1 POEMA de cada vez

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Edição 137 Abril 2018

Bertolt Brecht

Perguntas de um Operário Letrado

Quem construiu Tebas, a das sete portas?

Nos livros vem o nome dos reis,

Mas foram os reis que transportaram as pedras?

Babilónia, tantas vezes destruída,

Quem outras tantas a reconstruiu? Em que casas

Da Lima Dourada moravam seus obreiros?

No dia em que ficou pronta a Muralha da China para onde

Foram os seus pedreiros? A grande Roma

Está cheia de arcos de triunfo. Quem os ergueu? Sobre quem

Triunfaram os Césares? A tão cantada Bizâncio

Só tinha palácios

Para os seus habitantes? Até a legendária Atlântida

Na noite em que o mar a engoliu

Viu afogados gritar por seus escravos.


O jovem Alexandre conquistou as Índias

Sozinho?

César venceu os gauleses.

Nem sequer tinha um cozinheiro ao seu serviço?

Quando a sua armada se afundou Filipe de Espanha

Chorou. E ninguém mais?

Frederico II ganhou a guerra dos sete anos

Quem mais a ganhou?


Em cada página uma vitória.

Quem cozinhava os festins?

Em cada década um grande homem.

Quem pagava as despesas?


Tantas histórias

Quantas perguntas

SONETO DO EPITAPHIO

Bocage

La quando em mim perder a humanidade

Mais um daquelles, que não fazem falta,

Verbi-gratia — o theologo, o peralta,

Algum duque, ou marquez, ou conde, ou frade:


Não quero funeral communidade,

Que engrole "sub-venites" em voz alta;

Pingados gattarrões, gente de malta,

Eu tambem vos dispenso a caridade:


Mas quando ferrugenta enxada edosa

Sepulchro me cavar em ermo outeiro,

Lavre-me este epitaphio mão piedosa:


"Aqui dorme Bocage, o putanheiro;

Passou vida folgada, e milagrosa;

Comeu, bebeu, fodeu sem ter dinheiro".

O Leão e o Porco

Bocage, in 'Fábulas'

O rei dos animais, o rugidor leão,

Com o porco engraçou, não sei por que razão.

Quis empregá-lo bem para tirar-lhe a sorna

(A quem torpe nasceu nenhum enfeite adorna):

Deu-lhe alta dignidade, e rendas competentes,

Poder de despachar os brutos pretendentes,

De reprimir os maus, fazer aos bons justiça,

E assim cuidou vencer-lhe a natural preguiça;

Mas em vão, porque o porco é bom só para assar,

E a sua ocupação dormir, comer, fossar.

Notando-lhe a ignorância, o desmazelo, a incúria,

Soltavam contra ele injúria sobre injúria

Os outros animais, dizendo-lhe com ira:

«Ora o que o berço dá, somente a cova o tira!»

E ele, apenas grunhindo a vilipêndios tais,

Ficava muito enxuto. Atenção nisto, ó pais!

Dos filhos para o génio olhai com madureza;

Não há poder algum que mude a natureza:

Um porco há-de ser porco, inda que o rei dos bichos

O faça cortesão pelos seus vãos caprichos.

Encantamento

Teixeira de Pascoaes, in 'Elegias'

Quantas vezes, ficava a olhar, a olhar

A tua dôce e angelica Figura,

Esquecido, embebido num luar,

Num enlêvo perfeito e graça pura!


E á força de sorrir, de me encantar,

Deante de ti, mimosa Creatura,

Suavemente sentia-me apagar...

E eu era sombra apenas e ternura.


Que inocencia! que aurora! que alegria!

Tua figura de Anjo radiava!

Sob os teus pés a terra florescia,


E até meu proprio espirito cantava!

Nessas horas divinas, quem diria

A sorte que já Deus te destinava!


Edição 136 Março 2018

Queixa das almas jovens censuradas

Natália Correia

Dão-nos um lírio e um canivete

e uma alma para ir à escola

mais um letreiro que promete

raízes, hastes e corola


Dão-nos um mapa imaginário

que tem a forma de uma cidade

mais um relógio e um calendário

onde não vem a nossa idade


Dão-nos a honra de manequim

para dar corda à nossa ausência.

Dão-nos um prémio de ser assim

sem pecado e sem inocência


Dão-nos um barco e um chapéu

para tirarmos o retrato

Dão-nos bilhetes para o céu

levado à cena num teatro


Penteiam-nos os crâneos ermos

com as cabeleiras das avós

para jamais nos parecermos

connosco quando estamos sós


Dão-nos um bolo que é a história

da nossa historia sem enredo

e não nos soa na memória

outra palavra que o medo


Temos fantasmas tão educados

que adormecemos no seu ombro

somos vazios despovoados

de personagens de assombro


Dão-nos a capa do evangelho

e um pacote de tabaco

dão-nos um pente e um espelho

pra pentearmos um macaco


Dão-nos um cravo preso à cabeça

e uma cabeça presa à cintura

para que o corpo não pareça

a forma da alma que o procura


Dão-nos um esquife feito de ferro

com embutidos de diamante

para organizar já o enterro

do nosso corpo mais adiante


Dão-nos um nome e um jornal

um avião e um violino

mas não nos dão o animal

que espeta os cornos no destino


Dão-nos marujos de papelão

com carimbo no passaporte

por isso a nossa dimensão

não é a vida, nem é a morte

AS CRIANÇAS

Nuno Higino

As crianças têm um rio de peixes nos braços:

movem-nos como um cardume profundo, movem a manhã

e ela nasce. As crianças olham as águas e respiram

devagar: enchem de ar a menina dos olhos e expiram

a infância, inundam o mundo com um cardume de manhãs.

As crianças são peixes solares, um areal cego

de manhãs: os braços são feitos de água,

metem o mundo dentro do balde e esvaziam-no

no mar: as crianças têm um rio de peixes

no pensamento, um cardume de pensamentos

a rebentar nos braços.

Elegia do Amor

Teixeira de Pascoaes,

in 'Prosa e Poesia'

Lembras-te, meu amor,

Das tardes outonais,

Em que íamos os dois,

Sozinhos, passear,

Para fora do povo

Alegre e dos casais,

Onde só Deus pudesse

Ouvir-nos conversar?

Tu levavas, na mão,

Um lírio enamorado,

E davas-me o teu braço;

E eu, triste, meditava

Na vida, em Deus, em ti...

E, além, o sol doirado

Morria, conhecendo

A noite que deixava.

Harmonias astrais

Beijavam teus ouvidos;

Um crepúsculo terno

E doce diluía,

Na sombra, o teu perfil

E os montes doloridos...

Erravam, pelo Azul,

Canções do fim do dia.

Canções que, de tão longe,

O vento vagabundo

Trazia, na memória...

Assim o que partiu

Em frágil caravela,

E andou por todo o mundo,

Traz, no seu coração,

A imagem do que viu.


Olhavas para mim,

Às vezes, distraída,

Como quem olha o mar,

À tarde, dos rochedos...

E eu ficava a sonhar,

Qual névoa adormecida,

Quando o vento também

Dorme nos arvoredos.

Olhavas para mim...

Meu corpo rude e bruto

Vibrava, como a onda

A alar-se em nevoeiro.

Olhavas, descuidada

E triste... Ainda hoje escuto

A música ideal

Do teu olhar primeiro!

Ouço bem tua voz,

Vejo melhor teu rosto

No silêncio sem fim,

Na escuridão completa!

Ouço-te em minha dor.

Ouço-te em meu desgosto

E na minha esperança

Eterna de poeta!

O sol morria, ao longe;

E a sombra da tristeza

Velava, com amor,

Nossas doridas frontes.

Hora em que a flor medita

E a pedra chora e reza,

E desmaiam de mágoa

As cristalinas fontes.

Hora santa e perfeita,

Em que íamos, sozinhos,

Felizes, através

Da aldeia muda e calma,


Mãos dadas, a sonhar,

Ao longo dos caminhos...

Tudo, em volta de nós,

Tinha um aspecto de alma.

Tudo era sentimento,

Amor e piedade.

A folha que tombava

Era alma que subia...

E, sob os nossos pés,

A terra era saudade,

A pedra comoção

E o pó melancolia.

Falavas duma estrela

E deste bosque em flor;

Dos ceguinhos sem pão,

Dos pobres sem um manto.

Em cada tua palavra,

Havia etérea dor;

Por isso, a tua voz

Me impressionava tanto!

E punha-me a cismar

Que eras tão boa e pura,

Que, muito em breve — sim!

Te chamaria o céu!

E soluçava, ao ver-te

Alguma sombra escura,

Na fronte, que o luar

Cobria, como um véu.

A tua palidez

Que medo me causava!

Teu corpo era tão fino

E leve (oh meu desgosto!)

Que eu tremia, ao sentir

O vento que passava!

Caía-me, na alma,

A neve do teu rosto.


Como eu ficava mudo

E triste, sobre a terra!

E uma vez, quando a noite

amortalhava a aldeia,

Tu gritaste, de susto,

Olhando para a serra:

— Que incêndio! — E eu, a rir,

Disse-te — É a lua cheia!...

E sorriste também

Do teu engano. A lua

Ergueu a branca fronte,

Acima dos pinhais,

Tão ébria de esplendor,

Tão casta e irmã da tua,

Que eu beijei sem querer,

Seus raios virginais.

E a lua, para nós,

Os braços estendeu.

Uniu-nos num abraço,

Espiritual, profundo,

E levou-nos assim,

Com ela, até ao céu

Mas, ai, tu não voltaste

E eu regressei ao mundo.

XX O Tejo é mais belo rio que corre pela minha aldeia

O Tejo é mais belo que o rio que corre pela minha aldeia,

Mas o Tejo não é mais belo que o rio que corre pela minha aldeia Porque o Tejo não é o rio que corre pela minha aldeia.


O Tejo tem grandes navios

E navega nele ainda,

Para aqueles que veem em tudo o que lá não está,

A memória das naus.


O Tejo desce de Espanha

E o Tejo entra no mar em Portugal.

Toda a gente sabe isso.

Mas poucos sabem qual é o rio da minha aldeia

E para onde ele vai

E donde ele vem.

E por isso, porque pertence a menos gente,

É mais livre e maior o rio da minha aldeia.


Pelo Tejo vai-se para o mundo.

Para além do Tejo há a América

E a fortuna daqueles que a encontram.

Ninguém nunca pensou no que há para além

Do rio da minha aldeia.


O rio da minha aldeia não faz pensar em nada.

Quem está ao pé dele está só ao pé dele.

Edição 135 Fev.º 2018

X Olá, guardador de rebanhos

Alberto Caeiro

X Olá, guardador de rebanhos,

Aí à beira da estrada,

Que te diz o vento que passa?


Que é vento, e que passa,

E que já passou antes,

E que passará depois.

E a ti o que te diz?


Muita cousa mais do que isso.

Fala-me de muitas outras cousas.

De memórias e de saudades

E de cousas que nunca foram.


Nunca ouviste passar o vento.

O vento só fala do vento.

O que lhe ouviste foi mentira,

E a mentira está em ti.

Alberto Caeiro

IX - Sou um guardador de rebanhos

Sou um guardador de rebanhos.

O rebanho é os meus pensamentos

E os meus pensamentos são todos sensações.

Penso com os olhos e com os ouvidos

E com as mãos e os pés

E com o nariz e a boca.

Pensar uma flor é vê-la e cheirá-la

E comer um fruto é saber-lhe o sentido.

Por isso quando num dia de calor

Me sinto triste de gozá-lo tanto,

E me deito ao comprido na erva,

E fecho os olhos quentes,

Sinto todo o meu corpo deitado na realidade,

Sei a verdade e sou feliz.

Alberto Caeiro

VIII – NUM MEIO-DIA

DE FIM DE PRIMAVERA

Num meio-dia de fim de Primavera

Tive um sonho como uma fotografia.

Vi Jesus Cristo descer à terra.

Veio pela encosta de um monte

Tornado outra vez menino,

A correr e a rolar-se pela erva

E a arrancar flores para as deitar fora

E a rir de modo a ouvir-se de longe.

Tinha fugido do céu.

Era nosso demais para fingir

De segunda pessoa da Trindade.

No céu era tudo falso, tudo em desacordo

Com flores e árvores e pedras.

No céu tinha que estar sempre sério

E de vez em quando de se tornar outra vez homem

E subir para a cruz, e estar sempre a morrer

Com uma coroa toda à roda de espinhos

E os pés espetados por um prego com cabeça,

E até com um trapo à roda da cintura

Como os pretos nas ilustrações.

Nem sequer o deixavam ter pai e mãe

Como as outras crianças.

O seu pai era duas pessoas —

Um velho chamado José, que era carpinteiro,

E que não era pai dele;

E o outro pai era uma pomba estúpida,

A única pomba feia do mundo

Porque não era do mundo nem era pomba.

E a sua mãe não tinha amado antes de o ter.

Não era mulher: era uma mala

Em que ele tinha vindo do céu.

E queriam que ele, que só nascera da mãe,

E nunca tivera pai para amar com respeito,

Pregasse a bondade e a justiça!

Um dia que Deus estava a dormir

E o Espírito Santo andava a voar,

Ele foi à caixa dos milagres e roubou três.

Com o primeiro fez que ninguém soubesse que ele tinha fugido.

Com o segundo criou-se eternamente humano e menino.

Com o terceiro criou um Cristo eternamente na cruz

E deixou-o pregado na cruz que há no céu

E serve de modelo às outras.

Depois fugiu para o Sol

E desceu pelo primeiro raio que apanhou.

Hoje vive na minha aldeia comigo.

É uma criança bonita de riso e natural.

Limpa o nariz ao braço direito,

Chapinha nas poças de água,

Colhe as flores e gosta delas e esquece-as.

Atira pedras aos burros,

Rouba a fruta dos pomares

E foge a chorar e a gritar dos cães.

E, porque sabe que elas não gostam

E que toda a gente acha graça,

Corre atrás das raparigas

Que vão em ranchos pelas estradas

Com as bilhas às cabeças

E levanta-lhes as saias.

A mim ensinou-me tudo.

Ensinou-me a olhar para as coisas.

Aponta-me todas as coisas que há nas flores.

Mostra-me como as pedras são engraçadas

Quando a gente as tem na mão

E olha devagar para elas.

Diz-me muito mal de Deus.

Diz que ele é um velho estúpido e doente,

Sempre a escarrar no chão

E a dizer indecências.

A Virgem Maria leva as tardes da eternidade a fazer meia.

E o Espírito Santo coça-se com o bico

E empoleira-se nas cadeiras e suja-as.

Tudo no céu é estúpido como a Igreja Católica.

Diz-me que Deus não percebe nada

Das coisas que criou —

«Se é que ele as criou, do que duvido.» —

«Ele diz, por exemplo, que os seres cantam a sua glória,

Mas os seres não cantam nada.

Se cantassem seriam cantores.

Os seres existem e mais nada,

E por isso se chamam seres.»

E depois, cansado de dizer mal de Deus,

O Menino Jesus adormece nos meus braços

E eu levo-o ao colo para casa.

……

Ele mora comigo na minha casa a meio do outeiro.

Ele é a Eterna Criança, o deus que faltava.

Ele é o humano que é natural,

Ele é o divino que sorri e que brinca.

E por isso é que eu sei com toda a certeza

Que ele é o Menino Jesus verdadeiro.

E a criança tão humana que é divina

É esta minha quotidiana vida de poeta,

E é porque ele anda sempre comigo que eu sou poeta sempre.

E que o meu mínimo olhar

Me enche de sensação,

E o mais pequeno som, seja do que for,

Parece falar comigo.

A Criança Nova que habita onde vivo

Dá-me uma mão a mim

E a outra a tudo que existe

E assim vamos os três pelo caminho que houver,

Saltando e cantando e rindo

E gozando o nosso segredo comum

Que é o de saber por toda a parte

Que não há mistério no mundo

E que tudo vale a pena.

A Criança Eterna acompanha-me sempre.

A direcção do meu olhar é o seu dedo apontando.

O meu ouvido atento alegremente a todos os sons

São as cócegas que ele me faz, brincando, nas orelhas.

Damo-nos tão bem um com o outro

Na companhia de tudo

Que nunca pensamos um no outro,

Mas vivemos juntos e dois

Com um acordo íntimo

Como a mão direita e a esquerda.

Ao anoitecer brincamos as cinco pedrinhas

No degrau da porta de casa,

Graves como convém a um deus e a um poeta,

E como se cada pedra

Fosse todo um universo

E fosse por isso um grande perigo para ela

Deixá-la cair no chão.

Depois eu conto-lhe histórias das coisas só dos homens

E ele sorri, porque tudo é incrível.

Ri dos reis e dos que não são reis,

E tem pena de ouvir falar das guerras,

E dos comércios, e dos navios

Que ficam fumo no ar dos altos mares.

Porque ele sabe que tudo isso falta àquela verdade

Que uma flor tem ao florescer

E que anda com a luz do Sol

A variar os montes e os vales

E a fazer doer aos olhos os muros caiados.

Depois ele adormece e eu deito-o.

Levo-o ao colo para dentro de casa

E deito-o, despindo-o lentamente

E como seguindo um ritual muito limpo

E todo materno até ele estar nu.

Ele dorme dentro da minha alma

E às vezes acorda de noite

E brinca com os meus sonhos.

Vira uns de pernas para o ar,

Põe uns em cima dos outros

E bate as palmas sozinho

Sorrindo para o meu sono.

……

Quando eu morrer, filhinho,

Seja eu a criança, o mais pequeno.

Pega-me tu ao colo

E leva-me para dentro da tua casa.

Despe o meu ser cansado e humano

E deita-me na tua cama.

E conta-me histórias, caso eu acorde,

Para eu tornar a adormecer.

E dá-me sonhos teus para eu brincar

Até que nasça qualquer dia

Que tu sabes qual é.

Esta é a história do meu Menino Jesus.

Por que razão que se perceba

Não há-de ser ela mais verdadeira

Que tudo quanto os filósofos pensam

E tudo quanto as religiões ensinam?

VII - Da Minha Aldeia

O GUARDADOR DE REBANHOS

Alberto Caeiro /Fernando Pessoa

Da minha aldeia veio quanto da terra se pode ver no Universo...

Por isso a minha aldeia é tão grande como outra terra qualquer

Porque eu sou do tamanho do que vejo

E não, do tamanho da minha altura...

Nas cidades a vida é mais pequena

Que aqui na minha casa no cimo deste outeiro.

Na cidade as grandes casas fecham a vista à chave,

Escondem o horizonte, empurram o nosso olhar para longe

de todo o céu,

Tornam-nos pequenos porque nos tiram o que os nossos olhos

nos podem dar,

E tornam-nos pobres porque a nossa única riqueza é ver.

Edição 134 Janº 2018

O GUARDADOR DE REBANHOS

Alberto Caeiro / Fernando Pessoa

VI Pensar em Deus é desobedecer a Deus

Pensar em Deus é desobedecer a Deus,

Porque Deus quis que o não conhecêssemos,

Por isso se nos não mostrou...


Sejamos simples e calmos,

Como os regatos e as árvores,

E Deus amar-nos-á fazendo de nós

Belos como as árvores e os regatos,

E dar-nos-á verdor na sua primavera,

E um rio aonde ir ter quando acabemos!...

O GUARDADOR DE REBANHOS

Alberto Caeiro / Fernando Pessoa

V - Há Metafísica Bastante em Não Pensar em Nada

Há metafísica bastante em não pensar em nada.

O que penso eu do mundo?

Sei lá o que penso do mundo!

Se eu adoecesse pensaria nisso.

Que ideia tenho eu das cousas?

Que opinião tenho sobre as causas e os efeitos?

Que tenho eu meditado sobre Deus e a alma

E sobre a criação do Mundo?

Não sei. Para mim pensar nisso é fechar os olhos

E não pensar. É correr as cortinas

Da minha janela (mas ela não tem cortinas).

O mistério das cousas? Sei lá o que é mistério!

O único mistério é haver quem pense no mistério.

Quem está ao sol e fecha os olhos,

Começa a não saber o que é o sol

E a pensar muitas cousas cheias de calor.
Mas abre os olhos e vê o sol,

E já não pode pensar em nada,

Porque a luz do sol vale mais que os pensamentos

De todos os filósofos e de todos os poetas.

A luz do sol não sabe o que faz

E por isso não erra e é comum e boa.

Metafísica? Que metafísica têm aquelas árvores?

A de serem verdes e copadas e de terem ramos

E a de dar fruto na sua hora, o que não nos faz pensar,

A nós, que não sabemos dar por elas.

Mas que melhor metafísica que a delas,

Que é a de não saber para que vivem

Nem saber que o não sabem?

"Constituição íntima das cousas"...

"Sentido íntimo do Universo"...

Tudo isto é falso, tudo isto não quer dizer nada.

É incrível que se possa pensar em cousas dessas.

É como pensar em razões e fins

Quando o começo da manhã está raiando, e pelos lados das árvores

Um vago ouro lustroso vai perdendo a escuridão.

Pensar no sentido íntimo das cousas

É acrescentado, como pensar na saúde

Ou levar um copo à água das fontes.

O único sentido íntimo das cousas

É elas não terem sentido íntimo nenhum.

Não acredito em Deus porque nunca o vi.

Se ele quisesse que eu acreditasse nele,

Sem dúvida que viria falar comigo

E entraria pela minha porta dentro

Dizendo-me, Aqui estou!

(Isto é talvez ridículo aos ouvidos

De quem, por não saber o que é olhar para as cousas,

Não compreende quem fala delas

Com o modo de falar que reparar para elas ensina.)

Mas se Deus é as flores e as árvores

E os montes e sol e o luar,

Então acredito nele,

Então acredito nele a toda a hora,

E a minha vida é toda uma oração e uma missa,

E uma comunhão com os olhos e pelos ouvidos.

Mas se Deus é as árvores e as flores

E os montes e o luar e o sol,

Para que lhe chamo eu Deus?

Chamo-lhe flores e árvores e montes e sol e luar;

Porque, se ele se fez, para eu o ver,

Sol e luar e flores e árvores e montes,

Se ele me aparece como sendo árvores e montes
E luar e sol e flores,

É que ele quer que eu o conheça

Como árvores e montes e flores e luar e sol.

E por isso eu obedeço-lhe,

(Que mais sei eu de Deus que Deus de si próprio?).

Obedeço-lhe a viver, espontaneamente,

Como quem abre os olhos e vê,

E chamo-lhe luar e sol e flores e árvores e montes,

E amo-o sem pensar nele,

E penso-o vendo e ouvindo,

E ando com ele a toda a hora.

IV - Esta Tarde a Trovoada Caiu

Esta tarde a trovoada caiu

Pelas encostas do céu abaixo

Como um pedregulho enorme...

Como alguém que duma janela alta

Sacode uma toalha de mesa,

E as migalhas, por caírem todas juntas,

Fazem algum barulho ao cair,

A chuva chovia do céu

E enegreceu os caminhos ...

Quando os relâmpagos sacudiam o ar

E abanavam o espaço

Como uma grande cabeça que diz que não,

Não sei porquê — eu não tinha medo —

pus-me a rezar a Santa Bárbara

Como se eu fosse a velha tia de alguém...

Ah! é que rezando a Santa Bárbara

Eu sentia-me ainda mais simples

Do que julgo que sou...

Sentia-me familiar e caseiro

E tendo passado a vida
Tranquilamente, como o muro do quintal;

Tendo ideias e sentimentos por os ter

Como uma flor tem perfume e cor...

Sentia-me alguém que possa acreditar em Santa Bárbara...

Ah, poder crer em Santa Bárbara!

(Quem crê que há Santa Bárbara,

Julgará que ela é gente e visível

Ou que julgará dela?)

(Que artifício! Que sabem

As flores, as árvores, os rebanhos,

De Santa Bárbara?... Um ramo de árvore,

Se pensasse, nunca podia

Construir santos nem anjos...

Poderia julgar que o sol

É Deus, e que a trovoada

É uma quantidade de gente

Zangada por cima de nós ...

Ali, como os mais simples dos homens

São doentes e confusos e estúpidos

Ao pé da clara simplicidade

E saúde em existir

Das árvores e das plantas!)

E eu, pensando em tudo isto,

Fiquei outra vez menos feliz...

Fiquei sombrio e adoecido e soturno

Como um dia em que todo o dia a trovoada ameaça

E nem sequer de noite chega.

*** *** ***

Edição 133 Dezº 2017

O GUARDADOR DE REBANHOS

Alberto Caeiro / Fernando Pessoa

III - Ao Entardecer

Ao entardecer, debruçado pela janela,

E sabendo de soslaio que há campos em frente,

Leio até me arderem os olhos

O livro de Cesário Verde.

Que pena que tenho dele! Ele era um camponês

Que andava preso em liberdade pela cidade.

Mas o modo como olhava para as casas,

E o modo como reparava nas ruas,

E a maneira como dava pelas cousas,

É o de quem olha para árvores,

E de quem desce os olhos pela estrada por onde vai andando

E anda a reparar nas flores que há pelos campos ...

Por isso ele tinha aquela grande tristeza

Que ele nunca disse bem que tinha,

Mas andava na cidade como quem anda no campo

E triste como esmagar flores em livros

E pôr plantas em jarros...

O GUARDADOR DE REBANHOS

Alberto Caeiro / Fernando Pessoa

II - O Meu Olhar

O meu olhar é nítido como um girassol.

Tenho o costume de andar pelas estradas

Olhando para a direita e para a esquerda,

E de, vez em quando olhando para trás...

E o que vejo a cada momento

É aquilo que nunca antes eu tinha visto,

E eu sei dar por isso muito bem...

Sei ter o pasmo essencial

Que tem uma criança se, ao nascer,

Reparasse que nascera deveras...

Sinto-me nascido a cada momento

Para a eterna novidade do Mundo...

Creio no mundo como num malmequer,

Porque o vejo.Mas não penso nele

Porque pensar é não compreender ...

O Mundo não se fez para pensarmos nele

(Pensar é estar doente dos olhos)

Mas para olharmos para ele e estarmos de acordo...

Eu não tenho filosofia: tenho sentidos...

Se falo na Natureza não é porque saiba o que ela é,
Mas porque a amo, e amo-a por isso,

Porque quem ama nunca sabe o que ama

Nem sabe por que ama, nem o que é amar ...

Amar é a eterna inocência,

E a única inocência não pensar...

III - Ao Entardecer

Ao entardecer, debruçado pela janela,

E sabendo de soslaio que há campos em frente,

Leio até me arderem os olhos

O livro de Cesário Verde.

Que pena que tenho dele! Ele era um camponês

Que andava preso em liberdade pela cidade.

Mas o modo como olhava para as casas,

E o modo como reparava nas ruas,

E a maneira como dava pelas cousas,

É o de quem olha para árvores,

E de quem desce os olhos pela estrada por onde vai andando

E anda a reparar nas flores que há pelos campos ...

Por isso ele tinha aquela grande tristeza

Que ele nunca disse bem que tinha,

Mas andava na cidade como quem anda no campo

E triste como esmagar flores em livros

E pôr plantas em jarros...

O GUARDADOR DE REBANHOS

Alberto Caeiro / Fernando Pessoa

I

Eu nunca guardei rebanhos,

Mas é como se os guardasse.

Minha alma é como um pastor,

Conhece o vento e o sol

E anda pela mão das Estações

A seguir e a olhar.

Toda a paz da Natureza sem gente

Vem sentar-se a meu lado.

Mas eu fico triste como um pôr de sol

Para a nossa imaginação,

Quando esfria no fundo da planície

E se sente a noite entrada

Como uma borboleta pela janela.

Mas a minha tristeza é sossego
Porque é natural e justa

E é o que deve estar na alma

Quando já pensa que existe

E as mãos colhem flores sem ela dar por isso.

Como um ruído de chocalhos

Para além da curva da estrada,

Os meus pensamentos são contentes.

Só tenho pena de saber que eles são contentes,

Porque, se o não soubesse,

Em vez de serem contentes e tristes,

Seriam alegres e contentes.

Pensar incomoda como andar à chuva

Quando o vento cresce e parece que chove mais.

Não tenho ambições nem desejos

Ser poeta não é uma ambição minha

É a minha maneira de estar sozinho.

E se desejo às vezes
Por imaginar, ser cordeirinho

(Ou ser o rebanho todo

Para andar espalhado por toda a encosta

A ser muita coisa feliz ao mesmo tempo),

É só porque sinto o que escrevo ao pôr do sol,

Ou quando uma nuvem passa a mão por cima da luz

E corre um silêncio pela erva fora.

Quando me sento a escrever versos

Ou, passeando pelos caminhos ou pelos atalhos,

Escrevo versos num papel que está no meu pensamento,

Sinto um cajado nas mãos

E vejo um recorte de mim

No cimo dum outeiro,

Olhando para o meu rebanho e vendo as minhas ideias,

Ou olhando para as minhas ideias e vendo o meu rebanho,

E sorrindo vagamente como quem não compreende o que se diz

E quer fingir que compreende.
Saúdo todos os que me lerem,

Tirando-lhes o chapéu largo

Quando me veem à minha porta

Mal a diligência levanta no cimo do outeiro.

Saúdo-os e desejo-lhes sol,

E chuva, quando a chuva é precisa,

E que as suas casas tenham

Ao pé duma janela aberta

Uma cadeira predileta

Onde se sentem, lendo os meus versos.

E ao lerem os meus versos pensem

Que sou qualquer coisa natural —

Por exemplo, a árvore antiga

À sombra da qual quando crianças

Se sentavam com um baque, cansados de brincar,

E limpavam o suor da testa quente

Com a manga do bibe riscado.

SOBRE A CONSTRUÇÃO

DE OBRAS DURADOURAS

Bertolt Brecht

Quanto tempo

Duram as obras? Tanto

Quanto o preciso pra ficarem prontas.

Pois enquanto dão que fazer

Não ruem.


Convidando ao esforço

Compensando a participação

A sua essência é duradoura enquanto

Convidam e compensam.


As úteis

Pedem homens

As artísticas

Têm lugar pra a arte

As sábias

Pedem sabedoria

As destinadas à perfeição

Mostram lacunas

As que duram muito

Estão sempre pra cair

As planeadas verdadeiramente em grande

Estão por acabar.


Incompletas ainda

Como o muro à espera da hera

(Esse esteve um dia inacabado

Há muito tempo, antes de vir a hera, nu!)

Insustentável ainda

Como a máquina que se usa

Embora já não chegue

Mas promete outra melhor.

Assim terá de construir-se

A obra pra durar como

A máquina cheia de defeitos.

Edição 132 Nov.º 2017

LOUVOR DO APRENDER

Bertolt Brecht

Aprende o mais simples! Pra aqueles

Cujo tempo chegou

Nunca é tarde de mais!

Aprende o abc, não chega, mas

Aprende-o! E não te enfades!

Começa! Tens de saber tudo!

Tens de tomar a chefia!


Aprende, homem do asilo!

Aprende, homem na prisão!

Aprende, mulher na cozinha!

Aprende, sexagenária!

Tens de tomar a chefia!


Frequenta a escola, homem sem casa!

Arranja saber, homem com frio!

Faminto, pega no livro: é uma arma.

Tens de tomar a chefia.


Não te acanhes de perguntar, companheiro!

Não deixes que te metam patranhas na cabeça:

Vê com os teus próprios olhos!

O que tu mesmo não sabes

Não o sabes.

Verifica a conta:

És tu que a pagas.

Põe o dedo em cada parcela,

Pergunta: Como aparece isto aqui?

Tens de tomar a chefia.

QUANDO COMECEI A AMAR-ME

Charlie Chaplin

Quando comecei a amar-me,

eu entendi que em qualquer momento da vida,

estou sempre no lugar certo na hora certa.

Compreendi que tudo o que acontece está correto.

Desde então, eu fiquei mais calmo.

Hoje eu sei que isso se chama CONFIANÇA.


Quando eu comecei a me amar,

entendi o quanto pode ofender alguém

quando eu tento impôr minha vontade sobre esta pessoa,

mesmo sabendo que não é o momento certo e a pessoa não

está preparada para isso,

e que, muitas vezes, essa pessoa era eu mesmo.

Hoje, sei que isto significa DESAPEGO.

Quando comecei a amar-me

eu pude compreender que dor emocional e tristeza

são apenas avisos para que eu não viva contra minha própria verdade.

Hoje, sei que a isso se dá o nome de AUTENTICIDADE.


Quando comecei a amar-me,

eu parei de ansiar por outra vida

e percebi que tudo ao meu redor é um convite ao crescimento.

Hoje eu sei que isso se chama MATURIDADE.


Quando comecei a amar-me,

parei de privar-me do meu tempo livre

e parei de traçar magníficos projetos para o futuro.

Hoje faço apenas o que é diversão e alegria para mim,

o que eu amo e o que deixa meu coração contente,

do meu jeito e no meu tempo.

Hoje eu sei que isso se chama HONESTIDADE.


Quando comecei a amar-me,

tratei de fugir de tudo o que não é saudável para mim,

de alimentos, coisas, pessoas, situações

e de tudo que me puxava para baixo e para longe de mim mesmo.

No início, pensava ser "egoísmo saudável",

mas hoje eu sei que trata-se de de AMOR PRÓPRIO.


Quando comecei a amar-me

parei de querer ter sempre razão.

Dessa forma, cometi menos enganos.

Hoje, eu reconheço que isso se chama HUMILDADE.


Quando comecei a amar-me,

recusei-me a viver no passado

e preocupar-me com meu futuro.

Agora eu vivo somente este momento onde tudo acontece.

Assim que eu vivo todos os dias e isto se chama CONSCIÊNCIA.


Quando comecei a amar-me,

reconheci que meus pensamentos

podem me fazer infeliz e doente.

Quando eu precisei da minha força interior,

minha mente encontrou um importante parceiro.

Hoje eu chamo esta conexão de SABEDORIA DO CORAÇÃO.


Não preciso mais temer discussões,

conflitos e problemas comigo mesmo e com os outros,

pois até as estrelas às vezes chocam-se umas contra as outras

e criam novos mundos.

Hoje eu sei que isso é a VIDA!

Edição 131 Out.º 2017

Do que um homem é capaz

José Mário Branco

Do que um homem é capaz

As coisas que ele faz

P'ra chegar aonde quer

É capaz de dar a vida

P´ra levar de vencida

Uma razão de viver

A vida é como uma estrada

Que vai sendo traçada

Sem nunca arrepiar caminho

E quem pensa estar parado

Vai no sentido errado

A caminhar sozinho


Vejo a gente cuja a vida

Vai sendo consumida

Por miragens de poder

Agarrados alguns ossos

No meio dos destroços

Do que nunca vão fazer


Vão poluindo o percurso

Co'as sobras do discurso

Que lhes serviu pr'abrir caminho

À custa das nossas utopias

Usurpam regalias

P´ra consumir sozinho


Com políticas concretas

Ímpões essas metas

Que nos entram casa dentro

Como a Trilateral

Co'a treta liberal

E as virtudes do centro

No lugar da consciência

A lei da concorrência

Pisando tudo p´lo caminho

P´ra castrar a juventude

Mascaram de virtude

O querer vencer sozinho

Ficam cínicos, brutais

Descendo cada vez mais

P´ra subir cada vez menos

Quanto mais o mal se expande

Mais acham que ser grande

É lixar os mais pequenos

Quem escolhe ser assim

Quando chegar ao fim

Vai ver que errou o seu caminho

Quando a vida é hipotecada

No fim não sobra nada

E acaba sozinho

Mesmo sendo poderosos

Tão fracos e gulosos

Que precisam do poder

Mesmo havendo tanta gente

P´ra quem é indiferente

Passar a vida a morrer

Há princípios e valores

Há sonhos e há amores

Que sempre irão abrir caminho

E quem viver abraçado

À vida que há ao lado

Não vai morrer sozinho

E que morrer abraçado

À vida que há ao lado

Não vai viver sozinho

(Do album Resistir é Vencer)

NADA OS SALVARÁ

José Mário Branco

Eles têm as suas leis, códigos decretos

editais e portarias

Eles têm as prisões e as fortalezas

sem contar as tutorias


Têm carcereiros e juízes

que são pagos com bom dinheiro

e estão prontos a tudo


Mas de que lhes servirão

tantas instituições?


Um minuto antes do fim

verão que já estão perdidos

que nada os salvará!


Eles têm folhetins,televisão e rádio

os jornais e as revistas

Eles têm os diplomas e o papel selado

sem contar os estadistas


Os padres e os senhores doutores

que são pagos com bom dinheiro

e estão prontos a tudo


Mas de que lhes servirão

tantas mentiras?


Um minuto antes do fim

verão que já estão perdidos

que nada os salvará!


Eles têm os canhões e as metralhadoras

as chaimites e as granadas

Eles têm capacetes e espingardas

sem contar as bastonadas


Têm os polícias e os guardas

que pagam com pouco dinheiro

mas estão prontos a tudo


Mas de que lhes servirá

tamanho arsenal?


Um minuto antes do fim

verão que já estão perdidos

que nada os salvará!

NÃO TENHO PRESSA

Alberto Caeiro

Não tenho pressa. Pressa de quê?

Não têm pressa o sol e a lua: estão certos.

Ter pressa é crer que a gente passa adiante das pernas,

Ou que, dando um pulo, salta por cima da sombra.

Não; não sei ter pressa.

Se estendo o braço, chego exactamente aonde o meu braço chega -

Nem um centímetro mais longe.

Toco só onde toco, não aonde penso.

Só me posso sentar aonde estou.

E isto faz rir como todas as verdades absolutamente verdadeiras,

Mas o que faz rir a valer é que nós pensamos sempre noutra coisa,

E vivemos vadios da nossa realidade.

E estamos sempre fora dela porque estamos aqui.

(in "Poemas Inconjuntos")

Edição 130 Setembro 2017

O CÂNTICO DOS CANTOS

DE ERNESTO CARDENAL

Amada, teu ventre tem cheiro de terra recém aberta e a terra recém molhada. / A sulco recém molhado por meu amado. / Toda matéria está construída com duas partículas: / prótons e elétrons; / os prótons são positivos e os elétrons negativos, / macho e fêmea. / Um nascimento não é por acidente / mas por união. / E prótons e elétrons no gás estelar estão sexuados. / Daí a evolução do universo. / Uma atração irresistível / entre partícula subatômica positiva e negativa. / Daí os átomos, as estrelas, nós. / Esta é a coesão do universo. / Amor essencial! Essencial / que estás no coração do universo! / Atração que gerou todas as coisas. / O universo inteiro é uma boda. / Pedaço de matéria estelar, / um átomo teu é como um sistema solar, e teu corpo / como um sistema de galáxias com milhões de sóis. / A atração. A atração. / Os elétrons giram dentro dos átomos, / os satélites giram arredor dos planetas, / os planetas arredor da galáxia arredor / de um centro de gravidade comum. / A gravidade que move o sol e todas as estrelas.

N.E. Poema Cântico dos cantos, extraído da obra Cántico cósmico (Trotta, 1993), do escritor, sacerdote e teólogo nicaragüense Ernesto Cardenal. (Tradução do poeta e tradutor Antonio Miranda)

Eugénio de Andrade

DESDE A AURORA

Desde a Aurora

Como um sol de polpa escura

para levar à boca,

eis as mãos:

procuram-te desde o chão,


entre os veios do sono

e da memória procuram-te:

à vertigem do ar

abrem as portas:


vai entrar o vento ou o violento

aroma de uma candeia,

e subitamente a ferida

recomeça a sangrar:


é tempo de colher: a noite

iluminou-se bago a bago: vais surgir

para beber de um trago

como um grito contra o muro.

Sou eu, desde a aurora,

eu — a terra — que te procuro.

(in "Obscuro Domínio")


Edição 129 Junho 2017

OS EUNUCOS

José Afonso

Os eunucos devoram-se a si mesmos

Não mudam de uniforme, são venais

E quando os mais são feitos de torresmos

Defendem os tiranos contra os pais


Em tudo são verdugos mais ou menos

Nos jardins dos haréns ou principais

E quando os pais são feitos em torresmos

Não matam os tiranos pedem mais


Suportam toda a dor na calmaria

Da olímpica mansão dos samurais

Havia um dono a mais da satrapia

Mas foi lançado à cova dos chacais


Em vénias malabares, à luz do dia

Lambuzam de saliva os maiorais

E quando os mais são feitos em fatias

Não matam os tiranos, pedem mais

*** *** ***

Edição 128, Maio 2017

O QUE DARWIN DESCOBRIU

Ernesto Cardenal

Manágua - Nicarágua

O futuro infinito chamado Deus

um Deus que é Deus da novidade

a infinita novidade da evolução evolução

contra o status quo

que tanto desejam os banqueiros


“Deus”: imperfeita concepção

como também o é o elétron

sem que o elétron seja ilusão

A explicação do Holocausto:

Que para criar deixou de ser Deus

Criação como kénosis (esvaziamento

de Deus), impotente diante de Pinochet


E um Deus não antropomórfico,

mas com o qual eu posso falar


Muito em comum com o mamífero

e muito em comum com o peixe:

olhos iguais e o mesmo fígado


maior ainda a união no embrião:

quadrúpede e peixe, o mesmo embrião

ainda que nós sem estômago depois


A vida saiu à terra

e começou a andar

peixes resvalantes

apoiando-se em barbatanas

como muletas

do limite aquático

ao ar ilimitado


quando seca uma poça

sobrevive-se

andando até outra poça

e as barbatanas se tornaram patas


O grande mistério da vida

tem todos a mesma origem

e que corpos tão diferentes

procedam de uma só célula

parentes de todas as espécies


das orquídeas às lombrigas

bactéria gradualmente dinossauro,

logo o dinossauro se tornou ave

também nosso ancestral molusco


Há somente um animal

Em um universo quântico não local

onde estamos interconectados

apesar das imensas distâncias


Será a aniquilação

o fim do universo?


A evolução nos une a todos

vivos e mortos

O que Darwin descobriu

(que viemos de uma só célula)

é que estamos entrelaçados

se um ressuscita

todos ressuscitam.