, E.; ALFONSIN, B. FDUA, n. 61).

As cidades consomem energia de países, forçando uma política energética do Brasil necessariamente voltada à construção de mais hidrelétricas, além de projetos que pretendem ressuscitar a energia nuclear e financiar o carvão. A energia produzida por uma hidrelétrica na Amazônia gera impactos ambientais e sociais naquela região para abastecer o Sul e o Sudeste, que recolhem seus tributos na ponta distribuidora de energia e não no local impactado na Amazônia.

Os diferentes setores de energia renovável concorrem em tributos, taxas e formação de preços com a produção de energia não renovável. Quando se incentiva a produção de energia renovável, como a eólica, a solar, o biodiesel e o etanol, não há planejamento para limitar essa produção, que acaba também gerando mais impactos com sua produção em escala, a qual deveria, por coerência, ser equilibrada e harmônica de região para região, analisada caso a caso, em um pacote energético diversificado.

É necessário, portanto, que o planejamento energético considere as demandas da região e da população que pode vir a ser afetada com a construção de hidrelétricas, usinas nucleares, com a exploração de petróleo, gás natural, carvão, gás de xisto, minério radioativo ou até com a construção de parques eólicos, solares, fotovoltaicos e monoculturas para a produção de etanol e biodiesel.

Precisamos desenvolver um modelo de transição energética com planejamento financeiro simultaneamente com a transição do modelo econômico, pois, do contrário, não haverá energia renovável ou não renovável que suporte a demanda de produção e resolva os problemas socioambientais, que, consequentemente, provocam bruscas mudanças climáticas. É de fundamental importância manter a população campesina, indígena, tradicional e ribeirinha nos campos e nas florestas, bem como o povo do sertão no Nordeste, invertendo a migração dos centros urbanos para o campo, para as regiões ribeirinhas, etc., de modo a reverter o quadro desolador do crescimento das favelas, do desemprego e da violência urbana. Esse tem sido o desafio de séculos e até hoje não saímos desse quadro crítico.

Os prazos para a implantação de uma política energética socialmente justa não fecham com os prazos da política partidária. O político que propuser uma estratégia que pretenda contribuir com a comunidade na gestão das águas, com a transição energética, ficará marcado como gestor público para o resto da vida, pois o mandato acaba, mas a gestão pública fica e sua militância será reconhecida pelo povo.

Quando o gestor público elabora uma proposta com a participação da comunidade para uma agenda de transição econômica a partir do binômio água e energia, estará investindo em projeto consistente de longo prazo, com efeitos visíveis no curto prazo, que são os da adesão e do apoio da comunidade. Há dinheiro para isso circulando no setor financeiro, e o setor de energia é o que mais acumulou nas últimas décadas.

Renda decente e renda universal

Em tese, deveria haver uma renda decente, ou renda universal, para todos. É o que garante a Constituição brasileira quando trata da “dignidade da pessoa humana” sem desigualdades. Se fizermos valer a Constituição, seja pelo direito à dignidade da pessoa humana, seja pelo direito ao uso dos bens comuns (bens difusos: água, energia, biodiversidade, minério), certamente estaríamos garantindo uma renda decente, e até mesmo universal.

Se entendermos que esses dois pilares compõem um conjunto indissociável da conquista dessas condições, estaremos trabalhando para a transição da economia em que vivemos (globalizada, em fase neoliberal do capitalismo), para a economia que queremos (socialmente justa, politicamente participativa e integrada e ambientalmente sustentável).

Favelização

A favelização é resultado da degradação ambiental e da exclusão social. Tal fenômeno se multiplica justamente porque as pessoas saem do seu meio vindo a inchar as cidades em busca de alternativas para sustentar suas famílias. Se buscarmos alternativas de geração de emprego e renda, fixando o ser humano no campo e impedindo a expulsão dos povos indígenas e povos tradicionais de seus territórios, teremos como fazer existir essa renda decente. É por isso que nos mobilizamos em favor da cultura de resistência, com a finalidade de evitar as guerras, os conflitos e a migração que formam massas de refugiados econômicos, do clima, das guerras, e da política genocida e etnocida praticada por governantes e corporações de seus países.

Se, de um lado, a tecnologia da informação faz migrar fortunas de um continente a outro, essa mesma tecnologia está fazendo com que possamos criar conexões de redes em que as florestas do mundo inteiro, os campos e os grupos de resistência se comuniquem e se mobilizem em prol da emancipação dos povos, tornando possível a utopia da renda decente universal que desejamos.

Governança ambiental

O conceito de governança ambiental tem sido confundido com governança corporativa, como assistimos na COP19, quando o setor de energia não renovável se uniu com cimenteiras e o setor siderúrgico para propor a falsa solução do mercado de carbono, postergando soluções reais por mais um instrumento de financeirização da natureza.

A governança ambiental que propunha o diálogo entre a iniciativa privada, o governo e a sociedade civil organizada tem sido dragada pela governança corporativa, a que fundiu a Bayer com a Monsanto. Faz-se necessário identificar e confrontar essa tendência para se saber quem é quem e com quem se está lidando. Eles têm a habilidade de absorver nossos argumentos para empurrar contratos financeiros e mercantis duvidosos e perigosos.

Se resgatarmos o conceito de governança ambiental pela perspectiva crítica de Yann Moulier Boutang, Ignacy Sachs, Edgar Morin, Vandana Shiva e tantos outros pensadores, além dos que o debatem em nossas redes e demais fóruns, em boa hora se espalhando por toda a América Latino-Caribenha, será possível construir uma política de governança ambiental para a realização de uma transição energética para uma finança possível e emergencialmente necessária.

Se utilizarmos os mesmos sistemas que fortaleceram esse modelo degradador e desumano, evidentemente será possível reprogramá-lo para uma nova consciência. Isso não depende de dinheiro; depende da sensibilização de corações e mentes. Depende, especialmente, de um código de ética e moral universal, ou válido para todo mundo. É nesse sentido que a encíclica ecológica Laudato Si, do Papa Francisco, vinda em boa hora, contribui como um princípio norteador!

Se fomos nós, os humanos, que criamos o problema, caberá a nós, os humanos, buscar por soluções, não, porém, pelo mesmo sistema e no mesmo grau de consciência que o criou, como dizia Albert Einstein. Uma economia só pode ser justa se for humanitariamente digna e ambientalmente sustentável, e somente será possível se for lastreada no tripé legitimidade, credibilidade e ética.

Relatório do Chapéu Vermelho”

CARDEAIS NA MIRA DE CATÓLICOS MILIONÁRIOS

Enquanto os bispos dos EUA trabalham para formular uma resposta oficial ao acobertamento e abuso sexual clerical, um novo grupo de fiscalização apoiado por cristãos milionários está buscando resolver a questão com suas próprias mãos. O grupo, chamado “The Better Church Governance Group”, foi lançado no campus da Universidade Católica da América (em inglês, Catholic University of America - CUA) com a intenção declarada de produzir seu ‘Red Hat Report’ (Relatório do Chapéu Vermelho, em tradução livre) até abril de 2020. Uma nova organização, que organizou um evento apenas para convidados no domingo à noite, planeia gastar mais de US$ 1 milhão no próximo ano para investigar todos os membros do Colégio dos Cardeais “para indicar os que sofreram acusações plausíveis de escândalos, casos de abuso e acobertamento”. A reportagem é de Christopher White, publicada por Crux. A tradução é de Luísa Flores Somavilla /IHU.

Os bispos dos EUA fundaram a Universidade Católica da América, e todos os seis cardeais residentes dos EUA fazem parte do Conselho de Administração.

Numa declaração ao Crux, um porta-voz da universidade disse que “um estudante reservou um espaço no campus de acordo com os nossos procedimentos de reserva de espaços. A Universidade Católica da América não financiou o evento nem o grupo.”

Os organizadores do Better Church Governance confirmaram que se trata de um evento particular e disse que não havia nenhuma associação entre a universidade e a organização em um e-mail enviado ao Crux.

O Relatório do Chapéu Vermelho, projeto anunciado como o carro-chefe da organização, deve fazer autorias com todos os 124 eleitores papais atuais. Segundo os organizadores, até o momento, espera-se que seja conduzido por uma equipe de quase 100 pesquisadores, acadêmicos, investigadores e jornalistas, com o objetivo de “responsabilizar a hierarquia da Igreja Católica por casos de abuso e corrupção e desenvolver e apoiar a honestidade, a clareza e a fidelidade na administração da Igreja”.

Em uma gravação de áudio do lançamento do evento obtida por Crux, o diretor de operações da Better Church Governance, Jacob Imam, disse que a organização não tem o intuito de atacar o Papa Francisco, apesar de ter perguntado o seguinte ao público de quase 40 pessoas: “E se em 2013 tivéssemos elegido alguém mais proativo na proteção dos jovens e dos inocentes?”

“Se tivéssemos tido o Relatório do Chapéu Vermelho, talvez não tivéssemos elegido o Papa Francisco”, declarava uma das apresentações de slides acompanhando as observações.

Imam, atualmente acadêmico Marshall da Universidade de Oxford, que se converteu do islamismo ao catolicismo há três anos, alegou que logo após o conclave de 2013 que elegeu Francisco várias grandes agências de notícias basearam seu conhecimento sobre o papa recém-eleito no que encontravam na Wikipédia.

Insistindo que não estava difamando o pontífice, acrescentou: “Acho que é justo dizer que ele não se identificaria como um defensor dos valores tradicionais”.

Considerando a falta de conhecimento que muitos eleitores têm uns sobre os outros, ponderou Imam, é uma “situação extremamente precária... quando se fecham as portas da Capela Sistina”,

De acordo com o prospecto, o grupo Better Church Governance quer produzir o relatório antes do próximo conclave papal. Os gastos do primeiro ano estão estimados em US$1.126.500.

“Muitos de nós que fomos criados numa sociedade democrática liberal não sabemos como se forma uma hierarquia”, disse Imam aos presentes. “Mas a história nos dá muitos truques e dicas, e nós, do Better Church Governance começamos a sistematizar algumas dessas estratégias. Estamos aqui para criar transparência na Igreja e para ajudar a apoiar a integridade”.

Atualmente, os organizadores do relatório estão buscando alunos da pós-graduação para a função de assistente de pesquisa e planejam oferecer uma remuneração de US$ 25/hora, trabalhando com uma equipe de investigadores e pesquisadores acadêmicos.

O lançamento da organização vem após um período brutal de repercussões de abuso sexual nos Estados Unidos. A queda do ex-cardeal Theodore McCarrick, que renunciou seu cargo do Colégio dos Cardeais em agosto, após revelações de que teria abusado de uma série de seminaristas e pelo menos um menor, fez com que várias pessoas pedissem uma liderança leiga mais ampla na responsabilização dos bispos pelos casos de acobertamento.

Além disso, a divulgação do relatório da Suprema Corte da Pensilvânia detalhando sete décadas de abusos cometidos por mais de 30 padres abusadores resultou em um compromisso dos bispos dos EUA para uma revisão completa das políticas de denúncia e responsabilização.

Imam disse que o relatório revelou que autoridades da região estavam cientes dos contínuos abusos e acobertamentos. Portanto, o Relatório do Chapéu Vermelho busca, assim que possível, realizar uma investigação nos locais em que reside cada cardeal.

Ele ainda descreveu a dupla proposta do relatório: compartilhar conhecimentos com cada cardeal na tentativa de melhor informá-los sobre os colegas eleitores e disponibilizar informações publicamente para que os leigos católicos possam ter acesso.

“Os cardeais precisam ser responsabilizados publicamente, portanto tem de haver alguma cultura de vergonha”, disse. “Eles sabem que se votarem em determinada pessoa.... as pessoas do seu rebanho e seus pastores saberão”.

“Isso é difícil. Toda decisão tem seu lado obscuro. Reconhecemos isso”, acrescentou. “Estamos dispostos a enfrentar isso em oração e jejum... porque não podemos deixar que as pessoas continuem a permitir que nossas crianças, os inocentes, os jovens, os seminaristas sejam devorados da forma que são”.

Imam também disse que dez ex-agentes do FBI estão envolvidos na investigação, sendo que dois eram chefes de investigação em questões eclesiásticas.

Em um e-mail a que a Crux teve acesso, enviado por Philip Nielsen, editor-chefe do Relatório do Chapéu Vermelho, para pessoas que poderiam estar interessadas, no mês passado, ele destacou que todos os cardeais serão investigados.

“Todos os dossiês terão uma classificação na parte superior indicando a conexão do cardeal com os escândalos e abusos, como ‘culpa severa, acusações plausíveis ou inocente’. A sentença final de cada um será baseada nas evidências mais contundentes e nas recomendações dos melhores especialistas”, escreveu.

Um sistema de classificação revisado foi distribuído no domingo, e os cardeais receberam uma classificação que se constitui em “Fortes evidências de abuso/corrupção, Algumas evidências, Evidências positivas contra abuso/corrupção”.

Imam declarou que com o tempo eles pretendem expandir e fornecer uma auditoria completa dos bispos também. Ele disse para os presentes do domingo que a organização não buscava ir adiante com uma agenda ideológica, mas sim responder como cada cardeal está em “acordo” com a Congregação para a Doutrina da Fé, o serviço de fiscalização doutrinário do Vaticano.

Quando um dos participantes perguntou se o relatório indicaria se os cardeais eram homossexuais, ele respondeu que seguiria o direito civil conforme necessário, mas que também seguiria a lei moral da Igreja, acrescentando que “se houver boatos de que ele é homossexual, será observado muito cuidadosamente... mas precisamos ter certeza”.

Apesar de os materiais oficiais da organização sustentarem que não há intenção de atacar nenhum dos cardeais, o e-mail de Nielsen parece sugerir o contrário.

“Por exemplo, o cardeal [Pietro] Parolin, na página do Wikipédia do Secretário de Estado corrupto do Vaticano está muito benevolente atualmente, sem link algum a escândalos, apesar de ele ter sido reiteradamente associado a escândalos relacionados a bancos e ter aparecido na carta de Viganò”, afirmou.

A carta a que se refere é a de 11 páginas escrita pelo arcebispo Carlo Maria Viganò, ex-embaixador papal dos EUA, alegando que havia alertado Francisco de questões de má conduta de McCarrick em 2013, mas que o pontífice não teria feito nada.

“Podemos mudar isso... até o próximo conclave ele precisa ser conhecido no mundo todo como a desgraça da Igreja. Nosso plano seria fazer com que sua página do Wikipédia mostrasse algo como “Grupo de fiscalização da Igreja The Better Governance indica que Parolin é ‘Extremamente culpado de cometer abusos’, com um link para o relatório. Ao mesmo tempo, acrescentaria todas as citações de outras fontes que o conectam a toda a corrupção financeira, etc.”, acrescentou Nielsen.

O e-mail também revela planos em andamento de fazer um lançamento em alguma reunião do Napa Institute, em Washington D.C., durante esta semana. No entanto, Nielsen disse ao Crux que por enquanto não há nenhum plano oficial de anúncio público lá.

O Napa Institute, uma organização com sede na Califórnia fundada por Tim Busch, um importante católico conservador, cuja conferência anual de verão reúne várias centenas de filantropos católicos milionários e religiosos católicos de alto escalão em seu resort, está organizando uma conferência para a terça-feira sobre a “Reforma Autêntica” no Hotel Mayflower em Washington D.C.

Como se pode imaginar, o e-mail de Nielsen afirma que o grupo ainda está no processo de formar o Conselho Diretivo, e apenas um membro é mencionado nos materiais atuais: Phil Scala, CEO da Pathfinder Consultants International, Inc., que já trabalhou no FBI.

Além disso, três pessoas são indicadas como editores-pesquisadores do Relatório do Chapéu Vermelho: os professores Jay Richards, da Faculdade Busch de Economia da Universidade Católica da América, e Michael P. Foley e Melinda Nielsen, da Universidade Baylor.

Ainda que os materiais da organização insistam em que “não somos um grupo de lobby ou de facção”, Richards já trabalhou para o Acton Institute, um think tank libertário, e já criticou Francisco abertamente. Foley e Neilsen também foram associados a várias instituições e publicações conservadoras, como, por exemplo, Hillsdale College, Crisis, The Catholic Thing e First Things.

Os materiais da organização também mencionam o Center for Evangelical Catholicism (CEC) como o “patrocinador fiscal” que atualmente recolhe doações, até que seja concedido o estatuto oficial de organização sem fins lucrativos. De acordo com o site, o CEC é uma corporação sem fins lucrativos na Carolina do Sul que “busca desenvolver a Nova Evangelização formando católicos capazes de cumprir a Grande Missão”.

Nielsen disse ao Crux que muitos participantes que trabalharam em certas universidades católicas não iriam querer que sua afiliação se tornasse pública, pois a rede mais ampla é muito maior do que os aliados conservadores.

Acrescentou, ainda, que o grupo busca tornar seus “objetivos e objeções algo com que todos possam concordar”, e que alguns dos piores casos de abuso ainda da época do fundador dos Legionários de Cristo, o padre Marcial Maciel, estavam dentre grupos ou indivíduos que tipicamente se identificavam como conservadores.

Quando um dos participantes perguntou qual era o percurso completo do projeto, Imam respondeu: “o projeto não acaba nunca”.

“Sempre temos que estar prontos para um conclave”, avisou.

Edição 140 Setembro 2018

José María Vigil

A CANONIZAÇÃO DE ROMERO FAZ SENTIDO PARA NÓS?

De que outra canonização dom Oscar Arnulfo Romero tem necessidade? O que lhe falta? O que uma “canonização oficial” em Roma poderia lhe acrescentar?”, pergunta José María Vigil, teólogo espanhol naturalizado nicaraguense, em artigo publicado este mês por Academia.edu. A tradução é de André Langer.

“‘Não canonizem jamais São Romero da América, porque o ofenderiam. Ele é santo, mas de um modo muito particular. Já está canonizado. Pelo povo. Não é preciso mais nada’. Essas são palavras que eu disse a Jon Sobrino, quando visitei a sepultura do arcebispo mártir. Eu lhe dizia: ‘Olhe, Jon, que a ninguém lhe ocorra canonizar Romero, porque seria como pensar que a primeira canonização não valeu’...”. (Pedro Casaldáliga, El vuelo del Quetzal. Espiritualidad en Centroamérica, Managua 1988, p. 10)

Pedro Casaldáliga contava-o com essas palavras aos camponeses e agentes de pastoral do Panamá, depois da sua passagem por Nicarágua e El Salvador, por volta de 1987/8, em diversos retiros e conversas. Passaram-me a transcrição das fitas, e incluí esse pensamento no livro O voo do Quetzal, que organizamos com esses e outros materiais pastorais de sua “campanha de solidariedade pastoral” com muitas comunidades de base e grupos camponeses da América Central.

Certamente, o túmulo de Romero que Casaldáliga visitou – instalado a princípio no próprio cruzeiro da catedral de San Salvador, a poucos metros do altar do qual pronunciava aquelas suas homilias de fogo, que paravam o país inteiro e eram ouvidas nas montanhas transmitidas pelos rádios dos camponeses e dos pobres de todo o país –, aquele túmulo grande certamente, literalmente coberto de flores, velas, oferendas e fotografias de agradecimento, envelopes cheios de pedidos... era tão visitado e apreciado e beijado por essa interminável fila de salvadorenhos das camadas mais pobres e populares... que foi preciso transladá-lo para a cripta, porque aquele “clamor popular” inutilizava a catedral para servir como tal, com o culto normal de uma catedral.

E assim eram as coisas nos primeiros séculos da Igreja. Obviamente, não havia “processos de canonização”. Era a “aclamação e a devoção popular” o que de facto definia o “cânon”, a medida da santidade reconhecida na Igreja. Não havia um registo oficial – o que viria a ser o “Santoral e o Martirológio Romano” –, muito menos se havia materializado tudo em um processo jurídico especializado (e economicamente caro) na cúria romana. Isso passaria a acontecer somente no século XIII, quando as canonizações ficaram reservadas a Roma e ao Papa.

O estudo estatístico da “população” canonizada no último milénio não deixa de ser significativo: “Entre os séculos X e XIX, Roma canonizou 87% de homens e 13% de mulheres. Aqui se revela um modelo predominantemente masculino, que corresponde fielmente à tradicional inferioridade das mulheres na Igreja. Sem que o procedimento tenha se modificado para favorecer as mulheres, no século XX a proporção passa para 76% de homens e 24% de mulheres” (cf. RELaT No. 150, servicioskoinonia.org/relat/150.htm). O modelo predominante da pessoa canonizada é branco, masculino, solteiro, clérigo, religioso/religiosa... e, principalmente, de classe alta.

Tradicionalmente, a canonização estava praticamente vedada aos cristãos leigos e leigas, pelo trabalho que dão os processos investigativos e históricos necessários, pela lentidão da burocracia das congregações romanas e, acima de tudo, pelo alto custo económico dos processos. Somente clérigos que contam com o apoio de uma Igreja local, ou religiosos/as cuja congregação esteja interessada em exaltar sua santidade, podem ser “candidatos” viáveis e com possibilidades reais de seleção.

Canonização rápida e muito aclamada foi a de José María Escrivá; a Opus Dei, naquele momento colocada no cume do escalão das fileiras das entidades influentes no Vaticano do Papa Wojtila, empenhou-se com afinco na sua promoção, e sua “canonização” acabou sendo – segundo a Opus Dei – a que reuniu o maior número de pessoas na Praça São Pedro, em Roma...

A explicação não foi difícil de encontrar: apenas o fundador de uma instituição com muitos membros leigos da classe alta poderia pagar tantos voos para Roma procedentes de todos os continentes. Mas deixou de ser a mais numerosa quando, logo depois, foi canonizado o Padre Pio de Pietrelcina, cujos devotos não eram tão poderosos financeiramente, mas eram principalmente italianos, e puderam deslocar-se facilmente a Roma em massa. O número de pessoas que participam de uma canonização não mede o valor da “aclamação popular” de um santo.

O caso de Romero também foi uma “aclamação popular”. Romero transformou-se “no centro-americano mais conhecido” em todo o mundo, o “salvadorenho mais universal”. Não foi um santo local, de uma Igreja diocesana particular, nem de um país, nem mesmo da Igreja Centro-Americana ou de toda a Igreja da América Latina, mas um santo “universal” – aclamado em todas as partes do mundo – e “ecuménico”, reconhecido também pelas Igrejas protestantes – ficou célebre a estátua de Romero entre as estátuas da abadia de Westminster... Ele também foi um santo “macro-ecuménico”, reconhecido e aclamado por agnósticos e não crentes, ultrapassando os limites da fé e das religiões. Santo, pois, Romero, por “aclamação popular” do Povo de Deus, por “aclamação mundial” nos muitos “povos de Deus”.

De que outra canonização dom Romero tem necessidade? O que lhe falta? O que uma “canonização oficial” em Roma poderia lhe acrescentar? Estas são as perguntas que, dizemos, Casaldáliga respondeu para si mesmo quando visitou o túmulo de Romero em San Salvador: “ele é santo de um modo muito particular. Já está canonizado. Pelo povo. Não é preciso mais nada”. Para muitos de nós hoje continua sendo válida aquela resposta que ele deu há trinta anos.

O facto é que, além disso, passado esse tempo, entramos “em outra época”... Muitas coisas mudaram e inclusive nós mudamos muito. Extrapolando as palavras de Casaldáliga, hoje poderíamos dizer: “Que não o canonizem, porque seria como se continuássemos naquela época da qual já saímos faz tempo”. De facto, hoje, a pergunta é mais profunda: o conceito clássico de “santos canonizados” da Igreja católica ainda faz sentido? E poderíamos desdobrá-la em várias outras:

• Existem realmente os “santos canonizados”, os oficiais, os clássicos, aqueles que estão na “corte celestial” do “Rei e Senhor” do céu e da terra, no “segundo andar”? Todos os nossos avós pensaram que sim, e eles se beneficiaram muito com sua intercessão... Mas, e para nós hoje?

• É possível entrar nesta corte privilegiada porque o candidato é submetido a uma avaliação realizada por uma comissão examinadora especializada, a Congregação do Vaticano para os Santos? Pode um processo de canonização “tornar santo” a alguém, ou é algo externo que não pode afetar a sua santidade?

• Podemos aceitar como algo natural, sem corar – em pleno século XXI! – que aquela avaliação inclua como requisito a realização – “cientificamente comprovada” – de dois “milagres”?

Vamos tentar responder, quase telegraficamente, a esses desdobramentos da pergunta:

• A canonização de santos na Igreja católica é uma criação medieval, oficialmente criada em 1234 pelos Decretais de Gregório IX, embora somente a partir do Papa Urbano VIII, em 1634, fosse reconhecida praticamente em toda a Igreja. Não faz parte de seu patrimônio bíblico, dogmático ou teológico. Talvez esse seu “segundo plano” na hierarquia do essencial na Igreja é o que lhe permitiu subsistir e passar despercebida nos momentos avaliativos altos da Igreja, como os últimos Concílios Ecuménicos. Sempre houve coisas mais importantes na Igreja, que reivindicaram atenção prioritária. Assim, as canonizações – seu significado e seus processos concretos, assim como chegaram até nós –, são, hoje, um “anacronismo” que sobreviveu pela negligência de que foram e continuam sendo objeto, e fazem parte dessa lista de atavismos que “bradam ao céu” pedindo para serem revisados e atualizados radicalmente.

• Como o benemérito teólogo jesuíta flamengo Roger Lenaers (cf. Wikipedia) nos mostrou tão pedagogicamente (em Outro cristianismo é possível – A fé em linguagem moderna. São Paulo: Paulus, 2010), não existe um segundo andar cósmico no qual se pode instalar aquela célebre e admirada “corte celestial”, que tantos e tão afamados artistas nos apresentaram em inesquecíveis obras de arte, em quadros, gravuras, retábulos, cúpulas... que marcaram (inclusive inconscientemente) a nossa espiritualidade e povoaram de rostos beatíficos, anjinhos, nuvens... o nosso imaginário religioso coletivo.

A ciência e a filosofia maioritárias atuais não reconhecem nada que seja “externo” à Realidade. Não há esse segundo andar lá em cima (up there) e lá fora (out there) onde se possa instalar a sede dessa corte, que não é corte, nem é celestial. Podemos ficar com a intuição contida nesta crença tradicional, como a de quem lavou a criança na banheira e joga fora a água suja que já não tem mais serventia, mas tirando a criança. Podemos salvar a criança, a intuição profunda aí veiculada, mas será partindo de outras bases (outros paradigmas) e expressando-a com outras metáforas (não as já obsoletas), e sendo conscientes de que são isso, metáforas, de jeito nenhum descrições realistas.

• Obviamente, uma canonização não “torna santo” ninguém. A pessoa que é santa na hora da sua morte é santa, e não deixará de sê-lo, mesmo que ninguém o saiba ou ninguém se importe em apresentar sua candidatura à Congregação dos Santos. E a pessoa que não é santa, nunca será, nem mesmo se essa Congregação a faça “santa”, isto é, simplesmente a “declare” santa. A canonização nada mais é do que uma “declaração”, não uma “santificação”; quando morremos, quando termina o nosso status viatoris, não é mais possível mudar, nem crescer em santidade – sem entrar agora na necessária releitura da escatologia clássica. Se o sangue martirial culminou a santificação pessoal de Romero, ele foi santo, embora ninguém jamais o tivesse pensado ou proclamado após a sua morte. E o facto de que agora seja proclamado, não acrescenta um milímetro à santidade que ele alcançou em vida, até a sua morte; simplesmente dará aos seus admiradores mais razões e mais possibilidades para conhecê-lo, admirá-lo e imitá-lo. Na realidade, o que está em jogo em uma canonização é algo totalmente exterior à santidade do próprio candidato.

• A questão dos “milagres” merece uma ênfase especial. É inexplicável como, em pleno século XXI, ainda persiste entre as congregações vaticanas uma que “comprovação” científica da veracidade dos “milagres requeridos” para uma canonização institucional... É outro anacronismo medieval, um estranho sobrevivente no meio de uma Igreja que, no Vaticano II, parecia reconciliar-se com a sociedade culta, profundamente marcada pela ciência. Será que sobrevive por causa dos interesses económicos envolvendo a cúria romana? Ou talvez também por causa do imobilismo e da habitual preguiça das instituições religiosas diante de sua própria renovação? Ou porque não se dão conta de que o “credenciamento de um milagre” feito pela Igreja credencia também a cosmovisão medieval em vigor em seus quartéis centrais? Até quando querem fazer comunicar com rodas de moinho os crentes que já têm a cabeça configurada em sintonia com a sociedade moderna?

• Uma boa notícia, urgente para muitas pessoas que se sentem mal com estes processos e declarações eclesiásticas de canonização, é que, embora durante séculos fossem consideradas extra-oficialmente “dogmática, de fé” (como se a canonização fosse uma espécie de proclamação do dogma de que “tal pessoa está no céu” – recordo perfeitamente que assim a nossa geração nos apresentou isso na catequese), hoje sabemos que podemos prescindir de todos esses elementos mítico-medievais aos quais fomos aderindo subrepticiamente ao longo das obscuras idades passadas. É verdade que não devemos perder muito tempo com isso: compreendemos bem que tanto na Igreja como na sociedade encontramos pessoas que estão claramente na Idade Média e que se sentem bem nesse ambiente religioso “tradicional”. Hoje aceitamos bem a interculturalidade, o pluralismo cultural e religioso. E reivindicamos a mesma liberdade para nós. Ao lado daqueles que estão mentalmente no século XIII, já existem pessoas que pensam como se pensará no século XXII. Todos têm o direito de viver coerentemente com a sua consciência e de serem respeitados.

Diremos, finalmente, que nos sentimos em comunhão, em sincera estima com Romero, sem precisar dessa albarda acrescida ao seu título oficial de “santo canonizado”, que nos evoca tantos elementos ultrapassados ou mesmo obsoletos para nós. Mas não devemos ficar incomodados com seu uso por parte de outras mentalidades que também expressam seu carinho e sua comunhão com Romero por meio desse mundo de categorias e suposições que nós, há muito tempo, abandonamos. Nós respeitamos essa pluralidade que caracteriza o nosso tempo e a nossa Igreja hoje, e somos muito capazes de aceitá-la, sem que, por isso, um simples título de atribuição de santidade canónica, nos faça retroceder, qual cavalo de Tróia, a uma mentalidade da qual já saímos. Nos sentimos tão convencidos em nossa maneira de ver, quanto tolerantes com os velhos pontos de vista; tão fiéis à essência-essência da boa tradição, quanto livres de adesões medievais, platônicas, mitológicas, agrárias... inclusive neolíticas.

A partir dessa visão, fica claro que não precisamos que Romero seja canonizado. “Ele é santo de um modo muito particular. Já está canonizado. Pelo povo. Não é preciso mais nada”. (E, claro, uma vez acabada a Idade Média, é óbvio que sobram todos os milagres “requeridos”.) Mas entendemos que boa parte da Igreja e da sociedade se vai sentir ajudada, e até mesmo comovida, por esta “declaração oficial de reconhecimento de sua santidade e de seu martírio”. Nós compartilhamos sua alegria. A esta altura da história, com o tanto que choveu depois de 24 de março de 1980, já não nos parece uma “ofensa”, mas, sobretudo, uma “reabilitação” adicional, redundante, mas útil, sobretudo para as hierarquias religiosa e civil que durante décadas se opuseram ao reconhecimento de “São Romero da América”. É uma boa notícia.

Luiz Gonzaga Belluzzo

É O CAPITALISMO, ESTÚPIDO!

Os ganhos de produtividade gerados pelas novas tecnologias estão escondidos nos calabouços construídos pelo poder de mercado das grandes empresas que se apropriam do valor criado: sobem as margens de lucro e destinam seus ganhos chorudos à recompra das próprias ações e ao pagamento de dividendos”, escreve Luiz Gonzaga Belluzzo, economista, em artigo publicado por CartaCapital. Segundo ele, “a aceleração do progresso tecnológico desloca um contingente significativo de trabalhadores para atividades de baixa qualificação, o que deprime a produtividade e a capacidade de consumo dos trabalhadores submetidos ao emprego precário e intermitente”. Deste modo, conclui, “algumas projeções estimam que, nos próximos cinco anos, mais de 40% da força de trabalho americana estará submetida a um emprego precário”. Eis o texto

Na terça-feira 11 o jornal Valor ofereceu-nos um artigo instigante de Rana Foroohar, colunista do Financial Times. Os analistas do mercado jogam Lego com a macroeconomia dos manuais, entoando as estrofes de ‘Batatinha quando nasce”.

Rana arrisca-se em compreender as peripécias do capitalismo global. Empenha-se em desvendar a especificidade dos movimentos que afetam o arranjo macro-económico-financeiro das economias contemporâneas.

Com simplicidade, a colunista do Financial Times observa que “os dirigentes dos bancos centrais do mundo foram responsáveis por garantir que a Grande Recessão não se transformasse em mais uma Grande Depressão, ao conservar baixas as taxas de juros e ao manter impressionantes 15 trilhões de dólares em seus balanços.

"Isso levou as bolsas a alcançar seus picos de todos os tempos, apesar de não ter propiciado a criação de qualquer tipo de crescimento real dos salários. Os bancos centrais podem criar bolhas de ativos, é claro, mas não conseguem mudar os efeitos de arrocho salarial da globalização, a deflação puxada pela tecnologia e a crescente concentração de poder corporativo que impossibilita que os trabalhadores dos países ricos contem com qualquer verdadeiro poder de barganha.

"(...) Desde a gestão de Alan Greenspan no comando do Fed, o viés tem sido deixar as taxas baixas e se preocupar com as inevitáveis bolhas de ativos depois. Trata-se de atitude compreensível, especialmente diante da incapacidade dos políticos do mundo desenvolvido de aprovar grandes planos de infraestrutura ou a reforma educacional ou outras coisas que realmente mudariam a situação para as pessoas comuns, nos últimos dez anos.”

A colisão entre as práticas financeiras, a formação das cadeias globais de valor, as inovações tecnológicas sustentam a competitividade da grande empresa internacionalizada.

A migração das empresas para as regiões onde prevalece uma relação mais favorável entre produtividade e salários associou-se à rapidez das inovações tecnológicas e ao controle do capital financeiro sobre as estratégias empresariais para enfraquecer o poder de negociação dos sindicatos e o número de sindicalizados.

Os ganhos de produtividade gerados pelas novas tecnologias estão escondidos nos calabouços construídos pelo poder de mercado das grandes empresas que se apropriam do valor criado: sobem as margens de lucro e destinam seus ganhos chorudos à recompra das próprias ações e ao pagamento de dividendos.

Os salários modorrentos, a letargia do investimento empresarial, a "geração de valor" para os acionistas e a aflitiva concorrência pela busca de resultados a curto prazo espelham o poder de monopólio das grandes empresas.

Há poucas semanas, no encontro patrocinado pelo Federal Reserve em Jackson Hole, o economista da Sloan School of Management, John Van Reenen, observou que muitas indústrias se tornaram “o vencedor leva tudo ou quase tudo”, devido à globalização e às novas tecnologias.

No relatório Compendium of Productivity Indicators 2018, a OCDE investiga o paradoxo da produtividade: “A despeito da retomada do crescimento na maioria dos países da OCDE, o maior peso de empregos de baixa produtividade reduziu os salários reais na economia como um todo”.

A aceleração do progresso tecnológico desloca um contingente significativo de trabalhadores para atividades de baixa qualificação, o que deprime a produtividade e a capacidade de consumo dos trabalhadores submetidos ao emprego precário e intermitente.

Em seu rastro de vitórias, as poderosas empresas deixam uma procissão de desgraças: a despeito das cifras oficiais do desemprego, caem as taxas de participação na força de trabalho por conta do desalento e cresce a precariedade das novas formas de ocupação, o que desata a queda dos salários reais e a exclusão social.

O processo que submete a criação de valor à extração de valor impulsiona o crescimento dos trabalhadores em tempo parcial e a título precário, sobretudo nos serviços, é escoltado pela destruição dos postos de trabalho mais qualificados na indústria. O inchaço do subemprego e da precarização endureceu as condições de vida do trabalhador.

A evolução do regime do “precariato” constituiu relações de subordinação dos trabalhadores dos serviços, independentemente da qualificação, sob as práticas da flexibilidade do horário, que tornam o trabalhador permanentemente disponível.

O resultado é a incerteza a respeito dos rendimentos e horas de trabalho. Esta é a mudança mais importante na força de trabalho americana ao longo de um século. Algumas projeções estimam que, nos próximos cinco anos, mais de 40% da força de trabalho americana estará submetida a um emprego precário.

Rosana Pinheiro-Machado

ATENTADO A BOLSONARO É O ÁPICE INSANO DA POLARIZAÇÃO

Atiçar a polarização me parece a atitude mais irresponsável nesta nova era do salve-se quem puder, escreve Rosana Pinheiro-Machado, professora Titular Visitante da Universidade Federal de Santa Maria - UFSM no PPG de Ciências Sociais e e coordenadora e co-fundadora da Escola de Governo Comum, em artigo publicado por The Intercept, 07-09-2018. Eis o texto

A imagem é simbólica: deitado com o peito descoberto, Bolsonaro é operado às pressas depois de levar uma facada na região do abdômen enquanto era carregado nos ombros por uma multidão apaixonada. Tudo transmitido nas redes sociais em tempo real.

O evento é dramático por não ser um caso da violência isolada, mas representar o caos em que estamos nesse momento pré-eleições. São tempos de messianismo. Na figuração do mito, Bolsonaro encarna a figura de um herói carregado pelo povo que é covardemente atingido. O agressor alega que agiu em nome de Deus. Vivemos o ápice insano da polarização.

Para analisar os eventos em perspectiva histórica, vale lembrar o momento mais crítico da China moderna, no final do século 19, quando o país estava dividido em guardas ‘brancas’ e ‘vermelhas’. Rebeliões diárias e fanáticos de todos os lados se diziam enviados de Jesus Cristo. E o resultado nós sabemos bem: o país só conseguiu cessar essa violência organizada com outra violência organizada e institucionalizada, um autoritarismo que durou décadas e visava curar as feridas do chamado “período das humilhações”.

Os tiros contra a caravana de Lula e posteriormente contra militantes durante a vigília em frente à sede da Polícia Federal de Curitiba já mostravam que adentramos em uma era perigosa de violência messiânica, individualizada, cada um salvando o mundo com pode. Ativistas da campanha de Guilherme Boulos, do PSOL, também foram atacados recentemente. É uma eleição no meio de um faroeste.

Fazendo trabalho de campo sobre o eleitores de Bolsonaro há quase dois anos, posso afirmar que muitos deles, que vestem camisa do candidato ou usam adesivo em carros, têm sido agredidos verbalmente e fisicamente, todos os dias. Há mais tempo, o mesmo ocorre, ou pior, com aqueles que vestem vermelho. Os meios progressistas apenas relatam violência como uma força unilateral concentrada em demônios que eles conseguem culpar. Em tempos de caos, o autoritarismo messiânico, pulverizado e desordenado está espalhado por todo o tecido social.

O Brasil que mata em massa mulheres, jovens negros, pobres e LGBTs nunca foi um país democrático por excelência, e o Estado sempre funcionou para poucos. Seria ingênuo falar que estamos numa crise da democracia. Esse nível messiânico e insano é o estopim de uma ordem autoritária, que se deixa levar pelas paixões calorosas de candidatos salvadores e do fanatismo religioso que por séculos esteve camuflada sob o ideal da harmonia. A história está repleta de exemplos que nos mostram os tristes desfechos políticos desse tipo de conjuntura.

Qual é o apelo de Bolsonaro nisso? Ele é o agressor e o agredido. Recebe a mesma violência que propaga. Mas é preciso ter prudência em como pontuar esse debate – em nada adianta usar esse argumento em tom revanchista, em guerras de narrativas inócuas. Pouco serve adentrar em brigas vazias que apontam o dedo. Esse revanchismo punitivista apenas gera mais raiva e alimenta o ciclo de violência que, há muito, já saiu das redes. Os doidos que rosnam no Facebook agora estão às soltas.

É parte de meu ofício, há 19 meses, acompanhar grupos de WhatsApp de eleitores de Bolsonaro e de eleitores mistos (Bolsonaro, anti-Bolsonaro e indecisos). Até antes do atentado, grupos de jovens conseguiram manter as regras de diálogo. No momento do evento, eleitores contrários ao candidato começaram a debochar: “pena que não acertou o desgraçado”. Depois disso – o debate aconteceu por horas –, os “bolsominions” reagiram com muitas ofensas, dizendo que quem desejava a morte de outra pessoa tinha que levar porrada. Os indecisos ficaram comovidos e chocados com as brincadeiras de que o agressor era incompetente. Um falou “se querem matar o cara, é porque ele incomoda”.

A piada “que pena que não acertou” circula por todos os lados, com a frase “ah, mas to só brincando…”. Mas quando os haters de direita fizeram essa brincadeira com Lula, a esquerda, com razão, não gostou.

Sem Lula, Bolsonaro está em primeiro lugar nas pesquisas de intenção de voto. Se ele é um candidato autoritário, violento e que faz apologia à tortura – e se é a esquerda que denuncia um golpe de estado neste país, nossa arma só pode ser a luta por democracia, e não por revanchismo ingênuo. Se Bolsonaro disse sobre o Museu Nacional “queimou querem que eu faça o quê?”, a resposta “esfaqueou, querem que eu faça o quê?” vai na mesma fragilidade narrativa.

Não se trata aqui de relativizar – e colocar em falsa simetria – a extrema-direita e a esquerda. Pelo contrário. Mas é preciso encarar os fatos para combater o candidato fascista. Eu queria que Bolsonaro não existisse. Mas eu não queria que ele fosse assassinado. A diferença entre uma coisa e outra é imensa. Ele existe. E nós precisamos lidar com a realidade e não fugir dela.

Os presidenciáveis manifestaram repúdio. Essa é a única postura aceitável neste momento trágico. De histeria de rede social já basta a culpabilização do PT por tudo o que ocorre neste país. Não foi suficiente tirar Dilma Rousseff do poder, parece que é preciso culpar o partido por toda a desgraça que ocorre: do Museu Nacional ao ataque a Bolsonaro.

Bolsonaro e suas seitas são o nosso mais bem acabado protótipo fascista, do fracasso democrático e da violência estrutural do Brasil. Esse atentado traz o imenso risco de torná-lo herói, reforçar a narrativa mítica daquele que sobrevive e que volta para salvar o Brasil contra tudo e contra todos. Um messiânico que renasceu da apunhalada de outro messiânico. “Agora é guerra”, disse o presidente do PSL. Um prato cheio para aqueles que vivem da expectativa do simbolismo do sangue, da tortura e da violência. Atiçar a polarização me parece a atitude mais irresponsável nesta nova era do salve-se quem puder.

Artigo de Enrique Dussel

WALTER BENJAMIN E O MESSIANISMO

O messias é uma luz nas trevas que o povo acende, e uma vez acesa incendeia ao próprio povo, exigindo-lhe, agora, tornar-se responsável pela história. É uma dialética entre povo e liderança. Nos os trairei! Cumprirei com o mandato!, expressa ao povo o consagrado pelo povo. Sabem quem é a última instância da soberania”, escreve o filósofo Enrique Dussel, a respeito da nova etapa da vida política no México, em artigo publicado por La Jornada. A tradução é do Cepat. Eis o artigo.

Tendo cumprido minha previsão de 2012 sobre Morena e o PRD: Finalmente, duas concepções da política, onde predizia o futuro desaparecimento do PRD, continuarei a reflexão iniciada há seis anos, hoje mais atual que nunca.

Com W. Benjamin, desejo abordar o estranho tema do messianismo que obstinadamente o trágico filósofo alemão levantou, a partir de seu diálogo ao longo de sua vida com G. Scholem, tão incompreendido por outros membros da Escola de Frankfurt (e a esquerda em geral, e especialmente a marxista ortodoxa, ainda em nossos dias no México).

O tema da liderança foi uma questão perigosa para a esquerda tradicional pela possibilidade de cair em um populismo de direita (como o nazismo que Benjamin tanto criticou e sofreu, um certo bonapartismo), ou um carismatismo (superficialmente tratado por M. Weber). Ainda menos considerado sob o rótulo do messianismo (caricaturado como um teologúmeno superficial) nomeado por outros como um messianismo tropical. No entanto, na contracorrente e autorizando-me Benjamin, desejo tratar este tema de grande profundidade política, no contexto deste momento crucial do México em 2018.

Trata-se de meditar sobre atores políticos situados em três níveis que se determinam mutuamente. Em primeiro lugar, o próprio povo como totalidade, que é o ator coletivo político, última instância da soberania, que se expressa na participação pública (institucional ou espontânea). Em segundo lugar, um setor ou grupo de tal povo (que G. Agamben, a partir de Paulo de Tarso, recorda como o resto) que luta contra vento e maré, nas boas e más, em favor de tal povo. Em terceiro lugar, uma pessoa ou muito poucas que padecem o suportar em sua própria corporalidade o sofrimento do povo oprimido (que na tradição semita de W. Benjamin se denominava o servo sofredor, questão tratada em minha obra “El humanismo semita”, apêndice), denominado pelo filósofo alemão como o meshiakh (em hebraico: o ungido pelo povo). Benjamin, em sua obra Sobre o conceito da história (GS, I, 2, pp. 691 ss), trata repetidamente, nas 18 teses, o tema do messianismo a partir de um marco teórico marxista e materialista histórico (Tese I), que será o que adotaremos nesta contribuição.

Michael Löwy, o conhecido filósofo judeu, trotskista e ateu, diz-nos: A redenção messiânica e revolucionária é uma missão que as gerações passadas nos atribuem. Não há Messias enviado do céu: nós mesmos somos o Messias (em Aviso del incendio, FCE, México, 2002, p. 50); pensemos “no lugar que tiveram no imaginário revolucionário, dos últimos 30 anos, as figuras de José Martí, Emiliano Zapata, Augusto Sandino, Farabundo Martí e mais recentemente Ernesto Che Guevara [...]”.

Em último termo, o messias é uma pessoa que encarna para o povo, por sua fidelidade, compromisso, honestidade, coragem, prudência prático-sapiencial, os valores que não se encontram nos líderes corruptos da sociedade dominante. Por isso, cresce seu significado até que o povo o descobre como uma possível solução para seus males. É assim que tal povo o consagra em função do serviço ao próprio povo (função messiânica que recebe do ator coletivo: o próprio povo). O messias é uma luz nas trevas que o povo acende, e uma vez acesa incendeia ao próprio povo, exigindo-lhe, agora, tornar-se responsável pela história. É uma dialética entre povo e liderança. Nos os trairei! Cumprirei com o mandato!, expressa ao povo o consagrado pelo povo. Sabem quem é a última instância da soberania.

Tratei o tema de forma mais ampla em uma publicação de La Jornada Ediciones [Carta a los indignados, México, 2011, pp. 27-85), texto que recomendo a quem desejar aprofundar o tema.

Por tudo isso, o dia primeiro de julho de 2018 foi um acontecimento messiânico (como segundo acontecimento libertador, em relação ao primeiro acontecimento exposto por A. Badiou), mas como diz o sentir popular: não se deve dormir sobre os louros! É agora o tempo da participação ativa de todo o povo e dos militantes mais responsáveis que despertaram na efervescência, ainda que desprezada por alguns situados na extrema esquerda, criticando-a como uma jornada eleitoral vazia e sem conteúdo. E não é assim, aqui a forma (uma eleição) tem conteúdo (é uma transformação real política).

A função messiânica agora já não necessita da legitimidade conquistada graças ao voto, agora, necessita da práxis participativa de todo o povo, cada um em sua trincheira. A função messiânica necessita da diária correção da crítica fraterna e responsável. Já não é o tempo para aplaudir, mas, sim, para atuar multiplicando a liderança em todos os níveis.

Boaventura de Sousa Santos

OS CONCEITOS QUE NOS FALTAM

'Foi por via dessa erosão que desapareceram do nosso vocabulário político as lutas anti-capitalistas, anti-colonialistas, anti-fascistas, anti-imperialistas. Concebeu-se como passado superado o que afinal era o presente mais do que nunca determinado a ser futuro. Nisto consistiu estar no abismo a olhar para trás, confiante que o passado do futuro nada tem a ver com o futuro do passado. Esta a maior monstruosidade do tempo presente'. O Texto é de Boaventura de Sousa Santos, sociólogo, publicado por Outras Palavras, Agosto 2018. Fonte, IHU.

Os seres humanos, ao contrário dos pássaros, voam com raízes. Parte das raízes estão nos conceitos que herdamos para analisar ou avaliar o mundo em que vivemos. Sem eles, o mundo pareceria caótico, uma incógnita perigosa, uma ameaça desconhecida, uma jornada insondável.

Os conceitos nunca retratam exatamente as nossas vivências, até porque estas são muito mais diversas e mutantes que as que servem de base aos conceitos dominantes. Estes são, afinal, os conceitos que servem os interesses dos grupos social, política, económica e culturalmente dominantes, ainda que matizados pelas modificações que lhes vão sendo introduzidas pelos grupos sociais que resistem à dominação. Estes últimos nem sempre recorrem exclusivamente a esses conceitos. Muitas vezes dispõem de outros que lhes são mais próximos e verdadeiros, mas reservam-nos para consumo interno. No entanto, no mundo de hoje, sulcado por tantos contactos, interações e conflitos, não podem deixar de tomar em conta os conceitos dominantes, sob o risco de verem as suas lutas ainda mais invisibilizadas ou mais cruelmente reprimidas. Por exemplo, os povos indígenas e os camponeses não dispõem do conceito de meio ambiente, porque este reflecte uma cultura (e uma economia) que não é a deles. Só uma cultura que separa em termos absolutos a sociedade da natureza, de modo a pôr esta à disposição incondicional daquela, precisa de tal conceito para dar conta das consequências potencialmente nefastas (para a sociedade) que de tal separação podem resultar. Em suma, só uma cultura (e uma economia) que tende a destruir o meio ambiente precisa do conceito de meio ambiente.

Em verdade, ser dominado ou subalterno significa antes de tudo não poder definir a realidade em termos próprios, com base em conceitos que reflictam os seus verdadeiros interesses e aspirações. Os conceitos, tal como as regras do jogo, nunca são neutros e existem para consolidar os sistemas de poder, sejam estes velhos ou novos. Há, no entanto, períodos em que os conceitos dominantes parecem particularmente insatisfatórios ou imprecisos. São-lhes atribuídos com igual convicção ou razoabilidade significados tão opostos, que, de tão ricos de conteúdo, mais parecem conceitos vazios. Este não seria um problema de maior se as sociedades pudessem facilmente substituir esses conceitos por outros mais esclarecedores ou condizentes com as novas realidades. A verdade é que os conceitos dominantes têm prazos de validade insondáveis, quer porque os grupos dominantes têm interesse em mantê-los para disfarçar ou legitimar melhor a sua dominação, quer porque os grupos sociais dominados ou subalternos não podem correr o risco de deitar fora o bebé com a água do banho. Sobretudo quando estão a perder, o medo mais paralisante é perder tudo. Penso que vivemos um período com estas características. Paira sobre ele uma contingência que não é resultado de nenhum empate entre forças antagónicas, longe disso. Mais parece uma pausa à beira do abismo e a olhar para trás.

Os grupos dominantes nunca sentiram tanto poder nem nunca tiveram tão pouco medo dos grupos dominados. A sua arrogância e ostentação não têm limites. No entanto, têm um medo abissal do que ainda não controlam, uma apetência desmedida por aquilo que ainda não possuem, um desejo incontido de prevenirem todos os riscos e terem apólices contra todos eles. No fundo, suspeitam serem menos definitivamente vencedores da história quanto pretendem, serem senhores de um mundo que se pode virar contra eles a qualquer momento e de forma caótica. Esta fragilidade perversa, que os corrói por dentro, fá-los temer pela sua segurança como nunca, imaginam obsessivamente novos inimigos, e sentem terror ao pensar que, depois de tanto inimigo vencido, são eles, afinal, o inimigo que falta vencer.

Por sua vez, os grupos dominados nunca se sentiram tão derrotados quanto hoje, as exclusões abissais de que são vítimas parecem mais permanentes do que nunca, as suas reivindicações e lutas mais moderadas e defensivas são silenciadas, trivializadas pela política do espectáculo e pelo espectáculo da política, quando não envolvem riscos potencialmente fatais. E, no entanto, não perdem o sentido fundo da dignidade que lhes permite saber que estão a ser tratados indignamente e imerecidamente. Que melhores dias terão de vir. Não se resignam, porque desistir pode ser-lhes fatal. Apenas sentem que as armas de luta não estão calibradas ou não são renovadas há muito; sentem-se isolados, injustiçados, carentes de aliados competentes e de solidariedade eficaz. Lutam com os conceitos e as armas que têm mas, no fundo, não confiam nem nuns nem noutras. Suspeitam que enquanto não tiverem confiança para criar outros conceitos e inventar outras lutas correrão sempre o risco de serem inimigos de si mesmos.

Tal como tudo o resto, os conceitos estão à beira do abismo e olham para trás. Menciono, a título de exemplo, um deles: direitos humanos. Nos últimos cinquenta anos os direitos humanos transformaram-se na linguagem privilegiada da luta por uma sociedade melhor, mais justa, menos desigual e excludente, mais pacífica. Tratados e convenções internacionais existentes sobre os direitos humanos foram sendo fortalecidos por novos compromissos no plano das relações internacionais e do direito constitucional, ao mesmo tempo que o elenco dos direitos se foi ampliando de modo a abranger injustiças ou discriminações anteriormente menos visíveis (direitos dos povos indígenas e afro-descendentes, mulheres, LGBTI; e direitos ambientais, culturais, etc.). Movimentos sociais e organizações não-governamentais foram-se multiplicando ao ritmo das mobilizações de base e dos incentivos de instituições multilaterais. Em pouco tempo, a linguagem dos direitos humanos passou a ser a linguagem hegemónica da dignidade, uma linguagem consensual, eventualmente criticável por não ser suficientemente ampla, mas nunca impugnável por algum defeito de origem.

Claro que se foi denunciando a distância entre as declarações e as práticas e a duplicidade de critérios na identificação das violações e nas reações contra elas, mas nada disso abalou a hegemonia da nova literacia da convivência humana. Cinquenta anos depois, qual é o balanço desta vitória? Vivemos hoje numa sociedade mais justa, mais pacífica? Longe disso, a polarização social entre ricos e pobres nunca foi tão grande, guerras novas, novíssimas, regulares, irregulares, civis, internacionais continuaram a ser travadas, com orçamentos militares imunes à austeridade, e a novidade é que morrem nelas cada vez menos soldados e cada vez mais populações civis inocentes: homens, mulheres e, sobretudo, crianças. Em consequência delas, do neoliberalismo global e dos desastres ambientais, nunca como hoje tanta gente foi forçada a deslocar-se das regiões ou dos países onde nasceu, nunca como hoje foi tão grave a crise humanitária. Mais trágico ainda é o facto de muitas das atrocidades cometidas e atentados contra o bem-estar das comunidades e dos povos terem sido perpetrados em nome dos direitos humanos.

Claro que houve conquistas em muitas lutas, e muitos activistas de direitos humanos pagaram com a vida o preço da sua entrega generosa. Acaso eu não me considerei e considero um activista de direitos humanos? Acaso não escrevi livros sobre as concepções contra-hegemónicas e interculturais de direitos humanos? Apesar disso, e perante uma realidade cruel que só não salta aos olhos dos hipócritas, não será tempo de repensar tudo de novo? Afinal, a vitória dos direitos humanos foi uma vitória de quê e de quem? Foi a derrota de quê e de quem? Terá sido coincidência que a hegemonia dos direitos humanos se acentuou com a derrota histórica do socialismo simbolizada na queda do Muro de Berlim? Se todos concordam com a bondade dos direitos humanos, ganham igualmente com tal consenso tanto os grupos dominantes como os grupos dominados? Não terão sido os direitos humanos uma armadilha para centrar as lutas em temas setoriais, deixando intacta (ou até agravando) a dominação capitalista, colonialista e patriarcal? Não se terá intensificado a linha abissal que separa os humanos dos sub-humanos, sejam eles negros, mulheres, indígenas, muçulmanos, refugiados, imigrantes indocumentados? Se a causa da dignidade humana, nobre em si mesma, foi armadilhada pelos direitos humanos, não será tempo de desarmar a armadilha e olhar para o futuro para além da repetição do presente?

Estas são perguntas fortes, perguntas que desestabilizam algumas das nossas crenças mais enraizadas e das práticas que sinalizam o modo mais exigentemente ético de sermos contemporâneos do nosso tempo. São perguntas fortes para as quais apenas temos respostas fracas. E o mais trágico é que, com algumas diferenças, o que acontece com os direitos humanos acontece com outros conceitos igualmente consensuais. Por exemplo, democracia, paz, soberania, multilateralismo, primado do direito, progresso. Todos estes conceitos sofrem o mesmo processo de erosão, a mesma facilidade com que se deixam confundir com práticas que os contradizem, a mesma fragilidade perante inimigos que os sequestram, cooptam e transformam em instrumentos dóceis das formas mais arbitrárias e repugnantes de dominação social. Tanta desumanidade e chauvinismo em nome da defesa dos direitos humanos, tanto autoritarismo, desigualdade e discriminação transformados em normal exercício da democracia, tanta violência e apologia bélica para garantir a paz, tanta pilhagem colonialista dos recursos naturais, humanos e financeiros dos países dependentes com o respeito protocolar da soberania, tanta imposição unilateral e chantagem em nome do novo multilateralismo, tanta fraude e abuso de poder sob a capa do respeito das instituições e do cumprimento da lei, tanta destruição arbitrária da natureza e da convivência social como preço inevitável do progresso!

Nada disto tem de ser inevitavelmente assim e para sempre. A mãe de toda esta confusão, induzida por quem beneficia dela, de toda esta contingência disfarçada de fatalismo, de toda esta paragem vertiginosa à beira do abismo reside na erosão bem urdida, nos últimos cinquenta anos, da distinção entre ser de esquerda e ser de direita, uma erosão levada a cabo com a cumplicidade de quem mais seria prejudicado por ela. Foi por via dessa erosão que desapareceram do nosso vocabulário político as lutas anti-capitalistas, anti-colonialistas, anti-fascistas, anti-imperialistas. Concebeu-se como passado superado o que afinal era o presente mais do que nunca determinado a ser futuro. Nisto consistiu estar no abismo a olhar para trás, confiante que o passado do futuro nada tem a ver com o futuro do passado. Esta a maior monstruosidade do tempo presente.

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João Barcellos

BRASIL: da Oca à Casa Grande

Breve Leitura Da Luso-Brasilidade

Nas Trilhas Pré-Coloniais


de outros horizontes e, no caso do povo guarani, também

uma demanda psicológica e religiosa que o levará pelo

´piabiyu´ [caminho] até à ´ivy marãey´ [q.s. ´terra sem mal´].

São diásporas de longa duração, porque nômades e a

enfrentar guerras mortíferas com tribos dispersas [as

´goayanazes´, q.s. ´outras gentes´], na maioria dos casos

gentes antropófagas que saboreiam o corpo dos guerreiros

inimigos como sinal de maior poderio; e assim, tupis e

guaranis seguem de koty em koty [ou ´acutia´, ´bacotia´, etc.,

q.s ´ponto de encontro, ou ´a partir de´], tendo no litoral as

´itapemas´ [rochas de abertura entre a lâmina d´água e a

terra) e nos certõens y mattos as ´ibiturunas´ e ´tijucas´

(cerros de terra preta e áreas de olhos d´água entre lama ou

pântano) as balizas geográficas.

Não por acaso, ao final do Século 16 e a apanhar todo o

Século 17 até os Anos 70 do Século 18, o tupi-guarani é a

Língua geral, até que a ´reforma pombalina´ [a exigência da

Língua portuguesa nos territórios d´além-mar, ou

ultramarinos) a proíbe. Entretanto..., as amas que criam a

filharada mameluca (filhos de branco com nativas), ou não,

dos colonos e bandeirantes (estes, tropas paramilitares de

ocupação em terras de povos nativos), são mulheres cativas

da terra, e depois as africanas escravizadas, logo, a Língua

não será mais a lusa original, porque já lhe é introduzida uma

Cultura multiétnica. Ou seja: na Casa Grande e na Senzala,

como nos sítios do Poder palaciano, a Língua lusa adquiriu

a Cultura Luso-Americana com pitadas africanas durante

mais de dois séculos.

Eis a perspectiva geossocial entre a Oca/Aldeia tupiguarani

e a Aldeia tomada e sitiada ao marco-zero ocidentalcristão,

digo, a Capela. É em tal perspectiva que agora se

situa a História do Brasil, pois, tudo foi/é estruturado na e

pela trilha tribal: dos bandeirantes aos tropeiros passando

pelos caminhos de ferro e as hidrovias.
Em meio à estruturação rural-urbana e industrial, o contato

físico-sexual das nativas com os colonos ibéricos leva à

humanidade um surto mortífero: a Sífilis. Não se contentam

os ibéricos com o ritual esotérico que é fumar o tabaco, nem

com o ter para si a facilidade sexual, fazem da facilidade a

libertinagem. Assim, com a doença, levam às tribos a bebida

alcoólica: uma ´bomba´ que destrói o organismo das gentes

florestais e sinaliza parte do seu extermínio. O ´pecado´ de

uma sexualidade descontrolada chega à Europa caraveleira

e dizima tanto como além-mar.

Enquanto isso, a geração mameluca toma um espaçotempo

que a põe como foco de uma nação que emerge

dentro da própria colonização [ex.: Suzana Dias, neta do

cacique Tibiriçã, a matrona mameluca que ergue a

Sant´Anna de Parnahyba e quase faz desaparecer a Sam

Paolo jesuítica]; uma geração que retoma as trilhas tribais e

estabelece acordos políticos e econômicos.

Assim se explica o contínuo nomadismo migratório dos

povos do Brasil e a sua cultura de assimilação diante de

outras gentes, a par de uma economia liberal iniciada ao

longo do Piabiyu por colonos como Affonso Sardinha (o

Velho) e Guilherme Pompeu de Almeida, ativa até hoje.

Perceber a Ilha de Brasil é perceber uma história rica em

culturas diversas e que, infelizmente, a academia ainda não

alcançou por causa do corporativismo político e dos dogmas

socialmente desestruturantes!

BARCELLOS, João, Escritor e pesquisador de história.

[jb.escritor@uol.com.br]

Ilha de Brasil, Julho de 20