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Edição 148, Maio 2019

Massimo Faggioli

A IGREJA DO ESCÂNDALO DOS ABUSOS É A ÚNICA IGREJA QUE CONHECEMOS

Estudantes universitários dos Estados Unidos oferecem novas reflexões sobre a crise dos abusos sexuais no clero. O comentário é do historiador italiano Massimo Faggioli, professor da Villanova University, nos EUA, em artigo publicado em La Croix International,. A tradução é de Moisés Sbardelotto /IHU

Cita-se Santo Agostinho ao dizer que “se aprende ensinando” – docendo discitur. Isso nunca foi mais verdadeiro para mim do que durante o semestre passado, quando lecionei uma disciplina de graduação sobre a crise dos abusos sexuais na Igreja Católica.

Minha turma incluía 30 estudantes com idades entre 21 e 22 anos, a maioria dos Estados Unidos. Havia uma mistura de homens e mulheres prestes a se formar em uma variedade de campos, da Biologia às Ciências Políticas. A maioria deles eram católicos, mas havia uma minoria substancial de não católicos e até mesmo de não cristãos. Quase todos admitiram estar enfrentando a “questão-Deus”, assim como o significado da Igreja.

Eu aprendi muito enquanto preparava minhas aulas, principalmente a partir da leitura dos materiais acadêmicos que integraram e sistematizaram o nosso conhecimento sobre os vários aspectos da crise dos abusos a partir de um ponto de vista histórico e teológico.

Foi uma experiência remanescente do meu primeiro ano de estudos na Universidade de Bolonha em 1989. As aulas dos meus cursos sobre história europeia e mundial tiveram que ser mudadas quase que da noite para o dia desde a queda do Muro de Berlim em 9 de novembro daquele ano, bem no meio do semestre.

História em construção

Lecionar História em novembro de 1989 provavelmente não era tão diferente de ensinar um curso sobre a crise dos abusos católicos hoje. A crise ainda está se desdobrando globalmente e agora está atingindo países onde as consequências não são apenas eclesiais, mas também podem se tornar políticas, como é o caso da Polônia.

Meu curso foi projetado com foco específico no abuso sexual de menores por parte do clero. A escolha do tema levantou múltiplas questões – metodológicas e éticas, em particular – que eu tentei antecipar em janeiro passado aqui no La Croix International.

Essa foi facilmente a experiência mais intensa que eu já tive de ensino em sala de aula – emocional, psicológica e teologicamente. Talvez porque vários eventos importantes referentes à crise, na realidade, ocorreram no meio do semestre. Eles incluíram a extraordinária cúpula vaticana (em fevereiro), a condenação do cardeal australiano George Pell a seis anos de prisão por abuso sexual (em março) e a publicação do longo e controverso artigo de Bento XVI sobre as raízes da crise dos abusos (em abril).

Mas, acima de tudo, o curso foi bastante esclarecedor por aquilo que os estudantes tinham a dizer em aula e em seus trabalhos finais. Eles forneceram intuições importantes sobre aspectos da crise que eu nunca havia levado em consideração. Ler e falar sobre a crise lhes permitiu refletir sobre suas próprias experiências.

Isso também ajudou a desideologizar a atual controvérsia sobre a liberdade acadêmica nas universidades católicas. Algumas pessoas afirmam que a “ortodoxia liberal” da diversidade e da inclusão impede que os professores lidem com questões sensíveis em sala de aula. Esse curso provou que absolutamente não é assim.

Foi particularmente interessante aquilo que os estudantes, depois de quatro anos na comunidade universitária, escreveram sobre a relação entre as universidades católicas e a crise dos abusos sexuais. A impressão predominante entre eles é que as universidades católicas se distanciaram estrategicamente da Igreja ao lidar com a crise. Esta não é apenas culpa da Igreja, mas também a escolha deliberada das universidades.

Fracasso das universidades católicas em enfrentar crise

“A nossa nação tem uma longa história de estudantes que se tornaram participantes importantes em movimentos sociais para ajudar a trazer mudanças positivas. Isso não vem ocorrendo dentro da crise dos abusos sexuais, porque as universidades atualmente não estão dedicando o tempo suficiente para educar seus alunos sobre o assunto”, escreveu um estudante.

Outro disse que isso não era um acidente, mas sim uma escolha deliberada. “A quantidade inadequada de conversa sobre esse assunto em muitos campi universitários católicos parece extremamente similar a esse sistema de encobrimento, no sentido de que a única entidade que se beneficia com isso são as próprias instituições de Ensino Superior católico, e não os estudantes ou os professores”, afirmou.

Meus estudantes viram as instituições católicas de Ensino Superior se distanciando conscientemente da Igreja institucional. Essa não é apenas uma estratégia legal ou de relações públicas. Ela tem também consequências eclesiológicas.

Como disse um estudante: “O modelo institucional nos últimos séculos serviu para dar aos católicos romanos um forte senso de identidade corporativa. Eu sinto que, na contemporaneidade, especialmente em relação à crise dos abusos sexuais, essa afirmação não se sustenta. Instituições e indivíduos católicos abandonaram seu forte senso de identidade corporativa em uma tentativa de se separar do sistema que perpetuou esse abuso”.

Há também fatores sócio-económicos em jogo no distanciamento do sistema universitário católico em relação à Igreja, que ocorre em um momento em que o Ensino Superior católico se esforça para encontrar maneiras de servir à população estudantil para a qual ela foi originalmente construída – os imigrantes pobres.

Estudantes criticam postura morna das instituições católicas

Um estudante viu esse embate também no modo como as universidades católicas lidam com a crise dos abusos: “Não é apenas a percentagem significativa de estudantes que vêm de famílias abastadas que cultiva esse ambiente de distanciamento. As universidades católicas enraízam sua identidade na criação de um ambiente católico que existe à parte da realidade”.

Esse também é um problema para a liberdade acadêmica no campus, no sentido da disposição de abordar temas desconfortáveis na comunidade universitária. Um estudante observou que “as universidades católicas, assim como o padre no filme ‘Calvário’, parecem exalar um senso de distanciamento da crise. A maioria dos estudantes e às vezes até os professores não estão dispostos a discutir temas mais sensíveis ou questionar seus próprios pontos de vista”.

Estudar a crise dos abusos em uma sala de aula universitária também nos deu a oportunidade de refletir sobre as conexões entre uma teologia católica da pessoa humana e a crescente corporativização e mercantilização da educação superior.

“As universidades de todo o mundo têm esse dilema econômico de receber financiamento/recursos de uma fonte externa e, depois, ter que navegar na realidade das expectativas que vêm junto com isso”, escreveu um estudante. Isso tem um impacto sobre a disposição da universidade em lidar com a crise dos abusos.

Um outro estudante ecoou isso, dizendo: “As universidades católicas continuam relutantes em trazer seus recursos acadêmicos para lidar com a crise dos abusos sexuais, porque isso contradiz sua posição neutra. Eles provavelmente querem neutralizar o perigo de ser uma instituição católica em um século XXI cada vez mais secular”.

Nesse sistema, escreveu outro estudante, “as universidades católicas se transformaram em universidades politicamente mornas. Em questões de mudanças sociais, políticas e religiosas, permitiu-se que as faculdades ficassem em silêncio, em vez de se engajar em um discurso significativo”.

Isso não é apenas medo das consequências de levantar questões desconfortáveis. Existe uma conexão entre a corporativização da universidade e da Igreja que não se perdeu nos estudantes.

“As operações atuais das universidades católicas refletem a noção secular e moderna da eficiência, dos resultados quantitativos e da percepção pública. Desse modo, as universidades católicas norte-americanas refletem a mentalidade da Igreja na recepção inicial das acusações de abuso sexual cometido por clérigos contra menores”, escreveu um estudante.

De modo semelhante à Igreja escondendo o escândalo, nas universidades “existe uma obsessão com as métricas e os números no modo de conservar uma identidade católica, mas não tanto em programas e pesquisa”.

Universidades católicas em conflito

Um dos estudantes disse que a relutância das universidades católicas faz parte de um problema sistêmico mais amplo. “Eu acho que muitas universidades estão com medo de ir na direção do ensino social católico ou de incorporá-lo em vários cursos profissionais, porque não querem criticar o sistema”, afirmou o estudante.

Isso fica evidente ao lidar com a crise dos abusos como parte da crescente pressão sobre os currículos básicos e as artes liberais.

“Parece haver uma luta dentro das universidades católicas. Elas querem/precisam estar a par das outras universidades seculares, mas acabam evitando os cursos de ensino social católico em favor do cumprimento das exigências profissionais”, concluiu o estudante.

No fim do curso, lemos em sala de aula o famoso ensaio de Karl Rahner sobre a teologia da infância (publicado originalmente em 1963), que foi reexaminado com um importante e recente artigo do teólogo australiano James McEvoy [disponível aqui, em inglês].

Uma de minhas estudantes refletiu sobre a sua experiência ao ler sobre a teologia da infância à luz da crise dos abusos.

“As crianças estão em preparação para as provas já na escola primária, pressionadas para participar de atividades extracurriculares e para construir seus currículos, para se prepararem para seus futuros desde uma idade tão jovem. Todo ano é sempre apenas uma preparação para o próximo passo”, observou.

“Ao crescer, meus professores sempre diziam que cada ano me prepararia para o próximo, e para mim sempre se tratou de me preparar para a faculdade. Essas pressuposições sobre a [teologia da] infância são problemáticas no escopo da crise dos abusos, porque elas têm implicações muito reais para as crianças que crescem na Igreja.”

A crise dos abusos nos ajudou a redescobrir a teologia da infância de Rahner. E isso abriu os nossos olhos para um tipo equivocado de teologia da infância que permeia a cultura da performance, na qual as crianças são instadas, desde muito pequenas, a competir pela admissão nas melhores escolas.

Um curso universitário que desafia a fé de alguns

O curso sobre os abusos sexuais na Igreja também teve um impacto sobre a experiência de fé de alguns dos meus estudantes. Um deles confessou que isso teve um peso sobre ela.

“Depois de passar um mínimo de três horas por semana discutindo a crise em sala de aula e lendo artigos sobre o abuso, foi difícil continuar participando da missa e vendo a Igreja sob uma luz favorável. Duvido que essa seja uma experiência incomum para outros estudantes nesta turma”, escreveu ela.

Mas alguns dos meus estudantes participaram, sim, da missa final do ano acadêmico. Eu não pude deixar de imaginar como essa liturgia foi diferente para esses estudantes que leram sobre a frequência com que os abusos sexuais cometidos por padres ocorriam em instalações da Igreja e perto do altar.

Se há uma coisa que eu aprendi com esse curso foi que as universidades católicas precisam se engajar com essa nova geração de fiéis que cresceram cercados de notícias sobre a crise. “A Igreja do escândalo dos abusos é a única Igreja que conhecemos”, disse um dos estudantes.

O que é novo em comparação com os anos anteriores é que os estudantes notam que a crise dos abusos católicos é também uma crise teológica. Foi isto que um deles observou: “Há uma batalha interna no catolicismo sobre as causas da crise dos abusos sexuais infantis. Alguns acreditam que a estrutura institucional, assim como os aspectos teológicos da Igreja Católica levaram ao abuso e aos impactos duradouros sobre as vítimas. Outros, no entanto, acreditam que a revolução sexual e o Vaticano II causaram a crise dos abusos sexuais. A geração de estudantes que atualmente frequentam as universidades católicas está no meio desse debate”.

Solução exigirá a contribuição dos estudantes

Os estudantes observaram como a divisão em relação à crise dos abusos tornou-se uma brecha a mais na lacuna ideológico-política preexistente. Um deles referiu-se à polarização entre diferentes identidades católicas nos campi universitários.

“Ao longo destas aulas, examinamos o que parecem ser duas comunidades divergentes dentro da Igreja Católica. Uma é formada por aqueles que acreditam que a sociedade e as forças externas criaram mudanças que levaram à tragédia dessa crise. A outra é uma coleção de católicos que acreditam que a estrutura é a culpada e procuram reformá-la. Ambas estão presentes em todas as áreas da Igreja, e ambas estão confusas. Isso se manifesta nas comunidades dos campi universitários católicos”, disse um estudante.

Se as instituições católicas de Ensino Superior se limitarem a desenvolver e implementar boas práticas no campus, elas deixarão o campo livre para as diferentes forças que tentam tirar proveito da crise para uma agenda específica e idiossincrática. Essa é uma das grandes tentações não apenas para as lideranças hierárquicas, mas também para as faculdades e universidades católicas.

Encontrar uma saída para a crise dos abusos sexuais exigirá novas políticas e mecanismos para implementá-las. Mas também são necessários estudos sólidos sobre os vários aspectos do fenômeno e suas consequências para a Igreja.

No entanto, isso não ocorrerá sem a contribuição das universidades católicas. E a voz dos seus estudantes será crucial para isso. Eles têm muito a dizer para todos aqueles que estão nos diferentes lados daquela que é verdadeiramente uma crise teológica.

Ladislau Dowbor

E SE A TIRANIA DOS MERCADOS ESTIVER A CHEGAR AO FIM?

"Um choque impressionante de realismo caracteriza esta excelente síntese dos novos caminhos que os Estados Unidos precisam trilhar para que a economia volte a servir à sociedade, não o contrário. Não se trata de “mais um estudo” de economia, e sim de uma sistematização dos principais desafios e medidas a tomar", escreve Ladislau Dowbor, economista, doutor em Ciências Econômicas pela Escola Central de Planeamento e Estatística de Varsóvia, professor da PUC-SP e da Umesp, em artigo publicado por Carta Maior. Tradução IHU

Entregamos os nossos governos aos mercados, e entregamos os mercados às corporações. Um choque impressionante de realismo caracteriza esta excelente síntese dos novos caminhos que os Estados Unidos precisam trilhar para que a economia volte a servir à sociedade, não o contrário. Não se trata de “mais um estudo” de economia, e sim de uma sistematização dos principais desafios e medidas a tomar. O eixo central do relatório está centrado no duplo movimento necessário: reduzir o poder das corporações, e resgatar o papel das políticas públicas. O Roosevelt Institute, a começar por Joseph Stiglitz, se caracteriza pela seriedade das suas pesquisas e o bom senso das propostas.

O relatório impressiona também por fugir de simplificações ideológicas, buscando claramente as medidas cuja utilidade já foi comprovada. E ajuda muito a clareza ao mostrar as dimensões políticas, de poder de decisão efetivo sobre o uso dos recursos, que temos de enfrentar. O problema não está na falta de recursos, e sim no seu desvio por corporações que em vez de fomentar a economia a drenam, apropriando-se para este fim das políticas públicas. Ou seja, o relatório enfrenta a questão central. E esta questão, evidentemente, não se limita aos Estados Unidos. “As generalizações sobre a ineficiência do governo e sua pouca efetividade são exageradas (overblown), enquanto as consequências negativas das soluções baseadas no mercado têm sido muito frequentemente desconsideradas…A América deixou de lado um poderoso instrumento de governo: a provisão pública direta de bens e serviços.”

Ou seja, o que sentimos no relatório é que finalmente a onda neoliberal está refluindo já não em rincões da esquerda, mas em instituições de grande peso. “Nos últimos 50 anos, temos desinvestido (disinvested) do poder público e dito que o governo é o problema. Sabemos que isso está errado. Sabemos também que o governo é a base para as instituições e os bens tangíveis que constituem o tecido das nossas vidas quotidianas – escolas e segurança pública; estradas e pontes; alimentos e medicamentos mais saudáveis; ar e água mais limpos”. “O presente relatório vai ilustrar a necessidade crucial de se reduzir o poder corporativo e resgatar o poder público. Mostraremos que ambos são necessários para mover nossa nação para um futuro que se apoia no que houve de melhor na nossa história, corrige erros cometidos e se adapta aos tempos modernos”.

Fugindo das polarizações, o relatório mostra que o fortalecimento da capacidade de governo é central inclusive para o funcionamento da economia em geral. “O efeito combinado de poder corporativo concentrado e do poder público corrompido tem sido devastador para o nosso país… O governo não está investindo na população, nos programas públicos, na tecnologia ou na infraestrutura física – o tipo de investimentos que uma economia forte e em expansão exige”. Lembremos que no Brasil ‘investir na população’ é qualificado de ‘gasto’.

Não se trata aqui de algum flarte com socialismo. Trata-se, na minha interpretação, de um choque de realismo para que o próprio capitalismo volte a funcionar. Tenho qualificado essa busca de ‘capitalismo civilizado’. O próprio documento sugere uma ‘visão de mundo progressiva’ (progressive world-view). Mas as propostas destoam profundamente do neoliberalismo: “A história não tem sido caridosa com o neoliberalismo, esse caótico saco de ideias baseadas na noção fundamentalista de que os mercados se autocorrigem, alocam recursos com eficiência, e servem bem o interesse público. Aprender a lição de que o neoliberalismo sempre foi uma doutrina política a serviço de interesses especiais pode constituir o fio condutor na nuvem que hoje recobre a economia global”. Leram bem, um documento assinado entre outros por quem já foi economista chefe do governo Clinton e do Banco Mundial.

Os interesses especiais, obviamente, são as corporações, que se transformaram numa máquina rentista, que extrai da economia em vez de contribuir: “Como tanto poder das corporações é direcionado para 'extração de renta' (rent-extraction, aspas dos autores), – tomar uma parte maior do bolo econômico da nação ao tirar vantagens de outros – em vez de criar riqueza, reduzir o poder corporativo vai inclusive fortalecer o conjunto da economia”. Temos aqui a evidente consequência da financeirização. O processo se agravou com a apropriação da política: “No final, isso permitiu que os muito ricos convertessem o seu poder econômico em poder político concentrado que, por sua vez, permitiu que eles torcessem ainda mais as regras a seu favor e capturassem mais poder econômico”. É a máquina infernal: poder financeiro que gerou poder político, que por sua vez permite torcer as leis para gerar mais poder financeiro.

Assim, “este vale-tudo do setor privado prejudicou o bem-estar dos indivíduos e das comunidades pelos Estados Unidos afora, mas também travou o crescimento econômico, já que permitiu que os super-ricos retirem lucros do rentismo e de outras atividades que aumentam a sua riqueza sem fazer a economia crescer”. O sistema descolou claramente das contribuições produtivas: “Markups, ou seja, o montante que a companhia cobra acima dos custos, aumentaram de 18% acima do custo marginal em 1980, para 67%. Isso sugere que os lucros corporativos compreendem não retornos produtivos sobre o capital e o trabalho, mas rentas”. Ou seja, remuneramos essencialmente aplicações financeiras, não investimentos: “Antes de 1970, as corporações americanas pagavam 50% dos seus lucros aos acionistas e o resta era reinvestido no negócio. Hoje, o pagamento aos acionistas está na ordem de 90% dos lucros declarados (Mason 2015a)”.

O relatório tira as consequências em termos de resgate da produtividade do setor financeiro. “Para assegurar que a função das finanças seja socialmente benéfica, a reforma do setor financeiro devera buscar, acima de tudo, reduzir os riscos macro-econômicos e limitar as práticas predatórias. Além disso, as reformas deveriam buscar o aumento do crédito produtivo, que poderia estimular pequenos negócios que atualmente enfrentam limitações de capital, facilitar empréstimos simples eficientes e a baixo custo, e servir as famílias não bancarizadas ou insuficientemente bancarizadas que atualmente estão sendo exploradas por financeiras de alto custo”.

No nosso caso, evidentemente, os próprios bancos fazem o papel de agiotas, em escala incomparavelmente mais nociva. Mas é útil ver que o problema do resgate da utilidade social e econômica dos intermediários financeiros seja colocada com clareza. “Apesar dos avanços tecnológicos que deveriam ter tornado a indústria das finanças – um serviço de ‘intermediação’– menos caro e mais competitivo com o tempo, o custo unitário das finanças hoje é tão caro como era em 1900, porque o setor financeiro não repassa essas economias para os consumidores e sim para aumentar os lucros”.

Os autores apontam inclusive o fato de que a existência de um forte sistema financeiro público é essencial para estimular a qualidade dos serviços prestados pelos mercados: “O provimento público de serviços financeiros básicos não constitui um defeito, mas precisamente o objetivo. Essencialmente, haver uma alternativa pública tende a disciplinar os mercados para assegurar o acesso, qualidade e quantidade de bens e serviços essenciais.” Ou seja, precisamos não só de regulação, mas de empresas públicas que forneçam diretamente bens e serviços para servir de contrapeso, abrindo alternativas para a população e colocando limites à agiotagem e rentismo financeiro. Para nós, que estamos atolados em negociatas de privatização, é importante esta compreensão de que a existência do setor público provedor de serviços é essencial para tornar o setor privado mais performante.

O documento no seu conjunto buscar resgatar o papel do setor público. “Os agentes políticos (policymakers) deveriam expandir o poder do governo, ao prover diretamente as políticas, com dois objetivos na linha de frente de uma nova visão de mundo progressiva: acesso universal aos bens e serviços e investimentos transformadores na busca de objetivos nacionais.” Invertendo as narrativas neoliberais, o texto mostra a maior produtividade sistêmica alcançada quando o governo assume um papel de provedor direto de políticas. E mostra a falácia da chamada austeridade: “Na realidade, está comprovado que gastar pouco demais leva no fim das contas a custos muito mais elevados (em termos de prejuízo para a vida das pessoas e para o crescimento econômico) do que gastar demais.”

No Brasil, sentimos isso na pele, na medida em que o travamento do acesso às políticas públicas força as pessoas a recorrer a serviços privados muito mais caros, resultando em perda de produtividade sistêmica. É bom lembrar que durante os anos 2003 a 2013, que o Banco Mundial qualificou de “década dourada” (Golden Decade) da economia brasileira, houve forte expansão de renda e de acesso a bens e serviços públicos, o que dinamizou o a economia e limitou o déficit, pois gerou aumento de receitas. O déficit se torna significativo a partir da era da austeridade de 2014 em diante. Para o detalhe, veja o capítulo 12 do meu A Era do Capital Improdutivo, disponível aqui.

“A política pública, executada com cuidado relativamente às dinâmicas de mercado subjacentes, deveria constituir o mecanismo básico (default mechanism) para prover bens e serviços que são essenciais para a dignidade e atuação humanas, tais como acesso à habitação, cuidados de saúde, e serviços bancários. O provimento público direto dos serviços é essencial em casos em que o público tem um forte interesse em ter acesso universal, e em que os setores privados têm como exercer um poder de mercado sobre os que buscam acesso. Há justificações econômicas para utilizar o poder do governo para prover bens e serviços essenciais. Uma vasta literatura mostra os benefícios econômicos de se assegurar um nível básico de serviços que incluem o cuidado infantil, a educação inicial e aposentadorias. Particularmente significativo é o fato que um maior investimento nas pessoas assegura uma maior produtividade econômica no conjunto.”

As mudanças, na visão dos autores, não se darão sem uma transformação do processo decisório nas próprias corporações, na chamada governança corporativa. “Para se criar um sistema que sirva aos interesses de todos os atores interessados (stakeholders), e não só dos executivos e da comunidade de aplicações financeiras, deveria ser exigido dos conselhos de administração das corporações a inclusão, no mínimo, de uma proporção substantiva de trabalhadores bem como de representantes de outros stakeholders que não sejam acionistas.” O texto mostra como isso funciona na Alemanha e outros países.

O relatório recomenda inclusive o reforço dos próprios mecanismos de regulação. Em particular, explicita como funciona o sistema de proteção do consumidor de serviços financeiros (Consumer Financial Protection Bureau: CFBR) “que materializou a visão de um governo federal que serve e reforça a democracia, e é fortemente apoiado pela população”. E explicita as necessidades de uma transformação da política tributária: “Elevar as alíquotas tributárias marginais no topo e taxar rendimentos de capital permitiria extrair mais recursos que as firmas usam para pagar aos acionistas e executivos (CEOs).” Não custa lembrar aqui que o CEO da Disney embolsou um salário equivalente a cerca de 1500 vezes o salário médio dos seus empregados, provocando inclusive indignação de uma das netas do Disney. O executivo em questão não tem 1500 vezes mais filhos para criar.

Igualmente interessante é a proposta de uma política proativa de inclusão produtiva. “Uma política de garantia federal de emprego (Federal Jobs Guarantee – FJG) constituiria uma fonte direta de empregos com poder público de literalmente terminar com o desemprego involuntário e pobreza de trabalho.” Tal política poderia assegurar que “independentemente de falhas de mercado – tais como choques econômicos, acordos comerciais mal planeados, discriminação estrutural – cada americano teria o direito a um emprego e à renda e dignidade associadas com o trabalho. Uma garantia de emprego poderia funcionar como uma opção pública que coloca uma regra básica para benefícios, compensações e práticas equitáveis que formatariam o mercado de trabalho no seu conjunto”.

Claramente, na visão dos autores, o enfoque econômico não é suficiente. Para as necessidades básicas humanas, temos de nos voltar para o ‘argumento dos direitos’. Mas mesmo em termos macro-econômicos, temos de inverter o raciocínio: “É muito mais provável que o problema que temos de enfrentar seja de demanda agregada inadequada e desemprego elevado, do que sobreaquecimento e inflação.” Expandir a demanda agregada, evidentemente, melhora a situação das famílias e reduz o desemprego. Nada de radicalmente novo aqui, mas sim muito bom senso. Adeus austeridade.

Volto a mencionar que não se trata, nesta análise do Roosevelt Institute, de propor rupturas sistêmicas, e sim de civilizar o processo. Para nós, que nos debatemos no primitivismo ideológico e em narrativas absurdas de que sacrificar a população é “ao fim e ao cabo” bom para ela, vejo este documento como extremamente útil. Qual seja o realismo das propostas, o desmonte do sistema por uma instituição que está no coração dele, com argumentos muito bem organizados, ajuda muito. Não é crítica externa por opositores, é um choque interno de lucidez, por parte de quem conhece o sistema em profundidade. Francamente, são sessenta e poucas páginas que constituem um excelente custo-benefício. Só para não esquecer: a bibliografia é ótima, com artigos e estudos disponíveis online, de acesso aberto e imediato. Para quem quer aprofundar, uma ferramenta.

Massimo Faggioli

A IGREJA E O NACIONALISMO: A SOMBRA DO LONGO SÉCULO XIX

O actual pontificado tentou evitar que a Igreja repetisse os erros daquela época, quando o medo do comunismo e da desordem social levou as hierarquias eclesiásticas aos braços dos regimes políticos nacionalistas, autoritários e racistas.” A opinião é do historiador italiano Massimo Faggioli, professor da Villanova University, nos Estados Unidos, em artigo publicado em La Croix International. A tradução é de Moisés Sbardelotto /IHU

A visita do Papa Francisco à Bulgária e à Macedónia do Norte pode não ser tão sensacional quanto suas viagens à Península Arábica ou aos Estados Unidos. Mas revela muito sobre as semelhanças entre as histórias de vida de Jorge Mario Bergoglio e de Angelo Giuseppe Roncalli. Os nove anos que Roncalli passou como representante do Vaticano na Bulgária (1925-1934) foram um período decisivo na formação do futuro Papa João XXIII. Quando ele chegou a Sofia, em 25 de abril de 1925, a Bulgária era um país abalado pelos levantes políticos e à beira da guerra civil. O país acabara de ser sacudido por dois ataques.

O primeiro foi uma tentativa fracassada de assassinato contra o rei. O segundo, apenas 10 dias antes da chegada de Roncalli, foi o bombardeio da catedral de Sofia, que matou 128 pessoas. Durante sua missão diplomática na Bulgária, o futuro papa teve a oportunidade de aprender sobre a Europa oriental e sobre o cristianismo não católico romano; nomeadamente, a Igreja Ortodoxa da Bulgária.

Mas ele também pôde compreender a complexa mistura entre o colonialismo ligado às potências ocidentais e as missões católicas. Ele também começou a explorar o mundo muçulmano na vizinha Turquia pós-otomana, mesmo antes de ser nomeado diplomata papal em Istambul no fim de 1934.

A rejeição do nacionalismo por parte do futuro papa

Roncalli viajou extensivamente por toda a Bulgária. Isso lhe proporcionou uma experiência em primeira mão de uma realidade moldada por coordenadas históricas, políticas, sociais e eclesiásticas de grande complexidade. Isso lhe ofereceu uma visão única sobre os conflitos entre as nações e as religiões ao longo da fronteira da Europa oriental.

Havia a Grécia ao sul, a área do antigo Império Austro-Húngaro a oeste e a Rússia soviética ao norte. A sudeste também ficava a Turquia recentemente emergente, que lutava contra uma revolução social, política e cultural contra a ocidentalização forçada, que se tornou necessária no fim do Império Otomano após sua derrota na Primeira Guerra Mundial.

Tudo isso fazia parte do jogo geopolítico das Igrejas no último suspiro do “longo século XIX”, um período que começou com a Revolução Francesa (1789) e terminou com a morte de Pio XII (1958). Durante esse período, a Igreja lutou para manter sua posição social e política, comprometendo-se com o autoritarismo.

Depois da Primeira Guerra Mundial, muitos no Vaticano e no cristianismo ocidental viram uma oportunidade de ocupar o vácuo deixado na Europa oriental pelo colapso dos impérios Austro-Húngaro e da Rússia czarista. Mas Roncalli viu que vincular o nacionalismo à religião, tanto no Oriente ortodoxo quanto no Ocidente católico, seria um problema central.

Como diplomata papal na Bulgária, ele começou a rejeitar o nacionalismo e as expressões teológicas e religiosas usadas para sustentá-lo. Ele desenvolveu anticorpos contra a fusão entre nação e religião, entre catolicismo e ideologia. Isso moldou sua interpretação do período entre guerras, da Segunda Guerra Mundial e do início da Guerra Fria até o Concílio Vaticano II (1962-1965).

A aversão de Roncalli às Igrejas que desposavam causas nacionalistas tornou-se parte da visão de mundo do futuro papa. Ela era completamente diferente daqueles que desejavam colocar as ideologias políticas a serviço da Igreja, algo típico de grande parte da cultura clerical durante uma época em que o autoritarismo e o fascismo reinavam em grande parte da Europa.

Estamos voltando a esses tempos? Certamente existem sinais de alerta. Matteo Salvini, o ministro do Interior e homem forte do governo italiano, visitou recentemente a Hungria e elogiou o seu muro militarizado para impedir a entrada de imigrantes. Isso fazia parte dos seus esforços contínuos para forjar uma aliança política com o primeiro-ministro húngaro Viktor Orban, outro líder autodeclarado cristão na Europa de hoje.

Há também Steve Bannon, o ex-estrategista de Donald Trump, que continua incitando e encorajando movimentos populistas entre o povo do Velho Continente, enquanto eles se preparam para votar, no fim de maio, nos representantes do Parlamento Europeu.

O problema levantado pelo casamento entre a Igreja e o etnonacionalismo não é tão evidente quanto na situação entre a Rússia e a Ucrânia. É por isso que o Papa Francisco convocou líderes da Igreja Católica da Ucrânia ao Vaticano em julho próximo para uma reunião extraordinária sobre o assunto. Tudo isso fala de uma crise política e religiosa semelhante à que o arcebispo Roncalli viu durante sua estada na Bulgária.

No nível político, o apoio à ordem liberal e democrática estava colapsando tanto nacional quanto internacionalmente, cedendo à pressão de um sistema social e econômico que produzia desigualdade. No nível religioso, houve um aumento do neotradicionalismo, do fundamentalismo, da intolerância e da xenofobia, em um esforço para justificar a defesa das raízes judaico-cristãs do Ocidente. As semelhanças podem ser vistas na situação política internacional de hoje e a da década de 1920 e 1930.

Mas a posição da Igreja Católica hoje não é a mesma de antes. Líderes da Igreja como Roncalli aprenderam lições importantes desse período entre guerras e a partir da Segunda Guerra Mundial, que levaram a uma mudança importante em relação ao pensamento anterior.No início de 1959, poucos meses depois de ter sido eleito ao papado e assumir o nome de João XXIII, ele anunciou planos para o Concílio Vaticano II.

É graças a esse Concílio e ao ensinamento papal dos últimos 60 anos que a Igreja Católica hoje está francamente ao lado do internacionalismo e do multilateralismo e em oposição ao nacionalismo e à xenofobia. A Igreja de hoje é a favor das democracias constitucionais que respeitam os direitos humanos e a liberdade religiosa para todos – como fomos lembrados pelo importantíssimo documento que a Comissão Teológica Internacional publicou recentemente sobre o tema. Mas, entre as diferenças que distinguem a Igreja nas décadas de 1920 e 1930 da de hoje, há também a crescente fragmentação.

Quando Roncalli foi diplomata papal, ele teve lutar contra o nacionalismo e o colonialismo das ordens religiosas missionárias na Bulgária (especialmente italianas e francesas), assim como contra as tentativas delirantes de trazer a Europa oriental de volta ao catolicismo.

Francisco revive a visão espiritual e política de João XXIII

Agora, o papado tem que lutar contra o nacionalismo em uma Igreja em que a autonomia leiga obviamente impossibilita punir os eleitores e líderes católicos que abraçam o nacionalismo e a xenofobia. No entanto, é claro que o papado e o aparato vaticano que apoiam o Papa Francisco não estão em silêncio.

Vários eventos do mês de maio oferecem uma chave para entender a visão de Francisco e a interpretação do momento atual. Em um importante discurso no dia 2 de maio aos membros da Pontifícia Academia das Ciências Sociais, o papa defendeu o conceito católico do Estado, incluindo a sua clara rejeição ao nacionalismo.

Duas viagens papais em maio têm o objetivo de enviar uma mensagem clara sobre o papel que a Igreja é chamada a desempenhar na Europa, diferente da dos católicos e de outros cristãos que estão tentando manipular o atual momento em vistas a ganhos políticos.

Primeiro, foi a visita à Bulgária e ao norte da Macedônia, de 5 a 7 de maio. Depois, no fim de maio e início de junho, haverá uma viagem papal à Romênia, que incluirá uma visita a uma área do país que abriga uma grande população étnica húngara. Mas Francisco não é a única voz na Igreja institucional que está resistindo abertamente ao nacionalismo.

A Secretaria de Estado da Santa Sé e seu corpo diplomático, assim como muitas ordens religiosas, ainda são uma voz de sanidade em um momento que está testemunhando um reavivamento do nacionalismo dentro de alguns círculos intelectuais católicos, especialmente nos Estados Unidos.

O arcebispo de Luxemburgo, Jean-Claude Hollerich SJ, que é presidente da Comissão das Conferências Episcopais da União Europeia (Comece), recentemente tomou uma posição firme contra o ressurgimento do nacionalismo.

“Um cristianismo autorreferencial corre o risco de ver emergir pontos comuns com essa negação da realidade e corre o risco de criar dinâmicas que, no fim, devorarão o próprio cristianismo”, disse ele na última edição da revista jesuíta La Civiltà Cattolica, examinada pelo Vaticano [disponível aqui, em italiano].

Hollerich, que é presidente de uma organização que inclui bispos dos 28 Estados membros da União Europeia, disse: “Steve Bannon e Aleksandr Dugin são os sacerdotes de tais populismos que evocam uma falsa realidade pseudorreligiosa e pseudomística, que nega o centro da teologia ocidental, que é o amor de Deus e o amor ao próximo”.

O artigo de Hollerich está entre os posicionamentos mais importantes que um representante da Igreja Católica assumiu na União Europeia em décadas. Ele se posiciona em unidade com a tentativa do Papa Francisco deeavivar a intuição espiritual que Angelo Giuseppe Roncalli expressou em sua famosa homilia de Pentecostes de 1944 como delegado apostólico na Turquia durante a Segunda Guerra Mundial.

Palavras proféticas de 1944 que são tão oportunas como nunca

“Gostamos de nos distinguir daqueles que não professam a nossa fé ou não praticam as nossas tradições e liturgias: irmãos ortodoxos, protestantes, judeus, muçulmanos e crentes ou não crentes de outras religiões”, começou o futuro papa.

“Meus queridos irmãos e filhos, devo dizer-lhes que, à luz do Evangelho e do princípio católico, essa lógica é falsa”, advertiu. “Jesus veio para derrubar os muros. Ele morreu a fim de proclamar a fraternidade universal. Seu ensinamento central é a caridade.” “Vocês acham que podem se entrincheirar atrás das suas portas e dizer: “Sou católico, penso em mim mesmo e não me importo com o que os outros fazem’?”

“Somos chamados a viver em uma era da destruição e do ódio, quando o egoísmo individual é superado pelo egoísmo nacionalista, com métodos tão brutais que desonram a raça humana. Cada um de nós deve pensar sobre como contribuir para a reconstrução moral deste mundo”, disse Roncalli.

Tornou-se lugar-comum dizer que a situação política internacional pode estar deslizando para um cenário semelhante à da década de 1930. Quer isso seja verdade ou não, o atual pontificado tentou evitar que a Igreja repetisse os erros daquela época, quando o medo do comunismo e da desordem social levou as hierarquias eclesiásticas aos braços dos regimes políticos nacionalistas, autoritários e racistas.

É por isso que a oposição tanto a João XXIII quanto a Francisco não é apenas teológica, mas também política. O Vaticano II continua sendo o inimigo de qualquer nova forma de nacionalismo católico, teológica e politicamente.

Há o perigo de retornar ao “longo século XIX” que começou com a Revolução Francesa, na qual o ensino da Igreja se recusou a reconhecer a modernidade e a se engajar com o mundo secular. Foi uma paralisia teológica e espiritual que teve custos enormes.

Assim como ocorreu naquela época, a Igreja deve novamente fazer uma escolha entre seguir o Evangelho ou as ideologias atuais da ordem política, econômica e social. É uma lição que o papado romano aprendeu melhor do que outros.

Pentecostalismo e política na América Latina

QUEM SÃO? POR QUE CRESCEM? NO QUE CRÊEM?

O crescimento dos evangélicos ressalta que a secularização não funciona como um muro capaz de anular as trocas entre o mundo da religião e da política. O artigo é de Pablo Selmán, publicado por Nueva Sociedad, edição impressa de Março-Abril de 2019. A tradução é de Wagner Fernandes de Azevedo /IHU

Quem são os evangélicos? Como eles fazem suas igrejas crescerem? Como sua expansão impacta a vida política na América Latina? Essas questões são colocadas desde meados dos anos 1980, quando os evangélicos começaram a se tornar visíveis em grandes cidades latino-americanas, e se repetem com insistência em casos como as últimas eleições na Costa Rica ou no Brasil, que tiveram evangélicos como protagonistas.

Nem a invasão imperial nem a ética protestante como polinizadores de um novo capitalismo: os grupos evangélicos têm uma história densa de implementação e desdobramento político, da qual é necessário dar conta, de maneira panorâmica, tanto da sensibilidade presente, quanto da sensibilidade mobilizada que alimenta as formações políticas de direita, ou como contingências que no passado lhes permitiam um jogo plural.

A seguir, apresentarei de maneira geral as características das denominações evangélicas e seu desenvolvimento histórico na América Latina, dando especial ênfase aos grupos pentecostais, que atualmente são a maioria dos evangélicos, para discutir finalmente a sua performance na vida política, em diferentes países da região. Neste ponto, tentarei mostrar que a influência dos grupos está crescendo, mas isso não acontece mecanicamente ou diretamente. Na conclusão, me permito uma breve reflexão sobre a questão da relação entre religião e política na perspectiva das forças progressistas.

O campo evangélico na América Latina

O que geralmente chamamos de "evangelismo" é um rótulo genérico para capturar o resultado de um processo no qual emergiram diferentes grupos religiosos herdados do cisma do século XVI: luteranos, metodistas, calvinistas, batistas, menonitas, presbiterianos e pentecostais, entre as denominações mais conhecidas.

O protestantismo, que é o antecedente e o marco histórico de todas as igrejas evangélicas, é um movimento cristão que, ao contrário do catolicismo, baseia exclusivamente a autoridade religiosa na Bíblia como instância superior à "tradição sagrada" e opõe-se à infalibilidade do papa (e, portanto, sua religião é evangélica, em vez de apostólica, como o catolicismo). Deste ponto de vista, ser evangélico não é uma religião no sentido de estar inscrito em uma burocracia ou em um ritual, mas sim em um encontro pessoal com Jesus, o Espírito Santo e Deus o Pai. Desse encontro, todo crente pode e deve dar testemunho, e é por isso que todo crente é, ao mesmo tempo, um sacerdote.

As correntes evangélicas

As igrejas evangélicas não reivindicam autoridade humana suprema à maneira de um papado, nem adoram os santos ou a Virgem. Nem eles têm uma instância centralizada de gerenciamento que os reúne, mas há líderes que emergem de tempos em tempos e atravessam diferentes ramos. Em cada país existem associações de segundo grau que cumprem uma função de representação corporativa limitada das diferentes variedades de grupos evangélicos. No entanto, a maioria das igrejas realiza suas atividades fora dessas associações, e aquelas que pertencem a algumas estão longe de serem completamente controladas por elas. Em certas circunstâncias sociais e políticas, essas associações se tornam importantes como instâncias unificadoras. Existem também articulações mais contingentes. Por exemplo, diante do desdobramento das lutas pelos direitos de género e diversidade sexual, emergiu a conhecida organização "Con mis hijos no te metas" (“Com meus filhos não se meta”), transversal ao espaço evangélico e católico.

Na América Latina, pelo menos três grandes tendências evangélicas podem ser reconhecidas. Primeiro, os protestantismos históricos, que chegaram à região no século XIX e se limitaram às comunidades migrantes, dada sua baixa vocação ou eficácia evangelizadora, mas também porque o íntimo vínculo entre as nações da América Latina e a América Latina. O catolicismo resultou em uma forte limitação normativa e cultural à pluralização do campo religioso do ponto de vista legal e institucional. Protestantismos históricos incluem principalmente luteranos, metodistas e calvinistas, e deve-se notar que, apesar de sua fraca expansão demográfica, tiveram inserções culturais muitas vezes privilegiadas e contribuíram para o terreno fértil de um liberalismo político que mais tarde se tornou um forte compromisso social e em apoio a projetos políticos de transformação e defesa dos direitos humanos em grande parte do continente.

Em segundo lugar, as tendências evangélicas originadas nos Estados Unidos, que chegaram à América Latina a partir do início do século XX, com forte sentido missionário e proselitista, sustentadas pelo literalismo bíblico. Eles eram, portanto, profundamente conservadores em sua rejeição da ciência e qualquer pretensão de pluralismo religioso. Uma parte das igrejas Batista, Presbiteriana e Irmãos Livres (ou Irmãos de Plymouth) fazem parte deste segundo grupo de evangélicos. Esses grupos promoveram uma consciência de santificação entendida como uma separação do mundo, que foi também um derivado do desenraizamento social que caracterizou os missionários que vieram para os diferentes países com uma aspiração exclusiva: promover conversões e comunidades de novos cristãos. Com o passar do tempo e com o surgimento de um quadro pastoral local, algumas dessas correntes evoluíram para uma espécie de pensamento social que poderia se conectar com as preocupações mais progressistas dos protestantes históricos. Em outros casos, talvez a maioria, essas correntes transformaram suas posições sociais e políticas em outra direção com a chegada, crescimento e adaptação cultural dos diferentes pentecostalismos latino-americanos.

Os pentecostais formam a terceira corrente de grupos evangélicos. Este ramo do protestantismo é identificado por uma posição específica: a que sustenta a realidade dos dons do Espírito Santo. O que significa isto? Esta corrente alegou, desde o seu nascimento no início do século XX, no Avivamento Espiritual da Rua Azusa, na Igreja Episcopal Metodista Africana da Califórnia em 1906, factos semelhantes aos do Pentecostes narrados no Novo Testamento. Nestas circunstâncias, que tiveram repercussão em alguns países europeus e no Chile, os cristãos evangélicos tiveram sinais e manifestações do Espírito Santo. Esta última, longe de ser uma metáfora, como geralmente a consideramos a partir de uma lógica secularizada, é uma entidade com agência em seus próprios termos: manifesta-se no corpo como presença e faz com que as pessoas falem em línguas desconhecidas, formulem profecias, curem suas doenças, melhorar relações intra-familiares e ter sucesso pessoal na vida quotidiana. A reivindicação da possibilidade dessa experiência será a base tanto da teologia do pentecostalismo e de sua autonomia como ramo evangélico, como de sua posterior influência em outros ramos evangélicos. Também uma parte do catolicismo, nucleada dentro do Movimento da Renovação Carismática Católica (RCC), acolheria essas noções.

Deve-se notar também que o impulso pentecostal é nutrido por uma longa história de correntes protestantes que desafiaram as posições teológicas que, como as do próprio Calvino, estabeleceram uma separação absoluta entre os homens e a divindade. Por isso, é possível argumentar que o pentecostalismo representa um polo que busca reencantar o mundo, em face do clássico impulso protestante que, segundo Max Weber, o desencantou.

Pentecostalismos

O crescimento do pentecostalismo na América Latina é uma variante específica de um movimento que mostrou uma capacidade sem precedentes de globalização nos últimos 100 anos. O pentecostalismo produz conversões e massas de fiéis na China, Coréia do Sul, Singapura, Filipinas e vários países do continente africano. Em todos esses casos, como na América Latina, constata-se uma constante: o movimento tem uma grande capacidade de vincular sua mensagem às espiritualidades locais, bem como de incentivar formas flexíveis, variadas e facilmente apropriadas de organização, teologia e liturgia com as quais difunde-se entre os mais diversos segmentos da população em diferentes contextos nacionais.

No início do século XX, um dos meios de difundir o pentecostalismo foi a migração de crentes que se moviam com sua fé e as primeiras missões organizadas que, de vários países, especialmente os EUA, chegavam a quase todos os países do continente. Então, a partir das décadas de 1940 e 1950, as missões continuaram, mas o pentecostalismo também se desenvolveu a partir de líderes locais que o adaptaram à situação social e cultural endógena. Deste modo, um pentecostalismo autónomo, que privilegiava a salvação terrena e se baseava na "cura divina", sobrepôs-se ao pentecostalismo original, que enfatizava a santificação e o repúdio ao pecado. O pentecostalismo em expansão dialoga com as necessidades e crenças populares de uma maneira original, como nenhuma denominação protestante jamais fez e, portanto, seu sucesso diferencial. Na década de 1950, os pentecostais já constituíam um importante contingente em vários países da América Latina.

Além da percentagem da população que eles representavam, o importante é que, naquela época, em cada um dos países da região, líderes e canteiros de líderes locais estavam dispostos a liderar o crescimento das décadas seguintes. Mas no mesmo estágio a presença de missões dos EUA aumentou devido a uma transformação geopolítica decisiva para a direção dos pentecostais na América Latina: o triunfo da Revolução Chinesa e o fechamento da evangelização de sua imensa população permitiram um redirecionamento da vocações e políticas evangelizadoras para uma América Latina tradicionalmente católica.

No final dos anos 60 e início dos 70, e capitalizando todos esses antecedentes, inicia-se um terceiro estágio no qual se generalizam dois caminhos de crescimento pentecostal: o chamado "neopentecostalismo" e o das igrejas autónomas. No que alguns pesquisadores e agentes religiosos chamam de neopentecostalismo, características do pentecostalismo clássico foram exacerbadas, enquanto inovações teológicas, litúrgicas e organizacionais foram produzidas. Expressões a respeito da presença do Espírito Santo foram pluralizadas e fortalecidas (a aposta por milagres foi aumentada e sistematizada) e a figura dos pastores como sujeitos privilegiados, capazes de viabilizar essa bênção. Nesse contexto, duas principais articulações teológicas surgiram: a "Teologia da Prosperidade" e a doutrina da guerra espiritual.

A "Teologia da Prosperidade", que polemizou e antagonizou a Teologia da Libertação em um plano prático, argumentou que, se Deus pode curar e curar a alma, não há razão para pensar que ele não possa conceder prosperidade. A benção é completa e a contrapartida era um passo que confirmava e aprofundava a oração: o dízimo. O horror de analistas moldados pela cultura secular ou por observadores próximos ao catolicismo, que santifica a pobreza em face da "mistura" entre o espiritual e o económico, tornou impossível perceber que esse aspecto da oferta teológica pentecostal tem muitos aspectos familiares com a dimensão sacrificial que nas aldeias camponesas leva a oferecer animais e colheitas aos deuses em troca de prosperidade. Só isso, como convém ao tempo do capitalismo, não pode se materializar de outra maneira senão pelo equivalente geral de todas as mercadorias: o dinheiro.

A doutrina da guerra espiritual, por outro lado, introduz uma extensão e uma variação na lógica do batismo no Espírito Santo que está no começo do Pentecostalismo. Se o pentecostalismo original afirma que o divino está no mundo, a ideia de guerra espiritual também inclui a presença do mal. Dessa maneira, o dem´pnio deixa de ser uma metáfora para se tornar uma força espiritual corporificada que ameaça a saúde, a prosperidade e o bem-estar, e isso dá origem a uma concepção de experiência religiosa e liturgia na qual a expulsão de demónios diferentes é central. Esta é também uma chave para a expansão pentecostal, uma vez que essa formulação permite que você reconheça a eficácia das entidades espirituais de outras religiões e, ao mesmo tempo, as injurie. O que outras religiões lutam como truques, combates espirituais lutam como agências espirituais negativas, de acordo com a estrutura interpretativa dos destinatários de seu discurso. As igrejas neopentecostais começaram a fazer uso marcante de todas as inovações comunicacionais disponíveis e também aplicaram técnicas de "crescimento da igreja " que haviam sido bem-sucedidas na Coréia do Sul. Toda essa implantação permitiu, aconselhou e possibilitou o desenvolvimento de mega-Igrejas. No entanto, o neopentecostalismo designa cada vez mais uma nova fase do desenvolvimento do pentecostalismo e cada vez menos um tipo de igreja. O neopentecostalismo prefere mega-Igrejas, mas nem todas as características neopentecostais ou neopentecostais estão presentes exclusivamente em mega-Igrejas, que são, por sua vez, uma pequena proporção de todas as igrejas pentecostais e evangélicas.

Nas últimas décadas houve uma multiplicação das pequenas igrejas pentecostais. Esse fenômeno tem sido menos observado, mas não é menos importante: a maioria dos convertidos ao pentecostalismo acaba se agrupando em pequenas igrejas autônomas em seus bairros, após uma passagem por igrejas maiores ou mais institucionalizadas. Muitos dos pastores da vizinhança obtem nessas grandes igrejas o know-how para construir novos templos em suas áreas de residência, para as quais cada grupo de crentes imprime o selo da particularidade de sua experiência. Em uma dinâmica que é semelhante àquela da proliferação de bandas musicais, as pequenas igrejas são a maioria silenciosa na qual a sensibilidade pentecostal decai. Nestas pequenas igrejas, qualquer observador será capaz de encontrar quase tudo o que é considerado típico do neopentecostalismo.

O crescimento pentecostal é alimentado pelas vantagens organizacionais e discursivas dos déficits evangélicos e católicos, e ocorre principalmente naqueles espaços onde o catolicismo, com sua logística lenta, falha em explicar o processo de metropolização que caracteriza a região: em cada novo bairro onde a Igreja Católica planeja chegar, já existe uma ou várias igrejas evangélicas. Este processo também é dado do campo para a cidade e da periferia para o centro. É por isso que as observações jornalísticas quase sempre confundem os efeitos com as causas: as grandes igrejas pentecostais, que são as mais visíveis, não apenas não congregam necessariamente a maioria dos fiéis, mas não são os gatilhos do fenômeno, mas eles assumem esse papel diante de observadores "metropolitanocêntricos". O grupo de igrejas evangélicas e especialmente os pentecostais também forjaram diferentes tipos de grupos educacionais, esportivos, de serviços mútuos e, especialmente, instituições de produção cultural de massa, como editoras, gravadoras e instituições de formação teológica que, ao mesmo tempo, facilitam o trabalho da atividade proselitista, dão densidade ao mundo evangélico criando denominadores comuns transversais.

Em toda a região, podemos ver uma tendência bastante homogénea. Enquanto no início do século XX a erudição e o status social dos protestantes históricos, juntamente com sua maior presença demográfica em relação aos evangélicos e pentecostais, garantiram sua hegemonia no mundo evangélico, no final do século XX descobrimos que com essa supremacia demográfica e o prestígio dos métodos de evangelização dos pentecostais, fez destes últimos, apesar de sua maioria pertencer a uma posição social mais baixa, o grupo predominante no mundo evangélico de cada um dos países da América Latina.

Na segunda década do século XXI, o campo evangélico como um todo tornou-se pentecostalizado como resultado da presença do pentecostalismo e do neopentecostalismo. É importante notar também que isso poderia acontecer porque uma parte dos grupos protestantes, que chamamos de evangélicos, entenderam que deveriam aprofundar suas alianças com os pentecostais, aprender com sua capacidade de adaptação da mensagem evangélica e colocar ao serviço dessa expansão sua solidez institucional global e seus profusos recursos. Mas, ao mesmo tempo, é necessário salientar que, da mesma forma, as fronteiras entre os grupos evangélicos foram corroídas para dar lugar a práticas e crenças que atravessam as diferentes denominações e ondas de implementação e desenvolvimento de igrejas evangélicas, que surgiram, no lugar das velhas identidades protestantes, uma identidade evangélica e ainda mais genericamente "cristã", que cada vez mais tende a ser o sinal em que o protestantismo é reconhecido na América Latina.

Quantos são evangélicos na América Latina?

O gráfico e a tabela a seguir nos permitem compreender a situação quantitativa dos evangélicos na América Latina na região como um todo e em diferentes países . No gráfico, pode-se observar a magnitude da mudança global na região: entre 1910 e 2014, os católicos passaram de 94% para 69% da população e os evangélicos, de 1% para 19%. A tabela mostra como essa transformação ocorreu ao longo do tempo e em diferentes países, assim como o ritmo acelerado que ela manifesta desde 1970, através de um indicador indireto como o declínio da população católica.

Vamos ver agora as razões para essa transformação no campo religioso: a primeira é que a noção de atualidade dos dons do Espírito Santo está muito facilmente conectada com as noções de sensibilidade religiosa da maioria dos setores populares da América Latina. Para esses setores, a categoria de milagre é fundamental, para a qual a noção de "atualidade dos dons do Espírito Santo" dá tradução e poder. O milagre, que em um olhar secularizado é algo extraordinário e subsequente a todas as razões, é nesta perspectiva "popular" uma possibilidade primária e anterior a toda experiência. Essa sensibilidade encantada é muito mais interpelada pela perspectiva da teologia pentecostal e de suas adaptações locais e contemporâneas do que por qualquer teologia católica, que faz enormes concessões à ciência e toda uma hierarquia de domínios eclesiásticos que são necessários para reconhecer como milagre o que Igrejas pentecostais acontecem o tempo todo. A segunda característica, derivada da pertença do pentecostalismo à matriz protestante, refere-se à universalidade do sacerdócio, que democratiza e facilita a emergência de líderes religiosos. A universalidade do sacerdócio permite que os pentecostais tenham capilaridade logística e cultural para conter a expectativa de milagres das populações em que estão inseridos e desenvolvidos. Cada pastor e cada nova igreja recria as boas novas adaptando-as à sensibilidade do território social e cultural com o qual coexistem e assim produzem a sintonia que o catolicismo não alcança: pregações, organizações e produtos culturais adaptados aos mais diversos nichos sociais e culturais surgem desses mesmos nichos, gerados por sujeitos que se aproveitam da omnipresença e gramaticalidade do pentecostalismo.

Esta dinâmica verdadeiramente surpreendente implica que o pentecostalismo cresce apenas pelas mesmas razões que outros grupos não podem: a universalidade do sacerdócio, que recria versões infinitas do pentecostalismo, promove o crescimento por fracionamento e não por agregação em unidades cada vez maiores. É assim como religiões de forte intenção proselitista, mas de inquebrantável vocação centralizadora e portadora de uma teologia que não guarda as mesmas possibilidades de afinação popular que o pentecostalismo, como as testemunhas de Jeová ou os mórmons, registram um crescimento quase nulo. Os pentecostais, por sua vez, mostram uma capacidade de penetração territorial e cultural capaz de atrair múltiplos fragmentos sociais em um grande número de hibridizações do pentecostalismo e diversas formas de cultura popular e de massa.

Em contraste com isso, o catolicismo leva décadas e décadas para renovar quadros que são cada vez mais escassos, dado o sistema particular de recrutamento de líderes religiosos que os possuem e porque, pelo mesmo tipo de recrutamento, esses líderes vivem quase fora de as experiências dos sujeitos a quem pretendem levar espiritualmente. Isto, para não mencionar que as teologias católicas do Concílio Vaticano II em diante, possuindo um razoável zelo modernizador, são, através deste mesmo esforço, produtores de uma grande distância cultural entre o catolicismo e seus paroquianos, não apenas porque diferem de uma sensibilidade popular encantada ao colocar o destaque não no milagre, mas sim no compromisso social, no rigor, no sacrifício, no penitência, no estudo, mas também porque sua concepção enfatiza a divisão entre o ordenado e o laicato exatamente onde o pentecostalismo recruta, aos montes e nos "piores lugares" da sociedade, seus líderes.

O salto abrupto que ocorre a partir de 1970, de acordo com a tabela, não deve ser entendido de forma linear em correlação exclusiva com a sincronia do que aconteceu política e socialmente na América Latina naquela década, mas como resultado do acúmulo de recursos institucionais e seres humanos que, como investimento desenvolvido desde 1950, teve seu amadurecimento nessa década. A suposição de que os pentecostais crescem por suas campanhas em tempos periféricos da mídia ignora um fato evidenciado por dezenas de trabalhos antropológicos e sociológicos realizados nos últimos 50 anos: os pentecostais crescem de boca em boca, por proximidade, por redes; os espaços de televisão apenas legitimam a posição do crente e resolvem disputas de predominância entre igrejas. Conversões e acessos ocorrem na vida cotidiana quando alguém tem um problema e uma pessoa perto de você recomenda ir a uma igreja, e então acontecem coisas que fazem "tudo funcionar". O conceito de "igreja eletrónica" explica apenas uma pequena parte dos casos de conversões: muitas vezes, de idosos isolados, dependentes da televisão e angustiados em noites solitárias. Para todos os outros (jovens, casamentos em crise, adultos e pessoas de meia-idade em meio a todos os tipos de problemas), há sempre uma igreja próxima e um amigo ou vizinho que recomenda ir até lá. O pentecostalismo conseguiu penetrar nas mais diversas camadas sociais e nos mais variados estilos de vida, mas é inegável que seu sucesso foi maior nos setores populares, em áreas da sociedade onde oferece armas privilegiadas para lutar contra o sofrimento social e pessoal, como tem mostrado, entre outros trabalhos, o de Cecilia Mariz no Brasil.

Uma conclusão que se impõe após a revisão deste ponto é que, independentemente dos rumos da mobilização dos pentecostais no espaço público, seu crescimento, comprovadamente mais forte nos setores populares, tem efeitos em termos de poder social: o poder vai de padres a pastores, de agentes externos às comunidades e aos líderes locais; das noções universalizadas de cultura elaboradas pelas elites globais a noções que, veiculadas pelas indústrias culturais, refletem mais vividamente as experiências quotidianas de milhões de sujeitos das classes populares e das precárias classes médias de toda a região.

Pentecostais e política na América Latina

Quais as consequências que as transformações no campo religioso têm na vida política e na esfera pública? A tese mais geral para capturar a politização dos pentecostais e de uma grande parte dos evangélicos na América Latina é que eles desenvolveram formas diversas e contingentes de mobilização política, que nas últimas décadas foram orientadas para a intervenção política e o fizeram à mão de tendências conservadoras [6]. Mas, em contraste com a afirmação impressionista de que se trata de uma onda de fascismo evangélico, cujo destino foi garantido desde o primeiro pentecostal pisou em um porto latino-americano, é necessário prestar atenção aos momentos e modos dessa politização e sua interação com o contexto social mais geral, para discernir quais devem ser as tarefas das forças progressistas nas diferentes direções que os evangélicos adotam.

O protestantismo histórico promoveu direções politicamente liberais e gerou uma tradição muito rica de compromisso social, mas sua reclusão em certos nichos sociais, somada às derrotas históricas dos projetos de esquerda, contribuiu para sua perda de relevância relativa. Os evangélicos eram mais conservadores, mas chegaram a implantar alguns compromissos sociais em tempos já distantes. Finalmente, os pentecostais e, se quiserem, os neopentecostais, que juntos foram os mais numerosos e decisivos evangélicos por várias décadas, também passaram por vários estágios em suas formas de se relacionar com o público e com a política. De um modo geral, é possível delinear uma série de quatro momentos que ocorrem nos diferentes países da América Latina.

O desenvolvimento inicial do pentecostalismo na América Latina incluiu a denúncia do que eles chamavam de "o mundo"; portanto, a política que residia nele devia ser repudiada. Neste também pesou a origem estrangeira dos pioneiros, que não tinham capacidade de estar totalmente ligada a parcelas ou a disputas políticas locais; o anticomunismo desses mesmos pioneiros, que frequentemente identificavam "compromisso político" e desobediência; a situação minoritária e estigmatizada de uma religiosidade que era vista como "dissidente" e o fato de que as primeiras ninhadas de crentes locais pertenciam a populações socialmente, economicamente ou culturalmente marginalizadas.

Com o tempo e com a geração de um corpo de líderes endógenos vinculados às sociedades locais, os pentecostais começam uma segunda etapa: os primeiros passos em busca da proteção de seus direitos como minoria religiosa, que são dados, em geral, a partir dos anos 70. Nesse contexto, a politização assumiu o caráter de defesa limitada do pluralismo religioso, uma vez que os pentecostais buscavam, em geral, seu reconhecimento ao mesmo tempo que o catolicismo, mas não pretendiam que isso fosse estendido a todos os grupos religiosos.

Posteriormente, o Pentecostalismo apresentou um apelo tanto para os políticos estabelecidos como para os emergentes empreendedores evangélicos. O crescente número de eleitores evangélicos e o poder de suas redes acrescentaram o facto de que os crentes, com sua presença "santa", poderiam dar legitimidade específica e adicional a projetos políticos dos mais variados signos que procuravam denunciar uma política adotada por a corrupção. Isso permitiu tentativas que vão desde iniciativas voltadas para a criação de partidos confessionais - sem muitos resultados - para a nomeação de evangélicos em partidos não confessionais. Referimo-nos a situações tão diversas quanto a participação de evangélicos nas campanhas de Alberto Fujimori em sua primeira eleição no Peru, Fernando Collor de Mello no Brasil no final dos anos 80 ou, na estratégica Prefeitura do Rio de Janeiro, Benedita da Silva, que mesmo com as prevenções de sua igreja, ganhou as eleições reivindicando seu caráter de "mulher, negra, favelada e pentecostal".

Nesse estágio, havia compromissos políticos plurais e pragmáticos. Diferentes grupos pentecostais e evangélicos entraram em atividade política usando suas capitais de diferentes maneiras e construindo diferentes tipos de alianças: na Argentina, os pentecostais que se mobilizaram politicamente o fizeram relativamente perto do peronismo, mas também se integraram em propostas de centro-direita. No Brasil, onde as mais poderosas denominações pentecostais apoiaram Collor de Melo e Fernando Henrique Cardoso antes do "perigo comunista" do Partido dos Trabalhadores (PT), mais tarde se juntaram à frente promovida pelo mesmo partido nas quatro eleições que venceram – com Luiz Inácio Lula da Silva e Dilma Rousseff. Em seguida, deram seu aval ao projeto de Marina Silva (evangélica e ambientalista que foi ministra do primeiro governo Lula e depois liderou uma de suas primeiras dissidências) e, finalmente, correndo atrás de seus eleitores, acabaram apoiando a candidatura de Jair Messias Bolsonaro na reta final.

Pode-se dizer que este momento de maior envolvimento político coincide com o momento de maior expansão da visão pentecostal entre todos os grupos evangélicos. Nesse contexto, os evangélicos não apenas começaram a participar da política eleitoral, mas tornaram-se interlocutores nos diálogos sobre políticas públicas: sua agilidade e capilaridade territorial os tornaram agentes-chave para os processos pelos quais os Estados levaram em conta, mediante múltiplos instrumentos públicos, a populações excluídas ou marginalizadas. O desdobramento de dinâmicas de violência e vício introduzidas pelo narcotráfico constituiu um terreno onde os agentes das mais diversas instâncias da sociedade civil e política viam os evangélicos como aliados.

Essas formas de mobilização política e social continham algo que, num quarto momento, logicamente, será fundamental. Os líderes de diferentes igrejas e associações evangélicas e pentecostais logo proclamaram de maneira cada vez mais intensa e clara algo que está longe da fórmula canóica de secularização (religião livre de Estado e Estado livre de religião): a hierarquia dos evangélicos nas sociedades em que foram discriminadas, estava ligada à hierarquia de suas concepções no espaço público. Neste momento, diferentes aspectos da experiência evangélica não só podem ser atraentes para os políticos que os convidam ou para os evangélicos tentarem converter a situação religiosa em poder político, mas um projeto é delineado em relação à conquista da sociedade como um todo para os valores cristãos. Estes não são valores aleatórios: no contexto histórico em que este forte investimento político ocorre, os evangélicos enfatizarão a oposição ao casamento igualitário e a legalização da interrupção voluntária da gravidez, em certas limitações ao pluralismo religioso, que deve ser exercido contra as "seitas" e religiosidades afro-americanas e até, em alguns casos, na busca de um processo de regulação do campo religioso que afetaria as expressões autónomas do pentecostalismo. No contexto deste desenvolvimento histórico, é possível apontar três fatos que ajudam a limitar a atualidade dos mecanismos que atuam nas relações entre evangélicos e políticos.

Não há voto confessional

É necessário desativar uma impressão que é facilmente imposta após a verificação do crescimento dos evangélicos nas últimas décadas: é impossível afirmar a existência de um voto confessional no caso dos evangélicos. Não é só que a identidade religiosa não gera automaticamente uma identidade política. O fato de não haver instâncias de unificação institucional e a dinâmica de grupos evangélicos, competitivos e sujeitos a múltiplas possibilidades de fracionamento, fazem com que alguns esforços políticos que apelam à identidade religiosa tenham efeitos muito distantes daquele buscado (que os crentes votam crentes), uma vez que são vistos com desconfiança como tentativas de manipulação, controle e capitalização indevida de esforços de algumas denominações pentecostais por outros. Além disso, nos diferentes espaços nacionais, os evangélicos votam de maneira análoga àquela votada por católicos ou cidadãos que aderem a outras religiões em seus respectivos estratos sociais. Os partidos evangélicos tinham percentagens de votos muito inferiores à percentagem da população evangélica no Peru (4% acima de 12%), no Chile (onde três partidos evangélicos fracassaram na eleição de 2017), na Argentina em 1991 e em 2001 (onde a maioria dos evangélicos dos setores populares votam pelo peronismo) ou, para dar mais um exemplo, na Guatemala, onde os evangélicos compõem 40% da população e já assumiram três presidentes dessa religião, mas os partidos evangélicos que apelam para o a mobilização política dos crentes não alcança maiores sucessos (6% acima de 40%). No entanto, não se deve ignorar que diferentes aspectos da identidade evangélica ou seu repertório de ação simbólica fortaleceram, por exemplo, a candidatura triunfante de Bolsonaro no Brasil. Mas mesmo nesse caso, os evangélicos que se concebem como o rebanho de Deus não votam como um rebanho: numa campanha polarizada em que os líderes das denominações evangélicas mais fortes e com a maior extensão territorial empurraram o voto para Bolsonaro por sugestão de suas próprias bases, estatísticas após a eleição mostraram que mais de um terço dos evangélicos votaram contra as diretrizes "oficiais".

O peso demográfico ajuda a mobilização evangélica?

Alguns autores argumentam que as potencialidades da mobilização política evangélica se correlacionam com o peso demográfico dos pentecostais em diferentes países: nos países em que os pentecostais, juntamente com o restante dos evangélicos, excedem 30% da população, é mais provável que eles sejam capazes de promover uma alternativa política baseada na identidade evangélica. Enquanto nos países onde eles permanecem abaixo de 25%, eles tendem a participar do projeto de outros partidos políticos e a conformar uma representação coordenada dos interesses comuns de todos os evangélicos nos níveis parlamentares e em amplas mobilizações sociais . A hipótese não é totalmente infundada, mas não é totalmente discriminatória: deve-se considerar que nos países com maior percentual de evangélicos existem casos, como a Guatemala, onde a religião evangélica parece influenciar a cultura política sem um voto confessional, mas em casos como o de El Salvador ou Nicarágua, a influência e a mobilização evangélica não são evidentes. Na Costa Rica e no Brasil, por outro lado, os percentuais de população evangélica são relativamente mais baixos que os dos países mencionados e, no entanto, a força política e eleitoral dos evangélicos leva a um partido desta corrente (Restauração Nacional) ser o principal desafiante dos partidos tradicionais (Costa Rica), ou aqueles que fazem parte do bloco eleitoral triunfante através de partidos que não representam todas as denominações evangélicas, mas que têm a mobilização de alguns dos que têm mais reconhecimento, recursos econômicos e implantação territorial (Brasil).

A erosão das identidades políticas tradicionais e a "agenda de género"

A viabilidade da formulação e o sucesso de uma alternativa política evangélica pode conter parte do fator "peso demográfico", mas certamente depende da concordância de duas outras circunstâncias. Uma das situações que permitem o surgimento de forças políticas que apelam para a identidade evangélica é a erosão das alternativas políticas tradicionais, especialmente se isso ocorrer no contexto das crises políticas geradas pelas causas da corrupção. Nesses casos, a estrutura de atribuições simbólicas que dá às religiões uma espécie de honestidade a priori serve como garantia ou, pelo menos, como lavagem de forças políticas que precisam de recursos extraordinários de legitimação. Como isso também ocorre no contexto de transformações sociais que alteram os princípios tradicionais de identificação (localidade, trabalho, catolicismo), o evangélico contribui para solidificar novos princípios de agregação. Este poderia ser o caso do Brasil e da Costa Rica ou, mais para trás no tempo, a identificação de Fujimori com os evangélicos no início dos anos 90.

Há outra circunstância que, indubitavelmente e decisivamente, contribui para o surgimento, crescimento e fortalecimento de projetos políticos evangélicos: o avanço concreto e a disseminação da agenda de direitos de género e diversidade nas últimas décadas na América Latina gerou uma reação que nem analistas nem atores conseguiram prever, muito menos conter. Na medida em que essas transformações estavam progredindo, muitas vezes mais rapidamente do que você jamais imaginaria no Estado e nos partidos políticos, mesmo no centro e na esquerda, elas foram incubadas, em outros espaços da sociedade e costas do sentimento de progresso indefinido que acompanhava os grupos reformadores, um murmúrio subterrâneo e aborrecimento capitalizados em grande parte pelos evangélicos. Primeiro, porque eles são os que mais se aproximam fisicamente e ideologicamente dessa reação. Em segundo lugar, porque o catolicismo foi impedido de fazê-lo com coerência e legitimidade, dada a combinação de sua heterogeneidade interna com a ilegitimidade que ajuda a intervir nessa questão em uma hierarquia submersa em opróbrio pelos casos de pedofilia. Assim, a implantação da agenda de direitos de género e diversidade gerou uma dinâmica na qual os evangélicos poderiam ser catalisadores e representantes de uma reação que acrescentasse poder a seus projetos políticos. Esse é o ponto a partir do qual os evangélicos deixaram de ser pragmáticos e sistematicamente orientados para a direita.

A composição da reação catalisada pelos evangélicos nos permite entender melhor em que sentido eles estão sendo um fator dinâmico das forças da direita: além do aumento da propensão evangélica de votar pelo direito ou pelo direitização dos seus candidatos e propostas, é certo que, como não há voto confessional, os evangélicos não votam para a direita somente quando seus líderes a promovem. Então, pode-se discernir especificamente a operacionalidade evangélica na direita contemporânea: não apenas representam a reação contra a agenda de género e diversidade de suas próprias bases denominacionais, mas seu próprio crescimento molda o ambiente político-ideológico onde gesta a densidade das resistências à essa agenda emancipatória.

O pentecostalismo influencia muito mais solidamente por meio da transformação cultural implícita em seu crescimento do que a direção dos votos dos crentes. Não faz mal dizer que tudo isso ocorre em uma estrutura mais ampla e complexa: a virada para a direita ou a permanência da direita em diferentes países da América Latina deve-se a muitas outras causas. Algumas, como a percepção de um clima instável de mobilização e/ou violência, bem como a corrupção, reforçam a necessidade de uma referência cristã que os evangélicos contestam e frequentemente alcançam melhor do que qualquer outra pessoa. Outras, como a estagnação económica ou a desigualdade, podem ser interpretados na lógica evangélica e, assim, dinamizar mudanças no comportamento político.

Reflexão final

Os evangélicos têm sido uma fonte inesgotável de enigmas, pánicos e pontificações por mais de 30 anos por parte dos analistas, políticos e todos os tipos de atores/espectadores da política contemporânea. Por um lado, isso se deve ao fato de que o espírito dos esquerdistas e progressistas latino-americanos tece em sua reação dois fios desconexos: o medo tradicional da religião como um poder obscuro e alienante se une na formação de uma aliança sagrada. Mais uma vez, a presunção traficada pelo catolicismo sobre o caráter "estrangeiro" que auxilia todo o protestantismo. Tudo isso ajudou a forjar uma série de reações que iam desde a afirmação a priori do que a expansão desses movimentos significava, notável desde meados do século passado, até o desprezo por qualquer abordagem cognitiva ou política que não fosse militantemente oposta. Em geral, com importantes e notáveis exceções, o fenômeno permanece entre a condenação e a ignorância condenatória, de modo que hoje o despertar desse sonho reativo nos força a confrontar uma realidade complexa, desafiadora e ameaçadora, embora cheio de contingências que ainda têm que ser exploradas e exploradas em esforços de interpelação política que, como sempre e mais do que nunca, exigirão fazer do coração tripas.

Mas, por outro lado, isso também é devido a um mecanismo simétrico reverso. Se a esquerda e o catolicismo viam na expansão evangélica uma invasão imperial, alguns analistas americanos viam com otimismo a implantação de sementes que tornariam a América Latina, estereotipada como uma Macondo generalizada, um espaço de racionalidade, individuação e acumulação virtuosa, como se os pentecostalismos, a força demograficamente mais importante dessa expansão, eram constituídos por clones de peregrinos de Mayflower e como se a América Latina do século XX constituísse o que, a partir dessa imaginação histórica, é concebido como uma tábua rasa.

Basicamente, o caso da expansão evangélica é revelador da precariedade de uma certeza que devemos questionar: a secularização dificilmente funciona como a interposição de uma parede capaz de cancelar mais ou menos perfeitamente as trocas entre o mundo da religião e da política. O que acontece, ao contrário, é que a capacidade moderna de entender a contingência radical do mundo histórico social deve ser aplicada ao caso das religiões para entender que a modernidade, longe de significar o fim das religiões, é um mecanismo que, ao mesmo tempo institui separadamente o domínio da religião, articula transformações, porosidades e trocas que fazem as religiões estarem constantemente mudando e sempre "retornando".

Edição 147, Abril 201

Boaventura Sousa Santos

OS EUA FLERTAM COM O DIREITO NAZI

"Por se oporem aos projetos de Washington, Julian Assange e Lula estão submetidos à lógica do “inimigo interno”, que floresceu com Hitler. Sob aparência de normalidade democrática, o Ocidente avança para o Estado de exceção", escreve Boaventura de Sousa Santos, sociólogo, em artigo publicado por Outras Palavras /IHU

O problema da transparência, tal como o da luta contra a corrupção, é a sua intransparente seletividade. Quem talvez viva mais diretamente este problema são os jornalistas de todo o mundo que ainda persistem em fazer jornalismo de investigação. Todos tremeram no passado dia 11 de abril, qualquer que tenha sido o teor dos editoriais dos seus jornais, ante a prisão de Julian Assange, retirado à força da embaixada do Equador em Londres para ser entregue às autoridades norte-americanas que contra ele tinham emitido um pedido de extradição. As acusações que até agora foram feitas contra ele referem-se a ações que apenas visaram garantir o anonimato da whistleblower Chelsea Manning, ou seja, garantir o anonimato da fonte de informação, uma garantia sem a qual o jornalismo de investigação não é possível.

Se os jornalistas são quem vive mais diretamente a seletividade da transparência, quem mais sofre as consequências dela é a qualidade da democracia e a credibilidade do dever de prestação de contas a que os governos democráticos estão obrigados. Por que é que a luta pela transparência se dirige a certos alvos políticos e não a outros? Por que é que as revelações em alguns casos são saudadas e produzem efeitos, enquanto noutros são impedidas e, se feitas, são ignoradas? Daí a necessidade de conhecer melhor os critérios que presidem à seletividade. Claro que o outro lado da seletividade da transparência é a seletividade da luta contra a transparência. Talvez não soubéssemos das perturbadoras revelações da WikiLeaks em 2010 — vídeos militares sobre o assassinato em 2007, no Iraque, de civis desarmados, dois dos quais trabalhavam para a Reuters — se elas não fossem divulgadas amplamente pelos meios de comunicação de referência de todo o mundo.

Por que é que toda a sanha persecutória desabou sobre o fundador do WikiLeaks e não sobre esses meios, alguns dos quais ganharam muito dinheiro que nunca reverteu adequadamente para Assange? Por que é que nessa altura os editoriais do New York Times saudavam Assange como o campeão da liberdade de expressão e as revelações, como o triunfo da democracia, e o editorial da semana passada considera a sua prisão como o triunfo da rule of law? Por que é que o governo do Equador protegeu “os direitos humanos de Assange durante seis anos e 10 meses”, nas palavras do presidente Lenin Moreno, e o entregou repentina e informalmente, violando o direito internacional de asilo? Será porque, segundo o New York Times, o novo empréstimo do FMI ao Equador no valor de cerca de 4 bilhões de dólares teria sido aprovado pelos EUA sob a condição de o Equador entregar Julian Assange? Será porque o WikiLeaks revelou recentemente que Moreno poderia vir a ser acusado de corrupção em face de duas contas, tituladas pelo seu irmão, uma em Belize e outra no Panamá, onde alegadamente terão sido depositadas comissões ilegais?

Quanto à seletividade da luta pela transparência há que distinguir entre os que lutam a partir de fora do sistema político e os que lutam a partir de dentro. Quanto aos primeiros, a sua luta tem, em geral, um efeito democratizador porque denuncia o modo despótico, ilegal e impune como o poder formalmente democrático e legal se exerce na prática para neutralizar resistências ao seu exercício. No caso do WikiLeaks haverá que reconhecer que tem publicado informações que afetam governos e atores políticos de diferentes cores políticas, e este é talvez o seu maior pecado num mundo de rivalidades geopolíticas.

A sorte do WikiLeaks mudou quando, em 2016, revelou as práticas ilegais que manipularam as eleições primárias no Partido Democrático dos EUA para que Hilary Clinton, e não Bernie Sanders, fosse o candidato presidencial, e mais ainda depois de ter mostrado que Hilary Clinton fora a principal responsável pela invasão da Líbia, uma atrocidade pela qual o povo líbio continua a sangrar. Pode objetar-se que o WikiLeaks se tem restringido, em geral, aos governos mais ou menos democráticos do dito mundo eurocêntrico ou nortecêntrico. É possível, mas também é verdade que as revelações que têm sido feitas para além desse mundo colhem muito pouca atenção dos meios dominantes.

A seletividade da luta por parte dos que dominam o sistema político é a que mais dano pode causar à democracia porque quem protagoniza a luta pode, se tiver êxito, aumentar por via não democrática o seu poder. O sistema jurídico-judiciário é hoje o instrumento privilegiado dessa luta. Assistimos nos últimos dias a tentativas desesperadas para justificar a revogação do asilo de Assange e a sua consequente prisão à luz do direito internacional e direito interno dos vários países envolvidos, mas a ninguém escapou que se tratou de um verniz legal para cobrir uma conveniência política ilegal, se não mesmo uma exigência por parte dos EUA.

Mas obviamente que o estudo de caso do abuso do direito para encobrir conveniências políticas internas e imperiais é a prisão do ex-presidente Lula da Silva. O executor desse abuso é Sérgio Moro, acusador, juiz em causa própria, ministro do governo que conquistou o poder graças à prisão de Lula da Silva. Lula da Silva foi processado mediante sórdidos dislates processuais e a violação da hierarquia judicial, foi condenado por um crime que nunca foi provado, e mantido na prisão apesar de o processo não ter transitado em julgado.

Daqui a cinquenta anos, se ainda houver democracia, este caso será estudado como exemplo de como a democracia pode ser destruída pelo exercício abusivo do sistema judicial. Este é também o caso que melhor ilustra a falta de transparência na seletividade da luta pela transparência. Não é preciso insistir que a prática de promiscuidade entre o poder econômico e o poder político vem de longe no Brasil e que cobre todo o espectro político. Nem tão pouco que o ex-presidente Michel Temer pôde terminar o mandato para o qual não fora eleito apesar dos desconchavos financeiros em que alegadamente teria estado envolvido.

O importante é saber que a prisão de Lula da Silva foi fundamental para eleger um governo que entregasse os recursos naturais às empresas multinacionais, privatizasse o sistema de aposentadorias, reduzisse ao máximo as políticas sociais e acabasse com a tradicional autonomia da política internacional do Brasil e se rendesse a um alinhamento incondicional com os EUA em tempos de rivalidade geopolítica com a China.

Objetivamente, quem mais se beneficia com estas medidas são os EUA. Não admira que interesses norte-americanos se tenham envolvido tanto nas últimas eleições gerais brasileiras. Também é sabido que as informações que serviram de base à investigação da Operação Lava-Jato resultaram de uma íntima colaboração com o Departamento de Justiça dos EUA. Mas talvez seja surpreendente a rapidez com que, neste caso, o feitiço se pode se virar contra o feiticeiro.

O WikiLeaks acaba de revelar que Sérgio Moro foi um dos magistrados treinados nos EUA para a chamada “luta contra o terrorismo”. Tratou-se de um treino orientado para o uso musculado e manipulativo das instituições jurídicas e judiciárias existentes e para o recurso a inovações processuais, como a delação premiada, com o objetivo de obter condenações rápidas e drásticas. Foi essa formação que ensinou os juristas a tratar alguns cidadãos como inimigos e não como adversários, isto é, como seres privados dos direitos e das garantias constitucionais e processuais e dos direitos humanos supostamente universais.

O conceito de inimigo interno, originalmente desenvolvido pela jurisprudência nazista, visou precisamente criar uma licença para condenar com uma lógica de estado de exceção, apesar de exercida em suposta normalidade democrática e constitucional. Moro foi assim escolhido para ser o malabarista jurídico-político ao serviço de causas que não podem ser sufragadas democraticamente. O que une Assange, Lula e Moro é serem peões do mesmo sistema de poder imperial, Assange e Lula, enquanto vítimas, Moro enquanto carrasco útil e por isso descartável quando tiver cumprido a sua missão ou quando, por qualquer motivo, se transformar num obstáculo a que a missão seja cumprida.

Rosana Pinheiro-Machado

O BOLSONARISMO ARREPENDIDO JÁ COMEÇOU NAS CLASSES POPULARES

"A lua de mel não durou 100 dias. Uma recente pesquisa do DataFolha mostrou que, após três meses, Bolsonaro tem a pior avaliação entre presidentes no primeiro mandato, confirmando algo que estava na cara: o fenómeno do bolsonarismo arrependido chegaria muito rápido", escreve Rosana Pinheiro-Machado, professora Titular Visitante da Universidade Federal de Santa Maria - UFSM, em artigo publicado por The Intercept /IHU

Vale retomar o que escrevi em minha coluna de 29 de outubro, logo após a vitória de Bolsonaro: Os eleitores de Bolsonaro foram seduzidos pela mobilização política populista, movidos por onda de contágio que foi espalhando medo e uma esperança de mudança radical. É muita expectativa popular para pouco projeto, pouca equipe e pouca experiência. Isso não pode funcionar. Isso não dará certo.

De novembro de 2016 a novembro de 2018, eu e a antropóloga Lucia Scalco fizemos uma pesquisa etnográfica, baseada em observação participante e grupos focais, sobre eleitores de Bolsonaro entre eleitores de baixa renda na zona leste de Porto Alegre. Nós percebemos que, conforme a eleição se aproximava, a adesão a Bolsonaro se transformava em um movimento emocional. Havia uma esperança crescente dos eleitores, inclusive entre aqueles que outrora desprezavam o candidato.

Até poucos meses antes da eleição, era possível identificar um padrão de eleitores de baixa renda: eram jovens desempregados que se sentiam ameaçados pelo feminismo emergente na escola; ou homens brancos, dos 30 aos 50 anos, com trabalho precário (como motoristas de aplicativos ou vigilantes terceirizados). Nas motivações de voto, o desalento econômico se misturava a uma narrativa que apontava também uma crise na masculinidade. Homens estavam desempregados e/ou com emprego precário, endividados, com pressão alta, sofrendo assaltos e tendo seu papel de provedor ameaçado. Em comum, todos eles tinham um desejo íntimo de portar uma arma para se proteger das muitas ameaças — reais e imaginárias — que desestabilizam a ordem do mundo.

No final do período eleitoral, após a retirada de Lula da corrida e a facada de Bolsonaro, as coisas mudaram na pesquisa. Não havia mais um perfil de eleitores identificável, tampouco uma razão específica para justificar o voto. As pessoas falavam que votariam em Bolsonaro por causa da corrupção, para varrer comunismo, tirar o PT, conseguir emprego, melhorar a economia, ter segurança na escola do filho, matar bandido, mamadeira de piroca, ditadura gayzista, evitar invasão alienígena, resolver a unha encravada. Tudo. Tudo o que chegava pelo WhatsApp.

As pessoas apoiavam Bolsonaro pelos mais variados motivos. Por tudo ou, talvez, por nada: embarcavam em uma onda na qual o então candidato surfou sozinho. Foram muitas as pessoas que nos perguntavam: “ué, mas tem outro candidato?”

Para além dos convictos, talvez a grande maioria de eleitores que encontramos no final do processo era não-convicta. Eles achavam que Bolsonaro não era uma opção ideal, mas que alguma mudança era necessária. O capitão, ao menos, colocaria ordem na casa: “Acho ele muito radical, machista como diz minha filha, mas é um militar, ao menos para colocar ordem nesse país esse homem deve servir, né?”, disse dona Silvinha, 58 anos, vendedora de bolos.

Tendo em vista esses perfis de eleitores, é evidente que a desilusão bateria logo na porta, pois foi uma esperança projetada sobre o nada.

Os estratos esmagados

Como observado pelos professores André Singer e Laura Carvalho, há uma significativa desilusão bolsonarista – representada no declínio de 18% de aprovação entre as últimas duas pesquisas Ibope justamente entre os estratos sociais que ganham de 2 a 5 salários mínimos. Em um artigo irretocável, Carvalho mostra que, de 2014 a 2018, o PT perdeu mais adesão, em contextos urbanos, entre as camadas “atachadas” que se situam entre a base e o topo da distribuição. Estamos, portanto, falando dos setores precarizados que sentiram a crise econômica de forma brutal.

Ainda que eu tenha defendido que o papel da crise econômica precisa ser mais seriamente levado em consideração nas análises das eleições, o único ponto que ainda não estou plenamente convicta em relação ao argumento da professora é sobre o peso da insegurança econômica em relação às pautas morais nas eleições. Ela acredita que o primeiro aspecto foi preponderante no Brasil, diferentemente da eleição de Trump nos Estados Unidos, em que algumas pesquisas já apontaram que o fator “preconceito” foi decisivo – como esta publicada na revista Critical Sociology. Sem dúvidas, o peso econômico foi imenso, um ponto de partida que mostrou luz no fim do túnel para homens desesperados. Mas também entendo que ainda não temos pesquisa suficiente para ter clareza acerca do impacto de diferentes forças.

Por ora, com base nos insights da experiência em campo, tendo a pensar que, no caso das eleições brasileiras, a dicotomia economia/moral tem se demonstrado falsa — na linha argumentativa da cientista política e historiadora Tatiana Vargas Maia em seu artigo no El País. O Brasil tem passado por uma crise multidimensional. Ainda que a penúria econômica tenha dado o primeiro pontapé entre os eleitores que se sentiam desamparados socialmente, o conservadorismo, o fundamentalismo religioso, a crise política, as fake news e o fator de “efervescência social” do final das eleições arrastaram milhões de eleitores na onda de contágio.
Agora, os eleitores começam a pular fora do barco.

Desilusão de baixo para cima

Desde o término da pesquisa, tenho conversado, de forma não sistemática, com alguns antigos interlocutores e com outros trabalhadores precarizados com os quais eu convivo. Essas conversas não sugerem nenhum entusiasmo no ar. Pelo contrário: o clima de esperança parece ter cedido lugar ao desânimo.

O grupo da “masculinidade machucada” pela crise econômica não viu ainda a situação de emprego melhorar e tampouco sentiu os efeitos práticos nem do decreto presidencial de facilitação da posse armas, nem no preço de uma Taurus. Acima de tudo, o trabalhador precarizado quer segurança e renda. E estamos muito longe de ver isso acontecer.

Aqueles que votaram por falta de opção voltaram ao lugar comum “de que político é tudo uma bosta”.

Ainda há aqueles eleitores que, como Dona Silvinha, estão esperando sentados a tal da ordem na casa. Eles encontram mesmo é “um bando de trapalhões” como disse-me Pedro, motorista de aplicativo de Santa Maria, Rio Grande do Sul, que votou em Bolsonaro querendo mudança, mas entende que “estão muito atrapalhados. Palhaçada isso do Carnaval… [referia-se ao tuíte sobre Golden Shower]”. E continuou desabafando: “Minha cunhada trabalha no posto de saúde e disse que o dinheiro acabou, que cortaram tudo. Como vai ser?”

O bolsonarista arrependido não é confesso. Ele tem vergonha e mantém seu orgulho: “Não me arrependo, não é possível um governo estar por 20 anos no poder, não é democrático”, disse-me Luis. Mas ele reconhece o caos do país e já colocou Bolsonaro na vala comum do político ruim.

Um dos erros de avaliação do bolsonarismo é acreditar em tudo que vê na internet, na malha de ódio da extrema direita. Os trolls possuem presença robusta na rede e fazem grande barulho. Quando eles são sujeitos de carne e osso — e não robôs —, representam uma pequena parte do eleitorado, a mais fanática e a mais fiel. Nós encontramos vários desses bolsolovers durante o trabalho de campo, mas posso afirmar que eram um número insignificante perto de todo o resto que aderiu ao projeto por frustração na onda de contágio.

Poucos dias antes da eleição, vi um vendedor ambulante em São Paulo gritando “Bolsonaro!” para os carros que passavam com bandeira do candidato. Era uma cena triste. Ele parecia comemorar a final da Copa do Mundo, soltando o grito engasgado dos 7×1 de toda a tragédia nacional dos últimos cinco anos. Um país quebrado como o Brasil, em meio a um sistema político e econômico que colapsou, fez com que o baixo clero ganhasse a eleição por fatores excepcionais.

O bolsonarismo arrependido já impacta o governo. Rumores em correntes do WhatsApp diziam que os caminhoneiros iriam parar. Quando a pesquisa do DataFolha foi lançada, Bolsonaro reagiu nervoso com dois tuítes seguidos: um mostrava crianças que o abraçavam, como se fosse a prova cabal de que ele era amado pelo povo; o outro tuíte só dizia “kkkkkkk”. Não demorou muito para que o presidente reagisse e interferisse no preço do diesel.

O eleitor não fanático até pode ter achado graça do personagem que “fala o que pensa” e que “é gente como a gente”. Mas num país violento em crise como o Brasil, as trapalhadas do presidente terão cada vez menos apelo se não vierem com mudanças concretas no cotidiano das pessoas. Bolsonaro foi eleito por uma grande parte do eleitorado popular que cultiva no imaginário a ideia do pulso firme. Mas o que esse eleitorado tem visto é despreparo, mandos e desmandos via rede social e guerra de vaidades entre os membros do PSL. Sem um projeto de governo e passando o tempo preocupado com temas distantes do povo — de Cuba a Israel —, a desilusão só tende a piorar.

Isso não é necessariamente uma boa notícia. Há uma tendência muito maior agora à descrença com a democracia representativa e a política institucional. Nossa sorte é que não parece haver um grupo de militares articulados que demonstrem querer mais do que tudo que já têm. Cabe agora a nós, dos setores progressistas, tratar de arrumar a casa e ter a capacidade para dar respostas para Dona Silvinha.

* Os nomes foram trocados para preservar a identidade das fontes.

Roberto Salvio

DESTRUAM GRETA THUNBERG, EM NOME DO CAPITAL

"Após inspirar marchas de jovens contra o desastre climático, em todo o mundo, adolescente sueca é alvo de ataques pesados. Quais são eles. O que revelam sobre a importância de enfrentar o cinismo em nossas sociedades", escreve Roberto Salvio, em artigo publicado por Others News e reproduzido por OutrasPalavras. A tradução é de Rôney Rodrigues /IHU

Em 15 de março, uma poderosa marcha com centenas de milhares de estudantes espalhou-se por 1.000 cidades do mundo, contra as mudanças climáticas. Desde então, insinua-se uma inesperada campanha de deslegitimação, “desmitificação” contra Greta Thunberg, a adolescente sueca que iniciou o movimento. Nos meios de comunicação, nos media sociais e em sites, essa campanha é movida por quatro grupos diferentes.

O primeiro poderia ser chamado de estúpido. Uma escritora aponta fotos de Greta comendo uma banana, afirmando que isso prova um duplo padrão. Quer reduzir as emissões de gases, mas come bananas que vêm de longe. Por que não come uma maçã, que se produz localmente na Suécia? Outro comentarista observa que Greta tem dois lindos cachorros grandes, mas esses cachorros devem estar comendo carne, e as vacas são a maior fonte de emissão de metano (muito mais danoso que o CO²) e uma vaca usa até 15 mil litros de água antes de alcançar a idade do abate. Logo, um terceiro observa que Greta pode não pegar aviões, mas com o uso dos trens está, claramente, utilizando energia elétrica, que em muitos países segue sendo gerada basicamente por carvão. Depois, outra leitora protesta fortemente porque ela comprou um sanduíche no trem, que vem envolto em plástico, e assim está contribuindo para os danos causados pelo plástico aos mares. Estamos claramente no reino da estupidez, porque é impossível que alguém faça algo no mundo sem contribuir para sua degradação. Isso só mudará quando o sistema político corrigir nosso estilo de vida (lembremos que, pelo que parece, isso é improvável!). Se Greta pedisse a seus pais que se livrasse dos dois cachorros, se fosse assegurado que eles não se mudariam de Estocolmo e comeriam só maças locais, isso faria uma contribuição importante para um clima melhor? Ou é mais construtivo fazer campanha e mobilizar centenas de milhares de pessoas?

O segundo grupo pode se chamar de ciumento. São cientistas do clima que escreveram, em todos os lugares, que começaram a lutar contra as mudanças climáticas antes mesmo de Greta nascer (ela agora tem 16 anos). Como é possível que todos tenham sido ignorados e que agora uma menina despreparada seja capaz de mobilizar gente de todo o mundo? Não há uma autocrítica sobre o fato de que não foram capazes de inspirar e se comunicar com os estudantes. Além disso, Greta não faz uma campanha como especialista. Sua mensagem em todas as partes, foi: por favor, escutem os cientistas. Um velho proverbio chinês diz: nunca brigue com teus aliados.

O terceiro grupo são os puristas. Eles têm redistribuído em todo canto relatórios de jornalistas suecos que se aprofundam nos antecedentes de Greta, descobrindo que seus pais são ecologistas ativos, que seu pai sempre a apoiou e que ela foi influenciada por uma famosa ativista que esteve por trás de cada passo seu. Afirmam que para acreditar em Greta seria necessário que seus pais tivessem se mostrado indiferentes às questões climáticas e que ela deveria ter sido totalmente alheia aos círculos ecológicos. Esta campanha continua, ainda que todos os jornalistas suecos tenham unanimemente declarado que Greta não foi um instrumento de ninguém, e que só está cumprindo com o que julga serem seus compromissos. Também ocorre que, graças aos deuses, ela tem uma condição mental chamada Síndrome de Asperger, o que a converte em uma pessoa indiferente a agradecimentos, elogios e compromissos. Assim, na carta ao Le Figaro, um dos puristas pergunta se é lógico colocar centenas de milhares de estudantes em todo o mundo “sob o comando de um zumbi”. Essa categoria também inclui muitos que se queixam de Greta não denunciar o fato de que a Suécia ganha dinheiro com a venda de armas. Greta não denunciou a ninguém, então os governantes estão felizes. Greta não iniciou nenhuma campanha contra as finanças, porque não entende que só submetendo as finanças se pode mudar o clima. E assim sucessivamente, de acordo com as lentes através das quais seus críticos a olham.

E, é claro, está o grupo mais legítimo, o dos paternalistas. Trata-se de um grupo fisiológico que inclui aqueles que pensam que os jovens não têm nenhuma ideia da vida real, e que nada sério sairá do movimento dos estudantes, a menos que escutem aos mais velhos. Seu lugar é na escola, não na rua, eles não têm maturidade para entender assuntos que exigem uma preparação cientifica. Um exemplo é a carta publicada no Corriere della Sera, em que alguém observa que os jovens já quase não leem livros, usam smartphones todo o dia e ignoram música clássica ou teatro: carecem de uma seriedade necessária para um mudança real. Um exemplo extremo de como o paternalismo é gémeo do patriarcalismo foi um comentário feito por um adulto bem vestido em um grupo que observava os estudantes marchando pela mudança climática: “Me pergunto quantas dessas meninas ainda são virgem”. Quando foi indagado sobre a relação entre virgindade e mudança climática, sua resposta foi: “Bom, até que uma menina seja virgem, pode ter ilusões, mas depois não”.

Essas diversas reações contra uma jovem que simplesmente pede para crescer em um mundo sustentável são, claramente, representativas do quanto mudou a sociedade na última década. Percorremos um longo caminho. O período posterior à Segunda Guerra Mundial caracterizou-se pela necessidade de reconstruir, de fazer sacrifícios, de fazer da Europa uma ilha de paz, de acreditar que a política era uma ferramenta participativa para mudar a sociedade para melhor. A certeza dos jovens de que seriam melhores que seus pais era a crença de todos. Os comícios políticos viram milhões de pessoas nas ruas, com esperanças e compromissos.

Todos sabemos como foi derrubado esse mundo de idealismo. Com a destruição do Muro de Berlim, as ideologias foram as primeiras a desaparecer. A palavra-chave era pragmatismo. Mas era um pragmatismo prisioneiro da filosofia neoliberal, que era intocável. Como disse Margaret Thatcher, não existe alternativa (TINA). Os gastos sociais eram vistos como improdutivos e as finanças ganharam vida própria, sem estarem vinculadas à palavra produção. O Estado foi reduzido ao mínimo. Deveríamos recordar que Ronald Reagan propôs a abolição do ministério da Educação e a privatização total da saúde. As Nações Unidas foram consideradas obsoletas: comércio, não ajuda. Durante três décadas, desde Reagan (1981) até a grande crise financeira de 2008, o lema foi: competir, ficar rico, no plano nacional ou individual.

A política converte-se em uma mera atividade administrativa, desprovida de visão a longo prazo. O declínio da internet mudou a sociedade, de uma rede interativa e conectado de relações baseadas em plataformas para compartilhar para uma rede de mundo virtuais paralelos, onde se busca refugio e se foge da ação pública. Os meios de comunicação, seguidos de uma degradação da complexidade da informação, estão concentrando-se em eventos e ignorando os processos. A televisão passou basicamente para o campo do entretenimento com programas que moldam a cultura popular, como o Big Brother e a Ilha dos Famosos.

A ganância era considerada boa para a sociedade e Hollywood a elogiava. Todos vivíamos em uma bolha financeira que estourou em 2008. Estava claro, então, que a política já não controlava as finanças, mas o contrário. Segundo a Bloomberg, para salvar o sistema bancário os Estados Unidos tiveram que gastar 12,8 trilhões de dólares, a Europa cinco trilhões de dólares. A China gastou 156 bilhões milhões e o Japão mais de 110 bilhões. Ninguém sabe com segurança quanto custou ao mundo salvar seu sistema bancário, que estava (e está) sem nenhum controle nem organismo regulador. Se o valor pago para resgatar os bancos tivesse sido distribuído para as 7,5 bilhões de pessoas no mundo, cada uma deles teria recebido 2.571 dólares. O suficiente para iniciar um frenesi de aquisições, especialmente no sul do mundo, com um enorme salto na produção. Teria resolvido praticamente todos os problemas sociais do mundo, apontados como Objetivos do Milênio pelas Nações Unidas em um acordo assinado por todos os países.

Mas até então, os bancos eram mais importantes que as pessoas… e por suas atividades ilícitas, os ingratos bancos pagaram multas de mais de 800 bilhões de dólares desde seu resgate. Recordemos que a ganância já estava sendo elogiada em Hollywood em 1987 por Gordon Gekko no famoso filme Wall Street. Gekko diz: “A ganância, na falta de uma palavra melhor, é boa”. Não é coincidência que, durante a crise financeira de 2008, o primeiro ministro australiano, Kevin Rudd, tenha dito: “Talvez seja hora de admitir que não aprendemos que toda a lição da ideologia da ganância é boa”. E, no ano seguinte, em um discurso diante do Senado italiano, o cardeal Tarcisio Bertone afirmou: “Passamos do livre mercado para a ganância livre”. E muitas manifestações da sociedade civil mundial, como o Fórum Social Mundial, denunciaram a submissão da política à financeirização.

Mas depois dos trinta anos de elogio à ganância, veio a grande crise financeira de 2008, devido à irresponsabilidade do sistema financeiro. Essa crise trouxe um impacto social negativo adicional que foi o medo: medo do desemprego, o medo do futuro, o medo do terrorismo. Ficou claro que o elevador social que funcionava desde o final da Segunda Guerra Mundial havia parado, com milhões de jovens de todo o mundo presos. O próprio sonho americano estava em crise. E chegou uma nova década, uma de medo.

Como é habitual nos casos de medo, surge uma nova narrativa. O neoliberalismo, TINA, perdeu credibilidade. Todos os partidos políticos traíram as esperanças de seu eleitorado. As pessoas foram deixadas de fora pelas elites, por todos do sistema. Assim, desde 2008, os partidos populistas nacionalistas floresceram em toda a Europa, onde antes da crise eram praticamente inexistentes (exceto Le Pen na França). Seguem florescendo. Nas últimas eleições holandesas, um novo partido populista, o Fórum Pela Democracia, obteve 16 cadeiras no Senado. Seu líder, Thierry Baudet, descartou a “invenção assombrada” da mudança climática — para ele, a idolatria do doutrinamento sustentável da esquerda. Esta é uma posição comum a todos os partidos populistas. Seu sucesso foi dirigir o medo contra o diferente: o diferente religioso, os diferentes costumes, as diferentes culturas… em outras palavras, os imigrantes. A xenofobia se uniu ao nacionalismo e ao populismo.

A cada ano tem havido uma diminuição na renda real, de postos de trabalhos dignos. Os partidos políticos tradicionais perderam a credibilidade e os eleitores optaram por novos políticos, que não formam parte da elite, que não falam em nome do povo e consideram o “glorioso passado” como base do futuro, ignorando qualquer desenvolvimento tecnológico. A divisão social, tomada como base para uma nova cultura política, entrou em plena velocidade destrutiva: em apenas 10 anos, 28 pessoas concentraram em suas mãos a mesma riqueza que 2,3 bilhões de pessoas. Isto é dinheiro que é tirado da economia geral; significa que para cada milionário existem milhares de pessoas empobrecidas. Só no último ano, os 42,2 milhões de pessoas no mundo com mais de um milhão de dólares em ativos financeiros cresceram em 2,3 milhões. É por isso que o Papa Francisco diz que atrás de cada propriedade há uma hipoteca social.

Foi necessário um longo caminho para abandonar o mundo que saiu da Segunda Guerra Mundial e chegar ao atual: um mundo em que os fenómenos anormais, como a guerra e a pobreza, são agora considerados normais para a maioria dos jovens. A corrupção, que, claro, sempre existiu, converteu-se em outro fato natural. A democracia, que se considerava o fundamento central da sociedade, é vista agora como uma possibilidade discutível, como Viktor Orban, Matteo Salvini e a empresa que promove a democracia de baixíssima intensidade.

O medo e a cobiça mudaram nossa sociedade. Estamos no meio de uma transição, e ninguém sabe para onde. O que está claro é que o sistema atual já não funciona e requer correções muito sérias. A maré do nacionalismo, o populismo e a xenofobia estão nos levando de volta às misérias que havíamos esquecido, ao invés de nos levar adiante. As campanhas eleitorais não se baseiam em programas, mas em desacreditar os opositores. Quando o primeiro ministro canadense Justin Trudeau não concordou com Trump, o secretário de Comércio desse último disse que deve haver um lugar especial no inferno para o primeiro ministro canadense. Os debates televisivos se converteram em uma escola de incivilidade. A pergunta é: estamos entrando em uma nova era baseada na incivilidade? Pela primeira vez na história do parlamento britânico, os diferentes opositores são incapazes de encontrar uma saída a um referendo baseado em mentiras.

Vivemos em um mundo onde as coisas positivas são poucas e estão distantes. Um clima político, cultural e social onde nada é aceito como legítimo, ocultando a verdade e manipulado pelo inimigo. Uma era de transição, que deveria chamar-se “a era do mau pensamento”.

A reação contra Greta Thunberg e sua mobilização é um bom exemplo de “mau pensamento”. Ao invés de despertar simpatia e apoio, essa jovem está sendo submetida a esta nova cultura do “mau pensamento”. E, no entanto, ela está fazendo uma campanha pela sobrevivência do planeta, o único que temos, e onde todos devemos viver juntos, independentemente de nossos mitos, religiões, partidos e nacionalidades. Ela diz: não peça que minha geração resolva o problema da mudança climática, porque quando crescermos já será tarde demais. Quando eu fizer 50 anos, haverá 10 bilhões de pessoas, quase todas morando nas cidades. Mas só em dez anos, quando fizer 26 anos, a humanidade necessitará 50% mais de energia e alimentos e 30% mais de água, um elemento que já é escasso em grande parte do mundo e que é uma fonte de renda para as empresas privadas. Não é de se admirar que ela esteja tentando motivar para a ação!

Salvar o mundo agora é uma mensagem que foi capaz de mobilizar estudantes de todo o mundo. Na era do “mau pensamento”, ao invés de apoiá-la, há quem olhe o que ela come, o que comem seus cachorros, e o que há atrás dela, porque supostamente a manipulam. Em outras palavras, estamos numa era em que não somos capazes de pensar positivamente. É mais do que certo que, se Greta tivesse vendido roupas desportivas, teria sido aceite como um fenómeno normal, e ninguém notaria se ela estivesse comendo bananas ou maçãs. Este é um bom indicador de como perdemos a capacidade de sonhar e seguir em frente.

Edição 146, Março 2019

Exclusivo America /IHU

POR DENTRO DA ELEIÇÃO DO PAPA FRANCISCO

Os seguintes trechos foram extraídos do livro "The Election of Pope Francis: An Inside Account of the Conclave That Changed History" [A eleição do Papa Francisco: um relato interno do conclave que mudou a história] (Ed. Orbis Books, 2019), de Gerard O’Connell, correspondente vaticano da revista America. Acompanhamos aqui a história de O’Connell sobre o dia 13 de março, após a renúncia do Papa Bento XVI em 28 de fevereiro de 2013, e a convocação de um conclave para eleger seu sucessor. Os 115 cardeais elegíveis para votar em um conclave papal se reuniram em Roma e foram trancados sob forte segurança na Capela Sistina, no Vaticano, onde realizariam as votações secretas em intervalos regulares até que um novo papa fosse eleito com dois terços dos votos. O relato foi publicado em America. A tradução é de Moisés Sbardelotto /IHU

O que ocorreu, em seguida, dentro da Capela Sistina ficou escondido do mundo exterior. O cardeal Giovanni Battista Re explicou, em primeiro lugar, o processo de votação e, então, perguntou aos cardeais se estavam prontos para votar. Eles estavam! Todos estavam ansiosos para fazê-lo, pois isso revelaria para onde o Espírito Santo os estava guiando. A primeira fase do processo começou com a distribuição das cédulas de voto aos eleitores. Antes do início da votação, e de acordo com a constituição apostólica Universi Dominici Gregis, o cardeal eleitor mais jovem extraiu, então, aleatoriamente, os nomes de três “escrutinadores”, três “infirmarii” e três “revisores” para supervisionar a primeira sessão de votação.

A segunda fase foi a votação secreta. Cada cardeal tinha em sua frente um formulário de votação, de formato retangular, no qual estavam impressas em latim as palavras “Eligo in Summum Pontificem” (“Eu elejo como Sumo Pontífice”), e em baixo havia um espaço para o nome da pessoa a quem ele gostaria de dar o seu voto. Esperava-se que os eleitores escrevessem de tal modo que não pudessem ser facilmente reconhecidos pela sua caligrafia. Assim que o cardeal completasse seu formulário de votação, ele devia dobrá-lo longitudinalmente, de modo que o nome da pessoa em quem ele votou não pudesse ser visto.

Assim que todos os eleitores tinham escrito o nome do seu candidato escolhido e dobrado as cédulas de votação, cada cardeal, então, levava sua cédula entre o polegar e o indicador e, segurando a cédula no alto para que pudesse ser vista, levava-a até o altar, no qual estavam os escrutinadores e onde havia uma urna, feita de prata e bronze dourado pelo escultor italiano Cecco Bonanotte, com uma imagem do Bom Pastor gravada nela. A urna estava coberta por um prato dourado para receber as cédulas de votação.

Ao chegar ao altar, o cardeal eleitor ficava sob a impressionante pintura do “Juízo Final” de Michelangelo e pronunciava o seguinte juramento com uma voz clara e audível: “Eu chamo como minha testemunha a Cristo, o Senhor, que um dia será meu Juiz, de que meu voto é dado àquele que, diante de Deus, acredito que deve ser eleito”. Ele então colocava sua cédula no prato e inclinava o prato de tal modo que a cédula caísse na urna. Por fim, inclinava-se reverentemente diante da cruz e voltava para o seu lugar, e o próximo eleitor, então, dirigia-se ao altar.

Depois que todos os 115 eleitores haviam votado, os três escrutinadores começavam a contá-los. Era um momento de alta tensão. Todos assistiam ao ritual com muita atenção. O primeiro escrutinador sacudia as cédulas da urna, que haviam sido usadas pela primeira vez no último conclave, para misturá-las. Então, outro escrutinador começava a contá-las, pegando cada formulário de votação separadamente da primeira urna e transferindo-a para uma segunda urna, exatamente como a primeira, que estava vazia. A Constituição decreta que, se o número de cédulas não corresponder exatamente ao número de eleitores presentes, então essa rodada de votação é declarada nula e sem efeito.

Quando o número de cédulas corresponde exatamente ao número de eleitores, o processo continua com a abertura das cédulas. Os três escrutinadores sentam-se à mesa em frente ao altar. O primeiro abre a cédula, lê o nome silenciosamente e passa para o segundo escrutinador. O segundo faz o mesmo e depois passa para o terceiro, que lê o nome escrito na folha e, em seguida, em voz alta, anuncia-o a toda a assembleia e, depois, regista-o em um papel preparado para esse fim.

As janelas da Capela Sistina tinham sido tapadas. Mas isso foi considerado totalmente inadequado, dado o estado avançado das modernas tecnologias de comunicação e o risco de interceptação eletrônica, de modo que, assim como em 2005, os organizadores do conclave tomaram medidas de alta segurança para evitar a possibilidade de transmissão por smartphone a partir de dentro e de interceptação eletrónica a partir de fora por parte de agências ou indivíduos. Eles instalaram sistemas de interferência de última geração, incluindo uma gaiola de Faraday. O chão da capela havia sido elevado em cerca de um metro e coberto com tábuas de madeira para a instalação do sistema.

Desta vez, no entanto, os organizadores foram ainda mais longe do que no último conclave para evitar a possibilidade de intercetação; eles tomaram a extraordinária decisão de não usar o sistema de amplificação de som dentro da Capela Sistina. A razão para isso parece remontar ao conclave de 2005, quando o guarda suíço de pé do lado de fora da capela às vezes ouvia o que estava sendo dito dentro, especialmente quando as contagens dos votos eram anunciadas pelo sistema de som.

Consequentemente, antes da primeira votação, o cardeal Re pediu que o cardeal Juan Sandoval Íñiguez, o arcebispo emérito de Guadalajara, de 79 anos, que era conhecido por ter uma voz poderosa, ficasse em pé no meio da capela e proclamasse em voz alta os nomes lidos pelo terceiro escrutinador.

Enquanto o terceiro escrutinador lia um nome em uma cédula de votação, o cardeal Sandoval repetia-o para que todos pudessem ouvir. Havia um clima de grande suspense dentro da Capela Sistina quando os resultados eram anunciados. Pela primeira vez, os eleitores revelavam suas escolhas; eles estavam pondo suas cartas sobre a mesa.

Depois de ler o nome em cada cédula individual, o terceiro escrutinador perfurava a folha no meio da palavra “Eligo” com uma agulha e linha; isso era feito para juntar e preservar as cédulas. Quando os nomes em todas as cédulas haviam sido lidos, um nó era feito em cada extremidade do fio, e as cédulas unidas eram postas de lado.

Isso foi seguido até a terceira e última fase do processo de votação, que começou com a soma dos votos recebidos por cada indivíduo. Os resultados trouxeram várias grandes surpresas.

Antes do conclave, vários cardeais previram que haveria uma ampla dispersão na primeira votação, mas poucos haviam imaginado o quão ampla era seria: 23 prelados receberam pelo menos um voto na primeira votação; isso significava que um em cada cinco cardeais presentes havia recebido pelo menos um voto, sendo que quatro cardeais haviam recebido 10 ou mais votos. Os cinco primeiros colocados na primeira rodada foram os seguintes:

Scola: 30

Bergoglio: 26

Ouellet: 22

O’Malley: 10

Scherer: 4

Angelo Scola chegou em primeiro com 30 votos, mas não recebeu tantos votos quanto o previsto por alguns cardeais e pelos media italianos.

A grande surpresa foi Jorge Bergoglio, que ficou em segundo lugar, logo atrás de Scola, com 26 votos. Seu total, de fato, teria sido 27, se um eleitor não tivesse escrito errado o seu nome, escrevendo “Broglio”, em vez de Bergoglio, na folha de votação. Foi um começo muito promissor para o arcebispo de Buenos Aires.

Marc Ouellet também marcou bem, melhor do que o esperado, e chegou em terceiro lugar, obtendo 22 votos. Ele parecia um forte candidato.

Seán O’Malley também foi uma surpresa; com 10 votos, ele se tornou o primeiro estadunidense da história a pontuar tão alto em qualquer eleição papal.

Por outro lado, Odilo Pedro Scherer, o brasileiro muito indicado, teve uma pontuação surpreendentemente baixa; ele recebeu meros quatro votos.

Além desses primeiros colocados, cinco cardeais receberam dois votos cada na primeira votação: Christoph Schönborn, Peter Turkson, George Pell, Laurent Monswengo Pasinya e Timothy Dolan.

Outros 13 cardeais receberam um voto cada: Audris Backis, Óscar Rodríguez Maradiaga, Ernesto Antonelli, Carlo Caffarra, André Vingt-Trois, Oswald Gracias, Thomas Collins, Luis Antonio Tagle, Leonardo Sandri, Robert Sarah, Mauro Piacenza, Gianfranco Ravasi e “Broglio” (que parecia um óbvio erro de ortografia de Bergoglio).

O processo de votação terminava com a queima das cédulas. Depois de uma checagem final das folhas do relatório nas quais os escrutinadores haviam registrado os votos, as cédulas e os relatórios eram levados para um dos dois fornos especialmente instalados no lado esquerdo da parte de trás da Capela Sistina, olhando para o altar.

Os dois fornos se unem em uma chaminé que está conectada à chaminé erguida do lado de fora da capela, uma chaminé que agora era o centro das atenções da mídia mundial. A origem do forno remonta ao século XVIII, quando o mestre de cerimônias teve a brilhante ideia de comunicar ao mundo se um novo papa havia sido eleito ou não, jogando fumaça branca ou preta pela chaminé da capela, enquanto as cédulas e os relatórios eram queimados.

Seguindo as normas para o processo eleitoral, as cédulas da primeira votação desse conclave foram queimadas no forno mais antigo, que tem sido usado em todos os conclaves desde 1939. Isso foi feito por um dos escrutinadores, com a assistência do secretário do conclave, o arcebispo Lorenzo Baldisseri, que havia sido readmitido depois que os votos foram contados. Quando começaram a queima, eles ativaram um dispositivo eletrônico de produção de fumaça no forno mais novo, usado pela primeira vez no conclave de 2005, que continha um cartucho contendo cinco tipos de misturas químicas que podem produzir fumaça preta ou branca, conforme necessário. De acordo com o livro de regras, a operação de queima e de sinal de fumaça tinha que ser completada antes de os cardeais deixarem a Capela Sistina.

Como nenhum candidato obtivera a maioria de dois terços na primeira votação, as cédulas de votação foram queimadas, o dispositivo eletrônico de produção de fumaça foi ativado e, às 19h41 (hora de Roma), a fumaça preta subiu pela fina chaminé cor de ferrugem da Capela Sistina, anunciando ao mundo que nenhum papa havia sido eleito.

A visão da fumaça negra provocou um audível “Nooooo” entre os milhares de fiéis e turistas amontoados no frio debaixo de guarda-chuvas multicoloridos na Praça de São Pedro e usando capas de chuva, ponchos de plástico ou outros equipamentos impermeáveis para se proteger da chuva incessante. Eles ficaram ali, constantemente movendo o olhar entre a pequena chaminé e os telões na Praça de São Pedro, que mostravam ao vivo a chaminé iluminada por um refletor, enquanto as unidades de televisão e as redes de rádio de muitos países que estavam localizados fora da praça anunciavam a notícia para uma audiência global...

Para um forasteiro, aquela primeira votação dispersa poderia dar a impressão de uma grande incerteza, mas os eleitores viam-na de um modo muito diferente. O cardeal Oswald Gracias, por exemplo, me disse que ele a leu assim: “O Espírito Santo já estava nos indicando, o Espírito Santo estava nos conduzindo em uma direção particular. Deus estava lá diretamente”. Vários outros cardeais me disseram que haviam interpretado a primeira votação de maneira semelhante a Gracias.

A votação revelou várias coisas. Mostrou que Scola era o único candidato europeu forte na linha de sucessão a Bento XVI, e, embora esse pastor e eminente teólogo tivesse apoio, ele estava na extremidade inferior daquilo que se esperava na véspera do conclave, quando os cardeais e grande parte da imprensa italiana previram que ele estaria na frente com cerca de 40 votos. Naturalmente, isso foi uma decepção para seus apoiadores.

Mais importante, a votação confirmou o que muitos já sabiam ou suspeitavam: os 28 eleitores italianos estavam profundamente divididos em relação a Scola. De facto, como mostrou a história dos dois últimos conclaves (outubro de 1978 e abril de 2005), quando os italianos estão divididos, um italiano não será eleito. A história estava prestes a se repetir? Aquela primeira votação parecia indicar a muitos eleitores que o próximo papa não seria europeu; ele viria das Américas. Ela também deixava pouca dúvida de que Scherer estava fora da disputa; ele era visto como o candidato do status quo em um conclave que buscava mudanças radicais. Além de Scola, o resultado deixava outros três candidatos na disputa: Bergoglio, Ouellet e O’Malley, nessa ordem.

O arcebispo de Boston tinha muito a seu favor: ele é um pastor bem quisto, com um estilo de vida simples; fala espanhol fluentemente e tem um excelente histórico no enfrentamento de casos de abuso sexual de menores por parte do clero. No entanto, embora antes do conclave muitos cardeais afirmassem publicamente que a nacionalidade não era um problema, a verdade é que poucos queriam um papa da principal superpotência do mundo. Eleger um estadunidense, mesmo que fosse um frade franciscano, não teria caído bem no hemisfério Sul ou nas Igrejas do mundo em desenvolvimento. O’Malley, amigo e admirador de Bergoglio, compartilhava essa visão.

O cardeal Ouellet marcou muito melhor do que o esperado na primeira votação e estava em uma posição forte. Enquanto os cardeais discutiam sua candidatura em pequenos grupos e em conversas individuais na noite de terça-feira, 12 de março, eles reconheceram vários fatores positivos em favor desse canadense poliglota. Ele tinha experiência pastoral como padre na Colômbia e como bispo em Quebec. Também era importante o fato de que ele conhecia o Vaticano por dentro, tendo trabalhado primeiro no Pontifício Conselho para a Promoção da Unidade dos Cristãos e, desde 2010, na poderosa Congregação para os Bispos. Apesar desse lado muito positivo, vários cardeais disseram que o achavam “pouco inspirado” e “comum” e sentiam que seu histórico na Cúria Romana dava origem a sérias questões sobre sua capacidade de governar sob pressão. Essas questões, agora transformadas em sérias reservas, vieram à tona em conversas naquela primeira noite na Casa Santa Marta e levaram muitos eleitores indecisos a concluírem que, se ele não podia governar bem na Cúria Romana, ele poderia não ser capaz de governar da Igreja Católica.

Ao mesmo tempo, porém, Ouellet tinha alguns apoiadores altamente influentes além dos norte-americanos. Entre eles, estava o cardeal Joachim Meissner, arcebispo de Colônia, Alemanha, desde 1989 e durante nove anos antes arcebispo de Berlim. Amplamente considerado como o principal “conservador” na Igreja alemã, ele era conhecido por ser muito próximo de João Paulo II e um amigo de longa data de Joseph Ratzinger. Ele queria garantir que o próximo papa seguiria fielmente a linha e a visão de seus dois antecessores. E, assim, naquela noite de terça-feira em Santa Marta, ele foi visto do lado de fora do seu quarto pedindo aos seus colegas eleitores: “Votem em Ouellet! Bergoglio é muito velho!”.

Quanto a Bergoglio, a primeira votação revelou que ele era de facto um candidato forte, mais forte do que muitos imaginavam. Havia muitos fatores a favor de Bergoglio. Ele era conhecido por ser um homem muito santo, um pastor humilde, inteligente e inspirador, desprovido de ambição, que evitava os holofotes, vivia uma vida simples e tinha um amor apaixonado pelos pobres. Ele nunca tinha vivido ou estudado em Roma e não tinha uma aparência romana. Ele governara a Arquidiocese de Buenos Aires durante 15 anos de um modo verdadeiramente pastoral, com determinação, prudência e criatividade; tinha talento para o governo. Desde o Sínodo de 2001, sua estatura crescera internacionalmente e, na reunião do Celam em Aparecida, Brasil, em maio de 2007, ele veio à tona como líder indiscutível da Igreja dessa região, onde vivem quase 50% dos católicos do mundo. Acima de tudo, ele era um homem de coragem com uma visão missionária, capaz de abrir novos horizontes para a Igreja, um homem comprometido com o diálogo – com os judeus, com os muçulmanos, com outros cristãos e com aqueles que não professavam a fé. Acima de tudo, ele era um pastor. Sua curta intervenção na Congregação Geral, assim como sua interação com muitos cardeais durante esses dias, revelaram isso claramente.

À medida que os eleitores indecisos pensavam sobre em quem votar na manhã seguinte, três fatores inclinavam-se fortemente em favor de Bergoglio: primeiro, a grande maioria dos cardeais latino-americanos o apoiava, sem que nenhum deles falasse mal dele; segundo, ele havia revelado sua capacidade de se comunicar e inspirar quando proferiu sua breve mas refrescante intervenção na Congregação Geral; e, terceiro, ele tinha o apoio de asiáticos e africanos, assim como de europeus. Além disso, 68 eleitores que participaram do conclave de 2005 o conheciam como segundo colocado, e vários outros – como Maradiaga, Monswengo, Walter Kasper, Jean-Louis Tauran, Turkson, Gracias e outros – também não disfarçavam seu apoio ativo a ele.

Os indecisos tinham essa noite para se decidirem; na manhã de amanhã, eles teriam que votar novamente...

Ladislau Dowbor

COMO EU ME INFORMO

A formação da opinião pública se transformou numa grande indústria. Em “Chomsky & Cia”, documentário de Daniel Mermet e Olivier Azam, temos uma excelente sistematização de Noam Chomsky. Enfrentamos o oligopólio mundial do império de Murdoch, aqui a nossa Globo, até a surrealista TV Record, e evidentemente a indústria dos fake news, que hoje conta com a possibilidade técnica de se falsificar vídeos e falas, e de atingir, por meio de algoritmos, qualquer pessoa em qualquer parte, a começar pelo celular que temos no bolso. Tudo isso gerou um outro universo de informação. E não podemos esquecer a rede mundial de think tanks, com financiamentos nababescos, que geram a matéria prima da desinformação, da falsificação da história, e das campanhas mundiais sobre como devemos pensar. Hoje, temos de enfrentar uma impressionante indústria com capacidade de nos fazer pensar qualquer bobagem, e nos fazer acreditar que pessoas com “bom senso” pensam como nós. O documentário Driblando a Democracia, inclusive, escancara como o próprio sistema político foi apropriado. O texto é de Ladislau Dowbor, economista, doutor em Ciências Económicas pela Escola Central de Planejamento e Estatística de Varsóvia, professor da PUC-SP e da Umesp, publicado em seu Blog.

É legítimo não aceitarmos que tantas pessoas sejam transformadas em zumbis, repetindo o que aparece nesses diversos instrumentos de manipulação. O que me interessa aqui é dar, através do testemunho de como eu organizo a minha informação, indicações de excelentes fontes de análises, internacionais e nacionais, que apresentam não só boa informação, mas informação com facilidade de verificação. Ou seja, podemos, de forma rápida, gratuita e bem organizada, saber o que realmente está acontecendo pelo mundo e em particular no nosso quintal. Isso envolve repensar as nossas fontes, mas também as formas de organização e de interação. O mundo do conhecimento mudou.

Eu, por desgraça e provavelmente por idade, acordo às 6:20h da manhã. No silêncio e tranquilidade da hora, e na ausência de perturbações comerciais, clico no “G” que está no meio do meu celular ou do tablet, e vejo o que acontece no mundo por meio do The Guardian. Trata-se seguramente hoje da melhor fonte de informação internacional, inclusive com excelentes artigos sobre o Brasil. Informação muito confiável, com bom sistema de correção de erros, porque herdou uma cultura de decência e de diversidade. Não estão vendendo nada a ninguém. Eles dependem apenas, como a Wikipédia, das contribuições dos seus leitores. E se você não lê inglês, ao abrir o Guardian, aparece a opção de ler a tradução em português, e hoje, com análise semântica incorporada, as traduções já fazem sentido.

Ver o que acontece no resto do mundo ajuda imensamente, porque não somos tão particularmente originais, tranquilizem-se, o caos está se instalando no planeta de maneira bastante repartida. Mas, a particularidade de ler um jornal online é que se você se interessou por um artigo e o abriu, e quer aprofundar o tema, o software abre automaticamente chamadas para vários artigos anteriores sobre o mesmo assunto. Ou seja, é você que aprofunda a análise do tema, podendo inclusive resgatar a história de um fenômeno particular. As fontes de cada informação aparecem marcadas, é só clicar para ter a pesquisa ou livro de onde a informação foi tirada. O artigo sobre o futuro do emprego, por exemplo, apresenta as principais tendências, mas apresenta também o link para o estudo completo da Organização Internacional do Trabalho. Na leitura online assim organizada, você resgata a compreensão da dinâmica e pode checar as fontes, em vez de apenas de se indignar ou se alegrar com a “última notícia”. Não é só a origem da carne do supermercado que pode ser rastreada.

Ao sentar para trabalhar, posso varrer informações mais significativas simplesmente porque solicitei que me mandem como mailing: fontes como Carta Maior, IHU, GGN, Outras Palavras, Brasil 247, The Intercept, Agência Pública, Fundação Perseu Abramo, Diálogos do Sul e outras nos apresentam informações, análises, ou estudos aprofundados sobre os mais diversos temas, de forma extremamente fácil de acessar.

Acho El País também muito útil, em português. Todas são gratuitas. Le Monde Diplomatique Brasil, mensal, pode ser assinado para ter a íntegra da edição que está nas bancas, mas o conjunto do acervo, anos de análises aprofundadas sobre grandes tendências de mudança no Brasil e no mundo, constituem inclusive material de grande valor, por exemplo, para que professores recomendem pesquisas aos seus alunos. Os alunos adoram fontes gratuitas e disponíveis online.

Como as informações estão disponíveis na internet, não precisamos mais de gigantes comandando redes de repórteres que “formatam” o que devemos pensar. Grupos menores, com pessoas de elevado nível de conhecimento específico, passam a filtrar e a disponibilizar informação de maneira organizada. Eu recomendo que vocês se inscrevam para receber o material desses veículos. É uma garantia em termos de qualidade da informação.

Além do jornalismo, muitos trazem excelente conteúdo analítico. Eu, como economista, publico análises econômicas; médicos escrevem sobre problemas de saúde e assim por diante: não é um repórter que conversou com um médico, e sim o médico que escreve e assina. Com isso, a deformação gerada por intermediários se reduz drasticamente. Por que será que aparecem tão pouco na mídia comercial os escândalos da indústria farmacêutica ou os da agiotagem dos bancos? A resposta é simples: neste tipo de mídia, o objetivo é comercial. Quem paga a publicidade é poupado, inclusive, no plano político.

O que nos leva à questão de como sobrevive esta nova mídia. O Guardian ou o International Consortium of Investigative Journalists (ICIJ) no plano internacional, e os diversos grupos menores nacionais, aqui mencionados, dependem essencialmente das contribuições de seus próprios leitores. Eu reservo uma pequena verba mensal, espécie de imposto direto e direcionado, contribuindo ora para um, ora para outro, e considero que é dinheiro muito bem investido: pequenas contribuições de muitas pessoas resolvem o problema, tanto porque os custos dessa mídia são muito pequenos, como porque todas trabalham com open access, acesso aberto, permitindo que as mais diversas matérias sejam repassadas e republicadas em várias mídias.

Eu, por exemplo, como acadêmico e pesquisador, organizo o material científico e o disponibilizo online, gratuitamente, no blog. Muitos grupos de mídia não comercial “pescam” o material que publico no blog, fazendo com que este conhecimento circule entre seus diversos públicos. O universo assim gerado, na linha do Creative Commons, bens comuns criativos, está explodindo no planeta. Entre produtores e reprodutores, vivemos com pouco dinheiro e muita cultura e informação.

Com a quantidade de informações que recebemos, gerou-se uma tensão entre tanta coisa interessante e de qualidade e a nossa escassa capacidade de aproveitamento. Saber navegar se tornou essencial. É muito mais importante do que simplesmente encher a cabeça de informação. Eu tenho uma forma simples de “recepção” organizada do que leio. Ou seja, nesta era de imensa quantidade de informação disponível, além de aprender a selecionar o que se lê, temos de aprender a tornar essa informação disponível para nós mesmos. O ponto de partida é que as novas mídias nos permitem não só ler o que aparece a cada dia, semana ou mês, como também fazer pesquisa organizada, com palavras-chave, nome do autor, instituição de pesquisa ou o que seja.

Eu também preciso ter facilmente acessível o conteúdo que já li e me interessa. Para isso, dentro do meu computador, eu mantenho uma pasta que chamo “Artigos Recebidos”, onde salvo os artigos mais importantes, e que deverei provavelmente utilizar. Cada artigo é gravado com ano e nome: antes de tudo, eu identifico o ano, permitindo que o computador agrupe os textos pelo ano (2019, 2018, 2017 etc.), depois uso uma palavra chave do tema (desemprego, juros etc.) e outra da fonte que o publicou, por exemplo, “19 desemprego Brasil Guardian”. Com isso, os artigos mais antigos se agrupam por ano e vão “desaparecendo” no fundo da pasta, mas se precisar, tenho como encontrá-los facilmente. Dessa forma, eu que leio muito e trabalho com inúmeras fontes, posso agrupar leituras pelo tema, revê-las e usá-las para o que for necessário.

Tenho também um outro arquivo no computador, uma pasta chamada “Citações”, onde coloco, num simples arquivo Word, e na mesma página, qualquer tabela ou informação/citação que me pareçam excepcionalmente úteis, uma declaração ou conclusão importante de uma personalidade ou de uma instituição e assim por diante. De certa forma, esse arquivo é uma caixa de ferramentas que tenho. Por exemplo, achei muito bom o trecho de um artigo no New York Times, sobre os bilionários, que ficou assim no meu arquivo:

NYTimes – Billionaires? – Abolish Billionaires – Farhad Manjoo – NYT 6feb. 2019: “A billion dollars is wildly more than anyone needs, even accounting for life’s most excessive lavishes. It’s far more than anyone might reasonably claim to deserve, however much he believes he has contributed to society. At some level of extreme wealth, money inevitably corrupts. On the left and the right, it buys political power, it silences dissent, it serves primarily to perpetuate ever-greater wealth, often unrelated to any reciprocal social good.”

Trechos assim se enfileiram, os mais recentes no alto da página (alimento por cima), o que me gera uma excelente fonte de citações, além de me permitir, pelo link, rever o artigo completo na fonte se for necessário.

E tenho, evidentemente, o meu blog, o dowbor.org, que constitui a minha biblioteca pessoal online, com milhares de itens, artigos, livros, resenhas, documentários, receitas de pão ou o que for que faça parte do meu universo de interesses. Hoje, após 20 anos, tenho uma memória organizada. Não preciso mais me irritar por não lembrar onde está a revista que eu precisaria para uma consulta. No começo, usei meu blog de modo privado e quando ele se tornou mais recheado, eu o abri para consulta. Hoje, ele é uma fonte aberta e gratuita de consulta científica. Sou, como hoje está na moda qualificar, um prosumidor.

Milhares de pessoas utilizam meu blog não só para ler e citar os meus estudos, mas também para acessar estudos de inúmeras pessoas que eu publico. Ou seja, na linha do mencionado Creative Commons, passei a fazer parte de uma rede mundial de pesquisadores que interagem, consultam os materiais uns dos outros, e geram um ambiente interativo e colaborativo de construção de conhecimentos científico. O custo é ridículo, uso a tecnologia wordpress, gratuita. É como ter uma grande estante em casa, só que é muito fácil encontrar onde está cada item, é só pesquisar por alguma palavra relacionada com o que procuro. Quer fazer a sua própria biblioteca online? Em Vale a pena um professor criar o seu blog, eu explico o passo a passo. Não queria deixar a impressão de que sou um obcecado do mundo virtual, a informática não substitui o papel, que é igualmente precioso, mas articular a permanência e o “tato” do papel com a navegação informática, aumenta radicalmente o aproveitamento de ambos.

Estou dando o exemplo do meu blog, que funciona há mais de 20 anos, e tem dezenas de milhares de pessoas que acompanham. Mas muita gente organiza excelente material em blogs abertos, como Roosevelt Institute, Oxfam, ICLEI, Greenpeace, Tax Justice Network, Amnesty International, Real World Economics, Piketty.blog.lemonde.fr e inúmeros outros aqui no Brasil. Aqui, a consulta é especializada, e depende do interesse específico do que você procura. Mas o essencial é pensar que as fontes para aprofundar o conhecimento ou pesquisa sobre um tema deve levar em conta não só os livros escritos, a chamada bibliografia, mas o fato que muitas instituições pelo mundo afora já dispõem de equipes de pesquisa relevantes, e isso abre acesso para informação extremamente focada e atualizada. É uma forma de não reinventar a roda, e de se colocar imediatamente na crista da onda do que está sendo pesquisado em qualquer parte do mundo.

Cada vez menos gente aguarda os artigos científicos com double peer review, em revistas indexadas, que geram lucros da ordem de 40% para os gigantes como Elsevier e pontuação para as instituições acadêmicas, mas que estão sendo cada vez mais postos de lado do mainstream da pesquisa internacional. Um Stiglitz, por exemplo, do Roosevelt Institute, como tantos outros, publicam online sob forma de acesso aberto, e quem acha que o estudo é válido ou não é quem lê. O tão importante relatório sobre a desigualdade no mundo, o WIR, mostra a nova forma de organização de ciência colaborativa: “As séries (estatísticas) apresentadas no presente relatório estão baseadas no esforço coletivo de mais de uma centena de pesquisadores, cobrindo todos os continentes, que contribuem para o banco de dados WID.world. Todos os dados estão disponíveis no wir2018.wid.world e podem ser reproduzidos, permitindo que qualquer pessoas faça a sua própria análise e crie a sua própria visão sobre a desigualdade.”

O tão rigoroso New Scientist britânico chama a indústria parasita de “o escândalo da publicação acadêmica” (the scandal of scholarship) e recomenda o documentário Paywall: the business of scholarship, sobre como se expandiu o pedágio privado sobre a as publicações científicas: . A alternativa geral é acessar Sci-Hub, com acesso aberto a artigos científicos, para escapar ao que o New Scientist chama de “modelo de pedágio” (toll-access model). Hoje só nos EUA mais de 15000 cientistas boicotam as revistas indexadas e publicam em arXiv, Plos e semelhantes sistemas abertos. A palavra de ordem aqui é Open Access, ou Creative Commons.

Bem, a vida não é só trabalho. Eu gosto de assistir à TV e de noite assisto bastante, mas como tenho problemas cardíacos, evito sempre o Jornal Nacional e semelhantes injeções de veneno. E é uma luta porque tudo é feito para dificultar (leia-se cobrar) o nosso acesso a excelentes programas de TV. A Net e outras empresas cobram mais caro, não porque tenham mais custos, mas justamente para manter o grosso da população fora da TV por assinatura, com a cabeça atolada nas bobagens e na manipulação política. O fato é que temos excelentes programas diários nos canais Curta, Arte1, Films&Arts, e também Cultura e Futura.

No plano internacional, temos excelentes informações e programas pela TV5Monde, BBC e CNN. O BBC Earth é maravilhoso, mas por alguma razão, a Net e outros simplesmente tiraram o canal do ar. O canal francês, TV5Monde, apresenta diariamente um jornalismo investigativo de primeira qualidade, tipicamente uma hora (das 19h às 20h), trazendo temas como a desinformação alimentar, os falsos medicamentos, os sistemas de aposentadoria e semelhantes, em uma rede que articula as TVs da França e as de língua francesa da Suíça, da Bélgica e do Canadá. E tudo legendado. Assistir a um programa desses me deixa de boca aberta ao constatar o imenso potencial de uma TV inteligente e não controlada por grupos econômicos que empurram ideologia e consumismo. E para uma visão claramente mais progressista, temos a TVT, TV dos Trabalhadores, com excelentes entrevistas, abrindo um leque de análises em profundidade, que é o caso também de Tutameia. Aliás, no computador dá para acessar excelentes programas no Aljazeera live.

Queria salientar que eu mencionei aqui um certo número de fontes, que são as que eu mais utilizo, e bastante centradas na problemática do desenvolvimento econômico e social. Há tantas outras, e cada um pode organizar de certa forma o seu leque de fontes. De qualquer maneira, como é óbvio, estamos na era da informação, da revolução digital, do tudo aqui e agora, da vertigem de fragmentos desconectados de conhecimento que giram na nuvem e na nossa cabeça. Selecionar as fontes, apoiar a mídia livre, receber de maneira organizada e apoiar-se numa memória virtual personalizada, o seu próprio blog, constitui hoje uma necessidade premente. O mundo mudou e precisamos de novas ferramentas. Muito além do fake news e dos bate-boca nas mídias sociais, surgem imensas oportunidades para uma ciência e conhecimentos democratizados. A mesma tecnologia que gera por vezes o caos informacional pode ter o seu sentido invertido, e servir para construir uma sociedade realmente informada.

Luiz Alberto Gomez de Souza

SEXUALIDADE E PODER

"Sexualidade e celibato estão ligados ao poder, assim como a resistência às diáconas e à ordenação de mulheres. O clericalismo é sua expressão mais evidente. Não por acaso Francisco, neste caso severo e enfático, atacou duramente o clericalismo", escreve Luiz Alberto Gomez de Souza, sociólogo.

O recente encontro de Francisco com as comissões episcopais nacionais centrou a atenção no terrível problema da pedofilia. A Igreja devia à sociedade uma palavra a respeito. Note-se, entretanto, que esse é um problema da sociedade como um todo e seria uma hipocrisia social reduzi-lo aos espaços da Igreja Católica Romana. Claro que anos de encobrimento nessa instituição levaram à necessidade de enfrentá-lo abertamente com coragem. Não esqueçamos, porém, que bom número de casos de pedofilia ocorrem no interior das famílias, em centros de juventude, etc.

Porém é o momento de sair das páginas de escândalo e colocar a pedofilia numa perspectiva mais ampla e mais séria. Muitos querem reduzi-la à homossexualidade. O livro do sociólogo francês Frédéric Martel, Sodoma, relata possíveis índices altíssimos desta na cúpula da Igreja Católica. O autor se apresenta como homossexual e o tema é tratado com cuidado e sensibilidade, querendo denunciar uma rede de hipocrisia na instituição. Isso pode ser até certo ponto salutar. Entretanto, uma leitura que escorrega para o sensacionalismo termina sendo a pior maneira de enfrentar a problemática.

Enganosa relação pedofilia-homossexualidade

Uma relação redutiva e falsa pedofilia-homossexualidade tem permitido a setores conservadores ver essa última como a grande chaga eclesial. Os bispos Raymond Burke dos Estados Unidos e Walter Brandmüller, da Alemanha, que com outros dois tinham lançado um ataque ao pontificado de Francisco, voltam agora em carta aos participantes da cúpula sobre pedofilia, pedindo para pôr fim “à conspiração do silêncio em torno à praga da agenda homossexual”. O arcebispo Carlo Viganò, que pedira a renúncia do papa, lembra São Pedro Damião, que denunciara, no século XI, os perigos da sodomia na Igreja. Já o arcebispo maltês Charles Scicluna, talvez uma das maiores autoridades na matéria, que fora enviado ao Chile para pesquisar ali o problema da pedofilia, indica que a homossexualidade e a heterossexualidade são condições humanas e não predispõem necesariamente ao pecado. Para ele, “não ousaria dizer que uma categoria inteira tem tendência a pecar”.

Um porta voz do Vaticano, depois do discurso do Papa do dia 24, indicou que “os abusos de menores são sempre consequências do abuso de poder”. Este é um ponto central de toda esta reflexão, ao qual voltaremos ao final. Não é aceitável que setores conservadores na Igreja se lancem numa cruzada homofóbica. Antes de tudo, há que indicar que a pedofilia pode partir tanto de hétero como de homossexuais . Como afirmou no recente encontro a Irmã nigeriana Verônica Openibo, as meninas são também vítimas de abuso. O problema é mais profundo e tem a ver com a sexualidade em geral. Vejamos exemplos eloquentes.

A chaga da pedofilia na Igreja

Em princípio não gostaria de deter-me nos fatos, mas infelizmente é necessário partir de alguns deles, para uma reflexão eclesial concreta, por mais dolorosa e terrível que possa parecer essa informação. Quero que esta reflexão, de um cristão leigo, seja uma tentativa de análise sujeita a revisão e correções, uma simples participação provocadora em um debate candente e cada vez mais atual.

Começa a haver um certo consenso de que o tempo do pontificado de João Paulo II foi um momento de forte encobrimento ou de negação dos fatos relativos à pedofilia e eu acrescentaria, à sexualidade em geral. Começo com uma situação emblemática que não pode ser ignorada. O Cardeal de Viena, Hans Hermann Groër, foi nomeado, em 1986, por João Paulo II, que admirara sua piedade mariana. Ele sucedeu ao notável Cardeal Franz König, uma das fortes figuras do Vaticano II. Começaram logo a aparecer acusações de pedofilia quando ainda era monge e depois como cardeal. Salto os terríveis detalhes. Chegavam testemunhos de seminaristas, mas sua prática possivelmente seria mais ampla. Seu sucessor, o Cardeal Christoph Schönborn, disse a jornalistas, “off the record” - mas a informação logo vazou - que o prefeito Ratzinger tentara convencer o Papa a investigar o caso, no que teria sido impedido pelo Secretário de Estado, Angelo Sodano. Finalmente, a pedido de João Paulo II, em 1998, Gröer renunciou a todos os privilégios como arcebispo e cardeal. Passou a ser prior num mosteiro mas, diante de novas acusações, teve de retirar-se definitivamente da vida pública.

O caso mais notório, com muitos livros e artigos publicados, foi o do padre mexicano Marcial Maciel Degollado. Criou os Legionários de Cristo, que seria adiante congregação de direito pontifício. Dirigiu por 64 anos os Legionários, que cresceram enormemente, em quantidade e força financeira. As primeiras suspeitas sobre suas atividades sexuais dolosas começaram em 1948, porém nos quarenta anos seguintes foram consideradas calúnias. Pelas pesquisas posteriores da própria Igreja, constatou-se que, além da pedofilia, tivera pelo menos duas companheiras com quatro ou seis filhos, ademais de ser adicto em cocaína. Reuniu enorme fortuna, para os Legionários e para si próprio, em parte depositada em paraísos fiscais. Depois de sua morte uma filha, na justiça, tentou reaver parte da fortuna paterna. Em 2010, a direção dos Legionários finalmente admitiu as atividades promíscuas de seu fundador – que aliás vivia com cinco identidades falsas. Bento XVI então, considerando a idade avançada e a saúde de Maciel Degollado, o intimou a levar uma vida retirada “de oração e de penitência”. Morreu aos 87 anos, em 2008, numa mansão em Jacksonville, na companhia de uma companheira e sua filha, sem a presença da Igreja. Os Legionários passaram por uma intervenção, mas continuaram administrando seus volumosos bens. Sobra dizer que suas posições eram e seguem sendo integristas no âmbito eclesial e conservadoras na sociedade. Um cardeal denunciou que chegou a ele um cheque de milhares de dólares como tentativa de suborno e que o devolveu imediatamente. Era conhecido o financiamento abundante a obras da Igreja em geral e do Vaticano em particular. Note-se aqui que o problema não se reduzia à pedofilia, nem se tratava de um homossexual, mas de alguém com uma sexualidade exacerbada e ávido de poder econômico.

No Peru, o leigo Luís Fernando Fígari fundou, em 1971, o Sodalício de Vida Cristã, mais adiante também sociedade de direito pontifício. Este é formado por sacerdotes e leigos presentes em muitos países. Igualmente integrista eclesial e conservador social. Fígari também foi acusado de pedofilia. Superior do Sodalício até 2010, em 2017 foi “exclaustrado”, isto é, proibido de viver numa casa da congregação. O novo superior pediu a ele uma “vida de oração e penitência”. Vive em Roma sem poder voltar ao Peru, onde chegou a correr um processo contra ele na justiça civil.

No Chile, o padre Fernando Karadima, pároco de um bairro de classe alta de Santiago, criou uma Pia União Sacerdotal, teve enorme prestígio e foi responsável pela nomeação de vários bispos. Com laços com o regime militar, era próximo do núncio Angelo Sodano, mais tarde Secretário de Estado. Quando o bispo Juan Barros, ligado a ele, foi nomeado bispo de Osorno, parte da comunidade eclesial local se rebelou. Francisco, em visita ao país, baseado possivelmente em informações tendenciosas, não recolheu a denúncia e isso manchou sua presença no Chile. Mais tarde, com enorme honestidade, nomeou o bispo de Malta, Charles Scicluna, para uma visita apostólica ao Chile. Na base de seu informe, Francisco convocou todos os bispos do país a Roma. Estes puseram sua renúncia nas mãos do Papa, que agiu com cuidado e gradualmente. Um dos problemas foi o caso do antigo Cardeal-arcebispo de Santiago, Francisco Errazuriz, que aliás fazia parte dos oito prelados escolhidos por Francisco para assessorá-lo. Como seu sucessor também foi questionado, a sucessão do arcebispado passou a ser uma decisão difícil. O escândalo de pedofilia alcançou também um conhecido colégio dos Irmaõs Maristas. A Igreja chilena sofreu perda de seus membros e não se refez ainda do trauma. Dali em diante choveram acusações as mais variadas, verazes ou não, como o caso de conhecido jesuíta falecido, que teria molestado uma mulher. Veja-se que tudo extrapolou da pedofilia, para casos de uma sexualidade hetero ou homo reprimida. O que nos leva a ampliar a reflexão da pedofilia à sexualidade em geral e abre logo para o problema do celibato obrigatório, que trataremos adiante.

Casos de abuso se estenderam a outros países da América Latina, aos Estados Unidos, à Irlanda e à Austrália. Nesta, o cardeal George Pell acaba de ser condenado pela justiça do país por atos de pedofilia e perdeu suas funções na Igreja, inclusive na área econômica na Santa Sé, ele também um dos oito cardeais do conselho do Papa. Em fevereiro, Francisco, numa decisão drástica, retirou o sacerdócio do ex-Cardeal emérito de Washington, Theodore McCarrick, de 88 anos,

No Brasil, surgiram várias acusações de pedofilia e de encobrimento. Um sacerdote em Goiás foi expulso da Igreja. Foram aparecendo outros casos. O mais conhecido foi o do arcebispo de João Pessoa, afastado do cargo, conhecido também por suas ligações com setores econômicos. Volta o problema do poder.

Vai ficando claro que os casos de pedofilia não se restringem apenas a meninos, mas envolvem também meninas. E em relação à idade dos abusados, não se reduz à pedofilia, mas a relações hetero e homossexuais. Podemos ir descobrindo que o problema de fundo tem a ver com a sexualidade, tanto hetero quanto homossexual. E possivelmente em muitos casos, podia tratar-se de uma sexualidade reprimida e logo exacerbada.

Celibato obrigatório e optativo

E isso nos reporta ao tema do celibato obrigatório no caso dos presbíteros. Para introduzi-lo, talvez fosse importante falar de serviços (diaconias) na Igreja, em múltiplas funções, sem separar rigidamente as fronteiras entre ministérios ordenados e não ordenados. Trata-se antes de tudo de diferentes missões, uma das quais a dos presbíteros.

Uma coisa é o celibato optativo como vocação. Isso é claro no caso dos religiosos que optaram em viver em comunidade, diferente daquele dos presbíteros. Claro que não há uma relação automática entre celibato obrigatório e abusos sexuais, hetero ou homo. Mas a Conferência Episcopal alemã, em 2018, indicou que esse celibato obrigatório é um fator que pode favorecer os abusos.

Um celibato escolhido livremente, por vocação pessoal, pode ser uma “joia brilhante”, como declarou Paulo VI. Ao final, em anexo, transcrevo um comovente poema de Pedro Casaldáliga, “Aviso prévio para jovens que querem ser celibatários”. Entretanto, um celibato obrigatório pode dar origem a situações problemáticas.

Enfrentar o problemas do celibato não toca na Revelação, pois se trata de um problema disciplinar, passível de revisão. Tem a ver não com a ortodoxia, mas com uma ortopráxis. Às vezes situações concretas podem ser ocasião de rever e ampliar práticas.

Nesse sentido, o Sínodo da Amazônia, a ser realizado de 2 a 27 de outubro deste ano, entre muitos problemas deverá enfrentar o caso do reduzido número de sacerdotes na região, diante da necessidade do acesso à Eucaristia. Por anos, em muitos lugares, a presença de um sacerdote se realizava esporadicamente por ocasião das chamadas desobrigas. Numa Igreja pastoralmente ativa, a celebração eucarística deveria ser um momento central da vida eclesial. O teólogo Francisco Taborda questiona: “Há uma enorme escassez de padres”, o que leva a “repensar como fazer para que toda a comunidade possa celebrar a Eucaristia de domingo”. Porque não ordenar, nessas comunidades, homens casados, cuidadosamente escolhidos como presbíteros? Bispos da região amazônica tem colocado reiteradamente o tema.

Relações afetivas dos sacerdotes

Na prática, já há, aos poucos, uma certa tendência para aceitar relações afetivas de sacerdotes com suas companheiras, superando barreiras de negação e de ocultamento. Aliás, na Igreja brasileira, até final dos anos oitocentos, era normal a presença de sobrinhos ou afilhados dos padres, na realidade em parte seus filhos.

O mesmo deveria valer para um companheiro homossexual. Recentemente um jovem homossexual foi eleito para um conselho pastoral na diocese de Viena. O Cardeal Schönborn recebeu-o com seu parceiro. O notável Cardeal Carlo Maria Martini, em reflexão recolhida no livro Credere e Conoscere, em diálogo com Ignazio R. Marino (Einaudi 2012), depois de assinalar a importância central e insubstituível da família, lança a seguinte pergunta: “porém não seria ruim que, no lugar de relações homossexuais ocasionais, as pessoas tivessem certa estabilidade e então, neste sentido, o Estado poderia favorecê-las também”. Note-se o enorme cuidado em tratar do tema naquele momento, limitando-se ao relativo às leis civis, sem transferi-las automaticamente para normas eclesiais.

Experiências atuais, nas relações afetivas dos sacerdotes, podem desenvolver-se aos poucos num ambiente de naturalidade. Mas ainda há no ar, infelizmente, um certo clima ambíguo. Quantas vezes alguns clérigos, e inclusive leigos e leigas, por atos falhos, acabam imputando apenas à mulher a responsabilidade por uma opção a dois que fora resultado de uma decisão comum. Trago um exemplo que me tocou assistir. Na missa de sétimo dia de um sacerdote com função central na sua diocese, tudo se desenrolou em torno a uma familiar e, num canto, silenciosa e quase esquecida, estava aquela que dividiu por anos a vida a dois, e que, tantas vezes, havia recebido e acolhido muitos dos presentes.

Diaconado e diáconas

Aliás, já há um espaço importante entre a vida leiga e o presbiterato. É o caso do diaconato. O diaconato masculino permanente – e não como mero corredor ao sacerdócio- , tem já uma consistência e funções próprias. São milhares de diáconos pelo mundo afora, cumprindo importantes tarefas e não somente reduzidos a atuar em certas rubricas durante a eucaristia.

Mas para seguir adiante, não podemos deixar de enfrentar o problema das diaconisas, que existiram na história e não são ainda permitidas na atualidade. Basta lembrar a menção de Paulo ao trabalho de Febe “servindo à Igreja de Cencreia” e de Priscila “cooperadora em Cristo Jesus” (Rom, 16, 1-3).

Não parece haver impedimento sério para diaconisas, a não ser talvez o temor de alguns ordenados, cônscios de seu poder clerical, com receio que pudesse ser um caminho aberto ao sacerdócio feminino.

A mulher na Igreja e nos ministérios

Chegamos então à situação da mulher na Igreja. De fato, é cada vez mais decisiva a presença de mulheres nos diversos ministérios: ministras da eucaristia, do batismo, da bênção dos enfermos...

Sua importância é crescente na vida eclesial e inclusive eclesiástica. Perto de nós era conhecida a influência da Priora Geral das Ursulinas, Mère Saint-Jean, nos pontificados de Pio XI e de Pio XII. Houve a forte presença de Chiara Lubich, fundadora dos Focolares, na vida da Igreja contemporânea. Há sinais da influência de Chiara e dos Focolares na indicação de bispos e arcebispos. Isso não é de estranhar. Eu testemunhei a importância de D. Hélder na nomeação episcopal de assistentes eclesiásticos da Ação Católica. Na atual estrutura, com pouca ou nenhuma participação das Igrejas locais na nomeação de seus bispos, ela se dá principalmente com a intermediação dos núncios e a consulta a personalidades eclesiais normalmente masculinas e, em casos esporádicos, femininas. Descobrimos a importância da mulher em decisões eclesiásticas e sua possível presença na estrutura da Igreja. Ao que parece, João Paulo II tinha pensado em nomear como Cardeal, Madre Teresa de Calcutá.

Há uma experiência que merece ser analisada: nos anos sessenta, as ”irmãs vigárias”, na Paróquia Nossa Senhora do Ó em Nísia Floresta, dentro das atividades do chamado Movimento de Natal, impulsionado pelo então jovem Administrador Apostólico da Arquidiocese, Dom Eugênio de Araújo Sales. As irmãs assumiam plenamente a paróquia e realizavam atividades pastorais, presidindo celebrações, onde só não era realizada a consagração eucarística, reservada a um sacerdote externo. Começou na campanha da Fraternidade de 1962 e foi assumida pela CNBB dois anos depois. O recente livro “Mulheres no Altar”, de Luiza Valladares Ferreira, relata a experiência. No lançamento do livro, dom Jaime Vieira Rocha, arcebispo de Natal indicou recentemente: “A temática é pertinente para os dias atuais, quando o Papa pede uma Igreja de saída e também tem combatido o clericalismo”. Religiosas ou leigas, não poderiam ser ordenadas para um exercício pleno do sacerdócio?

A ordenação de mulheres

A Carta Apostólica Ordinatio Sacerdotalis, de João Paulo II, de 22 de maio de 1994, indicava que a ordenação sacerdotal sempre fora reservada aos homens: “declaro que a Igreja não tem absolutamente a faculdade de conferir a ordenação sacerdotal às mulheres, e que esta sentença deve ser considerada como definitiva por todos os fiéis da Igreja”. Note-se que esta declaração não cumpriu os requisitos de uma declaração infalível “ex catedra”, solenemente proclamada depois de ouvir as Igrejas locais, como no caso dos últimos dogmas marianos. É um tema passível de revisão e, além do mais, não tem, segundo biblistas renomados, bases escriturísticas que o sustente.

A presença da mulher em todos os ministérios, incluindo os ordenados, foi uma noção apresentada no Inter-eclesial das CEBS de Santa Maria em 1992 e tem sido discutida abertamente em muitas Igrejas europeias.

O acesso da mulher ao sacerdócio não deveria esconder a vontade de compartir um poder masculino e patriarcal tradicional, sem pô-lo em causa. A saudosa Rose Marie Muraro, candidata a deputada, deparou-se com um clima eleitoral masculino. Com sua valentia habitual, denunciou um caminho viciado em um lúcido livro: “Os seis meses em que fui homem” (Record 1990, Rosa dos Ventos 1993). Algo semelhante pode acontecer com um sacerdócio feminino prisioneiro dos marcos patriarcais.

Francisco, de uma maneira talvez atabalhoada e generalizadora, indicou que “todo (!) feminismo termina sendo um machismo de saias”. Saudou a fala de Lidia Ghisoni, professora de direito canônico no encontro sobre pedofilia mas, numa visão tradicional de colocar a mulher num pedestal, “como imagem da Igreja, que é mulher, noiva e mãe” e assim tirá-la do contexto concreto de sua posição ainda em construção na Igreja. Isso chocou o movimento feminista, que tem muitas vertentes, incluindo mulheres católicas. O teólogo espanhol Juan José Tamayo declarou seu estranhamento diante dessa afirmação.

Uma coisa seria uma reivindicação para o sacerdócio feminino, absorvendo e aceitando uma posição patriarcal tradicional, outra uma presença feminina que colaboraria para superar o patriarcalismo. Isso tem avançado em bases femininas e masculinas na Igreja, mas não parece ter sido ainda recebido pelo Bispo de Roma, em geral tão atento ao novo emergente.

O poder na Igreja

Tudo dito até agora nos encaminha ao problema do poder na Igreja. Ele é central e está subsumido em todos os temas tratados nesta reflexão. Sexualidade e celibato estão ligados ao poder, assim como a resistência às diaconisas e à ordenação de mulheres. O clericalismo é sua expressão mais evidente. Não por acaso Francisco, neste caso severo e enfático, atacou duramente o clericalismo: “uma perversão da Igreja”, disse a jovens reunidos no Circo Máximo em 2018; “a perversão mas difícil de eliminar”, indicou em Palermo logo depois; “uma peste”, voltando de Fátima; “fujam do clericalismo”, ensinou a novos bispos em setembro desse ano.

Olhando para a frente

Uma Igreja povo de Deus, com serviços diversificados, tentando superar uma estrutura rígida de poder, teria certamente funções de autoridade, mas num contexto participativo de serviços, abertos a homens e mulheres. O fato do Bispo de Roma, no seu múnus de pastor universal nomear-se “servo dos servos de Deus”, não deveria ficar como uma declaração meramente retórica.

Paolo Benanti

MÁQUINAS SAPIENS

O texto é de Paolo Benanti, publicada por Settimana News. A tradução é de Luisa Rabolini. Paolo Benanti é presbítero e teólogo italiano da Terceira Ordem Regular de São Francisco. É doutor em Teologia Moral pela Pontifícia Universidade Gregoriana, Roma, com a tese The Cyborg. Corpo e corporeità nell'epoca del postumano (O Cyborg. Corpo e corporeidade na época do pós-humano). Por dois anos consecutivos esteve em Washington frequentando The Intensive Bioethics Course, no Joseph P. and Rose F Kennedy Institute of Ethics da Georgetown University. Eis o texto

Em 4 de julho de 2017 no site da Blippar, uma empresa bem conhecida que trabalha com inteligência artificial e realidade aumentada, apareceu o seguinte post:

Fiz 16 anos na semana passada. Eu sou um nativo digital. Meus pais falam com medo dos progressos feitos enquanto a realidade supera as tecnologias de Star Trek que eles sempre sonharam. Para mim, não há nada de surpreendente ou de impressionante no fato de eu ter no bolso da minha calça o poder de cálculo que levou o homem à lua. Eles discutem sobre a transformação dos computadores que passaram de calculadoras ultrarrápidas a máquinas que podem dirigir autonomamente carros, traduzir instantaneamente em quase todos os idiomas e executar tarefas humanas cada vez mais complexas. Eles se maravilham diante de um mundo de conectividade instantânea e global, vendo computadores que podem derrotar seres humanos no xadrez ou no Jeopardy! Eu considero a Siri como normal. No entanto, minha geração está prestes a ver uma tecnologia que, da mesma forma, mudará literalmente tudo. A Inteligência Artificial provavelmente nos levará a uma era, igualmente irreconhecível, de inovação inimaginável e de reviravolta social. Esse é o avanço tecnológico mais recente e surpreendente. Aqui estão alguns fatos interessantes e importantes sobre a inteligência artificial que por si só causam vertigens:

1) A maior parte das inteligências artificiais são femininas: estudos mostram que a maioria das pessoas preferem o som de uma voz feminina àquela de um homem (pense na Siri!). Além disso, a maioria das inteligências artificiais é gerenciada por homens heterossexuais que são mais atraídos pela voz feminina.

2) Há filhotes dotados de inteligência artificial: esses animais criados por inteligência artificial removem os lados negativos de ter um animal de estimação, por exemplo, ter que dar banho nele. Hoje existem poucos animais com inteligência artificial, mas acredita-se que até 2025 eles estarão amplamente disponíveis.

3) Assim como os humanos, as inteligências artificiais não são apenas um templo de conhecimento, mas são capazes de socializar e simular emoções: Kismet, um robô construído no final dos anos 1990, é capaz de reconhecer as emoções através da linguagem corporal e do tom da voz.

4) As inteligências artificiais podem se consertar sozinhas: existe um robô que se reconstruiu sozinho depois de perceber que seu desempenho tinha diminuído por ter perdido duas de suas seis pernas. O robô não percebeu qual era o problema, mas o resolveu por tentativa e erro.

5) A inteligência artificial vai se tornar mais inteligente que os seres humanos: a inteligência artificial tem a capacidade de aprender, o que significa que sua inteligência está aumentando (em 2013, a inteligência artificial tinha mais ou menos o QI de uma criança quatro anos). Acredita-se que até 2029 a inteligência artificial terá o mesmo nível de inteligência que os humanos adultos.

6) Na próxima década, a inteligência artificial substituirá 16% dos postos de trabalho: isso se deve à sua crescente inteligência, o que significa que nas indústrias pode ser mais útil do que os humanos.

7) Os seres humanos podem ter relações amorosas com a inteligência artificial: um estudante universitário, David Levy, acredita que até 2050 serão legalizados os casamentos entre homens e robôs. Por enquanto, os robôs não são sofisticados o suficiente para que isso aconteça.

8) A inteligência artificial tem a capacidade de escrever: já teve um robô que escreveu um artigo sobre um terremoto Califórnia no site do "Los Angeles Times" graças as informações recolhidas por um sismógrafo.

9) A inteligência artificial provavelmente acabará com os serviços de atendimento ao cliente: até o final desta década, a assistência humana não será mais necessária em 85% das interações com os clientes.

10) Por fim, os assistentes digitais da clientela poderão reconhecer as pessoas pelo rosto e pela voz: até o final de 2018, acredita-se que os assistentes robóticos já estarão aptos a executar o reconhecimento facial e o reconhecimento de voz.

O tempo gera filhos e filhas

O post foi escrito por um estudante, Trinity Hill, enquanto estava fazendo um estágio na Blippar para conhecer melhor esse setor tecnológico. O garoto é filho deste tempo e olha para o futuro com esperança e com a impaciência típica de sua idade.

Aquele que, como eu, foi adolescente na década de 1980 se lembra das longas tardes de verão passadas a explorar o mundo em cima de uma bike de três marchas ou de uma BMX, das pranchas de skate em descidas alucinadas por ruas, felizmente, pouco movimentadas, das fundas construídas com galhos e elástico, do frisbee, dos intermináveis jogos de futebol, dos desafios de ping-pong ou sinuca e das casas nas árvores para sonhar com um futuro como adultos.

Mas até mesmo os dias chuvosos e frios tinham suas memórias. As sessões intermináveis de Dungeons & Dragons, os jogos de tabuleiro, com o “War” em primeiro lugar, e os jogos de cartas e videogames, o Atari antes e o Commodore depois.

Entre estes jogos, um grande clássico, além do inesquecível Donkey Kong, era o Q-bert da Atari. Hoje, o uso desses jogos para a interação com as inteligências artificiais é o passatempo favorito da minha geração que se tornou inovadora e gestora da transição para o mundo de Inteligência Artificial. Do ponto de vista da engenharia e computação, os videogames dos anos 1980 são perfeitos para testar os nossos novos jogos de adultos baseados na machine learning, na deep learning e nas bibliotecas tensorflow.

Os pesquisadores dispõem de um ambiente virtual já pronto: por um lado, as plataformas usadas nos anos 1980, bastante simples, que rodavam em processadores primitivos e, pelo outro, um jogo, que é algo suficientemente complexos; isso com a finalidade de simular uma interação que requer uma forma de inteligência para ser resolvida. Mesmo para nós, que não somos jovens millenials, as inteligências artificiais são um campo fascinante e se apresentam como uma tecnologia capaz de mudar radicalmente esta sociedade.

Essa consciência é bastante generalizada e motiva o texto a seguir. No ano passado, fui convidado para discutir inteligências artificiais em diferentes âmbitos e em várias ocasiões. Só para citar as principais: com o Conselho Pontifício para a Cultura em dois Cortili dei Gentili, com a Força-Tarefa para as inteligências artificiais da Agência para a Itália Digital, com o Fórum da Administração Pública, para um painel organizado pela Microsoft em Bruxelas , no CNEL com o Presidente Treu, um TED Talk e em pelo menos três programas de televisão e três de rádio nacionais. Enquanto escrevo estas linhas, as solicitações para os próximos meses excedem as do ano passado.

O texto a seguir tenta reunir os principais temas e questões que emergem dessas comparações, organizando-as, na medida do possível, em um itinerário significativo. O primeiro capítulo acompanha o leitor para a descoberta do que está acontecendo graças à implementação de novas formas de inteligência artificial e sua difusão cada vez mais ampla.

A máquina e nós

A presença da máquina e suas mirabolantes capacidades, no entanto, nos pedem para refletir sobre qual é a diferença com o homem e qual é a característica humana que nos torna tão diferentes das máquinas: esta pergunta está no centro do segundo capítulo.

No caminho proposto, seguem dois interlúdios. Para entender o que queremos que faça uma inteligência artificial, temos que nos perguntar se uma máquina pode fazer escolhas sem cometer erros - primeiro interlúdio. Porém, devemo-nos perguntar também se a máquina pode interagir com o homem de acordo com modalidades puramente racionais ou se o lado emocional deve, de algum modo, também ser incluído e avaliado nessa relação, porque a coexistência entre homem e máquina não se torne insustentável.

O quinto capítulo, por fim, enfoca a questão ética. O que significa que uma inteligência artificial pode escolher de forma autônoma? Quais riscos isso envolve? O que queremos que essas máquinas façam e o que não queremos? Estou ciente de que este texto, mais que oferecer respostas, abre questões e debates; mas esta é a condição em que nos encontramos agora.

As inteligências artificiais, com todo seu potencial e sua capacidade transformadora, podem mudar radicalmente o mundo que conhecemos. De maneira provocativa, poderíamos dizer que hoje, pela primeira vez em nossa história, é a máquina que nos questiona. Cabe a nós, como humanidade, encontrar as respostas, sabendo que apenas se soubermos incluir as humanidades na criação dessas ferramentas poderemos esperar não produzir, num futuro mais ou menos próximo, sociedades desumanas.

Edição 145, Fevereiro 2019

Achille Mbembe

OS AFRICANOS DEVEM LIVRAR-SE DO DESEJO DA EUROPA

De todos os grandes desafios que a África enfrenta nesse início de século, nenhum é tão urgente e tão cheio de consequências quanto a mobilidade de sua população. Em grande medida, o seu futuro imediato dependerá da sua capacidade de garantir que as pessoas possam se deslocar pelo continente tão frequentemente quanto possível, o mais longe possível, o mais rápido possível e, de preferência, sem nenhum entrave”. A reflexão é de Achille Mbembe, em artigo publicado por Le Monde, 10-02-2019. A tradução é de André Langer. Achille Mbembe é autor do livro A Crítica da Razão Negra, e co-autor, juntamente com Felwine Sarr, de Écrire l’Afrique-Monde.

De todos os grandes desafios que a África enfrenta nesse início de século, nenhum é tão urgente e tão cheio de consequências quanto a mobilidade de sua população. Em grande medida, o seu futuro imediato dependerá da sua capacidade de garantir que as pessoas possam se deslocar pelo continente tão frequentemente quanto possível, o mais longe possível, o mais rápido possível e, de preferência, sem nenhum entrave. Além disso, tudo aí se desenvolve: tanto o crescimento da população, a intensificação da depredação econômica, quanto as dinâmicas da mudança climática.

Além disso, as grandes lutas sociais na África neste século se concentrarão tanto na transformação dos sistemas políticos, na extração dos recursos naturais e na distribuição da riqueza quanto no direito à mobilidade. Não há nada na criação digital que não se articulará aos processos de circulação. A revolução da mobilidade provocará profundas tensões e terá um peso nos equilíbrios futuros do continente, bem como sobre os de outras regiões do mundo, como já atestou a chamada crise migratória. E nós somos convidados a refletir sobre essas mudanças.

Para entender as implicações, ainda temos que dar as costas aos discursos neomaltusianos, muitas vezes alimentados com fantasmagorias racistas e que continuam a se espalhar.

Violência nas fronteiras

A “corrida para a Europa” é, a este respeito, um grande mito. O fato de que um habitante do planeta em quatro seja africano não representa nenhum perigo para ninguém. Afinal, atualmente, dos 420 milhões de habitantes da Europa Ocidental, apenas 1% é composto por africanos subsaarianos. Dos quase 1,3 bilhão de africanos, apenas 29,3 milhões vivem no exterior. Destes 29,3 milhões, 70% não tomaram o caminho da Europa ou de qualquer outra região do mundo. Eles se estabeleceram em outros países da África.

Na realidade, além de ser relativamente pouco povoada em vista de seus 30 milhões de quilômetros quadrados, a África emigra pouco. Em comparação com outros conjuntos continentais, a circulação de bens e de pessoas sofre muitos obstáculos, e é para desmantelar esses obstáculos que os tempos clamam.

Entretanto, é verdade que o custo humano das políticas europeias de controle das fronteiras continua a crescer, acentuando de passagem os riscos em que incorrem os eventuais migrantes. São incontáveis os migrantes que morrem durante a travessia. Cada semana traz a sua cota de histórias, umas mais escabrosas que as outras. Trata-se muitas vezes de histórias de homens, de mulheres e de crianças afogados, desidratados, intoxicados ou asfixiados nas costas do Mediterrâneo, do Mar Egeu, do Atlântico ou, cada vez mais, no deserto do Saara.

A violência nas fronteiras e pelas fronteiras tornou-se uma das características marcantes da situação contemporânea. Pouco a pouco, a luta contra as chamadas migrações ilegais assume a forma de uma guerra social agora travada em escala planetária. Dirigida mais contra as classes de populações do que contra indivíduos em particular, ela combina agora técnicas militares, policiais e de segurança e técnicas burocrático-administrativas, liberando fluxos de uma violência fria e, de vez em quando, não menos sangrenta.

Basta observar, a esse respeito, o vasto mecanismo administrativo que permite a cada ano mergulhar na ilegalidade milhares de pessoas legalmente estabelecidas, a cadeia de expulsões e deportações em condições realmente de tirar o fôlego, a abolição gradual do direito de asilo e a criminalização da hospitalidade.

O que dizer, além disso, da implantação de tecnologias coloniais para a regulação dos movimentos migratórios na era eletrônica, com seu cortejo de violências cotidiana, a exemplo dos intermináveis controles faciais, das incessantes caçadas de migrantes indocumentados, das muitas humilhações nos centros de detenção, dos olhos desfigurados e dos corpos algemados de jovens negros que são arrastados pelos corredores das delegacias de polícia, de onde saem com um olho roxo, com um dente quebrado, com uma mandíbula quebrada, o rosto desfigurado, a multidão de migrantes aos quais arrancam as últimas roupas e os últimos cobertores em pleno inverno, que são impedidos de se sentar nos bancos públicos, na aproximação dos quais fechamos as torneiras de água potável?

Novos êxodos

No entanto, o século não será apenas o dos obstáculos à mobilidade, tendo como pano de fundo a crise ecológica e a aceleração das velocidades. Também será caracterizado por uma reconfiguração planetária do espaço, da aceleração constante do tempo e uma profunda divisão demográfica.

Com efeito, em 2050, dois continentes reunirão quase dois terços da humanidade. A África subsaariana terá 2,2 bilhões de habitantes, ou seja, 22% da população mundial. A partir de 2060, estará entre as regiões mais populosas do mundo. A mudança demográfica da humanidade em prol do mundo afro-asiático será um fato consumado. O planeta se dividirá em um mundo de pessoas idosas (Europa, Estados Unidos, Japão e partes da América Latina) e um mundo emergente, que abrigará as populações mais jovens e numerosas do planeta. O declínio demográfico da Europa e da América do Norte continuará inexoravelmente. As migrações não vão parar. Pelo contrário, a Terra está às vésperas de novos êxodos.

O envelhecimento acelerado das nações ricas do mundo é um evento de grande alcance. Será o reverso dos grandes choques causados pelos excedentes demográficos do século XIX, que levou à colonização europeia de partes inteiras da Terra. Mais do que no passado, o governo da mobilidade humana será o meio pelo qual uma nova repartição do globo será colocada em prática.

Uma linha de fratura de um novo tipo e de alcance planetário desempatará a humanidade. Ela oporá aqueles que gozarão do direito incondicional de circulação e de seu corolário, o direito à velocidade, e aqueles que, tipificados essencialmente pela raça, serão excluídos do desfrute desses privilégios. Aqueles que assumirão os meios de produção da velocidade e das tecnologias da circulação se tornarão os novos mestres do mundo. Somente esses poderão decidir quem pode circular, quem deve ser condenado à imobilidade e quem deve se deslocar apenas em condições cada vez mais draconianas.

Um enorme Bantustão

Se, nesta nova ordem global da mobilidade, a África não se encarregar do reordenamento de sua economia espacial, ela será duplamente penalizada, de dentro e de fora. Porque a Europa decidiu não apenas militarizar suas fronteiras, mas ampliá-las por toda parte. Estas não se limitam mais ao Mediterrâneo. Elas agora se situam ao longo das rotas em fuga e dos percursos sinuosos que os candidatos à migração tomam. Elas se movem conforme as trajetórias que eles seguem. Na realidade, é o corpo do africano, de cada indivíduo africano tomado individualmente, e de todos os africanos como uma classe racial, que constitui agora a fronteira da Europa.

Esse novo tipo de corpo humano não é apenas a pele do corpo e o corpo abjeto do racismo epidérmico, mas o da segregação. É também o corpo-prisão dobrado do corpo-fronteira, aquele cuja mera aparição no campo fenomenal desperta, desde o início, desconfiança, hostilidade e agressão. O imaginário georacial e geocarcerário que tinha sido aperfeiçoado, não muito tempo atrás, pela África do Sul da época do apartheid não para de se universalizar.

Mais ainda, a Europa quer se arrogar o direito de determinar unilateralmente qual africano poderá se mover e sob quais condições, inclusive dentro do próprio continente. Depois de tê-la desmembrado em 1884-1885, ela busca, no início do século XXI, transformá-la em um imenso Bantustão e acentuar sua inclusão diferencial nos circuitos da guerra e do capital, ao mesmo tempo em que intensifica sua depredação. A política europeia de luta contra a imigração visa, portanto, o advento de um novo regime de segregação global. Isto é, em muitos aspectos, o equivalente da “política racial” de ontem. A África é seu principal alvo.

O governo das mobilidades em escala global constitui, como a crise ecológica, um dos maiores desafios do século XXI. A reativação das fronteiras é uma das respostas de curto prazo ao processo de longo prazo de repovoamento do planeta. As fronteiras, no entanto, não resolvem estritamente nada. Elas apenas agravam as contradições resultantes da contração do planeta.

De fato, nosso mundo tornou-se muito pequeno. Nisso, distingue-se do mundo do período das “grandes descobertas”, do mundo colonial das explorações, das conquistas e dos assentamentos. Ele não é mais extensível ao infinito. É um mundo finito, atravessado por todos os tipos de fluxos descontrolados e até mesmo incontroláveis, dos movimentos migratórios, dos movimentos de capital ligados à financeirização extrema das nossas economias e às forças extrativas que dominam a maior parte delas, especialmente no Sul. A tudo isso se deve acrescentar os fluxos imateriais conduzidos pelo advento da razão eletrônica e digital, a aceleração das velocidades e a transformação dos regimes do tempo.

Desbalcanizar o continente

Como, nesse contexto, pensar a África que vem? Se, fugindo de seus países de origem, muitos africanos correm para lugares onde ninguém os espera ou quer, este é o caso de cidadãos de outras regiões do mundo que, por mais curioso que possa parecer, esperam reconstruir suas vidas na África. Como quem não quer nada com nada, o continente também está prestes a se tornar o centro de gravidade de um novo ciclo de migrações globais. Os chineses se estabeleceram no coração de suas principais cidades e até mesmo em suas aldeias mais remotas, enquanto colônias comerciais africanas se estabelecem em várias megacidades da Ásia.

Dubai, Hong Kong, Istambul, Guangdong e Xangai substituem os principais destinos euro-americanos. Dezenas de milhares de estudantes estão indo para a China, ao passo que Brasil, Índia, Turquia e outras potências emergentes estão batendo à porta. Uma extraordinária vernacularização das formas e estilos está em curso, e está transformando as grandes cidades africanas em capitais mundiais de uma imaginação ao mesmo tempo barroca, crioula e mestiça.

Mas para que os africanos não sejam transformados em fragmentos de um planeta dotado de torres de vigilância, a África deve tornar-se seu próprio centro, sua própria potência, um vasto espaço de circulação, um continente-mundo. Deve completar o projeto de descolonização forjando para si uma nova política africana de mobilidade.

Este não vai acontecer sem uma descolonização cultural. Os africanos devem se livrar do desejo da Europa e aprender a guardar entre si o melhor de si mesmos e da sua gente. O desejo da Europa não pode ser nem seu horizonte existencial nem a última palavra de sua condição.

Depois, a descolonização territorial. Nada, historicamente, justifica o corte do continente entre o norte e o sul do deserto do Saara. Além disso, nenhum africano ou pessoa de origem africana pode ser tratado como um estrangeiro em qualquer parte do continente africano. Desbalcanizar o continente aparece, portanto, cada vez mais, como uma das condições para proteger vidas africanas atormentadas em todo o mundo.

Para conseguir isso, é urgente repensar de alto a baixo o princípio da glaciação das fronteiras coloniais adotado pela Organização da Unidade Africana (OUA, ancestral da União Africana) em 1963. Ao consagrar sua intangibilidade, as fronteiras herdadas da colonização foram transformadas na pedra jurídica explorada pela Europa para acelerar a “bantustanização” do continente.

Barreiras a serem removidas

A descolonização dificilmente será concluída antes de todos os africanos terem o direito de circular livremente pelo continente. Um primeiro passo nessa direção seria generalizar a concessão de vistos na chegada a todo viajante portador de um passaporte africano. A longo prazo, a liberalização do direito de residência deve complementar o direito de livre circulação das pessoas.

O maior desafio que a África enfrenta não é demográfico. Não é, como na época colonial, fixar as fronteiras, restringir a passagem, forçar as populações a permanecerem imóveis e sedentárias e intensificar os laços locais. É para organizar a circulação e permitir uma intensificação da mobilidade no interior do continente.

É intensificando as mobilidades e desenvolvendo as interconexões entre os lugares que serão desmantelados os antigos esquemas espaciais e infraestruturais que remontam à época da colonização. Hoje, não se trata mais de construir a soberania estatal com base em uma clara diferença entre o interior e o exterior. Trata-se de remover os obstáculos à mobilidade abolindo a multiplicidade de postos de fronteira, removendo barreiras físicas e políticas à fluidificação dos fluxos e desburocratizando o movimento. É assim que a África ganhará em velocidade e os africanos poderão se deslocar dentro do seu continente ao menor custo.

Pepe Escobar

DESAFIO A CINCO SÉCULOS DE EUROCENTRISMO

China e Rússia vêem o Ocidente em crise civilizatória – e apostam numa saída. Implica integrar a Eurásia, lançar imensos projetos de infra-estrutura, desafiar o poder do dólar e a hegemonia militar dos EUA. 'A jornada está apenas começando; uma nova era geopolítica e econômica está próxima. E os EUA estão sendo deixados para trás na estação'. O texto é de Pepe Escobar, publicado por Consortium News e reproduzido por OutrasPalavras. A tradução é de Felipe Calabrez /IHU

A esta altura, todos deveríamos saber que o coração do Grande Jogo do século 21 é a miríade de vertentes da batalha entre os Estados Unidos e a parceria entre a Rússia e a China. Até mesmo a Estratégia Nacional de Defesa dos EUA o reconhece: “O desafio central para a prosperidade e segurança dos EUA está no ressurgimento da competição estratégica de longo prazo promovida por… poderes revisionistas.” O recente parecer sobre as implicações da expansão global da China sobre a defesa dos EUA também o diz.

O confronto moldará o surgimento de uma possível ordem mundial estratégica pós-ideológica, em meio a uma imprevisibilidade extremamente volátil, na qual a paz é guerra e um acidente pode desencadear um confronto nuclear. O cenário EUA versus Rússia e China continuará desafiando a obsessão do Ocidente em ridicularizar o “anti-liberalismo”, um exercício retórico e medonho que iguala a democracia russa ao governo de um só partido da China, à demo-teocracia iraniana e ao renascimento neo-otomano da Turquia.

É irrelevante que a economia da Rússia seja um décimo da economia chinesa. Desde o impulso ao comércio sem o uso do dólar americano até o aumento de exercícios militares conjuntos, a simbiose Rússia-China está pronta para avançar além das afinidades políticas e ideológicas. A China precisa muito de know-how russo em sua indústria militar. Pequim transformará esse conhecimento em uma abundância de inovações civis e militares de duplo uso. O longo jogo indica que a Rússia e a China irão derrubar barreiras culturais e de idioma para liderar a integração euro-asiática contra a hegemonia económica americana apoiada pelo poderio militar.

Pode-se dizer que o século euro-asiano já está diante de nós. A era do Ocidente moldando o mundo à vontade (um mero lapso de história) acabou. Isto apesar das negações e fulminações da elite ocidental contra as chamadas “forças moralmente repreensíveis”, “forças de instabilidade” e “ameaças existenciais”. A Standard Chartered, empresa britânica de serviços financeiros, usando uma combinação de taxas de câmbio, poder de compra e crescimento do PIB, projetou que as cinco principais economias em 2030 serão a China, os EUA, a Índia, o Japão e a Rússia. Serão seguidos pela Alemanha, Indonésia, Brasil, Turquia e Reino Unido. A Ásia ampliará sua classe média no exato momento em que esta está sendo destruída no Ocidente.

Embarque no Expresso Trans-Eurásia

Pode-se argumentar que as elites de Pequim estão fascinadas em como a Rússia retornou, em menos de duas décadas, ao status de semi-superpotência após a devastação dos anos de Yeltsin. Isso aconteceu em grande parte devido à ciência e tecnologia. O exemplo mais ilustrativo é o incomparável e avançado de armamento revelado pelo presidente Vladimir Putin em seu discurso de 1º de março de 2018.

Na prática, Rússia e China estarão avançando no alinhamento das Novas Rotas da Seda da China, ou a Iniciativa do Cinturão e da Estrada [Belt and Road Initiative (BRI), em inglês] com a União Econômica Rússia-Eurásia. Há um amplo potencial para que uma rede expressa Trans-Eurásia de transporte terrestre e marítimo esteja pronta e funcionando em meados da próxima década, incluindo, por exemplo, pontes rodoviárias e ferroviárias ligando a China à Rússia em todo o rio Heilongjiang.

Após importantes conversas trilaterais envolvendo Rússia, Índia e Irão em novembro passado, mais atenção está sendo dada ao Corredor Internacional de Transporte Norte-Sul (INSTC), uma pista de 7.200 km misturando rotas marítimas e ferroviárias essencialmente ligando o Oceano Índico ao Golfo Pérsico através do Irão e da Rússia, e mais adiante à Europa. Imagine que a carga transite de toda a Índia para o porto iraniano de Bandar Abbas; depois siga para Bandar Anzali, um porto iraniano no Mar Cáspio; para o porto russo de Astrakhan; e, de trem, para a Europa. Do ponto de vista de Nova Delhi, isso significa que os custos de transporte foram reduzidos em até 40%, e a rota Mumbai-Moscovo pode ser transposta em apenas 20 dias.

Abaixo da linha, o INSTC vai se fundir com o BRI — como nos corredores ligados à rota Índia-Irão-Rússia, em uma rede de transporte global liderada pela China. Isso está acontecendo exatamente quando o Japão está olhando para a Ferrovia Transiberiana — que será atualizada ao longo da próxima década — para melhorar suas conexões com a Rússia, a China e as Coreias. O Japão é hoje um dos principais investidores na Rússia e, ao mesmo tempo, muito interessado em um acordo de paz entre as Coreias. Isso libertaria Tóquio dos enormes gastos com defesa condicionados pelas regras de Washington.

Os acordos de livre comércio da União Econômica da Eurásia (EAEU) com a Associação das Nações do Sudeste Asiático (ASEAN) podem ser adicionados a isso. Especialmente nos últimos quatro anos, a Rússia também aprendeu a atrair investimentos e riqueza chineses, ciente de que o sistema de Pequim produz praticamente tudo e sabe como comercializar globalmente, enquanto Moscovo precisa combater todos os bloqueios sonhados por Washington

Os “Eixos do Mal” Huawei-Venezuela

Enquanto Washington continua sendo um prisioneiro bipartidário da caverna platônica russofóbica — onde as sombras da Guerra Fria na parede são tomadas como realidade — o slogan de Trump, MAGA (Make America Great Again) está perdendo o trem para a Eurásia. Uma hidra de muitas cabeças, a MAGA, se despojada até os ossos, poderia ser lida como um antídoto não ideológico ao aventureirismo global do Império. Trump, a seu modo não-estratégica e caótico propunha, pelo menos em teoria, o retorno a um contrato social para reerguer seu país — o que se traduziria em empregos, oportunidades para pequenas empresas, impostos baixos e não mais guerras estrangeiras.

É uma nostalgia dos anos 1950 e 60, antes do atoleiro do Vietname e antes de a produção “Made in USA” ser lenta e deliberadamente desmantelada. O que resta são dezenas de trilhões de dívidas nacionais; um quatrilhão de derivativos; o Estado Profundo correndo solto; e muito medo de russos perversos, chineses tortuosos, mulás persas, a troika da tirania, o cinturão e a estrada, a Huawei e os estrangeiros ilegais. Mais do que uma “guerra de todos contra todos” Hobbesiana, ou do que as queixas de que o “sistema baseado em regras ocidentais” está sendo atacado, o medo é, na verdade, do desafio estratégico representado pela Rússia e pela China, que buscam um retorno ao império do direito internacional.

O MAGA prosperaria se apanhasse boleia no trem de integração da Eurásia: mais empregos e mais oportunidades de negócios, em vez de mais guerras no exterior. No entanto, o MAGA não vai acontecer — em grande parte porque o que realmente faz Trump exultar é sua tentativa de dominar as fontes de energia, para interferir decisivamente na Rússia e no desenvolvimento da China.

O Pentágono e a comunidade das agências de espionagem [Intel Community] levaram o governo Trump a perseguir a Huawei, tratada como um ninho de espiões, enquanto pressionava os aliados-chave (Alemanha, Japão e Itália) a fazer o mesmo. A Alemanha e o Japão permitem que os EUA controlem os nós principais nas extremidades da Eurásia. A Itália é essencialmente uma grande base da OTAN.

O Departamento de Justiça norte-americano requereu a extradição da executiva financeira-chefe da Huawei, Meng Wanzhou, do Canadá na última terça-feira, acrescentando um ponto à tática geopolítica do governo Trump. Acrescente-se a isso que a Huawei — baseada em Shenzhen e de propriedade de seus trabalhadores — está matando a Apple em toda a Ásia e na maioria das latitudes em todo o Sul Global. A batalha real está em torno da tecnologia 5G, na qual a China pretende superar os EUA, enquanto melhora a capacidade e a qualidade da produção.

A economia digital na China já é maior do que o PIB da França ou do Reino Unido. É baseado nas empresas BATX (Baidu, Alibaba, Tencent, Xiaomi); na Didi (a Uber chinesa); na gigante de e-commerce JD.com e na Huawei. Essas Big Seven são um estado dentro de uma civilização — um ecossistema que eles mesmos construíram, investindo fortunas em big data, inteligência artificial (IA) e internet. Os gigantes norte-americanos — Facebook, Instagram, Twitter e Google — estão ausentes deste enorme mercado.

Além disso, o sofisticado sistema de criptografia da Huawei em equipamentos de telecomunicações impede a interceptação pela NSA. Isso ajuda a explicar sua extrema popularidade em todo o Sul Global, em contraste com a rede de espionagem eletrônica Five Eyes (EUA, Reino Unido, Canadá, Austrália, Nova Zelândia). A guerra econômica contra a Huawei também está diretamente ligada à expansão do BRI em 70 países asiáticos, europeus e africanos, constituindo uma rede de comércio, investimento e infra-estrutura à escala da Eurásia, capaz de virar as relações geopolíticas e geoeconômicas, como as conhecemos, de cabeça para baixo.

A Grande Eurásia acena

O que quer que a China faça não alterará a obsessão do Estado Profundo norte-americano por “uma agressão contra nossos interesses vitais”, como afirma a Estratégia Nacional de Defesa. A narrativa dominante do Pentágono nos próximos anos será sobre a China “pretendendo impor, no curto prazo, sua hegemonia na região do Indo-Pacífico, e pegar os Estados Unidos de surpresa para alcançar a futura preeminência global”. Isso mistura-se com a crença de que a Rússia quer “esmagar a OTAN” e “sabotar o processo democrático na Crimeia e no leste da Ucrânia”.

Durante minhas viagens recentes pela parte norte do Corredor Econômico China-Paquistão (CECP), vi mais uma vez como a China está modernizando rodovias, construindo barragens, ferrovias e pontes que são úteis não apenas para sua própria expansão econômica, mas também para o desenvolvimento de seus vizinhos. Compare-o com as guerras dos EUA — como no Iraque e na Líbia — onde as barragens, ferrovias e pontes são destruídas.

A diplomacia russa está vencendo a Nova Guerra Fria — como diagnosticado pelo professor Stephen Cohen em seu último livro, War with Russia: From Putin and Ukraine to Trump e Russiagate. Moscovo mistura graves advertências com diversas estratégias, como ressuscitar o gasoduto South Stream para abastecer a Europa como uma extensão do Turk Stream, depois que o governo Trump também se opôs furiosamente ao gasoduto Nord Stream 2 com sanções à Rússia. Enquanto isso, Moscovo eleva as exportações de energia para a China.

O avanço da Iniciativa Belt and Road está ligado às exportações russas de segurança e energia, incluindo a Rota do Mar do Norte, como um futuro corredor de transporte alternativo para a Ásia Central. A Rússia surge, então, como a principal garantia de segurança para o comércio e a integração econômica da Eurásia. No mês passado, em Moscovo, discuti a Grande Eurásia — agora estabelecida como o conceito dominante da política externa russa — com os principais analistas russos. Eles me disseram que Putin está a bordo. Ele se referiu à Eurásia recentemente como “não um tabuleiro de xadrez ou um playground geopolítico, mas nosso lar pacífico e próspero”.

Não é preciso dizer que os think tanks dos EUA descartam a ideia como “natimorta”. Eles ignoram o Prof. Sergey Karaganov, que já em meados de 2017 argumentava que a Grande Eurásia poderia servir de plataforma para “um diálogo trilateral sobre problemas globais e estabilidade estratégica internacional entre a Rússia, os Estados Unidos e a China”. Por mais que Washington possa recusar, “o centro de gravidade do comércio global está agora mudando dos altos mares para o vasto interior continental da Eurásia”.

Pequim corta as asas do dólar

Pequim está percebendo que não pode cumprir suas metas geoeconômicas em energia, segurança e comércio sem passar por cima do dólar americano. De acordo com o FMI, 62% das reservas globais dos bancos centrais ainda eram mantidas em dólares americanos no segundo trimestre de 2018. Cerca de 43% das transações internacionais no sistema SWIFT ainda estão em dólares americanos. Mesmo que a China, em 2018, tenha sido o maior contribuinte para o crescimento do PIB global, com 27,2%, o yuan representa apenas 1% dos pagamentos internacionais e 1,8% de todos os ativos de reserva detidos pelos bancos centrais.

Leva tempo, mas a mudança está a caminho. A rede de pagamentos transfronteiriça da China para transações com o yuan foi lançada há menos de quatro anos. A integração entre o sistema de pagamento russo (Mir) e o chinês (Union Pay) parece inevitável.

Em 1972, Kissinger foi o mentor — com a ajuda logística do Paquistão — do momento de Nixon na China. Esse foi clássico “Divide and Rule”, separando a China da URSS. Dois anos atrás, antes da posse de Trump, o conselho do Dr. K, oferecido nas reuniões da Trump Tower, consistiu em uma “Divide and Rule” modificada: seduzir a Rússia, para conter a China.

A doutrina de Kissinger estabelece que, geopoliticamente, os EUA são apenas “uma ilha às margens da grande massa de terra da Eurásia”. A dominação, “por uma única potência de qualquer uma das duas principais esferas da Eurásia — a Europa ou a Ásia — continua sendo uma boa definição de perigo estratégico para os Estados Unidos, “com ou sem Guerra Fria”, como disse Kissinger. “Pois tal arranjo teria a capacidade de ultrapassar os EUA economicamente e, ao fim, militarmente.”

A doutrina Zbig seguiu linhas similares. Os objetivos eram evitar conflitos e manter a segurança entre os vassalos da União Europeia-OTAN. Mantenha os vassalos curvados; impeça que os bárbaros (ou seja, os russos e aliados) se unam; acima de tudo, impeça o surgimento de uma coalizão hostil (como a atual aliança Rússia-China), capaz de desafiar a hegemonia dos EUA; e submeta a Alemanha, a Rússia, o Japão, o Irã e a China a um permanente “Divida e Reine”.

Daí a preocupação da atual Estratégia de Segurança Nacional, prevendo que a China, desalojando os Estados Unidos, “alcançaria a preeminência global no futuro”, através do alcance supra-continental da BRI. A “política” para neutralizar tais “ameaças” são sanções, sanções e mais sanções unilaterais, juntamente com uma inflação de noções absurdas espalhadas por Washington — como a de que a Rússia está auxiliando e instigando a reconquista do mundo árabe pela Pérsia, bem como a de que Pequim vai abandonar o plano do “tigre de papel”, o “Made in China 2025”, para obter papel de destaque na produção global em alta tecnologia, apenas porque Trump a detesta.

Muito de vez em quando, um relatório dos EUA realmente acerta, como quando se refere a Pequim acelerando uma série de projetos da BRI; como uma tática Sun Tzu modificada, implantada pelo Presidente Xi Jinping.

No Diálogo Shangri-La de junho de 2016, em Cingapura, o professor Xiang Lanxin, diretor do centro de Estudos One Belt and One Road, do Instituto Nacional da China para Intercâmbio e Cooperação Judicial da SCO, definiu o BRI como um caminho para um mundo “pós-Westfaliano”. A jornada está apenas começando; uma nova era geopolítica e econômica está próxima. E os EUA estão sendo deixados para trás na estação.

José Natanson, director de Le Monde Diplomatique

IDEIAS PARA FREAR O POPULISMO DE DIREITA

Após várias décadas funcionando razoavelmente bem, os sistemas políticos do primeiro mundo rangem, desafiados pelo descontentamento de crescentes setores sociais, o desamor institucional e a emergência de líderes de duvidosa vocação democrática. Com seus acertos e seus pontos cegos, os livros de Mouffe e Levitsky - Ziblatt constituem as primeiras tentativas de oferecer um diagnóstico articulado e uma possível resposta a um problema que, como demonstrou a recente eleição de Jair Bolsonaro no Brasil, também persegue a América Latina”, escreve José Natanson, director do jornal Le Monde Diplomatique, Edição Cone Sul, em artigo publicado por Página/12. Tradução do Cepat /IHU

Dois livros abordam a ascensão do populismo de direita como sinal de mal-estar democrático. Ainda que focados no primeiro mundo, iluminam problemas que também são verificados na América Latina e exploram possíveis respostas.

Em Por un populismo de izquierda (Siglo XXI), a cientista política belga Chantal Mouffe propõe uma saída progressista à crise hegemônica que os países da Europa Ocidental atravessam. Companheira intelectual e de vida de Ernesto Laclau, Mouffe sustenta que a aceitação acrítica da globalização neoliberal por parte das socialdemocracias europeias inaugurou uma era de “pós-política”, caracterizada pelo esvaziamento da soberania popular e a limitação do papel das instituições que, como os parlamentos, deveriam ser as depositárias últimos do mandato social. Mouffe pensa na Europa da Troika: não importa em quem – nem no que – se vote, a política econômica é a mesma porque a autoridade real reside em Bruxelas e Frankfurt.

A consequência deste “consenso centrista” é a insatisfação política verificada no aumento do abstencionismo e na emergência dos populismos de direita que vêm prosperando em quase todos os países da Europa (a Frente Nacional, na França, o Partido pela Independência, na Grã-Bretanha, Vox, na Espanha, Alternativa para a Alemanha, etc.), que provavelmente arrasem nas euro-eleições deste ano.

Ao populismo de direita só cabe lhe opor um de esquerda, essa é a tese central do livro de Mouffe. Para isso, recorre à definição clássica de Laclau, que concebia o populismo como uma “estratégia discursiva” de construção de uma fronteira política que divide a sociedade em dois campos enfrentados e convoca “os de baixo” contra “os que possuem o poder”. Nesta perspectiva, o populismo não configura um tipo de regime específico, nem uma ideologia determinada (pode ser de direita, por exemplo, contra os estrangeiros, ou de esquerda, contra a oligarquia); é simplesmente uma forma de acumular poder, um modo de construção política. Mediante a articulação de uma “cadeia de equivalências” que conecta diferentes demandas insatisfeitas, o populismo de esquerda é o único caminho para desmontar a formação hegemônica neoliberal, ampliar a democracia e frear o populismo de direita.

Teoricamente irrepreensível, o pensamento de Mouffe começa a emitir chiados conforme se aproxima da realidade. Acontece que todos os exemplos de populismo de esquerda que oferece se encontram muito distantes, longe ou um pouco mais perto do governo, mas nunca no poder: Jean-Luc Mélenchon, na França, Die Linkie, na Alemanha, o Trabalhismo de Jeremy Corbyn, na Grã-Bretanha, e Podemos, na Espanha. A única proposta destas características que chegou ao governo é o Syriza, ainda que a autora se encarregue de esclarecer que, uma vez nele, Alexis Tsipras se viu obrigado a aplicar, sob a visão austera da Troika, um programa econômico oposto ao prometido na campanha.

Em rigor, a região onde o populismo de esquerda realmente fincou o pé foi na América Latina. Mouffe sabe disto, mas esclarece que prefere limitar sua análise aos países da Europa Ocidental porque são os que melhor conhece. E aqui aparece outro problema. Diferente de Laclau, que se colocava entre negador e displicente em relação ao tema, Mouffe insiste, mais de uma vez, em que sua proposta não implica uma rejeição à democracia liberal, nem à anulação daqueles fatores que a animam (menciona o Estado de direito, a divisão de poderes, as liberdades individuais e o multipartidarismo).

No entanto, se algo demonstra a recente experiência latino-americana é que a democracia liberal e o populismo convivem mal. O caso da Venezuela, onde os aspectos que Mouffe menciona se encontram ameaçados, corroídos ou diretamente anulados, é ilustrativo. E se na Venezuela a divisão de poderes desapareceu, as liberdades individuais estão lesadas e as eleições questionadas, na Bolívia, Evo Morales optou por ignorar o mandato popular que rejeitou, em um plebiscito convocado pelo mesmo, a possibilidade de que almeje um novo período de governo. Líder de uma gestão socialmente inclusiva, economicamente sensata e absolutamente transparente, Evo decidiu, no entanto, seguir um caminho oposto ao de Hugo Chávez, que quando perdeu o primeiro referendo por sua reeleição optou por convocar outro, e preferiu forçar uma sentença do Tribunal Constitucional que o habilite a disputar novamente a Presidência, o que demonstra que, às vezes, os populismos não só colocam em risco o lado liberal da democracia, mas também o princípio de soberania popular.

Do outro lado do Atlântico, os cientistas políticos de Harvard, Steven Levitsky e Daniel Ziblatt, oferecem um diagnóstico diferente para a mesma preocupação em seu novo livro Cómo mueren las democracias (Ariel). Nele advertem sobre a ascensão de líderes populistas, tanto de direita como de esquerda, definidos como aqueles que tratam os opositores como inimigos, intimidam a imprensa, ameaçam impugnar os resultados eleitorais que não os satisfaçam, manipulam a justiça e usam a seu favor os organismos de inteligência. A bolsa comparativa é tão grande que, mesmo que o eixo seja o horror que o triunfo de Trump lhes causa, não hesitam em meter nela Hugo Chávez e Viktor Orbán, Vladimir Putin e Rodrigo Duterte, Daniel Ortega e Recep Erdogan.

A tese central é que no século XXI as democracias não morrem de um único disparo letal, mas, ao contrário, vão sangrando lentamente. Longe do modelo de tomada de poder por parte dos militares ou dos revolucionários, próprio do século passado, que permitia estabelecer um corte nítido, quase diríamos fechar o momento no que o Chile de Allende ou a Argentina de Isabel Perón deixou de ser uma democracia, hoje, não existe um único momento no qual um regime cruza essa linha candente: muitas vezes, a democracia começa a morrer sem que ninguém se dê conta, quando um demagogo irresponsável é eleito presidente ou primeiro-ministro, e depois empreende a tarefa de minar por dentro os mecanismos que garantem a democraticidade da democracia.

Este enfoque, útil para descrever os mecanismos silenciosos que vão retirando progressivamente o sentido de um regime democrático, deixa abertos dois problemas: o primeiro é que não identifica de maneira clara a fronteira que separa uma democracia de uma não-democracia para além do nome com o qual se designa este outro tipo de regime (“autoritarismo”, “autoritarismo competitivo”, “democradura”, “democracia-i-liberal” ou o que seja), o que é compreensível do ponto de vista acadêmico, mas bastante inconclusivo do ponto de vista político.

Além disso, Levitsky e Ziblatt apenas se referem à origem das derivas populistas que tanto os escandalizam. Ao centrar sua análise no processo de deterioração democrática e nas estratégias para evitá-lo, perdem de vista as condições que o iniciaram, o que Mouffe define como o “núcleo democrático” de demandas insatisfeitas. Não explicam a razão pela qual os rednecks norte-americanos ou os agricultores franceses abandonaram o Partido Democrata ou o Partido Socialista para se inclinar por Trump e Le Pen. Como o macrismo com a insegurança, miram as consequências, mas não as causas.

Os dois livros coincidem em que a crise de 2008 marcou um ponto de inflexão, o momento em que as democracias ocidentais ingressaram em uma nova etapa, e concebem diferentes respostas.

Mouffe argumenta que o caminho para enfrentar o populismo de direita não é desqualificar seus partidos e líderes, nem muito menos seus eleitores. Fazer isto significa ignorar a responsabilidade das forças progressistas, em particular as social-democratas, em seu crescimento, e também significa desconhecer a força democrática das demandas sociais que estão na origem destas novas formações. Para a autora, excluir os extremistas, isolá-los rigorosamente dos “bons democratas”, por exemplo através de alianças bipartidárias salvadoras da democracia, pode ser moralmente reconfortante, mas não leva a lugar algum.

Por isso, como destacamos, propõe um populismo de esquerda, um movimento que reconheça o caráter democrático das reivindicações, que as articule e as transforme em uma força de orientação progressista, ainda que não esclareça como proceder quando a demanda consiste em mover os mexicanos para o outro lado da fronteira, proibir os árabes de utilizar os serviços educacionais e de saúde ou endurecer as penas para os delinquentes. Frente a isso, Mouffe simplesmente sustenta que “um enfoque populista de esquerda deveria proporcionar um vocabulário diferente para orientar essas demandas a objetivos mais igualitários”.

A resposta de Levitsky e Ziblatt é a oposta: ao invés de aguçar a oposição, moderá-la; em vez de enfrentar o populismo de direita com um de esquerda, bloqueá-lo. Mais que abrir a democracia, fechá-la. Utopistas do centro sustentam que a tarefa não passa por impedir o surgimento de líderes populistas, o que é impossível, mas por utilizar todos os mecanismos institucionais e partidários a disposição para freá-los. A classe política, e em especial os partidos, é a encarregada de deter os demagogos, mantendo-os distantes dos postos de poder, rejeitando-os como parceiros e, sendo o caso, unindo-se, para além das ideologias, para derrotá-los, como de fato aconteceu na França em duas ocasiões: em 2002, quando os socialistas de Lionel Jospin aceitaram votar, “com o nariz tapado”, no gaullista Jacques Chirac para evitar o triunfo de Jean-Marie Le Pen, e em 2015, com a vitória de Emmanuel Macron contra Marine Le Pen. Uma solução elitista para os problemas da democracia.

É claro, os autores não esclarecem o que acontece se após neutralizar um demagogo, surge outro, e depois outro, nem tampouco o que fazer quando o tiro sai pela culatra, apesar de que a experiência recente seja, neste aspecto, bastante ilustrativa: na disputa interna democrata de 2016, a cúpula partidária fechou fileiras por trás da candidatura de Hillary Clinton, com o apoio de Wall Street, recorreu a todos os meios a seu alcance para evitar um triunfo de Bernie Sanders, considerado muito radical. O resultado foi a derrota da desalmada e extremamente sistêmica candidatura de Clinton para Trump.

Resumamos. Após várias décadas funcionando razoavelmente bem, os sistemas políticos do primeiro mundo rangem, desafiados pelo descontentamento de crescentes setores sociais, o desamor institucional e a emergência de líderes de duvidosa vocação democrática. Com seus acertos e seus pontos cegos, os livros de Mouffe e Levitsky - Ziblatt constituem as primeiras tentativas de oferecer um diagnóstico articulado e uma possível resposta a um problema que, como demonstrou a recente eleição de Jair Bolsonaro no Brasil, também persegue a América Latina.

Arsénio F Pina*

ACHADOS INTERESSANTES ANIMADORES (1)

Quem tem o hábito da leitura descobre factos interessantes, ao contrário dos que se limitam às imagens vídeo, televisivas, mais vezes de propaganda e de venda de banha de cobra, da net com as suas chamadas fake news (notícias falsas) e de outras da nossa era da imagem, a que me referi em artigo recente. A vantagem maior da leitura é ver-se o que nos interessa, à nossa escolha, não imposta como acontece com as referidas acima que nos entram em casa sem serem pedidas e se impõem. Como tenho o hábito de sublinhar o que leio de algum interesse particular e até anoto à margem das páginas comentários e sinalizo o número das páginas de mais interesse na última folha do livro, torna-se fácil voltar ao que assinalei quando necessitar.

Já vos falei na avis rara do jornalismo, Gérard Haddad, colaborador da revista La Revue, do grupo Jeune Afrique. Engenheiro agrónomo que calcorreou a África Subsaariana, depois se apaixonou pela Psicanálise e finalmente se formou em Medicina. Não ficou por aí; virou jornalista, escritor de ensaios, apaixonado e crítico de pintura e música. Enfim, um bodona da Ciência e das Letras que nos fascina com a sua prosa rigorosa e original. Brevemente será publicado novo livro dele, intitulado “Ismael & Isaac ou la possibilite de la paix”, onde defende uma tese original, de cujo extracto, encontrado no último número de La Revue, me vou servir, por nos fornecer informações que nos animam a admitir a possibilidade de entendimento entre árabes e judeus. Acrescentarei algo para caracterizar a situação actual complicada pela parceria Trump/ Netanyahou.

Se se disser que o Islão salvou o Judaísmo, evitando que desaparecesse para sempre, ninguém irá acreditar. Todavia, como escrevi num artigo a ser incluído num dos meus próximos livros, “após a acção devastadora do exército romano na Palestina, o Judaísmo só persiste na diáspora, mas sem templo, nem sacrifícios de animais, apenas com a sinagoga e a Torah (Lei)”. […} “Foi Pedro, Paulo e Tiago que quiseram transformar Jesus de Nazaré, filho de Maria, em Messias (sinónimo de Cristo), que, segundo a profecia dos profetas bíblicos morreria para resgatar os pecados dos homens, ressuscitaria para, com todo o seu poder, fazer justiça num tempo que estava próximo. Afinal, quem realmente regressou foi o poder imperial romano, o seu poderoso exército, que tudo arrasou, eliminando os que contestavam o seu poder, sem poupar o Templo de Jerusalém, não tendo ficado pedra sobre pedra”.

Por volta do século VI, portanto, antes do aparecimento do profeta Maomé e do Islão, devido a essa destruição do exército romano na Palestina, o Judaísmo esteve quase a desaparecer, tamanha a sanha romana em extinguir tudo quanto pudesse concorrer com a sua nova religião oficial, o Cristianismo. Os judeus deixaram de ter quaisquer direitos e a prática da sua religião foi-lhes proibida. Muitos foram, para sobreviver, forçados a converter-se ao cristianismo, permanecendo sem nenhum direito cívico e à margem da sociedade. A pouco-e-pouco, dispersos pelo mundo, perderam o domínio das suas línguas, o hebraico e o aramaico, que funcionavam como cimento das suas comunidades, em benefício do grego, latim e árabe.

Felizmente, havia uma comunidade judaica nas redondezas de Bagdade, dependendo, na altura, do Império Persa, que ficava fora da alçada do Império Romano. Foi aí onde germinou a mais monumental produção escrita judaica, o texto cuja sacralidade alguns consideram superior à da Bíblia, o Talmud. Os judeus que viviam sob o domínio romano desconheciam completamente esse facto, até porque havia guerra brava entre Bizâncio e a Pérsia, o que condenava qualquer tipo de aproximação, considerada traição, entre Bizâncio e Babilónia. Enquanto se ia extinguindo o judaísmo nas regiões dominadas pelos romanos e cristãos, floresciam, nas regiões babilónicas, comunidades judaicas dispersas em seitas isoladas.

O aparecimento do Islão funcionou como uma baforada de ar fresco estimulante para as comunidades judias. A conquista, pelos exércitos árabes, da maior parte das regiões onde viviam judeus, levou estes a juntarem-se a eles nessa conquista, particularmente na conquista do Sul da Península Ibérica e da França. Com estas conquistas, do Norte d´África e Médio Oriente, estabeleceram-se contactos entre o Médio Oriente e a Espanha, passando pelo norte d´África. O Talmud passou, assim, a ser conhecido por todas as comunidades judias localizadas nas regiões dominadas pelos exércitos árabes, o que permitiu, paulatinamente, que a situação dos judeus fosse melhorando em todos os aspectos: religioso, demográfico, social, jurídico, económico, linguístico. Embora considerados cidadãos de segunda ordem pelos árabes, isso já era uma grande vitória, dado que antes não gozavam de nenhum direito e eram perseguidos no Império Bizantino. Segundo o ensino corânico, as pessoas do Livro, cristãos e judeus, deviam ser protegidos, tanto pessoalmente como dos seus bens, isso antes da prática da Charia e do predomínio do extremismo islâmico.

O Islão construiu uma civilização na qual participaram os judeus, desenvolvendo uma cultura completamente nova, tanto sob o ponto de vista religioso como poético e filosófico. Em Málaga, por exemplo, o seu sultão nomeou o rabino e poeta Samuel Há-Naguib, vizir (oficial superior) e chefe do estado-maior das suas forças armadas.

ACHADOS INTERESSANTES ANIMADORES (2)

No século X, os judeus, sentindo-se bem entre os árabes (de resto, são ambos povos semíticos), adoptaram a língua árabe, que escreviam em caracteres hebraicos, o que levou o rabino e filósofo Saadia Gaon (882-942) a traduzir a Bíblia em árabe. Simultaneamente com a adopção do árabe, assiste-se ao ressurgimento da língua hebraica, utilizada em obras literárias.

Ora bem. Com esse passado de bom entendimento entre árabes e judeus, como explicar a animosidade e o terrorismo dos nossos dias? Tento explicar isso no artigo anterior “Do Islamismo político- terrorista”, mas irei avançar um pouco mais com elementos que ajudam a entender esse imbróglio.

Além das consequências da dominação de toda a região do Médio Oriente pelos ingleses, que descrevi num artigo anterior, criaram-se ressentimentos e humilhação nos árabes, sentimentos que geraram vingança estimulada pela famigerada Charia.

A situação complicou-se ainda mais depois da Segunda Guerra Mundial, em 1948, quando as Nações Unidas decidiram criar o Estado de Israel no território da Palestina, decisão que também contemplava os palestinianos com a formação do Estado de Palestina, que estes recusaram, achando que a Palestina lhes pertencia por inteiro, convencendo-se de que, com a sua Organização de Libertação da Palestina (OLP) dirigida por Arafate, seriam capazes, com a ajuda dos países árabes vizinhos, de lançar os judeus ao mar. Decisão fatal, porque equivocada, por não terem contado com a têmpera dos judeus e o apoio que tinham do Ocidente, mormente dos Estados Unidos, influenciados pelo poderoso lobby judaico americano. Por fim, após inúmeras derrotas e desilusões, a OLP convenceu-se da impossibilidade de liquidar Israel e decidiu reconhecer a existência de Israel, desde que este também reconhecesse o direito da criação do Estado da Palestina respeitando a fronteira de antes das hostilidades. As negociações começaram, com o patrocínio dos Estados Unidos e a boa vontade do Primeiro-Ministro de Israel, Rabin, e tudo levava a crer que iriam ultrapassar as dificuldades, quando um extremista judeu assassinou o Premier Rabin. Infelizmente, os governantes que se seguiram a Rabin não estavam interessados na criação do Estado da Palestina e foram bloqueando as negociações e agravando a situação com a construção de colonatos judeus em território palestiniano. As deliberações da Assembleia geral das Nações Unidas favoráveis à constituição do Estado da Palestina e suspensão de construção de colonatos nunca tiveram o apoio do Conselho de Segurança nas Nações Unidas devido ao veto sistemático dos Estados Unidos. O único presidente que não utilizou o veto foi Obama, mas já no fim do seu mandato, sem consequências de maior, por o seu substituto, Donald Trump, ter recomeçado a utilizar o veto; na opinião do ex-presidente do parlamento israelita, participante na negociação em Geneve para o reconhecimento do Estado da Palestina, jornalista, recentemente falecido, Uri Avnery, Trump mais parece ser vassalo de Netanyahou (Bibi, como hipocorístico), influenciado pelos evangelistas e um sector dos judeus do Partido Republicano Americano. No plano religioso, a grande maioria dos judeus pertence ao judaísmo liberal, que o rabinato israelita odeia. O sector republicano dos judeus americanos que ajudou Trump nas eleições, é encabeçado pelo multimilionário Sheldon Adelson, a quem Trump não recusa nada. O governo de Israel conta ainda com amigos de Hollywood. Este grupo criou uma nova tendência do sionismo, o Trump-Sionismo que faz estremecer nas sepulturas os profetas bíblicos.

Para complicar ainda mais a situação, Bibi fez aprovar no Parlamento um novo conceito de Estado-nação que só considera cidadãos israelitas com todos os direitos os judeus, e o amigo Trump transferiu para Jerusalém a embaixada americana em Israel. Bibi e Trump devem desconhecer que não foi de Meca, mas de uma colina de Jerusalém, que Maomé subiu ao Céu na sua égua alada. Desde 3.000 anos, Jerusalém foi sendo, sucessivamente, egípcia, hebraica, assíria, babilónica, persa, grega, judia, romana, persa, bizantina, árabe, romana e inglesa. Os israelitas são, simplesmente, os novos locatários; futuramente, terão de partilhar a cidade com os palestinianos, como capital dos dois países e viverem em paz como primos que são.

Mas há mais apoiantes de Netanyahou, os evangelistas americanos, pentecostistas, baptistas de todos os tipos, muito mais numerosos do que os judeus, cerca de 600.000 evangelistas em todo o mundo, com um chefe evangelista, Jair Bolsonaro, que o Brasil poderá correr o risco, à semelhança dos EUA, de ter como presidente, um misógino, homófobo e anticomunista primário que promete mandar fuzilar os “petralhas” (dirigentes do PT), restabelecer a pena de morte, acabar com “essa politicagem de direitos humanos” e liberalizar o porte de arma. Está mesmo na linha de pensamento e actuação de Trump, Bibi e outros da extrema-direita europeia.

Por que será que os evangelistas apoiam Bibi? Por uma bizarria que cultivam, isto é, acreditam piamente, como bons integristas, que, no dia em que todos os judeus regressarem a Israel, Jesus descerá do Céu para o último julgamento. Bibi, por outro lado, tem muita simpatia pela extrema-direita, não obstante ela ser antissemita. Conta com ela para escorraçar os judeus da Europa, os quais irão para Israel resolver a questão demográfica, visto a população palestiniana já ter ultrapassado a israelita em Israel.

Porém, por ser uma minoria de judeus que pensam como Bibi, este ter processo judicial em curso por corrupção (ele e a família), há esperança que venha a ser condenado e apeado do posto de Primeiro-Ministro, abrindo outras perspectivas favoráveis à criação do Estado da Palestina ao lado de Israel. A situação de Donald Trump também não parece nada estável, presumindo-se a hipótese de poder vir a ser impugnado.

* Pediatra e sócio honorário da Adeco