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Edição 149, Junho 2019

Walden Bello

O CAPITALISMO FINANCEIRO PREPARA A RECESSÃO 2.0

Há duas coisas sobre as quais existe um consenso. Primeiro, que continuar no caminho atual do capitalismo financeiro pouco regulamentado levará a outra catástrofe financeira, talvez uma pior do que a crise de 2007-2008. Em segundo lugar, que se afastar desse caminho para a ruína exigirá assumir e romper o poder do capital financeiro”, escreve Walden Bello professor adjunto internacional de Sociologia na Universidade Estatal de Nova York, em Binghamton, e pesquisador associado do Transnational Institute (TNI), em artigo publicado por Ctxt. A tradução é do Cepat /IHU

Nos últimos 30 anos, o capital financeiro se tornou dominante nas principais economias capitalistas, superando a elite industrial em poder e influência. Essa evolução levou o setor produtivo a ficar cada vez mais sujeito à dinâmica volátil do setor financeiro.

A centralidade das finanças na atual economia mundial é evidenciada pela crescente frequência de grandes crises financeiras, que inevitavelmente são acompanhadas pelas recessões. Desde que se iniciou a liberalização dos mercados de capitais, durante a era Thatcher-Reagan, no início dos anos 1980, ocorreram ao menos 12 grandes crises financeiras. A mais recente foi a crise global de 2007-2008, que também causou o que hoje é conhecida como a Grande Recessão, da qual muitas das economias desenvolvidas ainda não se recuperaram.

As causas da financeirização

Considera-se que o processo e a característica mais marcante do capitalismo contemporâneo é a financeirização. No tempo de Marx, a financeirização como um mecanismo chave para criar lucros era considerada uma aberração periódica. Nos últimos anos, no entanto, se tornou a maneira dominante de extrair lucros. Como isso aconteceu?

A financeirização deriva essencialmente da crise de produção iniciada no final dos anos 1970. Isso tomou a forma de uma crise de superprodução que atingiu a economia capitalista global, depois dos chamados trinta anos gloriosos de expansão, após a Segunda Guerra Mundial.

A superprodução tinha suas raízes na rápida e bem-sucedida reconstrução econômica da Alemanha e do Japão e no rápido crescimento das economias em vias de industrialização, como Brasil, Coréia do Sul e Taiwan. Isso agregou uma enorme capacidade produtiva e aumentou a competição global, ao passo que a desigualdade de renda dentro e entre os países limitou o crescimento do poder de compra e a demanda efetiva. Essa crise clássica de superprodução - ou subconsumo, para usar a formulação de Paul Sweezy - levou a uma queda na lucratividade.

Houve três saídas para a crise de rentabilidade sofrida pelo capital: a reestruturação neoliberal, a globalização e a financeirização. A reestruturação neoliberal significava essencialmente redistribuir a renda da classe média aos ricos para encorajar os últimos a investir na produção. A globalização da produção implicava a localização de instalações de produção em países com baixos salários para aumentar a lucratividade.

Embora essas duas estratégias tenham ocasionado um aumento da lucratividade, em curto prazo, em médio e longo prazo, foram contraproducentes, uma vez que causaram uma queda na demanda efetiva, cortando ou impedindo o aumento dos salários dos trabalhadores.

Dimensões chaves da financeirização

Isso nos deixa a financeirização, que tinha uma série de aspectos-chave, mas há que destacar três. Em primeiro lugar, a financeirização implicava a criação massiva de endividamento da população para substituir a renda estagnada, a fim de criar demanda por bens e serviços. Grande parte dessa dívida foi financiada pela injeção de dinheiro emprestado pelos governos asiáticos, reciclando dinheiro para os Estados Unidos procedente dos excedentes comerciais que desfrutavam com este último. A principal via foi através da provisão dos chamados empréstimos habitacionais de alto risco para uma grande parte da população. Esses eram empréstimos concedidos indiscriminadamente a compradores de casas com pouca capacidade de pagamento, de modo que eram essencialmente bombas-relógio.

Em segundo lugar, a financeirização implicava as chamadas inovações em engenharia financeira que facilitariam a liquidez. Um dos mais importantes - e, em última instância, o mais danoso - foi a securitização, que consistia em fazer com que os contratos tradicionalmente imóveis, como hipotecas, fossem líquidos ou móveis e negociáveis. As hipotecas securitizadas, que podiam ser negociadas, levariam ao desaparecimento da original relação credor-devedor. Além disso, a engenharia financeira permitiu fazer com que a hipoteca de alto risco original fosse combinada com hipotecas de melhor qualidade e que fossem vendidas como títulos mais complexos. Mas, mesmo quando os títulos hipotecários se combinavam e recombinavam e eram negociados de uma instituição para outra, não podiam escapar de sua qualidade subjacente. Quando milhões de proprietários de hipotecas de alto risco já não podiam mais arcar com seus pagamentos devido a sua baixa renda, essa evolução se espalhou como uma reação em cadeia aos bilhões de títulos hipotecários que foram negociados em todo o mundo, prejudicando sua qualidade e levando à falência aqueles que possuíam quantidades significativas deles, como o banco de investimento de Wall Street, Lehman Brothers. Os títulos garantidos por hipoteca (MBS, mortgage-backed security) foram apenas um exemplo das inovações da engenharia financeira, conhecidas como "derivados", que tinham por objeto facilitar a liquidez, mas que acabaram encorajando empréstimos massivos na frágil suposição de capital ou riqueza real. Operadores de mercado caracterizados por uma alta proporção de dívida e capital próprio foram descritos como "altamente alavancados". O alto nível de alavancagem de Wall Street antes da crise foi demonstrado pelo fato de que o valor do volume total de instrumentos financeiros de derivativos foi estimado em 740 trilhões, em comparação com um PIB global de 70 trilhões de dólares. Os matemáticos contratados pelas instituições de Wall Street formularam as equações mais complexas para encorajar a ilusão de qualidade quando, na realidade, os valores repousavam sobre ativos de valor questionável.

A terceira característica fundamental da financeirização foi que muitos dos operadores, instituições e produtos-chave que estavam na vanguarda do processo, não estavam regulamentados ou eram mal regulamentados. Assim surgiu o chamado "setor bancário paralelo", junto ao setor bancário tradicional regulamentado, com instituições financeiras não tradicionais como Goldman Sachs, Morgan Stanley e American International Group (AIG), que serviram como a primeira onda massiva de um tsunami que trouxe consigo a introdução de securitização, engenharia financeira e novos produtos, como os MBS, as obrigações de dívida colateral (CDO) e os swaps de inadimplência de crédito (CDS). A implosão das hipotecas de alto risco de 2007 revelou a dinâmica essencial da financeirização como o motor da economia, isto é, que dependia da criação e inflação de bolhas especulativas. A obtenção de lucros se baseava na criação de uma dívida massiva com uma base muito fraca sobre o valor real ou sobre o capital. Enquanto persistia a ilusão de que os MBS eram valores sólidos, Wall Street funcionava como um cassino, com investidores usando diferentes produtos financeiros para apostar nos movimentos dos valores dos ativos e seus produtos derivados para fazer uma fortuna. Um massacre significava comprar títulos pelo "preço certo" no "momento certo" e, depois, vendê-los assim que o preço subisse significativamente e antes que diminuíssem. No entanto, uma vez que os acontecimentos expuseram os fundamentos frágeis dos títulos de alto risco, os operadores do mercado entraram em pânico e saíram correndo para vender seus ativos o mais rápido possível para recuperar algo de valor, um processo que acelerou o colapso dos títulos em um nível negativo.

O fracasso da reforma

Quando Barack Obama se tornou presidente dos Estados Unidos, em 2008, uma de suas prioridades era consertar o sistema financeiro global. Dez anos depois, é evidente que, devido a uma combinação de timidez por parte do Governo e resistência por parte do capital financeiro, pouco foi reformado, apesar dos compromissos de alto nível com a reforma financeira global assumida pela Cúpula do Grupo dos 20, em Pittsburgh, em 2009.

Em primeiro lugar, o problema de "muito grande para quebrar" piorou. Os grandes bancos, que foram socorridos pelo governo dos Estados Unidos, em 2008, se tornaram ainda maiores e os "seis grandes" bancos estadunidenses - JP Morgan Chase, Citigroup, Wells Fargo, Bank of America, Goldman Sachs e Morgan Stanley – possuem, coletivamente, 43% a mais de depósitos, 84% a mais de ativos e três vezes mais dinheiro do que antes da crise de 2008. Essencialmente, duplicaram o risco que derrubou o sistema bancário em 2008.

Em segundo lugar, os produtos que desencadearam a crise de 2008 continuam sendo negociados. Isso incluía cerca de 6,7 trilhões de dólares em títulos respaldados por hipotecas, cujo valor se manteve só porque a Reserva Federal comprou 1,7 trilhão de dólares. Os bancos estadunidenses possuem coletivamente 157 trilhões de dólares em derivativos, aproximadamente o dobro do PIB mundial. Isso é 12% a mais do que possuíam no início da crise de 2008.

Em terceiro lugar, as novas estrelas do firmamento financeiro - o consórcio de investidores institucionais composto por fundos de cobertura, fundos de capital de risco, fundos soberanos, fundos de pensão e outras entidades de investimento – continuam recorrendo à rede mundial sem controle, operando a partir de bases virtuais denominadas paraísos fiscais, buscando oportunidades de arbitragem em moedas ou valores, e dimensionando a rentabilidade das empresas para possíveis compras de ações. A propriedade dos cerca de 100 trilhões de dólares nas mãos desses refúgios fiscais flutuantes para os grandes ricos se concentra em 20 fundos.

Em quarto lugar, os operadores financeiros estão acumulando lucros em um mar de liquidez proporcionado pelos bancos centrais, cuja liberação de dinheiro barato para acabar com a recessão como consequência da crise financeira levou à emissão de trilhões de dólares de dívida, elevando o nível global da dívida para 325 trilhões de dólares, mais de três vezes o tamanho do PIB mundial. Há um consenso entre os economistas de todo o espectro político de que esse aumento da dívida não pode continuar indefinidamente sem causar uma catástrofe.

Em quinto lugar, em vez de controlar mais de perto o setor financeiro, alguns países seguiram as economias capitalistas avançadas para liberalizá-lo. Na China, a segunda maior economia do mundo, isso criou uma perigosa conjunção de fatores que podem levar a uma implosão financeira: um mercado de valores volátil, uma bolha imobiliária e um setor bancário paralelo não regulamentado. O número de pontos vulneráveis na economia mundial aumentou e todos são candidatos à próxima grande crise.

O que é necessário fazer?

Em um estudo recente, patrocinado pelo Transnational Institute, que será publicado no final deste ano, apresento uma justificativa detalhada de 10 imperativos importantes para o setor financeiro global. São estes:

1. Restringir as operações dos fundos de capital de risco e fechar os paraísos fiscais;

2. Proibir títulos respaldados por hipotecas e derivativos;

3. Avançar para um banco de reserva de 100%;

4. Nacionalizar instituições financeiras que são muito grandes para quebrar;

5. Reinstituir a Lei Glass-Steagall que colocou uma "muralha chinesa" entre o banco comercial e o banco de investimento;

6. Colocar limites drásticos na remuneração dos executivos;

7. Eliminar gradualmente as agências de classificação de crédito, como Moody's e Standard and Poor;

8. Convocar uma nova Conferência de Bretton Woods para estabelecer novas instituições e regras para a governança financeira global, acabar com o monopólio do dólar como moeda de reserva global e estabelecer acordos novos e justos para o desenvolvimento e financiamento do clima;

9. Fazer com que os bancos centrais prestem contas;

10. Avançar para a plena união política, fiscal e monetária nos países da zona euro ou sair do euro.

As medidas propostas constituem um "programa mínimo" ou um conjunto de medidas que reforçam as defesas mundiais contra outra crise financeira, embora não eliminem a possibilidade de tal coisa acontecer. O capitalismo como um sistema é estruturalmente propenso a gerar crises financeiras, e o programa descrito acima pressupõe um sistema econômico global que continua funcionando sob suas regras. A implementação bem-sucedida dessas reformas seria um passo gigantesco em um processo mais longo de mudança transformadora. No entanto, essa mudança não pode ocorrer sem abordar fundamentalmente outras dimensões-chave do capitalismo, especialmente sua força motriz: o desejo insaciável de obter lucros cada vez maiores. Para alguns, a necessidade mais urgente é como reformar o capitalismo. Em sua opinião, um programa de reforma financeira teria que ser integrado a um programa mais amplo de reforma drástica do capitalismo. Tal iniciativa teria que lidar seriamente com a falta de demanda enraizada na crescente desigualdade. Teria que reconhecer corajosamente suas raízes nas relações desiguais de poder entre capital e trabalho, como esse poder desigual se traduz em uma crescente desigualdade e como a desigualdade se traduz em uma demanda anêmica que freia a expansão da produção.

Para outros, a situação exige uma solução para além de uma reforma do capitalismo, inclusive de tipo keynesiano radical. Desse ponto de vista, a busca constante por lucratividade é uma fonte fundamental de instabilidade que, em última instância, minará todos os esforços em reformá-lo. Além disso, o que precisa ser tratado não é apenas a desigualdade social e a falta de demanda, mas o impulso do sistema produtivo em crescer às custas da biosfera. O que é necessário, dizem, é um programa pós-capitalista, ainda mais urgente pela catástrofe climática que está ocorrendo. De fato, em alguns círculos, uma estratégia decrescente é considerada cada vez mais necessária.

Em meio a esse debate cada vez mais acalorado sobre sistemas alternativos, há duas coisas sobre as quais existe um consenso. Primeiro, que continuar no caminho atual do capitalismo financeiro pouco regulamentado levará a outra catástrofe financeira, talvez uma pior do que a crise de 2007-2008. Em segundo lugar, que se afastar desse caminho para a ruína exigirá assumir e romper o poder do capital financeiro.

Andriolli Costa

NOSSOS CORPOS, NOSSAS REGRAS

Desde 2013 Andriolli Costa passou a apresentar-se como Eric. O nome ele escolheu, mas sua identidade de homem trans nunca foi alvo de escolha, mas de descoberta e aceitação. Os familiares, na medida do possível, foram compreensivos. Ainda hoje escorregam em artigos ou pronomes de tratamento adequados. Pelo menos não o haviam expulsado de casa.

“Eles entenderiam melhor se eu assumisse a narrativa de que eu era um homem em corpo de mulher. Se dissesse que estava no corpo errado.” No entanto, isso não era verdade para Eric. Nunca foi. “Meu corpo nunca esteve errado. Eu sempre fui homem, mesmo que não me parecesse com o que se espera de um homem”, esclarece. Eric Seger, aos 28 anos, nos lembra que a questão de gênero transcende a questão biológica.

Maria Fernanda faz do corpo uma mensagem política de autoafirmação. Ostenta com orgulho os pelos debaixo do braço, cultivados ao longo de quase dois anos. Uma lembrança para a sociedade — e para ela mesma — de que não precisa seguir padrões de qualquer tipo para ser mais ou menos mulher. Simpatizante das vertentes mais radicais do feminismo, concorda com a ideia de que o homem (como classe, não indivíduo) é um inimigo. Uma relação semelhante à aproximação desconfiada entre patrão e empregado, que não perde de vista a estrutura de dominação.

“Não é questão de ódio, mas de medo. Eu me relaciono sexualmente e afetivamente com homens, sou amiga deles, mas em última instância eles ainda são homens”, lembra, mencionando casos de violência e abuso que ocorrem todos os dias. O esclarecimento, entretanto, não a livrou do sofrimento. Por diversas vezes esteve em relacionamentos abusivos, marcados por chantagens e jogos emocionais.

“Quando vivemos essas situações, não percebemos o abuso. Para chegar ao ponto de admitir isso em uma entrevista, foi preciso primeiro admitir para mim mesma”, assinala. Assim como ela, uma em cada três mulheres em todo o mundo sofre violência por parte de seus parceiros, segundo a ONU. Militantes ou não. Maria Fernanda Salaberry, também aos 28 anos, nos lembra que gênero é um campo de enfrentamento.

Pouco depois de iniciar seu processo de transição, já com mais de 30 anos de idade, Luisa entrou em depressão e esteve reclusa por longos períodos. Tinha medo da reação que as pessoas viriam a ter. Familiares, conhecidos da rua, colegas de trabalho, todos pareciam pressioná-la. Antes de qualquer cirurgia a dignidade começou a retornar a sua vida com a alteração de seu nome social. Os implantes de silicone e a redesignação sexual, por sua vez, vieram para torná-la uma pessoa completa. Não era uma “troca de sexo”, como se diz no popular. Era uma readequação. Algo que ela mesma pôde atestar juridicamente, ao dar entrada, como advogada, em seu próprio pedido de alteração documental.

“Eu queria me olhar no espelho e me ver com uma aparência feminina. Antes disso, meu subconsciente parecia bloquear qualquer relacionamento que eu pudesse ter.” A vontade de estar com homens veio apenas com a transição pronta. Não com a cirurgia feita, mas com a identidade feminina formada. Luisa nunca se sentiu gay, mas uma mulher (trans) heterossexual. Essa não é a regra, e há diversos casos de gays e lésbicas entre os transgêneros, o que gera ainda mais incompreensão. Luisa Helena Stern, 48 anos, nos lembra que sexualidade e identidade de gênero são tópicos totalmente independentes.

Quando o filho de Fabiane nasceu, seu primeiro brinquedo foi uma bonequinha negra. O pai quis protestar — mais por boneca, que por negra. Em nada adiantou. Não seriam coisas tão pequenas que determinariam a masculinidade de seu filho, ela sabia. Quem, afinal, havia inventado que aquele era um brinquedo só de meninas? Para Fabiane, categorizar o mundo entre coisas de menino e de menina nunca fez muito sentido. Ainda assim, mesmo na idade adulta, as oportunidades continuavam a seguir essa lógica. Para ela, diziam, bastava o magistério. Era uma atividade adequada para uma mulher, e ela estaria cercada de crianças e de outras senhoras. Ignorou. Formou-se em Direito.

Longe de escritórios de advocacia ou de estágios no Ministério Público, ela encontrou seu lugar logo cedo em uma ONG de empoderamento feminino, a Themis, e nela permanece atuando até hoje. Para ela, ser mulher nunca se reduz à maternagem, mas a consciência adquirida acabou incorporada em sua vida. Algo que transparece na educação de seu filho, com 10 anos de idade. “Esses dias mesmo ele pegou meu sutiã do chão, colocou e começou a brincar.” Ela se divertiu com a cena, e entrou na onda. “É, tá faltando um pouco de peito aí, hein?” Fabiane Simioni, 35, recorda que aquilo que consideramos masculino ou feminino é construído com base em convenções sociais.

Vivências de género

Eric, Maria Fernanda, Luisa e Fabiane nos lembram de muitas coisas, mas a principal delas é de que ainda há muita confusão e desinformação envolvendo questões de gênero na nossa sociedade. Conforme o avanço das décadas, o antigo adágio de que a anatomia é o destino vem paulatinamente caindo por terra. Tanto que, para evitar uma distinção baseada entre pessoas trans e pessoas “normais”, utiliza-se o termo cissexual para se referir àqueles que se identificam com o gênero ao qual foram impostos. Mas, se gênero não é sinônimo de sexo biológico, e muito menos está ligado à orientação sexual, como é possível defini-lo?

O psicólogo cis Lucas Goulart, militante da ONG Somos e membro do Núcleo de Pesquisa em Sexualidade e Relações de Gênero UFRGS — o NUPSEX, esclarece que gênero é uma construção social. Ou seja, para além do macho e da fêmea, é a forma como os papéis de masculino e feminino são atribuídos, transformando os sujeitos em homens e mulheres. A orientação sexual, por outro lado, diz respeito ao interesse sexual por pessoas. E ainda que muitas vezes haja relação entre os dois termos, aquele que se identifica como gay não deseja ser uma mulher. O fato indica apenas que ele é um homem gay.

Basta olhar o cotidiano para ver como as questões de gênero estão presentes desde o nascimento até o fim da vida. Não se trata apenas de escolher um enxoval azul ou rosa para os bebês, ou de comprar carrinhos para um e panelinhas para o outro. Parte desde a decisão de ter ou não uma criança, e as consequências disso. “Volta e meia aparece no jornal uma matéria sobre um pai ‘herói’ que criou sozinho um filho após o abandono da mãe”, resgata Lucas. “Mas se a mídia escrevesse uma matéria para cada mãe solteira que faz o mesmo, não haveria jornal para dar conta.”

Entretanto, o assunto não se restringe às questões do feminino. O garoto proibido de fazer dança ou cursar uma faculdade de artes plásticas por ser coisa de menina; o rapaz que se fecha com os amigos para não parecer emotivo e afeminado; ou a pessoa trans que desenvolve transtornos psicológicos por temer a reação dos pais, todas essas são questões de gênero, que se inserem em uma lógica fundamentalmente machista e patriarcal.

Tal lógica é desgastante, e afeta a todos. Mesmo os homens, ainda que sejam seus maiores beneficiados. Deles, a sociedade exige demonstrações de força e resistência que não combinam com cuidados com o corpo ou emotividade. Segundo o Centro de Referência da Saúde do Homem, de São Paulo, a cada mês cerca de 60% dos pacientes procuram o local já apresentando enfermidades em estado avançado.

Ser o “homem da casa” é uma responsabilidade adoecedora. Contudo, é sempre importante relembrar que os homens — ainda que possam sofrer com restrições em relação a seu gênero — são ainda privilegiados socialmente, cabendo a eles questionar esses privilégios. Discutir questões de gênero não é apenas retirar privilégios de um grupo, mas é libertar a todos.

Feminismo e enfrentamento

Se gênero é um campo de enfrentamento, a era da internet e das redes sociais torna esses embates mais públicos e frequentes. De maneira que, muitas vezes, o assunto pode parecer ultrapassado e o discurso “vitimista”. No entanto, não é preciso muito para perceber que ainda há tanto a ser discutido. E nem mesmo os direitos já conquistados com anos de luta são pontos pacíficos.

Em dezembro de 2014, o deputado federal do PP-RJ, Jair Bolsonaro, defendeu o pagamento de salários menores para mulheres, frente ao iminente risco de gravidez. “Poxa, essa mulher daqui a pouco engravida e fica seis meses de licença-maternidade. Quem que vai pagar a conta? O empregador. Quando ela voltar, vai ter mais um mês de férias. Ou seja, ela trabalhou cinco meses em um ano.”

De modo parecido, quando a passista Fabiana Vilela desfilou grávida este ano, no carnaval de São Paulo, não faltaram aqueles para botar em xeque a necessidade de dar assento no ônibus ou de deixar a gestante passar na fila do banco. O patriarcado tem dificuldades em abrir mão de qualquer direito, por mais simples que seja.

Fabiane Simioni, advogada e ativista, defende que é para a resolução de situações como essa que surgem os movimentos feministas. Feminismo não é o contrário de machismo, mas um processo político de transformação da sociedade. “É a ideia radical de que homens e mulheres devem ter direitos iguais, como diz o chavão.” Fabiane não nega as diferenças entre os sexos, mas luta para que estas não se reflitam em hierarquias e posições desiguais de poder. E, no mundo do trabalho, a gravidez é um dos exemplos mais evidentes deste tratamento desigual.

“Ainda hoje temos mulheres que são estimuladas dentro da empresa a programarem a maternidade, em uma política invasiva e coercitiva”, expõe. É o caso de uma empresa de telemarketing de Juiz de Fora, que estabeleceu uma escala de gravidez para suas funcionárias. Quem quisesse ter filhos, deveria obedecer ao período estabelecido pelo local. Na época, o ministro Claudio Brandão, do Tribunal Superior do Trabalho, se posicionou. “O empregador tem o controle do trabalho do empregado, mas não da sua intimidade, da sua privacidade. O empregado não deixa de ser cidadão quando vai trabalhar.”

É por essas e outras que a advogada, que também dá aula em um curso de aperfeiçoamento em Direitos Humanos na UFRGS, sempre chama a atenção de seus alunos para essas temáticas. No entanto, ela deixa claro: ninguém precisa virar ativista ou feminista depois de sua disciplina. “Ainda assim, para entender o feminismo, é preciso fazer um exercício de alteridade. O rechaço a priori é ruim para todos. Ouvir essa vivência pode ser libertador para quem consegue dar o primeiro passo.”

Um processo natural para o homem que simpatiza com a causa das mulheres é buscar o engajamento nos movimentos feministas. Foi o que fez o publicitário cissexual Lucas Rodrigues Koehler, antes de compreender seu papel nesta luta. “Eu sou branco, hétero e homem. Eu não posso assumir o protagonismo desta causa, mas posso ser um apoiador.” A reflexão amadurecida só veio com o passar do tempo. No início, questionava o porquê certos grupos eram tão contrários à participação do homem no movimento. Mais do que isso, tentava dizer para as próprias mulheres o que deveria ser o feminismo e como agir. A paciência e a empatia foram fundamentais para compreender que a melhor forma de ajudar era apoiar de fora. Hoje, faz o papel contrário. É ele quem explica a outros homens o modo adequado de apoiar o movimento.

“A energia que as mulheres gastam explicando para os homens o que eles fazem de errado poderia ser muito melhor empregada empoderando mais mulheres”, propõe Fabiane. Na capa do Facebook da ativista Maria Fernanda Salaberry, uma assertiva parece pôr um ponto final na ideia: “Ninguém pergunta por que os patrões não fazem parte do sindicato dos trabalhadores. Então, por que questionar o motivo de os homens não fazerem parte do feminismo?”.

Relações de poder

Pensar questões de gênero não é simplesmente reconhecer as diferenças, mas identificar a disparidade das relações de poder. É nesse sentido que se diz que este é um campo de constante enfrentamento. No entanto, para a publicitária e ativista Maria Fernanda Salaberry, é mais que isso. “Gênero não é uma guerra. Guerra é quando os dois lados atacam. Gênero é um massacre.” Ao seu lado estão os dados. No Brasil, a cada 10 minutos uma pessoa é estuprada, conforme o Fórum Brasileiro de Segurança Pública. Outra pesquisa, do IPEA, aponta que 88% das vítimas de estupro no país são do sexo feminino.

Nos grupos feministas, é comum a utilização do termo “sororidade”. Diz respeito à relação de fraternidade e solidariedade que deve existir entre todas as mulheres. Com base nisso, Maria Fernanda pontua: “Certa vez ouvi outras feministas dizendo que sororidade é mostrar para as mulheres que elas podem conviver bem com os homens. Não! Dizer isso é uma irresponsabilidade. Existe um risco efetivo”.

Para ela, a questão é levar em conta a socialização. A sociedade forma os homens para dominar e as mulheres para obedecer. Assim, mesmo aquele que não tem o desejo de oprimir acaba o fazendo sem perceber. “Você não pode chegar até a Faixa de Gaza e dizer que todos podem parar de se preocupar e serem amigos, sabendo que os exércitos estão a postos.”

Maria Fernanda milita por um feminismo radical. “Aquele que questiona o patriarcado desde as raízes”, explica ela. No entanto, ainda que sua denominação não derive de “radicalismo”, certas posturas mais extremas impactam mesmo dentro do próprio feminismo. “Muitas dizem que o feminismo radical é muito teórico. Mas não é a teoria que incomoda, é a postura de vida.”

A discussão, segundo ela, diz respeito à hierarquia e à exploração. “A sociedade forma as mulheres para executarem tarefas para os homens. Não só tarefa de educar os filhos, mas de fazer sexo com o cara.” Certas correntes, inclusive, afirmam que qualquer tipo de penetração é uma violência. Propõe então o lesbianismo político, para marcar de vez o afastamento dos homens. Maria Fernanda não segue essa linha, e continua a se relacionar com homens. Ainda assim, reconhece: “O patriarcado é o mais antigo sistema de exploração de todos os tempos. E ele só funciona até hoje porque as vítimas têm uma relação afetiva com seus exploradores”.

Questão de identidade

Ícone do feminismo do século XX, Simone de Beauvoir apontava em um famoso aforismo que não se nasce mulher, torna-se uma. Ao dizer isso, ela se referia ao modo como a sociedade molda o indivíduo dentro do que se espera dele. Tais expectativas mudam com as décadas, e podem ir de uma “gentil e submissa dona de casa” até a mulher independente e empreendedora dos dias de hoje — mas de quem ainda se cobra apartamento limpo e um filho bem educado. Revisões do pensamento de Beauvoir, propostos pela teoria queer, exploram como esta afirmação é válida para todos os corpos e sujeitos.

“De acordo com autores da psicologia do desenvolvimento, é a partir dos quatro anos que a criança passa a ter noção do gênero que lhe é estabelecido. Que existem aqueles tidos como homens, os tidos como mulheres e que cada um exerce papéis diferentes na sociedade”, esclarece Lucas Goulart. E é normalmente nessa idade, também, que a criança começa a perceber as possíveis inadequações. Assim, chegamos à questão de identidade de gênero — a forma como a própria pessoa se reconhece diante da socialização que recebe.

Foi assim para Luisa Stern, da ONG Igualdade. “Eu sonhava em ser mulher quando crescesse. Já me imaginava mulher.” Ela conta que desde a infância sentia sua identidade feminina sendo formada, ainda que para conseguir processar e compreender o que acontecia fosse preciso bem mais tempo. Quando a decisão foi tomada, no entanto, ela a assumiu sozinha e em silêncio. Não contou aos amigos, colegas ou familiares — nem mesmo à sobrinha, com quem morava na época. “Tem a ver com a questão da minha autonomia. Falar com alguém seria como se eu estivesse pedindo permissão para ser assim.” Não era o caso. Luisa é o que sempre foi. E agora, tanto por dentro quanto por fora.

Eric Seger de Camargo foi cursar Educação Física, na UFRGS, para se entender. “Eu fui buscar uma verdade do corpo, que para mim não fechava. Porque havia uma verdade por trás do meu próprio corpo que eu não conseguia entender.” Não encontrou. Ao menos não ali. O curso apenas reforçou estereótipos de masculino e feminino. Frustrado, buscou outros horizontes. Em uma disciplina de Psicanálise e Arte, escreveu um artigo sobre arte queer, inspirado no vídeo The Gender Obsolescence. Nele, homens e mulheres cis e trans desmascaravam-se perante a sociedade. “A pessoa que entregou esse artigo nunca mais voltou. No outro semestre, já pedi que os professores alterassem meu nome na lista para Eric”, relata.

“Para que a pessoa trans possa se desenvolver, é fundamental ter um grupo de pessoas que acreditam em ti e te legitimam socialmente”, reflete. Neste sentido, ele encontrou todo o apoio no NUPSEX, onde atualmente é bolsista de Iniciação Científica. E esta legitimação se dá em um nível muito maior do que o de simplesmente utilizar a colocação pronominal adequada.

“Quando eu digo que quero ser tratado no masculino, espero que as pessoas me tratem como homem. E eu sinto a diferença quando não é para valer. A pessoa me trata de maneira adequada, mas na real parece que está falando com Napoleão Bonaparte”, confidencia Eric. “Algo como: Ah, você é Napoleão? Bom, se você está dizendo eu acredito...”

Disforia de gênero

Para conseguir os tratamentos hormonais ou o encaminhamento para cirurgias pelo SUS, as pessoas trans no Brasil devem passar por atendimento em uma das quatro Unidades de Atenção Especializadas credenciadas. O Hospital das Clínicas de Goiânia (GO) — cujo projeto está em vias de ser encerrado, o Hospital das Clínicas da FMUSP (SP), o Hospital Universitário Pedro Ernesto (RJ) e o Hospital de Clínicas de Porto Alegre (RS). Neles, dependendo da disponibilidade do local, é possível realizar não apenas a hormonioterapia e a redesignação sexual, mas também a tireoplastia — para feminilização da voz — e a mamoplastia masculinizadora para os seios.

Em Porto Alegre, esse tipo de trabalho no HC é realizado dentro do Programa de Transtorno de Identidade de Gênero, o Protig. O nome já está sendo mudado, mas ainda segue a antiga forma de se relacionar com a transexualidade — como um transtorno, uma parafilia, da mesma forma que a homossexualidade foi tratada durante muitas décadas. O novo Manual de Diagnóstico e Estatística dos Transtornos Mentais norte-americano - DSM-5, traz mudanças a esta visão, propondo o termo “Disforia de gênero”. As mudanças vêm ocorrendo, mas de forma lenta.

“Cada vez mais, na psicologia, estamos vendo a questão da identidade como sendo autocentrada”, explica Lucas. “Ou seja, se a pessoa se coloca como homem ou mulher, é isso o que faz da pessoa homem, mulher, ou pessoa não binária.” Aquele que deseja se submeter ao processo transexualizador, ou mesmo solicitar juridicamente a mudança de seu nome social, deve apresentar um laudo psicológico atestando sua “disforia”.

Lucas Goulart atua constantemente nesta área, graças ao projeto Direito à Identidade: Viva seu Nome — uma parceria com o NUPSEX, a Igualdade e o G8-Generalizando, grupo de assessoria jurídica da UFRGS. Ele relata que seu parecer não é psicologizante, e explicamos como a pessoa construiu sua vida daquela maneira e como a mudança de nome pode minimizar a situação de vulnerabilidade. Ainda assim, reconhece que não é a melhor maneira. “Nenhum cis precisa passar por alguma avaliação para atestar ser homem ou mulher”, problematiza. “Nós tentamos não patologizar, mas ainda é tratado como doença. A melhor solução seria não necessitar de parecer algum.” A solução, no entanto, não parece estar próxima. Isto porque, com exceção de casos específicos, com o SUS não é possível realizar cirurgias plásticas por motivo estético. Por isso, certa patologização acaba sendo necessária.

Mas nem todos os pareceres são assim. Para a realização da cirurgia de redesignação sexual pelo SUS, o órgão exige pelo menos dois anos de tratamento psicológico. Correm, entre os pacientes desses centros, críticas sobre a exigência de um comportamento idealizado de homens e mulheres por parte dos pacientes. “Em alguns hospitais de referência, a equipe médica exige que a mulher trans tenha aquele ar de Amélia, de dona de casa, enquanto aqui fora a mulherada quer se livrar deste estereótipo”, relata Luisa. Muitas vezes se cobra da mulher trans até mesmo um jeito de sentar adequado, como se fossem estes signos capazes de dizer o que é ou não ser mulher.

Em Porto Alegre, segundo Eric, o clima poderia ser mais acolhedor. “Não é como se eles estivessem te ouvindo, mas te interrogando. Eles sempre ficam perguntando sobre a sua infância, como se tentassem descobrir o que houve de errado.” Eric entende que a prática vem dos protocolos da psiquiatria, e não dos profissionais em si, mas sugere que estas práticas sejam desafiadas.

Outras críticas dizem respeito ainda à cobrança por uma heteronormatividade. Eric conta que se relaciona com homens e mulheres, mas tem uma preferência. “Eu sou mais gay, na real, mas eu digo que sou bi.” Eric já relatou a uma assistente social sua preferência. No entanto, quando outra residente preenchia seu questionário, perguntou quando havia sido sua última relação sexual com uma mulher. “Com mulher?”, respondeu, deixando o subtexto claro. Ela confirmou. “Não passava pela cabeça dela outra possibilidade. Se eu digo que sou homem, então tem que ser com meninas, né?”

Do contato que já teve com outros pacientes, ouviu que o teatro é a melhor solução. Sente-se, por vezes, como se aqueles que seguem a cartilha do homem ou da mulher ficam mais próximos da cirurgia. “É uma coisa meio Big Brother, meio Jogos Mortais”, sintetiza.

A psicóloga e pesquisadora do Protig, Bianca Machado Borba Soll, relata que muitas vezes os pacientes já chegam ao Programa com um discurso pronto. “Eles leem na internet que para fazer a cirurgia é preciso agir de tal jeito, mas aqui nós seguimos critérios diagnósticos. Nenhum critério diz que é preciso ser heteronormativo, mas diz em relação à identidade.”

Segundo ela, esta triagem é importante para não encaminhar para a cirurgia alguém que manifesta insatisfação com o corpo, mas que em verdade não deseja a redesignação do sexo. Pode ser fruto de um surto, por exemplo. “Os critérios falam de um desconforto com suas características sexuais, do desejo de ter características de outro sexo biológico.” Algo que seja realmente grande, a ponto de a pessoa decidir se submeter a uma cirurgia de risco. “Às vezes há quem nos procure para ‘retirar o pênis’, mas relata que ainda sente prazer com ele, e o utiliza para relações sexuais. Então, será que a intervenção cirúrgica é realmente o melhor caminho?”

Para Lucas Goulart, nossa sociedade ainda tem uma visão muito limitada e binária de gênero e sexualidade que é ligada aos genitais. “E isso faz com que essas pessoas não consigam acessar os seus direitos, seja no dia a dia, seja no mercado de trabalho.” Isso se comprova ao observar as estimativas. De acordo com a Associação Nacional de Travestis e Transexuais - ANTRA, 90% das travestis e transexuais no Brasil estão no mercado da prostituição.

“Uma boa iniciativa se vê em São Paulo, onde o governo está oferecendo bolsa para travestis estudarem. Afinal, muitas precisam largar a escola porque são expulsas de casa e precisam trabalhar. E como não têm oportunidades, a prostituição acaba se tornando o único caminho”, problematiza Lucas. Para ele, as políticas públicas brasileiras estão avançando — mesmo com a eleição do congresso mais conservador das últimas décadas. “Mas, é claro, enquanto pessoas estiverem morrendo, os diálogos sempre serão muito vagarosos.”

Linhas cruzadas

Neste campo tão movediço, corpos e sexualidade se misturam na construção da identidade de gênero que problematiza os binarismos tradicionais. Problematizam, mas não rompem com eles, pois ainda há a diferenciação entre masculino e feminino. No entanto, existem aqueles que alegam se identificar com os dois gêneros. Ou então com gênero algum. Contra o binarismo, vertentes discutem o rompimento da barreira homem e mulher. Pensar em indivíduos e seres humanos, sem divisões estanques.

O Centro de Equidade de Gênero da Universidade da Califórnia, em Berkeley, propõe: “Uma pessoa cuja identidade de gênero não é nem homem nem mulher está entre os sexos ou além, ou é uma combinação de gêneros”. E conclui: “Algumas pessoas não binárias se colocam sob o guarda-chuva dos transgêneros, enquanto outras não”. O reconhecimento do gênero neutro vem aos poucos. Em países como Alemanha e Austrália já é possível registrar uma criança sem especificar o sexo entre masculino e feminino. No Facebook da Argentina, o usuário pode se identificar entre mais de 50 opções de gênero e orientação sexual.

Maria Fernanda Salaberry questiona tamanha diversidade. Para ela, por vezes, é uma questão de exagero. “Você pode deixar que as pessoas transitem entre dois polos, ou acima, ou dos lados. E aí se você se diz abacaxi, você é abacaxi.” No entanto, lembra ela, “propor a extinção das divisões binárias não discute a hierarquia desses lugares”. Ela também se preocupa com as questões práticas. Como fica a questão da identidade de gênero em um hospital? Ou em um presídio?

Eric, ainda que se reconheça como binário, compreende como esta divisão pode não fazer sentido para algumas pessoas. “Tem gente em que o selo do gênero simplesmente não gruda.” Para ele, é preciso estar aberto para compreender as singularidades de cada um. “Alguém que tem o privilégio de não precisar dizer o tempo todo o que é, não pode repetir certas violências”, defende. Para ele, “é uma agressão fortíssima dizer que uma pessoa não é aquilo que ela está dizendo”.

Esse tipo de violência é frequentemente denunciado por homens e mulheres trans, especialmente no que envolve as chamadas TERFS — sigla em inglês para Trans-Exclusionary Radical Feminists. São grupos dentro de vertentes radicais que excluem, agridem e silenciam mulheres trans. Em dezembro passado, por exemplo, diversas ofensas foram pichadas nos banheiros femininos da USP. As mensagens ameaçavam: “Vamos cortar sua pica fora”, e marcavam posição: “Não vamos deixar os machos ocuparem nossos espaços”. Uma das mais simbólicas dizia: “Ser mulher não é usar nossos sapatos”.

Para Eric, há muito a se perder na exclusão das mulheres trans dos movimentos feministas. “Se elas dessem voz a estas pessoas, poderiam entender o que ocorre com uma mulher quando esta sofre uma socialização masculina, e ainda assim abraça a vida de mulher”, propõe. A mesma rusga destes grupos, no entanto, não é vista em relação aos homens trans. Com estes o problema é outro. “Quando elas dizem que sua sororidade não está com as mulheres trans, mas está com os homens trans, é como eu falei sobre Napoleão. Na verdade, elas continuam nos vendo como mulheres.” Esta é a luta de Eric, a do reconhecimento.

- E o que é ser homem, para você?

Eric pensa um pouco. Encara a mesa do restaurante, e alisa o queixo sob a barba escanhoada na forma de cavanhaque. Por fim, responde.

“Eu não consigo dizer o que é ser homem”, reflete. “Eu apenas sei.”

Jacques Dupuis

A TRISTE HISTÓRIA DE UM TEÓLOGO ''HEREGE''

Com o Vaticano II, a teologia das religiões entrou de pleno direito na pesquisa teológica. A relação entre o cristianismo e as outras tradições religiosas levantava perguntas radicais nas quais se confrontavam respostas opostas, às vezes até contraditórias. Enquanto a questão vai evoluindo, pode-se pensar que não é mais o caso de se interrogar se a salvação de Jesus Cristo é alcançável também pelos “não cristãos”, nem mesmo se as outras religiões podem conter ou não autênticos valores humanos e cristãos, mas sim que é importante se perguntar explicitamente sobre qual significado positivo pode ser atribuído pela teologia cristã às outras religiões no âmbito do plano divino de salvação da humanidade. A reportagem é de Maria Teresa Pontara Pederiva, publicada por Settimana News. A tradução é de Moisés Sbardelotto /IHU

São esses os temas sobre os quais o teólogo belga e jesuíta Jacques Dupuis (1923-2004) refletiu durante muito tempo, em particular no seu texto “Rumo a uma teologia cristã do pluralismo religioso” (orig.: Ed. Queriniana, 1997; trad. bras.: Paulinas, 1999]: pelas ideias ali expostas, mas acima de tudo pelas suas aulas na Gregoriana, em 2000 Dupuis foi acusado pela Congregação para a Doutrina da Fé, então liderada pelo prefeito Ratzinger, e depois também desautorizado a lecionar.

Gerard O’Connell, jornalista estadunidense, colaborador da revista America, dos jesuítas dos Estados Unidos, e de alguns portais italianos, incluindo o Vatican Insider-La Stampa, entrevistou Dupuis após o seu triste caso, aliás, comum entre seus colegas, mas o interessado não pretendia difundir ainda mais as decisões da Congregação para a Doutrina da Fé, alvo já fácil de críticas e de ressentimentos. Assim, foi somente após a sua morte que a longa conversa viu agora a luz num denso texto da editoria Missionaria, com um título mais do que significativo: “Il mio caso non è chiuso” [O meu caso não está encerrado] e a promoção sob o slogan “O testamento inédito do teólogo ‘herege’”.

Uma teologia fruto da experiência missionária

“Senti um impulso quase físico de escrever este livro”, respondia Dupuis”. Eu já havia escrito em francês, em 1989, a pedido de Dom Joseph Doré, diretor da coleção ‘Jésus et Jésus-Christ’, um primeiro livro sobre a teologia das religiões intitulado ‘Jésus-Christ à la rencontre des religions’. Digo isso para mostrar que eu me ocupo há muito tempo da teologia das religiões e, em particular, do aspecto teológico do problema.”

Explica os motivos (e as conclusões) com uma riqueza de detalhes, todos ligados à sua experiência missionária na Índia: “Eu vivi 36 anos na Índia, dos quais 25 foram passados ensinando cristologia e lutando com as perguntas cada vez mais críticas que os estudantes me faziam a respeito do significado das tradições religiosas dos seus antepassados no plano providencial de Deus. Durante todos aqueles anos, fui exposto à realidade religiosa da Índia, que é um profundo desafio para nós. Quando parti para a Índia em 1948, também levava comigo, junto com as minhas convicções de fé, os preconceitos da nossa civilização e cultura ocidentais, e a convicção de que, como cristãos, possuímos o monopólio da verdade. Eu pensava que tinha que dar tudo e que não tinha nada para receber.

Meu primeiro encargo em Calcutá foi no liceu do Saint Xavier’s College, onde entrei em contato com mais de 1.000 estudantes, a grande maioria dos quais eram, como se dizia naqueles dias, ‘não cristãos’. Fiquei impressionado tanto com a sua capacidade intelectual quanto com a sua moralidade elevada e excelência espiritual. Inevitavelmente, eu me perguntei: de onde tiram esses ricos dons espirituais? E a resposta veio por conta própria: as tradições religiosas a que esses estudantes e suas famílias pertenciam e que praticavam com seriedade também deviam ter algum papel. Trata-se de perguntas que surgem a partir dos muitos contatos humanos de que é feita a vida quotidiana. Consequentemente, em termos muito simples, levanta-se a questão do significado das tradições religiosas no âmbito do valor humano da salvação.

Os estudos de teologia que eu fiz mais tarde e, mais ainda, os anos em que ensinei cristologia em estreito contacto com estudantes que se preparavam para o ministério sacerdotal – e refletiam intensamente sobre problemas semelhantes – tornaram essa interrogação mais aguda. Posso dizer que, durante toda a minha carreira como docente, ocupei-me de teologia das religiões, que, depois, tornou-se um tema de pesquisa teológica por si só. Gradualmente, cheguei a compreender que, enquanto, cristãos, temos algo infinitamente precioso para compartilhar com os ‘outros’, devemos também receber deles ou, melhor, antes de falar, devemos escutar; é mais precioso e importante receber do que dar, mesmo que seja mais difícil!”

Foi assim que o texto de há 30 anos (1989) representou uma primeira tentativa de reflexão, embora seu âmbito ainda fosse limitado – a proposta de uma “cristologia teocêntrica” como modelo adaptado –, mas talvez tudo tivesse a necessidade de uma abordagem mais aprofundada e sistemática. Esse havia sido o pedido, bem motivado, do Pe. Rosino Gibellini, então diretor editorial da Queriniana: um projeto que Dupuis considerara “meritório” e digno de ser levado em consideração: daí o lançamento em 1997, quase simultaneamente em italiano, inglês e francês, de “Rumo a uma teologia cristã do pluralismo religioso”.

A “batalha” das resenhas

Uma primeira resenha apareceu no Avvenire em 22 de novembro, com o título “O Cristo cósmico” e a assinatura de Enzo Bianchi. O então prior de Bose escreveu que os aspectos teológicos do problema eram “tratados pelo autor não apenas com competência, mas também com extrema lucidez e com raro equilíbrio”. Para concluir: “A densa obra de Dupuis se oferece como preciosíssima contribuição, quase como um guia, uma bússola, que pode orientar o caminho da teologia cristã diante do Terceiro Milênio. E, se é verdade que essa obra ‘provavelmente levantará um número de interrogações iguais àquelas às quais proporá soluções’ (cf. p. 20), é igualmente verdade que fazer as perguntas certas já é essencial para a correta constituição do problema”.

Não foi por acaso que o mesmo jornal publicou, após nada menos do que cinco meses, em 14 de abril de 1998, uma resenha posterior assinada por Inos Biffi, da Faculdade Teológica da Itália Setentrional, com o título emblemático de “O monopólio da Graça”. Uma resenha que – como se saberia mais tarde – havia sido encomendada de cima e solicitada diretamente ao Mons. Giuseppe Colombo, ex-reitor da faculdade, mas que se recusara a escrevê-la naquelas condições, transferindo-a, portanto, para Biffi, especialista em Santo Anselmo e responsável litúrgico da diocese ambrosiana. É quase supérfluo citar o seu tom: as afirmações do texto “nos parecem inaceitáveis não apenas do ponto de vista teológico, mas também sob o perfil da fé cristã”.

Palavras que imediatamente alarmaram o Pe. Giuseppe Pittau, reitor da Gregoriana, que pedira a Dupuis que escrevesse um comentário sobre a resenha: a partir do seu texto de nada menos do que 10 páginas, o reitor retirara uma breve nota em que protestava contra o tom e o conteúdo da resenha de Biffi, mas aquela nota nunca foi publicada no jornal por decisão única do diretor, que chegara até a declarar que nunca a recebera.

Enquanto isso, o reitor Pittau era culpado pelo Vaticano por ter organizado a apresentação do livro na faculdade, e de nada valeram as palavras da longa nota de Dupuis. E, na revista La Civiltà Cattolica (1998, n. 3, pp. 129-143), saiu um artigo assinado por Giuseppe De Rosa, intitulado “Uma teologia problemática do pluralismo religioso”, cujo texto permaneceu nas salas da Congregação para a Doutrina da Fé por mais de um mês, saindo de lá profundamente modificado e com o acréscimo daquele adjetivo – “problemática” – ausente na redação original, como admitira o Pe. Gianpaolo Salvini, então diretor, mas apenas diante do autor. De facto, quando a agência de imprensa Adista levantara dúvidas e a hipótese de ingerências evidentes da Congregação para a Doutrina da Fé, o reitor havia negado veementemente em várias ocasiões.

Enquanto isso, em 24 de janeiro de 1998, na revista inglesa The Tablet, era publicada uma resenha do Pe. Gerald O’Collins – conselheiro teológico de Dupuis durante toda a redação do texto – na qual se afirmava: “Obra verdadeiramente magistral, compêndio de uma vida de estudos e experiências para delinear um profundo caminho teológico na compreensão cristã das outras religiões. Em vez de simplesmente se perguntar ‘se’ pode haver salvação para os membros dessas tradições, Dupuis enfrenta a questão do ‘como’, segundo a providência de Deus, essas tradições mediam a salvação dos seus membros”.

Uma assinatura apenas por “obediência”

As acusações, porém, não pararam, e a situação se precipitou, como muitos se lembrarão, no outono do ano 2000, após mais de dois anos de investigação. No início de dezembro, foi transmitida a Dupuis por parte do superior-geral Kolvenbach, a “Notificação” da Congregação para a Doutrina da Fé com o convite para assiná-la sem mais discussão (em setembro, havia ocorrido um primeiro encontro com o prefeito, Ratzinger, no qual Dupuis havia contestado as afirmações de uma primeira redação da “Notificação”).

Na realidade, o texto, como observou o jesuíta belga, apresentava uma estrutura bastante semelhante, mas diferente nos conteúdos, pois “não falava mais de graves erros contra a fé contidos no livro, mas apenas de ‘notáveis ambiguidades e dificuldades’ (...) O texto, no entanto, prosseguia explicando que a intenção da Notificação consistia em ‘enunciar a doutrina da Igreja a respeito de alguns aspectos das supracitadas verdades doutrinais e, ao mesmo tempo, em refutar opiniões errôneas ou perigosas, às quais, indiferentemente das intenções do Autor, o leitor pode chegar por motivo de formulações ambíguas ou explicações insuficientes contidas em diversas passagens do livro”.

No dia 6 de dezembro, a Notificação foi publicada no L’Osservatore Romano em versão integral com a declaração de que, “com a assinatura do texto, o Autor comprometeu-se, para o futuro, a se ater aos esclarecimentos nela contidos. Eles serão critério vinculante para a sua atividade teológica e para as suas futuras publicações teológicas”.

Ninguém soube explicar uma publicação subsequente da Notificação no dia 21 de fevereiro de 2001, acompanhada por um comentário do próprio Ratzinger – pelo menos é o que levam a supor os três asteriscos finais (***) – com o acréscimo, com o total desconhecimento de Dupuis (que guardou uma fotocópia da nota original), de que o texto da Notificação “deverá ser incluído também em eventuais reimpressões ou reedições do livro em questão e nas relativas traduções”.

A amargura de um idoso religioso desesperançado

O caso parecia resolvido, e Dupuis, embora com grande amargura, pudera respeitar o seu denso programa de conferências na Itália e no exterior, mesmo sabendo que “era preciso usar prudência e circunspecção nas comunicações públicas orais e escritas”.

Mas a publicação do texto de uma de suas intervenções em Bruxelas, sobretudo a do Congresso Internacional de Teologia Fundamental, na Universidade Católica de Lublin, na Polônia, levantou novas acusações por parte da Congregação para a Doutrina da Fé, acusações que depois foram formuladas em uma carta do cardeal Ratzinger ao Pe. Kolvenbach, datada de 8 de janeiro de 2002, em que se afirmava que a Congregação se via obrigada a “pedir a Sua Paternidade que, com a autoridade que lhe pertence, pelo menos peça ao Pe. Dupuis que, no futuro, se abstenha de intervir com escritos e discursos sobre o assunto”. E daí se abria caminho para a sua futura suspensão também do ensino.

Uma carta de conteúdo teológico que Dupuis definia como de “pouca qualidade”, na qual se argumentava em torno do significado do “Verbo encarnado” e não se fazia mais menção a erros “contra a fé”, mas apenas a afirmações “contra a doutrina católica ou da Igreja”.

Em resposta, era cancelada de cima a sua participação em um encontro sobre as relações muçulmano-cristãs organizado pelo arcebispo de Canterbury em 17 e 18 de janeiro de 2002, no Palácio de Lambeth, e era imposto a Dupuis que cancelasse pessoalmente uma conferência em Lisboa (embora o texto, enviado com bastante antecedência já em português, havia sido lido, depois, na sua ausência e publicado na revista Didaskalia).

Enquanto isso, em setembro, havia sido publicado na Itália o seu novo livro, “Il cristianesimo e le religioni. Dallo scontro all’incontro” [O cristianismo e as religiões. Do confronto ao encontro] (Ed. Queriniana, 2001), com o objetivo declarado de “dissipar algumas ambiguidades que podiam estar presentes no meu livro anterior”.

Mas foi tudo em vão, e, naquele mesmo ano, o cardeal Ratzinger também obteve a sua remoção do cargo de diretor da revista Gregorianum, comunicada a Dupuis pelo Pe. Franco Monda, no dia 1º de outubro, enquanto Dupuis se recusava categoricamente a liberar a entrevista concedida, nesse meio tempo, a O’Connell, onde hoje lemos: “Por quanto tempo somos vinculados ao sigilo imposto pela autoridade doutrinal da Igreja? A verdade pode permanecer escondida para sempre? Podemos ser forçados a nos calar para sempre, sem a possibilidade de autodefesa, enquanto as acusações continuam prejudicando a reputação do teólogo e fazendo a sua pessoa sofrer?”.

Parece ser muito detalhada a sua análise sobre os métodos da Congregação para a Doutrina da Fé em relação a teólogos de um passado relativamente recente (como Henri de Lubac, Karl Rahner, Yves Congar, Marie-Dominique Chenu, Edward Schillebeeckx, Bernhard Häring...) e de hoje (Hans Küng, Gustavo Gutiérrez, Jon Sobrino, Leonardo Boff...) e sobre a eventual “lição” a se aprender: “É surpreendente que, anteriormente, os imputados eram convidados a discutir seriamente as suas obras com as autoridades da Congregação e com pessoas competentes por ela delegadas (...), enquanto hoje só são convidados a assinar uma Notificação contra o seu trabalho...”.

Um caso de conotações tristes, sem dúvida, mas que, pelo menos de acordo com as declarações de Dupuis, deixa aberta a porta da esperança. Diante da pergunta do jornalista se, no fim dos tempos, Cristo lhe pedisse uma prestação de contas do seu trabalho, o jesuíta respondia com desarmadora sinceridade:

“Não consigo me imaginar apresentando ao Senhor, do outro lado desta vida, uma prestação de contas do que eu fiz. Não acho que seja necessário: o Senhor conhecerá o meu trabalho muito melhor do que eu mesmo o conheço. Só posso esperar que a sua avaliação seja mais positiva do que a de alguns censores e, infelizmente, da autoridade doutrinal central da Igreja (...). Tenho confiança que o Senhor, que lê os segredos dos corações, saberá que a minha intenção ao escrever o que eu escrevi e ao dizer o que eu disse foi apenas a de expressar o melhor que eu podia a minha profunda fé nele e a minha total dedicação a ele. Quando nos encontrarmos, em vez de eu tomar a palavra, espero escutar do Senhor, apesar dos meus defeitos e das minhas faltas, uma palavra de conforto e de encorajamento. Rezo para que ele me convide a entrar na sua glória, a cantar para sempre os seus louvores. Espero que ele me diga: ‘Bem, servo bom e fiel, tu foste fiel no pouco, eu te darei poder sobre muito; toma parte da alegria do teu senhor’ (Mt 25, 21)”.

O’Connell, relatando fielmente todas as partes da entrevista, no fim, permite-se acrescentar aquela “sensação” que o religioso havia lhe manifestado várias vezes: aquela estranha sensação “de estar sob constante supervisão, para não dizer perseguido pela autoridade e passível de nova denúncia”: uma situação “realmente muito difícil de suportar”.

De 2003 (em 5 de dezembro, a Gregoriana havia celebrado o seu 80º aniversário) a novembro de 2004, chegaram a 24 as intervenções, a maioria no exterior, proferidas pelo Pe. Dupuis, enquanto o Regis College de Toronto, no Canadá, propôs-lhe um doutorado honoris causa, impopular, porém, no Vaticano.

“Eu perdi a alegria de viver em 2 de outubro de 1998 e, desde então, não a recuperei mais”, confessava o jesuíta, acrescentando com infinita tristeza a notícia de que lhe havia sido negada toda e qualquer publicação. “Agora, estou perdendo a vontade de sobreviver.”

“O que a Congregação para a Doutrina da Fé ainda pode fazer contra mim que já não fez? (...) As minhas atividades, talvez, seriam prejudiciais à Companhia? (...) E como eu prejudicaria a Gregoriana?”

São algumas interrogações contidas na carta ao superior geral que ele se preparava para entregá-la depois do Natal de 2004, mas, no dia 27 de dezembro, após ter desmaiado no refeitório da Gregoriana, ele foi levado ao hospital, onde morreu no dia seguinte, 28 de dezembro de 2004.

O texto relata, para uma maior completude de informações, a apresentação do próprio autor ao livro publicado pela Queriniana em 2001: “Passaram-se mais de 25 anos desde a publicação do meu livro ‘Rumo a uma teologia cristã do pluralismo religioso’...”, onde ele analisa as afirmações postas sob acusação, em particular, as “vias de salvação” e conclui, com reconhecida coerência de pensamento: “Gostaria de expressar mais uma vez a minha convicção de que uma abordagem mais aberta e mais positiva às outras tradições religiosas dentro do plano de Deus para a humanidade é uma necessidade urgente para a própria vida da Igreja”.

(Gerard O’Connell. “Il mio caso non è chiuso”. Conversazioni con Jacques Dupuis. Bolonha: EMI, 2019, 248 páginas)

Reportagem de Charlie Wood

'A MAIOR AMEAÇA PARA A HUMANIDADE É A INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL'

Nick Bostrom, professor de filosofia na Universidade de Oxford, especialista nos riscos representados pela inteligência artificial, declarou ao Business Insider que a IA é "uma ameaça maior para a existência humana do que as mudanças climáticas". A reportagem é de Charlie Wood, publicada por Business Inside Itália. A tradução é de Luisa Rabolini /IHU

Nick Bostrom, professor de filosofia em Oxford, declarou ao Business Insider: "A inteligência artificial (IA) é uma ameaça maior para a existência humana do que a mudança climática: a mudança climática não será a maior reviravolta que veremos neste século". E acrescentou: "É improvável que a mudança climática leve a um bom resultado, mas se o desenvolvimento da IA for negativo, será muito pior do que as mudanças climáticas: a inteligência artificial poderia se revelar como algo realmente positivo para a humanidade, mas poderia também ter consequências muito graves”.

Bostrom é um pensador proeminente em seu campo, tendo publicado livros incluindo Superinteligência. Tendências, perigos, estratégias. Ele também se diferencia dos demais porque apela para ambos os lados do debate: seu trabalho foi apoiado por Elon Musk, que expressou opiniões apocalípticas sobre a IA, e Bill Gates, um cauteloso defensor da tecnologia.

É por isso que ele tem o cuidado de explicar sua comparação com as mudanças climáticas, uma força que poderia prejudicar a Terra irrevogavelmente a menos que os seres humanos façam mudanças radicais na próxima década.

"A razão pela qual a inteligência artificial é muitas vezes representada como um robô maligno na mídia é porque serve para contar melhor a história: os robôs são visualmente mais convincentes do que um chip dentro de uma caixa preta, você pode vê-los e ouvi-los de uma forma que não seria possível fazer com um chip", disse ele. "Mas o mal não é o problema, é a possibilidade de que a IA seja indiferente aos objetivos humanos."

Todas as entidades inteligentes, tanto humanas quanto artificiais, têm objetivos, mesmo que sejam pré-programadas. Para os simples termómetros IA, por exemplo, consiste em medir a temperatura com sucesso.

O medo de Bostrom é que, se as IAs se tornam suficientemente competentes em perseguir seus objetivos, mesmo aqueles que parecerem inofensivos, poderiam, inadvertidamente, prejudicar as pessoas.

Num artigo de 2003, Bostrom deu o exemplo de uma IA cujo único objetivo é de maximizar a produção de clipes. Se essa IA conseguisse reprogramar a si mesma para melhorar sua inteligência - algo que algumas IAs desenvolvidas pela Google já podem fazer -, ela poderia se tornar tão inteligente a ponto de inovar as modalidades através das quais maximiza o número de clipes que ela produz.

Em determinado ponto, ela poderia começar a "transformar toda a terra primeiro e depois aumentar as porções de espaço ocupadas por instalações de produção de clipes", escreveu Bostrom.

Se transformar o mundo em um clipe parece uma coisa idiota, é porque não se alinha com os objetivos dos seres humanos. Mas a máquina que produz clipes está seguindo seus objetivos devido a uma conclusão lógica.

Ao se tornar tão incrivelmente eficiente em produzir clipes, poderia acabar prejudicando as pessoas. Não se revelaria uma máquina malvada, mas simplesmente indiferente aos objetivos que vão além de seus próprios.

O exemplo poderia parecer improvável, mas Bostrom afirma que a indiferença da IA em relação aos objetivos da humanidade poderia já ser uma ameaça real.

"As formas mais pesadas em que a IA pode ter um impacto negativo são os papéis dos sistemas de informação, como a seleção de notícias que confirmam os preconceitos das pessoas ou que atuam como sistemas de vigilância", afirmou ele.

Os problemas já estão surgindo com este último caso, levando as pessoas a se perguntarem se empresas como Amazon e Microsoft deveriam vender a tecnologia de reconhecimento facial a agências governamentais.

A American Civil Liberties Union declarou em maio passado que a Amazon havia vendido sua ferramenta Rekognition às agências governamentais e policiais com o propósito de vigilância pública e identificação de "pessoas de interesse". A ACLU também descobriu no ano passado que a Rekognition tinha identificado erroneamente 28 membros do Congresso como pessoas que haviam sido presas.

Para Bostrom, o grande desafio é controlar a inteligência artificial e programá-la para alinhá-la aos objetivos humanos. "A primeira série de dificuldades será técnica, como encontrar uma maneira de desenvolver a inteligência artificial de maneira controlada", explicou. "Assumindo que resolvamos isso, nossos objetivos subsequentes são as dificuldades sociais relacionadas à criação de uma ordem mundial que esteja ao serviço do bem comum".

As grandes empresas de tecnologia estão tendo dificuldade em entender como tornar a inteligência artificial segura. Mas Bostrom considera que as grandes empresas de tecnologia estão se empenhando o suficiente para desenvolver a inteligência artificial de maneira controlada? Google, Amazon, Facebook e Apple estão na vanguarda do desenvolvimento da IA, mas alguns estudiosos acreditam que não estão desenvolvendo uma IA compatível com os objetivos humanos.

Bostrom disse que as pessoas com quem ele havia conversado nas grandes empresas de tecnologia "estão preocupadas e empenhadas em tornar a AI segura e compatível" com esses objetivos. "Eu também tenho a sensação de que eles não estejam em condições de entender o que fazer para conseguir isso", disse. "Seria demais esperar" que cada empresa de tecnologia apresente seu próprio quadro ético para o controle da IA".

As empresas de tecnologia estão claramente envolvidas com esse problema. A Google, por exemplo, dissolveu um conselho de ética sobre a IA uma semana depois que milhares de funcionários participaram da campanha contra a inclusão de Kay Coles James, presidente da Fundação Heritage, um think tank de direita.

Mas se não podemos confiar nas grandes empresas de tecnologia para criar trilhos para o desenvolvimento ético e seguro da IA, em quem poderemos confiar? E os governos? Mais uma vez, Bostrom é cético.

"Ainda não há muitas propostas políticas claras sobre como os governos deveriam intervir", ele explicou. "Neste momento, não está claro o que gostaríamos que os governos fizessem. Precisamos ampliar o debate. O capitalismo deveria trabalhar com governos que criam as regras de comportamento e as empresas que trabalham dentro de tais regras", acrescentou, mas "há um desequilíbrio cultural entre a Silicon Valley e os governos: a Silicon Valley tem um ethos orientado à liberdade, enquanto os governos estão muito atrasados e não têm impulso empreendedor".

Ele acrescentou: "Penso que haverá uma necessidade nos governos de mais especialistas em inteligência artificial - não necessariamente pesquisadores brilhantes, mas pessoas com alguma experiência, como um pós-graduado em informática. A capacidade de compreender a inteligência artificial passa por graus. Às vezes é melhor não ser muito especializado, porque se você for muito especializado, pode ter uma visão estreita das ramificações sociais mais amplas de um campo".

Bostrom, no entanto, acredita que pode moldar a conversa em torno da IA mesmo permanecendo dentro do mundo acadêmico. Também disse que funcionários ativistas, como os da Google, desempenharam seu papel em fazer com que suas empresas sentissem o peso das responsabilidades.

"Há coisas que os pesquisadores de IA podem fazer para influenciar o comportamento das grandes empresas de tecnologia sem ter que deixar o mundo académico", disse ele. "Existe também um grau de ativismo público dentro das comunidades de pesquisa sobre a IA, como a recente revolta da Google”.

Edição 148, Maio 2019

Massimo Faggioli

A IGREJA DO ESCÂNDALO DOS ABUSOS É A ÚNICA IGREJA QUE CONHECEMOS

Estudantes universitários dos Estados Unidos oferecem novas reflexões sobre a crise dos abusos sexuais no clero. O comentário é do historiador italiano Massimo Faggioli, professor da Villanova University, nos EUA, em artigo publicado em La Croix International,. A tradução é de Moisés Sbardelotto /IHU

Cita-se Santo Agostinho ao dizer que “se aprende ensinando” – docendo discitur. Isso nunca foi mais verdadeiro para mim do que durante o semestre passado, quando lecionei uma disciplina de graduação sobre a crise dos abusos sexuais na Igreja Católica.

Minha turma incluía 30 estudantes com idades entre 21 e 22 anos, a maioria dos Estados Unidos. Havia uma mistura de homens e mulheres prestes a se formar em uma variedade de campos, da Biologia às Ciências Políticas. A maioria deles eram católicos, mas havia uma minoria substancial de não católicos e até mesmo de não cristãos. Quase todos admitiram estar enfrentando a “questão-Deus”, assim como o significado da Igreja.

Eu aprendi muito enquanto preparava minhas aulas, principalmente a partir da leitura dos materiais acadêmicos que integraram e sistematizaram o nosso conhecimento sobre os vários aspectos da crise dos abusos a partir de um ponto de vista histórico e teológico.

Foi uma experiência remanescente do meu primeiro ano de estudos na Universidade de Bolonha em 1989. As aulas dos meus cursos sobre história europeia e mundial tiveram que ser mudadas quase que da noite para o dia desde a queda do Muro de Berlim em 9 de novembro daquele ano, bem no meio do semestre.

História em construção

Lecionar História em novembro de 1989 provavelmente não era tão diferente de ensinar um curso sobre a crise dos abusos católicos hoje. A crise ainda está se desdobrando globalmente e agora está atingindo países onde as consequências não são apenas eclesiais, mas também podem se tornar políticas, como é o caso da Polônia.

Meu curso foi projetado com foco específico no abuso sexual de menores por parte do clero. A escolha do tema levantou múltiplas questões – metodológicas e éticas, em particular – que eu tentei antecipar em janeiro passado aqui no La Croix International.

Essa foi facilmente a experiência mais intensa que eu já tive de ensino em sala de aula – emocional, psicológica e teologicamente. Talvez porque vários eventos importantes referentes à crise, na realidade, ocorreram no meio do semestre. Eles incluíram a extraordinária cúpula vaticana (em fevereiro), a condenação do cardeal australiano George Pell a seis anos de prisão por abuso sexual (em março) e a publicação do longo e controverso artigo de Bento XVI sobre as raízes da crise dos abusos (em abril).

Mas, acima de tudo, o curso foi bastante esclarecedor por aquilo que os estudantes tinham a dizer em aula e em seus trabalhos finais. Eles forneceram intuições importantes sobre aspectos da crise que eu nunca havia levado em consideração. Ler e falar sobre a crise lhes permitiu refletir sobre suas próprias experiências.

Isso também ajudou a desideologizar a atual controvérsia sobre a liberdade acadêmica nas universidades católicas. Algumas pessoas afirmam que a “ortodoxia liberal” da diversidade e da inclusão impede que os professores lidem com questões sensíveis em sala de aula. Esse curso provou que absolutamente não é assim.

Foi particularmente interessante aquilo que os estudantes, depois de quatro anos na comunidade universitária, escreveram sobre a relação entre as universidades católicas e a crise dos abusos sexuais. A impressão predominante entre eles é que as universidades católicas se distanciaram estrategicamente da Igreja ao lidar com a crise. Esta não é apenas culpa da Igreja, mas também a escolha deliberada das universidades.

Fracasso das universidades católicas em enfrentar crise

“A nossa nação tem uma longa história de estudantes que se tornaram participantes importantes em movimentos sociais para ajudar a trazer mudanças positivas. Isso não vem ocorrendo dentro da crise dos abusos sexuais, porque as universidades atualmente não estão dedicando o tempo suficiente para educar seus alunos sobre o assunto”, escreveu um estudante.

Outro disse que isso não era um acidente, mas sim uma escolha deliberada. “A quantidade inadequada de conversa sobre esse assunto em muitos campi universitários católicos parece extremamente similar a esse sistema de encobrimento, no sentido de que a única entidade que se beneficia com isso são as próprias instituições de Ensino Superior católico, e não os estudantes ou os professores”, afirmou.

Meus estudantes viram as instituições católicas de Ensino Superior se distanciando conscientemente da Igreja institucional. Essa não é apenas uma estratégia legal ou de relações públicas. Ela tem também consequências eclesiológicas.

Como disse um estudante: “O modelo institucional nos últimos séculos serviu para dar aos católicos romanos um forte senso de identidade corporativa. Eu sinto que, na contemporaneidade, especialmente em relação à crise dos abusos sexuais, essa afirmação não se sustenta. Instituições e indivíduos católicos abandonaram seu forte senso de identidade corporativa em uma tentativa de se separar do sistema que perpetuou esse abuso”.

Há também fatores sócio-económicos em jogo no distanciamento do sistema universitário católico em relação à Igreja, que ocorre em um momento em que o Ensino Superior católico se esforça para encontrar maneiras de servir à população estudantil para a qual ela foi originalmente construída – os imigrantes pobres.

Estudantes criticam postura morna das instituições católicas

Um estudante viu esse embate também no modo como as universidades católicas lidam com a crise dos abusos: “Não é apenas a percentagem significativa de estudantes que vêm de famílias abastadas que cultiva esse ambiente de distanciamento. As universidades católicas enraízam sua identidade na criação de um ambiente católico que existe à parte da realidade”.

Esse também é um problema para a liberdade acadêmica no campus, no sentido da disposição de abordar temas desconfortáveis na comunidade universitária. Um estudante observou que “as universidades católicas, assim como o padre no filme ‘Calvário’, parecem exalar um senso de distanciamento da crise. A maioria dos estudantes e às vezes até os professores não estão dispostos a discutir temas mais sensíveis ou questionar seus próprios pontos de vista”.

Estudar a crise dos abusos em uma sala de aula universitária também nos deu a oportunidade de refletir sobre as conexões entre uma teologia católica da pessoa humana e a crescente corporativização e mercantilização da educação superior.

“As universidades de todo o mundo têm esse dilema econômico de receber financiamento/recursos de uma fonte externa e, depois, ter que navegar na realidade das expectativas que vêm junto com isso”, escreveu um estudante. Isso tem um impacto sobre a disposição da universidade em lidar com a crise dos abusos.

Um outro estudante ecoou isso, dizendo: “As universidades católicas continuam relutantes em trazer seus recursos acadêmicos para lidar com a crise dos abusos sexuais, porque isso contradiz sua posição neutra. Eles provavelmente querem neutralizar o perigo de ser uma instituição católica em um século XXI cada vez mais secular”.

Nesse sistema, escreveu outro estudante, “as universidades católicas se transformaram em universidades politicamente mornas. Em questões de mudanças sociais, políticas e religiosas, permitiu-se que as faculdades ficassem em silêncio, em vez de se engajar em um discurso significativo”.

Isso não é apenas medo das consequências de levantar questões desconfortáveis. Existe uma conexão entre a corporativização da universidade e da Igreja que não se perdeu nos estudantes.

“As operações atuais das universidades católicas refletem a noção secular e moderna da eficiência, dos resultados quantitativos e da percepção pública. Desse modo, as universidades católicas norte-americanas refletem a mentalidade da Igreja na recepção inicial das acusações de abuso sexual cometido por clérigos contra menores”, escreveu um estudante.

De modo semelhante à Igreja escondendo o escândalo, nas universidades “existe uma obsessão com as métricas e os números no modo de conservar uma identidade católica, mas não tanto em programas e pesquisa”.

Universidades católicas em conflito

Um dos estudantes disse que a relutância das universidades católicas faz parte de um problema sistêmico mais amplo. “Eu acho que muitas universidades estão com medo de ir na direção do ensino social católico ou de incorporá-lo em vários cursos profissionais, porque não querem criticar o sistema”, afirmou o estudante.

Isso fica evidente ao lidar com a crise dos abusos como parte da crescente pressão sobre os currículos básicos e as artes liberais.

“Parece haver uma luta dentro das universidades católicas. Elas querem/precisam estar a par das outras universidades seculares, mas acabam evitando os cursos de ensino social católico em favor do cumprimento das exigências profissionais”, concluiu o estudante.

No fim do curso, lemos em sala de aula o famoso ensaio de Karl Rahner sobre a teologia da infância (publicado originalmente em 1963), que foi reexaminado com um importante e recente artigo do teólogo australiano James McEvoy [disponível aqui, em inglês].

Uma de minhas estudantes refletiu sobre a sua experiência ao ler sobre a teologia da infância à luz da crise dos abusos.

“As crianças estão em preparação para as provas já na escola primária, pressionadas para participar de atividades extracurriculares e para construir seus currículos, para se prepararem para seus futuros desde uma idade tão jovem. Todo ano é sempre apenas uma preparação para o próximo passo”, observou.

“Ao crescer, meus professores sempre diziam que cada ano me prepararia para o próximo, e para mim sempre se tratou de me preparar para a faculdade. Essas pressuposições sobre a [teologia da] infância são problemáticas no escopo da crise dos abusos, porque elas têm implicações muito reais para as crianças que crescem na Igreja.”

A crise dos abusos nos ajudou a redescobrir a teologia da infância de Rahner. E isso abriu os nossos olhos para um tipo equivocado de teologia da infância que permeia a cultura da performance, na qual as crianças são instadas, desde muito pequenas, a competir pela admissão nas melhores escolas.

Um curso universitário que desafia a fé de alguns

O curso sobre os abusos sexuais na Igreja também teve um impacto sobre a experiência de fé de alguns dos meus estudantes. Um deles confessou que isso teve um peso sobre ela.

“Depois de passar um mínimo de três horas por semana discutindo a crise em sala de aula e lendo artigos sobre o abuso, foi difícil continuar participando da missa e vendo a Igreja sob uma luz favorável. Duvido que essa seja uma experiência incomum para outros estudantes nesta turma”, escreveu ela.

Mas alguns dos meus estudantes participaram, sim, da missa final do ano acadêmico. Eu não pude deixar de imaginar como essa liturgia foi diferente para esses estudantes que leram sobre a frequência com que os abusos sexuais cometidos por padres ocorriam em instalações da Igreja e perto do altar.

Se há uma coisa que eu aprendi com esse curso foi que as universidades católicas precisam se engajar com essa nova geração de fiéis que cresceram cercados de notícias sobre a crise. “A Igreja do escândalo dos abusos é a única Igreja que conhecemos”, disse um dos estudantes.

O que é novo em comparação com os anos anteriores é que os estudantes notam que a crise dos abusos católicos é também uma crise teológica. Foi isto que um deles observou: “Há uma batalha interna no catolicismo sobre as causas da crise dos abusos sexuais infantis. Alguns acreditam que a estrutura institucional, assim como os aspectos teológicos da Igreja Católica levaram ao abuso e aos impactos duradouros sobre as vítimas. Outros, no entanto, acreditam que a revolução sexual e o Vaticano II causaram a crise dos abusos sexuais. A geração de estudantes que atualmente frequentam as universidades católicas está no meio desse debate”.

Solução exigirá a contribuição dos estudantes

Os estudantes observaram como a divisão em relação à crise dos abusos tornou-se uma brecha a mais na lacuna ideológico-política preexistente. Um deles referiu-se à polarização entre diferentes identidades católicas nos campi universitários.

“Ao longo destas aulas, examinamos o que parecem ser duas comunidades divergentes dentro da Igreja Católica. Uma é formada por aqueles que acreditam que a sociedade e as forças externas criaram mudanças que levaram à tragédia dessa crise. A outra é uma coleção de católicos que acreditam que a estrutura é a culpada e procuram reformá-la. Ambas estão presentes em todas as áreas da Igreja, e ambas estão confusas. Isso se manifesta nas comunidades dos campi universitários católicos”, disse um estudante.

Se as instituições católicas de Ensino Superior se limitarem a desenvolver e implementar boas práticas no campus, elas deixarão o campo livre para as diferentes forças que tentam tirar proveito da crise para uma agenda específica e idiossincrática. Essa é uma das grandes tentações não apenas para as lideranças hierárquicas, mas também para as faculdades e universidades católicas.

Encontrar uma saída para a crise dos abusos sexuais exigirá novas políticas e mecanismos para implementá-las. Mas também são necessários estudos sólidos sobre os vários aspectos do fenômeno e suas consequências para a Igreja.

No entanto, isso não ocorrerá sem a contribuição das universidades católicas. E a voz dos seus estudantes será crucial para isso. Eles têm muito a dizer para todos aqueles que estão nos diferentes lados daquela que é verdadeiramente uma crise teológica.

Ladislau Dowbor

E SE A TIRANIA DOS MERCADOS ESTIVER A CHEGAR AO FIM?

"Um choque impressionante de realismo caracteriza esta excelente síntese dos novos caminhos que os Estados Unidos precisam trilhar para que a economia volte a servir à sociedade, não o contrário. Não se trata de “mais um estudo” de economia, e sim de uma sistematização dos principais desafios e medidas a tomar", escreve Ladislau Dowbor, economista, doutor em Ciências Econômicas pela Escola Central de Planeamento e Estatística de Varsóvia, professor da PUC-SP e da Umesp, em artigo publicado por Carta Maior. Tradução IHU

Entregamos os nossos governos aos mercados, e entregamos os mercados às corporações. Um choque impressionante de realismo caracteriza esta excelente síntese dos novos caminhos que os Estados Unidos precisam trilhar para que a economia volte a servir à sociedade, não o contrário. Não se trata de “mais um estudo” de economia, e sim de uma sistematização dos principais desafios e medidas a tomar. O eixo central do relatório está centrado no duplo movimento necessário: reduzir o poder das corporações, e resgatar o papel das políticas públicas. O Roosevelt Institute, a começar por Joseph Stiglitz, se caracteriza pela seriedade das suas pesquisas e o bom senso das propostas.

O relatório impressiona também por fugir de simplificações ideológicas, buscando claramente as medidas cuja utilidade já foi comprovada. E ajuda muito a clareza ao mostrar as dimensões políticas, de poder de decisão efetivo sobre o uso dos recursos, que temos de enfrentar. O problema não está na falta de recursos, e sim no seu desvio por corporações que em vez de fomentar a economia a drenam, apropriando-se para este fim das políticas públicas. Ou seja, o relatório enfrenta a questão central. E esta questão, evidentemente, não se limita aos Estados Unidos. “As generalizações sobre a ineficiência do governo e sua pouca efetividade são exageradas (overblown), enquanto as consequências negativas das soluções baseadas no mercado têm sido muito frequentemente desconsideradas…A América deixou de lado um poderoso instrumento de governo: a provisão pública direta de bens e serviços.”

Ou seja, o que sentimos no relatório é que finalmente a onda neoliberal está refluindo já não em rincões da esquerda, mas em instituições de grande peso. “Nos últimos 50 anos, temos desinvestido (disinvested) do poder público e dito que o governo é o problema. Sabemos que isso está errado. Sabemos também que o governo é a base para as instituições e os bens tangíveis que constituem o tecido das nossas vidas quotidianas – escolas e segurança pública; estradas e pontes; alimentos e medicamentos mais saudáveis; ar e água mais limpos”. “O presente relatório vai ilustrar a necessidade crucial de se reduzir o poder corporativo e resgatar o poder público. Mostraremos que ambos são necessários para mover nossa nação para um futuro que se apoia no que houve de melhor na nossa história, corrige erros cometidos e se adapta aos tempos modernos”.

Fugindo das polarizações, o relatório mostra que o fortalecimento da capacidade de governo é central inclusive para o funcionamento da economia em geral. “O efeito combinado de poder corporativo concentrado e do poder público corrompido tem sido devastador para o nosso país… O governo não está investindo na população, nos programas públicos, na tecnologia ou na infraestrutura física – o tipo de investimentos que uma economia forte e em expansão exige”. Lembremos que no Brasil ‘investir na população’ é qualificado de ‘gasto’.

Não se trata aqui de algum flarte com socialismo. Trata-se, na minha interpretação, de um choque de realismo para que o próprio capitalismo volte a funcionar. Tenho qualificado essa busca de ‘capitalismo civilizado’. O próprio documento sugere uma ‘visão de mundo progressiva’ (progressive world-view). Mas as propostas destoam profundamente do neoliberalismo: “A história não tem sido caridosa com o neoliberalismo, esse caótico saco de ideias baseadas na noção fundamentalista de que os mercados se autocorrigem, alocam recursos com eficiência, e servem bem o interesse público. Aprender a lição de que o neoliberalismo sempre foi uma doutrina política a serviço de interesses especiais pode constituir o fio condutor na nuvem que hoje recobre a economia global”. Leram bem, um documento assinado entre outros por quem já foi economista chefe do governo Clinton e do Banco Mundial.

Os interesses especiais, obviamente, são as corporações, que se transformaram numa máquina rentista, que extrai da economia em vez de contribuir: “Como tanto poder das corporações é direcionado para 'extração de renta' (rent-extraction, aspas dos autores), – tomar uma parte maior do bolo econômico da nação ao tirar vantagens de outros – em vez de criar riqueza, reduzir o poder corporativo vai inclusive fortalecer o conjunto da economia”. Temos aqui a evidente consequência da financeirização. O processo se agravou com a apropriação da política: “No final, isso permitiu que os muito ricos convertessem o seu poder econômico em poder político concentrado que, por sua vez, permitiu que eles torcessem ainda mais as regras a seu favor e capturassem mais poder econômico”. É a máquina infernal: poder financeiro que gerou poder político, que por sua vez permite torcer as leis para gerar mais poder financeiro.

Assim, “este vale-tudo do setor privado prejudicou o bem-estar dos indivíduos e das comunidades pelos Estados Unidos afora, mas também travou o crescimento econômico, já que permitiu que os super-ricos retirem lucros do rentismo e de outras atividades que aumentam a sua riqueza sem fazer a economia crescer”. O sistema descolou claramente das contribuições produtivas: “Markups, ou seja, o montante que a companhia cobra acima dos custos, aumentaram de 18% acima do custo marginal em 1980, para 67%. Isso sugere que os lucros corporativos compreendem não retornos produtivos sobre o capital e o trabalho, mas rentas”. Ou seja, remuneramos essencialmente aplicações financeiras, não investimentos: “Antes de 1970, as corporações americanas pagavam 50% dos seus lucros aos acionistas e o resta era reinvestido no negócio. Hoje, o pagamento aos acionistas está na ordem de 90% dos lucros declarados (Mason 2015a)”.

O relatório tira as consequências em termos de resgate da produtividade do setor financeiro. “Para assegurar que a função das finanças seja socialmente benéfica, a reforma do setor financeiro devera buscar, acima de tudo, reduzir os riscos macro-econômicos e limitar as práticas predatórias. Além disso, as reformas deveriam buscar o aumento do crédito produtivo, que poderia estimular pequenos negócios que atualmente enfrentam limitações de capital, facilitar empréstimos simples eficientes e a baixo custo, e servir as famílias não bancarizadas ou insuficientemente bancarizadas que atualmente estão sendo exploradas por financeiras de alto custo”.

No nosso caso, evidentemente, os próprios bancos fazem o papel de agiotas, em escala incomparavelmente mais nociva. Mas é útil ver que o problema do resgate da utilidade social e econômica dos intermediários financeiros seja colocada com clareza. “Apesar dos avanços tecnológicos que deveriam ter tornado a indústria das finanças – um serviço de ‘intermediação’– menos caro e mais competitivo com o tempo, o custo unitário das finanças hoje é tão caro como era em 1900, porque o setor financeiro não repassa essas economias para os consumidores e sim para aumentar os lucros”.

Os autores apontam inclusive o fato de que a existência de um forte sistema financeiro público é essencial para estimular a qualidade dos serviços prestados pelos mercados: “O provimento público de serviços financeiros básicos não constitui um defeito, mas precisamente o objetivo. Essencialmente, haver uma alternativa pública tende a disciplinar os mercados para assegurar o acesso, qualidade e quantidade de bens e serviços essenciais.” Ou seja, precisamos não só de regulação, mas de empresas públicas que forneçam diretamente bens e serviços para servir de contrapeso, abrindo alternativas para a população e colocando limites à agiotagem e rentismo financeiro. Para nós, que estamos atolados em negociatas de privatização, é importante esta compreensão de que a existência do setor público provedor de serviços é essencial para tornar o setor privado mais performante.

O documento no seu conjunto buscar resgatar o papel do setor público. “Os agentes políticos (policymakers) deveriam expandir o poder do governo, ao prover diretamente as políticas, com dois objetivos na linha de frente de uma nova visão de mundo progressiva: acesso universal aos bens e serviços e investimentos transformadores na busca de objetivos nacionais.” Invertendo as narrativas neoliberais, o texto mostra a maior produtividade sistêmica alcançada quando o governo assume um papel de provedor direto de políticas. E mostra a falácia da chamada austeridade: “Na realidade, está comprovado que gastar pouco demais leva no fim das contas a custos muito mais elevados (em termos de prejuízo para a vida das pessoas e para o crescimento econômico) do que gastar demais.”

No Brasil, sentimos isso na pele, na medida em que o travamento do acesso às políticas públicas força as pessoas a recorrer a serviços privados muito mais caros, resultando em perda de produtividade sistêmica. É bom lembrar que durante os anos 2003 a 2013, que o Banco Mundial qualificou de “década dourada” (Golden Decade) da economia brasileira, houve forte expansão de renda e de acesso a bens e serviços públicos, o que dinamizou o a economia e limitou o déficit, pois gerou aumento de receitas. O déficit se torna significativo a partir da era da austeridade de 2014 em diante. Para o detalhe, veja o capítulo 12 do meu A Era do Capital Improdutivo, disponível aqui.

“A política pública, executada com cuidado relativamente às dinâmicas de mercado subjacentes, deveria constituir o mecanismo básico (default mechanism) para prover bens e serviços que são essenciais para a dignidade e atuação humanas, tais como acesso à habitação, cuidados de saúde, e serviços bancários. O provimento público direto dos serviços é essencial em casos em que o público tem um forte interesse em ter acesso universal, e em que os setores privados têm como exercer um poder de mercado sobre os que buscam acesso. Há justificações econômicas para utilizar o poder do governo para prover bens e serviços essenciais. Uma vasta literatura mostra os benefícios econômicos de se assegurar um nível básico de serviços que incluem o cuidado infantil, a educação inicial e aposentadorias. Particularmente significativo é o fato que um maior investimento nas pessoas assegura uma maior produtividade econômica no conjunto.”

As mudanças, na visão dos autores, não se darão sem uma transformação do processo decisório nas próprias corporações, na chamada governança corporativa. “Para se criar um sistema que sirva aos interesses de todos os atores interessados (stakeholders), e não só dos executivos e da comunidade de aplicações financeiras, deveria ser exigido dos conselhos de administração das corporações a inclusão, no mínimo, de uma proporção substantiva de trabalhadores bem como de representantes de outros stakeholders que não sejam acionistas.” O texto mostra como isso funciona na Alemanha e outros países.

O relatório recomenda inclusive o reforço dos próprios mecanismos de regulação. Em particular, explicita como funciona o sistema de proteção do consumidor de serviços financeiros (Consumer Financial Protection Bureau: CFBR) “que materializou a visão de um governo federal que serve e reforça a democracia, e é fortemente apoiado pela população”. E explicita as necessidades de uma transformação da política tributária: “Elevar as alíquotas tributárias marginais no topo e taxar rendimentos de capital permitiria extrair mais recursos que as firmas usam para pagar aos acionistas e executivos (CEOs).” Não custa lembrar aqui que o CEO da Disney embolsou um salário equivalente a cerca de 1500 vezes o salário médio dos seus empregados, provocando inclusive indignação de uma das netas do Disney. O executivo em questão não tem 1500 vezes mais filhos para criar.

Igualmente interessante é a proposta de uma política proativa de inclusão produtiva. “Uma política de garantia federal de emprego (Federal Jobs Guarantee – FJG) constituiria uma fonte direta de empregos com poder público de literalmente terminar com o desemprego involuntário e pobreza de trabalho.” Tal política poderia assegurar que “independentemente de falhas de mercado – tais como choques econômicos, acordos comerciais mal planeados, discriminação estrutural – cada americano teria o direito a um emprego e à renda e dignidade associadas com o trabalho. Uma garantia de emprego poderia funcionar como uma opção pública que coloca uma regra básica para benefícios, compensações e práticas equitáveis que formatariam o mercado de trabalho no seu conjunto”.

Claramente, na visão dos autores, o enfoque econômico não é suficiente. Para as necessidades básicas humanas, temos de nos voltar para o ‘argumento dos direitos’. Mas mesmo em termos macro-econômicos, temos de inverter o raciocínio: “É muito mais provável que o problema que temos de enfrentar seja de demanda agregada inadequada e desemprego elevado, do que sobreaquecimento e inflação.” Expandir a demanda agregada, evidentemente, melhora a situação das famílias e reduz o desemprego. Nada de radicalmente novo aqui, mas sim muito bom senso. Adeus austeridade.

Volto a mencionar que não se trata, nesta análise do Roosevelt Institute, de propor rupturas sistêmicas, e sim de civilizar o processo. Para nós, que nos debatemos no primitivismo ideológico e em narrativas absurdas de que sacrificar a população é “ao fim e ao cabo” bom para ela, vejo este documento como extremamente útil. Qual seja o realismo das propostas, o desmonte do sistema por uma instituição que está no coração dele, com argumentos muito bem organizados, ajuda muito. Não é crítica externa por opositores, é um choque interno de lucidez, por parte de quem conhece o sistema em profundidade. Francamente, são sessenta e poucas páginas que constituem um excelente custo-benefício. Só para não esquecer: a bibliografia é ótima, com artigos e estudos disponíveis online, de acesso aberto e imediato. Para quem quer aprofundar, uma ferramenta.

Massimo Faggioli

A IGREJA E O NACIONALISMO: A SOMBRA DO LONGO SÉCULO XIX

O actual pontificado tentou evitar que a Igreja repetisse os erros daquela época, quando o medo do comunismo e da desordem social levou as hierarquias eclesiásticas aos braços dos regimes políticos nacionalistas, autoritários e racistas.” A opinião é do historiador italiano Massimo Faggioli, professor da Villanova University, nos Estados Unidos, em artigo publicado em La Croix International. A tradução é de Moisés Sbardelotto /IHU

A visita do Papa Francisco à Bulgária e à Macedónia do Norte pode não ser tão sensacional quanto suas viagens à Península Arábica ou aos Estados Unidos. Mas revela muito sobre as semelhanças entre as histórias de vida de Jorge Mario Bergoglio e de Angelo Giuseppe Roncalli. Os nove anos que Roncalli passou como representante do Vaticano na Bulgária (1925-1934) foram um período decisivo na formação do futuro Papa João XXIII. Quando ele chegou a Sofia, em 25 de abril de 1925, a Bulgária era um país abalado pelos levantes políticos e à beira da guerra civil. O país acabara de ser sacudido por dois ataques.

O primeiro foi uma tentativa fracassada de assassinato contra o rei. O segundo, apenas 10 dias antes da chegada de Roncalli, foi o bombardeio da catedral de Sofia, que matou 128 pessoas. Durante sua missão diplomática na Bulgária, o futuro papa teve a oportunidade de aprender sobre a Europa oriental e sobre o cristianismo não católico romano; nomeadamente, a Igreja Ortodoxa da Bulgária.

Mas ele também pôde compreender a complexa mistura entre o colonialismo ligado às potências ocidentais e as missões católicas. Ele também começou a explorar o mundo muçulmano na vizinha Turquia pós-otomana, mesmo antes de ser nomeado diplomata papal em Istambul no fim de 1934.

A rejeição do nacionalismo por parte do futuro papa

Roncalli viajou extensivamente por toda a Bulgária. Isso lhe proporcionou uma experiência em primeira mão de uma realidade moldada por coordenadas históricas, políticas, sociais e eclesiásticas de grande complexidade. Isso lhe ofereceu uma visão única sobre os conflitos entre as nações e as religiões ao longo da fronteira da Europa oriental.

Havia a Grécia ao sul, a área do antigo Império Austro-Húngaro a oeste e a Rússia soviética ao norte. A sudeste também ficava a Turquia recentemente emergente, que lutava contra uma revolução social, política e cultural contra a ocidentalização forçada, que se tornou necessária no fim do Império Otomano após sua derrota na Primeira Guerra Mundial.

Tudo isso fazia parte do jogo geopolítico das Igrejas no último suspiro do “longo século XIX”, um período que começou com a Revolução Francesa (1789) e terminou com a morte de Pio XII (1958). Durante esse período, a Igreja lutou para manter sua posição social e política, comprometendo-se com o autoritarismo.

Depois da Primeira Guerra Mundial, muitos no Vaticano e no cristianismo ocidental viram uma oportunidade de ocupar o vácuo deixado na Europa oriental pelo colapso dos impérios Austro-Húngaro e da Rússia czarista. Mas Roncalli viu que vincular o nacionalismo à religião, tanto no Oriente ortodoxo quanto no Ocidente católico, seria um problema central.

Como diplomata papal na Bulgária, ele começou a rejeitar o nacionalismo e as expressões teológicas e religiosas usadas para sustentá-lo. Ele desenvolveu anticorpos contra a fusão entre nação e religião, entre catolicismo e ideologia. Isso moldou sua interpretação do período entre guerras, da Segunda Guerra Mundial e do início da Guerra Fria até o Concílio Vaticano II (1962-1965).

A aversão de Roncalli às Igrejas que desposavam causas nacionalistas tornou-se parte da visão de mundo do futuro papa. Ela era completamente diferente daqueles que desejavam colocar as ideologias políticas a serviço da Igreja, algo típico de grande parte da cultura clerical durante uma época em que o autoritarismo e o fascismo reinavam em grande parte da Europa.

Estamos voltando a esses tempos? Certamente existem sinais de alerta. Matteo Salvini, o ministro do Interior e homem forte do governo italiano, visitou recentemente a Hungria e elogiou o seu muro militarizado para impedir a entrada de imigrantes. Isso fazia parte dos seus esforços contínuos para forjar uma aliança política com o primeiro-ministro húngaro Viktor Orban, outro líder autodeclarado cristão na Europa de hoje.

Há também Steve Bannon, o ex-estrategista de Donald Trump, que continua incitando e encorajando movimentos populistas entre o povo do Velho Continente, enquanto eles se preparam para votar, no fim de maio, nos representantes do Parlamento Europeu.

O problema levantado pelo casamento entre a Igreja e o etnonacionalismo não é tão evidente quanto na situação entre a Rússia e a Ucrânia. É por isso que o Papa Francisco convocou líderes da Igreja Católica da Ucrânia ao Vaticano em julho próximo para uma reunião extraordinária sobre o assunto. Tudo isso fala de uma crise política e religiosa semelhante à que o arcebispo Roncalli viu durante sua estada na Bulgária.

No nível político, o apoio à ordem liberal e democrática estava colapsando tanto nacional quanto internacionalmente, cedendo à pressão de um sistema social e econômico que produzia desigualdade. No nível religioso, houve um aumento do neotradicionalismo, do fundamentalismo, da intolerância e da xenofobia, em um esforço para justificar a defesa das raízes judaico-cristãs do Ocidente. As semelhanças podem ser vistas na situação política internacional de hoje e a da década de 1920 e 1930.

Mas a posição da Igreja Católica hoje não é a mesma de antes. Líderes da Igreja como Roncalli aprenderam lições importantes desse período entre guerras e a partir da Segunda Guerra Mundial, que levaram a uma mudança importante em relação ao pensamento anterior.No início de 1959, poucos meses depois de ter sido eleito ao papado e assumir o nome de João XXIII, ele anunciou planos para o Concílio Vaticano II.

É graças a esse Concílio e ao ensinamento papal dos últimos 60 anos que a Igreja Católica hoje está francamente ao lado do internacionalismo e do multilateralismo e em oposição ao nacionalismo e à xenofobia. A Igreja de hoje é a favor das democracias constitucionais que respeitam os direitos humanos e a liberdade religiosa para todos – como fomos lembrados pelo importantíssimo documento que a Comissão Teológica Internacional publicou recentemente sobre o tema. Mas, entre as diferenças que distinguem a Igreja nas décadas de 1920 e 1930 da de hoje, há também a crescente fragmentação.

Quando Roncalli foi diplomata papal, ele teve lutar contra o nacionalismo e o colonialismo das ordens religiosas missionárias na Bulgária (especialmente italianas e francesas), assim como contra as tentativas delirantes de trazer a Europa oriental de volta ao catolicismo.

Francisco revive a visão espiritual e política de João XXIII

Agora, o papado tem que lutar contra o nacionalismo em uma Igreja em que a autonomia leiga obviamente impossibilita punir os eleitores e líderes católicos que abraçam o nacionalismo e a xenofobia. No entanto, é claro que o papado e o aparato vaticano que apoiam o Papa Francisco não estão em silêncio.

Vários eventos do mês de maio oferecem uma chave para entender a visão de Francisco e a interpretação do momento atual. Em um importante discurso no dia 2 de maio aos membros da Pontifícia Academia das Ciências Sociais, o papa defendeu o conceito católico do Estado, incluindo a sua clara rejeição ao nacionalismo.

Duas viagens papais em maio têm o objetivo de enviar uma mensagem clara sobre o papel que a Igreja é chamada a desempenhar na Europa, diferente da dos católicos e de outros cristãos que estão tentando manipular o atual momento em vistas a ganhos políticos.

Primeiro, foi a visita à Bulgária e ao norte da Macedônia, de 5 a 7 de maio. Depois, no fim de maio e início de junho, haverá uma viagem papal à Romênia, que incluirá uma visita a uma área do país que abriga uma grande população étnica húngara. Mas Francisco não é a única voz na Igreja institucional que está resistindo abertamente ao nacionalismo.

A Secretaria de Estado da Santa Sé e seu corpo diplomático, assim como muitas ordens religiosas, ainda são uma voz de sanidade em um momento que está testemunhando um reavivamento do nacionalismo dentro de alguns círculos intelectuais católicos, especialmente nos Estados Unidos.

O arcebispo de Luxemburgo, Jean-Claude Hollerich SJ, que é presidente da Comissão das Conferências Episcopais da União Europeia (Comece), recentemente tomou uma posição firme contra o ressurgimento do nacionalismo.

“Um cristianismo autorreferencial corre o risco de ver emergir pontos comuns com essa negação da realidade e corre o risco de criar dinâmicas que, no fim, devorarão o próprio cristianismo”, disse ele na última edição da revista jesuíta La Civiltà Cattolica, examinada pelo Vaticano [disponível aqui, em italiano].

Hollerich, que é presidente de uma organização que inclui bispos dos 28 Estados membros da União Europeia, disse: “Steve Bannon e Aleksandr Dugin são os sacerdotes de tais populismos que evocam uma falsa realidade pseudorreligiosa e pseudomística, que nega o centro da teologia ocidental, que é o amor de Deus e o amor ao próximo”.

O artigo de Hollerich está entre os posicionamentos mais importantes que um representante da Igreja Católica assumiu na União Europeia em décadas. Ele se posiciona em unidade com a tentativa do Papa Francisco deeavivar a intuição espiritual que Angelo Giuseppe Roncalli expressou em sua famosa homilia de Pentecostes de 1944 como delegado apostólico na Turquia durante a Segunda Guerra Mundial.

Palavras proféticas de 1944 que são tão oportunas como nunca

“Gostamos de nos distinguir daqueles que não professam a nossa fé ou não praticam as nossas tradições e liturgias: irmãos ortodoxos, protestantes, judeus, muçulmanos e crentes ou não crentes de outras religiões”, começou o futuro papa.

“Meus queridos irmãos e filhos, devo dizer-lhes que, à luz do Evangelho e do princípio católico, essa lógica é falsa”, advertiu. “Jesus veio para derrubar os muros. Ele morreu a fim de proclamar a fraternidade universal. Seu ensinamento central é a caridade.” “Vocês acham que podem se entrincheirar atrás das suas portas e dizer: “Sou católico, penso em mim mesmo e não me importo com o que os outros fazem’?”

“Somos chamados a viver em uma era da destruição e do ódio, quando o egoísmo individual é superado pelo egoísmo nacionalista, com métodos tão brutais que desonram a raça humana. Cada um de nós deve pensar sobre como contribuir para a reconstrução moral deste mundo”, disse Roncalli.

Tornou-se lugar-comum dizer que a situação política internacional pode estar deslizando para um cenário semelhante à da década de 1930. Quer isso seja verdade ou não, o atual pontificado tentou evitar que a Igreja repetisse os erros daquela época, quando o medo do comunismo e da desordem social levou as hierarquias eclesiásticas aos braços dos regimes políticos nacionalistas, autoritários e racistas.

É por isso que a oposição tanto a João XXIII quanto a Francisco não é apenas teológica, mas também política. O Vaticano II continua sendo o inimigo de qualquer nova forma de nacionalismo católico, teológica e politicamente.

Há o perigo de retornar ao “longo século XIX” que começou com a Revolução Francesa, na qual o ensino da Igreja se recusou a reconhecer a modernidade e a se engajar com o mundo secular. Foi uma paralisia teológica e espiritual que teve custos enormes.

Assim como ocorreu naquela época, a Igreja deve novamente fazer uma escolha entre seguir o Evangelho ou as ideologias atuais da ordem política, econômica e social. É uma lição que o papado romano aprendeu melhor do que outros.

Pentecostalismo e política na América Latina

QUEM SÃO? POR QUE CRESCEM? NO QUE CRÊEM?

O crescimento dos evangélicos ressalta que a secularização não funciona como um muro capaz de anular as trocas entre o mundo da religião e da política. O artigo é de Pablo Selmán, publicado por Nueva Sociedad, edição impressa de Março-Abril de 2019. A tradução é de Wagner Fernandes de Azevedo /IHU

Quem são os evangélicos? Como eles fazem suas igrejas crescerem? Como sua expansão impacta a vida política na América Latina? Essas questões são colocadas desde meados dos anos 1980, quando os evangélicos começaram a se tornar visíveis em grandes cidades latino-americanas, e se repetem com insistência em casos como as últimas eleições na Costa Rica ou no Brasil, que tiveram evangélicos como protagonistas.

Nem a invasão imperial nem a ética protestante como polinizadores de um novo capitalismo: os grupos evangélicos têm uma história densa de implementação e desdobramento político, da qual é necessário dar conta, de maneira panorâmica, tanto da sensibilidade presente, quanto da sensibilidade mobilizada que alimenta as formações políticas de direita, ou como contingências que no passado lhes permitiam um jogo plural.

A seguir, apresentarei de maneira geral as características das denominações evangélicas e seu desenvolvimento histórico na América Latina, dando especial ênfase aos grupos pentecostais, que atualmente são a maioria dos evangélicos, para discutir finalmente a sua performance na vida política, em diferentes países da região. Neste ponto, tentarei mostrar que a influência dos grupos está crescendo, mas isso não acontece mecanicamente ou diretamente. Na conclusão, me permito uma breve reflexão sobre a questão da relação entre religião e política na perspectiva das forças progressistas.

O campo evangélico na América Latina

O que geralmente chamamos de "evangelismo" é um rótulo genérico para capturar o resultado de um processo no qual emergiram diferentes grupos religiosos herdados do cisma do século XVI: luteranos, metodistas, calvinistas, batistas, menonitas, presbiterianos e pentecostais, entre as denominações mais conhecidas.

O protestantismo, que é o antecedente e o marco histórico de todas as igrejas evangélicas, é um movimento cristão que, ao contrário do catolicismo, baseia exclusivamente a autoridade religiosa na Bíblia como instância superior à "tradição sagrada" e opõe-se à infalibilidade do papa (e, portanto, sua religião é evangélica, em vez de apostólica, como o catolicismo). Deste ponto de vista, ser evangélico não é uma religião no sentido de estar inscrito em uma burocracia ou em um ritual, mas sim em um encontro pessoal com Jesus, o Espírito Santo e Deus o Pai. Desse encontro, todo crente pode e deve dar testemunho, e é por isso que todo crente é, ao mesmo tempo, um sacerdote.

As correntes evangélicas

As igrejas evangélicas não reivindicam autoridade humana suprema à maneira de um papado, nem adoram os santos ou a Virgem. Nem eles têm uma instância centralizada de gerenciamento que os reúne, mas há líderes que emergem de tempos em tempos e atravessam diferentes ramos. Em cada país existem associações de segundo grau que cumprem uma função de representação corporativa limitada das diferentes variedades de grupos evangélicos. No entanto, a maioria das igrejas realiza suas atividades fora dessas associações, e aquelas que pertencem a algumas estão longe de serem completamente controladas por elas. Em certas circunstâncias sociais e políticas, essas associações se tornam importantes como instâncias unificadoras. Existem também articulações mais contingentes. Por exemplo, diante do desdobramento das lutas pelos direitos de género e diversidade sexual, emergiu a conhecida organização "Con mis hijos no te metas" (“Com meus filhos não se meta”), transversal ao espaço evangélico e católico.

Na América Latina, pelo menos três grandes tendências evangélicas podem ser reconhecidas. Primeiro, os protestantismos históricos, que chegaram à região no século XIX e se limitaram às comunidades migrantes, dada sua baixa vocação ou eficácia evangelizadora, mas também porque o íntimo vínculo entre as nações da América Latina e a América Latina. O catolicismo resultou em uma forte limitação normativa e cultural à pluralização do campo religioso do ponto de vista legal e institucional. Protestantismos históricos incluem principalmente luteranos, metodistas e calvinistas, e deve-se notar que, apesar de sua fraca expansão demográfica, tiveram inserções culturais muitas vezes privilegiadas e contribuíram para o terreno fértil de um liberalismo político que mais tarde se tornou um forte compromisso social e em apoio a projetos políticos de transformação e defesa dos direitos humanos em grande parte do continente.

Em segundo lugar, as tendências evangélicas originadas nos Estados Unidos, que chegaram à América Latina a partir do início do século XX, com forte sentido missionário e proselitista, sustentadas pelo literalismo bíblico. Eles eram, portanto, profundamente conservadores em sua rejeição da ciência e qualquer pretensão de pluralismo religioso. Uma parte das igrejas Batista, Presbiteriana e Irmãos Livres (ou Irmãos de Plymouth) fazem parte deste segundo grupo de evangélicos. Esses grupos promoveram uma consciência de santificação entendida como uma separação do mundo, que foi também um derivado do desenraizamento social que caracterizou os missionários que vieram para os diferentes países com uma aspiração exclusiva: promover conversões e comunidades de novos cristãos. Com o passar do tempo e com o surgimento de um quadro pastoral local, algumas dessas correntes evoluíram para uma espécie de pensamento social que poderia se conectar com as preocupações mais progressistas dos protestantes históricos. Em outros casos, talvez a maioria, essas correntes transformaram suas posições sociais e políticas em outra direção com a chegada, crescimento e adaptação cultural dos diferentes pentecostalismos latino-americanos.

Os pentecostais formam a terceira corrente de grupos evangélicos. Este ramo do protestantismo é identificado por uma posição específica: a que sustenta a realidade dos dons do Espírito Santo. O que significa isto? Esta corrente alegou, desde o seu nascimento no início do século XX, no Avivamento Espiritual da Rua Azusa, na Igreja Episcopal Metodista Africana da Califórnia em 1906, factos semelhantes aos do Pentecostes narrados no Novo Testamento. Nestas circunstâncias, que tiveram repercussão em alguns países europeus e no Chile, os cristãos evangélicos tiveram sinais e manifestações do Espírito Santo. Esta última, longe de ser uma metáfora, como geralmente a consideramos a partir de uma lógica secularizada, é uma entidade com agência em seus próprios termos: manifesta-se no corpo como presença e faz com que as pessoas falem em línguas desconhecidas, formulem profecias, curem suas doenças, melhorar relações intra-familiares e ter sucesso pessoal na vida quotidiana. A reivindicação da possibilidade dessa experiência será a base tanto da teologia do pentecostalismo e de sua autonomia como ramo evangélico, como de sua posterior influência em outros ramos evangélicos. Também uma parte do catolicismo, nucleada dentro do Movimento da Renovação Carismática Católica (RCC), acolheria essas noções.

Deve-se notar também que o impulso pentecostal é nutrido por uma longa história de correntes protestantes que desafiaram as posições teológicas que, como as do próprio Calvino, estabeleceram uma separação absoluta entre os homens e a divindade. Por isso, é possível argumentar que o pentecostalismo representa um polo que busca reencantar o mundo, em face do clássico impulso protestante que, segundo Max Weber, o desencantou.

Pentecostalismos

O crescimento do pentecostalismo na América Latina é uma variante específica de um movimento que mostrou uma capacidade sem precedentes de globalização nos últimos 100 anos. O pentecostalismo produz conversões e massas de fiéis na China, Coréia do Sul, Singapura, Filipinas e vários países do continente africano. Em todos esses casos, como na América Latina, constata-se uma constante: o movimento tem uma grande capacidade de vincular sua mensagem às espiritualidades locais, bem como de incentivar formas flexíveis, variadas e facilmente apropriadas de organização, teologia e liturgia com as quais difunde-se entre os mais diversos segmentos da população em diferentes contextos nacionais.

No início do século XX, um dos meios de difundir o pentecostalismo foi a migração de crentes que se moviam com sua fé e as primeiras missões organizadas que, de vários países, especialmente os EUA, chegavam a quase todos os países do continente. Então, a partir das décadas de 1940 e 1950, as missões continuaram, mas o pentecostalismo também se desenvolveu a partir de líderes locais que o adaptaram à situação social e cultural endógena. Deste modo, um pentecostalismo autónomo, que privilegiava a salvação terrena e se baseava na "cura divina", sobrepôs-se ao pentecostalismo original, que enfatizava a santificação e o repúdio ao pecado. O pentecostalismo em expansão dialoga com as necessidades e crenças populares de uma maneira original, como nenhuma denominação protestante jamais fez e, portanto, seu sucesso diferencial. Na década de 1950, os pentecostais já constituíam um importante contingente em vários países da América Latina.

Além da percentagem da população que eles representavam, o importante é que, naquela época, em cada um dos países da região, líderes e canteiros de líderes locais estavam dispostos a liderar o crescimento das décadas seguintes. Mas no mesmo estágio a presença de missões dos EUA aumentou devido a uma transformação geopolítica decisiva para a direção dos pentecostais na América Latina: o triunfo da Revolução Chinesa e o fechamento da evangelização de sua imensa população permitiram um redirecionamento da vocações e políticas evangelizadoras para uma América Latina tradicionalmente católica.

No final dos anos 60 e início dos 70, e capitalizando todos esses antecedentes, inicia-se um terceiro estágio no qual se generalizam dois caminhos de crescimento pentecostal: o chamado "neopentecostalismo" e o das igrejas autónomas. No que alguns pesquisadores e agentes religiosos chamam de neopentecostalismo, características do pentecostalismo clássico foram exacerbadas, enquanto inovações teológicas, litúrgicas e organizacionais foram produzidas. Expressões a respeito da presença do Espírito Santo foram pluralizadas e fortalecidas (a aposta por milagres foi aumentada e sistematizada) e a figura dos pastores como sujeitos privilegiados, capazes de viabilizar essa bênção. Nesse contexto, duas principais articulações teológicas surgiram: a "Teologia da Prosperidade" e a doutrina da guerra espiritual.

A "Teologia da Prosperidade", que polemizou e antagonizou a Teologia da Libertação em um plano prático, argumentou que, se Deus pode curar e curar a alma, não há razão para pensar que ele não possa conceder prosperidade. A benção é completa e a contrapartida era um passo que confirmava e aprofundava a oração: o dízimo. O horror de analistas moldados pela cultura secular ou por observadores próximos ao catolicismo, que santifica a pobreza em face da "mistura" entre o espiritual e o económico, tornou impossível perceber que esse aspecto da oferta teológica pentecostal tem muitos aspectos familiares com a dimensão sacrificial que nas aldeias camponesas leva a oferecer animais e colheitas aos deuses em troca de prosperidade. Só isso, como convém ao tempo do capitalismo, não pode se materializar de outra maneira senão pelo equivalente geral de todas as mercadorias: o dinheiro.

A doutrina da guerra espiritual, por outro lado, introduz uma extensão e uma variação na lógica do batismo no Espírito Santo que está no começo do Pentecostalismo. Se o pentecostalismo original afirma que o divino está no mundo, a ideia de guerra espiritual também inclui a presença do mal. Dessa maneira, o dem´pnio deixa de ser uma metáfora para se tornar uma força espiritual corporificada que ameaça a saúde, a prosperidade e o bem-estar, e isso dá origem a uma concepção de experiência religiosa e liturgia na qual a expulsão de demónios diferentes é central. Esta é também uma chave para a expansão pentecostal, uma vez que essa formulação permite que você reconheça a eficácia das entidades espirituais de outras religiões e, ao mesmo tempo, as injurie. O que outras religiões lutam como truques, combates espirituais lutam como agências espirituais negativas, de acordo com a estrutura interpretativa dos destinatários de seu discurso. As igrejas neopentecostais começaram a fazer uso marcante de todas as inovações comunicacionais disponíveis e também aplicaram técnicas de "crescimento da igreja " que haviam sido bem-sucedidas na Coréia do Sul. Toda essa implantação permitiu, aconselhou e possibilitou o desenvolvimento de mega-Igrejas. No entanto, o neopentecostalismo designa cada vez mais uma nova fase do desenvolvimento do pentecostalismo e cada vez menos um tipo de igreja. O neopentecostalismo prefere mega-Igrejas, mas nem todas as características neopentecostais ou neopentecostais estão presentes exclusivamente em mega-Igrejas, que são, por sua vez, uma pequena proporção de todas as igrejas pentecostais e evangélicas.

Nas últimas décadas houve uma multiplicação das pequenas igrejas pentecostais. Esse fenômeno tem sido menos observado, mas não é menos importante: a maioria dos convertidos ao pentecostalismo acaba se agrupando em pequenas igrejas autônomas em seus bairros, após uma passagem por igrejas maiores ou mais institucionalizadas. Muitos dos pastores da vizinhança obtem nessas grandes igrejas o know-how para construir novos templos em suas áreas de residência, para as quais cada grupo de crentes imprime o selo da particularidade de sua experiência. Em uma dinâmica que é semelhante àquela da proliferação de bandas musicais, as pequenas igrejas são a maioria silenciosa na qual a sensibilidade pentecostal decai. Nestas pequenas igrejas, qualquer observador será capaz de encontrar quase tudo o que é considerado típico do neopentecostalismo.

O crescimento pentecostal é alimentado pelas vantagens organizacionais e discursivas dos déficits evangélicos e católicos, e ocorre principalmente naqueles espaços onde o catolicismo, com sua logística lenta, falha em explicar o processo de metropolização que caracteriza a região: em cada novo bairro onde a Igreja Católica planeja chegar, já existe uma ou várias igrejas evangélicas. Este processo também é dado do campo para a cidade e da periferia para o centro. É por isso que as observações jornalísticas quase sempre confundem os efeitos com as causas: as grandes igrejas pentecostais, que são as mais visíveis, não apenas não congregam necessariamente a maioria dos fiéis, mas não são os gatilhos do fenômeno, mas eles assumem esse papel diante de observadores "metropolitanocêntricos". O grupo de igrejas evangélicas e especialmente os pentecostais também forjaram diferentes tipos de grupos educacionais, esportivos, de serviços mútuos e, especialmente, instituições de produção cultural de massa, como editoras, gravadoras e instituições de formação teológica que, ao mesmo tempo, facilitam o trabalho da atividade proselitista, dão densidade ao mundo evangélico criando denominadores comuns transversais.

Em toda a região, podemos ver uma tendência bastante homogénea. Enquanto no início do século XX a erudição e o status social dos protestantes históricos, juntamente com sua maior presença demográfica em relação aos evangélicos e pentecostais, garantiram sua hegemonia no mundo evangélico, no final do século XX descobrimos que com essa supremacia demográfica e o prestígio dos métodos de evangelização dos pentecostais, fez destes últimos, apesar de sua maioria pertencer a uma posição social mais baixa, o grupo predominante no mundo evangélico de cada um dos países da América Latina.

Na segunda década do século XXI, o campo evangélico como um todo tornou-se pentecostalizado como resultado da presença do pentecostalismo e do neopentecostalismo. É importante notar também que isso poderia acontecer porque uma parte dos grupos protestantes, que chamamos de evangélicos, entenderam que deveriam aprofundar suas alianças com os pentecostais, aprender com sua capacidade de adaptação da mensagem evangélica e colocar ao serviço dessa expansão sua solidez institucional global e seus profusos recursos. Mas, ao mesmo tempo, é necessário salientar que, da mesma forma, as fronteiras entre os grupos evangélicos foram corroídas para dar lugar a práticas e crenças que atravessam as diferentes denominações e ondas de implementação e desenvolvimento de igrejas evangélicas, que surgiram, no lugar das velhas identidades protestantes, uma identidade evangélica e ainda mais genericamente "cristã", que cada vez mais tende a ser o sinal em que o protestantismo é reconhecido na América Latina.

Quantos são evangélicos na América Latina?

O gráfico e a tabela a seguir nos permitem compreender a situação quantitativa dos evangélicos na América Latina na região como um todo e em diferentes países . No gráfico, pode-se observar a magnitude da mudança global na região: entre 1910 e 2014, os católicos passaram de 94% para 69% da população e os evangélicos, de 1% para 19%. A tabela mostra como essa transformação ocorreu ao longo do tempo e em diferentes países, assim como o ritmo acelerado que ela manifesta desde 1970, através de um indicador indireto como o declínio da população católica.

Vamos ver agora as razões para essa transformação no campo religioso: a primeira é que a noção de atualidade dos dons do Espírito Santo está muito facilmente conectada com as noções de sensibilidade religiosa da maioria dos setores populares da América Latina. Para esses setores, a categoria de milagre é fundamental, para a qual a noção de "atualidade dos dons do Espírito Santo" dá tradução e poder. O milagre, que em um olhar secularizado é algo extraordinário e subsequente a todas as razões, é nesta perspectiva "popular" uma possibilidade primária e anterior a toda experiência. Essa sensibilidade encantada é muito mais interpelada pela perspectiva da teologia pentecostal e de suas adaptações locais e contemporâneas do que por qualquer teologia católica, que faz enormes concessões à ciência e toda uma hierarquia de domínios eclesiásticos que são necessários para reconhecer como milagre o que Igrejas pentecostais acontecem o tempo todo. A segunda característica, derivada da pertença do pentecostalismo à matriz protestante, refere-se à universalidade do sacerdócio, que democratiza e facilita a emergência de líderes religiosos. A universalidade do sacerdócio permite que os pentecostais tenham capilaridade logística e cultural para conter a expectativa de milagres das populações em que estão inseridos e desenvolvidos. Cada pastor e cada nova igreja recria as boas novas adaptando-as à sensibilidade do território social e cultural com o qual coexistem e assim produzem a sintonia que o catolicismo não alcança: pregações, organizações e produtos culturais adaptados aos mais diversos nichos sociais e culturais surgem desses mesmos nichos, gerados por sujeitos que se aproveitam da omnipresença e gramaticalidade do pentecostalismo.

Esta dinâmica verdadeiramente surpreendente implica que o pentecostalismo cresce apenas pelas mesmas razões que outros grupos não podem: a universalidade do sacerdócio, que recria versões infinitas do pentecostalismo, promove o crescimento por fracionamento e não por agregação em unidades cada vez maiores. É assim como religiões de forte intenção proselitista, mas de inquebrantável vocação centralizadora e portadora de uma teologia que não guarda as mesmas possibilidades de afinação popular que o pentecostalismo, como as testemunhas de Jeová ou os mórmons, registram um crescimento quase nulo. Os pentecostais, por sua vez, mostram uma capacidade de penetração territorial e cultural capaz de atrair múltiplos fragmentos sociais em um grande número de hibridizações do pentecostalismo e diversas formas de cultura popular e de massa.

Em contraste com isso, o catolicismo leva décadas e décadas para renovar quadros que são cada vez mais escassos, dado o sistema particular de recrutamento de líderes religiosos que os possuem e porque, pelo mesmo tipo de recrutamento, esses líderes vivem quase fora de as experiências dos sujeitos a quem pretendem levar espiritualmente. Isto, para não mencionar que as teologias católicas do Concílio Vaticano II em diante, possuindo um razoável zelo modernizador, são, através deste mesmo esforço, produtores de uma grande distância cultural entre o catolicismo e seus paroquianos, não apenas porque diferem de uma sensibilidade popular encantada ao colocar o destaque não no milagre, mas sim no compromisso social, no rigor, no sacrifício, no penitência, no estudo, mas também porque sua concepção enfatiza a divisão entre o ordenado e o laicato exatamente onde o pentecostalismo recruta, aos montes e nos "piores lugares" da sociedade, seus líderes.

O salto abrupto que ocorre a partir de 1970, de acordo com a tabela, não deve ser entendido de forma linear em correlação exclusiva com a sincronia do que aconteceu política e socialmente na América Latina naquela década, mas como resultado do acúmulo de recursos institucionais e seres humanos que, como investimento desenvolvido desde 1950, teve seu amadurecimento nessa década. A suposição de que os pentecostais crescem por suas campanhas em tempos periféricos da mídia ignora um fato evidenciado por dezenas de trabalhos antropológicos e sociológicos realizados nos últimos 50 anos: os pentecostais crescem de boca em boca, por proximidade, por redes; os espaços de televisão apenas legitimam a posição do crente e resolvem disputas de predominância entre igrejas. Conversões e acessos ocorrem na vida cotidiana quando alguém tem um problema e uma pessoa perto de você recomenda ir a uma igreja, e então acontecem coisas que fazem "tudo funcionar". O conceito de "igreja eletrónica" explica apenas uma pequena parte dos casos de conversões: muitas vezes, de idosos isolados, dependentes da televisão e angustiados em noites solitárias. Para todos os outros (jovens, casamentos em crise, adultos e pessoas de meia-idade em meio a todos os tipos de problemas), há sempre uma igreja próxima e um amigo ou vizinho que recomenda ir até lá. O pentecostalismo conseguiu penetrar nas mais diversas camadas sociais e nos mais variados estilos de vida, mas é inegável que seu sucesso foi maior nos setores populares, em áreas da sociedade onde oferece armas privilegiadas para lutar contra o sofrimento social e pessoal, como tem mostrado, entre outros trabalhos, o de Cecilia Mariz no Brasil.

Uma conclusão que se impõe após a revisão deste ponto é que, independentemente dos rumos da mobilização dos pentecostais no espaço público, seu crescimento, comprovadamente mais forte nos setores populares, tem efeitos em termos de poder social: o poder vai de padres a pastores, de agentes externos às comunidades e aos líderes locais; das noções universalizadas de cultura elaboradas pelas elites globais a noções que, veiculadas pelas indústrias culturais, refletem mais vividamente as experiências quotidianas de milhões de sujeitos das classes populares e das precárias classes médias de toda a região.

Pentecostais e política na América Latina

Quais as consequências que as transformações no campo religioso têm na vida política e na esfera pública? A tese mais geral para capturar a politização dos pentecostais e de uma grande parte dos evangélicos na América Latina é que eles desenvolveram formas diversas e contingentes de mobilização política, que nas últimas décadas foram orientadas para a intervenção política e o fizeram à mão de tendências conservadoras [6]. Mas, em contraste com a afirmação impressionista de que se trata de uma onda de fascismo evangélico, cujo destino foi garantido desde o primeiro pentecostal pisou em um porto latino-americano, é necessário prestar atenção aos momentos e modos dessa politização e sua interação com o contexto social mais geral, para discernir quais devem ser as tarefas das forças progressistas nas diferentes direções que os evangélicos adotam.

O protestantismo histórico promoveu direções politicamente liberais e gerou uma tradição muito rica de compromisso social, mas sua reclusão em certos nichos sociais, somada às derrotas históricas dos projetos de esquerda, contribuiu para sua perda de relevância relativa. Os evangélicos eram mais conservadores, mas chegaram a implantar alguns compromissos sociais em tempos já distantes. Finalmente, os pentecostais e, se quiserem, os neopentecostais, que juntos foram os mais numerosos e decisivos evangélicos por várias décadas, também passaram por vários estágios em suas formas de se relacionar com o público e com a política. De um modo geral, é possível delinear uma série de quatro momentos que ocorrem nos diferentes países da América Latina.

O desenvolvimento inicial do pentecostalismo na América Latina incluiu a denúncia do que eles chamavam de "o mundo"; portanto, a política que residia nele devia ser repudiada. Neste também pesou a origem estrangeira dos pioneiros, que não tinham capacidade de estar totalmente ligada a parcelas ou a disputas políticas locais; o anticomunismo desses mesmos pioneiros, que frequentemente identificavam "compromisso político" e desobediência; a situação minoritária e estigmatizada de uma religiosidade que era vista como "dissidente" e o fato de que as primeiras ninhadas de crentes locais pertenciam a populações socialmente, economicamente ou culturalmente marginalizadas.

Com o tempo e com a geração de um corpo de líderes endógenos vinculados às sociedades locais, os pentecostais começam uma segunda etapa: os primeiros passos em busca da proteção de seus direitos como minoria religiosa, que são dados, em geral, a partir dos anos 70. Nesse contexto, a politização assumiu o caráter de defesa limitada do pluralismo religioso, uma vez que os pentecostais buscavam, em geral, seu reconhecimento ao mesmo tempo que o catolicismo, mas não pretendiam que isso fosse estendido a todos os grupos religiosos.

Posteriormente, o Pentecostalismo apresentou um apelo tanto para os políticos estabelecidos como para os emergentes empreendedores evangélicos. O crescente número de eleitores evangélicos e o poder de suas redes acrescentaram o facto de que os crentes, com sua presença "santa", poderiam dar legitimidade específica e adicional a projetos políticos dos mais variados signos que procuravam denunciar uma política adotada por a corrupção. Isso permitiu tentativas que vão desde iniciativas voltadas para a criação de partidos confessionais - sem muitos resultados - para a nomeação de evangélicos em partidos não confessionais. Referimo-nos a situações tão diversas quanto a participação de evangélicos nas campanhas de Alberto Fujimori em sua primeira eleição no Peru, Fernando Collor de Mello no Brasil no final dos anos 80 ou, na estratégica Prefeitura do Rio de Janeiro, Benedita da Silva, que mesmo com as prevenções de sua igreja, ganhou as eleições reivindicando seu caráter de "mulher, negra, favelada e pentecostal".

Nesse estágio, havia compromissos políticos plurais e pragmáticos. Diferentes grupos pentecostais e evangélicos entraram em atividade política usando suas capitais de diferentes maneiras e construindo diferentes tipos de alianças: na Argentina, os pentecostais que se mobilizaram politicamente o fizeram relativamente perto do peronismo, mas também se integraram em propostas de centro-direita. No Brasil, onde as mais poderosas denominações pentecostais apoiaram Collor de Melo e Fernando Henrique Cardoso antes do "perigo comunista" do Partido dos Trabalhadores (PT), mais tarde se juntaram à frente promovida pelo mesmo partido nas quatro eleições que venceram – com Luiz Inácio Lula da Silva e Dilma Rousseff. Em seguida, deram seu aval ao projeto de Marina Silva (evangélica e ambientalista que foi ministra do primeiro governo Lula e depois liderou uma de suas primeiras dissidências) e, finalmente, correndo atrás de seus eleitores, acabaram apoiando a candidatura de Jair Messias Bolsonaro na reta final.

Pode-se dizer que este momento de maior envolvimento político coincide com o momento de maior expansão da visão pentecostal entre todos os grupos evangélicos. Nesse contexto, os evangélicos não apenas começaram a participar da política eleitoral, mas tornaram-se interlocutores nos diálogos sobre políticas públicas: sua agilidade e capilaridade territorial os tornaram agentes-chave para os processos pelos quais os Estados levaram em conta, mediante múltiplos instrumentos públicos, a populações excluídas ou marginalizadas. O desdobramento de dinâmicas de violência e vício introduzidas pelo narcotráfico constituiu um terreno onde os agentes das mais diversas instâncias da sociedade civil e política viam os evangélicos como aliados.

Essas formas de mobilização política e social continham algo que, num quarto momento, logicamente, será fundamental. Os líderes de diferentes igrejas e associações evangélicas e pentecostais logo proclamaram de maneira cada vez mais intensa e clara algo que está longe da fórmula canóica de secularização (religião livre de Estado e Estado livre de religião): a hierarquia dos evangélicos nas sociedades em que foram discriminadas, estava ligada à hierarquia de suas concepções no espaço público. Neste momento, diferentes aspectos da experiência evangélica não só podem ser atraentes para os políticos que os convidam ou para os evangélicos tentarem converter a situação religiosa em poder político, mas um projeto é delineado em relação à conquista da sociedade como um todo para os valores cristãos. Estes não são valores aleatórios: no contexto histórico em que este forte investimento político ocorre, os evangélicos enfatizarão a oposição ao casamento igualitário e a legalização da interrupção voluntária da gravidez, em certas limitações ao pluralismo religioso, que deve ser exercido contra as "seitas" e religiosidades afro-americanas e até, em alguns casos, na busca de um processo de regulação do campo religioso que afetaria as expressões autónomas do pentecostalismo. No contexto deste desenvolvimento histórico, é possível apontar três fatos que ajudam a limitar a atualidade dos mecanismos que atuam nas relações entre evangélicos e políticos.

Não há voto confessional

É necessário desativar uma impressão que é facilmente imposta após a verificação do crescimento dos evangélicos nas últimas décadas: é impossível afirmar a existência de um voto confessional no caso dos evangélicos. Não é só que a identidade religiosa não gera automaticamente uma identidade política. O fato de não haver instâncias de unificação institucional e a dinâmica de grupos evangélicos, competitivos e sujeitos a múltiplas possibilidades de fracionamento, fazem com que alguns esforços políticos que apelam à identidade religiosa tenham efeitos muito distantes daquele buscado (que os crentes votam crentes), uma vez que são vistos com desconfiança como tentativas de manipulação, controle e capitalização indevida de esforços de algumas denominações pentecostais por outros. Além disso, nos diferentes espaços nacionais, os evangélicos votam de maneira análoga àquela votada por católicos ou cidadãos que aderem a outras religiões em seus respectivos estratos sociais. Os partidos evangélicos tinham percentagens de votos muito inferiores à percentagem da população evangélica no Peru (4% acima de 12%), no Chile (onde três partidos evangélicos fracassaram na eleição de 2017), na Argentina em 1991 e em 2001 (onde a maioria dos evangélicos dos setores populares votam pelo peronismo) ou, para dar mais um exemplo, na Guatemala, onde os evangélicos compõem 40% da população e já assumiram três presidentes dessa religião, mas os partidos evangélicos que apelam para o a mobilização política dos crentes não alcança maiores sucessos (6% acima de 40%). No entanto, não se deve ignorar que diferentes aspectos da identidade evangélica ou seu repertório de ação simbólica fortaleceram, por exemplo, a candidatura triunfante de Bolsonaro no Brasil. Mas mesmo nesse caso, os evangélicos que se concebem como o rebanho de Deus não votam como um rebanho: numa campanha polarizada em que os líderes das denominações evangélicas mais fortes e com a maior extensão territorial empurraram o voto para Bolsonaro por sugestão de suas próprias bases, estatísticas após a eleição mostraram que mais de um terço dos evangélicos votaram contra as diretrizes "oficiais".

O peso demográfico ajuda a mobilização evangélica?

Alguns autores argumentam que as potencialidades da mobilização política evangélica se correlacionam com o peso demográfico dos pentecostais em diferentes países: nos países em que os pentecostais, juntamente com o restante dos evangélicos, excedem 30% da população, é mais provável que eles sejam capazes de promover uma alternativa política baseada na identidade evangélica. Enquanto nos países onde eles permanecem abaixo de 25%, eles tendem a participar do projeto de outros partidos políticos e a conformar uma representação coordenada dos interesses comuns de todos os evangélicos nos níveis parlamentares e em amplas mobilizações sociais . A hipótese não é totalmente infundada, mas não é totalmente discriminatória: deve-se considerar que nos países com maior percentual de evangélicos existem casos, como a Guatemala, onde a religião evangélica parece influenciar a cultura política sem um voto confessional, mas em casos como o de El Salvador ou Nicarágua, a influência e a mobilização evangélica não são evidentes. Na Costa Rica e no Brasil, por outro lado, os percentuais de população evangélica são relativamente mais baixos que os dos países mencionados e, no entanto, a força política e eleitoral dos evangélicos leva a um partido desta corrente (Restauração Nacional) ser o principal desafiante dos partidos tradicionais (Costa Rica), ou aqueles que fazem parte do bloco eleitoral triunfante através de partidos que não representam todas as denominações evangélicas, mas que têm a mobilização de alguns dos que têm mais reconhecimento, recursos econômicos e implantação territorial (Brasil).

A erosão das identidades políticas tradicionais e a "agenda de género"

A viabilidade da formulação e o sucesso de uma alternativa política evangélica pode conter parte do fator "peso demográfico", mas certamente depende da concordância de duas outras circunstâncias. Uma das situações que permitem o surgimento de forças políticas que apelam para a identidade evangélica é a erosão das alternativas políticas tradicionais, especialmente se isso ocorrer no contexto das crises políticas geradas pelas causas da corrupção. Nesses casos, a estrutura de atribuições simbólicas que dá às religiões uma espécie de honestidade a priori serve como garantia ou, pelo menos, como lavagem de forças políticas que precisam de recursos extraordinários de legitimação. Como isso também ocorre no contexto de transformações sociais que alteram os princípios tradicionais de identificação (localidade, trabalho, catolicismo), o evangélico contribui para solidificar novos princípios de agregação. Este poderia ser o caso do Brasil e da Costa Rica ou, mais para trás no tempo, a identificação de Fujimori com os evangélicos no início dos anos 90.

Há outra circunstância que, indubitavelmente e decisivamente, contribui para o surgimento, crescimento e fortalecimento de projetos políticos evangélicos: o avanço concreto e a disseminação da agenda de direitos de género e diversidade nas últimas décadas na América Latina gerou uma reação que nem analistas nem atores conseguiram prever, muito menos conter. Na medida em que essas transformações estavam progredindo, muitas vezes mais rapidamente do que você jamais imaginaria no Estado e nos partidos políticos, mesmo no centro e na esquerda, elas foram incubadas, em outros espaços da sociedade e costas do sentimento de progresso indefinido que acompanhava os grupos reformadores, um murmúrio subterrâneo e aborrecimento capitalizados em grande parte pelos evangélicos. Primeiro, porque eles são os que mais se aproximam fisicamente e ideologicamente dessa reação. Em segundo lugar, porque o catolicismo foi impedido de fazê-lo com coerência e legitimidade, dada a combinação de sua heterogeneidade interna com a ilegitimidade que ajuda a intervir nessa questão em uma hierarquia submersa em opróbrio pelos casos de pedofilia. Assim, a implantação da agenda de direitos de género e diversidade gerou uma dinâmica na qual os evangélicos poderiam ser catalisadores e representantes de uma reação que acrescentasse poder a seus projetos políticos. Esse é o ponto a partir do qual os evangélicos deixaram de ser pragmáticos e sistematicamente orientados para a direita.

A composição da reação catalisada pelos evangélicos nos permite entender melhor em que sentido eles estão sendo um fator dinâmico das forças da direita: além do aumento da propensão evangélica de votar pelo direito ou pelo direitização dos seus candidatos e propostas, é certo que, como não há voto confessional, os evangélicos não votam para a direita somente quando seus líderes a promovem. Então, pode-se discernir especificamente a operacionalidade evangélica na direita contemporânea: não apenas representam a reação contra a agenda de género e diversidade de suas próprias bases denominacionais, mas seu próprio crescimento molda o ambiente político-ideológico onde gesta a densidade das resistências à essa agenda emancipatória.

O pentecostalismo influencia muito mais solidamente por meio da transformação cultural implícita em seu crescimento do que a direção dos votos dos crentes. Não faz mal dizer que tudo isso ocorre em uma estrutura mais ampla e complexa: a virada para a direita ou a permanência da direita em diferentes países da América Latina deve-se a muitas outras causas. Algumas, como a percepção de um clima instável de mobilização e/ou violência, bem como a corrupção, reforçam a necessidade de uma referência cristã que os evangélicos contestam e frequentemente alcançam melhor do que qualquer outra pessoa. Outras, como a estagnação económica ou a desigualdade, podem ser interpretados na lógica evangélica e, assim, dinamizar mudanças no comportamento político.

Reflexão final

Os evangélicos têm sido uma fonte inesgotável de enigmas, pánicos e pontificações por mais de 30 anos por parte dos analistas, políticos e todos os tipos de atores/espectadores da política contemporânea. Por um lado, isso se deve ao fato de que o espírito dos esquerdistas e progressistas latino-americanos tece em sua reação dois fios desconexos: o medo tradicional da religião como um poder obscuro e alienante se une na formação de uma aliança sagrada. Mais uma vez, a presunção traficada pelo catolicismo sobre o caráter "estrangeiro" que auxilia todo o protestantismo. Tudo isso ajudou a forjar uma série de reações que iam desde a afirmação a priori do que a expansão desses movimentos significava, notável desde meados do século passado, até o desprezo por qualquer abordagem cognitiva ou política que não fosse militantemente oposta. Em geral, com importantes e notáveis exceções, o fenômeno permanece entre a condenação e a ignorância condenatória, de modo que hoje o despertar desse sonho reativo nos força a confrontar uma realidade complexa, desafiadora e ameaçadora, embora cheio de contingências que ainda têm que ser exploradas e exploradas em esforços de interpelação política que, como sempre e mais do que nunca, exigirão fazer do coração tripas.

Mas, por outro lado, isso também é devido a um mecanismo simétrico reverso. Se a esquerda e o catolicismo viam na expansão evangélica uma invasão imperial, alguns analistas americanos viam com otimismo a implantação de sementes que tornariam a América Latina, estereotipada como uma Macondo generalizada, um espaço de racionalidade, individuação e acumulação virtuosa, como se os pentecostalismos, a força demograficamente mais importante dessa expansão, eram constituídos por clones de peregrinos de Mayflower e como se a América Latina do século XX constituísse o que, a partir dessa imaginação histórica, é concebido como uma tábua rasa.

Basicamente, o caso da expansão evangélica é revelador da precariedade de uma certeza que devemos questionar: a secularização dificilmente funciona como a interposição de uma parede capaz de cancelar mais ou menos perfeitamente as trocas entre o mundo da religião e da política. O que acontece, ao contrário, é que a capacidade moderna de entender a contingência radical do mundo histórico social deve ser aplicada ao caso das religiões para entender que a modernidade, longe de significar o fim das religiões, é um mecanismo que, ao mesmo tempo institui separadamente o domínio da religião, articula transformações, porosidades e trocas que fazem as religiões estarem constantemente mudando e sempre "retornando".

Edição 147, Abril 201

Boaventura Sousa Santos

OS EUA FLERTAM COM O DIREITO NAZI

"Por se oporem aos projetos de Washington, Julian Assange e Lula estão submetidos à lógica do “inimigo interno”, que floresceu com Hitler. Sob aparência de normalidade democrática, o Ocidente avança para o Estado de exceção", escreve Boaventura de Sousa Santos, sociólogo, em artigo publicado por Outras Palavras /IHU

O problema da transparência, tal como o da luta contra a corrupção, é a sua intransparente seletividade. Quem talvez viva mais diretamente este problema são os jornalistas de todo o mundo que ainda persistem em fazer jornalismo de investigação. Todos tremeram no passado dia 11 de abril, qualquer que tenha sido o teor dos editoriais dos seus jornais, ante a prisão de Julian Assange, retirado à força da embaixada do Equador em Londres para ser entregue às autoridades norte-americanas que contra ele tinham emitido um pedido de extradição. As acusações que até agora foram feitas contra ele referem-se a ações que apenas visaram garantir o anonimato da whistleblower Chelsea Manning, ou seja, garantir o anonimato da fonte de informação, uma garantia sem a qual o jornalismo de investigação não é possível.

Se os jornalistas são quem vive mais diretamente a seletividade da transparência, quem mais sofre as consequências dela é a qualidade da democracia e a credibilidade do dever de prestação de contas a que os governos democráticos estão obrigados. Por que é que a luta pela transparência se dirige a certos alvos políticos e não a outros? Por que é que as revelações em alguns casos são saudadas e produzem efeitos, enquanto noutros são impedidas e, se feitas, são ignoradas? Daí a necessidade de conhecer melhor os critérios que presidem à seletividade. Claro que o outro lado da seletividade da transparência é a seletividade da luta contra a transparência. Talvez não soubéssemos das perturbadoras revelações da WikiLeaks em 2010 — vídeos militares sobre o assassinato em 2007, no Iraque, de civis desarmados, dois dos quais trabalhavam para a Reuters — se elas não fossem divulgadas amplamente pelos meios de comunicação de referência de todo o mundo.

Por que é que toda a sanha persecutória desabou sobre o fundador do WikiLeaks e não sobre esses meios, alguns dos quais ganharam muito dinheiro que nunca reverteu adequadamente para Assange? Por que é que nessa altura os editoriais do New York Times saudavam Assange como o campeão da liberdade de expressão e as revelações, como o triunfo da democracia, e o editorial da semana passada considera a sua prisão como o triunfo da rule of law? Por que é que o governo do Equador protegeu “os direitos humanos de Assange durante seis anos e 10 meses”, nas palavras do presidente Lenin Moreno, e o entregou repentina e informalmente, violando o direito internacional de asilo? Será porque, segundo o New York Times, o novo empréstimo do FMI ao Equador no valor de cerca de 4 bilhões de dólares teria sido aprovado pelos EUA sob a condição de o Equador entregar Julian Assange? Será porque o WikiLeaks revelou recentemente que Moreno poderia vir a ser acusado de corrupção em face de duas contas, tituladas pelo seu irmão, uma em Belize e outra no Panamá, onde alegadamente terão sido depositadas comissões ilegais?

Quanto à seletividade da luta pela transparência há que distinguir entre os que lutam a partir de fora do sistema político e os que lutam a partir de dentro. Quanto aos primeiros, a sua luta tem, em geral, um efeito democratizador porque denuncia o modo despótico, ilegal e impune como o poder formalmente democrático e legal se exerce na prática para neutralizar resistências ao seu exercício. No caso do WikiLeaks haverá que reconhecer que tem publicado informações que afetam governos e atores políticos de diferentes cores políticas, e este é talvez o seu maior pecado num mundo de rivalidades geopolíticas.

A sorte do WikiLeaks mudou quando, em 2016, revelou as práticas ilegais que manipularam as eleições primárias no Partido Democrático dos EUA para que Hilary Clinton, e não Bernie Sanders, fosse o candidato presidencial, e mais ainda depois de ter mostrado que Hilary Clinton fora a principal responsável pela invasão da Líbia, uma atrocidade pela qual o povo líbio continua a sangrar. Pode objetar-se que o WikiLeaks se tem restringido, em geral, aos governos mais ou menos democráticos do dito mundo eurocêntrico ou nortecêntrico. É possível, mas também é verdade que as revelações que têm sido feitas para além desse mundo colhem muito pouca atenção dos meios dominantes.

A seletividade da luta por parte dos que dominam o sistema político é a que mais dano pode causar à democracia porque quem protagoniza a luta pode, se tiver êxito, aumentar por via não democrática o seu poder. O sistema jurídico-judiciário é hoje o instrumento privilegiado dessa luta. Assistimos nos últimos dias a tentativas desesperadas para justificar a revogação do asilo de Assange e a sua consequente prisão à luz do direito internacional e direito interno dos vários países envolvidos, mas a ninguém escapou que se tratou de um verniz legal para cobrir uma conveniência política ilegal, se não mesmo uma exigência por parte dos EUA.

Mas obviamente que o estudo de caso do abuso do direito para encobrir conveniências políticas internas e imperiais é a prisão do ex-presidente Lula da Silva. O executor desse abuso é Sérgio Moro, acusador, juiz em causa própria, ministro do governo que conquistou o poder graças à prisão de Lula da Silva. Lula da Silva foi processado mediante sórdidos dislates processuais e a violação da hierarquia judicial, foi condenado por um crime que nunca foi provado, e mantido na prisão apesar de o processo não ter transitado em julgado.

Daqui a cinquenta anos, se ainda houver democracia, este caso será estudado como exemplo de como a democracia pode ser destruída pelo exercício abusivo do sistema judicial. Este é também o caso que melhor ilustra a falta de transparência na seletividade da luta pela transparência. Não é preciso insistir que a prática de promiscuidade entre o poder econômico e o poder político vem de longe no Brasil e que cobre todo o espectro político. Nem tão pouco que o ex-presidente Michel Temer pôde terminar o mandato para o qual não fora eleito apesar dos desconchavos financeiros em que alegadamente teria estado envolvido.

O importante é saber que a prisão de Lula da Silva foi fundamental para eleger um governo que entregasse os recursos naturais às empresas multinacionais, privatizasse o sistema de aposentadorias, reduzisse ao máximo as políticas sociais e acabasse com a tradicional autonomia da política internacional do Brasil e se rendesse a um alinhamento incondicional com os EUA em tempos de rivalidade geopolítica com a China.

Objetivamente, quem mais se beneficia com estas medidas são os EUA. Não admira que interesses norte-americanos se tenham envolvido tanto nas últimas eleições gerais brasileiras. Também é sabido que as informações que serviram de base à investigação da Operação Lava-Jato resultaram de uma íntima colaboração com o Departamento de Justiça dos EUA. Mas talvez seja surpreendente a rapidez com que, neste caso, o feitiço se pode se virar contra o feiticeiro.

O WikiLeaks acaba de revelar que Sérgio Moro foi um dos magistrados treinados nos EUA para a chamada “luta contra o terrorismo”. Tratou-se de um treino orientado para o uso musculado e manipulativo das instituições jurídicas e judiciárias existentes e para o recurso a inovações processuais, como a delação premiada, com o objetivo de obter condenações rápidas e drásticas. Foi essa formação que ensinou os juristas a tratar alguns cidadãos como inimigos e não como adversários, isto é, como seres privados dos direitos e das garantias constitucionais e processuais e dos direitos humanos supostamente universais.

O conceito de inimigo interno, originalmente desenvolvido pela jurisprudência nazista, visou precisamente criar uma licença para condenar com uma lógica de estado de exceção, apesar de exercida em suposta normalidade democrática e constitucional. Moro foi assim escolhido para ser o malabarista jurídico-político ao serviço de causas que não podem ser sufragadas democraticamente. O que une Assange, Lula e Moro é serem peões do mesmo sistema de poder imperial, Assange e Lula, enquanto vítimas, Moro enquanto carrasco útil e por isso descartável quando tiver cumprido a sua missão ou quando, por qualquer motivo, se transformar num obstáculo a que a missão seja cumprida.

Rosana Pinheiro-Machado

O BOLSONARISMO ARREPENDIDO JÁ COMEÇOU NAS CLASSES POPULARES

"A lua de mel não durou 100 dias. Uma recente pesquisa do DataFolha mostrou que, após três meses, Bolsonaro tem a pior avaliação entre presidentes no primeiro mandato, confirmando algo que estava na cara: o fenómeno do bolsonarismo arrependido chegaria muito rápido", escreve Rosana Pinheiro-Machado, professora Titular Visitante da Universidade Federal de Santa Maria - UFSM, em artigo publicado por The Intercept /IHU

Vale retomar o que escrevi em minha coluna de 29 de outubro, logo após a vitória de Bolsonaro: Os eleitores de Bolsonaro foram seduzidos pela mobilização política populista, movidos por onda de contágio que foi espalhando medo e uma esperança de mudança radical. É muita expectativa popular para pouco projeto, pouca equipe e pouca experiência. Isso não pode funcionar. Isso não dará certo.

De novembro de 2016 a novembro de 2018, eu e a antropóloga Lucia Scalco fizemos uma pesquisa etnográfica, baseada em observação participante e grupos focais, sobre eleitores de Bolsonaro entre eleitores de baixa renda na zona leste de Porto Alegre. Nós percebemos que, conforme a eleição se aproximava, a adesão a Bolsonaro se transformava em um movimento emocional. Havia uma esperança crescente dos eleitores, inclusive entre aqueles que outrora desprezavam o candidato.

Até poucos meses antes da eleição, era possível identificar um padrão de eleitores de baixa renda: eram jovens desempregados que se sentiam ameaçados pelo feminismo emergente na escola; ou homens brancos, dos 30 aos 50 anos, com trabalho precário (como motoristas de aplicativos ou vigilantes terceirizados). Nas motivações de voto, o desalento econômico se misturava a uma narrativa que apontava também uma crise na masculinidade. Homens estavam desempregados e/ou com emprego precário, endividados, com pressão alta, sofrendo assaltos e tendo seu papel de provedor ameaçado. Em comum, todos eles tinham um desejo íntimo de portar uma arma para se proteger das muitas ameaças — reais e imaginárias — que desestabilizam a ordem do mundo.

No final do período eleitoral, após a retirada de Lula da corrida e a facada de Bolsonaro, as coisas mudaram na pesquisa. Não havia mais um perfil de eleitores identificável, tampouco uma razão específica para justificar o voto. As pessoas falavam que votariam em Bolsonaro por causa da corrupção, para varrer comunismo, tirar o PT, conseguir emprego, melhorar a economia, ter segurança na escola do filho, matar bandido, mamadeira de piroca, ditadura gayzista, evitar invasão alienígena, resolver a unha encravada. Tudo. Tudo o que chegava pelo WhatsApp.

As pessoas apoiavam Bolsonaro pelos mais variados motivos. Por tudo ou, talvez, por nada: embarcavam em uma onda na qual o então candidato surfou sozinho. Foram muitas as pessoas que nos perguntavam: “ué, mas tem outro candidato?”

Para além dos convictos, talvez a grande maioria de eleitores que encontramos no final do processo era não-convicta. Eles achavam que Bolsonaro não era uma opção ideal, mas que alguma mudança era necessária. O capitão, ao menos, colocaria ordem na casa: “Acho ele muito radical, machista como diz minha filha, mas é um militar, ao menos para colocar ordem nesse país esse homem deve servir, né?”, disse dona Silvinha, 58 anos, vendedora de bolos.

Tendo em vista esses perfis de eleitores, é evidente que a desilusão bateria logo na porta, pois foi uma esperança projetada sobre o nada.

Os estratos esmagados

Como observado pelos professores André Singer e Laura Carvalho, há uma significativa desilusão bolsonarista – representada no declínio de 18% de aprovação entre as últimas duas pesquisas Ibope justamente entre os estratos sociais que ganham de 2 a 5 salários mínimos. Em um artigo irretocável, Carvalho mostra que, de 2014 a 2018, o PT perdeu mais adesão, em contextos urbanos, entre as camadas “atachadas” que se situam entre a base e o topo da distribuição. Estamos, portanto, falando dos setores precarizados que sentiram a crise econômica de forma brutal.

Ainda que eu tenha defendido que o papel da crise econômica precisa ser mais seriamente levado em consideração nas análises das eleições, o único ponto que ainda não estou plenamente convicta em relação ao argumento da professora é sobre o peso da insegurança econômica em relação às pautas morais nas eleições. Ela acredita que o primeiro aspecto foi preponderante no Brasil, diferentemente da eleição de Trump nos Estados Unidos, em que algumas pesquisas já apontaram que o fator “preconceito” foi decisivo – como esta publicada na revista Critical Sociology. Sem dúvidas, o peso econômico foi imenso, um ponto de partida que mostrou luz no fim do túnel para homens desesperados. Mas também entendo que ainda não temos pesquisa suficiente para ter clareza acerca do impacto de diferentes forças.

Por ora, com base nos insights da experiência em campo, tendo a pensar que, no caso das eleições brasileiras, a dicotomia economia/moral tem se demonstrado falsa — na linha argumentativa da cientista política e historiadora Tatiana Vargas Maia em seu artigo no El País. O Brasil tem passado por uma crise multidimensional. Ainda que a penúria econômica tenha dado o primeiro pontapé entre os eleitores que se sentiam desamparados socialmente, o conservadorismo, o fundamentalismo religioso, a crise política, as fake news e o fator de “efervescência social” do final das eleições arrastaram milhões de eleitores na onda de contágio.
Agora, os eleitores começam a pular fora do barco.

Desilusão de baixo para cima

Desde o término da pesquisa, tenho conversado, de forma não sistemática, com alguns antigos interlocutores e com outros trabalhadores precarizados com os quais eu convivo. Essas conversas não sugerem nenhum entusiasmo no ar. Pelo contrário: o clima de esperança parece ter cedido lugar ao desânimo.

O grupo da “masculinidade machucada” pela crise econômica não viu ainda a situação de emprego melhorar e tampouco sentiu os efeitos práticos nem do decreto presidencial de facilitação da posse armas, nem no preço de uma Taurus. Acima de tudo, o trabalhador precarizado quer segurança e renda. E estamos muito longe de ver isso acontecer.

Aqueles que votaram por falta de opção voltaram ao lugar comum “de que político é tudo uma bosta”.

Ainda há aqueles eleitores que, como Dona Silvinha, estão esperando sentados a tal da ordem na casa. Eles encontram mesmo é “um bando de trapalhões” como disse-me Pedro, motorista de aplicativo de Santa Maria, Rio Grande do Sul, que votou em Bolsonaro querendo mudança, mas entende que “estão muito atrapalhados. Palhaçada isso do Carnaval… [referia-se ao tuíte sobre Golden Shower]”. E continuou desabafando: “Minha cunhada trabalha no posto de saúde e disse que o dinheiro acabou, que cortaram tudo. Como vai ser?”

O bolsonarista arrependido não é confesso. Ele tem vergonha e mantém seu orgulho: “Não me arrependo, não é possível um governo estar por 20 anos no poder, não é democrático”, disse-me Luis. Mas ele reconhece o caos do país e já colocou Bolsonaro na vala comum do político ruim.

Um dos erros de avaliação do bolsonarismo é acreditar em tudo que vê na internet, na malha de ódio da extrema direita. Os trolls possuem presença robusta na rede e fazem grande barulho. Quando eles são sujeitos de carne e osso — e não robôs —, representam uma pequena parte do eleitorado, a mais fanática e a mais fiel. Nós encontramos vários desses bolsolovers durante o trabalho de campo, mas posso afirmar que eram um número insignificante perto de todo o resto que aderiu ao projeto por frustração na onda de contágio.

Poucos dias antes da eleição, vi um vendedor ambulante em São Paulo gritando “Bolsonaro!” para os carros que passavam com bandeira do candidato. Era uma cena triste. Ele parecia comemorar a final da Copa do Mundo, soltando o grito engasgado dos 7×1 de toda a tragédia nacional dos últimos cinco anos. Um país quebrado como o Brasil, em meio a um sistema político e econômico que colapsou, fez com que o baixo clero ganhasse a eleição por fatores excepcionais.

O bolsonarismo arrependido já impacta o governo. Rumores em correntes do WhatsApp diziam que os caminhoneiros iriam parar. Quando a pesquisa do DataFolha foi lançada, Bolsonaro reagiu nervoso com dois tuítes seguidos: um mostrava crianças que o abraçavam, como se fosse a prova cabal de que ele era amado pelo povo; o outro tuíte só dizia “kkkkkkk”. Não demorou muito para que o presidente reagisse e interferisse no preço do diesel.

O eleitor não fanático até pode ter achado graça do personagem que “fala o que pensa” e que “é gente como a gente”. Mas num país violento em crise como o Brasil, as trapalhadas do presidente terão cada vez menos apelo se não vierem com mudanças concretas no cotidiano das pessoas. Bolsonaro foi eleito por uma grande parte do eleitorado popular que cultiva no imaginário a ideia do pulso firme. Mas o que esse eleitorado tem visto é despreparo, mandos e desmandos via rede social e guerra de vaidades entre os membros do PSL. Sem um projeto de governo e passando o tempo preocupado com temas distantes do povo — de Cuba a Israel —, a desilusão só tende a piorar.

Isso não é necessariamente uma boa notícia. Há uma tendência muito maior agora à descrença com a democracia representativa e a política institucional. Nossa sorte é que não parece haver um grupo de militares articulados que demonstrem querer mais do que tudo que já têm. Cabe agora a nós, dos setores progressistas, tratar de arrumar a casa e ter a capacidade para dar respostas para Dona Silvinha.

* Os nomes foram trocados para preservar a identidade das fontes.

Roberto Salvio

DESTRUAM GRETA THUNBERG, EM NOME DO CAPITAL

"Após inspirar marchas de jovens contra o desastre climático, em todo o mundo, adolescente sueca é alvo de ataques pesados. Quais são eles. O que revelam sobre a importância de enfrentar o cinismo em nossas sociedades", escreve Roberto Salvio, em artigo publicado por Others News e reproduzido por OutrasPalavras. A tradução é de Rôney Rodrigues /IHU

Em 15 de março, uma poderosa marcha com centenas de milhares de estudantes espalhou-se por 1.000 cidades do mundo, contra as mudanças climáticas. Desde então, insinua-se uma inesperada campanha de deslegitimação, “desmitificação” contra Greta Thunberg, a adolescente sueca que iniciou o movimento. Nos meios de comunicação, nos media sociais e em sites, essa campanha é movida por quatro grupos diferentes.

O primeiro poderia ser chamado de estúpido. Uma escritora aponta fotos de Greta comendo uma banana, afirmando que isso prova um duplo padrão. Quer reduzir as emissões de gases, mas come bananas que vêm de longe. Por que não come uma maçã, que se produz localmente na Suécia? Outro comentarista observa que Greta tem dois lindos cachorros grandes, mas esses cachorros devem estar comendo carne, e as vacas são a maior fonte de emissão de metano (muito mais danoso que o CO²) e uma vaca usa até 15 mil litros de água antes de alcançar a idade do abate. Logo, um terceiro observa que Greta pode não pegar aviões, mas com o uso dos trens está, claramente, utilizando energia elétrica, que em muitos países segue sendo gerada basicamente por carvão. Depois, outra leitora protesta fortemente porque ela comprou um sanduíche no trem, que vem envolto em plástico, e assim está contribuindo para os danos causados pelo plástico aos mares. Estamos claramente no reino da estupidez, porque é impossível que alguém faça algo no mundo sem contribuir para sua degradação. Isso só mudará quando o sistema político corrigir nosso estilo de vida (lembremos que, pelo que parece, isso é improvável!). Se Greta pedisse a seus pais que se livrasse dos dois cachorros, se fosse assegurado que eles não se mudariam de Estocolmo e comeriam só maças locais, isso faria uma contribuição importante para um clima melhor? Ou é mais construtivo fazer campanha e mobilizar centenas de milhares de pessoas?

O segundo grupo pode se chamar de ciumento. São cientistas do clima que escreveram, em todos os lugares, que começaram a lutar contra as mudanças climáticas antes mesmo de Greta nascer (ela agora tem 16 anos). Como é possível que todos tenham sido ignorados e que agora uma menina despreparada seja capaz de mobilizar gente de todo o mundo? Não há uma autocrítica sobre o fato de que não foram capazes de inspirar e se comunicar com os estudantes. Além disso, Greta não faz uma campanha como especialista. Sua mensagem em todas as partes, foi: por favor, escutem os cientistas. Um velho proverbio chinês diz: nunca brigue com teus aliados.

O terceiro grupo são os puristas. Eles têm redistribuído em todo canto relatórios de jornalistas suecos que se aprofundam nos antecedentes de Greta, descobrindo que seus pais são ecologistas ativos, que seu pai sempre a apoiou e que ela foi influenciada por uma famosa ativista que esteve por trás de cada passo seu. Afirmam que para acreditar em Greta seria necessário que seus pais tivessem se mostrado indiferentes às questões climáticas e que ela deveria ter sido totalmente alheia aos círculos ecológicos. Esta campanha continua, ainda que todos os jornalistas suecos tenham unanimemente declarado que Greta não foi um instrumento de ninguém, e que só está cumprindo com o que julga serem seus compromissos. Também ocorre que, graças aos deuses, ela tem uma condição mental chamada Síndrome de Asperger, o que a converte em uma pessoa indiferente a agradecimentos, elogios e compromissos. Assim, na carta ao Le Figaro, um dos puristas pergunta se é lógico colocar centenas de milhares de estudantes em todo o mundo “sob o comando de um zumbi”. Essa categoria também inclui muitos que se queixam de Greta não denunciar o fato de que a Suécia ganha dinheiro com a venda de armas. Greta não denunciou a ninguém, então os governantes estão felizes. Greta não iniciou nenhuma campanha contra as finanças, porque não entende que só submetendo as finanças se pode mudar o clima. E assim sucessivamente, de acordo com as lentes através das quais seus críticos a olham.

E, é claro, está o grupo mais legítimo, o dos paternalistas. Trata-se de um grupo fisiológico que inclui aqueles que pensam que os jovens não têm nenhuma ideia da vida real, e que nada sério sairá do movimento dos estudantes, a menos que escutem aos mais velhos. Seu lugar é na escola, não na rua, eles não têm maturidade para entender assuntos que exigem uma preparação cientifica. Um exemplo é a carta publicada no Corriere della Sera, em que alguém observa que os jovens já quase não leem livros, usam smartphones todo o dia e ignoram música clássica ou teatro: carecem de uma seriedade necessária para um mudança real. Um exemplo extremo de como o paternalismo é gémeo do patriarcalismo foi um comentário feito por um adulto bem vestido em um grupo que observava os estudantes marchando pela mudança climática: “Me pergunto quantas dessas meninas ainda são virgem”. Quando foi indagado sobre a relação entre virgindade e mudança climática, sua resposta foi: “Bom, até que uma menina seja virgem, pode ter ilusões, mas depois não”.

Essas diversas reações contra uma jovem que simplesmente pede para crescer em um mundo sustentável são, claramente, representativas do quanto mudou a sociedade na última década. Percorremos um longo caminho. O período posterior à Segunda Guerra Mundial caracterizou-se pela necessidade de reconstruir, de fazer sacrifícios, de fazer da Europa uma ilha de paz, de acreditar que a política era uma ferramenta participativa para mudar a sociedade para melhor. A certeza dos jovens de que seriam melhores que seus pais era a crença de todos. Os comícios políticos viram milhões de pessoas nas ruas, com esperanças e compromissos.

Todos sabemos como foi derrubado esse mundo de idealismo. Com a destruição do Muro de Berlim, as ideologias foram as primeiras a desaparecer. A palavra-chave era pragmatismo. Mas era um pragmatismo prisioneiro da filosofia neoliberal, que era intocável. Como disse Margaret Thatcher, não existe alternativa (TINA). Os gastos sociais eram vistos como improdutivos e as finanças ganharam vida própria, sem estarem vinculadas à palavra produção. O Estado foi reduzido ao mínimo. Deveríamos recordar que Ronald Reagan propôs a abolição do ministério da Educação e a privatização total da saúde. As Nações Unidas foram consideradas obsoletas: comércio, não ajuda. Durante três décadas, desde Reagan (1981) até a grande crise financeira de 2008, o lema foi: competir, ficar rico, no plano nacional ou individual.

A política converte-se em uma mera atividade administrativa, desprovida de visão a longo prazo. O declínio da internet mudou a sociedade, de uma rede interativa e conectado de relações baseadas em plataformas para compartilhar para uma rede de mundo virtuais paralelos, onde se busca refugio e se foge da ação pública. Os meios de comunicação, seguidos de uma degradação da complexidade da informação, estão concentrando-se em eventos e ignorando os processos. A televisão passou basicamente para o campo do entretenimento com programas que moldam a cultura popular, como o Big Brother e a Ilha dos Famosos.

A ganância era considerada boa para a sociedade e Hollywood a elogiava. Todos vivíamos em uma bolha financeira que estourou em 2008. Estava claro, então, que a política já não controlava as finanças, mas o contrário. Segundo a Bloomberg, para salvar o sistema bancário os Estados Unidos tiveram que gastar 12,8 trilhões de dólares, a Europa cinco trilhões de dólares. A China gastou 156 bilhões milhões e o Japão mais de 110 bilhões. Ninguém sabe com segurança quanto custou ao mundo salvar seu sistema bancário, que estava (e está) sem nenhum controle nem organismo regulador. Se o valor pago para resgatar os bancos tivesse sido distribuído para as 7,5 bilhões de pessoas no mundo, cada uma deles teria recebido 2.571 dólares. O suficiente para iniciar um frenesi de aquisições, especialmente no sul do mundo, com um enorme salto na produção. Teria resolvido praticamente todos os problemas sociais do mundo, apontados como Objetivos do Milênio pelas Nações Unidas em um acordo assinado por todos os países.

Mas até então, os bancos eram mais importantes que as pessoas… e por suas atividades ilícitas, os ingratos bancos pagaram multas de mais de 800 bilhões de dólares desde seu resgate. Recordemos que a ganância já estava sendo elogiada em Hollywood em 1987 por Gordon Gekko no famoso filme Wall Street. Gekko diz: “A ganância, na falta de uma palavra melhor, é boa”. Não é coincidência que, durante a crise financeira de 2008, o primeiro ministro australiano, Kevin Rudd, tenha dito: “Talvez seja hora de admitir que não aprendemos que toda a lição da ideologia da ganância é boa”. E, no ano seguinte, em um discurso diante do Senado italiano, o cardeal Tarcisio Bertone afirmou: “Passamos do livre mercado para a ganância livre”. E muitas manifestações da sociedade civil mundial, como o Fórum Social Mundial, denunciaram a submissão da política à financeirização.

Mas depois dos trinta anos de elogio à ganância, veio a grande crise financeira de 2008, devido à irresponsabilidade do sistema financeiro. Essa crise trouxe um impacto social negativo adicional que foi o medo: medo do desemprego, o medo do futuro, o medo do terrorismo. Ficou claro que o elevador social que funcionava desde o final da Segunda Guerra Mundial havia parado, com milhões de jovens de todo o mundo presos. O próprio sonho americano estava em crise. E chegou uma nova década, uma de medo.

Como é habitual nos casos de medo, surge uma nova narrativa. O neoliberalismo, TINA, perdeu credibilidade. Todos os partidos políticos traíram as esperanças de seu eleitorado. As pessoas foram deixadas de fora pelas elites, por todos do sistema. Assim, desde 2008, os partidos populistas nacionalistas floresceram em toda a Europa, onde antes da crise eram praticamente inexistentes (exceto Le Pen na França). Seguem florescendo. Nas últimas eleições holandesas, um novo partido populista, o Fórum Pela Democracia, obteve 16 cadeiras no Senado. Seu líder, Thierry Baudet, descartou a “invenção assombrada” da mudança climática — para ele, a idolatria do doutrinamento sustentável da esquerda. Esta é uma posição comum a todos os partidos populistas. Seu sucesso foi dirigir o medo contra o diferente: o diferente religioso, os diferentes costumes, as diferentes culturas… em outras palavras, os imigrantes. A xenofobia se uniu ao nacionalismo e ao populismo.

A cada ano tem havido uma diminuição na renda real, de postos de trabalhos dignos. Os partidos políticos tradicionais perderam a credibilidade e os eleitores optaram por novos políticos, que não formam parte da elite, que não falam em nome do povo e consideram o “glorioso passado” como base do futuro, ignorando qualquer desenvolvimento tecnológico. A divisão social, tomada como base para uma nova cultura política, entrou em plena velocidade destrutiva: em apenas 10 anos, 28 pessoas concentraram em suas mãos a mesma riqueza que 2,3 bilhões de pessoas. Isto é dinheiro que é tirado da economia geral; significa que para cada milionário existem milhares de pessoas empobrecidas. Só no último ano, os 42,2 milhões de pessoas no mundo com mais de um milhão de dólares em ativos financeiros cresceram em 2,3 milhões. É por isso que o Papa Francisco diz que atrás de cada propriedade há uma hipoteca social.

Foi necessário um longo caminho para abandonar o mundo que saiu da Segunda Guerra Mundial e chegar ao atual: um mundo em que os fenómenos anormais, como a guerra e a pobreza, são agora considerados normais para a maioria dos jovens. A corrupção, que, claro, sempre existiu, converteu-se em outro fato natural. A democracia, que se considerava o fundamento central da sociedade, é vista agora como uma possibilidade discutível, como Viktor Orban, Matteo Salvini e a empresa que promove a democracia de baixíssima intensidade.

O medo e a cobiça mudaram nossa sociedade. Estamos no meio de uma transição, e ninguém sabe para onde. O que está claro é que o sistema atual já não funciona e requer correções muito sérias. A maré do nacionalismo, o populismo e a xenofobia estão nos levando de volta às misérias que havíamos esquecido, ao invés de nos levar adiante. As campanhas eleitorais não se baseiam em programas, mas em desacreditar os opositores. Quando o primeiro ministro canadense Justin Trudeau não concordou com Trump, o secretário de Comércio desse último disse que deve haver um lugar especial no inferno para o primeiro ministro canadense. Os debates televisivos se converteram em uma escola de incivilidade. A pergunta é: estamos entrando em uma nova era baseada na incivilidade? Pela primeira vez na história do parlamento britânico, os diferentes opositores são incapazes de encontrar uma saída a um referendo baseado em mentiras.

Vivemos em um mundo onde as coisas positivas são poucas e estão distantes. Um clima político, cultural e social onde nada é aceito como legítimo, ocultando a verdade e manipulado pelo inimigo. Uma era de transição, que deveria chamar-se “a era do mau pensamento”.

A reação contra Greta Thunberg e sua mobilização é um bom exemplo de “mau pensamento”. Ao invés de despertar simpatia e apoio, essa jovem está sendo submetida a esta nova cultura do “mau pensamento”. E, no entanto, ela está fazendo uma campanha pela sobrevivência do planeta, o único que temos, e onde todos devemos viver juntos, independentemente de nossos mitos, religiões, partidos e nacionalidades. Ela diz: não peça que minha geração resolva o problema da mudança climática, porque quando crescermos já será tarde demais. Quando eu fizer 50 anos, haverá 10 bilhões de pessoas, quase todas morando nas cidades. Mas só em dez anos, quando fizer 26 anos, a humanidade necessitará 50% mais de energia e alimentos e 30% mais de água, um elemento que já é escasso em grande parte do mundo e que é uma fonte de renda para as empresas privadas. Não é de se admirar que ela esteja tentando motivar para a ação!

Salvar o mundo agora é uma mensagem que foi capaz de mobilizar estudantes de todo o mundo. Na era do “mau pensamento”, ao invés de apoiá-la, há quem olhe o que ela come, o que comem seus cachorros, e o que há atrás dela, porque supostamente a manipulam. Em outras palavras, estamos numa era em que não somos capazes de pensar positivamente. É mais do que certo que, se Greta tivesse vendido roupas desportivas, teria sido aceite como um fenómeno normal, e ninguém notaria se ela estivesse comendo bananas ou maçãs. Este é um bom indicador de como perdemos a capacidade de sonhar e seguir em frente.

Edição 146, Março 2019

Exclusivo America /IHU

POR DENTRO DA ELEIÇÃO DO PAPA FRANCISCO

Os seguintes trechos foram extraídos do livro "The Election of Pope Francis: An Inside Account of the Conclave That Changed History" [A eleição do Papa Francisco: um relato interno do conclave que mudou a história] (Ed. Orbis Books, 2019), de Gerard O’Connell, correspondente vaticano da revista America. Acompanhamos aqui a história de O’Connell sobre o dia 13 de março, após a renúncia do Papa Bento XVI em 28 de fevereiro de 2013, e a convocação de um conclave para eleger seu sucessor. Os 115 cardeais elegíveis para votar em um conclave papal se reuniram em Roma e foram trancados sob forte segurança na Capela Sistina, no Vaticano, onde realizariam as votações secretas em intervalos regulares até que um novo papa fosse eleito com dois terços dos votos. O relato foi publicado em America. A tradução é de Moisés Sbardelotto /IHU

O que ocorreu, em seguida, dentro da Capela Sistina ficou escondido do mundo exterior. O cardeal Giovanni Battista Re explicou, em primeiro lugar, o processo de votação e, então, perguntou aos cardeais se estavam prontos para votar. Eles estavam! Todos estavam ansiosos para fazê-lo, pois isso revelaria para onde o Espírito Santo os estava guiando. A primeira fase do processo começou com a distribuição das cédulas de voto aos eleitores. Antes do início da votação, e de acordo com a constituição apostólica Universi Dominici Gregis, o cardeal eleitor mais jovem extraiu, então, aleatoriamente, os nomes de três “escrutinadores”, três “infirmarii” e três “revisores” para supervisionar a primeira sessão de votação.

A segunda fase foi a votação secreta. Cada cardeal tinha em sua frente um formulário de votação, de formato retangular, no qual estavam impressas em latim as palavras “Eligo in Summum Pontificem” (“Eu elejo como Sumo Pontífice”), e em baixo havia um espaço para o nome da pessoa a quem ele gostaria de dar o seu voto. Esperava-se que os eleitores escrevessem de tal modo que não pudessem ser facilmente reconhecidos pela sua caligrafia. Assim que o cardeal completasse seu formulário de votação, ele devia dobrá-lo longitudinalmente, de modo que o nome da pessoa em quem ele votou não pudesse ser visto.

Assim que todos os eleitores tinham escrito o nome do seu candidato escolhido e dobrado as cédulas de votação, cada cardeal, então, levava sua cédula entre o polegar e o indicador e, segurando a cédula no alto para que pudesse ser vista, levava-a até o altar, no qual estavam os escrutinadores e onde havia uma urna, feita de prata e bronze dourado pelo escultor italiano Cecco Bonanotte, com uma imagem do Bom Pastor gravada nela. A urna estava coberta por um prato dourado para receber as cédulas de votação.

Ao chegar ao altar, o cardeal eleitor ficava sob a impressionante pintura do “Juízo Final” de Michelangelo e pronunciava o seguinte juramento com uma voz clara e audível: “Eu chamo como minha testemunha a Cristo, o Senhor, que um dia será meu Juiz, de que meu voto é dado àquele que, diante de Deus, acredito que deve ser eleito”. Ele então colocava sua cédula no prato e inclinava o prato de tal modo que a cédula caísse na urna. Por fim, inclinava-se reverentemente diante da cruz e voltava para o seu lugar, e o próximo eleitor, então, dirigia-se ao altar.

Depois que todos os 115 eleitores haviam votado, os três escrutinadores começavam a contá-los. Era um momento de alta tensão. Todos assistiam ao ritual com muita atenção. O primeiro escrutinador sacudia as cédulas da urna, que haviam sido usadas pela primeira vez no último conclave, para misturá-las. Então, outro escrutinador começava a contá-las, pegando cada formulário de votação separadamente da primeira urna e transferindo-a para uma segunda urna, exatamente como a primeira, que estava vazia. A Constituição decreta que, se o número de cédulas não corresponder exatamente ao número de eleitores presentes, então essa rodada de votação é declarada nula e sem efeito.

Quando o número de cédulas corresponde exatamente ao número de eleitores, o processo continua com a abertura das cédulas. Os três escrutinadores sentam-se à mesa em frente ao altar. O primeiro abre a cédula, lê o nome silenciosamente e passa para o segundo escrutinador. O segundo faz o mesmo e depois passa para o terceiro, que lê o nome escrito na folha e, em seguida, em voz alta, anuncia-o a toda a assembleia e, depois, regista-o em um papel preparado para esse fim.

As janelas da Capela Sistina tinham sido tapadas. Mas isso foi considerado totalmente inadequado, dado o estado avançado das modernas tecnologias de comunicação e o risco de interceptação eletrônica, de modo que, assim como em 2005, os organizadores do conclave tomaram medidas de alta segurança para evitar a possibilidade de transmissão por smartphone a partir de dentro e de interceptação eletrónica a partir de fora por parte de agências ou indivíduos. Eles instalaram sistemas de interferência de última geração, incluindo uma gaiola de Faraday. O chão da capela havia sido elevado em cerca de um metro e coberto com tábuas de madeira para a instalação do sistema.

Desta vez, no entanto, os organizadores foram ainda mais longe do que no último conclave para evitar a possibilidade de intercetação; eles tomaram a extraordinária decisão de não usar o sistema de amplificação de som dentro da Capela Sistina. A razão para isso parece remontar ao conclave de 2005, quando o guarda suíço de pé do lado de fora da capela às vezes ouvia o que estava sendo dito dentro, especialmente quando as contagens dos votos eram anunciadas pelo sistema de som.

Consequentemente, antes da primeira votação, o cardeal Re pediu que o cardeal Juan Sandoval Íñiguez, o arcebispo emérito de Guadalajara, de 79 anos, que era conhecido por ter uma voz poderosa, ficasse em pé no meio da capela e proclamasse em voz alta os nomes lidos pelo terceiro escrutinador.

Enquanto o terceiro escrutinador lia um nome em uma cédula de votação, o cardeal Sandoval repetia-o para que todos pudessem ouvir. Havia um clima de grande suspense dentro da Capela Sistina quando os resultados eram anunciados. Pela primeira vez, os eleitores revelavam suas escolhas; eles estavam pondo suas cartas sobre a mesa.

Depois de ler o nome em cada cédula individual, o terceiro escrutinador perfurava a folha no meio da palavra “Eligo” com uma agulha e linha; isso era feito para juntar e preservar as cédulas. Quando os nomes em todas as cédulas haviam sido lidos, um nó era feito em cada extremidade do fio, e as cédulas unidas eram postas de lado.

Isso foi seguido até a terceira e última fase do processo de votação, que começou com a soma dos votos recebidos por cada indivíduo. Os resultados trouxeram várias grandes surpresas.

Antes do conclave, vários cardeais previram que haveria uma ampla dispersão na primeira votação, mas poucos haviam imaginado o quão ampla era seria: 23 prelados receberam pelo menos um voto na primeira votação; isso significava que um em cada cinco cardeais presentes havia recebido pelo menos um voto, sendo que quatro cardeais haviam recebido 10 ou mais votos. Os cinco primeiros colocados na primeira rodada foram os seguintes:

Scola: 30

Bergoglio: 26

Ouellet: 22

O’Malley: 10

Scherer: 4

Angelo Scola chegou em primeiro com 30 votos, mas não recebeu tantos votos quanto o previsto por alguns cardeais e pelos media italianos.

A grande surpresa foi Jorge Bergoglio, que ficou em segundo lugar, logo atrás de Scola, com 26 votos. Seu total, de fato, teria sido 27, se um eleitor não tivesse escrito errado o seu nome, escrevendo “Broglio”, em vez de Bergoglio, na folha de votação. Foi um começo muito promissor para o arcebispo de Buenos Aires.

Marc Ouellet também marcou bem, melhor do que o esperado, e chegou em terceiro lugar, obtendo 22 votos. Ele parecia um forte candidato.

Seán O’Malley também foi uma surpresa; com 10 votos, ele se tornou o primeiro estadunidense da história a pontuar tão alto em qualquer eleição papal.

Por outro lado, Odilo Pedro Scherer, o brasileiro muito indicado, teve uma pontuação surpreendentemente baixa; ele recebeu meros quatro votos.

Além desses primeiros colocados, cinco cardeais receberam dois votos cada na primeira votação: Christoph Schönborn, Peter Turkson, George Pell, Laurent Monswengo Pasinya e Timothy Dolan.

Outros 13 cardeais receberam um voto cada: Audris Backis, Óscar Rodríguez Maradiaga, Ernesto Antonelli, Carlo Caffarra, André Vingt-Trois, Oswald Gracias, Thomas Collins, Luis Antonio Tagle, Leonardo Sandri, Robert Sarah, Mauro Piacenza, Gianfranco Ravasi e “Broglio” (que parecia um óbvio erro de ortografia de Bergoglio).

O processo de votação terminava com a queima das cédulas. Depois de uma checagem final das folhas do relatório nas quais os escrutinadores haviam registrado os votos, as cédulas e os relatórios eram levados para um dos dois fornos especialmente instalados no lado esquerdo da parte de trás da Capela Sistina, olhando para o altar.

Os dois fornos se unem em uma chaminé que está conectada à chaminé erguida do lado de fora da capela, uma chaminé que agora era o centro das atenções da mídia mundial. A origem do forno remonta ao século XVIII, quando o mestre de cerimônias teve a brilhante ideia de comunicar ao mundo se um novo papa havia sido eleito ou não, jogando fumaça branca ou preta pela chaminé da capela, enquanto as cédulas e os relatórios eram queimados.

Seguindo as normas para o processo eleitoral, as cédulas da primeira votação desse conclave foram queimadas no forno mais antigo, que tem sido usado em todos os conclaves desde 1939. Isso foi feito por um dos escrutinadores, com a assistência do secretário do conclave, o arcebispo Lorenzo Baldisseri, que havia sido readmitido depois que os votos foram contados. Quando começaram a queima, eles ativaram um dispositivo eletrônico de produção de fumaça no forno mais novo, usado pela primeira vez no conclave de 2005, que continha um cartucho contendo cinco tipos de misturas químicas que podem produzir fumaça preta ou branca, conforme necessário. De acordo com o livro de regras, a operação de queima e de sinal de fumaça tinha que ser completada antes de os cardeais deixarem a Capela Sistina.

Como nenhum candidato obtivera a maioria de dois terços na primeira votação, as cédulas de votação foram queimadas, o dispositivo eletrônico de produção de fumaça foi ativado e, às 19h41 (hora de Roma), a fumaça preta subiu pela fina chaminé cor de ferrugem da Capela Sistina, anunciando ao mundo que nenhum papa havia sido eleito.

A visão da fumaça negra provocou um audível “Nooooo” entre os milhares de fiéis e turistas amontoados no frio debaixo de guarda-chuvas multicoloridos na Praça de São Pedro e usando capas de chuva, ponchos de plástico ou outros equipamentos impermeáveis para se proteger da chuva incessante. Eles ficaram ali, constantemente movendo o olhar entre a pequena chaminé e os telões na Praça de São Pedro, que mostravam ao vivo a chaminé iluminada por um refletor, enquanto as unidades de televisão e as redes de rádio de muitos países que estavam localizados fora da praça anunciavam a notícia para uma audiência global...

Para um forasteiro, aquela primeira votação dispersa poderia dar a impressão de uma grande incerteza, mas os eleitores viam-na de um modo muito diferente. O cardeal Oswald Gracias, por exemplo, me disse que ele a leu assim: “O Espírito Santo já estava nos indicando, o Espírito Santo estava nos conduzindo em uma direção particular. Deus estava lá diretamente”. Vários outros cardeais me disseram que haviam interpretado a primeira votação de maneira semelhante a Gracias.

A votação revelou várias coisas. Mostrou que Scola era o único candidato europeu forte na linha de sucessão a Bento XVI, e, embora esse pastor e eminente teólogo tivesse apoio, ele estava na extremidade inferior daquilo que se esperava na véspera do conclave, quando os cardeais e grande parte da imprensa italiana previram que ele estaria na frente com cerca de 40 votos. Naturalmente, isso foi uma decepção para seus apoiadores.

Mais importante, a votação confirmou o que muitos já sabiam ou suspeitavam: os 28 eleitores italianos estavam profundamente divididos em relação a Scola. De facto, como mostrou a história dos dois últimos conclaves (outubro de 1978 e abril de 2005), quando os italianos estão divididos, um italiano não será eleito. A história estava prestes a se repetir? Aquela primeira votação parecia indicar a muitos eleitores que o próximo papa não seria europeu; ele viria das Américas. Ela também deixava pouca dúvida de que Scherer estava fora da disputa; ele era visto como o candidato do status quo em um conclave que buscava mudanças radicais. Além de Scola, o resultado deixava outros três candidatos na disputa: Bergoglio, Ouellet e O’Malley, nessa ordem.

O arcebispo de Boston tinha muito a seu favor: ele é um pastor bem quisto, com um estilo de vida simples; fala espanhol fluentemente e tem um excelente histórico no enfrentamento de casos de abuso sexual de menores por parte do clero. No entanto, embora antes do conclave muitos cardeais afirmassem publicamente que a nacionalidade não era um problema, a verdade é que poucos queriam um papa da principal superpotência do mundo. Eleger um estadunidense, mesmo que fosse um frade franciscano, não teria caído bem no hemisfério Sul ou nas Igrejas do mundo em desenvolvimento. O’Malley, amigo e admirador de Bergoglio, compartilhava essa visão.

O cardeal Ouellet marcou muito melhor do que o esperado na primeira votação e estava em uma posição forte. Enquanto os cardeais discutiam sua candidatura em pequenos grupos e em conversas individuais na noite de terça-feira, 12 de março, eles reconheceram vários fatores positivos em favor desse canadense poliglota. Ele tinha experiência pastoral como padre na Colômbia e como bispo em Quebec. Também era importante o fato de que ele conhecia o Vaticano por dentro, tendo trabalhado primeiro no Pontifício Conselho para a Promoção da Unidade dos Cristãos e, desde 2010, na poderosa Congregação para os Bispos. Apesar desse lado muito positivo, vários cardeais disseram que o achavam “pouco inspirado” e “comum” e sentiam que seu histórico na Cúria Romana dava origem a sérias questões sobre sua capacidade de governar sob pressão. Essas questões, agora transformadas em sérias reservas, vieram à tona em conversas naquela primeira noite na Casa Santa Marta e levaram muitos eleitores indecisos a concluírem que, se ele não podia governar bem na Cúria Romana, ele poderia não ser capaz de governar da Igreja Católica.

Ao mesmo tempo, porém, Ouellet tinha alguns apoiadores altamente influentes além dos norte-americanos. Entre eles, estava o cardeal Joachim Meissner, arcebispo de Colônia, Alemanha, desde 1989 e durante nove anos antes arcebispo de Berlim. Amplamente considerado como o principal “conservador” na Igreja alemã, ele era conhecido por ser muito próximo de João Paulo II e um amigo de longa data de Joseph Ratzinger. Ele queria garantir que o próximo papa seguiria fielmente a linha e a visão de seus dois antecessores. E, assim, naquela noite de terça-feira em Santa Marta, ele foi visto do lado de fora do seu quarto pedindo aos seus colegas eleitores: “Votem em Ouellet! Bergoglio é muito velho!”.

Quanto a Bergoglio, a primeira votação revelou que ele era de facto um candidato forte, mais forte do que muitos imaginavam. Havia muitos fatores a favor de Bergoglio. Ele era conhecido por ser um homem muito santo, um pastor humilde, inteligente e inspirador, desprovido de ambição, que evitava os holofotes, vivia uma vida simples e tinha um amor apaixonado pelos pobres. Ele nunca tinha vivido ou estudado em Roma e não tinha uma aparência romana. Ele governara a Arquidiocese de Buenos Aires durante 15 anos de um modo verdadeiramente pastoral, com determinação, prudência e criatividade; tinha talento para o governo. Desde o Sínodo de 2001, sua estatura crescera internacionalmente e, na reunião do Celam em Aparecida, Brasil, em maio de 2007, ele veio à tona como líder indiscutível da Igreja dessa região, onde vivem quase 50% dos católicos do mundo. Acima de tudo, ele era um homem de coragem com uma visão missionária, capaz de abrir novos horizontes para a Igreja, um homem comprometido com o diálogo – com os judeus, com os muçulmanos, com outros cristãos e com aqueles que não professavam a fé. Acima de tudo, ele era um pastor. Sua curta intervenção na Congregação Geral, assim como sua interação com muitos cardeais durante esses dias, revelaram isso claramente.

À medida que os eleitores indecisos pensavam sobre em quem votar na manhã seguinte, três fatores inclinavam-se fortemente em favor de Bergoglio: primeiro, a grande maioria dos cardeais latino-americanos o apoiava, sem que nenhum deles falasse mal dele; segundo, ele havia revelado sua capacidade de se comunicar e inspirar quando proferiu sua breve mas refrescante intervenção na Congregação Geral; e, terceiro, ele tinha o apoio de asiáticos e africanos, assim como de europeus. Além disso, 68 eleitores que participaram do conclave de 2005 o conheciam como segundo colocado, e vários outros – como Maradiaga, Monswengo, Walter Kasper, Jean-Louis Tauran, Turkson, Gracias e outros – também não disfarçavam seu apoio ativo a ele.

Os indecisos tinham essa noite para se decidirem; na manhã de amanhã, eles teriam que votar novamente...

Ladislau Dowbor

COMO EU ME INFORMO

A formação da opinião pública se transformou numa grande indústria. Em “Chomsky & Cia”, documentário de Daniel Mermet e Olivier Azam, temos uma excelente sistematização de Noam Chomsky. Enfrentamos o oligopólio mundial do império de Murdoch, aqui a nossa Globo, até a surrealista TV Record, e evidentemente a indústria dos fake news, que hoje conta com a possibilidade técnica de se falsificar vídeos e falas, e de atingir, por meio de algoritmos, qualquer pessoa em qualquer parte, a começar pelo celular que temos no bolso. Tudo isso gerou um outro universo de informação. E não podemos esquecer a rede mundial de think tanks, com financiamentos nababescos, que geram a matéria prima da desinformação, da falsificação da história, e das campanhas mundiais sobre como devemos pensar. Hoje, temos de enfrentar uma impressionante indústria com capacidade de nos fazer pensar qualquer bobagem, e nos fazer acreditar que pessoas com “bom senso” pensam como nós. O documentário Driblando a Democracia, inclusive, escancara como o próprio sistema político foi apropriado. O texto é de Ladislau Dowbor, economista, doutor em Ciências Económicas pela Escola Central de Planejamento e Estatística de Varsóvia, professor da PUC-SP e da Umesp, publicado em seu Blog.

É legítimo não aceitarmos que tantas pessoas sejam transformadas em zumbis, repetindo o que aparece nesses diversos instrumentos de manipulação. O que me interessa aqui é dar, através do testemunho de como eu organizo a minha informação, indicações de excelentes fontes de análises, internacionais e nacionais, que apresentam não só boa informação, mas informação com facilidade de verificação. Ou seja, podemos, de forma rápida, gratuita e bem organizada, saber o que realmente está acontecendo pelo mundo e em particular no nosso quintal. Isso envolve repensar as nossas fontes, mas também as formas de organização e de interação. O mundo do conhecimento mudou.

Eu, por desgraça e provavelmente por idade, acordo às 6:20h da manhã. No silêncio e tranquilidade da hora, e na ausência de perturbações comerciais, clico no “G” que está no meio do meu celular ou do tablet, e vejo o que acontece no mundo por meio do The Guardian. Trata-se seguramente hoje da melhor fonte de informação internacional, inclusive com excelentes artigos sobre o Brasil. Informação muito confiável, com bom sistema de correção de erros, porque herdou uma cultura de decência e de diversidade. Não estão vendendo nada a ninguém. Eles dependem apenas, como a Wikipédia, das contribuições dos seus leitores. E se você não lê inglês, ao abrir o Guardian, aparece a opção de ler a tradução em português, e hoje, com análise semântica incorporada, as traduções já fazem sentido.

Ver o que acontece no resto do mundo ajuda imensamente, porque não somos tão particularmente originais, tranquilizem-se, o caos está se instalando no planeta de maneira bastante repartida. Mas, a particularidade de ler um jornal online é que se você se interessou por um artigo e o abriu, e quer aprofundar o tema, o software abre automaticamente chamadas para vários artigos anteriores sobre o mesmo assunto. Ou seja, é você que aprofunda a análise do tema, podendo inclusive resgatar a história de um fenômeno particular. As fontes de cada informação aparecem marcadas, é só clicar para ter a pesquisa ou livro de onde a informação foi tirada. O artigo sobre o futuro do emprego, por exemplo, apresenta as principais tendências, mas apresenta também o link para o estudo completo da Organização Internacional do Trabalho. Na leitura online assim organizada, você resgata a compreensão da dinâmica e pode checar as fontes, em vez de apenas de se indignar ou se alegrar com a “última notícia”. Não é só a origem da carne do supermercado que pode ser rastreada.

Ao sentar para trabalhar, posso varrer informações mais significativas simplesmente porque solicitei que me mandem como mailing: fontes como Carta Maior, IHU, GGN, Outras Palavras, Brasil 247, The Intercept, Agência Pública, Fundação Perseu Abramo, Diálogos do Sul e outras nos apresentam informações, análises, ou estudos aprofundados sobre os mais diversos temas, de forma extremamente fácil de acessar.

Acho El País também muito útil, em português. Todas são gratuitas. Le Monde Diplomatique Brasil, mensal, pode ser assinado para ter a íntegra da edição que está nas bancas, mas o conjunto do acervo, anos de análises aprofundadas sobre grandes tendências de mudança no Brasil e no mundo, constituem inclusive material de grande valor, por exemplo, para que professores recomendem pesquisas aos seus alunos. Os alunos adoram fontes gratuitas e disponíveis online.

Como as informações estão disponíveis na internet, não precisamos mais de gigantes comandando redes de repórteres que “formatam” o que devemos pensar. Grupos menores, com pessoas de elevado nível de conhecimento específico, passam a filtrar e a disponibilizar informação de maneira organizada. Eu recomendo que vocês se inscrevam para receber o material desses veículos. É uma garantia em termos de qualidade da informação.

Além do jornalismo, muitos trazem excelente conteúdo analítico. Eu, como economista, publico análises econômicas; médicos escrevem sobre problemas de saúde e assim por diante: não é um repórter que conversou com um médico, e sim o médico que escreve e assina. Com isso, a deformação gerada por intermediários se reduz drasticamente. Por que será que aparecem tão pouco na mídia comercial os escândalos da indústria farmacêutica ou os da agiotagem dos bancos? A resposta é simples: neste tipo de mídia, o objetivo é comercial. Quem paga a publicidade é poupado, inclusive, no plano político.

O que nos leva à questão de como sobrevive esta nova mídia. O Guardian ou o International Consortium of Investigative Journalists (ICIJ) no plano internacional, e os diversos grupos menores nacionais, aqui mencionados, dependem essencialmente das contribuições de seus próprios leitores. Eu reservo uma pequena verba mensal, espécie de imposto direto e direcionado, contribuindo ora para um, ora para outro, e considero que é dinheiro muito bem investido: pequenas contribuições de muitas pessoas resolvem o problema, tanto porque os custos dessa mídia são muito pequenos, como porque todas trabalham com open access, acesso aberto, permitindo que as mais diversas matérias sejam repassadas e republicadas em várias mídias.

Eu, por exemplo, como acadêmico e pesquisador, organizo o material científico e o disponibilizo online, gratuitamente, no blog. Muitos grupos de mídia não comercial “pescam” o material que publico no blog, fazendo com que este conhecimento circule entre seus diversos públicos. O universo assim gerado, na linha do Creative Commons, bens comuns criativos, está explodindo no planeta. Entre produtores e reprodutores, vivemos com pouco dinheiro e muita cultura e informação.

Com a quantidade de informações que recebemos, gerou-se uma tensão entre tanta coisa interessante e de qualidade e a nossa escassa capacidade de aproveitamento. Saber navegar se tornou essencial. É muito mais importante do que simplesmente encher a cabeça de informação. Eu tenho uma forma simples de “recepção” organizada do que leio. Ou seja, nesta era de imensa quantidade de informação disponível, além de aprender a selecionar o que se lê, temos de aprender a tornar essa informação disponível para nós mesmos. O ponto de partida é que as novas mídias nos permitem não só ler o que aparece a cada dia, semana ou mês, como também fazer pesquisa organizada, com palavras-chave, nome do autor, instituição de pesquisa ou o que seja.

Eu também preciso ter facilmente acessível o conteúdo que já li e me interessa. Para isso, dentro do meu computador, eu mantenho uma pasta que chamo “Artigos Recebidos”, onde salvo os artigos mais importantes, e que deverei provavelmente utilizar. Cada artigo é gravado com ano e nome: antes de tudo, eu identifico o ano, permitindo que o computador agrupe os textos pelo ano (2019, 2018, 2017 etc.), depois uso uma palavra chave do tema (desemprego, juros etc.) e outra da fonte que o publicou, por exemplo, “19 desemprego Brasil Guardian”. Com isso, os artigos mais antigos se agrupam por ano e vão “desaparecendo” no fundo da pasta, mas se precisar, tenho como encontrá-los facilmente. Dessa forma, eu que leio muito e trabalho com inúmeras fontes, posso agrupar leituras pelo tema, revê-las e usá-las para o que for necessário.

Tenho também um outro arquivo no computador, uma pasta chamada “Citações”, onde coloco, num simples arquivo Word, e na mesma página, qualquer tabela ou informação/citação que me pareçam excepcionalmente úteis, uma declaração ou conclusão importante de uma personalidade ou de uma instituição e assim por diante. De certa forma, esse arquivo é uma caixa de ferramentas que tenho. Por exemplo, achei muito bom o trecho de um artigo no New York Times, sobre os bilionários, que ficou assim no meu arquivo:

NYTimes – Billionaires? – Abolish Billionaires – Farhad Manjoo – NYT 6feb. 2019: “A billion dollars is wildly more than anyone needs, even accounting for life’s most excessive lavishes. It’s far more than anyone might reasonably claim to deserve, however much he believes he has contributed to society. At some level of extreme wealth, money inevitably corrupts. On the left and the right, it buys political power, it silences dissent, it serves primarily to perpetuate ever-greater wealth, often unrelated to any reciprocal social good.”

Trechos assim se enfileiram, os mais recentes no alto da página (alimento por cima), o que me gera uma excelente fonte de citações, além de me permitir, pelo link, rever o artigo completo na fonte se for necessário.

E tenho, evidentemente, o meu blog, o dowbor.org, que constitui a minha biblioteca pessoal online, com milhares de itens, artigos, livros, resenhas, documentários, receitas de pão ou o que for que faça parte do meu universo de interesses. Hoje, após 20 anos, tenho uma memória organizada. Não preciso mais me irritar por não lembrar onde está a revista que eu precisaria para uma consulta. No começo, usei meu blog de modo privado e quando ele se tornou mais recheado, eu o abri para consulta. Hoje, ele é uma fonte aberta e gratuita de consulta científica. Sou, como hoje está na moda qualificar, um prosumidor.

Milhares de pessoas utilizam meu blog não só para ler e citar os meus estudos, mas também para acessar estudos de inúmeras pessoas que eu publico. Ou seja, na linha do mencionado Creative Commons, passei a fazer parte de uma rede mundial de pesquisadores que interagem, consultam os materiais uns dos outros, e geram um ambiente interativo e colaborativo de construção de conhecimentos científico. O custo é ridículo, uso a tecnologia wordpress, gratuita. É como ter uma grande estante em casa, só que é muito fácil encontrar onde está cada item, é só pesquisar por alguma palavra relacionada com o que procuro. Quer fazer a sua própria biblioteca online? Em Vale a pena um professor criar o seu blog, eu explico o passo a passo. Não queria deixar a impressão de que sou um obcecado do mundo virtual, a informática não substitui o papel, que é igualmente precioso, mas articular a permanência e o “tato” do papel com a navegação informática, aumenta radicalmente o aproveitamento de ambos.

Estou dando o exemplo do meu blog, que funciona há mais de 20 anos, e tem dezenas de milhares de pessoas que acompanham. Mas muita gente organiza excelente material em blogs abertos, como Roosevelt Institute, Oxfam, ICLEI, Greenpeace, Tax Justice Network, Amnesty International, Real World Economics, Piketty.blog.lemonde.fr e inúmeros outros aqui no Brasil. Aqui, a consulta é especializada, e depende do interesse específico do que você procura. Mas o essencial é pensar que as fontes para aprofundar o conhecimento ou pesquisa sobre um tema deve levar em conta não só os livros escritos, a chamada bibliografia, mas o fato que muitas instituições pelo mundo afora já dispõem de equipes de pesquisa relevantes, e isso abre acesso para informação extremamente focada e atualizada. É uma forma de não reinventar a roda, e de se colocar imediatamente na crista da onda do que está sendo pesquisado em qualquer parte do mundo.

Cada vez menos gente aguarda os artigos científicos com double peer review, em revistas indexadas, que geram lucros da ordem de 40% para os gigantes como Elsevier e pontuação para as instituições acadêmicas, mas que estão sendo cada vez mais postos de lado do mainstream da pesquisa internacional. Um Stiglitz, por exemplo, do Roosevelt Institute, como tantos outros, publicam online sob forma de acesso aberto, e quem acha que o estudo é válido ou não é quem lê. O tão importante relatório sobre a desigualdade no mundo, o WIR, mostra a nova forma de organização de ciência colaborativa: “As séries (estatísticas) apresentadas no presente relatório estão baseadas no esforço coletivo de mais de uma centena de pesquisadores, cobrindo todos os continentes, que contribuem para o banco de dados WID.world. Todos os dados estão disponíveis no wir2018.wid.world e podem ser reproduzidos, permitindo que qualquer pessoas faça a sua própria análise e crie a sua própria visão sobre a desigualdade.”

O tão rigoroso New Scientist britânico chama a indústria parasita de “o escândalo da publicação acadêmica” (the scandal of scholarship) e recomenda o documentário Paywall: the business of scholarship, sobre como se expandiu o pedágio privado sobre a as publicações científicas: . A alternativa geral é acessar Sci-Hub, com acesso aberto a artigos científicos, para escapar ao que o New Scientist chama de “modelo de pedágio” (toll-access model). Hoje só nos EUA mais de 15000 cientistas boicotam as revistas indexadas e publicam em arXiv, Plos e semelhantes sistemas abertos. A palavra de ordem aqui é Open Access, ou Creative Commons.

Bem, a vida não é só trabalho. Eu gosto de assistir à TV e de noite assisto bastante, mas como tenho problemas cardíacos, evito sempre o Jornal Nacional e semelhantes injeções de veneno. E é uma luta porque tudo é feito para dificultar (leia-se cobrar) o nosso acesso a excelentes programas de TV. A Net e outras empresas cobram mais caro, não porque tenham mais custos, mas justamente para manter o grosso da população fora da TV por assinatura, com a cabeça atolada nas bobagens e na manipulação política. O fato é que temos excelentes programas diários nos canais Curta, Arte1, Films&Arts, e também Cultura e Futura.

No plano internacional, temos excelentes informações e programas pela TV5Monde, BBC e CNN. O BBC Earth é maravilhoso, mas por alguma razão, a Net e outros simplesmente tiraram o canal do ar. O canal francês, TV5Monde, apresenta diariamente um jornalismo investigativo de primeira qualidade, tipicamente uma hora (das 19h às 20h), trazendo temas como a desinformação alimentar, os falsos medicamentos, os sistemas de aposentadoria e semelhantes, em uma rede que articula as TVs da França e as de língua francesa da Suíça, da Bélgica e do Canadá. E tudo legendado. Assistir a um programa desses me deixa de boca aberta ao constatar o imenso potencial de uma TV inteligente e não controlada por grupos econômicos que empurram ideologia e consumismo. E para uma visão claramente mais progressista, temos a TVT, TV dos Trabalhadores, com excelentes entrevistas, abrindo um leque de análises em profundidade, que é o caso também de Tutameia. Aliás, no computador dá para acessar excelentes programas no Aljazeera live.

Queria salientar que eu mencionei aqui um certo número de fontes, que são as que eu mais utilizo, e bastante centradas na problemática do desenvolvimento econômico e social. Há tantas outras, e cada um pode organizar de certa forma o seu leque de fontes. De qualquer maneira, como é óbvio, estamos na era da informação, da revolução digital, do tudo aqui e agora, da vertigem de fragmentos desconectados de conhecimento que giram na nuvem e na nossa cabeça. Selecionar as fontes, apoiar a mídia livre, receber de maneira organizada e apoiar-se numa memória virtual personalizada, o seu próprio blog, constitui hoje uma necessidade premente. O mundo mudou e precisamos de novas ferramentas. Muito além do fake news e dos bate-boca nas mídias sociais, surgem imensas oportunidades para uma ciência e conhecimentos democratizados. A mesma tecnologia que gera por vezes o caos informacional pode ter o seu sentido invertido, e servir para construir uma sociedade realmente informada.

Luiz Alberto Gomez de Souza

SEXUALIDADE E PODER

"Sexualidade e celibato estão ligados ao poder, assim como a resistência às diáconas e à ordenação de mulheres. O clericalismo é sua expressão mais evidente. Não por acaso Francisco, neste caso severo e enfático, atacou duramente o clericalismo", escreve Luiz Alberto Gomez de Souza, sociólogo.

O recente encontro de Francisco com as comissões episcopais nacionais centrou a atenção no terrível problema da pedofilia. A Igreja devia à sociedade uma palavra a respeito. Note-se, entretanto, que esse é um problema da sociedade como um todo e seria uma hipocrisia social reduzi-lo aos espaços da Igreja Católica Romana. Claro que anos de encobrimento nessa instituição levaram à necessidade de enfrentá-lo abertamente com coragem. Não esqueçamos, porém, que bom número de casos de pedofilia ocorrem no interior das famílias, em centros de juventude, etc.

Porém é o momento de sair das páginas de escândalo e colocar a pedofilia numa perspectiva mais ampla e mais séria. Muitos querem reduzi-la à homossexualidade. O livro do sociólogo francês Frédéric Martel, Sodoma, relata possíveis índices altíssimos desta na cúpula da Igreja Católica. O autor se apresenta como homossexual e o tema é tratado com cuidado e sensibilidade, querendo denunciar uma rede de hipocrisia na instituição. Isso pode ser até certo ponto salutar. Entretanto, uma leitura que escorrega para o sensacionalismo termina sendo a pior maneira de enfrentar a problemática.

Enganosa relação pedofilia-homossexualidade

Uma relação redutiva e falsa pedofilia-homossexualidade tem permitido a setores conservadores ver essa última como a grande chaga eclesial. Os bispos Raymond Burke dos Estados Unidos e Walter Brandmüller, da Alemanha, que com outros dois tinham lançado um ataque ao pontificado de Francisco, voltam agora em carta aos participantes da cúpula sobre pedofilia, pedindo para pôr fim “à conspiração do silêncio em torno à praga da agenda homossexual”. O arcebispo Carlo Viganò, que pedira a renúncia do papa, lembra São Pedro Damião, que denunciara, no século XI, os perigos da sodomia na Igreja. Já o arcebispo maltês Charles Scicluna, talvez uma das maiores autoridades na matéria, que fora enviado ao Chile para pesquisar ali o problema da pedofilia, indica que a homossexualidade e a heterossexualidade são condições humanas e não predispõem necesariamente ao pecado. Para ele, “não ousaria dizer que uma categoria inteira tem tendência a pecar”.

Um porta voz do Vaticano, depois do discurso do Papa do dia 24, indicou que “os abusos de menores são sempre consequências do abuso de poder”. Este é um ponto central de toda esta reflexão, ao qual voltaremos ao final. Não é aceitável que setores conservadores na Igreja se lancem numa cruzada homofóbica. Antes de tudo, há que indicar que a pedofilia pode partir tanto de hétero como de homossexuais . Como afirmou no recente encontro a Irmã nigeriana Verônica Openibo, as meninas são também vítimas de abuso. O problema é mais profundo e tem a ver com a sexualidade em geral. Vejamos exemplos eloquentes.

A chaga da pedofilia na Igreja

Em princípio não gostaria de deter-me nos fatos, mas infelizmente é necessário partir de alguns deles, para uma reflexão eclesial concreta, por mais dolorosa e terrível que possa parecer essa informação. Quero que esta reflexão, de um cristão leigo, seja uma tentativa de análise sujeita a revisão e correções, uma simples participação provocadora em um debate candente e cada vez mais atual.

Começa a haver um certo consenso de que o tempo do pontificado de João Paulo II foi um momento de forte encobrimento ou de negação dos fatos relativos à pedofilia e eu acrescentaria, à sexualidade em geral. Começo com uma situação emblemática que não pode ser ignorada. O Cardeal de Viena, Hans Hermann Groër, foi nomeado, em 1986, por João Paulo II, que admirara sua piedade mariana. Ele sucedeu ao notável Cardeal Franz König, uma das fortes figuras do Vaticano II. Começaram logo a aparecer acusações de pedofilia quando ainda era monge e depois como cardeal. Salto os terríveis detalhes. Chegavam testemunhos de seminaristas, mas sua prática possivelmente seria mais ampla. Seu sucessor, o Cardeal Christoph Schönborn, disse a jornalistas, “off the record” - mas a informação logo vazou - que o prefeito Ratzinger tentara convencer o Papa a investigar o caso, no que teria sido impedido pelo Secretário de Estado, Angelo Sodano. Finalmente, a pedido de João Paulo II, em 1998, Gröer renunciou a todos os privilégios como arcebispo e cardeal. Passou a ser prior num mosteiro mas, diante de novas acusações, teve de retirar-se definitivamente da vida pública.

O caso mais notório, com muitos livros e artigos publicados, foi o do padre mexicano Marcial Maciel Degollado. Criou os Legionários de Cristo, que seria adiante congregação de direito pontifício. Dirigiu por 64 anos os Legionários, que cresceram enormemente, em quantidade e força financeira. As primeiras suspeitas sobre suas atividades sexuais dolosas começaram em 1948, porém nos quarenta anos seguintes foram consideradas calúnias. Pelas pesquisas posteriores da própria Igreja, constatou-se que, além da pedofilia, tivera pelo menos duas companheiras com quatro ou seis filhos, ademais de ser adicto em cocaína. Reuniu enorme fortuna, para os Legionários e para si próprio, em parte depositada em paraísos fiscais. Depois de sua morte uma filha, na justiça, tentou reaver parte da fortuna paterna. Em 2010, a direção dos Legionários finalmente admitiu as atividades promíscuas de seu fundador – que aliás vivia com cinco identidades falsas. Bento XVI então, considerando a idade avançada e a saúde de Maciel Degollado, o intimou a levar uma vida retirada “de oração e de penitência”. Morreu aos 87 anos, em 2008, numa mansão em Jacksonville, na companhia de uma companheira e sua filha, sem a presença da Igreja. Os Legionários passaram por uma intervenção, mas continuaram administrando seus volumosos bens. Sobra dizer que suas posições eram e seguem sendo integristas no âmbito eclesial e conservadoras na sociedade. Um cardeal denunciou que chegou a ele um cheque de milhares de dólares como tentativa de suborno e que o devolveu imediatamente. Era conhecido o financiamento abundante a obras da Igreja em geral e do Vaticano em particular. Note-se aqui que o problema não se reduzia à pedofilia, nem se tratava de um homossexual, mas de alguém com uma sexualidade exacerbada e ávido de poder econômico.

No Peru, o leigo Luís Fernando Fígari fundou, em 1971, o Sodalício de Vida Cristã, mais adiante também sociedade de direito pontifício. Este é formado por sacerdotes e leigos presentes em muitos países. Igualmente integrista eclesial e conservador social. Fígari também foi acusado de pedofilia. Superior do Sodalício até 2010, em 2017 foi “exclaustrado”, isto é, proibido de viver numa casa da congregação. O novo superior pediu a ele uma “vida de oração e penitência”. Vive em Roma sem poder voltar ao Peru, onde chegou a correr um processo contra ele na justiça civil.

No Chile, o padre Fernando Karadima, pároco de um bairro de classe alta de Santiago, criou uma Pia União Sacerdotal, teve enorme prestígio e foi responsável pela nomeação de vários bispos. Com laços com o regime militar, era próximo do núncio Angelo Sodano, mais tarde Secretário de Estado. Quando o bispo Juan Barros, ligado a ele, foi nomeado bispo de Osorno, parte da comunidade eclesial local se rebelou. Francisco, em visita ao país, baseado possivelmente em informações tendenciosas, não recolheu a denúncia e isso manchou sua presença no Chile. Mais tarde, com enorme honestidade, nomeou o bispo de Malta, Charles Scicluna, para uma visita apostólica ao Chile. Na base de seu informe, Francisco convocou todos os bispos do país a Roma. Estes puseram sua renúncia nas mãos do Papa, que agiu com cuidado e gradualmente. Um dos problemas foi o caso do antigo Cardeal-arcebispo de Santiago, Francisco Errazuriz, que aliás fazia parte dos oito prelados escolhidos por Francisco para assessorá-lo. Como seu sucessor também foi questionado, a sucessão do arcebispado passou a ser uma decisão difícil. O escândalo de pedofilia alcançou também um conhecido colégio dos Irmaõs Maristas. A Igreja chilena sofreu perda de seus membros e não se refez ainda do trauma. Dali em diante choveram acusações as mais variadas, verazes ou não, como o caso de conhecido jesuíta falecido, que teria molestado uma mulher. Veja-se que tudo extrapolou da pedofilia, para casos de uma sexualidade hetero ou homo reprimida. O que nos leva a ampliar a reflexão da pedofilia à sexualidade em geral e abre logo para o problema do celibato obrigatório, que trataremos adiante.

Casos de abuso se estenderam a outros países da América Latina, aos Estados Unidos, à Irlanda e à Austrália. Nesta, o cardeal George Pell acaba de ser condenado pela justiça do país por atos de pedofilia e perdeu suas funções na Igreja, inclusive na área econômica na Santa Sé, ele também um dos oito cardeais do conselho do Papa. Em fevereiro, Francisco, numa decisão drástica, retirou o sacerdócio do ex-Cardeal emérito de Washington, Theodore McCarrick, de 88 anos,

No Brasil, surgiram várias acusações de pedofilia e de encobrimento. Um sacerdote em Goiás foi expulso da Igreja. Foram aparecendo outros casos. O mais conhecido foi o do arcebispo de João Pessoa, afastado do cargo, conhecido também por suas ligações com setores econômicos. Volta o problema do poder.

Vai ficando claro que os casos de pedofilia não se restringem apenas a meninos, mas envolvem também meninas. E em relação à idade dos abusados, não se reduz à pedofilia, mas a relações hetero e homossexuais. Podemos ir descobrindo que o problema de fundo tem a ver com a sexualidade, tanto hetero quanto homossexual. E possivelmente em muitos casos, podia tratar-se de uma sexualidade reprimida e logo exacerbada.

Celibato obrigatório e optativo

E isso nos reporta ao tema do celibato obrigatório no caso dos presbíteros. Para introduzi-lo, talvez fosse importante falar de serviços (diaconias) na Igreja, em múltiplas funções, sem separar rigidamente as fronteiras entre ministérios ordenados e não ordenados. Trata-se antes de tudo de diferentes missões, uma das quais a dos presbíteros.

Uma coisa é o celibato optativo como vocação. Isso é claro no caso dos religiosos que optaram em viver em comunidade, diferente daquele dos presbíteros. Claro que não há uma relação automática entre celibato obrigatório e abusos sexuais, hetero ou homo. Mas a Conferência Episcopal alemã, em 2018, indicou que esse celibato obrigatório é um fator que pode favorecer os abusos.

Um celibato escolhido livremente, por vocação pessoal, pode ser uma “joia brilhante”, como declarou Paulo VI. Ao final, em anexo, transcrevo um comovente poema de Pedro Casaldáliga, “Aviso prévio para jovens que querem ser celibatários”. Entretanto, um celibato obrigatório pode dar origem a situações problemáticas.

Enfrentar o problemas do celibato não toca na Revelação, pois se trata de um problema disciplinar, passível de revisão. Tem a ver não com a ortodoxia, mas com uma ortopráxis. Às vezes situações concretas podem ser ocasião de rever e ampliar práticas.

Nesse sentido, o Sínodo da Amazônia, a ser realizado de 2 a 27 de outubro deste ano, entre muitos problemas deverá enfrentar o caso do reduzido número de sacerdotes na região, diante da necessidade do acesso à Eucaristia. Por anos, em muitos lugares, a presença de um sacerdote se realizava esporadicamente por ocasião das chamadas desobrigas. Numa Igreja pastoralmente ativa, a celebração eucarística deveria ser um momento central da vida eclesial. O teólogo Francisco Taborda questiona: “Há uma enorme escassez de padres”, o que leva a “repensar como fazer para que toda a comunidade possa celebrar a Eucaristia de domingo”. Porque não ordenar, nessas comunidades, homens casados, cuidadosamente escolhidos como presbíteros? Bispos da região amazônica tem colocado reiteradamente o tema.

Relações afetivas dos sacerdotes

Na prática, já há, aos poucos, uma certa tendência para aceitar relações afetivas de sacerdotes com suas companheiras, superando barreiras de negação e de ocultamento. Aliás, na Igreja brasileira, até final dos anos oitocentos, era normal a presença de sobrinhos ou afilhados dos padres, na realidade em parte seus filhos.

O mesmo deveria valer para um companheiro homossexual. Recentemente um jovem homossexual foi eleito para um conselho pastoral na diocese de Viena. O Cardeal Schönborn recebeu-o com seu parceiro. O notável Cardeal Carlo Maria Martini, em reflexão recolhida no livro Credere e Conoscere, em diálogo com Ignazio R. Marino (Einaudi 2012), depois de assinalar a importância central e insubstituível da família, lança a seguinte pergunta: “porém não seria ruim que, no lugar de relações homossexuais ocasionais, as pessoas tivessem certa estabilidade e então, neste sentido, o Estado poderia favorecê-las também”. Note-se o enorme cuidado em tratar do tema naquele momento, limitando-se ao relativo às leis civis, sem transferi-las automaticamente para normas eclesiais.

Experiências atuais, nas relações afetivas dos sacerdotes, podem desenvolver-se aos poucos num ambiente de naturalidade. Mas ainda há no ar, infelizmente, um certo clima ambíguo. Quantas vezes alguns clérigos, e inclusive leigos e leigas, por atos falhos, acabam imputando apenas à mulher a responsabilidade por uma opção a dois que fora resultado de uma decisão comum. Trago um exemplo que me tocou assistir. Na missa de sétimo dia de um sacerdote com função central na sua diocese, tudo se desenrolou em torno a uma familiar e, num canto, silenciosa e quase esquecida, estava aquela que dividiu por anos a vida a dois, e que, tantas vezes, havia recebido e acolhido muitos dos presentes.

Diaconado e diáconas

Aliás, já há um espaço importante entre a vida leiga e o presbiterato. É o caso do diaconato. O diaconato masculino permanente – e não como mero corredor ao sacerdócio- , tem já uma consistência e funções próprias. São milhares de diáconos pelo mundo afora, cumprindo importantes tarefas e não somente reduzidos a atuar em certas rubricas durante a eucaristia.

Mas para seguir adiante, não podemos deixar de enfrentar o problema das diaconisas, que existiram na história e não são ainda permitidas na atualidade. Basta lembrar a menção de Paulo ao trabalho de Febe “servindo à Igreja de Cencreia” e de Priscila “cooperadora em Cristo Jesus” (Rom, 16, 1-3).

Não parece haver impedimento sério para diaconisas, a não ser talvez o temor de alguns ordenados, cônscios de seu poder clerical, com receio que pudesse ser um caminho aberto ao sacerdócio feminino.

A mulher na Igreja e nos ministérios

Chegamos então à situação da mulher na Igreja. De fato, é cada vez mais decisiva a presença de mulheres nos diversos ministérios: ministras da eucaristia, do batismo, da bênção dos enfermos...

Sua importância é crescente na vida eclesial e inclusive eclesiástica. Perto de nós era conhecida a influência da Priora Geral das Ursulinas, Mère Saint-Jean, nos pontificados de Pio XI e de Pio XII. Houve a forte presença de Chiara Lubich, fundadora dos Focolares, na vida da Igreja contemporânea. Há sinais da influência de Chiara e dos Focolares na indicação de bispos e arcebispos. Isso não é de estranhar. Eu testemunhei a importância de D. Hélder na nomeação episcopal de assistentes eclesiásticos da Ação Católica. Na atual estrutura, com pouca ou nenhuma participação das Igrejas locais na nomeação de seus bispos, ela se dá principalmente com a intermediação dos núncios e a consulta a personalidades eclesiais normalmente masculinas e, em casos esporádicos, femininas. Descobrimos a importância da mulher em decisões eclesiásticas e sua possível presença na estrutura da Igreja. Ao que parece, João Paulo II tinha pensado em nomear como Cardeal, Madre Teresa de Calcutá.

Há uma experiência que merece ser analisada: nos anos sessenta, as ”irmãs vigárias”, na Paróquia Nossa Senhora do Ó em Nísia Floresta, dentro das atividades do chamado Movimento de Natal, impulsionado pelo então jovem Administrador Apostólico da Arquidiocese, Dom Eugênio de Araújo Sales. As irmãs assumiam plenamente a paróquia e realizavam atividades pastorais, presidindo celebrações, onde só não era realizada a consagração eucarística, reservada a um sacerdote externo. Começou na campanha da Fraternidade de 1962 e foi assumida pela CNBB dois anos depois. O recente livro “Mulheres no Altar”, de Luiza Valladares Ferreira, relata a experiência. No lançamento do livro, dom Jaime Vieira Rocha, arcebispo de Natal indicou recentemente: “A temática é pertinente para os dias atuais, quando o Papa pede uma Igreja de saída e também tem combatido o clericalismo”. Religiosas ou leigas, não poderiam ser ordenadas para um exercício pleno do sacerdócio?

A ordenação de mulheres

A Carta Apostólica Ordinatio Sacerdotalis, de João Paulo II, de 22 de maio de 1994, indicava que a ordenação sacerdotal sempre fora reservada aos homens: “declaro que a Igreja não tem absolutamente a faculdade de conferir a ordenação sacerdotal às mulheres, e que esta sentença deve ser considerada como definitiva por todos os fiéis da Igreja”. Note-se que esta declaração não cumpriu os requisitos de uma declaração infalível “ex catedra”, solenemente proclamada depois de ouvir as Igrejas locais, como no caso dos últimos dogmas marianos. É um tema passível de revisão e, além do mais, não tem, segundo biblistas renomados, bases escriturísticas que o sustente.

A presença da mulher em todos os ministérios, incluindo os ordenados, foi uma noção apresentada no Inter-eclesial das CEBS de Santa Maria em 1992 e tem sido discutida abertamente em muitas Igrejas europeias.

O acesso da mulher ao sacerdócio não deveria esconder a vontade de compartir um poder masculino e patriarcal tradicional, sem pô-lo em causa. A saudosa Rose Marie Muraro, candidata a deputada, deparou-se com um clima eleitoral masculino. Com sua valentia habitual, denunciou um caminho viciado em um lúcido livro: “Os seis meses em que fui homem” (Record 1990, Rosa dos Ventos 1993). Algo semelhante pode acontecer com um sacerdócio feminino prisioneiro dos marcos patriarcais.

Francisco, de uma maneira talvez atabalhoada e generalizadora, indicou que “todo (!) feminismo termina sendo um machismo de saias”. Saudou a fala de Lidia Ghisoni, professora de direito canônico no encontro sobre pedofilia mas, numa visão tradicional de colocar a mulher num pedestal, “como imagem da Igreja, que é mulher, noiva e mãe” e assim tirá-la do contexto concreto de sua posição ainda em construção na Igreja. Isso chocou o movimento feminista, que tem muitas vertentes, incluindo mulheres católicas. O teólogo espanhol Juan José Tamayo declarou seu estranhamento diante dessa afirmação.

Uma coisa seria uma reivindicação para o sacerdócio feminino, absorvendo e aceitando uma posição patriarcal tradicional, outra uma presença feminina que colaboraria para superar o patriarcalismo. Isso tem avançado em bases femininas e masculinas na Igreja, mas não parece ter sido ainda recebido pelo Bispo de Roma, em geral tão atento ao novo emergente.

O poder na Igreja

Tudo dito até agora nos encaminha ao problema do poder na Igreja. Ele é central e está subsumido em todos os temas tratados nesta reflexão. Sexualidade e celibato estão ligados ao poder, assim como a resistência às diaconisas e à ordenação de mulheres. O clericalismo é sua expressão mais evidente. Não por acaso Francisco, neste caso severo e enfático, atacou duramente o clericalismo: “uma perversão da Igreja”, disse a jovens reunidos no Circo Máximo em 2018; “a perversão mas difícil de eliminar”, indicou em Palermo logo depois; “uma peste”, voltando de Fátima; “fujam do clericalismo”, ensinou a novos bispos em setembro desse ano.

Olhando para a frente

Uma Igreja povo de Deus, com serviços diversificados, tentando superar uma estrutura rígida de poder, teria certamente funções de autoridade, mas num contexto participativo de serviços, abertos a homens e mulheres. O fato do Bispo de Roma, no seu múnus de pastor universal nomear-se “servo dos servos de Deus”, não deveria ficar como uma declaração meramente retórica.

Paolo Benanti

MÁQUINAS SAPIENS

O texto é de Paolo Benanti, publicada por Settimana News. A tradução é de Luisa Rabolini. Paolo Benanti é presbítero e teólogo italiano da Terceira Ordem Regular de São Francisco. É doutor em Teologia Moral pela Pontifícia Universidade Gregoriana, Roma, com a tese The Cyborg. Corpo e corporeità nell'epoca del postumano (O Cyborg. Corpo e corporeidade na época do pós-humano). Por dois anos consecutivos esteve em Washington frequentando The Intensive Bioethics Course, no Joseph P. and Rose F Kennedy Institute of Ethics da Georgetown University. Eis o texto

Em 4 de julho de 2017 no site da Blippar, uma empresa bem conhecida que trabalha com inteligência artificial e realidade aumentada, apareceu o seguinte post:

Fiz 16 anos na semana passada. Eu sou um nativo digital. Meus pais falam com medo dos progressos feitos enquanto a realidade supera as tecnologias de Star Trek que eles sempre sonharam. Para mim, não há nada de surpreendente ou de impressionante no fato de eu ter no bolso da minha calça o poder de cálculo que levou o homem à lua. Eles discutem sobre a transformação dos computadores que passaram de calculadoras ultrarrápidas a máquinas que podem dirigir autonomamente carros, traduzir instantaneamente em quase todos os idiomas e executar tarefas humanas cada vez mais complexas. Eles se maravilham diante de um mundo de conectividade instantânea e global, vendo computadores que podem derrotar seres humanos no xadrez ou no Jeopardy! Eu considero a Siri como normal. No entanto, minha geração está prestes a ver uma tecnologia que, da mesma forma, mudará literalmente tudo. A Inteligência Artificial provavelmente nos levará a uma era, igualmente irreconhecível, de inovação inimaginável e de reviravolta social. Esse é o avanço tecnológico mais recente e surpreendente. Aqui estão alguns fatos interessantes e importantes sobre a inteligência artificial que por si só causam vertigens:

1) A maior parte das inteligências artificiais são femininas: estudos mostram que a maioria das pessoas preferem o som de uma voz feminina àquela de um homem (pense na Siri!). Além disso, a maioria das inteligências artificiais é gerenciada por homens heterossexuais que são mais atraídos pela voz feminina.

2) Há filhotes dotados de inteligência artificial: esses animais criados por inteligência artificial removem os lados negativos de ter um animal de estimação, por exemplo, ter que dar banho nele. Hoje existem poucos animais com inteligência artificial, mas acredita-se que até 2025 eles estarão amplamente disponíveis.

3) Assim como os humanos, as inteligências artificiais não são apenas um templo de conhecimento, mas são capazes de socializar e simular emoções: Kismet, um robô construído no final dos anos 1990, é capaz de reconhecer as emoções através da linguagem corporal e do tom da voz.

4) As inteligências artificiais podem se consertar sozinhas: existe um robô que se reconstruiu sozinho depois de perceber que seu desempenho tinha diminuído por ter perdido duas de suas seis pernas. O robô não percebeu qual era o problema, mas o resolveu por tentativa e erro.

5) A inteligência artificial vai se tornar mais inteligente que os seres humanos: a inteligência artificial tem a capacidade de aprender, o que significa que sua inteligência está aumentando (em 2013, a inteligência artificial tinha mais ou menos o QI de uma criança quatro anos). Acredita-se que até 2029 a inteligência artificial terá o mesmo nível de inteligência que os humanos adultos.

6) Na próxima década, a inteligência artificial substituirá 16% dos postos de trabalho: isso se deve à sua crescente inteligência, o que significa que nas indústrias pode ser mais útil do que os humanos.

7) Os seres humanos podem ter relações amorosas com a inteligência artificial: um estudante universitário, David Levy, acredita que até 2050 serão legalizados os casamentos entre homens e robôs. Por enquanto, os robôs não são sofisticados o suficiente para que isso aconteça.

8) A inteligência artificial tem a capacidade de escrever: já teve um robô que escreveu um artigo sobre um terremoto Califórnia no site do "Los Angeles Times" graças as informações recolhidas por um sismógrafo.

9) A inteligência artificial provavelmente acabará com os serviços de atendimento ao cliente: até o final desta década, a assistência humana não será mais necessária em 85% das interações com os clientes.

10) Por fim, os assistentes digitais da clientela poderão reconhecer as pessoas pelo rosto e pela voz: até o final de 2018, acredita-se que os assistentes robóticos já estarão aptos a executar o reconhecimento facial e o reconhecimento de voz.

O tempo gera filhos e filhas

O post foi escrito por um estudante, Trinity Hill, enquanto estava fazendo um estágio na Blippar para conhecer melhor esse setor tecnológico. O garoto é filho deste tempo e olha para o futuro com esperança e com a impaciência típica de sua idade.

Aquele que, como eu, foi adolescente na década de 1980 se lembra das longas tardes de verão passadas a explorar o mundo em cima de uma bike de três marchas ou de uma BMX, das pranchas de skate em descidas alucinadas por ruas, felizmente, pouco movimentadas, das fundas construídas com galhos e elástico, do frisbee, dos intermináveis jogos de futebol, dos desafios de ping-pong ou sinuca e das casas nas árvores para sonhar com um futuro como adultos.

Mas até mesmo os dias chuvosos e frios tinham suas memórias. As sessões intermináveis de Dungeons & Dragons, os jogos de tabuleiro, com o “War” em primeiro lugar, e os jogos de cartas e videogames, o Atari antes e o Commodore depois.

Entre estes jogos, um grande clássico, além do inesquecível Donkey Kong, era o Q-bert da Atari. Hoje, o uso desses jogos para a interação com as inteligências artificiais é o passatempo favorito da minha geração que se tornou inovadora e gestora da transição para o mundo de Inteligência Artificial. Do ponto de vista da engenharia e computação, os videogames dos anos 1980 são perfeitos para testar os nossos novos jogos de adultos baseados na machine learning, na deep learning e nas bibliotecas tensorflow.

Os pesquisadores dispõem de um ambiente virtual já pronto: por um lado, as plataformas usadas nos anos 1980, bastante simples, que rodavam em processadores primitivos e, pelo outro, um jogo, que é algo suficientemente complexos; isso com a finalidade de simular uma interação que requer uma forma de inteligência para ser resolvida. Mesmo para nós, que não somos jovens millenials, as inteligências artificiais são um campo fascinante e se apresentam como uma tecnologia capaz de mudar radicalmente esta sociedade.

Essa consciência é bastante generalizada e motiva o texto a seguir. No ano passado, fui convidado para discutir inteligências artificiais em diferentes âmbitos e em várias ocasiões. Só para citar as principais: com o Conselho Pontifício para a Cultura em dois Cortili dei Gentili, com a Força-Tarefa para as inteligências artificiais da Agência para a Itália Digital, com o Fórum da Administração Pública, para um painel organizado pela Microsoft em Bruxelas , no CNEL com o Presidente Treu, um TED Talk e em pelo menos três programas de televisão e três de rádio nacionais. Enquanto escrevo estas linhas, as solicitações para os próximos meses excedem as do ano passado.

O texto a seguir tenta reunir os principais temas e questões que emergem dessas comparações, organizando-as, na medida do possível, em um itinerário significativo. O primeiro capítulo acompanha o leitor para a descoberta do que está acontecendo graças à implementação de novas formas de inteligência artificial e sua difusão cada vez mais ampla.

A máquina e nós

A presença da máquina e suas mirabolantes capacidades, no entanto, nos pedem para refletir sobre qual é a diferença com o homem e qual é a característica humana que nos torna tão diferentes das máquinas: esta pergunta está no centro do segundo capítulo.

No caminho proposto, seguem dois interlúdios. Para entender o que queremos que faça uma inteligência artificial, temos que nos perguntar se uma máquina pode fazer escolhas sem cometer erros - primeiro interlúdio. Porém, devemo-nos perguntar também se a máquina pode interagir com o homem de acordo com modalidades puramente racionais ou se o lado emocional deve, de algum modo, também ser incluído e avaliado nessa relação, porque a coexistência entre homem e máquina não se torne insustentável.

O quinto capítulo, por fim, enfoca a questão ética. O que significa que uma inteligência artificial pode escolher de forma autônoma? Quais riscos isso envolve? O que queremos que essas máquinas façam e o que não queremos? Estou ciente de que este texto, mais que oferecer respostas, abre questões e debates; mas esta é a condição em que nos encontramos agora.

As inteligências artificiais, com todo seu potencial e sua capacidade transformadora, podem mudar radicalmente o mundo que conhecemos. De maneira provocativa, poderíamos dizer que hoje, pela primeira vez em nossa história, é a máquina que nos questiona. Cabe a nós, como humanidade, encontrar as respostas, sabendo que apenas se soubermos incluir as humanidades na criação dessas ferramentas poderemos esperar não produzir, num futuro mais ou menos próximo, sociedades desumanas.