OUTROS TEXTOS DE INTERESSE

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Esta local destina-se a divulgar Textos de interesse que se enquadrem na Linha Editorial do Jornal Fraternizar online. Escritos e enviados por pessoas que não integram o número dos Convidados. Toda a colaboração é GRATUITA, inclusive, para as pessoas que integram o número dos Convidados. Também aqui, se pede qualidade. Porque só a qualidade nos Enobrece e Humaniza.

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Edição 133 Dezº 2017

A jornada de um migrante em meio ao 'mercado' humano na Líbia

'FUI VENDIDO TRÊS VEZES'


Harun Ahmed é um dos milhares de jovens de países africanos pobres que se arriscaram na jornada pelo deserto do Saara até a Líbia, no norte da África, em busca de uma oportunidade para ir à Europa. Conseguiu chegar à Alemanha, mas só depois de sobreviver a meses de tortura e inanição nas mãos de três mercadores de escravos distintos, que compram e vendem imigrantes como se fossem gado. A comercialização de seres humanos na Líbia - país que sem um poder central eficiente desde a queda do líder Muamar Khadafi, em 2011 - foi identificada inicialmente pela CNN no início de novembro. Reportagem da emissora americana mostrava leilões de migrantes. Ali, pessoas eram vendidas como escravos por US$ 400 para outros traficantes ou para realizar trabalhos forçados. Após a reportagem, autoridades prometeram investigar a prática, mas migrantes entrevistados em Trípoli, capital líbia, dizem ser comum sofrer torturas e coerção na mão de traficantes e mercadores humanos. Harun, de 27 anos, nasceu em Agarfa, em uma região com uma das mais altas taxas de migração da Etiópia, por conta da ausência de perspectivas. Harun chegou a tentar a vida no Sudão, mas, depois de um ano e meio, decidiu ir à Líbia, conhecido ponto de partida de migrantes que decidem se arriscar na perigosa jornada pelo Mediterrâneo rumo à Europa. Contou sua história à BBC. Reportagem de Bekele Atoma, publicada por BBC Brasil/IHU/JF

"Eu e outros migrantes começamos a jornada à Líbia pagando US$ 600 (cerca de R$ 1900 na cotação atual) para cada traficante", explica Harun.

"Éramos 98 dentro de um único caminhão. As pessoas tinham que sentar umas em cima das outras, e o calor era insuportável. Nos deparamos com diversos problemas pelo caminho. Existem homens armados pelo deserto, (milicianos) que te param de repente e roubam tudo o que você tem."

Mas a situação se complicou mesmo foi na fronteira: após seis dias de viagem pelo Saara, o grupo de migrantes chegou à divisa entre Egito, Líbia e Chade.

Ali, os traficantes se reuniram para comercializar os migrantes, conta Harun.

Só que houve um imprevisto.

"Na fronteira, um grupo de milicianos nos sequestrou e nos levou ao Chade", ele conta. "Viajamos pelo deserto ao longo de dois dias, até chegarmos ao acampamento deles."

Ali, o grupo, fortemente armado, explicou - em árabe e em outros idiomas africanos - o que queria.

"Eles trouxeram um carro e disseram que os migrantes que pudessem pagar US$ 4 mil cada poderiam entrar no veículo. Quem não pudesse pagar ficaria ali (no acampamento)."

"Não tínhamos dinheiro, mas conversamos entre nós e decidimos fingir que tínhamos, para conseguir entrar no carro."

Harun e os demais migrantes que conseguiram entrar no veículo rodaram por mais três dias, até chegarem a outro local onde seres humanos são comprados e vendidos.

"Os homens que nos levaram disseram que haviam nos comprado por US$ 4 mil cada - e que, se não devolvêssemos o dinheiro, não iríamos a lugar nenhum", conta.

Ao seu redor, ele via o que poderia acontecer com ele caso não arranjasse dinheiro.

"Víamos migrantes, a maioria deles de origem somali e eritreia, que estavam ali havia mais de cinco meses. Eles sofreram muito e sequer se pareciam com seres humanos mais."

"Nós sofremos muito também. Nos forçavam a beber água quente misturada com petróleo, para fazer com que os pagássemos mais rapidamente. Nos davam uma quantidade minúscula de comida, e só uma vez por dia. Nos torturavam todas as noites."

'Muito ossudo'

Harun não conseguiu o dinheiro para pagar seus novos captores e, durante 80 dias, ficou retido no acampamento com outros 31 etíopes.

Até que os captores perderam a paciência.

"'Se você não vai nos pagar, então vamos vendê-lo', eles nos disseram", relembra Harun.

"Estávamos sem comida havia mais de dois meses, então nossos ossos estavam muito aparentes. Por isso, um homem que levaram ao acampamento se recusou a nos comprar, dizendo 'eles não devem nem mesmo ter rins'."

Por fim, os traficantes encontraram um comprador: um líbio que pagou US$ 3 mil por migrante.

"Entramos no carro dele convencidos de que nada poderia piorar ainda mais a nossa situação. Mas fomos levados a Saba (Líbia) e, após quatro dias de viagem, nos deparamos com um sofrimento desumano. Nos torturaram colocando sacolas plásticas em nossas cabeças, prendendo nossas mãos nas costas e nos empurrando para dentro de um barril cheio de água. Batiam em nós com cabos de aço."

Harun e os demais homens viveram assim por mais de um mês, até conseguirem contato com parentes para pedir dinheiro.

Após o pagamento, os migrantes foram autorizados a ir embora - só para serem presos novamente.

"Não fomos muito longe, porque outros homens armaram uma emboscada e nos levaram a um galpão. Disseram que só nos deixariam sair se pagássemos US$ 1 mil por cabeça."

"A tortura e as surras continuaram. Telefonamos para nossas famílias, pedindo dinheiro outra vez. Nossos parentes venderam gado, terras, todas as suas posses e nos mandaram mais dinheiro."

Refugiado

Harun conseguiu, assim, avançar mais em sua jornada. Chegou ao norte de Trípoli, disposto a tentar atravessar o Mediterrâneo.

"Ali, a situação ficou um pouco melhor", conta ele. "Trabalhamos durante alguns meses, em qualquer emprego que conseguíssemos encontrar, e daí cruzamos o Mediterrâneo para vir à Europa."

Harun teve, por fim, sorte - de não ter sido detido pelas forças de segurança dos países europeus e de não ter caído nas garras de novos traficantes humanos.

Ele desembarcou na Itália e de lá seguiu à Alemanha, onde seu pedido de refúgio foi aceito.

Harun diz que a "vida está boa agora", mas agrega que seu sofrimento até chegar à Europa - em especial as perdas que ele viveu na jornada - permanecerá para sempre em sua memória.

"Enterramos um de nossos amigos na fronteira entre o Egito e a Líbia. Outros dois se separaram de nós em Saba (Líbia), e não sei se estão vivos ou mortos. Uma garota caiu no mar Mediterrâneo. Mas alguns conseguiram chegar à Europa."

Questionado sobre se, com o conhecimento que tem agora, ele voltaria a fazer essa jornada, a resposta é direta: "Não".

"Falando francamente, eu poderia ter estudado ou trabalhado no meu país natal. (Mas) via as pessoas indo embora e isso, somado à situação (de instabilidade) política, me convenceu a emigrar."

Edição 132 Novº 2017

José Álvaro de Lima Cardoso (economista)

A VINGANÇA DO CAPITAL CONTRA O TRABALHO

As revoluções industriais são da própria natureza do capitalismo. O capital revoluciona o tempo todo os meios de produção e, assim, mudam também as relações sociais. Muda o jeito de produzir, mudam as relações sociais, mudam as ideias. A quarta revolução industrial, a exemplo das revoluções anteriores, coloca os meios técnicos e as forças produtivas num patamar muito superior, fornecendo as condições objetivas, do ponto de vista tecnológico, para a melhoria de vida das pessoas.

De um lado, portanto, o desenvolvimento das forças produtivas leva a avanços significativos nas tecnologias utilizadas e no processo de produção. Porém, as relações sociais de produção, baseada na propriedade privada e no lucro sem limites impossibilitam que tais avanços signifiquem benefícios para toda a sociedade. Talvez um dos principais efeitos dessa contradição seja o desemprego tecnológico, ou seja, aquele causado pela introdução de novas tecnologias. Mudanças tecnológicas implicam em elevação da produtividade que, muitas vezes, representa verdadeiros “saltos tecnológicos”. O uso de tecnologias mais eficientes permite produzir mais mercadorias em menos tempo de trabalho, ou seja, com menor quantidade de trabalho humano. O sistema produz assim uma elevação do desemprego, em decorrência do novo patamar tecnológico, criando uma força de trabalho excedente, que tende a crescer.

A substituição de trabalho humano por máquinas é decisão de cada grupo empresarial, que buscar reduzir permanentemente seus custos, o que lhe permite aumentar suas margens de lucros e/ou vender a preços mais baixos. O aumento da produtividade através da substituição de trabalho por máquinas gera uma “população excedente”, que é artificial, ou seja, é excedente em função das restrições impostas pelas relações sociais de produção. Então, as mesmas causas dos enormes ganhos de produtividade levam a existência de um grupo de trabalhadores sem espaço no mercado de trabalho. Quando muito, ocupando postos na economia informal, que paga menores salários, jornadas mais longas e tem condições de trabalho mais precárias.

O exército de desempregados e de trabalhadores na economia informal, são essenciais para a manutenção dos salários em baixos patamares. Até 2014, ocasião em que o Brasil, em algumas regiões, tinha uma situação praticamente de pleno emprego, ouvia-se dos prepostos patronais em mesas de negociação queixas de que não havia trabalhadores disponíveis para contratação, o que estaria “complicando” muito a gestão de pessoal. A mensagem podia ser entendida como: “é necessário que retorne o exército de reserva de desempregados, para impormos o nível salarial que queremos”.

Na mesma direção, o empresariado reclama recorrentemente da existência do salário mínimo, especialmente quando ele aumenta acima da inflação, como ocorreu no período entre 2004 e 2015. O salário mínimo funciona como impeditivo legal às possibilidades de achatamento salarial trazidas pelas flutuações do mercado e pelo exército industrial de reserva. Ligado ao mesmo fenômeno, na primeira grande onda neoliberal no Brasil, na década de 1990, na gestão FHC, nas mesas de negociação os patrões tentavam insistentemente eliminar os pisos das convenções coletivas de trabalho. Em Santa Catarina, algumas categorias chegaram a assinar à época convenções sem a existência de piso salarial, ou seja, o piso da categoria passava a ser o salário mínimo nacional do pais (cujo poder de compra, aliás, era baixíssimo).

O problema não é a tecnologia, em si, mas a expansão da tecnologia dentro de relações capitalistas, que conduzem ao desemprego tecnológico. A necessidade de manter as margens de lucratividade impedem (ou pelo menos constrangem) que os benefícios advindos das novas tecnologias sejam plenamente distribuídos para a sociedade como um todo. Por exemplo, se um salto tecnológico da quarta revolução industrial gera um excedente de trabalhadores em função dos ganhos de produtividade, isso pode representar uma redução da jornada de trabalho para toda a classe trabalhadora, o que evitaria o crescimento do desemprego, ao mesmo tempo em que possibilitaria a todos um ganho de tempo, para dedicar às demais esferas da vida (convivência com a família, cuidados com a saúde, prática de esportes, estudos, etc.)

Numa situação de desemprego elevado, aumenta o medo daqueles que conseguem se manter no emprego. Ao assistir os companheiros perderem seus empregos, o trabalhador tende a se submeter a piores condições de trabalho e a aceitar salários mais baixos. O risco para a classe trabalhadora é duplo: ou sofre as agruras do desemprego ou padece o aumento da exploração para manter os postos de trabalho. É muito comum na nossa sociedade a convivência entre o desemprego crescente e um número grande de pessoas trabalhando muito, com jornada de 50 ou 60 horas semanais, em um ou mais de um emprego. O trabalhador que, num processo de crise, fica alguns meses desempregado, sem o amparo de políticas públicas e/ou do sindicato, tende a posteriormente se submeter a piores condições de trabalho e salário. O trabalhador fica mais “dócil”, afinal qualquer coisa é melhor do que passar fome.

Neste quadro, é certo que alguns torcem para que aumente o desemprego, apesar de todo o sofrimento humano e do prejuízo social e econômico, decorrentes. É que o aumento do desemprego possibilita elevar a taxa de exploração para os trabalhadores que mantém o vínculo, ampliando assim a lucratividade das empresas. Como desgraça pouca é bobagem, a contrarreforma trabalhista, que entra em vigor em poucos dias, é uma espécie de vingança do capital contra os avanços que a duríssimas penas os trabalhadores conseguiram ao longo de séculos. O princípio da prevalência do negociado sobre o legislado, em relação a diversos aspectos das relações de trabalho, em meio à maior recessão da história, significa na prática, a autorização para retirar direitos e elevar os níveis de exploração dos trabalhadores.

Piero Benvenuti escreveu / Luisa Rabolini traduziu

UMA VISÃO REVOLUCIONÁRIA DO COSMOS

Parece que o próprio universo quis se curvar e prestar homenagem aos três cientistas estadunidenses agraciados com o Prémio Nobel de Física de 2017: poucos dias após a concessão do prestigioso reconhecimento, os astrónomos anunciaram a observação simultânea de ondas gravitacionais e de radiação eletromagnética emitidas por duas estrelas de nêutrons coalescentes numa fantástica explosão amplamente divulgada pelos media nos últimos dias


O Prémio Nobel foi concedido no último dia 3 de outubro a Rainer Weiss, Barry C. Barish e Kip S. Thorne, representando a grande Colaboração internacional Ligo (Laser Interferometry Gravitacional Observatory), que, depois de décadas de tentativas, conseguiu pela primeira vez detectar as ondas gravitacionais. O fenómeno foi previsto por Albert Einstein como uma consequência lógica da sua teoria da gravidade, conhecida como relatividade geral, mas a debilidade dessas mínimas ondulações no espaço-tempo tinha-as, até agora, tornado imperceptíveis e apenas a perseverança dos físicos na busca de soluções tecnológicas sempre mais refinadas tornou finalmente possível a inequívoca detecção desses fracos sinais cósmicos.

O resultado tinha despertado grande entusiasmo, não só entre os cientistas, mas também no grande público, sempre fascinado por fenómenos cósmicos e por uma teoria de consequências tão distantes do entendimento comum.

A concessão do Prémio Nobel aos representantes da Colaboração internacional Ligo era, portanto, esperada e eu diria quase descontada. O que não era absolutamente esperado foi que, justamente em concomitância com o prémio, os instrumentos da Colaboração – aos quais, desta vez, somou-se o interferómetro italiano Virgo - revelassem uma nova emissão de ondas gravitacionais e, ao mesmo tempo, os observatórios espaciais de raios gama (o satélite Fermi da NASA e Integral da Agência espacial Europeia) medissem um súbito e violento flash de luz gama, semelhante ao que acompanha as explosões nucleares.

Ficou logo evidente que se tratava de sinais emitidos pela própria catástrofe cósmica: duas estrelas de nêutrons, que em trajetória espiral cada vez mais próxima uma da outra, se fundem em uma só dando origem ao fenómeno, até agora previsto apenas teoricamente, chamado de "kilonova". A enorme vantagem da observação simultânea do flash gama consiste no fato de que a direção da origem deste último, ao contrário do local de emissão das ondas gravitacionais, pode ser determinada no céu com razoável precisão: imediatamente a localização do evento foi transmitida aos telescópios ópticos do mundo inteiro, incluindo o veterano telescópio espacial Hubble, e todos foram direcionados naquela direção na esperança de detectar o brilho de luz visível e infravermelha que certamente tal evento explosivo deveria produzir. A esperança foi amplamente recompensada, e justamente agora, em uma empolgante sucessão de conferências de imprensa, o filme (podemos realmente chamá-lo assim) do evento ocorrido 130 milhões de anos, em uma zona periférica de uma galáxia vizinha, foi mostrado ao público.

Para além do evento espectacular, as consequências científicas dessa fantástica observação são de grande magnitude. Em primeiro lugar, confirma-se a hipótese de que a velocidade de propagação das ondas gravitacionais é idêntica à da luz: de facto, se os sinais gravitacionais e eletromagnéticos - de natureza completamente diferente – fossem sendo propagados no espaço com velocidades mesmo que minimamente diferentes, depois de um percurso de bem 130 milhões de anos-luz, teriam chegado com um considerável lapso de tempo.

Outra consequência é que a admirável e frutífera colaboração entre telescópios ópticos e gravitacionais abre oficialmente uma nova era da astronomia observacional: no futuro poderemos investigar fenómenos cósmicos não só observando a luz emitida por eles, mas também através das mínimas vibrações do espaço-tempo, sinais estes que, diferentemente da radiação eletromagnética e por sua própria natureza, não encontram obstáculos em seu caminho.

Artigo de Raúl Zibechi

Insurreições silenciosas

“O mundo, nosso mundo, está mudando de maneira acelerada. Rejeitar essas mudanças, seria como anular a capacidade transformadora que está enterrando o capitalismo e levantando um mundo novo sobre seus escombros”, escreve o jornalista e analista político uruguaio Raúl Zibechi.

As grandes mudanças começam sempre por pequenos movimentos invisíveis para os analistas de cima e para os grandes meios de comunicação, como destaca um dos comunicados do zapatismo. Antes que milhares de pessoas ocupem as grandes avenidas, ocorrem processos subterrâneos, onde os oprimidos ensaiam os levantes que, depois, tornam visíveis nos eventos massivos que a academia denomina movimentos sociais.

Estas mudanças ocorrem na vida cotidiana, são produzidas por grupos de pessoas que têm relações diretas entre elas, não são fáceis de detectar e nunca sabemos se irão se tornar ações massivas. No entanto, apesar das dificuldades, é possível intuir que algo está mudando, caso agucemos os sentidos.

Algo disto parece estar ocorrendo em países da América Latina. Um companheiro brasileiro considerou, durante um encontro de geógrafos com movimentos sociais (Simpósio Internacional de Geografia Agrária – SINGA), que neste país estamos diante de uma insurreição silenciosa. A intuição se baseia em fatos reais. No seio de movimentos sociais e nos espaços mais pobres da sociedade, as mulheres e os jovens estão protagonizando mudanças, estão se deslocando do lugar designado pelo Estado e o mercado.

Os verdadeiros movimentos são aqueles que modificam o lugar das pessoas no mundo, quando se movimentam em coletivos e rasgam os tecidos da dominação. Neste ponto, deve se assinalar que não há uma relação direta ou mecânica causa-efeito, já que nas relações humanas os prognósticos não são possíveis pela complexidade que possuem e pela interação de uma multiplicidade de sujeitos.

Nos últimos anos, pude observar esta tendência de mudanças silenciosas no interior de vários movimentos. Entre os indígenas do sul da Colômbia, grupos de jovens nasa e misak 're-empreendem' a luta pela terra que havia sido paralisada pelas direções, focadas na ampliação das relações com o Estado que lhes proporciona abundantes recursos. Algo similar parece estar ocorrendo no sul do Chile, onde uma nova geração mapuche enfrenta a repressão estatal com renovadas forças.

Entre os movimentos camponeses consolidados, onde existem poderosas estruturas de direção, mulheres e jovens estão empreendendo debates e propostas de novo tipo, que incluem a mobilização e organização das pessoas que se definem LGBT (Lésbicas, Gays, Transexuais e Bissexuais).

Observamos também um crescente ativismo no seio dos movimentos tradicionais de militantes negros que constroem quilombos e palenques, inclusive nas universidades, como pode se apreciar nas academias brasileiras e colombianas, onde abrem espaços próprios.

Durante a escolinha, explicaram-nos que metade dos zapatistas tem menos de 20 anos, algo que pudemos apreciar. A participação das mulheres jovens é notável. Aqueles que participam dos encontros de arte e ciência convocados pelo EZLN enfatizam esta realidade. Em outros movimentos aparece a organização de garotos e garotas com assembleias que excluem os mais velhos.

Que reflexões podemos realizar sobre esta insurreição silenciosa, que abarca toda a sociedade e de modo particular os movimentos anti-sistêmicos. Sem pretender esgotar um debate incipiente, proponho três considerações.

A primeira é que as insurgências em curso das mulheres, dos povos negros e indígenas e dos jovens de todos os setores populares estão impactando no interior dos movimentos. Por um lado, estão produzindo uma necessária mudança geracional, sem deslocar os fundadores. Por outro, esta mudança é acompanhada por modos de fazer e de se expressar que tendem a modificar a ação política para direções que, ao menos quem escreve estas linhas, não é capaz de definir com clareza.

A segunda é de caráter qualitativo, estreitamente relacionada com a anterior. A irrupção juvenil/feminina é portadora de perguntas e culturas elaboradas no interior dos movimentos, com suas próprias características. As mulheres de baixo, por exemplo, não embandeiram o discurso feminista clássico, nem o da igualdade, nem o da diferença, mas, sim, algo novo que não me atrevo a conceituar, ainda que existam aqueles que mencionam feminismos comunitários, negros, indígenas e populares.

O desejo dos jovens zapatistas em mostrar suas músicas e danças, é algo mais que uma questão artística, do mesmo modo que suas perguntas sobre a ciência. Em alguns casos, como o mapuche e o nasa, é possível observar mudanças que, de fora, podemos avaliar como uma radicalização que não está focada apenas nas formas de ação política, mas também na recuperação de tradições de luta que tinham sido quase abandonadas pelos mais velhos.

A terceira, e talvez a mais importante, é que a irrupção dos jovens e mulheres de baixo vai perfilando outra concepção de revolução, que se afasta da tradicional teoria da revolução de cunho leninista. Aqui, aparece outra questão: como se faz política em chave quilombo/palenque? Como é a política em chave mulher? Não me refiro à participação das mulheres e os jovens de baixo nas estruturas já existentes.

As respostas serão dadas pelos próprios povos, que estão abrindo caminhos novos, ainda que o analista de cima sempre tende a os ver com olhos e conceitos do passado. Trata-se de construir, mais que de ocupar as instituições existentes. Vão se criando mundos novos ou sociedades novas, caso se deseje nomear com os conceitos de antes: poderes próprios, justiça própria com base, muitas vezes, em tradições e em outras de sentido comum dos povos; saúde, educação e maneiras de ocupar o espaço baseadas em lógicas não capitalistas.

O mundo, nosso mundo, está mudando de maneira acelerada. Rejeitar essas mudanças, seria como anular a capacidade transformadora que está enterrando o capitalismo e levantando um mundo novo sobre seus escombros.

IMMANUEL WALLERSTEIN

O QUE SE PASSA COM A CHINA?

A questão de fundo é que, embora a China tenha um grande papel a desempenhar em curto prazo, não é um papel tão grande como o que a China gostaria e que alguns do sistema-mundo restante temem. Não é possível para a China deter a desintegração do sistema capitalista. Somente pode tentar assegurar seu lugar num futuro sistema-mundo

Com muita frequência, quando escrevo sobre a crise estrutural do moderno sistema-mundo e, portanto, do capitalismo como um sistema histórico, recebo objeções que dizem que descuidei da força do crescimento económico da China e de sua capacidade em servir como substituta económica para a claramente minguante força dos Estados Unidos mais a Europa ocidental, o chamado Norte.

Este é um argumento perfeitamente razoável, ao qual lhe escapam, no entanto, as dificuldades fundamentais do sistema histórico existente. Além disso, pinta um retrato das realidades chinesas muito mais rosa que o justificado, caso se olhe mais de perto.

Deixem-me responder esta pergunta, então, em duas partes: primeira, o desenvolvimento do sistema-mundo como um todo e, segunda, a situação empírica da China no momento atual.

Foi a análise do que chamo a crise estrutural do moderno sistema-mundo o que realizei, em muitas ocasiões, nestes comentários e em outros de meus escritos. É, não obstante, importante repeti-la de uma forma condensada. Isto é muito mais necessário posto que mesmo pessoas que dizem concordar com o conceito de uma crise estrutural parecem, no entanto, na prática, resistir em aceitar a ideia da queda do capitalismo por mais forte que seja esta.

Há uma série de elementos do argumento que é necessário reunir. Um é a afirmação de que todos os sistemas (seja qual for seu espectro e sem exceção alguma) têm vidas e não podem ser eternos. A explicação desta eventual queda de qualquer sistema é que os sistemas operam em ritmos cíclicos e em tendências seculares.

Os ritmos cíclicos se referem a vaivéns constantes de ida e retorno para um equilíbrio em movimento, uma realidade perfeitamente normal. No entanto, quando vários fenómenos se expandem de acordo com suas regras sistémicas e depois se contraem, não retornam exatamente para onde estavam antes de sua viragem cíclica em ascensão.

Daqui, deriva-se que sua curva em longo prazo é ascendente. É a isto que nos referimos como uma tendência secular. Caso se meça esta atividade na ordenada, ou o eixo Y do gráfico, vê-se que com o tempo se aproximam a uma assíntota de 100%, que não pode ser cruzada. Parece que quando fatores importantes atingem um ponto anterior a 80% da ordenada, começam a flutuar de uma maneira errática.

Quando as curvas cíclicas chegam a este ponto, param de utilizar os chamados meios normais de resolver as constantes tensões no funcionamento de um sistema e entram, portanto, em uma crise estrutural do sistema.

Uma crise estrutural é caótica. Isto significa que no lugar da série normal de combinações ou alianças que previamente foram utilizadas para manter a estabilidade do sistema, estas alianças em busca de ganhos de curto prazo variam constantemente. Isto só faz com que a situação piore. Notamos, aqui, um paradoxo: a certeza do final do sistema existente e a incerteza intrínseca do que eventualmente o substituirá, criando, portanto, um novo sistema (ou novos sistemas) que estabilize as realidades.

Durante o período um tanto mais longo da crise estrutural, observamos uma bifurcação entre dois modos alternativos de resolver a crise: um, com a substituição por um sistema diferente, que de algum modo conserva os elementos essenciais do sistema moribundo e o outro que o transforma radicalmente.

Concretamente, em nosso atual sistema capitalista há aqueles que buscam encontrar um sistema não capitalista que, no entanto, mantenha os piores traços do capitalismo: hierarquia, exploração e polarização. E há aqueles que desejam estabelecer um sistema que seja relativamente democrático e igualitário, um tipo de sistema histórico que nunca existiu antes. Estamos em meio a esta batalha política.

Agora, olhemos o papel que a China desempenha naquilo que está ocorrendo. Em termos do presente sistema, a China parece ir ganhando muita vantagem. Argumentar que isto significa a continuação do funcionamento do capitalismo como sistema é basicamente (re)afirmar o ponto inválido de que os sistemas são eternos e de que China está substituindo os Estados Unidos do mesmo modo como os Estados Unidos substituíram a Grã-Bretanha como a potência hegemónica. Se isto fosse verdade, em outros 20-30 anos, a China (ou talvez o nordeste asiático) seria capaz de fixar suas regras ao sistema-mundo capitalista.

Mas, realmente, isto está ocorrendo? Antes de mais nada, a margem económica da China, mesmo que ainda seja maior que aquela do Norte, foi declinando significativamente. E esta decadência pode ser ampliada em breve, conforme cresce a resistência política diante das tentativas da China em controlar os países vizinhos e encantar (quer dizer, comprar) o apoio dos países mais distantes, algo que parece estar ocorrendo.

Pode a China, então, depender do aumento da demanda interna para manter sua demanda global? Há duas razões que não tornam isto possível.

A primeira razão é que as atuais autoridades se preocupam com o fato de que um crescente estrato médio possa comprometer seu controle político e busque limitá-lo.

A segunda razão, mais importante, é que muito da demanda interna é resultado de empréstimos irresponsáveis por parte dos bancos regionais, que enfrentam uma incapacidade para sustentar seus investimentos. Caso entrem em colapso, mesmo que parcialmente, isto poderia pôr fim a toda a margem económica da China.

Além disso, já houve e continuará a haver vaivéns alocados nas alianças geopolíticas. Em um sentido, as regiões-chave não estão no Norte, mas, ao contrário, em áreas tais como Rússia, Índia, Irão, Turquia e o sudeste da Europa, todas elas buscando seus próprios papéis em um jogo de mudança de lado de forma rápida e repetida. A questão de fundo é que, embora a China tenha um grande papel a desempenhar em curto prazo, não é um papel tão grande como o que a China gostaria e que alguns do sistema-mundo restante temem. Não é possível para a China deter a desintegração do sistema capitalista. Somente pode tentar assegurar seu lugar num futuro sistema-mundo.

Alessandro De Nicola

Em nome do Pai e do Filho e do mercado

Tese defendida por padre Robert Sirico em livro

O filósofo grego Diógenes de Sinope (sim, aquele que vivia no barril e que disse a Alexandre Magno para sair do seu caminho porque lhe tapava o sol) não tinha uma grande concepção do mercado, definido como “um lugar apartado, onde os homens podem se enganar uns aos outros”.

Essa atitude desconfiada em relação à economia de mercado e aos comerciantes se manteve nos séculos seguintes e, somente graças aos iluministas escoceses, como David Hume e Adam Smith, difundiu-se a consciência de que o egoísmo individual podia ser benéfico para o interesse coletivo através da heterogênese dos fins representada pela famosa mão invisível.

Porém, pelo menos na cultura católica e, mais tarde, na cultura secularizada socialista, o livre mercado continuou sendo visto como um “lugar”, parafraseando Diógenes, de exploração ou, no máximo, como um instrumento de eficiente alocação dos recursos, separado, no entanto, da moralidade.

Apesar dos teólogos de Salamanca e da ética protestante um pouco idealizada por Max Weber, em geral o comportamento moralmente louvável nunca foi considerado aquele de quem produz, compra e vende bens e serviços.

No âmbito da Igreja Católica, depois, nos séculos XVIII e XIX, o liberalismo foi, primeiro, contrastado totalmente, e somente com o Papa Leão XIII tentou-se, no fim do século XVIII, aquele sincretismo que responde pelo nome de “doutrina social da Igreja”.

O Papa Francisco, recentemente, por sua vez, toma posição frequentemente contra a globalização que mata, o mercado, o deus dinheiro e qualquer outro tipo de monstro materialista.

É por isso que o livro do padre Robert Sirico, padre paulino e presidente do Acton Institute, A difesa del mercato. Le ragioni morali della libertà economica [Em defesa do mercado. As razões morais da liberdade econômica], publicado pela editora Cantagalli (259 páginas), chama a atenção. O Pe. Bob, na verdade, é alguém original. Criado no Brooklyn nos anos 1950 e 1960, mudou-se depois para a Califórnia e começou a frequentar os ambientes da esquerda radical. Tornou-se ativista pelos direitos gays e amigo de Jane Fonda, que, educadamente, o reabastecia de maconha quando estava a seco; participou de todos os sit-in e manifestações de protesto possíveis; abandonou a Igreja Católica e tornou-se “evangélico experimental”; sonhou com uma revolução que tornaria a todos iguais e colocaria qualquer pessoa na condição de “fazer compras na Gucci”.

Em um certo ponto, porém, começou um processo de maturação (involução, de acordo com os seus velhos amigos) que, primeiro, o levaria a vestir a batina e, depois, a se tornar um dos mais eloquentes e conhecidos defensores da economia de mercado dentro da Igreja.

O pressuposto a partir do qual o padre Bob parte, em certos aspectos, é genial. “Deus é o primeiro ‘empresário’, o modelo de todo empreendedorismo, o criador que é generoso na sua criatividade”, escreve ele no seu livro.

E a doutrina do pecado original “não nos permite imaginar que exista um grupo de eleitos incorruptíveis aos quais se possa confiar um poder político incontrolado”.

Se essa visão teológica inverte muitas teorias igualitaristas que se ouvem em âmbito cristão, ela também pode ser adotada por quem é secular. O ateu, ou o agnóstico, ou o simples teísta considera que, se o homem não é imagem de Deus, então ele é falível, corruptível, limitado, e, por isso, como ainda escreve o Pe. Sirico, não se pode pressupor que “os burocratas, os oficiais públicos e os políticos – estando desprovidos do pecado original dos negócios – sejam concebidos como seres imaculados e não sujeitos às tentações ou inclinados aos erros”.

O livro se articula em capítulos, cada um dos quais aborda um assunto específico: a assistência à saúde, o bem-estar, o ambiente (o melhor modo de defendê-lo é assegurar claros direitos de propriedade), o empreendedorismo, a destruição criativa e assim por diante.

Em cada um deles, argumenta-se, com abundância de exemplos e de referências bibliográficas, como as soluções deixadas ao mercado e à cooperação entre indivíduos são não apenas mais eficientes para a economia, mas também eficazes no combate às causas da pobreza material e espiritual.

Uma leitura à parte merece a longa introdução escrita para a edição italiana. A partir dela, percebe-se a grande admiração que o Pe. Bob tinha por João Paulo II (ao qual ele se refere como “o Grande”) e a perplexidade (eufemisticamente falando) que Bergoglio suscita nele.

Em primeiro lugar, Sirico recorda e enfatiza um pilar doutrinal: quando discorre sobre economia, o papa não fala ex cathedra, trata-se de uma opinião como as outras. Em segundo lugar, o próprio pontífice, muitas vezes, afirma proposições que se baseiam em dados empíricos inexatos (aqueles relacionados à pobreza ou aos efeitos da globalização, para citar dois): o que os conselheiros dele estão fazendo? Eles deveriam ajudá-lo melhor, até porque, recorda o sacerdote empreendedor com uma certa argúcia, “o próprio Francisco disse não só que não tem experiência nas disciplinas econômicas, mas também que tem ‘uma grande alergia à economia’”.

Amém.

Edição 131 Out.º 2017

Manfredo Araújo de Oliveira

O CAPITAL IMPRODUTIVO

"A intermediação financeira drena em volumes impressionantes recursos que deveriam servir ao fomento produtivo e ao desenvolvimento do país. O mercado financeiro impõe suas exigências e qualquer decisão em direção contrária provoca pressões políticas fortes e um bombardeio da mídia para amedrontar a população. Não é mais a mais-valia salarial que importa, mas a mais valia-financeira", escreve Manfredo Araújo de Oliveira, doutor em Filosofia pela Universität München Ludwig Maximilian de Munique, Alemanha, e professor da Universidade Federal do Ceará – UFC

Em seu último livro, “A Era do Capital Improdutivo”, L. Dowbor elabora um quadro teórico com a pretensão de compreender a forma como o capitalismo se configura em nossos dias. A tese fundamental é que o centro da economia hoje é o “capital financeiro”. Está em curso um processo de globalização financeira que torna difícil ao país adotar políticas macroeconômicas independentes e as reformas financeiras que são necessárias. Isto gerou uma espécie de elite que vive de juros e não da produção. Quando se cobra nos crediários mais de 100% de juros, a intermediação financeira está se apropriando da metade da capacidade produtiva da população. Isto porque de algum lugar têm que vir os recursos para a apropriação financeira e no Brasil eles vêm precisamente da taxa de juros sobre as famílias. As instituições de crédito sugaram a capacidade de compra da população, e dessa forma esterilizaram a dinamização da economia pelo lado da demanda.

Numa palavra, os recursos são conseguidos por meio dos juros bancários:40% dos adultos não conseguem pagar as prestações com os juros de suas compras. Assim, o principal motor da economia, o consumo das famílias, fica paralisado. O bem-estar das famílias depende do salário direto e indireto (creche, escola, saúde, transporte, etc.). O salário indireto na medida em que é público gratuito, universal e de qualidade gera equilíbrio social. Por esta razão, ao invés de diminuir gastos, uma política pública sensata é aumentar o salario indireto das famílias como a reforma tributária que é igualmente instrumento indispensável para o avanço do combate às desigualdades. Na situação atual, o rentismo fatura muito, mas seus dividendos não são tributados.

Esta situação exige mudanças radicais na atuação política na sociedade. Assim, por exemplo, os sindicatos normalmente ainda pensam que é necessário lutar basicamente pelo salário porque é aqui que se concentra a exploração. No entanto, hoje o trabalhador é muito mais explorado pelo capital financeiro, pela taxa de juros: ele paga proporcionalmente o dobro ou mais pelo que compra. Neste caso, é como se ele dividisse o salario pela metade, ou seja, os pobres não somente pagam mais imposto como também pagam o dobro do que consomem porque não têm condição de pagar à vista. Quem ganha dinheiro hoje são aqueles que podem fazer aplicações financeiras o que não é o caso dos pobres que precisam trabalhar e produzir para ganhar seus salários.

A intermediação financeira drena em volumes impressionantes recursos que deveriam servir ao fomento produtivo e ao desenvolvimento do país. O mercado financeiro impõe suas exigências e qualquer decisão em direção contrária provoca pressões políticas fortes e um bombardeio dos media para amedrontar a população. Não é mais a mais-valia salarial que importa, mas a mais valia-financeira. Hoje são os gigantes financeiros que fazem a regulação da economia. Não existem razões plausíveis para a economia não funcionar. É indispensável que se compreenda que a generalização da inclusão social e a redução dos desequilíbrios internos esbarram em razões estruturais.

Reportagem de Katia Braga publicada por Embrapa

Sistemas agroflorestais biodiversos conservam polinizadores

De acordo com Katia Braga, pesquisadora do Núcleo, uma polinização adequada pode aumentar a produção e a qualidade em culturas de frutas, castanhas, oleaginosas e fibras. “Já se sabe que cerca de 75% das 115 culturas consideradas as mais importantes em todo o mundo se beneficiam com rendimentos maiores quando polinizadas por animais. No Brasil, em um estudo recente, foram analisadas 141 culturas e destas, identificou-se 85 como dependentes dos polinizadores. Nesse estudo, a contribuição econômica dos polinizadores totalizou quase 30% (aproximadamente US$12 bilhões) do valor total da produção agrícola anual das culturas dependentes (totalizando quase US$45 bilhões)”.

Além disso, a pesquisadora esclarece que, para certas culturas, os visitantes florais promovem maior qualidade da fruta. “Esse é um benefício indireto e nem sempre fácil de medir, mas extremamente importante para o mercado agrícola”, afirma. Outro aspecto importante ressaltado pela cientista é que os polinizadores estão fortemente relacionados à qualidade nutricional das populações humanas: no sudoeste da Ásia, por exemplo, 50% das plantas que são fonte de vitamina A dependem da polinização por animais.

A pesquisa

A pesquisadora conta que os resultados iniciais permitem prever que, com as floradas que ainda acontecerão ao longo do ano, o percentual de espécies arbóreas visitadas pelas abelhas sem ferrão, nos SAFs, deverá aumentar. Para a cientista, as informações levantadas são de grande importância, uma vez que há pouco conhecimento sobre a relação entre essas abelhas e os SAFs.

Das 92 espécies de árvores já identificadas nos quatro SAF’s do Sítio Agroecológico da Embrapa Meio Ambiente, localizado em Jaguariúna (SP), verificou-se que 42 delas (46%) são visitadas por abelhas sem ferrão e, dentre estas, 38% pertencem à família Fabaceae, que apresentou maior riqueza de espécies na área de estudo: 38. Das 28 famílias botânicas registradas até o momento para esses SAFs, as abelhas sem ferrão são visitantes florais em 17 delas (61%).

“Essas abelhas apresentam hábitos generalistas de forrageamento, coletando néctar e pólen em diversas espécies de plantas de famílias variadas, embora explorem com maior intensidade uma gama menor de espécies. Nas florestas tropicais úmidas, essas abelhas, que pertencem à tribo Meliponini (Hymenoptera: Apidae), constituem o grupo de insetos generalistas mais bem-sucedido, com grande abundância e riqueza de espécies”, explica a pesquisadora.

Comparando os SAFs com lavouras em sistemas pouco diversos (monocultivos e consórcios, incluindo a integração Lavoura-Pecuária-Floresta), o pesquisador da Embrapa Ricardo Camargo explica que os SAFs, por propiciarem maior diversidade biológica por área com diversos estratos ocupados por diferentes espécies (ervas, arbustos e árvores), oferecem uma diversidade muito maior de recursos para abrigo e alimentação da fauna, no tempo e no espaço, o que atrai e contribui para manter populações maiores e mais diversas de abelhas. Como a abundância e a diversidade de polinizadores influenciam a produtividade das lavouras, ao manter mais abelhas, os SAFs também contribuem para melhor desempenho das plantações a ele associadas ou daquelas em seu entorno.

Para avaliar o potencial dos SAFs como uma alternativa para conservação da diversidade de abelhas, desde janeiro de 2017, estão sendo monitoradas as espécies de abelhas que visitam as árvores em floração nos SAFs agroecológicos da Embrapa Meio Ambiente. Amostras de pólen dessas árvores são armazenadas para posterior avaliação da dieta das abelhas sem ferrão criadas racionalmente no local. Dados de observações anteriores e do referencial bibliográfico também são utilizados. Como resultado, os pesquisadores irão apresentar, no Congresso Latino-americano de Agroecologia, uma lista preliminar das árvores dos SAFs que são visitadas pelas abelhas sem ferrão, cuja contribuição para a manutenção das colônias ainda será avaliada.

Solo e árvores para as abelhas

Mesmo considerando que fragmentos florestais possam existir próximos aos sistemas de cultivo, a capacidade de essas áreas abrigarem uma diversidade de abelhas e com isso oferecer um serviço de polinização efetivo, dependerá do seu tamanho e distribuição no espaço e de seu estado de conservação. Os SAFs ao longo do tempo disponibilizam locais para o abrigo de diversas espécies de polinizadores, tanto pela oferta de um solo menos manejado, uma vez que inúmeras espécies de abelhas fazem seus ninhos no solo, quanto pela presença do elemento arbóreo no próprio sistema.

“É preciso considerar ainda”, enfatiza Camargo, “que algumas culturas podem oferecer apenas um tipo de recurso ao seu polinizador principal e apenas em uma determinada época (período de floração), como ocorre, por exemplo, no maracujazeiro com as mamangavas (abelhas solitárias), que coletam apenas néctar (fonte de energia) em suas flores. Assim, a presença de outras espécies vegetais que ofereçam abrigo e outros recursos ao longo do tempo, como o pólen (fonte de proteínas), resinas e óleos, nas proximidades das áreas de cultivo serão fundamentais para garantir a manutenção das populações de mamangavas”.

Isso reforça a necessidade de desenvolver sistemas agrícolas mais integrados e biodiversos, assim como de manter áreas naturais nas proximidades dos sistemas de cultivo, pela importância da diversidade biológica para a produção de alimentos.

Na Floresta da Cantareira, em São Paulo, que é um fragmento da Floresta Tropical Atlântica, as abelhas sem ferrão exploraram 73% das 96 espécies de plantas lá presentes. Essas pequenas abelhas, também conhecidas como meliponíneos, representaram cerca de 70% de todas as abelhas em atividade nas flores das árvores. Todas as 40 espécies de árvores nativas visitadas pelas abelhas sem ferrão nos SAFs da Embrapa Meio Ambiente estão presentes no Bioma Mata Atlântica, reforçando a estreita relação evolutiva e ecológica existente entre elas e as árvores desse bioma. Dessas 43 espécies arbóreas, 58,1% são indicadas para a restauração ecológica no Estado de São Paulo.

Nos últimos anos, os temas abelhas, polinização e a relação desses polinizadores com a agricultura tem merecido destaque internacional e nacional, principalmente devido ao declínio mundial na diversidade e abundância de abelhas. “Não é à toa que o assunto foi escolhido para o primeiro relatório de avaliação da Plataforma Intergovernamental sobre Biodiversidade e Serviços Ecossistêmicos (IPBES), informa a pesquisadora.

Por isso, os pesquisadores consideram o conhecimento sobre a criação e a conservação das abelhas sociais nativas do Brasil, as abelhas sem ferrão (ASF), e das abelhas solitárias, uma demanda fundamental para a manutenção da produtividade nos agroecossistemas, bem como para a conservação da biodiversidade nos ecossistemas naturais, uma vez que tanto plantas cultivadas como plantas nativas dependem desses insetos para sua reprodução.

A criação de abelhas sem ferrão, conhecida como meliponicultura, é uma atividade reconhecida como geradora de renda pela produção de mel e de outros produtos das abelhas. Mas, como a criação depende diretamente da vegetação como principal fonte de recursos para as abelhas, essa atividade também contribui para a conservação da biodiversidade.

Os cientistas recomendam que a criação de abelhas sem ferrão seja integrada às atividades de restauração ambiental e em sistemas agroecológicos de produção, como os Sistemas Agroflorestais Biodiversos (SAFs), visando, nesses últimos, um incremento na produtividade dos cultivos pela melhoria no processo de polinização.

De acordo com Camargo, partindo-se da premissa que os SAFs são concebidos para serem sistemas de produção com alta diversidade biológica e produtiva, seu impacto ambiental positivo é muito relevante, pela geração de um ambiente mais equilibrado e resiliente a partir da presença do elemento arbóreo no sistema, que fornecerá inúmeros benefícios ambientais: alta disponibilidade de matéria orgânica (folhas e galhos); maior conforto térmico aos trabalhadores devido ao sombreamento; abrigo e fonte de alimentos para vários animais, como pássaros, mamíferos e insetos; mitigação dos efeitos da erosão e melhor retenção e absorção de água; recuperação de nascentes, dentre outros. Os autores do estudo são Katia Braga, Maria Aico Watanabe, Ricardo Camargo, Jody Justino dos Santos, da Faculdade Politécnica de Campinas; e João Canuto e Joel Queiroga, pesquisadores da Embrapa Meio Ambiente.

Cientistas discutem a redução das colônias de abelhas

Entre os dias 16 e 18 de outubro, pesquisadores do Brasil e de outros países estão reunidos em Teresina (PI) para o Simpósio sobre Perdas de Abelhas no Brasil. Entre os temas do evento estarão as causas da Desordem do Colapso das Colônias (DCC), problema que atinge vários países, mas não foi detectado no Brasil; a importância desses insetos para a produção agrícola; as ameaças à sobrevivência das diferentes espécies de abelhas e vários outros temas relacionados.

Edição 130 Setembro 2017

Reportagem do sítio do Fórum Económico Mundial*

Robôs ocupam nossos postos de trabalho há 50 anos, então por que estamos preocupados?

Num cenário ideal, os seres humanos podem se concentrar em fazer as coisas que nos tornam humanos, talvez alimentados por uma renda básica gerada pelo trabalho robótico. Em última análise, cabe a nós definirmos se a força de trabalho robotizada trabalhará para nós, connosco ou contra nós

Trata-se da questão do que um robô realmente é. Embora a ficção científica muitas vezes tenha retratado os robôs como androides que realizam tarefas do mesmo modo que os humanos, a realidade é que os robôs tomam formas muito mais especializadas. Os robôs tradicionais do século XX eram máquinas automatizadas e braços robóticos que construíam carros em fábricas. Os robôs comerciais do século XXI são caixas de auto-atendimento nos supermercados, empilhadeiras automatizadas e até mesmo máquinas de virar hambúrgueres em restaurantes de fast-food.

Em última análise, os seres humanos não se tornaram completamente redundantes, porque esses robôs podem ser muito eficientes, mas também são um tanto burros. Eles não pensam, apenas agem, de modos muito precisos, mas também muito limitados. Os seres humanos ainda são necessários para trabalhar ao redor dos robôs, fazendo os trabalhos que as máquinas não conseguem e corrigi-los quando paralisam. Mas tudo isso está prestes a mudar, graças a uma nova onda de máquinas inteligentes e de melhor valor, que podem se adaptar a várias tarefas. Essa mudança será tão significativa que criará uma nova revolução industrial.

Indústria 4.0

Esta era da “Indústria 4.0” está sendo impulsionada pelos mesmos avanços tecnológicos que permitem as potencialidades dos smartphones nos nossos bolsos. É uma mistura de computadores de baixo custo e de alta potência, comunicação de alta velocidade e inteligência artificial. Isso produzirá robôs mais inteligentes, com melhores habilidades de sensibilidade e comunicação, que podem se adaptar a diferentes tarefas e até mesmo coordenar seu trabalho para atender à demanda sem o input de seres humanos.

Evolução das revoluções industriais

Na indústria de manufaturas, onde os robôs provavelmente tiveram o maior avanço entre todos os setores, isso significará uma mudança dramática da produção colaborativa, de centralizada para descentralizada. Os robôs tradicionais focavam-se em operações únicas, fixas e de alta velocidade e exigiam uma força de trabalho humana altamente qualificada para operá-los e mantê-los. As máquinas da Indústria 4.0 são flexíveis, colaborativas e podem operar de forma mais independente, o que, em última instância, remove a necessidade de uma força de trabalho altamente qualificada.

Para os manufatureiros de grande escala, a Indústria 4.0 significa que os seus robôs poderão sentir o seu ambiente e se comunicarem em uma rede industrial que pode ser gerida e monitorada remotamente. Cada máquina produzirá grandes quantidades de dados, que podem ser estudados coletivamente, usando aquela que é conhecida como análise de “big data”. Isso ajudará a identificar maneiras de melhorar o desempenho operacional e a qualidade da produção em toda a planta, por exemplo, prevendo melhor quando a manutenção é necessária e agendando-a automaticamente.

Para empresas manufatureiras de pequeno a médio porte, a Indústria 4.0 tornará mais barato e mais fácil usar robôs. Ela criará máquinas que podem ser reconfiguradas para executar vários trabalhos e ajustadas para funcionar em uma gama de produtos mais diversificada e em volumes de produção diferentes. Esse setor já está começando a se beneficiar com os robôs reconfiguráveis projetados para colaborar com trabalhadores humanos e analisar o seu próprio trabalho para buscar melhorias, como o Baxter, o SR-TEX e o CareSelect.

Embora essas máquinas estejam ficando mais inteligentes, elas ainda não são tão inteligentes quanto nós. A inteligência artificial industrial de hoje opera em um nível estreito, o que dá a aparência de inteligência humana exibida pelas máquinas, mas que é projetada por humanos.

O que vem em seguida é conhecido como “aprendizado profundo”. Semelhante à análise de big data, ele envolve o processamento de grandes quantidades de dados em tempo real para tomar decisões sobre a melhor ação a ser tomada. A diferença é que a máquina aprende a partir dos dados, para que possa melhorar a sua tomada de decisão. Um exemplo perfeito de aprendizado profundo foi demonstrado pelo software AlphaGo do Google, que ensinou a si mesmo a derrotar os maiores jogadores de Go do mundo. O ponto de viragem na aplicação da inteligência artificial à manufatura pode vir com a aplicação de microchips especiais, chamados de unidades de processamento gráfico (GPUs). Eles permitem que o aprendizado profundo seja aplicado em conjuntos de dados extremamente grandes, em velocidades extremamente rápidas. Mas ainda há algum caminho a ser feito, e grandes empresas industriais estão recrutando um grande número de cientistas para desenvolver mais essa tecnologia.

Impacto sobre a indústria

Como a tecnologia da Indústria 4.0 se torna mais inteligente e mais amplamente disponível, os manufatureiros de todos os tamanhos serão capazes de empregar máquinas econômicas, multitarefas e colaborativas como padrão. Isso levará ao crescimento industrial e à competitividade de mercado, com uma maior compreensão dos processos de produção, levando a novos produtos de alta qualidade e serviços digitais.

Ainda se discute exatamente qual será o impacto de uma força de trabalho robótica mais inteligente, com o potencial de operar por conta própria, sobre a indústria manufatureira. A inteligência artificial que conhecemos a partir da ficção científica ainda está em sua infância. Poderá ser apenas no século XXII que os robôs realmente terão o potencial de tornar o trabalho humano obsoleto ao desenvolver não apenas um aprendizado profundo, mas também um verdadeiro entendimento artificial que imite o pensamento humano.

Idealmente, a Indústria 4.0 permitirá que os trabalhadores humanos consigam mais nos seus empregos, removendo tarefas repetitivas e dando-lhes melhores ferramentas robotizadas. Teoricamente, isso nos permitiria que nós, humanos, nos foquemos mais no desenvolvimento comercial, na criatividade e na ciência, o que seria muito mais difícil para qualquer robô. A tecnologia que tornou os seres humanos redundantes no passado nos forçou a nos adaptar, geralmente com mais educação.

Mas, como os robôs da Indústria 4.0 poderão operar em grande parte por conta própria, nós poderemos ver uma redundância humana muito maior em trabalhos de manufatura, sem que outros setores consigam criar novos trabalhos suficientemente. Então, poderemos ver mais movimentos políticos para proteger o trabalho humano, como a taxação de robôs.

Novamente, em um cenário ideal, os seres humanos podem se concentrar em fazer as coisas que nos tornam humanos, talvez alimentados por uma renda básica gerada pelo trabalho robótico. Em última análise, cabe a nós definirmos se a força de trabalho robotizada trabalhará para nós, conosco ou contra nós.

* Tradução de Moisés Sbardelotto para IHU

Naomi Klein, escritora e activista social / IHU

Nem o furacão Irma é capaz de acordar os que negam mudanças climáticas

"As mudanças climáticas dinamitam o arcabouço ideológico sobre o qual se assenta o conservadorismo contemporâneo. Admitir que a crise climática é uma realidade é admitir o fim de um projeto político e económico, e é por isso que a direita está se rebelando contra o mundo físico", escreve Naomi Klein, escritora e ativista social, em artigo publicado por The Intercept, 12-09-2017. A tradução é de Deborah Leão

Segundo ela, há um fundamento lógico para que a ciência tenha se tornado um campo de batalha: ela vem demonstrando reiteradamente que a forma corporativa de fazer negócios está levando a uma catástrofe que ameaça a própria espécie humana. Enquanto uma das tempestades mais fortes já registadas caía sobre os Estados Unidos, com boa parte do estado da Flórida sob ordem de evacuação, o presidente Donald Trump se empenhava em resolver uma questão de grande urgência. Trump reuniu seu gabinete em Camp David e disse que não havia tempo a perder. Diante do avanço do furacão Irma, que poderia devastar enormes áreas dos estados da Flórida, Geórgia, Carolina do Sul e Carolina do Norte, havia chegado a hora de realizar substanciais… reduções de impostos.

O presidente não estava preocupado em levar auxílio substancial aos mais atingidos pelo desastre, nem em realizar uma mudança substancial nos sistemas de transporte e energia, buscando reduzir a emissão dos gases do efeito estufa para que tempestades como o Irma parem de acontecer três vezes por ano. Sua prioridade era realizar alterações substanciais ao código tributário. Ele alega a intenção de aliviar a classe média, mas na verdade as mudanças trariam a maior redução de tributos das últimas décadas para as grandes empresas e dariam também uma boa ajuda para os muito ricos. Muitos imaginaram que a experiência de viver tão de perto as catástrofes desse verão – Houston submersa, Los Angeles consumida pelas chamas, e agora os estados do Sul assolados pelo Irma – pudesse servir de alerta para os republicanos que negam mudanças climáticas.

O que o pronunciamento de Trump a seu gabinete deixa claro, porém, é que o único efeito do Irma será levá-lo a redobrar esforços em sua temerária agenda econômica. Acompanhado pelo Secretário de Estado, Rex Tillerson, e pelo Secretário de Comércio, Wilbur Ross, o presidente explicou que iriam discutir “drásticas reduções de impostos e uma reforma tributária”. Disse ainda: “penso que agora, depois do que aconteceu com o furacão, vou pedir pressa.”

Algumas pessoas observaram que se trata de um perfeito exemplo do que denominei “doutrina do choque” – o uso de desastres como pretexto para impor políticas radicais em prol de grandes corporações. E é mesmo um caso clássico, em especial porque, no momento em que Trump deu tais declarações, o furacão Irma se encontrava no auge de sua ameaça potencial.

O timing do presidente revela ainda mais sobre os verdadeiros motivos que impulsionam a negação das mudanças climáticas por parte da direita americana. Não se trata de uma rejeição à ciência, mas de uma rejeição às consequências da ciência. Para resumir, se a ciência está correta, significa que é preciso jogar fora todo o projeto econômico que dominou as estruturas de poder nos EUA desde a presidência de Ronald Reagan, e os negacionistas sabem disso.

Se as mudanças climáticas estão por trás das catástrofes que estamos vendo agora – e elas, de fato, estão -, isso não significa apenas que Trump precisa pedir desculpas e admitir que estava errado quando chamou o fenômeno de “invenção dos chineses”, mas também que ele precisaria descartar todo o seu plano tributário, porque esse dinheiro de impostos (e um tanto mais) será necessário para custear um rápido abandono dos combustíveis fósseis. Significa ainda que ele precisaria descartar seu plano de desregulamentação, porque se vamos mudar a forma como usamos energia em nossas vidas, será necessária ampla regulação para gerir e fazer cumprir essa mudança. Obviamente, isso não atinge apenas Trump, mas todos os governadores do Partido Republicano que negam as mudanças climáticas, e cujos estados estão atualmente sofrendo as consequências. Todos teriam que jogar no lixo uma visão de mundo distorcida, que considera que o mercado está sempre certo, que a regulação está sempre errada, que o privado é melhor que o público, e que os tributos que custeiam os serviços públicos são a pior coisa que existe.

O que precisa ser rapidamente compreendido é que, a essa altura, só vamos conseguir lidar com as mudanças climáticas por meio de ações coletivas que restrinjam drasticamente o comportamento de grandes corporações como Exxon Mobil e Goldman Sachs (ambas fartamente representadas na reunião de gabinete de Trump). As ações climáticas exigem investimento na esfera pública – em novas redes de energia, transporte público, trens urbanos e eficiência energética – numa escala só vista antes da Segunda Guerra Mundial. Para que isso aconteça, é preciso aumentar a tributação sobre os muito ricos e sobre as grandes empresas, exatamente quem Trump está determinado a beneficiar com as mais generosas reduções de impostos, isenções e exceções regulatórias.

Em resumo, as mudanças climáticas dinamitam o arcabouço ideológico sobre o qual se assenta o conservadorismo contemporâneo. Admitir que a crise climática é uma realidade é admitir o fim de um projeto político e econômico, e é por isso que a direita está se rebelando contra o mundo físico (o que levou centenas de milhares de cientistas ao redor do mundo a participar da Marcha pela Ciência em abril deste ano, defendendo coletivamente uma ideia que não deveria nem precisar de defesa: é bom entender o máximo possível do mundo em que vivemos). Há, no entanto, fundamento lógico para que a ciência tenha se tornado um campo de batalha: ela vem demonstrando reiteradamente que a forma corporativa de fazer negócios está levando a uma catástrofe que ameaça a própria espécie humana.

A questão não atinge apenas a direita, mas também o centro. O que os liberais tradicionais dizem há décadas sobre as mudanças climáticas é que só precisamos fazer alguns ajustes no sistema atual para ficar tudo certo. Capitalismo estilo Goldman Sachs, mas com painéis solares. No estágio atual, no entanto, o desafio que se apresenta é muito mais profundo.

Para reduzir nossas emissões no ritmo necessário para evitar um aquecimento catastrófico é preciso questionar a centralidade do aumento do consumo na forma como avaliamos o progresso econômico. É preciso reconstruir nossa economia em aspectos fundamentais, que incluem o combate às desigualdades econômicas e raciais sistêmicas que transformam desastres como [os furacões] Harvey e Katrina em catástrofes humanas. Em determinado sentido, portanto, os membros do gabinete de Trump demonstram, com sua desesperada necessidade de negar a realidade do aquecimento global ou minimizar suas implicações, reconhecer uma verdade essencial: para evitar o caos climático, precisamos enfrentar o fundamentalismo do livre mercado que tomou conta do mundo desde a década de 80.

Trump e seus colegas que negam as mudanças climáticas (e também os que as minimizam) enxergam nessa ameaça à sua visão de mundo uma crise tão existencial que é difícil até aceitar que a possibilidade passe por suas mentes. É compreensível, pois o aquecimento global tem implicações radicalmente progressistas. Se ele for real – e evidentemente que é –, as oligarquias não podem continuar a praticar seus desmandos sem regras. À medida que a realidade do colapso climático mostrar sua face assustadora, cada vez mais pessoas serão capazes de entender suas óbvias implicações políticas e econômicas. Enquanto isso não acontece, precisamos parar de esperar que desastres “acordem” os negacionistas mais arraigados. Eles vivem um sonho muito bom, muito confortável e muito rentável. No entanto, já que o presidente se vale dos desastres simultâneos – os furacões Harvey e Irma, a Coreia do Norte, e qualquer outro inferno que possa explorar – para impor clandestinamente sua cruel agenda econômica, é nosso papel estar bem alertas para a realidade: é uma questão de sobrevivência da humanidade impedir que prevaleçam Trump e a visão de mundo que ele representa.

NE O jesuíta autor do Texto parece arrojado. Mas não é. Tem de se dizer que a raiz do Religioso, de todo o Religioso, é intrinsecamente perversa. Pode não se notar logo, até porque levamos séculos, milénios, a ouvir dizer que o Religioso é o que há de melhor sobre a terra. Não é. Basta constatar que o Religioso religa as pessoas, não entre si, mas cada uma delas a um ente divino, com tudo de mito. A partir daí, nunca mais cuidamos uns dos outros e do Cosmos, a não ser em momentos de catástrofe que nós próprios – todos ou pelo menos alguns de nós – provocamos com os nossos comportamentos religiosos-divinos, não humanos-vasos-comunicantes. Só a via política, não religiosa, de Jesus religa os seres humanos entre si e todos com o Cosmos. Mas nem os chamados membros da Companhia de Jesus a acolhem-praticam. Deixariam de ser jesuítas e seriam seres humanos simplesmente. E que seria da sua empresa multinacional?!

Jaume Flaquer, sj / RD/ IHU / JF

TERRORISMO

Há causas económicas, sociais, psicológicas, mas também religiosas”

Dizer simplesmente que ‘o islão é paz’ ou que ‘não tem nada a ver com o Estado Islâmico ou com a Al-Qaeda’ é como dizer que as cruzadas não têm nada a ver com o cristianismo. Que sejam uma perversão da religião, não significa que não tenham nada a ver”, escreve o jesuíta Jaume Flaquer, em artigo publicado por Religión Digital

Infelizmente, sabíamos que um atentado em Barcelona poderia ocorrer. Sua grande atração turística a tornava um prato desejado demais. Las Ramblas, além disso, é um passeio que há tempo nós, barceloneses, abandonamos.

Antes de mais nada, devemos destacar que nem a religião (que dizem professar), nem a nacionalidade dos terroristas devem contribuir para estigmatizá-las. A Comunidade Islâmica da Espanha, como sempre faz quando há um atentado em nome do Islão, apressou-se a condená-lo. Milhares de muçulmanos que estão entre nós vivem estes acontecimentos com o mesmo sentimento de horror que possuímos.

O uso do nome da própria religião para algo tão terrível deve criar um profundo sentimento de desolação. O Rei da Jordânia, em 2004, iniciou um processo de condenação pública do mundo islâmico contra a barbárie. O grande dirigente islâmico do Egito também quis liderar este processo em diversos congressos e declarações. Marrocos seguiu a mesma saga, ainda que não chegue aos ouvidos ocidentais.

Dito isto, é preciso que entre todos façamos uma análise profunda, mas também honesta de todas as causas que provocam o terrorismo. E temos de sublinhar o “todas”! Não só as diretas, mas também as indiretas. Há metodologias de base mais ou menos marxista (ainda que seja de maneira matizada ou evolucionista) que reduzem as causas a questões sociais, económicas, políticas ou geoestratégicas, etc., sobre as quais se formam as ideologias, também religiosas; e há também metodologias contrárias, mais ou menos antirreligiosas (ou islamofóbicas), que reduzem as causas à própria religião.

O fenómeno terrorista é extremamente complexo, posto que não há nenhuma causa única que o explique por si só. Há terroristas (muitos) de classe média ou média-alta, e gente extremamente rica que o financia. Muitos cursaram estudos universitários (mas isso, sim, quase sempre em carreiras técnicas ou científicas). Não é, pois, um problema de simples falta de formação. Sem dúvida, os problemas sociais, de integração ou de desenvolvimento da própria identidade potencializam o fenómeno porque geram as pessoas vulneráveis que entram nestas correntes ideológicas do terrorismo como quem entra em uma seita.

Mas, não pode se considerar como a única causa, porque os cristãos dos países de maioria islâmica vivem em situação de marginalidade (quando não de perseguição) e não geram movimentos terroristas. Muitos terroristas possuem elementos de patologias psicológicas, mas nem sempre as barbaridades são cometidas por doentes mentais. Não se pode pensar que todos os nazistas fossem doentes mentais...

É necessário abordar todas as causas. Há causas de política internacional: a invasão do Iraque e, antes, a luta contra a URSS no Afeganistão... O grupo “Estado Islâmico” ou Al-Qaeda nasceram aí. Ainda não ouvi nem Aznar e nem Bush pedir perdão por isso! O colonialismo europeu feriu também a consciência e o orgulho árabe (e de muitas outras culturas).

Há causas sociais: as enormes desigualdades económicas, além de ser um escândalo ético são geradoras, muitas vezes, de raiva ou de desesperança. Se esta última pode levar ao suicídio, o terrorista consegue morrer, mas com sentido.

Há causas psicológicas: também vemos isto regularmente em ataques de ira em indivíduos dos Estados Unidos, que realizam carnificinas com a ajuda da facilidade de conseguir uma arma.

Mas, também (sim, também) há causas religiosas, ainda que sejam para perverter a religião. Dizer simplesmente que “o islão é paz” ou que “não tem nada a ver com o Estado Islâmico ou com a Al-Qaeda” é como dizer que as cruzadas não têm nada a ver com o cristianismo. Que sejam uma perversão da religião, não significa que não tenham nada a ver. Muitos clérigos transmitem o ódio e a violência, sendo contrários a ela. Quantos imãs salafistas pregam a proibição de ter amigos cristãos e judeus!

Sem dúvida, é uma perversa interpretação de um versículo corânico, mas esta interpretação se faz a partir do islão propagado pela Arábia Saudita. A partir deste país, são escritos livros sobre jurisprudência islâmica que ditam a morte do homossexual, do apóstata e do adúltero. E estes livros são vendidos na Espanha, traduzidos ao castelhano! A Arábia Saudita e outros países do Golfo condenam o terrorismo, uma vez que eles também estão na mira do Estado Islâmico e da Al-Qaeda. Mas, seu islão os produz sem cessar.

Se se condena ao inferno judeus, cristãos e, é claro, politeístas e ateus, (e este elemento de fé não só é professado pelos salafistas, como também é extremamente comum), é possível dizer que se é completamente alheio a que uns loucos queiram antecipar esse inferno já na terra? Se Deus não consegue encontrar nenhuma pitada de bondade suficiente que mereça sua salvação, por que precisam encontrar nos seres humanos? Façamos todos uma autocrítica sincera para acabar com este mal do século XXI.

Edição 129 Junho2017

Boaventura de Sousa Santos

Minha posição sobre a Venezuela

Ser solidário não significa não poder ser solidariamente crítico

Continuo solidário com a Revolução Bolivariana, mas ser solidário não significa não poder ser solidariamente crítico. A posição contrária nos levou a cometer muitos erros no passado. Como é público, fui solidariamente crítico com a Revolução Cidadã do Equador, mas não tive nenhuma dúvida em manifestar o meu apoio a Lenín Moreno.

Os intelectuais têm um pecado original: traem as causas com muita facilidade. Há duas maneiras de trair: criticar muito cedo quando os processos de transformação ainda estão em sua primeira fase ascendente; não criticar quando os sinais são evidentes de que os processos de transformação não vão bem.

As coisas não vão bem na Venezuela devido a uma intervenção grosseira do imperialismo norte-americano e a muitos erros cometidos pelos líderes políticos em tempos recentes. Ao assinar o documento que pede o fim da violência nas ruas, procuro manifestar o meu apoio ao processo bolivariano. Quero que na Revolução Bolivariana caibam ideias e pessoas como Edgardo Lander, um intelectual e um ativista que esteve em todas as lutas da esquerda nos últimos 20 anos (desde que o conheço). Não aceito que o considerem reacionário por presidir a mesa da coletiva de imprensa contra a violência nas ruas, mesa em que esteve um ex-ministro do presidente Chávez.

Quero uma Revolução Bolivariana onde caibam as aspirações dos povos indígenas e o grito a seu favor do grande intelectual-ativista indígena José Ángel Quintero Weir.

No conjunto de organizações que se uniram pelo fim da violência nas ruas, há muitas pessoas que não considero nossos aliados. Pelo contrário, elas são nossos adversários. Também não concordo com algumas críticas aos atos recentes do governo do presidente Maduro, porque todos conhecem o bloqueio que a Assembleia Legislativa decidiu em relação aos atos do governo legítimo. Mas o importante do documento é a busca de uma convergência mínima: deter a violência nas ruas, de modo a impedir a intervenção militar estadunidense, que está em preparação. Esta intervenção terá consequências profundas para toda a América Latina, a começar por Cuba.

É isso que me move. Posso estar errado, mas considero que esta é a melhor maneira de defender a Revolução Bolivariana.

Raúl Zibechi

Exceto o poder, tudo é ilusão

A obsessão pelo poder, que reúne estas quatro biografias [Batista, Meirelles, Temer e Lula] que na última década se entrecruzaram, é parte indivisível da lógica capitalista. Ainda que em muitos casos, assim como quem forjou a frase do título (Abimael Guzmán, Sendero Luminoso), tiveram um discurso oposto”, escreve o jornalista e analista político uruguaio Raúl Zibechi, em artigo publicado por La Jornada. A tradução é do Cepat.

José Batista Sobrinho começou a trabalhar aos 15 anos. Deixou a escola na quarta série. Quando terminou o serviço militar, dedicou-se a abater bois, vendendo a açougues da cidade de Anápolis, com uns 50.000 habitantes, no estado de Goiás (Brasil). Quando o presidente Juscelino Kubitschek, anos 1950, decidiu construir Brasília, Zé Mineiro (seu apelido) mudou para a futura capital, para instalar um abatedouro onde abatia 25 bois por dia.

Meio século depois, em 2007, JBS (iniciais de José Batista Sobrinho) era um dos maiores frigoríficos do mundo. Tanto que comprou o frigorífico estadunidense Swift por 1,4 bilhão de dólares. Foi possível realizar a gigantesca operação graças ao banco estatal BNDES, que capitalizou a JBS, ao adquirir 14% das ações, para que uma das campeãs nacionais (são palavras de Lula) tivesse acesso ao mercado estadunidense.

Na fusão dos frigoríficos JBS e Bertin, em setembro de 2009, outro passo à frente da empresa, o BNDES investiu 4,7 bilhões de dólares para torná-la possível. O banco estatal chegou a ter uma participação de 22,4% na JBS, em instâncias do governo federal.

Todos os filhos de Zé Mineiro abandonaram seus estudos para dedicar tempo integral ao negócio familiar. Nosso conhecimento não é acadêmico, aprendemos com a vida, disse Wesley à revista Forbes. Junto aos outros dois irmãos, José e Joesley, aquele abatedouro familiar se tornou uma enorme multinacional: está presente em 110 países, tem 200.000 empregados, 150 instalações e fatura mais de 50 bilhões de dólares. Nos Estados Unidos, o maior mercado de carne bovina do mundo, a JBS era responsável, em 2011, por 22% da oferta.

Joesley figura entre as 70 pessoas mais ricas do mundo, segundo a Forbes. Sob os dois governos de Lula (2003-2010), o Grupo J&F, que controla a JBS, cresceu de modo exponencial, multiplicando por mais de dez o seu faturamento. O grupo foi um dos principais beneficiários da política de Lula em selecionar grandes empresas para introduzir dinheiro público e torná-las grandes multinacionais.

Era uma das peças chaves do projeto Brasil Potência do Partido dos Trabalhadores. As outras são mais conhecidas: Odebrecht, Camargo Corrêa, OAS e um punhado mais.

Henrique Meirelles, nomeado presidente do Banco Central por Lula, manteve-se oito anos à frente da instituição. Quando Lula deixou a presidência, Meirelles foi nomeado presidente do conselho de administração da J&F, lugar que ocupou até 2016, com o objetivo de criar estruturas de governança na companhia para prepará-la para a bolsa. Quando Dilma Rousseff foi destituída, no dia 31 de agosto de 2016, Meirelles passou a ocupar o cargo de ministro da Fazenda do governo de Michel Temer.

Joesley Batista decidiu gravar e denunciar Temer como parte de sua estratégia de negócios. Segundo análise do jornal econômico Valor, decidiu rifar o Brasil para mudar seus negócios para os Estados Unidos, onde a empresa já possui 80% de suas operações: 56 fábricas processadoras de carne e metade de seu operativo mundial já estão nesse país.

Para garantir a execução de seu plano, a empresa e seus controladores precisavam chegar a um acordo com o Departamento de Justiça dos Estados Unidos, o poderoso DoJ. Em dezembro, a empresa realizou uma IPO (oferta pública inicial) na Bolsa de Nova York como parte de um amplo processo de reorganização que levará o grupo a deixar de ser brasileiro, afirma o jornal brasileiro Valor.

O artigo finaliza com uma frase que resume a lógica empresarial: Os Batista atuaram rápido, escolhendo o caminho oposto ao da família Odebrecht, que viu seus negócios se afundar, enquanto rejeitava colaborar com as investigações. Falta acrescentar que horas antes da divulgação da gravação, que afundou Temer, os Batista compraram milhões de dólares, prevendo que a moeda sofreria uma forte desvalorização. Ganharam duas vezes.

Até aqui a história contada telegraficamente. Uma história que liga quatro personagens que lutaram, de forma árdua e exitosa, pelo poder.

A família Batista fez o que sabem fazer os empresários capitalistas, as aves de rapina como os definia Fernand Braudel. A JBS cresceu sob a asa do desenvolvimentismo brasileiro e se beneficiou como poucas da política das campeãs nacionais de Lula. Milhares de milhões de dólares do Estado para torná-la no que hoje são: aves de rapina sem limites, capazes de morder a mão (estatal) que lhes deu de comer.

Meirelles é um executivo de carreira do setor financeiro global, trabalhou 28 anos no Banco de Boston, dos quais 12 anos se desempenhou como presidente do banco no Brasil e, depois, ficou três anos como presidente do Banco de Boston mundial. Nos Estados Unidos, era considerado muito próximo ao presidente Bill Clinton. Daí, passou ao governo de Lula, que lhe tinha grande estima.

Temer é o típico político brasileiro, medíocre e ambicioso. Fez carreira no centrista PMDB e foi ascendendo até que Lula e Dilma o escolhesse como candidato à vice-presidência em duas ocasiões, nas eleições de 2010 e nas de 2014. Esperou seu momento para dar o salto e, quando conseguiu, caiu no vazio. Em alguns poucos anos, assim será lembrado.

O quarto é Lula. Tendo em conta a crise em curso, acelera o passo para retornar à presidência. Pode conquistá-la. Se conseguir, governará um país destroçado, não terá a maioria parlamentar que conseguiu tecer em 2003, deverá lidar com uma sociedade dividida e confrontada, e enfrentará um cenário global desfavorável. Qualquer pessoa sensata lhe aconselharia a desistir, já que as possibilidades de êxito são mínimas.

A obsessão pelo poder, que reúne estas quatro biografias que na última década se entrecruzaram, é parte indivisível da lógica capitalista. Ainda que em muitos casos, assim como quem forjou a frase do título (Abimael Guzmán, Sendero Luminoso), tiveram um discurso oposto.

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Edição 128, Maio 2017

Reportagem de Jose Kavi / NCR / IHU / JF

Católicos indianos frustrados por casos de abusos sexuais de religiosos

Casos recentes de abuso sexual envolvendo sacerdotes católicos no sul da Índia deixaram os cristãos angustiados e frustrados com a falta de resposta da igreja local. Mais de 100 teólogos, religiosas, sacerdotes e feministas escreveram aos bispos da Índia exigindo que eles reagissem rapidamente frente ao apelo do papa para acabar com tais transgressões.

"Estamos tentando de todas as formas fazer com que os bispos ajam. Acreditamos que esta é uma boa oportunidade", diz Virginia Saldanha, uma teóloga que fazia parte da equipe que redigiu a carta de 22 de março aos bispos. Astrid Lobo Gajiwala, outra teóloga que coordenou a elaboração da carta, diz que a prisão de um padre católico, em 28 de fevereiro, que supostamente estuprou e engravidou uma jovem adolescente em sua paróquia no estado de Kerala os encorajou a buscar as autoridades da Igreja. A polícia apreendeu o Pe. Robin Vadakkumcherry, 48 anos, da Diocese de Mananthavady, enquanto ele tentava sair do país após os supostos crimes. Robin Vadakkumcherry está na cadeia, aguardando julgamento, segundo a polícia.

O Padre Thomas Therakam, sacerdote da diocese, e cinco freiras foram acusados de supostamente ajudar Vadakkumcherry a encobrir o escândalo. Os seis religiosos, junto com supostos cúmplices leigos, esconderam-se para fugir da prisão, mas depois se renderam às autoridades e foram soltos mediante pagamento de fiança. O caso indignou membros de vários grupos religiosos católicos e jurídicos. Eles escreveram ao Cardeal Baselios Cleemis, presidente da Conferência Episcopal da Índia, dizendo que estavam "profundamente preocupados com a integridade e a missão da Igreja Indiana".

Baselios Cleemis disse ao NCR, em 22 de abril, que ele havia recebido a carta, mas estava viajando pelos Estados Unidos em abril e ficou doente ao retornar. Ele se recusou a comentar o conteúdo da carta, mas disse que planeja apresentá-la ao Comitê Permanente da conferência em seu encontro em Bangalore, no sul da Índia, de 2 a 5 de maio. O cardeal disse que a conferência dos bispos não tem controle direto sobre eles e trata apenas de questões gerais comuns às jurisdições católicas na Índia.

Astrid Gajiwala disse ao NCR que não espera uma resposta individual dos líderes da Igreja, mas sim que eles pelo menos emitam uma declaração expressando preocupação sobre a questão e listem as medidas que tomarão para evitar tais casos. E acrescentou que o Cardeal Oswald Gracias, líder do rito latino da igreja indiana, prometeu que ele também levantaria o assunto na reunião de maio.

A carta descreve seis áreas de preocupação para a igreja, alertadas a partir do caso Vadakkumcherry:

1 Confiança fiduciária desgastada entre sacerdotes e paroquianos que consideram o sacerdote como "outro Cristo";

2 Não cumprimento das leis penais indianas em casos de abuso de menores e proteção aos agressores;

3 Necessidade de uma estrutura diocesana para acompanhar os casos de abuso sexual do clero e incluir mulheres nos comitês de supervisão conduzindo inquéritos;

4 A liberação de uma política da conferência dos bispos para proibir, prevenir e reparar abusos sexuais na Igreja;

5 Maior cuidado na seleção de candidatos ao sacerdócio, melhor formação em seminários e formação clerical continuada a respeito de questões de sexualidade e celibato;

6 Análise da relação entre o clero e as religiosas, e da possibilidade de que irmãs possam encobrir casos de abuso por parte dos sacerdotes.

Entre as 122 pessoas que assinam a carta estão membros do Fórum das Teólogas Indianas, Satyashodhak (discernimento), Streevani (voz das mulheres), o Fórum dos Religiosos pela Justiça e pela Paz e a Conferência de Religiosos da Índia. Mais da metade dos signatários são freiras católicas. Cópias da carta foram enviadas ao núncio apostólico, Dom Giambattista Diquattro; aos líderes de três igrejas rituais na Índia; e a várias autoridades da Conferência Episcopal.

A carta expressou desapontamento com o fato de que "foi preciso uma agência externa alertar quanto aos crimes que haviam ocorrido". Uma agência de assistência infantil notificou a polícia após ter recebido uma pista sobre o caso depois que a menina de 16 anos deu à luz a seu filho em um hospital da igreja no dia 7 de fevereiro. 7. Seu bebê foi levado sem sua permissão para um orfanato de freiras no distrito de Kannur, disse a polícia.

Vadakkumcherry era o pároco da Igreja de São Sebastião em Kottiyoor e diretor da escola onde a menina fazia o Ensino Médio. O sacerdote teria oferecido à família da menina um milhão de rúpias (US$ 15.600) para coagir seu pai a afirmar que ele tinha engravidado a menina.

A igreja hesita em expor seus sacerdotes criminosos porque teme que seus inimigos explorem a situação, diz a carta, acusando que a administração clandestina de casos de abuso sexual causa mais danos porque "a demora na ação corretiva piora a ferida".

Há um ano a demanda por diretrizes da conferência dos bispos para lidar com casos de abuso foi levantada por 75 membros do Fórum de Religiosos pela Justiça e Paz, um grupo progressista. Sua solicitação a todos os bispos e superiores para monitorar sacerdotes que abusavam de religiosas católicas ficou sem resposta.

Saldanha diz que ela está envolvida no assunto desde que a primeira queixa de abuso clerical chegou até ela, em 2010. "Desde então, formamos um grupo para que a Igreja lidasse com essa questão em casa, mas de uma maneira justa, fazendo justiça às vítimas".

O grupo elaborou diretrizes sobre como os sacerdotes deveriam lidar com as mulheres, redigiu políticas baseadas em leis governamentais e, em 2013, apresentou os documentos à conferência episcopal através da Comissão Episcopal para as Mulheres.

"Nos prometeram que fariam alguma coisa", disse Saldanha. "Mas ainda estamos esperando que esses documentos venham a público."

Autoridades da conferência disseram que haviam passado orientações para a abordagem de casos de abuso clerical na reunião bianual em setembro passado e que elas viriam a público depois de alguns aperfeiçoamentos, o que ainda não aconteceu.

O silêncio dos bispos irritou alguns católicos. "Nós não precisamos de nenhuma orientação frouxa dos bispos para atos tão hediondos. Como cidadãos, é nosso dever relatar crimes e não ajudar ou instigá-lo", disse o ex-presidente da All India Catholic Union, conhecido como Chhotebhai, que significa "irmão mais novo".

Ele diz que a Igreja tende a se esconder no medo em casos de abuso, na esperança de que a controvérsia seja resolvida de alguma forma. "A Igreja deve ser humilde o suficiente para admitir seus erros ou transgressões", disse o líder leigo. "Caso contrário, a ferida de hoje ficará pior amanhã e exigirá amputação".

Astrid Gajiwala quer que a política final dos bispos se concentre na justiça para a vítima, em vez de salvaguardar a reputação da Igreja ou do sacerdote.

Saldanha, que era secretária da Comissão Episcopal para as Mulheres e líder da Federação das Conferências Episcopais da Ásia, disse que os bispos temem um "tsunami de queixas" se as diretrizes se tornarem públicas.

A Igreja indiana enfrentou uma série de casos de abuso de religiosos no ano passado.

Em 21 de março, a polícia prendeu o Pe. Thomas Parackal, reitor de um seminário na Diocese de Punalur, em Kerala, acusado de abusar de três seminaristas menores de idade. Em 9 de dezembro de 2016, um tribunal em Ernakulam, Kerala, sentenciou um sacerdote com duas penas perpétuas pelo estupro de uma menor.

Para completar a vergonha da Igreja, o Outlook, um jornal inglês sediado em Nova Delhi, publicou uma matéria de capa intitulada "Priestly Predators" (Padres Predadores). O artigo de 30 de janeiro cita vários casos de abuso clerical ao longo dos anos e observa que Francisco "expiou os pecados de seu clero. Mas a Igreja indiana não mostrou sinais de remorso pelos crimes sexuais dos pastores."

Os casos de abuso sexual agitaram os católicos comuns, principalmente em Kerala. E. M. Baby, um paroquiano de Kottiyoor, diz que a sentença do padre foi chocante. Ele diz que Vadakkumcherry agia como um rígido disciplinador moral na paróquia. A prisão do sacerdote ocorreu quando os cristãos orientais, católicos e ortodoxos, começaram o período de oração e jejum da Quaresma.

"Muito poucas pessoas, especialmente mulheres, fizeram a confissão anual durante a Semana Santa deste ano. As pessoas perderam a fé em recorrer a um padre", acrescentou.

N. K. Thomas, professor universitário e católico na diocese de Palai, diz que os padres e seus desvios tornaram-se o assunto da paróquia. "O problema que a Igreja enfrenta hoje não é a falta de sacerdotes, mas a presença de sacerdotes indesejados", disse ele.

Os jovens procuram os seminários buscando a vida confortável dos padres, acrescentou. "Nossos sacerdotes perderam a mentalidade de serviço conforme foram entrando em um estilo de vida mundano".

O Padre Babu Kalathil, da Arquidiocese de Ernakulam-Angamaly, onde atua o cardeal George Alencherry, chefe da Igreja Syro-Malabar, diz que o povo de Kerala, onde o cristianismo foi introduzido há 2.000 anos, tinha uma grande consideração por padres e freiras. "Essa imagem decaiu muito", disse Kalathil ao NCR.

O teólogo jesuíta Pe. T. K. John, que assinou a carta aos bispos, diz que os escândalos já mancharam o rosto da Igreja indiana, diminuíram sua credibilidade moral e espiritual e reduziram seu poder e chance de testemunho. Os casos provocaram em todos um sentimento conjunto de culpa, diz o padre, que leciona em seminários há mais de quatro décadas.

João e Chhotebhai querem que a Igreja preste mais atenção à formação sacerdotal. O sacerdote jesuíta quer que os candidatos ao sacerdócio aprendam as exigências da vida celibatária em um ambiente livre e recebam orientação de pessoas competentes para tomar decisões livres.

"Confrontar o prejuízo do sigilo inoportuno e da atitude do 'não vamos tocar neste assunto' ", disse John ao NCR. "A maturidade exige o reconhecimento de todas as formas de desejo como normais, como fome, sede, etc, para lidar com elas abertamente."

Chhotebhai adverte que a Igreja não deve recrutar adolescentes imaturos para o sacerdócio. Ele também acredita que o comportamento subserviente dos leigos é nocivo. "Como um cão completamente domesticado, eles são tão leais a seus mestres que não conseguem ver nada de errado neles e, se houver algo errado, escolhem fechar os olhos", diz ele.

Kochurani Abraham, teóloga líder em Kerala, diz que o caso Vadakkumcherry criou um "medo palpável" entre as pessoas, porque já não se pode confiar na Igreja como um lugar seguro e sagrado. Ela ficou decepcionada com as tentativas de alguns de seus porta-vozes de descartar as controvérsias como sendo sensacionalismo da mídia para manchar sua imagem.

Abraão espera que a Igreja aprenda com os escândalos, exortando-a a direcionar suas "pretensões de ser uma instituição 'celestial' e unir-se à humanidade sofredora, como Jesus fez através de sua vida, sua paixão e sua morte".

Edição 127 Abril 2017

Boaventura Sousa Santos/IHU/JF

Para que o futuro seja de novo possível

E se o divórcio entre Democracia e Revolução estiver na origem dos tempos sombrios que vivemos? E se Democracia e Revolução puderem amigar-se de novo?

Quando olhamos para o passado com os olhos do presente, deparamo-nos com cemitérios imensos de futuros abandonados, lutas que abriram novas possibilidades mas foram neutralizadas, silenciadas ou desvirtuadas, futuros assassinados ao nascer ou mesmo antes, contingências que decidiram a opção vencedora depois atribuída ao sentido da história. Nesses cemitérios, os futuros abandonados são também corpos sepultados, muitas vezes corpos que apostaram em futuros errados ou inúteis.

Veneramo-los ou execramo-los consoante o futuro que eles e elas quiseram coincide ou não com o que queremos para nós. Por isso choramos os mortos, mas nunca os mesmos mortos. Para que não se pense que os exemplos recentes se reduzem aos homens-bombas – mártires para uns, terroristas para outros – em 2014 houve duas celebrações do assassinato do Arquiduque de Francisco Fernando e sua esposa em Sarajevo, e que conduziu à I Guerra Mundial. Num bairro da cidade, bósnios croatas e muçulmanos celebraram o monarca e sua esposa, enquanto noutro bairro, bósnios sérvios celebraram Gravilo Princip que os assassinou, e até lhe fizeram uma estátua.

No início do século XXI, a ideia de futuros abandonados parece obsoleta, aliás tanto quanto a própria ideia de futuro. O futuro parece ter estacionado no presente e estar disposto a ficar aqui por tempo indeterminado. A novidade, a surpresa, a indeterminação sucedem-se tão banalmente que tudo o que de bom como de mau estava eventualmente reservado para o futuro está a ocorrer hoje. O futuro antecipou-se a si próprio e caiu no presente. A vertigem do tempo que passa é igual à vertigem do tempo que pára. A banalização da inovação vai de par com a banalização da glória e do horror. Muitas pessoas vivem isto com indiferença. Há muito desistiram de fazer acontecer o mundo e por isso estão resignados a que o mundo lhes aconteça. São os cínicos, profissionais do ceticismo. Há, porém, dois grupos muito diferentes em tamanho e sorte para quem esta desistência não é opção.

O primeiro grupo é constituído pela esmagadora maioria da população mundial. Exponencial desigualdade social, proliferação de fascismos sociais, fome, precariedade, desertificação, expulsão de terras ancestrais cobiçadas por empresas multinacionais, guerras irregulares especializadas em matar populações civis inocentes – tudo isto faz com que uma parte cada vez maior da população do mundo tenha deixado de pensar no futuro para se concentrar em amanhã. Estão vivos hoje, mas não sabem se estarão vivos amanhã; têm comida para dar aos filhos hoje, mas não sabem se têm amanhã; estão empregados hoje, mas não sabem se estarão amanhã. O amanhã imediato é o espelho do futuro em que o futuro não se gosta de ver, pois reflete um futuro medíocre, rasteiro, comezinho. Estas imensas populações pedem tão pouco ao futuro que não estão à altura dele.

O segundo grupo é tão minoritário quanto poderoso. Imagina-se a fazer acontecer o mundo, a definir e controlar o futuro por tempo indeterminado e de maneira exclusiva para que não haja qualquer futuro alternativo. Esse grupo é constituído por dois fundamentalismos. São fundamentalistas porque assentam em verdades absolutas, não admitem dissidência e acreditam que os fins justificam os meios. Os dois fundamentalismos são o neoliberalismo, controlado pelos mercados financeiros, e o Daesh, os jhiadistas radicais que se dizem islâmicos. Sendo muito diferentes e até antagónôcos, partilham importantes características. Assentam ambos em verdades absolutas que não toleram a dissidência política – num caso, a fé científica na prioridade dos interesses dos investidores e na legitimidade da acumulação infinita de riqueza que ela permite; no outro, a fé religiosa na doutrina do califa que promete a libertação da dominação e humilhação ocidentais. Ambos visam garantir o controle do acesso aos recursos naturais mais valorizados. Ambos causam imenso sofrimento injusto com a justificação de que os fins legitimam os meios. Ambos recorrem com parificável sofisticação às novas tecnologias digitais de informação e comunicação para difundir o seu proselitismo. O radicalismo de ambos é do mesmo quilate e o futuro que proclamam é igualmente distópico – um futuro indigno da humanidade.

Será possível um futuro digno entre os dois futuros indignos que acabei de referir: o minimalismo do amanhã e o maximalismo do fundamentalismo? Penso que sim, mas a história dos últimos cem anos obriga-nos a múltiplas cautelas. A situação de que partimos não é brilhante. Começamos o século XX com dois grandes modelos de transformação progressista da sociedade, a revolução e o reformismo, e começamos o século XXI sem nenhum deles. Cabe aqui recordar, de novo, a Revolução Russa, já que foi ela que radicalizou a opção entre os dois modelos e lhe deu consistência política prática. Com a Revolução de Outubro, tornou-se claro para os trabalhadores e camponeses (diríamos hoje, classes populares) que havia duas vias para alcançar um futuro melhor, que se antevia como pós-capitalista, socialista. Ou a revolução, que implicava ruptura institucional (não necessariamente violenta) com os mecanismos da democracia representativa, quebra de procedimentos legais e constitucionais, mudanças bruscas no regime de propriedade e no controle da terra; ou o reformismo, que implicava o respeito pelas instituições democráticas e o avanço gradual nas reivindicações dos trabalhadores à medida que os processos eleitorais lhes fossem sendo mais favoráveis. O objetivo era o mesmo – o socialismo.

Não vou hoje tratar das vicissitudes por que esta opção passou ao longo dos últimos cem anos. Apenas mencionar que depois do fracasso da revolução alemã (1918-1921) foi-se construindo a ideia de que na Europa e nos EUA (o primeiro mundo) o reformismo seria a via preferida, enquanto o terceiro mundo (o mundo socialista soviético foi-se constituindo com o segundo mundo) iria seguir a via revolucionária, como aconteceu na China em 1949, ou alguma combinação entre as duas vias. Entretanto, com a subida de Stalin ao poder, a Revolução Russa transformou-se numa ditadura sanguinária que sacrificou os seus melhores filhos em nome de uma verdade absoluta que se impunha com a máxima violência. Ou seja, a opção revolucionária transformou-se num fundamentalismo radical que precedeu os que mencionei acima. Por sua vez, o terceiro mundo, à medida que se ia libertando do colonialismo, começava a verificar que o reformismo nunca conduziria ao socialismo, mas antes, quando muito, a um capitalismo de rosto humano, como aquele que ia emergindo na Europa depois da II Guerra Mundial. O movimento dos Não-Alinhados (1955-1961) proclamava a sua intenção de recusar tanto o socialismo soviético como o capitalismo ocidental.

Por razões que analisei na minha última coluna, com a queda do muro de Berlim os dois modelos de transformação social ruíram. A revolução transformou-se num fundamentalismo desacreditado e caduco que ruiu sobre os seus próprios fundamentos. Por sua vez, o reformismo democrático foi perdendo o impulso reformista e, com isso, a densidade democrática. O reformismo passou a significar a luta desesperada para não perder os direitos das classes populares (educação e saúde públicas, segurança social, infraestruturas e bens públicos, como a água) conquistados no período anterior. O reformismo foi assim definhando até se transformar num ente esquálido e desfigurado que o fundamentalismo neoliberal reconfigurou por via de um facelift, convertendo-o no único modelo de democracia de exportação, a democracia liberal transformada num instrumento do imperialismo, com direito a intervir em países “inimigos” ou “incivilizados” e a destruí-los em nome de tão cobiçado troféu. Um troféu que, quando entregue, revela a sua verdadeira identidade: uma ruína iluminada a néon, levada na carga dos bombardeiros militares e financeiros (“ajustes estruturais”), estes últimos conduzidos pelos CEOs do Banco Mundial e pelo Fundo Monetário Internacional.

No estado atual desta jornada, a revolução converteu-se num fundamentalismo semelhante ao maximalismo dos fundamentalismos acuais, enquanto o reformismo se degradou até ser o minimalismo da forma de governo cuja precariedade não lhe permite ver o futuro para além do imediato amanhã. Terão estes dois fracassos históricos causado direta ou indiretamente a opção prisional em que vivemos, entre fundamentalismos distópicos e amanhãs sem depois de amanhã? Mais importante que responder a esta questão, é crucial sabermos como sair daqui, a condição para que o futuro seja outra vez possível. Avanço uma hipótese: se historicamente a revolução e a democracia se opuseram e ambas colapsaram, talvez a solução resida em reinventá-las de modo a que convivam articuladamente. Por outras palavras, democratizar a revolução e revolucionar a democracia. Será o tema de próxima coluna.

Depoimento de um padre e teólogo gay

Deus tem o costume de escolher o inadequado para dar brilho a suas obras”

Aquilo que antigamente se considerava ou bem um vício ou uma patologia já foi comprovado, mais de uma vez, que é uma variante minoritária e não patológica dentro da condição humana, e algo que ocorre regularmente. Tornou-se evidente na medida em que os estudiosos foram descobrindo que não existe patologia alguma intrínseca ao facto de se ter uma orientação sexual gay. Ou seja, todos, pessoas heterossexuais e pessoas gays, temos tendência a todos os tipos de problemas psicológicos, mas nossa respectiva orientação sexual não é, em si, um deles”, escreve o teólogo e presbítero (padre) James Alison, ao testemunhar sua homossexualidade e mudança de percepção em relação ao tema”. In Religión Digital. Tradução do Cepat

Meus pais ajudaram a organizar uma marcha em Londres, a favor da família, em 1971. Foi parecida com aquelas que ocorreram no México e na Colômbia, no ano passado. Eram manifestações massivas de repúdio ao movimento em favor da regularização da vida das pessoas LGBT, seja pela descriminalização da homossexualidade, seja, mais recentemente, pela chegada do casamento civil igualitário.

Agora, coube-me ir em sentido contrário ao de meus pais: falar pessoalmente, como teólogo e padre católico, que nesse caso também é um homem gay sem armário, ou fora do “closet”, a respeito das marchas e seus efeitos. Tocou-me dar este testemunho diante de vários públicos, católicos e ecumênicos, na Colômbia, no ano passado, e no México, nesta quaresma.

Por que levantar a voz? Em primeiro lugar, porque nem meu pai, um deputado evangélico da linha do Partido Conservador, nem minha mãe, que participou na organização da marcha britânica, sabiam que o menino que tinham em casa era gay. Eu, sim, acabava de aprender no colégio, aos nove anos, que era um queer – joto ou puto. Mas, caso eles tivessem sabido, é de se duvidar que teriam mudado de parecer.

Durante muitos anos, e no caso de meu pai até pouco antes de sua morte, seguiam pensando que ser gay era uma escolha livre que é feita por pessoas perversas e contrárias à fé cristã. Meu pai chegou a suspeitar que eu havia me tornado gay como acto pessoal de hostilidade ou vingança para com ele. De qualquer forma, o modelo que as pessoas de convicções evangélicas fortes seguiam, naquela época, era o de Abraão. Este manifestou sua obediência a Deus ao se mostrar disposto a sacrificar seu filho Isaac. Como não o imitar, então, com toda a dor de alma provocada, ao sacrificar psicologicamente o filho gay?

Certamente, não fui a única criança da época que cresceu sob esta sombra. Ainda que muitíssimos de meus contemporâneos não estejam aqui para dar seu próprio testemunho, pois a colheita da AIDS entre os que chegaram à maturidade sexual, entre 1980 e 1985, foi devastadora. Contudo, não resta dúvida que entre as famílias que organizaram as recentes marchas, deve haver mais de um cordeirinho rosa que corre o risco de chegar com terror à adolescência e à maturidade como ovelha ou carneiro rosa. Irá descobrindo que a tão elogiada vida familiar de seu lar se verá submetida a forças estressantes imensamente destruidoras para todos os seus membros.

No entanto, não serão causadas por ele ou ela, mas, sim, pela falta de veracidade de gente religiosa que pouco motivo tem, pois já sabemos muito mais do que se sabia há meio século. Por esta razão, parece-me inexorável falar destas realidades pessoalmente, como uma tentativa, sem dúvida inadequada, de dar testemunho do processo das últimas décadas que permitiu que pessoas LGBT, católicas e evangélicas, entre outras, começassem a viver de maneira harmoniosa a fé, como também a realidade da orientação sexual ou a verdade sobre o género.

Alguns dirão que falar de gay, em primeira pessoa, torna-me indigno de ser um sacerdote. Minha resposta: Deus tem o costume de escolher o inadequado para dar brilho a suas obras. Mesmo assim, a respeito de minha indignidade para o sacerdócio, estamos de acordo. No entanto, duvido que seja muito maior que a de muitíssimos irmãos sacerdotes. Afinal de contas, não é exatamente um segredo que a proporção de homens gays no sacerdócio supera em muito aquela da população em geral.

A questão é se sim ou se não se resgata um pouquinho a indignidade, ao se arriscar vivê-la com algo de transparência. E minha experiência é que ao ter que escolher entre a indignidade transparente e a indignidade encoberta, o povo fiel prefere a primeira em seu padre. Afinal de contas, a vulnerabilidade é sempre mais atrativa que uma rigidez mantida pelo medo. Muitos clérigos se referem a “eles” ao falar de pessoas gays, quando, visto quem fala, a palavra “nós” seria mais adequada. E isto já está deixando de ser mentirinha branca para se tornar algo bem mais grave. Sobretudo, quando o tom acusador é acusador, como tantas vezes ocorre!

Então, o que ocorreu nas últimas décadas para que percebamos que, na verdade, a defesa da família passa, ao contrário, pela aceitação serena de seus membros LGBT e a convivência com eles, e não por sua rejeição, com a conseguinte destruição da família?

Aqui, primeiro quero falar com a linguagem católica e, em seguida, com a linguagem evangélica. Conheço bem as duas, pois me converti da religião evangélica de meus pais para o catolicismo, aos 18 anos. Em parte, por ter me apaixonado por um companheiro católico do colégio e, em parte, por ter apreciado que a compreensão católica da natureza humana, mas aberta ao aprendizado sobre o que verdadeiramente existe, desembocará no reconhecimento de que o amor é o amor, independente da orientação sexual. Mas, deixando minha história pessoal de lado, a verdade é que nos dois campos, a esta altura do campeonato, existem recursos mais que suficientes para que qualquer pessoa de boa vontade possa reconhecer aquilo que é verdadeiro, sem colocar em risco a integridade de sua fé.

A primeira coisa que me coube viver é a mudança de percepção das ciências humanas em relação ao gay. Aquilo que antigamente se considerava ou bem um vício ou uma patologia já foi comprovado, mais de uma vez, que é uma variante minoritária e não patológica dentro da condição humana, e algo que ocorre regularmente. Tornou-se evidente na medida em que os estudiosos foram descobrindo que não existe patologia alguma intrínseca ao fato de se ter uma orientação sexual gay. Ou seja, todos, pessoas heterossexuais e pessoas gays, temos tendência a todos os tipos de problemas psicológicos, mas nossa respectiva orientação sexual não é, em si, um deles.

Isto já se havia demonstrado nos anos 1950 do século passado, e pouco a pouco foi se comprovando em nível mundial até chegar a ser ciência pacificamente aceita. A esta altura do campeonato, só não a aceitam os teóricos da conspiração que dizem que a ciência foi adulterada por um poderoso “lobby gay” internacional, e alguns entre o alto clero, para quem a versão pré-científica é conveniente.

Antigamente se comparava o ser gay com uma patologia: por exemplo, a anorexia, que é, objetivamente falando, uma desordem muito séria. Agora, de forma mais justa, pode ser comparado com a surdez, que ninguém duvida que seja uma variante minoritária e não patológica.

Isto significa, sobretudo na Igreja Católica, onde a chamada “lei natural” nos ensina a discernir como atuar a partir do que realmente somos, que o fato desta ou outra orientação sexual é de mínima importância moral. É o uso da vivência relacional e erótica da pessoa segundo sua orientação sexual que seria bom ou ruim, de acordo com o caso. Até um dos bispos que esteve presente no Sínodo da Família, em 2015, reconheceu isto ao constatar que “o reconhecimento da existência da orientação estável muda tudo”.

Tudo isto se torna mais patente ainda, se levamos em conta os avanços dos últimos vinte anos, onde ficou claro que a configuração biológica, com componentes genéticos, hormonais e outros, que se manifestará em uma pessoa adulta gay ou lésbica já está presente antes de nascer. Ou seja, o fato de adultos buscarem exercer uma pressão para a heterossexualidade sobre uma criança que será gay, só resultará ineficaz. Assim também como toda “cura” que se possa tentar. E toda tentativa neste sentido tenderá a prejudicar a criança.

Por outro lado, tampouco é possível “recrutar” um jovem ou uma jovem heterossexual para a outra equipe: até mesmo os que durante a adolescência foram mais curiosos, os que passam meses ou anos encerrados ao mesmo sexo, na prisão ou na marinha, por exemplo, tipicamente acabam por ser o que sempre foram, uma vez aberta a possibilidade de uma vivência segundo sua natureza.

Sem sequer que tenham muitos dos elementos científicos à sua disposição, os povos de maioria católica parecem ter se dado conta do real sem muito problema: se alguém é assim, então o importante é que seja assim da melhor maneira possível. E como se ama a família, então é evidente que o parceiro de “meu tio Roberto” não é um tal Eduardo, mas “meu tio Eduardo”. Ou seja, distinguir entre algo violento, abusivo e pecaminoso, e algo terno, amoroso e enriquecedor da vida da família não é tão difícil. E os Bispos que trovejam, só perdem credibilidade.

Igualmente, no mundo evangélico, para os que desejam, sobram recursos para mostrar a inexistência de qualquer passagem na Bíblia, tanto na hebraica como na cristã, que denuncie aquilo que somente a partir de 1868 passamos a chamar de “homossexualidade”.

Qualquer tradução da Bíblia que utilize esta palavra para atualizar as realidades muito antigas ali descritas é filha de uma moda interpretativa moderna, politizada e pouco caritativa. Por exemplo, é perfeitamente evidente que o pecado de Sodoma foi de soberba, envaidecimento e inospitalidade: assim o descreve o profeta Ezequiel.

Edição 125, Fevereiro 2017

A incrível história de como os cavaleiros templários 'inventaram' os bancos

Na Fleet Street, uma das mais movimentadas do centro de Londres, a dez minutos à pé da Trafalgar Square, existe um arco de pedra pelo qual muita gente pode passar e viajar no tempo. Um pátio tranquilo leva a uma capela estranha, circular, e a uma estátua de dois cavaleiros em cima de um único cavalo. A capela é a Temple Church, construída pela Ordem Dos Templários em 1185, quando ficou conhecida como a "casa londrina dos cavaleiros do Templário". A reportagem é de Tim Harford, publicada por BBC Brasil.

Mas a Temple Church não tem apenas uma importância arquitetônica, histórica e religiosa. Ela também foi o primeiro banco de Londres. Os cavaleiros templários eram monges guerreiros. Era uma ordem religiosa, com uma hierarquia inspirada na teologia e uma missão declarada - além de um código de ética -, mas também um exército armado e dedicado à "guerra santa". Mas então como eles chegaram ao negócio dos bancos?

Os templários dedicaram-se inteiramente à defesa de peregrinos cristãos a caminho de Jerusalém. A cidade havia sido capturada na primeira Cruzada em 1099, e ondas de peregrinos começaram a chegar, viajando milhares de quilômetros pela Europa.

Esses peregrinos precisavam, de alguma forma, bancar meses de comida, transporte e acomodação para todos eles, sem precisarem carregar grandes somas de dinheiro consigo - já que isso os tornaria alvo fácil para ladrões.

Afortunadamente, os Templários tinham uma solução. Um peregrino poderia deixar seu dinheiro na Temple Church em Londres, depois pegá-lo de volta em Jerusalém. Em vez de carregar o dinheiro até lá, ele só precisaria levar uma carta com o crédito. Os Cavaleiros do Templário eram a Western Union (conhecida empresa que faz transferência de dinheiro entre países) das Cruzadas. Nós não sabemos direito como os Templários faziam esse sistema funcionar, nem como se protegiam contra fraudes. Havia um código secreto para verificar o documento e a identidade do viajante?

Banco privado

Os Templários não foram a primeira organização no mundo a oferecer esse tipo de serviço. Diversos outros países haviam feito isso antes, como a dinastia Tang na China, que usava o "feiquan" - "dinheiro voador", um documento de duas vias que permitia a comerciantes depositarem seus lucros em um escritório regional e depois pegarem o dinheiro de novo na capital. Mas esse sistema era operado pelo governo. O sistema bancário oferecido pelos Templários funcionava muito mais como um banco privado - embora pertencesse ao papa - aliado a reis e príncipes ao redor da Europa e gerenciado por uma parceria de monges que tinham feito voto de pobreza. E os Cavaleiros do Templário fizeram muito mais do que apenas transferir dinheiro por longas distâncias. nforme Em seu livro Money Changes Everything ("Dinheiro muda tudo", em tradução livre), William Goetzmann diz que eles ofereciam uma série de serviços financeiros reconhecidamente avançados para a época.

Se você quisesse comprar uma ilha na costa oeste da França - como o rei Henrique 3º da Inglaterra fez nos anos 1200 com a ilha de Oleron, a noroeste de Bordeaux -, os Templários poderiam ajudar a fechar o negócio. Henrique 3º pagou 200 libras por ano por cinco anos para os Templários em Londres, e quando seus homens tomaram posse da ilha, os Templários zelaram para que o vendedor tivesse recebido todo o dinheiro. Ainda nos anos 1200, as Jóias da Coroa foram mantidas no Templo como uma forma de segurança para um empréstimo - com os Templários atuando como uma espécie de casa de penhor.

Os Cavaleiros do Templário não foram o banco da Europa para sempre, claro. A Ordem perdeu sua razão de existir depois que os cristãos europeus perderam completamente o controle de Jerusalém em 1244, e os Templários foram dissolvidos por completo em 1312.

Então quem assumiu essa função bancária que eles deixaram? Se você tivesse presenciado a grande feira de Lyon em 1555, poderia conhecer a resposta. Ela foi o maior mercado para comércio internacional de toda a Europa.

Troca sofisticada

Mas nessa edição da feira, começaram a circular rumores sobre a presença de um comerciante italiano que estava fazendo fortuna no local.

Ele não estava comprando, nem vendendo nada. Tudo o que ele tinha à frente era uma mesa e um tinteiro. Dia após dia, ele recebia comerciantes e assinava pedaços de papel - e, de certa forma, ficava rico. Os moradores locais olhavam para ele com suspeita. Mas para uma nova elite internacional das grandes casas de mercadoria da Europa, suas atividades eram perfeitamente legítimas. Ele estava comprando e vendendo dívidas - e, ao fazer isso, estava gerando um considerável valor econômico.

Um comerciante de Lyon que quisesse comprar, digamos, lã de Florença, poderia ir a esse banqueiro e pedir um tipo de empréstimo chamado de "conta de troca". Era um documento de crédito, que não especificava a moeda de transação.

Seu valor era expressado em "ecu de marc", uma moeda privada usada para essa rede internacional de banqueiros. E se os comerciantes de Lyon ou seus agentes viajassem a Florença, a "conta de troca" do banqueiro de Lyon seria aceita pelos banqueiros de Florença, que trocariam sem problemas o documento pela moeda local.

Por essa rede de banqueiros, um comerciante local podia não só trocar moedas, mas também "traduzir" seu valor de compra em Lyon para valor de compra em Florença, uma cidade onde ninguém havia ouvido falar sobre ele. Era um serviço valioso, que valia a pena. De meses em meses, agentes dessa rede de banqueiros se encontravam em grandes feiras como a de Lyon, conferiam suas anotações e acertavam as contas entre si.

Nosso sistema financeiro de hoje tem muito a ver com esse modelo. Um australiano com um cartão de crédito pode fazer compras em um supermercado de Lyon. O supermercado checa com um banco francês, que fala com um banco australiano, que aprova o pagamento ao comprovar que ele tem o dinheiro em conta.

Contrapontos

Mas essa rede de serviços bancários sempre teve também seu lado obscuro.. Transformando obrigações pessoais em dívidas negociáveis internacionalmente, esses banqueiros medievais passaram a criar seu próprio dinheiro privado, fora do controle dos reis da Europa. Ricos e poderosos, eles não precisavam mais se submeter às moedas soberanas de seus países. O que de certa forma ainda é feito hoje em dia. Os bancos internacionais estão fechados em uma rede de obrigações mútuas difícil de entender ou controlar. Eles podem usar seu alcance internacional para tentar contornar impostos e regulamentações. E considerando que as dívidas entre eles são um tipo claro de dinheiro privado, quando bancos estão fragilizados ou com problemas, o sistema monetário do mundo todo também fica vulnerável.

Nós ainda estamos tentando entender o que fazer com esses bancos. Nós não podemos viver sem eles, ao que parece, mas também não temos certeza de que queremos viver com eles. Governantes há muito tempo procuram formas de controlá-los.

Às vezes, essa abordagem tem sido no esquema "laissez-faire" ("deixai fazer"), outras vezes não. Poucos governantes tem sido mais duros com os bancos do que o rei Felipe 4º, da França. Ele devia dinheiro para os Templários, e eles se recusaram a perdoar seu débito. Então, em 1307, no local onde hoje fica a estação Temple do metrô de Paris, Felipe lançou um ataque ao Templo de Paris - o primeiro de uma série de ataques ao redor da Europa.

Os templários foram torturados e forçados a confessar todos os pecados que a Inquisição pudesse imaginar. A ordem acabou sendo dissolvida pelo papa. O Templo de Londres foi alugado para advogados. E o último grande mestre dos Templários, Jacques de Molay, foi trazido ao centro de Paris e queimado publicamente até a morte.

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Edição 124, Janeiro 2017

Massacre de Manaus

Combonianos repudiam hipocrisia do Estado

"Somos missionários que fazem, no dia a dia, a escolha dessas periferias. Alguns de nós trabalham diretamente ao lado dos encarcerados, de suas famílias e das famílias das suas vítimas. Outros nos bairros à margem das grandes cidades, também em Manaus, tentam conjugar o Evangelho com a defesa dos direitos humanos e propostas de esperança para pessoas que a sociedade já está encaminhando para o descarte. Promover a justiça, socorrer a vítima, recuperar o preso é proteger a sociedade. Defender privilégios, alimentar a sede de vingança e segregar os condenados em contextos alienantes e desumanos é envenenar nosso próprio futuro", escrevem os Missionários Combonianos. Eis o texto integral

O ano de 2017 se abre à sombra de um novo massacre. Os acontecimentos no Complexo Penitenciário Anísio Jobim, em Manaus, são mais uma bomba que estoura por acumulo de desumanidade. Estamos cultivando sementes envenenadas de violência.

“Quando a sociedade – local, nacional ou mundial – abandona na periferia uma parte de si mesma, não há programas políticos, nem forças da ordem ou serviços secretos que possam garantir indefinidamente a tranquilidade. Isto não acontece apenas porque a desigualdade social provoca a reação violenta de quantos são excluídos do sistema, mas porque o sistema social e econômico é injusto na sua raiz. Assim como o bem tende a difundir-se, assim também o mal consentido, que é a injustiça, tende a expandir a sua força nociva e a minar, silenciosamente, as bases de qualquer sistema político e social, por mais sólido que pareça. Se cada ação tem consequências, um mal embrenhado nas estruturas duma sociedade sempre contém um potencial de dissolução e de morte” (Papa Francisco, Evangelii Gaudium, 59).

Somos missionários que fazem, no dia a dia, a escolha dessas periferias. Alguns de nós trabalham diretamente ao lado dos encarcerados, de suas famílias e das famílias das suas vítimas. Outros nos bairros à margem das grandes cidades, também em Manaus, tentam conjugar o Evangelho com a defesa dos direitos humanos e propostas de esperança para pessoas que a sociedade já está encaminhando para o descarte. Promover a justiça, socorrer a vítima, recuperar o preso é proteger a sociedade. Defender privilégios, alimentar a sede de vingança e segregar os condenados em contextos alienantes e desumanos é envenenar nosso próprio futuro.

Condenamos a barbárie das facções que encomendaram mais essa chacina. O primeiro apelo à não violência é para cada pessoa sem liberdade: mesmo se amontoada nessas “fábricas de tortura que criam monstros” (Pe. Valdir Silveira), cada pessoa tem ainda o dever de optar pela vida, gritar com dignidade e sem violência por justiça e respeito, preparar na conversão seu futuro.

Repudiamos a hipocrisia do Estado que descarrega suas responsabilidades sobre a guerra entre clãs rivais. O Brasil já foi denunciado à Corte Interamericana de Direitos Humanos da Organização dos Estados Americanos (OEA) por superlotação e denúncias de maus-tratos nas cadeias.

Há meses estava se vislumbrando a ascensão dessa onda de violência no norte do País[1], mas o poder público foi totalmente omisso a respeito. Temos a 4ª população carcerária do mundo e, se continuarmos nesses ritmos, em pouco mais de 50 anos um em cada 10 brasileiros estará atrás das grades. O encarceramento em massa não pode ser a solução contra a violência de nossa sociedade!

Apoiamos a Pastoral Carcerária e sua Agenda Nacional pelo Desencarceramento[2], com metas claras para a redução da população prisional e para fortalecer as práticas comunitárias de resolução pacífica de conflitos.

Apelamos à sociedade inteira, e aos cristãos em particular por sua missão de testemunhas da misericórdia: não vamos cair nós também na banalidade da violência, na espiral da vingança injetada pelo medo. Não sejamos cúmplices de soluções fáceis, que continuarão replicando essas cenas de morte.

“Hoje, ser verdadeiro discípulo de Jesus significa também aderir à sua proposta de não-violência. Esta, como afirmou Bento XVI, «é realista pois considera que no mundo existe demasiada violência, demasiada injustiça e, portanto, não se pode superar esta situação, exceto se lhe contrapuser algo mais de amor, algo mais de bondade. Este “algo mais” vem de Deus». E acrescentava sem hesitação: «a não-violência para os cristãos não é um mero comportamento tático, mas um modo de ser da pessoa, uma atitude de quem está tão convicto do amor de Deus e do seu poder que não tem medo de enfrentar o mal somente com as armas do amor e da verdade. O amor ao inimigo constitui o núcleo da “revolução cristã”»” (papa Francisco).

Cabe a nós uma palavra nova, corajosa, capaz de reconciliar essa sociedade a partir de estruturas mais justas e inclusivas!

(IHU / JF)

Boaventura de Sousa Santos / Página/12 / IHU / JF

Questões que devem estar na agenda política das esquerdas

Por que a atual crise do capitalismo fortalece quem a provocou? Por que a racionalidade da solução da crise se baseia nas previsões que fazem, e não nas consequências que quase sempre as desmentem? Por que é tão fácil para o Estado mudar o bem-estar dos cidadãos pelo bem-estar dos bancos? Por que a grande maioria dos cidadãos assiste seu empobrecimento como se fosse inevitável, e o escandaloso enriquecimento de uma minoria como se fosse necessário, para que sua situação não piore ainda mais? Por que a estabilidade dos mercados financeiros só é possível à custa da instabilidade na vida da grande maioria da população? Por que os capitalistas individualmente são, em geral, gente de bem e o capitalismo, na sua totalidade, é amoral? Por que o crescimento econômico, hoje, parece a panaceia para todos os males econômicos e sociais, sem que nada seja perguntado sobre os custos sociais e ambientais, se são ou não sustentáveis? Por que Malcolm X tinha plena razão quando advertiu: “Se não tens cuidado, os jornais te convencerão de que a culpa dos problemas sociais é dos oprimidos e não de quem os oprime”? Por que as críticas que as esquerdas fazem ao neoliberalismo entram nos noticiários com a mesma rapidez e irrelevância com que saem? Por que as propostas alternativas escasseiam quando mais são necessárias?

Estas questões devem estar na agenda da reflexão política das esquerdas, sob pena de serem remetidas ao museu das felicidades passadas. Isto não seria grave se não significasse, como significa, o fim da felicidade futura das classes populares. A reflexão deve começar por aqui: o neoliberalismo é, antes de tudo, uma cultura do medo, do sofrimento e da morte para as grandes maiorias: a ele não se combate eficazmente se não lhe opuser uma cultura da esperança, da felicidade e da vida. A dificuldade que as esquerdas têm, para assumirem-se portadoras dessa outra cultura, advém da queda, durante grande tempo, na armadilha com que as direitas sempre se mantiveram no poder: reduzir a realidade ao que existe, por mais injusto e cruel que seja, para que a esperança das maiorias pareça irreal. O medo na espera mata a esperança de felicidade. Contra esta armadilha é preciso partir da ideia de que a realidade é a soma do que existe, e de tudo o que nela emerge, como possibilidade e luta por concretizar-se. Se as esquerdas não sabem detectar as emergências, serão submergidas ou irão parar nos museus, o que é o mesmo.

Este é o novo ponto de partida às esquerdas, a nova base comum que lhes permitirá, depois, divergirem fraternalmente nas respostas que dão às perguntas formuladas acima. Uma vez ampliada a realidade sobre a qual se deve atuar politicamente, as propostas das esquerdas devem ser percebidas como críveis pelas grandes maiorias, como prova de que é possível lutar contra a suposta fatalidade do medo, do sofrimento e da morte, em nome do direito à esperança, felicidade e vida. Essa luta deve ser conduzida por três palavras-guia: democratizar, desmercantilizar, descolonizar. Democratizar a própria democracia, já que a atual deixou-se sequestrar pelos poderes antidemocráticos. É preciso tornar evidente que uma decisão tomada de forma democrática não pode ser destruída, no dia seguinte, por uma agência qualificada de riscos ou por uma baixa na cotação das Bolsas (como pode ocorrer em breve na França). Desmercantilizar significa mostrar que usamos, produzimos e intercambiamos mercadorias, porém que não somos mercadorias, nem aceitamos nos relacionarmos com os outros, e com a natureza, como se fossem uma mercadoria a mais. Somos cidadãos antes de sermos empreendedores e, para que o sejamos, é imperativo que nem tudo se compre, nem tudo se venda, que existam bens públicos e bens comuns como a água, a saúde, a educação. Descolonizar significa desenraizar das relações sociais a autorização para dominar aos outros, sob o pretexto de que são inferiores: porque são mulheres, porque possuem uma cor de pele diferente ou porque pertencem a uma religião estranha.

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Edição 123, Dezembro 2016

Assustado com Donald Trump? E você não sabe nem a metade!

"Como de costume, a esquerda e o centro (eu incluso) estão se debatendo sobre onde erraram. Há muitas respostas, mas uma delas é a de que simplesmente não gastamos além da conta. Com alguns bilhões de dólares empregues na persuasão, teríamos conseguido tudo o que desejamos. Ativistas genuínos, trabalhando em seu tempo livre, não têm condições de se igualar a uma rede profissional composta por milhares de pessoas bem remuneradas e sem escrúpulos". O comentário é de George Monbiot, jornalista britânico, em artigo publicado por The Guardian, 30-11-2016. Tradução de Isaque Gomes Correa para IHU / JF

Sim, as atividades políticas de Donald Trump são incoerentes. Mas aqueles que o cercam sabem bem o que querem, e a falta de clareza dele aumenta o poder destas pessoas. Para entender o que iremos ter pela frente, precisamos entender quem são estas pessoas. Eu as conheço muito bem, pois passei os últimos 15 anos combatendo cada uma delas.

Durante esse período, observei como as empresas de tabaco, carvão, petróleo, produtos químicos e biotecnologia investiram bilhões de dólares em uma máquina internacional de desinformação composta por “think tanks”, blogueiros e grupos de cidadãos com identidades falsificadas. A finalidade deles é retratar os interesses dos bilionários como sendo os interesses das pessoas comuns, travar guerras contra os sindicatos e derrubar as tentativas de regulamentar os negócios e taxar os muito ricos. Agora as pessoas que ajudaram a moldar esta máquina estão moldando o próprio governo.

A primeira vez que me deparei com esta máquina foi ao escrever sobre as mudanças climáticas. A fúria e o ódio dirigidos aos cientistas do clima e ativistas ambientais pareciam incompreensíveis até que percebi que eram falsos: o ódio havia sido pago. Os blogueiros e institutos que promoviam essa fúria eram financiados por empresas petrolíferas e carvoeiras.

Entre aqueles com quem entrei em conflito está Myron Ebell, do Competitive Enterprise Institute – CEI. Este instituto considera-se um think tank. Para mim, no entanto, ele é um grupo lobista corporativo. Não é nada transparente quanto aos financiamentos que recebe. Mas hoje já sabemos que ele recebeu US$ 2 milhões da ExxonMobil, mais de US$ 4 milhões de um grupo chamado de Donors Trust (que representa várias corporações e bilionários), US$ 800 mil de grupos criados pelos magnatas Charles e David Koch, e somas substanciais de empresas dos ramos carvoeiro, tabagista e farmacêutico.

Durante anos, Ebell e o CEI atacaram as iniciativas que visavam limitar as alterações climáticas por meio de lobby, ações judiciais e campanhas. Um anúncio divulgado pelo Instituto tinha a frase: “Dióxido de carbono: uns chamam de poluição. Nós chamamos de vida”.

O grupo tem procurado eliminar o financiamento para a educação ambiental, fazendo lobby contra o Endangered Species Act (lei contra espécies ameaçadas), atormentando os cientistas climáticos e fazendo campanhas em favor da mineração com remoção dos picos de montanhas por parte de empresas carvoeiras. Em 2004, Ebell enviou um memorando a um dos funcionários de George W. Bush pedindo que o chefe da Agência de Proteção Ambiental fosse demitido. Onde está Ebell neste momento? Ah! Ele está liderando a equipe de transição de Trump na Agência de Proteção Ambiental.

Charles e David Koch – que durante anos financiaram políticas pró-corporativas extremas – podem não ter sido as pessoas mais animadas com a candidatura de Trump, mas os seus homens estiveram presentes em toda a campanha. Até junho, o gerente da campanha de Trump era Corey Lewandowski, que como os outros membros da equipe de Trump veio de um grupo chamado Americans for Prosperity – AFP.

Todos estes movimentos pretendem ser uma campanha de base, mas na verdade são financiados pelos irmãos Koch. O AFP criou a primeira página do Tea Party no Facebook e organizou os seus primeiros eventos. Com um orçamento de centenas de milhões de dólares, fez campanhas ferozes contra temas que coincidem com os interesses comerciais dos irmãos Koch nos setores de petróleo, gás, minerais, madeireiro e de produtos químicos.

Em Michigan, o grupo ajudou aprovar a “lei de direito ao trabalho”, buscando aquilo que o diretor local da AFP chama de “tirar os sindicatos da vida boa e pô-los a trabalhar”. O grupo fez campanha em nível nacional contra as mudanças climáticas. Injetou centenas de milhões de dólares para derrubar políticos que não compram suas ideias e substituí-los por outros mais dispostos.

Eu poderia ocupar todo este artigo com os nomes de funcionários de Donald Trump que vêm de grupos semelhantes: por exemplo, Doug Domenech (da Fundação de Política Pública do Texas, financiado pelos irmãos Koch, pela Exxon e pelo Donors Trust, entre outros); Barry Bennett (cuja “Aliança para o Futuro da América”, hoje chamada “One Nation”, se recusou a revelar quem são os seus doadores); e Thomas Pyle (presidente da Aliança Americana de Energia, financiado pela Exxon e outros). Tudo isso é para não precisar falarmos dos próprios interesses conflitivos de Trump. Trump prometeu “drenar o pântano” dos lobistas e das bancadas corporativas que atuam em Washington. Mas parece que os únicos pântanos que ele irá drenar são os pântanos reais, já que sua equipe se lança em guerra contra o mundo natural.

De modo compreensível, tem havido muita cobertura em torno dos racistas e supremacistas brancos empoderados com a vitória do republicano. Mas, horríveis como são, eles encontram-se na periferia das políticas que a equipe de governo irá desenvolver. É quase reconfortante, porém, concentrar-se neles, pois, pelo menos, sabemos quem são e o que representam. Por outro lado, penetrar na máquina de desinformação corporativa é adentrar um mundo de espelhos. Passe um tempo suficiente tentando compreender este mundo, e o vórtice de hiporrealidade infligirá um dano grave em seu estado de espírito.

Não devemos pensar que outras partes do mundo estão imunes. Os think tanks corporativos e grupos de base falsos, como os citados aqui, estão hoje em toda parte. A notícia falsa sobre a qual devemos nos preocupar não são aquelas inventadas por adolescentes envolvendo o nome de Hillary Clinton, de que ela estaria vendendo armas ao Estado Islâmico. Devemos nos preocupar, isto sim, com a prática constante de informar números negativos em torno dos sindicatos, impostos e regulamentações aventados por grupos que não vão revelar os seus próprios interesses.

Quanto menos transparentes são, mais tempo eles dispõem no horário nobre. A organização Transparify realiza um levantamento anual sobre os think tanks. A pesquisa deste ano revela que, na Inglaterra, apenas quatro think tanks (Adam Smith Institute, Centre for Policy Studies, Institute of Economic Affairs e Policy Exchange) “ainda consideram aceitável pegar dinheiro de mãos ocultas atrás de portas fechadas”. E estes são os que estão em toda a imprensa.

Quando o Institute of Economic Affairs (Instituto de Assuntos Econômicos) aparece na BBC para falar contra a regulamentação do tabaco, o que acontece frequentemente, eu pergunto: Não deveríamos ser informados de que o grupo é financiado por empresas do ramo desde 1963? Há um padrão semelhante nos EUA: os grupos que mais se impõem tendem a ser os mais opacos.

Como de costume, a esquerda e o centro (eu incluso) estão se debatendo sobre onde erraram. Há muitas respostas, mas uma delas é a de que simplesmente não gastamos além da conta. Com alguns bilhões de dólares empregues na persuasão, teríamos conseguido tudo o que desejamos. Ativistas genuínos, trabalhando em seu tempo livre, não têm condições de se igualar a uma rede profissional composta por milhares de pessoas bem remuneradas e sem escrúpulos.

Só podemos confrontar o poder a partir do momento em que sabemos o que ele é. A nossa primeira tarefa nessa luta é entender o que temos pela frente. Somente assim poderemos descobrir o que fazer.

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Edição 122, Novembro 2016

Marco Politi / Il Fatto Quotidiano / IHU / JF

Igreja Católica em plena guerra civil

O Papa Francisco fechou a Porta Santa, mas a sua mensagem é acompanhada pelo ruído de uma crise subterrânea. Uma guerra civil está em curso na Igreja. Um confronto que toca a autoridade do pontífice e o seu programa reformador. Estão em jogo visões opostas sobre o papel da Igreja, o “pecado”, a salvação das almas. E, como em todas as guerras civis, o conflito não contempla compromissos

Quatro cardeais, nestes dias, optaram por colocar diretamente sob acusação a teologia de Francisco e o seu documento pós-sinodal Amoris laetitia (que abre o caminho para a comunhão dos divorciados recasados). Os purpurados imputam a Bergoglio o facto de ter semeado entre os fiéis “incerteza, confusão e perplexidade” e pedem que ele “esclareça” o documento.

À carta, são anexadas, no estilo das contestações teológicas, as chamadas Dubia: isto é, “perguntas sobre questões controversas”.

Com um gesto que tem o sabor de um desafio, a carta foi enviada “para conhecimento” também ao guardião oficial da ortodoxia, o cardeal Gerhard Müller, prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé.

É um evento absolutamente inédito na história moderna do papado. E a primeira coisa que chama a atenção é o silêncio constrangedor das altas hierarquias eclesiásticas. Nenhum cardeal se opôs publicamente às suas teses, nenhum presidente de Conferência Episcopal [excepto o presidente dos bispos gregos [Nota IHU On-Line], nenhum dirigente de alguma grande Associação Católica.

E dizer que, dominando no peito o papel da consciência, de que Francisco fala, os quatro purpurados afirmam que, nesse caso, se corre o risco de chegar ao ponto em que se tornam concebíveis “casos de adultério virtuoso, homicídio legal e perjúrio obrigatório”.

Dois dos purpurados são expoentes da Cúria: o alemão Walter Brandmüller, ex-presidente do Pontifício Comitê de Ciências Históricas, e o estadunidense Raymond Burke, ex-presidente do Tribunal da Signatura Apostólica. E dois são arcebispos eméritos de grandes dioceses: Carlo Caffara, querido de João Paulo II e Bento XVI e até 2015 à frente de Bolonha, e Joachim Meisner, íntimo do Papa Ratzinger, até 2014 à frente da diocese de Colônia.

Liquidar a sua carta – à qual Francisco respondeu indiretamente em uma entrevista ao jornal Avvenire, denunciando um “certo legalismo que pode ser ideológico” – como o sobressalto de quatro “ultraconservadores” significa não compreender o confronto subterrâneo, que foi se desenvolvendo na Igreja Católica no último biénio.

Os quatro são a ponta do iceberg, que vai se ampliando e se espalhando. Eles também falam por muitos que não se expõem.

Durante anos, a mídia não compreendeu a profundidade do movimento anti-Obama, que levou, no dia 8 de novembro, à derrota da sua política. Hoje, ela corre o risco de repetir o mesmo erro com Francisco. Deslumbrados com o seu carisma e com o consenso planetário de que ele goza até mesmo entre agnósticos e não crentes, muitos removem a sistemática escalada daqueles que, entre o clero, os episcopados, o Colégio Cardinalício, contestam a teologia de misericórdia do pontífice.

Entre os dois Sínodos, houve um deslocamento de ênfase fundamental. Se, nas últimas décadas, no confronto entre reformadores e conservadores, o pontífice permanecia como “árbitro” para a maioria da hierarquia eclesiástica, hoje, no entanto, o papa tornou-se uma parte em causa.

Basta ler a última entrevista do cardeal Burke: a Amoris laetitia, afirma ele, “não é Magistério, porque contém sérias ambiguidades que confundem os fiéis e podem induzi-los ao erro e ao pecado grave. Um documento que apresenta esses defeitos não pode fazer parte do ensinamento perene da Igreja”.

Em dois anos, houve um crescendo de ações de dissenso. Antes do Sínodo de 2014, cinco cardeais escreveram um livro em defesa da doutrina tradicional do matrimónio. Depois, 11 purpurados de todas as partes do mundo intervieram com outro livro, incluindo personalidades importantes, reconhecidas entre o clero e o episcopado. Enquanto isso, quase 800 mil católicos, incluindo 100 bispos assinavam um abaixo-assinado ao papa para impedir as inovações. Depois do início do Sínodo de 2015, 13 cardeais escreveram a Bergoglio, pondo em causa a regularidade da direção da assembleia.

Um movimento sistemático de contestação, ao qual a frente reformadora opôs apenas timidez. E – embora muitos queiram esquecer –, nas votações no Sínodo sobre a família de 2015, foram rejeitadas as teses de uma via penitencial, que reconhecesse abertamente a possibilidade da comunhão aos divorciados recasados. A maioria tradicionalista desse parlamento mundial de bispos disse “não”.

Enquanto isso, surgiu uma rede de cardeais, bispos, padres, teólogos e leigos comprometidos, signatários de uma “Declaração de fidelidade ao magistério imutável da Igreja sobre o matrimónio”. Posteriormente, 45 teólogos escreveram (anonimamente) ao Colégio Cardinalício, insinuando que certas interpretações da Amoris laetitia poderiam ser “heréticas”.

O movimento anti-Bergoglio trabalhava sobre o tempo. Nos Estados Unidos, a escalada subestimada contra Obama levou à derrota dos democratas. Na Igreja Católica, o que está em jogo é o futuro conclave. Hoje, o historiador da Igreja Alberto Melloni fala de “isolamento” do pontífice. E Andrea Riccardi, ele também historiador, explica que nunca no século XX um pontífice encontrou tanta oposição entre os episcopados e o clero.

Na guerra civil em curso na Igreja, o objetivo é o pós-Francisco: não deverá chegar ao trono papal um homem que dê desenvolvimento as reformas iniciadas.