1 POEMA de cada vez

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Edição 135 Fev.º 2018

Alberto Caeiro

IX - Sou um guardador de rebanhos

Sou um guardador de rebanhos.

O rebanho é os meus pensamentos

E os meus pensamentos são todos sensações.

Penso com os olhos e com os ouvidos

E com as mãos e os pés

E com o nariz e a boca.

Pensar uma flor é vê-la e cheirá-la

E comer um fruto é saber-lhe o sentido.

Por isso quando num dia de calor

Me sinto triste de gozá-lo tanto,

E me deito ao comprido na erva,

E fecho os olhos quentes,

Sinto todo o meu corpo deitado na realidade,

Sei a verdade e sou feliz.

Alberto Caeiro

VIII – NUM MEIO-DIA

DE FIM DE PRIMAVERA

Num meio-dia de fim de Primavera

Tive um sonho como uma fotografia.

Vi Jesus Cristo descer à terra.

Veio pela encosta de um monte

Tornado outra vez menino,

A correr e a rolar-se pela erva

E a arrancar flores para as deitar fora

E a rir de modo a ouvir-se de longe.

Tinha fugido do céu.

Era nosso demais para fingir

De segunda pessoa da Trindade.

No céu era tudo falso, tudo em desacordo

Com flores e árvores e pedras.

No céu tinha que estar sempre sério

E de vez em quando de se tornar outra vez homem

E subir para a cruz, e estar sempre a morrer

Com uma coroa toda à roda de espinhos

E os pés espetados por um prego com cabeça,

E até com um trapo à roda da cintura

Como os pretos nas ilustrações.

Nem sequer o deixavam ter pai e mãe

Como as outras crianças.

O seu pai era duas pessoas —

Um velho chamado José, que era carpinteiro,

E que não era pai dele;

E o outro pai era uma pomba estúpida,

A única pomba feia do mundo

Porque não era do mundo nem era pomba.

E a sua mãe não tinha amado antes de o ter.

Não era mulher: era uma mala

Em que ele tinha vindo do céu.

E queriam que ele, que só nascera da mãe,

E nunca tivera pai para amar com respeito,

Pregasse a bondade e a justiça!

Um dia que Deus estava a dormir

E o Espírito Santo andava a voar,

Ele foi à caixa dos milagres e roubou três.

Com o primeiro fez que ninguém soubesse que ele tinha fugido.

Com o segundo criou-se eternamente humano e menino.

Com o terceiro criou um Cristo eternamente na cruz

E deixou-o pregado na cruz que há no céu

E serve de modelo às outras.

Depois fugiu para o Sol

E desceu pelo primeiro raio que apanhou.

Hoje vive na minha aldeia comigo.

É uma criança bonita de riso e natural.

Limpa o nariz ao braço direito,

Chapinha nas poças de água,

Colhe as flores e gosta delas e esquece-as.

Atira pedras aos burros,

Rouba a fruta dos pomares

E foge a chorar e a gritar dos cães.

E, porque sabe que elas não gostam

E que toda a gente acha graça,

Corre atrás das raparigas

Que vão em ranchos pelas estradas

Com as bilhas às cabeças

E levanta-lhes as saias.

A mim ensinou-me tudo.

Ensinou-me a olhar para as coisas.

Aponta-me todas as coisas que há nas flores.

Mostra-me como as pedras são engraçadas

Quando a gente as tem na mão

E olha devagar para elas.

Diz-me muito mal de Deus.

Diz que ele é um velho estúpido e doente,

Sempre a escarrar no chão

E a dizer indecências.

A Virgem Maria leva as tardes da eternidade a fazer meia.

E o Espírito Santo coça-se com o bico

E empoleira-se nas cadeiras e suja-as.

Tudo no céu é estúpido como a Igreja Católica.

Diz-me que Deus não percebe nada

Das coisas que criou —

«Se é que ele as criou, do que duvido.» —

«Ele diz, por exemplo, que os seres cantam a sua glória,

Mas os seres não cantam nada.

Se cantassem seriam cantores.

Os seres existem e mais nada,

E por isso se chamam seres.»

E depois, cansado de dizer mal de Deus,

O Menino Jesus adormece nos meus braços

E eu levo-o ao colo para casa.

……

Ele mora comigo na minha casa a meio do outeiro.

Ele é a Eterna Criança, o deus que faltava.

Ele é o humano que é natural,

Ele é o divino que sorri e que brinca.

E por isso é que eu sei com toda a certeza

Que ele é o Menino Jesus verdadeiro.

E a criança tão humana que é divina

É esta minha quotidiana vida de poeta,

E é porque ele anda sempre comigo que eu sou poeta sempre.

E que o meu mínimo olhar

Me enche de sensação,

E o mais pequeno som, seja do que for,

Parece falar comigo.

A Criança Nova que habita onde vivo

Dá-me uma mão a mim

E a outra a tudo que existe

E assim vamos os três pelo caminho que houver,

Saltando e cantando e rindo

E gozando o nosso segredo comum

Que é o de saber por toda a parte

Que não há mistério no mundo

E que tudo vale a pena.

A Criança Eterna acompanha-me sempre.

A direcção do meu olhar é o seu dedo apontando.

O meu ouvido atento alegremente a todos os sons

São as cócegas que ele me faz, brincando, nas orelhas.

Damo-nos tão bem um com o outro

Na companhia de tudo

Que nunca pensamos um no outro,

Mas vivemos juntos e dois

Com um acordo íntimo

Como a mão direita e a esquerda.

Ao anoitecer brincamos as cinco pedrinhas

No degrau da porta de casa,

Graves como convém a um deus e a um poeta,

E como se cada pedra

Fosse todo um universo

E fosse por isso um grande perigo para ela

Deixá-la cair no chão.

Depois eu conto-lhe histórias das coisas só dos homens

E ele sorri, porque tudo é incrível.

Ri dos reis e dos que não são reis,

E tem pena de ouvir falar das guerras,

E dos comércios, e dos navios

Que ficam fumo no ar dos altos mares.

Porque ele sabe que tudo isso falta àquela verdade

Que uma flor tem ao florescer

E que anda com a luz do Sol

A variar os montes e os vales

E a fazer doer aos olhos os muros caiados.

Depois ele adormece e eu deito-o.

Levo-o ao colo para dentro de casa

E deito-o, despindo-o lentamente

E como seguindo um ritual muito limpo

E todo materno até ele estar nu.

Ele dorme dentro da minha alma

E às vezes acorda de noite

E brinca com os meus sonhos.

Vira uns de pernas para o ar,

Põe uns em cima dos outros

E bate as palmas sozinho

Sorrindo para o meu sono.

……

Quando eu morrer, filhinho,

Seja eu a criança, o mais pequeno.

Pega-me tu ao colo

E leva-me para dentro da tua casa.

Despe o meu ser cansado e humano

E deita-me na tua cama.

E conta-me histórias, caso eu acorde,

Para eu tornar a adormecer.

E dá-me sonhos teus para eu brincar

Até que nasça qualquer dia

Que tu sabes qual é.

Esta é a história do meu Menino Jesus.

Por que razão que se perceba

Não há-de ser ela mais verdadeira

Que tudo quanto os filósofos pensam

E tudo quanto as religiões ensinam?

VII - Da Minha Aldeia

O GUARDADOR DE REBANHOS

Alberto Caeiro /Fernando Pessoa

Da minha aldeia veio quanto da terra se pode ver no Universo...

Por isso a minha aldeia é tão grande como outra terra qualquer

Porque eu sou do tamanho do que vejo

E não, do tamanho da minha altura...

Nas cidades a vida é mais pequena

Que aqui na minha casa no cimo deste outeiro.

Na cidade as grandes casas fecham a vista à chave,

Escondem o horizonte, empurram o nosso olhar para longe

de todo o céu,

Tornam-nos pequenos porque nos tiram o que os nossos olhos

nos podem dar,

E tornam-nos pobres porque a nossa única riqueza é ver.

Edição 134 Janº 2018

O GUARDADOR DE REBANHOS

Alberto Caeiro / Fernando Pessoa

VI Pensar em Deus é desobedecer a Deus

Pensar em Deus é desobedecer a Deus,

Porque Deus quis que o não conhecêssemos,

Por isso se nos não mostrou...


Sejamos simples e calmos,

Como os regatos e as árvores,

E Deus amar-nos-á fazendo de nós

Belos como as árvores e os regatos,

E dar-nos-á verdor na sua primavera,

E um rio aonde ir ter quando acabemos!...

O GUARDADOR DE REBANHOS

Alberto Caeiro / Fernando Pessoa

V - Há Metafísica Bastante em Não Pensar em Nada

Há metafísica bastante em não pensar em nada.

O que penso eu do mundo?

Sei lá o que penso do mundo!

Se eu adoecesse pensaria nisso.

Que ideia tenho eu das cousas?

Que opinião tenho sobre as causas e os efeitos?

Que tenho eu meditado sobre Deus e a alma

E sobre a criação do Mundo?

Não sei. Para mim pensar nisso é fechar os olhos

E não pensar. É correr as cortinas

Da minha janela (mas ela não tem cortinas).

O mistério das cousas? Sei lá o que é mistério!

O único mistério é haver quem pense no mistério.

Quem está ao sol e fecha os olhos,

Começa a não saber o que é o sol

E a pensar muitas cousas cheias de calor.
Mas abre os olhos e vê o sol,

E já não pode pensar em nada,

Porque a luz do sol vale mais que os pensamentos

De todos os filósofos e de todos os poetas.

A luz do sol não sabe o que faz

E por isso não erra e é comum e boa.

Metafísica? Que metafísica têm aquelas árvores?

A de serem verdes e copadas e de terem ramos

E a de dar fruto na sua hora, o que não nos faz pensar,

A nós, que não sabemos dar por elas.

Mas que melhor metafísica que a delas,

Que é a de não saber para que vivem

Nem saber que o não sabem?

"Constituição íntima das cousas"...

"Sentido íntimo do Universo"...

Tudo isto é falso, tudo isto não quer dizer nada.

É incrível que se possa pensar em cousas dessas.

É como pensar em razões e fins

Quando o começo da manhã está raiando, e pelos lados das árvores

Um vago ouro lustroso vai perdendo a escuridão.

Pensar no sentido íntimo das cousas

É acrescentado, como pensar na saúde

Ou levar um copo à água das fontes.

O único sentido íntimo das cousas

É elas não terem sentido íntimo nenhum.

Não acredito em Deus porque nunca o vi.

Se ele quisesse que eu acreditasse nele,

Sem dúvida que viria falar comigo

E entraria pela minha porta dentro

Dizendo-me, Aqui estou!

(Isto é talvez ridículo aos ouvidos

De quem, por não saber o que é olhar para as cousas,

Não compreende quem fala delas

Com o modo de falar que reparar para elas ensina.)

Mas se Deus é as flores e as árvores

E os montes e sol e o luar,

Então acredito nele,

Então acredito nele a toda a hora,

E a minha vida é toda uma oração e uma missa,

E uma comunhão com os olhos e pelos ouvidos.

Mas se Deus é as árvores e as flores

E os montes e o luar e o sol,

Para que lhe chamo eu Deus?

Chamo-lhe flores e árvores e montes e sol e luar;

Porque, se ele se fez, para eu o ver,

Sol e luar e flores e árvores e montes,

Se ele me aparece como sendo árvores e montes
E luar e sol e flores,

É que ele quer que eu o conheça

Como árvores e montes e flores e luar e sol.

E por isso eu obedeço-lhe,

(Que mais sei eu de Deus que Deus de si próprio?).

Obedeço-lhe a viver, espontaneamente,

Como quem abre os olhos e vê,

E chamo-lhe luar e sol e flores e árvores e montes,

E amo-o sem pensar nele,

E penso-o vendo e ouvindo,

E ando com ele a toda a hora.

IV - Esta Tarde a Trovoada Caiu

Esta tarde a trovoada caiu

Pelas encostas do céu abaixo

Como um pedregulho enorme...

Como alguém que duma janela alta

Sacode uma toalha de mesa,

E as migalhas, por caírem todas juntas,

Fazem algum barulho ao cair,

A chuva chovia do céu

E enegreceu os caminhos ...

Quando os relâmpagos sacudiam o ar

E abanavam o espaço

Como uma grande cabeça que diz que não,

Não sei porquê — eu não tinha medo —

pus-me a rezar a Santa Bárbara

Como se eu fosse a velha tia de alguém...

Ah! é que rezando a Santa Bárbara

Eu sentia-me ainda mais simples

Do que julgo que sou...

Sentia-me familiar e caseiro

E tendo passado a vida
Tranquilamente, como o muro do quintal;

Tendo ideias e sentimentos por os ter

Como uma flor tem perfume e cor...

Sentia-me alguém que possa acreditar em Santa Bárbara...

Ah, poder crer em Santa Bárbara!

(Quem crê que há Santa Bárbara,

Julgará que ela é gente e visível

Ou que julgará dela?)

(Que artifício! Que sabem

As flores, as árvores, os rebanhos,

De Santa Bárbara?... Um ramo de árvore,

Se pensasse, nunca podia

Construir santos nem anjos...

Poderia julgar que o sol

É Deus, e que a trovoada

É uma quantidade de gente

Zangada por cima de nós ...

Ali, como os mais simples dos homens

São doentes e confusos e estúpidos

Ao pé da clara simplicidade

E saúde em existir

Das árvores e das plantas!)

E eu, pensando em tudo isto,

Fiquei outra vez menos feliz...

Fiquei sombrio e adoecido e soturno

Como um dia em que todo o dia a trovoada ameaça

E nem sequer de noite chega.

*** *** ***

Edição 133 Dezº 2017

O GUARDADOR DE REBANHOS

Alberto Caeiro / Fernando Pessoa

III - Ao Entardecer

Ao entardecer, debruçado pela janela,

E sabendo de soslaio que há campos em frente,

Leio até me arderem os olhos

O livro de Cesário Verde.

Que pena que tenho dele! Ele era um camponês

Que andava preso em liberdade pela cidade.

Mas o modo como olhava para as casas,

E o modo como reparava nas ruas,

E a maneira como dava pelas cousas,

É o de quem olha para árvores,

E de quem desce os olhos pela estrada por onde vai andando

E anda a reparar nas flores que há pelos campos ...

Por isso ele tinha aquela grande tristeza

Que ele nunca disse bem que tinha,

Mas andava na cidade como quem anda no campo

E triste como esmagar flores em livros

E pôr plantas em jarros...

O GUARDADOR DE REBANHOS

Alberto Caeiro / Fernando Pessoa

II - O Meu Olhar

O meu olhar é nítido como um girassol.

Tenho o costume de andar pelas estradas

Olhando para a direita e para a esquerda,

E de, vez em quando olhando para trás...

E o que vejo a cada momento

É aquilo que nunca antes eu tinha visto,

E eu sei dar por isso muito bem...

Sei ter o pasmo essencial

Que tem uma criança se, ao nascer,

Reparasse que nascera deveras...

Sinto-me nascido a cada momento

Para a eterna novidade do Mundo...

Creio no mundo como num malmequer,

Porque o vejo.Mas não penso nele

Porque pensar é não compreender ...

O Mundo não se fez para pensarmos nele

(Pensar é estar doente dos olhos)

Mas para olharmos para ele e estarmos de acordo...

Eu não tenho filosofia: tenho sentidos...

Se falo na Natureza não é porque saiba o que ela é,
Mas porque a amo, e amo-a por isso,

Porque quem ama nunca sabe o que ama

Nem sabe por que ama, nem o que é amar ...

Amar é a eterna inocência,

E a única inocência não pensar...

III - Ao Entardecer

Ao entardecer, debruçado pela janela,

E sabendo de soslaio que há campos em frente,

Leio até me arderem os olhos

O livro de Cesário Verde.

Que pena que tenho dele! Ele era um camponês

Que andava preso em liberdade pela cidade.

Mas o modo como olhava para as casas,

E o modo como reparava nas ruas,

E a maneira como dava pelas cousas,

É o de quem olha para árvores,

E de quem desce os olhos pela estrada por onde vai andando

E anda a reparar nas flores que há pelos campos ...

Por isso ele tinha aquela grande tristeza

Que ele nunca disse bem que tinha,

Mas andava na cidade como quem anda no campo

E triste como esmagar flores em livros

E pôr plantas em jarros...

O GUARDADOR DE REBANHOS

Alberto Caeiro / Fernando Pessoa

I

Eu nunca guardei rebanhos,

Mas é como se os guardasse.

Minha alma é como um pastor,

Conhece o vento e o sol

E anda pela mão das Estações

A seguir e a olhar.

Toda a paz da Natureza sem gente

Vem sentar-se a meu lado.

Mas eu fico triste como um pôr de sol

Para a nossa imaginação,

Quando esfria no fundo da planície

E se sente a noite entrada

Como uma borboleta pela janela.

Mas a minha tristeza é sossego
Porque é natural e justa

E é o que deve estar na alma

Quando já pensa que existe

E as mãos colhem flores sem ela dar por isso.

Como um ruído de chocalhos

Para além da curva da estrada,

Os meus pensamentos são contentes.

Só tenho pena de saber que eles são contentes,

Porque, se o não soubesse,

Em vez de serem contentes e tristes,

Seriam alegres e contentes.

Pensar incomoda como andar à chuva

Quando o vento cresce e parece que chove mais.

Não tenho ambições nem desejos

Ser poeta não é uma ambição minha

É a minha maneira de estar sozinho.

E se desejo às vezes
Por imaginar, ser cordeirinho

(Ou ser o rebanho todo

Para andar espalhado por toda a encosta

A ser muita coisa feliz ao mesmo tempo),

É só porque sinto o que escrevo ao pôr do sol,

Ou quando uma nuvem passa a mão por cima da luz

E corre um silêncio pela erva fora.

Quando me sento a escrever versos

Ou, passeando pelos caminhos ou pelos atalhos,

Escrevo versos num papel que está no meu pensamento,

Sinto um cajado nas mãos

E vejo um recorte de mim

No cimo dum outeiro,

Olhando para o meu rebanho e vendo as minhas ideias,

Ou olhando para as minhas ideias e vendo o meu rebanho,

E sorrindo vagamente como quem não compreende o que se diz

E quer fingir que compreende.
Saúdo todos os que me lerem,

Tirando-lhes o chapéu largo

Quando me veem à minha porta

Mal a diligência levanta no cimo do outeiro.

Saúdo-os e desejo-lhes sol,

E chuva, quando a chuva é precisa,

E que as suas casas tenham

Ao pé duma janela aberta

Uma cadeira predileta

Onde se sentem, lendo os meus versos.

E ao lerem os meus versos pensem

Que sou qualquer coisa natural —

Por exemplo, a árvore antiga

À sombra da qual quando crianças

Se sentavam com um baque, cansados de brincar,

E limpavam o suor da testa quente

Com a manga do bibe riscado.

SOBRE A CONSTRUÇÃO

DE OBRAS DURADOURAS

Bertolt Brecht

Quanto tempo

Duram as obras? Tanto

Quanto o preciso pra ficarem prontas.

Pois enquanto dão que fazer

Não ruem.


Convidando ao esforço

Compensando a participação

A sua essência é duradoura enquanto

Convidam e compensam.


As úteis

Pedem homens

As artísticas

Têm lugar pra a arte

As sábias

Pedem sabedoria

As destinadas à perfeição

Mostram lacunas

As que duram muito

Estão sempre pra cair

As planeadas verdadeiramente em grande

Estão por acabar.


Incompletas ainda

Como o muro à espera da hera

(Esse esteve um dia inacabado

Há muito tempo, antes de vir a hera, nu!)

Insustentável ainda

Como a máquina que se usa

Embora já não chegue

Mas promete outra melhor.

Assim terá de construir-se

A obra pra durar como

A máquina cheia de defeitos.

Edição 132 Nov.º 2017

LOUVOR DO APRENDER

Bertolt Brecht

Aprende o mais simples! Pra aqueles

Cujo tempo chegou

Nunca é tarde de mais!

Aprende o abc, não chega, mas

Aprende-o! E não te enfades!

Começa! Tens de saber tudo!

Tens de tomar a chefia!


Aprende, homem do asilo!

Aprende, homem na prisão!

Aprende, mulher na cozinha!

Aprende, sexagenária!

Tens de tomar a chefia!


Frequenta a escola, homem sem casa!

Arranja saber, homem com frio!

Faminto, pega no livro: é uma arma.

Tens de tomar a chefia.


Não te acanhes de perguntar, companheiro!

Não deixes que te metam patranhas na cabeça:

Vê com os teus próprios olhos!

O que tu mesmo não sabes

Não o sabes.

Verifica a conta:

És tu que a pagas.

Põe o dedo em cada parcela,

Pergunta: Como aparece isto aqui?

Tens de tomar a chefia.

QUANDO COMECEI A AMAR-ME

Charlie Chaplin

Quando comecei a amar-me,

eu entendi que em qualquer momento da vida,

estou sempre no lugar certo na hora certa.

Compreendi que tudo o que acontece está correto.

Desde então, eu fiquei mais calmo.

Hoje eu sei que isso se chama CONFIANÇA.


Quando eu comecei a me amar,

entendi o quanto pode ofender alguém

quando eu tento impôr minha vontade sobre esta pessoa,

mesmo sabendo que não é o momento certo e a pessoa não

está preparada para isso,

e que, muitas vezes, essa pessoa era eu mesmo.

Hoje, sei que isto significa DESAPEGO.

Quando comecei a amar-me

eu pude compreender que dor emocional e tristeza

são apenas avisos para que eu não viva contra minha própria verdade.

Hoje, sei que a isso se dá o nome de AUTENTICIDADE.


Quando comecei a amar-me,

eu parei de ansiar por outra vida

e percebi que tudo ao meu redor é um convite ao crescimento.

Hoje eu sei que isso se chama MATURIDADE.


Quando comecei a amar-me,

parei de privar-me do meu tempo livre

e parei de traçar magníficos projetos para o futuro.

Hoje faço apenas o que é diversão e alegria para mim,

o que eu amo e o que deixa meu coração contente,

do meu jeito e no meu tempo.

Hoje eu sei que isso se chama HONESTIDADE.


Quando comecei a amar-me,

tratei de fugir de tudo o que não é saudável para mim,

de alimentos, coisas, pessoas, situações

e de tudo que me puxava para baixo e para longe de mim mesmo.

No início, pensava ser "egoísmo saudável",

mas hoje eu sei que trata-se de de AMOR PRÓPRIO.


Quando comecei a amar-me

parei de querer ter sempre razão.

Dessa forma, cometi menos enganos.

Hoje, eu reconheço que isso se chama HUMILDADE.


Quando comecei a amar-me,

recusei-me a viver no passado

e preocupar-me com meu futuro.

Agora eu vivo somente este momento onde tudo acontece.

Assim que eu vivo todos os dias e isto se chama CONSCIÊNCIA.


Quando comecei a amar-me,

reconheci que meus pensamentos

podem me fazer infeliz e doente.

Quando eu precisei da minha força interior,

minha mente encontrou um importante parceiro.

Hoje eu chamo esta conexão de SABEDORIA DO CORAÇÃO.


Não preciso mais temer discussões,

conflitos e problemas comigo mesmo e com os outros,

pois até as estrelas às vezes chocam-se umas contra as outras

e criam novos mundos.

Hoje eu sei que isso é a VIDA!

Edição 131 Out.º 2017

Do que um homem é capaz

José Mário Branco

Do que um homem é capaz

As coisas que ele faz

P'ra chegar aonde quer

É capaz de dar a vida

P´ra levar de vencida

Uma razão de viver

A vida é como uma estrada

Que vai sendo traçada

Sem nunca arrepiar caminho

E quem pensa estar parado

Vai no sentido errado

A caminhar sozinho


Vejo a gente cuja a vida

Vai sendo consumida

Por miragens de poder

Agarrados alguns ossos

No meio dos destroços

Do que nunca vão fazer


Vão poluindo o percurso

Co'as sobras do discurso

Que lhes serviu pr'abrir caminho

À custa das nossas utopias

Usurpam regalias

P´ra consumir sozinho


Com políticas concretas

Ímpões essas metas

Que nos entram casa dentro

Como a Trilateral

Co'a treta liberal

E as virtudes do centro

No lugar da consciência

A lei da concorrência

Pisando tudo p´lo caminho

P´ra castrar a juventude

Mascaram de virtude

O querer vencer sozinho

Ficam cínicos, brutais

Descendo cada vez mais

P´ra subir cada vez menos

Quanto mais o mal se expande

Mais acham que ser grande

É lixar os mais pequenos

Quem escolhe ser assim

Quando chegar ao fim

Vai ver que errou o seu caminho

Quando a vida é hipotecada

No fim não sobra nada

E acaba sozinho

Mesmo sendo poderosos

Tão fracos e gulosos

Que precisam do poder

Mesmo havendo tanta gente

P´ra quem é indiferente

Passar a vida a morrer

Há princípios e valores

Há sonhos e há amores

Que sempre irão abrir caminho

E quem viver abraçado

À vida que há ao lado

Não vai morrer sozinho

E que morrer abraçado

À vida que há ao lado

Não vai viver sozinho

(Do album Resistir é Vencer)

NADA OS SALVARÁ

José Mário Branco

Eles têm as suas leis, códigos decretos

editais e portarias

Eles têm as prisões e as fortalezas

sem contar as tutorias


Têm carcereiros e juízes

que são pagos com bom dinheiro

e estão prontos a tudo


Mas de que lhes servirão

tantas instituições?


Um minuto antes do fim

verão que já estão perdidos

que nada os salvará!


Eles têm folhetins,televisão e rádio

os jornais e as revistas

Eles têm os diplomas e o papel selado

sem contar os estadistas


Os padres e os senhores doutores

que são pagos com bom dinheiro

e estão prontos a tudo


Mas de que lhes servirão

tantas mentiras?


Um minuto antes do fim

verão que já estão perdidos

que nada os salvará!


Eles têm os canhões e as metralhadoras

as chaimites e as granadas

Eles têm capacetes e espingardas

sem contar as bastonadas


Têm os polícias e os guardas

que pagam com pouco dinheiro

mas estão prontos a tudo


Mas de que lhes servirá

tamanho arsenal?


Um minuto antes do fim

verão que já estão perdidos

que nada os salvará!

NÃO TENHO PRESSA

Alberto Caeiro

Não tenho pressa. Pressa de quê?

Não têm pressa o sol e a lua: estão certos.

Ter pressa é crer que a gente passa adiante das pernas,

Ou que, dando um pulo, salta por cima da sombra.

Não; não sei ter pressa.

Se estendo o braço, chego exactamente aonde o meu braço chega -

Nem um centímetro mais longe.

Toco só onde toco, não aonde penso.

Só me posso sentar aonde estou.

E isto faz rir como todas as verdades absolutamente verdadeiras,

Mas o que faz rir a valer é que nós pensamos sempre noutra coisa,

E vivemos vadios da nossa realidade.

E estamos sempre fora dela porque estamos aqui.

(in "Poemas Inconjuntos")

Edição 130 Setembro 2017

O CÂNTICO DOS CANTOS

DE ERNESTO CARDENAL

Amada, teu ventre tem cheiro de terra recém aberta e a terra recém molhada. / A sulco recém molhado por meu amado. / Toda matéria está construída com duas partículas: / prótons e elétrons; / os prótons são positivos e os elétrons negativos, / macho e fêmea. / Um nascimento não é por acidente / mas por união. / E prótons e elétrons no gás estelar estão sexuados. / Daí a evolução do universo. / Uma atração irresistível / entre partícula subatômica positiva e negativa. / Daí os átomos, as estrelas, nós. / Esta é a coesão do universo. / Amor essencial! Essencial / que estás no coração do universo! / Atração que gerou todas as coisas. / O universo inteiro é uma boda. / Pedaço de matéria estelar, / um átomo teu é como um sistema solar, e teu corpo / como um sistema de galáxias com milhões de sóis. / A atração. A atração. / Os elétrons giram dentro dos átomos, / os satélites giram arredor dos planetas, / os planetas arredor da galáxia arredor / de um centro de gravidade comum. / A gravidade que move o sol e todas as estrelas.

N.E. Poema Cântico dos cantos, extraído da obra Cántico cósmico (Trotta, 1993), do escritor, sacerdote e teólogo nicaragüense Ernesto Cardenal. (Tradução do poeta e tradutor Antonio Miranda)

Eugénio de Andrade

DESDE A AURORA

Desde a Aurora

Como um sol de polpa escura

para levar à boca,

eis as mãos:

procuram-te desde o chão,


entre os veios do sono

e da memória procuram-te:

à vertigem do ar

abrem as portas:


vai entrar o vento ou o violento

aroma de uma candeia,

e subitamente a ferida

recomeça a sangrar:


é tempo de colher: a noite

iluminou-se bago a bago: vais surgir

para beber de um trago

como um grito contra o muro.

Sou eu, desde a aurora,

eu — a terra — que te procuro.

(in "Obscuro Domínio")


Edição 129 Junho 2017

OS EUNUCOS

José Afonso

Os eunucos devoram-se a si mesmos

Não mudam de uniforme, são venais

E quando os mais são feitos de torresmos

Defendem os tiranos contra os pais


Em tudo são verdugos mais ou menos

Nos jardins dos haréns ou principais

E quando os pais são feitos em torresmos

Não matam os tiranos pedem mais


Suportam toda a dor na calmaria

Da olímpica mansão dos samurais

Havia um dono a mais da satrapia

Mas foi lançado à cova dos chacais


Em vénias malabares, à luz do dia

Lambuzam de saliva os maiorais

E quando os mais são feitos em fatias

Não matam os tiranos, pedem mais

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Edição 128, Maio 2017

O QUE DARWIN DESCOBRIU

Ernesto Cardenal

Manágua - Nicarágua

O futuro infinito chamado Deus

um Deus que é Deus da novidade

a infinita novidade da evolução evolução

contra o status quo

que tanto desejam os banqueiros


“Deus”: imperfeita concepção

como também o é o elétron

sem que o elétron seja ilusão

A explicação do Holocausto:

Que para criar deixou de ser Deus

Criação como kénosis (esvaziamento

de Deus), impotente diante de Pinochet


E um Deus não antropomórfico,

mas com o qual eu posso falar


Muito em comum com o mamífero

e muito em comum com o peixe:

olhos iguais e o mesmo fígado


maior ainda a união no embrião:

quadrúpede e peixe, o mesmo embrião

ainda que nós sem estômago depois


A vida saiu à terra

e começou a andar

peixes resvalantes

apoiando-se em barbatanas

como muletas

do limite aquático

ao ar ilimitado


quando seca uma poça

sobrevive-se

andando até outra poça

e as barbatanas se tornaram patas


O grande mistério da vida

tem todos a mesma origem

e que corpos tão diferentes

procedam de uma só célula

parentes de todas as espécies


das orquídeas às lombrigas

bactéria gradualmente dinossauro,

logo o dinossauro se tornou ave

também nosso ancestral molusco


Há somente um animal

Em um universo quântico não local

onde estamos interconectados

apesar das imensas distâncias


Será a aniquilação

o fim do universo?


A evolução nos une a todos

vivos e mortos

O que Darwin descobriu

(que viemos de uma só célula)

é que estamos entrelaçados

se um ressuscita

todos ressuscitam.

Edição 127, Abril 2017

GIORDANO BRUNO

AOS SEUS VERDUGOS

Dizei-me, qual é o meu crime? Suspeitais, sequer?

E me acusais, sabendo que nunca delinqui!

Queimai-me, porque amanhã, onde acendeis o fogo,

A História levantará uma estátua para mim.

Eu sei que me condena a vossa suma demência,

Por quê? ... Porque busquei da verdade as luzes,

Não em vossa falsa ciência que o pensamento obscurece

Com dogmas e mitos roubados de outra era,

Mas no livro eterno do mundo do universo

que encerra entre suas páginas de imensa duração,

as sementes abençoadas de um futuro frutífero,

baseado na justiça, fundado na razão.

Bem sabeis que o homem, se ele procura em sua consciência,

a causa das causas, o último por que

há de trocar muito em breve, a Bíblia pela ciência,

os templos por escolas, a razão pela fé.

Eu sei que isso vos assusta como vos assusta tudo,

tudo que é grande, e gostaríeis de poder me desmentir.

Além disso, a vossa consciência, está submersa na lama

de um servilismo que faz gemer a lástima ...

Mesmo ali, no fundo, bem sabeis que a ideia,

é intangível, eterna, divina, imaterial ...

Que não é ela o Deus e a religião vossas

Senão o que forma com suas mutações, a história do mundo.

Que é ela que extrai a vida do ossário

que torna o homem de pó em criador,

a que escreveu com sangue a cena do Calvário,

depois de escrever com luz, a do Tabor.

Mas sois sempre os mesmos, os velhos fariseus,

Aqueles que rezam e se prostram aonde podem ser vistos,

fingindo fé, sois falsos ao chamar por Deus, ateus

Chacais que a um cadáver buscais para roer! ...

Qual é a vossa doutrina? Trama de mentiras,

vossa ortodoxia, embuste; vosso patriarca, um rei;

lenda é a vossa história, fantástica e estranha.

Vossa razão, a força; e o ouro, vossa lei.

Tendes todos os vícios dos antigos gentios

Tendes a bacanália, sua pérfida maldade;

como eles sois farsantes, hipócritas e vis.

Quereis, como eles queriam, matar a verdade;

Mas... Vão é o vosso empenho... Se nisto há algum;

sou eu a quem a História, no futuro dirá;

"Eu respeito aqueles que morrem como morreu Bruno"

E quanto aos vossos nomes... Quem os lembrará?


Ah... prefiro mil vezes a minha morte à vossa sorte;

Morrer como eu morro... Não é uma morte. Não!

Morrer assim é a vida; e vosso viver, a morte

Então, quem triunfará não será Roma, serei eu!

Informem o vosso Papa, vosso senhor e mestre,

Digam-lhe que a morte me entregou como um sonho,

porque é a morte um sonho que nos conduz a Deus...

Mas não a este sinistro Deus, com vícios e paixões

que ao homem dá a vida e, ao mesmo tempo, sua maldição,

Senão ao Deus-ideia, que em mil evoluções

dá forma à matéria, e vida à criação.

Não o Deus das batalhas, mas o Deus do pensamento,

o Deus da consciência, o Deus que vive em mim,

O Deus que anima o fogo, a luz, a terra, o vento,

O Deus das bondades, não o Deus da ira sem fim.

Digam-lhe que dez anos, com febre, com delírio,

Com fome, não puderam minha vontade quebrar,

Que negue Pedro ao Mestre Jesus, que a mim ante o martírio

da verdade, sabeis que não me fareis apostatar.

Agora basta! ... Eu vos aguardo! Dai fim à vossa obra,

Covardes! O que vos detém? ... Temeis o futuro?

Ah ... Tremeis... É porque vos falta a fé que a mim me sobra...

Olhai para mim... Eu não tremo... E sou eu quem vai morrer! ...

Edição 125, Fevereiro 2017

O Meu Olhar

Alberto Caeiro

O meu olhar é nítido como um girassol.

Tenho o costume de andar pelas estradas

Olhando para a direita e para a esquerda,

E de, vez em quando olhando para trás...


E o que vejo a cada momento

É aquilo que nunca antes eu tinha visto,

E eu sei dar por isso muito bem...


Sei ter o pasmo essencial

Que tem uma criança se, ao nascer,

Reparasse que nascera deveras...

Sinto-me nascido a cada momento

Para a eterna novidade do Mundo...


Creio no mundo como num malmequer,

Porque o vejo. Mas não penso nele

Porque pensar é não compreender ...


O Mundo não se fez para pensarmos nele

(Pensar é estar doente dos olhos)

Mas para olharmos para ele e estarmos de acordo...


Eu não tenho filosofia: tenho sentidos...

Se falo na Natureza não é porque saiba o que ela é,

Mas porque a amo, e amo-a por isso,

Porque quem ama nunca sabe o que ama

Nem sabe por que ama, nem o que é amar ...

Amar é a eterna inocência,

E a única inocência não pensar...

Ao Entardecer


Ao entardecer, debruçado pela janela,
E sabendo de soslaio que há campos em frente,
Leio até me arderem os olhos
O livro de Cesário Verde.

Que pena que tenho dele! Ele era um camponês
Que andava preso em liberdade pela cidade.
Mas o modo como olhava para as casas,
E o modo como reparava nas ruas,
E a maneira como dava pelas cousas,
É o de quem olha para árvores,
E de quem desce os olhos pela estrada por onde vai andando
E anda a reparar nas flores que há pelos campos ...

Por isso ele tinha aquela grande tristeza
Que ele nunca disse bem que tinha,
Mas andava na cidade como quem anda no campo
E triste como esmagar flores em livros
E pôr plantas em jarros...

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Edição 124, Janeiro 2017

Carlos Drummond de Andrade

1 PASSAGEM DO ANO

O último dia do ano

Não é o último dia do tempo.

Outros dias virão

E novas coxas e ventres te comunicarão o calor da vida.

Beijarás bocas, rasgarás papéis,

Farás viagens e tantas celebrações

De aniversário, formatura, promoção, glória, doce morte com sinfonia

E coral,

Que o tempo ficará repleto e não ouvirás o clamor,

Os irreparáveis uivos

Do lobo, na solidão.

O último dia do tempo

Não é o último dia de tudo.

Fica sempre uma franja de vida

Onde se sentam dois homens.

Um homem e seu contrário,

Uma mulher e seu pé,

Um corpo e sua memória,

Um olho e seu brilho,

Uma voz e seu eco.

E quem sabe até se Deus...

Recebe com simplicidade este presente do acaso.

Mereceste viver mais um ano.

Desejarias viver sempre e esgotar a borra dos séculos.

Teu pai morreu, teu avô também.

Em ti mesmo muita coisa, já se expirou, outras espreitam a morte,

Mas estás vivo. Ainda uma vez estás vivo,

E de copo na mão

Esperas amanhecer.

O recurso de se embriagar.

O recurso da dança e do grito,

O recurso da bola colorida,

O recurso de Kant e da poesia,

Todos eles... e nenhum resolve.

Surge a manhã de um novo ano.

As coisas estão limpas, ordenadas.

O corpo gasto renova-se em espuma.

Todos os sentidos alerta funcionam.

A boca está comendo vida.

A boca está entupida de vida.

A vida escorre da boca,

Lambuza as mãos, a calçada.

A vida é gorda, oleosa, mortal, sub-reptícia.

2 RECEITA DE ANO NOVO

Para você ganhar belíssimo Ano Novo

cor do arco-íris, ou da cor da sua paz,

Ano Novo sem comparação com todo o tempo já vivido

(mal vivido talvez ou sem sentido)

para você ganhar um ano

não apenas pintado de novo, remendado às carreiras,

mas novo nas sementinhas do vir-a-ser;

novo até no coração das coisas menos percebidas

(a começar pelo seu interior)

novo, espontâneo, que de tão perfeito nem se nota,

mas com ele se come, se passeia,

se ama, se compreende, se trabalha,

você não precisa beber champanha ou qualquer outra birita,

não precisa expedir nem receber mensagens

(planta recebe mensagens?

passa telegramas?)

Não precisa

fazer lista de boas intenções

para arquivá-las na gaveta.

Não precisa chorar arrependido

pelas besteiras consumidas

nem parvamente acreditar

que por decreto de esperança

a partir de janeiro as coisas mudem

e seja tudo claridade, recompensa,

justiça entre os homens e as nações,

liberdade com cheiro e gosto de pão matinal,

direitos respeitados, começando

pelo direito augusto de viver.

Para ganhar um Ano Novo

que mereça este nome,

você, meu caro, tem de merecê-lo,

tem de fazê-lo novo, eu sei que não é fácil,

mas tente, experimente, consciente.

É dentro de você que o Ano Novo

cochila e espera desde sempre.

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Edição 123, Dezembro 2016

Tabacaria

Fernando Pessoa

Não sou nada.

Nunca serei nada.

Não posso querer ser nada.

À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.


Janelas do meu quarto,

Do meu quarto de um dos milhões do mundo.

que ninguém sabe quem é

( E se soubessem quem é, o que saberiam?),

Dais para o mistério de uma rua cruzada constantemente por gente,

Para uma rua inacessível a todos os pensamentos,

Real, impossivelmente real, certa, desconhecidamente certa,

Com o mistério das coisas por baixo das pedras e dos seres,

Com a morte a por umidade nas paredes

e cabelos brancos nos homens,

Com o Destino a conduzir a carroça de tudo pela estrada de nada.


Estou hoje vencido, como se soubesse a verdade.

Estou hoje lúcido, como se estivesse para morrer,

E não tivesse mais irmandade com as coisas

Senão uma despedida, tornando-se esta casa e este lado da rua

A fileira de carruagens de um comboio, e uma partida apitada

De dentro da minha cabeça,

E uma sacudidela dos meus nervos e um ranger de ossos na ida.


Estou hoje perplexo, como quem pensou e achou e esqueceu.

Estou hoje dividido entre a lealdade que devo

À Tabacaria do outro lado da rua, como coisa real por fora,

E à sensação de que tudo é sonho, como coisa real por dentro.


Falhei em tudo.

Como não fiz propósito nenhum, talvez tudo fosse nada.

A aprendizagem que me deram,

Desci dela pela janela das traseiras da casa.

(Trecho de Tabacaria, de Fernando Pessoa)

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