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Como o título indica, esta Local divulga Textos integrais de Intervenções, Conferências, Grandes Entrevistas, Estudos, Dossiês, de preferência, escritos por Teólogas, Teólogos e Biblistas. Também de outras áreas, Economia, por exemplo, mas vistas à luz da Fé e da Teologia de Jesus. Venham daí os Conteúdos!

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Edição 137 Abril 2018

Entrevista com Antonio Mazzi

"Eu esvaziava o Vaticano. Levava o Papa para Assis e os cardeais para a África"

Antonio Mazzi, nasceu em Verona, 30 de novembro 1929, é padre e personalidade da TV italiana, comprometido com atividades de recuperação de dependentes químicos. Pertence aos Pobres Servos da Divina Providência – PSDP - ou Opera Don Calabria (em latim Congregatio Pauperum Servorum Divinae Providentiae). PSDP é uma instituição religiosa masculina de direito pontifício. Entrevista de Candida Morvillo, publicada por Corriere della Sera, 09-04-2018. Tradução de Luisa Rabolini /IHU.

Dom Antonio Mazzi, aos 88 anos, qual é a sua primeira lembrança?

As lágrimas que eu derramava na escola. O sofrimento insuportável porque havia perdido meu pai. Ele morreu de pneumonia em 1930, eu tinha dez meses. Minha mãe vivia de bordados, não havia nenhum dinheiro. Nunca a senti próxima: sempre foi apaixonada por ele, sempre foi mais esposa que mãe. Eu odiava o colégio de Verona, onde cresci. Dom Calabria dizia que eu era inteligente, mas maluco. Na oitava série, acabei até rodando. Eu era rebelde.

Rebelde por quê?

Porque a religião me causava e me causa incómodo: é só regras, não é fé. Hoje, eu digo que é como um casamento que se torna um dever: se não há mais amor, o que se torna? Para a sociedade, ainda é casamento, mas para você? Pergunto-me se quem manda mais é a Igreja ou o Evangelho. Papa Francisco, pobre homem, quer que o Evangelho volte a ser Evangelho, mas ele fala isso no Vaticano, que é o lugar do poder, e sabe que vai perder.

Já se encontrou com ele?

"Em uma missa. Citei para ele a parábola do bom pastor, e disse-lhe que minha situação era melhor que a dele, porque eu podia correr atrás da ovelha perdida. O seu secretário me olhou apavorado, fique com medo que me mandasse embora.

De ovelhas perdidas, o senhor encontro milhares. Exodus, a comunidade que o senhor fundou há 34 anos, tem 40 sedes. Como decidiu dedicar-se aos dependentes químicos, prostitutas e criminosos?

Eu queria um pai e, em vez disso o Pai Eterno lá de cima me fez pai dos mais necessitados aqui em baixo. Se eu tenho fé, é porque estou convencido de que Deus é o pai e isso responde a uma necessidade profunda, que é humana, não religiosa.

Em sua autobiografia, "Amori e tradimenti di um prete di strada” (Amores e traições de um padre de rua) das Edizioni San Paolo, diz que se sente, às vezes, um herege.

Mas: o que é uma heresia? Quando eu disse que o cardeal Tarcisio Bertone era de uma riqueza revoltante, escreveu-me seu advogado para me convocar, mas eu não fui. Salva-me a popularidade. Se você não for popular, recebe uma cartinha e é proibido de falar.

Heresia também é dizer sim às uniões civis?

O amor é amor. Todos nascem para amar e serem amados. Acrescento: para desejar e serem desejados.

Desejar não é pecaminoso?

O pecado fomos nós que o colocamos no meio.

O senhor também é favorável aos padres casados?

Eu não vejo por que não.

O senhor já teve uma namorada?

Já senti simpatias, mas nunca estive apaixonado. Aconteceu nas poucas vezes que eu voltava para casa. Eu tinha uma turma de vinte primos, porém, quando os via de mãos dadas com seus pais, eu sofria ainda mais.

Como se passam os seus dias?

Eu me esqueço de mim mesmo. Eu me levanto às seis e vou para a cama quando o último dos garotos parar de gritar. Eu vivo para mudar a vida das pessoas. Quero que cada um entenda que primeiro existem os outros, depois você. Só se você aceitar isso, você perceberá que existe.

Quantos jovens acompanha, aqui, em Milão?

Fixos, 25. Durante o dia, chegam outros. Não só tóxico-dependentes, mas com diversas dificuldades, com problemas que vão de drogas ao terrorismo. Um era Marco Donat Cattin, condenado e arrependido pelo assassinato, entre outros, do juiz Emilio Alessandrini. Foi ele que fundou a comunidade de Verona, encontrou a casa, convenceu os dependentes a segui-lo. Ele tinha poder sobre os garotos: conseguia que fizessem o que ele queria. A situação era difícil: quando ele ficava em Milão, havia homens escondidos que nos espionavam das árvores do parque e ele tinha sido ameaçado de morte. À noite, eu o levava de volta para a prisão em Brescia.

O que mais se lembra dele?

Ele sofria muito, a relação com seu pai Carlo, o ministro da Dc, era muito difícil. Uma noite, estávamos nós três conversando e Marco teve uma crise muito forte, ele disse: "Se meu pai tivesse sido o Dom, talvez eu não fosse assim". Naquela noite, ele vomitou. Na noite de Natal, encontrei-o na missa, ministrei-lhe a comunhão.

Ele havia se confessado?

Ele trabalhou na comunidade com tal intensidade que não havia necessidade que ele pedisse perdão. Pedir perdão é fácil, é viver o perdão que é difícil.

Em seu livro, imagina São Pedro no paraíso implorando o perdão de Judas.

A primeira coisa que Deus deveria fazer para algumas pessoas é levar ao céu Judas, para que todos tenham esperança. Na prisão, eu celebrei a missa para Toto Riina e Bernardo Provenzano. Parecia uma piada, mas era a coisa certa.

O senhor também escreveu: "Eu envio Jesus para a cruz mais vezes que Judas".

Mas isso não significa fazer pecados. Eu iria queimar o Vaticano, o esvaziaria. Se eu pudesse pegar o Papa e levá-lo para Assis, eu o faria. Gostaria de ver todos os cardeais missionários na África. O Vaticano é a repetição do templo de Jerusalém.

Por que o senhor se tornou um padre?

Eu queria estudar Letras e ir para o conservatório, mas eu precisava de dinheiro para estudar. Eu fui como ajudante na "cidade dos meninos", onde o bispo de Ferrara havia recolhido os jovens dos reformatórios. Era 1951 e aconteceu a enchente do Polesine. Recebíamos desesperados às centenas. Eu, que tinha sempre sofrido com a falta de pai, deparei-me com uma multidão de órfãos e minha cabeça mudou. Se eles tinham perdido tudo em uma noite, quem era eu para sofrer? Fui até o bispo e lhe disse: vou largar tudo e ficar com eles.

E o bispo?

O bispo respondeu: "Você? Desnorteado como você é?". Então eu disse a ele que aquelas crianças estavam me chamando de papai".

De seus dependentes químicos, quantos se salvam?

Cada vez menos. Antes, com a heroína e a cocaína, podiam se desintoxicar e aprender uma profissão, agora, com as drogas químicas, eles se queimam, perdem a cabeça. Precisamos mudar todo o sistema de acolhimento e atendimento. Muitos ajudantes vão embora porque nós semeamos, mas não colhemos. Então, se perde a motivação.

Qual foi, até agora, o seu método?

Se você oferecer uma aventura aos garotos, muda tudo. Na comunidade do Lago de Garda, estou fazendo a caravana dos burros. Os meninos saem numa carruagem puxada por burros, dão a volta no lago, param, encenam uma peça de teatro. No ano passado, organizei um revezamento de ciclismo entre os centros de toda a Itália. Quando os coloco em suas bicicletas e os envio para Santiago de Compostela, eles voltam transformados, isso ocorre menos quando vão a Lourdes ou ao Padre Pio.

Por que Compostela funciona melhor que o Padre Pio?

Porque lá há a jornada e não há necessidade de aparições de Nossa Senhora ou estigmas para acreditar. Você perde a fé se está convencido de que há algo em algum lugar, porque pode acontecer que talvez você não encontre nada. Eu agradeço a Deus, que exista ou não.

O senhor se confessa?

E ia ao cardeal Carlo Maria Martini, agora ....

Agora o senhor sacode a cabeça, por quê?

Porque a confissão não tem nada a ver com os pecados: é uma conversa que liberta. Não é um acto de humildade, mas de sinceridade. Tenho dois amigos com que me confesso, mas com Martini era outra coisa. Quando havia o terrorismo e alguém se arrependia, eles vinham trazer suas armas um pouco para ele, um pouco para mim. E às vezes chegava à noite e conversávamos, ou só ficávamos em silêncio.

O que o senhor pensa do testamento biológico?

A liberdade é algo que não me sinto em condições de julgar. Eu me pergunto: quem vem primeiro, a liberdade ou a verdade? Ou estão no mesmo nível? Estas são perguntas que você carrega consigo até morrer.

Edição 136 Março 2018

Bruno Lima Rocha
O assassinato de Marielle Franco e a opressão estruturante no Rio de Janeiro

Na noite de 14 de março de 2018, uma 4ª feira no final do verão carioca, o centro da capital fluminense foi palco de um assassinato político. Possivelmente um crime por encomenda, os assassinatos da vereadora pelo PSOL-RJ, Marielle Franco e o motorista substituto de seu gabinete, Anderson Gomes, logo ganharam difusão internacional (ver BBC). Marielle era o exemplo do engajamento político na cidade partida. Ex-aluna de Pré vestibular popular, formou-se em sociologia pela PUC do Rio e com mestrado Administração (ênfase em Administração Pública), estudando justamente a espacialização penal da pobreza favelizada no Rio de Janeiro. Negra (afrodescendente) foi mãe adolescente e se torna homoafetiva na idade adulta. Trabalhou no gabinete do deputado estadual Marcelo Freixo (PSOL-RJ) e veio a se candidatar para vereadora nas eleições municipais de 2016. Quinta mais votada da cidade, ultrapassou os 46 mil votos e ultrapassou as barreiras geográficas e culturais do município. No mandato, acompanhava a muito criticada intervenção federal, conhecedora que era da péssima experiência no Complexo da Maré, de onde provinha. Nos últimos meses antes de seu assassinato, conhecia e denunciava de perto os abusos e a violência estatal através do 41º BPM, aterrorizando a comunidade de Acari. Enfim, tinha todos os “atributos” para se tornar tanto um alvo da repressão – das milícias, da chamada ‘banda podre’ da PM – como um símbolo deste momento do país. No texto que segue este analista, mesmo que discordando de algumas crenças e práticas de sua legenda, reconhece todo o mérito tanto de Marielle como de seus companheiros de jornada. Sigamos.

Rio de Janeiro, a capital nacional da hipocrisia

Marielle foi morta ultrapassando as estatísticas. Condenava o modelo violento de apartheid étnico-social. Falava aquilo que todos sabem e ninguém diz. No Rio de Janeiro todo mundo sabe de tudo, de tudo. Não há o que revelar; a cidade e a região metropolitana conhecem o papel das milícias, a disputa pelas facções no varejo, o arranjo – fracassado - das Unidades de Polícia Pacificadora (UPPs), a evidente maior tolerância com uma facção (TCP, Terceiro Comando Puro, herdeiro do TC dos anos ’80) e menor "convivência" com o CVRL (herdeiro do Comando Vermelho, antes Falange Vermelha, originário das galerias da Ilha Grande). Todo mundo conhece os termos Arrego e Esculacho, e a "vela", consagrada no uso pelo Cabo Flávio na porta do Shopping Center Rio Sul em 1995, "porque ali era proibido roubar". Depois de mais de 30 anos, virou uma cultura; o cotidiano de violência desmedida desde o início do governo Moreira Franco (ele mesmo, em março de 1987). Se quisermos seguir nesta linha do tempo, desde a Operação Mosaico 1. Não falta investigação "jornalística", falta é meter a mão mesmo. E modificar o modelo policial, em todos os níveis.

Ou seja, estamos falando de um problema estrutural e não de troca de comandos de batalhões. Estamos afirmando que há risco de vida mesmo se a pessoa for detentora de mandato popular ou estiver sob a toga do aparelho judiciário. Não faz nenhum sentido. Porque Marielle não estava com escolta armada e andando em carro blindado? A vereadora atuava no Rio de Janeiro e denunciava a violência policial e das milícias. O Brasil não é a Escandinávia e o Rio tampouco é Estocolmo ou Oslo. Se vale a comparação, do outro lado da Baía de Guanabara, na Região Oceânica de Niterói, as mesmas estruturas denunciadas por Marielle cobraram a vida da juíza Patrícia Acioli. Era agosto de 2011, o país vivia o boom do crescimento econômico e havia uma aliança esdrúxula (estadual e nacional) bancando o esquema Cabral no Rio. Desde então o modelo ruiu e o Rio foi à falência, de novo.

É preciso respeitar o pertencimento e os vínculos de Marielle

Talvez seja emblemático reconhecer que no Rio de Janeiro, a força política que polariza eleitoralmente à esquerda é o PSOL. A cidade, “vanguarda cultural”, convive com um prefeito neopentecostal e milícias operando como Estado paralelo. Neste território a legenda de Marielle cresceu e como tal deve ser respeitada. Nestes tempos de internet “política”, ataques não faltam.

Solidariedade - a esquerda como um todo e o PSOL em particular estão sofrendo um ataque covarde onde uma leva de "fascistoides digitais" afirmando que "agora o PSOL sofre do próprio remédio ao defender bandido e os direitos humanos". Cada demência dessas é um ataque direto às mais de 6300 mortes violentas no estado do Rio em 2017 e os mais de 61.000 assassinatos do Brasil no mesmo ano.

A militante era do PSOL e cabe a esta legenda reivindicar sua companheira, assim como toda a esquerda brasileira deve ser solidária, respeitando seu pertencimento e militância. Marielle era do PSOL e não de outra sigla. Era uma militante de esquerda e como tal deve ser reivindicada. Era negra e da Maré e os mandantes de sua morte por encomenda sabiam exatamente a quem atingir. Só queria ressaltar a desconfiança para as lágrimas de crocodilo da Globo assim como dos poderes de fato da república; pior ainda é quem defende a intervenção federal no RJ como forma de solucionar "a violência no Rio". Besteira. O problema todo mundo sabe: estrutura policial corrupta, facções que mandam no sistema prisional, falta de serviços sociais nas comunidades, racismo institucional na capital e metrópole fluminense, além das milícias como um grande negócio de domínio territorial.

Marielle conhecia esta realidade, tanto como alguém que estudava os espaços como atuava neles. O Rio é a cidade das milícias e pelo visto pouco ou nada serviu a CPI que abordou este tema e foi narrada no filme Tropa de Elite 2. Ao invés de recuarem, avançaram na forma de franquia do crime. Agora disputam espaços com as facções (ADA, TCP, CVRL) do varejo do tráfico e crimes conexos como roubo de cargas. A franquia das milícias estaria em 37 bairros e 165 favelas da Região Metropolitana, espacialmente controlando área equivalente a quase um quarto da capital fluminense, com mais de dois milhões de pessoas sob seu domínio de terror! Atuam em 11 municípios, tomando como ponto de partida a Zona Oeste do Rio, atingindo a bairros inteiros, contabilizando 608 mil domicílios. Obviamente a “guerra do tráfico” não é contra estas “milícias”. Não faltam denúncias embora sejam poucos os denunciantes, e menos ainda àquelas a denunciar a partir dos espaços mais penalizados. Logo, trata-se de um bando de hipócritas! O que mudou na PM do Rio e no sistema de segurança desde a CPI das Milícias em 2008? Nada, simplesmente o quadro se agravou. Em novembro de 2010, o cerco na Vila Cruzeiro e depois no Complexo do Alemão foram vistos como “a guerra no Rio”, com emprego de tropas federais e o apoio integral das emissoras de televisão. Passados oito anos, tudo só piorou. Por quê?

Pelo que foi divulgado em diversas reportagens e links, a vereadora Marielle Franco exercia um real esforço de representar comunidades carentes sob o terror de Estado. A juventude, alvo da violência policial, constantemente recorria ao seu gabinete e mandato, para denunciar as situações cotidianas que uma metade da cidade finge não saber que a outra passa. Insisto que este é um momento grave. Mesmo quem discorde de algumas interpretações desta legenda (como é meu caso), incluindo o tema da segurança pública e a "crença nas instituições", ressalto que sua atuação é importante e corajosa. A coragem sempre cobra um preço alto, como é o caso de gerações em Acari. É a mesma comunidade das Mães de Acari. Não custa lembrar a “Chacina de Acari”, 26 de julho de 1990 - após 25 anos do crime, o mesmo prescreveu, e nenhum corpo foi encontrado. A mãe que começou o movimento foi assassinada em 1993, o ex-deputado estadual Emir Larangeira teria ordenado a execução. Ninguém preso, todas as suspeitas sobre os Cavalos Corredores. A vereadora Marielle Franco também atuava em Acari e denunciava regularmente os supostos abusos cometidos por policiais militares lotados no 41º BPM, conhecido na região como Batalhão da Morte. Ou seja, mais do mesmo no Rio.

Na tentativa de interpretar a trajetória intelectual e política de Marielle, li trechos de sua dissertação de mestrado com o título “UPP - A redução da favela a três letras: Uma análise da política de Segurança Pública do estado do Rio de Janeiro" defendida na UFF em 2014. O último parágrafo da conclusão é realmente emblemático.

"A política de Segurança Pública do Estado do Rio de Janeiro mantém as caracaterísticas de Estado Penal segundo Loic Wacquant. Os elementos centrais dessa constatação estão nas bases da ação militarizada da polícia, na repressão dos moradores, na inexistência da constituição de direitos e nas remoções para territórios periféricos da cidade (o que acontece em vários casos). Ou seja, a continuidade de uma lógica racista de ocupação dos presídios por negros e pobres, adicionada do elemento de descartar uma parte da população ao direito da cidade, continua marcando a segurança pública com o advento das UPPs. Elementos esses que são centrais para a relação entre Estado Penal e a polícia de segurança em curso no Rio de Janeiro." Enfim, a militante assassinada dominava o tema em todos os âmbitos e corajosamente aplicava seu conhecimento e capital político nesta tentativa de representação, e também por isso seu assassinato e o imediato reconhecimento provocaram tanta ira e canalhice na direita.

A internet brasileira abre os portões do inferno

Ao ler os comentários decorrentes de vídeos e postagens homenageando e reconhecendo o martírio de Marielle Franco, chego a duas conclusões. Ou estamos às vésperas do fascismo, ou tem robô demais e ciberativistas sobrando a favor do pior do país. Ou a Casa Grande entronizou no ativismo de internet ou realmente tem muita gente trabalhando - sendo remunerada pelo Brasil Paralelo e as redes pró-Bolsonaro - e a partir daí manipulando uma "audiência" que vai ao encontro tanto do conservadorismo mais arraigado (do tipo a favor do extermínio de massas e do neopentecostalismo) e de algumas bases sociais concretas. O inferno chegou à consciência do brasileiro e da brasileira média, reproduzindo o pior das práticas políticas, indo ao encontro das desilusões com a ruptura da aliança de classes do governo deposto. A coisa está feia mesma, mas não tão feia como supostamente "espelhada" nas redes sociais do Brasil.

Nas horas que se seguiram à difusão do crime contra Marielle e Anderson vimos de tudo, desde teorias absurdas, passando por desembargadora do estado do Rio caluniando-a como “representante de facção”, assim como uma responsabilização da vítima. A última manobra, por sinal, é típica do opressor, pois naturaliza a condição de domínio ao ponto de não conceber outra forma de vida que não a reprodução subordinada.

Nas 48 horas seguintes, cheguei ao seguinte constructo: “a direita vomita ao digitar”. Isto ocorre quando a estupidez serve de combustível para o ódio insano ser manipulado pelo proselitismo político da extrema direita. Eu mesmo tive em meu perfil no Facebook gente não convidada, que entrou xingando-a de "amiga de maconheiros e defensora do CV". Excluí na hora, mas depois reparei que este tipo de comunicação está endêmico nas redes sociais. O assassinato de reputações não parou por aí. Outro perfil - também supostamente feminino – entrou me ofendendo dizendo que Acari é do TCP e por isso a Marielle - suposta amiga de facção rival - foi assassinada. Pronto, já inventaram o “suspeito” ideal. Que horror.

As manobras dos media são mais sofisticadas, mas igualmente absurdas

Na sexta à tarde (13 de março de 2018) O porta-voz oficioso do governo ilegítimo, o âncora e blogueiro Reinaldo Azevedo, condenou o PSOL e as esquerdas por estarem - estarmos - tentando "politizar" os assassinatos de Marielle e Anderson, reforçando a crença de que não deveria estar ocorrendo a intervenção federal no Rio. Azevedo, assim como o comentarista de política da Globonews, Valdo Cruz, disseram nesta tarde que "apenas a intervenção federal pode conter a 'violência' no Rio". Azevedo foi além, em seu editorial radiofônico, dizendo que o PROJACSTÂO, capitaneado por Caetano Veloso, está à frente da "politização" do óbito. Ou seja, estão acusando militantes políticos - não me refiro aos artistas, globais ou não - de politizarem um assassinato que é resultado de atuação e de escolhas POLÍTICAS. Não há desculpa para isso a não ser a tentativa de "acalmar os ânimos", despolitizando algo que é estruturalmente político. O editorial do jornal O Globo de 17 de março de 2018 passa a fronteira do ridículo, afirmando “Sectarizar morte de Marielle é um desserviço”. Pelo visto o Jardim Botânico e o Cosme Velho seguem na mesma toada de tentar fazer a panela subir a pressão e aliviar a rua, quando julgarem ser conveniente. Algo me diz que dessa vez não vai dar certo. O assassinato de uma militante é um crime político! Tanto é político o ato de fiscalizar e denunciar a segurança pública voltada ao extermínio e banalização da violência, como é hipocrisia política alegar querer mexer na segurança fluminense sem alterar sua estrutura. Falácia perigosa, sinal da tensão que alerta o Jaburu e as mídias ao seu redor.

Sobre segurança pública e direitos humanos

Outra baboseira mil vezes repetida é a afirmação de que a esquerda é apenas a “inimiga das polícias”. Trata-se de uma falsa polêmica, de um absurdo completo quando a imbecilidade à direita taxa os "defensores de direitos humanos" como protetores de "bandidos". É justo o oposto. Mesmo dentre aqueles e àquelas que defendem os Direitos Humanos, há uma defesa intransigente do direito à vida. Também há uma defesa intransigente dos direitos do preso, porque do contrário, quem está no sistema prisional vira refém das facções e não terá chance alguma de reabilitação. Na esquerda da esquerda, quando há uma justa e profunda desconfiança para com o aparelho repressivo, também há uma noção realista de que o pouco patrimônio dos debaixo, assim como a vida de trabalhadoras e trabalhadores, deve ser defendido.

Não há conivência com "bandidos" e sim denúncia de quando as forças policiais se comportam como tais. Quem já enterrou amigo, vizinho, parente ou aluno (menor de idade!) em função da insegurança urbana e de atos absurdos das forças do Estado sabe o que estou afirmando. Se fosse para debater modelos de eficiência policial, se este fosse o caso da intervenção federal Rio, estaríamos - estão eles - anos luz distantes do que melhor se produziu até hoje dentre os pesquisadores brasileiros - fardados, policiais, juristas e acadêmicos - a este respeito. Se há dúvida, vejam os depoimentos e reflexões nos últimos vinte anos pronunciados por sumidades no tema como o delegado Hélio Luz e Luiz Eduardo Soares. Ambos "acreditam" no aprimoramento do sistema e têm caracterizações muito duras a este respeito.

O modelo policial é arcaico, corrupto e carcomido - o que não implica que todo policial assim se comporta - e especificamente no caso do Rio de Janeiro, já está tudo dito e nada foi feito. NADA. Eis o resultado. Falsa polêmica, grupos de extermínio, prevalência das facções no varejo do tráfico e no sistema prisional, além da existência de milícias. Se não acabar com o Arrego e o Esculacho no Rio, enquanto as comunidades não receberem todos os serviços urbanos e políticas públicas, nada muda. Nada. O resto é só hipocrisia e proselitismo fascistoide de eleitores de Bolsonaro ou defensores do indefensável governo golpista.

Apontando conclusões: o assassinato de uma militante negra e o fim das ilusões

O assassinato de Marielle Franco, vereadora e militante negra do PSOL do RJ é a ponta do novelo do show de horrores que é o Brasil, em geral, e o Rio de Janeiro em particular. Toda a pirotecnia da intervenção federal não acarreta mais "segurança" para a população, mas sim a incidência de uma força externa - o Comando Militar do Leste, CML - ampliando prerrogativas para um governo ilegítimo e sua tentação autoritária. Diante dos poderes de fato, dependendo de cada estado e capital brasileira, nada "protege" a militância, menos ainda os e as militantes afrodescendentes. Não é hora de disputar proposição e fazer mesquinharia política, mas é preciso repetir algo que companheiras e companheiros das esquerdas eleitorais insistem em não ouvir. Todas as ilusões do republicanismo não puderam evitar um golpe de Estado em 2016. Todas as ilusões reformistas e "dentro da legalidade" não vão garantir a vida de ninguém. Não dá mais para seguir reclamando que "as instituições não funcionam como deveriam". Mentira. As instituições pós-coloniais estão funcionando perfeitamente bem. Defendem a Casa Grande e usam de todos os recursos para deixar a maioria "no seu lugar". Até quando vamos repetir a mesma mentira?!

Luisiana Gaita (Itália). Luisa Rabolini traduziu (IHU /JF)

Save the Children: 357 milhões de crianças em zonas de guerra

No mundo, uma em cada seis crianças vive em áreas afetadas por conflitos, um número que cresceu 75% em relação ao início dos anos 1990. A Síria é o país onde as consequências da guerra são as mais graves para as crianças. Enquanto continuam os bombardeios na área de Ghouta, justamente na Síria, a Save the Children lança o novo relatório “Guerra às crianças”, segundo o qual entre 2005 e 2016, houve mais de 73 mil menores mortos ou mutilados, uns 50 mil obrigados a se filiar a forças ou grupos armados, 17.500 estupros e violências sexuais contra menores, mais de 14 mil sequestros e raptos e mais de 15 mil ataques a escolas e hospitais

As crianças e a guerra

No dossiê é mostrado como mais de 357 milhões de crianças estão vivendo agora em áreas assoladas pela guerra, enquanto no início da década de 1990 eram 200 milhões. "Aproximadamente 165 milhões, quase metade do total, estão localizados em áreas marcadas por guerras de alta intensidade - afirma o relatório - forçadas a lidar com sofrimentos inimagináveis". E as suas condições pioram a cada ano. As razões? A crescente urbanização das guerras, o uso de armas explosivas em áreas intensamente povoadas e a natureza mais abrangente e prolongada dos conflitos modernos "que colocam os civis e, especialmente, as crianças na linha de frente". De facto, são usadas táticas cada vez mais brutais para atingir os menores, como bombardeios diretos a escolas ou hospitais, ou o uso cada vez mais intenso de bombas de fragmentação, barris ou explosivos improvisados. A Síria, o Afeganistão e a Somália, conforme dados do relatório, estão localizadas no topo da lista dos 10 países afetados pela guerra onde é mais difícil a existência para as crianças e onde as consequências sobre as suas vidas são ainda mais graves. Na sequência vêm o Iémen, Nigéria, Sudão do Sul, Iraque, República Democrática do Congo, Sudão e República Centro Africana, enquanto o Oriente Médio e África resultam as macro-regiões com as maiores taxas do mundo em que vivem menores em áreas afetadas por conflitos. Mais de um em cada três (39%) no Oriente Médio e dois em cada cinco (21%) na África.

As violações contra as crianças: assassinatos e mutilações

Desde 2010, os casos verificados pelas Nações Unidas de crianças mortas e mutiladas aumentaram em quase 300%. Um incremento que também é devido ao fato de que nos últimos anos são atingidas intencionalmente as crianças "para infligir um grande dano emocional para as comunidades ou erradicar pela raiz as futuras gerações que pertencem a um grupo étnico ou religioso". Entre 2005 e 2016 mais de 73 mil crianças foram mortas ou sofreram mutilação no âmbito de 25 conflitos, com mais de 10 mil casos registados apenas em 2016. No Afeganistão, por exemplo, onde o conflito perdura há quase 17 anos, em 2016 foi registado o maior número de crianças mortas ou mutiladas, com mais de 3.500 crianças vítimas, 24% a mais do que no ano anterior. Cerca de 700 crianças, além disso, perderam suas vidas nos primeiros nove meses de 2017.

O recrutamento forçado

Quase 50 mil crianças foram recrutadas à força pelos grupos ou forças armadas entre 2005 e 2016. Em alguns casos tinham menos de 8 anos e foram obrigadas a combater, a transportar pesados suprimentos e equipamentos militares, muitas vezes a matar ou cometer graves atos de violência e, no caso das meninas, tornarem-se esposas e companheiras de soldados e combatentes. Apenas em 2016, foram quase 8 mil os casos de recrutamento forçado, com a Nigéria detendo o recorde com mais de 2 mil crianças forçadas a se unir a grupos ou forças armadas. Seguem a Somália e a Síria, onde em 2016 o número mais do que duplicou em relação a 2015. Na Somália, em especial, a situação se deteriorou ainda mais em 2017, com 3.335 casos registados em comparação com os 900 de 2015. "Mesmo crianças particularmente vulneráveis - explica o relatório - não estão isentas de recrutamento forçado por grupos armados, como demonstra o caso da divisão de jovens criado pela Al-Qaeda no Iraque, chamada de 'Pássaros de paraíso', para atrair entre suas fileiras órfãos, portadores de deficiências mentais e crianças de rua a serem utilizadas em ataques suicidas contra alvos governamentais ou civis”.

Sequestro e violência sexual

É difícil ter os dados reais relativos aos abusos sexuais. Entre 1989 e 2009, estima-se que em 35% dos conflitos tenha se recorrido a formas de violência sexual contra menores que, além do estupro, incluem a escravidão sexual, a prostituição, a gravidez, a esterilização e o aborto forçados, as mutilações e torturas sexuais. Em especial, os casos documentados somam mais de 17.500 entre 2005 e 2016, com mais de 850 casos, só em 2016. Destes, mais de um terço estão associados com a Somália. De 2005 a 2016, as conclusões do relatório mostram que houve mais de 14.300 casos de menores raptados e sequestrados, com o pico registado em 2015, quando os casos chegaram a 3.400, com o maior número no Sudão do Sul.

Ataques a escolas e hospitais

"As crianças que vivem em áreas de conflito - ressalta a Save the Children - estão cada vez mais em risco, mesmo quando eles estão na escola ou em hospitais, lugares que deveriam ser para a sua absoluta garantia de proteção". Hoje, no mundo, 27 milhões de crianças não têm acesso à educação por causa dos conflitos, por serem obrigadas a fugir de suas casas, por suas escolas terem sido destruídas ou danificadas ou porque seus professores fugiram. Entre 2005 e 2016, foram registados mais de 15.300 ataques que tiveram como alvo escolas e estruturas sanitárias, com um aumento de 100% em uma década. Em 2017, pelo menos 2 mil ataques ocorreram no Iémen e na República Democrática do Congo, 400% a mais do que em 2015. Colômbia, Síria, Afeganistão, Paquistão e Sudão são os países mais afetados, entre 2009 e 2012, por ataques contra escolas, enquanto em 2016, nos territórios palestinos ocupados, a Save the Children documentou 256 violações relacionadas com a educação, que atingiram mais de 29 mil crianças. Não só ataques e bombardeios: em muitos casos, as instalações escolares são ocupadas por grupos e forças armadas, que as utilizam para fins militares. Foi o que aconteceu entre 2013 e 2017 em pelo menos 29 países em todo o mundo. Quanto aos hospitais, na Síria, em 2011, ocorreram mais de mil ataques que tiveram como alvo clínicas e estruturas sanitárias e ainda ontem na área de Ghouta oriental foram atingidos quatro hospitais. No Iémen, de março de 2015 a março de 2017, houve mais de 160 casos que ajudaram a acelerar o colapso do sistema de saúde do país e a propagação da epidemia de cólera.

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Edição 135, Fevº 2018

Reportagem de John Farrell

Fé e ciência: o conflito continua

Muito antes do notório julgamento de Galileu, o grande filósofo e médico do século XII Ibn Rushd (Averróis) foi banido de sua casa em Córdoba e viu todos os seus livros serem proibidos e queimados pelas autoridades religiosas islâmicas, que denunciaram sua crença na existência da causalidade na ordem natural – uma causalidade que ele considerava como independente da ação direta de Deus no mundo. Como Edward J. Larson e Michael Ruse salientam em seu novo livro, On Faith and Science [Sobre fé e ciência] (Yale University Press, 321 páginas), os clérigos da Espanha muçulmana temiam que, por conta própria, a razão, a lógica e a ciência humanas poderiam possuir um poder que ameaçaria fazer com que Deus parecesse desnecessário. Reportagem de John Farrell, publicada na revista Commonweal, 07-02-2018. A tradução é de Moisés Sbardelotto. Esse medo permanece disseminado hoje entre os fiéis religiosos de todas as fés – especialmente nos Estados Unidos, onde, por exemplo, a oposição à crença na evolução continua sendo muito forte. Mas ele tem assombrado o debate sobre a tensão entre religião e ciência há séculos

Ibn Rushd, que morreu mais de um quarto de século antes do nascimento de São Tomás de Aquino, pelo menos viveu o suficiente para voltar para casa do seu exílio, mas sua obra nunca alcançou entre os muçulmanos a influência que teve na Europa cristã, onde foi traduzido e estudado nas novas universidades medievais. De fato, era tão grande o respeito de Aquino pelas explanações de Ibn Rushd sobre as obras de Aristóteles, que Tomás sempre se referia a ele como “O Comentarista”.

Subsequentemente, a ciência arraigou na Europa e floresceu durante a Revolução Científica, mas não sem vítimas causadas pelas mesmas tensões que haviam atormentado Ibn Rushd. O julgamento de Galileu assombrou a Igreja Católica durante séculos – tornando-a um alvo fácil para os protestantes que atacavam os papas após a Reforma e para os defensores do Iluminismo que detestavam qualquer autoridade religiosa que interferisse no progresso da ciência.

Na visão de Larson e Ruse, esse debate de longa data tem sido mal servido pelo chamado modelo de conflito que o caso Galileu simboliza, e o objetivo deles nesse livro é argumentar que a relação entre ciência e religião é mais complexa do que qualquer noção que tanto o conflito quanto a complementaridade simplista permitem.

Larson, professor da cátedra Hugh e Hazel Darling em Direito na Pepperdine University, ganhou o Prêmio Pulitzer 1998 de História pelo seu livro Summer for the Gods: The Scopes Trial and America’s Continuing Debate Over Science and Religion. Ruse, professor da cátedra Lucyle T. Werkmeister e diretor do Programa de História e Filosofia da Ciência da Florida State University, foi conferencista Gifford e é autor de diversos livros sobre a inter-relação entre ciência e fé. Firme evolucionista e famoso conferencista, Ruse irritou alguns membros da comunidade científica por ter colaborado em alguns livros com os principais defensores do movimento de Design Inteligente nos Estados Unidos. Mas ele também gosta de entrar em atrito com seus leitores religiosos. Em uma recente conferência na Notre Dame University, eu o vi deixar de lado seu texto preparado sobre evolução e cristianismo para afirmar: “Vejam, Adão e Eva nunca existiram. Deixem isso para trás!”.

Em seus nove capítulos, On Faith and Science perpassa a história da ciência e da filosofia, destacando as descobertas que tiveram um impacto particular sobre a doutrina religiosa ao longo dos últimos mil anos de cultura cristã e, em menor medida, judaica e muçulmana.

No início do livro, os autores partem de onde Ibn Rushd parou, com a ideia das leis independentes da natureza – ou, como os escolásticos se referiam a ela, a doutrina das causas secundárias, sendo que a causa primeira é Deus. A noção não deixou de receber críticas entre os contemporâneos de Aquino, e, em 1277, o arcebispo de Paris condenou uma série de proposições associadas à nova filosofia natural.

A ideia de que o mundo opera de acordo com suas próprias leis e regularidades continua sendo controversa no debate sobre a evolução hoje, já que os defensores do Design Inteligente atacam o consenso da ciência sobre a evolução darwiniana e insistem que a intervenção direta de Deus na história da vida pode ser cientificamente demonstrada.

Mas, como Larson e Ruse mostram nos dois primeiros capítulos que abrangem o desenvolvimento precoce da astronomia e da física – desde a Revolução Copernicana até a Revolução Quântica –, essa noção deu seu fruto mais antecipado na ciência dos céus e dos corpos em movimento. A Revolução Copernicana é muitas vezes descrita como o primeiro grande choque que a ciência provocou à mentalidade religiosa ocidental, em que o sistema heliocêntrico rebaixava a Terra em relação à sua posição central e privilegiada no cosmos, tornando-a apenas outro planeta que orbita ao redor do Sol.

Mas Larson e Ruse argumentam que o que realmente incomodou os tradicionalistas foi que Copérnico usou o movimento circular natural dos planetas (incluindo a Terra) ao redor do Sol para explicar os movimentos retrógrados dos outros planetas, que periodicamente diminuíam de velocidade e revertiam a direção antes de continuar seu curso.

Uma vez que se assumia que o Sol estava no centro do sistema, não era mais preciso citar causas especiais (por exemplo, os anjos) para explicar o que, aos antigos, parecia ser um fenômeno arbitrário. O movimento retrógrado seguiu naturalmente as leis do movimento circular em um sistema centrado no Sol.

Kepler, Galileu e, especialmente, Isaac Newton melhoraram o grande programa de Copérnico, abrindo mão da insistência em órbitas perfeitamente circulares em favor de órbitas elípticas, e descrevendo completamente a dinâmica dos planetas com as leis do movimento e da gravitação universal de Newton. Mas mesmo Newton, talvez incomodado com essa autossuficiência, insistia que Deus ainda era necessário para ajustar ocasionalmente os movimentos dos planetas, se algum deles ameaçasse se afastar do curso.

As leis da natureza nos céus eram uma coisa, mas a aplicação de tais leis aos seres humanos era outra coisa. E, no terceiro capítulo, os autores abordam o impacto da mecânica newtoniana sobre os conceitos de mente e alma. A separação de Descartes entre uma mente imaterial e a mecânica do corpo humano pode ser vista sob essa luz como uma espécie de ataque preventivo para proteger o status exclusivo da alma. Se assim foi, ela teve vida curta, já que o advento da evolução darwiniana ameaçou colocar todo o humano sob o poder da seleção natural.

Aqui é onde permanece o verdadeiro conflito com a fé. O mecanismo da seleção natural foi uma afronta suficiente aos fiéis do século XIX em relação à criação especial de todas as espécies (incluindo os humanos). Mas então, nas décadas seguintes e no século XX, veio a conscientização gradual dos éons e éons de espécies extintas que viveram e morreram muito antes da humanidade, juntamente com a crescente conscientização sobre o desperdício e o sofrimento que esses éons passados envolviam. Isso adicionou outra camada de verdadeira inquietação à crença na providência divina.

Podemos chamar de bom um Deus que presidiu tal sofrimento gratuito? Como alguns teólogos suspeitaram, até mesmo a tentativa mais acomodatícia de encaixar o Deus da Bíblia com a evolução não conseguiria livrar Deus quando se tratasse da existência generalizada do mal e do sofrimento. Como disse o teólogo cristão evangélico John Schneider, o mundo revelado pela evolução “descreve o passado planetário e biológico como aquele em que biomas inteiros vieram e se foram de forma aparentemente despropositada e brutal, e revela que o nosso passado é apenas um deles” (“The Fall of ‘Augustinian Adam’”, em Zygon, novembro de 2012).

E, mais recentemente, os avanços feitos pela ciência cognitiva parecem dar uma credibilidade adicional a um materialismo radical que, na opinião dos autores, prejudica qualquer crença religiosa na transcendência do espírito humano. A mente e a alma parecem ser os subprodutos do cérebro. Se deve haver alguma reconciliação possível entre ciência e fé aqui, escrevem eles, talvez ela possa ser encontrada no campo da mecânica quântica, embora eles não aprofundem o assunto.

E a própria origem da humanidade – e das doutrinas teológicas associadas a ela, principalmente o pecado original e a queda? Houve tentativas de alguns teólogos católicos de acomodá-las em uma perspectiva evolutiva, mas, até hoje, os pronunciamentos oficiais do Vaticano continuam sendo muito gerais.

No nível pastoral, permanece muita confusão e mal-entendido sobre a ciência da evolução humana e suas implicações. O Catecismo não discute nada da evolução e continua tratando Adão e Eva como figuras históricas.

Talvez não seja surpreendente, então, que a imprensa popular continue assumindo uma desconfiança geral em relação à ciência por parte da Igreja. Roma não consegue superar o caso Galileu. Por exemplo, quando o Papa Francisco, pouco depois de ser eleito, afirmou que não há nenhum conflito entre as noções de criação e evolução, isso foi abordado como manchete de primeira página em todo o mundo, mesmo que João Paulo II e Bento XVI tivessem dito o mesmo em muitas ocasiões.

Para não fechar com uma nota desencorajadora, Larson e Ruse abordam o papel das lideranças religiosas na promoção de uma abordagem mais protetora do ecossistema mundial cada vez mais frágil. Eles ressaltam a Igreja Católica e, em particular, o Papa Francisco, que dedicou toda a sua encíclica Laudato si’ à defesa do mundo natural, e os esforços mundiais para reduzir as emissões de carbono para combater os efeitos cada vez mais destrutivos das mudanças climáticas. Eles também comparam as exortações do Papa Francisco às de E. O. Wilson, de Harvard, um ateu notório e também um notório defensor de uma visão de toda a vida como um todo interconectado. Wilson expressou um grande respeito pelos esforços do papa de se pronunciar em apoio ao consenso científico sobre as mudanças climáticas.

Na opinião dos autores, tanto o papa quanto Wilson, apesar de abordarem a questão a partir de tradições amplamente diferentes, representam um caminho a seguir para ateus e crentes, para juntos irem ao encontro dos desafios que a Mãe Natureza guarda para a humanidade.