O MÊS, SEMANA A SEMANA, À LUZ DA FÉ E DA TEOLOGIA DE JESUS

--------------------------------------------------------------------------

Esta pasta contém Acontecimentos comentados à luz da Fé de Jesus, a única que não é religiosa, mas Política; e à luz da sua Teologia, a única que não é idolátrica, mas Maiêutica.

*********************************************

Edição 133, Dezembro 2017

Os 5 novos diáconos de Bragança em reportagem SIC

O QUE PRETENDE ESCONDER D. JOSÉ CORDEIRO?

A minha surpresa é total. O Jornal da Noite de domingo 10 de Dezembro, da SIC, antes de “A Opinião que conta”, sem nada de relevante para contar, a não ser a morte lenta do PPD-PSD, impinge-nos, sem mais aquelas, uma mini-reportagem sobre os 5 novos diáconos permanentes da diocese de Bragança-Miranda e o seu bispo residencial. Sempre em bicos de pés perante os seus pares praticamente inexistentes, de tão envergonhados que se sentem, por ainda continuarem bispos residenciais (quase) sem párocos e sem clientes nos rotineiros e sonolentos cultos de cada domingo. De fiéis seus, estão a “virar” todos infiéis. Preferem os Shoppings, cheios de cores vivas e temperaturas superconfortáveis, onde o Mercado é rei e vende – parece dar, mas vende! – a toda a hora, música ambiente e uma multiplicidade de “prendas” natalícias que fazem esquecer os presépios dos muitos meninos-jesus de caco nas palhinhas deitados, a tiritarem de frio. Sem que os pobres coitados, velhos de muitos séculos, sequer protestem.

O que pretende esconder D. José Cordeiro com esta curta, mas bem programada reportagem, conseguida não se sabe a troco de quê e de quem!? É que o facto da diocese de Bragança ter ordenado 5 novos diáconos permanentes não justifica, só por si, uma reportagem, para mais, realizada a posteriori, em que o protagonismo vai inteiro para o bispo ainda mais aperaltado que o papa de Roma. E a questão que se me levanta é: Por que teve o bispo D. José Cordeiro de conseguir a toda a pressa esta reportagem no JN do domingo, da SIC, 10 de Dezembro, quando, a ter-se realizado, deveria ter sido no Jornal da Noite de domingo 26 de Novembro, quando aconteceu a referida ordenação?! Este desfasamento de datas entre o evento e a sua divulgação 15 dias depois leva qualquer pessoa mais atenta ao porquê das coisas, como devem ser os presbíteros-jornalistas profissionais, como eu a ficar com a pulga atrás da orelha e logo concluir, como eu concluo, Aqui há gato! E gato escondido com rabo de fora! A conclusão a que chego é: Esta reportagem só pode ser um “frete” da SIC ao bispo de Bragança e ao staff clerical e laico todo-poderoso que o rodeia. Cabe-lhes provar que não.

A haver reportagem sobre o assunto, deveria ser sobre os viveres históricos escondidos de cada um dos 5 diáconos permanentes recém-ordenados. Tanto mais quanto é público e notório que Bragança e a própria diocese de Bragança-Miranda são terreno fértil para os homens do avental, não da cozinha onde se lavam pratos e panelas, mas da cozinha do muito Dinheiro sujo das Misericórdias, Centros Paroquiais Sociais, IPSS e outros antros da Caridadezinha financeira e eclesiástica. Sim, porque as Lojas maçónicas e clericais e os seus maiorais sabem bem o que fazem. O que mostram e dizem à comunicação social é apenas o folclore. Como as viagens pastorais do papa de Roma servem para desviar as atenções do que de Perverso se passa nas catacumbas da Cúria Romana, cujos cardeais de vermelho vestidos, são todo olhos e mãos para os negócios e para dispendiosas orgias, ao modo do velho império romano. Nada melhor então do que o bispo beneficiado mascarar de diácono permanente os 5 homens que escolheu, em detrimento de outros com iguais ou até superiores habilitações curriculares.

Só não sei é como ainda há mulheres casadas que aceitam assinar uma Declaração a autorizar os respectivos maridos a serem ordenados diáconos, quando o normal seria haver casais diáconos. Mas isto é coisa só de homens. E, se do avental ou coisa parecida, tanto melhor. Nem se dão conta os clérigos que assim, lá se vai aquele solene mandato proferido a concluir o rito do casamento canónico, “Não separe o homem o que deus uniu”! Porque já não se pode falar de casamento, quando o homem deixa de o ser para a ser clérigo ordenado.

O que há então de muito sujo nos viveres destes 5 novos diáconos, para que até as suas esposas aceitem que o bispo lhes roube os maridos?!

Mário Centeno ao comando do Euro

FIM DA GERINGONÇA OU O SEU REFORÇO?

O ministro português das Finanças do Governo PS, Mário Centeno, acaba de ser o escolhido pelo senhor Dinheiro para presidir ao reforço do Euro, sobre o qual as quatro grandes Economias da UE, França, Alemanha, Itália e Espanha, estão apostadas em erguer uma Europa forte, capaz de fazer frente e bater o pé às economias dos EUA de Trump, da Rússia de Putin, da China de Xi Jinping, da Coreia do Norte, de Kim Jong-un. Qual deles o mais demente e politicamente analfabeto, cujos discursos e twitters são disparados por um sopro com tudo de bomba nuclear, porventura, mais perigoso que a bomba nuclear propriamente dita. Incendeiam todos os dias e a todas as horas os povos seus súbditos criminosamente formatados, e eles ficam politicamente tolhidos e entretidos nos futebóis dos milhões, incapazes de Política praticada maiêutica. Da qual andamos necessitados. Tanto ou mais do que de pão para a boca. Até sermos povos sujeitos dos nossos próprios destinos, nunca mais súbditos dos poderes e seus agentes de turno.

Não vejo, no país, ninguém dar sinais de perceber o que significa esta escolha por parte das quatro grandes economias da UE. Pelo contrário, vejo os dirigentes do PS abrir garrafas de champanhe e festejar; os deputados dos outros três Partidos da Geringonça – BE, PCP, PEV – amuar e ficar com cara de caso, como quem parece dizer, sem dizer, Mas onde tínhamos nós a cabeça, quando há uns dois anos nos metemos nesta engenhoca de “Esquerda”? Até os deputados do PSD e do CDS, assim como o seu Presidente da República e comentador político a todas as horas e minutos, Marcelo Rebelo de Sousa, mostram-se com cara de caso, ainda mais do que os da “Esquerda”. Sem saberem o que dizer e o que fazer. Não, obviamente, por causa do reforço do Euro e consequente criação da Europa forte, fundada sobre ele, mas porque deveriam ser eles, como cristãos e devotos da senhora de Fátima, os escolhidos para esse papel ao serviço do seu deus, o Dinheiro. O “mérito – para eles, é mérito – vai inteirinho para o socialista Mário Centeno que eles, na sua óptica financeira, têm na conta de nem sequer ser digno de desatar a correia das sandálias da sua antiga ministra das finanças, Maria Luís Albuquerque, ou da Presidente do CDS, Assunção Cristas, candidata não a ministro das Finanças, mas a primeiro-ministro. Como de resto ela faz questão de anunciar-gritar.

Fim da Geringonça, ou o seu reforço? A questão é pertinente, para quantas, quantos, à Esquerda e à Direita, têm cadeira reservada no Parlamento português e no Parlamento europeu. Todos à uma são igualmente deputados ao serviço do Dinheiro, o deus das religiões, das igrejas cristãs, dos ateus, dos agnósticos e dos agentes do Poder. Apenas mudam os falares e o tipo de reivindicações, não muda a substância. O senhor Dinheiro sai sempre a ganhar, tanto com deputados do PEV, do PCP, do BE, do PS, como do PSD e do CDS. Precisa de todos por igual. Por isso paga-lhes, segundo a regra democrática, Para trabalho igual, salário e mordomias iguais. Ironicamente, os que se perfilam mais à Esquerda no Parlamento são, porventura, os mais úteis ao senhor Dinheiro. Ajudam a dar ao Dinheiro um ar de democracia, bondade, liberdade. Todos, cada qual ao seu modo, estão aí a contribuir para formatar-dominar as mentes e as consciências das populações. Como fazem, por distintas vias, todos os clérigos e pastores das igrejas cristãs.

Deste modo, BE, PCP e PEV, por mais que se mostrem perturbados para votantes verem, sabem bem que, se quiserem continuar a ter lugar à mesa dos privilégios que o senhor Dinheiro lhes garante, acabam por reconhecer, pelo menos à porta fechada, que a eleição de Mário Centeno é o maná que lhes faltava para reforçar a Geringonça que integram. E ficam-lhe reconhecidos, ainda que nunca o felicitem. Quem sai a perder são os seres humanos e os povos. Porque numa UE forte, fundada sobre o Euro forte, ficam ainda mais condenados às migalhas e aos ossos que caem das mesas dos privilégios de todos eles.

Mianmar e Bangladesh

O QUE FAZ CORRER O PAPA JESUÍTA?

14 horas de voo. Destino: Mianmar e Bangladesh. Na Ásia. Dos 51 milhões de habitantes de Mianmar, maioria budista, apenas 700 mil são católicos. Dos 163 milhões de habitantes de Bangladesh, 85% são muçulmanos e o islamismo é a religião oficial do Estado, enquanto os cristãos integram os 0,3% do grupo, “Outras crenças”. Não são, pois, os católicos de um e outro país, cujas populações sobrevivem em chocante pobreza-miséria que move o papa jesuíta. É a Ásia, no seu todo, onde o império de Roma tem tido grande dificuldade em instalar-se nas mentes das populações, ocupadas por outras religiões. Em flagrante contraste com a Europa e com o continente latino-americano, onde todos os Estados são seus braços seculares, sempre que necessário. Inquisição “dixit”.

Consciente de que a sede do seu império já domina as mentes das populações da Europa e dos países que as descobertas e conquistas, com a cruz numa mão, a espada na outra e a Bíblia na sacola, lhe acrescentaram, o papa jesuíta, vestido de dominicano e com nome franciscano sabe bem que, para ser o senhor do mundo, tem de rasgar novos caminhos, se quer instalar-se também nas mentes dos povos asiáticos. O Ocidente já está garantido, e, hoje, na forma mais devastadora que é a versão laica pós-cristã e ateia, adorador do único deus todo-poderoso, o Dinheiro. É imperioso, pois, instalar-se nas mentes dos povos da Ásia. Com múltiplas acções de bem-fazer e escolas com a marca da cruz e a ideologia-teologia da Bíblia. Para que haja um só rebanho e um só pastor, não na maiêutica linha política de Jesus Nazaré, mas na do invicto Cristo bíblico-financeiro.

Por coincidência, a Argentina, país natal do papa jesuíta, está em lágrimas, com aquele submarino desaparecido, desde 15 de Novembro. Dentro, 44 seres humanos que, nesta altura, é suposto estarem todos mortos. Mas a agenda papal não previu este grave acidente e é para estes dois países com mais de 200 milhões de habitantes, no seu conjunto, ligados entre si também por fronteira terrestre, que o papa jesuíta argentino teve de ir. Cumpriu-se a agenda, arrancada a ferros. Quem ainda não é súbdito de Roma, mas de outras crenças, também elas conquistadoras das mentes das populações, resiste o mais que pode a fazer-se cristão católico romano. Adoradores do mesmo deus, o todo-poderoso Dinheiro, mascarado de outros nomes, já são. Mas súbditos do papa de Roma ainda não. E isso faz toda a diferença para as ambições de Roma. É para pôr fim a esta substantiva diferença, que o papa jesuíta argentino se multiplica em viagens. É isto que o move. É sempre bem recebido, porque todos Estados do mundo sabem que o mais sofisticado e mais letal armamento está nas mãos dos Estados que já são súbditos dele. E isso pesa tanto, que qualquer outro Estado tem de agendar a visita sugerida por Roma.

Só tresloucados fanáticos ousariam atentar contra o papa de Roma. Pelo que todo o investimento que cada Estado tem de fazer para assegurar a sua integridade durante a visita é feito a pensar nesses que todas as fés religiosas têm, ou elas próprias não fossem as suas mães. Fossem só os graúdos dos Estados a ver-receber o papa de Roma e não seria necessário o chocante investimento que cada viagem papal exige. Mas o papa imperador de Roma não prescinde dos banhos de multidão. E cada Estado, budista, hindú, islamita, protestante ou ateu, capricha no recurso ao protocolo imperial. Até porque, depois do regresso do papa a Roma, são eles que ficam no terreno, com as populações ainda mais conformadas com a miséria em que vegetam. Viram de fugida o papa de Roma e a ostentação das suas missas e depressa concluem que nasceram para ser o que são – miseráveis, analfabetos, carne-para-canhão. Como exige o todo-poderoso deus Dinheiro. O de todas as fés religiosas, inclusive, do ateísmo. Resta-lhes por isso conformar-se com os restos que caem da mesa dos palácios dos respectivos chefes, com os quais o papa de Roma, seu potencial imperador, se encontrou, abençoou e negociou.

Edição 132 Novembro 2017

Diáconos casados

O REFORÇO DA IGREJA CLERICAL OU O SEU FIM?

Até agora irredutível na abolição da abominável Lei do celibato dos padres, a igreja pós-Vaticano II instituiu, a medo, consciente, certamente, do ridículo em que caía perante as populações mais ilustradas, os diáconos casados e já com filhos. A prova provada de que não são homossexuais. Quando muito, bissexuais, que a existência de filhos dá para encobrir aos olhos do grande público. Como também o facto de se ser católico e notório amigo dos clérigos graúdos de cada região do país ajuda e muito a esconder as vidas duplas e corruptas que uns e outros possam levar. Que isto de clérigos graúdos tem o que se lhe diga. Tudo lhes é permitido, contanto que não haja escândalo. Acham-se acima da lei, pelo que para eles os fins justificam os meios. Sobretudo, quando dão muito dinheiro a ganhar à sua diocese e à Cúria romana. Dão até direito à beatificação-canonização, após a morte. Como os recentes exemplos de João Paulo II e dos desgraçados irmãos Jacinta e Francisco, de Fátima, mais a do cónego Formigão que já vem a caminho no-lo gritam a todo o momento.

A grande questão eclesial e social é que, neste início do terceiro milénio, nem os clérigos padres celibatários, nem os clérigos diáconos casados trazem quaisquer benefícios à sociedade civil e à Humanidade, no seu todo. Pelo contrário. Ocupam-se todos de coisas que nunca deviam ter sido instituídas e que, hoje deviam até ser proibidas e punidas por lei, uma vez que só servem para infantilizar as populações e impedi-las de crescer de dentro para fora em protagonismo eclesial, social e político.

Aos diáconos casados cabe apenas fazer mais do mesmo que já é feito pelos clérigos celibatários. Só não podem presidir às missas, confessar-absolver os que infantilmente ainda se confessam, nem administrar o sacramento conhecido por extrema unção. Mas, como, por regra, depois de ordenados pelos bispos diocesanos, os diáconos casados são nomeados para paróquias grandes e dos grandes centros urbanos, acabam por fazer apenas aquilo que os clérigos párocos lhes dizem para fazer. O que redunda numa enorme frustração pessoal. Compensada, entretanto, pelo que o estatuto clerical de diácono casado lhes permite fazer de hediondo, sem que ninguém alguma vez suspeite. Não fosse isso e nenhum dos grandes figurões católicos seria sequer católico, muito menos clérigo diácono casado. Um estatuto que indignifica todo o nascido de mulher, a mulher com quem o próprio está casado e respectivas filhas, filhos. Por isso, a pergunta: A ordenação de clérigos diáconos casados é um reforço da igreja clerical ou o seu fim?

Bragança é uma das dioceses que, neste domingo 26 de Novembro, o Dia de Cristo Rei e Senhor do Universo – a negação absoluta de Jesus Nazaré e do seu Evangelho – ordena cinco novos diáconos casados. Deles, garante o bispo ordenante, D. José Cordeiro: “Após 5 anos de formação, através do IDEP - Instituto Diocesano de Estudos Pastorais, Amílcar Pires (Unidade Pastoral Santa Maria do Sabor), Henrique Fernandes (Unidade Pastoral Santa Maria do Sabor), Joaquim Queirós (Unidade Pastoral de S. Bento), José Fernandes (Unidade Pastoral de S. Bento) e José Fonseca (Unidade Pastoral de Ansiães), foram admitidos às Ordens Sacras, no passado domingo, dia 12 de novembro. São casados e têm tido um papel activo nas ações pastorais da Igreja Diocesana, sobretudo através das suas Unidades Pastorais, movimentos e secretariados.”.

Palavra de bispo. Por isso, incontestada. Gritassem as pedras e as paredes de certas salas tudo o que sabem do bispo ordenante e dos seus 5 escolhidos, e muito teriam a contar. Sabe o bispo que os escolhe e ordena na Sé Catedral de Bragança, a mãe de todas as prostituições. A pior das quais é a do Dinheiro, a única que verdadeiramente prostitui quem a pratica. E neste particular pode algum dos 5 novos diáconos casados atirar a primeira pedra?!

E ainda vem agora o papa Francisco com o seu “Dia dos pobres”!

PARÓQUIAS OU OUTRAS TANTAS FÁBRICAS DA IGREJA CATÓLICA?!

A esmagadora maioria dos chamados “fiéis leigos” - até esta designação canónica é cretina – desconhece que cada paróquia católica é uma dos milhões de fábricas da igreja católica espalhadas pelo mundo ocidental e outras partes do mundo, Ásia incluída, graças sobretudo ao trabalho-escravo dos chamados “missionários”, elas e eles, enviados por ela aos “pagãos”, entenda-se os não-cristãos católicos. Daí as históricas guerras fratricidas entre igrejas cristãs e religiões, uma vez que a igreja católica tem-se como a única igreja verdadeira e todas as outras, meras associações religiosas. Muçulmanos que sejam. Se estes quiserem salvar-se, têm de trocar o Alcorão pela Bíblia, o mitificado Maomé pelo mítico Jesuscristo, Alá por Deus-pai todo-poderoso, o do Credo de Niceia-Constantinopla!

Dois mil anos de cristianismo católico são dois mil anos de menoridade das populações, cujas mentes-consciências são formatadas para obedecer aos clérigos-sacerdotes e, em última instância, ao papa de Roma, o sucessor de Pedro, traidor e negador de Jesus e do seu Projecto político de sociedade; e, a partir do século IV, também e sobretudo sucessor do imperador de Roma. Ou “outro Cristo”, no dizer ainda mais demencial de uma certa teologia com tudo de papolatria. O cúmulo da indignidade humana que converte sucessivos nascidos de mulher em filhos do Poder. No caso, poder monárquico absoluto e infalível, com a missão-ambição de dominar as mentes-consciências todos os povos do mundo, apoderar-se deles, das suas filhas, dos seus filhos, e também dos seus bens, objectivo último da transnacional igreja católica. Cujo Deus é o Dinheiro, mascarado de bem-fazer e de rezas litúrgicas ou privadas, locais sagrados, absolutamente incapaz de fazer o bem, concretamente, abrir os olhos das mentes das multidões e levantá-las da prostração-alienação sócio-política que nem as deixa distinguir entre direita e esquerda políticas, muito menos, as estimula a serem elas próprias, cada dia, Política Praticada.

É bom que se saiba que o fundamental de cada paróquia e diocese territorial da igreja católica é a chamada Fábrica da igreja ou Comissão fabriqueira. Cabe-lhes fazer crescer os bens eclesiásticos e geri-los com sucesso. Os párocos são sempre os presidentes das Fábricas. Os outros membros leigos, apenas seus conselheiros, já que o poder de decidir é apenas dos párocos. As populações são instigadas a financiar com o seu dinheiro a construção de igrejas, capelas, residências paroquiais, Centros Sociais Paroquiais, IPSSs e outros edifícios, mas tudo é depois propriedade da igreja-transnacional católica, cuja sede está em Roma. Até os dinheiros recolhidos periodicamente por voluntários junto de cada família residente nas paróquias, para financiar a construção de novos edifícios, podem muito bem ser desviados depois pelos respectivos párocos para fins totalmente diferentes. Inclusive, para proveito dos próprios párocos. Sem que as populações possam reclamar num tribunal civil. Só no tribunal eclesiástico, cujo juiz presidente é o próprio bispo titular ou quem temporariamente o substitui. Por isso sem pés para andar.

Nunca isto é dito dos altares para baixo. Porque o silêncio dos clérigos é a alma do negócio. Quem sai sempre a perder é quem se deixa levar pelas falinhas mansas ou bravas dos clérigos-lobos mascarados de sacerdotes e abre os cordões à bolsa. As Fábricas da igreja agradecem e, em troca, prometem-lhes o céu após a morte! Não há igreja-movimento de Jesus. Há a transnacional igreja católica que dispõe de milhões de fábricas a produzir imóveis, dinheiro e populações possessas de Medo. Em Portugal, ainda mais, porque todo este negócio é isento de impostos, graças à Concordata de 1940, ainda em vigor. Tudo para maior glória de Deus-pai todo-poderoso, o Dinheiro. E ainda vem agora o seu clérigo-mor, o papa Francisco, criar “O Dia mundial dos pobres”! É preciso ter lata! Primeiro, fabrica os pobres e, depois, cria o Dia mundial dos pobres! “Raça de víboras!”, grita Jesus, o de Nazaré (Cf Mateus 23, 33)

Actos terroristas e fogos florestais

SERÁ QUE VIERAM PARA FICAR?!

Bem se pode afirmar que os actos terroristas que hoje já quase não são notícia vieram para ficar. Como os fogos florestais. Não são uma fatalidade, mas dois dos piores frutos da opção política e económico-financeira e, até, antropológica-teológica que está na origem deste nosso tipo de mundo. Digo mais. Frutos, sobretudo, na ordem do ser, da opção antropológica-teológica que é a mãe de todas as outras. Uma vez que, por trás de toda e qualquer opção política e económico-financeira, está sempre uma antropologia e uma teologia. Não damos por elas, porque já nascemos, crescemos, morremos num tipo de mundo que temos como natural, quando é cientificamente teológico e ideológico.

Desde que os nossos antepassados mais primitivos, possessos de Medo, formularam a hipótese “Deus”, deram início a um tipo de mundo onde o Medo veio a tornar-se quase congénito. Somos concebidos e gerados no Medo. Nascemos e crescemos no Medo. Somos educados e morremos no Medo. Há milénios e milénios que é assim. De modo cada vez mais refinado. Vemo-nos hoje mergulhados num dos picos mais altos do Medo. Quase sem oportunidade para parar, reflectir e encontrarmos a porta estreita de saída do Medo. E como as anteriores gerações, insistimos na fuga para a frente. Sem vermos que nos espera o abismo nuclear. Quando o imperativo ético nos exige parar e inverter a marcha. Até regressarmos aos primitivos Humanos, para abdicarmos, em definitivo, da hipótese “deus” que eles, possessos de Medo, demencialmente formularam.

Até os filósofos e cientistas nossos contemporâneos – os mais possessos de Medo – vivem obcecados em viajar para trás no tempo, mas não em busca dos primitivos Humanos que formularam a hipótese “deus”, para dela abdicarem, sim em busca do que chamam, “partícula de deus”. A obsessão é tão forte que até os cientistas auto-declarados ateus estão também apostados nela. Convictos, certamente, de que a partícula de deus não existe e verem assim mais do que justificado o seu auto-declarado ateísmo. Insensatos que somos, os auto-declarados crentes e ateus. Mais ainda os crentes. Porque se hoje cresce de dia para dia o número dos auto-declarados ateus, isso deve-se sobretudo aos auto-declarados crentes. Cujo ser-viver na história não é um ser-viver que se apresente. Até o Concílio Vaticano II o diz. Mas, também por isso, continua metido na gaveta, como, cem anos depois da revolução russa, o chamado socialismo-comunismo.

Urge regressarmos aos primitivos Humanos que, possessos de Medo, formularam a hipótese “deus”. Não para a reformularmos. Sim, para abdicarmos dela liminarmente. Porque o imperativo ético é, em cada tempo e lugar, olharmos-nos nos olhos uns dos outros e reconhecermos, com imensa alegria, irmã gémea da Verdade, que somos os mais frágeis dos seres vivos e, sabiamente, religarmo-nos para sempre uns aos outros, numa unidade indissolúvel, a ser reforçada e melhorada por cada nova geração que vem ao mundo. Sem nunca mais formularmos a hipótese “deus”, sem dúvida a maior tentação que reiteradamente nos bate à porta.

Porque só na religação uns aos outros, ao modo dos vasos comunicantes – é assim o organismo vivo de cada uma, cada um de nós – e a cuidarmos com crescente alegria uns dos outros e da Terra que dança ininterruptamente à volta de si mesma e ao mesmo tempo à volta do Sol, acabamos, mais cedo do que tarde, por darmos conta do Sopro outro que gratuitamente nos habita e faz ser irrepetíveis e únicos , desde o instante da nossa conceição no útero materno. Sem nenhum lugar para o Medo e o tipo de mundo por ele gerado, que só sabe roubar, matar, destruir. No qual os actos de terrorismo e os incêndios florestais, cientificamente programados, vieram para ficar e levar tudo e todos.

Novembro, castanhas e vinho

MORTOS E SANTOS PARA QUE VOS QUERO?!

É preciso muito mau gosto cristão católico e ter um viver aterrorizado desde a infância perante a Morte, nossa irmã gémea, para, logo no início do mês dos magustos e da prova do vinho novo, impor aos seus castigados súbditos o dia de todos-os-santos e o dia da invasão aos mortos nos cemitérios. Só mesmo de clérigos celibatários à força, carregados de privilégios castradores, com viveres amargurados, tecidos de esterilidade e de solidão. Não suportam ver os seus súbditos “perder-se” nas festas das castanhas e do vinho novo, para cúmulo, apadrinhadas por um tal de s. martinho que, depois de ter repartido o manto pelo mendigo nu, nunca mais teve emenda, ao ponto de acabar padrinho de todas elas. Nem sei como os clérigos do topo da pirâmide eclesiástica ainda não retiraram o nome dele do catálogo dos santos, cada qual com a sua especialidade, por sinal, todas prejudiciais. É tempo de gritar a uma só voz, Mortos e santos, para que vos quero?!

Devo reconhecer que não há fim mais desgraçado e absurdo do que alguém acabar um dia reduzido a santo-de-altar. Ou a morto cultuado num cemitério. Vejam só. Vai já para 20 séculos que s.pedro-e-s.paulo, por exemplo, permanecem naquela mesma posição de santo de altar. Um de chaves-na-mão e o outro de-espada-em-punho. O mesmo se diga dos mortos dos jazigos condenados a ter de apanhar todos os sábados com carradas de flores, as mais caras do mercado e com todas aquelas hipócritas lágrimas dos familiares e pseudo-amigos que, no primeiro dia do mês de novembro transformam os cemitérios num mar-de-vaidades e de desavergonhados desfile-de-modas. Onde se combinam encontros proibidos a desoras, nos quais o sexo é furiosamente praticado, numa desesperada tentativa de afugentar o medo da Morte. Sem perceberem que desse modo mais não fazem do que gritá-lo aos quatro ventos! Porque tudo é feito sem um pingo de ternura, arte de cuidar e amor recíproco, sem dúvida as três expressões maiores da Vida humana. Quando, afinal, a Morte é a irmã gémea que leva a vida de cada qual à plenitude.

Chegados ao terceiro milénio cristão, cumpre-nos reconhecer que o cristianismo, nas suas múltiplas igrejas, é o pior que, como Humanidade, nos aconteceu. Com ele, até as mais fascinantes obras de arte, nos múltiplos ramos em que ela se diz-revela – música, arquitectura, pintura, escultura, teatro, literatura – são portadoras de um sopro que envenena-acorrenta as mente-consciências e as mata. Ficamos deslumbrados perante elas, mas sempre e cada vez mais sem vez nem voz. Como bois a olhar para os palácios. Artistas houve que tentaram fintar os grandes eclesiásticos-mecenas, mas porque não cortaram o cordão umbilical que os ligava a a eles, acabaram pior que eles. Tudo o que criaram para eles foi logo utilizado por eles para manterem as populações e os povos acorrentados, infantilizados, tolhidos, submissos. Ao ponto de nascerem, crescerem, viverem e morrerem reféns deles. Como o dia de todos os santos e o dia dos mortos – dois no calendário, na verdade, dois-em-um – aí estão ainda a gritar, por mais laica, agnóstica, ateia que a nossa sociedade hoje se diga. Mantém-se demencialmente cristã.

Nem Lutero, há 500 anos, com o seu grito do Ipiranga contra o centralismo papal e o seu poder monárquico absoluto, conseguiu mudar as coisas na raiz. Pelo contrário, acabou por dar ao cristianismo popular o rosto elitista e erudito que lhe faltava, ao apostar forte e feio na Bíblia, com destaque para o Evangelho de S. Paulo que atira para a vala comum o Evangelho de Jesus, este sim, todo pró-seres humanos e povos maieuticamente religados entre si, sem deuses nem chefes, progressivamente sujeitos dos seus próprios destinos. Excomungado pelo papa de então, está em vias de canonização pelo de hoje. Francisco sabe, como jesuíta, que, com a unidade dos cristianismos e a Bíblia, o monárquico e infalível Poder papal é absoluto. Com os seres humanos e os povos reduzidos a robots!

Edição 131 Outubro 2017

Ainda o polémico Acórdão da Relação do Porto

O JUIZ QUE MAIS FEZ PELA DIGNIDADE DAS MULHERES

Anda toda a gente, a começar por tudo quanto é organização de defesa de mulheres vítimas de violência doméstica, a gritar nas tvs e redes sociais contra o juiz Joaquim Neto de Moura do Tribunal da Relação do Porto, só porque ele acaba de escrever, num Acórdão que assina em parceria com uma juíza do mesmo Tribunal, o pior que se pode dizer das mulheres casadas que praticam adultério. Acho que fazem mal. Deviam era agradecer-lhe. É que ele, sem querer, acaba de fazer mais pela dignidade das mulheres casadas que praticam adultério e pela indignidade dos homens que também o praticam e, ao contrário delas, são até elogiados pelos juízes, do que todas essas organizações juntas. Vejam que ele chega a citar a Bíblia judeo-cristã-islâmica, para fundamentar o seu aberrante Acórdão. Ao ponto de obrigar os bispos a vir a terreiro defendê-la. Não com base nela, sim com base em Jesus, o do Evangelho de João. Só que - azar deles - Jesus Nazaré é o primeiro ser humano a pô-la em questão e, nela, todos os livros ditos sagrados!!!

Escrevo obviamente em chave de humor, a única em que esta inqualificável aberração do juiz pode ser abordada com dignidade. Não entendo que se levantem só contra ele, quando o que é eticamente imperioso e urgente é levantarmo-nos contra os dois mil anos de cristianismo-islamismo e os três mil anos de judaísmo, filhos da Bíblia judeo-cristã-islâmica, bem como contra os milhares de milhões de livros de todas as bibliotecas do mundo ocidental, cujos autores, na esteira dela, sempre viram e vêem as mulheres como propriedade do pai, enquanto solteiras e, depois de casadas, como propriedade do marido, no mesmo nível do boi, da vaca, do jumento e da casa. E como mera barriga de aluguer onde o seu dono-marido e senhor deposita o sémen que, depois, graças aos nutrientes fornecidos por ela, se tornam filhas, filhos exclusivamente dele, paridos por ela entre lancinantes gritos de dor. Os quais são logo convertidos em mão de obra barata dele, quando a riqueza é o latifúndio, e das multinacionais de hoje que fazem da maioria dos nascidos de mulher seus escravos, quer nas horas de trabalho forçado, quer nas horas das múltiplas e ruidosas diversões que o seu Mercado global lhes vende.

Afinal, o juiz Joaquim Neto de Moura, já com 28 anos de actividade, mais não faz do que aplicar a doutrina que a esmagadora maioria das mulheres e dos homens trazemos alojada nas nossas mentes, como um demónio, mascarado de teologia dogmática e moral do judeo-cristianismo-islamísmo, suas sinagogas, igrejas e mesquitas. Somos cegas, cegos, se corremos a atirar pedras ao juiz e deixamos intacta a demoníaca teologia do judeo-cristianismo-islamismo, de que ele é uma das vítimas e simultaneamente um dos seus agentes laicos de topo. A verdade que teimamos em não querer ver que ainda não somos nascidos e já essa demoníaca teologia é alojada nas nossas mentes. As mães, os pais têm sido, ao longo dos séculos, os seus principais difusores. Nem os ateus o são verdadeiramente. Deixam de frequentar os locais de culto, mas continuam a cumprir e a fazer cumprir as fundamentais leis do Poder. Filtram mosquitos e engolem camelos.

Todas as civilizações do passado e do presente, também a nossa civilização ocidental de raízes cristãs, estão edificadas sobre as demoníacas teologias dos chamados livros sagrados, com destaque para a Bíblia e o Alcorão, dentro das quais nos sentimos a jeito, porque achamos natural que seja o princípio masculino, gerador do Poder que conquista, domina, rouba, mata, destrói, a estar ao comando do mundo, quando só o princípio feminino (Jesus) é gerador da Arte de Cuidar da vida, dos seres humanos, dos povos e do universo. Ou nascemos de novo, à revelia das civilizações fundadas nos livros sagrados, e em sintonia com o princípio feminino, ou não chegamos sequer a ser mulheres-homens. Apenas coisas, mercadorias. Alguns no topo da pirâmide, a esmagadora maioria na base.

Mais um santo português

O PAPA FRANCISCO ENLOUQUECEU?!

Quando Portugal ainda estava a arder, inclusive, Outono adentro, e os fogos florestais, criminosamente incontroláveis, continuavam a matar concidadãs, concidadãos nossos, eis que o papa Francisco, domingo 15 de Outubro, em Roma, mete-se a declarar e a definir, numa liturgia cheia de pompa e circunstância imperiais, que Ambrósio Francisco Ferro, padre português assassinado há 372 anos (1645) no Brasil por 200 soldados calvinistas holandeses , passa, agora, a ser santo, juntamente com outros 29 católicos que nesse mesmo dia assistiam à sua missa dominical. O país real a arder nas suas entranhas, nem sequer deu por nada, pelo que a grande pergunta que se impõe, pelo menos, a mim, como presbítero-jornalista, só pode ser esta, O papa Francisco enlouqueceu?!

Calma! Não venham já a correr dizer que quem enlouqueceu fui eu, porque um louco não é capaz de formular a grande pergunta que eu acabo de formular. Só alguém que, na sua fragilidade humana, se atreve a encarar este nosso hoje-e-aqui nacional, europeu e mundial à luz da Fé e da Teologia de Jesus é capaz de ver a realidade-verdade que as encenações ideológicas e religiosas, em que são peritos todos os papas, Francisco incluído, e todos os clérigos do topo à base, sistematicamente escondem. Não vá acontecer que os povos escutem o imperativo ético que nos intima a passar de cristãos e religiosos a humanos, e o queiram praticar. E bem, porque só o Humano é o nosso único denominador comum, como povos, na belíssima variedade de cores, falares e nações.

Embora me repugne, não posso deixar de reproduzir aqui a fórmula da canonização, para que muitas, muitos mais juntem ao meu o seu escândalo. Tudo nesta fórmula de fazer santos é obsceno. Só mesmo de quem enlouqueceu e por isso já não sabe sequer o que está a dizer. Para mais, dita em latim, como faz o papa Francisco desta vez, a fórmula é ainda mais de estarrecer. O surpreendente é que a intelectualidade ilustrada que por aí se pavoneia neste nosso mundo ocidental, incluída a que se diz ateia, assista a todas estas demências papais e cristãs e se cale. Sinal de que, mesmo secular, agnóstica ou ateia, continua aí corporativamente cristã, em vez de humana. Ou o deus todo-poderoso de que fala o Credo de Niceia-Constantinopla não seja efectivamente o Dinheiro. É. E deste, quem se confessa ateu? Ei-la, pois, aqui, para que possamos avaliá-la e reconhecer que quem tais coisas diz neste início do terceiro milénio só pode estar enlouquecido:

Em honra da Santíssima Trindade, para exaltação da fé católica e incremento da vida cristã, com a autoridade de nosso Senhor Jesus Cristo, dos Santos Apóstolos Pedro e Paulo e Nossa (sic, com maiúscula, no original), depois de termos longamente reflectido, implorado várias vezes o auxílio divino e ouvido o parecer de muitos Irmãos nossos no Episcopado (sic, com maiúsculas, no original), declaramos e definimos como Santos os Beatos (aqui o papa pronunciou os nomes dos candidatos) e inscrevemo-los no Catálogo dos Santos, estabelecendo que, em toda a Igreja, sejam devotamente honrados entre os Santos. Em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo”.

Resta saber, por fim, o que vai fazer o papa com os 200 soldados holandeses, aos quais a sua empresa multinacional fica a dever a graça de poder contar com mais 30 novos santos, a atrair muito dinheiro para ela. Porque se eles os não tivessem assassinado, tão pouco ele podia agora declará-los e defini-los santos, com culto público nos altares, sagrados sorvedoiros do dinheiro de milhões de fiéis criminosamente mantidos no infantil e no medo, que os condena a um humilhante ser-viver de joelhos, quando o que eles mais precisam é fazer das tripas coração, até serem donos dos seus próprios destinos. Num saudável ser-viver sem deuses, nem chefes! Simplesmente humano e sororal!

Carta Aberta, com amor e humor teológico

De bispo de Bragança, a bispo e papa de Roma?

Meu caro D. José Cordeiro

Sei que o teu sonho não é continuar a ser bispo de Bragança e Miranda. És pequeno de estatura, como Zaqueu, o do Evangelho de Lucas, que tem de trepar às árvores para ver Jesus, mas és grande em desejo. Não, como ele, em desejo de conhecer Jesus, porque então terias de te dispor a dar metade dos teus bens aos pobres e a restituir quatro vezes mais a quem roubaste. Ainda que sempre possas dizer que nunca roubaste nada a ninguém, como, de resto, também Zaqueu podia, mas não é o que ele diz a Jesus, porque, quando o acolhe em sua casa, sente-se completamente desnudado perante aquele o olhar dele e não se atreve a continuar a fazer de conta, como insistem em fazer de conta todos os bispos residenciais e párocos clérigos católicos e pastores protestantes. Outros o fazem para ti. Para todos vós. Como, em seu tempo, outros o fazem para Zaqueu, uma vez que ele, tal como tu, todos vós, é chefe de cobradores de impostos ou publicanos. O fausto que vives em permanentes céus forrados a ouro, onde até a fé religiosa que te anima tem o brilho do ouro – as inúmeras fotos que exibes no Fb não enganam! – já tem muito de papa de Roma. Mas não é Roma. É Bragança e Miranda. Coisa pouca para ambição tão grande quanto a tua. É por demais manifesto que só aceitaste Bragança, como primeiro degrau para o Patriarcado de Lisboa, onde serás garantidamente elevado a cardeal. Um dos eleitores do papa e simultaneamente papável. E até já te estás a ver a mudar de bispo de Bragança, para bispo e papa de Roma.

Há várias dioceses do país à espera de bispo titular. Das vacantes, a do Porto é, certamente, a mais cobiçada. A morte repentina do seu titular, D. António Francisco, que deixou às pressas a de Aveiro em troca pela do Porto, de poucos anos lhe valeu. Que a senhora de fátima é assim. Aos seus mais fiéis e generosos devotos, como os irmãos Francisco e Jacinta, de 1917, gosta de os levar para o céu, onde ela não tem nada para fazer, nem sequer bordar toalhas de altar, porque lá já está tudo feito e bordado a ouro, ou o deus do céu, de que falam tanto as igrejas e as religiões, não seja o Senhor todo-poderoso Dinheiro que tudo compra e corrompe, a começar pelas mentes-consciências dos papas, bispos residenciais, clérigos, pastores e demais agentes do Poder político e económico. E não fosse ele, como é, o único senhor do mundo, ao qual todas as igrejas cristãs e religiões servem, assim como os bancos e os governos das nações.

Será que desta vez, o papa e o seu núncio em Lisboa já estão a deparar com falta de vocações para bispo residencial? A falta de clérigos em idade bispável é cada vez maior e os novos clérigos não chegam para as encomendas. De resto, sabem melhor do que ninguém que, nas actuais circunstâncias, ser bispo residencial é ser general sem tropas no terreno, o mesmo é dizer, sem cobradores de impostos e de misseiros que lhes façam chegar todo o dinheiro que uma cúria diocesana necessita para se manter na ostentação, indispensável para continuar a merecer a reverência dos autarcas e dos grandes financeiros, todos organizados em sociedades anónimas e em sociedades secretas.

Estou com curiosidade em ver se o escolhido para o Porto és tu, meu caro D. José Cordeiro. O Porto não te garante o cardinalato, eu sei. Mas é um degrau bem mais perto do patriarcado. E tens o exemplo do actual cardeal de Lisboa que começou por desistir de bispo auxiliar do patriarcado para ser bispo do Porto, e daqui poder saltar novamente para Lisboa, então como seu titular, não mais como seu auxiliar. Porque se há institucional onde nenhum dos membros de topo pode alguma vez passar de cavalo para burro, é o institucional eclesiástico católico. Todos são hierarquia, poder sagrado, celibatários, frequentadores dos lugares sagrados. Os mais desgraçados dos nascidos de mulher!

Macieira da Lixa, 13 Outubro 2017.

Autárquicas 2017

E AGORA, DUPLA PP-PC E SEUS CLÉRIGOS CATÓLICOS?

Depois destas eleições autárquicas 2017 que varreram definitivamente da cena do poder político a dupla PauloPortas-PassosCoelho (PP-PC) , como ficam os bispos residenciais e a generalidade dos clérigos-párocos que gostavam tanto deles e do seu Aníbal? Assunção Cristas, indigitada pelo próprio PP para lhe suceder à frente do CDS-PP, acaba de o engolir vivo, qual gibóia política que depressa veio a revelar-se. Aquela sua máscara permanentemente sorridente revela uma ambição de domínio político do tamanho do catolicismo que a própria faz questão de exibir a propósito de tudo e de nada. Não hesitou em dar um pontapé nos filhos e no marido, ainda que continue oficialmente casada, segundo os cânones da igreja católica que ajudam a encobrir o que de ambição de poder anda dentro daquela sua cabeça. Com os meteóricos resultados que acaba de alcançar em Lisboa, quando, agora, se vê ao espelho, vê-se Macron, travestida de mulher-gibóia. Nem o CDS-PP consegue ter mais mão nela. A partir de agora, tão pouco ela quer saber do humilhado PassosCoelho de quem foi ministra, o qual, para não ser esmagado por um dos muitos barões PSD, já decidiu afastar-se da presidência do partido pelo próprio pé.

Desde que a Geringonça – um título depreciativamente criado por PP, hoje afastado dos holofotes do poder político e todo mergulhado nos negócios, não dos submarinos, mas da Mota-Engil e do petróleo – está ao leme do país, em detrimento das próprias populações politicamente organizadas ao modo dos vasos-comunicantes, até os ventos do Poder financeiro voltaram a soprar mais fortes neste chão à beira mar plantado. Com o agrado das populações que insistem em gostar de sucessivos messias salvadores, sem nunca chegarem a perceber que das bandas do Poder financeiro nunca vem nada de bom. Ainda que possa parecer. Sempre que o sopro dele se instala nas mentes das populações e dos povos, faz delas, deles, gato-sapato. E os frutos estão aí de novo bem à vista: ele é futebol dos milhões a rodos, ele é senhoras-de-fátima e quejandas a rodos, ele é festivais de música até às tantas, com drogas e cerveja a rodos; mas Cultura, Recreação saudável, Poemas, Livros, bibliotecas com autores dentro, zero. E até o pouco que nestas áreas ele promove, anestesia as consciências, mais do que as desperta, e jamais chega a levantar das margens os milhões de caídas, caídos produzidos por ele.

Desde que o Poder financeiro está crescentemente ao comando do mundo, em lugar dos povos, tudo corre a favor de mais e mais Obscurantismo, de mais e mais Egoísmo corporativo. Até as Greves, instrumento de último recurso nas lutas sindicais, é hoje o primeiro a que os Sindicatos – organizações corporativas, enquadrados por partidos políticos, também eles corporativos – deitam mão. Mesmo que, como no caso das greves dos médicos e dos enfermeiros, em Portugal, estejam em jogo milhares de vidas humanas, que, assim, acabam reduzidas a mera moeda de troca para obtenção de privilégios de casta, que não de direitos. Os direitos são universais. Por isso, comuns a todos nós, seres humanos e povos. Já os privilégios são reivindicações desta ou daquela corporação em prol dos seus associados, sem quererem saber das maiorias.

Haja, pois, deontologia profissional, quando se recorre à greve. O egoísmo corporativo é assassino, ainda que, depois, vista aqui e ali de Madre Teresa de Calcutá. Em áreas tão sensíveis como a saúde e a justiça, há meios de luta bem mais eficientes do que a greve. Imaginação e dedicação profissionais precisam-se. Posturas corporativas, à Salazar, só reforçam o Poder financeiro. Contarão certamente com o silêncio cúmplice dos bispos e dos clérigos-párocos da igreja católica, a maior e a pior corporação religiosa do país e do mundo ocidental. Só que o grande imperativo ético que nos cabe como seres humanos e povos, é decapitar o Poder financeiro, mediante a Política praticada. Nunca reforçá-lo.

De um restaurante à beira-rio Douro a um Concerto Clandestino no BC

MAS QUE SÁBADO ESTE, 23 SETº 2017!

Para quem, como eu, vive atento aos sinais dos tempos e à escuta do Vento-Sopro-Ruah, que não sabemos de onde vem nem para onde vai, os espaços profanos são os mais saudáveis para a minha mente cordial de presbítero-jornalista. Fujo dos templos e dos lugares sagrados, o mais que posso. Mesmo nos anos que, por inerência das funções paroquiais que então me são confiadas, tenho de os frequentar, já há em mim o cuidado de os converter em espaços profanos, onde quem entra não tem de deixar à porta a voz e a vez, pelo contrário, entra inteiro, com todas as suas capacidades. Todos os espaços ditos sagrados são doentios e fonte de doença. Perturbam e atrofiam a mente consciência de quantas, quantos lá entram, a começar pela dos clérigos-chefes, impostos de cima para baixo às populações, por isso, os mais estranhos dos seres e os mais amargurados. Sem o Vento da liberdade e da criatividade, apenas o sopro do funcionário e mercenário.

Vem todo este intróito a propósito de uma das experiências mais plenamente humanas que me é dado viver no sábado, 23 de Setembro 2017. Convidado por um amigo assumidamente ateu a estar presente e a dar sentido teológico outro, ao almoço-diamante dos sessenta anos de casados dos seus pais, Genuína e Álvaro (1957-2017) e, simultaneamente, almoço do 19º aniversário natalício de Inês, já a frequentar o primeiro ano da Faculdade de Sociologia no Porto, neta do casal-diamante e filha do meu amigo ateu, deixo à hora marcada a casinha arrendada onde vivo aqui em Macieira da Lixa e aí vou eu, ininterruptamente habitado, por isso, nunca só, no velhinho Clio, mergulhar em cheio naquela festa da Vida, em dois dos seus momentos mais belos e pujantes, cujos protagonistas ainda não conheço nem sequer fotograficamente. Inês, nos seus 19 anos, corpo alto e belo, recém-chegada à maioridade legal, uma flor humana única e irrepetível que, só ao contemplá-la, logo nos abençoa e liberta para a liberdade. O Casal Genuína e Álvaro, já na casa dos 80 anos, ela recém-chegada, e ele já à beira de os deixar, vestidos ambos com a beleza que só frutos maduros e genuínos como eles nos podem dar.

À chegada, percebo que sou para a generalidade das pessoas a grande surpresa do dia, que já conhecem das redes sociais, das intervenções nas tvs e do canal Youtube e que, para espanto de bastantes, afinal sou de carne-e-osso, não apenas virtual. Fazem por isso questão de me beijar e abraçar, como companheiro de jornada, cuja palavra e cujo sopro continua por aí à solta a libertar as mentes-consciências de muitas, muitos, dos grilhões das religiões, seus moralismos e seus mitos, e também dos grilhões do Dinheiro, sem dúvida, o mais macabro dos deuses que, infelizmente, quase não conhece ateus, quase só adoradores religiosos e laicos. A minha simples presença no almoço de festa é, só por si, fecundamente teológica e maiêutica. Até que chega o momento de se tornar também palavra e canto. Nesse momento, todo eu sou Vento, com tudo de brisa ao modo de meninas, meninos, e tudo de vendaval, quando tenho de denunciar o Inimigo n.º 1 do Humano, o Poder financeiro, o mais macabro filho primogénito das três religiões do Livro.

Pouco depois das 17 horas, e sem necessidade de me despedir das pessoas, porque, como lhes digo, continuo com elas ao modo do Vento, regresso a Macieira da Lixa onde me espera, pelas 21 horas, o meu 1.º Concerto Clandestino – 9 Cantos + 1 – interpretado só com a minha voz. Um vibrante Silêncio cresce então no interior do BC, à medida que a mente-consciência de cada pessoa presente é inundada pela Luz-Ruah que atravessa cada Canto e as fecunda, liberta, cura. E a prova provada de que neste tipo de mundo do Poder só na Clandestinidade somos, é que as pessoas presentes no Concerto não arredam pé, tão animada é a Conversa partilhada que se lhe segue. Ao ponto de ter de ser eu a perguntar, Já viram as horas que são?! Mas que sábado este, de 23 Setº 2017!

Edição 130 Setembro 2017

D. António Francisco dos Santos, Bispo do Porto

A QUE SE DEVE A SUA MORTE REPENTINA?

11 de Setembro 2017, 9,30 horas da manhã. O bispo do Porto, D. António Francisco dos Santos, morre repentinamente. Chamado o INEM ao paço episcopal, de nada valeu. O seu coração parou sem apelo nem agravo, conta ele 69 anos de idade. Longe ainda dos 75 anos, a altura para formular o pedido de resignação ao papa, o único bispo que não tem ninguém acima dele a quem apresentar o seu pedido de resignação e por isso pode até ser eleito bispo de Roma, já depois de ter completado os 75 anos de idade. Não fosse esta de todo inesperada morte e, até aos seus 75 anos de idade, a diocese do Porto poderia continuar a contar com toda a piedade mariana e fatimista, em que, para vergonha e esterilidade pastoral deles, todos os bispos titulares católicos do país estão atolados. Desconhece-se, por enquanto, quem é o bispo que se segue, porque também neste tipo de igreja, vale o provérbio, Bispo morto, bispo posto. Para já, o colectivo dos cónegos da catedral do Porto escolheu D. António Taipa, um dos bispos auxiliares, para Administrador da diocese. É um curto interregno, mas o bastante, para, neste período, o nome dele entrar nas preces de cada uma das missas que se celebrar no território diocesano, não vá Deus esquecer-se dele e ele ficar desprotegido não se sabe de quê.

A verdade é que todas essas rezas pelo bispo D. António Francisco, nas milhares de missas celebradas, desde que ele, em 2014, foi nomeado bispo do Porto pelo papa, não impediram esta morte repentina. Para cúmulo – ironia das coincidências! – 11 de Setembro é o primeiro dia após o seu regresso da “Peregrinação diocesana a Fátima”, para onde o próprio não teve qualquer pejo em arrastar mais de oito centenas de milhar de pessoas, entre as quais, 250 presbíteros, párocos na sua maioria, mais de 600 acólitos e fiéis leigos das 22 vigararias e das 477 paróquias da diocese. Numa inequívoca prova de que a igreja católica em Portugal, a começar pelos respectivos bispos titulares, faz gala de ser fundamentalmente mariana e fatimista, em total detrimento do Evangelho de Deus que nunca ninguém viu e se nos dá a conhecer em Jesus, o filho de Maria, não em Maria sua mãe, que, por sinal, nunca se faz sua discípula praticante, pelo contrário, chega até, juntamente, com outros familiares, a tentar “ter mão nele”, porque o têm por “louco”(cf Marcos 3, 20-21; 31-35). Uma classificação que então desacredita por completo Jesus e o Deus que nunca ninguém viu e nele se nos revela.

Com isso, ela ajuda a abrir por completo as portas ao judeo-cristianismo, criado pelo grupo dos Doze, logo que se vêem livres de Jesus, morto na cruz, e, a partir do imperador Constantino, também aos cultos pagãos do império romano. Um sistema religioso todo veneno ideológico-teológico atrofiador das mentes humanas que se deixem apanhar por ele. E não só. Também o mais furioso perseguidor de Jesus e da sua Igreja-Movimento/ Vento, a única que é o sal da terra, a luz do mundo, o fermento na humanidade, a sentinela dos povos em cada uma das nações.

É por demais manifesto que a senhora de Fátima alimenta-se de gente crédula e tolhida de medos de toda a espécie, a começar pelo medo do inferno e do purgatório. Como, de resto, logo no início, fica bem claro pela forma como ela trata os dois irmãos do teatrinho das “aparições”. E que posteriormente a Documentação Crítica de Fátima, numa desesperada tentativa de evitar o escândalo popular, não hesita em pôr na boca da “aparição” que “em breve os vai levar para o céu”, só porque Francisco morre logo em 1919 e Jacinta em 1920. O mesmo sucede agora com o bispo fatimista do Porto, D. António Francisco. A senhora de Fátima “leva-o para o céu”, logo na manhã do dia seguinte à sua chegada da grande “peregrinação diocesana a Fátima”, e dois dias depois da festa litúrgica da “Dedicação da Igreja Catedral do Porto”, que tem por padroeira a Senhora da Assunção, a cuja missa solene ele presidiu. É mesmo de loucos!

P.S. Devo esclarecer que, nos anos em que o bispo agora falecido, esteve à frente da diocese, partilhei com ele, via email, quase todas as semanas, um Texto Fraternizar, sem alguma vez ter obtido qualquer reacção dele ou do seu secretário. E, em Agosto último, premonitoriamente – sei-o agora – escrevi-lhe e ao bispo D. António Taipa, meu amigo pessoal, um email que guardei e que agora aqui divulgo. Para que conste. Eis:

“O meu abraço de irmão, queridos Bispos, António Francisco e António Taipa

Vejo, pela agência Ecclesia, que andaram por estas terras da Lixa e Felgueiras.

Juntamente com os outros dois irmãos bispos, João Miranda e Pio.

A homenagem do Município ao bispo João (as eleições são já no dia 1 de Outubro!) e o restauro da igreja românica de Vila Verde a tanto obrigou. Mas logo 4 bispos, é manifestamente demais para tão pequeno e inócuo evento.

Vivo aqui perto dos locais por onde andaram. Esta não é casa paroquial, nem templo paroquial, nem igreja românica. É simplesmente uma casinha arrendada que, antes, foi um anexo da casa do meu senhorio. Infelizmente, Vós não tivestes tempo, nem disposição para me aparecer com o vosso abraço de irmãos. Uma indisponibilidade que - podeis crer - deixou as pedras da calçada a gritar.

Concluo que para Vós os seres humanos, mesmo que presbíteros já definitivamente libertos como eu de todos os ofícios e privilégios canónicos simplesmente não existem. E é pena. Porque, então, tão-pouco Jesus, o filho de Maria, existe para Vós.

Que me dizeis? E achais que fora do HUMANO há saúde-salvação?

Renovo o meu abraço de irmão. E deixo-Vos com a minha paz.

Macieira da Lixa, 14AGOSTO2017

Mário, presbítero-jornalista

Quando ventos ciclónicos, sismos e fogos nas florestas andam aí à solta

QUE ESPIRITUALIDADE NOS MOVE?

Que espiritualidade nos move? A pergunta, mais do que oportuna, quase nunca é verbalizada. Ao Poder não interessa que a pergunta se formule, porque, para ele, só há uma espiritualidade. A que o move a ele. De modo que sejamos levados a pensar que fora dele é o nada. Nem sequer o caos. Simplesmente o nada. É bom termos presente que quem diz espiritualidade, diz espírito. Quem diz espírito, diz vento. Quem diz vento, diz ruah, um substantivo feminino, em hebraico bíblico. Convém também termos presente que sem vento ninguém vive. Até a matéria, toda a matéria, é animada. Desde o big-bang, o vento está presente no tempo. Nada do que existe é sem ele. E sem ele nada do que existe existiria.

Que espiritualidade nos move? As igrejas preferem religião a espiritualidade. Todas se auto-apresentam e fazem questão de serem apresentadas às populações e aos povos como religiões. E aquelas e estes é assim que as vêem. São muitas e quase sempre em guerra, muitas vezes até armada. O que leva, inclusive, um famoso teólogo europeu, de renome mundial, assumidamente cristão católico, Hans Küng, a defender a tese, “Não há paz entre as nações, enquanto não houver paz entre as religiões”. Estranhamente, esta tese não tem muitos seguidores nas múltiplas igrejas cristãs, a começar pela católica. Nem entre judeus e muçulmanos, no conjunto, as chamadas “três religiões do Livro”. Só que, apesar de todo o erudito saber de Küng, ou por causa dele, nem ele próprio consegue ver que as religiões são intrinsecamente más e fonte de guerras, pelo que, quando as promovem não fazem mais do que aquilo que está no seu ADN. A espiritualidade que as move é exactamente a mesma do Poder. Religiões e Poder são farinha do mesmo saco. Apenas se apresentam aos povos em diferentes máscaras.

Que espiritualidade nos move? São os frutos religiosos, académicos, económicos, políticos, culturais, sociais que produzimos, dia após dia, que dizem que tipo de espiritualidade nos move, como pessoas, povos e institucionais criados por nós. Os frutos, não os discursos. Os discursos também, mas muito menos. Ora, os frutos dos milhares de anos de presença do Homo sapiens que somos – mais demens do que sapiens – e de todos os institucionais a que demos progressivamente origem não abonam nada a nosso favor. E os dos três últimos milénios judeo-cristãos-islâmicos muito menos. São, indiscutivelmente, os frutos mais sanguinários e cruéis, graças sobretudo, ao progressivo desenvolvimento tecnológico e militar inventado pelo tipo de espiritualidade que tem movido as suas elites. Só porque, quando, no início, tomamos consciência de nós, formulámos demencialmente a hipótese “deus”, em vez de, como fragilidades que somos, nos religarmos sapientemente uns aos outros e ao cosmos que nos gerou.

Que espiritualidade nos move? Quando há dois mil anos o homo sapiens esperava a chegada do Poder invicto (= messias-cristo), eis que pelo ano 6-5 antes desta nossa era comum, acontece Jesus, o filho de Maria, concebido pela ruah, sopro feminino, todo fecundidade e cuidado. E, quando adulto, em vez da hipótese “deus”, como fazem todos antes dele, Jesus experimenta-se plena e integralmente habitado pela ruah-maiêutica que o leva a religar-se não a deus, mas a cada um dos outros iguais a ele, também habitados como ele, e a todos os demais seres que nos precedem no decurso da Evolução, sem os quais simplesmente não somos. Enquanto não acolhermos Jesus Nazaré e a sua Espiritualidade, mai-la sua Fé e o seu Deus Abba-Mãe, continuamos a auto-destruir-nos e uns aos outros e à Terra, nossa casa comum. Como os ventos ciclónicos, os sismos de grau máximo na escala científica e os incontroláveis fogos florestais estão aí hoje a gritá-lo. Quem tiver olhos para ver, que veja. Quem tiver ouvidos para ouvir, que oiça!

SÓ A CLANDESTINIDADE NOS SALVARÁ E AO MUNDO

Só a Clandestinidade nos salvará e ao mundo. O grande Mercado sabe disso e como hoje as populações deste nosso Ocidente ladrão e assassino, de raízes judeo-cristãs, são cada vez menos iletradas, mas não necessariamente mais cultas, não há semana de verão que ele não disponibilize overdoses de festivais de música com dezenas e dezenas de concertos a acontecer ao mesmo tempo e nos mesmos espaços físicos. Onde o barulho instrumental e a cerveja são as principais comidas e bebidas, noite adiante, num ritmo alucinante que muitas vezes termina tragicamente nas estradas, hoje, mais de morte do que meios de ligação entre as diversas localidades. Já nos meses de inverno, ele aposta tudo nos grandes estádios de futebol dos milhões com os seus craques comprados a peso de oiro e dirigidos-controlados, como outras tantas máfias, por poderosas SADs, sempre em guerra umas com as outras, mas só guerras-faz-de-conta. Consegue, deste modo, desviar de si mesmas e umas das outras sobretudo as gerações mais jovens e mais escolarizadas, às quais rouba a alma-mente cordial e o silêncio de que todas, todos, em qualquer idade, tanto necessitamos para sermos progressivamente fecundos e geradores de vida de qualidade e de felicidade.

Só a Clandestinidade nos salvará e ao mundo. Nos tenebrosos tempos dos fascismos de direita e de esquerda, houve, é verdade, muitas pessoas que já a praticaram. Uma clandestinidade que fundamentalmente visava o derrube dos regimes instalados, para os substituir por outros com rótulos e máscaras mais atraentes. Tiveram o seu mérito, há que reconhecê-lo, mas até esse tipo de Clandestinidade o grande Mercado integrou e utilizou para derrubar retrógrados regimes que lhe foram úteis por um tempo, mas que já estavam a transformar-se num empecilho. E se há coisa que o grande Mercado não suporta são agentes seus que insistem em perpetuar-se na função, sem perceberem a tempo que já estão a ser um peso, não uma mais-valia. É por isso o primeiro a estimular a criação de partidos e a financiá-los, de mil e uma maneiras, com o objectivo de, através deles, derrubar os velhos regimes e implantar outros mais ágeis, mais apresentáveis. Tanto assim é que, depois de tantas revoluções vencedoras, o grande Mercado está aí hoje mais poderoso e mortífero do que nunca. Com os melhores cérebros ao seu serviço.

Só a Clandestinidade nos salvará e ao mundo. Mas uma Clandestinidade outra, própria de quem vive no grande Mercado mas não é dele. Para quem antes a morte que tal sorte. Uma Clandestinidade praticada por minorias opcionalmente pobres e conscientes de que o poder, qualquer poder, não nos salva nem ao mundo. Deixa-nos mais e mais mentalmente doentes, porventura, muito frenéticos, mas doentes. Minorias que não têm como objectivo substituir os velhos sistemas de poder por novos. Apenas o objectivo de ajudarem maieuticamente a mudar as mentes-consciências das pessoas, das populações, dos povos. É uma Clandestinidade, tecida se intimidade, que se alimenta de mesas partilhadas, afectos, cantos-poema, partilhas de vida. Não sabe de poder, nem de técnicas de tomar o poder. Sabe de cultura, de sabedoria, de maiêutica, essa sublime arte de puxar pelo que há de melhor dentro de cada pessoa, nem ela é sabedora. Uma Clandestinidade exclusiva de minorias misteriosamente habitadas pelo Vento-Ruah, por isso, cultas, sábias, mesmo que iletradas. Capazes de ler-interpretar os Sinais dos tempos, ao ponto de serem guias fiáveis entre e com os demais, ocupadas a tempo integral a alertar os povos para a presença do abismo que o grande Mercado está ininterruptamente a escavar para nos engolir, se nos deixamos levar pela sua publicidade.

Só a Clandestinidade nos salvará e ao mundo. A Clandestinidade exclusiva de seres humanos que, como Jesus Nazaré, crescem de dentro para fora em sabedoria e em graça-entrega de si aos demais e cujas mentes vêem a realidade para lá da encenação.

Depois de cem anos de Fátima

AS NOSSAS SENHORAS ANDAM TODAS LOUCAS E OS SEUS CLÉRIGOS TAMBÉM

Bem se pode dizer, com humor e amor, que depois de cem anos de Fátima, as nossas senhoras andam todas loucas e os clérigos responsáveis pelo rendoso negócio dos respectivos santuários, também. Basta ver o que aconteceu neste mês de agosto com a nossa senhora do monte, no Funchal, e com a nossa senhora da aparecida, em Lousada.

Fosse apenas isso e já seria mau de mais neste início de terceiro milénio. Mas não é apenas isso. Porque com as nossas senhoras loucas e os seus clérigos loucos, também as populações que teimam em frequentar todas essas festas sem festa e todos esses eventos prenhes de demência, acabam cada vez mais tolhidas de medo, por isso, incapazes de gerir as suas próprias vidas. O que perfaz um crime de lesa-humanidade que nenhuma universidade se atreve a denunciar como tal e, consequentemente, a trabalhar com inteligência cordial para lhe pôr fim.

Mas não só. A juntar às nossas senhoras loucas e aos seus clérigos loucos, neste ano centenário das “aparições-visões” de Fátima, ainda tivemos a mais que previsível tragédia dos incêndios florestais de verão, com o de Pedrógão Grande no topo da lista da nossa vergonha e demência. Foi preciso chegar ao ano centenário daquele tosco teatrinho de 1917, para que a tragédia dos incêndios florestais neste país da senhora de fátima atingisse dimensões nunca antes vistas. As alterações climáticas e a concentração das populações nas grandes cidades do litoral, com a consequente desertificação do interior, tudo coisas da nossa exclusiva responsabilidade, não de Deus, deixam a Terra sem os cuidados que só populações religadas entre si por afectos são capazes de lhe garantir.

Mas como sermos hoje populações religadas umas com as outras pelos afectos, se os dois mil anos de cristianismo sempre nos quiseram de joelhos e de mãos postas, religados a míticas nossas senhoras e a míticos nossos senhores? É certo que hoje já nos vemos cada vez mais longe destes tenebrosos tempos medievos, mas não podemos dizer que somos mais autónomos e mais sujeitos dos nossos destinos. De modo algum.

Os dois mil anos de cristianismo continuam aí em força. A sua ideologia e teologia, veiculadas pela Bíblia, mantêm-se em força nas escolas, nas universidades e nos grandes media. Mudou a roupagem, não mudou o essencial dos conteúdos. O Religioso veste hoje cada vez mais de Laico. As igrejas cederam o espaço público aos partidos políticos. Os púlpitos cederam o lugar aos grandes media e às redes sociais. A própria teologia prossegue. apenas teve de trocar as deusas, os deuses e respectivos santuários pelo deus Dinheiro e pelos bancos. E até as Bolsas do Mercado são hoje as novas formas de rezar. Os próprios grandes santuários das religiões é já por esta nova forma de rezar que alinham. Os grandes heróis da sociedade não são mais as santas, os santos das igrejas-religiões, mas as grandes marcas que triunfam no Mercado, como a marca CR7. O próprio santuário de fátima é hoje a principal marca do turismo religioso que Portugal tem no Mercado global. E bem se pode dizer que rende que se farta.

Dois mil anos de cristianismo, imposto de fora para dentro às populações trouxeram-nos e ao nosso mundo a este beco sem saída. E se algum bem se pode dizer que os cem anos da senhora de fátima nos trouxeram foi percebermos melhor que só nos resta uma saída com dignidade: – termos a humildade bastante para mudarmos radicalmente de ser e de Deus. Sermos seres humanos e povos interiormente habitados e religados uns com os outros, ao modo dos vasos comunicantes e a crescer continuamente de dentro para fora em sabedoria, cultura, amor recíproco, como se Deus não existisse.

Edição 129 Junho 2017

Mas haverá mulheres que queiram ser sacerdotes?

DA INDIGNIDADE DE SE SER CRISTÃO!

Nas suas crónicas semanais ao domingo no PÚBLICO, o meu amigo Frei Bento Domingues, volta e meia, regressa ao tema do sacerdócio das mulheres. Até parece que pelo menos algumas das muitas mulheres que, ao longo da sua vida de frade dominicano, têm privado com ele, querem realmente ser sacerdotes. Se for este o caso – e tudo leva a crer que sim – haveria de se lhes dizer o que Jesus, o dos Sinópticos, diz aos dois irmãos, Tiago e João, do grupo dos Doze, sedentos e famintos como os outros dez, dos primeiros lugares na pirâmide do poder, “Não sabeis o que pedis”. E porquê? Se há seres humanos que, depois de 2 mil anos de cristianismo, mais razões têm para fugir do sacerdócio e dos sacerdotes, e até do próprio cristianismo, na versão católica romana e nas versões protestantes, são precisamente as mulheres.

Elas, melhor do que ninguém conhecem na própria carne toda a indignidade que é ser-se cristão. E ser-se sacerdote, pior se celibatário por força de uma lei eclesiástica. Porque todas, todos nascemos de mulheres e, para elas, há-de ser uma dor insuportável e intolerável ver filhos delas transformados depois em mercenários ao serviço de todo o tipo de empresas transnacionais laicas e religiosas como são também todas as igrejas cristãs e todas as religiões; em vez de os verem crescer de dentro para fora em humano religados, como os dedos das nossas mãos e dos nossos pés, uns aos outros, uns com os outros e todos com o cosmos.

Quando Jesus, o do Evangelho de João, fala aos Nicodemos de todos os tempos e culturas, também aos deste início do terceiro milénio, da necessidade de nascermos de novo, do Vento, do Sopro-Ruah, não está a convidar-nos a receber o baptismo de água que as igrejas cristãs, inimigas dele, inventaram, a coberto do seu nome, depois de o terem convertido num mito chamado Cristo, o filho de David, e de o imporem a ferro e fogo aos povos aonde chegam com a Cruz e a Bíblia, mais o sofisticadíssimo armamento dos Estados, todos cúmplices delas, nomeadamente, das suas hierarquias, as mesmas que lhes dão cobertura a eles perante os respectivos povos.

Está a falar, sim, da necessidade de nascermos da Liberdade que, como o Vento, ninguém, nomeadamente do Poder, sabe de onde vem nem para onde vai. Ainda que ele facilmente perceba que o Vento-Liberdade é a única força feita fragilidade humana desarmada, que o pode derrubar. Para que, no lugar dele, ganhe, finalmente, corpo uma sociedade outra, de irmãs, irmãos, religados maieuticamente uns aos outros e ao cosmos, ao modo dos vasos comunicantes.

É preciso que se saiba que o sacerdócio é a profissão mais antiga do mundo que traz associada a ela a prostituição sagrada. A própria designação – sacerdócio, sacerdotes – remete para um núcleo restrito de chico-espertos que, em cada tempo e lugar, se têm na conta de sagrados. Desconhecem que a simples existência de pessoas sagradas, lugares, espaços e objectos sagrados, é o que há de mais perverso sobre a terra. Porque a condição dos seres humanos e de todo o universo é o profano, nunca o sagrado. Só no profano, somos, respiramos, existimos. Declarar sagrado alguém e/ou algum lugar, espaço, objecto, é criar ídolos (= ilusões) e fomentar a idolatria, por isso, roubar aos seres humanos a sua condição de protagonistas na história, sujeitos responsáveis por si mesmos, uns pelos outros e pelo cosmos e condená-los à condição de súbditos numa terra que, necessariamente, nos aparece cada vez mais como estranha, quando, originalmente, é o nosso útero e a nossa casa comum.

Até acontecer Jesus, o filho de Maria, no ser-viver dos seres humanos e dos povos, edificamos sociedades sobre o sagrado e o culto do sagrado. Temo-las como intrinsecamente boas. São intrinsecamente más. Basta vermos que todas afirmam o sagrado e matam o profano. Afirmam as deusas, os deuses, lá em cima, fomentam a religação para cima com elas, com eles e, assim, negam os seres humanos, os povos. Valorizam o divino e reduzem os seres humanos a seus adoradores, vermes rastejantes. Sempre que acontece Jesus, o filho de Maria, não do Poder, do deus omnipotente, omnisciente, omnipresente, o Terror e a fonte do Terrorismo, no ser-viver dos seres humanos e dos povos, logo vemos que até Deus que nunca ninguém viu é profano, humano, e se dá a conhecer no humano, não no Poder nem nos seus agentes históricos. A Revolução é total. Antropológica-Teológica. Com sabor a Nova Criação. A novo big-bang. A Novo Começo.

Temos de meter ao fundo dois mil anos de cristianismo e o próprio cristianismo. Neste terceiro milénio, toda a primazia tem de ser do Humano, dos seres humanos, dos povos, maieuticamente religados. Todas as chamadas civilizações edificadas sobre o sagrado, em vez de sobre o profano, sobre o divino, em vez de sobre o humano são o que há de mais perverso. Basta atentarmos aonde nos trouxeram. A um beco sem saída. Pelo que mudar é preciso. Nascer de novo, do Vento-Liberdade é preciso. Religarmo-nos uns aos outros e ao cosmos, é preciso. Já as deusas, os deuses, os santuários, os lugares sagrados não são precisos. Roubam-nos tudo, até a alma. Só a Liberdade e o Profano são via de salvação dos povos e do planeta Terra. Ousemos abri-la e percorrê-la, cada dia um pouco mais.

Nota do Editor: Como habitualmente, JF pára nos meses de Julho e Agosto. Contamos regressar no início de Setembro.

Baptismo de crianças

Insistis em querer ISTO para as filhas, os filhos?!

Baptizar as crianças recém-nascidas foi prática obrigatória nos séculos da Cristandade. Objecto, até, de pagamento de multas, caso os pais deixassem ultrapassar o curto prazo de oito dias que os párocos estabeleciam e controlavam. O registo de baptismo era, de resto, o único documento físico correspondente ao que hoje se chama “certidão de nascimento”. Este facto, aparentemente singelo e inócuo, diz bem, só por si, quanto os clérigos nas aldeias, vilas e cidades do Ocidente eram reis e senhores. De quanto poder dispunham. Um poder de vida e de morte sobre as populações. Controlavam-registavam a data do nascimento, do casamento e do falecimento. O cartório paroquial era um exclusivo dos clérigos católicos romanos. E isto é poder, obviamente, e que poder! Aliás, dizer igreja católica romana é e sempre será dizer poder monárquico absoluto. Cada pároco era/é em cada paróquia o papa em ponto pequeno, como o bispo era/é em cada diocese territorial o papa em ponto médio. Cada um no seu território era/é credor do temor e da reverência dos demais. Hoje, já não é bem assim, embora os clérigos e muitos autarcas do Estado laico continuem a pensar que sim e a agirem como tal. Para vergonha, pelo menos, dos autarcas que ainda o façam. Porque os clérigos que sempre se têm na conta de os mais exemplares, já nem capacidade de sentir vergonha têm. E esse é o seu mal, porque os torna inconvertíveis ao Humano.

Depois de tantos séculos a baptizar as crianças, as populações e respetivas mães-pais, acabaram por interiorizar, geração após geração, que baptizar as filhas, os filhos não só é bom, como é obrigatório. Quando, afinal, o baptismo de crianças – e também de adultos – realizado pelos clérigos católicos e pastores protestantes mais não é do que o abrir as portas das indefesas mentes das filhas, dos filhos ao Mal institucional que é todo o sistema cristão-eclesiástico católico e protestante. Basta ver que cada criança baptizada fica, a partir daí, propriedade da igreja que o administra. O dia do baptismo é o dia em que quem o recebe, renuncia à liberdade e à autonomia. Passa a ser um súbdito, mais, do pároco ou pastor, do bispo da diocese, do papa de Roma. Os pais continuam a ter de cuidar da sustentação delas, deles e do seu desenvolvimento, mas, em qualquer altura, a sua filha, o seu filho pode ser reclamado pelo seu senhor e dono, o pároco, o bispo, o papa, numa palavra, pela transnacional igreja católica.

Por isso, os seminários tridentinos não tiveram, até um passado recente, falta de candidatos. Tinham até excesso. E os conventos, ordens religiosas e congregações-institutos missionários masculinos e femininos, nunca tiveram falta de membros. Ter um filho sacerdote ou missionário, ter uma filha freira, de clausura que fosse, era/é visto pela própria família e pelos vizinhos como uma “bênção” e um invejável modo de vida. Aqueles hábitos das “irmãs”, dos “irmãos”, originalmente, sinal de pobreza e renúncia à vaidade, tornaram-se o cume da vaidade. Olhem só o papa de Roma e o bispo de cada diocese, quando vão de visita oficial e presidem em altares com tudo de corte imperial.

É só por isso que, em 1917, por exemplo, os clérigos de Ourém puderam pôr e dispor daquelas três crianças de 7, 8 e 10 anos, para realizarem o seu teatrinho das “aparições”. Os pais delas não tiveram como impedir semelhante uso e abuso clerical dos seus filhos baptizados. Não fossem baptizados e nada lhes teria acontecido. Tão pouco os pais da Lúcia puderam impedir que um dos seus campos fosse utilizado como palco para as programadas seis sessões do teatrinho. Não fossem baptizados e nada lhes teria acontecido. Os clérigos precisavam de um campo com uma carrasqueira ou azinheira para as seis encenações, e dispuseram daquele como bem entenderam. Só foi preciso marcar o dia e a hora de cada uma das sessões. E, quando os dois irmãos Francisco e Jacinta – agora santos canonizados, sem os respectivos familiares terem sido ouvidos nem achados, muito menos terem parte nos lucros que essas duas canonizações garantem à empresa católica romana – morrem em 1919 e 1920, respectivamente, sem que os clérigos que antes os utilizaram quisessem saber, logo o bispo da restaurada diocese de Leiria decide arrancar a sobrevivente Lúcia à própria mãe e faz dela freira à força até à morte.

Tudo isto perfaz, no seu conjunto, um pecado e um crime sem perdão, mas ninguém se atreve a agir em conformidade, porque estamos formatados pelos clérigos para vermos em tudo isto o sumo bem. Mas a verdade é que a própria mãe de Lúcia vê em tudo o que bispo e do cónego Formigão lhe fazem como a morte da sua filha aos 14 anos de idade. E a verdade é que nem à hora da sua morte a autorizam, como mãe, a poder ver a sua filha pela última vez. Nem sequer autorizam que ela, como sua mãe, possa, ao menos, ouvir a voz da filha pelo telefone! A filha tinha-lhe sido arrancada aos 14 anos e, desde então, estava morta para a família. Não a tivessem baptizado, poucos dias depois dela ter nascido e nada disto lhes teria acontecido. Nem a Lúcia, nem aos pais dela.

Perante factos destes, totalmente irrefutáveis, que mães, pais continuam, neste início do terceiro milénio, a querer isto (= o baptismo) para suas filhinhas, seus filhinhos? E tudo o que “isto” traz junto consigo – a catequese, a comunhão solene, o crisma, o casamento canónico e o funeral religioso? Escrevo “isto”, pronome demonstrativo neutro, e escrevo teologicamente bem. Pelo menos, à luz da Teologia de Jesus. Porque é assim que todos os seres humanos, filhas, filhos do Vento, do Sopro criador e libertador, como Jesus Nazaré, temos de classificar o tipo de baptismo qjue as igrejas criaram e tudo o mais que se lhe segue. É um tipo de baptismo que vem animado de um sopro que mata. Ao contrário do sopro de Jesus e dos seres humanos sem poder e sem aspirações de poder, que nos vivifica e ao mundo.

Por isso, em vez deste tipo de práticas absurdas, ousem práticas outras, plena e integralmente humanas. Saibam que como mães, pais, tendes o imperativo ético de defender os direitos das filhas, dos filhos. Antes de mais, o direito à liberdade de, a seu tempo, escolherem ao serviço de quê e de quem decidem colocar as suas capacidades em todos os dias do seu viver na história. Sereis criminosos se atentais contra este direito, em lugar de o defenderdes. Vossas filhas, vossos filhos agradecer-vos-ão. Entretanto, não deixeis de celebrar o natal ou nascimento de cada filha, cada filho. Convidai familiares, amigos, vizinhos para se alegrarem convosco e cada qual, no dia, hora e local anunciado por vós apareçam todos com o respectivo farnel para, juntos, festejarem e memorizarem este dia. Num alegre e compartilhado almoço-compromisso de que vos acompanharão activa e sabiamente na difícil Arte de os Educar, “puxar” por eles para que cresçam de dentro para fora também em sabedoria e em graça, não apenas em idade e em estatura. Eis. E tudo sem prendas. Sem Mercado. Apenas abraços, beijos e colos compartilhados.

Emmanuel Macron

O JESUITISMO NO PODER!

Está explicado o mistério do sucesso de Emmanuel Macron e sua mulher, 24 anos mais velha. Foi no Colégio La Providence, em Amiens, que Emmanuel Macron, quando jovem, foi formado na excelência, segundo os princípios inacianos ou jesuíticos e onde conheceu a sua futura esposa com quem ainda hoje se mantém casado, ambos com a mesma fome de triunfo e de poder. O espírito ou sopro vencedor que o anima e que acaba de fazer dele o presidente absoluto de França, mais do Estado francês do que das cidadãs, dos cidadãos de França, vem daí, dos jesuítas, filhos de Inácio de Loyola, o fundador da Companhia de Jesus, não de Jesus, o camponês-artesão de Nazaré, o filho de Maria, mas de Jesuscristo ou Jesusmessias de s. pedro-e-de-s. paulo, o filho primogénito de David e da sua casa real, o mesmo que, no início do século IV, com Constantino, conquistou de mão-beijada o império romano e, desde então, nunca mais foi desalojado do trono do poder monárquico absoluto. Porque sempre fez, continua a fazer o que tem de ser feito, sem olhar a meios, para jamais ter rivais, apenas vassalos atentos e reverentes que, ao mais pequeno sinal de rebeldia ou de dissidência, ou aceitam desistir de semelhante postura, ou são abatidos na hora. De modo cruento ou incruento.

De resto, é sempre assim que fazem todas máfias do mundo, as grandes e as pequenas, ao seu serviço, entre as quais, durante os séculos da Cristandade, estão sobretudo as dioceses territoriais e respectivas paróquias e, neste terceiro milénio, também e sobretudo os grandes e pequenos Estados da Europa, das duas Américas, a do Norte e a do Sul, juntamente com todos os outros Estados que constituem a ONU, hoje, com o cristianíssimo português António Guterres, como seu secretário-geral, eleito quase por unanimidade e aclamação. Ou o actual papa de Roma não fosse, pela primeira vez na história do papado, o super-aclamado por tudo quanto é Poder financeiro e militar nuclear, o cardeal jesuíta argentino, Mário Bergóglio, mascarado de Francisco no nome, dominicano nas vestes com que sempre se apresenta diante dos súbditos dele, e que apesar daquele ar de bondade e de misericórdia, não consegue esconder o Grande Inquisidor da Lenda de Dostoievski, também este de branco vestido, porque dominicano, pois então!

É com uma muito bem conseguida reportagem de Le Monde, a que JF teve acesso, via IHU, que se ficou a saber estes e outros pormenores de monta, que ajudam a conhecer melhor quem é este novo Cristo laico invicto do Estado francês, cujas bases mentais são jesuíticas, por isso, altamente tóxicas, no que respeita à ideologia-teologia com que ele hoje se apresenta formatado. Macron, quando adolescente-jovem, frequentou o Colégio La Providence, de prédios imponentes, erguidos em 1950 ao longo do bulevar Saint-Quentin, no Bairro Henriville, o mais tranquilo e o mais destacado de Amiens. É uma história tão romanesca, que a imprensa do mundo inteiro – americana, inglesa, sueca, holandesa, chinesa, japonesa, suíça, a que se junta também o JF – fez questão de recolher as memórias de quem conheceu Emmanuel Macron, este ex-aluno que se tornou o mais jovem presidente da República francesa.

Durante a campanha eleitoral, as câmaras dos repórteres puderam registar apenas as grades azuis fechadas do estabelecimento privado. Depois das eleições e com ele presidente de França, as portas abrem-se de par em par aos curiosos e, sobretudo, aos que procuram o porquê de tanto sucesso no poder político e em tão pouco tempo. Amáveis, alguns dos ex-professores de Macron, falam com entusiasmo sobre o aluno prodígio. O padre Philippe Robert, por exemplo, professor de Física e Química, diz como em êxtase, “Primeiramente, no dia do seu ‘bac blanc’ [prática para o exame de bacharelado] de francês, quatro professores ficámos, por puro prazer, no fundo da sala de aula para ouvi-lo dissertar sobre os salões literários do século XVIII. Ele foi deslumbrante” (Paris Match).

Também o seu professor de História, Arnaud de Bretagne, não menos deslumbrado, sublinha, “Emmanuel era um batalhador, alguém muito maduro para a sua idade, que gostava do contacto com os adultos e que fazia muitas perguntas. Alguém entusiasmante” (Le Parisien). Por sua vez, Marc Defernand, professor de História e Geografia, testemunha sem qualquer pudor,“Eu imaginava-o como um grande actor de teatro clássico. Certo dia, disse-lhe: ‘Se você continuar nesse caminho, será o Gérard Philipe do século XXI’. Cada século teve um personagem extraordinário; Macron, talvez, seja o do século XXI” (TF1).

Está traçado o perfil do grande vencedor, obra também e sobretudo dos jesuítas, aqueles homens de negro vestidos, como corvos, formados/ formatados para obedecerem por toda a vida como cadáveres. A quem ou a quê? A nenhum ser humano, filho de mulher, porque aos seres humanos não obedecemos, simplesmente amamo-nos uns aos outros como a nós próprios e, se quisermos ir ainda mais longe na radicalidade-gratuidade do amor, amamo-lnos uns aos outros como Jesus nos ama a todos. A obediência jesuítica como um cadáver vai inteira para o Poder de um só, neste ano da eleição de Macron, precisamente o papa Francisco, ele próprio jesuíta que deixou de andar de preto vestido, para passar a andar de branco vestido, sem dúvida, a Treva mais ilustrada e que mais cega os olhos das populações e dos povos, como fazem todos os holofotes, quando apontados aos nossos olhos.

O mundo que se cuide. Porque com Macron, jesuíta de formação-formatação, à frente do poderoso e cristianíssimo Estado francês, mais Merkel e Trump, este com todas as suas atoardas, mas também com todo o arsenal nuclear de que dispõe, o maior e o mais sofisticado do mundo, até os Estados muçulmanos,, a Rússia de Putin, o Japão e a Índia acabam, mais cedo do que tarde, cristãos também, por isso, súbditos do papa de Roma. Sem cujo aval, nos dois milénios anteriores, nenhum dos grandes impérios sobreviveu. Ou o papado não fosse como é o pai de todos os outros poderes, seus vassalos. Basta, para tanto, que os chefes ainda não cristãos dos Estados do mundo caiam no engodo de entreabrirem uma frincha nas suas mentes, para deixar entrar um jesuíta, de preferência, laico, Macrom, por exemplo. E, para mal dos povos, é o que está já a acontecer. A coberto da Cimeira do Clima, em Paris, antes de Macron e agora já com Macron. Quem puder fugir das grandes cidades para a Montanha e para junto das fontes de água cristalina, que fuja!

Clérigos: Programados para manter tolhidas e submissas as populações

Ainda não se pensava sequer na possibilidade de um dia haver computadores programados para executar automaticamente tarefas em dias e horas previamente determinados e já o cristianismo, desde que se alojou nas mentes consciências dos seus clérigos o fazia, faz. Como antes dele, também já o fazia o império romano, cujos eficazes mecanismos o cristianismo herdou e aperfeiçoou através dos tempos. Como poder monárquico absoluto e infalível que é, consegue apoderar-se por inteiro das mentes-consciências dos seus principais funcionários, os clérigos-proibidos-por-ele-de-constituir-família, e programá-las, para que eles, lá onde são autocraticamente colocados por outros acima deles, por isso, ainda mais escroques do que eles, realizem sem falhas as tarefas para que foram programados. Sem necessidade sequer de ter de se recorrer ao serviço de vigilantes ou de fiscais.

É mais do que garantido que naquele dia, naquela hora, naquele mês de cada ano, eles estão lá no templo-casa de opressão e de domesticação das populações a presidir ao ritual da missa, igual em toda a parte onde outros clérigos estão também colocados; a baptizar as criancinhas que os pais, nos seus medos, lhes apresentam, e que, depois já não têm como escapar à reiterada tortura que é “a festa da primeira comunhão”, “a festa do pai-nosso”, “a festa da comunhão solene”,“a festa do crisma”, “a festa do casamento”.

Foi massivamente assim, nos dois milénios anteriores. Continua a ser assim neste início do terceiro milénio. Hoje, bastante menos, por manifestamente desnecessários que são clérigos deste tipo, uma vez que, entretanto, os outros dois poderes, gerados e justificados pelo cristianismo, realizam esse mesmo trabalho de forma muito mais sofisticada e requintada, ao ponto de, neste novo tipo de cristianismo terceiro milénio, ser até muito difícil encontrar ateus. Só adoradores do deus Dinheiro.

Jesus Nazaré, a Sabedoria plena e integralmente humana entre nós e connosco, bem nos adverte e alerta, oportuna e inoportunamente: Não temais os que matam o corpo e não podem matar a alma. Temei, sim, Aquilo que pode fazer perecer na geena da sua ideologia-teologia, o corpo e a alma (Mateus 10, 28). Ele próprio vê com os olhos da sua mente cordial e ouve com os ouvidos da sua mente cordial os gritos e os clamores das vítimas, que todos os sistemas de Poder, a começar pelo próprio judaísmo que ele, como judeu camponês-artesão de Nazaré, bem conhece na carne e também no império de Roma que então ocupa militarmente o seu pequeno país, são a Mentira organizada, habilmente disfarçada de verdade. Ou como hoje escabrosamente se diz com cínico orgulho, de “pós-verdade”. Todos compulsivamente mentirosos, pais de mentira, mascarada de verdade e até de santidade-heroicidade-dedicação-abnegação! A abominação das abominações.

Quantos se deixam seduzir por algum destes sistemas de Poder que é tremendamente afrodisíaco, renunciam definitivamente à sua matricial condição de seres humanos e tornam-se míticos seres divinos, ou míticos deuses-cristos, porque vencedores. Aos quais tudo é permitido e todos os mais têm de obedecer, sob pena de anátema. De acordo com a verdade histórica, todos eles são escroques programados para manter tolhidas e submissas as populações, pois aceitam trocar reiteradamente a fragilidade da Verdade que, quando acolhida e praticada, nos faz livres e irmãos, pela tirania da ideologia-teologia do Poder. De modo que tudo o que fazem e dizem é mentira, ainda que sempre politicamente correcto. Os frutos que daí resultam para a sociedade e o planeta Terra são, obviamente, o que há de mais absurdo, de mais cínico, de mais sádico, de mais cruel.

Os clérigos eclesiásticos estão hoje em vias de extinção. O que se saúda. Não assim os novos clérigos laicos, que são todos os agentes históricos do Poder político armado e económico-financeiro. As suas mentes-consciências estão possessas da geena da ideologia-teologia do Poder. “Aquilo”, no sábio e lúcido dizer de Jesus Nazaré. O exemplo mais conseguido, na actualidade, é Trump, o empresário-presidente dos EUA, o outro rosto do poder monárquico absoluto que é o papa de Roma.

Embora hoje já não mate de imediato o corpo, mata de imediato a alma, entenda-se a mente-consciência cordial de cada um dos seus agentes. Por mais que os grandes media os louvem, a verdade é que todos eles não passam de escroques institucionais que domesticam as mentes-consciências das populações, suas súbditas e fazem-nas adoecer e morrer lentamente, e à própria terra que de nossa casa comum, é cada vez mais planetário necrotério, cujos povos, pior do que descartáveis, são tiddos e tratados como lixo tóxico. A tanto nos conduziu a geena da ideologia-teologia do cristianismo, na sua vertente religiosa, nos dois milénios passados, e na sua vertente laica, neste início do terceiro milénio.

P.S.

Esta reflexão nasce no momento em que quis visitar e conversar com um padre-pároco meu amigo e foi-me dito na sua residência paroquial em VN Gaia que ele àquela hora estava a confessar as criancinhas da catequese que no dia seguinte “iam fazer a primeira comunhão”. Fez-se luz em mim. E acontece este Texto-alarme. Por aqui se vê claramente que nem sequer o Concílio Vaticano II conseguiu entrar na mente-consciência destes clérigos-impedidos- por-lei-eclesiástica-de -constituir-família. A verdade é que estamos no início do terceiro milénio, o das Ciências Humanas, senhoras, senhores. Criancinhas de seis, sete anos têm pecados? Não são os clérigos, os pecadores, ao escandalizarem desta maneira as crianças? Melhor fora – adverte Jesus, a quem vós crucificais todos os dias com os ritos que vendeis às populações tolhidas e submissas – que vos atassem a mó de um moinho ao pescoço e vos lançassem ao mar. O pior é que tendes-vos por santos e exemplo para os demais, e não vedes que a geena da ideologia-teologia do cristianismo com que viveis possessos continua a fazer de vós uns escroques. Quem puder entender que entenda.

*** *** ***

Edição 128, Maio 2017

Deixemos Fátima e os clérigos que a criaram a falar sozinhos e ocupemo-nos com a grande Pergunta

A Bíblia ou Jesus?

Quando em Maio 2015, avanço com a publicação do meu mais conseguido Livro sobre o teatrinho das aparições de Fátima (Parte 1, em 10 capítulos; Parte 2, em 4 capítulos) e deixo bem claro que há duas Fátima distintas – Fátima1 e Fátima 2 – nenhuma delas verdadeira, muito menos a 2, criada a partir de 1935 por um núcleo restrito de clérigos sem escrúpulos, escondidos sob o pseudónimo de “Memórias de Irmã Lúcia”, tenho já em mente a publicação, em 2017, de um outro Livro que nos coloque a todas, todos – crentes, agnósticos, ateus – perante a mais perturbadora das Perguntas, a saber, A BÍBLIA OU JESUS?

Surpreendentemente, ou talvez não, a Pergunta acaba até como título de capa do Livro (137 pgs, em 14 capítulos), editado precisamente em Abril 2017, Seda Publicações. Pretendo com esta minha postura desviar o foco das atenções dos grandes media e dos seus profissionais, do não-evento chamado, “Aparições” de Fátima, e concentrá-lo inteiro na grande Pergunta que este início do terceiro milénio nos impõe, depois de dois milénios de cristianismo católico e protestante e de Civilização Ocidental por ele gerada, alimentada e, até, teologicamente justificada, apesar de estruturalmente sádica e cruel, como revelam bem os seus frutos.

A verdade é que, na sua esmagadora maioria, até os profissionais dos grandes media vieram a revelar-se de tal modo apanhados pelos cem anos do não-evento “aparições” de Fátima, que o mês de maio vai já no fim e eles e seus grandes media continuam sem se aperceber deste meu novo Livro, muito menos, de quão fecundamente perturbador é todo o seu conteúdo.

Sou o primeiro a compreender esta mais do que previsível postura dos profissionais dos grandes media e da generalidade dos intelectuais e académicos. Todos eles integram a civilização ocidental gerada e alimentada pelos dois mil anos de cristianismo. Podem, hoje, muitos deles, dizer-se ateus ou agnósticos. O que não podem é dizer que não são cristãos. Toda a sua formação de base e ambiental, como todo o seu saber, andam afectados pelo vírus do cristianismo. As suas mentes-consciências continuam possessas pela mais perversa das ideologias-teologias, que é a ideologia-teologia do cristianismo ou messianismo bíblico-davídico cristão e islâmico.

O simples facto de se terem afastado definitivamente da igreja católica romana ou de alguma das inúmeras igrejas protestantes, não os fez mudar de ser. Muito menos, mudar de concepção de Deus. Pelo contrário, continuam, uns mais, outros menos, a pensar cristão, a projectar cristão, a escrever-falar cristão, a agir cristão. Com a agravante do ateísmo cristão de que se orgulham, poder vir a tornar-se, surpreendentemente, ainda mais inumano que o religioso, inclusive, o da chamada religiosidade popular.

É verdade que não os leva a rastejar a céu aberto, perante a imagem da senhora de fátima, ou outras, mas pode levá-los – e está a levar muitos deles – a rastejar perante os administradores dos grandes media e das grandes empresas multinacionais que os contratam e lhes pagam. Porque o ateísmo que professam mais não é do que a outra face do cristianismo.

Durante séculos e séculos, o cristianismo foi indiscutivelmente religioso. Porém, a partir do Renascimento e, sobretudo, da Revolução Francesa, tem adquirido progressivamente a face secular e laica, inclusive, ateia e agnóstica. Exactamente, a que está hoje cada vez mais na moda. Porque é também a que abre mais portas, nomeadamente, as das grandes empresas multinacionais e respectivas administrações. O que, só por si, mostra bem que é nesta versão laica, ateia ou agnóstica que o cristianismo atinge, neste início do terceiro milénio, o grau máximo da Crueldade, do Inumano, do Amoral, do Intolerável.

Basta atentar como é o ser-viver de quantos dão corpo às administrações das grandes empresas multinacionais e dos grandes Negócios. Nunca o cristianismo atingiu tão alto grau de Crueldade, como neste início do terceiro milénio que se diz e é pós-cristão, mas apenas na sua face religiosa, não na sua face ateia e agnóstica. Daí a grande, oportuna e perturbadora Pergunta que faz o título do meu Livro, A BÍBLIA OU JESUS?

Nunca, em dois mil anos de cristianismo religioso erudito e popular, esta Pergunta foi alguma vez formulada. Nem podia. Não estavam criadas as condições históricas, culturais, científicas, ambientais que a tornassem audível, inclusive, a quantas, quantos continuamos a ter de viver neste tipo de mundo formatado pelo cristianismo – não há outro – mas que já não somos dele. É, precisamente, entre estes seres humanos que vivemos neste tipo de mundo, mas que já não somos dele, que a Pergunta consegue, finalmente, fazer-se ouvir e ser verbalmente formulada.

Quem continua de pedra e cal neste tipo de mundo cristão religioso ou ateu, jamais pode escutar e ver o Essencial, sempre invisível e inaudível aos olhos e aos ouvidos das suas mentes-consciências. E, mesmo depois de escutada e formulada a Pergunta, serão estes os que mais resistência lhe levantam, na desesperada tentativa de impedir que este tipo de mundo que lhes garante e aos seus familiares mais próximos, privilégios sem conta e um estatuto social invejável, apareça aos olhos de todos os povos como um tipo de mundo eticamente indefensável e logo o façam cair, porque edificado sobre a areia.

O que teria acontecido se, no dia 12 de Maio, por exemplo, o dia da chegada do papa Francisco ao aeroporto de Monte Real, as manchetes dos principais matutinos portugueses e dos notíciários das tvs e das rádios reproduzissem, como um pedido-desafio meu, “Deixemos Fátima e os clérigos que a criaram a falar sozinhos e encaremos de frente a grande Pergunta que este início de terceiro milénio nos coloca a todas, todos – crentes, ateus e agnósticos, A BÍBLIA OU JESUS?”

Quem diz Bíblia, diz, obviamente, todos os livros tidos por sagrados. Quem diz Jesus, diz o filho de Maria, o ser humano pleno e integral, assassinado na cruz do império de Roma, em Abril do ano 30, por se ter atrevido a dizer o que os olhos e os ouvidos da sua mente-consciência cordial vêem e escutam, concretamente, que todos os sistemas de Poder vão nus, por mais sagrados que se digam e se apresentem. Uma vez que o Deus da Bíblia que os suporta-justifica e ao seu Poder não passa de mera projecção-criação deles, um ídolo, portanto, o inimigo n.º 1 dos seres humanos e dos povos. Sim, o que teria acontecido?

Nenhum papa declare e defina o que Deus não declara nem define!

Que crianças hoje querem ser Francisco e Jacinta?!

Santo eu não quero ser / Só Humano / Um Deus que gosta de santos / é um tirano

Os dois desgraçados irmãos Francisco e Jacinta, aterrorizados e torturados em 1917 pelas pregações da obscena “Santa Missão”, decalcadas no terrorismo do livro Missão Abreviada, e apanhados pelos clérigos de Ourém, com destaque para o Cónego Formigão, também ele hoje já a caminho dos altares, e para o Pe. Lacerda, sobre cuja suposta cópia assenta toda a Documentação Crítica de Fátima (!!!), acabam de entrar, cem anos depois, no Catálogo dos Santos, pela mão do papa Francisco, ele próprio Sua Santidade. Quando aceitou ser papa, o argentino Jorge Mário desistiu de vez de ser filho de mulher, para ser definitivamente filho do Poder monárquico absoluto e infalível. Como jesuíta, já tinha voto de obediência ao Poder monárquico absoluto e infalível do papa, que fazia dele um dos abnegados difusores do seu sistema de doutrina, o cristianismo imperial, que almeja alojar-se como um demónio nas mentes-consciências dos seres humanos e dos povos de todas as nações. Como papa, veste de dominicano, o Grande Inquisidor, e faz-se chamar Francisco, o filho do dono de Assis no século XIII, que, depois, quis ser pobre, mas esbarrou com o fausto da corte papal de Inocêncio III e, sem querer, acabou fundador e patrono de mais uma das muitas multinacionais cristãs católicas romanas, a (des)conhecida Ordem dos Franciscanos.

Cem anos depois do teatrinho das aparições, levado à cena num dos campos dos pais de Lúcia, onde se destacava uma carrasqueira, o papa Francisco deixou a sua Roma imperial e veio de avião e de helicóptero à sede da sua principal multinacional do turismo religioso em Fátima, onde a toda a hora se lava dinheiro sujo e se fomentam negócios, os mais execráveis. Apresentou-se protegido por terra, mar e ar, não pelos anjos e arcanjos do Deus dos Exércitos da Bíblia judeo-cristã, mas pelas forças de segurança do Estado português que teve de gastar muitos milhões e de perturbar o quotidiano da esmagadora maioria dos seus cidadãos, elas e eles, que, felizmente, não embarcam neste embuste alimentado por clérigos celibatários que sentem uma doentia atração pelas criancinhas e pelas imagens de nossas senhoras que de algum modo substituem a presença feminina nos seus viveres cheios de frustração e solidão, de ritos, rituais e rotinas, nenhuma criatividade, nenhuma ternura, nenhuma fecundidade, nenhuma autenticidade. Só porque é o Poder monárquico absoluto e infalível, o papa teve a recebê-lo e a acompanhá-lo a tempo integral o seu vassalo presidente da República Portuguesa e até o primeiro-ministro, mai-los bispos residenciais das dioceses do país, estes, manifestamente contrariados. A saudável laicidade cedeu, por estes dias, o seu lugar a um tipo de crença rasca, sedenta de milagres do céu, uma vez que dos poderosos da terra só recebe, quando calha, migalhas da caridadezinha com que eles enriquecem ainda mais.

Inesperadamente, crianças e adolescentes do país e de outras partes do mundo, nascidos já neste início do terceiro milénio, viram-se-se transportados para o tenebroso ano de 1917, de má memória, e para as mecânicas rezas de terços, cantos rascas, clérigos cobertos com vestidos brancos até aos pés, num cenário que lhes é completamente estranho, por estarem hoje a crescer em ambientes e contextos totalmente outros, saudavelmente laicos e profanos, onde tudo é simultaneamente virtual e real, movimento quase à velocidade da luz. Do papa vestido de mulher, rosto teatralmente bonacheirão e o foco de todos os holofotes, como se só ele existisse, escutaram um falar beato, cujos conteúdos não entendem. Levados pela mão dos seus pais, sobretudo, das suas mães e pelas catequeses das paróquias que ainda são criminosamente obrigados a frequentar até à idade de atirarem com tudo borda fora, viram-se completamente perdidos, sem referências, numa camisa de sete varas, sem poderem ser eles próprios, correr e saltar, apenas aguentar e esperar que toda aquela tortura religiosa e beata acabasse. Foram, certamente, as horas mais infelizes das suas vidas, cercados por multidões anónimas, onde de repente se viram sem nome, sem rosto, sem voz, sem liberdade, sem árvores, sem terra, sem rios, sem mar, só velas a arder, imagens de nossas senhoras, cruzes, terços, centenas de clérigos que renunciaram a ser homens entre os demais e com eles. Uma tortura que dificilmente esquecerão e que irá contribuir e muito para, amanhã, serem assumidamente ateus, de costas voltadas para os templos, olhos postos em cada hoje carregado de movimento e de cor, onde têm de tornar-se precocemente adultos, se quiserem ser e viver por si próprios, como se Deus não existisse.

Entre estas crianças e adolescentes, uma se destacou. Veio do Brasil com os pais, viagens e estadia tudo pago pelo Santuário S.A. e com discursos estudados para ajudarem a testar que houve um milagre conseguido através dos dois desgraçados irmãos Francisco e Jacinta a quem, em seu tempo histórico, ninguém valeu, nem os clérigos, nem a senhora da carrasqueira, quando a pneumónica chegou e os encontrou debilitados e desidratados pela reiterada recusa da comida e da bebida de água, na falsa convicção de que, desse modo, o Deus sádico e cruel dos clérigos e do seu cristianismo, perdoaria aos pecadores e não os condenaria ao inferno. E toda esta encenação de horrores veio a culminar com a chamada canonização dos dois desgraçados irmãos, presidida pelo papa Francisco, num recuo de séculos até aos tenebrosos tempos da Idade Média, quando, hoje, somos Século XXI, definitivamente, o novo tempo da Ciência, não mais do Obscurantismo, do Milagrismo e do Moralismo .Sim”! Que crianças hoje querem ser Francisco e Jacinta?

Esqueceu-se Francisco de Roma, na cegueira do seu poder monárquico absoluto e infalível, que nenhum papa pode alguma vez declarar e definir como santos, o que Deus, o de Jesus, não declara nem define. Simplesmente, porque não gosta de santos, só de seres humanos a crescer de dentro para fora em sabedoria, ciência e graça-entrega recíproca uns aos outros, sempre com Deus, sempre sem Deus. Tudo o que faz e define o papa é o que faz e define o Poder compulsivamente mentiroso, ladrão e assassino, por isso, o inimigo n.º 1 dos seres humanos e dos povos. Deste modo, todo o mal que os clérigos há cem anos fizeram a estes dois irmãos e à prima deles que sobreviveu à pneumónica e acabou enclausurada a vida toda, acaba de alcançar agora, com esta rasca encenação maiúscula da papa Francisco, o nível máximo da degradação humana. O que perfaz, objectivamente, à luz da Fé e da Teologia de Jesus e da Ciência, mais um pecado sem perdão. Daí, e como bem sublinha a estrofe de um Canto-Poema meu, “Santo eu não quero ser / Só Humano / Um Deus que gosta de santos / É um tirano”.Quem for capaz de entender, que entenda!

Ao serviço de quê e de quem vem ele a Fátima?

O PECADO E O CRIME DO PAPA FRANCISCO

O grande Capital que domina e dirige o mundo século XXI tem no papa Francisco, todo de branco vestido, a máscara da bondade, da misericórdia, da proximidade de que tanto necessita para manter adormecidas e anestesiadas as suas inúmeras vítimas em todo o mundo, de modo que nunca elas cheguem a dar conta do imenso sangue derramado por ele através da fome, do latrocínio, da exploração, da mentira estrutural, das guerras, do terror, do medo, da opressão, do desemprego, da emigração forçada, das doenças cientificamente provocadas e espalhadas, da multiplicidade de religiões, elas próprias, o que há de, ideológica e teologicamente, mais perverso e gerador de divisões e de ódios sem conta nem medida.

Uma calamidade à escala global que teimamos em não dar por ela, porque nascemos, crescemos e morremos com mentes cegas que fanaticamente recusam ver a luz e até perseguem e ostracizam quem as queira maieuticamente ajudar a sair da cegueira para a luz. Só porque a luz é profundamente exigente e obriga-nos a todos, nascidos de mulher, a nascer de novo, do vento-sopro Liberdade-Autonomia-Reciprocidade, e são muito poucos os que nos dispomos a semelhante revolução antropológica-teológica. A esmagadora maioria dos crentes, dos ateus-agnósticos, dos ricos, dos pobres prefere que apenas mude alguma coisa, para que tudo continue na mesma. Um tipo de preguiça política que nos devora e mata a dignidade e nos impede de chegarmos a ser plena e integralmente humanos.

Nestes dias 12 e 13 de Maio, os dos cem anos das “aparições”, o papa Francisco está em Fátima, com uma comitiva de 35 pessoas. A grande pergunta que emerge, imperiosa como incontrolável tsunami, é,. Ao serviço de quê e de quem vem ele a Fátima? A senhora de Fátima é um mito, como são mitos todas as deusas, todos os deuses que os nossos medonhos e incontroláveis medos criam e projectam fora de nós e que logo materializamos em toscas imagens para todos os maus gostos, que corremos depois a comprar e a colocar nas nossas casas, nas encruzilhadas dos caminhos e, de modo muito particular e até solene, em santuários que fazemos construir e que passamos a frequentar como se não fossem todos obra das nossas mãos e fruto dos nossos medos.

Nem aparições, nem visões. Nos nossos medos e nas nossas aflições podemos, com mais ou menos frequência, chegar a ver coisas e a ouvir ruídos e vozes. Não são para tomar a sério, a não ser no sentido de diligenciarmos de imediato o tratamento especializado que hoje, terceiro milénio, felizmente já há à disposição de quem chegue a esse grau de degeneração da sua mente. Um tratamento que nos muitos milénios que nos precederam ainda não havia praticamente para ninguém.

Depois de tantos milénios de escuridão das mentes, para cúmulo, criminosamente fomentada e alimentada pelas religiões-igrejas cristãs e todos os sistemas de poder, é de todo compreensível que, ainda hoje, início do terceiro milénio, as populações mais fragilizadas e desamparadas insistam em recorrer aos exorcismos de clérigos chico-espertos, de cartomantes, de bruxas, bruxos, de curandeiros, aos cultos religiosos cada semana nas paróquias e a todo o tipo de promessas feitas em horas de maior aflição que depois, para cúmulo da degradação e da indignidade, elas ainda fazem questão, hoje, até, com vaidade, de cumprir. Quando a libertação e a cura das suas mentes só na antropologia-teologia-espiritualidade de Jesus e na Ciência neurológica, psicológica, psiquiátrica e seus competentes profissionais podem ser dignamente conseguidas.

O culto de Fátima e da sua tosca imagem concebida e fabricada, dois ou três anos depois de 1917, por um artesão da Trofa, embora complete agora cem anos, a verdade é que já vem dos mais primitivos tempos, os do matriarcado. Ao dar-lhe cobertura e pública aprovação, quer com a sua presença física, como “peregrino” cinco estrelas, quer com a canonização dos dois irmãos, Francisco e Jacinta, sem dúvida as mais desgraçadas das três crianças apanhadas-catequizadas-aterrorizadas pelos clérigos de Ourém, o papa Francisco vem legitimar um culto religioso a um deus sádico e cruel que impede os seres humanos de crescerem em idade, estatura, sabedoria, graça e de se rebelarem politicamente contra todos os perversos sistemas de doutrina política, filosófica e teológica que sempre afirmam e valorizam o divino e negam-matam-sacrificam os seres humanos e os povos.

É este o grande pecado e o imperdoável crime do papa Francisco. O primeiro papa jesuíta, cuja Ordem foi fundada-criada por Inácio de Loyola, precisamente com a missão de aprofundar e difundir por todos os meios e em todas as nações da terra, o demoníaco sistema de doutrina do judeo-cristianismo, a sua bíblia, o seu deus sádico e cruel, na sua dupla vertente de macho e de fêmea, de nosso senhor e de nossa senhora, bem como a sua fé religiosa, a sua teologia, o seu culto. De todo incapaz de admitir-reconhecer que o falso e mentiroso evangelho cristão que insiste em anunciar urbi et orbi mata os seres humanos e os povos e os mantém no medo e na depressão, quando é de todo imperioso e urgente resgatá-los para a liberdade, para a autonomia, para o protagonismo político. Como faz Jesus, o filho de Maria, que não hesita em chamar “Satanás” a Pedro, o chefe do grupo dos doze que o vão trair, “Covil de ladrões” ao templo de Jerusalém, “Hipócritas”, aos sumos-sacerdotes e teólogos do templo.

Fátima 'corrigida' por D. Carlos A. e Pe. A. Borges

É PIOR A EMENDA QUE O SONETO

As várias entrevistas dadas pelo Bispo D. Carlos Azevedo, o da Cultura no Estado do Vaticano, e pelo Pe. Anselmo Borges, Prof de Filosofia na Universidade de Coimbra, ambos meus amigos, tiveram o condão de deixar os fatimistas portugueses, colunistas académicos incluídos, à beira de um ataque de nervos. Para tanto, muito contribuiu a sagacidade dos profissionais que os entrevistaram, pois souberam puxar para título frases que, só por si, abalam as mentes de todo e qualquer fatimista, ao mesmo tempo que surpreendem positivamente quem já não vai nessas crendices, com tudo de indignidade humana.

Afirmar, “A mãe de Jesus não veio do céu por aí abaixo” (D. Carlos Azevedo) e, “É evidente que Nossa Senhora não apareceu em Fátima” (Pe. Anselmo Borges) constituem duas afirmações bombásticas de grande efeito, nomeadamente, para quem se limita a ter os títulos de capa dos jornais e das revistas. A questão está nos pormenores com que se tecem as respostas que um e outro dão aos jornalistas no corpo de cada uma das entrevistas. E, neste particular, bem se pode dizer de ambos, É pior a emenda que o soneto, Títulos-tiros de pólvora seca, Muita parra, nenhuma uva.

A verdade é que um e outro, com estas entrevistas e, no caso do bispo D. Carlos Azevedo, também com o seu recente livro sobre Fátima, acabam por dar ainda mais legitimidade ao absurdo antropológico-teológico que constituem as duas Fátimas, a de 1917-1930 (Fátima 1) e a de 1935 até 2017 (Fátima 2), que consegue, até, trazer ao Santuário S.A. dias 12 e 13 de Maio o próprio papa Francisco. E logo – o cúmulo do absurdo – para canonizar os dois irmãos Francisco e Jacinta, depressa abandonados pelos clérigos de Ourém, após o teatrinho das “aparições” e, obviamente, pela própria Senhora de Fátima, a da carrasqueira, que os deixa morrer vítimas da pneumónica. A que juntam, não muito depois, um outro crime, que foi roubar a sobrevivente Lúcia à sua própruia mãe já viúva e mantiveram-na presa até à morte, sob o disfarce de freira de clausura.

Não se trata, como pretende concretamente o bispo D. Carlos, de utilizarmos uma linguagem correcta, quando falamos destes assuntos. A verdade sem quaisquer sofismas, neste como noutros casos, é esta: Ou dizemos os conteúdos da Fé e da Teologia na linguagem da Ciência, ou tais conteúdos são sempre uma agressão à inteligência humana. Trocar “aparições” por “visões místicas” e afirmar que foram “visões”, não “aparições” é o mesmo que atirar poeira aos olhos de toda a gente.. Substancialmente, nada muda. E se dúvidas ainda houver, basta atentarmos no absurdo refinadamente organizado que, por estes dias do centenário, está a ser indiscriminadamente imposto às populações residentes no nosso país. Com a criminosa complacência e até com o aval das universidades, das Escolas públicas, das Igrejas, do Estado e dos seus órgãos máximos de soberania, a começar pelo PR Marcelo e pelo primeiro-ministro, António Costa, e a acabar nos deputados de direita e de esquerda da AR e nos Tribunais.

Nunca, como neste centenário do pecado e do crime “aparições” de Fátima, o nosso país bateu tão no fundo, em falta de compostura cívica, de dignidade, de inteligência, de respeito uns pelos outros. Somos agredidos ao segundo pelas notícias fatimistas, pelas montras das grandes livrarias, pelas capas dos diários postados nos respectivos quiosques, pelas ofertas de medalhas, terços e outras bugigangas em troca da aquisição do matutino, pelas supostas obras de arte de escultoras, escultores, pelos filmes e mil e uma outras iniciativas “artísticas” que nos roubam a alma, o sossego, os afectos, o silêncio, a sanidade mental. O império católico romano está a asfixiar-nos e a envenenar-nos mortalmente e à República. E tudo porque o grande Mercado tem larguíssima via verde para avançar, como bomba nuclear contra a inteligência, a Ciência, a Fé e a Teologia de Jesus. Numa palavra, contra os seres humanos e o povo de povos que somos, na multiplicidade de fés e de culturas. É bem a ditadura ideológica e religiosa assassina do catolicismo católico romano.

“Visões místicas”, cada qual tem as que quer, ou as que nos impõem, em cada tempo e lugar, se não formos mentes saudavelmente esclarecidas e resistentes. No início do século XX, através dos clérigos católicos e suas pregações tecidas de terror(ismo), como o do livro-guia, “Missão Abreviada”, onde é apresentado o “inferno” que as três crianças “videntes” são postas a dizer que a senhora que vinha do céu lhes mostrou, numa das seis “aparições”. E neste início do terceiro milénio, o das sofisticadíssimas tecnologias, através dos grandes media e das redes sociais, manipulados por técnicos informáticos confrangedoramente ingénuos ou, pior ainda, sem quaisquer escrúpulos.

Retirem, de uma vez por todas, de Fátima os clérigos católicos romanos, bispos e papas incluídos, que desde há cem anos exploram o “milagre” que eles próprios inventaram e verão que daquelas “aparições” ou “visões místicas” não ficará literalmente nada. Por isso, e no prosseguimento do que diz Jesus Nazaré em seu tempo histórico, também eu hoje digo: Ai de vós papas, bispos e demais clérigos católicos romanos hipócritas, que atais fardos pesados e insuportáveis às multidões mais desamparadas e deprimidas, quando vós nem com um dedo os deslocais; ai de vós que alargais as filactérias e alongais as orlas dos vossos mantos de luxo e gostais de ocupar o primeiro lugar nos banquetes, os primeiros assentos nos santuários, ser saudados-aclamados pelas multidões nas praças públicas e chamados 'mestres' pelos homens, quando não passais de sepulcros caiados, muito vistosos por fora, podridão e imundície por dentro. Sim, ai de vós (cf. Mateus 23, 4-7). Como sucede ao sal que perde a força de salgar e de anti-corrupção da sociedade, também vós sereis lançados fora, pois, como ele, nem para a esterqueira servis (Mateus 5, 13).

25 de Abril, 43 anos depois

D. Marcelo, o palavroso, e alguns tiranetes mais!

D. Marcelo, o palavroso, está a tornar-se insuportável. E o país, anestesiado com Fátima, com o Futebol dos milhões e seus demenciais comentadores nos canais ditos de notícias ao minuto, mais os repetitivos discursos do chefe do governo e respectivos ministros, dos chefes dos partidos políticos de direita e de esquerda, dos chefes dos grupos parlamentares, dos chefes das centrais sindicais e da Frente dos Sindicatos da Função Pública, todos bem falantes e vestidos a rigor, já nem dá por nada. E porque ele é um presidente que não dorme, ou dorme apenas três horas por noite, já nem sequer deixa dormir as cidadãs, os cidadãos do País. A verdade é que continuamos a ser, 43 anos depois de Abril, um povo desgraçadamente sem voz e sem vez e, para cúmulo, ainda baleado-massacrado por overdoses de discursos dos agentes de turno dos poderes e de notícias, sempre as mesmas.

A tão apregoada liberdade dada de bandeja pelo 25 de Abril 1974 é, afinal e exclusivamente, a liberdade do grande Capital que, desde então, está ao comando de tudo o que é notícia no país e na UE. É ele que tudo permite, promove e financia, como é também ele o único que sai a ganhar com este tipo de mundo e de eventos-comemorações. Os seus súbditos portugueses, em vez de fazerem acontecer o Abril sonhado e cantado mas nunca realizado, insistem, cada ano, em sair às ruas, a mostrar quão gratos estão pelo feriado que ele lhes dá, e ao qual se junta, este ano, o dos cem anos das “aparições” de Fátima, a tolerância de ponto no próximo dia 12 de Maio, para que, desse modo, os funcionários públicos possam ver o papa Francisco, sem dúvida, o maior prestidigitador católico romano criado por ele.

Neste nosso Portugal que constitucionalmente se diz uma República, o grande Capital tem no rei D. Marcelo, o palavroso, o seu porta-voz e o seu rosto. Como ele, é omnipresente, omnipotente, omnisciente. Nada se faz sem ele e tudo o que se faz é graças a ele que se faz. Nunca o grande Capital esteve tão bem servido neste país dominado, desde a fundação, por clérigos e reis católicos, como está agora com o católico presidente da República. Ele e o Capital são um só. E todos os mais, seus reféns. É o que o 25 de Abril 2017 gritantemente revela, ainda que teimemos a não querer ver. À realidade, preferimos a erncenação, o faz-de-conta. Insensatamente. E o que mais tememos é levantar-nos politicamente desarmados do chão e sairmos do túmulo em que nos obrigam a permanecer, como mortos-vvos, do nascer ao morrer.

Não é por acaso que este ano o 25 de Abril foi todo do rei D. Marcelo, o palavroso. Outros, seus inferiores na pirâmide institucional do Poder ao serviço do grande Capital, também usaram da palavra, mas o que fica na mente das populações súbditas, atentas e reverentes, são as palavras dele na AR, as selfies com ele nas ruas e nos jardins do palácio de Belém – não me enganei, é mesmo palácio de Belém, não uma casa comum com gente dentro – e na demorada e palavrosa cerimónia da entrega das condecorações e dos elogios fúnebres a quem, a título póstumo, ou presencialmente, ainda se presta a este macabro e sinistro tipo de iniciativas. Escutaram o sublinhado dele, na AR, a uma “mais justa repartição da riqueza”? Pensam que ele quer ver o país, a UE e o mundo a darmos corpo ao princípio fundador da Humanidade, De cada um segundo as suas capacidades, a cada um segundo as suas necessidades? Nada disso. É na Caridadezinha, estúpidos, é na Caridadezinha que ele está a pensar, que essa é a regra primeira do grande Capital!

Acontece que no 25 de Abril de 1974, os bispos portugueses estavam reunidos em Fátima, seu berço e mausoléu de eleição. Não! Não estavam lá de terço na mão – coisa para a arraia miúda, não para eles, suas excelências reverendíssimas – como fazem crer aos seus ainda muitos súbditos, os remediados, a maioria, e os eruditos, uma minoria. Estavam a congeminar como haviam de continuar a lidar com a chamada “primavera marcelista”, com os muitos presos políticos em Caxias e em Peniche, com a Guerra Colonial em África e – coisa ínfima, mas não despicienda – com a minha absolvição, pela segunda vez consecutiva, no Tribunal Plenário do Porto, quando o próprio Bispo do Porto, D. António Ferreira Gomes, também presente, agraciado a título póstumo, este ano por D. Marcelo, o palavroso, com a Grã Cruz da Ordem de Santiago e Espada, já me havia retirado o título e a função de pároco de Macieira da Lixa, só porque eu, como o colectivo de Juízes do Tribunal Plenário do Porto é o primeiro a dar como provado, pela segunda vez consecutiva, que eu sou um pároco exemplar e que havia sido preso político, sem direito a qualquer caução, apenas por pregar o Evangelho de Jesus na paróquia. E o bispo não só já me havia retirado o titulo e a função, como ainda fazia constar entre os párocos da diocese que não sabia mais o que fazer comigo. Vejam só!

E não é que este ano, 43 anos depois, os bispos portugueses voltam a estar reunidos em Fátima, covil de ladrões e privilegiado local de conspiração religiosa católica contra a existência de povos livres, iguais, também em género, e irmãos, um local que eles sabem protegido por terra, mar e ar, dado que é a maior galinha de ovos de ouro da igreja católica e do Turismo religioso em Portugal, a que até o papa Francisco não resiste a vir dar uma mãozinha e levar daqui grande parte do proveito financeiro, com as duas desgraçadas canonizações já anunciadas urbi et orbi. De modo que é aí, em Fátima, que o Governo português de turno lhes faz chegar a sua bênção laica e republicana, feita notícia em primeiríssima mão, de que a vinda do papa justifica bem tolerância de ponto, sexta feira12 de Maio, o pai e a mãe de todas as canonizações, criancinhas criminosamente manipuladas por clérigos, incluídas. Porque, para o grande Capital e seus agentes religiosos e laicos, vale tudo, até tirar olhos.

Entretanto e porque o mundo não é só Portugal e a senhora de Fátima, Trump e a Coreia do Norte não desarmam. A Rússia, a China e a Índia, tão pouco. Assim como a Alemanha e a França. Atrevam-se a desencadear entre eles um inferno nuclear que logo se tornará global. E é o fim da vida, tal como a conhecemos neste planeta Terra a dançar dia e noite e ano após ano, à volta de si própria e do Sol. E tudo, só porque, depois que ela, em nós, conseguiu chegar à condição de racional, resiste a dar um salto qualitativo em frente, que é passar à condição de relacional cordial, por isso, plena e integralmente humana. De modo que o Terceiro Milénio que já é pós-cristão, tem de ser já, plena e integralmente humano, relacional cordial. Nem que seja apenas aquele pequeno resto que, num inesperado terceiro dia, depois do inferno nuclear global, se levanta, inteiro e limpo. num novo big-bang sem mais lugar para o grande Capital, nem para reis e papas palavrosos. Apenas seres humanos, todos diferentes, todos iguais, maieuticamente religados uns aos outros, politicamente ocupados a cuidar uns dos outros e do Cosmos que lhes serve de casa e de mesa sem muros nem ameias

*** *** ***