ENTREVISTAS

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Edição 133 Dezº 2017

Coreias. Entrevista de Beatriz Ardiles

Do tecnocapitalismo definitivo ao comunismo dinástico

Dois cronistas viajaram em separado para as Coreias do Sul e do Norte, cruzaram suas percepções e recolheram seus olhares num livro de crónica e ensaio, aplicando o trabalho do filósofo Byung Chul Han e seus conceitos de “sociedade do cansaço” e “panóptico digital”, um desenvolvimento que deixa para trás o modelo de “sociedade disciplinar” de Foucault em favor de outro, que ele chama de “sociedade do rendimento”

O sul-coreano Byung Chul Han é uma estrela da filosofia atual, uma espécie de Foucault 2.0 com uma visão crítica da sociedade digital e suas ligações com o neoliberalismo do pós-Guerra Fria, cujos ensaios são um sucesso internacional de vendas. Inspirados em sua obra, Daniel Wizenberg e Julián Varsavsky analisaram cara e coroa da mesma moeda – a coreana – que continua girando no ar sem nunca acabar caindo, um conflito congelado no mesmo lugar desde 1953 sobre uma polvorosa nuclear. Em seu livro Coreia, dois lados extremos de uma mesma nação, os jornalistas argumentam que uma hipotética democratização da Coreia do Norte não seria tal, se os rigores sulistas da “sociedade do cansaço” fossem aplicados lá.

Julián Varsavsky foi seduzido desde a infância pelas culturas asiáticas e, adulto, dedicou-se a viajar por esse continente por um ano, em diferentes incursões. A leitura de um artigo na Newsweek sobre o sistema educacional impeliu-o a mergulhar no submundo sul-coreano, que foi se desvelando como um jogo de caixas chinesas que não parava de surpreendê-lo à medida que imergia no lado menos claro do poder coreano. E foi através da leitura da obra de Byung Chul Han que ele encontrou as correntes de sentido que lhe permitiram ordenar seu olhar e interpretar suas observações depois de percorrer esse país. Daniel Wizenberg é jornalista e cientista político formado pela UBA que cobriu a problemática dos refugiados e migrantes a nível mundial, publicando reportagens e livros sobre a vida cotidiana em áreas de conflito como a Síria e Mianmar. A Coreia do Norte o levou à pergunta sobre a vida quotidiana num regime totalmente fechado em pleno século XXI.

Qual é a origem deste livro?

Eu publiquei na revista Anfibia uma crônica sobre a Coreia do Norte, contando que no hotel “5 estrelas” de Pyongyang, jantei com uma jaqueta por causa do intenso frio que fazia no restaurante. E Julián fez um comentário de leitor nesse sítio dizendo que em Seul ele havia entrevistado um executivo norte-americano da Samsung que trabalhava no edifício central dessa empresa, que também tinha que trabalhar com uma jaqueta, porque não ligavam a calefação. Nós nos procuramos pelo Facebook sem nos conhecermos e durante a conversa achamos graça do facto de que as duas Coreias se pareciam mais do que imaginávamos: demorou cinco minutos para nos colocarmos de acordo para escrever um livro. Pode-se dizer que Coreia, dois lados extremos de uma mesma nação, foi concebido com a lógica do panóptico digital teorizado por Byung Chul Han.

Como Daniel Wizenberg entrou na Coreia do Norte?

Eu comprei um pacote. É a única maneira de chegar lá, já que ninguém escolhe o roteiro que vai fazer pela Coreia do Norte: todos compram o pacote montado. Eu tive que mentir sobre a minha profissão, já que entre os requisitos está claro que não se admitia jornalistas. No entanto, um terço do contingente era formado por jornalistas que diziam que trabalhavam com outras coisas.

Vocês dizem no livro que a Coreia do Norte é um dos últimos recantos da terra não mapeado pelo Google Maps. Em que consiste a muralha anti-digital?

O país não está conectado à internet. A população acessa uma intranet, ou seja, uma rede local com conteúdos filtrados pelo Estado; nenhum cidadão comum pode contactar-se com qualquer pessoa ou receber qualquer informação de fora das fronteiras. Nem sequer é possível telefonar para a família no sul ou receber um telefonema, nem mesmo enviar uma carta.

Ou seja, você esteve incomunicável durante uma semana. Na terceira parte do livro, vocês comparam os dois países e formulam a hipótese de um possível encontro na passagem que separa as duas Coreias na Zona Desmilitarizada. Em que consiste essa passagem? Como seria esse encontro?

Chama-se Zona Desmilitarizada e é a mais militarizada do mundo: a Guerra Fria ficou congelada nesse ponto – o Paralelo 38º – fixado pela União Soviética e pelos Estados Unidos, e não pelas Coreias. De um lado e de outro da fronteira, são organizadas visitas guiadas a essa área e no livro brincamos com a ideia de que poderíamos ter concordado em nos avistar de longe na fronteira jogar um aviãozinho de papel com uma carta. Ali mesmo, em meados de novembro, um soldado norte-coreano cruzou a fronteira e foi baleado por seus companheiros. O incidente aconteceu perto da famosa passagem, que é um ponto em que não há arame farpado ou barreiras entre os dois países: é uma passagem de quatro metros de comprimento que poderia ser atravessada até por um bebé. A ideia do aviãozinho de papel é, de alguma forma, uma metáfora política sobre essa situação das duas Coreias, cujos guardas de fronteira estão tão perto uns dos outros, que podem se olhar nos olhos todos os dias. E, contudo, existe um abismo político entre um lado e o outro.

O sistema político norte-coreano é um oxímoro: uma dinastia comunista que já vai para a sua terceira geração na sucessão do comando. No livro, vocês contam muito bem em que consiste esse culto quase místico promovido pela “dinastia” Kim. Como vocês veem essa contradição?

No início, Kim Il Sung, o avô do atual líder, foi um revolucionário na escala de Mao e Ho Chi Minh, que rapidamente foi se afastando do ideário comunista para desenvolver uma “filosofia” local fechada, baseada na adoração do Líder a quem se atribuem inclusive poderes milagrosos. Os guias turísticos contam que no dia em que Kim I morreu, o pico nevado do Monte Paektu deixou de ser branco para se tornar vermelho, como se o vulcão tivesse entrado em erupção, embora não esteja em atividade. Esse compêndio “filosófico” é chamado de Juche. O filho do líder revolucionário, Kim Jong Il, o sucedeu e aprofundou o regime blindado. E antes de morrer, deixou o trono para Kim Jong Un, que atualmente está no governo. O atual líder não tem muito de revolucionário: ele estudou na Suíça com um pseudônimo e teve uma vida de menino rico. Seu principal hobby antes de chegar ao poder eram os jogos de basquete da NBA. Seus três irmãos tinham sido descartados: uma por ser mulher, o outro por ser homossexual e o terceiro por acabar no exílio após um escândalo internacional – caiu preso no Japão com um passaporte falso, um truque para visitar sem ser reconhecido por a Disneylândia de Tóquio. No ano passado, ele foi envenenado no aeroporto de Kuala Lumpur.

A crônica de Varsavsky começa com uma pesquisa sobre o sistema educacional sul-coreano como uma demonstração da impiedosa Sociedade do Cansaço. Como funciona esse sistema?

Muitas crianças do jardim de infância começam a frequentar as aulas particulares de apoio escolar para aprender a escrever, inclusive em inglês. Esses institutos são conhecidos como hagwon e, à medida que os adolescentes avançam para o ensino médio, eles passam mais e mais horas extracurriculares ali, estudando de tudo. Um ditado muito repetido afirma que quem dorme mais de cinco horas por dia não terá aprendido o suficiente para obter uma boa nota no suneung, o exame anual comum de admissão às universidades: todo mundo quer entrar nas três melhores. As crianças perdem sua infância brincando muito pouco – o que foi denunciado na ONU por não respeitar seu direito de brincar – e os adolescentes quase não fazem outra coisa em suas vidas senão estudar. A obsessão por entrar no hagwon chegou a tal ponto que teve que ser criada uma lei para que esses centros fossem fechados às 22 horas: deve ser a única lei do mundo que proíbe estudar. Mas muitos institutos tentam driblar a proibição, e há patrulhas noturnas para ver se estão realmente fechados. Há outros chamados kisuk hagwon, onde estudantes se internam meses para estudar, literalmente incomunicáveis, sem TV ou celular, sem poder sair nem mesmo aos domingos.

Estudantes e trabalhadores sul-coreanos vivem muito cansados e vocês aplicaram o livro de Byung Chul Han A sociedade do cansaço à pesquisa. Que relações vocês estabeleceram entre o livro e a Coreia do Sul?

A “sociedade disciplinar” mudou para outra, que ele chama de “rendimento”, onde o poder opressor já não é mais tão visível para o trabalhador. O neoliberalismo teria conseguido impor uma psicopolítica individualista baseada na ideia da auto-superação, a fim de maximizar a produtividade individual. Era uma estrutura de “visão total” panóptica, cujo esquema circular permitia que um único homem controlasse todas as celas a partir de uma torre central (estrutura que foi repetida em asilos, hospitais, escolas, fábricas). Os prisioneiros não sabiam quando estavam sendo vigiados e é por isso que eles tinham que se cuidar o tempo todo: assim se mantinha a disciplina. E, é evidente, houve explosões muito reprimidas de rebelião: os lados oprimido-opressor estavam claramente definidos. Byung Chul Han propõe que essa “sociedade disciplinar” mudou para outra, que ele chama de “rendimento”, onde o poder opressor já não é mais tão visível para o trabalhador. O neoliberalismo teria conseguido impor uma psicopolítica individualista baseada na ideia da auto-superação, a fim de maximizar a produtividade individual: compete-se contra si mesmo. O que anteriormente eram as proibições do “dever” sob vigilância panóptica, agora são as liberdades mais sedutoras do “poder fazer” do empresário e do consumidor. Isto é muito mais produtivo em termos de trabalho devido ao seu caráter motivacional. Mas o “sujeito de rendimento” permanece disciplinado, de acordo com Han: o apelo à iniciativa própria gera uma exploração mais eficiente do que o controle panóptico clássico. Talvez a principal lição do sistema educacional sul-coreano seja a de obedecer, especialmente, a si mesmo: internalizar a exigência. No trabalhador, estaria cada vez mais presente um Eu que se erige em vítima e verdugo ao mesmo tempo, em senhor e em escravo, de acordo com a metáfora dialética de Hegel. Esta seria uma mudança de paradigma para uma auto-exploração que limita a possibilidade de se rebelar contra um outro. Uma pessoa trabalha até desfalecer produzindo-se um cansaço infinito, já que o limite do dia de trabalho – ou de estudo – é a própria resistência do corpo. Por esta razão, as doenças paradigmáticas do século 21 surgem da super exploração do sistema nervoso, como a Síndrome de Burnout, o esgotamento e a depressão: estamos diante de um Eu auto-explorador que entra em colapso por superaquecimento. E quando o “sujeito de rendimento” fracassa na sociedade neoliberal, ao não ter consciência clara da existência de um opressor, em vez de se rebelar, fica deprimido: a Coreia tem a maior taxa de suicídio no mundo desenvolvido. Em A agonia do Eros, Han diz: “O regime neoliberal esconde sua estrutura coercitiva trás da aparente liberdade do indivíduo, que já não se entende mais como sujeito submetido (subject to), mas como desenvolvimento de um projeto. Aí está o seu ardil. Quem fracassa também é culpado e carrega essa culpa para onde quer que vá. Não há ninguém a quem possa responsabilizar pelo seu fracasso. Também não há possibilidade alguma de desculpa e expiação”.

E você se dedicou a pesquisar o reverso sulista da muralha digital do norte: a hipervisibilidade da “sociedade da transparência” de Byung Chul Han. Pelo visto, é uma sociedade com altos níveis de “intoxicação digital”

Parece lógico que seja assim na pátria da Samsung: uma centena de hospitais tem serviços de desintoxicação digital para pessoas que estão presas entre a realidade física e a virtual: elas não distinguem claramente a diferença entre o dentro e o fora da rede e não conseguem se separar de seus dispositivos eletrônicos. Existem inclusive clínicas de internamento total para curar as dependências cibernéticas, e casos patológicos foram atingidos, como o de um casal que teve um bebê que eles deixavam sozinho todas as noites, enquanto eles iam às salas de internet para mergulhar em jogos de papéis. Em um, chamado Prius, “criaram” uma menina virtual a quem dedicavam mais atenção do que à menina de carne e osso. Certa manhã, eles voltaram para casa e a encontraram morta por desnutrição. Claro que isso é uma coisa excepcional, mas o normal é que o Estádio Olímpico de Seul – e dois criados exclusivamente para videogames – fique lotado de pessoas que vão assistir em telões os combates profissionais da League of Legends.

Qual é o lado B da Samsung?

Por um lado, a perseguição sindical, uma guerra declarada a qualquer forma de organização em defesa dos trabalhadores, exceto o sindicato pelego. Por outro lado, a existência, já desde as suas origens como empresa, de um orçamento fixo de milhões de dólares, que eles vêm usando permanentemente para corromper presidentes, procuradores do Estado, juízes e jornalistas. Atualmente, o principal proprietário da empresa – Lee Jae-yong, neto do fundador – está preso por um escândalo que acabou custando o próprio cargo à ex-Presidenta da Nação, Park Geun-hye.

Quem são as pessoas que, na sua opinião, quebram os cânones hiper-racionalistas de uma sociedade entregue ao alto rendimento no estudo e no trabalho? Para tentar encontrá-los, você se hospedou alguns dias em um mosteiro budista para ver como vivem aqueles que parecem ser o oposto de tudo isso.

Eu me hospedei ali com o preconceito de que eles poderiam ser pessoas que fizeram um rompimento radical, pessoas que escolhem uma vida muito mais tranquila na proteção fornecida por um mosteiro situado no topo de uma montanha. Mas ali vi que a vida deles também tem sacrifícios e uma rotina muito rigorosa, que começa às 3h. Eles estudam muito e têm exercícios como de meditar sentados durante sete dias seguidos sem dormir, sob a vigilância de um mestre que bate neles com uma vara de bambu caso o seu tronco se dobrar.

O caso sul-coreano é um milagre econômico? Seu modelo pode ser aplicado na América Latina?

Os milagres não existem nem na economia. Em primeiro lugar, não foi um modelo neoliberal como aquele que geralmente se propõe imitar na América Latina para ser como a Coreia do Sul ou o Japão: o seu crescimento baseou-se em um protecionismo ferrenho que quase não permitia a entrada de importações, exceto matérias-primas. Em segundo lugar, o Estado interveio fortemente para direcionar a economia concedendo créditos industriais muito específicos e investindo na educação. Por outro lado, os países situados em fronteiras importantes para o interesse geopolítico dos Estados Unidos – assim como também Israel, Alemanha e Taiwan – não só não sofreram os embates extrativistas de riqueza do FMI, como também receberam contribuições econômicas milionárias norte-americanas na forma de doação, que são exclusivas para essas zonas de conflito. E, finalmente, falta um espírito de submissão confucionista à autoridade combinado com altos níveis de repressão, garantindo condições de trabalho paupérrimas e uma ditadura durante décadas.

O Chile, que seria a “pupila dos olhos” do neoliberalismo no continente sul-americano, quase não produz um único carro ou televisão: os argentinos vão comprar eletroeletrônicos lá – sem impostos – trazidos da Coreia do Sul, um país que abraçou o neoliberalismo uma vez que alcançou uma posição dominante. O “modelo coreano” provocou desindustrialização no Chile, o que é lógico, porque, na verdade, o modelo aplicado ali é muito diferente

A existência da Coreia do Norte durante décadas também não é um milagre: foi possível graças ao patrocínio de potências estrangeiras como a China e a União Soviética.A outra face da opacidade comunicacional do norte é a hipervisibilidade “cegante” que reina no sul, “criando um ruído infernal” ao nível da comunicação de massa.

Em sua obra, o filósofo não se refere a nenhum país em particular, mas vocês encontram na Coreia do Sul um paradigma de tudo isso. Em que consiste o conceito do panóptico digital?

Em seu livro A sociedade da transparência, o filósofo parte da metáfora panóptica de Foucault para desenvolver o conceito de panóptico digital. Refere-se a uma nova visibilidade total que permite ver tudo através dos meios eletrônicos. Isso abarca as redes sociais e as ferramentas do Google – Earth, Glass e Street View – e o YouTube. A hiperconectada Coreia do Sul tem a velocidade de navegação na internet mais rápida do mundo e é o laboratório mais ousado da “sociedade da transparência”. O controle panóptico da sociedade disciplinar funcionava através de uma visão linear em perspectiva a partir de uma torre central. Os presos não se viam uns aos outros – nem divisavam o guarda – e teriam preferido não ser observados para ter mais liberdade. O panóptico digital, por sua vez, perde seu caráter perspectivista: na matrix cibernética todos veem os outros e se expõem para serem vistos. O ponto único de controle que tinha o olhar analógico desaparece; agora eles nos observam de todos os ângulos. A visão total transforma a sociedade transparente em uma sociedade de controle mais eficiente: controlamo-nos mutuamente. Mas não nos sentimos vigiados, mas livres: interconectamo-nos permanentemente a partir de um local de isolamento, gerando uma hipercomunicação viciante, multifocal e intermitente. Isso resulta em informações desconectadas – sem passado nem futuro – onde é muito difícil estabelecer sentidos. A sobrecarga informativa e o excesso de luminosidade teriam um efeito 'cegador': o mundo acaba sendo um grande panóptico onde desaparece o muro que separa o interior e o exterior.

Para Byung Chul Han, a transparência sem ocultação é pornografia, e não é por acaso que a internet seja o domínio da pornografia: a exibição pornográfica e o controle panóptico são interpenetrantes

Exato. O homo-digital alimenta o novo panóptico impulsionado pelo voyeurismo e pelo exibicionismo: colabora com prazer para a sua construção – algo impensável em um prisioneiro – e serve como plataforma para exibir-se e ir-se desnudando pouco a pouco. Para Byung Chul Han, a transparência sem ocultação é pornografia, e não é por acaso que a internet seja o domínio da pornografia: a exibição pornográfica e o controle panóptico são interpenetrantes. Cada pessoa torna-se seu próprio objeto de publicidade, adquirindo valor na medida em que se expuser e for reconhecida através do “Gosto” (Like): o que não está nas redes não existe, porque não engendra valor de exposição. Consequentemente, o corpo deve ser otimizado o tempo todo e, por isso, assistimos ao auge da academia e à supervalorização da beleza física: a Coreia do Sul – como uma Meca digital – é também o paraíso asiático das cirurgias estéticas.

E como vocês aplicam a obra de Han à Coreia do Norte?

Por oposição: é uma sociedade disciplinar de manual sob um controle panóptico analógico absoluto. É uma sociedade de controle à moda antiga, com escritórios, funcionários e documentos, baseada na proibição e na censura.

Todos querem saber se pode haver uma guerra nuclear na península coreana. Como se desempata esse conflito anacrônico? O desfecho depende de quais movimentos de placas tectônicas da geopolítica internacional?

O jogo está em aberto há meio século; é um pouco perverso, muito tenso, e transformou o status quo dessa região. Todos os atores estão “confortáveis” neste ponto de equilíbrio: por um lado, a China não está interessada em ter um vizinho patrocinado pelos Estados Unidos e quer evitar as consequências demográficas da imigração que um conflito na Coreia traria. A ameaça da Coreia do Norte serve aos Estados Unidos para justificar suas bases militares na península. E na Coreia do Sul, historicamente, a maioria das demandas políticas de democratização e o aumento dos direitos trabalhistas foram reprimidos sob a acusação de “comunista”. Mas no sul sabe-se que, se as hostilidades forem retomadas – e especialmente em uma escala nuclear –, sofreriam baixas urbanas terríveis. Todo mundo parece estar suficientemente bem para chutar o tabuleiro. Mas há um fator de risco: o comportamento irracional e intempestivo de Donald Trump e Kim Jong Un.

"PROTEGER O CLIMA DEMANDA MUDANÇA DE HÁBITOS"

Entrevista com Niko Paech

O economista alemão Niko Paech, professor na Universidade de Siegen, não tem celular ou carro particular. Tampouco come carne ou viaja de avião. O estilo de vida é considerado por ele o único caminho possível para a preservação ambiental. Principal nome da Economia do Decrescimento na Alemanha, Paech figurou no 18° lugar do ranking de pensadores mais influentes elaborado pelo Gottlieb Duttweiler, instituto suíço de estudos econômicos e sociais.

Nesse modelo, as jornadas de trabalho seriam reduzidas à metade. Com ajuda da tecnologia, o nível de emprego seria mantido ou elevado, e as pessoas teriam tempo para plantar seus alimentos ou consertar suas roupas e sapatos, em vez de comprar outros novos.

Paech considera os debates como o da Conferência do Clima de Bonn, que se encerrou na semana passada, um "desperdício de tempo e energia", pois não tratam do que, em sua opinião, é a real causa do problema climático: o crescimento econômico.

O economista Niko Paech concedeu entrevista à Deutsche Welle, 26-11-2017.

Eis a entrevista.

Nas últimas duas semanas, representantes de governos e organizações civis discutiram medidas para a proteção do clima, na COP 23. O senhor acredita na eficiência desse tipo de encontro?

Até hoje, não existe qualquer exemplo de país desenvolvido que coloque em prática um modo de vida realmente ecológico, que reduza sua produção e, especialmente, os transportes, de modo a servir como exemplo. Assim como um analfabeto não pode ensinar outro a ler e escrever, os que fracassam na proteção do clima não podem aprender entre si.

Por isso, essas conferências são um desperdício de tempo e energia. A proteção do clima que faria jus a essa denominação não é alcançada pelo investimento em novas tecnologias. Ela pressupõe uma inevitável mudança de hábitos. Entretanto, o estilo de vida ecológico não é pauta desses encontros.

A Alemanha é frequentemente citada como um exemplo internacional pela transição energética para fontes renováveis. O senhor não reconhece um avanço nessa política?

Trata-se de um projeto ambiental fracassado, que cobre, exclusivamente, o uso de fontes renováveis no setor elétrico. Essa política desvia da maioria dos problemas climáticos. Basta pensar nas viagens aéreas; no transporte de bens em caminhões; no processo de aquecimento usado na produção e no imenso consumo de energia na agricultura industrial.

Ela resulta em uma compensação simbólica e acalma a consciência. Enquanto a responsabilidade por um desenvolvimento sustentável for delegada a inovações tecnológicas, mantém-se um álibi para a resistência ao enfrentamento da questão de acordo com o seguinte lema: "O vento e o sol vão dar conta. Felizmente, não precisamos mais falar sobre as viagens de férias e os hábitos de consumo."

Há, também, dois problemas sem qualquer solução ecológica e econômica: a volatilidade do vento e do sol e a falta de redes de transmissão. A transição energética está especialmente baseada em um múltiplo deslocamento de problemas, pois, para supostamente proteger o clima, joga contra a preservação da natureza. A construção dessas usinas e infraestruturas relacionadas demanda o uso de metais, como cobre e aço, mas também neodímio, plástico e concreto.

De toda forma, essas alternativas não desempenham um papel importante?

As fontes renováveis só poderiam cobrir a maior parte do nosso consumo energético se a capacidade industrial caísse pela metade, e a mobilidade global, reduzida ao mínimo. Atualmente, a proporção de energia eólica equivale a menos de 3% na demanda de energia primária alemã (eletricidade, aquecimento e transporte), apesar de imensos esforços e destruição de terras. Já a fotovoltaica representa pouco mais de 1%.

Esses valores risíveis permitem reconhecer o quanto a tecnologia é superestimada. Isso significa que precisamos enfrentar possibilidades limitadas da tecnologia pela redução do consumo e do sedentarismo, com menos deslocamentos. Além disso, uma parte da produção atual poderia ser substituída por meio de tecnologias de trabalho intensivo, especialmente os equipamentos mecânicos.

Um crítico poderia alegar que o senhor deseja retornar a um modelo de sociedade pré-industrial. Qual seria o papel do desenvolvimento tecnológico na Economia do Decrescimento?

A desglobalização e a desindustrialização, urgentemente necessárias, não pressupõem que a mobilidade e os produtos modernos desapareçam, mas que lidemos de forma mais equilibrada com eles. Por exemplo: eu divido uma máquina de lavar roupas com outros quatro adultos. Se o modelo fosse expandido, a produção desse eletrodoméstico seria reduzida em 80%. Nada impede que seja bastante moderno, e é diferente de renunciar a ele. O mesmo vale para minhas roupas e sapatos, os quais preservo e conserto de forma que durem o dobro do tempo. A produção, que pode ser moderna, cai pela metade. O desmantelamento dos sistemas industrial e de transporte como os conhecemos não significa abrir mão da tecnologia contemporânea, mas restringir nossa necessidade sobre ela de forma quantitativa.

Como o senhor espera que as pessoas se adaptem a um modo de vida tão diferente do que estão acostumadas nos países desenvolvidos?

A transformação rumo à sustentabilidade, que até o momento não se traduziu em ações efetivas, está diante de um dilema. O ideal modernista de uma sociedade próspera e "verde”, construída por grandes avanços tecnológicos, fracassou. Não me refiro somente ao insucesso da política de um crescimento verde, mas à possibilidade de as decisões políticas conduzirem esse processo.

Sem uma dissociação técnica, a política só consegue produzir efeitos de alívio ecológico, pela imposição de medidas restritivas e de redução. O problema é que elas afetam ainda mais as condições de vida da população, já que não representam hábitos ecologicamente sustentáveis.

O que fazer, então?

Caso a sociedade deseje se adaptar fora do modelo de abundância de forma proativa, antes que se veja obrigada a isso devido a uma crise, só há um caminho: a conjunção de uma política de sustentabilidade com um programa educacional. O modelo econômico atual lembra um "monstro do mar” à deriva, irrecuperável tal como o Titanic. Por isso, seria aconselhável desenvolver "barcos de resgate” autônomos, organizados sob um controle político descentralizado e em agrupamentos menores.

Vários indivíduos conectados em um "laboratório vivo” poderiam começar a praticar um estilo de vida sustentável, pelas mudanças nos hábitos que mencionei. Com credibilidade e visibilidade, eles poderiam demonstrar que é possível existir, com alta qualidade de vida, num modelo em que cada indivíduo produz menos de 2,5 toneladas de CO2 por ano, em média. Dessa forma, vários dos álibis hipócritas que impedem uma transformação seriam destruídos. Se vários indivíduos e grupos começarem a pôr isso em prática, o colapso para o qual nos encaminhamos poderia ser possivelmente evitado.

O senhor defende um novo modelo de globalização ou é totalmente contrário a ela?

Atualmente, nenhum problema ecológico se expande com dinâmica maior que a das viagens aéreas. O objetivo não deveria ser uma "nova globalização", mas sim o mais próximo possível de "nenhuma globalização".

No Brasil, muitas pessoas compraram seu primeiro carro, smartphone ou eletrodoméstico nos últimos 15 anos. Como dizer a eles que, agora, devem abrir mão desses bens?

Ninguém pode ter o direito de viver além de suas possibilidades ecológicas só porque outra pessoa tem ou teve essa postura. Os brasileiros também precisarão aprender a viver com 2,5 toneladas de CO2 per capita no longo prazo. Mas acalme-se: uma geladeira ou um smartphone estão incluídos nesse "orçamento ecológico”.

A justiça no século 21 é, sobretudo, uma questão ecológica e não pressupõe que os ditos pobres alcancem o patamar dos ricos

A justiça no século 21 é, sobretudo, uma questão ecológica e não pressupõe que os ditos pobres alcancem o patamar dos ricos. A abundância dos que mais tem é que deve ser reduzida, gradualmente, sem abrir mão do nível per capita mencionado, cujos efeitos ecológicos podem ser multiplicados por 7,3 milhões, sem prejudicar os meios de subsistência. Por tratar-se de um país tão atrativo e influente, o Brasil poderia servir como um exemplo para toda a América Latina, caso se tornasse um pioneiro de uma Economia do Decrescimento.

Entrevista com David Harvey

Todos devemos participar de um processo revolucionário que nos distancie da loucura do capitalismo”

David Harvey, lendário geógrafo e teórico marxista, é o primeiro entrevistado da série Qué hacer [O que fazer?]. O intelectual faz uma viagem pelo encadeamento dos fluxos do capital no planeta. Harvey encontra em tais fluxos as origens das crises que nos afetam – a social, a climática e a política –, incluindo a ascensão política de Donald Trump. Contudo, o professor emérito da City University of New York também observa pontos de tensão no sistema que origina essas crises. Tão implacável em seus métodos, como eclético ao escolher onde colocar a lupa, o intelectual britânico oferece uma análise totalizadora, que nos convida a pensar o que nos trouxe até aqui, para assim poder enfrentar como sairmos desta. (Entrevista de Ignasi Gozalo-Salellas, Álvaro Guzmán Bastida e Héctor Muniente, publicada por Ctxt / IHU / JF)

Esta série inicia com uma premissa para enfocar soluções políticas em tempos agitados: ‘O que fazer?’. Certa vez, você disse que se a energia empregada hoje na ajuda humanitária fosse dedicada ao desenvolvimento de modelos para superar o capitalismo, estaríamos muito melhor como sociedade. Partindo dessa base, como responderia à pergunta: ‘O que fazer’?

A revolução é um processo, não é um acontecimento. E é um processo que demora muito a seguir adiante e precisa avançar em diferentes frentes. Supõe transformações em conceitos mentais sobre o mundo, as relações sociais, as tecnologias e também em estilos de vida. Cada um de nós tem uma posição em nossa sociedade, onde pode contribuir em alguma destas frentes. Eu sou académico e posso tentar influir nos conceitos mentais do mundo, mas sei que não é a única coisa que é necessário fazer. Sendo assim, todos temos que empregar nossas habilidades para conseguir um processo revolucionário que nos distancie dessa loucura do capitalismo contemporâneo, para criar uma sociedade sensata, na qual cada um de nós tenha uma vida decente, condições de vida decentes e conceitos razoáveis sobre um futuro decente.

Dedicou grande parte de sua vida ao estudo e a difusão da obra de Marx. Muitos críticos do marxismo, hoje – tanto da direita como da esquerda – destacam que embora essas ideias puderam ser úteis para o século XIX, deixaram de ser relevantes. Você não tem inconveniente em abordar assuntos aparentemente díspares, conforme o mundo que lhe rodeia muda, indo do desenvolvimento tecnológico à crise climática. Para aqueles que não conhecem a obra de Marx ou não a leram, por que continua tendo valor, em pleno século XXI, diante dos desafios que enfrentamos e o mundo em que vivemos?

Há uma história do marxismo que é problemática, e tem coisas muito boas e coisas muito ruins. É como o capitalismo. É como tudo. Depois, existem os escritos de Marx, que me impressionam particularmente. O que fazia era se abstrair das atividades quotidianas de uma economia e buscava contribuir para o entendimento do modo como funciona o capital. O capital é simplesmente a produção de valor e mais-valias através de uma série de configurações e atividades, e na época de Marx, esse sistema de levar o pão à mesa e todos esses tipos de coisas. Esse sistema existia apenas em um relativamente pequeno canto do mundo. Agora, o mundo inteiro está aprisionado pelo modo de produção capitalista. Se você vai à China, nota-o. Se vai à Índia, nota-o. Se vai ao Brasil, nota-o. Seja onde for, nota-o. De modo que não escrevia o século XIX. Escrevia sobre algo chamado capital e sobre como funciona o capital. O capital continua connosco, e continua fazendo coisas muito prejudiciais e continua fazendo algumas coisas muito fascinantes, e Marx tem um modo de o analisar, que examina suas contradições. Por uma parte, desenvolve tecnologias novas. Por outra parte, observamos como estas novas tecnologias não são empregadas para libertar os seres humanos e os emancipar, mas, ao contrário, para gerar mais riqueza e poder para uns poucos. A economia contemporânea tende a evitar as contradições. Não gosta das contradições, desse modo, finge que não existem. Então, Marx vem e diz que o capital por definição é contraditório, e se você deseja uma análise sobre o funcionamento das contradições, você tem que se colocar e precisa estudar Marx.

Em seu trabalho, desenvolveu a ideia de que o modo como saímos de uma crise – a maneira como enfrentamos as contradições que nos conduzem a ela – determina a crise seguinte. Uma década após a última grande crise financeira, você observou algo na maneira como saímos dela que ajude a explicar a situação política nos Estados Unidos e no restante do mundo?

Todas as crises que ocorreram a partir dos anos 80 foram acompanhadas com o que chamamos de uma recuperação sem emprego, que é como se encontra a classe trabalhadora que não se recuperou da crise. O capital se recuperou, mas as pessoas não. Em 2009, as estatísticas oficiais mostravam que havíamos nos recuperado, mas todo mundo sabia que não havia trabalho. Não havia trabalhos decentes. As crises são uma das maneiras que o capital possui para se renovar, de modo que não supõem o fim do capitalismo. Na realidade, são um modo de reconfigurar o capitalismo, e acredito que cabe se perguntar se 2007, 2008 era o modo em que o capital iria se reorganizar. Bom, em múltiplos aspectos não se reorganizou em absoluto. Minha interpretação do neoliberalismo foi que desde o princípio foi um projeto político acerca da consolidação e a crescente concentração da riqueza e o poder dentro da classe capitalista, e que a concentração continuou.

Alguns de nós lemos a eleição de Trump, o Brexit e outros fenómenos como um sinal do fim da era neoliberal. Como, entre outras coisas, historiador do neoliberalismo, você faz a leitura do mesmo modo? Refiro-me, em concreto, a sua decisão de tirar os Estados Unidos de acordos comerciais como o TPP ou o NAFTA, suas promessas de criar postos de trabalho, etc. Um ano após sua eleição, como interpreta a ascensão política de Trump e seu encaixe com o projeto neoliberal?

Os únicos que verdadeiramente se beneficiaram da crise de 2007-2008 foram o 1% mais rico e o 0,1% mais rico, ao passo que todos os demais perdiam. Uma das coisas que mudou é que, após 2007-2008, já não era possível alegar ideologicamente que os mercados resolveriam tudo. O neoliberalismo era instável e era provável que evoluísse em algo que se tornaria muitíssimo mais autoritário. O neoliberalismo gerou uma grande desilusão. As populações cada vez se sentiam mais alienadas em seus postos de trabalho. De modo que os trabalhos dignos cada vez eram mais difíceis. A vida quotidiana cada vez era mais angustiante, e a política não falava dessa alienação. Então, surgiu Donald Trump e falou disso de um modo ou de outro, de forma que as populações alienadas não necessariamente votam à esquerda. Podem se tornar neofacistas. Podem ir em qualquer direção e acredito que existia certo anseio, em muitos setores da população alienada, de que se produzisse uma alteração de algum tipo. O que Donald Trump prometeu foi alteração e o que proporcionou, é claro, foi alteração. Acredito que é significativo que tenha corrido ao Goldman Sachs para suas nomeações económicas e que o Goldman Sachs tenha controlado o Departamento de Tesouro dos Estados Unidos desde aproximadamente 1992. Trump eliminou normativas que detinham a concentração de maior riqueza e poder, de modo que não adotou nenhuma medida em absoluto nesse sentido. Só continuou o projeto neoliberal porque ele é a quinta-essência do homem neoliberal em pessoa. Há um estancamento geral, e, por sua vez, a contínua acumulação de riqueza e poder por parte dos que cada vez estão se convertendo mais em uma espécie de oligarquia global. Então, surge a pergunta: de quem é a culpa? Pois bem, é possível jogar a culpa no capital. Eu culparia o capital, mas os capitalistas não gostam de ser culpados pela crise. Gostam de jogar a culpa nos outros, de modo que os imigrantes são o problema ou a deslocalização é o problema, desde os anos 1970 e 1980. A perda de emprego nas fábricas se deve à mudança tecnológica, não porque vão para a China, não porque são enviados agora. Se você se apresenta em algumas eleições e diz que é contra a mudança tecnológica, olha até onde pode chegar. Caso se apresente e diga que essa perda de empregos tem que parar, que temos que impedir a entrada dos imigrantes e temos que culpar alguém mais, a quem culpamos? A China, e assim temos, nesse exato momento, as políticas contra os imigrantes e as políticas contra a China. Contudo, isto é interessante. Da China, disse Trump, ‘no primeiro dia em que subir ao poder, me encarregarei disso’. Foi capaz de se encarregar disso? De modo algum. Quem possui a dívida dos Estados Unidos? A China. E esse foi um momento interessante na crise, que é quando aparecem Fannie Mae e AIG, as duas grandes companhias seguradoras. Das ações destas instituições, 60% pertenciam só aos chineses e aos russos. Em 2008, os russos foram aos chineses e lhes disseram: “Vamos vender todas as nossas ações, arruinar o mercado dos Estados Unidos”. Caso tivessem agido assim, teria sido um desastre. Os chineses não fizeram isto porque não tinham nenhum interesse em arruinar a economia dos Estados Unidos, porque essa economia é um mercado principal. Os russos não se preocupam com o mercado dos Estados Unidos porque não é importante para eles. Contudo, esta é a situação: se os Estados Unidos tentarem pressionar muito a China em questões comerciais, a China tem muito poder sobre a economia estadunidense. Se os Estados Unidos começarem a deixar de vender seus produtos no mercado, então os chineses dirão, tudo bem, não temos razão alguma para manter tão precipitadamente o mercado dos Estados Unidos. Vamos nos desfazer de toda a dívida, e então veremos o que acontece com o endividamento dos Estados Unidos.

O imperialismo é um conceito ao qual dedicou grande parte de seu trabalho, inclusive um livro completo. No entanto, ultimamente, disse que já não lhe parece um conceito útil para entender o mundo. Por que pensa assim? Tem algo a ver com sua análise dos fluxos do capital e o advento de uma classe rentista global?

Não acredito que a exploração das pessoas em uma parte do mundo por alguém que está em outra parte do mundo tenha cessado em absoluto. De facto, são realizadas enormes transferências de valores, principalmente em tempos de crise. Esse 1% de mais ricos na realidade alcançou esse posto graças a transferências massivas de riqueza da população mundial geral para tal classe e, deste modo, trata-se mais de uma questão de classe que do fato de que uma parte do mundo domine a outra. As pessoas podem conservar seu património? Pode obter ingressos sobre as rendas, sobre aluguer de propriedades, de imóveis? E, cada vez mais, é claro, nos últimos 50 anos, impõem-se os ingressos sobre a propriedade intelectual. Há muitas corporações capitalistas que acreditam que alguns ingressos sobre a propriedade intelectual é a única coisa que precisarão ter e que não necessitam produzir nada. De modo que há organizações como Google e Facebook ou outras parecidas que são a base de fortunas tremendas, acumuladas por poucos, baseadas na cobrança de receitas. Quando se observa a estrutura dos ativos do 1% ou do 0,1% dos mais ricos, dois terços dos ativos são em propriedade ou similar. As pessoas muito, muito, muito ricas estão começando a se dedicar a este processo de acumulação de terras. Um grande pedaço da Patagónia pertence a uma só família.

Detendo-nos por um momento no meio ambiente, como relaciona a emergência dessa oligarquia global com a crise climática que enfrentamos? Parece que a decisão de Trump em retirar os Estados Unidos do Acordo de Paris não fará mais que aprofundar essa crise. Compartilha do diagnóstico?

O contexto disto é que há algum tipo de relação com a natureza, uma relação metabólica com a natureza. Marx se refere a isto como presentes da natureza, e para que o capital sobreviva precisa haver um fluxo destes presentes da natureza, o que supõe que precisa estar em posição de se apropriar ou, caso se queira empregar outra linguagem, saquear os presentes que oferece o ambiente natural que, então, é possível incorporar no sistema de circulação. Por exemplo, falamos do motivo pelo qual Trump não organizou um vasto projeto de infraestrutura. Quem organizou um enorme projeto de infraestrutura em 2007, 2008? A China. Em dois anos, os chineses consumiram mais cimento, 40% a mais de cimento, que os Estados Unidos em 100 anos. Precisavam resolver o problema do desemprego. Resolveram esse problema descarregando no meio ambiente, e o resultado agora é um desastre ambiental em muitos sentidos. Os chineses estão conscientes disso e agora estão dizendo, muito bem, vamos ter carros elétricos e reorganizar a sociedade porque agora temos que solucionar o problema ambiental. A isto me refiro quando digo que o capital transfere seus problemas. Tinham um problema de desemprego. Solucionaram, mas agora existe um problema ambiental. E como irão resolvê-lo? Bom, farão isto com outra coisa e provavelmente descobriremos que há dificuldades financeiras. Isto está conectado com o facto de que o capital como sistema precisa crescer. Não pode ser sempre o mesmo. Acredito que o Acordo de Paris era sumamente deficiente. Tentou resolver o problema da mudança climática recorrendo às forças do mercado, e acredito que na realidade as forças do mercado são o problema e não a solução. Não estou particularmente incomodado que Trump tenha saído dele.

Como conceber uma transição na qual a maioria de nós não passe fome, parece-me que precisa fazer parte do que seja qualquer revolução ou transformação. Acredito que continua havendo uma tendência na sociedade que estabelece esta distinção cartesiana entre humanidade e natureza ou cultura e natureza, e economia e natureza como se fossem dois compartimentos separados, mas sou tristemente célebre para dizer que não há nada de antinatural na cidade de Nova York. As formigas constroem formigueiros. Os seres humanos constroem cidades. Todos os organismos, em certo nível, transformam seus ambientes de maneira que supõem ser positivos para eles. Em lugar de enxergar isto como um conflito entre cultura e natureza, vejo como um conflito entre posições, caso se prefira, ou entre populações que estão discutindo que deveríamos estar indo em outra direção. A questão é a quem beneficia tudo isto. Agora mesmo, as transformações ambientais são essencialmente as que são ditadas pelo capital, que não está se organizando para o bem-estar da população. Aqui, em Nova York, por exemplo, há um enorme boom imobiliário no qual tudo são estruturas de investimento para rendas altas. Temos uma crise de moradia acessível. Estamos construindo para os bilionários dos estados do golfo e Rússia e de lá onde se possa investir, de modo que possam ter um lugar para vir comer e ficar duas semanas ao ano, nas quais irão comprar ou o que seja. É uma loucura. É uma economia demente, e continuo pensando com meus botões que é tão demente que não entendo por qual motivo as pessoas continuam tolerando. Isto se deve ao facto de que o projeto neoliberal de concentração da riqueza e poder está mudando a forma de nossas cidades, tornando-as cidades para investir, não em cidades para viver.

Há um conceito que você desenvolveu muito, antes da ascensão de Trump, e que tem especial ressonância no momento político atual: a alienação universal. Em que consiste essa ideia, que manifestações tem, e como pode nos ajudar a entender o presente e imaginar o futuro?

É interessante, muitas das revoltas que ocorreram no mundo, nos últimos 15-20 anos, foram em torno de problemas urbanos. O parque Gezi na Turquia, as revoltas em cidades brasileiras em 2013, etc. Muito descontentamento em zonas urbanas, distúrbios urbanos, e tendo a pensar que se trata de uma das zonas-chave de organização e reflexão, o lugar onde realmente podemos mudar a natureza do capitalismo. Não só lutando pelos problemas no lugar de trabalho, algo que continua sendo tremendamente importante, mas também lutando por algumas novas condições no espaço vital onde todos possamos ter um lar decente e um ambiente decente e, imaginemos, uma vida quotidiana decente. Quando as pessoas começam a dizer ‘que sentido tem minha vida’, ‘que sentido tem meu trabalho’, e as pesquisas apontam que aproximadamente 70% da população nos Estados Unidos odeiam seu trabalho ou, então, é absolutamente indiferente em relação ao que se trata... Quando você pensa nas novidades que poupam tempo no lar, mas vai até as casas e pergunta: ‘tem muito tempo livre?’, a resposta é que não temos tempo livre em absoluto. Uma das genialidades de Marx foi sugerir que o tempo livre é sinal de uma grande sociedade, mas o facto é que até mesmo a vida diária na cidade te absorve. Que se eu levo a televisão para consertar e convido alguém para casa... e as frustrações de lidar com o seguro médico... e o que ocorrer a você. O papel da máquina não é a de facilitar o trabalho. O papel da máquina é o de estabelecer uma situação onde o capitalista possa obter maior mais-valia. Por este motivo, a máquina não reverterá em benefício do trabalho. Sempre será utilizada sob o capitalismo para beneficiar o capital. O mesmo se aplica aos processos culturais de consumo. Todos vimos essa espécie de pequenos robôs que rodeiam o solo e limpam por você e tais tipos de coisas, mas qual é o propósito de tudo isso? O propósito é o de oferecer tempo livre às pessoas ou, na realidade, é o de conduzir a uma situação na qual você se torna cada vez mais consumista? De modo que o consumismo consiste em liberar as pessoas dos trabalhos domésticos para que possam sair e comprar. Ou seja, as pessoas não têm tempo de se deitar, nem o direito de folgar. Isso provoca muito estresse e muita alienação, porque você percebe que está sumamente ocupado, mas com qual propósito e a propósito de quem? E sabe que não é a seu propósito. É a propósito de outro. A propósito de quem? Acredito que é provavelmente um dos problemas mais sérios que subjazem, em grande parte, as turbulências políticas que estamos vendo.

Edição 132 Novembro 2017

Marco Filoni-La Repubblica entrevista António Damásio

''A NOSSA MENTE É COMO UMA SINFONIA''

Uma das capacidades do nosso cérebro é a de criar mapas. Mas se tivéssemos que criar um mapa do nosso cérebro, em muitas partes teríamos que escrever:"hic sunt leones" [aqui há dragões]. O cérebro é um território impérvio e, em grande parte, desconhecido. Alguns cientistas, como exploradores corajosos, tentam conquistar terreno para descobrir o funcionamento desse esplêndido e misteriosíssimo órgão. António Damásio é um deles. Melhor, o mais audaz e temerário dos exploradores. Neurocientista de fama mundial, nascido em Lisboa, Portugal, leciona em Los Angeles, onde também dirige o Brain and Creativity Institute. Deve a sua notoriedade aos estudos sobre a fisiologia das emoções, sobre memória e sobre o Alzheimer, além dos seus livros fundamentais. Esteve em Veneza, para receber o Prémio Bauer-Ca' Foscari, inaugurar a série de encontros internacionais Encruzilhadas de civilizações, e apresentar o seu último livro, Il sé viene alla mente, publicado pela editora Adelphi, sobre como o cérebro constrói a mente consciente. Eis a entrevista.

O senhor começa o livro com uma citação de Pessoa: a alma como "uma misteriosa orquestra" e o conhecimento de si mesmo "como uma sinfonia".

Eu sou português, e Pessoa faz parte da minha cultura. E a analogia com a orquestra nos explica bem o que é a vida humana. Pensemos em uma peça de música. Há um projeto a ser realizado, a própria peça, depois há o maestro, os músicos etc. Mas para que o projeto se realize não basta tocar as notas de modo correto: há também os tempos a serem respeitados, a linha vertical da partitura. Assim, a vida humana é um pouco a mesma coisa.

E que papel tem a consciência?

A consciência é uma grande peça sinfónica. Podemos dizer que ela é o principal ingrediente da mente, que, ao contrário, seria apenas cérebro, capaz de poucas operações básicas. A mente consciente, ao invés, têm diversos níveis de "si": o "eu primordial", o "eu nuclear", o "eu autobiográfico". Nós compartilhamos com diversos animais um tipo de consciência muito simples, que pode ser distinguida com o termo senciente. Em inglês, equivale a consciência, mas, para sermos mais precisos, é a condição de ser senciente. De fcto, é um termo mais antigo do que consciência, deriva do latim “sentire”. Este é substancialmente um "eu primordial", que permite ter sensações como sentir dor e prazer, mas não refletir sobre essas sensações.

Coisa que nós, seres humanos, podemos fazer.

Graças a outros níveis, como o "eu nuclear" e o "eu autobiográfico". Assim, somos capazes não só de ser sencientes, mas também "reflexivos". Ou seja, temos a capacidade de especular sobre nós mesmos e sobre o que acontece connosco. Também na perspectiva da história e da memória: tudo o que acontece connosco é um eco do que passamos e ganha sentido no que acontecerá depois.

A consciência é, portanto, o que nos permite dar sentido às coisas?

Exatamente. O nível básico tem a ver com as sensações. O restante da consciência dá um quadro melhor e mais claro do que as coisas significam.

E que relação esse aspecto reflexivo tem com o corpo?

Toda ação material é modelada e forjada pelo cérebro. Há uma fusão constante entre cérebro e corpo. Tanto é que basta cortar esse vínculo que tudo entra em colapso. É o caso dos danos ao tronco cerebral, como acontece em certos casos de coma: tudo entra em colapso, física e mentalmente.

No livro, o senhor cita uma máxima de Francis Scott Fitzgerald: "Quem inventou a consciência cometeu um grande pecado".

Eu gosto muito de Fitzgerald: ele foi um escritor brilhante e o que me liga a ele é o facto de ele ter passado os últimos anos da sua vida em Los Angeles, onde eu vivo. Quando Fitzgerald tentou escrever para o cinema, ele fracassou miseravelmente. Isso porque ele era muito literário, muito sofisticado, enquanto os estúdios queriam histórias rápidas, diálogos fáceis e pouca reflexão. Desse seu fracasso, podemos deduzir a ideia que ele tinha: o facto de que a consciência, embora extraordinária, tem um lado obscuro, pois nos diz quem somos e onde fracassamos. Ela tem uma dupla face.

Podemos dizer que a consciência é uma espécie de roteiro da nossa vida?

Sim, isso mesmo, e podemos colocar as duas metáforas que usamos paralelamente: como seres vivos, temos na base uma sinfonia e, depois, quando alcançamos o nível da linguagem, temos um roteiro. E é isso o que fazemos: escrevemos as coisas, todas as vezes.

Portanto, somos nós que "escrevemos" a nossa consciência?

Nós somos os seus autores, em grandíssima parte, mas não totalmente. No passado, a natureza a escreveu para nós. Por isso, não somos completamente donos do nosso destino: muitas vezes, nos encontramos diante de coisas que não queríamos, mas que simplesmente aconteceram.

E essa consciência é sempre algo bom?

Quanto mais sabemos como somos feitos, mais podemos entender como funcionamos. Certamente, há a dupla face, quase perigosa (e Hitchcock me vem à mente), da qual Scott Fitzgerald falava, que nos mostra a tragédia da vida: viver e morrer. No entanto, esse conhecimento é a única possibilidade que temos de ajudar os outros a viver melhor.

Por que Alfred Hitchcock lhe veio à mente?

Eu gosto muito dele, particularmente o filme O homem que sabia demais. Perto do fim do filme, o protagonista interpretado por James Stewart diz algo mais ou menos assim: "Mesmo um pouco de conhecimento pode ser muito perigoso". De facto, no filme, ele terá um fim terrível.

Que importância tem a biologia no seu trabalho?

Tudo pode ser melhor entendido se o olharmos em uma perspectiva biológica. Os nossos sistemas biológicos são sistemas económicos, ou seja, sistemas que operam em um ambiente social. Isso pode nos ajudar a compreender a nossa sociedade que, no fundo, se comporta como um sistema biológico, baseado no sucesso e no fracasso. Os sistemas morais, religiosos, económicos, assim como as leis ou a medicina e as artes, nada mais são do que uma projeção de um sistema biológico.

E como se concilia esse viver biológico com a consciência que temos de nós mesmos?

A nossa condição de seres vivos é uma luta contra a doença e a morte. É uma batalha constante. Sempre devemos lutar para manter uma "condição homeostática". Essa condição oscila entre o bom funcionamento e o mau funcionamento. Desde o início biológico e evolutivo, historicamente, aparecem esses yin e yang, um sob a forma de prazer, e o outro sob a forma de dor. E viver é estar no meio disso. Devemos navegar entre a muita dor que te mata e a muita felicidade que te mata da mesma forma.

O senhor está satisfeito com as suas pesquisas?

Não, por nada: eu consegui esclarecer algumas ideias, mas descobri muitas outras a serem desenvolvidas e estudadas. Nas palavras de Scott Fitzgerald, no fim de O Grande Gatsby: somos um navio que sempre vai contra a corrente, um pouco para a frente e um pouco para trás.

Entrevista com Pe. David Collins S.J.

Depois do Halloween: bruxas, demónios, processos e condenações

Num período em que as crianças se vestem de bruxas para o Halloween, não podemos esquecer que houve um momento em que as bruxas eram perseguidas e executadas pela sociedade. Entrevista de Thomas Reese, S.J / IHU.

Por que se interessou em bruxas?

Acabei me interessando em bruxas porque tinha interesse em magia de um modo geral. Os historiadores estudam magia medieval por causa da luz que ela lança sobre a maneira como as pessoas da Idade Média achavam que o mundo natural funcionava e como poderiam usar, subordinar e tirar vantagem das forças naturais no mundo criado. Escrevi minha tese sobre os santos. Os milagres formam uma grande parte desta história, e os teólogos medievais, juntamente de figuras eclesiásticas, muito se interessavam em desvendar a diferença entre milagres e magia. Em alguns casos, era até mesmo difícil distinguir entre pessoas a que haviam ocorrido milagres e aquelas que haviam praticado magia. Se os milagres eram provas de santidade e a magia era o produto da mágica, como ter, na prática, um modo confiável para distinguir santos de feiticeiros? Após muita pesquisa sobre os santos, desejei misturar as coisas e me voltei aos feiticeiros e às bruxas, sobre os quais trabalho atualmente.

O que é uma bruxa?

Não há uma definição clara. Depende muito da cultura e do período histórico analisado. Na Idade Média, raramente era algo que a pessoa atribuía a si mesma; em geral, era uma característica que outras pessoas acusavam alguém de ter. O que as pessoas têm em mente, hoje, é uma mulher velha a pilotar uma vassoura, usando um chapéu pontudo e que pratica o mau. É também alguém que foi assombrado e perseguido com um fervor irracional no passado. A caça às bruxas histórica que as pessoas pensam em geral não é medieval; ela é um pouco mais recente. Quando pensamos nas bruxas que foram queimadas ou condenadas, estamos falando de algo que surge no século XV e que dura até o fim do século XVIII. Nesse período, definia-se bruxa como alguém que fez um pacto com o diabo. O pacto era normalmente selado com o intercurso sexual, e as bruxas formavam uma comunidade de malfeitoras, reunindo-se regularmente nos assim-chamados “sabbats”. Os pactos eram o que tornava a maldade delas tão poderosa. Sempre houve a noção da mulher que faz coisas más ou pessoas que usam da magia para prejudicar outros indivíduos. O negócio de um pacto com o diabo é singular, característico da história ocidental, em oposição ao resto do mundo. E o pacto estava no centro das preocupações sociais que motivaram as perseguições do início do período moderno (1400-1800). É algo que surge no fim da Idade Média e começa a ser perseguido com vigor no meio do século XV. As primeiras grandes condenações são do começo do século XV e os últimos datam da década de 1770, aproximadamente.

Isto é como os opositores descreviam as bruxas. E elas pensavam que estavam a fazer um pacto com o diabo?

Há duas escolas de pensamento nesta questão. Uma sustenta que a crença em bruxaria foi inventada por grupos que a acusavam, tendo em vista a consecução de seus próprios objetivos. A outra escola de pensamento sustenta que as pessoas acusadas acreditavam, genuinamente, em bruxaria. Está claro que os processos por bruxaria nasceram de jogos de poder de forças religiosas e seculares que queriam ganhar um maior controle sobre as comunidades religiosas e civis. Mas, hoje, temos também inúmeros exemplos de pessoas que se confessavam perante as acusações, conforme definido. Nem todos estes casos podem ser explicados por tortura, muito embora a possibilidade de tortura sempre esteve presente.

De onde vem a ideia de um pacto com o diabo?

Na verdade, a ideia começa por volta de 1200, entre os literatos, pessoas instruídas, no momento em que cogitaram aprender sobre magia e feitiçaria. Pensemos no Fausto: um pacto com o diabo para obter um conhecimento oculto e para manipular o mundo natural como a alquimia. Temos manuais de necromancia, que claramente foram produzidos pessoas letradas ligadas à Igreja, em fins do século XIV, início do século XV. Eles invocam os espíritos dos mortos para conseguir a ajuda deles na feitura das coisas. Os manuais de necromancia, na estrutura dos rituais e das cerimônias, são imagens espelhadas de exorcismos. “Se podemos expulsar demónios, talvez possamos invocá-los”. Além de um desejo de dominar um conhecimento oculto, havia um elemento financeiro impulsionando esta “pesquisa”. Estas pessoas faziam por dinheiro. Quem não iria querer ver os seus tesouros aumentados com o recém-criado lingote de outro do alquimista? E todos os tipos de pessoas poderosas se interessavam em horóscopos – príncipes, papas, todos eles. De que outra forma elas saberiam os dias propícios para assinar contratos, fazer tratados, casar as filhas, etc.? Por volta de 1400, a preocupação com a ajuda do diabo para chegar a fontes mais profundas de conhecimento místico, conhecimento esotérico, se funde com a magia popular praticada nas aldeias, vilarejos. Parte da tragédia social é que é mínimo o número de processos e execuções contra essas figuras da elite. Existe um certo tipo de pessoa que acaba comprimida entre uma fixação bizarra com o poder do diabo no mundo vindo de cima, e a amargura e o preconceito que vêm debaixo. No final das contas, as bruxas acabam comprimidas entre os dois.

A magia em si era vista como má?

Historicamente, surgiu a ideia de forças ocultas que podem ser usadas para fins bons. O teólogo escolástico dos séculos XV e XVI diria: “Se você estiver manipulando os poderes do mundo natural de um modo que é natural e para fins bons, então, de facto, não é magia”. Estas forças ocultas nos objetos materiais estão aí para se tirarem a vantagem mais completa delas. A poção do amor constitui um caso de estudo interessante nas escolas. “Podemos usar a poção do amor contra o parceiro que não está apaixonado por nós?” Há dois problemas para os alunos debaterem. Um tem a ver com a licitude da produção da substância e se esta é natural. A outra tem a ver com o livre arbítrio. “O uso da poção do amor está privando o outro de sua liberdade, apesar da infelicidade que é o parceiro não estar mais apaixonado?” Mas há outros que diriam que a poção do amor é uma coisa boa porque o casamento pode, às vezes, ser difícil. As brasas esfriam-se, e seria bom elas se reacenderem.

Que tipo de prova era usada num processo por bruxaria?

Temos aí algo bastante arbitrário. Lembremos da cena do filme “Monty Python em Busca do Cálice Sagrado” com o pato. Não gosto de usar arte popular contemporânea para explicar coisas em história, mas acho que essa cena capta o problema. Acreditava-se que havia pessoas que eram bruxas e que fizeram pactos com o diabo, e criam que elas causavam um mal verdadeiro. Se um conselho municipal ou os consultores do arcebispo recebessem um conjunto coerente de problemas lançados em seu colo e ele começasse a associá-los, poderia pensar: “Bem, podem ser bruxas”. Em seguida, diria: “Por que não ter um processo?” Então se começa a caminhar numa dada direção, está-se à procura de certa coisa, e esta é encontrada. O primeiro livro realmente importante contra os processos por bruxaria é “Cautio Criminalis”, de Friedrich Spee, publicado em 1631. Spee é um jesuíta e confessor de bruxas que haviam sido condenadas. Ele escreveu um tratado que defendia parar a realização destes processos com base em que não havia um padrão adequado de provas. Ele não questionava a existência ou não uma tal coisa chamada bruxas. O guia mais famoso para estes processos, muito embora não o mais comumente usado na época, é “Malleus Maleficarum” (O martelo das bruxas), de Heinrich Kramer, que escreveu a obra na década de 1480 depois de não conseguir obter as condenações de um conjunto particular de processos em Innsbruck. Cerca de um terço é um longo discurso misógino, ideias tiradas da Antiguidade e trazidas para o momento contemporâneo; um outro terço fala sobre como encontrar uma bruxa; e o outro terço fala a respeito dos procedimentos, como realizar um julgamento.

Quantas bruxas foram executadas?

De 1450 até 1750 foram provavelmente 100 mil julgamentos, no máximo. Na década de 1970, o número estimado estava em torno de 9 milhões, mas hoje ficamos entre 100 mil e 70 mil julgamentos. Grande parte deles foram processos civis, e não eclesiásticos. Houve de 30 mil a 50 mil execuções nesse período de 300 anos. Pesquisas recentes sustentam números menores ainda. É importante também perceber que não houve um número constante, coerente de processos entre os anos de 1450 e 1750. Os casos irrompem em lugares particulares e em épocas particulares. Os julgamentos continuam por alguns anos e então desaparecem. Ou duram por um ano e então, de repente, 50 anos mais tarde desaparece de novo. Há um alto índice de execuções, mas há um índice ainda mais alto de condenações. Houve mais condenações do que execuções. Havia a possibilidade de penalidades alternativas à execução. Assim, se a pessoa renunciasse o pacto com o demônio, se as provas não fossem suficientes para uma condenação plena por bruxaria, havia penalidades menores.

O que fazia irromper estes processos?

Uma vez que a ideia da elite de magia e a ideia popular de bruxaria se juntaram, o ator principal para o surgimento dos processos em geral tende a ser a pessoa proeminente de uma pequena localidade. Muitas vezes, o que parece ter acontecido é que coisas ruins ocorriam e alguém precisava ser culpado. Na ausência de alguma explicação, a magia maléfica servia para estes propósitos: pôr a culpa de qualquer coisa que precisa ser explicada em alguém que, por alguma outra razão, estava socialmente separada, era odiada ou, simplesmente, era alguém sem confiança dentro da comunidade. Há problemas que, por muito tempo, perduraram. E, de repente, num momento apetece: “Ah, a solução para estes problemas duradouros é começar uma caça às bruxas”.

Que impacto a Reforma teve sobre os processos?

Quando começa a Reforma há um declive, há uma pausa. As pessoas estão distraídas. Mas, por volta das décadas de 1550 e 1560, o número de processos e execuções aumenta de novo, especialmente na Alemanha. Um total de 70% dos processos e execuções aconteceu na Alemanha. Algo entre 90 e 95% das pessoas executadas por bruxaria falavam um dialeto alemão. Além disso, após a Reforma, são os tribunais seculares que processam as bruxas. E é aí quando as coisas se tornam realmente brutais. No período entre 1560 e 1660, que é quando as acusações mais brutais se encontram, são os tribunais seculares, com o incentivo das autoridades eclesiásticas, que os realizam. Parece também haver uma pequena associação com uma preocupação religiosa de reformar a sociedade cristã. As figuras eclesiásticas que se preocupavam com os pactos com o diabo estão também falando sobre a reforma da Igreja. Elas estão olhando para a cristandade e dizendo: “Estamos trabalhando nisso há 1.500 e ainda não temos o Reino de Deus. Por que isso? É porque muitíssimas pessoas estão fazendo pactos com o diabo”.

Por que havia mais processos por bruxaria na Alemanha do que em outras partes da Europa?

Imaginemos a importância dos atores locais em conseguir com que alguém fosse julgado por bruxaria. Se tivermos um sistema jurídico altamente centralizado, ele força camadas múltiplas de revisões. Na França, por exemplo, temos um número pequeno de execuções, e eles malogram logo em seguida. Depois de um entusiasmo inicial, este número estanca. Por quê? Por causa do sistema jurídico. Na França, um judiciário centralizado em Paris assume o papel-chave de supervisionar os processos. Um pequeno vilarejo perto de Toulouse poderia condenar 20 bruxas de uma vez só, mas estas condenações iam para Paris, e muitas delas que aí chegavam eram anuladas. O que não temos no Sacro Império Romano? Não temos um governo central forte. Temos o imperador, mas temos estes principados, mais de 300 deles, cada qual sendo o responsável pelo seu próprio sistema de justiça. Exatamente estas camadas de supervisão é que faltam, e isso uma das razões pelas quais os processos duraram todo aquele tempo na Alemanha. Qual o sistema jurídico mais centralizado da Europa nos séculos XV, XVI e XVII? A inquisição. Portanto, em lugares onde as inquisições organizadas – a romana e a espanhola – eram as mais fortes, quase não temos julgamentos por bruxaria. Na Espanha e na Irlanda, não temos quase nenhum. Na Itália, pouquíssimos. De novo, onde temos os sistemas jurídicos menos centralizados, vemos mais e mais casos [de processos].

Que lição os julgamentos por bruxaria nos deixam para os dias de hoje?

As tendências humanas que levam a elite e outras pessoas a conspirar para processar e perseguir nos primórdios da era moderna estão ainda entre nós, hoje. A nossa criatividade em fazer bodes expiatórios – em inventar ideologias para explicar coisas que a razão e a experiência real não dão conta; em expressar as nossas frustrações nos limites das nossas realizações com violência; em justificar esta violência com o apelo à raison d’etat [razão de Estado] e à pureza da crença – desconhece fronteiras. Curiosamente, foi a burocracia que deu início a esta calamidade particular, e a burocracia que o encerrou. A atenção à irracionalidade humana e a prática de duvidar de si próprio, especialmente quando se trata das formas como nós restringimos, punimos e acusamos os outros, são, com certeza, desafios recorrentes desde a caça às bruxas. Mas, então, não temos muita coisa no século passado que dê a entender que iremos, em algum momento, aprender esta lição.

Edição 131 Outubro 2017

Entrevista com o jesuíta chileno Felipe Berríos

O CUSTO DA VIAGEM DO PAPA AO CHILE

“A verdade não me dói, só me confirma o país em que vivo, onde tudo se vê e se conta em moedas, com uma lógica mesquinha, na qual se valoriza as pessoas pelo que possuem e o que gastam. Já estou acostumado com essa mentalidade”, disse o padre Felipe Berríos, a meio caminho entre a crítica social e o próprio cansaço. O jesuíta, que reside no Acampamento La Chimba, de Antofagasta, refere-se à polémica gerada pelo custo da visita do Papa Francisco, programada para janeiro 2018. A Comissão Organizadora da Igreja sempre disse que a viagem vaticana teria um valor aproximado de 4 bilhões de dólares, mas, naquele montante, não se levava em conta o aparato estatal, que inclui aspectos como logística e segurança, e que subiria para cerca de 7 bilhões. O valor total, de 11 bilhões, gerou questionamentos de alguns setores da cidadania e o apoio de outros. Ontem, a comissão da Igreja justificou o item, produto da altíssima convocação que o evento terá. Berríos assume a questão como um tema complexo. E analisa o mesmo a partir de quatro pontos: “O primeiro é que em qualquer visita de um chefe de Estado, do Dalai Lama ou de quem quer que seja, que gere reuniões tão massivas de pessoas, é o Estado quem deve prover a segurança necessária para esse dignitário e para as pessoas que o irão ver. E isso, obviamente, tem um custo importante. O segundo, já em uma esfera diferente, é o custo”, disse. (Entrevista de S Rodríguez /  IHU)

Em que sentido?

Em que a maioria das pessoas está chegando ao fim do mês apertado com o seu salário. Muitas famílias acabam vivendo com o mínimo, e escutar uma cifra desse volume, sem dar explicações completas de em que se gastará, claro, gera algum grau de irritação. As pessoas veem que não há dinheiro para cobrir a gratuidade da educação, para os jardins infantis, para o Sename, e escuta essa cifra; então, há uma reação compreensível de perguntar: Como se pode gastar isso?

A Igreja também defendeu o efeito positivo e intangível que gera a visita do Papa...

Meu terceiro ponto é que estamos todos muito metalizados. O nascimento de um filho se avalia pelo que iremos pagar; para um aniversário, o central é quanto sai; se se morre alguém, a primeira coisa que pensamos, mais que na pessoa e seu legado, é o dinheiro que custa o funeral. A medida de tudo é o dinheiro, mas não pensamos em outra classe de valores, nem no que pode contribuir uma visita como a do Papa.

E o quarto ponto?

Parece-me que as pessoas estão aborrecidas com a hierarquia da Igreja. E estão acusando, para dizer assim, as frases irônicas que disse um cardeal e outras pessoas sobre temas que importam a muitos. As pessoas estão aborrecidas com a Igreja e começa a procurar a quinta pata do gato, porque não a sente próxima. Fruto dos temas de abusos sexuais e de outras coisas, muitos já não veem algumas ações da Igreja com boa vontade, mas começam a criticar tudo e a perguntar para que se faz isto ou aquilo. Acredito que estes pontos se entrelaçam em relação à visita do Papa Francisco.

Foi um erro não planear, desde o início, que a viagem custaria, no total, cerca de 11 bilhões de dólares? Fica a impressão de que foi-se conhecendo a conta-gotas.

Pode ter sido um erro, como também que a comissão não tenha integrado mais as comunidades de base desde o início. Eu sei que há muito trabalho com carinho e esforço, e há muita pressão de tempo, mas a visita do Papa vem como de cima e muita gente talvez não se sente partícipe. No entanto, enfatizo que as pessoas devem saber que muitas coisas geram gastos. As partidas de futebol massivas, as apresentações e os festivais. Por muito que se pague uma entrada, a segurança e os desvios no trânsito geram um gasto pelo qual ninguém pergunta. Aí também há custos altos.

O Vaticano deveria colocar dinheiro?

O Chile não é um país pobre, como, sim, há outros na região. Por exemplo, agora vem um fim de semana longo e as passagens de avião estão tomadas, assim como os aeroportos. Somos um país que se queixa, um país com muitas desigualdades, mas não é um país pobre. Aqui, há dinheiro. Em relação ao Vaticano, claro que tem muita riqueza, mas não é efetiva, não é em dinheiro, é como um abstrato. Não pode dispor de tudo isso para fazer caixa e financiar as viagens. Acredito que é uma frase boa, eu mesmo a usei, mas na prática é difícil de traduzir em dinheiro. É algo mais complexo.

Entrevista com Yochai Benkler

Temos que revisar e reescrever todo o nosso sistema económico”

Yochai Benkler, autor de A riqueza das redes, estuda há mais de duas décadas a Internet e pesquisa o papel da informação em aberto e a produção colaborativa e descentralizada numa economia e numa sociedade conectadas. Logo percebeu o potencial da produção colaborativa on-line, das quais surgiram iniciativas como a Wikipédia e o sistema Linux, para gerar uma nova lógica económica. Jurista especialista em empreendimento, trabalha com uma visão económica que vai além da simples oposição entre Estado e livre mercado. O professor de Harvard fala de uma autêntica disrupção, de uma revolução cultural global. “Ao contrário do que nos querem fazer acreditar, a ideologia neoliberal, a propriedade privada, as patentes e o livre mercado não são os únicos pilares onde sustentar com eficácia uma sociedade. A produção entre iguais, baseada no bem comum, hoje, nos oferece uma alternativa económica coerente”, ressalta. A entrevista é de Bart Grugeon Plana, publicada por El Diario. Tradução do Cepat/ IHU.

Você afirma que a crise financeira demonstrou até que ponto a economia neoliberal não funciona. Qual é a alternativa?

A partir de 1980, nos dois países onde mais a visão neoliberal da economia e da sociedade predominou, Estados Unidos e Reino Unido, vemos que a desigualdade aumentou enormemente. O resultado é conhecido: Trump e o Brexit. Seu nacionalismo económico vem rejeitar de plano o relato que tradicionalmente o centro vendia, tanto a centro-direita como a centro-esquerda, sobre a organização da economia. Defendem uma ordem económica baseada numa liberalização sistemática que beneficia uma minoria muito pequena e que apresenta o desejo de lucro como o princípio fundamental. A visão dos dois candidatos de esquerda, Bernie Sanders, nos Estados Unidos, e Jeremy Corbyn, no Reino Unido, retoma um papel mais importante para o Estado... inclusive, aberto a nacionalizações, no caso de Corbyn. Portanto, surge como rejeição ao sistema existente que propõe soluções a partir de um nacionalismo económico com ódio às minorias, como é o caso de Trump e do UKIP, no Reino Unido, até o socialismo da “velha escola”. Este contraste é muito forte no mundo anglo-saxão e em outros países, mais ponderado.

É a eterna discussão sobre quem organiza melhor a economia: o estado ou o mercado...

As duas visões sobre o nosso modelo económico baseiam-se na ideia de que as pessoas são seres racionais que perseguem seu próprio interesse. Esta ideia se remonta à filosofia política de Thomas Hobbes e Adam Smith. É uma ideia antiquada e equivocada. Temos que revisar e reescrever todo o nosso sistema económico de acordo com novas regras. A pesquisa das últimas décadas em ciências sociais, biologia, antropologia, genética e psicologia mostra que as pessoas tendem a cooperar mais do que pensávamos. Portanto, é importante que desenhemos sistemas que impulsionem valores como a colaboração. Muitos dos sistemas sociais e económicos existentes, desde as empresas hierárquicas até a escola, usam mecanismos de controle e se baseiam em sanções ou recompensas. No entanto, as pessoas sentem-se muito mais motivadas quando vivem num sistema comprometido, no qual exista uma cultura de comunicação clara e onde compartilhem objetivos comuns. As organizações que estimulam nossos sentimentos de generosidade e cooperação são muito mais eficientes que aquelas que assume que nos movemos apenas pelo interesse próprio.

E como esta ideia pode ser aplicada à macroeconomia?

Ao longo da última década, surgiram novas formas de produção criativa através da Internet. São formas que não são controladas nem pelo mercado, nem pelo Estado. O software de código aberto como Linux, a Wikipédia, as licenças Creative Commons, diversos meios de comunicação social e numerosas associações na Rede criaram uma nova cultura de cooperação que, há dez anos, ninguém consideraria possível. Não são um fenómeno marginal, mas a vanguarda das novas tendências sociais e económicas. Não se baseiam na propriedade privada e nas patentes, mas, ao contrário, na cooperação livre e voluntária entre indivíduos interconectados por todo o mundo. É uma forma de bem comum adaptada ao século XXI: são bens comuns digitais.

Por que isso é tão revolucionário?

Basta pegar o exemplo da licença Creative Commons, que permite compartilhar o conhecimento e a informação sob certas condições. É um sistema flexível que considera o conhecimento como um bem comum ao qual outros podem contribuir. É algo fundamentalmente diferente da filosofia que há por trás dos direitos autorais. Demonstra que a gestão coletiva do conhecimento e a informação não só é possível, mas também é mais eficiente e conduz a muito mais criatividade que quando está capturada em licenças privadas. Após a queda do comunismo, muitos pensaram que os modelos que partem de uma organização coletiva conduziriam necessariamente à ineficiência e tragédia. Esta análise explica a desregulamentação e privatização da economia desde então, cujos efeitos vimos na crise de 2008. A nova cultura de cooperação global abre uma nova gama de possibilidades. Hoje, a economia do bem comum nos oferece uma alternativa coerente à ideologia neoliberal, que resulta ser um beco sem saída.

O que é este modelo de gestão do bem comum?

A produção e a gestão entre iguais tem séculos de antiguidade, mas como tradição intelectual consistente nasce com Elinor Ostrom, ganhadora do Prémio Nobel de Economia. Ostrom demonstrou que quando os cidadãos governam infraestruturas e recursos compartilhados como um espaço comum, muitas vezes em consulta com as instituições públicas, isso conduz a um modelo sustentável, tanto ecológico como económico. Igualmente, o modelo de gestão do bem comum é capaz de integrar a diversidade, o conhecimento e a riqueza da comunidade local. É capaz de levar em conta a complexidade das motivações e compromissos humanos, ao passo que a lógica do mercado reduz tudo a um preço e é insensível aos valores ou às motivações que não são inspirados pelos lucros. Nas últimas décadas, a gestão do bem comum adquiriu uma nova dimensão através do movimento do software de código aberto e toda a cultura dos bens comuns digitais.

Como podemos aplicar este modelo à economia moderna, extremamente complexa? É possível apresentar alguns exemplos?

Exemplos de bens comuns na economia moderna são, além dos bens comuns digitais, anteriormente mencionados, o modelo de gestão do espectro Wi-Fi. Diferente das frequências de rádio FM-AM, que requerem licenças de usuário, todos são livres para usar o espectro Wi-Fi, tendo em conta certas normas, colocando um roteador em qualquer lugar. Esta abertura e esta flexibilidade são incomuns no setor das telecomunicações. Fez do Wi-Fi uma tecnologia indispensável nos setores mais avançados da economia, como hospitais, centros logísticos ou redes inteligentes. Também no mundo académico, cultural, musical e da informação, o conhecimento e a informação são considerados cada vez mais como um bem comum que é possível compartilhar de maneira livre. Os músicos já não ganham sua renda das gravações, mas, sim, dos shows. Os académicos e os autores de não ficção publicam seu trabalho mais sob licenças Creative Commons, porque ganham seu pão ensinando, fazendo consultoria ou mediante fundos de pesquisa. Uma mudança similar se produz no jornalismo.

O mercado e a economia do bem comum são incompatíveis?

O bem comum é imprescindível para qualquer economia. Sem um acesso aberto ao conhecimento e à informação, às vias públicas, aos espaços públicos nas cidades, aos serviços públicos e à comunicação, não é possível organizar uma sociedade. Os mercados também dependem do livre acesso aos bens comuns para existir, ainda que depois tentem privatizá-los mais de uma vez. Mas, os bens comuns e os mercados podem existir uma ao lado do outro. Se a ideia de que uma empresa deve obter o máximo lucro para satisfazer seus acionistas domina como corrente principal é porque a ideologia neoliberal conseguiu marcar a agenda, nos últimos 40 anos, na política e na regulamentação. Contudo, não existe nenhuma lei natural que diga que a economia deva se organizar assim. Wikipédia mostra que as pessoas têm motivações muito diversas para contribuir voluntariamente com esta comunidade global que cria valor para toda a comunidade. Os exemplos dos bens comuns digitais podem inspirar na criação de projetos similares na economia real. Quando uma sociedade coloca os bens comuns no centro, os protege e contribui para seu crescimento, então podem conviver diversos modelos de organização económica, tanto projetos do bem comum, como privados, públicos e sem fins lucrativos. Uma economia baseada no bem comum coloca as pessoas no centro, com suas diferentes motivações.

Parece muito otimista sobre o futuro da produção e da gestão compartilhada...

Há muitos exemplos inspiradores de auto-organização segundo o modelo comum, mas está claro que sua expansão não ocorrerá de forma automática. São necessárias decisões políticas para transformar a economia e levá-la para além da lógica do mercado. É necessário um governo que regulamente, que tenha uma atitude decidida contra a concentração económica, e que apoie com o mesmo marco legislativo tanto modelos de bem comum, como diferentes tipos de cooperativas. Ao mesmo tempo, mais pessoas deveriam embasar seus ingressos em empresas com uma lógica de bem comum. Neste sentido, o movimento do cooperativismo de plataforma é uma evolução muito interessante. Desenvolve novos modelos de cooperativas que operam através de plataformas digitais e trabalham juntas em redes globais. São um contrapeso aos modelos de negócios da Uber e Airbnb, que aplicam a lógica de mercado à economia digital.

Isso nos leva às transformações do trabalho...

A crise económica atual e os ajustes proporcionam condições favoráveis para a experimentação com novas formas de organização. Por sua vez, e como resultado da automatização crescente da produção, expande-se o debate sobre o futuro do trabalho que separa “trabalhar” de “ganhar dinheiro”. Uma renda básica ofereceria a possibilidade de construir um sistema que permita ter diversas motivações para trabalhar. Outra opção poderia ser uma semana de trabalho mais curta. Deparamo-nos com uma tarefa enorme e não temos um manual detalhado que nos mostre o caminho.

Entrevista de Pierluigi Mele com Angelo Bolaffi

PARA ONDE VAI A NOVA ALEMANHA?

Toda a opinião pública europeia está questionando as consequências da votação alemã no domingo, 24 Setembro 2017. Uma votação que viu o colapso do consenso eleitoral dos dois partidos tradicionais: a CDU e SPD. Angela Merkel, chanceler reconfirmada pela votação, vai agora começar uma longa negociação para dar um governo para a Alemanha. Vamos tentar entender, nessa entrevista com o filósofo da política e grande estudioso da cultura germânica, publicada por RaiNews.como vai evoluir a situação política alemã. Tradução de Luisa Rabolini para IHU-JF.

Professor, eu gostaria de começar essa nossa entrevista citando uma frase de seu livro, escrito em conjunto com o economista Pierluigi Ciocca, sobre a Alemanha: "O verdadeiro segredo da liderança alemã de hoje, o que poderíamos chamar de fundamento da sua capacidade hegemônica, não é de natureza econômica, (...) mas é em primeiro lugar de natureza espiritual e cultural (...) uma espécie de milagre ético e político, um ‘milagre democrático’". Eu pergunto: depois dessas eleições com toda sua carga de novidades pesadas, a Alemanha ainda terá essa liderança? Ou seja, com que a imagem a Alemanha sai dessa eleição?

A pergunta é muito importante e interessante. Eu acredito que, justamente após essas eleições, iremos ver se esse milagre ético-político aconteceu e, portanto, a Alemanha será capaz de enfrentar esse novo desafio, ou se, como alguns críticos afirmam, uma espécie de "eterna" Alemanha vai reaparecer. Estou convencido de que a Alemanha Ocidental, após a Segunda Guerra Mundial, fez uma verdadeira renovação espiritual, que a levou a ser uma nação absolutamente fundada sobre valores ocidentais e valores da democracia liberal. Como todos os países do ocidente, também na Alemanha, hoje, estamos testemunhando um retorno a posições autárquicas e identitárias, fundamentalmente reacionárias. Desse ponto de vista, a votação de domingo mostra que a Alemanha também se tornou um país "normal" como todos os outros e, inclusive ali, existe uma direita que, em minha opinião, não terá futuro, mas certamente é um grande desafio para a Alemanha democrática.

Vamos falar sobre a eleição. Como todos, agora sabemos que as eleições marcaram sim a vitória de Angela Merkel, mas com uma grande perda de consenso, a devastadora derrota da SPD, o assustador avanço do partido de extrema direita AFD, o bom resultado dos liberais, dos verdes e da Linke. Eu lhe pergunto, qual é a causa "radical" da perda de consenso de Merkel? Todos os analistas eram unânimes em afirmar que ela teria um grande resultado, fruto de um bom governo. Mas algo deu errado. O quê?

Em primeiro lugar, o resultado demonstra que o que normalmente se fala, ou seja, que um bom governo (entendido como economia em funcionamento, desemprego no mínimo, poucos escândalos, etc.) é apreciado pelos eleitores, não é verdadeiro. O que os eleitores provavelmente quiseram expressar (obviamente não os eleitores da extrema-direita, mas os eleitores que protestaram) é que, no fundo, o seu voto não contava nada, que Merkel já havia vencido, que, portanto, não havia alternativa. Isso provocou uma "incomodação" em parte do eleitorado, que, aliás, estava cansado da "grande coligação" que normalmente tende a fortalecer o impulso para as alas extremas, tanto é assim que a Linke não perdeu e a AFD do leste teve um sucesso além de todas as expectativas.

Chegamos à SPD. Os social-democratas agora irão, salvo surpresas, para a oposição. Isso também para não deixar à AFD o espaço da oposição. Porém, quais são as razões para o colapso? Porque perdeu a força de suas bases?

Em minha opinião, o verdadeiro facto importante dessas eleições é a crise da SPD. Todos estão focados no AFD, que não vai durar, enquanto o declínio da SPD é um declínio histórico, atual e insere-se no declínio de toda a esquerda social-democrática europeia (na França e Espanha, vimos o que aconteceu). Acredito que existam dois motivos. Um primeiro motivo, que vincula todas essas realidades, é que está sendo cumprida a profecia Dahrendorf, que muitos anos atrás havia afirmado que o século social-democrático acabou. Além disso, a SPD afirma que perdeu seu vigor na grande coalizão, no sentido que levou água para o moinho de Merkel sem conseguir se diferenciar, tanto é assim que, logo que Schultz entrou em campo, por um momento houve um aumento dos consensos, segundo as pesquisas de opinião, imenso, e isso significa que os eleitores estavam procurando alguém para dar vida à democracia alemã.

Para renascer, será suficiente à social-democracia ficar na oposição ou também terá que passar por um processo de refundação cultural?

Terá que passar para a oposição, "lamber as feridas", reconstruir seu quadro político, porque Schultz não tem nenhum carisma como líder e precisará de uma reviravolta semelhante à que foi feita lá em 1959, em Bad Godesberg, ou seja, terá que reinventar uma estratégia social-democrática, caso contrário, sua queda será inevitável.

Vamos falar da AFD. Partido de extrema direita racista, neonazista, que angariou o desconforto da parte oriental da Alemanha. Pensa que poderá representar um perigo para a democracia alemã?

Um perigo não, um mau sinal, sim. É um "insulto" à imagem da Alemanha. Não é bom por razões históricas e políticas. Por outro lado, a situação é esta, e até mesmo a Alemanha sofre os contragolpes culturais, econômicos e político da globalização.

Falávamos, há pouco, do desconforto socioeconômico na Alemanha; desconforto que se mostrou pesado. No entanto, do lado de fora, na opinião pública europeia, é pouco percebido. Quais são os fatores de crise de um sistema que tem garantido, mesmo assim, um razoável bem-estar?

Penso que seja menos vinculado a fatores econômicos - que certamente existem - mas há uma preponderância de fatores culturais. Não é por acaso que nas regiões do leste que são seguramente, do ponto de vista econômico, subdesenvolvidas, mas do ponto de vista cultural e político atrasadas (vêm de uma falta de experiência democrática de cinquenta anos), vemos que vão bem a Linke e a AFD.

Entre os fatores da perda de consenso certamente há também o fator imigração. Você acha que o sistema alemão teve limitações?

Integrar um milhão de pessoas de religião muçulmana é muito complicado. Em minha opinião, foi subestimado o impacto psicológico desse fator sobre o qual influíram também elementos excepcionais (ataques terroristas), e, certamente, isso influiu. Por outro lado, o declínio demográfico da Alemanha não deixa alternativas: precisa de imigrantes. E aqueles que vêm para a Europa são, em sua maioria, muçulmanos, e isso é um problema.

Alemanha e Europa. Como acha que vai se desenvolver a relação?

Certamente teremos agora um semestre branco, porque é preciso aguardar as eleições da Baixa Saxônia na Alemanha, depois a formação do governo, e então há eleições na Itália. Teremos um momento de reflexão. Certamente aqui a velha metáfora da bicicleta cabe perfeitamente: a Europa não pode parar, porque ou vai para frente ou cai. Portanto, a Alemanha não pode ser senão uma Alemanha mais pró-Europa.

Edição 130 Setembro 2017

Elon Musk em entrevista ao La Repubblica

''A inteligência artificial causará a Terceira Guerra Mundial''

O vulcânico empresário não acredita na ameaça norte-coreana e lança uma discussão ao comentar as declarações de Vladimir Putin: “Um novo conflito poderia ser iniciado não pelos líderes dos vários países, mas por um dos seus sistemas de inteligência artificial”.

Reportagem é de Simone Cosimi, publicada no jornal La Repubblica, 04-09-2017. Tradução de Moisés Sbardelotto para IHU / JF.

Entre ameaça nuclear e inteligência artificial, Elon Musk, o voluntário patrocinador da Tesla, SpaceX, Hyperloop e várias outras empresas, todas com alta taxa de inovação, faz as suas previsões sobre o futuro do mundo e sobre uma possível Terceira Guerra Mundial alimentada e até mesmo desencadeada pelas próprias inteligências artificiais. Os pontos de partida são dois: por um lado, mais um teste atómico da Coreia do Norte, devastador desta vez, com uma bomba de hidrogênio que explodiu na montanha de Punggye-ri, provocando alguns terremotos que duraram vários segundos, avaliados em 6,3 e 4,6 graus na escala Richter. Por outro lado, as declarações de Vladimir Putin, feitas durante uma conferência transmitida na última sexta-feira via satélite para mais de um milhão de estudantes russos para a inauguração do ano letivo, segundo o qual “a inteligência artificial é o futuro, não só para a Rússia, mas para todo o género humano. Ela traz enormes possibilidades, mas também ameaças que são difíceis de prever. Qualquer pessoa que se torne líder nesse âmbito será o soberano do mundo”.

Musk, que também está profundamente envolvido no setor – basta pensar na automação dos seus Tesla –, é também, e não de ontem, bastante crítico em relação aos riscos ligados ao desenvolvimento de redes neurais cada vez mais sofisticadas e inteligentes artificiais capazes, mais cedo ou mais tarde, de tomar um caminho determinado em plena autonomia, sem a supervisão do ser humano.

Ele também fundou, com outros, a OpenAI, uma fundação para a pesquisa que busca dirigir esse campo para caminhos pacíficos. Em julho passado, o empresário sul-africano naturalizado estadunidense, por exemplo, convidou os governos a regular o âmbito, instituindo regras e princípios que permitam, de algum modo, guiar os seus passos nos próximos anos.

Há poucos dias, ele voltou à questão um apelo à ONU para frear a corrida rumo aos armamentos autônomos, assinado com outros 116 empresários e especialistas reunidos na International Joint Conference on Artificial Intelligence, em Melbourne.

A questão é tão cara a ele que ele voltou ao assunto também no Twitter. Nessa segunda-feira, no seu perfil, ele relançou um artigo sobre as frases de Putin e, depois, desencadeou uma longa discussão, na qual ele continuou participando com várias respostas sobre o assunto.

“China, Rússia, em breve todas as nações fortes na informática” desenvolverão sistemas de inteligência artificial, afirma. “A competição pela superioridade pode provocar a Terceira Guerra Mundial.”

A mensagem oculta é que essa disputa corre o risco de ser mais complexa e perigosa para o destino da população mundial do que o braço de ferro com Pyongyang.

Mais tarde, Musk voltou a ressaltar que – em uma espécie de previsão apocalíptica da chamada singularidade tecnológica, isto é, do momento em que as inteligências artificiais superarão as humanas – “um novo conflito internacional poderia ser iniciado não pelos líderes dos vários países, mas por um dos seus sistemas de inteligência artificial, se este decidisse que um ataque preventivo é o caminho ideal para a vitória”.

Em suma, o alerta é sempre o mesmo: poderia não ser mais necessário que alguém pressione o botão vermelho, porque as máquinas poderiam fazer isso sozinhas.

O facto de que a Coreia do Norte, de Kim Jong-un, no centro das preocupações da comunidade internacional e das discussões do Conselho de Segurança convocado para essa segunda-feira, pode provocar um conflito de porte planetário parece altamente improvável a Musk: “Seria suicida para a sua liderança”, tuitou o chefe da Tesla, nada novo nessas rixas sobre política internacional. “A Coreia do Sul, os Estados Unidos e a China a invadiriam, decapitando o regime imediatamente.”

Nem todos concordam com o empresário. Durante a troca de mensagens, ainda em desenvolvimento, a ponto de ter reunidos mais de 8.000 respostas e 14.000 “curtidas”, alguns responderam que o jovem marechal não é exatamente alguém que pensa de modo racional, outros lhe responderam que os governos nunca seriam capazes de desenvolver seus próprios sistemas de inteligência artificial e que as autênticas ameaças virão de empresas privadas. Tentando, assim, colocar o empresário contra o muro.

Musk reagiu com alguns tuítes, explicando, por exemplo, que os governos não devem seguir as regras e poderão obter essas soluções de inteligência artificial quando quiserem e usá-las para chantagear os outros.

Outros usuários, ainda, céticos sobre essa leitura dos factos, ressaltaram que, posta dessa forma, a questão Coreia do Norte parece realmente algo de pouca importância. E o fundador da SpaceX, que várias vezes definiu a inteligência artificial como uma espécie de “demónio” que estamos evocando sem pensar nas consequências, também voltou à questão: “A Coreia do Norte deveria ocupar um lugar muito baixo na lista das nossas preocupações. Ela não tem alianças a ponto de poder provocar um conflito global”.

Entrevista com Eduardo Mario Dias e Vidal Melo*

Revolução 4.0 e o risco
de uma transição traumática

O único aspecto que diferencia a Revolução 4.0 das demais é “a velocidade com a qual ela está acontecendo”, afirmam os engenheiros Eduardo Mario Dias e Vidal Melo em entrevista à IHU, conduzida por Patrícia Fachim. “Ela é caracterizada pela fusão entre os mundos físico e virtual. Até certo tempo atrás era fácil distinguir esses mundos, você se programava para se conectar à Internet, se programava para tirar a pressão ou medir seus batimentos cardíacos. Hoje você vive conectado à Internet e um Smartwatch pode medir seus batimentos cardíacos 100% do tempo e te comunicará caso algo fuja do esperado”, dizem

Como compreende o fenómeno da Revolução 4.0? Em que aspectos ela se distingue das demais revoluções industriais?

A quarta revolução que estamos vivendo é diferente por um único motivo, a velocidade com a qual ela está acontecendo. Em relação aos outros aspectos ela é semelhante às demais, ou seja, transformará a forma de viver, trabalhar, estudar. Ela é caracterizada pela fusão entre os mundos físico e virtual. Até certo tempo atrás era fácil distinguir esses mundos, você se programava para se conectar à Internet, se programava para tirar a pressão ou medir seus batimentos cardíacos. Hoje você vive conectado à Internet e um Smartwatch pode medir seus batimentos cardíacos 100% do tempo e te comunicará caso algo fuja do esperado. Agora imagina essa capacidade em tudo o que conhecemos. A capacidade de sentir, registrar e atuar com o mínimo de interação humana. A capacidade de cruzar todos esses dados, a capacidade de imprimir um produto na sua própria casa, a capacidade de vestir tecnologia, a capacidade de viver com tecnologia dentro do corpo etc.

Quais são as consequências, digamos, positivas e negativas da Revolução 4.0?

Positivas são várias, a área da saúde certamente será uma das mais impactadas em relação ao resultado. Viveremos mais tempo, com melhor qualidade. Na área industrial, o nível de automação e customização será máximo. Uma indústria será capaz de produzir um tênis moldado especificamente para o seu pé e com as cores que você escolher. Você pode me perguntar: mas isso já não é possível hoje? Sim, é, porém o custo disso ainda é inviável. Poucas pessoas têm acesso. Rapidamente o custo cairá e se viabilizará para qualquer pessoa. Já os negativos são difíceis de serem previstos. Já estamos vendo uma extinção de postos de trabalho e a criação de outros. Isso sempre aconteceu, basta lembrarmos dos cursos de digitação e das máquinas de datilografar, dos filmes e da revelação de fotos, do telefone público e seu cartão etc. O grande risco, como mencionei acima, é que até as últimas revoluções o mundo teve tempo de se adaptar e as transições foram menos traumáticas. Nessa, pela velocidade, talvez a transição seja mais traumática e não permita a adaptação de muitas pessoas, aumentando o distanciamento cultural, financeiro e intelectual entre elas.

Como a Revolução 4.0 modifica o nosso modo de produzir e viver?

Já está modificando. Hoje, se você quiser, nunca precisará ir a uma agência bancária. Todo o processo, desde a abertura da conta e movimentação de recursos pode ser feito a distância. O transporte por aplicativo é outro exemplo, antes você ligava em uma central de radiotáxi, alguém atendia, passava um rádio para todos os taxistas para ver qual estaria mais próximo do local. Depois de confirmado com o taxista, a central te ligava de volta dizendo que em mais ou menos 20 minutos o táxi estaria na sua porta. Hoje é tudo automático, sem nenhuma interação humana entre você e o motorista. Pegue esse exemplo acima e reflita com o que vai acontecer em pouco tempo: o carro vai chegar e te levar sozinho, sem motorista. Você falará com o carro. Vamos dar mais um passo? Você não falará com o carro, sua agenda falará com o carro automaticamente. Ela calculará o trânsito, chamará o carro com o tempo necessário para você se deslocar e te avisará que você deve estar pronto às 10 horas. Tudo isso no dia anterior. Isso parece futuro? Pois bem, não é, não.

Recentemente foi publicada uma notícia informando que apesar da crise e com as fábricas ociosas, as montadoras continuam investindo em robotização e que a indústria automobilística instala, apenas no Brasil, 1,5 mil robôs por ano. Qual é a expectativa desse setor em relação à Revolução 4.0?

Não vejo a robotização como quarta revolução industrial. Ela é da terceira. A quarta é mais caracterizada pela capacidade do robô em alertar que precisará de manutenção daqui a três dias, pois seu braço esquerdo está trepidando e automaticamente acionará a assistência técnica para uma substituição de peça.

Comparado a outros lugares do mundo em que os investimentos em tecnologia são muito maiores do que no Brasil, qual diria que é o quadro de investimento em automação elétrica hoje no país? Ainda nesse sentido, qual é o lugar que o Brasil ocupa em termos de competitividade e desenvolvimento nesse setor?

Estamos atrasados e os motivos principais são dois: mão de obra ainda barata e a tecnologia cara, como você comentou. Não tenho esses números de cabeça, mas vejo que estamos perdendo uma grande oportunidade. Toda revolução é uma oportunidade. Se o Brasil investisse mais em ciência e tecnologia, poderíamos ser os protagonistas dessa quarta revolução e exportarmos nossas invenções. Meu receio é que sejamos grandes compradores de soluções criadas ao redor do mundo, como somos compradores da maioria das tecnologias que consumimos. No máximo as coisas são montadas no Brasil, as tecnologias de ponta são desenvolvidas e fabricadas fora.

Diante do avanço da Revolução 4.0, uma das preocupações que surgem é em relação ao emprego. Entretanto, os pesquisadores da área divergem acerca de quais serão as consequências dessa modificação no mundo do trabalho. Na sua avaliação, a Revolução 4.0 põe em xeque o emprego tal como o conhecemos hoje? O que deve mudar nesse aspecto nos próximos anos?

Concordo, assim como a primeira, a segunda e a terceira revolução colocaram em xeque os empregos da época. Alguns sumiram, outros foram transformados e outros permaneceram iguais. É muito difícil de prever. O maior risco que vejo é o que comentei acima, sobre a capacidade de adaptação baseada na velocidade em que as coisas estão acontecendo.

Em que consiste o Projeto Canal Azul, desenvolvido pelo Grupo de Automação Elétrica em Sistemas Industriais - GAESI?

Consiste exatamente na fusão do mundo físico com o virtual nas operações logísticas. Ou seja, na criação de um lacre eletrônico que acompanha a carga e permite uma série de ações automáticas enquanto a carga está em trânsito. É possível monitorar a carga, antecipar procedimentos administrativos, rodar motores de análise de risco, avisar o destinatário do tempo estimado de chegada etc. Tudo automaticamente.

Quais são as principais contribuições da Revolução 4.0 para a criação de cidades inteligentes e sistemas de transporte inteligentes? Ainda nesse sentido, que problemas as tecnologias solucionam nesses âmbitos?

É total. Algo só é verdadeiramente inteligente se possuir partes das características humanas de sentir, pensar e agir. Ou seja, uma cidade que sente, por meio de sensores, o que está acontecendo, pode automaticamente avisar seus cidadãos e evitar desastres. Cito alguns exemplos que unem os dois tópicos que você mencionou. Em uma cidade inteligente: um ônibus atrasado terá preferência de passar em um semáforo e tentar recuperar seu tempo; o carro na sua frente, diante de uma situação que demande uma freada brusca, se comunicará com seu carro e acionará para acionamento automático do seu freio, e assim evitará um engavetamento; em vias completamente autônomas não existirão mais semáforos, pois os carros trocarão informação do seu percurso e de seus próximos passos.

* Eduardo Mario Dias é doutor, mestre e graduado em Engenharia Elétrica pela Universidade de São Paulo - USP. Desde 1994 é professor titular da USP, onde ministra cursos na graduação e na pós-graduação na Escola Politécnica. Atualmente também é coordenador do Grupo de Automação Elétrica em Sistemas Industriais - Gaesi.
Por sua vez, Vidal Melo é graduado em Engenharia de Produção Mecânica pelo Instituto Mauá de Tecnologia, pela Escola de Engenharia Mauá e doutor em automação pela Escola Politécnica da Universidade de São Paulo - USP

Edição 129, Junho 2017

Entrevista com Mariana Herrera

A identidade é muito mais que os genes; com ela restituímos a história”

Herrera assumiu a direção do Banco em 2015, através de um concurso público, após a modificação da lei que o regulamenta. Bióloga especialista em genética forense, Herrera repassa os 30 anos da instituição criada durante o governo de Raúl Alfonsín a pedido das Avós da Praça de Maio para comprovar a identidade das crianças – hoje adultas – que repressores haviam apropriado. Foi um caminho que começou do zero, porque não havia antecedentes no mundo. Atualmente, passam por mês pelo BNDG entre 100 e 120 pessoas que suspeitam que podem ser filhos de desaparecidos. “A identidade é muito mais que os genes. Nós estamos restituindo a história. É, além disso, prova de que houve um crime de lesa humanidade e permite que a sociedade o saiba. Porque também há uma identidade social que é recuperada, não é apenas o neto que é restituído; é como tudo se acomoda na sociedade”, disse Herrera sobre o processo que acompanha a “descoberta” de cada neto. Entrevista de Victoria Ginzberg, publicada por Página/12, 30-05-2017. Tradução de André Langer.

Quais são os marcos ou as etapas do Banco nestes 30 anos?

Há três etapas. Elas não têm a ver apenas com a história do Banco, mas com a idade das crianças. Na primeira, todos os casos eram judicializados, as crianças eram enviadas pela Justiça para fazerem os exames, eram menores de idade. É a etapa mais complexa, porque nesta época não havia Bancos de Dados Genéticos no mundo, a genética forense não era aplicada em causas tão complexas como a falta da geração dos pais. Eram feitas análises de paternidade simples, mas estas situações não eram contempladas. Tudo estava para ser criado. Durante o franquismo, por exemplo, mais de 40 mil crianças foram tiradas de suas famílias, mas não foram criados bancos para sua identificação. Somente agora eles estão discutindo a questão. O DNA ainda estava na sua etapa preliminar; havia apenas testes serológicos. A primeira diretora do banco, Ana María Di Lonardo, junto com o pessoal da Associação Americana pelo Avanço das Ciências, fizeram um grande esforço. Também foi uma etapa complexa do ponto de vista político – a democracia ainda era muito frágil.

Havia um discurso acerca de que era melhor não “perturbar” as crianças e deixá-las com as famílias que as adotaram.

Havia uma sociedade que acompanhava esse discurso, pessoas que diziam que era vitimizá-las novamente, quando, na realidade, as crianças continuavam a ser vítimas o tempo todo, todos os dias, até que recuperassem sua identidade. Mas quando se analisa isso no contexto do que aconteceu na América Latina, o que aconteceu na Argentina, a maneira como se encarou esta situação, foi um ato de coragem.

Além disso, o “índice de abuelidad”, que permitia identificar netos e netas a partir das avós e dos avôs não existia no mundo.

As Avós viajaram a muitíssimos países da Europa e aos Estados Unidos para consultar matemáticos e cientistas, e a resposta era que se tratava de alguma coisa a ser pensada, mas que não viam solução. Foi organizado um congresso internacional para debater este tema e a partir daí as coisas começaram a avançar. Foi um gatilho para a estatística forense internacional. Os primeiros testes de DNA foram feitos em 1985 e tinham a ver com testes de paternidade. Não era possível usá-los para os casos em que os avós estavam envolvidos. Essa etapa teve a ver com o desenvolvimento de algo que não existia.

A segunda etapa?

É a partir dos anos 90-95. Já existem marcadores genéticos, as técnicas começam a ser padronizadas, aparecem os primeiros kits e começa-se a propor a questão da automatização. Nesse momento, as crianças já eram maiores de idade e suas vozes começam a se fazer ouvir. Era uma época neoliberal e também havia questionamentos. Mas, mesmo assim, durante a presidência de Carlos Menem criou-se a Comissão Nacional pelo Direito à Identidade (Conadi). E, em 1998, por decreto, permite-se que a Conadi possa enviar as crianças para o BNDG. Com isso, não era mais necessário abrir um processo judicial para obrigar uma pessoa a vir ao banco, mas a Conadi podia pedir uma amostra voluntária. Começou-se a simplificar o vínculo, os rapazes começaram a vir sozinhos, e pelas estatísticas é possível ver que aumentou muitíssimo o número de identificações, devido às técnicas de DNA e à quantidade de jovens que começaram a chegar. Nessa etapa houve melhorias, embora no imaginário da sociedade ainda não houvesse uma identificação com o que tinha acontecido, não se compreendia que o que estava sendo restituído era a identidade social.

Isso aconteceu na terceira etapa?

A partir de 2003, as metodologias já estão automatizadas e sistematizadas, aparecem os controles de qualidade nos laboratórios. Começa a ser discutida a criação de uma base de dados de DNA para identificação de pessoas, crimes, violações, etc. A partir de 1995, começa-se a criar as primeiras bases de Dados para Identificação de Desaparecidos, por exemplo, na Bósnia. Havia um trabalho mais institucionalizado. A ciência começa a elucidar os crimes cometidos e a fazer a identificação dos corpos de valas comuns, surge o trabalho da equipe argentina de Antropologia Forense; tudo isso ajudava. A partir de 2003, quando Néstor Kirchner assume como compromisso a política de direitos humanos, tudo isso se consolida. E os netos começam a ter também voz política. São criadas diversas leis que estão em sintonia com o que se estava fazendo.

Que mudanças foram implementadas depois que você tomou a frente do Banco?

As mudanças têm a ver com a lei de 2009. A primeira lei do BNDG era muito ampla. Aqui não havia laboratório de genética forense que fizesse outras análises e o objetivo era resolver os conflitos relativos à filiação em geral e em uma parte tratava da identificação dos netos. Mas o banco em si, as amostras, era exclusivo dos netos, das Avós. Os outros eram casos que eram tramitados, começavam e terminavam, faziam-se as análises de paternidade e o relatório, mas não se depositava amostras na base de dados. Em 2009, a lei precisa o objetivo do banco relacionado apenas com crimes de lesa humanidade.

Houve críticas por isso.

Nesse momento, a discussão era que o banco, ao ter que se dedicar a outras tarefas, tinha tempos mais longos, ao passo que já existiam outros laboratórios públicos e do Poder Judiciário que podiam absorver essa outra tarefa.

A partir dessa mudança, os tempos das análises foram encurtados?

Sim. Como falta a geração dos pais, nós temos que analisar o DNA mitocondrial, quando é um homem, o cromossomo. E para ver se compartilha a linha paterna, temos que buscar no mínimo 24 marcadores genéticos para que haja uma boa probabilidade no caso que inclua um grupo familiar. Às vezes, o grupo familiar está incompleto e devemos completar com o cromossomo X. Às vezes, precisamos pedir à Conadi para que procure um novo familiar ou exume um corpo para melhorar a prova. Agora, o tempo entre o jovem vir e receber o resultado, em geral, varia entre 15 dias e dois meses.

Quantas pessoas vêm para fazer análises por mês?

Por mês, estamos analisando entre 100 e 120 pessoas que vêm para comparar-se com as 300 famílias que têm amostras no banco.

Cento e vinte por mês é muito. Há muitíssimas pessoas com dúvidas.

Agora há uma consciência de que a substituição da identidade é um crime penal. E deve-se ao trabalho das Avós. Agora sabemos que é muito importante dizer a verdade aos jovens. Mas era uma prática comum registrar crianças adotadas como próprias. Além disso, durante a ditadura, aprofundou-se o tráfico de bebês, para além de casos associados à lesa humanidade. Havia circuitos que os próprios militares usavam para as apropriações, por um lado, mas também para vender bebês. A razão pela qual muitos jovens vêm é que são vítimas de todas essas irregularidades dessa época.

O que acontece, então, com essas pessoas? A Associação das Avós criou uma expectativa em relação à verdade e à identidade em muitas pessoas, mas não pode atender à expectativa de todos.

Algumas pessoas vieram ao banco e o resultado deu negativo. Para comparar com o banco precisa haver pais ou famílias que estejam à sua procura. Na maioria dos casos em que foram dados em adoção houve uma entrega voluntária, além de que as crianças eram registradas como próprias. Essa pessoa não está à procura desse jovem. Seria necessário comparar com todo o país e mesmo assim dariam falsos positivos em grande quantidade, porque é uma amostra muito grande.

E como são controlados os falsos positivos com os netos?

Há uma fantasia na Justiça e na sociedade de que o DNA resolve tudo.

Nós vemos muitas séries.

Exatamente. Essa é a porta de entrada para que a Justiça não investigue bem nenhum caso em geral, mais além deste tema. E que deixe de lado outras provas que fazem que se inclua ou descarte mais além do que diz o DNA. Há investigações preliminares feitas pela Conadi ou pela Justiça. Se um jovem vem ao banco e tem data de nascimento em 1976 e dá uma valoração alta com uma pessoa que foi sequestrada grávida nos anos 80, sabemos que não tem relação. Por outro lado, aqui se analisa o DNA mitocondrial e o cromossomo Y. E essas são ferramentas muito poderosas para descartar um falso positivo.

Como define a identidade? O que é?

A identidade é uma construção muito mais complexa que o biológico. Para os biólogos, existe o genótipo, que é a genética pura, a sequência de DNA. O fenótipo é o que se é perambulando pela vida. Para mim, a identidade é aquilo que se é caminhando pela vida e nisso há um impacto genético, que tem a ver com a origem biológica, mas também, 70% ou 80% é construção cultural. Falo de um indivíduo crescendo em um lugar social, indo a uma escola, alimentando-se de uma determinada maneira, tendo se criado em uma determinada família.

O que significa, então, a restituição da identidade?

Os netos recuperam sua identidade biológica, mas no momento em que recuperam sua identidade biológica já há uma mudança na identidade dessa pessoa, uma mudança cultural em sua história. Começam a somar a história que viveram desde que tinham conhecimento e a história recuperada de seus pais, amigos, companheiros de militância, avós, o que leem. Além dos novos vínculos. Esse impacto, que deveria ter entrado no momento do seu nascimento para construir uma identidade que tivesse sido diferente da atual, entra na idade em que se restitui sua identidade biológica. Isso é uma parte desse quebra-cabeça. A identidade é muito mais que os genes. Nós estamos restituindo história, damos-lhe a valoração objetiva, uma prova científica que restitui a história, a verdade. É, além disso, a prova de que houve um crime de lesa humanidade e permite que a sociedade tome conhecimento. Porque também há uma identidade social que é recuperada, não é somente o neto restituído; é como tudo se acomoda na sociedade. A sociedade é muito negadora e enfrenta isso, isso aconteceu. A prova científica abre a porta para uma série de restituições, não apenas a restituição biológica.

Como se preserva a independência do banco, sobretudo neste contexto político?

O banco é autônomo e autárquico. Apresenta seu próprio orçamento. Obviamente, passa pelo Congresso, que pode fazer cortes. Até agora nos viramos perfeitamente bem. (O ministro da Ciência, Tecnologia e Inovação Produtiva) Lino Barañao tem um grande compromisso com o banco, sonhou este laboratório e onde colocar o banco de frente com a sociedade. Fez um grande investimento e nos deu apoio incondicional.

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Edição 128, Maio 2017

Entrevista na íntegra ao jornal El Espanol

NEM A LÚCIA VIU O 'MILAGRE DO SOL'!

Toda a DCF assenta numa cópia do Pe. Lacerda

1 Porque decidiu ser padre da Igreja Católica?

Desde menino, digo reiteradamente a minha mãe, Quando for grande quero ser padre. E, logo acrescento baixinho, só para mim, Mas para ser diferente dos que conheço. Quando, depois de 12 anos de Seminário do Porto, modelo tridentino, sou ordenado presbítero (padre), no dia 5 de Agosto de 1962, com 25 anos de idade, tomo a firme decisão de ser padre pobre por toda a vida, condição absolutamente indispensável para poder ser padre diferente de todos os que até então conheço e venho a conhecer. E assim tem sido. A prova é que hoje vivo numa casinha arrendada e exclusivamente da reforma de jornalista profissional que, sem deixar de ser padre, também sou, desde 1975, por isso, presbítero-jornalista.

2 Durante a ditadura foi detido pela DGS varias vezes. Porque?

Fui preso político na prisão de Caxias, construída pelo regime fascista de Salazar exclusivamente para presos políticos que tinham de aguardar lá o julgamento nos tribunais plenários. A primeira vez (Julho 1970 a Fevereiro 1971): a segunda vez (Março de 1973 a Fevereiro de 1974). Motivo das duas prisões: depois de ter sido expulso de capelão militar na Guiné-Bissau, por pregar a paz aos soldados do meu batalhão que estavam a fazer a Guerra Colonial e de defender nas homilias das celebrações litúrgicas a que presidia, o direito dos povos colonizados à sua autonomia e independência, nunca mais a Pide/DGS me largou o pé. Apesar disso, quando sou nomeado pelo bispo do Porto, D. António Ferreira Gomes, pároco de Macieira da Lixa e, em Outubro de 1969 começo a exercer esse serviço pastoral, de acordo com a minha consciência, mais do que de acordo com os cânones ou regras do Código de Direito Canónico, sei perfeitamente que estou sob vigilância apertada da Pide e da Diocese. Nas minhas práticas presbiterais e no anúncio do Evangelho de Jesus Século XX, aplicado às circunstâncias sociais, económicas e politicas da altura, não posso deixar de me referir explicitamente à Guerra Colonial que prosseguia em três frentes de África, aos presos políticos, aos jovens condenados a ir para a Guerra ou que fugiam dela para a França como emigrantes clandestinos. Tudo o que um pároco da igreja católica politicamente correcto não deveria referir-denunciar, porque existia e anda hoje existe, desde 1940, a Concordata entre o Estado do Vaticano e o Estado português. Depressa caio em desgraça perante os representantes dos dois Estados. Primeiro, o Estado português. Sou duas vezes preso pela sua polícia política, duas vezes julgado pelo seu Tribunal Plenário do Porto e duas vezes, estranhamente, absolvido pelo mesmo Tribunal, precisamente, ao abrigo da Concordata. Só não sou absolvido pelo bispo da diocese que me nomeia para a paróquia e, quando sou preso pela segunda vez, me retira a função de pároco até hoje. O que me levou e leva a concluir, fundadamente, que o Evangelho de Jesus (não confundir com o evangelho de S. Paulo!) não pode ser praticado-anunciado na igreja católica romana, sob pena de anátema para o seu arauto!

3 Qual é a sua relação actual com a Igreja?

A minha relação com a Igreja é a que acabo de referir na resposta anterior. Sou desde 21 de Março de 1973, o dia em que sou preso segunda vez pela Pide, presbítero sem ofício canónico e também sem nenhum benefício canónico. E, desde 1975, sou presbítero-jornalista, com Carteira profissional, agora na situação de reformado muito activo. Com destaque nas redes sociais, no Youtube, nas dezenas de livros que tenho escrito e editado ao correr dos anos, neste momento, já 47, nas muitas intervenções nas tvs, sempre que convidado, em múltiplos encontros ao vivo por todo o país. Respiro alegria por todos os poros, rio e canto, cultivo o Humor teológico que para mim é o outro nome de Deus que nunca ninguém viu e, por isso, quando se põem a dissertar sobre Ele, como fazem os hierarcas eclesiásticos, no topo dos quais, o papa de Roma, e os pastores dizimistas das igrejas protestantes, sobretudo, as mais recentes, só dizem disparates. Chegam a ganhar aos humoristas profissionais, tantos os disparates que lhes sai bocas fora e que me fazem rir a bom rir. Pessoalmente, dou-me bem com todos os bispos que têm passado pela diocese do Porto, ainda que da parte deles não me chegue qualquer sinal. Para eles, já não existo, o que não deixa de ser motivo de Humor, uma vez que trabalho mais, muito mais do que todos eles em actividades criativas e fecundamente pastorais, ao contrário da generalidade deles que são muito preguiçosos e, quando fazem alguma coisa, quase se limitam ao que está nos respectivos Rituais e nos Missais. Uma lástima.

4 A Igreja Católica afirma que entre o 13 de maio e o 13 do outubro de 1917 a Virgem Maria apareceu na presença dos três pastorinhos em Cova da Iria. O que considera que realmente aconteceu?

Sobre esta temática, devo dizer que dificilmente haverá alguém em Portugal que mais saiba acerca das chamadas aparições” de Fátima e que mais tenha escrito e debatido esse não-evento, esse não-assunto. Os meus dois livros sobre este tema são por demais reveladores e indesmentíveis. São eles, FÁTIMA NUNCA MAIS, Campo das Letras 1999, presente em milhares de casas de Portugal, e FÁTIMA $.A. Seda Publicações Maio de 2015, todo ele baseado na chamada Documentação Crítica de Fátima, publicada em vários volumes pelo Santuário, numa edição em parceria com a Universidade Católica Portuguesa. Tanto um como outro são literalmente arrasadores. Devo dizer que, a propósito do centenário, este ano, fiz o que pude e o que não pude para que o papa Francisco não viesse canonizar todo aquele embuste, pior, toda aquela mentira, todo aquele crime. Acontece que ele vem e, para cúmulo, ainda vem canonizar os dois irmãos, Jacinta de 7 anos, Francisco de 8 anos, vítimas mortais de todo o mal que os clérigos de Ourém lhes fizeram e às suas mentes aterrorizadas com as “visões” do inferno descritas no livrro, Missão Abreviada”, de leitura frequente na casa da Lúcia, quando, afinal, até os papas hoje dizem que não existe, pelo menos com todas aquelas labaredas e aqueles pecadores feios e maus que as três crianças aterrorizadas são postas a dizer que a senhora da carrasqueira lhes mostrou. Acontece que o papa é jesuíta e, como tal, tem voto de obediência ao papado, neste momento, protagonizado por Francisco, ele próprio, o rosto primeiro e único ( = monárquico) do Sistema de doutrina cristã católica ortodoxa que, no imperador Constantino, conquistou o império romano e, mais tarde, nas chamadas descobertas e conquistas, toma a decisão de espalhar-impor, pela cruz e pela espada, mais a Bíblia, a sua Fé e o seu Império. O que continua a fazer actualmente através das múltiplas empresas missionárias, com mulheres e homens dedicadíssimos, mas em prol de uma causa intrinsecamente má, que elas e eles têm como perfeita, divina, até. Fora da qual – continua ainda hoje a dizer – não há salvação!!! Quem ler o meu livro FÁTIMA $.A. (sexta edição Março 2017) conclui que há duas Fátimas: Fátima 1, de 1917 a 1930, quando o bispo da restaurada diocese de Leiria, reconhece, para sua vergonha, como “dignas de fé”, as “aparições” de Fátima; e Fátima 2, de 1935 até aos nossos dias, a das chamadas “Memórias da Irmã Lúcia, freira à força, primeiro doroteia, em Tuy, Galiza, depois carmelita de clausura, em Coimbra. Posso garantir que Fátima 1 é toda criação de alguns clérigos de Ourém, sob a forma de um tosco teatrinho, concebido e programado para levar à cena seis vezes, de 13 de maio a 13 de outubro, num dos campos dos pais de Lúcia, a mais velhita dos três, o qual tinha no seu chão uma avantajada carrasqueira. A acrtiz principal, Lúcia, é a única que é ouvida a pronunciar palavras decoradas, sob a forma de perguntas que teria de fazer de joelhos virada para a carrasqueira. No dia 13 de maio, não está nenhum público. Nos outros dias, sim e cada vez mais, graças ao trabalho dos clérigos párocos do país, furiosos que estavam com a implantação da República em 1910 e, sobretudo, com a publicação em 1911, da Lei de separação entre a igreja e o estado português, que lhes retirou muitos dos seus privilégios, teres e haveres. É preciso dizer que o cérebro de toda esta encenação é o cónego Formigão, na altuta professor do Seminário de Santarém, que antes de conceber e escrever o guião do teatrinho, passou cerca de 2 meses em Lourdes, a saber como tudo lá tinha sido montado e, por então, já estava a resultar e a facturar. A prova mais evidente de que é um taatrinho é que, em Agosto de 1917, não houve sessão no dia, hora e local anunciados, o dia 13, porque o governador do concelho de Ourém decidiu levar com ele, na manhã desse dia, as três crianças para sua casa, onde puderam brincar com os filhos dele de idades muito próximas, e só as voltou a trazer no dia 15. Pelo que, sem a presença dos actores, não houve quem fizesse perguntas na direcção da carrasqueira e as muitas pessoas presentes não puderem ver nem ouvir nada. Mesmo assim e para que o mês de agosto não ficasse sem “aparição”, os clérigos fazem crer que ela aconteceu à tardinha no dia 19 desse mesmo mês. Finalmente, quero deixar bem claro que das duas Fátimas, a que se impôs ao mundo, é a Fátima 2, de 1935 em diante, quando, aí sim, a Rússia comunista e ateia já era uma temível realidade para a igreja católica e para o Ocidente cristão, ao contrário da Fátima 1, em 1917, que era ainda a Rússia dos Csares, cristã ortodoxa. O mais caricato de tudo é o facto indesmentível que a própria Documentação Crítica de Fátima teve de reconhecer, manifestamente a custo, é que o primeiro documento-base de todos os outros, elaborado ao que se diz pelo pároco de Fátima nunca foi encontrado, nem sequer pelo Cónego Formigão. Por isso, toda a Documentação assenta numa cópia que o Pe. Lacerda fez, segundo ele, a partir do original que chegou a ter nas mãos. Não havia fotocopiadores e ele diz que fez uma cópia à mão, mas nem sequer teve o cuidado de arregimentar duas ou três pessoas suas súbditas, para verificarem que a cópia correspondia ao original e assinarem uma declaração conjunta nesse sentido. Querem maior parvoíce do que esta?!

5 Qual é a sua interpretação do chamado milagre do Sol, supostamente presenciado por cerca de 50 mil pessoas, quando o Sol girou sobre si mesmo como uma roda de fogo e logo pareceu precipitar-se sobre a Terra? Foi uma alucinação colectiva, ou simplesmente um exagero da imprensa da época?

Obviamente que o sol não bailou em Fátima no 13 de outubro 1917. Isso foi uma manchete em toda a largura da primeira página do extinto jornal O SÉCULO. O repórter que se prestou a fazer esse frete ao clero de Ourém foi um ex-seminarista que depois se dizia ateu. E é nessa condição que inventa esse título, a que os clérigos de então e ainda hoje se agarram desesperadamente, sem se aperceberem da aberração que semelhante manchee cientificamente hoje representa. A verdade é que o repórter fotográfico que o acompanha e está com ele entre aquela multidão de humilhados e famintos, atolados na lama da chuva intensa que caiu durante a noite e parte da manha, nada viu de anormal no sol, assim como a sua máquina fotográfica nada registou, anão ser a crédula e aterrorizada multidão. De resto, quem ler o texto integral conclui que a manchete não tem o mais pequeno suporte. É mesmo um mero título panfletário que, para vergonha do jornalista que se prestou a este papel, fica para sempre ligado ao seu nome 1. O mesmo SÉCULO, dias depois, viu-se obrigado a escrever que o sol nunca bailou em Fátima. Nem podia. Aliás, nem sequer a Lúcia viu nenhum milagre do sol. O que ela é posta a dizer é que, quando olha para o sol, viu S. José, o menino-jesus, nossa senhora das dores e outras imagens mais, precisamente, as que via na igreja paroquial de Fátima. Para Lúcia, a grande notícia que tem a dizer às pessoas nessa última sessão do teatrinho das “aparições”, é que a senhora da carrasqueira lhe garante, “A guerra acaba hoje”. Só que, como sabemos, a primeira grande guerra só acabou mais de um ano depois. E nem queiram saber a ginástica interpretativa que o cónego Formigão teve de fazer para justificar esta suposta afirmação, A guerra acaba hoje, como os clérigos tinham informação nesse sentido e verificam depois que não acabou. O relatório que tem de apresentar ao bispo, para ele poder anunciar em 13 de Outubro de 1930 que as “aparições” são dignas de crédito regista tudo. O meu Livro FÁTIMA $.A. é duma eloquência atroz. Leiam e verão. Uma perfídia sem nome!

6 Nos seus livros argumenta que a Igreja católica tem perpetrado uma fraude em Fátima. Qual foi o papel do clero de Ourém (e, em particular, do Cónego Nunes Formigao) nesta operação? Qual foi a motivação pela parte da Igreja?

O motivo era derrubar a República, restaurar a diocese de Leiria e arrastar de novo as populações para os cultos das igrejas, de onde estavam cada vez mais afastadas e, sobretudo, reintroduzir a abandonada reza do terço. A diocese restaurada veio quase logo. E o fim da República veio com a implantação do Estado Novo. A República que hoje existe é mais monarquia do que República. Só cegos por opção e fanatismo é que não vêem.

7 Os pastorinhos foram manipulados pelo clero de Ourém e a Igreja Católica de Portugal? Considera que foi um caso de abuso?

Mais do que isso. Foi um crim7e ainda pior que o da pedofilia do clero. Porque, na sequência de todo o terror em que os clérigos fizeram as três crianças viver e os sacrifícios que foram levados a fazer pela conversão dos pecadores, por exemplo, privar-se de comer e de beber água em pleno verão, quando veio a pneumónica, os dois irmãos que eram mais novinhos não foram capazes de lhe resistir e morrem, Francisco em 1919, Jacinta em 1920. Sem que a milagreira senhora de Fátima lhes valesse. A verdade é que este crime de lesa crianças continua impune. E, para cúmulo dos cúmulos, vem agora o papa Francisco canonizá-los. Onde já seu viu semelhante negação da verdade histórica e semelhante distorção dos factos?!

8 Qual foi a posição do Governo da República neste acontecimento? E, nos anos posteriores, qual tem sido a posição dos sucessivos Governos (o de Salazar, os Governos Revolucionários, e os atuais, na democracia) com a questão das supostas aparições em Fátima?

Perante Fátima 1, os governos da República fartaram-se de a denunciar e deixar bem claro que tudo não passava de um embuste. Mas, com a implantação do Estado Novo, saído do golpe militar de 1926 e com Salazar como chefe do governo, ninguém do clero quis saber mais de Fátima 1 e meteram-se a criar Fátima 2, com o segredo, a conversão da Rússia, a visão do inferno, a devoção ao imaculado coração de Maria, a devoção dos primeiros sábados. Uma Fátima bem à medida do ditador Salazar, visto como o salvador da pátria, unha-e-carne com o cardeal Cerejeira. A Concordata de 1940 é disso exemplo. Prova bem o casamento da igreja dos bispos e de Roma com o regime ditatorial católico de Salazar. Infelizmente, nem o 25 de Abril de 1974 foi capaz de beliscar em Fátima e manteve a Concordata,ainda hoje em vigor. Para cúmulo, desde há um ano o presidente da República é um católico propagandista, com tudo de papa laico, muito ao jeito do papa Francisco. E lá vão estar ambos em Fátima, nos cem anos de toda esta falta de vergonha, de decoro e de bom senso. Um negócio de muitos milhões, inclusive, com lavagem de dinheiro sujo.

9 Quando começou a investigar a historia de Fátima? Depois de ter participado na luta pela democracia em Portugal, porque decidiu mergulhar nestes temas?

Como presbítero-jornalista, não podia enterrar a cabeça na areia. Em cada mês de maio, andei por Fátima. As reportagens que então escrevi e publiquei no Jornal Fraternizar, então mensal e em suporte papel, são o “miolo” do meu Livro FÁTIMA NUNCA MAIS. Tal como a Documentação Crítica de Fátima em vários volumes são o “miolo” de FÁTIMA $.A.

10 Que tipo de documentação utilizou para investigar a história de Fátima? Foi fácil aceder aos documentos, ou houve resistência pela parte da Igreja?

A Documentação está publicada e acessível a quem a queira estudar. Debrucei-me, de modo especial nos dois primeiros volumes e depois nas Memórias da Irmã Lúcia (quatro + duas, já muito tardias), onde os clérigos tentam branquear a vida histórica dos pais de Lúcia e fazer deles e dela uma espécie de “Sagrada Famíliia”. É de gritos.

11 O que mais o surpreendeu na investigação?

O manancial de contradições e de delírios teológicos dos clérigos que se envolveram nesta tragicomédia. É preciso ler para crer. E tudo com o aval da Universidade Católica Portuguesa! Uma ignomínia e uma imperdoável agressão à inteligência cordial. Um escarro à Fé e à teologia de Jesus Nazaré.

12 Depois de ter investigado as supostas aparições de Fátima, tem dúvidas sobre as outras aparições marianas? Acredita, por exemplo, que a Virgem apareceu em Lourdes ou El Rocío em Espanha? Ou, pelo contrário, considera que a Igreja pode ter manipulado ou inventado aparições para ganhar dinheiro noutras partes do mundo?

São todas mentira, criação de mentes doentes que, em lugar de serem tratadas, são exploradas. Teologicamente, é impossível haver “aparições”. São todas expressões da chamada religiosidade popular que precisa de ser evangelizada. Em vez disso é fomentada, como se vê em Fátima. Uma igreja que isto faz é inimiga da Humanidade, das populações, dos povos. É o sal que perdeu a força de salgar e tem de ser lançada fora e pisada pelos povos.

13 Como padre da Igreja Católica, acredita na possibilidade de a Virgem Maria poder aparecer na terra?

Nem sequer existe a “virgem Maria”, a não ser como mito. Existe sim, Maria, a mãe de Jesus. Tudo o que se lhe queira acrescentar é um insulto ao seu nome e a todos os seres humanos, mulheres e homens. E um escarro a Jesus Nazaré, o seu filho.

14 Quando publicou os seus livros recebeu alguma pressão para abandonar a sua investigação? Depois de publicar os livros, teve alguma resposta ou castigo pela parte da Igreja? Como acha que a Curia vê os seus livros?

Como já disse, a hierarquia faz de conta que os meus livros não existem, mas, ao mesmo tempo, faz tudo para que os católicos não os leiam. Em vão. Porque os lêem.

15 Em várias ocasiões afirma que o Santuário de Fátima é uma máfia. Como opera essa mafia hoje em dia? É mesmo uma organização criminosa?

Está aí bem à vista de toda a gente. Este centenário revela até à náusea a máfia que Fátima é. Não fora e os papas do século XX e XXI não se envolviam tanto. É só dinheiro e multidões de gente que ali rasteja e degrada. Em nome duma fé-lixo, o mais tóxico.

16 O Papa Francisco propôs-se moralizar as finanças do Vaticano. Tem esperança que suceda o mesmo em Fátima? Confia no Papa Francisco?

Tudo o que ele diz e faz é hábil encenação. Não esqueçamos que ele é jesuíta. Curiosamente, ele nunca o diz. E, quando eleito, escolhe o nome Francisco, quando era expectável que escolhesse Inácio, o seu santo fundador. Faz tudo para esconder a sua condição de jesuíta, sem dúvida a Ordem religiosa mais perversa e mafiosa, que ataca as mentes das crianças, adolescentes e jovens que frequentam os seus inúmeros colégios e, com isso, os marca negativamente para o resto da vida. Safam-se apenas os que, depois, se fazem ateus, como aconteceu com Fidel de Castro.

17 Este fim-de-semana uns 10 milhões de pessoas irão a Fátima para ver o Papa e participar na comemoração do centenário das supostas aparições. Porque acha que tantas pessoas sentem devoção pela Virgem de Fátima e a história dos pastorinhos? O que sente quando vê tantas pessoas a celebrar esta data?

O que move as multidões sedentas de milagres do céu, porque não chegam a beneficiar dos milagres da terra, os das Ciência e os do poder financeiro, é o Medo e a necessidade que sentem de se autoflagelar, porque crê num deus sádico e cruel, vingativo, que se alimenta de gente, sobretudo de crianças aterrorizadas, como os dois irmãos de Fátima, Francisco e Jacinta. Na sua demência provocada pelo medo, as multidões são levadas a procurar fora delas a solução para os seus problema, quando essa solução só se encontra dentro delas. Mas esta mudança de postura é muito exigente e as multidões seguem a lei do menor esforço, nem que isso as leve a sofrer ainda mais e até a perder a alma. Por isso, não Evangelizar ao jeito de Jesus é um crime de omissão. Como é um crime de acção evangelizar ao jeito de S. Paulo, o perseguidor de Jesus e do seu Evangelho de libertação dos povos e destruição do Poder.

18 Promoveu uma petição que contesta a visita do papa a Fátima e a credibilização do milagre, mas poucas pessoas assinaram o texto. Porque acha que a montagem em Fátima não inspira maior indignação entre o público português?

É verdade, mas nada que já não fosse esperado. Para as multidões, o Poder quanto mais poderoso for, mais é aclamado. Quem tem medo da Liberdade, sempre alimenta os tiranos e os ditadores. Muito mais se são o papa de Roma,sucessor de César, o divino imperador. É o elementar na psicologia de massas.

19 Mesmo perante as provas mais irrefutáveis, julga que a atitude dos crentes face às aparições não se alteraria?

Não, pelo menos, enquanto o quotidiano das multidões continuar a ser este vale de lágrimas onde elas gemem e choram, como repete até à náusea a oração “Salve, rainha”.Os humilhados e os ofendidos deliram com os ditadores. Pior, se sagrados, como o papa Francisco.

20 Fátima desempenha um papel fulcral na sociedade portuguesa? Mesmo que seja baseado tudo num fraude, as aparições servirem para alguma coisa positiva?

Fátima, a das multidões, é o seu inferno, mascarado de paraíso. Nada de bom há a esperar dali. Fátima, a dos milhões e do Turismo religioso global, é uma galinha de ovos de ouro que interessa as multinacionais manter. Hoje são elas que põem e dispõem de tudo em Fátima. Os bispos e o reitor do santuário são uns pacóvios que se têm por ilustrados. São a negação da Luz e a afirmação da Treva.

21 Mesmo depois de comprovar o papel da Igreja Católica neste caso, e depois de descobrir a “mafia” de Fátima, continua a considerar-se católico? Como consegue manter a sua fé?

Continuo presbítero-jornalista, homem de Fé, a de Jesus, prosseguidor das suas práticas politicas maiêuíticas. Praticante da sua Teologia que nos revela Deus que nunca ninguém viu, pois nos habita em permanência, mais íntimo a nós do que nós próprios e que nos leva a viver na História como se Deus não existisse. Por outras palavras, viver na história sempre com Deus, mas sempre sem Deus. Tal e qual como é o ser.viver de Jesus Nazaré. Sim, continuo a ser católico, no sentido etimológico da palavra, UNIVERSAL, consciente de que só a Humanidade é católica, isto é, universalizável, e que o único denominador comum a todos os seres humanos e povos de diferentes línguas, culturas e cores, é o HUMANO, não o cristão, muito menos o romano.

JN perguntou, Pe. Mário de Oliveira respondeu

FÁTIMA: NÃO É O CULTO
QUE CONTINUA VIVO, É O MEDO

1 Nos últimos meses foram lançadas algumas dezenas de livros sobre Fátima, adotando diversas abordagens sobre o fenómeno. O país está finalmente a debater Fátima, como sempre propôs?

Felizmente, está Em 1999, escandalizo meio mundo, quando publico, em parceria com a Editora Campo das Letras, o Livro FÁTIMA NUNCA MAIS. Só falta queimarem-me vivo na praça pública. Ainda hoje há gente muito católica que por causa desse Livro não consegue sequer olhar para mim. Sou tido como um excomungado a evitar. Quando, afinal, com esse Livro, presto um dos maiores serviços à causa do Evangelho de Jesus e à Igreja-movimento de Jesus. Ninguém, nos séculos XX e XXI, faz tanto por Maria, a mãe de Jesus, como eu, com a publicação desse Livro e de um outro mais do que esgotado, chamado MARIA DE NAZARÉ, Afrontamento 1972. Aliás, um dos capítulos de FÁTIMA NUNCA MAIS tem por título uma afirmação escutada pela minha própria mente cordial, numa das minhas várias reportagens feitas em Fátima, que reza assim: “Eu, Maria, a mãe de Jesus, não tenho nada a ver com a senhora de Fátima”. Com este Livro, revelo ao país e ao mundo que Fátima não faz parte da Fé católica. A verdade é que na altura nem os meus colegas jornalistas acham possível um padre católico publicar um livro assim e continuar a ser padre. E se hoje felizmente já não é mais assim para a sociedade em geral, continua a ser ainda assim para a hierarquia católica, a qual, como se vê, não abre mão de Fátima. Continua por isso a tratar-me como um não-existente, a quem nunca se refere, com quem nunca dialoga e a quem nunca responde. Entretanto, se com esse meu Livro é hoje bem claro que Fátima não faz parte da Fé católica, todos estes anos depois vou ainda mais longe e afirmo que Fátima é a negação da Fé de Jesus, a única Fé que dignifica quem a pratica.

2 Surpreende-o a avalancha de livros sobre Fátima publicados nas últimas semanas? (há algum que tenha chamado a sua atenção? Porquê)

Não me surpreende. Desde que o meu Livro FÁTIMA NUNCA MAIS rebenta o tabu “aparições de Fátima”, soltam-se as mentes das pessoas e os próprios jornalistas de investigação percebem que têm o dever de meter mãos à obra. E metem. O centenário de semelhante mentira e crime,cometido em 1917 em Fátima (há três crianças vítimas de tudo aquilo, senhoras, senhores, duas das quais morrem pouco depois do teatrinho acabar, e a sobrevivente é sequestrada pelos clérigos até à morte em sucessivos conventos) está a ser a grande oportunidade para essa avalancha de livros. Por sinal, bem aproveitada. E feita com inteligência e discernimento. Gosto sobretudo daqueles livros, cujos autores não embarcam no respeito pela tão badalada “fé religiosa” que leva o povo mais empobrecido e mais desamparado a rastejar diante da imagem confeccionada pelo senhor Thedim, da Trofa e a entregar o último cêntimo ao Santuário-covil de ladrões, quando, afinal, a solução que procura lá para os seus múltiplos problemas só dentro dele se encontra, coisa que os clérigos não lhe dizem, porque preferem continuar a vender-lhe sucessivas overdoses de ópio. Não me cabe indicar quais em concreto os livros de que mais gosto. Complementam-se uns aos outros. Alegra-me, sobremaneira, constatar que vários destes livros também me incluem e quase todos citam na Bibliografia consultada os meus dois livros sobre Fátima. Até o Livro acabado de sair da autoria do bispo D. Carlos Azevedo, há anos “pontapeado” de Lisboa para Roma, o faz.

3 O seu livro “Fátima, nunca mais”, de 1999, foi o primeiro a colocar em causa a credibilidade do fenómeno de Fátima. De então para cá, muitos outros livros seguiram o mesmo caminho, mas sem a mesma polémica. O questionamento das aparições deixou de chocar as pessoas?

É manifesto que deixou. O que mais me alegra é constatar a liberdade com que os nossos humoristas abordam o assunto. O satírico semanário francês Charlie Hebdo à beira destes nossos humoristas profissionais mais parece um tigre de papel. A esmagadora maioria do país ri a bom rir com a historieta de Fátima e com a canonização dos dois irmãos, Francisco e Jacinta. Se a hierarquia católica frequentasse as redes sociais, como eu frequento, teria vergonha do papel que insiste em representar. O próprio papa Francisco, ao agir como age neste processo, mostra bem ao serviço de quê e de quem está. E porque agrada tanto aos grandes financeiros que mandam no mundo. Fica também claro que a teologia que ele segue é uma teologia que empobrece e mata e, por isso, justifica todas as economias que empobrecem e matam. As quais têm na Cúria Romana o pai de todas elas.

4 Em Fátima S.A. regressou ao tema, com documentos inéditos. Este é finalmente um capítulo fechado para si?

Sem dúvida, é um capítulo fechado para mim. Como presbítero-jornalista atento aos sinais dos tempos, tenho o cuidado de me antecipar dois anos ao centenário e por isso faço sair, juntamente com a Editora Seda Publicações, FÁTIMA S.A. em Maio 2015. As edições sucederam-se, apesar do Livro ter desaparecido depressa dos escaparates. Este ano, em Março, a Editora avançou com a sexta edição que inclui uma especial NOTA DO AUTOR, na qual dou conta às pessoas tudo quanto faço para que o papa Francisco não venha a Fátima. É uma batalha que perdi. Não perdi a “guerra”. Como, de resto, bem o revela a significativa Dedicatória com que termino essa Nota. Diz assim: “Dedico esta sexta edição e todo o Livro a Maria, a mãe de Jesus, contra a senhora de Fátima”. Quem for capaz de entender o alcance teológico desta Dedicatória, que entenda. Por outro lado, quando este ano toda a gente discute Fátima, eu tenho o cuidado de introduzir um novo tema teologicamente fracturante, com um novo Livro, A BÍBLIA OU JESUS? (137 pgs), Seda Publicações, Abril 2017. E cuja sessão de apresentação no Porto está agendada para dia 28, às 18,30 h, na sede da AJHLP.

5 Apesar de todos esses livros, o culto continua bem vivo. Como interpreta essa indiferença das pessoas às teses contrárias?

No meu entender, não é o culto que continua vivo. O que continua vivo e bem vivo é o Medo, é a Solidão, é o Desamparo a que condenamos impunemente as grandes maiorias. São carne para canhão. A grande clientela das religiões, cujos clérigos e pastores vendem-lhes ritos, sempre os mesmos, ao mesmo tempo que lhes roubam Deus que nunca ninguém viu, o de Jesus Nazaré. São crimes sobre crimes que contam com o aval das elites dos privilégios e dos poderes. É sabido, mas não assumido, que o Medo lá onde se instala e desenvolve, cria deusas, deuses que tolhem as pessoas e não as deixa crescer-desenvolver de dentro para fora. E com o Medo, vêm inevitavelmente vidas-beco sem saída. O que perfaz, no sábio dizer de Jesus Nazaré, “O pecado do mundo”. Para o qual não há perdão, enquanto não for erradicado de vez da Humanidade!

Edição 127, Abril 2017

Pablo Esteban entrevista astrólogo Alejandro López

O CÉU, UMA QUESTÃO DE PODER

As relações das diferentes sociedades com o céu variaram ao longo da história. Não obstante, também em um mesmo contexto podem conviver múltiplos enfoques. Enquanto nas grandes cidades as novas tecnologias limitam as possibilidades humanas de conexão com a natureza e o meio ambiente, os povos originários estabelecem complexas relações com o universo. Alejandro López é astrônomo, antropólogo e pesquisador adjunto do Conselho Nacional de Investigações Científicas e Técnicas (CONICET), no Instituto de Ciências Antropológicas da Faculdade de Filosofia e Letras (UBA). Desde 1999, estuda os modos como os grupos indígenas chaquenhos se vinculam, pensam e constroem ideias sobre o céu. Nesta oportunidade, explica a necessidade de estudos interdisciplinares a partir do diálogo entre as ciências sociais e naturais, discute acerca do modo como as populações indígenas e os portenhos pensam o mundo celeste, e promove o gosto das crianças pelos fenômenos do universo, diante de tanta exibição e estímulo tecnológico. A entrevista é publicada por Página/12, 29-Março e partilhada com JF por IHU.

Desde pequeno, tinha o costume de olhar o céu com um telescópio...

Sim, desde pequeno tive interesse pelas ciências sociais e as naturais, e uma das atividades que mais me apaixonava era observar o céu. Tive alguns binóculos e depois um telescópio. Quando passou o cometa Halley, em 1986, tinha 15 anos e através do museu municipal de Moreno (Buenos Aires), organizamos um pequeno evento para que todos pudessem observá-lo.

E do que se recorda?

Que não foi observado em toda sua beleza porque esteva muito nublado. De qualquer forma, consegui fazer com que todos os vizinhos da redondeza pudessem apreciá-lo, assim, fiquei satisfeito.

Você se licenciou em Astronomia (UNLP) e realizou um doutorado em Antropologia (UBA). O que possuem em comum?

Quando comecei a universidade, escolhi Astronomia porque um montão de temáticas me atraiam, como a matemática e a física. No entanto, na metade da carreira comecei a notar que me sentia incomodado, algo me inquietava. Precisava de um terreno intermediário que fosse capaz de nuclear meu interesse pelo universo, mas também pelas ciências sociais.

Desse modo, orientou-se para a “astronomia cultural”. Do que se trata?

É um termo que é utilizado desde os anos 1990 para descrever uma série de estudos interdisciplinares que tentam pensar a astronomia como um produto sociocultural. Isto pode ser realizado por meio de diversas aproximações: a “arqueoastronomia”, cuja abordagem parte do emprego das técnicas da arqueologia; a “nova história da astronomia”, que sustenta uma perspectiva mais antropológica e sociológica; e, por último, a “etnoastronomia”, que pretende explicar as ideias e as práticas que foram construídas por diferentes culturas a respeito do céu.

Como foi a relação do ser humano com o céu ao longo da história?

A primeira suposição que devemos desconstruir é a que todos os seres humanos olham o céu da mesma maneira. Por exemplo, os habitantes de Buenos Aires são muito mais diversos do que tendemos a pensar e do que o imaginário nacional de alteridades tratou de impor. Deste modo, se as práticas e nossas ideias a respeito do céu são um produto sociocultural, não é possível que a Argentina construa uma visão homogênea. O mesmo ocorre ao longo da história, pois também foram desenvolvidas uma multiplicidade de pontos de vista. No entanto, em diferentes contextos espaço-temporais emergem instituições que pretendem unificar o discurso.

Então, reformulo a pergunta: o que o discurso hegemônico ressalta a respeito do modo como os seres humanos se relacionavam e se relacionam com o céu?

Existe um discurso científico que coloca a astronomia em um lugar de privilégio, como se tivesse uma natureza diferente do restante do conhecimento humano. Ou seja, como se não fosse o produto de uma representação e uma construção coletiva. No entanto, tudo o que produzimos tem natureza social, inclusive, os saberes que em aparência seriam os mais científicos e objetivos. A maneira de perceber o céu se dispõe sobre a divisão de natureza e cultura, característica do pensamento ocidental e coloca os fenômenos astronômicos no primeiro dos grupos. Isto constitui uma grande diferença em relação ao modo como outros grupos sociais pensaram o céu.

Refere-se, por acaso, às sociedades americanas que estuda.

Exato. Os povos originários da América, em geral, desenvolveram uma perspectiva sobre o cosmos em seu conjunto, ou seja, um enfoque “sociocósmico”. Isso implica que o universo estaria habitado por múltiplas sociedades humanas e não humanas. Ao mesmo tempo, sua estrutura fundamental estaria modelada por essas sociedades e as relações que tecem entre si. De modo que o céu faria parte de um conhecimento “cosmopolítico”, pois para as comunidades americanas as relações com o céu explicam os vínculos com outras sociedades que tem seus próprios planos, interesses e ideias do que deve ocorrer. Por isso, acreditam ser fundamental o estabelecimento de relações diplomáticas com o universo.

Por exemplo?

As relações que tecem os mocovies, no sudoeste de Chaco, com os fenômenos meteorológicos (como o aumento das precipitações) buscam estabelecer pactos com os seres que detêm o controle desses recursos. A partir daí, a centralidade de especialistas em cada grupo (os xamãs) que devem conhecer a posição das estrelas e o movimento de certos animais, para poder se comunicar com entidades que têm presença em sua dinâmica social. Essa política em nível cósmico está integrada à política de relação com outros grupos humanos. Ou seja, os mocovies contam com vizinhos humanos e não humanos, com os quais precisam gestar acordos.

O céu pode ser observado como um cenário no qual são produzidas intensas lutas de poder.

É um assunto muito interessante que supera o modelo ameríndio que descrevi até o momento, pois inclusive no modo como o Ocidente pensou no céu também há lugar para as tensões e o poder. Tem a ver com o fato que, de modo corrente, tende-se a acreditar que o que ocorre no céu seria central em relação ao que acontece em todo o universo. Por isso, as sociedades projetaram aí suas convicções acerca do poder. Inclusive, muitas vezes, o estabelecimento das hierarquias humanas se justifica a partir das hierarquias no mundo celeste. A corrida para colocar um homem na Lua, em plena Guerra Fria, é um bom exemplo a esse respeito.

Afirmaram que o céu é “inclusivo”. O que você diz?

Que os seres humanos realizaram enormes esforços para gerar acessos diferenciados. Muitos sítios arqueológicos permitem observar a disposição dos edifícios construídos, que descrevem – claramente – como os grandes fenômenos do universo eram observados a partir de uma localização preferencial por um setor privilegiado. Na atualidade, todos podemos ver determinados acontecimentos no céu, mas não é qualquer pessoa que pode ir a um observatório e utilizar um telescópio de última geração, por razões técnicas, mas também simbólicas.

De que forma você acredita que é possível promover o gosto humano pelo céu?

O progressivo aumento da população urbana faz com que nossa relação com o céu tenha se transformado drasticamente. A iluminação oculta os astros, os edifícios modificam o perfil do horizonte e as luzes fazem com que a vida se privatize com telas interativas que concentram nossa atenção. Além disso, a cotidiano é mediado pela experiência televisiva. Muitas crianças não fazem ideia de onde sai o sol, mas conhecem os buracos negros, porque o observam nos programas animados. Para recuperar o gosto pelo céu, é necessário começar pela observação dos astros mais amáveis: a lua e o sol. A ideia será fomentar uma percepção mais cuidadosa que recupere as perspectivas dos povos originários, cuja relação com o universo é muitíssima mais direta que a nossa.

Edição 125, Fevereiro 2017

Neoliberalismo, assexualidade e desejo de morte

O filósofo italiano Franco “Bifo” Berardi alerta que a obsessão pelo sucesso individual e a troca dos contatos corpóreos pelos digitais podem realizar distopia da humanidade insensível, para a qual já alertava Pasolini. Berardi é autor de mais de vinte livros, entre os quais destacam-se El Alma del Trabajo: desde lá alienación a la autonomia (A alma do trabalho: da alienação à autonomia), Generación post-alfa. Patologías e imaginarios en el semiocapitalismo (Geração pós-alfa. Patologias e imaginários no semiocapitalismo), Héroes: asesinato de masa y suicidio (Heróis: assassinato de massa e suicídio) e Fenomenología del fin (Fenomenologia do fim). A entrevista é de Juan Íñigo Ibáñez, publicada por OutrasPalavras, 27-01-2017. A tradução é de Inês Castilho e Simone Paz

Uma das metáforas mais potentes – e de maior ressonância até nossos dias – no imaginário de Pier Paolo Pasolini é a de “mutação antropológica”. Trata-se de uma expressão que o cineasta, escritor e poeta italiano utilizava para ilustrar os efeitos psicossociais produzidos pela transição de uma economia de origem agrária e industrial para outra, de corte capitalista e transnacional. Durante os anos 1970, Pasolini identificou, em seus livros Escritos Corsários e Cartas Luteranas, uma verdadeira transmutação nas sensibilidades de amplos setores da sociedade italiana, em consequência do “novo fascismo” imposto pela globalização. Acreditava que esse processo estava criando – fundamentalmente por meio do influxo semiótico da publicidade e da televisão – uma nova “espécie” de jovens burgueses, que chamou de “os sem futuro”: jovens com uma acentuada “tendência à infelicidade”, com pouca ou nenhuma raiz cultural ou territorial, e que estavam assimilando, sem muita distinção de classe, os valores, a estética e o estilo de vida promovidos pelos novos “tempos do consumo”. Quarenta anos depois, outro inquieto intelectual de Bolonha – o filósofo e teórico dos meios de comunicação Franco “Bifo” Berardi – acha que o sombrio diagnóstico de Pasolini tornou-se profético, diante da situação de “precariedade existencial” e aumento de transtornos mentais que as mudanças neoliberais provocaram. Segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS), o suicídio é hoje a segunda causa de morte entre jovens e crianças – a grande maioria do sexo masculino – entre 10 e 24 anos. Do mesmo modo, a depressão – patologia emocional mais presente no comportamento suicida – será em 2020 a segunda forma de incapacidade mais recorrente no mundo.

Berardi acredita que esses dados – assim como a maioria dos atos violentos produzidos nos últimos anos, os assassinatos em massa ou os atentados suicidas radicais – estão estreitamente vinculados às condições de hipercompetição, subsalário e exclusão promovidos pelo ethos neoliberal. Sugere que ao analisar os efeitos que a economia de mercado tem em nossas vidas, devemos também incorporar um elemento novo e transcendente: o modo como os fluxos informativos acelerados a que estamos expostos por meio das “novas tecnologias” influem em nossa sensibilidade e processos cognitivos.

Esclarecimento: Berardi não é nenhum tecnófobo ou romântico dos tempos do capitalismo pré-industrial. Compreende – e utilizou a seu favor – os avanços que a tecnologia introduz em nossas vidas. Desde o final dos anos 1960, liderou diversos projetos de comunicação alternativa, tais como a revista cultural A/traverso, a Rádio Alice (uma das primeiras emissoras livres da Europa), a TV Orfeu (a primeira televisão comunitária da Itália). Participou de programas educativos da Rádio e Televisão Italiana (RAI) ligados ao funcionamento e efeitos das novas tecnologias. Além disso, “Bifo” foi um observador atento de fenômenos contraculturais como o ciberpunk, ou as possibilidades futuras de governos tecnofascistas. Sua carreira foi fortemente marcada pelo compromisso político. Foi membro ativo – desde a Universidade de Bolonha, onde graduou-se em Estética – da revolta de Maio de 68. No início dos anos 70, esteve vinculado ao movimento de esquerda extraparlamentar “Poder Operário”. Posteriormente – no começo dos 80, durante seu exílio na França – frequentou Michel Foucault e trabalhou junto com Félix Guattari no campo disciplinar então nascente da esquisoanálise. Eis a entrevista.

Em seus últimos trabalhos, você disse que o efeito das tecnologias digitais, a mediatização das relação de comunicação e as condições de vida que o capitalismo financeiro produz estão estreitamente vinculados ao crescimento das patologias da esfera afetivo- emocional, assim como de suicídios em nível mundial. Disse inclusive que estamos diante de uma verdadeira “mutação antropológica” da sensibilidade. De que maneira esses fenômenos estão relacionados ao aumento de suicídios e de patologias psíquicas?

Trata-se naturalmente de um processo muito complicado que não pode ser reduzido a linhas de determinação simples. A combinação dessas condições técnicas, sociais, comunicacionais pode produzir – e de facto produz, em um grande número de casos – uma condição de individualização competitiva e de isolamento psíquico que provoca uma extrema fragilidade, a qual se manifesta às vezes como predisposição ao suicídio. Não pode ser acaso o facto de que nos últimos quarenta anos o suicídio tenha crescido enormemente (em particular entre os jovens). Segundo a Organização Mundial de Saúde, trata-se de um aumento de 60%. É enorme. Trata-se de um dado impressionante, que precisa ser explicado em termos psicológicos e também em termos sociais. Quando li pela primeira vez essa informação, me perguntei: o que aconteceu nos últimos 40 anos? A resposta é clara. Ocorreram duas coisas. A primeira foi que Margaret Thatcher declarou que a sociedade não existe, que só há indivíduos e empresas em permanente competição – em guerra permanente, digo eu. A segunda é que, nas ultimas décadas, a relação entre os corpos se fez cada vez mais rara, enquanto a relação entre sujeitos sociais perdia a corporeidade, mas não a comunicação. O intercâmbio comunicacional tornou-se puramente funcional, econômico, competitivo. O neoliberalismo foi, em minha opinião, um incentivo maciço ao suicídio. O neoliberalismo – mais a mediatização das relações sociais – produziu um efeito de fragilização psíquica e de agressividade econômica claramente perigosa e no limite do suicídio.

Qual o sentido profundo do que disse Margareth Thatcher?

Quando Margareth Thatcher disse que não se pode definir nada nem ninguém como sociedade, que só há indivíduos e empresas que lutam por seu proveito, para o sucesso econômico competitivo, declarou algo com enorme potência destrutiva. O neoliberalismo, a meu ver, produz um efeito de destruição radical do humano. A ditadura financeira de nossa época é o produto da desertificação neoliberal. A financeirização da economia é fundada sobre uma dupla abstração. O capitalismo sempre se fundou sobre a abstração do valor de troca (abstração que esquece e anula o caráter útil e concreto do produto). Mas a valorização financeira não precisa passar pela produção útil. O capitalista industrial, para acumular capital, tem de produzir objetos – automóveis, petróleo, óculos, edifícios. Já o capital financeiro não precisa produzir nada. A acumulação do capital financeiro não se faz por meio de um produto concreto, mas tão somente através da manipulação virtual do próprio dinheiro.

Nesse cenário, que peculiaridades você observa nas formas como nos relacionamos com nosso trabalho – diferentemente, por exemplo, do caso de um trabalhador industrial dos anos 70 –, que nos deixa tão expostos à saturação patológica expressa em seus livros?

O movimento dos trabalhadores do século passado tinha como objetivo principal a redução do tempo de trabalho, a emancipação do tempo de vida. A precarização e o empobrecimento produzido pela ditadura neoliberal produziram um efeito paradoxal. A tecnologia reduz o tempo de trabalho necessário, mas o capital codifica o tempo liberado como parado e o sanciona, reduzindo a vida das pessoas a uma condição de miséria material. Em consequência, as pessoas jovens são continuamente obrigadas a buscar um emprego que não podem encontrar, a não ser em condições de precariedade e subsalário. O efeito emocional é ansiedade, depressão e paralisia do desejo. A condição precária transforma os outros em inimigos potenciais, em competidores.

Você tem analisado com regularidade as formas como as tecnologias da comunicação e o uso que delas fazemos interagem com as condições de vida instauradas pelo capitalismo. Qual papel pensa que cumprem as redes sociais, no marco de uma sociedade com um tipo de capitalismo altamente desregulado? De que maneira os efeitos que esse sistema econômico produz em nossas vidas são complementares ou se relacionam com o uso que fazemos desse tipo de plataformas digitais?

As redes sociais são, ao mesmo tempo, uma expansão enorme – virtualmente infinita – do campo de estimulação, uma aceleração do ritmo do desejo e, ao mesmo tempo, uma frustração contínua, uma protelação infinita do prazer erótico, embora nos últimos anos tenham sido criadas redes sociais que têm como função direta o convite sexual. Não creio que as redes (nem a tecnologia em geral) possam ser consideradas como causa da deserotização do campo social, mas creio que as redes funcionam no interior de um campo social deserotizado, de tal maneira que confirmam continuamente a frustração, enquanto reproduzem, ampliam e aceleram o ritmo da estimulação. É interessante considerar o seguinte dado: no Japão, 30% dos jovens entre 18 e 34 anos não tiveram nenhuma experiência sexual, e tampouco desejam tê-la. Por sua vez, David Spiegelhalter, professor da Universidade de Cambridge, escreveu em Sex by Numbers que a frequência dos encontros sexuais foi reduzida a quase metade, nos últimos vinte anos. As causas? Estresse, digitalização do tempo de atenção, ansiedade. Isso produziu o surgimento do que, para Spiegelhalter, é a “single society” [sociedade solteira], quer dizer, uma sociedade associal, na qual os indivíduos estão por demais ocupados em buscar trabalho e relacionar-se digitalmente para encontrar corpos eróticos com os quais se relacionar.

Nesta mesma linha de análise, você também disse que as formas de relacionamento com as novas tecnologias afetam os paradigmas do humanismo racionalista clássico, em particular nossa capacidade de pensar criticamente. Considerando isso, de que maneira as dinâmicas multitasking [tarefas simultâneas], ou abertura de janelas de atenção hipertextuais podem chegar a deformar as formas sequenciais de elaboração mental?

A comunicação alfabética possui um ritmo que permite ao cérebro uma recepção lenta, sequencial, reversível. São estas as condições da crítica, que a modernidade considera condição essencial da democracia e da racionalidade. Porém, o que significa “crítica”? No sentido etimológico, crítica é a capacidade de distinguir, particularmente, de diferenciar entre a verdade e a falsidade das afirmações. Quando o ritmo da afirmação é acelerado, a possibilidade de interpretação crítica das afirmações reduz-se a um ponto de aniquilamento. McLuhan escreveu que quando a simultaneidade substitui a sequencialidade — ou seja, quando a afirmação se acelera sem limites — a mente perde sua capacidade de discriminação crítica, passando daquela condição a uma neomitológica.

Apesar do déficit comunicacional ao qual muitos especialistas atribuíram a derrota de Hillary Clinton e, concretamente, à sua postura ante o estilo confrontador e “politicamente incorreto” que Trump utilizou para enfrentar temas vinculados com as guerras culturais, esta “redução da capacidade crítica” que você identifica influenciou no resultado das eleições?

Nos últimos meses tem se falado muito da comunicação da pós-verdade no contexto das eleições nos Estados Unidos, que levaram um racista a ganhar a presidência. Porém, eu não acredito que o problema verdadeiro esteja no circuito da comunicação. A mentira sempre foi normal dentro da comunicação política. O verdadeiro problema é que as mentes individuais e coletivas perderam sua capacidade de discriminação crítica, de autonomia psíquica e política.

Embora alguns especialistas reduzam a importância do termo “nativos digitais” (dizendo que não passa de uma metáfora que fala mais do poder desproporcional que cedemos às novas tecnologias do que dos efeitos reais que estas têm sobre os indivíduos), o conceito guarda uma significativa relação com a “mutação antropológica” que você identifica nos jovens da primeira geração conectiva. Que valor você atribui ao conceito de “nativos digitais” e como pode se relacionar com a noção criada por Marshall McLuhan de “gerações pós-alfabéticas” que você tem retomado em alguns de seus livros?

Em absoluto, não creio que a expressão “nativo digital” seja meramente metafórica. Pelo contrário, trata-se de uma definição capaz de nomear a mutação cognitiva contemporânea. A primeira geração conectiva, aquela que aprendeu mais palavras por meio de uma máquina do que pela voz da mãe, encontra-se numa condição verdadeiramente nova, sem precedentes na história do ser humano. É uma geração que perdeu a capacidade de valorização afetiva da comunicação, e que se vê obrigada a elaborar os fluxos semióticos em condições de isolamento e de concorrência. Em seu livro L’ordine simbolico della madre (A ordem simbólica da mãe), a filósofa italiana Luisa Muraro argumenta que a relação entre significante e significado é garantida pela presença física e afetiva da mãe. O sentido de uma palavra não se aprende de maneira funcional, mas afetiva. Eu sei que uma palavra possui um sentido — e que o mundo como significante possui um sentido — porque a relação afetiva com o corpo de minha mãe me introduz à interpretação como um ato essencialmente afetivo. Quando a presença afetiva da mãe torna-se rara, o mundo perde calor semiótico, e a interpretação fica cada vez mais funcional, frígida. Naturalmente, aqui não me refiro à mãe biológica, nem à função materna tradicional, familiar. Estou falando do corpo que fala, estou falando da voz. Pode ser a voz do tio, da avó ou de um amigo. A voz de um ser humano é a única forma de garantir de maneira afetiva a consistência semântica do mundo. A rarefação da voz transforma a interpretação num ato puramente econômico, funcional e combinatório. Em seu livro A linguagem e a morte – um seminário sobre o lugar da negatividade, Giorgio Agamben diz que a voz é aquilo que vincula o corpo (a boca, a garganta, os pulmões, o sexo) ao sentido. Se substituirmos a voz por uma tela, o sentido erótico, afetivo e concreto do mundo se desvanece e ficamos sós, trêmulos e desprovidos da garantia de que o mundo seja algo carnalmente concreto. O mundo torna-se puramente fantasmal, matemático, frio.

Em seu livro Heróis, você se concentra no crescente fenômeno de suicídios a nível mundial e relaciona-o com os crimes de massas que presenciamos no final dos anos 1990 — como os massacres em Columbine ou Virginia Tech — até chegar a episódios recentes, como o do piloto suicida da Germanwings, ou o atentado no Bataclan. O que a história de vida dos agressores destes crimes te diz das condições existenciais nos tempos do capitalismo financeiro? De que forma esses episódios nos falam do espírito de nossos tempos?

Acredito que a financeirização é essencialmente o suicídio da humanidade. Em todos os níveis: a devastação do meio ambiente, a devastação psíquica, o empobrecimento, a privatização, provocam medo do futuro e depressão. Basicamente, a acumulação financeira alimenta-se por meio da destruição daquilo que foi a produção industrial no passado. Como pode o capital investido ser incrementado nos tempos do capitalismo financeiro? Somente através da destruição de alguma coisa. Destruindo a escola você incrementa o capital financeiro. Destruindo um hospital, incrementa-se o capital financeiro. Destruindo a Grécia, incrementa-se o capital do Deutsche Bank. É um suicídio, não no sentido metafórico, mas no material. Nesse cenário, não me parece tão incompreensível que os jovens se suicidem numa situação similar. Além disso, a impotência política que o capitalismo financeiro produz, a impotência social e a precariedade, impulsa jovens desesperados a atuarem numa forma que parece (e que de fato é) ser o único jeito de obter algo: matando pessoas casualmente e matando a si mesmos. Trata-se da única ação eficaz, porque matando obtemos vingança, e matando obtemos a libertação do inferno que o capitalismo financeiro tem produzido. Pouco tempo atrás, em junho de 2016, um jovem palestino chamado Mohammed Nasser Tarayah, de 17 anos, matou uma menina judia de 13 anos com uma faca e, posteriormente, foi assassinado de maneira previsível por um soldado israelense. Antes de sair de sua casa para ir matar — e se matar — escreveu em seu Facebook: “A morte é um direito, e eu reivindico esse direito”. São palavras horríveis, porém, muito significativas. Significam que a morte lhe parecia a única forma de se libertar do inferno da violência israelense e da humilhação de sua condição de oprimido. A nível mundial, a taxa de homens que se suicida é quatro vezes maior que a de mulheres que incorrem na mesma prática, embora segundo a OMS, elas tentem em mais ocasiões. Da mesma forma, não temos visto casos de assassinatos em massa realizados por mulheres. Ao que você atribui que tanto os suicídios, como os crimes de massas, sejam protagonizados quase exclusivamente por homens? De que forma o capitalismo os compele a reproduzirem tais níveis de impotência, violência e autodestruição? A violência competitiva, a ansiedade que essa violência implica, é uma translação de uma ansiedade sexual que é unicamente masculina. As mulheres são vítimas da violência financeira, bem como da vingança masculina e terrorista contra a violência financeira. A cultura feminista pode considerar-se a única forma cultural e existencial que poderia criar lugares psíquicos e físicos de autonomia frente à agressão econômica e à agressão terrorista suicida. Porém, hoje, quando falamos de suicídio, cabe ressaltar que não estamos falando do velho suicídio romântico, que significava um desespero amoroso, uma tentativa de vingança de amor, um excesso de pulsão erótica. Falamos de um suicídio frio, de uma tentativa de fugir da depressão e da frustração.

Para finalizar, poderia nos falar de possíveis práticas que proponham soluções, ou das potencialidades que você enxerga nesta geração pós-alfabética? Em seu livro Heróis você retoma o interessante conceito de “caosmose”, criado por Félix Guattari, o qual supõe um tipo de instância estético-ética de superação que daria sentido ao contexto de super-estimulação e precariedade existencial que você vê em nossos tempos…

Guattari falava de “espasmo caósmico” para entender uma condição de sofrimento e de caos mental que pode ser solucionada somente através da criação de uma nova condição social, de uma nova relação entre o corpo individual, o corpo cósmico e o corpo dos demais. Somente a libertação da condição capitalista, somente a libertação da escravidão laboral precária, e somente a libertação da concorrência generalizada, poderia abrir um horizonte pós-suicida. Porém, a afirmação política dos nacionalistas racistas “trumpistas”, em quase todos os países do mundo, me faz pensar que estamos cada vez mais longe de uma possibilidade similar, e que, aos poucos, estamos nos aproximando do suicídio final da humanidade. Eu sinto muito, mas, neste momento, não vejo uma perspectiva de caosmose, somente uma de espasmo final. Mas isso é o que eu consigo entender, e está claro que meu entendimento é muito parcial.

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Edição 124, Janeiro 2017

Frei Betto em entrevista

Temer omitiu-se sobre Manaus”

Para Frei Betto, escritor best-seller, as cadeias brasileiras "são meros depósitos de seres humanos" e "a morte deles é encarada com indiferença pelas autoridades". "Há que investigar fundo, em Manaus, a tal empresa Umanizzare que administra a penitenciária do massacre", recomenda. A atuação de Temer no episódio, diz ele, foi "indigna de um chefe de Estado". Em sua opinião, a turbulência política vai continuar no país até as eleições de 2018. O escolhido dos brasileiros, se as eleições para presidente fossem hoje, segundo ele, seria Lula, que até pode vir a ser seu candidato "desde que o PT faça uma autocrítica e se comprometa com uma agenda tendo por horizonte o socialismo"

Quem são os responsáveis pelo Massacre de Manaus?

O poder público, responsável pela guarda e recuperação dos presos. Não há política prisional no Brasil. As cadeias são meros depósitos de seres humanos tratados como meros "elementos" e a morte deles é encarada com indiferença pelas autoridades como o governador do Amazonas, ao frisar na CBN que entre os mortos "não havia nenhum santo"...

Por que os presos no Brasil são tratados como animais?

Pior. Cães e gatos merecem petshops; pombos são alimentados nas ruas; vacas e bois dispõem de pasto... Michel Foucault analisou bem o fenômeno: os presos não são sumariamente eliminados para servirem de parâmetros à exploração dos pobres trabalhadores. Versão do nosso popular "podia ser pior"... Nossos carcereiros não têm qualquer capacitação profissional para a função que exercem. E com facilidade se deixam corromper...

A corrupção rola também nos escalões mais altos?

O ministro da Justiça de Dilma, José Eduardo Cardozo, já havia declarado que preferia morrer a ficar numa prisão comum no Brasil. Esse cenário é consequência do descaso do poder público e das maracutaias, pois o sistema penitenciário é uma verdadeira caverna de Ali Babá em matéria de corrupção. Há que investigar fundo, em Manaus, a tal empresa Umanizzare que administra a penitenciária do massacre.

O que achou da atuação de Temer no episódio?

Indigna de um chefe de Estado. Deu de ombros e se fez de surdo e mudo. Foi preciso o Papa Francisco manifestar-se em Roma para o presidente se dar conta de sua grave omissão temperada com solene indiferença.

E do ministro da Justiça?

Por enquanto só fala em construir mais cadeias e, agora que Temer falou, promete reformas no sistema prisional. Ah, quantas promessas ao calor dos fatos... Quero ver daqui a três meses...

Qual é a avaliação de Temer entre o povão?

Pelo que indicam as pesquisas, péssima, menos apoio que Dilma antes do impeachment.

Qual é a chance de ele se aguentar até 2018?

Quem, Temer, o Breve?

Na última entrevista que fiz com você, você disse que a turbulência só terminaria se Cunha caísse. A turbulência acabou, agora que ele está preso?

Possivelmente eu não contava com a queda da Dilma. Agora acredito que a turbulência durará até o resultado da eleição presidencial de 2018. Ainda que haja eleição indireta este ano para um mandato presidencial tampão.

Você acha que o país aguenta quanto tempo mais com a Lava Jato fazendo a agenda do país?

Acho, porque a corrupção é endêmica e a esmagadora maioria da opinião pública está a favor de que se investigue, prenda e puna os corruptos e corruptores. Só a delação da Odebrecht é como a copa de um imenso carvalho, repleta de ramificações. A Lava Jato é a nossa novela real. Todos ficam à espera do próximo capítulo... Supera toda a programação da Netflix.

Lula é o seu candidato a presidente?

Meu candidato a presidente tem que ser socialista, comprometido com os movimentos sociais e as mudanças estruturais que o PT deixou de fazer em 13 anos de governo.

Como a direita conseguiu tornar-se popular no país a ponto de eleger João Doria no primeiro turno?

A população brasileira é de direita. O PT deixou de promover a alfabetização política em seus 13 anos de governo. Qualquer figura midiática, como ocorreu com Trump nos EUA, tem eleição garantida.

Como será o Brasil governado pela direita?

Como fomos governados por Castello Branco e Ernesto Geisel, com uma retórica liberal e severa repressão policial para assegurar nossa vassalagem aos Estados Unidos e ao capital financeiro internacional.

Pelo que entendi o Lula não é teu candidato em 2018. Por motivos políticos ou por motivos éticos?

Lula será sim meu candidato se o PT fizer autocritica, voltar a assumir o horizonte socialista e se comprometer com uma agenda de profundas reformas estruturais apoiada pelos movimentos sociais progressistas.

Quando ele deixou de ser seu candidato?

Voto em programas e não em pessoas. E, evidentemente, no candidato que encarna o programa de governo que me parece transformador.

Você rompeu com o PT?

Nunca fui militante partidário. E minha avaliação dos governos petistas consta em dois livros, ambos editados pela Rocco: "A mosca azul - reflexão sobre o poder" e "Calendário do poder".

Até que pontos as acusações contra Lula são fantasiosas e até que ponto são reais?

O ônus da prova cabe a quem acusa. Quanto a Lula, o objetivo da Lava Jato é afastá-lo da possibilidade de vir a se candidatar a presidente - e, hoje, ele ganharia a eleição.

Há algum político que se enquadra no perfil de presidenciável socialista? Ou é um personagem à espera de um ator?

Há vários: Chico Alencar, João Pedro Stédile, Marcelo Freixo, Luciana Genro, Guilherme Boulos e tantos outros.

O que se pode esperar da PEC da Aposentadoria? O povo vai pra rua protestar?

Não vai. O PT no governo perdeu a oportunidade de politizar a nação. As reformas serão empurradas goela adentro do povão.

Acha correto a Igreja Universal entrar na disputa política? Como vê a ascensão política dela? Isso é bom ou ruim para o Brasil?

Todas as Igrejas participam da disputa política. Sempre foi assim. Sou contra é querer confessionalizar a política e querer impor, através da lei civil, preceitos religiosos, como algumas tanto almejam.

É a favor que igrejas paguem imposto?

Sim, para evitar corrupção e lavagem de dinheiro.

Você disse que o PT teria que fazer uma autocrítica. Quais os pontos dessa autocrítica? Onde o PT errou?

Os governos Lula e Dilma foram os melhores de nossa história republicana. Porém, cometeram vários equívocos, como adotar uma política econômica neoliberal, não promover reformas estruturais (e hoje o PT é vítima da reforma política que não fez), favorecer, primeiro, o acesso da população a bens pessoais (quando deveria priorizar os bens sociais, como educação e saúde), criando uma nação de consumistas e não de cidadãos, assegurando a governabilidade por alianças com as velhas raposas em vez de investir em lideranças dos movimentos sociais para que viessem ocupar as cadeiras do Congresso (como, pela via conservadora, fizeram as Igrejas evangélicas) etc.

Lula vai resistir às investidas de Moro e ser candidato?

Só ele pode responder esta pergunta.

Sergio Moro não parece parcial demais como juiz? O que acha de juízes terem assumido tanto protagonismo no Brasil?

Sim, Moro foca mais o PT e até agora não deu andamento às investigações que envolvem o PSDB. Quanto à judicialização da política brasileira: ela resulta do enfraquecimento do Executivo e do Legislativo. Perdemos o equilíbrio entre poderes.

Você disse que a delação da Odebrecht é a atual novela das 9. Você concorda com a publicação de trechos de delações em revistas como a Veja, por exemplo antes que sejam confirmadas?

Eis outra grave falha ou omissão propositada da Lava Jato: o vazamento seletivo do que corre em segredo de Justiça. E os responsáveis por isso jamais foram investigados e muito menos punidos.

Acha que a Odebrecht pode derrubar o governo Temer? E como?

Só o ministro Teori Zavascki pode responder a esta pergunta.

Concorda com a campanha Fora Temer?

Sim, e em todas as minhas conferências Brasil afora sempre inicio com estas palavras: “Fora Temer, são todos bem-vindos”!

Por que nunca dá entrevistas na TV? Não chamam ou você não gosta? Por que não gosta, já que todos preferem falar na TV que tem mais alcance?

Não invejo ninguém famoso e muito menos quem é reconhecido em público. Sou avesso a assédios. Mineiro, adoro ficar no meu canto.

Mas se você aparecesse na TV teus livros venderiam mais. Não é o que todo escritor quer?

Não no meu caso. Mais gosto de escrever do que vender. E não troco minha tranquilidade por dinheiro nenhum.

A TV Globo é uma emissora democrática ou desde a ditadura defende interesses de classe?

Sou colunista de O Globo. E sou de esquerda.

Como consegue escrever tantos livros? Escreve quantos por ano?

Reservo 120 dias do ano para escrever. Portanto, meu ano "normal" tem apenas 240 dias. Sou muito disciplinado, acordo muito cedo, costumo lançar ao menos um livro por ano. Este ano serão dois, talvez em junho: OFICIO DE ESCREVER (Rocco), sobre o prazer da escrita; e PARÁBOLAS DE JESUS (Vozes), uma atualização das parábolas do Evangelho.

Tem ideia de como será Cuba sem Fidel?

Sem Fidel, a vida segue. Com Trump, o tempo dirá...

Esses atritos entre Obama e Putin querem dizer que a guerra fria não acabou?

Todas as guerras daqui pra frente serão frias. Há demasiado estoque de armas nucleares para alguém ousar atirar primeiro. Se acontecer, não haverá vencedores. Será o Apocalipse.

Acredita que Putin e Trump possam entender-se pelo bem da paz mundial?

Tomara.

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Marco Dal Corso entrevistado por João Vitor Santos

A emergência de uma humanidade atravessada pela hospitalidade

O estado de crises em que o mundo parece mergulhado, de problemas humanitários a políticos e econômico-sociais, pode ser resumido como “crise global de hospitalidade”. É nesse sentido que vai a perspectiva do professor e teólogo italiano Marco Dal Corso. “Trata-se de uma crise cultural e, talvez, espiritual, antes de uma crise social e política. Se isso é verdade, precisamos repensar nossas categorias fundantes, pelo menos aquelas sobre as quais construímos a chamada cultura ocidental”, explica. Desde a perspectiva teológica, acredita que “a hospitalidade como princípio pode ajudar a repensar também a própria comunidade: quando as relações econômicas não são medidas pela posse, aquelas políticas determinadas pelas fronteiras e pela pátria e as religiosas com a pretensão de deter a verdade”

Na entrevista, o professor usa o texto bíblico da tenda de Abraão para, a partir dele, refletir sobre a hospitalidade hoje. Assim, para Corso, a partir dessa narrativa de Gênesis, “podemos observar algumas características principais sobre a pessoa hospitaleira. Antes de tudo, manter a porta aberta. A tenda de Abraão não tem chaves para fechá-la, mas portas que abrem”. Ele ainda vai à cultura de povos originais para observar outros princípios hospitaleiros que podem inspirar a mudança do paradigma contemporâneo. É o caso de algumas tribos africanas, em que a hospitalidade “acontece em um lugar vital para todo o vilarejo quase como se quisesse lembrar, viver e dar um conteúdo experiencial ao pensamento hospitaleiro que sustenta a prática da hospitalidade: eu sou porque nós somos”. O professor ainda reflete sobre a mudança de época em que vivemos. É verdade que essa mudança gera um tempo de crises, mas que podem incitar a pensar noutra lógica de humanidade. “A crise da nossa época, como dito, é uma crise espiritual antes de ser social. As igrejas e as comunidades religiosas em geral são chamadas a dar uma resposta”, reflete.

Qual é o conceito de hospitalidade? E como entender este conceito em relação à realidade de hoje?

Há uma crise global de hospitalidade que solicita, antes ainda de agir, que pensemos de forma diferente, mais além e ainda mais. Trata-se de uma crise cultural e, talvez, espiritual, antes de uma crise social e política. Se isso é verdade, precisamos repensar nossas categorias fundantes, pelo menos aquelas sobre as quais construímos a chamada cultura ocidental. Na busca de um novo pensamento uma importante contribuição pode ser dada pelo pensamento bíblico, se liberado da "gaiola" helenística, assim entendida por muito tempo. Assim, podemos nos confrontar, como nos advertem os intelectuais mais sensíveis (Levinas, Derrida...) com o paradigma sobre a identidade e seu mito, que seria a base da crise de hospitalidade que hoje vemos os efeitos e consequências. O pensamento bíblico deselenizado vai além da identidade racional do pensamento grego, está concentrado no ser e nos chama a “tornar-se o que és”. Mas vai ainda além da identidade moderna que centraliza o eu, promovendo a autocriação do sujeito, agora autônomo e projetual, senhor da história e do seu destino. O apelo bíblico identitário não para diante da subjetividade lúdica do pós-moderno, cujo “pensamento frágil” quer contestar a crise das grandes narrativas. O bíblico é de fato um apelo à responsabilidade onde a identidade se constrói no ser para o outro. Neste sentido, a narrativa bíblica aparece como real contestação em relação ao pensamento moderno ocidental: o humano, para a bíblia, não termina na lógica do ser, mas na sua superação. Aparece como uma real contestação em relação ao pensamento moderno. Vem a ser o ser para o outro. Enfim, a hospitalidade não é, segundo a lógica bíblica, uma exortação moral, mas uma característica fundante da crença. A hospitalidade é, em qualquer caso, um imperativo ético, não jurídico, é o que distingue a dinâmica religiosa que tende a transformar em lei o amor ao próximo daquele da fé, que coloca o amor ao próximo como critério para julgar a lei. É por isso que o mandamento bíblico para a hospitalidade é um convite e não uma obrigação. Nenhuma lei, nenhuma cultura, nenhuma teologia a satisfaz completamente; continua a ser um convite para ouvir e satisfazer e com o qual se, ao menos, confrontar. A obrigação da hospitalidade não é baseada no estatuto do crente, mas no direito do pobre. Por isto, acreditar é diferente de pertencer, e a justiça, conforme a sensibilidade judaica, tem a primazia sobre a liturgia como a ética sobre a religião.

De que forma a perspectiva da hospitalidade pode contribuir para o debate sobre o diálogo inter-religioso? Se as antigas verdades das religiões não mudam, o que deve mudar são as práticas sociais e culturais

Enquanto a urgência do diálogo aparece de forma evidente (não somente sócio-político, em tempos de fundamentalismo globalizado, mas também e até mais na questão cultural e religiosa), ao mesmo tempo cada tradição espiritual defronte ao pluralismo cultural e religioso é chamada a reconsiderar de forma crítica os seus escritos, as suas tradições doutrinais e morais, e gozar da biodiversidade religiosa, da presença difusa do Espírito… Se as antigas verdades das religiões não mudam, o que deve mudar são as práticas sociais e culturais. Na história as religiões já modificaram, por exemplo, as suas posições sobre a escravidão, discriminação racial, a situação da mulher, a relação com a ciência, a centralização do rito e as suas formas históricas… A urgência histórica e humanitária não pode nos deixar esquecer que estamos diante de uma mudança de paradigma. Por isto a hospitalidade não se propõe simplesmente como uma postura, mas antes de tudo como um pensamento, um paradigma diferente. Os que foram utilizados até aqui ou insistem sobre a dimensão identitária ou sobre a alteridade e a diferença, como emerge do estudo da teologia das religiões elaboradas até aqui. Trata-se de unir de outra forma identidade e alteridade. Temos certeza de que o paradigma da hospitalidade pode responder a esta chamada do pluralismo: como uma identidade fruto da hospitalidade (“fui imaginado então existo”) é possível pensar em uma relação com o outro de tipo hospitaleira (segundo a qual o hipotético hostis-inimigo se torna hospes-hóspede). A teologia da hospitalidade (a ser quase toda escrita), não é outro capítulo da teologia das religiões onde o pluralismo é “de facto”, mas não “de iure”; se propõe então como uma reflexão que interroga o pluralismo, interpretando-o dentro da economia da salvação divina. O diálogo inter-religioso que virá deve ser “informado” a partir da teologia do pluralismo religioso cuja marca da hospitalidade se propõe como categoria fundante.

A hospitalidade pode ser entendida como um princípio ecumênico? Por quê?

Pensar e não somente praticar a hospitalidade comporta a adoção de uma série de “primazias”. A primeira é a eteronomia sobre a autonomia. Não significa renunciar a conquista moderna da autonomia, mas repensá-la de forma crítica. A “primazia” que auxilia na passagem do paradigma identitário (sobre o qual se constroem as políticas sociais) ao paradigma da hospitalidade, do paradigma da exclusão (como tema ideológico e cultural) ao da co-hospitalidade. Segunda primazia é a do princípio da hospitalidade como responsabilidade (em relação ao outro) sobre a liberdade (do eu). Significa que a resposta às necessidades do outro é o caminho para encontrar a busca de sentido. A bíblia aqui diria: escolhe o bem e serás livre. Isto libera as relações de interesse e faz com que sejam possíveis como doação. A hospitalidade entendida como princípio, indica uma terceira primazia: o da justiça sobre o amor. Mais uma vez, não porque o amor deixa de ser uma medida da vida da fé, ou somente a coerência com aquilo em que se acredita, mas porque o princípio da hospitalidade ajuda a passar de uma justiça radical interpretada como “do ut des” a uma justiça como gratuidade, assimetria, relações, como resposta radical aos problemas da injustiça estrutural e pessoal. Se levado a sério, o princípio da hospitalidade ajuda a repensar o divino: antes de ser invocado, Ele é advogado. Ao invés de distante, o divino é descoberto próximo a nós e antes de ser onipotente, Ele é descoberto como condescendente. Mas o princípio da hospitalidade serve para repensar o humano: não mônade, nem absorvido pela totalidade, mas relação. E enfim, a hospitalidade como princípio pode ajudar a repensar também a própria comunidade: quando as relações econômicas não são medidas pela posse, aquelas políticas determinadas pelas fronteiras e pela pátria e as religiosas com a pretensão de deter a verdade. Nesta perspectiva a hospitalidade ajuda a recriar o ecumenismo cristão e, como aprendemos com a América Latina, o macroecumenismo com as outras religiões.

Quais as reflexões sobre a hospitalidade que nos podem ser indicadas pelo texto sobre a tenda de Abraão (Gênesis 18)?

A passagem de Gen, 18 foi interpretada como uma narrativa paradigmática da hospitalidade e não poderia ser diferente. Uma narrativa muito comentada, onde, todavia, podemos observar algumas características principais sobre a pessoa hospitaleira. Antes de tudo, manter a porta aberta. A tenda de Abraão não tem chaves para fechá-la, mas portas que abrem. Depois, a pessoa hospitaleira, conforme o exemplo de Abraão, é a que dá as boas-vindas: consciente, isto é, que a pessoa que chega, como diz a palavra, traz o “bem” para a casa. Além disso, a pessoa hospitaleira se dá conta daquilo que o outro necessita. Ou seja, tem uma capacidade empática, que vai além da tolerância ou da indiferença: o outro “é importante para ele”. Enfim, a pessoa hospitaleira aprende com Abraão e com a sua esposa a dar espaço para o outro e doar aquilo que tem, ensinando a despojar-se dos bens. Como Abraão, a pessoa hospitaleira sabe que estar mais próximo de Deus é salvar os homens, por isto, acolher e servir o hóspede é mais importante que acolher e servir a Deus. Em outras palavras: a justiça goza de uma primazia sobre a liturgia. Por isto, como diz o Papa Francisco, afirmar que a “Igreja é um hospital de campanha” (para todos os feridos, também os estrangeiros) não é uma metáfora edificante, mas uma afirmação teológica coerente.

Podemos associar a destruição de Sodoma e Gomorra (Gênesis 18-20) à ideia de hostilidade ou não hospitalidade plena? E quais associações podemos fazer com o tempo atual de conflitos e não acolhimento aos estrangeiros?

A Bíblia, como outros códigos culturais antigos, narra em várias ocasiões a prática da hospitalidade. A história de Lot , após a de Abraão, que recebe em sua tenda dois personagens desconhecidos, é uma dessas ocasiões. A narrativa tem sido muitas vezes interpretada com o registro ético-sexual: quando a culpa dos habitantes de Sodoma seria a sua tentativa de abuso sexual em relação aos estrangeiros. Tal interpretação, no entanto, aprisiona o texto em relação a sua mensagem real, como observado pelos estudiosos bíblicos há tempos. A culpa dos sodomitas está na violação da hospitalidade e na destruição da cidade e dos seus habitantes, mais que um sinal da vontade punitiva e vingativa dos hóspedes ofendidos, propõe-se uma metáfora da morte da pessoa que não é acolhedora. Hospedar, mais uma vez, não é um simples ato generoso, mas uma experiência geradora, tanto para quem hospeda como para quem é recebido. Negar-se a acolher, conduz à própria morte, ao fechamento, a não realização de si, conforme a Bíblia. Que, ao contrário de outras literaturas, quando narra, como neste episódio, que no centro do pedido de hospitalidade está o estrangeiro (estes são os dois personagens de que falamos) indica o estrangeiro não simplesmente como um lugar social, mas como um lugar teológico: Deus se revela no estrangeiro. Porque hospedar é sair de si mesmo, é escolher amar de forma assimétrica como se ama a Deus. Se esta hermenêutica bíblica se sustenta, a sua mensagem chega até aos nossos dias. A não hospitalidade destes “dias ruins” antes de ser um problema dos outros, é um problema para mim: todas as comunidades que se fecham estão destinadas à "morte". E a crise da nossa época, como dito, é uma crise espiritual antes de ser social. As igrejas e as comunidades religiosas em geral são chamadas a dar uma resposta.

Na cultura dos povos indígenas, como é o conceito de hospitalidade? Quais relações são estabelecidas a partir desse contato com o outro?

Porque, como disse Eliade , a experiência do sagrado está diretamente ligada ao esforço do ser humano em construir um mundo que faça sentido, podemos nos dirigir aos mundos tradicionais e aos povos originários não como uma comparação exótica (quase como uma viagem no tempo e em um mundo que não existe mais), mas como uma comparação com uma outra lógica, capaz de ficar à frente dos problemas de hoje e indicar perspectivas para o futuro. Podemos aprender com eles e descobrir, por exemplo, que a hospitalidade africana não é somente um comportamento, mas é, sobretudo, um tema: que a prática da hospitalidade seja como um dote, isto é, um pensamento hospitaleiro. Uma tradução exemplar disto poderia ser a experiência dos povos Bapunu entre Gabon e Congo Brazzaville. Estes, assim como outros povos africanos, dispõem de uma verdadeira estrutura para a hospitalidade no vilarejo. Nos referimos ao caso do Mulebi. Uma das máximas dos Bapunu, é: “Quando estás prestes a te sentar à mesa, deves olhar para a entrada do vilarejo. Talvez esteja chegando um forasteiro.” (U ji wi ji dissu o kodu dimbu). “Enquanto comes, pense no estrangeiro, que pode aparecer de um momento para o outro”. Enfim, a hospitalidade na África tem uma estrutura, acontece em um lugar vital para todo o vilarejo quase como se quisesse lembrar, viver e dar um conteúdo experiencial ao pensamento hospitaleiro que sustenta a prática da hospitalidade: eu sou porque nós somos. E talvez, retomando e transpondo o famoso axioma de memória cartesiana: não o “penso, logo existo”, mas “fui pensado, então existo”. A contribuição do pensamento “outro” africano aparece desde o início: repensar a metafísica ou a base do ser humano. Se isto se aplica às religiões tradicionais africanas, mesmo os povos nativos e os mundos tradicionais da América Latina podem contribuir para repensar a relação com o outro. Em pelo menos dois aspectos. O primeiro é, por exemplo, repensar a pessoa dentro de tramas relacionais também com o meio ambiente. A visão política filosófica ocidental não tem incidido sobre a relação do ser humano com a natureza, exceto pela recente "preocupação ecológica”. A democracia ocidental, em suma, parece fazer pouco caso do ambiente onde vivem os homens. Os habitantes dos Andes, por outro lado, sabem que Pacha Mama é a noiva mística do Céu e que o Céu é fecundado pelo sol e pela chuva. É a manifestação da energia cósmica "feminina", a manifestação da função "materna" da divindade. Todos os seres vivos — plantas, animais, homens — são gerados pela Mãe Terra e por ela alimentados. Por isso, a terra pode ser utilizada somente como usufruto. O eu hospedado deve saber que é o guardião, e não o proprietário da criação, diria a Bíblia. A segunda contribuição, olhando para o mundo tradicional na terra de Abya-Yala, é ajudar a repensar o destino comum dos bens. A sociedade globalizada atual corre o risco de "perder o mundo", porque, entre outras coisas, perdeu o sentido do bem comum. Nas festas indígenas, a instituição do mordomo, ou seja, do festeiro, refere-se ao princípio da redistribuição dos bens. Na verdade, ele tem à sua disposição um ano inteiro, onde toda a sua energia e a força de trabalho da família servem para acumular o necessário para preparar grandes quantidades de comida e bebida para ser consumida durante o dia, ou nos dias da festa. Durante o ano qualquer necessidade pessoal, mesmo que legítima, está subordinada à tarefa que a comunidade destinou ao mordomo. Este, no final do ano, terá acumulado (às vezes contraindo dívidas) tal quantidade de gêneros alimentícios (milho, farinha, carne, cocaína, álcool), tornando-se a pessoa mais “rica” do vilarejo, mas esta riqueza é passageira. Durante a festa, o mordomo gasta todas as suas provisões, e assim, o mais rico se torna o mais pobre da comunidade. Terminada a festa, outro candidato tomará seu lugar e começará a trabalhar, economizar, acumular para que a festa do próximo ano seja boa para todos. O santo patrono, por sua vez, aceita este ano de tantos sacrifícios destinados ao bem da comunidade como uma prova de amor em relação a ele e recompensa aqueles que se submetem, abençoando os seus campos e os seus animais. Antes de ser um costume cultural interessante para os turistas, a tradição do “festeiro” lembra a sociedade ocidental sobre o significado de mundo, que está no compartilhamento e não no amealhar bens. A Bíblia diria que o eu hospitaleiro pode ser recebido e também acolher. Pode, conforme o misticismo bíblico, “ter tudo sem ter nada”. Os bens são para todos. Enfim, para um pensamento ocidental centrado no hoje e desprovido de responsabilidade em relação ao futuro, quase incapaz de pensar na “dívida intergeracional”, existe outro pensamento, falado anteriormente, ligado ao seu “papel” hospitaleiro, que tem responsabilidades em relação ao futuro. Somente desta forma creio que exista um sentido em pensar nos povos originários, suas culturas e cosmovisões.

Quais são os desafios para praticar a hospitalidade no ambiente cotidiano?

Mais do que desafios, eu falaria, seguindo a escola de Panikkar, em interpelações. A referência aos místicos e intelectuais como Raimon Panikkar pode nos ser útil na identificação. A experiência da hospitalidade que viveram, por exemplo, nos faz entender— como disse Massignon, definido como um “muçulmano católico” por Paulo VI — que para compreender o outro não é necessário integrá-lo, é necessário ser seu hóspede. A verdade é encontrada somente através da hospitalidade. Da experiência do diálogo hospitaleiro somos chamados à nossa liminaridade, a habitar a terra do meio, como lembra a fascinante e dramática parábola de Henri le Saux, monge beneditino que habitou o coração da espiritualidade hindu. Aprendemos também que participar do diálogo é o mesmo que frequentar um lugar inquietante, porque somos chamados a mudar a nossa própria autocompreensão, se quisermos entender seriamente a posição do outro, como diz Panikkar. Outra máxima hospitaleira é o testemunho de Simone Weil , capaz de atingir o mundo todo: nada está descartado, nenhuma dúvida e, sobretudo, nenhuma pessoa. Na escola de Teilhard de Chardin, no entanto, podemos aprender e tentar traduzir no nosso ambiente quotidiano e na nossa vida comum que só uma verdadeira paixão pela vida, pela matéria e pelo mundo, pode ajudar a compreender a presença de Deus em tudo. Desesperar-se no presente, então, é uma traição da mística da hospitalidade, lição admirável dada pelo grande monge que foi Thomas Merton. E, finalmente, neste esboço de interpelações que resultam da "mística da hospitalidade", onde estamos conscientes de que a vida contemplativa politiza a fé. Uma mística de olhos abertos como no diálogo e no encontro com o outro, que não pode ser neutro conforme as poesias de outro místico contemporâneo, Ernesto Cardenal. Seu compromisso político é o resultado de uma introspecção espiritual profunda. Nós seremos capazes de praticar a hospitalidade em nossas vidas diárias, se entendermos e vivermos a mística.

Como a perspectiva teológica da hospitalidade pode contribuir para reflexões sobre a crise dos migrantes?

Para responder a esta pergunta, gostaria de indicar o projeto de pesquisa sobre a “teologia da hospitalidade" que um grupo de pesquisadores, teólogos, pastores e laicos estão fazendo a algum tempo, coordenados por alguns professores do Instituto de Estudos Ecumênicos - ISE San Bernardino em Veneza. Aproveito para dizer que o projeto está aberto para todas as colaborações, também em solo brasileiro. O porquê de analisar a hospitalidade tem a ver com a pergunta anterior. Nós nos perguntamos: por que precisamos de um novo paradigma? E as nossas respostas iniciais foram: Porque vivemos em um mundo novo. Este mundo de hoje é globalizado, interligado não somente de forma cultural, mas também religiosa, onde os conflitos não são mais determinados (somente) pelas ideologias econômicas e políticas, mas também pelas identidades reativas onde as religiões tiveram e (têm) uma colaboração significativa. É necessária uma nova autocompreensão das religiões para ajudar e favorecer a conivência entre as pessoas (a atual autocompreensão das religiões ainda é um obstáculo à convivência). Uma crença hospitaleira ajuda na convivência entre as nações. Porque vivemos uma época de mudanças, é necessário superar as formas históricas do passado se quisermos acompanhar os novos tempos de pluralismo religioso. Na história as religiões já modificaram, mudaram, repensaram diversos temas/problemas (por exemplo, escravidão, igualdade de gênero, relação com a ciência...). Nesta “mudança de época” (muito mais que época de mudanças), deve-se ter um novo pensamento, além do que foi herdado (também teologicamente). Uma crença hospitaleira é o futuro do diálogo inter-religioso. Porque se não mudarmos o pensamento teremos preconceitos Mesmo tendo ultrapassado o pensamento exclusivista (“em nome de Deus” e “pela sua glória”), não superamos ainda a mania de superioridade, da pouca valorização das outras religiões, do fechamento no seu próprio modo de pensar, da incapacidade de dialogar inter-religiosamente (modalidade operacional derivada de um pensamento inclusivo). Uma crença hospitaleira, ao contrário, não quer ser privada da força espiritual das diversas tradições religiosas e culturais: as riquezas espirituais são para todos. Porque existe uma urgência civil, política e humanitária, um novo princípio para o dialogo inter-religioso não pode ser somente uma preocupação intraeclesiástica ou um tema interno, das religiões. A busca por um novo modo de pensar (e de viver) o diálogo inter-religioso é um tema de tipo civil, político e humanitário. A contribuição da teologia pública para a cidade a serviço do crescimento espiritual (e cultural) da humanidade. A crença hospitaleira é uma modalidade pública e política das tradições religiosas e culturais. Estes porquês querem responder à crise não somente dos migrantes, mas a crise da sociedade em geral.

Gostaria de acrescentar algo?

Para concluir, me permito indicar alguns textos, cuja edição está em língua italiana, que passam pelos temas tratados aqui e que, sobretudo, testemunham a pesquisa sobre a categoria da hospitalidade, que há algum tempo envolve os meus interesses e pesquisas. O primeiro é assinado juntamente pelo amigo e teólogo Placido Sgroi, L’ospitalità come principio ecumenico (Pazzini, 2008), onde o “pensamento hospitaleiro” é interpretado como pensamento recriador também para o ecumenismo. Em relação à hospitalidade e, sobretudo sobre a sua negação, temos dois textos: Per un cristianesimo altro: le esperienze religiose amerindie (Pazzini, 2007), onde, partindo do sul do mundo, tenta-se contar uma outra forma de vida e interpretar o cristianismo; apresento, ainda, uma outra lógica cultural e religiosa dos povos originários em Religioni Tradizionali (EMI, 2013). Sobre a pedagogia inter-religiosa temos ainda o caderno monográfico de estudos ecumênicos intitulado Per una pedagogia del dialogo interreligioso (ISE San Bernardino, 2014); e a reflexão teológica em relação às religiões, onde podemos pensar em uma verdadeira teologia da hospitalidade está no volume de Brunetto Salvarani Molte volte e in diversi modi: manuale di dialogo inter-religioso (Cittadella, 2016). Por fim, gostaria de citar que a próxima edição do texto do amigo Faustino Teixeira intitulado Per una mistica dell’ospitalità, está prevista para o início de 2017, na coletânea “Frontiere” dirigida por mim.

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