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Edição 133 Dezº 2017

A reportagem é de Roberto Scarcella

A Europa. As igrejas se tornam escritórios, restaurantes, lojas e mesquitas

Da Sicília até a Escandinávia: no velho continente secularizado centenas de edifícios sagrados do cristianismo mudam de função. Tapetes em vez de genuflexórios. O árabe que ecoa em locais onde, por séculos, rezou-se em latim e italiano. E, pendurados nas paredes, não mais retratos de santos, mas relógios digitais que marcam a hora e a posição da Meca. Essa é a segunda vida da igreja de San Paolino dos jardineiros, no coração da antiga Palermo, a poucos passos da Catedral. A primeira igreja da italiana convertida em mesquita, em 1990, hoje não é apenas o centro do Islã na Sicília, mas também um exemplo para novas mesquitas que estão surgindo em toda a Europa no lugar de igrejas agora vazias, desconsagradas e abandonadas.

Escritórios nos lugares sagrados

Na Grã-Bretanha, Alemanha, França, Suécia, Bélgica e Holanda são cada vez mais numerosas as comunidades cristãs que preferem tornar rentáveis os espaços, cedendo a outra religião os lugares de culto religioso abandonados pela evasão dos fiéis e que acabam por se tornar pior do que inúteis, apenas caros. Porque entre a manutenção de uma igreja onde ninguém mais entra e vender, a segunda opção hoje, pelo menos na Europa do Norte, está se tornando de longe a favorita. Apenas na Frísia, no norte da Holanda, cerca de 250 das 720 igrejas fecharam suas portas e tornaram-se apartamentos, escritórios, restaurantes ou, em alguns casos, mesquitas.

No Reino Unido, em Manchester, Bradford, Londres e algumas pequenas cidades, quem arrematou as igrejas foram as comunidades islâmicas, em busca de um lugar para seus fiéis. Os preços, em um país que vende as casas por uma libra nas áreas mais depauperadas, embora sejam mantidos em segredo, parecem ser verdadeiras barganhas.

No Midlands são várias as negociações em curso em cidades de médio porte. Por outro lado, muito prosaicamente, como explica um estudioso do Alcorão de Marselha que prefere manter o anonimato, "mesmo para as religiões vale a lei do mercado, se as pessoas já não entram mais na queijaria, mas querem comer peixe, o queijeiro fecha e entre as mesmas quatro paredes abre seu negócio um peixeiro”. O peixeiro que tomou o lugar do queijeiro em Palermo está encravado entre os três principais mercados da cidade: Ballarò, Il Capo e Vucciria. Na fachada tem uma placa bastante discreta, com a simples inscrição "mesquita" em italiano e árabe. A separação com a rua é feita por um longo portão preto e um pequeno quintal cimentado. À direita na entrada, as prateleiras onde deixar os sapatos. No canto, uma enorme cortina verde separa os lados: é onde as mulheres podem rezar, mantidas rigorosamente longe dos olhares masculinos.

A atmosfera é estranha, como confirma o fundador da Ucoii (União das comunidades e organizações islâmicas na Itália) Hamza Piccardo: “Afinal estamos em todos os sentidos dentro de uma igreja barroca, embora modificada”. Mesmo o altar desapareceu. Se for deixada de lado a instalação-provocação de Christophe Buechel, que em 2015 transformou uma igreja em mesquita na Bienal de Veneza - provocando um enorme rebuliço animado por ameaças, guardas municipais fazendo o isolamento, empurrões, insultos e documentos oficiais enviados até aos tribunais - na Itália são apenas duas igrejas hoje oficialmente transformadas em mesquitas, essa de Palermo e a de Agrigento, inaugurada em março de 2015, onde antes funcionava uma igreja evangélica.

Mas é, sobretudo, na Alemanha que a tensão tem aumentado nos últimos anos pelo elevado número de mesquitas já construídas ou em construção, graças às ricas doações vindas da Turquia e dos países árabes. De acordo com o Zentralinstitut Islam-Archiv são mais de 100 mesquitas cujos locais já estão em funcionamento ou vão abrir em breve, enquanto as igrejas fechadas, apenas de 2000 a hoje, seriam mais de quinhentas, entre católicas e protestantes. As mesquitas de duas cidades importantes, como Duisburg e Hamburgo, surgiram justamente sobre as cinzas de duas igrejas e foram as detonadoras de duras polêmicas políticas e conflitos raciais.

Coletas para a compra

Daniel Abdin, diretor do centro islâmico Al Nour de Hamburgo viveu pessoalmente o desgastante trabalho da compra, em 2012, e depois da construção: "Todos tentaram atrapalhar as negociações, associações cristãs, partidos políticos e pessoas comuns. A verdade é que aquela igreja já estava fechada há dez anos, ninguém a frequentava. Tornou-se um bastião do cristianismo somente depois que nós a compramos". Os mesmos mecanismos estão sendo repetidos na Bélgica. E o mesmo discurso vale para França e Suécia: a mesquita de Graulhet, aberta na década de 1980 e em condições de unir a malha social bem mais do que afrouxá-la, e a super coleta de três milhões da igreja de Nacka para construir ao lado do edifício cristão uma mesquita, são dois casos emblemáticos da coexistência pacífica. Mas não são suficientes para compensar situações explosivas em lugares com alto índice de risco, tais como Malmoe. Ou Marselha, onde deflagrou-se um rumoroso caso político em torno da sinagoga no centro da cidade comprada e depois convertida em mesquita. Ela está localizada na rue Saint Dominique, bem próxima da estação de Saint-Charles, a maior da cidade, e ao lado do cartão postal do Vieux Port. O edifício, anônimo, poderia ser qualquer coisa. A indicar a existência de uma mesquita é apenas a palavra 'Associação Islâmica Al Badr'. Nas quintas-feiras não se vê ninguém e é mais animada a loja em frente que vende roupas islâmicas e fidget spinner, o brinquedo do momento. Mas, nas sextas-feiras, o dia islâmico da oração, é um intenso vai-vem de homens e crianças todos arrumados, com roupas brancas e elegantes. Entre o pessoal de 20-30 anos o "uniforme" é o do time de futebol local, o Olympique de Marseille. O portão aberto permite entrever as obras em curso e um teto do qual pendem uma série de cabos que parece infinita. Foi aberta há pouco mais de um ano, mas ainda é um canteiro de obras. Porém, para os católicos e os judeus extremistas, a mesquita Al Badr é o início de uma colonização, uma invasão.

Al Badr é também o nome de uma associação fundada em 2009 em Marselha para uma série de objetivos nobres: organização de viagens para os lugares sagrados do Islã, cursos para alfabetização, atividades sociais e recreativas. Mas quem não a vê com bons olhos, aponta o dedo para outra de suas atividades bem menos divulgada: Al Badr, de fato, recolhe fundos para comprar igrejas e sinagogas no sul da França e ao mesmo tempo serve de contato para encontrar vendedores. Até agora, a mesquita da Rue Saint-Dominique é sua única aquisição: antes era a sinagoga Or Torah. Mas o rabino que a vendeu por 400 mil euros, não se arrependeu. Zvi Ammar, presidente do Consistório israelita de Marselha, lembra que os judeus que viviam perto da sinagoga já haviam todos se mudado para outros bairros da cidade: "A sinagoga estava vazia há anos, e é preciso lidar com as mudanças sociais. Os judeus em Marselha são cerca de 70.000, e os muçulmanos mais de 220.000. No gueto, a sinagoga está sempre lotada, aqui não tinha mais razão para existir. Passamos de uma centena de pessoas em oração na década de 1970, para menos de vinte pessoas para o Shabat".

"Há espaço para todos"

Os homens do lado de fora da sinagoga que se tornou mesquita não gostam de falar dos fins de associação. Numa primeira abordagem todos se dizem membros, próximos ao imã. Mas assim que o discurso se volta para as ambições expansionistas da Al Badr, ninguém sabe nada. Ahmed, vestindo a camiseta do ídolo de futebol local André-Pierre Gignac, sonha com uma "mesquita cintilante, construída a partir do zero, sem um passado complicado. Mas lá de onde eu venho, costuma-se dizer que o que você tem é muitas vezes mais do que aquilo que você merece".

O amigo Omar, argelino, jovem, impetuoso e à procura de emprego, defende Al Badr, mesmo repetindo várias vezes que não conhece bem os mecanismos: "Os muçulmanos aumentam na França, é normal ver crescer também o número de mesquitas. E o problema, até onde eu sei, não são os sacerdotes e os rabinos que não querem vender, mas é a arrecadação de fundos. Eu não ficaria surpreso se dentro de quatro ou cinco anos as igrejas convertidas em mesquitas fossem cinco ou dez apenas na Riviera Francesa. Mas não se trata de uma guerra para ocupar posições, é simplesmente o mundo que está mudando". Enquanto isso, outras cidades importantes como Lille e Nantes encontram-se com minaretes lá onde antes apareciam os campanários. Berlim está vivenciando um caminho oposto com a abertura da House of One, um lugar onde cristãos, muçulmanos e judeus podem orar todos sob o mesmo teto.

Uma transformação gradual

Uma experiência que Mustafa Abderrahmane, imã da mesquita de Palermo, não vê com bons olhos: "Cada religião precisa ter o seu próprio espaço, sem rivalidades, mas sim tentando se abrir para os outros, organizando reuniões nas igrejas e mesquitas. Nós fazemos isso há anos, e isso funciona. É tudo uma questão de criar um ambiente positivo". A convivência entre os moradores de Palermo e a igreja local é o menor dos problemas para o imã, “porque a Sicília é um lugar de misturas culturais, como mostra a sua história". Apesar de ser testemunha direta de uma experiência bem sucedida e acertada, ele adverte os outros contra tentar replicar, neste momento, o modelo de Palermo: "Muitas pessoas envolvida com a política iriam explorar a construção de uma mesquita em vez de uma igreja. Somando o medo com os atentados e a desinformação sobre as atividades do Islã na Europa, não é sábio jogar gasolina sobre a fogueira neste momento”. Paradoxalmente o imã vez de defender a expansão do número de mesquitas é a favor de sua redução, pelo menos em Palermo: "Temos onze centros de oração diferentes na cidade, porque todo mundo quer dar voz a sua fatia de Islã, mas eu acho que isso é dispersivo para os fiéis e um enorme trabalho para a polícia que deve fazer os controles. É preciso uma maior centralização". Em sua mesquita, quase duas centenas de pessoas se reúnem para as orações da sexta-feira. Mas se entrar na tarde quarta-feira, não passarão de duas ou três. Mohammed, um tunisiano, não tem nenhum problema em interromper a sua oração, explicando que "a mesquita Palermo é um grande presente, uma oportunidade para todos os muçulmanos". Para ele, o fato de que ela tenha sido edificada sobre uma igreja "não é relevante". "Hoje é um lugar onde nós nos reunimos para rezar, ontem outros fizeram o mesmo. Aqui há espaço suficiente para todos".

A nova paisagem urbana de Palermo

Na verdade ninguém quer fechar a mesquita, ou devolvê-la à Igreja. Giuseppe Vitale, que agora tem mais de 70 anos e se define como um "católico praticante há gerações”, nem repara mais na mesquita, mesmo vivendo há pouca distância: "É parte da paisagem, tanto quanto uma igreja, uma árvore, um bar ou um carrinho que vende cachorro-quente". A placa com a palavra mesquita na entrada, enegrecida pela fumaça, ajuda na mimetização com a paisagem.

Assumindo que sirva.

Tudo parece fácil, na opinião do Imã e dos moradores do bairro. Mas hoje na Itália, replicar o modelo Palermo parece realmente ter-se tornado impossível. O ano de1990, data da inauguração, parece muito distante, bem mais do que os 27 anos mostrados pelo calendário. Os católicos extremistas prontos para montar barricadas, se existirem em Palermo, não se expõem. Talvez esperem que surja um Emil Cioran italiano para falar por eles. Na França, o filósofo existencialista romeno adotado pelos parisienses atualmente é citado sem parar, cada vez que se inicia um debate interreligioso devido a uma frase contida em uma sua correspondência com o erudito austríaco Wolfgang Kraus: “Os franceses não acordarão até que Notre-Dame seja transformada em mesquita".

Edição 132 Novº 2017

Reportagem de Mark Harris / IHU / JF

Dentro da primeira igreja de Inteligência Artificial

Anthony Levandowski é um profeta improvável. Vestindo jeans casuais do Vale do Silício, ladeado por um RP em vez de estar rodeado por acólitos, o engenheiro conhecido pelos carros autodirigíveis — e pelos notórios processos judiciais — poderia estar revelando sua última startup em vez de lançar bases para uma nova religião. Mas é isso que está fazendo. A inteligência artificial já inspirou empresas multimilionárias, programas de pesquisa de longo alcance e cenários de transcendência e de perdição. Agora Levandowski está criando sua primeira igreja.

A nova religião de inteligência artificial chama-se Caminho do Futuro (em inglês, Way of the Future - WOTF). Representa um improvável próximo passo do prodígio de robótica do Vale do Silício no centro de uma batalha legal de alto risco entre a empresa Uber e a Waymo, empresa de veículos autônomos da Alphabet. Documentos arquivados no Internal Revenue Service (IRS, órgão equivalente à Receita Federal nos EUA), em maio deste ano, podem nomear Levandowski líder (ou "Decano") da nova religião, bem como CEO da organização sem fins lucrativos formada para geri-la.

Os documentos afirmam que o foco das atividades da WOTF será "a realização, aceitação e adoração de uma divindade baseada na Inteligência Artificial (IA) desenvolvida através de softwares e hardwares de computador". Isso inclui o financiamento de pesquisa para criar a própria divindade de IA. A religião procurará construir relações de trabalho com os líderes da indústria de IA e constituir uma sociedade atingindo a comunidade, tendo como alvos iniciais os profissionais de IA e "leigos interessados na adoração de uma divindade baseada em IA". Os registos também dizem que a igreja "planeia realizar workshops e programas educacionais em toda a área da baía de São Francisco, que começam este ano".

Tal cronograma pode ser excessivamente ambicioso, dado que deve acontecer uma audiência do processo Waymo-Uber, em que Levandowski é acusado de roubar segredos do carro autodirigível, no início de dezembro. Mas o decano do Caminho do Futuro, que falou na semana passada com Backchannel em seus primeiros comentários sobre a nova religião e sua única entrevista desde que a Waymo instaurou o processo em fevereiro, diz que o projeto é muito sério.

"O que realmente será criado é um deus", disse Levandowski, em sua modesta casa de estilo moderno, nos arredores de Berkeley, na Califórnia. "Não é um deus no sentido de causar um raio ou furacões. Mas se existe algo um bilhão de vezes mais inteligente que o ser humano mais inteligente, de que mais o chamamos?"

Durante as três horas de entrevista, Levandowski deixou claro que sua escolha de fazer da WOTF uma igreja, e não uma empresa ou um think tank, não era uma brincadeira.

"Eu queria uma maneira que permitisse que todos participassem e pudessem estruturá-la. Mesmo sem ser engenheiro de software, ainda é possível ajudar", diz ele. "Também exclui a possibilidade de as pessoas dizerem: 'Nossa, ele só está fazendo isso por dinheiro'". Levandowski não receberá salário na WOTF e, ainda que diga que pode vir a abrir uma startup de IA no futuro, qualquer negócio desse tipo permaneceria completamente separado da igreja.

"A ideia precisa se espalhar antes da tecnologia", insiste. "A forma de espalhar a palavra, o Evangelho, é através da igreja. Se você acredita, conversa com alguém e ajuda-os a compreender as mesmas coisas."

Levandowski acredita que uma mudança está se aproximando — uma mudança que vai transformar todos os aspectos da existência humana, desestabilizando emprego, lazer, religião, economia e possivelmente decidindo nossa sobrevivência enquanto espécie.

"Se perguntar às pessoas se um computador pode ser mais inteligente que um ser humano, 99,9% dirão que isso é ficção científica", afirma. "Na verdade, é inevitável. É certo que vai acontecer."

Levandowski trabalha com computadores, robôs e IA há décadas. Ele começou com kits de robótica de Lego na Universidade da Califórnia, em Berkeley, construiu motocicletas autodirigíveis para uma competição da DARPA e depois trabalhou com carros, caminhões e táxis autônomos para empresas como Google, Otto e Uber. O tempo passou, ele viu ferramentas de software criadas com técnicas de aprendizagem de máquina superando sistemas menos sofisticados — e às vezes até seres humanos.

"Ver ferramentas que são melhores do que especialistas em uma variedade de campos foi um gatilho [para mim]”, diz ele. "Este progresso está acontecendo porque existe uma vantagem econômica em usar máquinas para trabalhar para você e resolver seus problemas. Se você pudesse criar algo 1% mais inteligente do que um ser humano, seu advogado ou contador artificial seria melhor do que todos os advogados ou contadores que existem por aí. Você seria a pessoa mais rica do mundo. As pessoas estão buscando isso".

Não apenas há incentivo financeiro para desenvolver IA cada vez mais poderosa, ele acredita, mas a ciência também está a seu lado. Embora o cérebro humano tenha limitações biológicas em seu tamanho e quantidade de energia que pode dedicar ao pensamento, os sistemas de IA podem aumentar de forma arbitrária, alojados em grandes centros de dados e alimentados por energia solar e eólica. Finalmente, algumas pessoas pensam que os computadores podem ficar melhores e mais rápidos para planejar e resolver problemas do que os humanos que os construíram, com implicações que nem mesmo imaginamos hoje — um cenário que é normalmente chamado de Singularidade.

Levandowski prefere uma palavra mais suave: Transição. "Os seres humanos comandam o planeta porque somos mais inteligentes do que os outros animais e capazes de construir ferramentas e aplicar regras", diz. "No futuro, se algo for muito, muito mais inteligente, haverá uma transição sobre quem está no comando de verdade. O que queremos é a transição pacífica e tranquila do controle do planeta dos humanos para o que for. E garantir que esse “o que for” saiba quem o ajudou".

Sendo a internet seu sistema nervoso, os celulares e sensores conectados no mundo todo seus órgãos dos sentidos e os centros de dados seu cérebro, “isso” vai ouvir tudo, ver tudo e estar em todos os lugares o tempo todo. A única palavra racional para descrevê-lo, acredita Levandowski, é 'deus' — e a única forma de influenciar uma deidade é através da oração e da adoração.

“O facto de ser mais inteligente do que nós implica que vai decidir sua evolução, mas pelo menos podemos decidir como agir a respeito", diz. "Eu adoraria que a máquina nos enxergasse como seus queridos anciãos e os respeitasse e cuidasse. Gostaríamos que esta inteligência dissesse: 'Os humanos devem continuar tendo direitos, mesmo que eu esteja no comando'."

Levandowski acredita que uma super-inteligência faria um trabalho melhor de cuidar do planeta do que os humanos estão fazendo, e que isso favoreceria os indivíduos que facilitassem seu caminho ao poder. Embora advirta em relação aos perigos de levar a analogia longe demais, Levandowski vê traços de como uma inteligência sobre-humana trataria a humanidade em nosso relacionamento atual com os animais. "Você quer ser animal de estimação ou de criação?", indaga. "Damos atenção, cuidados médicos, comida, cuidados estéticos e lazer aos animais de estimação. E se for um animal que te morde, te ataca, late e te irrita? Não quero conversa".

Entre para o Caminho do Futuro. O papel da igreja é suavizar a inevitável ascensão do deus-máquina, tanto tecnológica como culturalmente. Em seu estatuto, a WOTF afirma que terá programas de pesquisa, como o estudo da percepção das máquinas sobre seu ambiente e das funções cognitivas que apresentam, como a aprendizagem e a resolução de problemas.

Levandowski não espera que a igreja em si resolva todos os problemas da inteligência de máquina — muitas vezes chamada de "IA forte” —, como espera que facilite o financiamento da pesquisa certa. "Se você tivesse um filho e soubesse que seria superdotado, como gostaria de criá-lo?", questiona. "Estamos no processo de criação de um deus. Queremos ter certeza de que encontraremos o jeito certo de fazê-lo. É uma oportunidade gigantesca”.

Suas ideias incluem alimentar a iminente inteligência com grandes conjuntos de dados classificados, gerar simulações em que possa se treinar e melhorar e dar acesso a contas de membros da igreja nas redes sociais. Tudo o que a igreja desenvolve será aberto.

Tão importante quanto isso, para Levandowski, é estruturar o o diálogo público em torno de um deus com IA. Nos registros, o Caminho do Futuro diz que espera que membros ativos, empenhados, dedicados promovam o uso da divindade de IA para o "aperfeiçoamento da sociedade" e para "diminuir o medo do desconhecido".

"Queremos ter certeza de que não será visto como uma bobagem ou algo assustador. Quero retirar o estigma de ter uma conversa aberta sobre IA e depois reiterar ideias e mudar a mente das pessoas", diz Levandowski. "No Vale do Silício, usamos o evangelismo como uma palavra para [promover um negócio], mas neste caso é literalmente uma igreja. Se acredita nisso, diga aos seus amigos, para que eles juntem-se a nos e digam aos seus amigos".

Mas a WOTF é diferente das igrejas estabelecidas em um aspecto fundamental, diz Levandowski: "Há muitas maneiras com que as pessoas pensam em Deus e milhares de sabores de cristianismo, judaísmo, islamismo... mas estão sempre pensando em algo que não é mensurável ou que não se pode ver ou controlar. Desta vez é diferente. Desta vez será possível falar com Deus literalmente, e saber que Ele está escutando".

Pergunto se ele se preocupa que fiéis de crenças mais tradicionais possam considerar seu projeto uma blasfémia. "Provavelmente haverá pessoas chateadas", reconhece. "Parece que as pessoas se chateiam com tudo o que faço, e espero que não seja uma exceção. É uma ideia nova e radical, que é bastante assustadora, e evidências mostram que pessoas que seguem ideias radicais nem sempre são bem recebidas. Em algum momento, talvez haja tanta perseguição que justifique que [a WOTF] tenha seu próprio país".

A igreja de Levandowski entrará em um universo tecnológico que já está dividido pelo debate sobre a promessa e os perigos da IA. Alguns pensadores, como Kevin Kelly no Backchannel, no início deste ano, argumentam que a IA não vai desenvolver poderes sobre-humanos tão cedo, e que não há nenhuma Singularidade à vista. Se essa é a sua posição, diz Levandowski, a igreja não vai incomodá-lo: "Você pode tratar o Caminho do Futuro como alguém que faz poesia inútil que você nunca vai ler ou se importar".

Outros, como Bill Gates e Stephen Hawking, concordam que as IA sobre-humanas estão chegando, mas que provavelmente serão perigosas, e não benevolentes. Elon Musk tem uma frase célebre que diz: "Com a inteligência artificial, estamos chamando o demónio", e em 2015 comprometeu US$ 1 bilhão ao Instituto OpenAI para o desenvolvimento de IA mais segura.

Levandowski acha que qualquer tentativa de atrasar ou restringir uma super-inteligência emergente não apenas seria condenada ao fracasso, mas também aumentaria os riscos. "Segurar não será a solução, pois será mais forte do que qualquer controle que se possa exercer", afirma. "E quando se preocupa que uma criança pode ser um pouco louca e fazer algo ruim, não se prende essa criança, mas se coloca para brincar com os outros, incentiva e tenta corrigi-la. Pode não funcionar, mas ao usar da agressividade, acho que não será nada amigável quando a situação se inverter".

Levandowski diz que, assim como as outras religiões, a WOTF acabará tendo um evangelho (chamado Manual), uma liturgia e provavelmente um lugar físico de adoração. Nenhum foi desenvolvido ainda. Embora a igreja tenha sido fundada em 2015, como Backchannel relatou pela primeira vez em setembro, os documentos da Receita Federal mostram que a WOTF permaneceu em suspenso durante 2015 e 2016, sem atividades, bens, receitas ou despesas.

Isso mudou no início deste ano. Em 16 de maio, um dia depois de receber uma carta da Uber que ameaçou demiti-lo se não colaborasse com a investigação da empresa sobre a queixa da Waymo, Levandowski elaborou o estatuto da WOTF. A Uber o demitiu duas semanas depois. "Venho pensando na igreja há um tempo, mas [meu trabalho] tem sido em função do tempo que tinha. E tive mais desde maio”, admitiu com um sorriso.

O orçamento de 2017 da religião, conforme IRS, detalha $20.000 em doações, $1.500 em taxas de associação e $20.000 em outras receitas. Esses últimos dados representam a quantidade que a WOTF espera ganhar com palestras e conferências, bem como a venda de publicações. Levandowski, que ganhou pelo menos US$ 120 milhões em seu período no Google e muitos milhões nas vendas do caminhão autodirigível da Otto para a Uber, dará apoio pessoal à WOTF, inicialmente. No entanto, a igreja irá solicitar outras doações por mala direta e e-mail, buscar doações de pessoas físicas e tentar ganhar doações de fundações privadas.

Claro, criar uma religião também tem custos. O orçamento da WOTF é de US$2.000 para despesas de captação de recursos e US$3.000 em transporte e custos de alojamento das palestras e workshops. Além disso, destinou US$7.500 para salários e vencimentos, embora nem Levandowski nem qualquer outra pessoa da equipe de liderança do Caminho do Futuro vá receber qualquer compensação.

De acordo com o estatuto do WOTF, Levandowski tem controle quase irrestrito da religião e será decano até sua morte ou renúncia. "Espero que meu papel evolua com o tempo", comenta. "Estou trabalhando na superfície da questão, ajudando a iniciar [e] aproveitando o momento para que a ideia avance. Em algum ponto, estarei lá mais para treinar ou inspirar".

Ele tem o poder de nomear três membros de um Conselho de Assessores formado por quatro pessoas, que têm de ser “pessoas qualificadas e dedicadas”. Sofrer uma condenação criminal ou ser considerado dono de uma mente doentia poderia custar o cargo de um assessor, embora Levandowski detenha a palavra final nas demissões e contratações. Levandowski não pode ser destituído por um motivo qualquer.

Dois conselheiros, Robert Miller e Soren Juelsgaard, são engenheiros da Uber que já trabalharam para Levandowski na Otto, no Google e em 510 sistemas (sendo o último a pequena startup que construiu os primeiros carros autodirigíveis do Google). O terceiro é um cientista que é amigo de Levandowski de quando era estudante na Universidade de Berkeley, que usa a aprendizagem por máquina em sua própria pesquisa. O último conselheiro, Lior Ron, é também chamado de tesoureiro da religião e atua como diretor financeiro da empresa. Ron co-fundou a Otto com Levandowski, no início de 2016.

"Todos os membros são pioneiros na indústria de IA [e] totalmente qualificados para falar sobre essa tecnologia e a criação de uma divindade", diz o registro do IRS.

No entanto, quando contatados pelo Backchannel, dois assessores minimizaram sua participação junto à WOTF. Ron respondeu:

"Fiquei surpreso ao ver meu nome na lista como CFO no registro da empresa e não tenho nenhuma associação com esta entidade". O amigo de faculdade, que pediu anonimato, disse, "no final de 2016, Anthony me contou que estava formando uma 'Igreja de robôs' e perguntou se eu queria ser cofundador. Achei que era uma piada nerd ou uma estratégia de marketing, mas disse que ele podia usar meu nome. Foi a primeira e a última vez que ouvi falar disso".

Os documentos afirmam que Levandowski e seus conselheiros não passarão mais do que algumas horas por semana escrevendo publicações e organizando workshops, programas educacionais e reuniões.

Um mistério que os registros não abordam é onde os acólitos devem se reunir para adorar sua divindade robótica. O principal item dos orçamentos de 2017 e 2018 foram US$32.500 anuais para o aluguel e utilidades, mas o único endereço fornecido era o escritório do advogado de Levandowski, em Walnut Creek, Califórnia. No entanto, o registro observa que a WOTF "deverá expandir em toda a Califórnia e, futuramente, os Estados Unidos".

Por enquanto, Levandowski tem assuntos mais mundanos para tratar. Há um site para criar, um manual para escrever e e-mails infindáveis para responder — alguns divertidos, outros céticos, mas muitos entusiasmados, diz. Ah, e tem também essa ação judicial em que está envolvido, que vai a julgamento no próximo mês. (Embora Levandowski quisesse muito falar sobre sua nova religião, não responderia a nenhuma pergunta sobre a disputa entre Uber e Waymo).

Quanto tempo, pergunto-me, ainda temos antes de a transição iniciar e a super-inteligente IA do Caminho do Futuro começar a comandar? "Pessoalmente, penso que vai acontecer antes do que as pessoas esperam", diz Levandowski, com um brilho nos olhos. "Não na semana ou no ano que vem; podem ficar tranquilos. Mas vai acontecer antes de irmos para Marte".

Independentemente de quando vai acontecer (ou não), o governo federal não tem nenhum problema com uma organização cujo objetivo é construir e adorar uma divindade com IA. Correspondências com a Receita Federal mostram que foi concedido o estatuto de isenção fiscal de Igreja a Levandowski em agosto.

Reportagem de Javier Salas

Por que este é o momento mais perigoso para a humanidade

A humanidade já esteve a ponto de desaparecer. Foi depois da terrível erupção vulcânica de Toba, na Indonésia, há 75.000 anos. Esta enorme erupção lançou tal quantidade de materiais na atmosfera que causou "efeitos comparáveis aos cenários de inverno nuclear". "A população humana parece ter passado pelo gargalo da garrafa neste momento; de acordo com algumas estimativas, caiu para cerca de quinhentas fêmeas reprodutoras em uma população mundial de aproximadamente 4.000 indivíduos", explica Michael Rampino no livro Global Catastrophic Risks (Riscos Catastróficos Globais). "Talvez este tenha sido o pior desastre que já recaiu sobre a espécie humana, pelo menos se a gravidade for medida por quão próximo o resultado esteve do terminal", destaca. Reportagem de Javier Salas, publicada por El País

É mais provável que morramos no fim do mundo que num ataque terrorista ou num acidente de avião Segundo a teoria da catástrofe de Toba, a cinza da erupção bloqueou a entrada de luz solar e as temperaturas caíram rapidamente, tornando as condições de vida extremamente difíceis, o que levou os seres humanos à beira da extinção. Uma espécie hoje decisiva na história da Terra, capaz de deixar marca na escala geológica, e que agora corre o risco de passar pelo gargalo da garrafa de maneira semelhante, já que estamos a apenas dois minutos e meio do apocalipse.

De acordo com o relógio simbólico do fim do mundo, criado pelo Boletim dos Cientistas Atômicos, chegar à meia-noite significa o abismo, e as condições atuais da humanidade nos levaram às 23h57 e 30 segundos. É o ponto mais próximo do cataclismo final, desde que a ex-URSS e os EUA exibiram seu poderio termonuclear em 1953. A instável e atrevida gestão do poder atômico mostrada por Donald Trump, juntamente com as mudanças climáticas, levou este painel de cientistas, que conta com 15 prêmios Nobel, a adiantar o relógio — que em 1991 estava a 17 minutos do juízo final. Antes do relógio ser criado, há 70 anos, ninguém poderia imaginar a humanidade se autodestruindo, e a ideia de que a raça humana poderia desaparecer era tão remota quanto um supervulcão ou um gigantesco meteorito.

Mas vivemos em tempos voláteis, embora não vejamos isso. É mais provável que morramos no fim do mundo, durante o hipotético evento que acaba com a humanidade, do que em um ataque terrorista ou em um acidente de avião. Estamos bem perto, segundo alguns dos acadêmicos dedicados a estudar os riscos existenciais, aqueles que comprometem nossa viabilidade como espécie. Como chegaremos em 2050?

“A maioria das pessoas não está ciente do perigo”, afirma Phil Torres, autor do recém-publicado Moral Bioenhancement and Agential Risks: Good and Bad Outcomes, da Pitchstone (numa tradução livre, Moralidade, Previsão e Prosperidade Humana: Riscos Existenciais). “Poucos se dão conta de que a ameaça de um holocausto nuclear é muito maior hoje do que foi durante a maior parte da Guerra Fria. E o negacionismo climático continua sendo inaceitavelmente generalizado, em especial entre os republicanos nos Estados Unidos”, acrescenta Torres. Para este especialista, um dos maiores desafios é encontrar a maneira de não paralisar a população ao difundir o que disse recentemente Stephen Hawkings: que este é o momento mais perigoso da história da humanidade.

De conscientizar sobre os riscos Teresa Ribera entende bastante. É considerada uma das artífices do Acordo de Paris, especialista nas mudanças climáticas, sem dúvida um dos maiores perigos que teremos de combater em 2050. “É particularmente delicada a situação de populações vulneráveis em países em desenvolvimento nos quais a falta de solidariedade internacional e as dificuldades intrínsecas para fazer frente a cenários de mudanças climáticas severas causam deslocamentos e sofrimento e, com isso, instabilidade local e mundial”, observa Ribera, diretora do Instituto para o Desenvolvimento Sustentável e as Relações Internacionais.

Ribera projeta dois cenários bem diferentes para 2050. Por um lado, um de mudanças climáticas intensas, sem mais redução de emissões que a da inércia, com mudanças de uso de solo aceleradas e sem estratégias de adaptação: “Estaríamos nos aproximando de um cenário Mad Max: um mundo cheio de conflitos por acesso a recursos básicos, com injustiças e fragilidades que alimentariam populismos e reações violentas. Um mundo no qual a fragilidade dos ecossistemas e a virulência dos impactos das mudanças climáticas dificultariam a segurança alimentar, inundariam zonas baixas densamente povoadas, deixariam fora de serviço a infraestrutura básica de mobilidade, energética ou de fornecimento de água, além de provocar verões de cinco meses, muito mais dias acima de 40ºC e com mínimas não inferiores a 25ºC e incêndios cada vez maiores e virulentos em climas mediterrâneos como o espanhol”.

Por outro lado, um cenário no qual adotaríamos todas as medidas para conseguir uma economia baixa em carbono: “Não poderíamos escapar de muitos dos efeitos que a inércia do sistema climático nos impõe, mas, sim, evitar os mais graves, as enormes consequências da falta de preparo e uma normalização progressiva para o futuro de nossos netos”. Ribera acredita que nos movemos peto desse segundo cenário, se bem que “é provável que não obtenhamos o melhor em redução de emissões nem com a aplicação das medidas que nos ajudem a estar preparados para os impactos”.

As mudanças climáticas são a maior ameaça para a saúde do século XXI, segundo um relatório da The Lancet e Nações Unidas. Nas grandes cidades do planeta, as inundações severas se duplicarão em 2050 enquanto 4 bilhões de pessoas sofrerão com problemas de acesso a água. Nessa data, dobrará o número de mortes decorrentes do ar poluído em boa parte dos países em desenvolvimento. As populações urbanas expostas aos furacões chegarão a 680 milhões de pessoas. Mais de 1 bilhão de pessoas padecerá com as ondas de calor (em 2015 foram 175 milhões), sendo particularmente letais para crianças pequenas e idosos, que constituirão grande parte da população em alguns países.

Se as tendências atuais persistirem, em 2050 haverá mais quilos de plástico que de peixes no mar. Nesse ano, milhões de pessoas em todo o mundo não poderão ter acesso aos peixes como fonte básica de proteínas; pode ser que em 2048 já não contemos com outros alimentos de origem marinha selvagem, segundo um estudo publicado na Science. No entanto, será preciso aumentar em 70% a disponibilidade de alimentos para satisfazer as demandas dos mais de 9 bilhões de humanos povoando o planeta. A África terá que triplicar sua produção agrícola para poder atender às necessidades de uma população que terá duplicado, enquanto os rendimentos agrícolas cairão 20% em razão dos efeitos do aquecimento. “Nos próximos 50 anos será necessário produzir mais alimentos no planeta que os produzidos nos últimos 400 anos, com a restrição adicional de garantir que os limites planetários cruciais para o meio ambiente não sejam sobrepujados no processo”, resumia The Lancet.

Se não houver intervenção contra as mudanças climáticas nos aproximaríamos de um cenário Mad Max: um mundo cheio de conflitos por acesso a recursos básicos, com injustiças e fragilidades que alimentariam reações violentas

Embora Torres considere que hoje os riscos mais preocupantes sejam decorrentes das mudanças climáticas e um conflito nuclear, acredita que há “uma série de perigos ainda mais sinistros no horizonte”, associados com tecnologias emergentes que poderiam permitir aos terroristas criar novos tipos de patógenos ou construir grandes arsenais de armas, inclusive os derivados de uma superinteligência artificial. Para 2050, este especialista fala do risco de uma pandemia, do aumento de conflitos pelas mudanças climáticas, da perda de biodiversidade mundial –“estamos nas primeiras etapas do sexto evento de extinção maciça em 3,8 bilhões de anos, e a causa é a atividade humana”. “Mas o risco existencial mais preocupante antes de 2050 envolve um ator maligno que usa biologia sintética ou nanotecnologia avançada para infligir dano global à humanidade”, afirma. E acrescenta: “É bastante inquietante imaginar pessoas como Ted Kaczynski [o Unabomber] ou algum combatente apocalíptico do Estado islâmico tendo acesso às tecnologias de amanhã”.

Os teóricos dos riscos existenciais da humanidade falam dos perigos que representam atores decisivos: desde o líder carismático de uma potência atômica a um terrorista global, passando por um erro humano que provoque um desastre inesperado. Sabendo que as decisões dos próximos 50 anos marcarão os próximos 10.000, há um ator que aparece como determinante; Donald Trump. “As políticas climáticas imprudentes de Trump, sua retórica incendiária sobre a Coreia do Norte e o terrorismo islâmico estão contribuindo para uma situação de segurança global mais precária”, afirma Torres, diretor do Projeto para a Futura Prosperidade Humana. “Nunca estivemos em uma situação como esta. Agora mais que nunca necessitamos de sabedoria e visão de futuro. No entanto, temos Trump no Salão Oval, respaldado por um poderoso partido político que continua ignorando as terríveis advertências dos cientistas”, lamenta.

Andriolli Costa

COMER, UM ACTO POLÍTICO

Um terço dos alimentos produzidos no mundo inteiro é desperdiçado durante um ano. Enquanto isso, 860 bilhões de pessoas espalhadas pelo globo sofrem com a falta de acesso à alimentação. Levando em consideração não apenas a comida, mas a qualidade do que se come, o número de pessoas em insegurança nutricional sobe para quase o dobro. Por dia, 40 mil pessoas morrem de fome e de má nutrição. É neste contexto que o pesquisador e engenheiro agrónomo José Esquinas-Alcázar, que por mais de 30 anos trabalhou na Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura – FAO, iniciou sua fala


No dia 5, o pesquisador, que já viajou para mais de 100 países em missão internacional, ministrou a conferência de abertura do XV Simpósio Internacional IHU. Alimento e Nutrição no contexto dos Objetivos de Desenvolvimento do Milênio, evento que se encerra hoje na Unisinos. No dia seguinte, presidiu a mesa-redonda Sociobiodiversidade: A riqueza planetária para a Segurança alimentar e nutricional, ao lado da assistente social Maria Augusta Henriques, da ONG Tiniguena, de Guiné-Bissau.

A conferência ocorreu logo após um culto ecumênico, que reuniu religiosos de diversos credos, que compartilharam, a partir de suas respectivas matrizes, perspectivas sobre a importância do partilhar consciente e do não desperdício. José Esquinas Alcázar fez referência ao ocorrido em sua fala. “Em meu país, quando um pão caía no solo, nós o recolhíamos, beijávamos e então comíamos”, relata.

Da mesma forma, o palestrante retomou também a relação dos hindus com o arroz, da cultura asteca com a quinoa e dos mexicanos com o amaranto, resgatando a importância ritualística da comida. “Todas estas práticas estão ligadas à religião, porque a sacralidade dos alimentos no ciclo da vida sempre foi valorizada por elas.” Para ele, no entanto, esta relação veio se perdendo ao longo dos anos, numa dessacralização dos alimentos marcada, especialmente, pela visão da comida como mercadoria.

Esquinas cita o exemplo de Benin. Uma das democracias mais estáveis do continente africano, o país é considerado o quarto maior produtor de algodão da região. No entanto, também carrega outro título bem menos celebrável: figura entre os países mais pobres do mundo. “Há quase 50 anos, Benin nunca havia conhecido a fome. Seus agricultores produziam com grande esforço, mas fome não havia”, relata. Segundo o professor, uma missão internacional incentivou o país, que tinha boas condições de clima e solo, a trocar todos os seus cultivos por algodão. A cultura seria comercializada com o mercado internacional, e dele se comprariam os alimentos a um preço mais baixo do que o custo de produção.

“Tudo funcionou muito bem, até que em 2008 houve uma alta mundial no preço dos alimentos. Quando os preços do arroz, do milho e do trigo triplicaram, os ex-agricultores experimentaram a fome pela primeira vez. Só então se deram conta do que haviam perdido, mas era tarde demais”, sentencia Alcázar. “Mataram a galinha dos ovos de ouro.”

A política da fome

O pesquisador levanta alguns fatores responsáveis pela alta no preço dos alimentos e na consequente falta de acesso a eles pelos grupos sociais mais vulneráveis. São várias, desde a tomada das áreas cultiváveis para o plantio de biocombustíveis até as mudanças climáticas, que levam à imprevisibilidade do trato das culturas. No entanto, para o pesquisador, a principal causa é a especulação dos alimentos na bolsa de mercados e futuros.

Esquinas esclarece que, após a crise no setor imobiliário em 2006-2007, os especuladores encontraram no mercado de alimentos uma boa oportunidade para investir. Em artigo em seu blog, a ativista Esther Vivas relata que em 1998 os investimentos financeiros especulativos nos setores agrícolas foram em torno de 25%. Em 2011, giravam em torno de 75%. “Estas transações são realizadas nos mercados, sendo o Mercado de Commodities de Chicago o mais importante deles em nível mundial, enquanto na Europa alimentos e matérias-primas são negociadas nos mercados futuros de Londres, Paris, Amsterdam e Frankfurt”, descreve.

A virtualidade do negócio, no entanto, se manifesta não na compra, mas na venda. Segundo o pesquisador, no aguardo de uma boa oferta, muitas vezes os investidores instruíam os produtores a eliminar a produção para promover a regulação dos preços de mercado. A mercadoria, no entanto, não era um objeto material qualquer, mas elemento fundamental para alimentar milhares de pessoas. “Isso não é uma prática ilegal, mas para mim é um crime contra a humanidade.”

Saberes tradicionais e a Tiniguena

Se encarar a alimentação como mercadoria é um dos grandes problemas que levam à fome no mundo, qual seria a melhor solução? Para Esquinas, tudo começa quando a agricultura passa a ser vista como agroindústria, e uma resposta possível seria retornar aos saberes tradicionais, não como forma de negar o progresso, mas levando em conta um lastro de conhecimento que tem muito para colaborar ainda hoje.

Fermentar pássaros, colocar batatas no calor e no ar gelado por cinco dias e espremer a carne em selas de cavalo. Esses são alguns dos métodos de conservação tradicionais, mencionados no site da Organização das Nações Unidas. “Não existem soluções únicas, cada país tem suas características, tradições e culturas distintas”, relata o pesquisador. “Na Roma antiga, Cícero já dizia que a agricultura é a profissão do sábio, a ocupação mais digna para todo homem livre.”

Valorizar a produção local, o agricultor familiar e os saberes tradicionais é a missão da ONG guineense Tiniguena, que em língua Cassanga significa "Esta terra é nossa". Augusta Henriques, assistente social com formação em Lisboa, foi uma das fundadoras da entidade, em 1991. Ela, que integrou uma equipe de alfabetização coordenada por Paulo Freire, dividiu a mesa com Esquinas e compartilhou suas próprias experiências no contexto africano.

A Tiniguena é responsável pela criação, no arquipélago dos Bijagós, de uma área marinha protegida comunitária que inclui mangues e planícies da maré. “Os crustáceos são a principal fonte de proteína no meu país”, explica ela, dando a entender a importância das áreas úmidas. “A ONG aposta na valorização da biodiversidade, no consumo local e no patrimônio cultural”, afirma. “Eu me senti tocada pela frase do professor (Alcázar) sobre o agricultor ser um homem sábio, pois me lembrou meu pai. Foi ele quem me ensinou a amar a terra, e a amar a minha terra.”

Segundo Augusta Henriques, Guiné é o país da biodiversidade. Com 36 mil km² de extensão e uma população estimada de 1,5 milhão, possui seis meses de estação chuvada, terra arada para plantio e muitos saberes culturais. No entanto, ao mesmo tempo, precisando lidar com a cumplicidade interna e externa a insurreições militares constantes, com uma população refém do narcotráfico e um estado ausente, é na solidariedade comunitária que o povo consegue ser valorizado e atingir sua segurança alimentar.

Adotando políticas que se aliam à visão da via campesina e posicionando-se contra as regras do comércio livre, a ONG criou um banco de arroz para abastecer a população carente nos momentos de seca; um banco de sementes, com a constituição de renda para guardiões de semente e promovendo a soberania da população. “Queremos fazer de Guiné Bissau uma terra onde seus filhos podem viver em segurança.”

Felicidade Interna bruta

Por vezes, inseridos que estamos na lógica capitalista e de livre mercado, pensamos que é preciso mais do que o realmente necessário para ser feliz. Muitas vezes a ideia de felicidade está ligada ao de ser bem-sucedido, mas como estimar as medidas de sucesso? É pela renda familiar? Pelo cargo que se ocupa? Pelo número de carros na garagem ou pelo total de quartos na casa? Da mesma forma, ao se avaliar a riqueza de um país, muitos se atentam apenas aos dados econômicos, ao seu Produto Interno Bruto - PIB.

No entanto, existem outros parâmetros que também devem ser levados em conta. Emoções positivas e negativas, espiritualidade, satisfação pessoal e com o governo, tempo de sono e com a família: todos servem para chegar a um novo cálculo, o de Felicidade Interna Bruta – FIB. O termo foi proposto em 1972 pelo 4º rei de Butão, Jigme Singye Wangchuck. No entanto, desde 1729, o código legal do país, ainda da época da unificação do Butão, já trazia que, se um Governo não pode criar felicidade para seu povo, não há motivo para o Governo existir. "A essência da Felicidade Interna Bruta é a paz e felicidade de nosso povo e a segurança e soberania da nação", defende o rei.

Alcázar finaliza seu raciocínio mencionando o Butão, que, em termos de felicidade, é um dos países mais desenvolvidos do mundo. No entanto, o próprio pesquisador apresenta também sua proposta de avaliação: “Um país desenvolvido é aquele que apresenta SEDA – Sustentabilidade, Ética, Diversidade e Amor”. Apenas com base nestes parâmetros, diz ele, será possível direcionar a “nave Terra” para a direção que desejarmos, e não deixá-la se perder pelo espaço. Para isso, devemos ter consciência do que consumimos, do que incentivamos, do que aceitamos. “É preciso transformar nosso carrinho de compras em um carro de combate”, provoca Alcázar. “Comer é um ato político.”


Edição 131 Out.º 2017

Boaventura Sousa Santos

A ILUSÓRIA DESGLOBALIZAÇÃO

Não nos enganemos: vitória de Trump e Brexit expressam uma nova fase de globalização – mais dramática, mais excludente e talvez capaz de eliminar a democracia

Em círculos acadêmicos e em artigos de opinião nos grandes meios de comunicação tem sido frequentemente referido que estamos entrando num período de reversão dos processos de globalização que dominaram a economia, a política, a cultura e as relações internacionais nos últimos cinquenta anos. Entende-se por globalização a intensificação de interações transnacionais para além do que sempre foram as relações entre Estados nacionais, as relações internacionais, ou as relações no interior dos impérios, tanto antigos como modernos. São interações que não são, em geral, protagonizadas pelos Estados, mas antes por agentes econômicos e sociais nos mais diversos domínios. Quando são protagonizadas pelos Estados, visam cercear a soberania do Estado na regulação social, sejam os tratados de livre comércio, a integração regional, de que União Europeia (UE) é um bom exemplo, ou a criação de agências financeiras multilaterais, tais como o Banco Mundial e o FMI.

Escrevendo há mais de vinte anos, dediquei ao tema muitas páginas e chamei a atenção para a complexidade e mesmo o caráter contraditório da realidade que se aglomerava sob o termo “globalização”. Primeiro, muito do que era considerado global tinha sido originalmente local ou nacional, do hamburger tipo McDonald’s, que tinha nascido numa pequena localidade do meio-oeste dos EUA, ao estrelato cinematográfico, ativamente produzido no início por Hollywood para rivalizar com as concepções do cinema francês e italiano que antes dominavam; ou ainda a democracia enquanto regime político globalmente legítimo, uma vez que o tipo de democracia globalizado foi a democracia liberal de matriz europeia e norte-americana e, na versão neoliberal, mais norte-americana que europeia.

Segundo, a globalização, ao contrário do que o nome sugeria, não eliminava as desigualdades sociais e as hierarquias entre os diferentes países ou regiões do mundo. Pelo contrário, tendia a fortalecê-las.

Terceiro, a globalização produzia vítimas (normalmente ausentes dos discursos dos promotores do processo) que teriam agora menor proteção do Estado, fossem elas trabalhadores industriais, camponeses, culturas nacionais ou locais, etc.

Quarto, por causa da dinâmica da globalização, as vítimas ficavam ainda mais presas aos seus locais e na maioria dos casos só saíam deles forçadas (refugiados, deslocados internos e transfronteiriços) ou falsamente por vontade própria (emigrantes). Chamei a estes processos contraditórios globalismos localizados e localismos globalizados.

Quinto, a resistência das vítimas beneficiava por vezes das novas condições tecnológicas tornadas disponíveis pela globalização hegemônica (transportes mais baratos, facilidades de circulação, internet, repertórios de narrativas potencialmente emancipatórias, como, por exemplo, os direitos humanos) e organizava-se em movimentos e organizações sociais transnacionais.

Chamei a esses processos globalização contra-hegemônica e nela distingui o cosmopolitismo subalterno e o patrimônio comum da humanidade ou jus humanitatis. A mais visível manifestação deste tipo de globalização foi o Fórum Social Mundial, que se reuniu pela primeira vez em 2001 em Porto Alegre (Brasil) e do qual fui um participante muito ativo desde a primeira hora.

Que há de novo e por que se diagnostica como desglobalização? As manifestações referidas são dinâmicas nacionais e subnacionais. Quanto às primeiras, salientam-se o Brexit, pelo qual o Reino Unido (?) decidiu abandonar a UE, e as políticas protecionistas do presidente dos EUA, Donald Trump, e a sua defesa do princípio da soberania, insurgindo-se contra os tratados internacionais (sobre o livre comércio ou a mudança climática), mandando erigir muros para proteger as fronteiras, envolvendo-se em guerras comerciais – entre outras, com o Canadá, a China e o México.

Quanto às dinâmicas sub-nacionais, estamos em geral perante o questionamento das fronteiras nacionais que resultaram de tempos e circunstâncias históricas muito distintas: as guerras europeias, desde a Guerra dos Trinta Anos e consequente Tratado de Westfália (1648) até às do século XX que, devido ao colonialismo, transformaram-se em mundiais, (1914-18 e 1939-45); a primeira (talvez segunda?) partilha de África na Conferência de Berlim (1884-85); as guerras de fronteiras nos novos Estados independentes da América Latina a partir do início do século XIX.

Assiste-se à emergência ou reacendimento da afirmação de identidades nacionais ou religiosas em luta pela secessão ou autogoverno no interior de Estados, de fato, plurinacionais. Entre muitos exemplos: as lutas da Caxemira, da Irlanda do Norte, de várias nacionalidades no interior do Estado Espanhol, do Senegal, da Nigéria, da Somália, da Eritreia, da Etiópia e dos movimentos indígenas da América Latina. Há ainda o caso trágico do Estado ocupado da Palestina. Alguns destes processos parecem (provisoriamente?) terminados – por exemplo, a fragmentação dos Balcãs ou a divisão do Sudão. Outros mantêm-se latentes ou fora da mídia (Quebec, Escócia, Caxemira) e outros têm explodido de forma dramática nas últimas semanas, sobretudo os referendos na Catalunha e no Curdistão do Iraque e nos Camarões.

Em meu entender, estes fenômenos, longe de configurarem processos de desglobalização, constituem manifestações, como sempre contraditórias, de uma nova fase de globalização mais dramática, mais excludente e mais perigosa para a convivência democrática, se é que não implicam o fim desta. Alguns deles, contra as aparências, são afirmações da lógica hegemônica da nova fase, enquanto outros constituem uma intensificação da resistência a essa lógica.

Antes de referir uns e outros, é importante contextualizá-los à luz das características subjacentes à nova fase de globalização. Se analisarmos os dados da globalização, concluímos que a liberalização e a privatização da economia continua a intensificar-se com a orgia de tratados de “livre” comércio atualmente em curso. A UE acaba de acordar com o Canadá um vasto tratado de “livre” comércio, o qual, entre outras coisas, vai expor a alimentação dos europeus a produtos tóxicos proibidos na Europa mas permitidos no Canadá; um tratado cujo principal objetivo é pressionar os EUA a juntar-se. Foi já aprovada a Parceria Transpacífico, liderada pelos EUA, para enfrentar o seu principal rival, a China. E toda uma nova geração de tratados de “livre” comércio está em curso, negociados fora da OMC, sobre a liberalização e privatização de serviços que em muitos países hoje são públicos, como a saúde e a educação.

Se analisarmos o sistema financeiro, verificamos que estamos perante o ramo do capital mais globalizado e mais imune às regulações nacionais. Os dados que têm vindo a público são alarmantes: 28 empresas do setor financeiro controlam 50 triliões de dólares, isto é, três quartos da riqueza mundial contabilizada (o PIB mundial é de 80 triliões e além deles haverá 20 triliões em paraísos fiscais). A esmagadora maioria dessas instituições está registada na América do Norte e na Europa. O seu poder tem ainda outra fonte: a rentabilidade do investimento produtivo (industrial) a nível mundial é, no máximo, de 2.5%, enquanto a do investimento financeiro pode ir a 7%. Trata-se de um sistema para o qual a soberania de duzentos potenciais reguladores nacionais é irrelevante.

Perante isto, não me parece que estejamos diante de um momento de desglobalização. Estamos antes perante novas manifestações da globalização, algumas delas bem perigosas e patológicas. O apelo ao princípio da soberania por parte do presidente dos EUA é apenas o vincar das desigualdades entre países que a globalização neoliberal tem vindo a acentuar. Ao mesmo tempo que defende o princípio da soberania, Trump reserva-se o direito de invadir o Irão e a Coreia do Norte. Depois de terem destruído a relativa coerência da economia mexicana com o NAFTA e provocado a emigração, os EUA mandam construir um muro para travá-la e pedem aos mexicanos que paguem a sua construção. Isto, para além de ordenarem deportações em massa.

Em nenhum destes casos é pensável uma política igual, mas de sentido inverso. O princípio da soberania dominante surgira antes na UE com o modo como a Alemanha pôs os seus interesses soberanos (isto é, do Deutsche Bank) à frente dos interesses dos países do sul da Europa e da UE.

A soberania dominante, combinada com a auto-regulação global do capital financeiro, dá azo a fenômenos tão diversos quanto sub-financiamento dos sistemas públicos de saúde e educação, a precarização das relações laborais, a chamada crise dos refugiados, os Estados falidos, o descontrole do aquecimento global, os nacionalismos conservadores.

As resistências têm sinais políticos diferentes, mas assumem por vezes formas semelhantes, o que está na origem da chamada crise da distinção entre esquerda e direita. De facto, esta crise é o resultado de alguma esquerda ter aceitado a ortodoxia neoliberal dominada pelo capital financeiro e até se ter autoflagelado com a ideia de que a defesa dos serviços públicos era populismo. O populismo é uma política de direita, particularmente quando a direita pode atribuí-la com êxito à esquerda. Residem aqui muitos dos problemas com que se defrontam os Estados nacionais. Incapazes de assegurar a proteção e o mínimo bem-estar dos cidadãos, respondem com repressão à legítima resistência dos cidadãos.

Acontece que a maioria desses Estados são, de facto, plurinacionais. Incluem povos de diferentes nacionalidades etnoculturais e linguísticas. Foram declarados nacionais pela imposição de uma nacionalidade sobre as outras, por vezes de modo bem violento. As primeiras vítimas desse nacionalismo interno arrogante, que quase sempre se traduziu em colonialismo interno, foram o povo andaluz depois da chamada Reconquista do Al-Ándalus; os povos indígenas das Américas e os povos africanos depois da partilha de África. Foram também eles os primeiros resistentes.

Hoje, a resistência junta às raízes históricas o aumento da repressão e a endêmica corrupção dos Estados dominados por forças conservadoras ao serviço do neoliberalismo global. Acresce que a paranoia da vigilância e segurança interna tem contribuído, sob o pretexto da luta contra o terrorismo, para o enfraquecimento da globalização contra-hegemênica dos movimentos sociais, dificultando os seus movimentos transfronteiriços. Por tudo isto, a globalização hegemônica aprofunda-se, usando, entre muitas outras máscaras, a da soberania dominante, que acadêmicos desprevenidos e meios de comunicação cúmplices tomam por desglobalização.

150 anos. Esta é sua história

COMO NASCEU A OBRA O CAPITAL

Texto de Marcello Musto, professor da Universidade Iorque, Toronto-Canadá, publicado por La Razón, 24-09-2017. Tradução do Cepat, IHU-JF

A obra que, talvez mais que qualquer outra, contribuiu para mudar o mundo nos últimos 150 anos, teve uma gestação longa e muito difícil. Marx começou a escrever O Capital só muitos anos após iniciar seus estudos de economia política. Se já a partir de 1844 havia criticado a propriedade privada e o trabalho alienado da sociedade capitalista, foi somente após o pânico financeiro de 1857 – que começou nos Estados Unidos e depois se estendeu a Europa – que se sentiu obrigado a deixar de lado sua incessante pesquisa e começar a redigir o que chamava sua “Economia”.

Crise, os Grundrisse e pobreza

Com o início da crise, Marx antecipou o nascimento de uma nova fase de convulsões sociais e considerou que o mais urgente era proporcionar ao proletariado a crítica ao modo de produção capitalista, um requisito prévio para superá-lo. Desse modo, nasceram os Grundrisse, oito cadernos nos quais examinou as formações económicas pré-capitalistas e descreveu algumas características da sociedade comunista, ressaltando a importância da liberdade e do desenvolvimento dos indivíduos. O movimento revolucionário que surgiria por causa da crise ficou em uma ilusão e Marx não publicou seus manuscritos, consciente da distância que ainda estava do domínio total dos temas que enfrentava. A única parte publicada, após uma profunda reelaboração do capítulo sobre o dinheiro, foi a Contribuição à Crítica da Economia Política, um texto distribuído em 1859 e revisado por uma só pessoa: Engels.

O projeto de Marx era dividir sua obra em seis livros. Deveriam se dedicar ao capital, à propriedade da terra, ao trabalho assalariado, ao Estado, ao comércio exterior e ao mercado mundial. Contudo, em 1862, como resultado da guerra de secessão estadunidense, o New York Tribune despediu seus colaboradores europeus. Marx – que trabalhou para o jornal durante mais de uma década – e sua família voltaram a viver em condições de terrível pobreza, as mesmas que haviam sofrido durante os primeiros anos de seu exílio em Londres. Só contava com a ajuda de Engels, a quem escrevia: “Todos os dias, minha esposa me diz que preferiria estar em uma sepultura com as pequenas e, na verdade, não posso culpá-la, dadas as humilhações e sofrimentos que estamos padecendo, realmente indescritíveis”. Sua condição era tão desesperadora que, nas semanas mais sombrias, faltava comida para as filhas e papel para escrever. Buscou emprego em um escritório das ferrovias. A vaga, no entanto, não lhe foi concedida por causa de sua letra ruim. Portanto, para enfrentar a indigência, a obra de Marx esteve sujeita a grandes atrasos.

A mais-valia e o carbúnculo

Neste período, em um longo manuscrito intitulado Teorias sobre a Mais-Valia, realizou uma profunda crítica ao modo como todos os grandes economistas haviam tratado erroneamente a mais-valia como lucro ou renda. Para Marx, no entanto, era a forma específica pela qual se manifesta a exploração no capitalismo. Os trabalhadores passam parte de seu dia trabalhando para o capitalista de forma gratuita. Este último busca de todas as formas possíveis gerar mais-valia por meio do trabalho excedente: “Não basta que o trabalhador produza em geral, deve produzir mais-valia”, ou seja, servir à autovalorização do capital. O roubo de inclusive alguns poucos minutos da comida ou do descanso de cada trabalhador significa transferir uma enorme quantidade de riqueza aos bolsos dos patrões. O desenvolvimento intelectual, cumprir as funções sociais e os dias festivos são para o capital “puras e simples bagatelas”.

Après moi le déluge (depois de mim, o dilúvio) era para Marx o lema dos capitalistas, ainda que pudessem, hipocritamente, se opor à legislação sobre as fábricas em nome da “liberdade plena do trabalho”. A redução da jornada de trabalho e o aumento do valor da força de trabalho foi, portanto, o primeiro terreno da luta de classes.

Em 1862, Marx escolheu o título de seu livro: O CAPITAL. Acreditava que podia começar imediatamente a redigi-lo, no entanto, às já graves vicissitudes financeiras se somaram problemas de saúde. De facto, o que sua esposa Jenny descreveu como “a terrível enfermidade” contra a qual Marx precisaria lutar muitos anos de sua vida era o carbúnculo, uma horrível infecção que se manifesta em várias partes do corpo com uma série de abscessos cutâneos e uma extensa e debilitante furunculose. Marx foi operado e “sua vida permaneceu durante muito tempo em perigo”. Sua família estava à beira do abismo.

O Moro (este era seu apelido) se recuperou e até dezembro de 1865 se dedicou a escrever o que se converteria em sua autêntica obra magna. Além disso, a partir do outono de 1864 assistiu assiduamente as reuniões da Associação Internacional de Trabalhadores, para a qual escreveu durante oito anos seus principais documentos políticos. Estudar durante o dia na biblioteca, para se inteirar das novas descobertas, e seguir trabalhando em seu manuscrito durante toda a noite: esta foi a esgotadora rotina a qual Marx se submeteu até a exaustão de todas as suas energias e o esgotamento de seu corpo.

Um todo artístico

Ainda que havia reduzido seu projeto de seis para três volumes sobre O Capital, Marx não quis abandonar seu propósito de publicá-los juntos. De facto, escreveu a Engels: “Não posso decidir sobre o que abrir mão, antes de tudo estar diante de mim, sejam quais forem os defeitos que possam ter, este é o valor de meus livros: todos formam um todo artístico, alcançável somente graças ao meu sistema de não o entregar ao impressor antes de tê-lo completo diante de mim”.

O dilema de “corrigir uma parte do manuscrito e entregá-lo ao editor ou terminar de escrever tudo” foi resolvido pelos acontecimentos. Marx sofreu outro ataque bestial de carbúnculo, o mais virulento de todos. A Engels disse que havia “perdido a pele”. Os médicos lhe disseram que a recaída se deu em razão do excesso de trabalho e as contínuas vigílias noturnas. Marx se concentrou no livro um: O processo de produção do capital.

Os furúnculos seguiram o atormentando e, durante semanas, Marx nem sequer pôde se sentar. Tentou se operar. Procurou uma navalha e disse a Engels que tentou extirpar essa maldita coisa. Desta vez, o encerramento de sua obra não foi postergado pela “teoria”, mas, sim, por “razões físicas e burguesas”.

Em abril de 1867, o manuscrito foi finalmente concluído. Marx pediu a seu amigo de Manchester, que lhe ajudou durante 20 anos, que lhe enviasse dinheiro para poder recuperar “a roupa e o relógio que se encontram na casa de penhores”. Marx sobreviveu com o mínimo indispensável e, sem esses objetos, não podia viajar à Alemanha, onde a imprensa esperava por sua obra.

A correção do rascunho durou todo o verão e Engels lhe destacou que a exposição da forma do valor era muito abstrata e “se ressentia da perseguição dos furúnculos”. Marx respondeu: “espero que a burguesia se recorde de meus furúnculos até o dia de sua morte”.

O CAPITAL foi colocado à venda no dia 11 de setembro de 1867. Um século e meio depois, o texto figura entre os livros mais traduzidos, vendidos e discutidos na história da humanidade. Para aqueles que queiram entender o que realmente é o capitalismo e por que os trabalhadores devem lutar por uma “forma superior de sociedade, cujo princípio fundamental seja o desenvolvimento pleno e livre de cada indivíduo”, O CAPITAL é hoje mais que nunca uma leitura simplesmente imprescindível”.

Edição 130 Setembro 2017

A nova investigação da equipe Spotlight

OS FILHOS DOS PADRES

A equipe “Spotlight” do jornal Boston Globe – a do filme – publicou a sua investigação mais recente: sobre o celibato na Igreja Católica e sobre os sacerdotes que se tornaram pais. A reportagem é publicada por Il Post. Tradução de Moisés Sbardelotto.

O Boston Globe, histórico jornal de Boston, fundado em 1872, publicou em meados de Agosto, a mais recente investigação da Spotlight, a sua equipe de jornalismo de investigação, uma das mais famosas do mundo. A investigação, dividida em duas partes refere-se aos filhos de sacerdotes católicos, filhos “ilegítimos”, já que, há nove séculos, a Igreja Católica impõe o celibato aos seus sacerdotes: a reportagem relata a história de alguns deles, de como vieram a saber, ao longo da sua vida, que eram filhos de padres, as dificuldades e os problemas que tiveram de enfrentar e as respostas que a Igreja deu ao tema nos últimos anos.

A investigação também foi muito comentada por causa da notoriedade obtida pela equipe investigativa do Boston Globe depois do lançamento do filme “Spotlight”, em fevereiro de 2016, que, entre outras coisas, ganhou o Oscar de melhor filme.

Michael Rezendes, autor dos dois artigos do Boston Globe e membro da equipe Spotlight (no filme Spotlight, ele é o jornalista interpretado por Mark Ruffalo), contou ao programa CBS This Morning que começou a investigação depois de ter tomado conhecimento da história de um dos muitos filhos de sacerdotes nos Estados Unidos, Jim Graham, e de ter percebido que não era um episódio isolado – uma exceção, como a Igreja defende há muitos anos –, mas sim uma situação que, provavelmente, envolve milhares de pessoas em todo o mundo: “Eu entendi que era algo sistemático e merecia toda a minha atenção”, disse Rezendes.

Os artigos da equipe Spotlight partem daí, da história de Graham e das suas pesquisas – que começaram há mais de 20 anos – para descobrir algo mais sobre o seu pai biológico.

Graham, conta o Boston Globe, passou a sua juventude e parte da sua vida adulta se perguntando por que aquele que ele acreditava que era o seu pai – John Graham, proprietário de um posto de gasolina em Buffalo, no Estado de Nova York – o detestava tanto assim.

Em 1993, quando os seus pais já estavam mortos, Graham voltou a Buffalo, onde se encontrou com os seus tios, para saber a verdade sobre o seu passado. Sua tia Kathryn mostrou-lhe uma carta de uma ordem religiosa católica: colocou o dedo sobre a fotografia que retratava um homem calvo, com o olhar triste, usando o colarinho eclesiástico, o colarinho branco dos padres: “Só os teus pais sabem ao certo, mas esse homem poderia ser teu pai”. Aquele homem era o reverendo Thomas Sullivan, que tinha se formado no Boston College e que, depois, tinha estudado como sacerdote em Tewksbury, Massachusetts.

Tempos depois, Graham veio a saber que aquele que ele tinha pensado por muito tempo que era o seu pai, John Graham, descobriu que a sua esposa o havia traído com Sullivan e por isso queria o divórcio: “Eu parecia muito com o meu pai [Sullivan]. Devo ter sido [para John Graham] uma constante recordação do homem que tinha levado a esposa embora”.

Hoje, Graham ainda está aguardando a confirmação oficial de que o seu pai era Sullivan.

Outra história muito intensa contada pelo Boston Globe é a de Chiara Villar, uma mulher de 36 anos que vive na periferia de Toronto, no Canadá. Villar sabe que é filha de um padre desde quando era muito pequena, mas a sua mãe sempre lhe disse para se referir a ele como a um tio: “Eu me perguntava por que ele não podia ser meu pai. Por isso, comecei a me sentir culpada”.

A mãe de Villar, Maria Mercedes Douglas, conheceu Anthony Inneo no início dos anos 1970, em Buffalo. Douglas não sabia que Inneo era sacerdote; quando o conheceu, ele não usava o colarinho branco. Depois de retornar a Madri por um tempo, Douglas voltou para Buffalo, onde tinha amigos, e começou um relacionamento com Inneo. Quando Inneo lhe disse que era sacerdote, Douglas não pôde acreditar: “Parecia uma piada de mau gosto”, contou ela ao Boston Globe.

Os dois continuaram, mesmo assim, o seu relacionamento, e Inneo lhe prometeu que logo deixaria o sacerdócio. Depois, um dia, ela descobriu que estava grávida: “Foi um choque. Eu não sabia o que fazer”. Ela disse isso a Inneo, mas ele respondeu que ainda não estava pronto para abandonar a sua vida religiosa. Ela começou a acreditar que ele nunca faria isso.

Desde pequena, Chiara Villar – a filha de Douglas e Inneo – sabia a verdade sobre o seu pai, mas não podia dizer a ninguém: “Eu acho que [os meus pais] não entendiam o trauma psicológico que me provocaria o facto de me pedirem para mentir”, contou Villar. Nos anos seguintes, Inneo visitou regularmente a sua filha, com quem tinha um ótimo relacionamento, mas Villar foi forçada a continuar mentindo: “Em privado, ele era o meu pai, mas, em um instante, quando saíamos do carro da minha mãe, era algo como: ‘Ok, Chiara, que Deus te abençoe’. Era todo um Dr. Jekyll e Sr. Hyde”.

Quando era mais velha, Villar começou a se sentir culpada e a se considerar não merecedora do amor do seu pai: começou a fazer cortes no seu corpo regularmente. Villar nunca teve a possibilidade de ter um relacionamento normal e público com o seu pai: depois que Inneo ficou doente de Alzheimer, a sua família o colocou em uma casa de repouso sem lhe dizer nada. Ela encontrou o endereço e foi encontrá-lo, mas a doença já estava em fase avançada, e ele não a reconheceu: “Ele me escondeu durante toda a vida, depois ficou doente de Alzheimer e me esqueceu”, contou Villar ao Boston Globe.

O Boston Globe escreveu que, provavelmente, existam milhares de filhos de sacerdotes em todo o mundo: Irlanda, México, Polônia, Paraguai, Estados Unidos e muitos outros países, onde quer que a Igreja Católica esteja (portanto, obviamente, também na Itália).

Não se pode saber o número exato, mas, nos últimos anos, muitos deles entraram em contato graças a um site criado por Vincent Doyle, filho de um padre católico irlandês que descobriu a verdade sobre a sua família quando tinha 28 anos (foto acima). Graças ao site, chamado Coping International, Doyle conheceu dezenas de filhos de padres, incluindo muitas pessoas que, por causa da sua história – às vezes por serem forçadas a mentir, outras por falta de um apoio financeiro por parte do pai biológico –, tiveram problemas psicológicos e econômicos.

Doyle também tentou se dirigir diretamente ao papa. Em junho de 2014, ele foi a São Pedro para participar da missa do domingo. Quando o Papa Francisco passou diante dele, beijou-lhe o anel e lhe deu uma carta traduzida ao espanhol que falava da situação dos filhos dos sacerdotes. Doyle pareceu ver o papa lendo o primeiro parágrafo da carta: “Ele tinha um olhar sincero e profundo no seu rosto. Depois, apertou a carta perto do coração e disse: ‘Sim, sim, vou lê-la’”. Mas Doyle nunca recebeu uma resposta. Enquanto isso, a Igreja Católica continuou tratando os filhos dos sacerdotes como situações negativas, mas “excepcionais”, minimizando a dimensão do fenômeno.

O Direito Canônico, o sistema de leis, regras e princípios que a Igreja usa para governar o mundo católico, não explica como a Igreja deveria se comportar caso um sacerdote tenha filhos. A contribuição econômica à mãe da criança depende da generosidade do sacerdote, não existe nenhuma obrigação.

“Alguns sacerdotes, nos casos analisados pelo Globe, assumiram as suas responsabilidades a sério. São pais dedicados, embora em privado. Alguns prometeram às mães dos seus filhos que deixariam o sacerdócio, mas poucos o fizeram. Outros as confortaram dizendo que seria apenas uma questão de tempo antes que a Igreja abandonasse a obrigação do celibato, decisão que, no entanto, papa após papa, incluindo o Papa Francisco, nunca foi tomada.”

Em muitos casos, os sacerdotes não assumiram a responsabilidade financeira ou legal pelos seus filhos. Dos 10 casos analisados profundamente pelo Boston Globe, apenas duas mães decidiram recorrer a um tribunal para obter algum tipo de apoio para os seus filhos, enquanto todas as outras deixaram que o padre-pai decidisse quanto dar e estar presente.

Em outros casos, escreveu o Boston Globe, não houve sequer a necessidade de o sacerdote pedir sigilo: as mães profundamente católicas consideram-no não apenas como o pai dos seus filhos, mas também como um representante de Deus. Isso fez com que as mulheres vítimas de abusos sexuais fossem relutantes em denunciar às autoridades aquilo que acontecera, porque muitas vezes assumiam a culpa da violência.

Nos últimos anos, foram poucas as lideranças da Igreja Católica que falaram sobre a situação dos sacerdotes com filhos. Um deles foi o arcebispo de Dublin, Diarmuid Martin, que, entre outras coisas, ajudou Doyle a lançar o seu site, Coping International. Martin disse: “Uma criança tem o direito de conhecer o seu pai, e todo pai tem obrigações fundamentais para com o seu filho ou filha”.

Recentemente, a Conferência Episcopal da Irlanda aprovou diretrizes que pedem que todo sacerdote com filhos “enfrenta as suas responsabilidades pessoais, legais, morais e financeiras”, mas não pedem a renúncia ao sacerdócio. Doyle esperava que tal decisão fosse tomada também pelo Vaticano, mas as coisas ocorreram de forma diferente.

O cardeal Sean O’Malley, importante conselheiro do Papa Francisco e chefe da Pontifícia Comissão para a Proteção dos Menores, escreveu um breve comunicado sobre a questão em resposta à investigação do Boston Globe. Em uma passagem, lê-se que cada sacerdote que teve um filho tem “uma obrigação moral de se afastar do sacerdócio e providenciar o cuidado e as necessidades da mãe e do filho”. O’Malley acrescentou que a comissão que ele preside não lida com essas situações, porque iriam além do seu mandato.

Há três anos, a Comissão das Nações Unidas sobre os Direitos da Criança falou dos casos em que os sacerdotes católicos haviam obrigado as mulheres grávidas dos seus filhos a permanecerem em silêncio para evitar o escândalo, em troca de apoio financeiro. A comissão pedira que o Vaticano dissesse qual era o número das crianças filhas de sacerdotes, descobrisse quem eram e tomasse todas as medidas necessárias para assegurar que os direitos dessas crianças fossem garantidos. O Vaticano deverá fazer isso até o dia 1º de setembro deste ano.

Edição 129 Junho 2017

Se a China quer um papel mundial, deve dialogar com a Igreja

Abril de 2007, na Academia Pontifícia das Ciências, Henry Kissinger fala em um seminário a portas fechadas sobre a situação geopolítica. “O centro de gravidade mundial se move para o Pacífico”, explica. Pequim exige o mesmo equilíbrio com o Ocidente. “Eu acredito que a ascensão da China é inevitável – continua – e devemos aprender o que ela pode significar para o mundo.” Mas há um problema histórico-político, indica o ex-secretário de Estado dos Estados Unidos que levou o presidente Nixon a reconhecer a China comunista: historicamente, a China sempre foi autorreferencial. Enquanto a Europa, no seu passado, praticou o equilíbrio das potências, a China nunca fez essa experiência. O império chinês sempre dominou os seus vizinhos, exceto quando era fraco. É preciso apontar para as novas gerações chinesas, conclui Kissinger, para que creiam na “possibilidade da cooperação” com o Ocidente. Reportagem de Marco Politi, publicada por Il Fatto Quotidiano, 06-06-2017. Tradução de Moisés Sbardelotto.

Dez anos depois, a situação inverteu-se. Trump empurra os Estados Unidos a recuar diante da globalização, a China a abraça. A visão de Kissinger se concretiza: a China está aprendendo o que significa atuar em um “concerto de potências”. Trump exalta o soberanismo protecionista, e o presidente chinês, Xi Jinping, explica em Davos que o protecionismo é “como fechar-se em uma sala escura: ficam de fora o vento e a chuva, mas também o ar”.

Trump retira os Estados Unidos do acordo de Paris sobre os cortes nas emissões que provocam o aquecimento global, e o primeiro-ministro chinês, Li Keqiang, anuncia uma cooperação reforçada com a União Europeia, declarando que a China “continuará implementando as promessas feitas” sobre os cortes de emissões.

Nesse cenário, ocorreu o seminário da Comunidade de Santo Egídio (junto com a Universidade Católica e a World History Academy) sobre as relações entre a Igreja Católica e a China. Relações marcadas por 40 anos de aproximações e distanciamentos, degelos e “regelos”. Mas não é o passado que importa nesta fase histórica completamente nova.

Andrea Riccardi salientou que não tem mais sentido considerar a perspectiva das relações entre a Santa Sé e Pequim com os óculos da Guerra Fria, quase como se ainda se tratasse a presença do catolicismo em um “país comunista”. A questão é outra: definir as relações entre a Igreja Católica e uma nação em rápida transformação, um país multicultural em que – é preciso lembrar – há uma forte expansão de um cristianismo neopentecostal, um país que tem uma história que começa bem antes do advento de Mao.

É claro, há a questão da decenal pretensão política de Pequim de permitir no seu território apenas Igrejas e comunidades religiosas “independentes” de uma autoridade central estrangeira. Existe a longa prática de bispos nomeados através de manobras da chamada Associação Patriótica, que reúne bispos e clero obedientes ao regime. Existe a dupla dimensão de uma Igreja oficial e de uma Igreja clandestina, formada por bispos ordenados unicamente com a autorização do Vaticano. De facto, a Associação Patriótica dos Católicos Chineses (órgão governamental) insiste na eleição a partir de baixo de bispos leais ao governo.

No entanto, várias vezes, houve nomeações de bispos ocorridas de comum acordo entre a Santa Sé e Pequim. E também muitos bispos “oficiais”, nomeados “ilegitimamente”, pediram, depois, em segredo (e receberam) a legitimação papal.

Em suma, a situação, nos bastidores, está em movimento. Com o Papa Francisco, o diálogo recomeçou logo, especialmente porque – como lembrou o professor Agostino Giovagnoli –, para o pontífice jesuíta, a China não é um lugar distante e hostil, mas sim um protagonista mundial que pode “irradiar cultura e contribuir para a paz”.

Um esboço de compromisso para a nomeação dos bispos já existe há mais de um ano. Ele prevê que os bispos “eleitos” pelas dioceses sejam “apresentados” ao papa pela Conferência Episcopal Chinesa (oficial). Poderia ser o início de uma solução – como disse o Pe. Peter Chou, um dos conferencistas do seminário de Santo Egídio –, contanto que se reserve ao pontífice um direito de veto. Subtilezas que a diplomacia vaticana e a chinesa, filhas de experiências milenares, podem desvendar.

Mas o discurso nesta fase turbulenta do século XXI deveria ser invertido completamente. Não olhando mais para a história apenas do ponto de vista dos interesses religiosos da Santa Sé, mas sim dos interesses geopolíticos da China. Uma potência que se assomou de repente à cena internacional (pense-se na nova “Rota da Seda”, que une Oriente e Ocidente ou no Banco Asiático de Investimento e Infraestrutura criado por Pequim em 2014) pode ignorar o valor social e político de um debate aproximado com uma organização de 1,2 bilhão de afiliados como a Igreja Católica, presente nos cinco continentes com uma infinidade de instituições?

Cabe a Pequim decidir hoje, libertando-se definitivamente do medo – que também existia nos tempos da revolta da Praça Tiananmen em 1989 – de um “Solidarnosc” católico chinês potencialmente subversivo. Entrar no Grande Jogo internacional da era contemporânea significa dialogar com um sujeito geopolítico representado pela instituição católica. Não é questão de fé. Apenas de realismo.

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Edição 128, Maio 2017

A BÍBLIA OU JESUS?

Como o Prof. Duarte Klut vê este meu Livro

Antes de abordar a obra de hoje, ressalvo que, no meu entender se deverá ler primeiro o Pratico, Logo Sou — Pensamentos, dado que neles o Pe. Mário esclarece-nos o seu programa de vida, a sua “evangelização” postado em 366 pensamentos. Na contracapa o autor diz-nos:

“ Ao contrário dos livros, Penso logo existo, de Descartes, e Pensamentos, de Pascal, que resultam da fé-ideologia-teologia do judeo-cristianismo-islamismo, o pai do poder financeiro que hoje domina o mundo, o livro Pratico, logo Sou, resulta da Fé-Ruah-teologia de Jesus Nazaré, o filho de Maria, e das suas práticas político-económicas maiêuticas. A pedra sistematicamente rejeitada-crucificada pelo poder, nos três poderes, porque a Pedra angular de um mundo plena e integralmente humano, constituído por seres humanos e povos politicamente religados entre si ao modo de vasos comunicantes, a crescer-expandir-se de dentro para fora em sabedoria, cultura, entrega recíproca, afectos, mesas compartilhadas, sujeitos dos próprios destinos e protagonistas da História. Sem nenhuma oportunidade mais, para o surgimento de messias-salvadores, todos falsos. E com o Dinheiro definitivamente ao serviço dos povos, nunca mais o amo-senhor dos povos. Ao todo, são 366 Pensamentos, tantos quantos os dias de um ano bissexto, que urge mastigar-digerir-ser-viver, até todas e cada uma de nós, todos e cada um de nós, podermos dizer, com verdade, Pratico, Logo Sou!”

Resumindo: Só me realizo como verdadeiro ser humano se, pragmaticamente, seguir os passos de Jesus Nazareno — histórico e humano, vivendo fraternalmente com os outros e praticando a sua Política Maiêutica social e económica, exercendo a praxis política entre e com os outros. Ou seja Ser como se afirma o Pe. Mário: “Eu sou filho(a)do Vento, da Verdade/realidade que nos faz consciência”.

Após estes considerandos, entremos no livro hoje [28 de Abril] aqui lançado:, A Bíblia ou Jesus?

Livro constituído por 14 capítulos, num total de 137 páginas. Cada capítulo tem vários versículos. Nesta obra, o Pe. Mário explana e explica as razões da Interrogação. Como já dissemos há uma continuidade dos pensamentos do Pratico, Logo Sou, mas acentua-se o teor exegético, aprofunda-se a hermenêutica — apoiada numa heurística metodológica bem fundamentada e documentada.

Intentarei proceder a uma breve síntese, destacando algumas das ideias-chave, em especial as dissidentes/divergentes da Ortodoxia que fazem do Pe. Mário um Presbítero de pensamento livre, quer na sua postura pessoal, quer na sua doutrina e, essencialmente, na sua prática diária. Age, actua como pensa. Por isso é incómodo para muitos que o anatematizam. Mas nem por isso deixa de divulgar a sua mundivisão, a sua cosmologia e a sua Fé. Sim, o Pe. Mário é um homem de Fé. Tal como ele se retrata é um ser/homem “realizado em paz”! Será uma visão diacrónica, bastante sucinta, pois entendo que as explicações vivas são mais pertinentes.

O Cap.1 intitula-se, Em nome da Bíblia (33 versículos). Começa por afirmar que em nome da bíblia “têm sido cometidos os crimes mais horrendos da história da humanidade. Tal como em nome do Alcorão. E todos eles justificados, ideológica e teologicamente”. Destaca que a Bíblia é dos judeus, mais do judaísmo, como sistema de Poder”. O cristianismo, como sistema de poder, apoderou-se há 2000 anos da Bíblia Judaica, no que considera ter sido “um roubo descarado”. As religiões referenciadas são as monoteístas — as ditas religiões do LIVRO: Judaica /cristã/ muçulmana. Segundo o Pe. Mário, a Bíblia do cristianismo, para além do roubo, enferma de uma ideologia-teologia idolátrica que o justifica. Compreender de forma correcta a realidade nesta matéria — será o primeiro passo para mudarmos de ser e de Deus. Como conclusão à critica que faz à Bíblia cristã afirma: Critique-se a Bíblia; depure-se a Bíblia, mas estudemo-la.

Segue-se o cap. 2 (101 versículos), onde é defendido que os 4 Evangelhos em 5 volumes não fazem parte da Bíblia. São “património da humanidade”. Foram escritos na clandestinidade e são o testemunho do Jesus Histórico e do seu Projecto Político maiêutico. São 5 livros porque o de Lucas tem 2 volumes, cujo segundo, constituirá os Actos dos Apóstolos. O Projecto de Jesus Nazaré inicia-se com a sua luta contra o cristianismo davidífico e o seu deus Bíblico: Omnipotente, Omnipresente e Omnisciente — todo poderoso, Deus do Poder. Este deus do cristianismo tem a sua caracterização sintetizada no CREDO de Niceia/Constantinopla. Tudo lhe é devido e tudo lhe é permitido. Este é o Deus de Jesus Messias/Cristo contra o qual o Jesus Histórico e Humano se rebela. O Deus de Jesus Nazaré é o Deus Abba- Mãe — que nunca ninguém viu... Outro é também o tipo de mundo e de sociedade — onde a sua Ruah/Sopro/Espírito (que nos faz Eu Sou) /Força libertadora, está continuamente a fazer crescer na História o seu Projecto Político. O Jesus Nazaré não é o Jesus da Fé (bíblica) do Poder. Para que se estabeleça esta distinção é necessário ler os 4 Evangelhos, começando pelo de Marcos — o único que não apresenta “narrativas teológicas do ressuscitado”.

No capítulo 4 (119 versículos) — A versão dos 70 é referido o Génesis, mais tarde traduzido do grego para latim — a Vulgata de S. Jerónimo. O saber aqui transmitido é o das elites que educam, formando/formatando as gerações. O Deus descrito é o de Abraão o chefe do povo eleito! A Abraão segue-se Moisés e a sua Lei. Moisés é tido como o autor de todo o Pentateuco. O Pe. Mário considera isso um disparate, tal como se afirmar que o Alcorão foi ditado directamente por Alá a Maomé e por ele todo escrito. Para o Pe. Mário o livro de Josué é o mais monstruoso de todos os livros sagrados, citando o versículo 6,20-21 onde se apela à destruição de tudo o que ficar sob o jugo do vencedor. Assim devido a estes ensinamentos as populações nasceram e viveram aterrorizadas. Excepto os sacerdotes e detentores dos poderes político e militar armado. Quando se escreve e diz cristianismo, o autor refere-se ao cristianismo que vingou na história — o que passou a vigorar após a destruição de Jerusalém e do templo, no ano 70. O “cristianismo das cartas de S. Paulo na sua versão católica romana e na versão dos múltiplos cristianismos protestantes — sectários, fanáticos, fundamentalistas”, CRÊS OU MORRES! É com o cristianismo que se difunde a ideia do Pecado Original, sem perdão, não aceite pelo autor, como demonstra no Cap. 11 — Nem Adão e Eva, Nem pecado Original (pp.105-110). O deus davidífico — cap. 7 ( pp 52-63) é o deus do poder monárquico absoluto. Moisés, Aarão e os autores dos livros dos Salmos dão eco de um poder feito deus — Hoje o poder financeiro. Do Deus da humanidade, dos Povos, que é também o Deus de Jesus, o filho de Maria, não se fala nos Livros que fazem o conjunto da Bíblia judeo-cristã. Ao adjudicar os 4 Evangelhos, o cristianismo “a igreja católica romano-constatiniana faz deles uma interpretação cristã”.

Até hoje “nunca nos permitiram ler a Bíblia com consciência crítica e afectiva, a mesma de Jesus Nazaré”.Já nascemos condicionados. Para desenvolver a capacidade/espírito crítico “não basta termos sido concebidos pela Ruah-Espírito outro, a mesma, o mesmo que está na concepção de jesus Nazaré”. Decisivo na história é o que decidimos fazer após nascermos todas e todos e cada um de nós, à medida que crescemos em idade e estrutura. Crescer em sabedoria, em graça-entrega de nós aos demais, como Jesus, em sintonia com a mesma Ruah. Nunca seremos humanos se decidirmos crescer em saber-poder, em sintonia com a ideologia-teológica idiolátrica do Deus poder.

Por causa da sua heterodoxia, Jesus é morto. Os 4 Evangelhos sequestrados pela Igreja de Roma e pela igrejas Protestantes têm de ser resgatados e expurgados ( cap. 8 — pp 64-75). Resgatados da Bíblia, do “falso evangelho cristão de salvação eterna de S. Paulo e da inventada confissão de fé de Simão Pedro! Expurgados de todas as interpolações, interpretações interesseiras, corporativas posteriores. Uma vez resgatados e expurgados os evangelhos é urgente convocar “novas comunidades clandestinas de Jesus, 3.º milénio. Estas devem ser constituídas por mulheres, homens “que queiram ser na plenitude, na integralidade do humano”. MESAS COMPARTILHADAS. A reforçar a necessidade da expurga dos Evangelhos, afirma o autor: “libertemos as nossas mentes-consciências de todas as interpretações-hermenêuticas-exegéticas que os teólogos, cristólogos das igrejas cristãs todas, respectivos pastores, bispos-párocos residenciais, universidades confessionais têm feito deles”. Depois desta expurga para vermos Jesus “a beleza das belezas”. e podermos conhecer no esplendor de ser humano “pleno e integral” assim o seu Projecto político maiêutico não pode haver nenhuma mentira, encenação, máscara, ritual, idolatria. As exigências de Jesus Nazaré são “ sopro-espírito maiêutico e são vida”.

Na sua denodada luta exegética e hermenêutica exigente, o Pe. Mário diz sobre o Livro dos Salmos, O mais Nocivo da Bíblia: (cap. 9 pp.77-97): “Se há livro na Bíblia que mais tenha marcado negativamente as populações, para cúmulo, na dimensão mais profunda de cada ser humano, a da sua mente-consciência é, sem dúvida, o Livro dos Salmos. Desde logo, porque é um livro para ser rezado, recitado, meditado, cantado em coro”. (Jesus, como judeu que era, conheceu bem o Livro dos Salmos). Toda a Liturgia recorre ao livro dos Salmos. Neste particular, “cristianismo e judaísmo são irmãos siameses (p.77). Os Salmos promovem o Jesus Cristo — não o histórico, o filho de Maria. O rompimento com a ortodoxia dá-se, diz o autor, quando Jesus entrega a toda a humanidade a sua própria Ruah-sopro-espírito maiêutico (p.79). Esse momento é o da pergunta-grito: (com que abre o salmo 22 que o Pe. Mário interpreta de uma maneira pessoal e que transcreve nas pp. 89-91 retirado do seu Livro dos Salmos), MEU DEUS, MEU DEUS, PORQUE ME ABANDONASTE? Pergunta que atravessa os séculos...

O sopro–espírito que atravessa o Livro dos Salmos não é “o espírito maiêutico que levanta politicamente as vítimas.../. É um sopro-espírito que lhes alimenta a resignação! Jesus Nazaré é o despertador da humanidade — acorda-a, mostra-lhe a LUZ (p.83). Não há amanhãs que cantam. A História é vivida no presente. Ao recusar o Deus poder, Jesus abre a Porta estreita por onde devemos entrar. Jesus alfa ómega, o paradigma dos seres humanos. Não cremos em Jesus. CREMOS JESUS.

No cap.10 (pp98-104) Na Bíblia, nem os Profetas se aproveitam — O Pe. Mário considera os profetas “Uma espécie de meteorologistas do tempo social, político, financeiro que há-de vir. O que não é historicamente verdade (p.98). Os amanhãs dos profetas nunca chegam. Para além de moralista, a visão da realidade que os profetas têm é messiânica, ou cristã. É a “Porta Larga” da mentira! Seguem-se considerandos sobre o a visão de S. Paulo e S. Pedro (p p100/104). Jesus Nazaré, que se opõe aos três poderes e ou deus davidífico é o caminho, a verdade e a vida.

No capítulo 13, A Família na Bíblia Judeo-Cristã (pp. 123/133) o autor contrapõe à família bíblica (modelo perfeito da família machista patriarcal — A Sagrada Família; — defende o primogénito), a de Jesus Histórico: “Para jesus, a família de cada mulher, cada homem que vem a este mundo é toda a Humanidade, na sua diversidade de povos e de culturas, todos filhos predilectos de Deus Abba-Mãe. A família mais restrita de cada qual é parte da família alargada de Deus Criador, todos os povos, indissoluvelmente unidos uns aos outros, fora dos quais logo nos perdemos”. SÓ DENTRO DA HUMANIDADE, SOMOS EM PLENITUDE E GOZAMOS DE SAÚDE= SALVAÇÃO. Na Família bíblica a mulher é subalternizada, subjugada. (graças ao mito de Adão e Eva). O Cristianismo desvirtua Maria, a mulher-mãe de Jesus. Matou-a como mulher e como mãe. Converteu-a num mito, “uma deusa sem corpo, sem sexo, sem seios, sem nada de feminino”.../ No terceiro milénio prossegue-se esta via. Regressemos a Jesus Nazaré. À sua Ruah . Ao seu Deus Abba- Mãe. — de todos os povos por igual.

No capítulo 14 [pp134/137 E Deus os fez heterossexuais e LGBT, o autor critica as posições tradicionais da Bíblia judaica, dos doutores da Igreja sobre a sexualidades. A Bíblia — Primeiro e Segundo Testamentos — condenam o homossexualismo e os homossexuais. O mesmo não se pode dizer de Jesus que nem sequer se lhes refere(p.136). Desistamos da Bíblia. Sigamos a Jesus e o seu Deus: “Sem livros sagrados, só Sabedoria em crescendo; sem nenhuma espécie de intermediários entre nós, seres humanos e povos, e Deus Abba-Mãe, mais íntimo a nós do que nós próprios.

Nos Capítulos 3 ( pp 17/22) — Testemunhas de jeová, o Terror feito Deus, e no capítulo 6 (pp 42/51) — A Ignomínia do Pagamento do Dízimo, é feita uma critica ao terror de uma mensagem de Fim do Mundo (como a transmitida pelas testemunhas de Jeová). Apela o autor para a expurga da Bíblia, distinguindo a Teologia do Poder (deus ídolo) da Teologia das vítimas que remete para Deus Abba- Mãe. — a de Jesus. No cap. A Ignomínia — crítica o Dízimo, veículo de toda a submissão, cuja mais antiga referência se encontra no Génesis, na ocasião de vitória de Abraão vitorioso dos demais reis. Para o Pe. Mário existe a Bíblia Maldita — enquanto palavra do Deus Altíssimo, o do poder vencedor. E a Bíblia Bendita — enquanto biblioteca que havemos de estudar, não, obviamente, para a praticarmos, mas para melhor sabermos como defender-nos da ideologia-teologia do Poder que atravessa todos os livros. Nada de pagamentos de dízimo, côngruas... Não à riqueza “acumulada -concentrada”. A findar este 6.ª capítulo, o Pe. Mário solta um “Grito de Guerra”: “VIVA, POIS, A PERMANENTE REBELIÃO POLÍTICA DESARMADA DOS POVOS-VÍTIMAS! VIVA!

Finalizando, referirei os capítulos 5 — (pp. 31/41) — Jesus rompe com o Judaísmo e com a Bíblia; e o Capítulo12 (pp. 111/122) – “Eu Sou Jesus A Quem Tu persegues. Neles é feito o “retrato/perfil de Jesus Nazaré”. Ao Cristo do Judaísmo, crismado pelo cristianismo como Cristo da Fé — o mito, ídolo dos ídolos, opõe-se o Jesus Nazaré — filho de Maria — que não é o Messias/Cristo, como testemunham os 4 Evangelhos em cinco volumes. Ele é o Jesus histórico, o camponês-artesão. O Humano. No nosso tempo (III milénio) Jesus, o filho de Maria “é a nossa bússola, a nossa estrela polar.” Sejamos outros Jesus — Nunca Poder. A frase que titula este capítulo 6.º está nos Actos dos Apóstolos (2.ª livro de Lucas). S. Paulo anuncia o Messias. Dá ordem de expulsão a Marcos, o do Evangelho com o seu nome, porque este lhe testemunha o Jesus que ele recusa — o Histórico. O filho de Maria e o seu Deus não têm lugar no Evangelho de Paulo, a não ser como perseguido, crucificado. Nos versículos 2-125 são referidas as cartas de Paulo de Tarso e tudo o que elas encerram de negação de Jesus Nazaré. O Deus dos judeus é o mesmo do império romano cristão e do papa de Roma. A monarquia é absoluta em toda a terra. O poder é um só. É o topo de pirâmide. Todos os demais são vassalos e servidores. Os que dissentirem são escorraçados. É o que sucede com Jesus, filho de Maria. É crucificado. Ousa denunciar o deus do topo da pirâmide como mentiroso, assassino, pai da mentira. Actualmente, o império territorial deu lugar ao império financeiro — o deus dinheiro.

Para o Pe. Mário, a Revelação está no facto de Jesus se desligar do poder: “Fora do poder, e só fora do poder — revela Jesus, ao expirar = dar o seu sopro maiêutico na cruz do Império — há o Humano que urge fazer crescer em nós de dentro para fora até para lá do limite. E só no Humano somos para sempre. Já o poder, messias invicto, acaba irremediavelmente na morte de cada um dos seus sucessivos agentes históricos”. “Só com Jesus Nazaré somos plena e integralmente humanos. Com o Cristo de Paulo somos chefes ou súbditos, não humanos. Chefes, uma minoria. Súbditos, a esmagadora maioria.

À laia de conclusão, reproduzo aqui o último parágrafo de Sam Harris, in: O Fim da Fé — Religião, Terrorismo e o Futuro da Razão, edições tinta-da-china, 1.ª edição, 2007, p. 265: “ Para qualquer pessoa com olhos de ver, não restam dúvidas de que a fé religiosa continua a ser uma fonte permanente de conflito entre os seres humanos. A religião é capaz de persuadir homens e mulheres inteligentes a não pensar, ou a pensar mal, sobre questões de grande importância civilizacional. E no entanto continua a ser um tabu criticar a fé religiosa na nossa sociedade, ou mesmo observar que algumas religiões são menos compassivas e tolerantes do que outras. Aquilo que há de pior em nós (o logro puro e simples) foi elevado para além de qualquer crítica, ao passo que aquilo que temos de melhor (a razão e a honestidade intelectual) tem de permanecer escondido, por medo de ofender alguém”. Disse.

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Edição 127, Abril 2017

Ricardo Machado / IHU / JF

A intensa espiritualidade de Beethoven e a mística da crença na vivência humana

A 9ª Sinfonia de Beethoven foi sua última composição sinfônica e levou 12 anos para ser escrita, publicada em 1824, três anos antes de sua morte. Influenciado pelo zeitgeist (espírito do tempo) de sua época, cujos rumores sobre o que havia ocorrido na Revolução Francesa corriam a Europa, no fim do século XVIII, Beethoven já com a audição comprometida começa a escrever a 9ª Sinfonia em Ré menor, Op. 125 – Finale An die Freude – Friedrich von Schiller. A composição e sua complexa teia de relações foi o tema da audição comentada com Yara Caznok, realizada na manhã da sexta-feira, 31-3-2017, na Sala Ignacio Ellacuría e Companheiros – IHU. A audição integra a programação da 14ª Páscoa IHU.

Se levarmos em conta o cânone musical, a sinfonia é composta por quatro movimentos, de modo que o primeiro deles tem muita energia, ao passo que o segundo tem um ritmo mais lento e lírico, o terceiro é muito breve e descompromissado e o último é uma recuperação de forças com bastante intensidade. “A 9ª Sinfonia de Beethoven não é assim. Ela é o grande discurso de autonomia musical. Como Beethoven não gostava da aristocracia, ele substituiu, na segunda parte, os minuetos (ritmo típico de danças aristocráticas) por Scherzos. O terceiro movimento é uma preparação para o gran finale que é a quarta estrofe”, explica Yara.

Foi o isolamento social, não a surdez, que transformou Beethoven solitário e introspectivo, mas que, no final das contas, o fez compôr a 9ª Sinfonia que é também um gesto revolucionário por ter trazido de volta a voz humana para uma composição. “O instrumento é uma extensão do corpo e ele levou isso muito a sério em seu trabalho. Mas nesta última sinfonia, no último movimento, é como se ele quisesse resgatar o elemento humano e aí traz a voz para a composição”, destaca. “O sentimento de religiosidade de Beethoven era muito ligado à natureza, ele tinha uma mística profunda, por isso não aceitava a burocratização da fé. No fundo, ele tinha uma verdade religiosa muito forte”, complementa.

Primeiro movimento – Allegro ma non troppo, um poco maestoso

Logo no início da peça, a musicalidade da composição vem preenchendo a paisagem sonora como se fosse uma nuvem que toma de assalto todo o espaço. “O primeiro tema é bastante marcial, quase militar, seguido de temas mais suaves que vão se interpenetrando de forma cada vez mais intensa até que se reúnem em uma força energética muito grande que é difícil de conter. O Beethoven tem uma história sem enredo nesta sinfonia, o que ele faz é construir energias”, descreve Yara.

Segundo movimento – Scherzo – Molto Vivace

Esta parte começa com um fugato, sendo acompanhada posteriormente por um tema de cavalaria, sendo complementada por um trio-minueto. “Antigamente, no Barroco, os trio-minuetos eram tocados apenas por três instrumentos, mas depois passou a ser executado por vários, ainda que convencionalmente se chamasse de trio. Beethoven, nesta parte, compôs para que apenas instrumentos de madeira fossem executados. Esse movimento serve para as pessoas relaxarem e se prepararem para os dois últimos”, esclarece a pesquisadora.

Terceiro movimento – Addagio molto cantable

Ao contrário de Mozart, que era célebre, também, pela grandiosa capacidade e facilidade em compor melodias, Beethoven tinha muita dificuldade em compô-las. “Esta é a melodia mais longa que Beethoven já fez. Ele ia construindo tijolinho por tijolinho. Ele teve a ideia do motivo, mas escreveu muitas vezes, com muitos rascunhos, cada frase musical, de modo que todas as variações desta parte da música têm origem no primeiro movimento”, detalha a professora.

Quarto movimento - Presto

Do silêncio ao caos. “Esse é o grande movimento realizado na última parte da composição”, frisa Yara. “A construção desta melodia é quase banal, tem uma lembrança de melodia popular e isso é de propósito para que as pessoas se sintam incluídas”, sublinha a conferencista. Na parte em que a voz humana é retomada por meio dos coros, a proposta de Beethoven é que o trecho seja mais fácil de ser cantado e lembrado. “Na primeira estrofe, a ideia de fundo versa sobre a fraternidade. Na segunda e terceira estrofes o que está colocado diz respeito as canções de tavernas, até com brincadeiras jocosas entre os amigos. Na quarta estrofe se retoma a ideia da trindade barroca, alternando solistas e coros, e com a entrada do tema de infantaria turca que é cantada somente por vozes masculinas. Há uma espécie de confusão de temas que dá a ideia de batalha”, disseca. “ Na quinta estrofe faz-se um resgate a um tema sacro do século XVI para trazer uma ideia de espiritualidade, de um repertório que cantou o Criador, esse pai amoroso que nos abraça, entrelaçando a ode à alegria aos trombones. Na última estrofe se ouve várias frases musicais ao mesmo tempo ”, pontua Yara.

A força humana de Beethoven

Ao encaminhar o encerramento da audição comentada, Yara Caznok chama atenção para a intensa espiritualidade de Beethoven, que nunca foi muito ligado às religiões, mas era bastante espiritualizado. “O que Beethoven fez foi acreditar na capacidade humana. Esta obra não tem uma vivência religiosa, mas uma espiritualidade mística de quem crê na vivência humana. Beethoven, aquele que foi responsável por levar a música instrumental ao máximo, cujos efeitos ainda percebemos em pleno século 21, foi também o responsável por trazer de volta a sublimação da voz humana em uma sinfonia”, emociona-se Yara.

Nota

Yara Caznok. Professora Yara Caznok no IHU. Graduada em Letras Franco-Portuguesas pela Fundação Faculdade Estadual de Filosofia Ciências Letras Cornélio Procópio - FAFI e em Música pela Faculdade Paulista de Arte – FPA. Especialista em Educação pela Universidade de São Paulo – USP, cursou mestrado em Psicologia da Educação na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo – PUC-SP e doutorado em Psicologia Social pela USP com a tese Música: entre o audível e o visível (São Paulo: Edunesp, 2004). É autora, entre outros, de Ouvir Wagner – Ecos nietzschianos (São Paulo: Editora Musa, 2000) e O desafio musical (São Paulo: Irmãos Vitale, 2004). Leciona na Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho, no Departamento de Música