1 POEMA de cada vez

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Edição 159, Junho 2020

MULHERES E A REVOLUÇÃO

Maria Velho da Costa

Elas fizeram greves de braços caídos. Elas brigaram em casa para ir ao sindicato e à junta. Elas gritaram à vizinha que era fascista. Elas souberam dizer salário igual e creches e cantinas. Elas vieram para a rua de encarnado. Elas foram pedir para ali uma estrada de alcatrão e canos de água. Elas gritaram muito. Elas encheram as ruas de cravos. Elas disseram à mãe e à sogra que isso era dantes. Elas trouxeram alento e sopa aos quartéis e à rua. Elas foram para as portas de armas com os filhos ao colo. Elas ouviram falar de uma grande mudança que ia entrar pelas casas. Elas choraram no cais agarradas aos filhos que vinham da guerra. Elas choraram de ver o pai a guerrear com o filho. Elas tiveram medo e foram e não foram. Elas aprenderam a mexer nos livros de contas e nas alfaias das herdades abandonadas. Elas dobraram em quatro um papel que levava dentro urna cruzinha laboriosa. Elas sentaram-se a falar à roda de uma mesa a ver como podia ser sem os patrões. Elas levantaram o braço nas grandes assembleias. Elas costuraram bandeiras e bordaram a fio amarelo pequenas foices e martelos. Elas disseram à mãe, segure-me aqui os cachopos, senhora, que a gente vai de camioneta a Lisboa dizer-lhes como é. Elas vieram dos arrebaldes com o fogão à cabeça ocupar uma parte de casa fechada. Elas estenderam roupa a cantar, com as armas que temos na mão. Elas diziam tu às pessoas com estudos e aos outros homens. Elas iam e não sabiam para aonde, mas que iam. Elas acendem o lume. Elas cortam o pão e aquecem o café esfriado. São elas que acordam pela manhã as bestas, os homens e as crianças adormecidas.

AQUI DENTRO DE CASA

José Mário Branco

Mariazinha fui, em Marta me tornei

Vou daquilo que fui para aquilo que serei


Foi há tantos anos, foi há dois mil anos

que vi no amor o meu Cristo

que me mostraste um amor imprevisto

que me falaste na pele e no corpo a sorrir

Meus olhos fechados, mudos, espantados

te ouviram como se apagasses

a luz do dia ou a luta de classes

Meus olhos verdes, ceguinhos de todo

para te servir


Mariazinha fui, em Marta me tornei

Vou daquilo que fui para aquilo que serei


Filhos e cadilhos, panelas e fundilhos

meteste as minhas mãos à obra

e encontraste argumentos de sobra

para evitar que o meu corpo pensasse na vida

Meus olhos fechados, mudos e cansados

não viam se verso, se prosa

O meu suor era o teu mar de rosas

Meus olhos verdes, janelas de vida, fechados por ti


Mariazinha fui, em Marta me tornei

Vou daquilo que fui para aquilo que serei


Pegas-me na mão e falas do patrão

que te paga um salário de fome

Do teu patrão que te rouba o que come

Falas contigo sozinho para desabafar

Meus olhos parados, mudos e cansados

não podem ouvir o que dizes

e fico à espera que me socializes

Meus olhos verdes, boneca privada do teu bem-estar


Mariazinha fui, em Marta me tornei

Vou daquilo que fui para aquilo que serei


Sou tua criada, boa e dedicada

na praça, na casa e na cama

Tu só me vês quando vestes pijama

mas não me ouves se digo que quero existir

Meus olhos cansados ficam acordados

de noite chorando esta sorte

de ser escrava para a vida e para a morte

Meus olhos verdes vermelhos de raiva para te servir


Mariazinha fui, em Marta me tornei

Vou daquilo que fui para aquilo que serei


A tua vontade, justiça e igualdade

não chega aqui dentro de casa

Eu só te sirvo para a maré vaza

mas eu já sinto a minha maré cheia a subir

Meus olhos cansados abrem-se espantados

para a vida de que me falavas

para combater contra os donos de escravas

Meus olhos verdes que te vão falar e que tu vais ouvir

RECONSTITUIÇÃO DA FORÇA DE TRABALHO

Maria Velho da Costa

Elas são quatro milhões, o dia nasce, elas acendem o lume. Elas cortam o pão e aquecem o café. Elas picam cebolas e descascam batatas. Elas migam sêmeas e restos de comida azeda. Elas chamam ainda escuro os homens e os animais e as crianças. Elas enchem lancheiras e tarros e pastas de escola com latas e buchas e fruta embrulhada num pano limpo. Elas lavam os lençóis e as camisas que hão-de suar-se outra vez. Elas esfregam o chão de joelhos com escova de piaçaba e sabão amarelo e correm com os insectos a que não venham adoecer os seus enquanto dormem. Elas brigam nos mercados e praças por mais barato. Elas contam centavos. Elas costuram e enfiam malhas em agulhas de pau com as lãs que hão-de manter no corpo o calor da comida que elas fazem. Elas vêm com um cântaro de água à cinta e um molho de gravetos na cabeça. Elas limpam as pias e as tinas e as coelheiras e os currais. Elas acendem o lume. Elas migam hortaliça. Elas desencardem o fundo dos tachos. Elas passajam meias e calças e camisas e outra vez, meias. Elas areiam o fogão com palha de aço. Elas calcorreiam a cidade a pé e à chuva porque naquele bairro os fatos-macacos são caros. Elas correm esbaforidas para não perder o comboio, o barco. Elas pousam o cesto e abrem a porta com a mão vermelha. Elas põem a tranca no palheiro. Elas enterram o dedo mínimo na galinha a ver se tem ovo. Elas acendem o lume. Elas mexem o arroz com um garfo de zinco. Elas lambem a ponta do fio de linha para virar a camisa. Elas enchem os pratos. Elas pousam o alguidar na borda da pia para aguentar. Elas arredam a coberta da cama. Elas abrem-se para um homem cansado. Elas também dormem.

PEREGRINAÇÕES

Fausto Bordalo Dias

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exibições

502

Tristemente embarcados

Com rumo sem rota

Velejando no ar

Com grande medo levados

Em formosa frota

De casco a abanar

Rebentam as ondas gigantes

Coisas alucinantes

Quebra-mar quebra-mar

Uma prece na garganta

Nossa senhora santa

Almiranta

A vomitar a vomitar

Procurando novos mercados

Em nome de deus

Vai el-rei engordar

Como por nossos pecados

Desatinados às cegas

No escuro do mar

Salta um mostrengo barbudo

C'o peito peludo

A arrotar a arrotar

Nós senhores do barlavento

Ao leme gemendo

Tremendo

Ai! quem soubera nadar


E com a pressa que podíamos

Nós fizemos de volta

Esquecendo mercês

Se à vista daquilo que víamos

Nos tremiam as carnes

Nos dava a gaguez

Ao serviço de deus nosso senhor

Regressa assim teu esposo

Neste vento bonançoso

Meu lindo e ditoso amor

Confiado nesta promessa

Enganado nesta esperança


Mas o avarento agiota

Depressa nos manda

De novo embarcar

Banqueteados com muitos açoites

Ao longo da costa

Quem se há-de salvar

Tragam pimenta

A fazenda

A prata sangrenta

A rezar a rezar

Metam o turco a tormento

Fede a mafamede

Que fale

Onde fica o bazar

E assim fomos de atropelo

Sobre gente que não tinha

Em boa conta

O nosso apogeu

Nos merecia a latina cólera

Por zelo

Da honra de deus

Vivos lançados ao mar

Com um grande penedo

Ao pescoço

A afundar

Ouvem-se as gritas

Apupos

Dos turcos malucos

Eunucos

A atacar a atacar


E foram tantas as pedras

Os zargunchos as lanças

E as chuças

De arremesso sobre nós

Que fugíamos assaz

Com a pressa que podíamos

Depois de tanto pelejar

Ao serviçp de el-rei

Nosso senhor

Regressa assim teu esposo

Neste vento bonançoso

Meu lindo e ditoso amor

Confiado nesta promessa

Enganado nesta esperança


Foi-se o tempo passando

Da nau ao paquete

Lá vai portugal

Leva gente do arado

Peões e joguetes

Em calção colonial

Negro trabalha canalha

Que a tua mortalha

É este ultramar

Colhe matumbo o café

Que a gente tem fé

Chimpanzé

De lucrar e lucrar

Fomos misturando guitarras

Ao som do batuque

Bebendo maruvo

E num sentimento bizarro

Casando com a negra

Depois de viúvo

Estoira uma força gigante

Vermelha negra vibrante

A lutar a queimar

Liberta um povo oprimido

E perde o diamante

Purgante

Quem nos andou a mandar

E desmanchámos as casas

Tornámos de volta

Pobres numa muleta

Balbuciando estranhas palavras

Aka! que maka!!

Acabou-se a teta ao serviço de grandes senhores

Regressa de vez teu esposo

Neste vento bonançoso

Meu lindo e ditoso amor

Confiado nesta promessa

Enganado nesta esperança

Edição 158, Maio 2020

Voltaire

POEMA SOBRE O DESASTRE DE LISBOA

Além de mencionar a tragédia lisboeta no seu 'Candide', Voltaire tem um poema dedicado à grandeza do sismo. Chama-se Poème sur le désastre de Lisbonne. A arbitrariedade da sobrevivência marcou o autor que satirizou a ideia, defendida por autores como Gottfried Wilhelm Leibniz e Alexander Pope, de que “este é o melhor dos mundos possíveis”. Tradução de Jorge P. Pires.

Ó infelizes mortais! Ó deplorável terra!

Ó agregado horrendo que a todos os mortais encerra!

Exercício eterno que inúteis dores mantém!

Filósofos iludidos que bradais «Tudo está bem»;

Acorrei, contemplai estas ruínas malfadadas,

Estes escombros, estes despojos, estas cinzas desgraçadas,

Estas mulheres, estes infantes uns nos outros amontoados

Estes membros dispersos sob estes mármores quebrados

Cem mil desafortunados que a terra devora,

Os quais, sangrando, despedaçados, e palpitantes embora,

Enterrados com seus tectos terminam sem assistência

No horror dos tormentos sua lamentosa existência!

Aos gritos balbuciados por suas vozes expirantes,

Ao espectáculo medonho de suas cinzas fumegantes,

Direis vós: «Eis das eternas leis o cumprimento,

Quem de um Deus livre e bom requer o discernimento?»

Direis vós, perante tal amontoado de vítimas:

«Deus vingou-se, a morte deles é o preço de seus crimes»?

Que crime, que falta comentaram estes infantes

Sobre o seio materno esmagados e sangrantes?

Lisboa, que não é mais, teve ela mais vícios

Que Londres, que Paris, mergulhadas nas delícias?

Lisboa está arruinada e dança-se em Paris.(…)

Ide interrogar as margens do Tejo;

Revolvei os escombros deste sangrento despejo;

Perguntai aos moribundos, nesta morada de pavor,

Se é o orgulho quem clama: «Ajudai-me, Senhor!

Ó céus, tende piedade do humano fadário!»

«Tudo está bem», dizeis vós, «e tudo é necessário.»

Mas quê! O Universo inteiro, sem este abismo infernal,

Sem engolir Lisboa, teria estado em maior mal?(…)

Não, não ostenteis mais a meu coração alterado

Essas imutáveis leis da necessidade,

Essa cadeia dos corpos, dos espíritos, e dos mundos.

Ó sonhos de sábios! Ó desvarios profundos!

Deus tem na mão a corrente, e não está acorrentado;

Por sua escolha benévola tudo é determinado:

Ele é livre, ele é justo, e não é implacável.

Porque sofremos então com um amo justo e amável?

(…)

Elementos, animais, humanos, tudo está em guerra.

Há que reconhecê-lo, o “mal” está sobre a terra:

Seu princípio secreto não nos é de todo conhecido.

Do autor de todo o bem, terá o mal decorrido?

(…)

Um Deus veio consolar a nossa raça alarmada;

Visitou a terra, mas não a mudou em nada!

Diz-nos um sofista arrogante que ele o não pôde fazer:

«Ele poderia», diz outro, «mas havia de o querer:

Querê-lo-ia, sem dúvida;» e, enquanto se apregoa,

Há trovões subterrâneos que vão engolindo Lisboa,

E de trinta cidades dispersam os lambris,

Das margens sangrentas do Tejo até ao mar de Cádis.

Ou o homem nasceu culpado, e Deus pune sua raça,

Ou esse senhor absoluto do ser e do espaço,

Sem furor, sem piedade, tranquilo, indiferente,

De seus primeiros decretos segue a eterna torrente;

Ou a matéria informe, a seu mestre rebelde,

Transporta consigo defeitos tão necessários quanto ela;

Ou Deus nos põe à prova, e esta estadia mortal

Não é senão uma passagem estreita para um mundo eternal.

Aqui experimentamos dores transitórias:

Falecer é um bem que termina as nossas misérias.

Mas quando por fim sairmos desta passagem de agruras,

Qual de nós pretenderá merecer colher venturas?

(…)

Leibniz nunca me ensina por que nós invisíveis,

No mais bem ordenado dos universos possíveis,

Uma desordem eterna, um caos de infelicidades,

A nossos vãos prazeres mistura certas dores que são verdades,

Nem por que é que o inocente, tal como o culpado,

Sofre do mesmo modo este mal desgraçado.

Também não concebo como tudo estaria bem:

Sou como um médico; infelizmente nada sei.

(…)

“Um dia tudo estará bem”, eis aí a nossa esperança;

“Tudo está bem hoje em dia”, eis aqui a ilusão.

(…)

Outrora um califa, chegado à hora em que se falece,

Ao deus que adorava disse então como prece:

«Trago-te, ó único rei, único ser sem limitação,

Tudo o que não possuis na tua imensidão,

Os defeitos, os remorsos, os males e a ignorância.»

Mas poderia haver acrescentado ainda “a esperança”.

A ROSA DE HIROSHIMA

Vinícius de Moraes

Pensem nas feridas

Como rosas cálidas

Pensem nas crianças

Mudas telepáticas

Pensem nas meninas

Cegas inexatas

Pensem nas mulheres

Rotas alteradas

Pensem nas feridas

Como rosas cálidas

Mas oh não se esqueçam

Da rosa da rosa

Da rosa de Hiroshima

A rosa hereditária

A rosa radioativa

Estúpida e inválida.

A rosa com cirrose

A anti-rosa atómica

Sem cor sem perfume

Sem rosa sem nada.

ETERNAMENTE TU

Jorge Palma

O tempo não sabe nada, o tempo não tem razão

O tempo nunca existiu, o tempo é nossa invenção

Se abandonarmos as horas não nos sentimos sós

Meu amor, o tempo somos nós


O espaço tem o volume da imaginação

Além do nosso horizonte existe outra dimensão

O espaço foi construído sem principio nem fim

Meu amor, tu cabes dentro de mim


O meu tesouro és tu

Eternamente tu

Não há passos divergentes para quem se quer

Encontrar


A nossa história começa na total escuridão

Onde o mistério ultrapassa a nossa compreensão

A nossa história é o esforço para alcançar a luz

Meu amor, o impossível seduz


O meu tesouro és tu

Eternamente tu

Não há passos divergentes para quem se quer

Encontrar

Estar Só é Estar no Íntimo do Mundo

António Ramos Rosa

Por vezes cada objecto se ilumina

do que no passar é pausa íntima

entre sons minuciosos que inclinam

a atenção para uma cavidade mínima


E estar assim tão breve e tão profundo

como no silêncio de uma planta

é estar no fundo do tempo ou no seu ápice

ou na alvura de um sono que nos dá

a cintilante substância do sítio


O mundo inteiro assim cabe num limbo

e é como um eco límpido e uma folha de sombra

que no vagar ondeia entre minúsculas luzes


E é astro imediato de um lúcido sono

fluvial e um núbil eclipse

em que estar só é estar no íntimo do mundo

(in "Poemas Inéditos")

O PALÁCIO DA VENTURA

Antero de Quental

Sonho que sou um cavaleiro andante.

Por desertos, por sóis, por noite escura,

Paladino do amor, busco anelante

O palácio encantado da Ventura!


Mas já desmaio, exausto e vacilante,

Quebrada a espada já, rota a armadura...

E eis que súbito o avisto, fulgurante

Na sua pompa e aérea formosura!


Com grandes golpes bato à porta e brado:

Eu sou o Vagabundo, o Deserdado...

Abri-vos, portas de ouro, ante meus ais!

Abrem-se as portas d'ouro com fragor...


Mas dentro encontro só, cheio de dor,

Silêncio e escuridão - e nada mais!

(in "Sonetos")

Edição 157, Abril 2020

1 Poema de Luís Sepúlveda

+ 5 brevíssemos Pensamentos

E o meu irmão

sabe

muitas coisas.

Sabe, por exemplo,

que um grama de pólen

é como um grama de si mesmo,

docemente predestinado ao lodo germinal,

ao mistério daquilo que se erguerá vivo de ramos,

de frutos e de filhos, com a bela certeza das transformações,

do começo inevitável e do necessário final, porque o que é imutável

encerra o perigo do eterno, e só os deuses têm tempo para a eternidade.

1 "Admiro os resistentes, os que fizeram do verbo “resistir” carne, suor, sangue, e demonstraram sem espaventos que é possível viver, de pé, mesmo nos piores momentos."

2 Chega a doer quando alguém se diz de esquerda, mas não renuncia a parte da sua comodidade. Temos de vigiar constantemente a estupidez que nos rodeia e tenta devorar-nos.

3 Somente aqueles que ousam, podem voar.

4 Era o amor mais puro, sem outro propósito que não o próprio amor. Sem posse ou ciúme.

5 Se é certo que a vida é breve e frágil, também é verdade que a dignidade e a coragem lhe conferem a vitalidade que nos faz suportar os seus enganos e desditas.

AS FRONTEIRAS AINDA EXISTEM

Aos Escritores e Amigos Manuel de Seabra e Vimala Devi

JOAQUIM MURALE

olhastes-me com olhos de andar pelo mundo

fiquei sem saber o que dizer

a minha barca desde sempre que fundeara

nos horizontes finitos

das águas salobres do rio português

que poderia responder-vos?


o que existe para lá dos meus olhos

não será melhor nem pior

mas seguramente é mais vasto

fará de mim caminhante de novidades

de outras inquirições

de um tempo diverso que não fique parado

no espelho que nos retém o olhar

deixai-me ir aonde estais

depois voltar

'in' VIAGEM AO JARDIM DA IRA - 40 ANOS DE POESIA

Seda Publicações - 2014

Edição 156, Março 2020

O QUE NOS CABE DIANTE DO MUNDO?

Gabriel Miranda

Sentir e se indignar

amar e lutar

Negar e transformar

reinventar e superar


Sentir a si mesmo

mas também ao outro

Sentir as alegrias

E, sobretudo, sentir as dores

nossas e as do mundo


Indignar-se diante do mal e da injustiça

que se apresentam

no espelho invertido do século XXI

como o bem, o justo


Amar as gentes

e aqueles que nem gente são

porque isso lhes foi retirado

Amar as diferenças, as semelhanças

Amar o verbo amar

Amar, enfim, aquilo que se quer amar


Lutar para fazer viva

a nossa existência

que eles tanto insistem

em fazer morta


Negar as falsas verdades que dizem

que não há outra saída

que a história chegou ao final

que nós somos.....................nada


Negar aquilo que fizeram de nós

E nos forçaram a crer que somos nós

Negar o homem

sua pretensa racionalidade superior


E transformar o mundo em horizontes

que são inimagináveis

pelo menos agora, em nossos tempos

marcados por uma razão indolente


Reinventar tudo, inclusive a vida

antes que essa vida nos devore

E nos torne, sem que percebamos

aqueles que quando crianças

definitivamente não queríamos ser


Superar a noção de que o real

é aquilo que efetivamente existe hoje

E, com indignação, amor e luta

Retomar uma perspectiva transformadora do mundo

e de nós mesmos.

LONGE DAQUI

Pedro Barroso

Nascemos no alto mar no meio da tempestade

Ali a meio caminho

Entre o cabo das Tormentas

E o céu do Paraíso

A alma mareante

O fogo de San Telmo

O luto o desespero

Pel'alegria breve

De navegar um instante

Um século, uma História

Enquanto fabricamos

No ventre do porão

Paixão


Depois, cuidadosamente

Encheram-te a cabeça

De histórias de aventura

De batalhas de Ourique

Reis mouros esmagados

De heroísmos vários

De feitos de bravura

De mundos viajados

Poemas inflamados

A Grei, Prestes João

O mapa cor de rosa

A virgem aparecida

El-rei D. Sebastião

Um Império Mundial

Caramba!


Às vezes perguntámos

Parando por momentos

Num vendaval de Santos conquistas embaixadas

Com coches de ouro ao Papa

Marfim e arrecadas

E a gente sempre a olhar

A olhar


Sentíamos mar nas veias

E febres de partir

Encantos de Medeias

Tentações de fugir

Mas ficámos por cá

Amarrados ao Convento de Mafra

Chorando o desencanto

De ficar que o forte forte vento

Não nos deixava enfim

Nem estradas de sair

Nem estradas de chegar

Nem traços de partir

Nem posses de alcançar

P'ra dentro do futuro

Adiante


E tinhas razão que o certo certo mesmo

Podia ser aquilo, podia ser o vento

Podia ser a história, qua há tantas tantas formas

De a gente dar memória

E às vezes o silêncio 'té dizem que é dourado

Mas um homem fica parvo

Com a força do futuro contida no passado

E devotadamente, Aljubarrotamente

Crê!


E conformado crendo

Que as nossas aventuras

Só foram pela canela pimenta e especiarias

E só fomos heróis em terras e lonjuras

Por querermos espalhar a Fé e as teorias

Que nunca violámos

Que nunca escravizámos

Nem traço de chicote nem outras judiarias

Nem alma de ladrão morrida nas galés

E ao mar!


De 30 em 30 anos

Às vezes mais - 50!

Até acreditamos

Rumamos à tormenta

Batemo-nos e vamos

P´rá liça do futuro

Com a nossa força grande

Antiga

Mas contados p´los dedos

Assuntos bem saldados

Ficaram intenções

Castelos abandonados

Crianças sem saber

O sol pr´os reformados

Remessas de emigrantes

E o mar que eles voltam voltam sempre

Cinzentos sorridentes

Cheirosos influentes

De todos os quadrantes

E por todas as frentes

Com cupidez te amansam

Com polimento avançam

E zás


Nas grutas de uma vida

Um homem muda tanto

E de criança a velho

E de truão a santo

O salto é tão pequeno

O trilho é tão estreito

Tantos pavores na fronte

Tantos calores no peito

Tanto ouro na corrida

E a força da razão e a força da subida

Mãos quentes de bater

Mãos magras de sangrarem

E quanto mais procuras ou mais te procurarem

Caíste!


Tentas saber como é

E tentas aprender

Aprendes a sorrir

Aprendes a esconder

Aprendes a vender

Aprendes a comprar

Aprendes ´té a amar

Assim assim, se tanto,

Desconfiadamente

A engolir o pranto

A não te olhares de frente

Enquanto sonhas longe

Ai tão longe daqui e tão

Diferente


E embarcas pelo deserto

Resolves-te a partir

Juntando três amigos

Sem jeito ao despedir

Duas frases erradas

Não era nada disto

Que eu vos queria dizer pá

Mas vais

E é natural que sintas

Vontade de o fazer

Vontade de viver

Aquilo que não te dão

Para isso tenta a China

O Laos o Alaska a Índia

A Tailândia e o Japão

O Barhein!


E rumas na paisagem dominado pela cor

Três trapos p´rá viagem

Um cesto um cobertor

Impostos declarados

A alma decretada

Passaporte conforme

E um pão


E gritas ao silêncio

E vai saber-te bem

Gritar sob os comboios nas pontes quando passam

Ficaram tantos tipos

Olhando pela janela a sua própria vida

Ah tu, tu não!


Mas lá longe no deserto

Relembras o teu sítio

Tão longe na distância

No peito ali tão perto

E vem-te à boca o travo

Dessa questão eterna

Do ir ou do voltar

Do ir ou do voltar

E tu? E tu?

HINO À RAZÃO

Antero de Quental


Razão, irmã do Amor e da Justiça,

Mais uma vez escuta a minha prece.

É a voz dum coração que te apetece,

Duma alma livre só a ti submissa.


Por ti é que a poeira movediça

De astros, sóis e mundos permanece;

E é por ti que a virtude prevalece,

E a flor do heroísmo medra e viça.


Por ti, na arena trágica, as nações

buscam a liberdade entre clarões;

e os que olham o futuro e cismam, mudos,


Por ti podem sofrer e não se abatem,

Mãe de filhos robustos que combatem

Tendo o teu nome escrito em seus escudos!

SALMO DO HOMEM QUE VÊ A REALIDADE E NÃO SE CALA

Ernesto Cardenal


Ouve, Senhor, estes versos que te rezo

Ao contemplar a realidade em que vivo.

Maltido seja o sistema que não deixa sonhar os poetas

Nem permite dizer a verdade a quem pensa.

Serão seus dias de luto e de lamento,

Porque matou no Homem o mais digno.


Maldito o sistema que não pratica a justiça

E persegue e tortura e encarcera a quem anuncia.

Terá que justificar sua conduta ante a história

E não encontrará nenhuma palavra de defesa.


Maldito seja o sistema que só procura a aparência de grandeza

Quando estão morrendo de fome os homens nas suas fronteiras;

Do mesmo modo que progrediu cairá,

Porque construiu seus alicerces

Sobre corpos vivos e sangues inocentes.


Maldito o sistema que tenta matar no homem a dimensão de transcendência

E coloca no seu lugar o “deus dinheiro” , o “deus sexo”, e “deus progresso”,

Destruir-se-á por dentro irremissivelmente,

Porque o coração do homem foi bem feito

E ninguém pode matar em nós

Esta sede de infinito que nos queima.


Feliz será, porém,

O homem que bebe água na fonte da praça junto ao povo,

Não terá motivos para se envergonhar de nada,

Nem terá que baixar seus olhos

Ante qualquer homem honesto.


Feliz o homem que a força de interiorizar

Se fez livre por dentro

E não se importa já com a denúncia dos fortes,

Serão seus dias como o trigo da terra.

Cheios de sol e esperança partilhada

E o seguirão os povos da terra.


Feliz o homem que não assiste a reuniões importantes

Nem acredita nos discursos do governo;

Feliz o homem que assim pensa,

Porque terá sempre tranqüila a sua consciência.

Mesmo que sofra a incompreensão e até o desprezo.

Edição 155, Fev.º 2020

A ROSA DE HIROSHIMA

Vinícius de Moraes


Pensem nas feridas

Como rosas cálidas

Pensem nas crianças

Mudas telepáticas

Pensem nas meninas

Cegas inexatas

Pensem nas mulheres

Rotas alteradas

Pensem nas feridas

Como rosas cálidas

Mas oh não se esqueçam

Da rosa da rosa

Da rosa de Hiroshima

A rosa hereditária

A rosa radioativa

Estúpida e inválida.

A rosa com cirrose

A antirrosa atómica

Sem cor sem perfume

Sem rosa sem nada.

PORQUE NÃO ME VÊS

Fausto


Meu amor adeus

Tem cuidado

Se a dor é um espinho

Que espeta sózinho

Do outro lado

Meu bem desvairado

Tão aflito

Se a dor é um dó

Que desfaz o nó

E desata um grito

Um mau olhado

Um mal pecado

E a saudade é uma espera

É uma aflição

Se é Primavera

É um fim de Outono

Um tempo morno

É quase Verão

Em pleno Inverno

É um abandono

Porque não me vês

Maresia

Se a dor é um ciúme

Que espalha um perfume

Que me agonia

Vem me ver amor

De mansinho

Se a dor é um mar

Louco a transbordar

Noutro caminho

Quase a espraiar

Quase a afundar

E a saudade é uma espera

É uma aflição

Se é Primavera

É um fim de Outono

Um tempo morno

É quase Verão

Em pleno Inverno

É um abadono

(in "Por este rio acima")

TAMBÉM O QUE É ETERNO

Manuel Resende


Também o que é eterno morre um dia.

Eu tusso e sinto a dor que a tosse traz;

O doutor quer por força a ecografia,

Mas eu não estou pra tantas precisões.


Eu rio à morte com um riso largo:

Morrer é tão banal, tão tem que ser!

Disto ou daquilo, que me importa a mim?

Mas, ó horror, com fotos, não, nem documentos!


A tanta exactidão mata o mistério.

O pH, o índice quarenta...

Não quero as pulsações, os eritrócitos,

O temeroso alzaimer, ou o cancro,

Nem sequer o tão raro, do coração.


Ver o pulmão, o peito aberto, o coração,

A palpitar a cores no computador?

Eu morro, eu morro, não se preocupem,

Mas sem saber, de gripe, ou duma coisa,

Ou doutra coisa.

in O Mundo Clamoroso, Ainda

NA AUTO-ESTRADA

Manuel Resende

Ainda posso perceber

Esses miúdos nos viadutos

Que atiram pedras aos carros da auto-estrada.

É um gesto eficaz

Que matou alguns caixeiros-viajantes,

E até famílias inteiras,

É pura malvadez

E o mundo precisa de pureza.


Mas como se justificam esses que nos acenam

Com alegria ao passarmos?

in O Mundo Clamoroso, Ainda

Edição 154, Janeiro 2020

AS PESSOAS SENSÍVEIS

Sophia  de Mello Breyner

As pessoas sensíveis não são capazes

De matar galinhas

Porém são capazes

De comer galinhas


O dinheiro cheira a pobre e cheira

À roupa do seu corpo

Aquela roupa

Que depois da chuva secou sobre o corpo

Porque não tinham outra

O dinheiro cheira a pobre e cheira

A roupa

Que depois do suor não foi lavada

Porque não tinham outra


"Ganharás o pão com o suor do teu rosto"

Assim nos foi imposto

E não:

"Com o suor dos outros ganharás o pão".


Ó vendilhões do templo

Ó construtores

Das grandes estátuas balofas e pesadas

Ó cheios de devoção e de proveito


Perdoai-lhes Senhor

Porque eles sabem o que fazem.

MÃE PRETA

António Amabile

canta Dulce Pontes

Pele encarquilhada carapinha branca

Gandôla de renda caindo na anca

Embalando o berço do filho do sinhô

Que há pouco tempo a sinhá ganhou


Era assim que mãe preta fazia

criava todo o branco com muita alegria

Porém lá na sanzala o seu pretinho apanhava

Mãe preta mais uma lágrima enxugava


Mãe preta, mãe preta


Enquanto a chibata batia no seu amor

Mãe preta embalava o filho branco do sinhô

https://www.youtube.com/watch?time_continue=275&v=ZAGudZOwIpY

CANTIGA DA VELHA MÃE

E DOS SEUS DOIS FILHOS

Sérgio Godinho


Ai o meu pobre filho, que rico que é

ai o meu rico filho, que pobre que é

Nascidos do mesmo ventre

Um vive de joelhos pró outro passar à frente

E esta velha mãe para aqui já no sol poente


Um dia há muito tempo, vi-os partir

levando cada um do outro o porvir

Seguiram pela estrada fora

Um voltou-se para trás, disse adeus que me vou embora

Voltaremos trazendo connosco a vitória


De que vitória falas, disse eu então

Da que faz um escravo do teu irmão?

Ou duma outra que rebenta

como um rio de fúria no peito feito tormenta

quando não há nada a perder no que se tenta?


Passaram muitos anos sem mais saber

nem por onde passavam, nem se por ter

criado os dois no mesmo chão

eram ainda irmãos, partilhavam ainda o pão

E o silêncio enchia de morte o meu coração


Depois vieram novas que o que vivia

da miséria do outro, se enriquecia

Não foi para isto que andei

dias que foram longos e noites que não contei

a lutar pra ter a justiça como lei


Às vezes rogo pragas de os ver assim

Sinto assim uma faca dentro de mim

Sei que estou velha e doente

Mas para ver o mundo girar de modo diferente

Ainda sei gritar, e arreganhar o dente


Estou quase a ir embora, mas deixo aqui

duas palavras pra um filho que perdi

Não quero dar-te conselhos

Mas se é teu próprio irmão que te faz viver de joelhos

Doa a quem doer, faz o que tens a fazer

O MAR JAZ. GEMEM EM SEGREDO OS VENTOS

Ricardo Reis /Fernando Pessoa (Odes)

O mar jaz. Gemem em segredo os ventos

Em Éolo cativos,

Apenas com as pontas do tridente

Franze as águas Neptuno,

E a praia é alva e cheia de pequenos

Brilhos sob o sol claro.

Eu quisera, Neera, que o momento,

Que ora vemos, tivesse

O sentido preciso de uma frase

Visível nalgum livro.

Assim verias que certeza a minha

Quando sem te olhar digo

Que as cousas são o diálogo que os deuses

Brincam tendo connosco.

Se esta breve ciência te coubesse,

Nunca mais julgarias

Ou solene ou ligeira a clara vida,

Mas nem leve nem grave,

Nem falsa ou certa, mas assim, divina

E plácida, e mais nada.

Edição 153, Dezembro 2019

ANIVERSÁRIO… PALABRAS

Patxi Andion

20 años de estar juntos

Esta tarde se han cumplido

Para ti flores, perfumes

Para mi, algunos libros

No te he dicho grandes cosas

Porque no me habrian salido

Ya sabes cosas de viejos


Requemor de no haber sido

Hace tiempo que intentamos

Abonar nuestro destino

Tu bajabas la persiana

Yo apuraba mi ultimo vino

Hoy en esta noche fría

Casi como ignorando el sabor

De la soledad compartida

Quise hacerte una canción

Para cantar despacito

Como se duerme a los niños


Y ya ves, solo palabras

Sobre notas me han salido

Que al igual que tu y que yo

Ni se importan ni se estorban

Se soportan amistosas

Mas no son una canción

Que helada esta casa!

Sera, sera que esta cerca el rio

O es que estamos en invierno

Y estan llegando, estan llegando

Los frios

COMO NOSSOS PAIS

Elis Regina

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Não quero lhe falar

Meu grande amor

Das coisas que aprendi

Nos discos

Quero lhe contar como eu vivi

E tudo o que aconteceu comigo


Viver é melhor que sonhar

Eu sei que o amor

É uma coisa boa

Mas também sei

Que qualquer canto

É menor do que a vida

De qualquer pessoa


Por isso cuidado, meu bem

Há perigo na esquina

Eles venceram e o sinal

Está fechado pra nós

Que somos jovens


Para abraçar seu irmão

E beijar sua menina na rua

É que se fez o seu braço

O seu lábio e a sua voz


Você me pergunta

Pela minha paixão

Digo que estou encantada

Como uma nova invenção

Eu vou ficar nesta cidade

Não vou voltar pro sertão

Pois vejo vir vindo no vento

Cheiro de nova estação

Eu sei de tudo na ferida viva

Do meu coração


Já faz tempo

Eu vi você na rua

Cabelo ao vento

Gente jovem reunida

Na parede da memória

Essa lembrança

É o quadro que dói mais


Minha dor é perceber

Que apesar de termos

Feito tudo o que fizemos

Ainda somos os mesmos

E vivemos

Ainda somos os mesmos

E vivemos

Como os nossos pais


Nossos ídolos

Ainda são os mesmos

E as aparências

Não enganam não

Você diz que depois deles

Não apareceu mais ninguém


Você pode até dizer

Que eu tô por fora

Ou então

Que eu tô inventando


Mas é você

Que ama o passado

E que não vê

É você

Que ama o passado

E que não vê

Que o novo sempre vem


Hoje eu sei

Que quem me deu a idéia

De uma nova consciência

E juventude

Tá em casa

Guardado por Deus

Contando o vil metal


Minha dor é perceber

Que apesar de termos

Feito tudo, tudo

Tudo o que fizemos

Nós ainda somos

Os mesmos e vivemos

Ainda somos

Os mesmos e vivemos

Ainda somos

Os mesmos e vivemos

Como os nossos pais

https://youtu.be/2qqN4cEpPCw

PERFILADOS DE MEDO

Alexandre O’Neill


Perfilados de medo, agradecemos

o medo que nos salva da loucura.

Decisão e coragem valem menos

e a vida sem viver é mais segura.

Aventureiros já sem aventura,

perfilados de medo combatemos

irónicos fantasmas à procura

do que não fomos, do que não seremos.

Perfilados de medo, sem mais voz,

o coração nos dentes oprimido,

os loucos, os fantasmas somos nós.

Rebanho pelo medo perseguido,

já vivemos tão juntos e tão sós

que da vida perdemos o sentido…

(Cantado por José Mário Branco:

https://www.youtube.com/watch?v=OzwdYxxhwPc&list=RDEMxMES7--x6WUVPHj_PSYo5Q&index=3 )

Edição 152, Novembro 2019

Quando Eu For Grande

(Carta aos Meus Netos)

José Mário Branco


Quando eu for grande quero ser

Um bichinho pequenino

P´ra me poder aquecer

Na mão de qualquer menino


Quando eu for grande quero ser

Mais pequeno que uma noz

P´ra tudo o que eu sou caber

Na mão de qualquer de vós


Quando eu for grande quero ser

Uma laje de granito

Tudo em mim se pode erguer

Quando me pisam não grito


Quando eu for grande quero ser

Uma pedra do asfalto

O que lá estou a fazer

Só se nota quando falto


Quando eu for grande quero ser

Ponte de uma a outra margem

Para unir sem escolher

E servir só de passagem


Quando eu for grande quero ser

Como o rio dessa ponte

Nunca parar de correr

Sem nunca esquecer a fonte


Quando eu for grande quero ser

Um bichinho pequenino

Quando eu for grande quero ser

Mais pequeno que uma noz


Quando eu for grande quero ser

Uma laje de granito

Quando eu for grande quero ser

Uma pedra do asfalto


Quando eu for grande...

Quando eu for grande...


Quando eu for grande quero ter

O tamanho que não tenho

P´ra nunca deixar de ser

Do meu exacto tamanho

https://www.youtube.com/watch?time_continue=62&v=PhmI2Vl4AiY

INQUIETAÇÃO

Joaé Mário Branco

A contas com o bem que tu me fazes

A contas com o mal por que passei

Com tantas guerras que travei

Já não sei fazer as pazes


São flores aos milhões entre ruínas

Meu peito feito campo de batalha

Cada alvorada que me ensinas

Oiro em pó que o vento espalha


Cá dentro inquietação, inquietação

É só inquietação, inquietação

Porquê, não sei

Porquê, não sei

Porquê, não sei ainda


Há sempre qualquer coisa que está pra acontecer

Qualquer coisa que eu devia perceber

Porquê, não sei

Porquê, não sei

Porquê, não sei ainda


Ensinas-me fazer tantas perguntas

Na volta das respostas que eu trazia

Quantas promessas eu faria

Se as cumprisse todas juntas


Não largues esta mão no torvelinho

Pois falta sempre pouco para chegar

Eu não meti o barco ao mar

Pra ficar pelo caminho


Cá dentro inqueitação, inquietação

É só inquietação, inquietação

Porquê, não sei

Porquê, não sei

Porquê, não sei ainda


Há sempre qualquer coisa que está pra acontecer

Qualquer coisa que eu devia perceber

Porquê, não sei

Porquê, não sei

Porquê, não sei ainda


Cá dentro inqueitação, inquietação

É só inquietação, inquietação

Porquê, não sei

Mas sei

É que não sei ainda


Há sempre qualquer coisa que eu tenho que fazer

Qualquer coisa que eu devia resolver

Porquê, não sei

Mas sei

Que essa coisa é que é linda

https://www.youtube.com/watch?v=KLxJrkMpDSY

RONDA DO SOLDADINHO

José Mário Branco (1969)

1.

Um e dois e três

Era uma vez

Um soldadinho

De chumbo não era

Como era

O soldadinho

Um menino lindo

Que nasceu

Num roseiral

O menino lindo

Não nasceu

P'ra fazer mal

Menino cresceu

Já foi à escola

De sacola

Um e dois e três

Já sabe ler

Sabe contar

Menino cresceu

Já aprendeu

A trabalhar

Vai gado guardar

Já vai lavrar

E semear

2.

Um e dois e três

Era uma vez

Um soldadinho

De chumbo não era

Como era

O soldadinho

Menino cresceu

Mas não colheu

De semear

Os senhores da terra

O mandam p'rà guerra

Morrer ou matar

Os senhores da guerra

Não matam

Mandam matar

Os senhores da guerra

Não morrem

Mandam morrer

A guerra é p'ra quem

Nunca aprendeu

A semear

É p'ra quem só quer

Mandar matar

Para roubar

3.

Um e dois e três

Era uma vez

Um soldadinho

De chumbo não era

Como era

O soldadinho

Dancemos meninos

A roda

No roseiral

Que os meninos lindos

Não nascem

P'ra fazer mal

Soldadinho lindo

Era o rei

Da nossa terra

Fugiu para França

P'ra não ir

Morrer na guerra

Soldadinho lindo

Era o rei

Da nossa terra

Fugiu para França

P'ra não ir

Matar na guerra

https://www.youtube.com/watch?v=a41VQmS1zmk&list=RDa41VQmS1zmk&start_radio=1&t=49

QUE ENCANTO É O TEU?

Jorge de Sena

Amo-te muito, meu amor, e tanto

que, ao ter-te, amo-te mais, e mais ainda

depois de ter-te, meu amor. Não finda

com o próprio amor o amor do teu encanto.


Que encanto é o teu? Se continua enquanto

sofro a traição dos que, viscosos, prendem,

por uma paz da guerra a que se vendem,

a pura liberdade do meu canto,


um cântico da terra e do seu povo,

nesta invenção da humanidade inteira

que a cada instante há que inventar de novo,


tão quase é coisa ou sucessão que passa...

Que encanto é o teu? Deitado à tua beira,

sei que se rasga, eterno, o véu da Graça.

In 'As Evidências'

POEMA QUOTIDIANO

Ruy Belo

É tão depressa noite neste bairro

Nenhum outro porém senhor administrador

goza de tão eficiente serviço de sol

Ainda não há muito ele parecia

domiciliado e residente ao fim da rua

O senhor não calcula todo o dia

que festa de luz proporcionou a todos

Nunca vi e já tenho os meus anos

lavar a gente as mãos no sol como hoje

Donas de casa vieram encher de sol

cântaros alguidares e mais vasos domésticos

Nunca em tantos pés

assim humildemente brilhou

Orientou diz-se até os olhos das crianças

para a escola e pôs reflexos novos

nas míseras vidraças lá do fundo


Há quem diga que o sol foi longe demais

Algum dos pobres desta freguesia

apanhou-o na faca misturou-o no pão

Chegaram a tratá-lo por vizinho

Por este andar… Foi uma autêntica loucura

O astro-rei tornado acessível a todos

ele que ninguém habitualmente saudava

Sempre o mesmo indiferente

espectáculo de luz sobre os nossos cuidados

Íamos vínhamos entrávamos não víamos

aquela persistência rubra. Ousaria

alguém deixar um só daqueles raios

atravessar-lhe a vida iluminar-lhe as penas?


Mas hoje o sol

morreu como qualquer de nós

Ficou tão triste a gente destes sítios

Nunca foi tão depressa noite neste bairro

Edição 151, Outubro 2019

D. ANTÓNIO FERREIRA GOMES

Sophia de Mello Breyner Andresen

Na cidade do Porto há muito granito

Entre névoas sombras e cintilações

A cidade parece firme e inexpugnável

E sólida – mas habitada

Por súbitos clarões de profecia

Junto ao rio em cujo verde se espelham as visões

Assim quando eu entrava no Paço do Bispo

E passava a mão sobre a pedra rugosa

O paço me parecia fortaleza

Porém a fortaleza não era

Os grossos muros de pedra caiada

Nem os limites de pedra nem a escada

De largos degraus rugosos de granito

Nem o peso frio que das coisas inertes emanava

Fortaleza era o homem – o Bispo –

Alto e direito firme como torre

Ao fundo da grande sala clara: fortaleza

De sabedoria e sapiência

De compaixão e justiça

De inteligência a tudo atenta

E na face austera por vezes ao de leve o sorriso

Inconsútil da antiga infância.

N.E.

Lamenta-se que Sophia não tenha visto

o degradado e mal-cheiroso BARREDO

que o Pe. Américo visitava e que o Bispo

do alto do seu Paço nem sequer olhava!!!

FALA DO HOMEM NASCIDO

António Gedeão

(Chega à boca da cena, e diz:)

Venho da terra assombrada,

do ventre de minha mãe;

não pretendo roubar nada

nem fazer mal a ninguém.


Só quero o que me é devido

por me trazerem aqui,

que eu nem sequer fui ouvido

no acto de que nasci.


Trago boca para comer

e olhos para desejar.

Com licença, quero passar,

tenho pressa de viver.

Com licença! Com licença!

Que a vida é água a correr.

Venho do fundo do tempo;

não tenho tempo a perder.


Minha barca aparelhada

solta o pano rumo ao norte;

meu desejo é passaporte

para a fronteira fechada.

Não há ventos que não prestem

nem marés que não convenham,

nem forças que me molestem,

correntes que me detenham.


Quero eu e a Natureza,

que a Natureza sou eu,

e as forças da Natureza

nunca ninguém as venceu.


Com licença! Com licença!

Que a barca se fez ao mar.

Não há poder que me vença.

Mesmo morto hei-de passar.

Com licença! Com licença!

Com rumo à estrela polar.

(in 'Teatro do Mundo')

FADO PORTUGUÊS

José Régio

O Fado nasceu um dia,

quando o vento mal bulia

e o céu o mar prolongava,

na amurada dum veleiro,

no peito dum marinheiro

que, estando triste, cantava,

que, estando triste, cantava.


Ai, que lindeza tamanha,

meu chão, meu monte, meu vale,

de folhas, flores, frutas de oiro,

vê se vês terras de Espanha,

areias de Portugal,

olhar ceguinho de choro.


Na boca dum marinheiro

do frágil barco veleiro,

morrendo a canção magoada,

diz o pungir dos desejos

do lábio a queimar de beijos

que beija o ar, e mais nada,

que beija o ar, e mais nada.


Mãe, adeus. Adeus, Maria.

Guarda bem no teu sentido

que aqui te faço uma jura:

que ou te levo à sacristia,

ou foi Deus que foi servido

dar-me no mar sepultura.


Ora eis que embora outro dia,

quando o vento nem bulia

e o céu o mar prolongava,

à proa de outro veleiro

velava outro marinheiro

que, estando triste, cantava,

que, estando triste, cantava.

SEM REMÉDIO

Florbela Espanca

Aqueles que me têm muito amor

Não sabem o que sinto e o que sou...

Não sabem que passou, um dia, a Dor

À minha porta e, nesse dia, entrou.


E é desde então que eu sinto este pavor,

Este frio que anda em mim, e que gelou

O que de bom me deu Nosso Senhor!

Se eu nem sei por onde ando e onde vou!!


Sinto os passos de Dor, essa cadência

Que é já tortura infinda, que é demência!

Que é já vontade doida de gritar!


E é sempre a mesma mágoa, o mesmo tédio,

A mesma angústia funda, sem remédio,

Andando atrás de mim, sem me largar!

Edição 150, Setembro 2019

POEMA AZUL

Sophia de Mello Andersen

O mar beijando a areia

O céu e a lua cheia

Que cai no mar

Que abraça a areia

Que mostra o céu

E a lua cheia

Que prateia os cabelos do meu bem

Que olha o mar beijando a areia

E uma estrelinha solta no céu

Que cai no mar

Que abraça a areia

Que mostra o céu e a lua cheia

um beijo meu

LOUVOR DO REVOLUCIONÁRIO

Bertolt Brecht

Quando a opressão aumenta

Muitos se desencorajam

Mas a coragem dele cresce.

Ele organiza a luta

Pelo cêntimo do salário, pela água do chá

E pelo poder no Estado.

Pergunta à propriedade:

Donde vens tu?

Pergunta às opiniões:

A quem aproveitais?


Onde quer que todos calem

Ali falará ele

E onde reina a opressão e se fala do Destino

Ele nomeará os nomes.


Onde se senta à mesa

Senta-se a insatisfação à mesa

A comida estraga-se

E reconhece-se que o quarto é acanhado.


Pra onde quer que o expulsem, para lá

Vai a revolta, e donde é escorraçado

Fica ainda lá o desassossego.

A TERRA ONTEM E HOJE

Leda Cantalice de Medeiros


Eu era virgem e formosa

Vivia banhada em mel

Abelhas me trabalhavam

Só se via mata e céu

Me deleitava no sono

Como uma noiva, com véu.


Rios de águas, tão lindas.

Desciam por cima de mim

Sem sujeiras, e nem lixos.

Talvez, flores de jasmim

Hoje quase não me vejo

Mas alimento um desejo

De não estar chegando ao fim


Vejo os homens acabando

Aquele manancial

Rio Amazonas, tão lindo

São Francisco, no final

Como eu era tão decente

Tenho uma saudade, tão grande.

Gostaria que eu fosse

Como eu era antigamente


Os homens fazem queimadas

Com uma ganância cruel

Matam animais e matas

Me amargura como fel

Parece até que perderam

No coração o amor

Nem parece aquele homem

Que um dia, Deus criou


Fui tão bela e sadia

Hoje, doente e cansada

Vou morrendo a cada dia

Poluída e maltratada

Tenho pena dos que vêm

Não terão outra morada.

SOS MEIO AMBIENTE

Justo Chacon

Meio ambiente não é meio,

Não é sonho ou devaneio,

Não é conto ou poesia.

Meio ambiente é mais que meio,

É a redoma, é o esteio:

Bio-terra em harmonia.

Meio ambiente é a natureza,

Flora verde, mil riquezas,

Fauna viva - ao natural.

Meio ambiente é a própria vida,

Ou a morte pressentida,

Que buscamos, afinal?

Eis que o homem ganancioso,

Irresponsável, belicoso,

Ignora o grande mal

E a floresta dizimando,

A terra fértil calcinando,

Só pensou no vil metal.

Rios e lagos vão secando,

Água doce escasseando;

Floresta perde a cor.

Morre a fauna nessa guerra,

Triste fim da frágil terra:

Um deserto aterrador.

Chora o solo acinzentado,

Chora a mata o mal legado,

Chora a fauna tal desdém;

E o homem, indiferente,

Na ganância persistente,

Busca a morte, assim, também.

Edição 149, Junho 2019

UNS, COM OS OLHOS POSTOS NO PASSADO

Ricardo Reis


Uns, com os olhos postos no passado

Uns, com os olhos postos no passado,

Vêem o que não vêem; outros, fitos

Os mesmos olhos no futuro, vêem

O que não pode ver-se.


Porque tão longe ir pôr o que está perto —

A segurança nossa? Este é o dia,

Esta é a hora, este o momento, isto

É quem somos, e é tudo.


Perene flui a interminável hora

Que nos confessa nulos. No mesmo hausto

Em que vivemos, morreremos. Colhe

O dia, porque és ele.

PARA ATRAVESSAR CONTIGO O DESERTO DO MUNDO

Sophia de Mello Andersen


Para atravessar contigo o deserto do mundo

Para enfrentarmos juntos o terror da morte

Para ver a verdade para perder o medo

Ao lado dos teus passos caminhei


Por ti deixei meu reino meu segredo

Minha rápida noite meu silêncio

Minha pérola redonda e seu oriente

Meu espelho minha vida minha imagem

E abandonei os jardins do paraíso


Cá fora à luz sem véu do dia duro

Sem os espelhos vi que estava nua

E ao descampado se chamava tempo


Por isso com teus gestos me vestiste

E aprendi a viver em pleno vento

O TEMPO NÃO SABE NADA

Jorge Palma

o tempo não sabe nada

o tempo não tem razão

o tempo nunca existiu

é da nossa invenção


se abandonarmos as horas para nos sentirmos sós

meu amor o tempo somos nós


o espaço tem o volume

da imaginação

além do nosso horizonte

existe outra dimensão


o espaço foi construído sem princípio nem fim

meu amor tu cabes dentro de mim


o meu tesouro és tu

eternamente tu

não há passos divergentes para quem se quer encontrar


a nossa história começa

na total escuridão

onde o mistério ultrapassa

a nossa compreensão


a nossa história é o esforço para alcançar a luz

meu amor o impossível seduz


o meu tesouro és tu

eternamente tu

não há passos divergentes para quem se quer encontrar

BÍBLIAS DE UM DEUS ATEU

Sergio Godinho

No caule

da efémera flôr

cresce firme o amor

Meu Deus! Alá!

Há lá maior contradição?


Eram

dois estrantes

tipo flores brotantes

crescendo dentro da tenda

dos festivais de verão


Sucumbe-se aos

cheiros floridos do caos

sustendo as pétalas e a respiração


(É que) Em matérias do amor

rega-flor, pisa-flor

estamos sempre adolescendo

espesso livro vamos lendo

e coitados!

Somos sempre uns iletrados

estamos sempre adolescendo


Escreve o meu livro

e eu escrevo o teu

biblias de um deus ateu

flor seca às vezes já marcou

o que o mau olhado leu

Acreditou? Já descreu

artificial natural podes crer

que ao amor

vera flor vera flor

já cresceu podes crer

já cresceu

androceu gineceu


E tudo

o que o amor souber

é para desaprender

gatos

que sobre os tectos

noite fora miarão


Quando é

que o amor felino

ganha tento e ganha tino

e afasta as unhas

de perto do coração?


E fora do vaso

a pétala puxada ao acaso

um pouco not at all beaucoup

abre o seu Sésamo ou não?


Em matérias do amor

rega-flor, pisa-flor

estamos sempre adolescendo

espesso livro vamos lendo

e coitados!

Somos sempre uns iletrados

estamos sempre adolescendo


Escreve o meu livro

e eu escrevo o teu

biblias de um deus ateu

flor seca às vezes já marcou

o que o mau olhado leu

Acreditou? Já descreu

artificial natural podes crer

que ao amor

vera flor vera flor

já cresceu podes crer

já cresceu

androceu gineceu


E depois

regressa-se aos

moldes rombos de outro caos

ordem na sala

e junto à porta

a mala no chão


Enfim: metaforizando

a flor abre-se até quando?

e quando, depois de murchar

volta à lapela em botão?


(É que) Em matérias do amor

rega-flor, pisa-flor

estamos sempre adolescendo

espesso livro vamos lendo

e coitados!

Somos sempre uns iletrados

estamos sempre adolescendo


Escreve o meu livro

e eu escrevo o teu

biblias de um deus ateu

flor seca às vezes já marcou

o que o mau olhado leu

Acreditou? Já descreu

artificial natural podes crer

que ao amor

vera flor vera flor

já cresceu podes crer

já cresceu

androceu gineceu 

CONSTRUÇÃO

Chico Buarque

Amou daquela vez como se fosse a última

Beijou sua mulher como se fosse a última

E cada filho seu como se fosse o único

E atravessou a rua com seu passo tímido


Subiu a construção como se fosse máquina

Ergueu no patamar quatro paredes sólidas

Tijolo com tijolo num desenho mágico

Seus olhos embotados de cimento e lágrima


Sentou pra descansar como se fosse sábado

Comeu feijão com arroz como se fosse um príncipe

Bebeu e soluçou como se fosse um náufrago

Dançou e gargalhou como se ouvisse música


E tropeçou no céu como se fosse um bêbado

E flutuou no ar como se fosse um pássaro

E se acabou no chão feito um pacote flácido

Agonizou no meio do passeio público

Morreu na contramão, atrapalhando o tráfego


Amou daquela vez como se fosse o último

Beijou sua mulher como se fosse a única

E cada filho seu como se fosse o pródigo

E atravessou a rua com seu passo bêbado


Subiu a construção como se fosse sólido

Ergueu no patamar quatro paredes mágicas

Tijolo com tijolo num desenho lógico

Seus olhos embotados de cimento e tráfego


Sentou pra descansar como se fosse um príncipe

Comeu feijão com arroz como se fosse o máximo

Bebeu e soluçou como se fosse máquina

Dançou e gargalhou como se fosse o próximo


E tropeçou no céu como se ouvisse música

E flutuou no ar como se fosse sábado

E se acabou no chão feito um pacote tímido

Agonizou no meio do passeio náufrago

Morreu na contramão atrapalhando o público


Amou daquela vez como se fosse máquina

Beijou sua mulher como se fosse lógico

Ergueu no patamar quatro paredes flácidas

Sentou pra descansar como se fosse um pássaro

E flutuou no ar como se fosse um príncipe

E se acabou no chão feito um pacote bêbado

Morreu na contramão atrapalhando o sábado


Por esse pão pra comer, por esse chão pra dormir

A certidão pra nascer e a concessão pra sorrir

Por me deixar respirar, por me deixar existir

Deus lhe pague


Pela cachaça de graça que a gente tem que engolir

Pela fumaça e a desgraça que a gente tem que tossir

Pelos andaimes pingentes que a gente tem que cair

Deus lhe pague


Pela mulher carpideira pra nos louvar e cuspir

E pelas moscas bicheiras a nos beijar e cobrir

E pela paz derradeira que enfim vai nos redimir

Deus lhe pague

Edição 148, Maio 2019

POEMA DE AMOR

Ernesto Cardenal-Nicarágua

Ao perder-te eu a ti

tu e eu teremos perdido.

Eu, porque tu eras

o que eu mais amava;

e tu, porque era eu

o que te amava mais.


Mas, de nós dois

tu perdes mais do que eu.

Porque eu poderei amar a outras

como amava a ti,

Porém a ti não te amarão mais

do que eu te amava!


Original em castelhano:

Al perderte yo a ti,

tu y yo hemos perdido:

yo por que tu eres

lo que yo más amaba

y tú porque yo era

el que te amaba más.


Pero de nosotros dos,

tú pierdes más que yo:

porque yo podré amar a otras,

como te amaba a ti,

pero a ti no te amarám

como te amaba yo.

IGNOTO DEO

José Régio

Desisti de saber qual é o Teu nome,

Se tens ou não tens nome que Te demos,

Ou que rosto é que toma, se algum tome,

Teu sopro tão além de quanto vemos.


Desisti de Te amar, por mais que a fome

Do Teu amor nos seja o mais que temos,

E empenhei-me em domar, nem que os não dome,

Meus, por Ti, passionais e vãos extremos.


Chamar-Te amante ou pai... grotesco engano

Que por demais tresanda a gosto humano!

Grotesco engano o dar-te forma! E enfim,


Desisti de Te achar no quer que seja,

De Te dar nome, rosto, culto, ou igreja...

– Tu é que não desistirás de mim!

(in 'Biografia')

AOS QUE VIRÃO DEPOIS DE NÓS

Bertolt Brecht

Realmente, vivemos tempos muito sombrios!

A inocência é loucura. Uma fronte sem rugas

denota insensibilidade. Aquele que ri

ainda não recebeu a terrível notícia

que está para chegar.


Que tempos são estes, em que

é quase um delito

falar de coisas inocentes.

Pois implica silenciar tantos horrores!

Esse que cruza tranquilamente a rua

não poderá jamais ser encontrado

pelos amigos que precisam de ajuda?


É certo: ganho o meu pão ainda,

Mas acreditai-me: é pura casualidade.

Nada do que faço justifica

que eu possa comer até fartar-me.

Por enquanto as coisas me correm bem

(se a sorte me abandonar estou perdido).

E dizem-me: “Bebe, come! Alegra-te, pois tens o quê!”


Mas como posso comer e beber,

se ao faminto arrebato o que como,

se o copo de água falta ao sedento?

E todavia continuo comendo e bebendo.


Também gostaria de ser um sábio.

Os livros antigos nos falam da sabedoria:

é quedar-se afastado das lutas do mundo

e, sem temores,

deixar correr o breve tempo. Mas

evitar a violência,

retribuir o mal com o bem,

não satisfazer os desejos, antes esquecê-los

é o que chamam sabedoria.

E eu não posso fazê-lo. Realmente,

vivemos tempos sombrios.


Para as cidades vim em tempos de desordem,

quando reinava a fome.

Misturei-me aos homens em tempos turbulentos

e indignei-me com eles.

Assim passou o tempo

que me foi concedido na terra.


Comi o meu pão em meio às batalhas.

Deitei-me para dormir entre os assassinos.

Do amor me ocupei descuidadamente

e não tive paciência com a Natureza.

Assim passou o tempo

que me foi concedido na terra.


No meu tempo as ruas conduziam aos atoleiros.

A palavra traiu-me ante o verdugo.

Era muito pouco o que eu podia. Mas os governantes

Se sentiam, sem mim, mais seguros, — espero.

Assim passou o tempo

que me foi concedido na terra.


As forças eram escassas. E a meta

achava-se muito distante.

Pude divisá-la claramente,

ainda quando parecia, para mim, inatingível.

Assim passou o tempo

que me foi concedido na terra.


Vós, que surgireis da maré

em que perecemos,

lembrai-vos também,

quando falardes das nossas fraquezas,

lembrai-vos dos tempos sombrios

de que pudestes escapar.


Íamos, com efeito,

mudando mais freqüentemente de país

do que de sapatos,

através das lutas de classes,

desesperados,

quando havia só injustiça e nenhuma indignação.


E, contudo, sabemos

que também o ódio contra a baixeza

endurece a voz. Ah, os que quisemos

preparar terreno para a bondade

não pudemos ser bons.

Vós, porém, quando chegar o momento

em que o homem seja bom para o homem,

lembrai-vos de nós

com indulgência

INQUIETAÇÃO

José Mário Branco

A contas com o bem que tu me fazes

A contas com o mal por que passei

Com tantas guerras que travei

Já não sei fazer as pazes


São flores aos milhões entre ruínas

Meu peito feito campo de batalha

Cada alvorada que me ensinas

Oiro em pó que o vento espalha


Cá dentro inquietação, inquietação

É só inquietação, inquietação

Porquê, não sei

Porquê, não sei

Porquê, não sei ainda


Há sempre qualquer coisa que está pra acontecer

Qualquer coisa que eu devia perceber

Porquê, não sei

Porquê, não sei

Porquê, não sei ainda


Ensinas-me fazer tantas perguntas

Na volta das respostas que eu trazia

Quantas promessas eu faria

Se as cumprisse todas juntas


Não largues esta mão no torvelinho

Pois falta sempre pouco para chegar

Eu não meti o barco ao mar

Pra ficar pelo caminho


Cá dentro inqueitação, inquietação

É só inquietação, inquietação

Porquê, não sei

Porquê, não sei

Porquê, não sei ainda


Há sempre qualquer coisa que está pra acontecer

Qualquer coisa que eu devia perceber

Porquê, não sei

Porquê, não sei

Porquê, não sei ainda


Cá dentro inquietação, inquietação

É só inquietação, inquietação

Porquê, não sei

Mas sei

É que não sei ainda


Há sempre qualquer coisa que eu tenho que fazer

Qualquer coisa que eu devia resolver

Porquê, não sei

Mas sei

Que essa coisa é que é linda

Edição 147, Abril 2019

EU VIM DE LONGE

José Mário Branco

Quando o avião aqui chegou

Quando o mês de maio começou

Eu olhei para ti

Então entendi

Foi um sonho mau que já passou

Foi um mau bocado que acabou


Tinha esta viola numa mão

Uma flor vermelha na outra mão

Tinha um grande amor

Marcado pela dor

E quando a fronteira me abraçou

Foi esta bagagem que encontrou


Eu vim de longe

De muito longe

O que eu andei pra aqui chegar

Eu vou pra longe

Pra muito longe

Onde nos vamos encontrar

Com o que temos pra nos dar


E então olhei à minha volta

Vi tanta esperança andar à solta

Que não hesitei

E os hinos cantei

Foram feitos do meu coração

Feitos de alegria e de paixão


Quando a nossa festa se estragou

E o mês de Novembro se vingou

Eu olhei pra ti

E então entendi

Foi um sonho lindo que acabou

Houve aqui alguém que se enganou


Tinha esta viola numa mão

Coisas começadas noutra mão

Tinha um grande amor

Marcado pela dor

E quando a espingarda se virou

Foi pra esta força que apontou


E então olhei à minha volta

Vi tanta mentira andar à solta

Que me perguntei

Se os hinos que cantei

Eram só promessas e ilusões

Que nunca passaram de canções


Eu vim de longe

De muito longe

O que eu andei pra aqui chegar

Eu vou pra longe

P'ra muito longe

Onde nos vamos encontrar

Com o que temos pra nos dar


Quando eu finalmente eu quis saber

Se ainda vale a pena tanto crer

Eu olhei para ti

Então eu entendi

É um lindo sonho para viver

Quando toda a gente assim quiser


Tenho esta viola numa mão

Tenho a minha vida noutra mão

Tenho um grande amor

Marcado pela dor

E sempre que Abril aqui passar

Dou-lhe este farnel para o ajudar


Eu vim de longe

De muito longe

O que eu andei pra aqui chegar

Eu vou p'ra longe

P'ra muito longe

Onde nos vamos encontrar

Com o que temos pra nos dar


E agora eu olho à minha volta

Vejo tanta raiva andar a solta

Que já não hesito

Os hinos que repito

São a parte que eu posso prever

Do que a minha gente vai fazer


Eu vim de longe

De muito longe

O que eu andei prá aqui chegar

Eu vou pra longe

P'ra muito longe

Onde nos vamos encontrar

Com o que temos pra nos dar

DEZ RÉIS DE ESPERANÇA

António Gedeão

Se não fosse esta certeza

que nem sei de onde me vem,

não comia, nem bebia,

nem falava com ninguém.

Acocorava-me a um canto,

no mais escuro que houvesse,

punha os joelhos à boca

e viesse o que viesse.

Não fossem os olhos grandes

do ingénuo adolescente,

a chuva das penas brancas

a cair impertinente,

aquele incógnito rosto,

pintado em tons de aguarela,

que sonha no frio encosto

da vidraça da janela,

não fosse a imensa piedade

dos homens que não cresceram,

que ouviram, viram, ouviram,

viram, e não perceberam,

essas máscaras selectas,

antologia do espanto,

flores sem caule, flutuando

no pranto do desencanto,

se não fosse a fome e a sede

dessa humanidade exangue,

roía as unhas e os dedos

até os fazer em sangue.

PAISAGEM

Sophia de Mello Breyner Andresen

Passavam pelo ar aves repentinas,

O cheiro da terra era fundo e amargo,

E ao longe as cavalgadas do mar largo

Sacudiam na areia as suas crinas.


Era o céu azul, o campo verde, a terra escura,

Era a carne das árvores elástica e dura,

Eram as gotas de sangue da resina

E as folhas em que a luz se descombina.


Eram os caminhos num ir lento,

Eram as mãos profundas do vento

Era o livre e luminoso chamamento

Da asa dos espaços fugitiva.


Eram os pinheirais onde o céu poisa,

Era o peso e era a cor de cada coisa,

A sua quietude, secretamente viva,

E a sua exalação afirmativa.


Era a verdade e a força do mar largo,

Cuja voz, quando se quebra, sobe,

Era o regresso sem fim e a claridade

Das praias onde a direito o vento corre.

OS AMANTES SEM DINHEIRO

Eugénio de Andrade


Tinham o rosto aberto a quem passava.

Tinham lendas e mitos

e frio no coração.

Tinham jardins onde a lua passeava

de mãos dadas com a água

e um anjo de pedra por irmão.


Tinham como toda a gente

o milagre de cada dia

escorrendo pelos telhados;

e olhos de oiro

onde ardiam

os sonhos mais tresmalhados.


Tinham fome e sede como os bichos,

e silêncio

à roda dos seus passos.

Mas a cada gesto que faziam

um pássaro nascia dos seus dedos

e deslumbrado penetrava nos espaços.

Edição 146, Março 2019

O MEU OLHAR

Alberto Caeiro

O meu olhar é nítido como um girassol.

Tenho o costume de andar pelas estradas

Olhando para a direita e para a esquerda,

E de, vez em quando olhando para trás...

E o que vejo a cada momento

É aquilo que nunca antes eu tinha visto,

E eu sei dar por isso muito bem...

Sei ter o pasmo essencial

Que tem uma criança se, ao nascer,

Reparasse que nascera deveras...

Sinto-me nascido a cada momento

Para a eterna novidade do Mundo...


Creio no mundo como num malmequer,

Porque o vejo. Mas não penso nele

Porque pensar é não compreender ...

O Mundo não se fez para pensarmos nele

(Pensar é estar doente dos olhos)

Mas para olharmos para ele e estarmos de acordo...


Eu não tenho filosofia: tenho sentidos...

Se falo na Natureza não é porque saiba o que ela é,

Mas porque a amo, e amo-a por isso,

Porque quem ama nunca sabe o que ama

Nem sabe por que ama, nem o que é amar ...


Amar é a eterna inocência,

E a única inocência não pensar...

NEM SEMPRE SOU IGUAL

Alberto Caeiro

Nem sempre sou igual no que digo e escrevo.

Mudo, mas não mudo muito.

A cor das flores não é a mesma ao sol

De que quando uma nuvem passa

Ou quando entra a noite

E as flores são cor da sombra.


Mas quem olha bem vê que são as mesmas flores.

Por isso quando pareço não concordar comigo,

Reparem bem para mim:

Se estava virado para a direita,

Voltei-me agora para a esquerda,

Mas sou sempre eu, assente sobre os mesmos pés

O mesmo sempre, graças ao céu e à terra

E aos meus olhos e ouvidos atentos

E à minha clara simplicidade de alma ...

CALÇADA DE CARRICHE

António Gedeão

Luísa sobe,

sobe a calçada,

sobe e não pode

que vai cansada.

Sobe, Luísa,

Luísa, sobe,

sobe que sobe

sobe a calçada.

Saiu de casa

de madrugada;

regressa a casa

é já noite fechada.

Na mão grosseira,

de pele queimada,

leva a lancheira

desengonçada.

Anda, Luísa,

Luísa, sobe,

sobe que sobe,

sobe a calçada.


Luísa é nova,

desenxovalhada,

tem perna gorda,

bem torneada.

Ferve-lhe o sangue

de afogueada;

saltam-lhe os peitos

na caminhada.

Anda, Luísa.

Luísa, sobe,

sobe que sobe,

sobe a calçada.

Passam magalas,

rapaziada,

palpam-lhe as coxas

não dá por nada.

Anda, Luísa,

Luísa, sobe,

sobe que sobe,

sobe a calçada.

Chegou a casa

não disse nada.

Pegou na filha,

deu-lhe a mamada;

bebeu a sopa

numa golada;

lavou a loiça,

varreu a escada;

deu jeito à casa

desarranjada;

coseu a roupa

já remendada;

despiu-se à pressa,

desinteressada;

caiu na cama

de uma assentada;

chegou o homem,

viu-a deitada;

serviu-se dela,

não deu por nada.

Anda, Luísa.

Luísa, sobe,

sobe que sobe,

sobe a calçada.

Na manhã débil,

sem alvorada,

salta da cama,

desembestada;

puxa da filha,

dá-lhe a mamada;

veste-se à pressa,

desengonçada;

anda, ciranda,

desaustinada;

range o soalho

a cada passada,

salta para a rua,

corre açodada,

galga o passeio,

desce o passeio,

desce a calçada,

chega à oficina

à hora marcada,

puxa que puxa,

larga que larga,

puxa que puxa,

larga que larga,

puxa que puxa,

larga que larga,

puxa que puxa,

larga que larga;

toca a sineta

na hora aprazada,

corre à cantina,

volta à toada,

puxa que puxa,

larga que larga,

puxa que puxa,

larga que larga,

puxa que puxa,

larga que larga.

Regressa a casa

é já noite fechada.

Luísa arqueja

pela calçada.

Anda, Luísa,

Luísa, sobe,

sobe que sobe,

sobe a calçada,

sobe que sobe,

sobe a calçada,

sobe que sobe,

sobe a calçada.

Anda, Luísa,

Luísa, sobe,

sobe que sobe,

sobe a calçada.

Poesias Completas (1956-1967)

SONETO DO AMOR TOTAL

Vinícius de Moraes


Amo-te tanto, meu amor… não cante

O humano coração com mais verdade…

Amo-te como amigo e como amante

Numa sempre diversa realidade


Amo-te afim, de um calmo amor prestante,

E te amo além, presente na saudade.

Amo-te, enfim, com grande liberdade

Dentro da eternidade e a cada instante.


Amo-te como um bicho, simplesmente,

De um amor sem mistério e sem virtude

Com um desejo maciço e permanente.


E de te amar assim muito e amiúde,

É que um dia em teu corpo de repente

Hei de morrer de amar mais do que pude.

Edição 145, Fevereiro 2019

DUARTE LUZ

Julho ardente, o sol queimava na terra e a água secava nas fontes

E cantavam as cigarras no campo cantavam

Que eu vivo neste mundo como pedra desses montes

E choravam os meus olhos choravam

Desci ao ribeiro por entre silvados de amoras pretas

E na erva saltavam grilos saltavam

Cantarolava acompanhado de borboletas

E elas dançavam sobre as flores dançavam

Mil amores plantados em lágrimas floriam

Em sonhos me transformava e eles se transformavam

Desci ao ribeiro onde os bichos sequiosos bebiam

Por eles esperava e eles por mim esperavam

Brotavam papoilas e outras flores silvestres

Entre estevas e resina que nas pedras ardia

Julho ardente e num aroma campestre

Escondia-me do sol e a sombra de mim se escondia

Junto ao velho sobreiro encostado na tarde calma

Fechava os olhos e eles por dentro sorriam

Que este teu filho é fruto da tua casca e da tua alma

E por fora os meus olhos fechados desabrochavam e floriam

Regressava sem lágrimas, como ribeiros sem água

terras sem vales nem montes

Como campos secos sem trigais nem flores

Como árvores sem ramos e rios sem pontes.

Julho ardente que é da minha infância perdida?

POEMA

Sophia de Mello Andersen

A minha vida é o mar o abril a rua

O meu interior é uma atenção voltada para fora

O meu viver escuta

A frase que de coisa em coisa silabada

Grava no espaço e no tempo a sua escrita


Não trago Deus em mim mas no mundo o procuro

Sabendo que o real o mostrará


Não tenho explicações

Olho e confronto

E por método é nu meu pensamento


A terra o sol o vento o mar

São a minha biografia e são meu rosto


Por isso não me peçam cartão de identidade

Pois nenhum outro senão o mundo tenho

Não me peçam opiniões nem entrevistas

Não me perguntem datas nem moradas

De tudo quanto vejo me acrescento


E a hora da minha morte aflora lentamente

Cada dia preparada

MARCELO E AS TÁGIDES

Natália Correia

Marcelo, em cupidez municipal

de coroar-se com louros alfacinhas,

atira-se valoroso – ó bacanal! –

ao leito húmido das Tágides daninhas.


Para conquistar as Musas de Camões

lança a este, Marcelo, um desafio:

Jogou-se ao verso o épico? Ilusões!…

Bate-o Marcelo que se joga ao rio.


E em eleitorais estrofes destemidas,

do autárquico sonho, o nadador

diz que curara as ninfas poluídas

com o milagre do seu corpo em flor.


Outros prodígios – dizem – congemina:

ir aos bairros da lata e ali, sem medo,

dormir para os limpar da vil vérmina

e triunfal ficar cheio de pulguedo.


Por fim, rumo ao céu, novo Gusmão

de asa delta a fazer de passarola,

sobrevoa Lisboa o passarão

e perde a pena que é de galinhola.

ESTA GENTE

Sophia de Mello Breyner Andresen*


Esta gente cujo rosto

Às vezes luminoso

E outras vezes tosco

Ora me lembra escravos

Ora me lembra reis


Faz renascer meu gosto

De luta e de combate

Contra o abutre e a cobra

O porco e o milhafre


Pois a gente que tem

O rosto desenhado

Por paciência e fome

É a gente em quem

Um país ocupado

Escreve o seu nome


E em frente desta gente

Ignorada e pisada

Como a pedra do chão

E mais do que a pedra

Humilhada e calcada


Meu canto se renova

E recomeço a busca

De um país liberto

De uma vida limpa

E de um tempo justo

*in "Geografia"

Edição 144, Janeiro 2019

CHAMA À TUA CLARIDADE
A TOTALIDADE DO MEU SER

Sophia de Mello Breyner Andresen

Senhor,

como estás longe e oculto e presente!

Ouço apenas o ressoar do teu silêncio

que avança para mim,

e a minha vida apenas toca

a franja límpida da tua ausência.

Fito em meu redor

a solenidade das coisas

como quem tenta decifrar

uma escrita difícil.

Mas és tu que me lês e me conheces.

Faz que nada do meu ser se esconda.

Chama à tua claridade

a totalidade do meu ser

para que o meu pensamento

se torne transparente e possa escutar

a palavra que desde sempre me dizes.

ODE TRIUNFAL

Álvaro de Campos

(in “Poemas”)

À dolorosa luz das grandes lâmpadas eléctricas da fábrica

Tenho febre e escrevo.

Escrevo rangendo os dentes, fera para a beleza disto,

Para a beleza disto totalmente desconhecida dos antigos.


Ó rodas, ó engrenagens, r-r-r-r-r-r-r eterno!

Forte espasmo retido dos maquinismos em fúria!

Em fúria fora e dentro de mim,

Por todos os meus nervos dissecados fora,

Por todas as papilas fora de tudo com que eu sinto!

Tenho os lábios secos, ó grandes ruídos modernos,

De vos ouvir demasiadamente de perto,

E arde-me a cabeça de vos querer cantar com um excesso

De expressão de todas as minhas sensações,

Com um excesso contemporâneo de vós, ó máquinas!


Em febre e olhando os motores como a uma Natureza tropical –

Grandes trópicos humanos de ferro e fogo e força –

Canto, e canto o presente, e também o passado e o futuro,

Porque o presente é todo o passado e todo o futuro

E há Platão e Virgílio dentro das máquinas e das luzes eléctricas

Só porque houve outrora e foram humanos Virgílio e Platão,

E pedaços do Alexandre Magno do século talvez cinquenta,

Átomos que hão-de ir ter febre para o cérebro do Ésquilo do século cem,

Andam por estas correias de transmissão e por estes êmbolos e por estes volantes,

Rugindo, rangendo, ciciando, estrugindo, ferreando,

Fazendo-me um acesso de carícias ao corpo numa só carícia à alma.


Ah, poder exprimir-me todo como um motor se exprime!

Ser completo como uma máquina!

Poder ir na vida triunfante como um automóvel último-modelo!

Poder ao menos penetrar-me fisicamente de tudo isto,

Rasgar-me todo, abrir-me completamente, tornar-me passento

A todos os perfumes de óleos e calores e carvões

Desta flora estupenda, negra, artificial e insaciável!


Fraternidade com todas as dinâmicas!

Promíscua fúria de ser parte-agente

Do rodar férreo e cosmopolita

Dos comboios estrénuos,

Da faina transportadora-de-cargas dos navios,

Do giro lúbrico e lento dos guindastes,

Do tumulto disciplinado das fábricas,

E do quase-silêncio ciciante e monótono das correias de transmissão!


Horas europeias, produtoras, entaladas

Entre maquinismos e afazeres úteis!

Grandes cidades paradas nos cafés,

Nos cafés – oásis de inutilidades ruidosas

Onde se cristalizam e se precipitam

Os rumores e os gestos do Útil

E as rodas, e as rodas-dentadas e as chumaceiras do Progressivo!

Nova Minerva sem-alma dos cais e das gares!

Novos entusiasmos de estatura do Momento!

Quilhas de chapas de ferro sorrindo encostadas às docas,

Ou a seco, erguidas, nos planos-inclinados dos portos!

Actividade internacional, transatlântica, Canadian-Pacific!

Luzes e febris perdas de tempo nos bares, nos hotéis,

Nos Longchamps e nos Derbies e nos Ascots,

E Piccadillies e Avenues de L’Opéra que entram

Pela minh’alma dentro!


Hé-lá as ruas, hé-lá as praças, hé-lá-hô la foule!

Tudo o que passa, tudo o que pára às montras!

Comerciantes; vários; escrocs exageradamente bem-vestidos;

Membros evidentes de clubes aristocráticos;

Esquálidas figuras dúbias; chefes de família vagamente felizes

E paternais até na corrente de oiro que atravessa o colete

De algibeira a algibeira!

Tudo o que passa, tudo o que passa e nunca passa!

Presença demasiadamente acentuada das cocotes

Banalidade interessante (e quem sabe o quê por dentro?)

Das burguesinhas, mãe e filha geralmente,

Que andam na rua com um fim qualquer;

A graça feminil e falsa dos pederastas que passam, lentos;

E toda a gente simplesmente elegante que passeia e se mostra

E afinal tem alma lá dentro!


(Ah, como eu desejaria ser o souteneur disto tudo!)


A maravilhosa beleza das corrupções políticas,

Deliciosos escândalos financeiros e diplomáticos,

Agressões políticas nas ruas,

E de vez em quando o cometa dum regicídio

Que ilumina de Prodígio e Fanfarra os céus

Usuais e lúcidos da Civilização quotidiana!


Notícias desmentidas dos jornais,

Artigos políticos insinceramente sinceros,

Notícias passez à-la-caisse, grandes crimes –

Duas colunas deles passando para a segunda página!

O cheiro fresco a tinta de tipografia!

Os cartazes postos há pouco, molhados!

Vients-de-paraître amarelos como uma cinta branca!

Como eu vos amo a todos, a todos, a todos,

Como eu vos amo de todas as maneiras,

Com os olhos e com os ouvidos e com o olfacto

E com o tacto (o que palpar-vos representa para mim!)

E com a inteligência como uma antena que fazeis vibrar!

Ah, como todos os meus sentidos têm cio de vós!


Adubos, debulhadoras a vapor, progressos da agricultura!

Química agrícola, e o comércio quase uma ciência!

Ó mostruários dos caixeiros-viajantes,

Dos caixeiros-viajantes, cavaleiros-andantes da Indústria,

Prolongamentos humanos das fábricas e dos calmos escritórios!


Ó fazendas nas montras! Ó manequins! Ó últimos figurinos!

Ó artigos inúteis que toda a gente quer comprar!

Olá grandes armazéns com várias secções!

Olá anúncios eléctricos que vêm e estão e desaparecem!

Olá tudo com que hoje se constrói, com que hoje se é diferente de ontem!

Eh, cimento armado, beton de cimento, novos processos!

Progressos dos armamentos gloriosamente mortíferos!

Couraças, canhões, metralhadoras, submarinos, aeroplanos!

Amo-vos a todos, a tudo, como uma fera.

Amo-vos carnivoramente.

Pervertidamente e enroscando a minha vista

Em vós, ó coisas grandes, banais, úteis, inúteis,

Ó coisas todas modernas,

Ó minhas contemporâneas, forma actual e próxima

Do sistema imediato do Universo!

Nova Revelação metálica e dinâmica de Deus!


Ó fábricas, ó laboratórios, ó music-halls, ó Luna-Parks,

Ó couraçados, ó pontes, ó docas flutuantes –

Na minha mente turbulenta e encandescida

Possuo-vos como a uma mulher bela,

Completamente vos possuo como a uma mulher bela que não se ama,

Que se encontra casualmente e se acha interessantíssima.


Eh-lá-hô fachadas das grandes lojas!

Eh-lá-hô elevadores dos grandes edifícios!

Eh-lá-hô recomposições ministeriais!

Parlamentos, políticas, relatores de orçamentos,

Orçamentos falsificados!

(Um orçamento é tão natural como uma árvore

E um parlamento tão belo como uma borboleta).


Eh-lá o interesse por tudo na vida,

Porque tudo é a vida, desde os brilhantes nas montras

Até à noite ponte misteriosa entre os astros

E o mar antigo e solene, lavando as costas

E sendo misericordiosamente o mesmo

Que era quando Platão era realmente Platão

Na sua presença real e na sua carne com a alma dentro,

E falava com Aristóteles, que havia de não ser discípulo dele.


Eu podia morrer triturado por um motor

Com o sentimento de deliciosa entrega duma mulher possuída.

Atirem-me para dentro das fornalhas!

Metam-me debaixo dos comboios!

Espanquem-me a bordo de navios!

Masoquismo através de maquinismos!

Sadismo de não sei quê moderno e eu e barulho!


Up-lá hô jockey que ganhaste o Derby,

Morder entre dentes o teu cap de duas cores!


(Ser tão alto que não pudesse entrar por nenhuma porta!

Ah, olhar é em mim uma perversão sexual!)


Eh-lá, eh-lá, eh-lá, catedrais!

Deixai-me partir a cabeça de encontro às vossas esquinas.


E ser levado da rua cheio de sangue

Sem ninguém saber quem eu sou!


Ó tramways, funiculares, metropolitanos,

Roçai-vos por mim até ao espasmo!

Hilla! hilla! hilla-hô!

Dai-me gargalhadas em plena cara,

Ó automóveis apinhados de pândegos e de putas

Ó multidões quotidianas nem alegres nem tristes das ruas,

Rio multicolor anónimo e onde eu me posso banhar como quereria!

Ah, que vidas complexas, que coisas lá pelas casas de tudo isto!

Ah, saber-lhes as vidas a todos, as dificuldades de dinheiro,

As dissensões domésticas, os deboches que não se suspeitam,

Os pensamentos que cada um tem a sós consigo no seu quarto

E os gestos que faz quando ninguém pode ver!

Não saber tudo isto é ignorar tudo, ó raiva,

Ó raiva que como uma febre e um cio e uma fome

Me põe a magro o rosto e me agita às vezes as mãos

Em crispações absurdas em pleno meio das turbas

Nas ruas cheias de encontrões!


Ah, e a gente ordinária e suja, que parece sempre a mesma,

Que emprega palavrões como palavras usuais,

Cujos filhos roubam às portas das mercearias

E cujas filhas aos oito anos – e eu acho isto belo e amo-o! –

Masturbam homens de aspecto decente nos vãos de escada.

A gentalha que anda pelos andaimes e que vai para casa

Por vielas quase irreais de estreiteza e podridão.

Maravilhosamente gente humana que vive como os cães

Que está abaixo de todos os sistemas morais,

Para quem nenhuma religião foi feita,

Nenhuma arte criada,

Nenhuma política destinada para eles!

Como eu vos amo a todos, porque sois assim,

Nem imorais de tão baixos que sois, nem bons nem maus,

Inatingíveis por todos os progressos,

Fauna maravilhosa do fundo do mar da vida!


(Na nora do quintal da minha casa

O burro anda à roda, anda à roda,

E o mistério do mundo é do tamanho disto.

Limpa o suor com o braço, trabalhador descontente.

A luz do sol abafa o silêncio das esferas

E havemos todos de morrer,

Ó pinheirais sombrios ao crepúsculo,

Pinheirais onde a minha infância era outra coisa

Do que eu sou hoje…)


Mas, ah outra vez a raiva mecânica constante!

Outra vez a obsessão movimentada dos ónibus.

E outra vez a fúria de estar indo ao mesmo tempo dentro de todos os comboios

De todas as partes do mundo,

De estar dizendo adeus de bordo de todos os navios,

Que a estas horas estão levantando ferro ou afastando-se das docas.

Ó ferro, ó aço, ó alumínio, ó chapas de ferro ondulado!

Ó cais, ó portos, ó comboios, ó guindastes, ó rebocadores!


Eh-lá grandes desastres de comboios!

Eh-lá desabamentos de galerias de minas!

Eh-lá naufrágios deliciosos dos grandes transatlânticos!

Eh-lá-hô revoluções aqui, ali, acolá,

Alterações de constituições, guerras, tratados, invasões,

Ruído, injustiças, violências, e talvez para breve o fim,

A grande invasão dos bárbaros amarelos pela Europa,

E outro Sol no novo Horizonte!


Que importa tudo isto, mas que importa tudo isto

Ao fúlgido e rubro ruído contemporâneo,

Ao ruído cruel e delicioso da civilização de hoje?

Tudo isso apaga tudo, salvo o Momento,

O Momento de tronco nu e quente como um fogueiro,

O Momento estridentemente ruidoso e mecânico,

O Momento dinâmico passagem de todas as bacantes

Do ferro e do bronze e da bebedeira dos metais.


Eia comboios, eia pontes, eia hotéis à hora do jantar,

Eia aparelhos de todas as espécies, férreos, brutos, mínimos,

Instrumentos de precisão, aparelhos de triturar, de cavar,

Engenhos brocas, máquinas rotativas!


Eia! eia! eia!

Eia electricidade, nervos doentes da Matéria!

Eia telegrafia-sem-fios, simpatia metálica do Inconsciente!

Eia túneis, eia canais, Panamá, Kiel, Suez!

Eia todo o passado dentro do presente!

Eia todo o futuro já dentro de nós! eia!

Eia! eia! eia!

Frutos de ferro e útil da árvore-fábrica cosmopolita!

Eia! eia! eia! eia-hô-ô-ô!

Nem sei que existo para dentro. Giro, rodeio, engenho-me.

Engatam-me em todos os comboios.

Içam-me em todos os cais.

Giro dentro das hélices de todos os navios.

Eia! eia-hô! eia!

Eia! sou o calor mecânico e a electricidade!

Eia! e os rails e as casas de máquinas e a Europa!

Eia e hurrah por mim-tudo e tudo, máquinas a trabalhar, eia!

Galgar com tudo por cima de tudo! Hup-lá!

Hup-lá, hup-lá, hup-lá-hô, hup-lá!

Hé-la! He-hô! H-o-o-o-o!


Z-z-z-z-z-z-z-z-z-z-z-z!

Ah não ser eu toda a gente e toda a parte!

PORQUE

Sophia de Mello Anderson


Porque os outros se mascaram mas tu não

Porque os outros usam a virtude

Para comprar o que não tem perdão.

Porque os outros têm medo mas tu não.

Porque os outros são os túmulos caiados

Onde germina calada a podridão.

Porque os outros se calam mas tu não.


Porque os outros se compram e se vendem

E os seus gestos dão sempre dividendo.

Porque os outros são hábeis mas tu não.


Porque os outros vão à sombra dos abrigos

E tu vais de mãos dadas com os perigos.

Porque os outros calculam mas tu não.

ADORAÇÃO

Guerra Junqueiro

Eu não te tenho amor simplesmente. A paixão

Em mim não é amor; filha, é adoração!

Nem se fala em voz baixa à imagem que se adora.

Quando da minha noite eu te contemplo, aurora,

E, estrela da manhã, um beijo teu perpassa

Em meus lábios, oh! quando essa infinita graça

do teu piedoso olhar me inunda, nesse instante

Eu sinto – virgem linda, inefável, radiante,

Envolta num clarão balsâmico da lua,

A minh'alma ajoelha, trémula, aos pés da tua!

Adoro-te!... Não és só graciosa, és bondosa:

Além de bela és santa; além de estrela és rosa.

Bendito seja o deus, bendita a Providência

Que deu o lírio ao monte e à tua alma a inocência,

O deus que te criou, anjo, para eu te amar,

E fez do mesmo azul o céu e o teu olhar!...

(in 'Poesias Dispersas)

Edição 143, Dezembro 2018

OS ARGONAUTAS

Francisca Júlia Da Silva

Mar fora, ei-los que vão, cheios de ardor insano;

Os astros e o luar — amigas sentinelas —

Lançam bênçãos de cima às largas caravelas

Que rasgam fortemente a vastidão do oceano.

Ei-los que vão buscar noutras paragens belas

Infindos cabedais de algum tesouro arcano…

E o vento austral que passa, em cóleras, ufano,

Faz palpitar o bojo às retesadas velas.

Novos céus querem ver, miríficas belezas,

Querem também possuir tesouros e riquezas

Como essas naus, que têm galhardetes e mastros…

Ateiam-lhes a febre essas minas supostas…

E, olhos fitos no vácuo, imploram, de mãos postas,

A áurea bênção dos céus e a proteção dos astros…

QUANDO A ESPERA NÃO TEM FIM, HÁ DISTÂNCIAS SEM PERDÃO

Pedro Abrunhosa

Não posso deixar que te leve

O castigo da ausência,

Vou ficar a esperar

E vais ver-me lutar

Para que esse mar

não nos vença.


Não posso pensar

que esta noite

Adormeço sozinho,

Vou ficar a escrever,

E talvez vá vencer

O teu longo caminho.


Quero que saibas

Que sem ti não há lua,

Nem as árvores crescem,

Ou as mãos amanhecem

Entre as sombras da rua.


Leva os meus braços,

Esconde-te em mim,

Que a dor do silêncio

Contigo eu venço

Num beijo assim.


Não posso deixar

de sentir-te

Na memória das mãos,

Vou ficar a despir-te,

E talvez ouça rir-te

Nas paredes, no chão.


Não posso mentir

que as lágrimas

São saudades do beijo,

Vou ficar mais despido

Que um corpo vencido,

Perdido em desejo.


Quero que saibas

Que sem ti não há lua,

Nem as árvores crescem,

Ou as mãos amanhecem

Entre as sombras da rua.

PARA ATRAVESSAR CONTIGO O DESERTO DO MUNDO

Sophia de Mello Breyner

Para atravessar contigo o deserto do mundo
Para enfrentarmos juntos o terror da morte
Para ver a verdade para perder o medo
Ao lado dos teus passos caminhei

Por ti deixei meu reino meu segredo
Minha rápida noite meu silêncio
Minha pérola redonda e seu oriente
Meu espelho minha vida minha imagem
E abandonei os jardins do paraíso

Cá fora à luz sem véu do dia duro
Sem os espelhos vi que estava nua
E ao descampado se chamava tempo

Por isso com teus gestos me vestiste
E aprendi a viver em pleno vento
in 'Livro Sexto

NÃO DIGAS NADA!

Fernando Pessoa

Não digas nada!

Nem mesmo a verdade

Há tanta suavidade em nada se dizer

E tudo se entender —

Tudo metade

De sentir e de ver...

Não digas nada

Deixa esquecer


Talvez que amanhã

Em outra paisagem

Digas que foi vã

Toda essa viagem

Até onde quis

Ser quem me agrada...

Mas ali fui feliz

Não digas nada.

in "Cancioneiro"

Edição 142 Novembro 2018

POETA

Teixeira de Pascoaes

Quando a primeira lágrima aflorou

Nos meus olhos, divina claridade

A minha pátria aldeia alumiou

Duma luz triste, que era já saudade.

Humildes, pobres cousas, como eu sou

Dor acesa na vossa escuridade...


Sou, em futuro, o tempo que passou-

Em num, o antigo tempo é nova idade.


Sou fraga da montanha, névoa astral,

Quimérica figura matinal,

Imagem de alma em terra modelada.


Sou o homem de si mesmo fugitivo;

Fantasma a delirar, mistério vivo,


A loucura de Deus, o sonho e o nada.

VOZ DE SANGUE

Agostinho Neto

Palpitam-me

os sons do batuque

e os ritmos melancólicos do blue


Ó negro esfarrapado do Harlem...

ó dançarino de Chicago

ó negro servidor do South


Ó negro de África

negros de todo o mundo

eu junto ao vosso canto

a minha pobre voz

os meus humildes ritmos.


Eu vos acompanho

pelas emaranhadas áfricas

do nosso Rumo


Eu vos sinto

negros de todo o mundo

eu vivo a vossa Dor

meus irmãos.

ÁFRICA DOS MEUS SONHOS

Morgado Mbalate

Prefiro acreditar na poesia a crer nos políticos.

Entro no tempo e abro uma janela no chão da memória.

A janela do meu quarto é a melhor e a maior vista do mundo.

Eu vivo em poesia.

Viver em poesia é saber dançar com palavras e sonhos.

O que me dói nesta minha África é ver

alguma parte dela que vai deixando de ser África.

Vivo longe dos africanos que estão se tornando ocidentais.

Vivo próximo dos africanos originais.

África, sinto-te aqui no meu coração.

África é para ti minha dedicação.

África és a magia que inunda minha vida.

Minha poesia se abre para o teu olhar.

O inimigo pode roubar todas as grandezas e riquezas da África.

Mas o inimigo jamais poderá roubar a beleza do meu sonho africano.

O QUE CABE NUMA PÁGINA

Ondjaki (Angola)

o que cabe numa página

é metade do odor

de cada lágrima por recordar.

não se vê o sangue

não há vestígios de quem espera

o nascimento de uma estrela

oriunda do mar.


o que cabe numa praia

é o olhar daquele que se senta

sessenta segundos

olhando o mar.


não ficam anéis na areia

não ficam pegadas

do que foram os dedos

sôfregos

esgravatando por paz.

Edição 141 Outubro 2018

REFLEXÕES NO DIA

DOS MEUS ANOS

José Craveirinha (Moçambique)

Faço anos.

Quantos já não interessa.

Por uma questão de glândulas

infalivelmente na barba e nas têmporas

aos poucos e poucos envelheço.


Faço anos e neste dia

há sempre umas recordações interessantes

ao mesmo tempo que mudamos na aparência

e aos outros parecemos bem conservados

enfim!

Não expirado o prazo da minha ausência

no meu bairro da Munhuana

no preciso dia do meu aniversário

lá com certeza o dia amanheceu

todo assoado de nuvens.

Ah, tudo se transforma!


Eu que faço anos

e o tempo inexorável não perdoamos

aos que não acreditam em augúrios

e apesar das mil coisas tristes

os cabelos brancos embelezam-me as fontes

e as notícias nem sempre são todas más

e em segredo algumas

até me rejuvenescem intimamente.

Faço anos

e o bolor da saudade arroxeia-me as olheiras

e dá-me um ar de homem circunspecto

que lê Camus.

Mas ao mesmo tempo que admiro as viagens espaciais

os antibióticos

e por exemplo a televisão

ainda me embriaga a retina

um quadro de Portinari

o andar cadenciado duma mulher

um bom jogo de futebol

e um autêntico céu azul a milhafres de nada.

GRITO NEGRO

José João Craveirinha

Eu sou carvão!

E tu arrancas-me brutalmente do chão

e fazes-me tua mina, patrão.


Eu sou carvão!

E tu acendes-me, patrão,

para te servir eternamente como força motriz

mas eternamente não, patrão.


Eu sou carvão

e tenho que arder sim;

queimar tudo com a força da minha combustão.


Eu sou carvão;

tenho que arder na exploração

arder até às cinzas da maldição

arder vivo como alcatrão, meu irmão,

até não ser mais a tua mina, patrão.


Eu sou carvão.

Tenho que arder

Queimar tudo com o fogo da minha combustão.

Sim!

Eu sou o teu carvão, patrão.

CANTO DE NASCIMENTO

Ana Paula Tavares (Angola)

Aceso está o fogo

prontas as mãos


o dia parou a sua lenta marcha

de mergulhar na noite.


As mãos criam na água

uma pele nova


panos brancos

uma panela a ferver

mais a faca de cortar


Uma dor fina

a marcar os intervalos de tempo

vinte cabaças de leite

que o vento trabalha manteiga


a lua pousada na pedra de afiar


Uma mulher oferece à noite

o silêncio aberto

de um grito

sem som nem gesto

apenas o silêncio aberto assim ao grito

solto ao intervalo das lágrimas


As velhas desfiam uma lenta memória

que acende a noite de palavras

depois aquecem as mãos de semear fogueiras


Uma mulher arde

no fogo de uma dor fria

igual a todas as dores

maior que todas as dores.


Esta mulher arde

no meio da noite perdida

colhendo o rio

enquanto as crianças dormem

seus pequenos sonhos de leite.

DIFICULDADE DE GOVERNAR

Bertolt Brecht

1

Todos os dias os ministros dizem ao povo

Como é difícil governar. Sem os ministros

O trigo cresceria para baixo em vez de crescer para cima.

Nem um pedaço de carvão sairia das minas

Se o chanceler não fosse tão inteligente. Sem o ministro da Propaganda

Mais nenhuma mulher poderia ficar grávida. Sem o ministro da Guerra

Nunca mais haveria guerra. E atrever-se ia a nascer o sol

Sem a autorização do Führer?

Não é nada provável e se o fosse

Ele nasceria por certo fora do lugar.

2

E também difícil, ao que nos é dito,

Dirigir uma fábrica. Sem o patrão

As paredes cairiam e as máquinas encher-se-iam de ferrugem.

Se algures fizessem um arado

Ele nunca chegaria ao campo sem

As palavras avisadas do industrial aos camponeses: quem,

De outro modo, poderia falar-lhes na existência de arados? E que

Seria da propriedade rural sem o proprietário rural?

Não há dúvida nenhuma que se semearia centeio onde já havia batatas.

3

Se governar fosse fácil

Não havia necessidade de espíritos tão esclarecidos como o do Führer.

Se o operário soubesse usar a sua máquina

E se o camponês soubesse distinguir um campo de uma forma para tortas

Não haveria necessidade de patrões nem de proprietários.

E só porque toda a gente é tão estúpida

Que há necessidade de alguns tão inteligentes.

4

Ou será que

Governar só é assim tão difícil porque a exploração e a mentira

São coisas que custam a aprender?

Edição 140 Setembro 2018

CÂNTICO NEGRO

José Régio

"Vem por aqui" - dizem-me alguns com os olhos doces

Estendendo-me os braços, e seguros

De que seria bom que eu os ouvisse

Quando me dizem: "vem por aqui!"

Eu olho-os com olhos lassos,

(Há, nos olhos meus, ironias e cansaços)

E cruzo os braços,

E nunca vou por ali...


A minha glória é esta:

Criar desumanidade!

Não acompanhar ninguém.

- Que eu vivo com o mesmo sem-vontade

Com que rasguei o ventre à minha mãe


Não, não vou por aí! Só vou por onde

Me levam meus próprios passos...


Se ao que busco saber nenhum de vós responde

Por que me repetis: "vem por aqui!"?


Prefiro escorregar nos becos lamacentos,

Redemoinhar aos ventos,

Como farrapos, arrastar os pés sangrentos,

A ir por aí...


Se vim ao mundo, foi

Só para desflorar florestas virgens,

E desenhar meus próprios pés na areia inexplorada!

O mais que faço não vale nada.


Como, pois sereis vós

Que me dareis impulsos, ferramentas e coragem

Para eu derrubar os meus obstáculos?...

Corre, nas vossas veias, sangue velho dos avós,

E vós amais o que é fácil!

Eu amo o Longe e a Miragem,

Amo os abismos, as torrentes, os desertos...


Ide! Tendes estradas,

Tendes jardins, tendes canteiros,

Tendes pátria, tendes tectos,

E tendes regras, e tratados, e filósofos, e sábios...

Eu tenho a minha Loucura !

Levanto-a, como um facho, a arder na noite escura,

E sinto espuma, e sangue, e cânticos nos lábios...


Deus e o Diabo é que me guiam, mais ninguém.

Todos tiveram pai, todos tiveram mãe;

Mas eu, que nunca principio nem acabo,

Nasci do amor que há entre Deus e o Diabo.


Ah, que ninguém me dê piedosas intenções!

Ninguém me peça definições!

Ninguém me diga: "vem por aqui"!

A minha vida é um vendaval que se soltou.

É uma onda que se alevantou.

É um átomo a mais que se animou...

Não sei por onde vou,

Não sei para onde vou

- Sei que não vou por aí!

(In 'Poemas de Deus e do Diabo')

AUTO-RETRATO

Natália Correia

Espáduas brancas palpitantes:

asas no exílio dum corpo.

Os braços calhas cintilantes

para o comboio da alma.

E os olhos emigrantes

no navio da pálpebra

encalhado em renúncia ou cobardia.

Por vezes fêmea. Por vezes monja.

Conforme a noite. Conforme o dia.

Molusco. Esponja

embebida num filtro de magia.

Aranha de ouro

presa na teia dos seus ardis.

E aos pés um coração de louça

quebrado em jogos infantis.

COMO EU NÃO POSSUO

Mário de Sá Carneiro

Como Eu não Possuo

Olho em volta de mim. Todos possuem -

Um afecto, um sorriso ou um abraço.

Só para mim as ânsias se diluem

E não possuo mesmo quando enlaço.


Roça por mim, em longe, a teoria

Dos espasmos golfados ruivamente;

São êxtases da côr que eu fremiria,

Mas a minh'alma pára e não os sente!


Quero sentir. Não sei... perco-me todo...

Não posso afeiçoar-me nem ser eu:

Falta-me egoísmo pra ascender ao céu,

Falta-me unção pra me afundar no lôdo.


Não sou amigo de ninguém. Pra o ser

Forçoso me era antes possuir

Quem eu estimasse - ou homem ou mulher,

E eu não logro nunca possuir!...


Castrado de alma e sem saber fixar-me,

Tarde a tarde na minha dor me afundo...

Serei um emigrado doutro mundo

Que nem na minha dor posso encontrar-me?...

* * * * *

Como eu desejo a que ali vai na rua,

Tão ágil, tão agreste, tão de amor...

Como eu quisera emmaranhá-la nua,

Bebê-la em espasmos d'harmonia e côr!...


Desejo errado... Se a tivera um dia,

Toda sem véus, a carne estilizada

Sob o meu corpo arfando transbordada,

Nem mesmo assim - ó ânsia! - eu a teria...


Eu vibraria só agonizante

Sobre o seu corpo de êxtases dourados,

Se fôsse aquêles seios transtornados,

Se fôsse aquêle sexo aglutinante...


De embate ao meu amor todo me ruo,

E vejo-me em destrôço até vencendo:

É que eu teria só, sentindo e sendo

Aquilo que estrebucho e não possuo.

In 'Dispersão'

ODE À PAZ

Natália Correia

Pela verdade, pelo riso, pela luz, pela beleza,

Pelas aves que voam no olhar de uma criança,

Pela limpeza do vento, pelos actos de pureza,

Pela alegria, pelo vinho, pela música, pela dança,

Pela branda melodia do rumor dos regatos,


Pelo fulgor do estio, pelo azul do claro dia,

Pelas flores que esmaltam os campos, pelo sossego dos pastos,

Pela exactidão das rosas, pela Sabedoria,

Pelas pérolas que gotejam dos olhos dos amantes,

Pelos prodígios que são verdadeiros nos sonhos,

Pelo amor, pela liberdade, pelas coisas radiantes,

Pelos aromas maduros de suaves outonos,

Pela futura manhã dos grandes transparentes,

Pelas entranhas maternas e fecundas da terra,

Pelas lágrimas das mães a quem nuvens sangrentas

Arrebatam os filhos para a torpeza da guerra,

Eu te conjuro ó paz, eu te invoco ó benigna,

Ó Santa, ó talismã contra a indústria feroz.

Com tuas mãos que abatem as bandeiras da ira,

Com o teu esconjuro da bomba e do algoz,

Abre as portas da História,

deixa passar a Vida!

In "Inéditos (1985/1990)"

A ROSA

Bocage

Tu, flor de Vénus,

Corada Rosa,

Leda, fragrante,

Pura, mimosa,


Tu, que envergonhas

As outras flores,

Tens menos graça

Que os meus amores.


Tanto ao diurno

Sol coruscante

Cede a nocturna

Lua inconstante,


Quanto a Marília

Té na pureza

Tu, que és o mimo

Da Natureza.


O buliçoso,

Cândido Amor

Pôs-lhe nas faces

Mais viva cor;


Tu tens agudos

Cruéis espinhos,

Ela suaves

Brandos carinhos;


Tu não percebes

Ternos desejos,

Em vão Favónio

Te dá mil beijos.


Marília bela

Sente, respira,

Meus doces versos

Ouve, e suspira.


A mãe das flores,

A Primavera,

Fica vaidosa

Quando te gera;


Porém Marília

No mago riso

Traz as delícias

Do Paraíso.


Amor que diga

Qual é mais bela,

Qual é mais pura,

Se tu, ou ela;


Que diga Vénus...

Ela aí vem...

Ai! Enganei-me,

Que é o meu bem.

in 'A Rosa (Cançoneta Anacreôntica)'