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Edição 148, Maio 2019

Julia Kristeva

OS ESTRANGEIROS, A GLOBALIZAÇÃO E OS NACIONALISMOS CONTEMPORÂNEOS

“Estigmatizando com pleno direito as tendências nacionalistas, certas ideologias progressistas subestimaram, senão até negaram, o sentido fundador e o valor de consolidação da identidade nacional.” O jornal L’Osservatore Romano publicou um excerto de um artigo de autoria da filósofa, linguista e psicanalista búlgaro-francesa Julia Kristeva, publicado na última edição da revista Vita e Pensiero. A tradução é de Moisés Sbardelotto /IHU

Todos nós constatamos isto. O estrangeiro obceca a globalização: Itália, Hungria, Venezuela... Não tem nada a ver com um fantasma, como foi o caso do espectro do comunismo que obcecava a Santa Aliança Europeia (de acordo com o “Manifesto do Partido Comunista”) mais de um século e meio atrás.

A insustentável presença dos estrangeiros é bem mais disruptiva e real, dentro e fora das nossas fronteiras, mesmo que ela esteja fortemente sobrecarregada de fantasmas imaginários. Quando elevam os olhos dos seus selfies hiperconectados, os “tuiteiros” nativos despertam como estrangeiros no seu próprio país. Alguns, aterrorizados pela onda migratória, a “grande substituição”; outros, surpresos por se encontrarem eles mesmos como estrangeiros, como temporários autoempresários da uberização transfronteiriça; desempregados ou agricultores em territórios desertificados; crianças que não tomam café da manhã antes da escola, e outras “diversidades” que podem ser encontradas entre aqueles que são deixados para trás pelo “sistema”.

Fora da rede, os “curtidores” e os “seguidores” perdem a ilusão virtual de “viver juntos”, não acreditam mais nisso, são estrangeiros à procura de um país que não existe. A hiperconexão beira a desorientação; a pós-verdade e as fake news provocam e exacerbam o sentimento – o ressentimento – de estranheza [estraneità].

Em 1988, há mais de 30 anos, eu escrevi “Stranieri a noi stessi” [Estrangeiros para nós mesmos], que foi tomado como um livro. Era um grito. E eu gostaria hoje de ouvir algumas ênfases, na convicção de que as nossas reflexões só poderão encontrar o seu sentido sob a condição de que permaneçamos à escuta dessa condição humana que põe em discussão o Estado-nação e custa a acreditar até mesmo na razão política:

“Estrangeiro: raiva estrangulada no fundo da garganta, anjo negro que perturba a transparência, traço opaco, insondável. Figura do ódio e do outro, o estrangeiro não é nem a vítima romântica da nossa preguiça familiar, nem o intruso responsável por todos os males da cidade. Nem a revelação esperada, nem o adversário imediato a ser eliminado para pacificar o grupo. Estranhamente, o estrangeiro nos habita: é a face oculta da nossa identidade, o espaço que arruína o nosso lar, o tempo em que se aprofundam o entendimento e a simpatia. Reconhecendo-o em nós, poupamo-nos de detestá-lo nele. Sintoma que torna justamente o ‘nós’ problemático, talvez impossível, o estrangeiro começa quando surge a consciência da minha diferença e termina quando todos nos reconhecemos estrangeiros, rebeldes aos vínculos e às comunidades. O ‘estrangeiro’, que era o ‘inimigo’ nas sociedades primitivas, pode desaparecer nas sociedades modernas?”

Essa estranheza essencial, que as diversas variantes da sedentarização – alternando “enraizamentos” e exílios – tinham cicatrizado mais ou menos, é brutalmente despertada de novo pela globalização nas mãos do virtual. O Estado-nação ainda é o recipiente ideal dessa nova humanidade à qual aspira um “país que não existe”? A minha resposta é “sim”; a nação é um antidepressivo, sob a condição de que se conecte – mas a que preço? – aos conjuntos superiores, regionais e culturais (a Europa, por exemplo). Um antidepressivo que não pode mais abrir mão do “gênero humano”. Mas que deve, por isso, retomar, interrogar e refundar não apenas as culturas nacionais, mas também a memória das religiões constituídas, que afirmam possuir um “vínculo unificador”, um vínculo que transcende as comunidades étnicas e políticas historicamente constituídas. E refundar o próprio humanismo universal, que se separou delas, que as interroga questiona e que se interroga.

Por que o não pertencimento ao grupo (família, clã, tribo, nação, “sistema”) que distingue o estrangeiro dentro e fora compromete a minha identidade e até me ameaça com um colapso identitário? Como a identidade é um componente incerto, com uma solidez relativa e frágil, ela é tranquilizada pelo pertencimento a um grupo, ou talvez seja este, no fim das contas, que a constitui inteiramente. Recordemos a observação de Marcel Proust: na França, a máxima de Hamlet, “ser ou não ser”, tornou-se “ser ou não ser eles” – célebre fórmula retomada por Hannah Arendt e que responde ao sarcasmo de Voltaire: “Tornamo-nos devotos por medo de não ser nada”...

Para nós, seres falantes, o grupo (família ou nação) não garante unicamente uma continuidade biológica (natural) e econômica (que consiste em se beneficiar dos bens essenciais): o grupo constrói e conserva o sentido, dimensão constitutiva do ser humano. Da minha linguagem, dos meus valores, da minha cultura histórica, o grupo é o habitat (a palavra grega ethos significa inicialmente “habitat”). O grupo desobriga à ética! O ser falante que eu sou, habita os seus progenitores, a sua tradição e a sua linguagem, que são o meu ethos, a minha ética.

Portanto, entende-se que ser eles (pertencer a um grupo, a uma família, a uma nação) pode servir de antidepressivo. O que tem efeitos colaterais tóxicos. A família e a nação que são os meus antidepressivos degeneram bem rápido – infelizmente! – em paixão maníaca de perseguição, passiva e ativa, e autodestrutiva. Mas (na etapa atual da existência do Homo sapiens) a minha identidade estruturalmente precisa disso; ora, a estranheza, os estrangeiros, põem em risco essa identidade e correm o risco de destruí-la.

Estigmatizando com pleno direito as tendências nacionalistas, certas ideologias progressistas subestimaram, senão até negaram, o sentido fundador e o valor de consolidação da identidade nacional.

Naturalmente, a globalização desenfreada deve ser regulada e otimizada. Esses processos estão em andamento, mas ela impõe e imporá modificações aceleradas das identidades nacionais. Mas, quando, com pleno direito, nos voltarmos contra o populismo, não nos esqueçamos das ênfases populistas dos fundadores da própria nação republicana, em seus primórdios.

Sieyès: “O povo sempre prostrado”. Robespierre: “Os infelizes me aplaudem”. Ai, porém, da negação que maltrata esse antidepressivo que é a nação e da qual Giraudoux dizia: “As nações, assim como os homens, morrem de descortesias imperceptíveis”. As nossas negações frequentemente são muito mais que simples descortesias.

Nós somos chamados, em virtude da economia, da mídia, da história, a coabitar com e entre estrangeiros em um país, a França, por sua vez em curso de integração a uma Europa ameaçada pela desintegração. Encaminhamo-nos rumo a nação-quebra-cabeças feita de diversas particularidades, em que o dominante demográfico é, por enquanto, francês – mas até quando?

Pela primeira vez na história, somos levados a viver com “diversidades”, tendo que apostar prioritariamente, senão unicamente, em códigos morais pessoais, sem que haja um conjunto que, abraçando as nossas particularidades, possa contê-los, orientá-los, transcendê-los.

Eu não sou otimista, vocês devem ter entendido, mas, como pessimista enérgica, descubro com os meus analistas que só a análise dos fracassos nos permitirá ancorar o vínculo unificador à estranheza e à necessidade de crer, imanente em cada um de nós. Para ajudar a dar vida a essa atualidade prática da nação que é a coesão republicana.

Emilce Cuda

O FUTURO DIGNO DOS TRABALHADORES, PARA A TRANSIÇÃO ECOLÓGICA

O trabalho é um direito, não apenas um meio económico de subsistência. É também, e principalmente, o modo pelo qual o ser humano pode se manifestar como tal, expressar sua capacidade e criatividade, e constituir sua identidade em relação aos outros, à natureza e ao seu criador”, escreve Emilce Cuda, doutora em teologia moral social pela Pontifícia Universidade Católica Argentina, em artigo publicado por Religión Digital. A tradução é do Cepat /IHU

O que acaba é o emprego assalariado. O trabalho remunerado irá substituí-lo. Isso requer uma mudança de percepção sobre a riqueza. A ideia de que o trabalho só pode ser concebido como emprego assalariado em condições de exploração foi naturalizada em função de uma acumulação obscena da renda.

Em fins do séc. XX, a Organização Internacional do Trabalho estabeleceu como meta de luta o "trabalho decente". No entanto, a situação atual, de acordo com os dados da própria OIT, é de 190 milhões de desempregados, 2 bilhões de trabalhadores na economia informal, 300 milhões de pessoas na pobreza e 3 milhões de mortes por doenças relacionadas ao trabalho. Além disso, até 2030 devem ser criados 344 milhões de trabalho sustentáveis. A encíclica social Laudato Si’ denuncia a crise ecológica e levanta a aposta. Agora, o objetivo urgente é "trabalho digno".

Lutar pelo trabalho decente fazia sentido em um contexto de pleno emprego. Hoje, a questão do trabalho não é apenas a indecência das condições de trabalho - como denunciava a Rerum Novarum, em fins do séc. XIX -, mas também a impossibilidade de uma vida humana digna. Os trabalhadores explorados do passado, hoje são trabalhadores descartados, mas continuam sendo trabalhadores. Quem não vive da renda é um trabalhador, empregado ou desempregado, segundo a Teologia do Povo hoje representada pelo Papa Francisco.

Se a condição de trabalhador é retirada dos seres humanos, isso impede a dignidade. O trabalho é um direito, não apenas um meio econômico de subsistência. É também, e principalmente, o modo pelo qual o ser humano pode se manifestar como tal, expressar sua capacidade e criatividade, e constituir sua identidade em relação aos outros, à natureza e ao seu criador.

Acredita-se que a causa do desemprego estrutural seja o avanço tecnológico que substitui o trabalhador pela máquina. Isso também foi uma crença dos trabalhadores no início da Revolução Industrial, que saíram para quebrar os teares, como descrito por E.P. Thompson. Não é certo. Que a máquina substitua o trabalho humano em condições de exploração, isso é bom. O trabalhador poderá finalmente - como ressalta o livro do Gênesis - começar a trabalhar de maneira digna, cuidando da criação, multiplicando os bens que o criador colocou a seu serviço.

Fará isso com o suor de seu rosto, mas de forma criativa e humanizadora. A tecnologia pode ser uma ferramenta libertadora para o corpo e o tempo dos trabalhadores – não é o caso da tecnocracia. Tudo depende de uma mudança cultural onde os processos implantados, ao longo do tempo, sejam superiores aos espaços conquistados na luta política pela conquista do poder.

A causa do fim do trabalho não é a tecnologia, mas, sim, a acumulação obscena. Segundo Thomas Piketty, em poucas décadas, 10% da humanidade concentrará 90% da renda mundial. Adam Smith mostrou que o tempo livre de uns é o trabalho de outros, no entanto, no século XXI, graças ao avanço da tecnologia, todos podem ter tempo livre para trabalhar de forma remunerada naquilo que gostam.

O problema não é a pobreza, porque a renda cresce exponencialmente. O problema é a percepção da riqueza. Enquanto a riqueza concentrada for percebida como uma bênção - como prega a teologia da prosperidade -, a transição ecológica não será possível. Da mesma forma, o problema não é o desemprego, mas a percepção do trabalho como mercadoria. É por isso que a Laudato Si’ coloca o acento na pessoa do trabalhador, antes que no trabalho.

O que aconteceria se "emprego assalariado em condições de exploração para poucos" fosse substituído por "trabalho remunerado em condições criativas para todos"?

O futuro é esperançoso. O relatório da Comissão Mundial da OIT para o futuro do trabalho, publicado em 22 de janeiro de 2019, afirma que com a transformação tecnológica, se perderão tantos postos de trabalhos quanto os criados. O plano consiste em investir em treinamento e formação, organizações como sindicatos e movimentos sociais, e trabalho sustentável como uma economia verde e de cuidado. Para a Comissão Mundial da OIT, isso requer: 1) a criação de um "ecossistema eficaz de aprendizagem permanente", tanto formal como informal; 2) estabelecer uma remuneração como "garantia básica universal".

O processo está em andamento. A seis meses da publicação do relatório - e no marco das celebrações dos 100 anos da OIT -, de 19 a 22 de maio, haverá uma conferência na sede da UNESCO, em Paris. A equipe internacional de pesquisadores que faz parte do programa OIT-VATICANO, chamado O futuro do trabalho. O trabalho depois de Laudato Si’, liderado pelo jesuíta Pierre Martinot-Lagarde, abre o debate público para iniciar a transição ecológica em torno de uma outra maneira de trabalho sustentável e digno.

O Instituto Jesuíta CERAS da França é quem chama e coordena, no entanto, os expositores provêm de todo o mundo. Um dos programas alternativos que serão apresentados é argentino, e sua exposição estará sob a responsabilidade de outro jesuíta, dom Lugones, presidente da pastoral social argentina.

Este último é também um sinal de que o centro está se movendo para a periferia. No entanto, não se trata, como se pensava nos anos 1970 e 1980, a partir da Teologia Latino-americana da Libertação, de uma mudança imediata de estruturas. Trata-se de iniciar um processo cultural que permita perceber o trabalho remunerado em atividades criativas de cuidado como algo bom para todos e para o planeta, segundo os 17 pontos da Agenda 2030 para o Desenvolvimento Sustentável da ONU.

Marcos Sassatelli

ESPÍRITO PATRIÓTICO OU ESPÍRITO DIABÓLICO?

"Bolsonaro e sua equipe de pessoas, na maioria desequilibradas e ditatoriais - afirmam que a propriedade particular é um direito “sagrado” (verdadeira blasfémia!); que os Movimentos de Trabalhadores e Trabalhadoras - que lutam pelo direito à terra (um direito de todos e não só de alguns) e que organizam ocupações de latifúndios improdutivos - são movimentos de criminosos; e que os “proprietários” podem defender suas terras com armas de fogo, matando - se necessário - os ocupantes. Em caso de morte, os “proprietários” poderão ser chamados a depor em juízo, mas - garante o presidente - por serem “pessoas de bem”, não serão condenados. Que loucura! Que barbárie!", escreve Marcos Sassatelli, frade dominicano, doutor em Filosofia (USP) e em Teologia Moral (Assunção - SP) e professor aposentado de Filosofia da UFG. Eis.

Depois da aprovação do projeto da “Reforma” da Previdência na Comissão de Constituição e Justiça (CCJ), o presidente Bolsonaro agradeceu o empenho do presidente da Câmara Rodrigo Maia e dos demais parlamentares e afirmou: o governo continua a contar com o espírito patriótico dos deputados. Que hipocrisia! Que desfaçatez!

Cortar - com frieza e crueldade - os poucos diretos que os trabalhadores e trabalhadoras pobres conquistaram com muita luta e a duras penas, é espírito diabólico e não espírito patriótico.

Disse ainda o presidente que se nada for feito, o País não terá recursos para garantir uma aposentadoria para todos os brasileiros. Mentira! Enganação do povo! Bolsonaro sabe disso e, mesmo assim, trata os trabalhadores e as trabalhadoras como se fossem idiotas!

Por que o governo desvia dinheiro da Previdência para pagar juros aos banqueiros? Por que não cobra as estrondosas dívidas para com a Previdência das empresas? Por que não taxa as grandes fortunas?

Os governantes e parlamentares que apoiam essa “Reforma” (ou melhor, Antirreforma) perversa e iníqua, são os demônios de hoje. Para obter vantagens pessoais, eles aderem a uma prática política covardemente submissa aos interesses dos poderosos, que se enriquecem sempre mais com a exploração dos pobres. Os ricos e seus asseclas, terão de prestar conta a Deus. Aguardem!

“Agora, vocês, ricos, chorem e gritem por causa das desgraças que cairão sobre vocês. Suas riquezas estão podres e suas roupas foram roídas pelas traças. O ouro e a prata de vocês estão enferrujados e a ferrugem deles será testemunha contra vocês” (Tg 5,1-3).

Outro absurdo de Bolsonaro e seu governo é o menosprezo pela sociologia e filosofia nas escolas e nas universidades, que - infelizmente - faz parte da lógica de um governo ditatorial, disfarçado de democrático. Esse governo quer que os trabalhadores e as trabalhadoras sejam meras máquinas de produção para enriquecer os detentores do poder econômico. Se forem pessoas conscientes que pensam e exigem seus direitos atrapalham os objetivos do governo.

A filosofia - além de ser parte integrante da formação do ser humano enquanto ser racional - é também uma dimensão de profundidade de todas as ciências: exatas, biológicas e humanas (aliás, do ponto de vista do sujeito do conhecimento, todas as ciências são humanas). Por exemplo, um verdadeiro físico é também filósofo da física; um verdadeiro matemático é também filósofo da matemática; um verdadeiro biólogo é também filósofo da vida; um verdadeiro educador é também filósofo da educação; um verdadeiro historiador é também filósofo da história; um verdadeiro jurista é também filósofo do direito. E assim por diante.

Enfim, entre os muitos que ainda poderiam ser lembrados, cito mais um absurdo desse governo, que representa um inimaginável atraso cultural e ético. Bolsonaro e sua equipe de pessoas, na maioria desequilibradas e ditatoriais - afirmam que a propriedade particular é um direito “sagrado” (verdadeira blasfêmia!); que os Movimentos de Trabalhadores e Trabalhadoras - que lutam pelo direito à terra (um direito de todos e não só de alguns) e que organizam ocupações de latifúndios improdutivos - são movimentos de criminosos; e que os “proprietários” podem defender suas terras com armas de fogo, matando - se necessário - os ocupantes. Em caso de morte, os “proprietários” poderão ser chamados a depor em juízo, mas - garante o presidente - por serem “pessoas de bem”, não serão condenados. Que loucura! Que barbárie!

Bolsonaro e sua equipe esquecem - ou fingem de esquecer - que toda propriedade particular, para ser legítima, deve ter uma função social; que (como diz São Tomás de Aquino, cujo pensamento foi assumido pelo Ensino Social da Igreja) a destinação dos bens para o uso de todos os seres humanos é um direito primário e a propriedade particular, um direito secundário (que nunca pode prejudicar o primário).

Ah, se os governantes e políticos - que, com tanta facilidade, usam o nome de Deus em vão - refletissem sobre o projeto de vida, radicalmente revolucionário, de Jesus de Nazaré! Ele é também - ao menos como ideal a ser perseguido - o projeto de seus seguidores e seguidoras. “A multidão dos fiéis era um só coração e uma só alma. Ninguém considerava propriedade particular as coisas que possuía, mas tudo era posto em comum. (...) Entre eles ninguém passava necessidade. (...) O dinheiro era distribuído a cada um conforme sua necessidade” (At 4,32-35).

Dia do Trabalhador e Trabalhadora! 1º de Maio Unificado, rumo à Greve Geral (14 de junho)! A luta dos Trabalhadores e Trabalhadoras é justa e Deus está do seu lado!

Danielle Allen, professora de Harvard

'CIÊNCIAS HUMANAS SÃO IMPORTANTES, QUANDO EXATAS E BIOLÓGICAS'

Sem os conhecimentos das ciências humanas "não é possível entender a sociedade", diz a cientista política Danielle Allen, professora da Universidade Harvard, nos Estados Unidos. À BBC Brasil, Allen disse ver como "um erro" o plano do governo brasileiro de reduzir investimentos em faculdades de ciências humanas - como filosofia e ciências sociais - e se concentrar, segundo um tuíte do presidente, Jair Bolsonaro, em "áreas que gerem retorno imediato ao contribuinte, como veterinária, engenharia e medicina". A reportagem é de Rafael Barifouse, publicada por BBC News Brasil

O presidente escreveu que "a função do governo é respeitar o dinheiro do contribuinte, ensinando para os jovens a leitura, escrita e a fazer conta e depois um ofício que gere renda para a pessoa e bem-estar para a família, que melhore a sociedade em sua volta".

Para Allen, que dirige o Centro de Ética Edmond J. Safra de Harvard, a capacidade de uma sociedade de alcançar uma boa governança depende de ciências humanas como ciência social e filosofia, "porque são estas disciplinas que fazem esse tipo de trabalho".

"Você não cria leis para ter uma boa governança com os conhecimentos de Engenharia e de Física. Sem os conhecimentos das ciências humanas não é possível entender a sociedade."

"O trabalho do economista Herbert Simon, ganhador do prémio Nobel, mostrou que os países mais ricos do mundo têm esta riqueza em grande parte por causa de uma boa governança. Em outras palavras, você não pode separar a qualidade da economia da qualidade da governança institucional", diz Allen.

Governança é um termo usado para descrever como o processo de tomada de decisão e a forma como medidas são implementadas por instituições públicas para conduzir questões de interesse social e administrar recursos públicos.

Allen se dedica a estudar os conhecimentos e as habilidades necessários na condução de regimes democráticos. Autora de diversos livros sobre o tema, ela avalia que redução de investimentos em ciências humanas e sociais e o maior foco na educação de ciências exatas e biológicas geram uma menor participação dos cidadãos.

Ela argumenta que as "democracias de massa" em que vivemos hoje são produtos de dois tipos de conhecimento. "Com certeza, o tamanho de nossas populações, nossas capacidades tecnológicas e nosso potencial de saúde aumentaram drasticamente por causa das ciências biológicas e da engenharia, mas a razão pela qual temos instituições democráticas é por causa de disciplinas como filosofia, sociologia, direito, história, entre outras", afirma Allen.

"São estas áreas de conhecimento que inventaram a democracia e permitiram não só criá-la, mas administrá-la. Nós nos esqueceremos de como administrar uma democracia se não investirmos nestas áreas de conhecimento."

'Boas leis, instituições e governança aumentam a riqueza da sociedade'

Allen reconhece que, em diferentes países do mundo, medidas semelhantes têm sido tomadas para incentivar o estudo de ciências exatas e biológicas. A cientista afirma que isso se deve à visão - que ganhou força nas últimas décadas - de que o desenvolvimento económico e a distribuição igualitária dos ganhos de produtividade na sociedade são resultado da disseminação de conhecimentos em tecnologia.

"Governos estão tão focados nesta questão da combinação de crescimento e a distribuição equitativa de ganhos de produtividade que passaram a adotar essa posição de que precisam fomentar as habilidades em ciências exatas e biológicas. Isso é verdade, mas não podemos fazer isso com um custo de erodir nossa capacidade de ter uma boa governança."

Ela argumenta ainda que é possível medir e analisar o retorno dos investimentos em ciências humanas tanto quanto com os resultados gerados por outras áreas de conhecimento, como mostrou o economista Herbert Simon.

"Boas leis, instituições estáveis e estruturas de governança produtivas aumentam a riqueza de uma sociedade. Todos estes de conhecimentos têm resultados mensuráveis, nós apenas nos esquecemos de medi-los."

'Ciências sociais ajudam a traçar os objetivos da humanidade'. A cientista destaca ainda que grandes nomes da modernidade que são referência de criatividade nos dias de hoje tiveram uma educação superior baseada em ciências humanas, como, por exemplo, Steve Jobs, fundador da Apple.

"Disciplinas como filosofia, história e literatura nos levam a questionar o que devemos fazer, quais são os propósitos da humanidade, quais devem ser nossos objetivos", diz Allen.

Ao mesmo tempo, diz ela, ciências biológicas e exatas normalmente nos levam a questionar como podemos atingir os objetivos traçados. "Você precisa questionar tanto o que devemos fazer quanto como devemos fazer. Você não pode abandonar as disciplinas que ajudam as pessoas a pensar sobre quais são os propósitos humanos."

Por isso, ela defende que "ciências humanas são tão importantes quanto as ciências exatas e biológicas": "Não é uma questão de priorizar uma área sobre a outra, você precisa de ambas. São dois campos poderosos e complementares para o bem da humanidade".

Em uma transmissão ao vivo pelo Facebook, o ministro da Educação, o economista Abraham Weintraub, defendeu que o governo não está impedindo o estudo de ciências humanas. "Pode estudar filosofia? Pode, com dinheiro próprio", afirmou.

Allen diz ver como "lamentável" que o acesso a esse tipo de conhecimento possa passar a ser "privilégio de ricos". "Deveria haver oportunidades iguais de acesso a este tipo de conhecimento, tão ligados a profundos impactos sociais."

'Ensino de ciências humanas deve começar na escola'

Na posse de Weintraub, Bolsonaro disse querer "uma garotada que comece a não se interessar por política, como é atualmente dentro das escolas, mas comece a aprender coisas que possam levá-las ao espaço no futuro".

Isso gerou diversas críticas, especialmente nas redes sociais, de que o governo desestimula a formação de pessoas capazes de pensar criticamente.

Allen diz que, embora não possa comentar sobre as intenções do governo brasileiro sem ter acesso a informações que a permitam fazer algum julgamento, a redução do investimento em ciências humanas mina a capacidade de alguém participar da sociedade enquanto cidadão.

"O pensamento crítico e a capacidade de pensar sobre quais devem ser nossos objetivos enquanto sociedade é algo que precisa ser construído. É preciso ter prática nisso para se ter capacidade de participar efetivamente de uma democracia."

Por este motivo, ela defende que o ensino de ciências humanas, como sociologia e filosofia, devem fazer parte do currículo escolar desde os primeiros anos, assim como com as ciências biológicas e exatas.

"É com o tempo que você constrói habilidades nas áreas de conhecimento. Quanto antes começar o ensino de ciências humanas, melhor. Se for só na universidade, você já começa atrasado."

Edição 147, Abril 2019

Juan Arias /El Pais /IHU

ARMARAM UMA EMBOSCADA PARA O PAPA FRANCISCO?

O documento de Bento XVI sobre a pedofilia na Igreja, não é apenas uma zombaria para as vítimas, é também uma grosseria com a qual ele tenta redimir a instituição de seus pecados, escreve Juan Arias, jornalista, em artigo publicado por El País /IHU

O documento que leva a assinatura do papa demissionário Bento XVI, o alemão ultraconservador Joseph Ratzinger, no qual se culpa a revolução progressista dos jovens franceses de Maio de 68 pelos escândalos de pedofilia perpetrados pela Igreja não é apenas uma zombaria às vítimas. É também uma grosseria anti-histórica com a qual tenta redimir a instituição de seus pecados.

O documento de Ratzinger é grave por várias razões que vão além do seu caráter eclesiástico e obriga a recordar sua biografia e seu itinerário doutrinário. Ainda me lembro dele como um jovem e brilhante teólogo do Episcopado progressista alemão durante os anos do revolucionário Concílio Vaticano II, que foi considerado como a primavera da renovação da Igreja e sobre o qual me coube informar para o diário Pueblo, de Madri, durante a ditadura franquista.

Ratzinger, juntamente com outro jovem teólogo alemão, Hans Kung, foram dois pilares da parte mais aberta do concílio. Terminando este, Kung continuou fiel à abertura da Igreja em seus livros e conferências. Ratzinger, pelo contrário, acabou negando o Concílio. Considerou-o um “erro” da Igreja. Acabou sendo premiado. Fizeram-no bispo e depois cardeal. E já em Roma, foi Prefeito da Congregação da Fé, o antigo tribunal da Santa Inquisição. E foi ali que condenou ao silêncio os teólogos da libertação, como o brasileiro Leonardo Boff. Era ao seu dicastério que chegavam de várias partes do mundo as denúncias sobre os escândalos de pedofilia na Igreja, que ele, sistematicamente, deixava morrer no esquecimento.

Já papa, foi um dos sucessores de Pedro mais conservadores do século. Aposentado, por vontade própria, do papado, permaneceu estes anos, já muito doente, em silêncio, deixando o comando para o moderno Francisco, que em vez de usar sapatos Prada vermelhos como ele, continuou usando os velhos sapatos de camponês com os quais chegou ao Conclave do qual saiu como seu sucessor.

O documento do papa emérito, sobre o qual não há certeza de quem pode tê-lo redigido, dadas as suas condições de saúde, é grave por vários motivos. Não só porque nele se tenta culpar o Maio de 68 francês pelos pecados de pedofilia da Igreja, mas porque também quis que se soubesse que escreveu o documento “de acordo com o papa Francisco”, colocando-o assim em uma encruzilhada. Francisco destacará um documento que ofende as vítimas de pedofilia perpetradas por sacerdotes e bispos? Depois de suas inúmeras manifestações contra esse pecado da Igreja e depois de ter lhes pedido perdão em nome da Igreja, Francisco preferirá agora o silêncio para não se confrontar com Bento XIV? Não hesitaria em dizer que Francisco se encontra no meio de uma emboscada das quais já é mestra a história de tramas e máfias da Cúria, da qual não lhe será fácil sair.

O documento também é anti-histórico e pueril ao culpar o 68 francês pelo dilatar da pedofilia na Igreja, como se os abusos em matéria de sexo, e até as piores aberrações cometidas na Igreja, não tivessem existido até então. Como escreveu com humor um leitor, somente se se tratar de 68 antes de Cristo. Será que ninguém se lembra dos escândalos sexuais dos conventos masculinos e femininos da Idade Média? Será que antes de 68 padres, bispos e até papas eram santos e inocentes? Trata-se da eterna hipocrisia da hierarquia eclesiástica.

O texto papal não só encerra essa análise absurda do progressismo de 68 que teria pervertido até os religiosos arrastando-os a seus excessos sexuais e quase a justificá-los. Chega, além disso, em um momento em que crescem no mundo os movimentos ultradireitistas, com nostalgias de nazismos e fascismos. Não há melhor presente do que esse documento do papa intelectual para as tentativas de demonizar hoje os movimentos libertários em busca de novas formas de viver a sexualidade em paz e liberdade. Não há melhor presente para tentar deter a resistência contra os novos autoritarismos do que denunciar que foi um movimento revolucionário juvenil de esquerda, como o Maio francês, o que chegou a prostituir a própria Igreja Católica. Algo que deveria, de acordo com o papa, ser visto pelos jovens cristãos de hoje como demoníaco, pois foram capazes de se deixar subjugar, em matéria de sexo, por aqueles que proclamavam o inocente “faça amor, não faça guerra”.

Difícil entender que o papa Francisco possa cair nessa dupla armadilha que lhe preparou seu antecessor, Ratzinger, que conseguiu que a Igreja lave as mãos, como Pilatos, de seus escândalos e crimes contra crianças e jovens inocentes que eram deixados sob sua tutela, atribuindo a culpa ao clima de libertinagem sexual que teria criado o Maio de 68. Ao mesmo tempo condena esse movimento libertário e juvenil de esquerda como culpado por ter denegrido os costumes cristãos e até por ter contaminado (pobrezinha!) a própria Igreja de Deus.

Não há melhor presente do que esse documento sibilino do papa neste momento de retorno aos rigores conservadores dos costumes, com nostalgias de teocracias e bebedeiras ideológicas totalitárias que pareciam ter sido derrotadas. Até a Igreja do libertário profeta da Galileia parece querer se juntar a essa dança macabra dos tempos inquisitoriais? Tudo menos reconhecer suas culpas e pedir perdão ao mundo. E tudo menos dar passagem, dentro da Igreja, a uma democracia em que haja espaço para que os cristãos possam respirar sem que ninguém sufoque seus justos desejos de liberdade.

E sem esses tabus de celibatos obrigatórios e obsoletas virgindades. E sem esses machismos impermeáveis para dar passagem às mulheres para que participem da hierarquia. Todo o resto é hipocrisia.

Cid Benjamin

SOU UM OTÁRIO ASSUMIDO

Minha ótica passou a ser a da solidariedade, não a da condenação da pequena trapaça. Quem aplica o golpe é gente que busca alguma forma de sobreviver, escreve Cid Benjamin, jornalista e escritor, em texto publicado por Fórum / IHU

Moro num bairro de classe média do Rio de Janeiro. Como há muitos anos decidi não ter mais carro, além de usar regularmente ônibus e metro, ando bastante a pé. Isso dá outra perspectiva da cidade. Ao caminhar, a pessoa vê um mundo diferente daquele que vislumbra ao volante de um carro, protegido por vidros escuros.

Dito isto, afirmo sem medo de errar: é visível a multiplicação da quantidade de gente morando nas ruas. E quando falo em multiplicação, não exagero. É a mais pura verdade. Não foi um aumento qualquer.

Como consequência das injustiças sociais que vêm de séculos e de um fim da escravidão que abandonou suas vítimas à própria sorte, o Brasil sempre teve pobres e mendigos. Gente pedindo esmola nas ruas e crianças perambulando por elas, eventualmente cometendo pequenos delitos, não são novidades.

No caso do Rio, consolidou-se um contingente de trabalhadores que, desempregados, passam a semana nas ruas do Centro ou de bairros da Zona Sul recolhendo latas vazias de cerveja para vender e revirando latas de lixo de restaurantes, buscando restos de comida. Nas sextas-feiras à noite vão para casa, em bairros distantes da Zona Oeste ou da Baixada Fluminense, para estarem de volta na segunda-feira seguinte. O transporte é caro e não há dinheiro para as passagens todo dia.

Aumentou, também, o número de pessoas largadas nas calçadas, meio dormindo, meio acordadas, alheias ao que acontece ao redor. De tão derrotadas, já nem pedem esmola ou cometem pequenos roubos. Derrotadas pela fome – e, muitas, pelo crack – simplesmente vegetam. Quase não são percebidas por quem passa.

Na música “Construção”, de Chico Buarque, há menção a um trabalhador da construção civil que despenca de um prédio e cai na contramão “atrapalhando o trânsito”. Mal é notado pelos que estão envoltos pelas coisas do dia a dia, salvo pelas consequências que sua queda traz: o engarrafamento, que, este sim, é percebido pelos motoristas e os aborrece. Os mortos-vivos nas calçadas também são invisíveis à maioria. Só são vistos quando atrapalham o vaivém das pessoas. A maioria delas, diga-se, já brutalizada e alheia ao drama humano que se apresenta aos seus olhos. Um drama quase invisível para quem passa.

Há também moradores de rua vivendo em grupo. É gente que mora nas calçadas, mas em situação próxima à de acampamentos. São, às vezes, mais de 15 ou 20 pessoas. Instalam-se embaixo de viadutos com colchões velhos e móveis danificados que recolhem em algum lugar. Dormem durante parte do dia. Sempre acompanhadas por alguns cachorros, que servem de companhia aos mais solitários e de guardiões dos parcos bens de seus donos ou da pequena comunidade.

De certa forma, essa gente está menos largada do que os que vegetam sós nas calçadas. Tem, ao menos, a solidariedade dos que estão a seu lado. Mas está só um pequeno degrau acima dos que vegetam sozinhos. Um degrau quase imperceptível e que, amanhã, pode desaparecer. A fronteira entre eles é tênue, muito tênue.

Cresceu muito, também, o número dos que buscam outras formas de sobrevivência. Quaisquer que sejam. Estes tampouco têm emprego, mas são de uma camada social superior àqueles. Na orla, tocam e cantam em busca de uma gorjeta dos que comem e bebem nos bares. Quase sempre conseguem levantar alguma coisa.

Adoro música e em toda a vida ouvi samba e choro. Nas rodas, sempre canto e chego a empunhar um violão, quando os verdadeiros músicos são amigos e tolerantes com os amadores. Mas o que se ouve na orla está longe do que se poderia chamar de música de boa qualidade. Um pandeiro espancado pelo “percussionista”, um tamborim mal tocado (afinal, todo mundo acha que sabe tocar tamborim…), um tantam primário e, quase sempre, um insuportável cavaquinho (às vezes substituído por um banjo estridente, o que é ainda pior). Não bastasse isso, os “músicos” cantam mal e alto.

Pois bem, toda semana tomo uma cerveja na orla com um grupo de amigos, acompanhando um querido companheiro com quem militei na clandestinidade nos anos de chumbo e que teve um AVC. Ele está em cadeira de rodas e não fala, mas acompanha as conversas. Esse programa, aos sábados, lhe faz muito bem. E para nós, seus amigos, também é muito agradável. Os tais grupos musicais quase sempre aparecem. Quando chegam, ninguém mais conversa em paz, pois, esmerando-se em agradar a “plateia”, os “músicos” cantam a todo volume, achando que assim farão jus aos trocados. Não fosse uma indelicadeza que não merecem, seria o caso de dar-lhes logo a gorjeta com a condição de que fossem baixar em outra freguesia. Mas é gente que está tratando de sobreviver.

Estávamos comentando isso recentemente no grupo a que me referi quando Sérgio Henrique, conhecido por Tchecha – o principal organizador da rede de solidariedade ao nosso amigo doente, e o mais velho da mesa quando não está presente Milton Temer – nos trouxe à razão: “Vamos ter paciência com esses caras. Não tem emprego pra ninguém. Eles estão correndo atrás…”

A partir daí, passei a ver com mais condescendência não só esses “músicos”, como também outro tipo de gente que batalha nas ruas. Por exemplo, os que aplicam um conhecido golpe. Abordam os passantes com uma história que, com poucas variações, é a seguinte: “Moro em tal lugar (uma cidade do interior) e vim ao Rio ver uma oferta de emprego (mostra um endereço). Deu tudo errado e não tenho como voltar pra casa. Tenho isso aqui (mostra algumas notas) e me falta tanto (mostra um papel com as contas) para comprar a passagem”.

Já caí nesse golpe algumas vezes. Em outras, escolado, me recusei a dar o dinheiro. Mas, passei a ver coisas assim com outros olhos. Passei a levar em conta de que essas pessoas prefeririam ter um emprego, em vez de andar por aí tentando passar a perna nos demais. Passei a dar o dinheiro, mesmo sabendo que a história era conversa fiada. Afinal, é coisa pequena o que pedem, em torno de R$ 10 ou R$ 15.

Minha ótica passou a ser a da solidariedade, não a da condenação da pequena trapaça. Quem aplica o golpe é gente que busca alguma forma de sobreviver.

Enquanto esse quadro de terrível desigualdade social se agrava, o presidente da República esbraveja contra o IBGE e a pesquisa que mostra 13 milhões de brasileiros desempregados. Ao reclamar do resultado da pesquisa, Bolsonaro faz mais ou menos como faziam os déspotas antigamente, mandando matar os portadores das más notícias.

Ele e sua turminha braba governam para os ricos. Arrocham cada vez mais os pobres. Agora, querem praticamente acabar com a Previdência pública. Até que a resistência popular vire esse jogo (e para isso não se pode esperar longos quatro anos!!!!), vão aumentar a prostituição infantil, juvenil e adulta, o desamparo à velhice, o abandono de crianças pobres e o número de pessoas nas ruas.

Algumas dessas últimas, prostradas, como mortos-vivos. Outras, maltratando sambas que muitas vezes até são bons. E há, também, as que aplicam pequenos golpes para comer e chegar ao dia de amanhã.

A quem tem consciência do drama que vivemos, resta cerrar fileiras e resistir aos sucessivos ataques aos direitos dos trabalhadores. De minha parte, admito, enquanto faço isso, não deixo mais de dar uns trocados para o cara que vem me contar que precisa voltar para sua cidade natal e reencontrar a família, depois de frustrada a busca de um emprego no Rio.

Não importa que não seja verdade. Por uma questão de humanidade, finjo que me deixo enganar e que caio no golpe. Dou o dinheiro solicitado. Conscientemente.

Daniel Bogner

ESSA IGREJA MATA

Mesmo que seja doloroso, deve-se dizer com clareza e decisão que há algo como um coração obscuro da Igreja, um hábito organizacional, uma densa rede de atitudes e práticas consolidadas. Essa mistura de prática e teoria tem efeitos maléficos que envenenam, em alguns casos se mostram mortais. O que alimenta o núcleo obscuro da Igreja são diferentes elementos e fatores que interagem entre si de maneira regular e sistémica. O texto é de Daniel Bogner, professor de teologia moral e ética na Universidade de Friburgo, na Suíça, publicado simultaneamente em alemão na revista online Feinschwarz e em italiano por SettimanaNews. A tradução da versão italiana é de Luísa Rabolini /IHU

Quão obscuro é o lugar onde os abusos levaram a Igreja? Revelações, confissões e reportagens sobre fatos indizíveis se sucedem ininterruptamente. Até mesmo os bispos falam agora dos "fundamentos sistêmicos" dos abusos. Uma reportagem da rede de televisão Arte (“Religiose abusate: l’altro scandalo della Chiesa”, Abuso de religiosas: o outro escândalo da Igreja, em tradução livre) mostrou como é fácil para os sacerdotes a passagem da função de guia espiritual para o abuso sexual.

Estruturas do mal

É evidente que na Igreja e graças à Igreja existem estruturas do mal. Vamos tomar como exemplo os irmãos Marie-Dominique e Thomas Philippe do norte da França. Eles vêm de uma sólida e clássica família católica. E, no entanto, o que apenas ontem poderia ser considerado um modelo de família cristã (de onze filhos, sete escolheram o ministério sacerdotal), revela-se hoje como um sistema que leva a uma sobre-identificação religiosa.

Os dois irmãos fizeram seus votos na ordem dominicana e fazem carreira na Igreja. Um se torna professor de teologia em Friburgo, na Suíça, bem como espiritus rector da Comunidade de São João, fundada por alguns de seus alunos. O outro é o guia espiritual da comunidade internacional de L'Arca, fundada por Jean Vanier, na qual pessoas com deficiência e pessoais sem deficiência vivem lado a lado.

Mais tarde, ambos os irmãos são acusados de abuso. Quando uma das mulheres abusadas tem um colapso enquanto está com um dos irmãos, ele (Marie-Dominique) a leva para a comunidade da Arca do outro irmão (Thomas), que a abusa novamente. São eventos que deixam sem palavras, precisamente porque não acontecem à margem da Igreja, mas justamente no centro de um catolicismo europeu que se pensava estar vigilante no plano espiritual e sensível no plano social.

O fracasso moral acontece acidentalmente, en passant

De forma similar às contribuições e posições tomadas por Doris Wagner, a documentação apresentada pelo canal televisivo Arte realiza um trabalho indispensável de esclarecimento, que leva ao cerne do problema. Aos nossos olhos, revela-se uma vida eclesial em que não há "linha de demarcação", na qual as práticas ruinosas do ponto de vista moral são realizadas com absoluta impunidade e com tamanha insensibilidade a ponto de torná-las quase banais – quando, aliás, não recebem até mesmo um fundamento teológico-espiritual. Marie-Dominique Philippe, da Comunidade de São João, chegou a elaborar o conceito espiritual do "amour d'amitié" (amor de amizade), no qual a prática do abuso físico-erótico se torna parte integrante da catequese e do acompanhamento espiritual.

E mais ainda: as madres superiores fornecem aos padres as jovens coirmãs, cujas famílias são financeiramente sustentadas como contrapartida para os serviços sexuais de suas filhas (um importante fator de subsistência em muitos países africanos, que torna um membro da família facilmente sacrificável à vida religiosa).

Uma exploração da prostituição exercida a nível institucional, na qual não faltava nem mesmo a obrigação a abortar. Tudo isso no coração da Igreja católica. Praticado, tolerado, permitido e silenciado pelos mais fiéis dos seus sacerdotes e pelos mais eficientes entre os que tinham responsabilidade de liderança. Ficamos sem palavras.

Ninguém é um estranho

Onde esse complexo de eventos nos leva? Podemos medir com precisão sua dimensão? Podemos fazer isso, nós que de alguma forma somos todos parte envolvida de um sistema eclesial que permite tais coisas?

Naturalmente, os primeiros a serem questionados são os vértices da Igreja. São eles que carregam a responsabilidade oficial e institucional. Eles são os primeiros que devem "fazer um movimento".

No entanto, em todo sistema social - e isso também se aplica à Igreja - o estilo do gerenciamento e a legitimidade da liderança também dependem do comportamento da base social, nesse caso, do povo da Igreja. Este último tem sido por demasiado tempo o "fiel rebanho", um corpo social silencioso que se limitou a receber e elaborar as diretrizes espirituais do clero.

É também por essa razão que tudo ficou imóvel por tanto tempo: os impacientes saíram já há bastante tempo, para colocar sua coragem e energia a serviço de outros pagos, enquanto aqueles que permaneceram não quiseram criar problemas – ficaram os perseverantes, os fiéis de bom coração, permanecem aquele que continuavam no caminho sustentados por uma centelha de esperança. Mas, como está claro agora, esse estado de coisas também mudou.

E finalmente, a teologia. Ela também se tornou cúmplice, na medida em que - por razões compreensíveis - preferiu responder a todos os convites possíveis ao diálogo intelectual honesto, em vez de se dedicar à limpeza dos estábulos de Aúgias presentes no terreno que pisava.

Mas quem continua a dizer “ah, a Igreja! Eu não quero saber mais: há coisas muito mais interessantes”, se torna cúmplice da situação atual. A Igreja precisa da teologia, hoje mais do que nunca. Todos nós somos corresponsáveis pela condição atual e pelo que está por vir.

"Aqui você pode fazer!": A Igreja como um espaço de oportunidade

A legitimação dos abusos parece ser uma constelação de relações e fatores internos. Por exemplo, na Igreja é deixado aberto uma espécie de espaço de oportunidade de abuso. Aos indivíduos potencialmente correspondentes ao perfil de abusador é sussurrado um convite velado: "aqui você pode fazer!"

Até recentemente, esperou-se em vão uma reação duradoura e decisiva das organizações eclesiais. Quase sempre aqueles que esperavam indignação e firme vontade de restaurar a orientação moral correta por meio de protestos decididos ficaram desapontados.

Que contradição inaudita: a Igreja, cuja missão é anunciar a mensagem da vida, tornou-se para muitos um lugar onde se vivencia a morte, na qual se experimenta a destruição da integridade pessoal, é lesada a própria dignidade de ser humano, se testemunha à morte da própria alma.

A Igreja poderá recuperar a sua credibilidade e, com ela, o único recurso com o qual pode cumprir sua vocação de existência missionária? Primeiro, deverá ser sincera consigo mesma e coerente na análise.

O núcleo tóxico da Igreja

Mesmo que seja doloroso, deve-se dizer com clareza e decisão que há algo como um coração obscuro da Igreja, um hábito organizacional, uma densa rede de atitudes e práticas consolidadas. Essa mistura de prática e teoria tem efeitos maléficos que envenenam, em alguns casos se mostram mortais. O que alimenta o núcleo obscuro da Igreja são diferentes elementos e fatores que interagem entre si de maneira regular e sistêmica.

A sacralização do invólucro. Sobre os papéis ministeriais e sobre as estruturas em que tais papéis estão inseridos, acumulou-se uma pátina no curso da história da Igreja, uma pátina que faz com que o recipiente, o invólucro, seja agora considerado sacrossanto, venerável em si mesmo. Hoje, o que representa a Palavra divina no tempo e na história é mais o invólucro da Igreja do que sua ação concreta, a prática possibilitada por suas estruturas externas. Os rituais litúrgicos comumente adotados contribuem significativamente para o fenômeno: de fato, do ponto de vista simbólico, eles reforçam a sacralização da exterioridade.

Uma atitude reverencial

Formas e estruturas sacralizadas exigem respeito. Reforçam o temor reverencial que muitos crentes sentem diante dos papéis ministeriais e daqueles que os desempenham. A consciência de que entre os "dois corpos do rei" (Ernst Kantorowicz) existem diferenças reais torna-se cada vez mais apagada, substituída por uma mentalidade de subserviência diante do poder ministerial que, além disso, age "in repraesentatione Christi" e se vale de sua originária "sacra potestas”. Quem poderia objetar? Quem poderia solicitar instâncias de controle ou até de participação? E, por outro lado, consideramos aqueles que desempenham funções ministeriais: alguns deles acostumam-se de bom grado e bem rapidamente a usufruir desse "vento em popa" da sacralidade, dessa espécie de benefício ligado à consagração. É algo a que sabem que podem sempre recorrer quando os meios disponíveis ao humano parecem não bastar.

Uma concepção perigosa de poder

As dinâmicas da sacralização moldaram uma instituição que não só está bem blindada contra as críticas, mas também está praticamente isenta de qualquer controle vinculante que tenha alguma eficácia. Criticar uma instituição e corrigir as suas ações, uma instituição resplandecente de sacralidade: que paradoxo! E, inversamente, por que motivo dividir a potestas de uma instituição cujo poder é ainda "prestado", é um poder do qual se dispõe apenas de forma fiduciária e que nasce de uma única fonte (a chamada "potestade ministerial de Cristo", tantas vezes chamada em causa)?

O conceito neoplatônico de unidade e o cerimonial da corte da antiguidade tardia fizeram o resto, combinando seus efeitos em tornar impossível uma autêntica separação dos poderes – da qual porém hoje falam até mesmo os bispos orientados para reformas. Se quiser levar a sério a inversão de rumo que afirma desejar, a Igreja terá de ir à escola não só dos pensadores e pensadoras da liberdade (de consciência), mas também, e com igual decisão, daqueles e daquelas da liberdade política (em primeiro lugar, Montesquieu, o filósofo da separação dos poderes).

A lealdade no tecido social clerical

Um poder indiviso, reforçado por uma aura de sacralidade e tolerado por um povo da Igreja excluído de qualquer forma de participação efetiva - o quadro delineado até agora é apenas um lado da moeda. O outro lado é composto pelas pessoas e associações que encarnam concretamente esse sistema, no qual devem "acreditar". Como critério de seleção dominante, a tradição da Igreja impôs a esse tecido social clerical um filtro baseado essencialmente no gênero.

Foi assim possível estabelecer um clero homogêneo em relação ao gênero, uma classe que era ao mesmo tempo, e muitas vezes de forma indistinguível, também um sistema religioso de afiliação masculina, com seus próprios rituais de reconhecimento e identificação e fortes mecanismos de fechamento para o exterior.

Por esse enraizamento em tal solidariedade como afiliados (uma solidariedade em que a aura sacral também confere uma extrema eficácia), o status sacerdotal está apto a evocar promessas de legitimação e de satisfação por desejos e ações deficitários do ponto de vista psicossexual. Esse status também veicula - explícita ou implicitamente - uma desvalorização constitutiva do outro sexo, que se condensa de muitas maneiras na prática e na doutrina da Igreja.

Uma espiral de legitimação de longa duração

A esses fatores acrescenta-se uma dinâmica que, embora não concernente apenas à Igreja, assume nela um peso muito especial: onde quer que uma instituição tenha a possibilidade de crescer e se consolidar, nela se desenvolve uma estratégia de autolegitimação baseada em uma "tradição" e na longa duração. Na Igreja, as modalidades comportamentais, as práticas usuais de divisão de papéis, as soluções organizacionais rangem, em alguns casos, sob o peso de muitos séculos. O peso do tempo parece literalmente exalar uma aparente atmosfera de legitimação.

Nessa atmosfera, um diálogo aberto sobre o acesso ao ministério da ordem, sobre o atavismo das estruturas eclesiais ou, ainda, sobre a pluralidade das identidades sexuais, pareceu por muito tempo como uma infração de um tabu - como a ruptura de um acordo tácito sobre o fato de que, afinal, está tudo bem assim como está. Por essa razão, a primeira natureza da Igreja não consiste tanto em uma curiosidade comprometida e responsável, nem na busca de novos caminhos a serem percorridos, mas no esforço contínuo para silenciar os impulsos de renovação e remover conhecimentos antropológicos e psicológicos que, a essa altura, nem são mais nem mesmo novos.

Uma lógica que continua a produzir vítimas

Os elementos descritos até agora, ainda que de maneira provisória, não deixam de interagir entre si, combinando-se de novas maneiras e produzindo efeitos que vão muito além do que foi possível mencionar aqui. Eles constituem o núcleo perigoso da crise da Igreja. Para muitas pessoas, essa Igreja parece estar envenenada. E a sua crise se manifesta em numerosos âmbitos: se começamos a discutir a reforma da Igreja, qualquer tema - as relações entre os gêneros sexuais, a participação dos leigos, as fusões entre paróquias, o burnout dos padres, e assim por diante – isso leva, mais cedo ou mais tarde, a um ou a mais de um desses fatores de crise. Os abusos são o âmbito em que as vítimas são mais visíveis e, claro, as feridas são mais profundas. Enquanto a reação em cadeia desencadeada por esse núcleo incandescente não for interrompida, a Igreja continuará a fazer vítimas em vários setores.

Um excesso de sacralidade

Nenhum dos fatores que mencionamos é capaz, por si só, de produzir diretamente os comportamentos de abuso. Sua interação, no entanto, permite o florescimento de uma subcultura eclesial que só pode ser definida como suporte estrutural dos abusos: um espaço de ação sobrecarregado de "sacralidade", que solicita de maneira excessiva sujeitos que, por causa de sua escolha de vida, são chamados a estreitar relações de reciprocidade.

O fracasso desses sujeitos não é nem previsto nem admissível em nível sistêmico; o fracasso, portanto, deve ser encoberto. Particularmente sensíveis às promessas veladas de "oportunidades" de abuso são pessoas com determinadas disposições básicas: não apenas pessoas com tendências pedófilas mais ou menos manifestas, mas também pessoas que, por natureza, acham difícil manter a devida distância dos outros e tendem a superar os limites com excessiva facilidade.

Ao mesmo tempo, eles também são vítimas desse núcleo tóxico da Igreja. Claro, se for aplicado a eles o termo "vítima", isso pode irritar. Mas quer expressar o fato de que a Igreja oferece uma cultura que favorece a implementação de abusos e não sabe como traçar limites que possam impedir que determinadas predisposições sejam traduzidas em realidade.

Isso, no entanto - dada a natureza excessiva das tendências que habitam em cada um de nós - realmente diz respeito a todos nós; afinal de contas, todos nós nos apoiamos naqueles mecanismos de controle oficial e controle social informal que estão em vigor no estado e na sociedade e que nos ajudam a não nos tornarmos perpetradores ou perpetradoras de abusos.

É precisamente aqui que a Igreja fracassa, uma organização que tem uma relação confusa com a comunicação transparente, a crítica democrática, a diversidade de gênero e o dever de responder publicamente pelas próprias ações.

Com isso não se pretende justificar de forma alguma as ações daqueles que cometeram abusos; o que acaba de ser ressaltado evidencia, sob outra perspectiva, como é problemático o efeito dos "fatores sistêmicos" da Igreja, em qualquer direção.

Os próximos passos

Neste momento, em muitos lugares do mundo, a Igreja volta seu olhar para a realidade dos abusos que descobriu dentro de si mesma. Os bispos alemães reagem inaugurando um "percurso sinodal" que será credível na medida em que conseguirá ser vinculante. Na diocese de Lyon debate-se intensamente sobre a maneira mais honesta de recomeçar ex novo e se talvez não seria oportuno que o bispo, condenado, entregue sua demissão como um sinal de responsabilidade.

Nos Estados Unidos, a Conferência Episcopal está em conflito com o Papa sobre o pacote de medidas contra os abusos sexuais que apresentou. Por seu lado, os bispos africanos, para quem a gestão e elaboração da questão dos escândalos dos abusos vai além de sua força, pedem ajuda das Igrejas europeias. E a lista poderia continuar. Ela nos apresenta uma Igreja que está inquieta e desprovida uma nova orientação comum. Uma orientação que não encontrará se não se inclinar para olhar para o obscuro núcleo tóxico que se esconde em seu próprio interior.

Muitas das ideias que conseguimos abordar aqui apenas brevemente precisam ser profundadas com extrema urgência. Antes de tudo: o que "separação de poderes" pode significar no contexto de uma fé que parte da convicção de poder representar a potestade divina anunciada em Cristo e a eficácia salvífica da fé através de um modelo sacramental dos papéis eclesiais (o ministério da ordem)? E, na mesma linha, não poderia ser talvez oportuno dar à fundamental distância entre os representantes (os escritórios, as práticas e as estruturas da Igreja) e o representado (Deus) uma expressão mais visível e sensível - e isso não apenas na espiritualidade e na linguagem religiosa, mas também na forma organizacional da Igreja, que é visível para todos?

Como poderia tal despotenciação ontológica do ministério sacerdotal e da estrutura da Igreja encontrar aplicação no plano social sem, ao mesmo tempo, causar a perda da nuance peculiar do significado do catolicismo?

"A fé cristã não desaparecerá. Esta igreja, talvez sim"

Estou convencido: a fé cristã não desaparecerá do nosso mundo. Sua mensagem é tão forte e tão carregada de valor que continuará a mover os homens mesmo que, por outro lado, a Igreja ofereça condições tão contraditórias e desfavoráveis a isso.

Além disso, o fato que o encontro entre a palavra de Deus e os homens ocorra cada vez menos através dessa Igreja e, cada vez mais, fora de seus claustros, também pode ser positivo. Há tempo surgiram, e continuarão a surgir, lugares alternativos nos quais os homens podem vivenciar a força libertadora da mensagem divina.

Para os líderes da Igreja a questão é posta nestes termos: pode a Igreja, mantendo sua conformação histórica, permanecer também como um lugar de encontro com Deus (e talvez, até mesmo um lugar privilegiado para tal encontro) - ou voltar a ser tal, assumindo as exigências de renovação que os abusos colocaram diante dos olhos de todos?

No meio, não de cima. A falsa autopercepção da Igreja

O discurso do papa no final do encontro em Roma das conferências episcopais de todo o mundo contra os abusos foi fortemente criticado. Nem todos, no entanto, convergem na adesão às críticas: o papa teria se limitado a especificar o modo em que deve ser considerado o contexto em que se colocam os eventos que interessam a Igreja. Isso está certo, mas as críticas continuam válidas.

O que estava errado, de fato, não foi o conteúdo de seu discurso, mas sua modalidade. Também nesse caso, como sempre, a Igreja falou de uma perspectiva externa a lugares sociais específicos e concretos. Continua a presumir que pode julgar a realidade social com critérios objetivos e com um "olhar de cima". A Igreja Católica considera-se universal e não percebe até que ponto, em vez disso, ela foi apenas um ator específico entre os demais.

Não abre mão de suas pretensões de superioridade moral, enquanto a Igreja fere inacreditavelmente os seus valores, enquanto podem ser identificadas as causas sistêmicas de sua crise e surgem lícitas dúvidas sobre o fato dela realmente querer elaborar essas causas de forma sustentável.

Nesta situação, seria muito mais honesto falar em primeiro lugar, não dos outros, mas de si mesmo. O trabalho que nos espera já é bastante grande. Se será ou não bem-sucedido, não é do conhecimento de ninguém. "Essa economia mata" - foi assim que o papa formulou sua crítica à globalização. Essa Igreja também mata, devemos acrescentar hoje.

Editorial do jornal Le Monde

CATÓLICOS DA FRANÇA: DO ESTUPOR À RAIVA

Depois de uma série de escândalos relacionados com a sexualidade, os fiéis da Igreja desconfiam de uma hierarquia que consideram cada vez mais distante da realidade. Publicamos aqui o editorial do jornal Le Monde, 26-03-2019. A tradução é de Moisés Sbardelotto /IHU

O que é demais é demais. Os católicos da França não ocupam as sacristias das suas igrejas, mas a raiva ferve nas comunidades. Um acúmulo de escândalos ligados à sexualidade fez com que o copo transbordasse.

Os escândalos de pedofilia provocaram uma explosão em toda a Igreja, com a expulsão de um ex-cardeal estadunidense e a condenação a seis anos de prisão do número 3 australiano do Vaticano, ambos acusados de agressão sexual de menores.

A decisão do Papa Francisco, no dia 19 de março, de rejeitar a renúncia do cardeal Barbarin, condenado no dia 7 de março a seis meses de prisão sob liberdade condicional por não ter denunciado os atos pedófilos cometidos por um padre da sua diocese, lançou a imagem calamitosa de uma instituição que busca, acima de tudo, se proteger, longe da “tolerância zero” manifestada.

São todos fatos ocorridos no momento em que o núncio apostólico na França – o representante do papa – era acusado de assédio sexual e, algo ainda mais grave, no momento em que um documentário transmitido pelo canal Arte revelava a extensão das violações contra religiosas por parte de padres, em que algumas freiras, depois, haviam sido forçadas a abortar.

Nem debate, nem diálogo

Da prostração à repugnância, passando pela vergonha, a humilhação, o estupor, os católicos franceses já não se encontram mais na sua Igreja e desconfiam de uma hierarquia que eles consideram cada vez mais autista.

Entre os testemunhos de católicos praticantes que o Le Monde coletou, que expressam a tristeza, a revolta ou o sentimento de terem sido traídos, um fiel que participou da “Manif pour tous” contra o casamento homossexual não consegue entender como um padre que havia sido o seu acompanhador espiritual foi preso por assédio sexual: “Os bispos estão perdidos, os padres estão perdidos, os leigos estão perdidos, e não nos encontramos”.

Esses males afetam uma Igreja da França já muito doente. Se 53% dos franceses se declaram católicos, segundo as estatísticas mais recentes, a prática religiosa está em constante declínio, com apenas 4,5% dos fiéis que vão à missa pelo menos uma vez por mês, e apenas 1, 8% dos fiéis que vão todos os domingos.

O número de padres católicos, segundo dados oficiais, passou de 28.694 em 1995 para 21.187 em 2005. A maioria desses padres tem mais de 65 anos. As ordenações estão em queda livre: oficiosamente, foram contabilizadas 114 em 2018, contra 133 em 2017. Mas chegavam a 300 por ano nos anos 1970.

Um em cada cinco dos novos padres proviria de uma comunidade tradicionalista.

Com a crise atual, pode-se temer que os católicos mais progressistas, próximos do Concílio Vaticano II, serão os primeiros a se afastar da Igreja.

Para muitos católicos, é todo o sistema eclesial que precisa mudar a fim de criar uma cultura do debate e dar mais espaço aos leigos, e especialmente às mulheres, de modo que se engajem mais, em todos os níveis onde as decisões são tomadas.

A crise também fez ressurgir a questão do celibato dos padres. Foi no século XI que a reforma do Papa Gregório VII decidiu que a Igreja não ordenaria mais homens casados. O arcebispo de Poitiers, Dom Pascal Wintzer, expressou-se recentemente a favor de reavaliar essa regra. O debate não poderá ser eternamente evitado.

Edição 146, Março 2019

Francesco Sisci

CHINA-ÁFRICA: RETRATOS DE UMA LONGA HISTÓRIA

O problema da fraqueza cultural e social, antes ainda que institucional, da África continua sendo o maior fardo. Mas a criação de uma nova competição positiva, e não marcada pela violência do passado colonial, está ajudando a criar um novo bem-estar.” A opinião é do sinólogo italiano Francesco Sisci, professor da Universidade Renmin, em Pequim, na China. O artigo foi publicado em Settimana News. A tradução é de Moisés Sbardelotto /IHU

A história das relações entre a China e a África é antiga e tortuosa. Tudo começou no século XV, com as viagens para o Ocidente do célebre almirante muçulmano Zheng He. Ele certamente chegou à costa oriental da África, naquela que hoje está entre a Tanzânia e Moçambique. Porém, as viagens foram interrompidas poucas décadas antes da circunavegação da África por parte dos portugueses no fim do mesmo século. Portanto, as grandes expedições dos chineses foram substituídas pelas pequenas missões comerciais dos ocidentais.

A África para além de Moscovo

Durante séculos, as relações se interromperam e só foram retomadas, essencialmente, com as novas ambições geopolíticas de Mao Zedong. Durante a Guerra Fria, depois de 1960, quando amadureceu a divisão entre Pequim e Moscovo, Mao tentou desenvolver relações independentes com alguns países africanos.

Primeiro, estava a Tanzânia, depois que Gana, liderada por Nkrumah, tivera uma explosão de entusiasmo pró-chinês. Além da Tanzânia, a China começou a estabelecer relações com o Egito. Depois, após a retirada de Portugal das suas colônias no início dos anos 1970, Moscou começou a construir relações também com Moçambique.

No entanto, tais relações eram essencialmente políticas. A China fornecia ajudas técnicas a juros baixos, e a economia chinesa certamente não tinha as dimensões na força para estabelecer uma nova relação estruturalmente diferente com a África.

A mudança de ritmo e de qualidade da relação entre a China e a África começou na segunda metade dos anos 1990, quando o crescimento industrial chinês começava a ter um impacto significativo, com o consequente aumento da necessidade de matérias-primas para alimentar a explosão do crescimento urbano no país.

Reforma empresarial na China

Ao mesmo tempo, a reforma das empresas estatais chinesas havia começado. Elas haviam sido transformadas de instrumentos para substancialmente gerir a paz social – isto é, para gerar postos de trabalho – em instrumentos empresariais muito autônomos que funcionavam para gerar lucro para si mesmas e para o Estado.

Esses dois motores – a busca de lucros das empresas estatais e a necessidade de matérias-primas para a industrialização e a urbanização – colocaram a China em movimento na direção do mundo inteiro – e particularmente da África, rica em matérias-primas necessárias para o país e também em oportunidades de crescimento para as empresas estatais.

Mas a China não tinha recursos financeiros capazes de pagar as contas africanas em breve. Tampouco tinha a força política e militar para impor à África um novo período colonial ou neocolonial, como fizeram os países ocidentais naquele continente até o dia anterior.

Penetração chinesa no continente africano

A China, então, construiu um plano de penetração e de cooperação com a África baseado em três pontos fortes. A primeira coisa que ela fez foi oferecer à África a possibilidade de construir ferrovias, uma infraestrutura a custos muito competitivos comparados aos exigidos pelos países ocidentais.

Além disso, ao contrário dos países ocidentais, a China não insistia em normas de transparência e anticorrupção. Pelo contrário, as empresas chinesas que operavam na África ganhavam os contratos de infraestruturas dando dinheiro à direita e à esquerda para políticos corruptos.

O terceiro elemento, que se fortaleceu no início do século, foi a transferência para a África de velhas instalações industriais chinesas que haviam sido substituídas por novas estruturas de produção. Ou seja, assim como os países ocidentais haviam transferido para a China instalações de produção obsoletas nos anos 1980 e 1990, assim também os chineses transferiam as suas instalações obsoletas para a África.

Uma relação de escambo

No entanto, enquanto a China, poder político grande e ao mesmo tempo forte, tinha uma capacidade de negociação com os países ocidentais, os Estados africanos, muito menores e mais divididos, tinham pouca capacidade de barganha com a China. A sede de matérias-primas africanas por parte da China, nesse sentido, criava uma espécie de escambo entre a China e a África: os africanos davam matérias-primas, a China dava infraestruturas e instalações industriais lubrificadas por generosos subornos.

A estrutura de troca foi extremamente eficiente e, de fato, levou a crescimentos muito importantes em muitos países africanos nos últimos 20 anos. Os pontos de fraqueza desse sistema são conhecidos: difundiram mais corrupção; não levaram benefícios para toda a população africana, até porque, muitas vezes, os chineses levaram para a África seus próprios operários, não confiando nos trabalhadores africanos.

As empresas africanas não obtiveram todas as vantagens possíveis com uma plena cooperação com os chineses, mas, mesmo assim, permaneceram benefícios generalizados. Nos últimos 20 anos, nasceu uma pequena classe média africana.

Recaídas: migração e competição

O fluxo de imigração dos últimos tempos da África para a Europa também decorre disso. Mudar-se do próprio país para atravessar o deserto do Saara para pagar as contas, a água, o transporte tornou-se possível, porque as famílias se comprometem com recursos que geralmente são fruto da melhoria de vida nas últimas duas décadas.

Outro efeito importante da chegada da China à África foi a criação de uma competição e de uma concorrência entre vários países para a entrada nos Estados individuais do continente. Isto é, antes da chegada dos chineses, os países ocidentais dividiram o continente em zonas de influência e criaram verdadeiros monopólios. Por isso, eram impostos aos locais as condições mais convenientes de acordo com Paris ou Londres.

A chegada dos chineses naturalmente mudou a equação das relações. Os países ocidentais podiam ter suas ofertas de cooperação rejeitadas, porque os chineses ofereciam melhores condições. Além disso, na última década, a chegada da China criou uma nova corrida para a África.

De maneira e medida diferentes, muitos países com uma presença antes insignificante no continente estão entrando com mais força. A Rússia aumentou a sua cooperação, graças a uma rede de transportes estabelecidos durante a Guerra Fria.

A Turquia também fez o mesmo, desta vez aproveitando a herança da Irmandade Muçulmana ainda ligada aos tempos do império e do califado. Graças à grande comunidade transferida para a África nos tempos da colonização do continente, algo favorecido pela Inglaterra, ela está buscando novos caminhos de penetração.

O Japão também multiplicou os esforços para entrar em contato mais próximo com o continente africano. Nessa competição, portanto, os países africanos teoricamente podem obter de cada país melhores condições de investimento e de comércio.

O que vem pela frente na África?

Naturalmente, a maior atenção em relação à África, o aumento da concorrência, o início de um verdadeiro processo de industrialização do continente não são a panaceia para todos os males. Em vez disso, podem se tornar até um acelerador das profundas distorções dos vários países africanos.

Como será distribuído o benefício desses recém-chegados, dessa nova atenção? Ficará concentrado apenas na cúpula das velhas lideranças corruptas do continente ou chegará a mudar o tecido social dos vários países?

As respostas para essas perguntas não podem vir de fora. A imposição de modelos institucionais ocidentais não resolve automaticamente os milhares problemas de corrupção profunda. Nem no passado a aplicação de sistemas mais autoritários, como os propostos pela antiga União Soviética, surtiu efeitos melhores.

O problema da fraqueza cultural e social, antes ainda que institucional, da África continua sendo o maior fardo. Mas a criação dessa nova competição positiva, e não marcada pela violência do passado colonial, está ajudando a criar um novo bem-estar.

Sergio Ramírez

ERNESTO CARDENAL E SUA VOZ PROFÉTICA

Velho revolucionário, poeta místico e padre popular, Ernesto Cardenal acaba de ser reabilitado pelo Papa em suas funções clericais, que haviam sido retiradas por João Paulo II devido a sua adesão à Teologia da Libertação. Hoje, o poeta nicaraguense que foi ministro da Cultura da Revolução Sandinista, é um dos mais convictos críticos ao governo de Daniel Ortega. Esta é a história de Ernesto Cardenal contada por seu amigo e companheiro de lutas, o escritor Sergio Ramírez, ex-vice-presidente da Nicarágua, em artigo publicado por Nueva Sociedad e reproduzido por CPAL Social. A tradução é do Cepat /IHU

Ernesto Cardenal foi meu vizinho de rua mais ou menos quarenta anos em Manágua. Nós nos encontrávamos na hora do café da manhã para me deixar o que havia escrito, talvez naquela manhã, e quando eu terminava um romance, também deixava com ele, assim que saía da impressora. Foi um dos meus professores de prosa, porque em sua poesia eu aprendi muita arte narrativa e a cadência das palavras.

Eu o conheci em 1960, quando recém-regressava de Medellín, onde se tornou presbítero, e acabava de presidir sua primeira missa em Manágua, embora desde de antes sua poesia havia marcado não apenas o meu rumo literário, mas a de toda a minha geração. Mestre, meu companheiro de lutas na Nicarágua sempre convulsiva, um irmão mais velho que eu sempre tive ao meu lado.

Sua marca é muito profunda e visível na grande poesia latino-americana. Essa natureza narrativa de sua poesia, que me marcou e me seduziu desde a adolescência, é o que foi batizado de exteriorismo, termo que pode levar a confusões pois parece negar sua dimensão íntima.

Ernesto aprendeu a prosa transposta para a poesia com Whitman e Sandburg, que lhe ensinaram uma letra mundana e quotidiana, e a minha geração ele também descobriu a T.S. Elliot e Ezra Pound, a quem traduziu. Assim, ele fez a poesia nicaraguense seguir sendo moderna, como começou a ser desde Rubén Darío.

Narrativa é a poesia da Hora 0 de 1957, um relato das ditaduras tropicais da América Central e as intervenções militares, que longe de ter algo panfletário, funciona como uma dolorosa evocação. E a partir desse registro, passará para Gethsemani Ky, de 1960, onde coloca em contraponto seus turbulentos anos de juventude em Manágua com sua vida de noviço trapista em Kentucky, onde se encontrou com Thomas Merton, seu mestre de noviços.

Em seguida, virão seus Epigramas, de 1961. Entre eles, figuram alguns de seus poemas mais populares, os de tema de amor, de engenhosa precisão, alimentados por suas leituras académicas de Catulo e Marcial, enquanto estudava humanidades na Universidade Autónoma do México.

A morte de Marilyn Monroe, em 1962, inspirou sua elegia à garota que, como toda funcionária de loja, sonhava em ser uma estrela de cinema, uma profunda reflexão sobre a fabricação dos ídolos do espetáculo à custa dos próprios seres humanos elevados aos altares do espetáculo da fama. É um dos seus poemas mais difundidos e célebres.

Em 1966, viria El estrecho dudoso. Apegando-se à letra das crónicas das Índias, que revive episódios da conquista em torno da obsessão pelo Estreito Duvidoso, a passagem para o mar do Sul buscado tão ansiosamente desde então, e que teve tanto a ver até hoje com a ambição pelo canal interoceânico, o último desses episódios protagonizado pelo aventureiro Wang Ying, que, apesar do engano, um canal que nunca será construído, segue sendo dono de uma concessão que lhe entrega por cem anos a soberania do país.

Ordenado padre em 1965, Ernesto fundou no mesmo ano a comunidade de Solentiname, no Grande Lago da Nicarágua. Uma comunidade que primeiro seria contemplativa, idealizada com Merton, onde supôs vir morar ao lado de seu discípulo. A morte o impediu e a comunidade se tornou camponesa. Lá floresceu uma escola de pintores e escultores primitivos que chegaram a adquirir fama internacional. Em Solentiname, seria visitado por Julio Cortázar, em 1976, que foi lembrado em seu conto Apocalipse de Solentiname.

Nesse mesmo ano, são os Salmos, decorrentes de sua leitura do Antigo Testamento, mas trazidos para a vida moderna: opressão, sistemas totalitários, genocídio, campos de concentração, ameaças de cataclismo nuclear, sociedade de consumo descontrolada. Foi um livro de influência transcendental para jovens alemães e outros países europeus.

Após o triunfo da revolução sandinista, em 1979, foi nomeado ministro da Cultura, um cargo que aceitou apesar de sua relutância frente à burocracia. Realizou um processo transformador cercado por jovens cineastas, escritores, artistas plásticos, cantores e compositores. Ao mesmo tempo, seu irmão Fernando, um sacerdote jesuíta, assumiu o comando da Cruzada Nacional de Alfabetização.

Viveu circunstâncias amargas naqueles anos, quando foi forçado a renunciar a seu cargo por causa das intrigas da primeira-dama Rosario Murillo, que queria para ela todas as atribuições culturais, sem perceber que atropelava uma das principais figuras literárias fundamentais da língua. Em seu livro de memórias La revolución perdida, publicado em 2004, é possível ler sua avaliação implacável sobre aqueles que se apropriaram indevidamente da revolução, na qual se comprometeu profundamente com sua fé cristã.

O Vaticano o suspendeu 'a divinis', por sua adesão à Teologia da Libertação e por se recusar a renunciar a seu cargo de ministro, e quando João Paulo II visitou a Nicarágua, em 1983, tornou-se famoso pela fotografia do momento em que, com o dedo levantado repreende a Ernesto, que está ajoelhado com a boina basca na mão.

Em fevereiro deste ano, o Papa Francisco lhe enviou uma carta na qual anulava essas sanções e restabelecia sua condição presbiteral. Em seu leito de hospital, em Manágua, o Núncio Apostólico lhe colocou a estola e ambos concelebraram uma missa de louvor.

Sua escrita deu um giro transcendental com o Cântico Cósmico, de 1989. Sua comunicação mística com a divindade se converte uma relação de erotismo pleno, a alma que é acoplada ao seu criador na mais exaltada das alegrias, como na poesia de São João da Cruz e Santa Teresa.

A exploração dos céus nesse livro é também a das memórias de seu passado, da antiga Granada de sua infância, das garotas que amou na adolescência, de sua juventude de cantinas, festas banais e bordéis, como se ele virasse o telescópio para dentro de si mesmo.

Um grande final de festa de sua obra e vida onde se fundem os mistérios da criação e da existência, dos buracos negros à célula, das galáxias perdidas aos prótons, e onde o seu olhar místico busca no Criador a explicação do todo, amor, morte, poder, loucura, passado e futuro, formas da eternidade.

Fora do hospital, onde foi várias vezes nos últimos meses, retomou a escrita, algo que se tornou consubstancial à sua vida. Seu ofício para sempre.

Ignacio Muro

O FEMINISMO E OS CUIDADOS OXIGENAM A ECONOMIA

A economia dos cuidados abre todas as portas que a ortodoxia econômica gostaria de manter fechadas: desde ‘o que é produzir riqueza’ até que sentido tem ‘a gestão do tempo’ ao longo da vida. Colocar no centro esses debates é a maior contribuição que o feminismo está trazendo à economia, escreve o economista Ignacio Muro, especialista em modelos produtivos e em transições digitais, em artigo publicado por Economistas Frente a la Crisis. A tradução é do Cepat /IHU

Voltar a falar da vida que queremos, da sociedade que queremos, é falar do tempo humano como referência básica da vida e base de um novo Contrato Social.

O momento atual reivindica uma profunda reordenação das hierarquias entre os espaços que identificamos com a produção de bens e serviços – a única reconhecida pela economia – e a reprodução social, ou seja, as atividades conectadas à sustentabilidade e reprodução da sociedade: ter e criar filhos, formar os jovens, cuidar dos avós, atender os doentes e manter a organização de lares e comunidades.

Essa visão nos obriga a dar conta de uma bateria de soluções à denominada “crise dos cuidados”: um conjunto muito diverso de conflitos e demandas que vão desde a divisão das tarefas do lar à licença-paternidade, da diminuição da diferença salarial às rendas básicas, dos despejos à segurança alimentar...

Todas elas questões situadas nos espaços da reprodução social, tão centrais para a atual conjuntura, como as lutas de classes no âmbito da produção no capitalismo tradicional.

Esta situação tem suas raízes na dinâmica estrutural do capitalismo financeiro, que obtém sua rentabilidade de qualquer espaço. Não só extraindo mais-valia das classes populares tradicionais (do velho proletariado, do autônomo, das classes médias profissionais, das pequenas e médias empresas nacionais), como também de qualquer empresa, administração ou família endividada, de qualquer recurso público estatal, regional ou local (aposentadorias, desemprego, dependência) e de qualquer estrutura social fragilizada.

A reordenação do tempo humano como referência vital

A economia dos cuidados abre todas as portas que a ortodoxia econômica gostaria de manter fechadas: desde “o que é produzir riqueza” até que sentido tem “a gestão do tempo” ao longo da vida. Colocar no centro esses debates é a maior contribuição que o feminismo está trazendo à economia.

Obriga a recuperar o foco sobre a diminuição, racionalização e flexibilização dos tempos produtivos (redução da jornada de trabalho, trabalhos de tempo parcial voluntário e jornadas flexíveis, licença-paternidade e bolsas de conciliação familiar, reordenação horária, teletrabalho e direito à desconexão). Não é concebível que as potencialidades de produtividade trazidas pelas mudanças tecnológicas não redundem, como sempre ocorreu na história, em uma diminuição e racionalização do tempo de trabalho.

Obriga a reconsiderar e a tornar tangível o valor dos tempos considerados “não produtivos”: os dedicados a atender necessidades familiares básicas (infância e velhice, doença, incapacidade) e as outras atividades domésticas de apoio (higiene, limpeza, ordem, companhia). Implica denunciar a máxima expressão da contradição entre valor e preço: as coisas mais importantes são ignoradas e invisibilizadas porque acontecem “no lar” e não tem repercussões mercantis; e o que tem preço, ainda que seja ilegal e oculto como a prostituição ou o tráfico de drogas, atividades que foram incluídas de repente no PIB em 2010, é reconhecido como valor.

Obriga a colocar o foco em como reconstruir o espaço vital coletivo, seja urbano ou rural, que diminua os tempos mortos (deslocamentos, abastecimentos, manutenção, limpeza) e maximize os tempos vivos compartilhados (formação, família, descanso, ócio). De forma muito especial, confronta-nos com o custo crescente da moradia símbolo da contradição geográfica fundamental que provoca a centralização do capital imobiliário no coração das grandes cidades e os maiores deslocamentos diários dos trabalhadores, com custos crescentes – em tempo e dinheiro –, para lugares marginais ou periféricos.

Sobre o mercado e os recursos públicos

O último capitalismo tende a exprimir, cada vez mais, um conjunto de capacidades sociais chaves para a vida. E faz isso de duas maneiras: como norma, socializando o encargo e transferindo às mulheres das famílias um esforço excessivo crescente e invisível. Mas também quando dessas atividades sociais surgem perspectivas de lucro, privatizando sua gestão, externalizando serviços e contratando filiais de grandes corporações.

Sirva como paradigma a CLECE, uma empresa multisserviços, filial do Grupo ACS, que administra a Residência da Fundação Rainha Sofia Alzheimer, de titularidade pública, um lugar denunciado porque faltam fraldas ou lençóis para trocar os anciãos, fazendo-lhes passar dias sobre sua própria urina, com cuidadoras cobrando 600 euros ao mês, enquanto declara milhões em lucros.

Há espaços em que a lógica do mercado deveria ser vetada. Faz sentido melhorar a oferta de serviços de abastecimento, manutenção e limpeza do lar, local onde a economia digital está se destacando por suas maiores vantagens. Contudo, nunca no que se refere aos elementos centrais da convivência, como são os cuidados.

Quando o Estado se inibe, a mulher sofre

Uma passagem pelos dados comparados de diferentes países confirma que as carências e desequilíbrios dos serviços públicos desembocam em desequilíbrios de gênero.

As horas diárias que as famílias dedicam às tarefas do lar, aquelas que não são cobertas por serviços profissionais remunerados, são menores e mais divididas nos países nórdicos europeus, com bons serviços públicos (Suécia, Noruega) e maiores e mais feminizadas nos países mais dependentes do mercado (Itália) ou com culturas mais patriarcais (Japão, México, Turquia, Índia).

Obviamente, as medidas não refletem as diferenças de classe dentro de um mesmo Estado. Em camadas profissionais médias, a diminuição do tempo ocupado pelas mulheres em tarefas do lar, nem sempre significa que os homens façam mais, mas, ao contrário, que terceirizam as tarefas domésticas, contratando outras mulheres normalmente migrantes.

É nesse ambiente que a noção de “feminismo liberal” ganha sentido, pois significa substituir a desigualdade de gênero entre homens e mulheres por uma desigualdade de classe. O que é criar riqueza? O PIB não se limita a quantificar a produção registrada pelo mercado. A contabilidade nacional também inclui no PIB os bens e serviços de não-mercado, que são aqueles que, como a saúde ou os cuidados, são proporcionados aos lares individuais, de forma gratuita pelo Estado ou a preços economicamente não significativos, por instituições sem fins lucrativos.

Quando esses bens são sustentados pelas famílias, são invisíveis e não reconhecidos. Só quando as lutas sociais obrigam a assumi-los como novos bens públicos, aflora de repente essa riqueza oculta, expressão do conceito de valor social que a sociedade exige em cada momento.

Sigamos por isso.

Alberto Fernández Liria

É NECESSÁRIA UMA PSIQUIATRIA CRÍTICA QUE CONTRIBUA PARA UM PROCESSO DE LIBERTAÇÃO”

A psiquiatria crítica se opõe ao modelo biomédico vigente, em cujo eixo se situa o diagnóstico e os tratamentos para o que se considera doenças mentais por alterações bioquímicas. Alberto Fernández Liria contrapõe a esta ideia as palavras de Harry Stack Sullivan, em 1953: “Dizia que um psiquiatra é um especialista em relações pessoais””, escreve o jornalista Enric Llopis, em artigo publicado por Rebelión. A tradução é do Cepat /IHU

Na Argentina, 15% da população entre 12 e 65 anos – cerca de três milhões de pessoas – consumiram tranquilizantes ou ansiolíticos alguma vez na vida, com ou sem receita médica, segundo o estudo sobre o consumo de psicofármacos, publicado em 2017 pela Secretaria de Políticas Integrais sobre Drogas da Nação Argentina (SEDRONAR). A maioria destes tranquilizantes se inscrevem no grupo das benzodiazepinas. A pesquisa aponta que 1,3% da população (mais de 24.000 pessoas) consumiu estimulantes ou antidepressivos, principalmente do grupo dos Inibidores Seletivos de Recaptação de Serotonina (ISRS). Nos Estados Unidos, 12,7% da população maior de 12 anos, em maior porcentagem mulheres, tomaram medicação antidepressiva entre 2011 e 2014 no último mês, informou o Centro Nacional de Estatísticas da Saúde (2017).

A depressão afeta mais de 300 milhões de pessoas no planeta, segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS). O organismo das Nações Unidas ressalta que no período 1990-2013 as pessoas com depressão ou ansiedade aumentaram em 50%, de 416 milhões para 615 milhões. Em março de 2016, a OMS informou sobre um estudo dirigido pela organização, no qual também se media o impacto econômico e sobre a produtividade trabalhista: “Cada dólar investido na ampliação do tratamento da depressão e a ansiedade rende quatro dólares em melhora na saúde e capacidade de trabalho”.

O psiquiatra e ex-presidente da Associação Espanhola de Neuropsiquiatria, Alberto Fernández Liria, é uma das vozes críticas ao modelo imperante de Psiquiatria e “saúde mental”. Em seu blog, detalha que participa desde os anos 1980 nos movimentos de transformação da assistência psiquiátrica. Atualmente, faz parte da direção da Área de Gestão Clínica de Psiquiatria e Saúde Mental do Hospital Príncipe de Asturias, em Alcalá de Henares. É coautor, entre outros livros, de Intervención en crisis (2002), Violencia y salud mental (2009) e Terapia narrativa basada en atención plena para la depresión (2012), os dois últimos junto com Beatriz Rodríguez Vega. Suas reflexões podem ser lidas na Revista da Associação Espanhola de Neuropsiquiatria (AEN) e em Átopos (Saúde Mental, Comunidade e Cultura), entre outras publicações.

Há alternativa?, questiona-se Fernández Liria no artigo intitulado La enfermedad mental como respuesta psíquica al fallo social (Átopos, n. 4). Uma das possibilidades, aponta, é “devolver à vida íntima e ao mundo das relações interpessoais boa parte do terreno conquistado nas últimas décadas pela “doença”. Como exemplo das formulações críticas, menciona no texto ao psiquiatra estadunidense Allen Frances, apesar de em seu momento ter participado da construção do Manual Diagnóstico e Estatístico dos transtornos mentais (DSM, na sigla inglesa) da Associação Americana de Psiquiatria, best seller da ideologia oficial (“A Espanha tem um grande problema, quase todo mundo toma algum comprimido”, afirmou Frances em uma entrevista a Jot Down).

O texto da Átopos destaca o interesse que as teorias da “indicação de não-tratamento” – com contribuições como a do psiquiatra Alberto Ortiz Lobo - ganham, e também da Divisão de Psicologia Clínica da Associação Britânica de Psicologia, que questiona as classificações do DSM. A psiquiatria crítica se opõe ao modelo biomédico vigente, em cujo eixo se situa o diagnóstico e os tratamentos para o que se considera doenças mentais por alterações bioquímicas. Alberto Fernández Liria contrapõe a esta ideia as palavras de Harry Stack Sullivan, em 1953: “Dizia que um psiquiatra é um especialista em relações pessoais”.

Fernández Liria apresentou no Centre La Nau, da Universidade de Valência, seu último ensaio: Loucura de la Psiquiatría. Apuntes para una crítica de la Psiquiatría e la ‘salud mental (Declée, 2018), em um ato organizado pela Escola Europeia de Pensamento Lluis Vives. O ponto de partida está em que a Psiquiatria não é uma ciência – sim, a Biologia ou as Matemáticas são –, mas, ao contrário, uma tecnologia – como a arquitetura ou a medicina -, que tem como finalidade a produção de um bem social. Uma das teses centrais do livro é que as sociedades definem, em cada período histórico, o objetivo da Psiquiatria. Assim, “o conceito de doença mental adquire sua importância a partir do momento em que os médicos são chamados a se tornar responsáveis pelos hospitais psiquiátricos – herdados do Antigo Regime –, em fins do século XVIII e inícios do XIX”, explica o autor.

Atualmente, em um contexto de crise e ofensiva neoliberal contra a saúde pública, a Psiquiatria enfrenta questões centrais como a autonomia. Por um lado, este princípio foi reivindicado frente ao “encarniçamento terapêutico”, o paternalismo na atenção médica e o poder dos especialistas, que podem tomar decisões a partir de critérios arcanos – inclusive logaritmos – que ultrapassam o controle do paciente. No entanto, pondera Fernández Liria, “a defesa da autonomia foi utilizada pelos partidários do neoliberalismo”. Um exemplo é a Lei 6/2009 de Liberdade de Escolha na Saúde da Comunidade de Madri, aprovada durante o mandato de Esperanza Aguirre (PP) e que – afirma no preâmbulo – “fortalece a capacidade dos cidadãos em participar realmente na tomada de decisões relacionadas a sua saúde”.

Algumas aplicações durante os últimos anos caminharam pelo cálculo de custos e benefícios. Assim, o Governo da Grã-Bretanha impulsionou, em 2008, a iniciativa Melhorando o Acesso aos Tratamentos Psicológicos (IAPT, na sigla inglesa), com a finalidade de ampliar a terapia em atenção primária. Sobre a intenção deste programa, Alberto Fernández Liria destaca que, em 2006, a London School of Economics havia advertido sobre o custo econômico que as baixas trabalhistas por depressão e ansiedade estavam causando à seguridade social.

Nos anos 1950, aparecem os psicofármacos. Em meados dos anos 1980, a multinacional estadunidense Lilly começa a comercializar a fluoxetina com a marca “Prozac”. O que aconteceu com estes antidepressivos do grupo ISRS? “Impulsionados por uma campanha de marketing sem precedentes, para a qual contribuíram Lilly, GSK, Pfizer, Lundbeck e outras grandes companhias, o uso dos ISRS se estendeu por todo o mundo”, afirma o autor de Locura de la Psiquiatría (uma demonstração do poder atual da indústria farmacêutica e a saúde é que, durante 2018, fechou compras em um valor aproximado de meio bilhão de dólares, 31% a mais que no ano anterior, segundo dados da plataforma Dealogic, citados pelo jornal Expansión).

O comércio dos fármacos contra a depressão foi se ampliando, com o suporte de ensaios clínicos em ocasiões duvidosas. Há pouco tempo, acrescenta o psiquiatra, o tratamento com os ISRS se estendeu para os transtornos de ansiedade, obsessivo-compulsivo e do comportamento alimentar; também à fobia social, o tabaquismo, a insônia, o estresse pós-traumático e a dor crônica. Mas, se dá a circunstância de que nem os antidepressivos ISRS, nem os tranquilizantes benzodianos são inócuos. Alguns discursos da OMS contribuíram para alimentar a maquinaria farmacológica, por exemplo, a previsão – reiterada em múltiplas ocasiões – de que a depressão seria, em 2030, a principal causa de morbidade no planeta; em 2011, o organismo da ONU atribuía aos transtornos mentais não tratados 13% da “carga de morbidade mundial”.

Enquanto isso, a preponderância dos especialistas e o reducionismo biomédico “se desfez do empecilho das escolas que se baseavam na exploração de significados pessoais ou no contexto, como a Psicanálise, a Fenomenologia ou a Psicologia Comunitária”, explica o coautor de La práctica de la psicoterapia: la construción de narrativas terapéuticas (2001).

Em que medida o diagnóstico de transtornos por déficit de atenção e hiperatividade, ou por ansiedade e depressão, não fazem a não ser rotular como disfunções as reações automáticas de adaptação ao meio? São realmente desequilíbrios neuroquímicos e não respostas selecionadas por milênios de evolução? A que responde a expansão – até o grau de epidemia – dos chamados transtornos mentais comuns? Alberto Fernández Liria aponta uma possível explicação para além da clínica e os comprimidos: “Certamente, estamos diante de exigências para as quais nossos organismos estão pouco preparados, além da ausência dos mecanismos de apoio mútuo com os quais a espécie humana enfrentou a adversidade”. Neste ponto irrompe a política.

Edição 145, Fevereiro 2019

Robert Shine (da Holanda)

MINISTROS DA PASTORAL GAY PUBLICAM CARTA ABERTA AO PAPA

Ministros da pastoral gay da Holanda publicaram uma carta aberta ao Papa Francisco, protestando contra o banimento de padres homossexuais pelo Vaticano, e alegando que a credibilidade do Evangelho está em perigo pela atitude da Igreja sobre a homossexualidade. O artigo é de Robert Shine, publicado por New Ways Ministry. A tradução é de Natália Froner dos Santos /IHU

O Grupo de Trabalho dos Pastores Gays Católicos (WKHP), que representa mais de 40 padres homossexuais, diáconos e ministros leigos da Holanda, escreveu a carta, datada de 9 de outubro de 2018, e assinada pelo presidente Frans Bossink, publicada em seu sítio esta semana. Este comunicado chega à frente da cúpula do Vaticano sobre abusos sexuais do clero, que começa na próxima semana.

Em questão na carta, está a atual proibição do Vaticano de aceitar homens gays no sacerdócio, que o Papa Francisco reafirmou em 2016, uma política sobre a qual os membros do grupo de trabalho estão "profundamente infelizes".

O grupo listou seis objeções à proibição de padres homossexuais.

Primeiro, a proibição do Vaticano “ignora completamente” a realidade de que já há inúmeros padres gays no ministério, o que “sempre foi o caso”.

A carta continua: “Neste documento padres homossexuais recebem, implicitamente, a mensagem de que (a) eles não servem para esse trabalho por conta de sua orientação sexual, e (b) eles nem deveriam ter se tornado padres. Essa mensagem pode ser entendida facilmente por eles como uma desqualificação, portanto, pode ser onerosa e desmotivadora em relação ao seu ofício como sacerdotes. Certamente, é como nós mesmos sentimos o documento.”

A real questão, de acordo com o grupo, não é a orientação sexual, e sim sobre como sacerdotes e homens em formação lidam com sua sexualidade: "Seminaristas e sacerdotes heterossexuais e homossexuais que estão cientes da natureza de sua sexualidade, que a aceitam como dada por Deus, que não se envergonham, que podem (aprender a) falar sobre isso de maneira apropriada e significativa, e que podem (aprender a) lidar com isso adequadamente em seu papel como sacerdote (ou seminarista), não são o problema em nossa opinião. Pelo contrário, eles podem e funcionam bem, e têm um papel valioso a desempenhar dentro de nossa Fé e Igreja.

“Seminaristas e padres que negam ou reprimem sua sexualidade para si e para os outros, têm mais chances de manifestar-se como sendo eles o problema, no contexto de nossa Fé e Igreja. Uma séria de desequilíbrios, abusos e condutas inapropriadas para com os outros e consigo mesmos pode ser o resultado.”

A carta do grupo pastoral responsabilizou o Vaticano, e potencialmente o próprio Papa, de acreditar que padres abertamente homossexuais são os responsáveis por abusos sexuais do clero. A carta desafia esse mito: “Nós acreditamos que a atual crise a respeito do contexto [da homossexualidade] é principalmente o resultado de desaprovação, repressão, negação e a fraca integração da sexualidade, e especialmente da homossexualidade, por parte de muitos padres individuais e dentro de nossa Igreja como um todo. Uma pessoa é simplesmente incapaz ou não está disposta a discutir, ou é proibida de mencionar, exceto dentro do sacramento da confissão. Em nossa opinião, isso é prejudicial para a Igreja como um todo e para os próprios sacerdotes (gays) em particular".

Os membros do grupo ampliaram seu escopo ao sugerir que a abordagem da Igreja em relação à homossexualidade indica problemas mais amplos: “Nossa avaliação é que a maneira pela qual nossa Igreja Católica Romana lidou com pessoas homossexuais, falou e escreveu sobre isso até os dias de hoje, não é algo que tenha sido recebido positivamente na Holanda. Isto é igualmente verdade para não-católicos, tanto quanto para os católicos. A pregação do evangelho e sua credibilidade é e continuará sendo afetada negativamente com essa atitude em relação à homossexualidade”.

A carta termina com um apelo ao Papa Francisco para intervir e derrubar a proibição do Vaticano sobre o sacerdócio de homossexuais, juntamente com membros expressando sua vontade de encontrar-se com o Papa ou seus representantes para continuar a discussão.

A questão dos sacerdotes gays talvez seja levantada durante a cúpula de fevereiro, já que o debate da homossexualidade está relacionado com a pauta dos abusos sexuais. A própria liderança de Francisco tem sido sombria. Em 2013, ao ser perguntado sobre o assunto, ele deu sua famosa declaração “Quem sou eu para julgar?”. Em maio de 2018, foi relatado que o Papa disse a bispos italianos para “manter seus olhos abertos” sobre estes candidatos e “quando houverem dúvidas, melhor não deixá-los entrar”. Então, em dezembro, em uma entrevista, o Papa falou que a existência de padres gays é “algo que me preocupa”. Os holandeses estão certos em pedir que Francisco seja mais claro sobre o que ele pensa sobre a questão dos padres gays.

Enquanto isso, as opiniões dos bispos sobre homossexualidade e o clero são mistas. A situação da Alemanha exemplifica essa divisão: algumas autoridades disseram que aceitarão gays no seminário, enquanto bispos do alto escalão promovem discursos homofóbicos. Muitos católicos rejeitam as teorias que ligam sacerdotes homossexuais aos abusos, mas, como Jamie Manson, do National Catholic Reporter, apontou recentemente, o Vaticano ainda confia na ciência do lixo desmistificada em suas políticas.

O diretor executivo do New Ways Ministry, Francis DeBernardo, sugeriu ao Metro Weekly que parte dos ataques negativos contra padres gays pode estar ligada a ataques de direita contra o papa: “Existem defensores anti-gays na Igreja que têm, há muito tempo, acreditado no mito de que se você é gay, é também sexualmente ativo, o que é uma definição totalmente ignorante e irresponsável. Aqueles que pedem o bode expiatório de padres gays são os mesmos que querem derrubar o papado do Papa Francisco, porque o veem como muito liberal. Fazer a acusação de que ele está protegendo padres gays é uma maneira de enfraquecer sua autoridade. E isso funciona, pois, como provar que não existem padres gays? É como o bicho papão no armário. Se você mencioná-lo, está assumindo que ele é real”.

Como esses debates vão se desenrolar na próxima semana, de facto, se eles serão levantados, não está claro. Francis DeBernardo, da Bondings 2.0, estará fazendo reportagens de Roma com qualquer evolução. Mas por enquanto, é um sinal de esperança e bem-vindo à Igreja que esses ministros holandeses se manifestem publicamente em defesa dos padres gays que oferecem tanto ao povo de Deus.

O New Ways Ministry relançou nossa campanha “O Dom das Vocações dos Sacerdotes Gay” para mostrar nosso apoio aos homossexuais e religiosos que fielmente, respeitosamente e eficazmente serviram ao Povo de Deus, e para pedir aos líderes da igreja que acabem com as falsidades e acabem com a proibição de padres gays.

Donatella Di Cesare

EM LOUVOR DA DESOBEDIÊNCIA

Os novos desobedientes são perigosos fora-da-lei, que deveriam ser condenados criminalmente, ou são cidadãos exemplares a cuja audácia se deve à vitalidade da democracia? Ameaçam a ordem pública ou permitem refrear o ódio pelo outro, o racismo, as discriminações, em nome de uma sociedade aberta? Assim pode ser sintetizado o dilema sobre o qual se concentrou, nos últimos anos, o debate filosófico, jurídico e político sobre o grande tema da desobediência civil”. O texto é de Donatella Di Cesare, filósofa italiana, publicado por Corriere della Sera. A tradução é de Luisa Rabolini /IHU

Não se dobrar às imposições da lei que se considera injusta é um ato de responsabilidade para com a própria consciência. Os exemplos de Antígona e Sócrates, a lição instrutiva do caso de Eichmann. Os novos desobedientes são perigosos fora-da-lei, que deveriam ser condenados criminalmente, ou são cidadãos exemplares a cuja audácia se deve à vitalidade da democracia? Ameaçam a ordem pública ou permitem refrear o ódio pelo outro, o racismo, as discriminações, em nome de uma sociedade aberta? Assim pode ser sintetizado o dilema sobre o qual se concentrou, nos últimos anos, o debate filosófico, jurídico e político sobre o grande tema da desobediência civil.

Um debate que passou gradualmente à ordem do dia também por causa de novas formas assumidas pela contestação social. Como em muitos outros casos, o ponto de virada foi determinado pela experiência totalitarista do século XX, quando a obediência zelosa do executor implacável apareceu em toda a sua monstruosidade. Sobretudo porque a razão, à qual se obedecia, não era mais aquela dos direitos universais, mas a fria e anônima racionalidade do cálculo impessoal. Diante dos inéditos "monstros da obediência", como os chama Frédéric Gros no livro que agora chega às bancas Disobbedire (Desobedecer - em tradução livre -, da Einaudi), diante de Adolf Eichmann, o planejador logístico da Solução Final, que em 1961 proclamava no tribunal que ele tinha simplesmente seguido ordens, a questão se mostrava sob uma luz completamente diferente. Obedecer significa, no final das contas, não ter que prestar contas de nada a ninguém, nada pelo que responder. Resumindo: a responsabilidade aparecia em uma relação muito diferente com a obediência. Aquele que se submetia passivamente parecia totalmente desresponsabilizado. A "estupidez" de Eichmann, para citar Hannah Arendt, estava justamente na ausência de juízo, na repetição de clichês, no automatismo da palavra. Aqui está sua culpa efetiva: ter preferido não saber, não ver, não pensar. Se o que tinha acontecido pudesse repetir-se, quantos filhos de Eichmann teriam colocado em risco inclusive as democracias? A organização técnico-burocrática de vida, que segmentava a responsabilidade, tornando indiferentes e anestesiando, teria facilitado o trabalho de futuros cinzentos executores sem alma e sem piedade.

Aliás, já algumas décadas antes, em plena ditadura, a questão era mais a de obedecer. Assim escrevia Simone Weil: "A submissão dos muitos aos poucos, este dado fundamental em quase todas as organizações sociais, nunca deixou de espantar todos aqueles que refletem um pouco a seu respeito." E, falando da Alemanha de Adolf Hitler, ela acrescentava: "Quando impera a morte, o milagre da obediência salta aos olhos. Que muitos se submetam a um só por medo de serem mortos já é estarrecedor; mas que eles se mostrem tão submissos, a ponto de morrer por sua ordem, como justificá-lo?"

Sob esse enfoque a desobediência revelava-se a escolha inalienável de liberdade que humaniza. Deve ser dito que já Kant, no banco dos réus pela rígida formalidade da sua ética, apesar de ter defendido firmemente o valor da obediência, sem a qual não existiria a comunidade, não havia deixado de solicitar a vigilância. A coragem do juízo crítico, até a dissidência civil, percorre e agita toda a tradição ocidental. A partir da figura emblemática de Antígona que, conscientemente, viola o decreto de Creonte, um édito miserável de politiqueiro oportunista, desprovido de qualquer legitimidade, que além disso choca-se contra as leis superiores, não escritas, como aquela sobre o enterro dos mortos. A comunidade contra o Estado, os direitos humanos contra os cínicos jogos de poder. E, portanto, desobediência. O grito do desafio: "Nasci para amar, não para odiar". Um irmão é um irmão. A humanidade é uma imensa família. Antígona se recusa a operar divisões, discriminar aquele que lhe é mostrado como "inimigo".

Mas é a filosofia que mantém alta a atenção sobre a desobediência. Como esquecer Sócrates? Acusado e condenado injustamente, ele renuncia a fugir, elogiando as leis da cidade; se tivesse fugido de Atenas, poderia ter sido acusado de traição. Mais ainda: teria feito o papel de um criminoso qualquer. Aceitar a sanção não significa, no entanto, legitimá-la. Sócrates permanece em seu lugar para apontar o dedo contra aqueles que o acusam, para que estoure o escândalo. Sua obediência singular é uma forma de resistência que inaugura toda dissidência que virá. Nele ganha voz o "não" da desobediência que é um "sim" à própria consciência.

Contudo, não se deve confundir a objeção de consciência com a desobediência civil. O gesto de Henry Thoreau, o anarquista que se orienta para a vida selvagem, contestando a civilização da qual se recusa a participar, por exemplo, pagando os impostos, é o gesto do objetor. A desobediência civil, mesmo que praticado por um indivíduo, é ao contrário uma contestação comum que coloca em dúvida as instituições, questiona as leis, em nome de uma democracia renovada e de um projeto futuro. Disso decorre a dimensão pública da desobediência. Denuncia-se a iniquidade de um decreto sob os olhos de todos, ostentando, aliás, que a desobediência que - de Gandhi a Martin Luther King – é direcionada não só e nem tanto às autoridades, quanto à consciência dos outros e ao sentido de justiça alheio.

Claro, o irresponsável não obedece, por incapacidade ou por negligência. Por outro lado, o desobediente assume o risco de sua própria ação, reivindica algo a mais de responsabilidade; recusa-se a continuar dizendo "sim" diante do intolerável. A desobediência custa, requer esforço, não só porque contesta as hierarquias do poder, mas também porque interrompe a monotonia do hábito. Além de destacar o dissídio entre direito e justiça, lança luz, assim, sobre uma submissão que, dada muito rapidamente como descontada, poderia, com o tempo, revelar-se um perigo. Por que o submisso obedece?

Essa é a questão levantada por Etienne de La Boétie em seu esplêndido panfleto sobre a servidão voluntária. A resposta está na cadeia de cumplicidade: a pessoa aceita ser tiranizada para poder tiranizar, de ser escravizada para escravizar. Assim, o obediente se vinga ao se contentar com uma pequena parte daquele dispositivo de poder que também mina a democracia.

A desobediência civil legítima, difícil e arriscada é uma obrigação ética e um desafio político. Requer coragem. Acima de tudo, a coragem de não trair a si mesmo, e a justiça em que se acredita, para curvar-se ao comando alheio. Isso significa que, na des-obediência, ainda permanece um obedecer - à própria consciência. E é por isso que o gesto de quem diz "não" não pode ser interpretado como um ato irresponsável de delinquência. Desobedecer é um ato responsável.

Esta é a lição que vem de Eichmann. Se eu não posso ser considerado responsável porque me limitei a obedecer, então quando eu obedeço cegamente, seguindo a lei, eu me subtraio à responsabilidade. Em um mundo onde as ações são segmentadas, e a monstruosidade do todo corre o risco de não ser vista, onde a indiferença exonera de reagir, onde a impotência política é confundida com neutralidade soberana, a desobediência civil é uma obrigação democrática.

José I. González Faus

"A ESQUERDA SÓ PODERÁ SER AUTÊNTICA, CASO SE NUTRA DE UMA ESPIRITUALIDADE MUITO SÉRIA E PROFUNDA”

A esquerda só poderá ser autêntica caso se nutra de uma espiritualidade muito séria e profunda. Às direitas já basta sua manipulação da religião em proveito próprio (como acusou Marx, mostrou depois com textos o cardeal De Lubac, e hoje colocou em prática Bolsonaro). Mas, a esquerda precisa de mais”, escreve José I. González Faus, jesuíta, teólogo espanhol, em artigo publicado por Religión Digital. Tradução do Cepat /IHU. Eis o texto.

“Aprenda flores de mim, o que vai de ontem a hoje”, poetizava dom Luis de Góngora. E hoje podemos parodiá-lo, Aprenda políticos, que já vemos o que vai do 15M ao Podemos.

Fui daqueles que, nos dias do 15M, caminhavam na praça de Catalunha e em outras ruas barcelonesas, buscando ver, escutar, farejar, conversar... Daquela mistura de decepção, ilusão, fartura, responsabilidade, juventude, ingenuidade e indignação, você saía com a pergunta esperançosa sobre se algo novo poderia estar sendo gestado. Mas, recordava-me de uma Carta aos cristãos pelo socialismo, escrita 40 anos antes, que citava São Paulo: “realize sua libertação com temor e tremor”.

Mais tarde, em junho de 2016, escrevi uma carta a Pablo Iglesias com tons de advertência (que não sei se está posta em algum blog). Hoje, estou entre aqueles que se perguntam como é possível que aquela massa compacta, tão segura de “poder”, tenha se tornado, tão cedo, uma areia de impotências. Como aquela aspiração que floresceu com 200.000 militantes e cinco milhões de votos, em uns dois anos, seja vista novamente ferida.

Os factos e os dias foram mostrando que isso da “casta”, por mais verdade que fosse e por mais bem que soasse, não era em razão da má “pasta” dos políticos existentes até o momento. Ao contrário, é uma tentação inerente a nossa pasta humana e à própria atividade pública (política ou eclesiástica), que eles não perceberam até acabar caindo de cara nela e perder novidade.

Não quero emitir juízos críticos pessoais, nem inflamar feridas. Posso reconhecer que minha sensibilidade sempre esteve mais próxima a Errejón que a Pablo Iglesias. Mas, sei que aqui podem me faltar dados para um julgamento definitivo. O que, sim, é necessário pedir hoje é que não se expliquem as crises jogando a culpa apenas nos outros, e que se dê início a essa autocrítica tão indispensável em qualquer atividade humana.

Mas, mesmo sem destacar ninguém, temo que o vedetismo e certa vaidade messiânica sejam os que dissolveram aquela promessa primeira. Em vez de vaidade messiânica poderia ter falado de “tejerismo”: a mentalidade de “isto ajusto eu”. Tejero com golpe de pistola. Outros com golpe de televisão. Algo ganhamos, sem dúvida. Mas, insuficiente.

Que contraste entre essa mentalidade messiânica (ou “tejera”) e o discurso de Tierno Galván em nossas primeiras eleições: “o PSP (a formação de Tierno) não pode prometer nada porque as coisas estão muito difíceis, mas se compromete a lutar em tudo o que for possível para ajustar algo” (cito de memória). Que bonito comprovar que aquele que não se atrevia a prometer nada, foi um dos melhores prefeitos de nossa democracia!

Enfim, desejo com toda a alma que esse aborto do 15M encontre alguma incubadora que lhe salve a vida. Desejo isso mais pelos jovens do que por mim. Por isso, permito-me advertir que a esquerda só poderá ser autêntica caso se nutra de uma espiritualidade muito séria e profunda. Às direitas já basta sua manipulação da religião em proveito próprio (como acusou Marx, mostrou depois com textos o cardeal De Lubac, e hoje colocou em prática Bolsonaro). Mas, a esquerda precisa de mais.

Não quero dizer com isto que a esquerda tenha que ser cristã: não estou querendo fazer apologética. Falo apenas de espiritualidade séria. Porque temas como a igualdade, a fraternidade, a acolhida, o respeito... são espirituais (e muito odiados) demais para acreditarmos que poderemos conquistá-los melhorando o PIB. Pois, este sistema iníquo só sabe fazer crescer o PIB, fazendo com que cresça também o PID (Percentagem Interior de Desigualdade).

Enfim, tomara que desta decepção de hoje brote uma lição aprendida para o amanhã, e não um novo desengano histórico. Que assim seja.

José María Castillo

A POLÍTICA E A RELIGIÃO TÊM MUITO PODER, MAS NÃO AUTORIDADE

A pura verdade é que a experiência está nos ensinando que se os políticos (e governantes em geral) não são pessoas honestas, que exercem a autoridade com plena transparência, a corrupção de uns e de outros lhes oferece meios, possibilidades e instrumentos para tomar as mais repugnantes e perversas decisões, que acabam beneficiando os de cima e destroçando, cada vez mais e mais, os mais desprotegidos”, escreve José María Castillo, teólogo espanhol, em artigo publicado por Religión Digital. A tradução é do Cepat /IHU

Uma das coisas mais corruptas e escandalosas que estamos vivendo e suportando é o notável predomínio que se nota naqueles que mandam (ou desejam mandar), no agitado e convulsionado mundo da política.

E digo que estamos suportando fatos e situações corruptas e escandalosas porque somos muitos os cidadãos que estamos cansados de aguentar políticos e governantes dos quais se nota abundantemente que aquilo que buscam e querem (a todo custo) não é resolver os problemas das pessoas, mas, ao contrário, alcançar o poder para impor suas ideias, interesses e aspirações à população indefesa.

A situação é tão deplorável que a qualquer pessoa medianamente culta ocorre suspeitar que uma importante maioria dos aspirantes a governar nem pensou em toda a sua vida que, no exercício do governo (de um país, de um povo, de uma instituição...), “poder” não é o mesmo que “autoridade”. Um governante pode ter um poder absoluto, que é o que os ditadores possuem.

Contudo, um ditador, justamente porque é totalitário no exercício de seu poder absoluto, por isso mesmo, carece da autoridade que precisa para que os cidadãos vejam nele o governante que tem as qualidades (a credibilidade, a honradez, a sinceridade, a honestidade) que são indispensáveis para que o cidadão veja, nas decisões do governante, as convicções e projetos que buscam o bem da população.

No exercício de qualquer forma de governança, sempre fundamental para que as coisas caminhem bem, é inteiramente necessário que a população veja em seus governantes não apenas o “poder” que as leis estabelecem, mas, além disso, a “autoridade” que se baseia na qualidade moral e a autenticidade fundada no direito. Poder e autoridade que geram o sentimento de “segurança” nos cidadãos. A base do bem-estar de um povo, de um país, da sociedade em geral.

O professor Ennio Cortese, em seu magistral estudo sobre Le Grandi Linee della Storia Giuridica Medievale, analisa a famosa carta que, no ano 494, o Papa Gelásio enviou ao imperador Anastácio, na qual dizia: “existem duas instâncias para reger o mundo: a autoridade sagrada dos pontífices e a potestade real” (“auctoritas pontificum et regalis potestas”). A “autoridade” é a superioridade moral; a “potestade” é o poder público de execução.

Não é possível estudar aqui a enorme documentação histórica que existe sobre este texto. Nem vamos cair na ingenuidade de apresentar todos os papas como modelos de “superioridade moral”. O que importa não é a veracidade histórica, mas, sim, o ensinamento ético.

É evidente que, deste ponto de vista, a exemplaridade moral do governante está no exercício de seu cargo, quando só pensa e atua buscando o maior bem daqueles que mais necessitam dele. Aí está o ponto capital que justifica as decisões de governo e a execução de tais decisões.

Infelizmente, a ausência do necessário equilíbrio da “autoridade” e o “poder”, no governo dos povos e nas instituições, é o que desarticulou a segurança dos cidadãos e o bem-estar na sociedade. A brutal desarticulação que estamos suportando, no devido exercício da política, é o que gerou o contaminado e fétido clima de convivência em que vivemos.

É verdade que, desde o s. XVIII, Montesquieu estabeleceu os primeiros fundamentos da separação de poderes, no exercício do Direito e da gestão política. Pensou-se que tal separação devolveria a transparência e a equidade no âmbito da mais estrita justiça, no exercício da autoridade e do poder.

Mas, a pura verdade é que a experiência está nos ensinando que se os políticos (e governantes em geral) não são pessoas honestas, que exercem a autoridade com plena transparência, a corrupção de uns e de outros lhes oferece meios, possibilidades e instrumentos para tomar as mais repugnantes e perversas decisões, que acabam beneficiando os de cima e destroçando, cada vez mais e mais, os mais desprotegidos.

Para expor algum exemplo, para encerrar, como se explica que nos grupos políticos mais religiosos é onde a corrupção se tornou mais desenfreada? Que religião é essa? E, sobretudo, como se explica tanto descaramento e tanta hipocrisia?

Estamos falando de uma política e de uma religiosidade que possuem, sem dúvida, muito “poder”, mas que carecem por completo de “autoridade” e “credibilidade”. Com gente assim, para onde vamos?

Edição 144, Janeiro 2019

Reportagem de James Gallagher

A DIETA QUE PROMETE SALVAR VIDAS

Cientistas desenvolveram uma dieta que promete salvar vidas, alimentar 10 bilhões de habitantes e não causar danos catastróficos ao planeta. Os pesquisadores estavam tentando descobrir como alimentar bilhões de pessoas a mais nas próximas décadas. Reportagem publicada por BBC News e reproduzida por IHU.

A resposta para o desafio consta no relatório elaborado por uma comissão de 37 especialistas de diversas áreas, publicado na revista científica The Lancet. Trata-se da "dieta para saúde planetária" - que não elimina completamente a carne e os laticínios. Mas requer uma enorme mudança em relação ao que colocamos em nossos pratos.

Quais são as mudanças?

Se você come carne todos os dias, então esta é a primeira questão. No caso da carne vermelha, significa um hambúrguer por semana ou um bife grande por mês - esta é sua cota. Em paralelo, você pode comer algumas porções de peixe e frango por semana. Mas as verduras e legumes serão a fonte do restante de proteína que seu corpo precisa.

Os pesquisadores recomendam consumir nozes e uma boa porção de leguminosas (como feijões, grão de bico e lentilhas) todos os dias. Há também um grande incentivo em relação a todas as frutas, verduras e legumes, que devem representar metade de cada refeição. Embora haja restrições para "legumes ricos em amido", como batata e aipim.

Como é a dieta?

Veja abaixo o que a dieta permite comer por dia:

1. Nozes - 50g por dia

2. Feijão, grão de bico, lentilhas e outras leguminosas - 75g por dia

3. Peixe - 28g por dia

4. Ovos - 13g por dia (pouco mais de um por semana)

5. Carne - 14g de carne vermelha por dia e 29g de frango por dia

6. Carboidratos - 232g por dia de grãos integrais, como pão e arroz, e 50g por dia de legumes e verduras ricos em amido

7. Laticínios - 250g, o equivalente a um copo de leite

8. Legumes (300g) e frutas (200g)

A dieta permite consumir 31g de açúcar e cerca de 50g de óleos, como azeite.

O gosto vai ser horrível?

O professor Walter Willet, um dos pesquisadores da Universidade de Harvard, nos EUA, diz que não e que, depois de passar a infância na fazenda, comendo três porções de carne vermelha por dia, agora está mais que pronto para a dieta da saúde planetária.

"Tem uma variedade enorme."

"Você pode pegar esses alimentos e combiná-los de milhares de maneiras diferentes. Não estamos falando de uma dieta de privação aqui, é uma alimentação saudável que é flexível e agradável", acrescenta.

Uma ilusão?

Este plano requer mudanças de hábitos alimentares em praticamente todos os cantos do mundo. A Europa e a América do Norte precisarão reduzir consideravelmente o consumo de carne vermelha, enquanto a Ásia Oriental terá que diminuir o consumo de peixe, e a África será obrigada a cortar legumes ricos em amido.

"A humanidade nunca tentou mudar o sistema alimentar nesta escala e nesta velocidade", diz Line Gordon, professora assistente do Centro de Resiliência de Estocolmo, na Suécia.

"Se é ilusão ou não, uma fantasia não precisa ser algo ruim... é hora de sonhar com um mundo bom", diz ela.

Segundo os pesquisadores, o imposto sobre a carne vermelha é uma das muitas medidas que podem ser necessárias para nos convencer a mudar a dieta.

Por que precisamos de uma dieta para 10 bilhões de pessoas?

A população mundial chegou a 7 bilhões em 2011 e agora está em torno de 7,7 bilhões.

Espera-se que esse número chegue a 10 bilhões por volta de 2050 e continue subindo.

A dieta vai salvar vidas?

Os pesquisadores dizem que a dieta vai evitar que cerca de 11 milhões de pessoas morram a cada ano. Este número se deve em grande parte a doenças relacionadas a dietas pouco saudáveis, como ataques cardíacos, derrames e alguns tipos de câncer. Estes são atualmente os maiores assassinos em países desenvolvidos.

Qual o impacto da agropecuária?

De acordo com Matt McGrath, correspondente de Meio Ambiente da BBC, o uso da terra para o cultivo de alimentos e silvicultura corresponde a cerca de um quarto das emissões globais de gases de efeito estufa, quase o mesmo que a eletricidade e o aquecimento, e substancialmente mais do que de todos os trens, aviões e automóveis do planeta.

"Quando você olha mais de perto o impacto ambiental do setor de alimentos, você pode ver que a carne e os laticínios são fatores primordiais - em todo o mundo, a pecuária é responsável por entre 14,5% e 18% das emissões de gases de efeito estufa provocadas por atividades humanas", acrescenta.

Segundo ele, a agricultura é um dos principais culpados pelas emissões de metano e óxido nitroso, que também colaboram para o aquecimento global.

"A agricultura também é uma fonte significativa de poluição do ar gerada pela amônia nas fazendas, uma das principais causas das partículas finas, que a Organização Mundial da Saúde (OMS) diz ser uma ameaça à saúde em todo o mundo."

"Da mesma forma, quando se trata da água, a agricultura e a produção de alimentos são uma grande ameaça, consumindo 70% das fontes globais de água doce para irrigação", completa McGrath.

A dieta planetária vai salvar o planeta?

O objetivo dos pesquisadores é alimentar mais pessoas, ao mesmo tempo em que:

- Minimizam as emissões de gases de efeito estufa que causam as mudanças climáticas.

- Impedem a extinção de espécies.

- Não ampliam as terras agrícolas.

- Preservam a água.

No entanto, a mudança na dieta está longe de ser suficiente.

Para fechar essa equação, também será preciso reduzir à metade o desperdício de comida e aumentar a quantidade de alimentos produzidos nas terras para cultivo existentes.

Por que a carne não está sendo banida?

"Se estivéssemos apenas minimizando os gases do efeito estufa, diríamos para todo mundo ser vegano", diz Willet.

Ele argumenta, no entanto, que não está claro se uma dieta vegana é a opção mais saudável.

Qual o próximo passo?

A comissão de especialistas vai apresentar as descobertas a governos de países do mundo todo, assim como a organizações globais como a OMS, para ver se podem começar a desenvolver iniciativas capazes de mudar nossos hábitos alimentares.

Jean-Marie Tillard

SOMOS OS ÚLTIMOS CRISTÃOS?

"A fé cristã não pode ser reduzida a um modo para alguém 'se tornar pessoalmente melhor', mas deve permanecer como uma comunicação de vida, uma graça que justifica a existência de cada um e a torna alegre. A alegria do Evangelho é alegria de fé!". O comentário é de Enzo Bianchi, monge italiano e fundador da Comunidade de Bose, em artigo publicado por Jesus, Janeiro-2019. A tradução é de Luisa Rabolini /IHU

Jean-Marie Tillard, grande teólogo de sopro ecumênico e, para mim, mestre e amigo, nos últimos anos de vida, muitas vezes perguntava: "Será que somos os últimos cristãos?". Ele era um discípulo de Jesus, não tomado pelo pessimismo ou pela amargura, mas essa pergunta surgia nele espontaneamente; e era levado a apresentá-la aos outro e a si mesmo não pelas estatísticas que revelavam a diminuição do número de cristãos no nosso ocidente, mas constatando a falta da paixão, da convicção por parte de muitos batizados que, mesmo assim, continuavam a declarar-se cristãos e até mesmo confessavam pertencer à igreja.

Agora idoso, eu também sou tentado a me fazer essa pergunta, e pela evidência das mesmas razões. Raramente, de fato, encontro cristãos que nutrem uma paixão por Jesus Cristo, pelo Evangelho, e estão realmente convencidos não só de que Jesus pode ser uma resposta às suas perguntas sobre o sentido da vida, mas que seja a sua vida, o seu futuro. É verdade, hoje podemos ver entre os cristãos uma busca pela vida espiritual ou interior muito intensa, talvez mais intensa do que no passado. Mas muitas vezes trata-se de uma espiritualidade que se alimenta de uma crença específica em Deus, de uma busca de bem-estar interior, e espera não o Reino que há de vir, nem Jesus Cristo, mas um ensinamento ético para viver melhor, uma legenda antropológica que permita encontrar paz, harmonia em si e com os outros.

Assim, a mensagem de Jesus é esvaziada e reduzida a uma espiritualidade refinada, mas sem a graça, a um caminho de auto salvação. Quem cita ainda a palavra de Jesus: "Quem quiser salvar a sua vida, a perderá; mas quem perderá a sua vida por minha causa e pelo Evangelho, a salvará" (Mc 8,35)? Precisamente por isso, há falta de paixão, que é uma experiência mais que um sentimento, uma experiência capaz de despertar a vida em nossas vidas. Se houver essa paixão, haverá também a alegria de ser cristãos, de poder viver junto com Jesus Cristo, de poder sentirmo-nos irmãos e irmãs na comunidade dos discípulos do Senhor.

A experiência cristã é muito mais do que viver uma espiritualidade que, como vida interior, todos os seres humanos podem fazer. Hoje são muitos aqueles que parecem ofuscados pela atenção de muitos batizados à "espiritualidade"; mas quando se investiga mais a fundo, verifica-se que eles não estão engajados em uma "vida espiritual", isto é, animada pelo Espírito Santo, portanto vida em Cristo, mas sim em caminhos de interioridade originados pelas diferentes sabedorias humanas. Infelizmente, até mesmo muitos autores, verdadeiras estrelas da espiritualidade que se dizem católicos, na verdade ensinam apenas uma ética terapêutica. A fé cristã não pode ser reduzida a um modo para alguém "se tornar pessoalmente melhor", mas deve permanecer como uma comunicação de vida, uma graça que justifica a existência de cada um e a torna alegre. A alegria do Evangelho é alegria de fé!

Bento XVI recordou, enfaticamente, que "no início do ser cristão, não há uma decisão ética ou uma grande ideia, mas um acontecimento, o encontro com uma Pessoa que dá à vida um novo horizonte e um rumo definitivo” (Encíclica Deus caritas est, no. 1, 25 de dezembro de 2005).

No encontro com Jesus Cristo somos gerados como amantes, como pessoas cuja paixão é realmente amar mais ele do que o pai, a mãe e até mesmo a própria vida (cf. Lc 14:26; Mt 10:37), é realmente conhecer a profundidade e amplitude do amor. E preste atenção: não me refiro a um amor místico, simplesmente de desejo, mas ao amor que conhece a gratuidade do amor de Deus, sempre oferecido e nunca a ser merecido.

Então orar é uma festa, celebrar a liturgia é uma festa, ler as escrituras ouvindo a palavra é uma festa, uma bênção. Somos, portanto, os últimos cristãos? Devemos nos resignar a viver em uma comunidade onde falta fogo, aquele fogo que Jesus queria trazer para a terra e desejava tanto ver arder (cf. Lc 12, 49)? Não fomos capazes de transmitir a paixão que torna a fé contagiante? Às vezes eu digo a mim mesmo que a dureza de coração é melhor do que a apatia ... Em qualquer caso, acredito que essas perguntas e, principalmente, essa busca intensa por uma paixão por Cristo, não possam ser evitadas ou omitidas com presunção.

Massimo Cacciari

"SALVEMOS A DEMOCRACIA ANTES QUE SE TORNE APENAS UMA CONVERSA NA REDE"

"O esvaziamento do Parlamento dos seus poderes é o culminar de uma crise devastadora que afeta todo o Ocidente. É um fenômeno que vai muito além de Salvini ou Di Maio e começou há 30 anos". O comentário é de Massimo Cacciari, filósofo italiano e ex-prefeito de Veneza, em artigo publicado por L'Espresso. A tradução é de Luisa Rabolini /IHU.

O que terão pensado os adolescentes e os jovens assistindo ao espetáculo do Parlamento envolvido com a lei financeira? Serão eles capazes de distinguir entre protestos e suas causas, entre responsabilidade da maioria e oposição? E admitindo que eles tivessem suficiente memória histórica, poderiam realmente fazer isso? Ou não estamos no último acto de um longo, em alguns aspectos dramático e em outros vergonhoso, episódio?

É claro que podemos dizer que nunca atingimos tal nível de mediocridade, nunca tão claramente ridicularizaram as funções das assembleias que ainda ousam se chamar de legislativas. Mas há quantos anos estão sendo desmontadas? Seria apropriado dizer "bem cavado, velha toupeira!". Há quantos anos quase todas as leis de alguma importância são aprovadas por votos de confiança? O processo sub-reptício de esvaziar o parlamento em favor do executivo também está em ação desde antes da Tangentopoli (caso de propinas em troca de favores na administração pública e ambiente políticos, NDT).

A queda da primeira República - "substituída" apenas pela crise da mesma, à qual nenhuma reforma das instituições italianas se seguiu - tornou o processo simplesmente impossível de ser detido. Poderia ter se respondido à catástrofe de acordo com diferentes perspectivas: com um redesenho completo da estrutura do Estado, redistribuindo poderes e funções entre centro, regiões e autoridades locais; com um reforço das assembleias legislativas, reduzindo drasticamente o número dos representantes, eliminando o Senado, reavaliando os regulamentos, de modo a tornar os procedimentos ainda mais rápido, mas ao mesmo tempo limitando radicalmente a possibilidade de recorrer ao voto de confiança; ou ainda em um sentido decididamente e coerentemente presidencialista.

Poderia haver propostas sérias tanto "da direita" como "da esquerda". Mas, de facto, nada aconteceu. Tentativas penosas, atarantadas e amadoras, desprovidas de qualquer sistematização. E hoje aqui está o resultado: um governo mantido por forças políticas que ignoram a profundidade da crise que investe a democracia representativa, ou fazem do seu fim, concretamente, o seu objetivo.

Aqui está o ponto de viragem: da crise da democracia a que assistíamos, talvez ignorando as causas e nada fazendo para sair dela, no entanto depreciando-a, até a ação, consciente ou não, pouco importa, para destruí-la definitivamente. Para essas pessoas, a democracia deve se tornar a universal conversa na rede, organizada, direta e decisiva em seus resultados por parte dos donos da mesma, sem partidos, sem organismos intermédios, sem sindicatos que atrapalhem a linha direta, em tempo real e interativa, conforme preconizado pelo seu verbo, entre o Povo e o Chefe, expressão da vontade geral.

Quem dera fosse apenas Salvini e Di Maio e suas complacentes folhas de figueira! É um colapso que ameaça, em diferentes formas, todas as democracias ocidentais. Temo que tenhamos chegado a uma encruzilhada; ou de parte das culturas liberais populares, social-democráticas que fizeram do bem-estar e da Europa do pós-guerra terá que ocorrer um contragolpe à culpada inércia com que durante pelo menos três décadas "acompanharam" os sintomas cada vez mais óbvios desse colapso, ou ele se tornará imparável. Ou seja, para todos aqueles que nasceram depois da queda do Muro se tornará senso comum a inutilidade das instituições representativas, cada forma de representação será a priori considerada como "casta", cada minuto gasto discutindo fora dos media sociais, será considerado perdido.

Voltar ao antigo é tanto utópico quanto reacionário; pode-se responder à situação apenas mostrando que é possível dar início a reformas de sistema, das instituições centrais até as periféricas, da administração do Estado em todos os seus aspectos até as políticas de bem-estar, só organizando sujeitos concretos que tenham um interesse e que lutem por essas reformas. A "viragem", pois é justamente tal, que o governo italiano representa (e que pode realmente significar uma experiência europeia), caso contrário será lembrada como a primeira explícita declaração de falência da temporada democrática conhecida pelos países europeus após a Segunda Guerra Mundial.

A REVOLUÇÃO CUBANA COMPLETA 60 ANOS

1º de janeiro de 2019, 60 anos da Revolução Cubana. Quem diria? Para a soberba dos serviços de inteligência dos EUA a ousadia dos barbudos de Sierra Maestra, ao livrar Cuba da esfera de domínio de Tio Sam, era um “mau exemplo” a ser o quanto antes apagado das páginas da história. A CIA mobilizou e treinou milhares de mercenários e Kennedy mandou-os invadir Cuba (1961). Foram vergonhosamente derrotados por um povo em armas. E, de quebra, a hostilidade da Casa Branca levou Cuba a se alinhar à União Soviética. O tiro saiu pela culatra. Mexer com Cuba passou a significar aquecer a Guerra Fria, como o demonstrou a crise dos mísseis (1962).

Tio Sam não botou as barbas de molho. Transformou cubanos exilados em Miami em terroristas que derrubaram aviões, explodiram bombas, promoveram sabotagens. E investiu uma fortuna para alcançar o mais espetacular objetivo terrorista: eliminar Fidel. Foram mais de 600 atentados. Todos fracassados. Fidel faleceu na cama, cercado pela família, em 25 de novembro de 2016, pouco antes de a Revolução completar 58 anos. Havia sobrevivido a 10 ocupantes da Casa Branca que autorizaram operações terroristas contra Cuba: Eisenhower, Kennedy, Johnson, Nixon, Ford, Carter, Reagan, Bush pai, Clinton e Bush filho.

Fracassada a invasão da Baía dos Porcos, impôs-se o bloqueio a Cuba (1961). Medida criticada por três papas em visita a Havana: João Paulo II (1998), Bento XVI (2012) e Francisco (2015). Porém, a Casa Branca não escuta vozes sensatas. Prefere se isolar, ao lado de Israel, a cada ano em que a Assembleia da ONU vota o tema do bloqueio. Pela 27ª vez, em 2018, 189 países se manifestaram contra o bloqueio a Cuba.

Com a queda do Muro de Berlim e o desaparecimento da União Soviética (1989), os profetas da desgraça prenunciaram o fim do socialismo cubano. Não falharia a teoria do dominó... Equivocaram-se. Cuba resistiu, suportou o Período Especial (1990-1995) e se adaptou aos novos tempos de globalização.

Muitos se perguntam: por que os EUA não invadiram Cuba com tropas convencionais (já que os mercenários foram derrotados), como fez na Somália (1993), Granada (1983), Afeganistão (2001) e Iraque (2003), Líbia (2011), Síria (2017), Níger (2017), e Iêmen (2018)? A resposta é simples: uma potência bélica é capaz de ocupar um país e derrubar-lhe o governo. Mas não derrotar um povo. Esta lição os estadunidenses aprenderam amargamente no Vietnam, onde foram escorraçados por um povo camponês (1955-1975). Atacar Cuba significaria enfrentar uma guerra popular. Após a humilhação sofrida no Sudeste Asiático, a Casa Branca prefere não correr o risco.

Por que Cuba incomoda a tantos que associam, indevidamente, capitalismo e democracia? Porque Cuba convence as pessoas intelectualmente honestas, que não se deixam levar pela propaganda anticomunista fundada em preconceitos, e não em fatos, que, apesar de toda a campanha mundial contra a Revolução, na ilha ninguém morre de fome, anda descalço, é analfabeto com mais de 6 anos de idade, precisa ter dinheiro para ingressar na escola ou cuidar da saúde, seja uma gripe ou uma complexa cirurgia do coração ou do cérebro. No IDH (Índice de Desenvolvimento Humano) da ONU, que abrange 189 países, Cuba ocupa melhor lugar (68º) que a maioria dos países da América Latina, incluído o Brasil (79º lugar).

Enquanto o capitalismo enfatiza, como valor, a competitividade, a Revolução incute no povo cubano a solidariedade. Graças a isso Cuba despachou tropas, nas décadas de 1960 e 1970, para ajudar nações africanas a se libertarem do colonialismo europeu e conquistarem sua independência. Raúl Castro foi o único chefe de Estado estrangeiro a ter direito a discursar nos funerais de Mandela, porque o governo da África do Sul reconheceu a importância da solidariedade cubana para o fim do apartheid.

Graças à solidariedade, professores e médicos cubanos se espalham por mais de 100 países, trabalhando nas áreas mais pobres e remotas. E graças aos princípios éticos da Revolução, em Cuba não se vê famílias debaixo de pontes, crianças de rua, mendigos estirados pelas calçadas, cracolândia, máfias de drogas. Os delatores da Odebrecht denunciaram todos os agentes públicos corrompidos nos países da América Latina nos quais a empresa atuou. Menos Cuba, onde ela construiu o porto de Mariel. Algum delator quis defender Cuba? Óbvio que não. Apenas nenhum cubano se deixou corromper.

O povo cubano chegou ao paraíso? Longe disso. Cuba é uma nação pobre, porém decente. Apesar do bloqueio e de todos os problemas que ele acarreta, seu povo é feliz. Por que então muitos saem de Cuba? Ora, muitos saem de qualquer país que enfrenta dificuldades. Saem da Espanha, da Grécia, da Turquia, do Brasil, da Venezuela e da Argentina. Mas quem sai? De Cuba, aqueles que, contaminados pela propaganda do consumismo capitalista, acreditam que o Eldorado fica acima do Rio Grande. Os mesmos que se regozijam com a emigração de uns poucos cubanos jamais se indagam por que nunca houve em Cuba uma manifestação popular contrária ao governo, como acaba de ocorrer na França (jalecos amarelos) e também recentemente na Tunísia (2011), Egito (2011), Turquia (2016), e anteriormente nos EUA (Seattle, 1999).

Haveria um Cuba soldados ou guardas em cada esquina? João Paulo II declarou que lhe chamou a atenção não ver veículos militares nas ruas ao visitar Havana, como observou em tantos outros países. A maior arma da resistência cubana é a consciência da população.

A Revolução Cubana comemora 60 anos! É muito pouco para um país triplamente ilhado: pela geografia, pelo bloqueio e por ser o único da história do Ocidente a adotar o socialismo. E quando os cubanos comemoram, não olham apenas para o passado de tantas gloriosas conquistas entre muitos desafios e dificuldades. Inspirados por Martí, Che, Fidel e Raúl, os cubanos sabem que a Revolução ainda é um projeto de futuro. Não só para a Cuba, mas para toda a humanidade, até que as diferenças (idioma, cultura, sexo, religião, cor da pele etc.) não sejam mais motivo de divergências, e a desigualdade social figure nos arquivos de pesquisas apenas como uma abominável referência histórica, como é hoje a escravatura.

Longa vida à Revolução Cubana!

Edição 143, Dezembro 2018

La Croix International

O QUE ESTÁ ACONTECER NO VATICANO

O Papa está prestes a tomar novas medidas sobre um movimento leigo controverso? Qual será o futuro do cardeal Pell? A reportagem é de Robert Mickens, publicada por La Croix International. A tradução é de Victor D. Thiesen /IHU.

Nem tudo é sempre como aparenta ser no misterioso mundo do Vaticano. Na semana passada, o Papa Francisco comemorou 49 anos como presbítero ordenado. Enquanto muitos padres fazem do seu aniversário de ordenação um dia de grande celebração, o seu aniversário, que aconteceu no dia 13 de dezembro, passou praticamente despercebido, sem muitas comemorações. Francisco começou o dia em uma oração particular antes de celebrar a missa matinal. Tomou seu café da manhã na sala de jantar de sua residência, na Santa Marta, se preparando para uma série de reuniões privadas e audiências em grupo, incluindo com dez novos embaixadores para a Santa Sé.

Antes do almoço, Francisco também havia conversado com três bispos de língua espanhola numa importante reunião. Uma sessão para indicar que o Vaticano está prestes a entrar em ação contra o Sodalitium Christianae Vitae, um movimento leigo de homens e mulheres conservadores e cultuados, fundado nos anos 70 no Peru. Como observado aqui há algumas semanas, o fundador da Sodalitium, Luis Figari, junto à vários outros líderes masculinos foram acusados ​​de manipular psicologicamente e abusar sexualmente de várias mulheres no movimento. A ex-chefe da filial feminina, Rocio Figueroa, recentemente reafirmou as alegações de que as autoridades do Vaticano demoraram a agir quando ela denunciou os abusos, enquanto trabalhava como funcionária do então Pontifício Conselho para os Leigos.

O Papa não ficou indiferente. No dia 13 de dezembro, se reuniu com os dois homens que ele havia indicado no mês de janeiro para assumir o Sodalitium como comissários papais - o bispo Noel Antonio Londoño Buitrago, redentorista que dirige a diocese de Jericó, na Colômbia, e o padre franciscano Guillermo Rodríguez. Também participaram da reunião o funcionário número 2 da Congregação para os Institutos de Vida Consagrada e Sociedades de Vida Apostólica, Dom José Rodríguez Carballo, ex-superior geral da Ordem dos Frades Menores. Nada foi divulgado sobre tais conversas. Mas é interessante notar que, na mesma manhã, Francisco também teve um encontro particular com o cardeal Luis Ladaria, SJ, prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé. No dia seguinte, teve um cara a cara com o cardeal Stanislaw Rylko, ex-presidente do antigo Conselho Pontifício para os Leigos. Neste ponto, você provavelmente está começando a conectar os fatos. O escritório do cardeal Ladaria lida com penalidades canônicas para o abuso sexual de padres. Enquanto o fundador suspenso de Sodalitium, Luis Figari, não é um padre, ele atua como um ex-oficial ou líder.

Quanto ao cardeal Rylko, Rocio Figueroa declarou publicamente que ele - seu ex-chefe -, se recusou a apoiá-la quando ela emitiu suas denúncias sem resposta para outros escritórios do Vaticano. Provavelmente descobriremos em breve a natureza plena desses vários encontros que o Papa teve na semana passada e o que eles significam para o futuro do Sodalitium Christianae Vitae, sua liderança e seus membros. A maior notícia sobre a agenda do Papa Francisco na semana passada, é claro, foi a mais recente reunião do Conselho de Cardeais (C9), seleto grupo de conselheiros seniores que ele criou em 2013, apenas um mês após sua eleição para a cátedra de Pedro.

Esse foi o 27º encontro do gabinete do Papa, que tem a tarefa específica de ajudar o bispo de Roma em seu papel de governança universal da Igreja. Mais precisamente, ajudar nos negócios imediatos de reformar a Cúria Romana.

O grupo tem sido chamado de C9, já que é formado por nove cardeais de várias partes do mundo e do Vaticano. Como Nicolas Senèze relatou esta semana, Francisco liberou três dos cardeais de seu mandato no conselho. Dois deles estão ligados à escândalos de abuso sexual. O cardeal Francisco Errazuriz, de 85 anos, foi acusado de encobrir abusos no Chile, enquanto o cardeal George Pell, de 77 anos, está na Austrália há mais de um ano para enfrentar acusações de "ofensas históricas de agressão sexual", lutando por sua inocência.

O terceiro cardeal é Laurent Monsengwo, de 79 anos, que recentemente se aposentou como arcebispo de Kinshasa na República Democrática do Congo. Todos os três estão além da idade da aposentadoria e já completaram o mandato inicial de cinco anos no Conselho dos Cardeais. Francisco, que faz 82 anos na semana que vem, informou a eles no mês de outubro que seus termos não serão renovados. Os termos dos seis membros originais restantes do C9 foram estendidos, pelo menos por enquanto, embora nenhum substituto foi nomeado para os outros três cardeais.

Esse conselho privado foi formado por representantes de diferentes áreas continentais. Tudo indica que, na hora certa, o Papa possa escolher novos membros da Oceania (para substituir Pell), América do Sul (para substituir Errazuriz) e África (para substituir Monsengwo). Tenha em mente que este é um Conselho de Cardeais, então - a menos que o Papa esteja prestes a surpreender a Igreja com planos de colocar mulheres na faculdade de elite - você pode esquecer a ideia dele nomear conselheiras como membros de pleno direito no C9. Dos três membros que saíram, apenas um ainda não está aposentado, que é o cardeal George Pell. Ele está tecnicamente em uma licença de seu trabalho no Vaticano para que possa enfrentar acusações de abuso na Austrália, incluindo um segundo julgamento em março. Por enquanto, ele continua a ser o prefeito da Secretaria da Economia. Esse prazo termina em 24 de fevereiro, o último dia da cúpula de três dias do Papa Francisco com os chefes das conferências episcopais do mundo a respeito de abuso de menores.

Seja qual for o resultado das batalhas do tribunal de Cardeal Pell, é provavelmente seguro dizer que seus esforços para vencer os problemas financeiros que o Vaticano enfrenta acabaram. Ele não vai voltar.

José Eustáquio Diniz Alves

AS EMISSÕES GLOBAIS DE COMBUSTÍVEIS FÓSSEIS BATEM RECORDE EM 2018

O facto é que as emissões só cairão consistentemente com uma mudança completa no modelo de produção e consumo e o decrescimento demoeconômico”, escreve José Eustáquio Diniz Alves, doutor em demografia e professor titular do mestrado e doutorado em População, Território e Estatísticas Públicas da Escola Nacional de Ciências Estatísticas – ENCE/IBGE, em artigo publicado por EcoDebate. Eis o texto.

O Acordo de Paris, assinado em 2015, em seu ponto principal, trata do esforço para reduzir as emissões de gases de efeito estufa (GEE). Entre 2014 e 2016 as emissões mundiais ficaram estagnadas e parecia que tinham alcançado um pico para, em seguida, começar um processo de redução. Mas as emissões voltaram a subir em 2017 e 2018, acendendo um sinal vermelho quanto a impossibilidade de manter o aquecimento global abaixo de 1,5º Celsius.

Estudo, divulgado pelo Global Carbon Project (05/12/2018), durante a 24ª Conferência das Partes da Convenção do Clima das Nações Unidas (COP-24), realizada na Polônia, indica que as emissões de dióxido de carbono deverão alcançar níveis recordes em 2018. As emissões globais de combustíveis fósseis deverão alcançar 37,1 bilhões de toneladas de CO2 na atmosfera em 2018, o que representa um aumento de 2,7% em relação a 2017, sendo que o aumento havia sido de 1,6%, entre 2016 e 2017 (os dados definitivos serão divulgados ano que vem).

Um gráfico mostra que as emissões resultantes da queima de combustíveis fósseis passou de 9,28 bilhões de toneladas de CO2 em 1959 para 37,1 bilhões de toneladas de CO2 em 2018 (um crescimento de 4 vezes em cerca de 60 anos).

No mesmo período, a população mundial passou de cerca de 3 bilhões para 7,6 bilhões de habitantes – um aumento de 2,53 vezes – enquanto a economia global cresceu 8,8 vezes. Desta forma, a quadruplicação das emissões, entre 1959 e 2018, foi maior do que o crescimento demográfico, mas foi menor do que o crescimento econômico. Assim, houve aumento per capita das emissões e redução da intensidade das emissões por unidade de produto.

Em 1959, as emissões dos EUA foram de 2,82 bilhões de toneladas de CO2 e da União Europeia de 2,65 bilhões de toneladas de CO2. Ou seja, o mundo desenvolvido ocidental emitia 5,47 bilhões de toneladas de CO2, representando 59% das emissões globais em 1959. A China e a Índia emitiam, respectivamente, 0,72 e 0,11 bilhões de toneladas de CO2. O resto do mundo emitia 2,98 bilhões de toneladas de CO2.

Seis décadas depois, as emissões dos EUA, em 2018, foram de 5,4 bilhões de toneladas de CO2 (crescimento de 1,9 vezes) e da União Europeia de 3,52 bilhões de toneladas (crescimento de 1,3 vezes). A soma das emissões dos países ricos ocidentais, em 2018, foi de 8,92 bilhões de toneladas de CO2, representando apenas 24% das emissões globais, bem abaixo da proporção de 59% de 1959.

Mas o maior destaque do aumento da poluição global veio da China que passou a ser o país com os maiores níveis de emissão, atingindo 10,3 bilhões de toneladas de CO2 em 2018 (crescimento de 14,3 vezes em 60 anos), superando a soma dos EUA e da União Europeia. A Índia também se tornou uma grande emissora, com 2,63 bilhões de toneladas de CO2 em 2018 (crescimento de 24 vezes em 60 anos). Portanto, os dois países mais populosos do mundo, atualmente, superam o conjunto dos países ricos nas emissões de CO2. O resto do mundo passou de 2,98 para 15,3 bilhões de toneladas de CO2 em 2018 (crescimento de 5,1 vezes e acima da média mundial).

Nos anos 2000, os EUA e a União Europeia (os maiores poluidores do passado) diminuíram o volume das emissões, enquanto os países em desenvolvimento aumentaram. Talvez a China esteja próxima de atingir um pico das emissões. Mas a Índia e o resto do mundo tendem a manter emissões crescentes por conta da necessidade de reduzir a pobreza e atender uma população prevista para continuar crescendo até 2100. O gráfico abaixo mostra que o grande aumento das emissões ocorreu na Ásia, mas os demais continentes (Oceania, África, América do Sul e Oriente Médio) também apresentam aumento das emissões, enquanto a Europa e a América do Norte apresentam diminuição nos anos 2000.

O facto é que as emissões só cairão consistentemente com uma mudança completa no modelo de produção e consumo e o decrescimento demoeconômico. Mas fazer a transição de um modelo insustentável para um modelo sustentável não é fácil como mostra as manifestações dos “coletes amarelos” (gillets jaunes) da França. Evidentemente, este movimento extrapola a questão ambiental, mas o presidente Emmanuel Macron buscou taxar os combustíveis fósseis presumivelmente para possibilitar o abandono da produção e o consumo de energias poluidoras, que emitem muito CO2, até 2050. O plano incluía o fechamento das centrais de carvão até 2022, além de triplicar a produção de energia eólica terrestre e quintuplicar a fotovoltaica. Mas o descontentamento popular colocou em xeque as políticas do Palácio Eliseu e mostrou que existe muita dificuldade em resolver simultaneamente os problemas econômicos, sociais e ambientais, especialmente diante das altas taxações e da perda de poder de compra da população. Também a greve dos caminhoneiros no Brasil em maio de 2018 foi na contramão do ambientalismo ao reivindicar subsídio para o diesel e para os combustíveis fósseis.

Mas a ameaça mais séria vem de uma aliança de países na COP24 que questionam as conclusões do recente relatório divulgado pelo IPCC, que considera que os esforços para limitar o aumento médio da temperatura global a 1,5º Celsius exigirá “mudanças sem precedentes” em nível global e que o mundo tem apenas 12 anos para evitar um colapso ecológico. Segundo o Observatório do Clima:

“A Arábia Saudita, maior produtor mundial de petróleo, os EUA, a Rússia e o Kuwait vetaram a menção no livro de regras ao relatório do IPCC (Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas) que trata do aquecimento global de 1,5º C. O documento havia sido encomendado pela própria Convenção do Clima em 2015, para avaliar se e como seria viável manter o limite de 1,5º C ao aquecimento da Terra. Sua principal mensagem, apresentada à COP24 pelo painel na última terça-feira, é de que o mundo tem apenas 12 anos para reduzir emissões em 45% se quiser ter alguma chance de ficar nesse limite. Como as decisões na ONU se tomam por consenso, basta um país dizer não para alguma coisa não sair” (10/12/2018).

Desta forma, o grande problema é que o tempo é escasso para reverter os efeitos dramáticos do aquecimento global. Outros autores dizem que o tempo para evitar uma catástrofe climática é ainda mais curto do que indica o IPCC e que a tendência de aumento das emissões de CO2 precisa ser revertida, no máximo, em três anos. A situação é desesperadora. Contudo, cresce a oposição dos céticos das mudanças climáticas que buscam sabotar as metas do Acordo de Paris. No Brasil, o ruralista Ricardo Salles, indicado por Jair Bolsonaro para chefiar o Ministério do Meio Ambiente a partir de 2019, diz que pretende “tirar o Estado do cangote de quem produz” e que a “discussão sobre aquecimento global é secundária”

Todavia, negar a realidade é o mesmo que caminhar com os olhos vendados para o abismo. Como afirmou o importante naturalista David Attenborough, durante a abertura da COP-24, a possibilidade de um colapso ambiental está cada vez mais próxima: “Neste momento estamos enfrentando um desastre de escala global, a nossa maior ameaça em milhares de anos é a mudança climática”. Attenborough completou: “Se não tomarmos medidas, o colapso de nossa civilização e a extinção de grande parte do mundo natural está no horizonte”.

Massimo Faggioli

PORQUE OS OPONENTES DO PAPA NOS EUA ESTÃO A MUDAR A SUA NARRATIVA

Há uma mudança profunda na maneira com que os católicos norte-americanos se opõem ao Papa Francisco. Hoje eles afirmam que "o papado de Francisco é uma continuação de João Paulo II, compartilhando um consenso de que a Igreja deve se proteger contra a dependência muito grande da autoridade, até mesmo da autoridade da Igreja e da família". O que torna esta interpretação mais do que surpreendente é que durante décadas, neoconservadores, incluindo Richard John Neuhaus, fundador da revista First Things, dominaram a direita católica e enalteceram João Paulo II como o Papa que finalmente recuperou o controle de uma Igreja sequelada por teólogos liberais. Agora a narrativa histórica parece ter mudado à luz do pontificado de Francisco. Essa é uma inversão impressionante", afirma Massimo Faggioli, professor da Villanova University, nos Estados Unidos, em artigo publicado por Foreign Affairs. A tradução é de Victor Thiesen

Ao diagnosticar a recente divisão dentro da Igreja Católica, R. R. Reno ("The Populist Wave Hits the Catholic Church" [A Onda Populista atinge a Igreja Católica, em tradução livre] publicado em 13 de novembro, pode ser lido em inglês aqui) revela uma profunda mudança na forma como a minoria dos católicos norte-americanos que se opõem ao Papa Francisco o retratam como também os seus antecessores.

Respondendo ao meu recente artigo publicado por Foreign Affairs ("A maior crise da Igreja Católica desde a Reforma", publicado em 11 de outubro), Reno descreve o pontificado de Francisco como “desregulatório”, e em consonância com “um establishment secular governante". Ao mesmo tempo, oferece uma reavaliação um pouco cética do Papa João Paulo II, que foi até recentemente considerado como um herói entre os católicos conservadores, especialmente nos Estados Unidos. Reno não faz distinções conceituais importantes, e faz acusações injustas ao Papa Francisco e seus aliados. No entanto, seu argumento fornece um exemplo valioso de como o movimento conservador tradicionalista dentro do catolicismo dos Estados Unidos se radicalizou.

Reno escreve que a crise atual na Igreja decorre do "abandono" do Papa Francisco ao "antimodernismo" católico. No entanto, ao explicar seu argumento, Reno não distingue claramente entre o modernismo teológico e o catolicismo moderno. O primeiro foi um movimento da última década do século XIX e da primeira década do século XX que procurou reinterpretar o ensino católico tradicional usando o método histórico-crítico, o que levou a conclusões fora da tradição católica e posições que negavam o sobrenatural e sua presença na história. O modernismo foi condenado pelo Papa Pio X em 1907, e o que se seguiu foi uma das mais severas purgas contra teólogos em toda a história da Igreja. Durante décadas, as acusações de "modernismo teológico" estavam entre as mais perigosas que poderiam ser atribuídas contra um padre ou teólogo católico.

"Catolicismo moderno" é algo diferente. Refere-se à percepção da Igreja de que era necessário se engajar com o mundo moderno à luz das mudanças na ciência e na cultura no século XX. O início desta relação trouxe um fim à ficção de que um “retorno” à idade média era possível, muito menos desejável. Após a Segunda Guerra Mundial, o Concílio Vaticano II sinalizou a inevitabilidade do diálogo, e não a rendição, com a modernidade por parte de uma Igreja que quer ser um sinal e instrumento da presença de Deus no mundo. Reno alega que o Concílio, convocado pelo Papa João XXIII em 1959, e que transcorreu entre 1962 e 1965, "sugeriu uma abertura ao mundo moderno", e que essa abordagem "se tornou política dominante" nos anos que seguiram. No entanto, ele não menciona que os teólogos do Vaticano II definiram um limite entre as reformas do Concílio e o modernismo teológico. Yves Congar, o teólogo mais importante do Concílio, escreveu que "o modernismo, ao romper com o quadro do catolicismo, deixou claro o perigo de qualquer reflexão sobre a vida que não se baseia em uma teologia preexistente e bem estabelecida tratando a estrutura da Igreja".

Reno passa a acusar Francisco de abrir mão do projeto antimodernista através de um "afrouxamento geral das normas mais antigas sobre sexo, procriação e família". No entanto, Francisco não faz tal coisa. Sob comando deste Papa, não houve nenhuma mudança substancial em nenhuma destas normas, somente uma ênfase mais forte na maneira que devem ser interpretadas em alguns casos particulares. O adultério continua sendo adultério, e a Igreja Católica ainda não reconhece o divórcio e o segundo casamento. Algo mudou, não na lei da Igreja ou na doutrina, mas na teologia moral e na aplicação pastoral da disciplina sacramental. A mudança é que a Igreja não exclui necessariamente a admissão de casais em segunda união aos sacramentos após um período de discernimento. O foco excessivo de Reno no legalismo nunca esteve alinhado com a tradição católica. As leis sozinhas não unificam a Igreja, somente junto a costumes e práticas cujo propósito é promover o bem-estar espiritual das almas.

Reno também argumenta que Francisco agiu de forma "confusa" quando mudou o Catecismo da Igreja Católica para declarar a pena de morte "inadmissível." Na verdade, a mudança de Francisco era algo bem menos confuso: alinhou finalmente o texto do Catecismo, que dizia anteriormente que a pena de morte era aceitável em circunstâncias "muito raras, se não praticamente inexistente", com várias declarações que os papas João Paulo II e Bento XVI emitiram sobre a pena de morte nas últimas duas décadas.

Mais interessante, no entanto, é a afirmação de Reno de que o papado de Francisco é uma continuação de João Paulo II, compartilhando um consenso de que a Igreja deve se proteger contra a dependência muito grande da autoridade, até mesmo a autoridade da Igreja e da família". O que torna esta interpretação mais do que surpreendente é que durante décadas, neoconservadores, incluindo Richard John Neuhaus, fundador da revista First Things (que Reno edita atualmente), dominaram a direita católica e enalteceram João Paulo II como o Papa que finalmente recuperou o controle de uma Igreja sequelada por teólogos liberais. Agora a narrativa histórica parece ter mudado à luz do pontificado Francisco. Essa é uma inversão impressionante.

Igualmente deslumbrante tem sido como este grupo de católicos mudou sua visão do papel do Papa Francisco na atual crise da globalização. No primeiro ano do pontificado de Francisco, o próprio Reno elogiou o Papa Francisco por seus instintos populistas, escrevendo que ele "intui em grande parte as maneiras pelas quais a globalização está dissolvendo velhas certezas, velhas formas sociais, velhas formas de ser". Agora, entretanto, Reno vê Francisco como um Papa neoliberal, "fundindo a Igreja Católica no establishment cultural e político do Oeste”. Esta é uma virada interessante: onde Reno uma vez elogiou a crítica do Papa ao capitalismo sem restrições, agora sustenta que Francisco em seu núcleo "endossa o ‘mundo aberto’ idealmente integrado para a expansão contínua dos mercados".

Reno está certo quando diz que a crise Católica é mais do que tensões entre esquerda e direita dentro da Igreja. Mas é difícil negar que "os tradicionalistas católicos conservadores com dinheiro e poder político estão fomentando a divisão" e desafiando a legitimidade do Papa Francisco: eles têm sido relativamente transparentes sobre suas intenções. Considere, por exemplo, a tentativa do antigo conselheiro do Breitbart News Steve Bannon a fim de influenciar o pensamento conservador na Igreja com uma agenda anti-Francisco muito clara. De fato, o confronto entre o Papa Francisco e esses setores do catolicismo dos EUA foi percebido muito cedo em seu pontificado.

Que as narrativas sobre o Papa Francisco, e a direção da Igreja Católica de forma mais ampla, tenham se tornado inconsistentes e instáveis é confuso, mas não surpreende. Isso é o que acontece quando o catolicismo se torna totalmente absorvido por uma ideologia política.

George Weigel

AUTOCRACIA VATICANA E OS BISPOS DOS EUA

O desafio dos bispos dos Estados Unidos é moderar a sua arraigada deferência a ‘Roma’ e continuar elaborando respostas para essa crise que estejam dentro da sua autoridade e que atendam às legítimas demandas por reforma do povo católico dos Estados Unidos.” A opinião é de George Weigel, membro sênior do Centro de Ética e Políticas Públicas, em Washington, onde ocupa a cátedra William E. Simon em Estudos Católicos. O artigo foi publicado por First Things. A tradução é de Moisés Sbardelotto /IHU

Enquanto os bispos dos Estados Unidos se reuniam em Baltimore, no fim de semana de 10 e 11 de novembro, parecia certo que, após um dia de oração, penitência e reflexão sobre a crise dos abusos sexuais da Igreja, eles dariam dois passos importantes rumo à reforma. Seria adotado um código de conduta episcopal, responsabilizando os bispos de acordo com os padrões aplicados aos padres na Carta de Dallas de 2002. E os bispos autorizariam um mecanismo liderado pelos leigos para receber denúncias de mau comportamento, má conduta ou corrupção episcopais; denúncias consideradas críveis seriam enviadas às autoridades competentes, incluindo as de Roma.

Então, no último minuto, o cardeal Daniel DiNardo, presidente da Conferência dos Bispos dos Estados Unidos (USCCB), recebeu uma instrução de Roma afirmando que o Vaticano não queria que os bispos estadunidenses votassem essas duas medidas.

A frágil justificativa dada com a instrução era de que tais decisões deverão ser tomadas depois que os presidentes das conferências episcopais do mundo se reunirem em Roma em fevereiro, para discutir a crise dos abusos em suas dimensões globais.

O que aconteceu com a “sinodalidade” e a “colegialidade” que supostamente deveriam caracterizar a Igreja com o Papa Francisco? Que significado concebível de “sinodalidade” ou de “colegialidade” inclui uma intervenção romana autocrática nos assuntos de uma conferência episcopal nacional que conhece sua própria situação muito melhor do que as autoridades romanas?

E me poupem de mais desculpas sobre as preocupações romanas com o direito canônico. Se houvesse problemas canônicos nas propostas estadunidenses, eles poderiam ter sido resolvidos depois que os bispos tivessem feito o que tinham que fazer e que Roma efetivamente os impediu de fazer: demonstrar aos furiosos católicos estadunidenses que os bispos estão firmemente comprometidos em enfrentar as dimensões episcopais da crise dos abusos e do colapso da credibilidade episcopal que isso criou.

(E já que estamos no assunto da lei da Igreja: com que autoridade legal o cardeal Marc Ouellet, prefeito da Congregação para os Bispos, instruiu a USCCB a não votar em assuntos que os membros da conferência consideravam da mais grave importância? Uma parte da justificativa para essa intervenção pode ser extraída do cânone 455.1, sob a autoridade das conferências dos bispos. Mas, dada a despreocupação com o direito canônico demonstrada por Roma nos últimos anos, sem falar da série aparentemente interminável de censuras contra o “legalismo”, tais preocupações sobre o direito canônico soam falsas. Em todo o caso, e de acordo com o cânone 455.2, qualquer ajuste legal poderia ocorrer depois que os bispos dos Estados Unidos tivessem feito o que julgavam necessário para restaurar a confiança nesta situação crítica.)

Recentemente, eu passei quase cinco semanas em Roma, durante as quais eu encontrei uma atmosfera antiestadunidense pior do que eu já havia experimentado em 30 anos de trabalho dentro e ao redor do Vaticano. Uma imagem falsa da vida da Igreja nos Estados Unidos, na qual católicos ricos ligados a bispos de extrema-direita sequestraram a Igreja e estão liderando uma exasperada resistência ao atual pontificado, foi vendida com sucesso.

E, em outra ofensa contra a colegialidade, essa descrição grosseiramente distorcida do catolicismo estadunidense não foi efetivamente contestada ou corrigida pelos bispos estadunidenses que desfrutam do favor romano nestes dias.

Desentendimentos honestos – por exemplo sobre a Amoris laetitia e suas implicações para a doutrina e a prática pastoral – são uma coisa. Uma distorção sistemática da realidade, que atropela a presunção da boa vontade de um oponente que deveria guiar qualquer debate católico interno, é outra completamente diferente.

Os envolvidos nessa calúnia antiestadunidense dos bispos também podem refletir sobre sua perturbadora genealogia. Pois um dos que injetaram essa toxina na corrente sanguínea romana foi um predador sexual em série especializado no abuso de seminaristas sob sua autoridade – Theodore McCarrick, ex-arcebispo de Washington.

Os relatos da mídia sobre a recente reunião dos bispos em Baltimore geralmente acertaram: os bispos dos Estados Unidos tentaram fazer a coisa certa e foram atacados por Roma, que simplesmente não entende de abusos sexuais e de má-fé episcopal.

Mas não se pode permitir que a história termine por aqui. E a Igreja também não pode se dar ao luxo de “esperar até depois de fevereiro”.

O cardeal DiNardo e a maioria dos bispos estão determinados a acertar as contas com o horror que veio à tona, em prol do futuro evangélico da Igreja. O desafio dos bispos agora é moderar a sua arraigada deferência a “Roma” e continuar elaborando respostas para essa crise que estejam dentro da sua autoridade e que atendam às legítimas demandas por reforma do povo católico dos Estados Unidos.

Edição 142 Novembro 2018

Thomas Reese

É POSSÍVEL UM CISMA NA IGREJA CATÓLICA?

A questão na reunião dos bispos dos Estados Unidos em Baltimore não é o cisma, mas sim a credibilidade. Se os bispos não forem capazes de lidar de maneira credível com o abuso sexual durante a sua reunião em Baltimore, os fiéis não vão se dividir; eles simplesmente vão embora.” O comentário é do jesuíta estadunidense Thomas J. Reese, ex-editor-chefe da revista America, dos jesuítas dos Estados Unidos, de 1998 a 2005, e autor de O Vaticano por dentro (Ed. Edusc, 1998), em artigo publicado por Religion News Service. A tradução é de Moisés Sbardelotto /IHU

Enquanto os bispos católicos dos Estados Unidos se reúnem em Baltimore para discutir questões polêmicas como o abuso sexual clerical e o racismo, algumas pessoas estão falando sobre a ameaça de cisma.

A história mostra que a possibilidade de cisma está sempre presente, mas as probabilidades contra um cisma são altas hoje.

Primeiro, para se ter um cisma, você precisa de pelo menos um bispo interessado em se separar. Se um padre e seus paroquianos decidem se separar da Igreja, isso não é um cisma. Se um padre lidera uma divisão, ela geralmente desaparece quando o padre morre.

Os bispos cismáticos podem ordenar outros bispos e padres, de modo que o afastamento tem uma maior chance de continuidade; o Grande Cisma de 1054 entre o cristianismo oriental e ocidental durou quase 1.000 anos.

Por outro lado, o cisma mais famoso do século XX foi liderado pelo arcebispo francês Marcel Lefebvre contra muitas das reformas ordenadas pelo Concílio Vaticano II, incluindo o ecumenismo, a liberdade religiosa e a tradução da liturgia ao vernáculo. Em 1988, ele ordenou quatro bispos sem a aprovação do papa, mas levou consigo apenas um número relativamente pequeno de católicos para o cisma. Após sua morte, seu grupo não cresceu significativamente e experimentou suas próprias divisões (Bento XVI também tornou o grupo menos atraente ao permitir um maior uso da missa em latim pré-Vaticano II).

Certamente há bispos que não gostam do modo como o Papa Francisco está liderando a Igreja. O arcebispo Carlo Viganò pediu que o papa renunciasse. Outros, incluindo o cardeal Raymond Burke, criticaram Francisco, mas até agora nenhum deles demonstrou interesse algum em debandar.

Eles o veem como uma aberração que será corrigida pelo próximo papado. Afinal, aos 81 anos de idade, ele é mais velho do que muitos de seus críticos. Eles podem esperar por isso.

Para se ter um cisma, você também precisa de questões verdadeiramente divisivas que rachem a comunidade, não apenas os bispos.

Bispos conservadores se queixaram de que Francisco é excessivamente permissivo ao permitir que católicos divorciados em segunda união comunguem; demasiadamente suave com os católicos que praticam o controle de natalidade; e muito acolhedor aos católicos LGBT. No entanto, pesquisas de opinião pública mostram que os católicos, até mesmo aqueles que frequentam a Igreja semanalmente, são muito mais liberais do que o papa nessas questões.

Embora blogueiros e comentaristas conservadores possam reclamar dessas questões, os fiéis não vão seguir um bispo ao cisma porque querem que as regras sobre o controle de natalidade, o divórcio e a homossexualidade sejam rigorosamente cumpridas.

Os sentimentos são mais fortes em relação ao aborto, mas Francisco expressou repetidas vezes a sua oposição ao aborto, embora, no início de seu reinado, ele tenha indicado que não transformaria a questão em uma “obsessão”, já que todos conhecem a posição da Igreja.

Os temas em discussão na reunião de Baltimore, o abuso sexual e o racismo, certamente são controversos, mas os bispos estão unidos em sua oposição ao racismo e unidos no pânico ao lidar com a crise dos abusos sexuais. Sobre o abuso sexual, a grande divisão não é entre os bispos, mas sim entre os bispos e o seu povo.

Os cismas mais importantes da história tiveram mais a ver com a política do que com a teologia. Isso foi verdade no Grande Cisma e na divisão anglicana com Henrique VIII. Hoje, o cisma entre os fiéis ortodoxos ucranianos e russos tem tudo a ver com a política.

Do mesmo modo, alguns também consideravam que os bispos pertencentes à Associação Patriótica Chinesa estavam em cisma, porque também ordenaram bispos sem a aprovação vaticana. O Vaticano evitava chamá-los de cismáticos, e um dos principais objetivos do recente acordo de Francisco com o governo chinês foi emendar a divisão entre os católicos chineses, mesmo que isso significasse aceitar alguns bispos que o Vaticano nunca teria ordenado voluntariamente.

A Igreja Católica dos Estados Unidos tem sido extraordinariamente bem-sucedida em manter os oponentes políticos no seu redil. Enquanto muitas Igrejas protestantes se dividiram durante a Guerra Civil, a Igreja Católica permaneceu unida. Nas recentes eleições de meio de mandato, os católicos dividiram seu voto entre candidatos republicanos e candidatos democratas, como fizeram na última eleição presidencial, enquanto outras denominações tenderam a votar esmagadoramente em um partido.

Essa unidade está sentindo alguma tensão, mas ainda parece forte. De acordo com o Pew Research Center, 84% dos católicos têm uma opinião favorável sobre Francisco, mas, quando isso é analisado por partido, os números são de 89% para os católicos democratas e de 79% para os católicos republicanos. Este último ainda é um número extraordinariamente alto; qualquer político adoraria ter essa classificação. Mas isso mostra como o partidarismo pode enfraquecer a união.

O Pew também constatou que 55% dos católicos republicanos acham que Francisco é liberal demais. O discurso do papa sobre construir pontes em vez de muros e o seu forte apoio aos refugiados e migrantes vai contra a ortodoxia de Trump. Mas esses republicanos não parecem dispostos a abandonar a Igreja.

Assim como os bispos estadunidenses não parecem prontos para abandonar as sensibilidades de ambos os lados. Embora alguns prefiram se concentrar no aborto, no casamento gay e na liberdade religiosa, nenhum deles tem apoiado as políticas anti-imigrantes do governo Trump. Somente neste ano, a Conferência dos Bispos dos Estados Unidos publicou 21 comunicados de imprensa sobre a a imigração, todos críticos em relação ao governo Trump.

É verdade, eles querem juízes pró-vida nomeados para a Suprema Corte, mas, ao contrário das lideranças evangélicas, os bispos católicos não venderam suas almas ao Partido Republicano. Eles ainda seguem a doutrina social católica, com a sua preocupação pelos trabalhadores, os pobres e os marginalizados. Na verdade, eles se sentem desconfortáveis com ambas os partidos.

A questão em Baltimore não é o cisma, mas sim a credibilidade. Se os bispos não forem capazes de lidar de maneira credível com o abuso sexual durante a sua reunião em Baltimore, os fiéis não vão se dividir; eles simplesmente vão embora.

Donata Horak

MULHERES E SÍNODO: É PRECISO FAZER AS PERGUNTAS CERTAS

Donata Horak é teóloga e canonista italiana, professora de Direito Canônico no Studio Teologico Alberoni, afiliado à Pontifícia Universidade Angelicum, de Piacenza, e da Escola de Formação Teológica de Piacenza.O artigo foi publicado em Il Regno. Uma primeira versão apareceu no sítio da Coordenação das Teólogas Italianas. A tradução é de Moisés Sbardelotto /IHU

Por ocasião do Sínodo dos bispos, a imprensa deu um certo destaque a um movimento, nascido espontaneamente em diversos países, que pede que o papa conceda um voto deliberativo às mulheres participantes em vários níveis nos trabalhos sinodais.

As sínteses jornalísticas nem sempre ajudaram a compreender o porte do pedido, tratando o Sínodo como uma assembleia democrática cujas regras excluiriam as mulheres por serem mulheres, enquanto confeririam plenos poderes deliberativos aos homens, inclusive aos não bispos.

Talvez seja útil esclarecer os termos da questão, não para diminuir o porte do movimento Votes for Catholic Women, mas justamente para canalizar melhor as energias para reformas que possam contribuir para alcançar aquela sinodalidade que deveria dar forma às relações na Igreja.

Auxiliar o bispo de Roma

Estamos falando do “Sínodo dos bispos”, organismo instituído para auxiliar o bispo de Roma no exercício pessoal do seu ministério. No delicado e nunca estático equilíbrio entre colegialidade e primado, o pontífice se vale de todos aqueles órgãos de consulta que lhe permitem agir em comunhão e a serviço da comunhão das Igrejas.

O Sínodo, embora composto por bispos, não tem natureza deliberativa, mas apenas consultiva: o papa o convoca, o papa o preside, o papa, no fim, decide que valor deve atribuir ao documento final elaborado pela assembleia sinodal.

Quando falamos de direito a voto no Sínodo dos bispos, não devemos pensar em um poder deliberativo que imediatamente torne magistério aquilo que é deliberado pela maioria. Quem tem direito a voto no Sínodo, mesmo sendo bispo, não faz nada mais do que contribuir para a formação do magistério papal. E, precisamente nesse ponto, ocorreu a reforma mais importante na recentíssima constituição apostólica Episcopalis communio.

Comumente, o documento final, votado pela assembleia, deve ser aprovado posteriormente e, assim, passa a fazer parte do magistério ordinário do sucessor de Pedro. Agora, prevê-se que o papa possa conceder ao Sínodo um poder deliberativo. Nesse caso, o documento final só deve ser ratificado e se torna magistério ordinário do sucessor de Pedro, publicado com as assinaturas do papa e de todos os membros que votaram nele.

Isso é uma revolução? Não exatamente: a norma reforça e explicita o que já era previsto pelo cânone 343 do Código de Direito Canônico de 1983.

A Episcopalis communio certamente insiste na dimensão sinodal do exercício do ministério do bispo de Roma e de todos os outros bispos; valoriza o forte vínculo entre cada bispo individual e a Igreja particular que lhe é confiada, estabelecendo, por exemplo, que o Conselho Ordinário da Secretaria Geral seja composto por bispos diocesanos, ou seja, por pastores que fazem parte de uma porção do povo de Deus que lhes foi confiada; fortalece a fase de consulta preparatória e prevê que os fiéis, como indivíduos ou associados, possam enviar diretamente as suas contribuições à Secretaria Geral.

É nesses termos que se deve entender a “representatividade” do povo de Deus. O Sínodo dos bispos não é um pequeno parlamento eclesial, em que os membros com direito a voto deliberativo tentam obter a maioria dos votos para satisfazer as reivindicações de um partido, de uma categoria de fiéis ou de uma linha eclesiológica. O povo de Deus é representado pelos bispos por estarem em comunhão com as Igrejas particulares em todos os seus componentes.

Portanto, por sua natureza, a assembleia do Sínodo “dos bispos” nunca será composta por todos os componentes do povo de Deus, em proporção à sua consistência (característica, esta, de outros órgãos, como os conselhos pastorais).

A composição

No entanto, mesmo do ponto de vista da composição do Sínodo, não faltam novidades na Episcopalis communio: referimo-nos ao cânone 346, que prevê que a maioria dos membros sejam bispos, mas que descarta aquele limite de 15% de pessoas não marcadas pelo múnus episcopal previsto nos Regulamentos anteriores; quanto aos especialistas que participam das assembleias, já não se diz mais que devem ser “eclesiásticos”.

Em suma, quem pode participar do Sínodo, além dos bispos? Todos os sujeitos previstos pelo cânone 346 do Código de Direito Canônico e também “outros mais, que não detêm o múnus episcopal e cujo papel é determinado de cada vez pelo Romano Pontífice”. Nem o Código nem a Episcopalis communio especificam que esses “outros” devem ser ministros ordenados, religiosos ou religiosas, homens ou mulheres. O direito a voto poderia ser concedido a eles, sem distinção de estado de vida ou de sexo.

Neste momento, entre os 39 membros de nomeação pontifícia, 10 não são bispos, mas são todos presbíteros. Talvez, seria possível desejar mais coragem na nomeação, talvez atribuindo um papel mais forte aos jovens e às jovens, já que se fala deles? É possível, assim como, aliás, o papa poderia estender o direito a voto também a outros participantes nos trabalhos sinodais, e até durante o andamento dos trabalhos, o que veremos.

Existe um precedente. O cânone 346, confirmado pela Episcopalis communio, prevê que a União dos Superiores Gerais eleja alguns membros representativos dos institutos religiosos “clericais”. Por que só estes e não também os institutos masculinos leigos e todos os institutos femininos? Parece, evidentemente, uma norma irrationabilis aos próprios superiores gerais, tanto que, no Sínodo de 2015, eles tinham eleito surpreendentemente um irmão leigo, o prior dos Irmãozinhos de Jesus.

Pensava-se que ele participaria como simples consultor, mas o papa, usando legitimamente as suas prerrogativas, concedeu-lhe surpreendentemente o direito a voto. Também por ocasião do Sínodo de 2018, a União dos Superiores Maiores designou dois irmãos leigos. Parece evidente que deveriam ser reformados os cânones 346 e 347: bastaria remover o adjetivo “clericais” e, para evitar dúvidas, especificar que o próprio direito de eleição está nas mãos dos superiores e das superioras gerais.

Isso seria suficiente para responder às reivindicações dos movimentos que pedem uma ampliação do direito a voto no Sínodo? Evidentemente não; evidentemente, o que está em jogo é mais sério e mais elevado.

Uma demanda radical das mulheres

Talvez, o Sínodo dos bispos não seja a instituição adequada para recolher as reivindicações que esses movimentos expressam: ele continuará sendo um órgão composto, em sua maioria, por bispos, portanto, de ampla composição masculino, e sempre terá uma função predominantemente consultiva.

Isso não deve nos distrair do fato de acolher com profunda gratidão a demanda que está atrás do slogan “Votes for Women”. É a partir das periferias que a Igreja é movimentada e impulsionada pelo Espírito. As mulheres são uma periferia que pede participação, que pede para pode se pôr em jogo com paixão, que pede não uma representatividade política (não existe um “partido das mulheres” que votaria compactamente se investido do direito a voto em um Sínodo), mas pede para ser visível, para tomar a palavra com autoridade, porque senão somos todos mais pobres.

Esse movimento é um belo dom do Espírito que poderá contribuir para gerar novas formas sinodais, novas instituições ou a renovação de práxis antigas (poderiam ser repensados os concílios particulares? Poderiam ser introduzidos conselhos de participação democrática como já ocorre nos institutos religiosos?).

Com gratidão, acolhemos o entusiasmo de movimentos femininos que, com nova energia, assertividade e autoridade, inserem processos criativos.

Mas se poderia perguntar: onde estão os leigos homens? Já se sentem suficientemente representados por órgãos com um grande componente clerical? Não acreditam que a sua experiência de vida deveria contribuir com o discernimento comunitário?

E, por fim, uma pergunta, aquela que arde mais do que as outras. Não se vê um movimento semelhante no mundo juvenil, entre aqueles jovens pelos quais se está celebrando o Sínodo? Será que já não se afastaram silenciosamente aqueles jovens e aquelas jovens que não se sentem representados e ouvidos nos processos decisórios, nas estruturas institucionais e na linguagem de uma Igreja clerical?

Massimo Faggioli

OS LIMITES DE UMA ABORDAGEM CRIMINOLÓGICA À CRISE DOS ABUSOS NA IGREJA

É necessário adotar uma abordagem focada na reconciliação, paralelamente à implementação de medidas criminais e canônicas. A opinião é do historiador italiano Massimo Faggioli, professor da Villanova University, nos Estados Unidos. O artigo foi publicado em La Croix International. A tradução é de Moisés Sbardelotto /IHU

Konrad Adenauer, o devoto católico romano que foi chanceler da Alemanha de 1949 a 1963, desempenhou um papel-chave na transição do seu país do nazismo (1933-1945) para a nova, democrática e anticomunista República Federal que nasceu sob o olhar atento dos Aliados após a Segunda Guerra Mundial. E, nessa tarefa, ele disse certa vez, “Não jogue fora a água suja se você não tiver outra que esteja limpa”.

Essa afirmação é tão apropriada para a Igreja Católica de hoje, no modo como ela navega na tempestade global da crise dos abusos sexuais, quanto foi para a Alemanha pós-nazista em 1945.

A Igreja terá que trilhar um caminho semelhante ao que foi percorrido por todas as nações que já migraram de um tipo de regime para outro. E terá que lidar com um passado problemático (para dizer o mínimo), em que a responsabilidade moral recai sobre muito mais pessoas do que as que podem ser processadas criminalmente.

A mudança, por parte da Europa pós-Segunda Guerra Mundial, de regimes autoritários e totalitários para sistemas democráticos e constitucionais é um bom exemplo, nesse sentido.

Imediatamente após sua derrota militar, a Alemanha e a Itália, por exemplo, começaram um processo de “desnazificação” e de “desfascistização”. Isso foi realizado em fases.

A primeira fase, que ocorreu ao longo de várias semanas, foi marcada por uma onda de execuções (em parte, extrajudiciais).

Então, durante alguns meses depois disso, houve uma segunda fase em que colaboradores nazistas e fascistas foram banidos ou expurgados do serviço público e da vida pública.

E, finalmente, numa terceira fase (com um cronograma que diferia de país para país), foi elaborada uma legislação para reintegrar oficiais e funcionários de segunda linha do regime na vida pública por meio de programas de amnistia oficiais e não oficiais.

A Igreja Católica não é um regime nazista ou fascista. E ninguém quer amnistia para aqueles membros da Igreja que abusaram sexualmente dos jovens e vulneráveis; ou para aqueles que acobertaram os abusos.

Mas o paralelo é particularmente importante, porque ressalta um elemento-chave na maneira como os católicos estão atualmente respondendo às revelações de abuso em comparação com o modo como eles reagiram em 2002, quando a crise eclodiu.

A abordagem criminológica da crise dos abusos tende a simplificar demais uma situação muito mais complexa. Ao se focar apenas nos abusadores e nos que possibilitaram os abusos, ela tende a exonerar todos os outros ou – muito pelo contrário – tende a identificar a própria Igreja (ou a hierarquia) como um sistema inteiramente corrupto do ponto de vista criminal.

A realidade é que, para além da lista de abusadores e de facilitadores, há também uma lista muito mais longa de católicos que ocupam uma vasta área cinzenta. Ela inclui pessoas que não levaram as vítimas a sério ou que se recusaram a acreditar em rumores sobre supostos abusadores.

Ela também consiste naqueles que não lidaram com a hipocrisia de como a Igreja frequentemente lida com a moral sexual e naqueles que justificaram ou lucraram com o sistema clerical que está no cerne da história da crise dos abusos.

Processo de conscientização

Se olharmos para os abusos na Igreja dessa maneira, fica claro que a abordagem criminológica por si só não proporcionará uma saída dessa crise. Aqui a comparação com a transição de um tipo de regime para outro na Europa pós-1945 é reveladora.

Ninguém deveria esperar ou procurar pelo “atestado de saúde” fácil e muitas vezes hipócrita e cúmplice dado às autoridades da Igreja de maneira semelhante ao chamado Persilscheine concedido pelas autoridades encarregadas pela desnazificação na Alemanha após a Segunda Guerra Mundial.

Ao mesmo tempo, seria ingénuo pensar que a Igreja ou as autoridades seculares que conduzem as investigações conseguirão visar àqueles que têm responsabilidade legal e moral na crise dos abusos e declarar indiretamente a inocência de todos os outros.

Uma abordagem criminológica pura não fará isso, porque o que está acontecendo com as revelações de abuso faz parte de uma revolução cultural e social mais ampla.

A nova consciência na Igreja sobre os abusos – abuso sexual e abuso de poder de todos os tipos – não é apenas um resultado do trabalho de investigação de jornalistas e de autoridades seculares. É também uma consciência produzida por uma compreensão mais profunda do conceito de dignidade de todas as pessoas humanas e de todos os membros da Igreja – membros leigos, menores e mulheres.

Isso deveria levar-nos a entender que deve haver um processo de conscientização, purificação e reconciliação na Igreja paralelo às investigações, processos e condenações de abusadores e facilitadores.

E também porque a história das mudanças de regime nos diz que o processo de depuração (expurgo de colaboradores do antigo regime) está sempre misturado com uma agenda política e nunca envolve apenas o cumprimento da lei. Isso fica bem claro na forma como alguns grupos católicos estadunidenses estão tentando usar o escândalo dos abusos como uma arma nas “guerras culturais”.

É necessário adoptar uma abordagem focada na reconciliação junto com a implementação de medidas criminais e canônicas. Isso não apenas para refletir honestamente as complexidades morais que fazem parte da crise sistêmica de abusos na Igreja. Mas também para responder à fase particular da crise que começou neste ano, com uma nova onda de investigações conduzidas por autoridades seculares, especialmente nos Estados Unidos.

O lado sombrio do catolicismo institucional

Começando em junho passado com as revelações sobre o ex-cardeal Theodore McCarrick e continuando em agosto com o relatório do Grande Júri da Pensilvânia, e agora com o anúncio de muitos Estados estadunidenses que estão prestes a investigar os registros diocesanos, o foco da atenção mudou para os arquivos da Igreja – encontrados em dioceses, nunciaturas papais e no Vaticano.

Essa nova onda de investigações lançadas por autoridades seculares nos arquivos eclesiásticos significa que a Igreja terá que enfrentar um longo período de revelações sobre o lado sombrio do catolicismo organizado e institucional.

Em geral, os arquivos tendem a registar apenas (ou principalmente) as sombras, e não o lado positivo das pessoas e das instituições. Os arquivos não guardam registros da santidade cotidiana da vasta maioria dos cristãos.

Além disso, permitir que a dimensão legal assuma completamente o modo como a Igreja lida com a crise dos abusos traria de volta a ideia de governança da Igreja exemplificada por um dos bispos italianos mais conservadores do Concílio Vaticano II, o cardeal Giuseppe Siri (1906-1989).

Ex-arcebispo de Gênova e papável, Siri costumava dizer que a Igreja Católica devia ser governada por meio do silentium et archiva (silêncio e arquivos) – isto é, protegendo os arquivos daqueles que são culpados de alguma coisa; arquivos que podem e serão usados contra eles.

Neste momento presente na crise dos abusos sexuais católicos, há uma grande tentação a buscar uma solução criminológica simples para o problema. Um sintoma revelador dessa tentação é a evidente falta – ainda hoje – de reflexões teológicas sobre a crise e o seu significado para a Igreja.

Para ser claro: a fase de investigações nos arquivos eclesiásticos por instituições seculares é necessária e há muito tempo esperada. Mas não pode haver nenhuma esperança para uma solução duradoura para essa crise, a menos que levemos em consideração o panorama muito mais complexo das responsabilidades institucionais, teológicas e morais em escalões da Igreja que são muito maiores do que a lista daqueles que serão declarados culpados.

Edição 141 Outubro 2018

Reportagem de Sergio Ferrari, publicada por Alai /IHU

A POBREZA NO MUNDO, UM EFEITO DA INJUSTIÇA

Com os alimentos desperdiçados poderiam alimentar-se 800 milhões de pessoas

Uma em cada dez pessoas no planeta Terra sofre, em 2018, com o impacto da pobreza extrema, segundo as cifras oficiais dos organismos internacionais. E se bem nos últimos 25 anos, as mesmas estatísticas, indicam que bilhões de seres humanos escaparam dessa categoria, a realidade cotidiana em muitas regiões aporta sinais preocupantes de retrocessos significativos.

Acabar com a pobreza não é uma questão de caridade, mas sim de justiça, enfatizaram as Nações Unidas nesta terceira semana de outubro, em ocasião do Dia Internacional para a Erradicação da Pobreza, que se comemorou no dia 17. Reflexão ainda mais atual ao celebrar este ano o 70º aniversário da Declaração Universal de Direitos Humanos e quando se reatualiza o debate sobre os Objetivos do Desenvolvimento Sustentável, o primeiro dos quais tenta terminar com esse flagelo.

Segunda as estatísticas da ONU, 700 milhões de seres humanos vivem abaixo da linha da pobreza, o que significa que contam com menos de US$ 1,90 por dia. Entretanto, limitam as mesmas, seriam 1,3 bilhões de pessoas que padecem de “pobreza multidimensional”, conceito que contabiliza o acesso aos serviços básicos essenciais para levar uma vida digna. Fator ainda mais preocupante: a metade das vítimas são menos de 18 anos.

O drama do custo de um prato de comida

Um mesmo prato de comida, caseira, simples, mas nutritiva, elaborada com ingredientes semelhantes, que assegura um terço das calorias diárias necessárias para uma pessoa, custa, em Nova Iorque, US$ 1,20, o que representa 0,6% do salário diário médio. Não obstante, no Sudão do Sul, representaria mais de dois dias de salário. Isso é, como se um habitante de Nova Iorque tivesse que pagar US$ 350 por esse cardápio.

Na Nigéria, para esse mesmo tipo de alimento, deve se destinar o salário de mais de um dia. Enquanto na Colômbia, Guatemala ou Bolívia, um menu dessa natureza representaria entre 2 ou 2,7% da média salarial diária. Assim aponta o relatório “Contando os feijões: o custo real de um prato de comida em todo o mundo, 2018”, recentemente publicado pelo Programa Mundial de Alimentos da ONU (PMA). Os principais afetados, segundo o estudo, são os países em conflito ou que sofrem diversos fatores de instabilidade.

Causas e fatores da pobreza

Para Antonio Guterres, secretário-geral da ONU, na sua mensagem oficial de 17 de outubro, os conflitos armados, os desastres naturais e as desigualdades crescentes aparecem como obstáculos para o combate contra esse lastre. E chamou a “uma globalização justa que produza oportunidades para todos e que garanta que o desenvolvimento tecnológico impulsará esforços para erradicar a pobreza”.

Conceitos compartilhados, parcialmente, por organizações não-governamentais (ONGs) internacionais, que aprofundam ainda mais a reflexão sobre causas e fatores da pobreza.

“A pobreza é uma epidemia que afeta milhões de pessoas no nosso planeta”, enfatiza a Oxfam Intermón que há anos prioriza sua ação nessa temática. Para a ONG, são 1,4 bilhões de pessoas que sofrem da pobreza extrema e quase 900 milhões padecem de fome, e não tem acesso à água potável a outros serviços básicos como a saúde e a educação.

Na pedagogia da dita ONG, o conteúdo, entretanto, é mais contundente. No seu site, a Oxfam destaca que antes de explicar quais são as causas da pobreza no mundo, é importante clarear entre fator e causa. “As causas são situações que levam ao desenvolvimento da pobreza, enquanto um fato pode manter essas condições de pobreza durante longo tempo dado que não permitem uma solução”, explica.

“Diferentes instituições estudaram as causas da pobreza. Porém, é preciso ter em conta que cada território e cada situação é diferente, na qual falar da casuística geral é mais que complexa”, destaca. E se coloca a analisar os fatores que favorecem a manutenção desse flagelo.

Entre eles, o modelo comercial multinacional, com o desenvolvimento de grandes corporações que usam recursos e mão-de-obra barata em países em risco de pobreza, empobrecendo-os ainda mais.

A corrupção, que subtrai recursos essenciais que deveriam estar destinados para as áreas sociais. Sem subestimar o impacto das mudanças climáticas, enfermidades e epidemias. Outros fatores: o desperdício dos alimentos, que implica que com os gastos de 800 milhões de pessoas que padecem de fome, a discriminação de gênero, os conflitos armados e o crescimento exponencial do número de habitantes no planeta. Entretanto, segundo a mesma ONG, um dos fatores mais preocupantes, segue sendo, o desinteresse dos países desenvolvidos para acabar com a pobreza.

Massimo Faggioli

A MAIOR CRISE DA IGREJA CATÓLICA DESDE A REFORMA

“Muitos dos críticos do papa no Ocidente, e particularmente nos Estados Unidos, veem a crise dos abusos não apenas como um fracasso moral-teológico, mas também como o fracasso da Igreja Católica em continuar sendo a alma do Ocidente.” A opinião é do historiador italiano Massimo Faggioli, professor da Villanova University, nos Estados Unidos. O artigo foi publicado por Foreign Affairs, 11-10-2018. A tradução é de Moisés Sbardelotto. Eis o texto.

A Igreja Católica está enfrentando a sua mais séria crise em 500 anos. Nestes últimos meses, uma nova onda de revelações de abusos clericais deixou o mundo em estado de choque. Da Austrália ao Chile, da Alemanha aos Estados Unidos, relatos horripilantes revelaram milhares de casos de assédio infantil cometidos por membros do clero. Um relatório de um Grande Júri dos Estados Unidos documentou 1.000 crianças abusadas por 300 padres somente no Estado da Pensilvânia ao longo de sete décadas.

A nova onda de revelações em 2018 foi perturbadora não apenas porque expôs a persistência dos abusos, mas também porque envolveu autoridades de alto nível da Igreja nos abusos e no seu acobertamento. O cardeal Theodore McCarrick, ex-arcebispo de Washington, renunciou ao Colégio dos Cardeais em julho, quando acusações confiáveis vieram à tona, denunciando que ele havia abusado sexualmente de um menor e assediado os seminaristas que ele supervisionava.

As revelações sobre McCarrick foram particularmente preocupantes, porque o ex-arcebispo havia desempenhado um papel de liderança na resposta da Igreja Católica ao último escândalo de abusos sexuais clericais em 2002. No fim de agosto, o arcebispo Carlo Maria Viganò, ex-diplomata papal, publicou uma carta acusando o Papa Francisco de saber sobre os abusos sexuais de McCarrick há anos e de ajudar a encobri-los. Viganò concluiu pedindo ao papa que renunciasse.

A carta de Viganò e o próprio escândalo enviaram ondas de choque ao longo de uma fundação que já estava rachada. A Igreja está amargamente dividida entre alas progressistas e conservadoras. Essa divisão é particularmente pronunciada nos Estados Unidos, onde os católicos neotradicionalistas, altamente mobilizados, assumiram o pedido de Viganò pela renúncia de Francisco.

Esse ramo da Igreja já temia que Francisco apresentasse uma ameaça progressiva aos ensinamentos da Igreja sobre matrimônio e sexualidade. A carta parecia justificar tal desconfiança, acusando o atual papado e seus apoiadores na Igreja de complacência com aquilo que Viganò chamou de “ideologia pró-gay” e “redes homossexuais” entre o clero. Na opinião de Viganò, essa foi a causa da crise dos abusos.

Os progressistas da Igreja, enquanto isso, defenderam Francisco contra as denúncias, mas sem a determinação daqueles que estão exigindo a sua renúncia – em parte porque eles também consideram o seu histórico geral em relação à crise dos abusos sexuais como fraco.

Na necessidade desesperada de uma reforma institucional e enfrentando crescentes rixas políticas, teológicas e geopolíticas, a Igreja não experimentava uma crise tão grande desde a Reforma Protestante. Ao contrário do século XVI, a situação atual provavelmente não resultará em um cisma ou no estabelecimento de novas Igrejas. Mas, para entender a magnitude e a complexidade do que está acontecendo agora, temos que olhar para trás e para uma ruptura tão significativa.

Uma Igreja dividida

Assim como a Reforma, a atual crise se desdobra contra um pano de fundo de corrupção institucional generalizada. Então e agora, a Igreja institucional, especificamente o papado, recuou em relação a propostas-chave de reforma nas décadas anteriores à crise.

No início do século XV, após um período de cisma, uma série de concílios se reuniu para unificar a Igreja Católica. Eles propuseram um sistema pelo qual um conselho de representantes das Igrejas locais forneceria um controle sobre o poder papal e a corrupção. Mas o papado foi rápido em declarar essa doutrina, conhecida como conciliarismo, incompatível com o catolicismo.

Essa inversão foi um fator que tornou possível a corrupção na liderança da Igreja que Martinho Lutero viu quando visitou Roma em 1510. Os papas do Renascimento encorajaram a reforma, mas nunca uma reforma que se estendesse ao papado.

Nos anos após o fim do Concílio Vaticano II em 1962-1965, o papado mais uma vez recuou em relação às reformas. O Vaticano II teve um enorme impacto na cultura e na teologia da Igreja, incluindo a mudança da linguagem da missa do latim ao vernáculo e incluindo mais os leigos e os jovens na vida da Igreja.

No entanto, teve muito pouco sucesso na reforma da estrutura institucional da Igreja e do papado. Embora as propostas vindas dos bispos do Vaticano II para mudanças radicais na Cúria Romana (o governo central da Igreja) fossem cuidadosamente ouvidas por Paulo VI (ele mesmo uma criatura da Cúria Romana), ele finalmente decidiu retirar essa pauta do Vaticano II.

A crise dos abusos sexuais hoje se deve em grande parte aos 50 anos de um ofício papal que rejeitava qualquer proposta de descentralização ou de modernização de uma Cúria Romana cuja estrutura mudou pouco desde a sua fundação em 1588, no período imediatamente posterior ao Concílio de Trento. Ela continua sendo um sistema de carreira sem responsabilização real, não apenas quando se trata da crise dos abusos, mas também em termos da governança e liderança pastoral das Igrejas locais confiadas aos bispos.

A Cúria também está seriamente subfinanciada e com pouco pessoal para as tarefas que supostamente deve desempenhar, incluindo a seleção, a avaliação, a nomeação e a supervisão de um episcopado que, hoje, consiste em mais de 5.000 bispos católicos em todo o mundo.

Mediante medidas como a descentralização do processo de anulação do matrimônio e um novo conjunto de procedimentos para os Sínodos dos Bispos – parte do impulso deste pontificado rumo a uma Igreja mais “sinodal”, menos clerical e menos dependente de Roma – o Papa Francisco visivelmente tentou mudar de rumo e permitir mais descentralização da Igreja: resta saber se já é tarde demais.

Até agora, o episcopado mundial não tem se mostrado disposto a aceitar a oferta do papa. A mudança mais visível foi a decisão de Francisco de criar mais cardeais (em comparação com o passado) do chamado Sul global. Mas essa não é uma mudança que pode ou vai afetar o governo central da Igreja em Roma no curto prazo.

A fragilidade que resulta de um papado e de uma Igreja resistentes à reforma institucional tornam as disputas teológicas ainda mais perigosas. Na época de Lutero, a disputa centrou-se no papel da Escritura na vida teológica dos cristãos. Hoje, os católicos estão divididos em torno dos ensinamentos da Igreja sobre a sexualidade.

Consideremos, primeiro, os pontos de vista de muitos católicos tradicionalistas, especialmente leigos e clérigos nos Estados Unidos que gravitam em torno de revistas como First Things, o conglomerado midiático católico EWTN, blogs tradicionalistas e grupos de lobby católicos como o Instituto Napa.

Eles tendem a ver a crise dos abusos como um produto da revolução sexual dos anos 1960 e 1970, que eles acreditam ter contribuído para a normalização da cultura LGBT dentro do clero, entre outros desdobramentos. Essa ala da Igreja acredita que a crise dos abusos só diminuirá se a Igreja se mantiver firme contra qualquer tentativa de atualizar o ensino oficial sobre as questões sexuais – especialmente sobre a homossexualidade. Para muitos tradicionalistas, a aplicação efetiva desse ensino significaria reprimir a homossexualidade entre o clero, incluindo clérigos gays que são celibatários e castos.

O lado liberal-progressista da Igreja, incluindo os cardeais estadunidenses nomeados por Francisco, como Blase Cupich, de Chicago, e Joseph Tobin, de Newark, geralmente afirma o ensinamento católico sobre a sexualidade, mas defende uma abordagem mais pragmática a questões como as situações de católicos gays, divorciados e recasados, de contracepção e coabitação pré-marital.

Esse grupo vê o silenciamento e o acobertamento dos abusos como um resultado tóxico da hipocrisia da Igreja institucional, que até recentemente havia negado a necessidade de atualizar a linguagem dos seus ensinamentos, enquanto, silenciosamente, estava ciente da enorme lacuna entre tais ensinamentos e a cultura moderna.

Assim como durante a Reforma Protestante, a brecha teológica se estendeu para além do clero até os leigos e os fiéis comuns nos bancos das igrejas. Os debates não são sobre questões doutrinárias obscuras para especialistas, mas sobre questões como a sexualidade, que fazem parte da vida cotidiana dos leigos.

O mesmo vale para as brechas políticas dentro da Igreja, tanto no século XVI quanto hoje. A Reforma Protestante foi o início de um processo de nacionalização política, em que os fiéis se tornaram sujeitos não só da Igreja, mas também das nações. A ascensão do Estado-nação marcou o declínio da doutrina política católica romana que mantinha a suprema legitimidade da Igreja (especificamente do papa) sobre a dos governantes imperiais.

De um modo semelhante, a crise católica hoje tem a ver com as divisões políticas mais profundas dentro da Igreja em torno do ensino correto sobre questões sociopolíticas. Onde os católicos conservadores tradicionalistas tendem a se opor a qualquer legislação que descriminalize o aborto, os progressistas geralmente são favoráveis à descriminalização junto com medidas que ofereçam às mulheres alternativas destinadas a limitar o número de abortos o máximo possível. Os conservadores tendem a se opor ao acesso universal aos cuidados de saúde e a ser favoráveis ao direito irrestrito aos civis de portar armas, enquanto os progressistas são favoráveis ao primeiro e pressionam pelo controle das armas.

Os dois campos também têm opiniões opostas sobre a pena de morte e sobre a recente mudança de Francisco no Catecismo, que declarou a pena capital como “inadmissível”. Em geral, os conservadores favorecem o encolhimento do governo, enquanto os progressistas veem os serviços governamentais e as autoridades públicas como essenciais para promover o bem comum na sociedade civil. Essas divergências políticas entre os dois campos católicos nunca foram tão profundas nos tempos modernos, especialmente no mundo ocidental.

Assim como a Reforma, que levou ao rompimento religioso do Sacro Império Romano de Carlos V, a crise de hoje tem dimensões geopolíticas. O Papa Francisco, pela primeira vez, desviou o olhar do papado para longe da Europa e da América do Norte, voltando-se para o Sul global, especialmente para a Ásia. Em setembro de 2018, por exemplo, Francisco conseguiu chegar a um acordo histórico com o governo da China para reunir a Igreja oficial e não oficial de lá – uma medida que muitos católicos dos Estados Unidos veem com grande desconfiança.

Muitos dos críticos do papa no Ocidente, e particularmente nos Estados Unidos, veem a crise dos abusos não apenas como um fracasso moral-teológico, mas também como o fracasso da Igreja Católica em continuar sendo a alma do Ocidente. Não é coincidência que o ex-estrategista da Casa Branca e presidente do Breitbart News, Steve Bannon, está ajudando a construir o Instituto Dignitatis Humanae, um instituto católico romano de direita na Itália, cujo fundador o descreve como uma “academia para o Ocidente judaico-cristão”.

O que vem em seguida?

Dadas essas divisões, uma nova ruptura está no horizonte para o Vaticano? Um cisma formal na Igreja Católica é, embora não impossível, improvável no curto prazo. Os potenciais membros de uma seita católica cismática estão localizados em áreas do mundo como os Estados Unidos, onde a Igreja tem recursos financeiros e propriedades significativos, além de uma ampla gama de instituições católicas independentes que operam em grande parte fora da hierarquia da Igreja. Um cisma desencadearia uma cascata de alegações contenciosas sobre quem é dono do quê – e quem deve o quê, à medida que a Igreja paga os danos às vítimas de abuso sexual.

Uma possibilidade mais provável é que a Igreja Católica Romana acabará com uma estrutura semelhante à das Igrejas ortodoxas orientais. Algumas Igrejas ortodoxas individuais têm identidades nacionais muito fortes. O nacionalismo, muitas vezes, influencia a teologia dessas Igrejas e o sistema de lealdades globais entre elas e o Patriarca de Constantinopla, que é “o primeiro entre iguais” e o centro da unidade ortodoxa.

Essa poderia ser uma solução de longo prazo para um papado sobrecarregado, especialmente liderado por um papa latino-americano com um domínio tênue sobre as Igrejas católicas que construíram o mundo da cristandade na Europa e na América do Norte. O Vaticano não pode e não deve abandonar a globalização do catolicismo, mas o processo pode ter um custo acentuado para a sua unidade interna.

Por enquanto, o que mais provavelmente acontecerá é um aprofundamento da divisão pré-existente e não oficial da Igreja. Os católicos permanecerão formalmente obedientes a um único papa e a uma única hierarquia episcopal. Ao mesmo tempo, grupos católicos neotradicionalistas – com suas próprias paróquias e seminários – continuarão em um curso diferente do restante da Igreja. Será uma “longa marcha” por parte deles: uma tentativa para devolver o catolicismo romano e a teologia católica a um modelo anterior ao Vaticano II e até mesmo anterior ao século XX.

Seria uma grande ironia da história da Igreja se, assim que o Vaticano curar a ferida na China, uma nova e profunda ferida se abrisse no Ocidente.

Amyra El Khalili

OUTRO MODELO DE FINANÇAS EXIGE OUTRA ESTRATÉGIA SOCIO-AMBIENTAL

Amyra El Khalili, professora de economia socio-ambiental. Foi economista com mais de duas décadas de experiência nos mercados futuros e de capitais. É fundadora do Movimento Mulheres pela P@Z! e editora da Aliança RECOs – Redes de Cooperação Comunitária Sem Fronteiras. É autora do e-book “Commodities Ambientais em Missão de Paz: Novo Modelo Económico para a América Latina e o Caribe”, em artigo publicado por Diálogos do Sul e reproduzido por EcoDebate e IHU

A financeirização tem permeado os mais diversos setores da economia, provocando distorções entre a economia real (produção) e a economia financeira. A economia real baseia-se em produtividade na indústria, na agropecuária, no comércio e em serviços. Já a economia financeira é a que faz circular o dinheiro nos sistemas informatizados e tecnológicos, alimentando as taxas de juros e a especulação sobre a base produtiva.

Há uma diferença substancial entre financiar e financeirizar:

– Financiar é proporcionar um empréstimo para que a costureira compre uma máquina de costura e consiga pagá-la nas condições de sua produção. – Já financeirizar significa emprestar o dinheiro para a costureira comprar a máquina, causando o endividamento e, consequentemente, fazendo com que ela não consiga cumprir com seu compromisso, tornando-a escrava da dívida. É o que tem acontecido na América Latino-Caribenha, quando os países do Norte conseguem desenvolver sua produção industrial e agropecuária com o financiamento, e os países vulneráveis, e em desenvolvimento, tornam-se reféns de empréstimos sem poder se libertar do eterno endividamento, especialmente quando tal empréstimo destina-se a pequenos e médios empreendedores e agricultores.

Entre os mais endividados, estão os agricultores, pois a contração das dívidas exige garantias reais, como terras, imóveis, maquinários e equipamentos, entre outros bens que dão acesso ao recurso financeiro. Se os(as) agricultores(as) comprometem a terra para obter financiamento e as alienam ao sistema financeiro, passam a depender da decisão desses credores, submetendo-se a produzir o que os credores determinam, por exemplo, produtos transgênicos em escala. Devem, igualmente, vincular sua produção a equipamentos e a maquinário, a produtos químicos (agrotóxicos); enfim, passam a depender de uma estrutura com forças assimétricas em cuja engrenagem não têm poder de decisão.

Sob a pressão do sistema financeiro entre corporações e governos que impõe como contrapartida (ou garantia) a escala de produção, a terra, monetariamente falando, é o bem mais barato, pois caro é o que você põe em cima dela. Daí o avanço desenfreado sobre as áreas de florestas que ainda hoje detêm, graças aos povos indígenas e aos povos tradicionais, rica biodiversidade, água, minérios e alternativas energéticas. Dessa forma é que a financeirização avançou sobre as riquezas naturais consideradas sem valor (financeiro) na contabilidade de produção de bens e serviços. A esse avanço do capitalismo neoliberal chamamos de “financeirização da natureza”.

Uma finança diferente

Veja o paradoxo tão discutido nos cânones das várias religiões: as finanças podem ser usadas a favor da vida como a favor da morte. Nem todo dinheiro é ruim, assim como nem toda forma de o gastar é saudável. É nesse ponto que compreendo a análise do economista francês Yann Moulier Boutang, quando se refere à necessidade de construir uma finança diferente, que seja a favor da vida, financiando projetos socioambientais, e não a globalizada e enraizada no modelo neoliberal, que financia o mercado de armas, drogas, e favorece a biopirataria (ilícito). Quando tratamos de uma cifra de R$1.000,00 (mil reais), o senso comum sabe do que estamos falando. Quando, porém, tratamos de cifras que ultrapassam a casa dos três zeros, como 100.000 (cem mil), 1 milhão, 1 bilhão, 1 trilhão, a população não sabe o que tantos zeros representam.

É nessa casa de cifras que circulam os valores monetários no sistema financeiro, migrando de um continente a outro na velocidade de milésimos de segundos. Quando o sistema alavanca tais cifras, arrebenta com a atividade produtiva, causando estragos enormes nas contas públicas e privadas. Esse processo onera o custo de taxas de juros e tributos, em detrimento do custo de vida da população pobre, que é a maior pagadora de impostos.

A sociedade é mobilizada por campanhas de esclarecimento, auditorias de contas públicas e pressão com propostas proativas em favor de uma reforma tributária e fiscal que contemple e estimule o financiamento e os investimentos diretos em projetos socioambientais, com produção consciente e de menor impacto ambiental. Esse é o caminho que a ferramenta finanças deve seguir em favor da vida, e não como tem sido usada até agora, para projetos de morte, provocando guerras, conflitos regionais, etnocídios e genocídios. É por essas consequências que muitos demonizam o capitalismo e o sistema financeiro. A moeda não faz parte do paradigma organicista dos demais seres vivos. No paradigma mecanicista os humanos vivem condicionados ao sucesso do ter e não do ser.

Crise sistêmica

A crise sistêmica é fruto do entrelaçamento e imbricamento entre a moeda e as garantias que lastreiam a emissão de dinheiro, e do fato de cada saca de soja ser negociada na bolsa de Chicago, situação em que se pode multiplicar até 100 vezes em contratos futuros. Se em algum momento houver necessidade de se executar judicialmente qualquer contrato que circula no mercado de derivativos (derivado de ativos), nem toda a soja do mundo será suficiente, porque ela simplesmente não existe. Para não correrem o risco de uma intervenção judicial, as bolsas suprimiram a cláusula que prevê entrega física. É nesse ponto que reside a financeirização da produção de commodities agropecuárias e de minérios.

Os mercados futuros deveriam ter por função “fixar preço” para prevenir riscos de uma quebra de safra, crises políticas e econômicas, crises climáticas e desastres naturais, entre outros fatores imprevisíveis, capazes de provocar aumentos estratosféricos ou baixas expressivas nos preços, prejudicando custos, com isso provocando desemprego, falência de indústrias, de produtores e prestadores de serviços (hedge/proteção).

Desregulamentação do sistema financeiro

Com a desregulamentação do sistema financeiro para reduzir ao mínimo a intervenção do Estado no mercado, os instrumentos contratuais desenvolvidos para os mercados futuros – os derivados de ativos (derivativos) – estão sendo utilizados para outras finalidades. Embora devessem servir para proteger seus agentes contra as bruscas oscilações de preços, passaram a ser determinantes na formação de preços na produção, jogando a economia real no risco e na especulação da economia de mercado. Dessa maneira, o preço futuro da soja na Bolsa de Chicago determina o valor à vista da soja colhida no campo, quando o processo deveria ser o contrário. Na prática, o preço da soja colhida hoje no campo, calculado seu custo de produção – que compreende armazenagem, tributos e transporte até o porto para exportação –, é determinado pelo valor futuro das bolsas.

O chamado risco sistêmico, portanto, significa a quebra de toda a cadeia imbricada de garantias reais, seja pelo dinheiro que migra de um lado para outro virtualmente, seja pela quantidade e qualidade de produção. Se um banco empresta dinheiro a alguém, ele deve ter, em contrapartida, uma garantia que permita o empréstimo. É comum os bancos trocarem garantias entre si, pois um mesmo banco não pode ser garantidor de si mesmo. É nessa confusão de garantias e de produção que se formam as bolhas financeiras, que colocam em risco sistêmico as economias mundiais globalizadas pela tecnologia da informação.

A biodiversidade tem sua própria lógica

Façamos agora um exercício: o que acontecerá se essa prática ocorrer com nossas riquezas naturais, como as florestas, a biodiversidade e a água? A biodiversidade tem sua própria lógica, não sendo compatível com a produção em escala, sem com isso gerar altos impactos ambientais pela intervenção humana por meio da biotecnologia, da geo-engenharia e da mecanização. É possível, porém, analisar o que ocorre com as commodities minerais, uma vez que o preço da energia está atrelado ao preço do barril de petróleo, por sua vez cotado nas bolsas de commodities.

Estamos gritando contra o fracking (fraturamento hidráulico) para extração de gás de xisto, pois, além dos impactos ambientais, promoverá a militarização das áreas exploradas, uma vez que, pelo controle do combustível fóssil, o Oriente Médio tornou-se um barril de pólvora com conflitos e guerras sangrentas. São projetos de morte que prevalecem na contabilidade do sistema financeiro. As finanças são engenhadas por seres humanos que as sustentam com dados estatísticos, com números e programas matemáticos. São dados friamente calculados, sem a percepção de que cifras em trilhões podem causar prejuízos consideráveis para milhares e milhares de pessoas, como apertar o gatilho de uma metralhadora giratória. Esse é o paradigma mecanicista, em cuja lógica se fundamentam o mercado de carbono e seus derivativos (REDD, REDD+, Pagamentos por Serviços Ambientais, Créditos de Efluentes, Créditos de Compensação, etc.).

Quando Boutang propõe uma economia da polinização, está, na verdade, defendendo o mesmo princípio da economia socioambiental, explicada por Ignacy Sachs como economia dos biomas. Sachs concluiu que são os povos das florestas e os povos tradicionais os que têm realmente condições de manter a floresta em pé, protegendo-a e fiscalizando a partir de sua produção equilibrada e em harmonia com o ecossistema. Foi nesse estudo que Sachs conceituou o “ecodesenvolvimento”, posteriormente passando para “desenvolvimento sustentável”, e, finalmente, traduzido por “sustentabilidade”, agora ajustada ao modelo neoliberal, que chamam de economia verde. Trata-se de um conceito confuso, que apenas repete a teoria do capitalismo verde com algumas adequações, inicialmente cunhado pelo acadêmico inglês John Elkington, com o clássico The green capitalists (Os capitalistas verdes, Editora Gonllaccz, 1989), assentado no tripé: pessoas, planeta e lucro (triple botton line).

No entanto, em oposição à economia verde, a economia socioambiental agrega as propostas da economia solidária com a economia dos biomas a partir de núcleos formados em torno das bacias hidrográficas, já que, historicamente, a humanidade agrupa-se em torno das águas, construindo cidades e urbanizando-se. Uma cidade, grupo humano e demais seres vivos não sobrevivem sem água e não se desenvolvem economicamente sem energia.

A água não é substituível como a energia, que pode ser produzida por diversas fontes renováveis, além das não renováveis. A água é um enigma da natureza a ser decifrado, pois pode ser renovável se cuidada, e não renovável se degradada. A água está para a história da humanidade e do planeta como o ouro está para a história econômica globalizada, com seus fascínios, ganâncias e conquistas de povos sobre povos. Na mística, a água e o ouro encontram-se. Os movimentos da América Latina estão se mobilizando contra a mineração com o chamamento “Água sim, Ouro não”. Podemos beber água, mas não podemos comer ouro!

Na prática, a tese de Boutang pode ser implementada com a pulverização das finanças e com a cobrança sobre a “responsabilidade socioambiental do sistema financeiro”, fazendo com que os empréstimos exijam financiamento de projetos que não gerem impactos ambientais nem promovam exclusão social e violação de direitos humanos.

Sistema financeiro e política

Quando o sistema financeiro torna-se cúmplice de governos corruptos, viabiliza a lavagem de dinheiro, facilita a sonegação fiscal, transfere recursos públicos à iniciativa privada para que cumpra o que é função do Estado cuja função não é “lucrar”. Quando protege o mercado ilícito de armas, drogas, prostituição, entre outros, a sociedade deve ter o poder de impedir que essa economia subterrânea continue a se propagar. A proposta das redes e movimentos que questionam os investimentos e tantas outras pautas podem fazer a transmutação das finanças e alcançar o que há duas décadas estamos propondo como ação proativa.

É entendendo esse sistema e esclarecendo a sociedade, de forma didática, como ele funciona que promoveremos uma estratégia efetiva para combater as mazelas do mercado financeiro. A outra questão passa pela prestação de contas e auditorias dos recursos a fundo perdido, despejados em ONGs e OSCIPs.

As OSCIPs (Organizações Sociais de Interesse Público) passaram a ser um híbrido entre Estado e sociedade civil organizada, engessadas pela dependência de dinheiro público e sem condições de combater o sistema financeiro. Em favor da Amazônia, existem milhares de ONGs e OSCIPs que sequer puseram os pés na região. Afirmam pretender defender esse bioma, pois é onde há maior interesse financeiro, diferentemente de regiões como o Cerrado e a Caatinga, onde poucos querem investir e onde os projetos socioambientais se auto sustentam justamente pela carência de recursos. Eles devem ser criativos e fazer a economia prosperar, já que esses biomas – tipo a Mata Atlântica, o Pantanal, o Pampa e a Amazônia – são ricos em biodiversidade.

Dessa forma, haverá recursos financeiros suficientes para investimentos em educação, saúde, proteção e preservação ambiental, segurança pública e, principalmente, para a transição da economia em que vivemos para a economia que queremos. De fato, a economia é um todo e não está nem funciona fragmentada. Todos os sistemas e setores estão direta e indiretamente interligados pela globalização e pela tecnologia da informação. O que afeta a um afetará a todos em qualquer parte do mundo.

O que está faltando é a reestruturação do sistema financeiro e, com a sua regulamentação, uma política fiscal e tributária específica para esse setor, que propicie a migração de fortunas virtuais. Os impostos são mais pesados para os pobres e mais baratos para os ricos, que sempre conseguem linhas de financiamento. A população está sendo financeirizada com cartões de crédito, limites no cheque especial, no crédito consignado, enquanto os capitalizados são financiados com empréstimos de longo prazo e baixas taxas de juros.

Há, portanto, várias ações proativas: a necessidade de uma política de fomento e de incentivo à produção; o financiamento da transição de uma produção degradadora para uma produção ambientalmente sustentável e inclusiva; a fiscalização e a auditoria das contas públicas e privadas, principalmente de empresas cujas ações são negociadas nas bolsas de valores; a reforma tributária e fiscal, além do código do consumidor, a se fazer valer. Por fim, no que for ilícito, ilegal e imoral, deve haver aplicação da ação do Judiciário, pois não é possível ser tolerante com a corrupção, a sonegação fiscal e a lavagem de dinheiro. Temos de agir em conjunto com as instituições jurídicas, assessorando e estimulando. Não faltam razões. Pode-se até relembrar que em mercados desregulamentados muitos contratos entre partes acabam parando na mesa do juiz e os magistrados não entendem de finanças nem de seus jargões – como as palavras ou expressões em inglês grafadas nos contratos financeiros e mercantis, por exemplo, commodities, spread, gap, swap, etc.

Transição energética

Para viabilizar a transição energética, é necessário repensar o modelo econômico. A maioria da população vive em cidades. Quando o Brasil passou a ocupar a posição de sexta economia do mundo, ironicamente o IBGE divulgou dados assustadores sobre as favelas brasileiras. Segundo esses dados, certamente conservadores, o Brasil tem 6.329 áreas irregulares e precárias nas quais vivem 11.425.644 pessoas. Juntas, elas equivalem à população da Grécia (FERNANDES, E.; ALFONSIN, B. FDUA, n. 61).

As cidades consomem energia de países, forçando uma política energética do Brasil necessariamente voltada à construção de mais hidrelétricas, além de projetos que pretendem ressuscitar a energia nuclear e financiar o carvão. A energia produzida por uma hidrelétrica na Amazônia gera impactos ambientais e sociais naquela região para abastecer o Sul e o Sudeste, que recolhem seus tributos na ponta distribuidora de energia e não no local impactado na Amazônia.

Os diferentes setores de energia renovável concorrem em tributos, taxas e formação de preços com a produção de energia não renovável. Quando se incentiva a produção de energia renovável, como a eólica, a solar, o biodiesel e o etanol, não há planejamento para limitar essa produção, que acaba também gerando mais impactos com sua produção em escala, a qual deveria, por coerência, ser equilibrada e harmônica de região para região, analisada caso a caso, em um pacote energético diversificado.

É necessário, portanto, que o planejamento energético considere as demandas da região e da população que pode vir a ser afetada com a construção de hidrelétricas, usinas nucleares, com a exploração de petróleo, gás natural, carvão, gás de xisto, minério radioativo ou até com a construção de parques eólicos, solares, fotovoltaicos e monoculturas para a produção de etanol e biodiesel.

Precisamos desenvolver um modelo de transição energética com planejamento financeiro simultaneamente com a transição do modelo econômico, pois, do contrário, não haverá energia renovável ou não renovável que suporte a demanda de produção e resolva os problemas socioambientais, que, consequentemente, provocam bruscas mudanças climáticas. É de fundamental importância manter a população campesina, indígena, tradicional e ribeirinha nos campos e nas florestas, bem como o povo do sertão no Nordeste, invertendo a migração dos centros urbanos para o campo, para as regiões ribeirinhas, etc., de modo a reverter o quadro desolador do crescimento das favelas, do desemprego e da violência urbana. Esse tem sido o desafio de séculos e até hoje não saímos desse quadro crítico.

Os prazos para a implantação de uma política energética socialmente justa não fecham com os prazos da política partidária. O político que propuser uma estratégia que pretenda contribuir com a comunidade na gestão das águas, com a transição energética, ficará marcado como gestor público para o resto da vida, pois o mandato acaba, mas a gestão pública fica e sua militância será reconhecida pelo povo.

Quando o gestor público elabora uma proposta com a participação da comunidade para uma agenda de transição econômica a partir do binômio água e energia, estará investindo em projeto consistente de longo prazo, com efeitos visíveis no curto prazo, que são os da adesão e do apoio da comunidade. Há dinheiro para isso circulando no setor financeiro, e o setor de energia é o que mais acumulou nas últimas décadas.

Renda decente e renda universal

Em tese, deveria haver uma renda decente, ou renda universal, para todos. É o que garante a Constituição brasileira quando trata da “dignidade da pessoa humana” sem desigualdades. Se fizermos valer a Constituição, seja pelo direito à dignidade da pessoa humana, seja pelo direito ao uso dos bens comuns (bens difusos: água, energia, biodiversidade, minério), certamente estaríamos garantindo uma renda decente, e até mesmo universal.

Se entendermos que esses dois pilares compõem um conjunto indissociável da conquista dessas condições, estaremos trabalhando para a transição da economia em que vivemos (globalizada, em fase neoliberal do capitalismo), para a economia que queremos (socialmente justa, politicamente participativa e integrada e ambientalmente sustentável).

Favelização

A favelização é resultado da degradação ambiental e da exclusão social. Tal fenômeno se multiplica justamente porque as pessoas saem do seu meio vindo a inchar as cidades em busca de alternativas para sustentar suas famílias. Se buscarmos alternativas de geração de emprego e renda, fixando o ser humano no campo e impedindo a expulsão dos povos indígenas e povos tradicionais de seus territórios, teremos como fazer existir essa renda decente. É por isso que nos mobilizamos em favor da cultura de resistência, com a finalidade de evitar as guerras, os conflitos e a migração que formam massas de refugiados econômicos, do clima, das guerras, e da política genocida e etnocida praticada por governantes e corporações de seus países.

Se, de um lado, a tecnologia da informação faz migrar fortunas de um continente a outro, essa mesma tecnologia está fazendo com que possamos criar conexões de redes em que as florestas do mundo inteiro, os campos e os grupos de resistência se comuniquem e se mobilizem em prol da emancipação dos povos, tornando possível a utopia da renda decente universal que desejamos.

Governança ambiental

O conceito de governança ambiental tem sido confundido com governança corporativa, como assistimos na COP19, quando o setor de energia não renovável se uniu com cimenteiras e o setor siderúrgico para propor a falsa solução do mercado de carbono, postergando soluções reais por mais um instrumento de financeirização da natureza.

A governança ambiental que propunha o diálogo entre a iniciativa privada, o governo e a sociedade civil organizada tem sido dragada pela governança corporativa, a que fundiu a Bayer com a Monsanto. Faz-se necessário identificar e confrontar essa tendência para se saber quem é quem e com quem se está lidando. Eles têm a habilidade de absorver nossos argumentos para empurrar contratos financeiros e mercantis duvidosos e perigosos.

Se resgatarmos o conceito de governança ambiental pela perspectiva crítica de Yann Moulier Boutang, Ignacy Sachs, Edgar Morin, Vandana Shiva e tantos outros pensadores, além dos que o debatem em nossas redes e demais fóruns, em boa hora se espalhando por toda a América Latino-Caribenha, será possível construir uma política de governança ambiental para a realização de uma transição energética para uma finança possível e emergencialmente necessária.

Se utilizarmos os mesmos sistemas que fortaleceram esse modelo degradador e desumano, evidentemente será possível reprogramá-lo para uma nova consciência. Isso não depende de dinheiro; depende da sensibilização de corações e mentes. Depende, especialmente, de um código de ética e moral universal, ou válido para todo mundo. É nesse sentido que a encíclica ecológica Laudato Si, do Papa Francisco, vinda em boa hora, contribui como um princípio norteador!

Se fomos nós, os humanos, que criamos o problema, caberá a nós, os humanos, buscar por soluções, não, porém, pelo mesmo sistema e no mesmo grau de consciência que o criou, como dizia Albert Einstein. Uma economia só pode ser justa se for humanitariamente digna e ambientalmente sustentável, e somente será possível se for lastreada no tripé legitimidade, credibilidade e ética.

Relatório do Chapéu Vermelho”

CARDEAIS NA MIRA DE CATÓLICOS MILIONÁRIOS

Enquanto os bispos dos EUA trabalham para formular uma resposta oficial ao acobertamento e abuso sexual clerical, um novo grupo de fiscalização apoiado por cristãos milionários está buscando resolver a questão com suas próprias mãos. O grupo, chamado “The Better Church Governance Group”, foi lançado no campus da Universidade Católica da América (em inglês, Catholic University of America - CUA) com a intenção declarada de produzir seu ‘Red Hat Report’ (Relatório do Chapéu Vermelho, em tradução livre) até abril de 2020. Uma nova organização, que organizou um evento apenas para convidados no domingo à noite, planeia gastar mais de US$ 1 milhão no próximo ano para investigar todos os membros do Colégio dos Cardeais “para indicar os que sofreram acusações plausíveis de escândalos, casos de abuso e acobertamento”. A reportagem é de Christopher White, publicada por Crux. A tradução é de Luísa Flores Somavilla /IHU.

Os bispos dos EUA fundaram a Universidade Católica da América, e todos os seis cardeais residentes dos EUA fazem parte do Conselho de Administração.

Numa declaração ao Crux, um porta-voz da universidade disse que “um estudante reservou um espaço no campus de acordo com os nossos procedimentos de reserva de espaços. A Universidade Católica da América não financiou o evento nem o grupo.”

Os organizadores do Better Church Governance confirmaram que se trata de um evento particular e disse que não havia nenhuma associação entre a universidade e a organização em um e-mail enviado ao Crux.

O Relatório do Chapéu Vermelho, projeto anunciado como o carro-chefe da organização, deve fazer autorias com todos os 124 eleitores papais atuais. Segundo os organizadores, até o momento, espera-se que seja conduzido por uma equipe de quase 100 pesquisadores, acadêmicos, investigadores e jornalistas, com o objetivo de “responsabilizar a hierarquia da Igreja Católica por casos de abuso e corrupção e desenvolver e apoiar a honestidade, a clareza e a fidelidade na administração da Igreja”.

Em uma gravação de áudio do lançamento do evento obtida por Crux, o diretor de operações da Better Church Governance, Jacob Imam, disse que a organização não tem o intuito de atacar o Papa Francisco, apesar de ter perguntado o seguinte ao público de quase 40 pessoas: “E se em 2013 tivéssemos elegido alguém mais proativo na proteção dos jovens e dos inocentes?”

“Se tivéssemos tido o Relatório do Chapéu Vermelho, talvez não tivéssemos elegido o Papa Francisco”, declarava uma das apresentações de slides acompanhando as observações.

Imam, atualmente acadêmico Marshall da Universidade de Oxford, que se converteu do islamismo ao catolicismo há três anos, alegou que logo após o conclave de 2013 que elegeu Francisco várias grandes agências de notícias basearam seu conhecimento sobre o papa recém-eleito no que encontravam na Wikipédia.

Insistindo que não estava difamando o pontífice, acrescentou: “Acho que é justo dizer que ele não se identificaria como um defensor dos valores tradicionais”.

Considerando a falta de conhecimento que muitos eleitores têm uns sobre os outros, ponderou Imam, é uma “situação extremamente precária... quando se fecham as portas da Capela Sistina”,

De acordo com o prospecto, o grupo Better Church Governance quer produzir o relatório antes do próximo conclave papal. Os gastos do primeiro ano estão estimados em US$1.126.500.

“Muitos de nós que fomos criados numa sociedade democrática liberal não sabemos como se forma uma hierarquia”, disse Imam aos presentes. “Mas a história nos dá muitos truques e dicas, e nós, do Better Church Governance começamos a sistematizar algumas dessas estratégias. Estamos aqui para criar transparência na Igreja e para ajudar a apoiar a integridade”.

Atualmente, os organizadores do relatório estão buscando alunos da pós-graduação para a função de assistente de pesquisa e planejam oferecer uma remuneração de US$ 25/hora, trabalhando com uma equipe de investigadores e pesquisadores acadêmicos.

O lançamento da organização vem após um período brutal de repercussões de abuso sexual nos Estados Unidos. A queda do ex-cardeal Theodore McCarrick, que renunciou seu cargo do Colégio dos Cardeais em agosto, após revelações de que teria abusado de uma série de seminaristas e pelo menos um menor, fez com que várias pessoas pedissem uma liderança leiga mais ampla na responsabilização dos bispos pelos casos de acobertamento.

Além disso, a divulgação do relatório da Suprema Corte da Pensilvânia detalhando sete décadas de abusos cometidos por mais de 30 padres abusadores resultou em um compromisso dos bispos dos EUA para uma revisão completa das políticas de denúncia e responsabilização.

Imam disse que o relatório revelou que autoridades da região estavam cientes dos contínuos abusos e acobertamentos. Portanto, o Relatório do Chapéu Vermelho busca, assim que possível, realizar uma investigação nos locais em que reside cada cardeal.

Ele ainda descreveu a dupla proposta do relatório: compartilhar conhecimentos com cada cardeal na tentativa de melhor informá-los sobre os colegas eleitores e disponibilizar informações publicamente para que os leigos católicos possam ter acesso.

“Os cardeais precisam ser responsabilizados publicamente, portanto tem de haver alguma cultura de vergonha”, disse. “Eles sabem que se votarem em determinada pessoa.... as pessoas do seu rebanho e seus pastores saberão”.

“Isso é difícil. Toda decisão tem seu lado obscuro. Reconhecemos isso”, acrescentou. “Estamos dispostos a enfrentar isso em oração e jejum... porque não podemos deixar que as pessoas continuem a permitir que nossas crianças, os inocentes, os jovens, os seminaristas sejam devorados da forma que são”.

Imam também disse que dez ex-agentes do FBI estão envolvidos na investigação, sendo que dois eram chefes de investigação em questões eclesiásticas.

Em um e-mail a que a Crux teve acesso, enviado por Philip Nielsen, editor-chefe do Relatório do Chapéu Vermelho, para pessoas que poderiam estar interessadas, no mês passado, ele destacou que todos os cardeais serão investigados.

“Todos os dossiês terão uma classificação na parte superior indicando a conexão do cardeal com os escândalos e abusos, como ‘culpa severa, acusações plausíveis ou inocente’. A sentença final de cada um será baseada nas evidências mais contundentes e nas recomendações dos melhores especialistas”, escreveu.

Um sistema de classificação revisado foi distribuído no domingo, e os cardeais receberam uma classificação que se constitui em “Fortes evidências de abuso/corrupção, Algumas evidências, Evidências positivas contra abuso/corrupção”.

Imam declarou que com o tempo eles pretendem expandir e fornecer uma auditoria completa dos bispos também. Ele disse para os presentes do domingo que a organização não buscava ir adiante com uma agenda ideológica, mas sim responder como cada cardeal está em “acordo” com a Congregação para a Doutrina da Fé, o serviço de fiscalização doutrinário do Vaticano.

Quando um dos participantes perguntou se o relatório indicaria se os cardeais eram homossexuais, ele respondeu que seguiria o direito civil conforme necessário, mas que também seguiria a lei moral da Igreja, acrescentando que “se houver boatos de que ele é homossexual, será observado muito cuidadosamente... mas precisamos ter certeza”.

Apesar de os materiais oficiais da organização sustentarem que não há intenção de atacar nenhum dos cardeais, o e-mail de Nielsen parece sugerir o contrário.

“Por exemplo, o cardeal [Pietro] Parolin, na página do Wikipédia do Secretário de Estado corrupto do Vaticano está muito benevolente atualmente, sem link algum a escândalos, apesar de ele ter sido reiteradamente associado a escândalos relacionados a bancos e ter aparecido na carta de Viganò”, afirmou.

A carta a que se refere é a de 11 páginas escrita pelo arcebispo Carlo Maria Viganò, ex-embaixador papal dos EUA, alegando que havia alertado Francisco de questões de má conduta de McCarrick em 2013, mas que o pontífice não teria feito nada.

“Podemos mudar isso... até o próximo conclave ele precisa ser conhecido no mundo todo como a desgraça da Igreja. Nosso plano seria fazer com que sua página do Wikipédia mostrasse algo como “Grupo de fiscalização da Igreja The Better Governance indica que Parolin é ‘Extremamente culpado de cometer abusos’, com um link para o relatório. Ao mesmo tempo, acrescentaria todas as citações de outras fontes que o conectam a toda a corrupção financeira, etc.”, acrescentou Nielsen.

O e-mail também revela planos em andamento de fazer um lançamento em alguma reunião do Napa Institute, em Washington D.C., durante esta semana. No entanto, Nielsen disse ao Crux que por enquanto não há nenhum plano oficial de anúncio público lá.

O Napa Institute, uma organização com sede na Califórnia fundada por Tim Busch, um importante católico conservador, cuja conferência anual de verão reúne várias centenas de filantropos católicos milionários e religiosos católicos de alto escalão em seu resort, está organizando uma conferência para a terça-feira sobre a “Reforma Autêntica” no Hotel Mayflower em Washington D.C.

Como se pode imaginar, o e-mail de Nielsen afirma que o grupo ainda está no processo de formar o Conselho Diretivo, e apenas um membro é mencionado nos materiais atuais: Phil Scala, CEO da Pathfinder Consultants International, Inc., que já trabalhou no FBI.

Além disso, três pessoas são indicadas como editores-pesquisadores do Relatório do Chapéu Vermelho: os professores Jay Richards, da Faculdade Busch de Economia da Universidade Católica da América, e Michael P. Foley e Melinda Nielsen, da Universidade Baylor.

Ainda que os materiais da organização insistam em que “não somos um grupo de lobby ou de facção”, Richards já trabalhou para o Acton Institute, um think tank libertário, e já criticou Francisco abertamente. Foley e Neilsen também foram associados a várias instituições e publicações conservadoras, como, por exemplo, Hillsdale College, Crisis, The Catholic Thing e First Things.

Os materiais da organização também mencionam o Center for Evangelical Catholicism (CEC) como o “patrocinador fiscal” que atualmente recolhe doações, até que seja concedido o estatuto oficial de organização sem fins lucrativos. De acordo com o site, o CEC é uma corporação sem fins lucrativos na Carolina do Sul que “busca desenvolver a Nova Evangelização formando católicos capazes de cumprir a Grande Missão”.

Nielsen disse ao Crux que muitos participantes que trabalharam em certas universidades católicas não iriam querer que sua afiliação se tornasse pública, pois a rede mais ampla é muito maior do que os aliados conservadores.

Acrescentou, ainda, que o grupo busca tornar seus “objetivos e objeções algo com que todos possam concordar”, e que alguns dos piores casos de abuso ainda da época do fundador dos Legionários de Cristo, o padre Marcial Maciel, estavam dentre grupos ou indivíduos que tipicamente se identificavam como conservadores.

Quando um dos participantes perguntou qual era o percurso completo do projeto, Imam respondeu: “o projeto não acaba nunca”.

“Sempre temos que estar prontos para um conclave”, avisou.

Edição 140 Setembro 2018

José María Vigil

A CANONIZAÇÃO DE ROMERO FAZ SENTIDO PARA NÓS?

De que outra canonização dom Oscar Arnulfo Romero tem necessidade? O que lhe falta? O que uma “canonização oficial” em Roma poderia lhe acrescentar?”, pergunta José María Vigil, teólogo espanhol naturalizado nicaraguense, em artigo publicado este mês por Academia.edu. A tradução é de André Langer.

“‘Não canonizem jamais São Romero da América, porque o ofenderiam. Ele é santo, mas de um modo muito particular. Já está canonizado. Pelo povo. Não é preciso mais nada’. Essas são palavras que eu disse a Jon Sobrino, quando visitei a sepultura do arcebispo mártir. Eu lhe dizia: ‘Olhe, Jon, que a ninguém lhe ocorra canonizar Romero, porque seria como pensar que a primeira canonização não valeu’...”. (Pedro Casaldáliga, El vuelo del Quetzal. Espiritualidad en Centroamérica, Managua 1988, p. 10)

Pedro Casaldáliga contava-o com essas palavras aos camponeses e agentes de pastoral do Panamá, depois da sua passagem por Nicarágua e El Salvador, por volta de 1987/8, em diversos retiros e conversas. Passaram-me a transcrição das fitas, e incluí esse pensamento no livro O voo do Quetzal, que organizamos com esses e outros materiais pastorais de sua “campanha de solidariedade pastoral” com muitas comunidades de base e grupos camponeses da América Central.

Certamente, o túmulo de Romero que Casaldáliga visitou – instalado a princípio no próprio cruzeiro da catedral de San Salvador, a poucos metros do altar do qual pronunciava aquelas suas homilias de fogo, que paravam o país inteiro e eram ouvidas nas montanhas transmitidas pelos rádios dos camponeses e dos pobres de todo o país –, aquele túmulo grande certamente, literalmente coberto de flores, velas, oferendas e fotografias de agradecimento, envelopes cheios de pedidos... era tão visitado e apreciado e beijado por essa interminável fila de salvadorenhos das camadas mais pobres e populares... que foi preciso transladá-lo para a cripta, porque aquele “clamor popular” inutilizava a catedral para servir como tal, com o culto normal de uma catedral.

E assim eram as coisas nos primeiros séculos da Igreja. Obviamente, não havia “processos de canonização”. Era a “aclamação e a devoção popular” o que de facto definia o “cânon”, a medida da santidade reconhecida na Igreja. Não havia um registo oficial – o que viria a ser o “Santoral e o Martirológio Romano” –, muito menos se havia materializado tudo em um processo jurídico especializado (e economicamente caro) na cúria romana. Isso passaria a acontecer somente no século XIII, quando as canonizações ficaram reservadas a Roma e ao Papa.

O estudo estatístico da “população” canonizada no último milénio não deixa de ser significativo: “Entre os séculos X e XIX, Roma canonizou 87% de homens e 13% de mulheres. Aqui se revela um modelo predominantemente masculino, que corresponde fielmente à tradicional inferioridade das mulheres na Igreja. Sem que o procedimento tenha se modificado para favorecer as mulheres, no século XX a proporção passa para 76% de homens e 24% de mulheres” (cf. RELaT No. 150, servicioskoinonia.org/relat/150.htm). O modelo predominante da pessoa canonizada é branco, masculino, solteiro, clérigo, religioso/religiosa... e, principalmente, de classe alta.

Tradicionalmente, a canonização estava praticamente vedada aos cristãos leigos e leigas, pelo trabalho que dão os processos investigativos e históricos necessários, pela lentidão da burocracia das congregações romanas e, acima de tudo, pelo alto custo económico dos processos. Somente clérigos que contam com o apoio de uma Igreja local, ou religiosos/as cuja congregação esteja interessada em exaltar sua santidade, podem ser “candidatos” viáveis e com possibilidades reais de seleção.

Canonização rápida e muito aclamada foi a de José María Escrivá; a Opus Dei, naquele momento colocada no cume do escalão das fileiras das entidades influentes no Vaticano do Papa Wojtila, empenhou-se com afinco na sua promoção, e sua “canonização” acabou sendo – segundo a Opus Dei – a que reuniu o maior número de pessoas na Praça São Pedro, em Roma...

A explicação não foi difícil de encontrar: apenas o fundador de uma instituição com muitos membros leigos da classe alta poderia pagar tantos voos para Roma procedentes de todos os continentes. Mas deixou de ser a mais numerosa quando, logo depois, foi canonizado o Padre Pio de Pietrelcina, cujos devotos não eram tão poderosos financeiramente, mas eram principalmente italianos, e puderam deslocar-se facilmente a Roma em massa. O número de pessoas que participam de uma canonização não mede o valor da “aclamação popular” de um santo.

O caso de Romero também foi uma “aclamação popular”. Romero transformou-se “no centro-americano mais conhecido” em todo o mundo, o “salvadorenho mais universal”. Não foi um santo local, de uma Igreja diocesana particular, nem de um país, nem mesmo da Igreja Centro-Americana ou de toda a Igreja da América Latina, mas um santo “universal” – aclamado em todas as partes do mundo – e “ecuménico”, reconhecido também pelas Igrejas protestantes – ficou célebre a estátua de Romero entre as estátuas da abadia de Westminster... Ele também foi um santo “macro-ecuménico”, reconhecido e aclamado por agnósticos e não crentes, ultrapassando os limites da fé e das religiões. Santo, pois, Romero, por “aclamação popular” do Povo de Deus, por “aclamação mundial” nos muitos “povos de Deus”.

De que outra canonização dom Romero tem necessidade? O que lhe falta? O que uma “canonização oficial” em Roma poderia lhe acrescentar? Estas são as perguntas que, dizemos, Casaldáliga respondeu para si mesmo quando visitou o túmulo de Romero em San Salvador: “ele é santo de um modo muito particular. Já está canonizado. Pelo povo. Não é preciso mais nada”. Para muitos de nós hoje continua sendo válida aquela resposta que ele deu há trinta anos.

O facto é que, além disso, passado esse tempo, entramos “em outra época”... Muitas coisas mudaram e inclusive nós mudamos muito. Extrapolando as palavras de Casaldáliga, hoje poderíamos dizer: “Que não o canonizem, porque seria como se continuássemos naquela época da qual já saímos faz tempo”. De facto, hoje, a pergunta é mais profunda: o conceito clássico de “santos canonizados” da Igreja católica ainda faz sentido? E poderíamos desdobrá-la em várias outras:

• Existem realmente os “santos canonizados”, os oficiais, os clássicos, aqueles que estão na “corte celestial” do “Rei e Senhor” do céu e da terra, no “segundo andar”? Todos os nossos avós pensaram que sim, e eles se beneficiaram muito com sua intercessão... Mas, e para nós hoje?

• É possível entrar nesta corte privilegiada porque o candidato é submetido a uma avaliação realizada por uma comissão examinadora especializada, a Congregação do Vaticano para os Santos? Pode um processo de canonização “tornar santo” a alguém, ou é algo externo que não pode afetar a sua santidade?

• Podemos aceitar como algo natural, sem corar – em pleno século XXI! – que aquela avaliação inclua como requisito a realização – “cientificamente comprovada” – de dois “milagres”?

Vamos tentar responder, quase telegraficamente, a esses desdobramentos da pergunta:

• A canonização de santos na Igreja católica é uma criação medieval, oficialmente criada em 1234 pelos Decretais de Gregório IX, embora somente a partir do Papa Urbano VIII, em 1634, fosse reconhecida praticamente em toda a Igreja. Não faz parte de seu patrimônio bíblico, dogmático ou teológico. Talvez esse seu “segundo plano” na hierarquia do essencial na Igreja é o que lhe permitiu subsistir e passar despercebida nos momentos avaliativos altos da Igreja, como os últimos Concílios Ecuménicos. Sempre houve coisas mais importantes na Igreja, que reivindicaram atenção prioritária. Assim, as canonizações – seu significado e seus processos concretos, assim como chegaram até nós –, são, hoje, um “anacronismo” que sobreviveu pela negligência de que foram e continuam sendo objeto, e fazem parte dessa lista de atavismos que “bradam ao céu” pedindo para serem revisados e atualizados radicalmente.

• Como o benemérito teólogo jesuíta flamengo Roger Lenaers (cf. Wikipedia) nos mostrou tão pedagogicamente (em Outro cristianismo é possível – A fé em linguagem moderna. São Paulo: Paulus, 2010), não existe um segundo andar cósmico no qual se pode instalar aquela célebre e admirada “corte celestial”, que tantos e tão afamados artistas nos apresentaram em inesquecíveis obras de arte, em quadros, gravuras, retábulos, cúpulas... que marcaram (inclusive inconscientemente) a nossa espiritualidade e povoaram de rostos beatíficos, anjinhos, nuvens... o nosso imaginário religioso coletivo.

A ciência e a filosofia maioritárias atuais não reconhecem nada que seja “externo” à Realidade. Não há esse segundo andar lá em cima (up there) e lá fora (out there) onde se possa instalar a sede dessa corte, que não é corte, nem é celestial. Podemos ficar com a intuição contida nesta crença tradicional, como a de quem lavou a criança na banheira e joga fora a água suja que já não tem mais serventia, mas tirando a criança. Podemos salvar a criança, a intuição profunda aí veiculada, mas será partindo de outras bases (outros paradigmas) e expressando-a com outras metáforas (não as já obsoletas), e sendo conscientes de que são isso, metáforas, de jeito nenhum descrições realistas.

• Obviamente, uma canonização não “torna santo” ninguém. A pessoa que é santa na hora da sua morte é santa, e não deixará de sê-lo, mesmo que ninguém o saiba ou ninguém se importe em apresentar sua candidatura à Congregação dos Santos. E a pessoa que não é santa, nunca será, nem mesmo se essa Congregação a faça “santa”, isto é, simplesmente a “declare” santa. A canonização nada mais é do que uma “declaração”, não uma “santificação”; quando morremos, quando termina o nosso status viatoris, não é mais possível mudar, nem crescer em santidade – sem entrar agora na necessária releitura da escatologia clássica. Se o sangue martirial culminou a santificação pessoal de Romero, ele foi santo, embora ninguém jamais o tivesse pensado ou proclamado após a sua morte. E o facto de que agora seja proclamado, não acrescenta um milímetro à santidade que ele alcançou em vida, até a sua morte; simplesmente dará aos seus admiradores mais razões e mais possibilidades para conhecê-lo, admirá-lo e imitá-lo. Na realidade, o que está em jogo em uma canonização é algo totalmente exterior à santidade do próprio candidato.

• A questão dos “milagres” merece uma ênfase especial. É inexplicável como, em pleno século XXI, ainda persiste entre as congregações vaticanas uma que “comprovação” científica da veracidade dos “milagres requeridos” para uma canonização institucional... É outro anacronismo medieval, um estranho sobrevivente no meio de uma Igreja que, no Vaticano II, parecia reconciliar-se com a sociedade culta, profundamente marcada pela ciência. Será que sobrevive por causa dos interesses económicos envolvendo a cúria romana? Ou talvez também por causa do imobilismo e da habitual preguiça das instituições religiosas diante de sua própria renovação? Ou porque não se dão conta de que o “credenciamento de um milagre” feito pela Igreja credencia também a cosmovisão medieval em vigor em seus quartéis centrais? Até quando querem fazer comunicar com rodas de moinho os crentes que já têm a cabeça configurada em sintonia com a sociedade moderna?

• Uma boa notícia, urgente para muitas pessoas que se sentem mal com estes processos e declarações eclesiásticas de canonização, é que, embora durante séculos fossem consideradas extra-oficialmente “dogmática, de fé” (como se a canonização fosse uma espécie de proclamação do dogma de que “tal pessoa está no céu” – recordo perfeitamente que assim a nossa geração nos apresentou isso na catequese), hoje sabemos que podemos prescindir de todos esses elementos mítico-medievais aos quais fomos aderindo subrepticiamente ao longo das obscuras idades passadas. É verdade que não devemos perder muito tempo com isso: compreendemos bem que tanto na Igreja como na sociedade encontramos pessoas que estão claramente na Idade Média e que se sentem bem nesse ambiente religioso “tradicional”. Hoje aceitamos bem a interculturalidade, o pluralismo cultural e religioso. E reivindicamos a mesma liberdade para nós. Ao lado daqueles que estão mentalmente no século XIII, já existem pessoas que pensam como se pensará no século XXII. Todos têm o direito de viver coerentemente com a sua consciência e de serem respeitados.

Diremos, finalmente, que nos sentimos em comunhão, em sincera estima com Romero, sem precisar dessa albarda acrescida ao seu título oficial de “santo canonizado”, que nos evoca tantos elementos ultrapassados ou mesmo obsoletos para nós. Mas não devemos ficar incomodados com seu uso por parte de outras mentalidades que também expressam seu carinho e sua comunhão com Romero por meio desse mundo de categorias e suposições que nós, há muito tempo, abandonamos. Nós respeitamos essa pluralidade que caracteriza o nosso tempo e a nossa Igreja hoje, e somos muito capazes de aceitá-la, sem que, por isso, um simples título de atribuição de santidade canónica, nos faça retroceder, qual cavalo de Tróia, a uma mentalidade da qual já saímos. Nos sentimos tão convencidos em nossa maneira de ver, quanto tolerantes com os velhos pontos de vista; tão fiéis à essência-essência da boa tradição, quanto livres de adesões medievais, platônicas, mitológicas, agrárias... inclusive neolíticas.

A partir dessa visão, fica claro que não precisamos que Romero seja canonizado. “Ele é santo de um modo muito particular. Já está canonizado. Pelo povo. Não é preciso mais nada”. (E, claro, uma vez acabada a Idade Média, é óbvio que sobram todos os milagres “requeridos”.) Mas entendemos que boa parte da Igreja e da sociedade se vai sentir ajudada, e até mesmo comovida, por esta “declaração oficial de reconhecimento de sua santidade e de seu martírio”. Nós compartilhamos sua alegria. A esta altura da história, com o tanto que choveu depois de 24 de março de 1980, já não nos parece uma “ofensa”, mas, sobretudo, uma “reabilitação” adicional, redundante, mas útil, sobretudo para as hierarquias religiosa e civil que durante décadas se opuseram ao reconhecimento de “São Romero da América”. É uma boa notícia.

Luiz Gonzaga Belluzzo

É O CAPITALISMO, ESTÚPIDO!

Os ganhos de produtividade gerados pelas novas tecnologias estão escondidos nos calabouços construídos pelo poder de mercado das grandes empresas que se apropriam do valor criado: sobem as margens de lucro e destinam seus ganhos chorudos à recompra das próprias ações e ao pagamento de dividendos”, escreve Luiz Gonzaga Belluzzo, economista, em artigo publicado por CartaCapital. Segundo ele, “a aceleração do progresso tecnológico desloca um contingente significativo de trabalhadores para atividades de baixa qualificação, o que deprime a produtividade e a capacidade de consumo dos trabalhadores submetidos ao emprego precário e intermitente”. Deste modo, conclui, “algumas projeções estimam que, nos próximos cinco anos, mais de 40% da força de trabalho americana estará submetida a um emprego precário”. Eis o texto

Na terça-feira 11 o jornal Valor ofereceu-nos um artigo instigante de Rana Foroohar, colunista do Financial Times. Os analistas do mercado jogam Lego com a macroeconomia dos manuais, entoando as estrofes de ‘Batatinha quando nasce”.

Rana arrisca-se em compreender as peripécias do capitalismo global. Empenha-se em desvendar a especificidade dos movimentos que afetam o arranjo macro-económico-financeiro das economias contemporâneas.

Com simplicidade, a colunista do Financial Times observa que “os dirigentes dos bancos centrais do mundo foram responsáveis por garantir que a Grande Recessão não se transformasse em mais uma Grande Depressão, ao conservar baixas as taxas de juros e ao manter impressionantes 15 trilhões de dólares em seus balanços.

"Isso levou as bolsas a alcançar seus picos de todos os tempos, apesar de não ter propiciado a criação de qualquer tipo de crescimento real dos salários. Os bancos centrais podem criar bolhas de ativos, é claro, mas não conseguem mudar os efeitos de arrocho salarial da globalização, a deflação puxada pela tecnologia e a crescente concentração de poder corporativo que impossibilita que os trabalhadores dos países ricos contem com qualquer verdadeiro poder de barganha.

"(...) Desde a gestão de Alan Greenspan no comando do Fed, o viés tem sido deixar as taxas baixas e se preocupar com as inevitáveis bolhas de ativos depois. Trata-se de atitude compreensível, especialmente diante da incapacidade dos políticos do mundo desenvolvido de aprovar grandes planos de infraestrutura ou a reforma educacional ou outras coisas que realmente mudariam a situação para as pessoas comuns, nos últimos dez anos.”

A colisão entre as práticas financeiras, a formação das cadeias globais de valor, as inovações tecnológicas sustentam a competitividade da grande empresa internacionalizada.

A migração das empresas para as regiões onde prevalece uma relação mais favorável entre produtividade e salários associou-se à rapidez das inovações tecnológicas e ao controle do capital financeiro sobre as estratégias empresariais para enfraquecer o poder de negociação dos sindicatos e o número de sindicalizados.

Os ganhos de produtividade gerados pelas novas tecnologias estão escondidos nos calabouços construídos pelo poder de mercado das grandes empresas que se apropriam do valor criado: sobem as margens de lucro e destinam seus ganhos chorudos à recompra das próprias ações e ao pagamento de dividendos.

Os salários modorrentos, a letargia do investimento empresarial, a "geração de valor" para os acionistas e a aflitiva concorrência pela busca de resultados a curto prazo espelham o poder de monopólio das grandes empresas.

Há poucas semanas, no encontro patrocinado pelo Federal Reserve em Jackson Hole, o economista da Sloan School of Management, John Van Reenen, observou que muitas indústrias se tornaram “o vencedor leva tudo ou quase tudo”, devido à globalização e às novas tecnologias.

No relatório Compendium of Productivity Indicators 2018, a OCDE investiga o paradoxo da produtividade: “A despeito da retomada do crescimento na maioria dos países da OCDE, o maior peso de empregos de baixa produtividade reduziu os salários reais na economia como um todo”.

A aceleração do progresso tecnológico desloca um contingente significativo de trabalhadores para atividades de baixa qualificação, o que deprime a produtividade e a capacidade de consumo dos trabalhadores submetidos ao emprego precário e intermitente.

Em seu rastro de vitórias, as poderosas empresas deixam uma procissão de desgraças: a despeito das cifras oficiais do desemprego, caem as taxas de participação na força de trabalho por conta do desalento e cresce a precariedade das novas formas de ocupação, o que desata a queda dos salários reais e a exclusão social.

O processo que submete a criação de valor à extração de valor impulsiona o crescimento dos trabalhadores em tempo parcial e a título precário, sobretudo nos serviços, é escoltado pela destruição dos postos de trabalho mais qualificados na indústria. O inchaço do subemprego e da precarização endureceu as condições de vida do trabalhador.

A evolução do regime do “precariato” constituiu relações de subordinação dos trabalhadores dos serviços, independentemente da qualificação, sob as práticas da flexibilidade do horário, que tornam o trabalhador permanentemente disponível.

O resultado é a incerteza a respeito dos rendimentos e horas de trabalho. Esta é a mudança mais importante na força de trabalho americana ao longo de um século. Algumas projeções estimam que, nos próximos cinco anos, mais de 40% da força de trabalho americana estará submetida a um emprego precário.

Rosana Pinheiro-Machado

ATENTADO A BOLSONARO É O ÁPICE INSANO DA POLARIZAÇÃO

Atiçar a polarização me parece a atitude mais irresponsável nesta nova era do salve-se quem puder, escreve Rosana Pinheiro-Machado, professora Titular Visitante da Universidade Federal de Santa Maria - UFSM no PPG de Ciências Sociais e e coordenadora e co-fundadora da Escola de Governo Comum, em artigo publicado por The Intercept, 07-09-2018. Eis o texto

A imagem é simbólica: deitado com o peito descoberto, Bolsonaro é operado às pressas depois de levar uma facada na região do abdômen enquanto era carregado nos ombros por uma multidão apaixonada. Tudo transmitido nas redes sociais em tempo real.

O evento é dramático por não ser um caso da violência isolada, mas representar o caos em que estamos nesse momento pré-eleições. São tempos de messianismo. Na figuração do mito, Bolsonaro encarna a figura de um herói carregado pelo povo que é covardemente atingido. O agressor alega que agiu em nome de Deus. Vivemos o ápice insano da polarização.

Para analisar os eventos em perspectiva histórica, vale lembrar o momento mais crítico da China moderna, no final do século 19, quando o país estava dividido em guardas ‘brancas’ e ‘vermelhas’. Rebeliões diárias e fanáticos de todos os lados se diziam enviados de Jesus Cristo. E o resultado nós sabemos bem: o país só conseguiu cessar essa violência organizada com outra violência organizada e institucionalizada, um autoritarismo que durou décadas e visava curar as feridas do chamado “período das humilhações”.

Os tiros contra a caravana de Lula e posteriormente contra militantes durante a vigília em frente à sede da Polícia Federal de Curitiba já mostravam que adentramos em uma era perigosa de violência messiânica, individualizada, cada um salvando o mundo com pode. Ativistas da campanha de Guilherme Boulos, do PSOL, também foram atacados recentemente. É uma eleição no meio de um faroeste.

Fazendo trabalho de campo sobre o eleitores de Bolsonaro há quase dois anos, posso afirmar que muitos deles, que vestem camisa do candidato ou usam adesivo em carros, têm sido agredidos verbalmente e fisicamente, todos os dias. Há mais tempo, o mesmo ocorre, ou pior, com aqueles que vestem vermelho. Os meios progressistas apenas relatam violência como uma força unilateral concentrada em demônios que eles conseguem culpar. Em tempos de caos, o autoritarismo messiânico, pulverizado e desordenado está espalhado por todo o tecido social.

O Brasil que mata em massa mulheres, jovens negros, pobres e LGBTs nunca foi um país democrático por excelência, e o Estado sempre funcionou para poucos. Seria ingênuo falar que estamos numa crise da democracia. Esse nível messiânico e insano é o estopim de uma ordem autoritária, que se deixa levar pelas paixões calorosas de candidatos salvadores e do fanatismo religioso que por séculos esteve camuflada sob o ideal da harmonia. A história está repleta de exemplos que nos mostram os tristes desfechos políticos desse tipo de conjuntura.

Qual é o apelo de Bolsonaro nisso? Ele é o agressor e o agredido. Recebe a mesma violência que propaga. Mas é preciso ter prudência em como pontuar esse debate – em nada adianta usar esse argumento em tom revanchista, em guerras de narrativas inócuas. Pouco serve adentrar em brigas vazias que apontam o dedo. Esse revanchismo punitivista apenas gera mais raiva e alimenta o ciclo de violência que, há muito, já saiu das redes. Os doidos que rosnam no Facebook agora estão às soltas.

É parte de meu ofício, há 19 meses, acompanhar grupos de WhatsApp de eleitores de Bolsonaro e de eleitores mistos (Bolsonaro, anti-Bolsonaro e indecisos). Até antes do atentado, grupos de jovens conseguiram manter as regras de diálogo. No momento do evento, eleitores contrários ao candidato começaram a debochar: “pena que não acertou o desgraçado”. Depois disso – o debate aconteceu por horas –, os “bolsominions” reagiram com muitas ofensas, dizendo que quem desejava a morte de outra pessoa tinha que levar porrada. Os indecisos ficaram comovidos e chocados com as brincadeiras de que o agressor era incompetente. Um falou “se querem matar o cara, é porque ele incomoda”.

A piada “que pena que não acertou” circula por todos os lados, com a frase “ah, mas to só brincando…”. Mas quando os haters de direita fizeram essa brincadeira com Lula, a esquerda, com razão, não gostou.

Sem Lula, Bolsonaro está em primeiro lugar nas pesquisas de intenção de voto. Se ele é um candidato autoritário, violento e que faz apologia à tortura – e se é a esquerda que denuncia um golpe de estado neste país, nossa arma só pode ser a luta por democracia, e não por revanchismo ingênuo. Se Bolsonaro disse sobre o Museu Nacional “queimou querem que eu faça o quê?”, a resposta “esfaqueou, querem que eu faça o quê?” vai na mesma fragilidade narrativa.

Não se trata aqui de relativizar – e colocar em falsa simetria – a extrema-direita e a esquerda. Pelo contrário. Mas é preciso encarar os fatos para combater o candidato fascista. Eu queria que Bolsonaro não existisse. Mas eu não queria que ele fosse assassinado. A diferença entre uma coisa e outra é imensa. Ele existe. E nós precisamos lidar com a realidade e não fugir dela.

Os presidenciáveis manifestaram repúdio. Essa é a única postura aceitável neste momento trágico. De histeria de rede social já basta a culpabilização do PT por tudo o que ocorre neste país. Não foi suficiente tirar Dilma Rousseff do poder, parece que é preciso culpar o partido por toda a desgraça que ocorre: do Museu Nacional ao ataque a Bolsonaro.

Bolsonaro e suas seitas são o nosso mais bem acabado protótipo fascista, do fracasso democrático e da violência estrutural do Brasil. Esse atentado traz o imenso risco de torná-lo herói, reforçar a narrativa mítica daquele que sobrevive e que volta para salvar o Brasil contra tudo e contra todos. Um messiânico que renasceu da apunhalada de outro messiânico. “Agora é guerra”, disse o presidente do PSL. Um prato cheio para aqueles que vivem da expectativa do simbolismo do sangue, da tortura e da violência. Atiçar a polarização me parece a atitude mais irresponsável nesta nova era do salve-se quem puder.

Artigo de Enrique Dussel

WALTER BENJAMIN E O MESSIANISMO

O messias é uma luz nas trevas que o povo acende, e uma vez acesa incendeia ao próprio povo, exigindo-lhe, agora, tornar-se responsável pela história. É uma dialética entre povo e liderança. Nos os trairei! Cumprirei com o mandato!, expressa ao povo o consagrado pelo povo. Sabem quem é a última instância da soberania”, escreve o filósofo Enrique Dussel, a respeito da nova etapa da vida política no México, em artigo publicado por La Jornada. A tradução é do Cepat. Eis o artigo.

Tendo cumprido minha previsão de 2012 sobre Morena e o PRD: Finalmente, duas concepções da política, onde predizia o futuro desaparecimento do PRD, continuarei a reflexão iniciada há seis anos, hoje mais atual que nunca.

Com W. Benjamin, desejo abordar o estranho tema do messianismo que obstinadamente o trágico filósofo alemão levantou, a partir de seu diálogo ao longo de sua vida com G. Scholem, tão incompreendido por outros membros da Escola de Frankfurt (e a esquerda em geral, e especialmente a marxista ortodoxa, ainda em nossos dias no México).

O tema da liderança foi uma questão perigosa para a esquerda tradicional pela possibilidade de cair em um populismo de direita (como o nazismo que Benjamin tanto criticou e sofreu, um certo bonapartismo), ou um carismatismo (superficialmente tratado por M. Weber). Ainda menos considerado sob o rótulo do messianismo (caricaturado como um teologúmeno superficial) nomeado por outros como um messianismo tropical. No entanto, na contracorrente e autorizando-me Benjamin, desejo tratar este tema de grande profundidade política, no contexto deste momento crucial do México em 2018.

Trata-se de meditar sobre atores políticos situados em três níveis que se determinam mutuamente. Em primeiro lugar, o próprio povo como totalidade, que é o ator coletivo político, última instância da soberania, que se expressa na participação pública (institucional ou espontânea). Em segundo lugar, um setor ou grupo de tal povo (que G. Agamben, a partir de Paulo de Tarso, recorda como o resto) que luta contra vento e maré, nas boas e más, em favor de tal povo. Em terceiro lugar, uma pessoa ou muito poucas que padecem o suportar em sua própria corporalidade o sofrimento do povo oprimido (que na tradição semita de W. Benjamin se denominava o servo sofredor, questão tratada em minha obra “El humanismo semita”, apêndice), denominado pelo filósofo alemão como o meshiakh (em hebraico: o ungido pelo povo). Benjamin, em sua obra Sobre o conceito da história (GS, I, 2, pp. 691 ss), trata repetidamente, nas 18 teses, o tema do messianismo a partir de um marco teórico marxista e materialista histórico (Tese I), que será o que adotaremos nesta contribuição.

Michael Löwy, o conhecido filósofo judeu, trotskista e ateu, diz-nos: A redenção messiânica e revolucionária é uma missão que as gerações passadas nos atribuem. Não há Messias enviado do céu: nós mesmos somos o Messias (em Aviso del incendio, FCE, México, 2002, p. 50); pensemos “no lugar que tiveram no imaginário revolucionário, dos últimos 30 anos, as figuras de José Martí, Emiliano Zapata, Augusto Sandino, Farabundo Martí e mais recentemente Ernesto Che Guevara [...]”.

Em último termo, o messias é uma pessoa que encarna para o povo, por sua fidelidade, compromisso, honestidade, coragem, prudência prático-sapiencial, os valores que não se encontram nos líderes corruptos da sociedade dominante. Por isso, cresce seu significado até que o povo o descobre como uma possível solução para seus males. É assim que tal povo o consagra em função do serviço ao próprio povo (função messiânica que recebe do ator coletivo: o próprio povo). O messias é uma luz nas trevas que o povo acende, e uma vez acesa incendeia ao próprio povo, exigindo-lhe, agora, tornar-se responsável pela história. É uma dialética entre povo e liderança. Nos os trairei! Cumprirei com o mandato!, expressa ao povo o consagrado pelo povo. Sabem quem é a última instância da soberania.

Tratei o tema de forma mais ampla em uma publicação de La Jornada Ediciones [Carta a los indignados, México, 2011, pp. 27-85), texto que recomendo a quem desejar aprofundar o tema.

Por tudo isso, o dia primeiro de julho de 2018 foi um acontecimento messiânico (como segundo acontecimento libertador, em relação ao primeiro acontecimento exposto por A. Badiou), mas como diz o sentir popular: não se deve dormir sobre os louros! É agora o tempo da participação ativa de todo o povo e dos militantes mais responsáveis que despertaram na efervescência, ainda que desprezada por alguns situados na extrema esquerda, criticando-a como uma jornada eleitoral vazia e sem conteúdo. E não é assim, aqui a forma (uma eleição) tem conteúdo (é uma transformação real política).

A função messiânica agora já não necessita da legitimidade conquistada graças ao voto, agora, necessita da práxis participativa de todo o povo, cada um em sua trincheira. A função messiânica necessita da diária correção da crítica fraterna e responsável. Já não é o tempo para aplaudir, mas, sim, para atuar multiplicando a liderança em todos os níveis.

Boaventura de Sousa Santos

OS CONCEITOS QUE NOS FALTAM

'Foi por via dessa erosão que desapareceram do nosso vocabulário político as lutas anti-capitalistas, anti-colonialistas, anti-fascistas, anti-imperialistas. Concebeu-se como passado superado o que afinal era o presente mais do que nunca determinado a ser futuro. Nisto consistiu estar no abismo a olhar para trás, confiante que o passado do futuro nada tem a ver com o futuro do passado. Esta a maior monstruosidade do tempo presente'. O Texto é de Boaventura de Sousa Santos, sociólogo, publicado por Outras Palavras, Agosto 2018. Fonte, IHU.

Os seres humanos, ao contrário dos pássaros, voam com raízes. Parte das raízes estão nos conceitos que herdamos para analisar ou avaliar o mundo em que vivemos. Sem eles, o mundo pareceria caótico, uma incógnita perigosa, uma ameaça desconhecida, uma jornada insondável.

Os conceitos nunca retratam exatamente as nossas vivências, até porque estas são muito mais diversas e mutantes que as que servem de base aos conceitos dominantes. Estes são, afinal, os conceitos que servem os interesses dos grupos social, política, económica e culturalmente dominantes, ainda que matizados pelas modificações que lhes vão sendo introduzidas pelos grupos sociais que resistem à dominação. Estes últimos nem sempre recorrem exclusivamente a esses conceitos. Muitas vezes dispõem de outros que lhes são mais próximos e verdadeiros, mas reservam-nos para consumo interno. No entanto, no mundo de hoje, sulcado por tantos contactos, interações e conflitos, não podem deixar de tomar em conta os conceitos dominantes, sob o risco de verem as suas lutas ainda mais invisibilizadas ou mais cruelmente reprimidas. Por exemplo, os povos indígenas e os camponeses não dispõem do conceito de meio ambiente, porque este reflecte uma cultura (e uma economia) que não é a deles. Só uma cultura que separa em termos absolutos a sociedade da natureza, de modo a pôr esta à disposição incondicional daquela, precisa de tal conceito para dar conta das consequências potencialmente nefastas (para a sociedade) que de tal separação podem resultar. Em suma, só uma cultura (e uma economia) que tende a destruir o meio ambiente precisa do conceito de meio ambiente.

Em verdade, ser dominado ou subalterno significa antes de tudo não poder definir a realidade em termos próprios, com base em conceitos que reflictam os seus verdadeiros interesses e aspirações. Os conceitos, tal como as regras do jogo, nunca são neutros e existem para consolidar os sistemas de poder, sejam estes velhos ou novos. Há, no entanto, períodos em que os conceitos dominantes parecem particularmente insatisfatórios ou imprecisos. São-lhes atribuídos com igual convicção ou razoabilidade significados tão opostos, que, de tão ricos de conteúdo, mais parecem conceitos vazios. Este não seria um problema de maior se as sociedades pudessem facilmente substituir esses conceitos por outros mais esclarecedores ou condizentes com as novas realidades. A verdade é que os conceitos dominantes têm prazos de validade insondáveis, quer porque os grupos dominantes têm interesse em mantê-los para disfarçar ou legitimar melhor a sua dominação, quer porque os grupos sociais dominados ou subalternos não podem correr o risco de deitar fora o bebé com a água do banho. Sobretudo quando estão a perder, o medo mais paralisante é perder tudo. Penso que vivemos um período com estas características. Paira sobre ele uma contingência que não é resultado de nenhum empate entre forças antagónicas, longe disso. Mais parece uma pausa à beira do abismo e a olhar para trás.

Os grupos dominantes nunca sentiram tanto poder nem nunca tiveram tão pouco medo dos grupos dominados. A sua arrogância e ostentação não têm limites. No entanto, têm um medo abissal do que ainda não controlam, uma apetência desmedida por aquilo que ainda não possuem, um desejo incontido de prevenirem todos os riscos e terem apólices contra todos eles. No fundo, suspeitam serem menos definitivamente vencedores da história quanto pretendem, serem senhores de um mundo que se pode virar contra eles a qualquer momento e de forma caótica. Esta fragilidade perversa, que os corrói por dentro, fá-los temer pela sua segurança como nunca, imaginam obsessivamente novos inimigos, e sentem terror ao pensar que, depois de tanto inimigo vencido, são eles, afinal, o inimigo que falta vencer.

Por sua vez, os grupos dominados nunca se sentiram tão derrotados quanto hoje, as exclusões abissais de que são vítimas parecem mais permanentes do que nunca, as suas reivindicações e lutas mais moderadas e defensivas são silenciadas, trivializadas pela política do espectáculo e pelo espectáculo da política, quando não envolvem riscos potencialmente fatais. E, no entanto, não perdem o sentido fundo da dignidade que lhes permite saber que estão a ser tratados indignamente e imerecidamente. Que melhores dias terão de vir. Não se resignam, porque desistir pode ser-lhes fatal. Apenas sentem que as armas de luta não estão calibradas ou não são renovadas há muito; sentem-se isolados, injustiçados, carentes de aliados competentes e de solidariedade eficaz. Lutam com os conceitos e as armas que têm mas, no fundo, não confiam nem nuns nem noutras. Suspeitam que enquanto não tiverem confiança para criar outros conceitos e inventar outras lutas correrão sempre o risco de serem inimigos de si mesmos.

Tal como tudo o resto, os conceitos estão à beira do abismo e olham para trás. Menciono, a título de exemplo, um deles: direitos humanos. Nos últimos cinquenta anos os direitos humanos transformaram-se na linguagem privilegiada da luta por uma sociedade melhor, mais justa, menos desigual e excludente, mais pacífica. Tratados e convenções internacionais existentes sobre os direitos humanos foram sendo fortalecidos por novos compromissos no plano das relações internacionais e do direito constitucional, ao mesmo tempo que o elenco dos direitos se foi ampliando de modo a abranger injustiças ou discriminações anteriormente menos visíveis (direitos dos povos indígenas e afro-descendentes, mulheres, LGBTI; e direitos ambientais, culturais, etc.). Movimentos sociais e organizações não-governamentais foram-se multiplicando ao ritmo das mobilizações de base e dos incentivos de instituições multilaterais. Em pouco tempo, a linguagem dos direitos humanos passou a ser a linguagem hegemónica da dignidade, uma linguagem consensual, eventualmente criticável por não ser suficientemente ampla, mas nunca impugnável por algum defeito de origem.

Claro que se foi denunciando a distância entre as declarações e as práticas e a duplicidade de critérios na identificação das violações e nas reações contra elas, mas nada disso abalou a hegemonia da nova literacia da convivência humana. Cinquenta anos depois, qual é o balanço desta vitória? Vivemos hoje numa sociedade mais justa, mais pacífica? Longe disso, a polarização social entre ricos e pobres nunca foi tão grande, guerras novas, novíssimas, regulares, irregulares, civis, internacionais continuaram a ser travadas, com orçamentos militares imunes à austeridade, e a novidade é que morrem nelas cada vez menos soldados e cada vez mais populações civis inocentes: homens, mulheres e, sobretudo, crianças. Em consequência delas, do neoliberalismo global e dos desastres ambientais, nunca como hoje tanta gente foi forçada a deslocar-se das regiões ou dos países onde nasceu, nunca como hoje foi tão grave a crise humanitária. Mais trágico ainda é o facto de muitas das atrocidades cometidas e atentados contra o bem-estar das comunidades e dos povos terem sido perpetrados em nome dos direitos humanos.

Claro que houve conquistas em muitas lutas, e muitos activistas de direitos humanos pagaram com a vida o preço da sua entrega generosa. Acaso eu não me considerei e considero um activista de direitos humanos? Acaso não escrevi livros sobre as concepções contra-hegemónicas e interculturais de direitos humanos? Apesar disso, e perante uma realidade cruel que só não salta aos olhos dos hipócritas, não será tempo de repensar tudo de novo? Afinal, a vitória dos direitos humanos foi uma vitória de quê e de quem? Foi a derrota de quê e de quem? Terá sido coincidência que a hegemonia dos direitos humanos se acentuou com a derrota histórica do socialismo simbolizada na queda do Muro de Berlim? Se todos concordam com a bondade dos direitos humanos, ganham igualmente com tal consenso tanto os grupos dominantes como os grupos dominados? Não terão sido os direitos humanos uma armadilha para centrar as lutas em temas setoriais, deixando intacta (ou até agravando) a dominação capitalista, colonialista e patriarcal? Não se terá intensificado a linha abissal que separa os humanos dos sub-humanos, sejam eles negros, mulheres, indígenas, muçulmanos, refugiados, imigrantes indocumentados? Se a causa da dignidade humana, nobre em si mesma, foi armadilhada pelos direitos humanos, não será tempo de desarmar a armadilha e olhar para o futuro para além da repetição do presente?

Estas são perguntas fortes, perguntas que desestabilizam algumas das nossas crenças mais enraizadas e das práticas que sinalizam o modo mais exigentemente ético de sermos contemporâneos do nosso tempo. São perguntas fortes para as quais apenas temos respostas fracas. E o mais trágico é que, com algumas diferenças, o que acontece com os direitos humanos acontece com outros conceitos igualmente consensuais. Por exemplo, democracia, paz, soberania, multilateralismo, primado do direito, progresso. Todos estes conceitos sofrem o mesmo processo de erosão, a mesma facilidade com que se deixam confundir com práticas que os contradizem, a mesma fragilidade perante inimigos que os sequestram, cooptam e transformam em instrumentos dóceis das formas mais arbitrárias e repugnantes de dominação social. Tanta desumanidade e chauvinismo em nome da defesa dos direitos humanos, tanto autoritarismo, desigualdade e discriminação transformados em normal exercício da democracia, tanta violência e apologia bélica para garantir a paz, tanta pilhagem colonialista dos recursos naturais, humanos e financeiros dos países dependentes com o respeito protocolar da soberania, tanta imposição unilateral e chantagem em nome do novo multilateralismo, tanta fraude e abuso de poder sob a capa do respeito das instituições e do cumprimento da lei, tanta destruição arbitrária da natureza e da convivência social como preço inevitável do progresso!

Nada disto tem de ser inevitavelmente assim e para sempre. A mãe de toda esta confusão, induzida por quem beneficia dela, de toda esta contingência disfarçada de fatalismo, de toda esta paragem vertiginosa à beira do abismo reside na erosão bem urdida, nos últimos cinquenta anos, da distinção entre ser de esquerda e ser de direita, uma erosão levada a cabo com a cumplicidade de quem mais seria prejudicado por ela. Foi por via dessa erosão que desapareceram do nosso vocabulário político as lutas anti-capitalistas, anti-colonialistas, anti-fascistas, anti-imperialistas. Concebeu-se como passado superado o que afinal era o presente mais do que nunca determinado a ser futuro. Nisto consistiu estar no abismo a olhar para trás, confiante que o passado do futuro nada tem a ver com o futuro do passado. Esta a maior monstruosidade do tempo presente.

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João Barcellos

BRASIL: da Oca à Casa Grande

Breve Leitura Da Luso-Brasilidade

Nas Trilhas Pré-Coloniais


de outros horizontes e, no caso do povo guarani, também

uma demanda psicológica e religiosa que o levará pelo

´piabiyu´ [caminho] até à ´ivy marãey´ [q.s. ´terra sem mal´].

São diásporas de longa duração, porque nômades e a

enfrentar guerras mortíferas com tribos dispersas [as

´goayanazes´, q.s. ´outras gentes´], na maioria dos casos

gentes antropófagas que saboreiam o corpo dos guerreiros

inimigos como sinal de maior poderio; e assim, tupis e

guaranis seguem de koty em koty [ou ´acutia´, ´bacotia´, etc.,

q.s ´ponto de encontro, ou ´a partir de´], tendo no litoral as

´itapemas´ [rochas de abertura entre a lâmina d´água e a

terra) e nos certõens y mattos as ´ibiturunas´ e ´tijucas´

(cerros de terra preta e áreas de olhos d´água entre lama ou

pântano) as balizas geográficas.

Não por acaso, ao final do Século 16 e a apanhar todo o

Século 17 até os Anos 70 do Século 18, o tupi-guarani é a

Língua geral, até que a ´reforma pombalina´ [a exigência da

Língua portuguesa nos territórios d´além-mar, ou

ultramarinos) a proíbe. Entretanto..., as amas que criam a

filharada mameluca (filhos de branco com nativas), ou não,

dos colonos e bandeirantes (estes, tropas paramilitares de

ocupação em terras de povos nativos), são mulheres cativas

da terra, e depois as africanas escravizadas, logo, a Língua

não será mais a lusa original, porque já lhe é introduzida uma

Cultura multiétnica. Ou seja: na Casa Grande e na Senzala,

como nos sítios do Poder palaciano, a Língua lusa adquiriu

a Cultura Luso-Americana com pitadas africanas durante

mais de dois séculos.

Eis a perspectiva geossocial entre a Oca/Aldeia tupiguarani

e a Aldeia tomada e sitiada ao marco-zero ocidentalcristão,

digo, a Capela. É em tal perspectiva que agora se

situa a História do Brasil, pois, tudo foi/é estruturado na e

pela trilha tribal: dos bandeirantes aos tropeiros passando

pelos caminhos de ferro e as hidrovias.
Em meio à estruturação rural-urbana e industrial, o contato

físico-sexual das nativas com os colonos ibéricos leva à

humanidade um surto mortífero: a Sífilis. Não se contentam

os ibéricos com o ritual esotérico que é fumar o tabaco, nem

com o ter para si a facilidade sexual, fazem da facilidade a

libertinagem. Assim, com a doença, levam às tribos a bebida

alcoólica: uma ´bomba´ que destrói o organismo das gentes

florestais e sinaliza parte do seu extermínio. O ´pecado´ de

uma sexualidade descontrolada chega à Europa caraveleira

e dizima tanto como além-mar.

Enquanto isso, a geração mameluca toma um espaçotempo

que a põe como foco de uma nação que emerge

dentro da própria colonização [ex.: Suzana Dias, neta do

cacique Tibiriçã, a matrona mameluca que ergue a

Sant´Anna de Parnahyba e quase faz desaparecer a Sam

Paolo jesuítica]; uma geração que retoma as trilhas tribais e

estabelece acordos políticos e econômicos.

Assim se explica o contínuo nomadismo migratório dos

povos do Brasil e a sua cultura de assimilação diante de

outras gentes, a par de uma economia liberal iniciada ao

longo do Piabiyu por colonos como Affonso Sardinha (o

Velho) e Guilherme Pompeu de Almeida, ativa até hoje.

Perceber a Ilha de Brasil é perceber uma história rica em

culturas diversas e que, infelizmente, a academia ainda não

alcançou por causa do corporativismo político e dos dogmas

socialmente desestruturantes!

BARCELLOS, João, Escritor e pesquisador de história.

[jb.escritor@uol.com.br]

Ilha de Brasil, Julho de 20