1 POEMA de cada vez

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Edição 142 Novembro 2018

VOZ DE SANGUE

Agostinho Neto

Palpitam-me

os sons do batuque

e os ritmos melancólicos do blue


Ó negro esfarrapado do Harlem...

ó dançarino de Chicago

ó negro servidor do South


Ó negro de África

negros de todo o mundo

eu junto ao vosso canto

a minha pobre voz

os meus humildes ritmos.


Eu vos acompanho

pelas emaranhadas áfricas

do nosso Rumo


Eu vos sinto

negros de todo o mundo

eu vivo a vossa Dor

meus irmãos.

ÁFRICA DOS MEUS SONHOS

Morgado Mbalate

Prefiro acreditar na poesia a crer nos políticos.

Entro no tempo e abro uma janela no chão da memória.

A janela do meu quarto é a melhor e a maior vista do mundo.

Eu vivo em poesia.

Viver em poesia é saber dançar com palavras e sonhos.

O que me dói nesta minha África é ver

alguma parte dela que vai deixando de ser África.

Vivo longe dos africanos que estão se tornando ocidentais.

Vivo próximo dos africanos originais.

África, sinto-te aqui no meu coração.

África é para ti minha dedicação.

África és a magia que inunda minha vida.

Minha poesia se abre para o teu olhar.

O inimigo pode roubar todas as grandezas e riquezas da África.

Mas o inimigo jamais poderá roubar a beleza do meu sonho africano.

O QUE CABE NUMA PÁGINA

Ondjaki (Angola)

o que cabe numa página

é metade do odor

de cada lágrima por recordar.

não se vê o sangue

não há vestígios de quem espera

o nascimento de uma estrela

oriunda do mar.


o que cabe numa praia

é o olhar daquele que se senta

sessenta segundos

olhando o mar.


não ficam anéis na areia

não ficam pegadas

do que foram os dedos

sôfregos

esgravatando por paz.

Edição 141 Outubro 2018

REFLEXÕES NO DIA

DOS MEUS ANOS

José Craveirinha (Moçambique)

Faço anos.

Quantos já não interessa.

Por uma questão de glândulas

infalivelmente na barba e nas têmporas

aos poucos e poucos envelheço.


Faço anos e neste dia

há sempre umas recordações interessantes

ao mesmo tempo que mudamos na aparência

e aos outros parecemos bem conservados

enfim!

Não expirado o prazo da minha ausência

no meu bairro da Munhuana

no preciso dia do meu aniversário

lá com certeza o dia amanheceu

todo assoado de nuvens.

Ah, tudo se transforma!


Eu que faço anos

e o tempo inexorável não perdoamos

aos que não acreditam em augúrios

e apesar das mil coisas tristes

os cabelos brancos embelezam-me as fontes

e as notícias nem sempre são todas más

e em segredo algumas

até me rejuvenescem intimamente.

Faço anos

e o bolor da saudade arroxeia-me as olheiras

e dá-me um ar de homem circunspecto

que lê Camus.

Mas ao mesmo tempo que admiro as viagens espaciais

os antibióticos

e por exemplo a televisão

ainda me embriaga a retina

um quadro de Portinari

o andar cadenciado duma mulher

um bom jogo de futebol

e um autêntico céu azul a milhafres de nada.

GRITO NEGRO

José João Craveirinha

Eu sou carvão!

E tu arrancas-me brutalmente do chão

e fazes-me tua mina, patrão.


Eu sou carvão!

E tu acendes-me, patrão,

para te servir eternamente como força motriz

mas eternamente não, patrão.


Eu sou carvão

e tenho que arder sim;

queimar tudo com a força da minha combustão.


Eu sou carvão;

tenho que arder na exploração

arder até às cinzas da maldição

arder vivo como alcatrão, meu irmão,

até não ser mais a tua mina, patrão.


Eu sou carvão.

Tenho que arder

Queimar tudo com o fogo da minha combustão.

Sim!

Eu sou o teu carvão, patrão.

CANTO DE NASCIMENTO

Ana Paula Tavares (Angola)

Aceso está o fogo

prontas as mãos


o dia parou a sua lenta marcha

de mergulhar na noite.


As mãos criam na água

uma pele nova


panos brancos

uma panela a ferver

mais a faca de cortar


Uma dor fina

a marcar os intervalos de tempo

vinte cabaças de leite

que o vento trabalha manteiga


a lua pousada na pedra de afiar


Uma mulher oferece à noite

o silêncio aberto

de um grito

sem som nem gesto

apenas o silêncio aberto assim ao grito

solto ao intervalo das lágrimas


As velhas desfiam uma lenta memória

que acende a noite de palavras

depois aquecem as mãos de semear fogueiras


Uma mulher arde

no fogo de uma dor fria

igual a todas as dores

maior que todas as dores.


Esta mulher arde

no meio da noite perdida

colhendo o rio

enquanto as crianças dormem

seus pequenos sonhos de leite.

DIFICULDADE DE GOVERNAR

Bertolt Brecht

1

Todos os dias os ministros dizem ao povo

Como é difícil governar. Sem os ministros

O trigo cresceria para baixo em vez de crescer para cima.

Nem um pedaço de carvão sairia das minas

Se o chanceler não fosse tão inteligente. Sem o ministro da Propaganda

Mais nenhuma mulher poderia ficar grávida. Sem o ministro da Guerra

Nunca mais haveria guerra. E atrever-se ia a nascer o sol

Sem a autorização do Führer?

Não é nada provável e se o fosse

Ele nasceria por certo fora do lugar.

2

E também difícil, ao que nos é dito,

Dirigir uma fábrica. Sem o patrão

As paredes cairiam e as máquinas encher-se-iam de ferrugem.

Se algures fizessem um arado

Ele nunca chegaria ao campo sem

As palavras avisadas do industrial aos camponeses: quem,

De outro modo, poderia falar-lhes na existência de arados? E que

Seria da propriedade rural sem o proprietário rural?

Não há dúvida nenhuma que se semearia centeio onde já havia batatas.

3

Se governar fosse fácil

Não havia necessidade de espíritos tão esclarecidos como o do Führer.

Se o operário soubesse usar a sua máquina

E se o camponês soubesse distinguir um campo de uma forma para tortas

Não haveria necessidade de patrões nem de proprietários.

E só porque toda a gente é tão estúpida

Que há necessidade de alguns tão inteligentes.

4

Ou será que

Governar só é assim tão difícil porque a exploração e a mentira

São coisas que custam a aprender?

Edição 140 Setembro 2018

CÂNTICO NEGRO

José Régio

"Vem por aqui" - dizem-me alguns com os olhos doces

Estendendo-me os braços, e seguros

De que seria bom que eu os ouvisse

Quando me dizem: "vem por aqui!"

Eu olho-os com olhos lassos,

(Há, nos olhos meus, ironias e cansaços)

E cruzo os braços,

E nunca vou por ali...


A minha glória é esta:

Criar desumanidade!

Não acompanhar ninguém.

- Que eu vivo com o mesmo sem-vontade

Com que rasguei o ventre à minha mãe


Não, não vou por aí! Só vou por onde

Me levam meus próprios passos...


Se ao que busco saber nenhum de vós responde

Por que me repetis: "vem por aqui!"?


Prefiro escorregar nos becos lamacentos,

Redemoinhar aos ventos,

Como farrapos, arrastar os pés sangrentos,

A ir por aí...


Se vim ao mundo, foi

Só para desflorar florestas virgens,

E desenhar meus próprios pés na areia inexplorada!

O mais que faço não vale nada.


Como, pois sereis vós

Que me dareis impulsos, ferramentas e coragem

Para eu derrubar os meus obstáculos?...

Corre, nas vossas veias, sangue velho dos avós,

E vós amais o que é fácil!

Eu amo o Longe e a Miragem,

Amo os abismos, as torrentes, os desertos...


Ide! Tendes estradas,

Tendes jardins, tendes canteiros,

Tendes pátria, tendes tectos,

E tendes regras, e tratados, e filósofos, e sábios...

Eu tenho a minha Loucura !

Levanto-a, como um facho, a arder na noite escura,

E sinto espuma, e sangue, e cânticos nos lábios...


Deus e o Diabo é que me guiam, mais ninguém.

Todos tiveram pai, todos tiveram mãe;

Mas eu, que nunca principio nem acabo,

Nasci do amor que há entre Deus e o Diabo.


Ah, que ninguém me dê piedosas intenções!

Ninguém me peça definições!

Ninguém me diga: "vem por aqui"!

A minha vida é um vendaval que se soltou.

É uma onda que se alevantou.

É um átomo a mais que se animou...

Não sei por onde vou,

Não sei para onde vou

- Sei que não vou por aí!

(In 'Poemas de Deus e do Diabo')

AUTO-RETRATO

Natália Correia

Espáduas brancas palpitantes:

asas no exílio dum corpo.

Os braços calhas cintilantes

para o comboio da alma.

E os olhos emigrantes

no navio da pálpebra

encalhado em renúncia ou cobardia.

Por vezes fêmea. Por vezes monja.

Conforme a noite. Conforme o dia.

Molusco. Esponja

embebida num filtro de magia.

Aranha de ouro

presa na teia dos seus ardis.

E aos pés um coração de louça

quebrado em jogos infantis.

COMO EU NÃO POSSUO

Mário de Sá Carneiro

Como Eu não Possuo

Olho em volta de mim. Todos possuem -

Um afecto, um sorriso ou um abraço.

Só para mim as ânsias se diluem

E não possuo mesmo quando enlaço.


Roça por mim, em longe, a teoria

Dos espasmos golfados ruivamente;

São êxtases da côr que eu fremiria,

Mas a minh'alma pára e não os sente!


Quero sentir. Não sei... perco-me todo...

Não posso afeiçoar-me nem ser eu:

Falta-me egoísmo pra ascender ao céu,

Falta-me unção pra me afundar no lôdo.


Não sou amigo de ninguém. Pra o ser

Forçoso me era antes possuir

Quem eu estimasse - ou homem ou mulher,

E eu não logro nunca possuir!...


Castrado de alma e sem saber fixar-me,

Tarde a tarde na minha dor me afundo...

Serei um emigrado doutro mundo

Que nem na minha dor posso encontrar-me?...

* * * * *

Como eu desejo a que ali vai na rua,

Tão ágil, tão agreste, tão de amor...

Como eu quisera emmaranhá-la nua,

Bebê-la em espasmos d'harmonia e côr!...


Desejo errado... Se a tivera um dia,

Toda sem véus, a carne estilizada

Sob o meu corpo arfando transbordada,

Nem mesmo assim - ó ânsia! - eu a teria...


Eu vibraria só agonizante

Sobre o seu corpo de êxtases dourados,

Se fôsse aquêles seios transtornados,

Se fôsse aquêle sexo aglutinante...


De embate ao meu amor todo me ruo,

E vejo-me em destrôço até vencendo:

É que eu teria só, sentindo e sendo

Aquilo que estrebucho e não possuo.

In 'Dispersão'

ODE À PAZ

Natália Correia

Pela verdade, pelo riso, pela luz, pela beleza,

Pelas aves que voam no olhar de uma criança,

Pela limpeza do vento, pelos actos de pureza,

Pela alegria, pelo vinho, pela música, pela dança,

Pela branda melodia do rumor dos regatos,


Pelo fulgor do estio, pelo azul do claro dia,

Pelas flores que esmaltam os campos, pelo sossego dos pastos,

Pela exactidão das rosas, pela Sabedoria,

Pelas pérolas que gotejam dos olhos dos amantes,

Pelos prodígios que são verdadeiros nos sonhos,

Pelo amor, pela liberdade, pelas coisas radiantes,

Pelos aromas maduros de suaves outonos,

Pela futura manhã dos grandes transparentes,

Pelas entranhas maternas e fecundas da terra,

Pelas lágrimas das mães a quem nuvens sangrentas

Arrebatam os filhos para a torpeza da guerra,

Eu te conjuro ó paz, eu te invoco ó benigna,

Ó Santa, ó talismã contra a indústria feroz.

Com tuas mãos que abatem as bandeiras da ira,

Com o teu esconjuro da bomba e do algoz,

Abre as portas da História,

deixa passar a Vida!

In "Inéditos (1985/1990)"

A ROSA

Bocage

Tu, flor de Vénus,

Corada Rosa,

Leda, fragrante,

Pura, mimosa,


Tu, que envergonhas

As outras flores,

Tens menos graça

Que os meus amores.


Tanto ao diurno

Sol coruscante

Cede a nocturna

Lua inconstante,


Quanto a Marília

Té na pureza

Tu, que és o mimo

Da Natureza.


O buliçoso,

Cândido Amor

Pôs-lhe nas faces

Mais viva cor;


Tu tens agudos

Cruéis espinhos,

Ela suaves

Brandos carinhos;


Tu não percebes

Ternos desejos,

Em vão Favónio

Te dá mil beijos.


Marília bela

Sente, respira,

Meus doces versos

Ouve, e suspira.


A mãe das flores,

A Primavera,

Fica vaidosa

Quando te gera;


Porém Marília

No mago riso

Traz as delícias

Do Paraíso.


Amor que diga

Qual é mais bela,

Qual é mais pura,

Se tu, ou ela;


Que diga Vénus...

Ela aí vem...

Ai! Enganei-me,

Que é o meu bem.

in 'A Rosa (Cançoneta Anacreôntica)'